Uma palavra no seu caminho

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Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.

Luís M. Figueiredo Rodrigues


    • Mar 22, 2026 LATEST EPISODE
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    V Domingo da Quaresma - Homilia

    Play Episode Listen Later Mar 22, 2026 8:50


    O Evangelho que acabámos de escutar é um dos mais marcantes de todo o ano litúrgico e, de modo muito particular, do tempo da Quaresma. Não por acaso, o nosso povo diz tantas vezes, quando a Quaresma já vai adiantada, que “já vamos no domingo de Lázaro”. Estamos a aproximar-nos do fim deste caminho e este Evangelho ajuda-nos a perceber, com grande profundidade, quem é Jesus Cristo para cada um de nós: Ele apresenta-Se como sinal de vida.Jesus vem cumprir aquilo que já tinha sido anunciado no Antigo Testamento. Na primeira leitura, o profeta Ezequiel fala a um povo perseguido, sofrido, exilado. E, no meio dessa dor, Deus diz: “Abrirei os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel.” Isto significa que Deus quer arrancar o seu povo da morte e reconduzi-lo à terra da salvação. A vida que o Senhor nos quer dar não é apenas uma vida biológica. É uma vida nova, uma vida de liberdade, uma vida salva.É neste horizonte que entendemos melhor a ressurreição de Lázaro. Jesus, ao ouvir que o amigo está doente, parece não ter pressa. E isso causa estranheza. Mas Jesus tem o seu tempo, e o tempo de Deus não é o nosso. O ideal seria que o nosso tempo aprendesse a ajustar-se ao tempo de Deus.Quando Jesus chega a Betânia, Lázaro já morreu. Primeiro Marta, depois Maria, vão ao seu encontro. E, diante da morte do amigo, Jesus não se perde em explicações. Jesus chora. E isto é de uma beleza imensa. Deus não está acima da nossa história, como alguém distante e exterior ao nosso sofrimento. Deus entra na nossa história com compaixão verdadeira. Deus chora connosco. Deus é solidário connosco.Depois, diante da afirmação de Marta — “eu sei que ele ressuscitará no último dia” — Jesus responde: “Eu sou a ressurreição e a vida.” Marta fala no futuro; Jesus fala no presente. E aqui está um ponto decisivo: a ressurreição que Cristo nos oferece não é apenas algo que acontecerá um dia. É uma vida nova que já começou. A vida eterna não começa apenas depois da morte; já começou.Por isso, esta Palavra convida-nos a olhar para a nossa vida e a perguntar: que lugares de morte existem em mim? Que situações de morte trago no coração? Muitas vezes são feridas, dores, situações que preferimos encerrar, como quem diz: “vamos pôr uma pedra por cima”. Mas, diante do túmulo de Lázaro, Jesus manda tirar a pedra. Não porque não pudesse fazê-lo, mas porque quer dizer-nos que também nós temos de querer remover as pedras que nos fecham por dentro. Temos de abrir os nossos túmulos e deixar vir à luz aquilo que nos aprisiona, para que o Senhor nos possa dizer: “Sai para fora.”Este é o grande desafio desta semana: que túmulos trago fechados em mim? Que pedra preciso de deslocar, para que Cristo faça em mim a sua obra de ressurreição? À medida que Lhe apresentamos as nossas mortes, Ele vai-nos curando, libertando e dando vida.Também nós acreditamos em Jesus Cristo porque fazemos a experiência de que Ele nos dá vida, e vida em abundância. A fé não pode ser apenas uma obrigação. Acreditar em Jesus deve ser uma experiência alegre, porque, no meio da dor, Ele não nos oferece explicações fáceis, mas presença; não nos deixa fechados na morte, mas conduz-nos à vida.Por isso, a pergunta decisiva é esta: que experiência de salvação fazemos nós? Em que é que o ser cristão qualifica a nossa vida, a torna mais humana, mais plena, mais livre? Talvez seja bom guardar um pouco de silêncio interior e deixar ressoar esta pergunta: de que pedras me pede hoje Jesus que me desfaça? Em que situações de morte me quer Ele dizer, já hoje: levanta-te, sai para fora? Porque a verdade é esta: se acreditamos n'Ele, então acreditamos que Jesus já nos está a ressuscitar.

    IV Domingo da Quaresma

    Play Episode Listen Later Mar 15, 2026 8:57


    O Evangelho de hoje causa-nos alguma impressão. Impressiona-nos, antes de mais, o milagre: um homem que era cego começa a ver. Mas impressiona-nos também o diálogo entre esse homem, agora curado, e os judeus. Há aqui uma tensão muito forte. Por um lado, vemos a dinâmica interior que acontece na vida daquele homem: tocado pela misericórdia de Deus, chega ao ponto de dizer: «Eu creio, Senhor.» Por outro lado, vemos a resistência dos judeus, tão presos aos seus esquemas mentais, aos seus preconceitos e à sua forma fechada de olhar a realidade, que se tornam incapazes de reconhecer a novidade de Deus no meio deles.Por isso, esta página do Evangelho é também um apelo para nós: termos um coração aberto e desperto para acolher Deus. E acolher Deus implica deixar que o Senhor ilumine a nossa vida. Aqui estamos a falar da luz. A luz é um fenómeno muito interessante: não faz barulho, não tem peso, não tem volume, e contudo tem uma característica única: permite ver, identificar e conhecer. Jesus apresenta-Se, assim, como Aquele que nos abre os olhos, Aquele que nos dá luz. E, iluminados pela sua graça, pelos seus ensinamentos e pela sua sabedoria, somos convidados a ver o mundo de maneira nova.É precisamente isso que a segunda leitura nos desafia a viver. Ser iluminado por Deus e viver como batizado é, no fundo, a mesma coisa, porque o batismo é iluminação. Não se trata apenas de procurar a luz, mas de reconhecer que, em Cristo, já não somos trevas: agora somos luz. E isto é decisivo. Não basta uma atitude passiva de quem se deixa iluminar. Isso é importante, mas não chega. É necessário também ser luz no mundo. Somos chamados a ser como candeeiros, como faróis, que ajudam a iluminar a realidade e a compreendê-la de forma esperançosa.Mas como é que se é luz? São Paulo dá-nos critérios muito concretos: «o fruto da luz está em toda a bondade, justiça e verdade.» Viver como filhos da luz é viver na bondade, na justiça e na verdade. É olhar o mundo com os olhos de Deus. E isso não de modo superficial, como quem apenas cumpre um ritual ou executa uma prática exterior, mas como alguém que foi iluminado por dentro e, por isso, já não consegue viver de outra maneira.Ora, isto é belo, mas também exigente. Porque, diante da injustiça, do erro e da falsidade, nós, que somos batizados e iluminados por Cristo, não podemos ficar indiferentes. Somos chamados a olhar o mundo com atenção e a pensá-lo segundo os critérios de Deus. Não apenas segundo o que eu acho, o que eu sinto ou o que me parece, mas segundo aquilo que, pela graça de Deus, foi purificado, moldado e convertido em nós.A primeira leitura, com a eleição de David, mostra-nos bem a diferença entre os critérios do mundo e os critérios de Deus. Samuel, ao ver um dos filhos de Jessé, pensa imediatamente: «Certamente é este o ungido do Senhor.» Mas Deus responde: «Não te deixes impressionar pela aparência nem pela elevada estatura.» Deus não olha as aparências; Deus olha o coração. E é por isso que o escolhido acaba por ser aquele que nem sequer estava entre os primeiros nomes da lista, o mais novo, aquele em quem ninguém pensava.Isto acontece muitas vezes também connosco. Quantas vezes a pessoa de quem menos esperamos é aquela que traz mais luz, mais paz, mais solução, mais harmonia para a nossa vida? Para Deus, não há pessoas de primeira nem de segunda. Há pessoas. E cada pessoa é um filho amado, digno do maior cuidado, da maior estima e da maior consideração.Talvez este seja, para nós, o grande desafio desta semana: olhar a vida, o mundo e as pessoas que estão à nossa volta como homens e mulheres iluminados por Cristo, e agir com todos segundo a bondade, a justiça e a verdade. Na medida em que tivermos com cada pessoa atitudes de bondade, justiça e verdade, seremos verdadeiramente luzeiros que iluminam a vida, a história e o mundo com a luz de Deus.

