Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.

Neste terceiro domingo da Páscoa, como em todo o tempo pascal, somos convidados a reconhecer Jesus Cristo ressuscitado, vivo no meio de nós. A liturgia de hoje ajuda-nos a perceber que uma coisa é ter informações sobre Jesus; outra, muito diferente, é deixar que a sua presença toque realmente a nossa vida.Na primeira leitura, São Pedro levanta-se e, com autoridade, anuncia quem é Jesus: Aquele que foi morto, mas que Deus ressuscitou. Na segunda leitura, escutamos que não fomos resgatados por coisas corruptíveis, como a prata ou o ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo. Isto diz-nos algo essencial: não somos uma realidade secundária aos olhos de Deus. Temos um valor imenso. Deus quis a nossa vida e a nossa salvação ao preço da vida do seu Filho.Mas o Evangelho mostra-nos que a informação, por si só, não chega. Os discípulos de Emaús sabiam o que tinha acontecido. Tinham ouvido falar de Jesus, da sua morte e até da notícia da ressurreição. E, no entanto, continuavam tristes, desanimados, a caminhar de costas voltadas para Jerusalém. Em São Lucas, isto não é apenas um detalhe geográfico. Jerusalém é o lugar da ação de Deus. Ir de costas para Jerusalém é sinal de uma existência que ainda não foi reencontrada pela esperança.Também nós podemos estar assim. Podemos saber muitas coisas da fé, conhecer passagens da Escritura, repetir fórmulas religiosas, e, no entanto, continuar sem verdadeira sabedoria. Podemos ter informação, mas ainda não ter deixado que ela molde o nosso modo de viver.Por isso, o Evangelho mostra-nos um caminho. Primeiro, os discípulos falam entre si. Dizem o que lhes vai no coração. Nomeiam a tristeza, a desilusão, o desalento. E é precisamente aí que Jesus se aproxima. Ele entra na conversa deles quando eles se dispõem a dizer a verdade da própria vida. Também para nós este é um passo decisivo: reconhecer o ponto em que estamos, sem fugas, sem máscaras. Só quando a vida é posta em verdade é que Cristo encontra espaço para se manifestar.Depois, Jesus ensina-os a ler os acontecimentos à luz da Escritura. Começando por Moisés e pelos Profetas, ajuda-os a compreender que a sua história não estava fora do plano de Deus. Aqui está o centro do Evangelho de hoje: aprender a ler a nossa vida à luz da história da salvação. Não se trata apenas de saber o que Deus fez antigamente, mas de perceber o que Deus faz hoje na nossa própria vida. As alegrias e as tristezas, os êxitos e os fracassos, tudo pode ser iluminado por esta presença de Deus. E, quando isso acontece, o coração começa a arder dentro de nós. A fé deixa de ser apenas discurso e torna-se experiência, força interior, sabedoria viva.Há ainda outro passo importante. Os discípulos dizem a Jesus: “Fica connosco.” Começam a reconhecê-Lo quando acolhem o estranho. E reconhecem-No plenamente no partir do pão. Não apenas no gesto litúrgico da Eucaristia, mas em tudo aquilo que esse gesto significa: uma vida feita entrega, partilha, dom de si.Finalmente, regressam a Jerusalém. Quem encontra Cristo ressuscitado não fica fechado em si mesmo. Volta à comunidade, partilha a experiência e escuta a experiência dos outros. A fé cristã não é um caminho solitário.Este Evangelho é muito concreto. Mostra-nos, passo a passo, como encontrar Jesus ressuscitado: dizer a verdade da vida, caminhar com os outros, deixar que a Escritura ilumine o que vivemos, acolher, partir o pão e regressar à comunidade. A informação é importante, mas não basta. O essencial é a experiência de encontro com Cristo, que transforma o coração e orienta de novo toda a vida.