    IV Domingo da Quaresma - Evangelho

    Play Episode Listen Later Mar 15, 2026 2:13


    IV Domingo da Quaresma - Evangelho

    IV Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

    Play Episode Listen Later Mar 14, 2026 2:10


    IV Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

    IV Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

    Play Episode Listen Later Mar 13, 2026 2:12


    IV Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

    III Domingo da Quaresma - Homilia

    Play Episode Listen Later Mar 8, 2026 9:42


    A Palavra de Deus que hoje escutamos coloca diante de nós um fio condutor muito claro, que nos pode ajudar a viver esta terceira semana da Quaresma: o tema da sede. Todos sabemos o que é ter sede. Já todos experimentámos essa necessidade física de água, quando o corpo pede para ser hidratado. Mas, nas leituras de hoje, a sede diz-nos mais do que isso. Fala-nos daquilo que nos habita por dentro: os nossos desejos, os nossos medos, as nossas inquietações, a nossa procura de sentido e de segurança.Na primeira leitura, o povo está zangado, triste, revoltado. Reclama com Moisés, porque sente que foi arrancado do Egito para morrer à sede no deserto. No fundo, aquilo que o povo exprime é esta suspeita dolorosa: talvez Deus já não queira nada connosco, talvez Deus nos tenha abandonado, talvez se tenha esquecido de nós. E, se formos sinceros, também nós conhecemos esta experiência. Também nós, por vezes, pensamos ou sentimos que Deus está ausente, que nos deixou sozinhos, que já não cuida da nossa vida. Esta sede, mais do que falta de água, é a falta de segurança, de proteção, de paz interior. Mas é precisamente neste contexto que Deus manda Moisés ir à frente e bater na rocha, de onde jorra água. O gesto é muito significativo: antes de o povo chegar, Deus já lá está; antes de a necessidade ser plenamente dita, Deus já preparou a resposta. Mesmo no meio das nossas reclamações, Deus vai sempre à nossa frente e continua a oferecer-nos presença, bênção e vida.É isto que São Paulo nos recorda na segunda leitura. Diz-nos que estamos em paz com Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo, e que foi quando ainda éramos pecadores que Cristo morreu por nós. A graça de Deus não é um prémio para os perfeitos, nem recompensa para quem faz tudo bem. É dom. É iniciativa de Deus. É amor que nos precede. Deus não espera que sejamos dignos para nos amar; ama-nos primeiro. E é precisamente porque nos sabemos amados e reconciliados por Deus que nos tornamos capazes de viver melhor, de procurar corresponder melhor ao seu projeto, de recomeçar entre a fidelidade e o erro, entre o acerto e a fragilidade.O Evangelho da samaritana mostra, de modo belíssimo, como Jesus vem ao encontro da nossa sede. Sentado junto ao poço, ao meio-dia, cansado do caminho, Jesus pede de beber. Isto é muito importante: Jesus não nos salva de fora, como se não conhecesse a nossa condição; salva-nos assumindo-a, entrando nela, partilhando a nossa sede. E, diante d'Ele, a samaritana responde com os seus utensílios habituais. Como se dissesse: a sede resolve-se com aquilo que sempre usei. E, no entanto, Jesus conduz esta mulher a perceber que há uma sede mais profunda, para a qual os meios habituais não chegam. Há coisas que, num primeiro momento, parecem saciar-nos, mas não nos dão a paz, a verdade e a vida que duram.A samaritana vai, pouco a pouco, tomando consciência da sua sede, das suas limitações e até da sua história ferida. E é precisamente a partir dessa fragilidade que reconhece em Jesus o Messias. O Evangelho mostra-nos, assim, que não é apesar da nossa pobreza que Deus nos visita, mas muitas vezes é através dela que mais claramente Se revela. Talvez o desafio desta semana seja este: de que sede é que eu tenho? O que é que, verdadeiramente, me falta? Com que “baldes” é que tento saciar-me? E não acontecerá, por vezes, que temos vergonha de pedir a Jesus a água viva, porque conhecemos demasiado bem a nossa própria vida? Mas o Evangelho diz-nos: não tenhas medo. Deus já sabe. E, mesmo assim, vem.Por fim, quando a vida começa a ser saciada pelo amor, pela verdade e pelo sentido que vêm de Deus, então nasce espontaneamente o testemunho. A samaritana corre a dizer que encontrou o Messias. Não porque tenha resolvido todos os problemas da sua vida, mas porque se sentiu olhada, compreendida, amada e renovada. E é isto o testemunho cristão: não marketing, nem proselitismo, mas a transparência simples e serena de quem encontrou em Deus a fonte que mata a sede da vida e da vida eterna.

    III Domingo da Quaresma - Evangelho

    Play Episode Listen Later Mar 8, 2026 2:28


    III Domingo da Quaresma - Evangelho

    III Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

    Play Episode Listen Later Mar 7, 2026 2:04


    III Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

    III Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

    Play Episode Listen Later Mar 6, 2026 1:58


    III Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

    II Domingo da Quaresma - Homilia

    Play Episode Listen Later Mar 1, 2026 8:23


    Tambémesta é a nossa vocação. Somos chamados não por causa das nossasobras ou capacidades, mas segundo o desígnio e a graça de Deus. Asegunda leitura exprime-o com clareza: Ele salvou-nos e chamou-nos àsantidade não pelas nossas obras, mas pelo seu próprio desígnio. Éa sua graça que atua em nós; é o seu amor gratuito que está naorigem de tudo. Àluz deste chamamento, o Evangelho da Transfiguração ganha umatonalidade particular. O episódio acontece depois de Jesus anunciara sua paixão. Os discípulos estão perturbados: não compreendem ocaminho da cruz. É nesse contexto que Pedro, Tiago e João sobem comJesus a um alto monte. E aí Jesus transfigura-Se diante deles. Maisdo que perguntar “como foi”, importa deter-nos no sentido dapalavra. No quotidiano, quando alguém “se transfigura”, querdizer que revela o mais íntimo de si. Na Transfiguração, osdiscípulos veem para além da aparência habitual de Jesus;contemplam a sua identidade profunda. Isso provoca espanto econsolação: “Como é bom estarmos aqui!” Maseste “estar aqui” pode tornar-se tentação. Ficar no conforto daexperiência espiritual, no “quentinho” da fé, esquecendo que omonte não é morada definitiva. Jesus faz subir, mas também fazdescer. A experiência da glória não nos retira do mundo; envia-nosa ele. Subimos para contemplar, descemos para nos comprometermos. Aglória deve reorganizar o quotidiano segundo a graça. OEvangelho fala ainda de Moisés e Elias: a Lei e os Profetas. Jesus évisto transfigurado à luz da história da salvação. Também nós Ovemos transfigurado quando lemos a nossa história e osacontecimentos do mundo à luz da Palavra de Deus. Meditar a vida àluz da Palavra provoca transformação. Notexto grego surge a ideia de metamorfose. A metamorfose não ésimples mudança exterior; é transformação interior que semanifesta por fora. Talvez seja mais expressiva do que a palavra“conversão”, que pode sugerir apenas alteração decomportamentos. A metamorfose é algo que acontece no íntimo. Cadaescuta da Palavra é ocasião de metamorfose. Em linguagem paulina,trata-se de deixar o homem velho e revestir-se do homem novo. Nestecaminho quaresmal, importa fixar-nos na Transfiguração: o Senhornão nos pede nada que não esteja ao nosso alcance com a sua graça.Pede-nos uma vida boa, santa, equilibrada — e dá-nos a forçanecessária. Quandodeixamos que a Palavra se instale no coração, ela transforma-nos apartir de dentro. Por isso, quando pensamos: “Se o Senhor Setransfigurasse diante de mim, eu acreditava”, talvez devamosreconhecer que Ele já Se transfigura diante de nós. Oque nos é pedido é simples e exigente: subir ao monte. Procurar oslugares onde Deus Se torna mais próximo — a oração, a meditaçãoda Palavra, a liturgia, as obras de caridade. Estes exercíciostornam-se lugares de metanoia, de transformação interior. E,pouco a pouco, o Senhor instala-Se luminosamente no nosso coração,gerando a convicção de que Ele é bom, que nos liberta e que noscapacita a viver como filhos da luz.  

    II Domingo da Quaresma - Evangelho

    Play Episode Listen Later Mar 1, 2026 1:54


    II Domingo da Quaresma - Evangelho

    II Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

    Play Episode Listen Later Feb 28, 2026 1:52


    II Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

    II Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

    Play Episode Listen Later Feb 27, 2026 1:52


    I Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

    O Domingo da Quaresma - Homilia

    Play Episode Listen Later Feb 22, 2026 10:50


    A Quaresma pode soar “dura”, mas é, na verdade, um tempo fantástico: bonito, fecundo, de crescimento espiritual e de maior autoconhecimento. Inicialmente foi o tempo de preparação dos catecúmenos para o Batismo na Vigília Pascal; depois, toda a Igreja o assumiu como tempo em que nós, já batizados, recordamos o nosso Batismo e reassumimos os seus compromissos. É um tempo privilegiado para olhar quem somos — não apenas a partir da nossa perspetiva, mas sobretudo a partir da perspetiva de Deus.A primeira leitura diz algo decisivo: “O Senhor formou o homem do pó da terra e insuflou em suas narinas um sopro de vida”. Não é um texto escrito para responder à pergunta moderna “foi mesmo assim?”, mas para nos fazer perguntar: “o que é que isto significa?”. E significa isto: somos pó — frágeis, limitados, quebráveis —, mas trazemos em nós o sopro de Deus. A vida vem porque Deus sopra em nós e nos concede o Seu Espírito. Por isso, apesar da nossa fragilidade, existe em nós uma semente, um desejo de eternidade e de felicidade.O problema é quando tentamos responder a esse desejo apenas com os nossos critérios, “com a nossa cabecinha”, sem escutar Deus. Aí está, em última instância, o mecanismo do pecado: em vez de escolher Deus, escolho-me a mim mesmo como medida de tudo, como se sozinho pudesse alcançar a plenitude. E depois descubro que só Deus pode dar aquilo que eu procurava. Do pecado nasce limitação, sofrimento e dor. Mas São Paulo lembra-nos: se por um homem entrou o pecado no mundo, por um só Homem entrou a graça e a salvação — Jesus Cristo.O Evangelho mostra Jesus no deserto: “foi conduzido pelo Espírito para ser tentado”. Parece estranho, mas as tentações podem ser um lugar importante, porque revelam os nossos desejos mais profundos. Quando caímos, procuramos satisfazê-los com os nossos critérios; quando resistimos, aprendemos a respondê-los com os critérios de Deus. Por isso, no Pai-Nosso não pedimos para não haver tentações; pedimos: “não nos deixeis cair em tentação”. O exame de consciência ajuda-nos precisamente a reconhecer o que desejamos, o que nos falta, e a decidir: sigo a minha cabeça ou deixo-me guiar por Deus?Aqui ajuda a imagem do Bom Jesus do Monte. Ao subir, há um “terreiro” onde se faz uma escolha: ficar voltado para a cidade (de costas para Deus) ou voltar-se para o santuário (de costas para a cidade). É o lugar da decisão. Se escolho Deus, entro num caminho que revela beleza e sentido — até nos momentos de dor e sofrimento, onde Deus caminha connosco.As três tentações mostram isso com clareza: transformar pedras em pão (“nem só de pão vive o homem”); atirar-se do alto para “forçar” Deus (“não tentarás o Senhor teu Deus”); escolher a glória humana (“só a Deus adorarás”). E o que vence a tentação? Jesus responde sempre com a Escritura. Isto ensina-nos que o “mapa”, o GPS no meio das tentações, é a Palavra de Deus: alimento que dá critérios para conhecer Deus e para nos conhecermos a nós mesmos.No início desta Quaresma, assumimos a verdade da nossa vida: somos homens e mulheres formados do pó da terra, frágeis; mas chamados a uma vida de comunhão com Deus, vida divina, porque Ele soprou em nós. Essa vida perde-se quando voltamos as costas ao Senhor; aprofunda-se quando nos voltamos para Ele.