III Domingo da Páscoa - Segunda Leitura

III Domingo da Páscoa - Primeira Leitura

O Evangelho que acabámos de escutar narra-nos dois domingos: o domingo da Ressurreição e, oito dias depois, precisamente este domingo em que hoje nos reunimos. Diz-nos o texto que, na tarde daquele dia, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, por medo, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Esta localização dos discípulos é muito significativa. Estão fechados, presos no medo, afastados do exterior. E esta prisão, que eles tinham e que também nós tantas vezes temos, pode ser muito forte. Pensamos nas grades e nas correntes e dizemos que aí estão os presos. É verdade. Mas também nós, muitas vezes, estamos presos, e talvez ainda mais presos, porque não se veem as grades. Estamos presos no medo, na indiferença, na rotina, em tantas coisas que não nos permitem fazer esta experiência: encontrar o Senhor.Jesus vem, coloca-Se no meio deles e oferece-lhes a paz. É o Senhor ressuscitado que Se manifesta. Mas, ao manifestar-Se, não apaga o que aconteceu. Mantém os sinais dos cravos e a ferida do lado. Os sinais da paixão continuam lá, mas agora transfigurados. O passado não é negado: é transformado.Depois surge Tomé, tantas vezes mal compreendido. Quando alguém quer ver para crer, logo dizemos: «és como São Tomé», como se ele fosse um discípulo menor. Mas o Evangelho diz algo muito sugestivo: Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, isto é, gémeo. Gémeo de quem? O Evangelho não diz que tivesse um irmão. Tomé é gémeo de cada um de nós. Também ele estava preso. Não apenas no medo, como os outros, mas ainda noutras prisões: só acreditava naquilo que podia ver, tocar, experimentar. E quantas vezes também nós ficamos presos às nossas certezas e aos nossos preconceitos.Contudo, quando Jesus lhe dirige a palavra, tudo muda. Tomé faz então a mais bela confissão de fé do Evangelho: «Meu Senhor e meu Deus». O que aconteceu? A diferença está nisto: fora da comunidade, Tomé não tinha os recursos necessários para encontrar Cristo ressuscitado. Só quando volta a estar reunido com os outros é que faz essa experiência. Por isso, a ressurreição de Cristo não cria cristãos isolados; cria uma comunidade.A primeira leitura mostra bem quais são as características dessa comunidade: eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. Eis os traços da comunidade formada por Cristo ressuscitado: escutar a Palavra, viver a fraternidade, participar na Eucaristia e perseverar na oração. Só neste horizonte podemos reconhecer Cristo vivo.E quando isso acontece, quando Cristo ressuscitado nos toca precisamente na dúvida, na dor, na morte e no medo, então torna-se evidente a misericórdia. Se eu estou preso às minhas certezas, procuro rigor, exclusão, uma Igreja severa. Mas se me deixo tocar pelo amor de Deus, percebo, a partir das minhas próprias fragilidades, que vivo da misericórdia. E então começo também a compreender o perdão, o amor incondicional, a superabundância da graça.Por isso, ao celebrarmos o Domingo da Misericórdia, olhemos para os lugares onde estivemos presos, para as nossas feridas, infidelidades e misérias. Tudo isso deixou marcas em nós. Mas a graça de Deus é mais forte. Cristo ressuscitado entra precisamente nesses lugares fechados e dá-nos vida. Recordemos, com gratidão, o que o Senhor fez em nós; digamo-lo com alegria; e acolhamos também todos aqueles que se deixam tocar pela misericórdia do Senhor.

II Domingo da Páscoa - Segunda Leitura

II Domingo da Páscoa - Primeira Leitura

Neste dia de Páscoa, em que celebramos a ressurreição de Jesus Cristo, talvez, se vos perguntasse qual é o acontecimento mais significativo deste dia, muitos responderiam: o compasso pascal. E, de facto, nas nossas paróquias e comunidades, homens e mulheres percorrem casas, ruas e prédios a anunciar esta boa nova: Cristo ressuscitou. Fazem, de algum modo, o mesmo que Maria Madalena: vão dizer que a pedra foi retirada. E, quando ela o diz ao discípulo amado e a Simão Pedro, acontece aquilo que o Evangelho nos mostrou: os dois correm ao sepulcro.O discípulo amado chega primeiro, vê, mas não entra. Depois chega Simão Pedro, entra, vê o sudário no chão e as ligaduras enroladas à parte. Entra, depois, o outro discípulo: vê e acredita. E, no entanto, o texto acrescenta que ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos. Eles não entendiam. E eu não sei se nós, hoje, continuamos a entender.Não podemos ignorar que muitos dos que convivem connosco não acreditam que Cristo ressuscitou. E há até pessoas que cresceram em ambientes religiosos como o nosso, pertencem às nossas paróquias, vivem a Páscoa como um belo feriado de primavera, mas não conseguem dizer, com verdade, que Cristo ressuscitou. Consideram-se descrentes. E a sua dificuldade é importante, porque nos ajuda a perceber que realizar ritos, fazer celebrações e manter tradições sem saber porquê gera vazio, gera erosão interior, e acaba por nos levar a deixar tudo isso para trás.Por isso, a grande pergunta, hoje, é esta: eu acredito que Cristo ressuscitou? Não vale dizer: “Se eu tivesse vivido no tempo de Jesus, teria visto e acreditado”. Os primeiros discípulos também tiveram dificuldade. E o que viram? Viram o vazio, o sudário, as ligaduras. Não viram uma prova; viram indícios. O corpo podia ter sido roubado. Mas aquelas ligaduras enroladas já não eram precisas, porque aquele cadáver já não estava preso à morte. Esta é a leitura da fé.A primeira leitura dá-nos uma chave decisiva: Jesus de Nazaré passou fazendo o bem. Se quisermos procurar uma razão para Deus o ter ressuscitado, talvez a encontremos aí: ele passou fazendo o bem. Por isso, o lugar onde hoje podemos ver indícios da ressurreição é precisamente este: repetir o estilo de vida de Jesus.Cristo ressuscitado não é uma verdade que entra na cabeça apenas por lógica. Não é por uma acumulação de argumentos que alguém chega à fé pascal. Por cada argumento a favor, haverá sempre outro contra. Nós acreditamos verdadeiramente na ressurreição quando a tocamos, quando a experimentamos.Pensemos, por exemplo, em quando estamos zangados com alguém e optamos por retomar o diálogo, em vez de alimentar o silêncio e a distância. Ou quando damos do nosso tempo, da nossa atenção, dos nossos recursos, para acompanhar alguém que está só, alguém que precisa apenas de ser ouvido, mesmo que repita sempre as mesmas histórias. Quando fazemos isso, não precisamos que nos expliquem que fizemos bem. Sentimos por dentro uma paz, uma alegria, uma confirmação interior. Aí há um indício de vida nova.Eles correram ao sepulcro e encontraram-no vazio. Nós corremos, no nosso dia a dia, a lugares marcados pela morte, e, pela graça de Deus, podemos encontrar aí sinais de vida. Quando vivemos como Jesus, que passou fazendo o bem, percebemos que a morte já não tem a última palavra. E então a ressurreição deixa de ser uma fórmula abstrata: torna-se uma experiência concreta.Hoje temos o mesmo problema de Maria Madalena, de Pedro e do discípulo amado: alguma coisa aconteceu, e nós não sabemos explicar tudo. Procuramos provas e encontramos indícios. Mas esses indícios são suficientes para que, guiados pela graça, cresça em nós a convicção de que Cristo ressuscitou. E afirmar isso não é repetir uma doutrina de cor; é reconhecer, no concreto da vida, que onde parecia haver morte, Deus faz nascer a vida. E, ao levarmos vida aos outros, encontramos a vida em plenitude que vem de Cristo ressuscitado.