    I Domingo da Quaresma - Evangelho

    Play Episode Listen Later Feb 22, 2026 2:23


    I Domingo da Quaresma - Evangelho

    I Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

    Play Episode Listen Later Feb 21, 2026 2:06


    I Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

    I Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

    Play Episode Listen Later Feb 20, 2026 2:00


    I Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

    VI Domingo do Tempo Comum - Homilia

    Play Episode Listen Later Feb 15, 2026 10:24


    A primeira leitura, do livro de Ben-Sirá, começa com uma afirmação exigente: «Se quiseres guardar os mandamentos… ser fiel depende da tua vontade». Parece colocar sobre nós toda a responsabilidade entre cumprir ou não cumprir. Devemos, certamente, esforçar-nos por viver a lei de Deus. Mas o Novo Testamento recorda que Jesus Cristo não veio abolir a Lei, mas cumpri-la. E isto responde a uma convicção muito instalada em nós: a ideia de que cumprir a lei é doloroso, que custa, e que talvez fôssemos mais livres e felizes se ela não existisse. É uma leitura humana, alimentada pela nossa experiência das leis civis, tantas vezes sentidas como limitações e proibições. Porém, a lei que o Senhor dá não é para nos coagir, prender ou diminuir; é um apoio para vivermos em plenitude. Jesus não proíbe o que nos faz bem; proíbe o que nos faz mal. Até certas prescrições do Antigo Testamento, ligadas às condições de vida no deserto, tinham um intuito de cuidado e de proteção da vida: pense-se, por exemplo, em evitar alimentos facilmente corruptíveis num tempo sem refrigeração, quando a intoxicação podia ser fatal. A lei de Deus, portanto, não tem como objetivo limitar-nos, mas dar-nos vida, e vida em abundância.Contudo, Ben-Sirá diz que ser fiel depende da vontade; e a nossa vontade não é isolada: depende do que sabemos e, sobretudo, do que desejamos. Os profetas anunciaram que Deus não gravaria a sua lei apenas em pedra, mas no coração; e isso cumpre-se em Cristo, que transforma a obediência em desejo e a norma em caminho de liberdade. As mãos e os pés fazem, na verdade, o que o coração deseja. Se faço algo de que não gosto, pesa-me e cansa-me; se faço algo que amo e cujo sentido reconheço, mesmo que custe, faço-o com alegria. Veja-se o exercício físico: é exigente, mas muitos o assumem porque desejam saúde, equilíbrio, disposição. O esforço torna-se habitável quando o fim é bom. Assim também com a lei de Deus: o Senhor dá-nos a graça de desejar as coisas de Deus e a sabedoria de compreender que a sua lei não nos diminui; torna-nos mais livres e abre-nos à plenitude. Seria belo que conseguíssemos olhar a lei desta forma.Por isso Jesus aprofunda os mandamentos. «Ouvistes que foi dito aos antigos: não matarás…». Numa leitura legalista, matar seria apenas tirar a vida com uma arma ou uma faca. Mas Jesus completa: quem se encoleriza contra o irmão, quem o insulta, quem o reduz com palavras, coloca-se já no caminho do julgamento. Não se trata apenas de eliminar fisicamente; também se mata quando se fere a dignidade, quando se rouba a alegria, quando se desfigura o outro com desprezo. E esta lei, aparentemente “mais dura”, é na verdade mais verdadeira, porque revela que o mal feito ao outro repercute-se sobre mim: deformo-me quando ajo mal; edifico-me quando ajo bem. O mal contra a criação, contra a natureza, ou mesmo nos comentários agressivos nas redes, faz mal, mas também me faz mal a mim; nega a graça de Deus. Pelo contrário, quando ajo bem, deixo que a graça me planifique e me construa.Talvez então possamos dizer com verdade: «Feliz o que anda na lei do Senhor». E é importante perguntar com sinceridade: sou realmente mais feliz quando caminho com o Senhor? Se a resposta for difícil, não há escândalo: é ocasião para pensar porquê, para compreender melhor a lei de Deus e confrontar as imagens distorcidas de uma religião feita apenas de obrigações e proibições. Às portas da Quaresma, facilmente reduzimos a fé a um catálogo: «proibido comer carne», «devo fazer isto e aquilo». E pode surgir a tentação de pensar que, sem Deus, viveríamos melhor. Mas o Deus de Jesus Cristo quer dar-nos vida em plenitude. Se não o experimentamos assim, talvez estejamos a seguir ídolos, ou a projetar deformações de Deus que pedem conversão. Hoje desafio-me, e desafio-vos, a olhar a nossa relação com Deus: mais do que preocupar-nos apenas em cumprir mandamentos, peçamos a graça de desejar a beleza e a plenitude de vida que o Senhor quer dar.

    VI Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    Play Episode Listen Later Feb 15, 2026 1:39


    VI Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    VI Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    Play Episode Listen Later Feb 14, 2026 1:46


    VI Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    VI Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    Play Episode Listen Later Feb 13, 2026 1:49


    VI Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    V Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    Play Episode Listen Later Feb 8, 2026 1:55


    V Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    V Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    Play Episode Listen Later Feb 7, 2026 2:09


    V Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    V Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    Play Episode Listen Later Feb 6, 2026 2:17


    V Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    Vídeo de apresentação

    Play Episode Listen Later Feb 4, 2026 0:08


    Vídeo de apresentação

    IV Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    Play Episode Listen Later Feb 1, 2026 1:57


    IV Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    IV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    Play Episode Listen Later Jan 31, 2026 1:46


    IV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    IV Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    Play Episode Listen Later Jan 30, 2026 2:07


    IV Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    III Domingo do Tempo Comum - Homilia

    Play Episode Listen Later Jan 25, 2026 9:46


    Se mais não fosse pelo gesto que fizemos antes da proclamação do Evangelho, acordamo-nos de que hoje celebramos o Domingo da Palavra. Neste domingo, a Igreja lembra-nos, de modo muito concreto, que vivemos guiados e orientados pela Palavra de Deus. Por isso, a Palavra merece de nós carinho e respeito, mas também uma curiosidade boa: ela é a narração da experiência de Deus feita por homens e mulheres ao longo da história e, inspirados pelo Espírito Santo, ensina-nos um caminho certo para fazermos, aqui e agora, uma experiência viva de Deus.Importa, porém, retirar uma ideia que às vezes nos acompanha e que pode até causar choque quando começamos a ler a Bíblia. A Escritura não conta apenas histórias “limpas” e edificantes; nela encontramos também quedas, conflitos e verdadeiras misérias humanas. E alguém pode perguntar: “Mas isto é Palavra de Deus?” Sim, porque Deus não Se revela num mundo artificial, mas na realidade concreta, com as suas sombras e contradições. A Bíblia não romantiza a existência: mostra que, mesmo quando a vida se torna dura, Deus continua presente e continua a falar, com uma palavra de esperança e de recomeço.Essa esperança é anunciada na primeira leitura. O povo vive oprimido e humilhado, como quem caminha nas trevas. E é então que o profeta ousa dizer: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz.” Esta palavra não nega a dor nem nos pede que a ignoremos. Pelo contrário, convida-nos a dar nome ao que nos faz sofrer, ao que nos oprime, ao que parece roubar vida por dentro. Este é um passo espiritual fundamental: não fugir da realidade, mas colocá-la diante de Deus, com verdade. No meio da dor, pede-se luz; e Deus não responde com evasões, responde com presença.E aqui o Evangelho faz coincidir promessa e cumprimento. A luz anunciada na Galileia concretiza-se quando Jesus vai para a Galileia: Ele próprio é a luz que Se levanta sobre os que habitam na sombra da morte. E repare-se: a luz não é um holofote virado para nós, para exibirmos virtudes ou para chamarmos atenção. A luz é para iluminar o mundo e nos ajudar a vê-lo como ele é. Por isso precisamos de deixar que o Senhor converta o nosso olhar, para vermos como Ele vê e para aprendermos a ler a vida sem ilusões, mas com esperança.Daqui nasce a necessidade de um contacto assíduo com a Palavra. Uma das tentações mais comuns é pensar que já sabemos: “Eu já li, eu já conheço, eu já sei.” Mas a Palavra de Deus não é, sobretudo, para “saber”; é para dialogar, para meditar, para nos deixar surpreender. Às vezes digo, com alguma ironia, que há alguém que sabe mais do que nós — o diabo — e, mesmo assim, isso não o conduz à vida. A liturgia dá-nos este alimento todos os dias, para que a Escritura não seja um recurso ocasional, nem apenas quando estamos bem-dispostos, nem apenas quando estamos tristes. A Palavra é um diálogo contínuo: Deus fala-nos e nós respondemos, até que a nossa vida comece, pouco a pouco, a ganhar o ritmo e o horizonte do Evangelho.O cristianismo, de resto, não é apenas “uma religião do livro”. O cristianismo é a religião de uma Pessoa: Jesus Cristo, a Palavra feita carne. Conhecer Deus não é apenas repetir informações sobre Ele; é amar e deixar-se amar. Isto implica tempo, como acontece com as relações verdadeiras. Penso que ninguém conhece melhor uma pessoa do que a sua própria mãe e, no entanto, as mães não se cansam de estar com os filhos, porque não se trata de acumular dados, mas de saborear a presença. Assim também com a Palavra: o objetivo principal não é saber mais, mas saborear a presença de Deus e deixar que essa presença nos molde, converta o coração, ilumine a inteligência e purifique o desejo. E assim, mesmo na vida real, com as suas lutas e limites, vamos aprendendo a reconhecer na nossa história a história misericordiosa de Deus, que nos ama, nos liberta e nos abre um caminho de luz. Por isso, andemos com Jesus, andemos com a Palavra: nela está a alegria que não passa e a esperança que não desilude.

    III Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    Play Episode Listen Later Jan 25, 2026 2:01


    III Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    III Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    Play Episode Listen Later Jan 24, 2026 1:56


    III Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    III Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    Play Episode Listen Later Jan 23, 2026 1:54


    III Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    II Domingo do Tempo Comum - Homilia

    Play Episode Listen Later Jan 18, 2026 11:01


    O Evangelho de hoje faz-nos recordar o de domingo passado, quando celebrámos a festa do Batismo do Senhor. Agora, na versão de São João, voltamos ao mesmo acontecimento, mas com outro olhar. E pode surgir a pergunta: “Isto não se repete? Não está já dito?” A verdade é que o batismo não é apenas um episódio do passado; é uma realidade que se fez em nós e que continua a fazer-se em nós. Ser batizado é entrar num caminho, numa identidade e num projeto de vida que se vai concretizando dia após dia.Estamos também a celebrar o segundo domingo do Tempo Comum, o tempo dos paramentos verdes. Começa depois do Natal, é interrompido pela Quaresma e pela Páscoa, e retoma até ao fim do ano litúrgico. Às vezes, este tempo pode parecer um “tempo de segunda”, menos importante. Se pensássemos numa prova de ciclismo, como a Volta a Portugal, diríamos que é uma “etapa de rolar”: parece que não decide nada, parece apenas para cumprir. Na liturgia, poderíamos achar que o essencial são os tempos “roxos” da Quaresma e os tempos “brancos” do Natal e da Páscoa. E é verdade que esses tempos são belíssimos e muito intensos. Mas o Tempo Comum é decisivo, porque é no comum do dia a dia que nós nos identificamos, ou não, com o Senhor Jesus. Nos tempos fortes, tudo nos desperta e nos recorda Deus; no comum, distraímo-nos com mais facilidade.Por isso, hoje, recordar o batismo é importante. Não para o ver como uma obrigação imposta, mas como um projeto de vida sonhado e querido por Deus. A primeira leitura diz-o com força: “Tu és o meu servo, em ti manifestarei a minha glória.” E ainda: “Ele formou-me desde o seio materno.” Nós fomos escolhidos por Deus não por sermos melhores, nem por termos méritos especiais, mas porque Ele quis, porque nos amou desde sempre, porque nunca deixa de tomar a iniciativa. E depois nós respondemos. Cantámos no salmo: “Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.” E, se me permitem, tantas vezes eu sinto vontade de mudar uma palavra e dizer: “Eu venho, Senhor, para fazer a nossa vontade.” Não porque deixemos de seguir Deus, mas porque a conversão é precisamente este processo: deixar que a vontade de Deus se torne também a nossa vontade. Aquilo que Deus nos pede e sonha para nós é sempre maior e mais realizador do que aquilo que, sozinhos, conseguimos desejar.É neste contexto que a segunda leitura, no início da carta de São Paulo aos Coríntios, faz todo o sentido. Paulo saúda a comunidade com palavras que a liturgia conserva: “A graça e a paz de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam convosco.” Reparemos na ordem: a graça vem primeiro. O amor de Deus vem antes de tudo. É sempre Deus quem dá o primeiro passo. E João aponta para Jesus e diz: “Eis o Cordeiro de Deus.” Cordeiro de Deus lembra-nos o Cordeiro Pascal: a Páscoa, a libertação, a alegria de uma vida nova, plena.E a paz, para nós, não é apenas ausência de conflitos. Isso é pouco. Paz é harmonia interior: comigo, com os outros e com Deus. É a consequência da ação de Deus na nossa vida. Por isso somos capazes de viver tendencialmente em paz: aceitando quem somos, compreendendo a complexidade do mundo e até as feridas que por vezes nos chegam através dos outros, mas amando mesmo assim ao estilo de Deus, construindo pontes e laços.São Paulo diz ainda: “Aos que foram santificados em Cristo, chamados à santidade.” A santidade não é privilégio de alguns; é vocação de todos. Em Cristo, somos santos e, ao mesmo tempo, estamos a caminho de o ser de forma concreta. E assim se cumpre a promessa: “Vou fazer de ti a luz das nações.” Tornamo-nos luz quando somos homens e mulheres de paz, moldados pela graça de Deus, levando aos lugares onde estamos uma presença mais pascal, mais reconciliada e mais humana.

    II Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    Play Episode Listen Later Jan 18, 2026 2:09


    II Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    II Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    Play Episode Listen Later Jan 17, 2026 2:17


    II Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    II Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    Play Episode Listen Later Jan 16, 2026 2:11


    II Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    Festa do Batismo do Senhor - Homilia

    Play Episode Listen Later Jan 11, 2026 12:23


    Ao passarmos do tempo do Natal para o tempo comum, a liturgia faz-nos celebrar a festa do Batismo do Senhor. No Evangelho, João Batista batiza no Jordão com um batismo de penitência e de conversão, para lavar e purificar os pecados. É neste contexto que Jesus se aproxima para ser batizado. João estranha e resiste: “Eu é que preciso de ser batizado por Ti, e Tu vens ter comigo?” Mas Jesus responde: “Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça.” Aqui vê-se o projeto de vida de Jesus: Ele assume por inteiro a nossa condição humana. Por vezes imaginamos Jesus como um “super-homem”. É verdade que Jesus Cristo é verdadeiro Deus, mas é igualmente verdadeiro homem; e, para viver até ao fim a missão recebida, entra na nossa história com a densidade real da vida humana: com as suas dúvidas, escolhas e lutas interiores, com dificuldades, tentações e contradições, permanecendo fiel ao Pai até às últimas consequências.Depois do batismo, os céus abrem-se, o Espírito de Deus desce como pomba e uma voz proclama: “Este é o meu Filho muito amado, em Quem pus toda a minha complacência.” Quem é este Filho, e que Messias esperava o povo? A primeira leitura de Isaías dá-nos o retrato do Servo eleito: sustentado por Deus, cheio do Espírito, enviado para levar justiça às nações. Não se impõe pela força, nem pelo grito, nem pela violência; impõe-se pelo serviço e pela dedicação. “Não quebrará a cana já fendida” e “não apagará a torcida que ainda fumega.” A imagem é belíssima: quando a cana já está rachada e frágil, Ele não a parte; como numa candeia a azeite, quando o pavio já só fumega e já só resta um fio de brasa, Ele não apaga; guarda esperança.“Complacência” é uma palavra pouco usada, mas diz isto: o olhar de Deus com alegria, ternura e prazer, como o olhar de um pai e de uma mãe sobre o seu filho. Deus olha para Jesus e põe n'Ele toda a sua alegria e todo o seu cuidado.Ao celebrarmos o batismo de Jesus, recordamos também o nosso batismo. Muitos não se lembram, porque foram batizados em bebés, mas, mais tarde, cada um foi confirmando o seu “sim” a Cristo. Por isso, aquilo que hoje ouvimos acerca de Jesus toca a nossa identidade: também sobre nós Deus diz, no batismo, “tu és meu filho muito amado”. Aqui está o motor da vida cristã. Não somos cristãos por obrigação, por medo, nem para “fazer pontos”. Somos cristãos porque, antes de tudo, nos sabemos amados; e desse amor nasce um estilo: não levantar a voz para nos impormos, não quebrar a cana fendida, não apagar a torcida que ainda fumega.Isto é relativamente fácil com desconhecidos e com os fortes; custa mais com quem está “na mão de baixo” e, sobretudo, com os de casa, onde conhecemos as feridas e os erros repetidos. Aí, ser cristão é aprender a esperar contra toda a esperança: voltar a olhar, recomeçar, oferecer uma palavra e um gesto que não fecham a porta ao futuro. E de onde vem a força para isto? Não vem apenas das nossas energias. Vem do amor de Deus: um amor total, alegre, fiel e eterno, um amor em que Deus sente prazer só em amar-nos.Por isso, quando a liturgia nos envia, as fórmulas do Missal podem resumir tudo como programa de vida: “Glorificai a Deus com a vossa vida” e “A alegria do Senhor seja a vossa força.” Se aceitarmos, de verdade, que somos batizados a partir da experiência de sermos amados por Deus, então esse amor transforma-nos, redime-nos e liberta-nos.

    Festa do Batismo do Senhor - Evangelho

    Play Episode Listen Later Jan 11, 2026 2:25


    Festa do Batismo do Senhor - Evangelho

    Festa do Batismo do Senhor - Segunda Leitura

    Play Episode Listen Later Jan 10, 2026 2:20


    Festa do Batismo do Senhor - Segunda Leitura

    Festa do Batismo do Senhor - Primeira Leitura

    Play Episode Listen Later Jan 9, 2026 2:14


    Festa do Batismo do Senhor - Primeira Leitura

    Domingo da Epifania - Homilia

    Play Episode Listen Later Jan 4, 2026 7:55


    O Evangelho de hoje, segundo São Mateus, não é apenas a narração de um episódio antigo: é a revelação de um encontro. Nele, Deus vem ao encontro de toda a humanidade e a humanidade é chamada a reconhecer Deus. Por isso, mais do que fixarmo-nos nos pormenores históricos e circunstanciais, importa escutar a mensagem que a história transporta. Aquilo que celebrámos no dia 25 de dezembro — o nascimento do Messias — manifesta-se agora como dom oferecido a todos, inclusive a homens vindos de longe, de diferentes geografias e culturas.Os Magos vêm do Oriente, do lugar onde nasce a luz. São sábios, atentos aos sinais do céu, capazes de desejar e de procurar. Contudo, para que a procura se torne verdadeiro encontro, é preciso perguntar. Eles interrogam, procuram orientação, vão junto dos sumos sacerdotes e dos escribas, isto é, junto de quem conhecia as Escrituras. A procura humana pode pressentir o caminho, mas não basta a si mesma: é necessário deixar-se conduzir pela Revelação, pelas fontes da fé, pela Sagrada Escritura e pela vida de uma comunidade que guarda e transmite essa fé. E aqui surge um contraste que deve inquietar: os que sabiam não se moveram; os que procuravam, com a indicação recebida, puseram-se a caminho. Também nós podemos saber muitas coisas sobre Deus e, ainda assim, viver sem espanto, sem curiosidade, sem desejo de ir mais além.Chegados a Belém, encontram o Menino e prostram-se em adoração. Esta é a resposta própria de quem reconhece Deus: adorar. Por isso, a Eucaristia não pode ser vivida como rotina ou mera obrigação, como se bastasse cumprir um preceito para “não pecar”. Ela é a experiência mais densa de encontro com o Senhor. Adorar em espírito e verdade é permitir que os gestos, as palavras, as fórmulas e o silêncio nos transformem por dentro, revelando quem é Deus e quem somos nós diante d'Ele; é deixar que a verdade de Deus tenha peso real na nossa existência.Depois, “voltaram por outro caminho”. A razão imediata é clara — não voltar a Herodes, que queria matar o Menino —, mas o sentido espiritual é ainda mais forte: o encontro com Jesus provoca conversão. E conversão não é apenas trocar alguns hábitos; é passar a ver o mundo, os outros e a própria vida a partir do olhar de Deus. Quando se vive mais perto do Senhor, a indiferença torna-se impossível: nasce o compromisso, o serviço, a disponibilidade para sair do conforto que nos fecha em nós mesmos, vencendo as “pantufas” do comodismo.A estrela, que os guiou, permanece como símbolo. Também nós precisamos de luzes de referência, de faróis que orientem as escolhas. A pergunta é inevitável: quais são hoje as minhas luzes? É Jesus, de facto, a luz que interpreta a realidade e conduz os meus passos, ou sigo outras promessas, outros critérios, outras urgências? Que a festa da Epifania renove em nós o desejo, o caminho, a adoração e a conversão, para que o Natal se torne vida e nos faça, também a nós, regressar por outro caminho.

    Epifania do Senhor - Evangelho

    Play Episode Listen Later Jan 4, 2026 2:07


    Epifania do Senhor - Evangelho

    Epifania do Senhor - Segunda Leitura

    Play Episode Listen Later Jan 3, 2026 2:12


    Epifania do Senhor - Segunda Leitura

    Epifania do Senhor - Primeira Leitura

    Play Episode Listen Later Jan 2, 2026 1:52


    Epifania do Senhor - Primeira Leitura

    Santa Maria Mãe de Deus

    Play Episode Listen Later Jan 1, 2026 8:26


    Segue uma versão organizada da homilia, já com pontuação e parágrafos, e a caber confortavelmente em 4000 caracteres (cerca de 3620, com espaços incluídos).Em termos litúrgicos, celebramos hoje o último dia da oitava de Natal. As grandes festas, Páscoa e Natal, têm oitava; e este último dia coincide com o primeiro dia do ano civil e com a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Desde Paulo VI, assinala-se também o Dia Mundial da Paz. À primeira vista, parecem temas dispersos, como realidades que não casam. No entanto, casam quando olhamos para Cristo.Depois da ressurreição, sempre que Jesus aparece aos discípulos, começa do mesmo modo: «A paz esteja convosco». O sinal mais perfeito de que o Ressuscitado está no meio de nós é, precisamente, a possibilidade de falar de paz e de a desejar, apesar de tudo. É verdade que, nos nossos dias, falar de paz pode soar irónico: há conflitos sociais, há guerra na Europa, há guerras no mundo; basta ligar a televisão, a rádio ou a internet. Ainda assim, faz todo o sentido: se celebramos o nascimento de Jesus Cristo, somos chamados a ser homens e mulheres de paz.A primeira leitura, do Livro dos Números, é luminosa: «O Senhor te abençoe e te proteja; o Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e seja favorável; o Senhor volte para ti o seu olhar e te conceda a paz». Muitas vezes desvalorizamos a bênção, reduzindo-a a superstição ou a uma espécie de amuleto para “correr bem”. Mas a bênção é outra coisa: abençoar é dizer bem; e deixar que a Palavra de Deus faça bem, reorganize a vida, cure o coração, abra caminhos. Quando transformamos a bênção em juízo moral, fazemo-lo muito mal: não somos juízes de ninguém; podemos, sim, bem dizer a Deus e deixar que Deus faça o seu bem em cada pessoa. Isso não se nega a ninguém.É nesta luz que se entende a segunda leitura: «Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar filhos adotivos». Celebrar Maria, Mãe de Deus, é afirmar uma verdade fundamental: Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É na nossa carne e na nossa história que a salvação nos visita; é na vida concreta que podemos saborear a novidade de Deus e renovar a relação com Ele.Mas a paz tem uma ambiguidade. Pode ser paz interior, e isso é bom; porém, pode degenerar num comodismo egoísta: “eu estou em paz, não me meto com ninguém, ninguém se mete comigo”. A Escritura não diz: bem-aventurados os que apenas vivem em paz. Diz: «Bem-aventurados os construtores da paz». E aqui está a mudança decisiva: a paz não se alcança de pantufas no sofá; constrói-se quando se combate o mal nas suas formas quotidianas, quando se cuida do que se diz e do que se faz, quando se vigia a forma como nos relacionamos com os outros, no que potenciamos e no que evitamos, para que a paz aconteça.O Evangelho ajuda-nos a perceber por onde começar. Os pastores, então considerados pobres e excluídos, aproximam-se do Menino, contam o que viram e ouviram, e «todos se admiravam». Deus começa pelos que estão à margem; e talvez isso nos peça uma conversão do olhar: menos à procura de “grandes sinais” e mais atentos aos que estão ao nosso lado. A paz começa nas pequenas pontes, nos laços de proximidade, na dignidade reconhecida a quem parece não contar.No Baptismo e na Confirmação fomos ungidos com o santo crisma. O óleo deixa marca e, com o tempo, alarga-se: faz nódoa, espalha-se. Assim também a unção de Cristo, fonte da paz: onde nos colocamos, deve alargar o bem. Se cada um construir paz à sua beira, essas marcas tocam-se e a nossa textura social torna-se mais pacífica, mais harmoniosa, mais conforme à lógica do Ressuscitado. Que o Senhor nos abençoe e nos conceda a paz, fazendo de nós construtores de paz.

    Festa da Sagrada Família - Homilia

    Play Episode Listen Later Dec 28, 2025 11:12


    Há realidades da vida religiosa e da vida crente que facilmente se deixam olhar de modo idealizado, perfeccionista e até idílico, como se vivessem num plano sem rugosidades nem chão. A família é um desses lugares onde a tentação do ideal é forte: imagina-se uma “família cristã” como molde rígido ao qual todas as famílias e todas as histórias deveriam caber. Não é esse o caminho. Quando se contempla a família de Nazaré, não se recebe um modelo estreito para reproduzir, mas uma forma de viver: uma familiaridade que pode existir na família nuclear, na família alargada, nas famílias recompostas, e também em comunidades como a “família hospitaleira”, onde homens e mulheres se encontram e, por diversas circunstâncias, constroem uma casa comum.O que se entende, então, por “família” e por “familiaridade” em sentido cristão? Antes de mais, a consciência de que todos derivam do mesmo Pai, Deus, e que, por serem filhos, se devem tratar como irmãos. As primeiras comunidades cristãs diziam-no com naturalidade; hoje, por vezes, reserva-se a palavra “irmão” para contextos religiosos, esquecendo que o estilo cristão é, todo ele, um modo de viver como família de Deus. É nesse horizonte que ganha relevo o apelo paulino: suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro; como o Senhor perdoou, assim também vós. A consequência concreta de vestir o “traje” da misericórdia é um perdão real, praticado, que não fica em teoria. E, acima de tudo, como toque final, revesti-vos de caridade, vínculo da perfeição: a caridade é o elo que une de forma plena e madura.Há, porém, uma tensão que se sente no quotidiano: também se escolhe roupa para “estar na moda”, para não destoar, para se sentir integrado. Revestir-se de misericórdia e caridade pode não ser a “moda” de muitos ambientes; pode até parecer um fato antigo, como algo ultrapassado. Por isso é importante a comunidade cristã, onde, pelo menos ao domingo, se volta a ver que esse traje não está fora de tempo: há outros homens e mulheres que o vestem, e nele encontram alegria e vida plena. Ainda assim, isto exige aprendizagem; pede tempo, pede que estas atitudes se entranhem, que se tornem “carne” em quem crê.Aqui se percebe a importância insubstituível da família biológica. É nela, com o pai e a mãe, com irmãos, tios, avós, primos, que surgem as primeiras relações significativas; é aí que, idealmente, se aprende a experiência fundamental de ser amado de forma incondicional. Sem essa base, educar na fé torna-se mais difícil: se, lá atrás, não houve a experiência de amor recebido e oferecido sem cálculo, a relação com Deus pode ficar mais árdua e inquieta. Quando essa experiência existe, a receção de Deus tende a fazer-se com maior serenidade e confiança. E, a partir daí, a família cristã e a comunidade tornam-se lugar onde se exercitam, de modo continuado, laços de misericórdia, humildade, mansidão, paciência e caridade. “Suportar” uns aos outros, no sentido pleno da palavra, aprende-se também em situações concretas: quando alguém adoece, quando a fragilidade cresce, quando a mente enfraquece e o ritmo abranda, nasce o respeito e a delicadeza que permitem a paz, sustentadas pelo perdão.A Escritura, aliás, ajuda a purificar equívocos: não é legítimo invocar a religião para privilegiar homens ou mulheres. Há uma beleza particular naquela afirmação: Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade, incluindo a autoridade da mãe. A complementaridade, o lugar próprio e a imprescindibilidade de cada um não se opõem; sustentam-se. Assim se aprende a viver em família com alegria, presença inteira e confiança.

    Festa da Sagrada Família - Evangelho

    Play Episode Listen Later Dec 28, 2025 1:54


    Festa da Sagrada Família - Evangelho

    Festa da Sagrada Família - Segunda Leitura

    Play Episode Listen Later Dec 27, 2025 1:53


    Festa da Sagrada Família - Segunda Leitura

    Festa da Sagrada Família - Primeira Leitura

    Play Episode Listen Later Dec 26, 2025 1:52


    Festa da Sagrada Família - Primeira Leitura

    Dia de Natal - Homilia

    Play Episode Listen Later Dec 25, 2025 7:18


    No Evangelho que acabámos de escutar, o prólogo do Evangelho segundo São João, encontramos uma afirmação verdadeiramente bombástica: *“O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.”* Este é o centro, o essencial daquilo que hoje celebramos no dia de Natal. Não se trata de uma frase acessória, mas do coração da nossa fé cristã.Esta verdade é tão importante que, cada vez que recitamos o Credo na Eucaristia, quando dizemos *“e encarnou”*, somos convidados a fazer um gesto especial de reverência. No dia de Natal, aqueles que puderem ajoelham-se nesse momento, para mostrar com o próprio corpo o quanto esta verdade é fundamental para nós: Deus fez-Se homem.Aqui começa a revelar-se uma tensão que muitas vezes marca a celebração do Natal. Por um lado, celebramos uma realidade profunda, central e decisiva para a vida de todos nós: Deus fez-Se carne e habitou entre nós. Por outro lado, a forma como o Natal é vivido nas famílias, nas cidades e nas vilas pode facilmente parecer uma festa infantil, ou até infantilizante. Esta tensão mostra-nos como a religião pode, por vezes, ser mal vivida ou mal compreendida, levando a uma experiência que não assume plenamente aquilo que somos enquanto homens e mulheres adultos, capazes de profundidade, de pensamento e de responsabilidade.Contudo, quando afirmamos que o Verbo Se fez carne e habitou entre nós, estamos a dizer algo imensamente profundo e exigente. Deus podia ter vindo ao mundo apenas como Deus: apresentando-Se, falando, realizando milagres. Mas não foi assim que escolheu vir. Deus veio ao mundo assumindo a nossa condição humana. Não está apenas diante de nós; está em nós. Assumiu aquilo que somos, a nossa fragilidade, os nossos limites, a nossa história.Ao assumir a condição humana, Deus passa a falar connosco a partir da nossa própria experiência. O Verbo eterno diz Deus através das nossas emoções, dos nossos sentimentos, da nossa forma humana de pensar e de compreender o mundo. Por isso, o dia de Natal é, de certa forma, o dia da sabedoria: o dia em que, a partir da nossa própria vida concreta, temos legitimidade para fazer experiência de Deus, para pensar quem Ele é e reconhecer a Sua presença no nosso quotidiano.Esta experiência não tem nada de infantil. Pelo contrário, humaniza-nos profundamente. Quando vivemos atentos à nossa vida, às nossas ações, aos nossos sentimentos e emoções, começamos a pressentir a presença de Deus. E, sem nos darmos conta, percebemos que aquilo que desejamos no mais fundo de nós — aquilo que queremos, pensamos e procuramos — é sempre uma vida plena, uma plenitude que nos transcende. Todos nós desejamos “ser como deuses”, isto é, desejamos plenitude. Podemos procurar esse desejo pela transgressão ou pela obediência.Em Jesus Cristo, Deus fala-nos em linguagem humana e mostra-nos que fomos criados à Sua imagem e semelhança. No Natal, celebramos precisamente isto: um Deus que se faz próximo, que entra na nossa história, para que, na nossa humanidade, possamos descobrir o caminho da verdadeira plenitude.

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