Neste Domingo começamos a semana maior do ano litúrgico. Entramos com ramos nas mãos, com aclamações nos lábios e alegria no coração. Mas a liturgia não nos deixa ficar apenas na entrada festiva de Jerusalém: conduz-nos imediatamente à paixão, faz-nos passar dos hosanas à cruz. E porquê? Porque só assim percebemos quem é verdadeiramente Jesus: o Rei humilde, o Servo obediente, o Filho que ama até ao fim.Jesus entra em Jerusalém sem violência, sem aparato, sem poder humano. Não entra para dominar, nem para esmagar, nem para se salvar a si mesmo. Entra para se entregar. É isso que as leituras deste dia nos revelam. Na primeira leitura, escutamos a voz do Servo: “O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo”. Antes de falar, ele escuta; antes de sustentar os outros, deixa-se sustentar por Deus. E, quando chegam a humilhação, a dor e o insulto, não recua. Só pode dizer uma palavra de esperança quem primeiro aprendeu a escutar. Só pode permanecer fiel na hora difícil quem antes se deixou formar por Deus no silêncio.Depois, São Paulo mostra-nos o movimento mais profundo da vinda de Cristo: Ele desce. Não se agarra à sua condição divina como privilégio, não se impõe, não se fecha em si mesmo. Esvazia-se, humilha-se, vai até à morte, e morte de cruz. Aqui está a verdadeira grandeza de Deus: não em ficar acima de nós, mas em descer até nós; não em mostrar força, mas em revelar um amor que se dá por inteiro.E no Evangelho da paixão tudo vacila à volta de Jesus: Judas entrega, Pedro nega, os discípulos fogem, Pilatos lava as mãos, a multidão grita. Mas Jesus permanece. Permanece fiel no Getsémani, no silêncio diante das acusações e na cruz. Sofre verdadeiramente, conhece a angústia, a tristeza e o abandono, mas não recua, não responde com violência, não deixa de amar. A paixão não é apenas a história do sofrimento de um inocente: é a revelação de um amor maior, de um amor que não foge, não se vinga e vai até ao fim.Também nós, tantas vezes, somos parecidos com as figuras da paixão. Como Pedro, prometemos muito e sustentamos pouco. Como os discípulos, adormecemos quando era preciso vigiar. Como Pilatos, preferimos lavar as mãos. Como a multidão, deixamo-nos arrastar pela voz dos outros. Mas Jesus continua ali: fiel, inteiro, entregue.Por isso, celebrar o Domingo de Ramos não é apenas recordar um acontecimento passado. É deixar que a maneira como Jesus entra em Jerusalém entre também na nossa vida. Entrar com Ele na Semana Santa é aprender a escutar, a obedecer, a permanecer e a amar. Os ramos que hoje trazemos são belos, mas secam depressa. O que deve permanecer não é o ramo na mão, mas a decisão do coração. Peçamos a graça de não ficar à superfície, de não sermos apenas a multidão que aclama à entrada e desaparece depois. E, ao contemplarmos Cristo na cruz, não vejamos apenas sofrimento, mas o lugar onde o amor foi até ao fim e abriu, no meio da noite, o caminho da vida nova.

O Evangelho que acabámos de escutar é um dos mais marcantes de todo o ano litúrgico e, de modo muito particular, do tempo da Quaresma. Não por acaso, o nosso povo diz tantas vezes, quando a Quaresma já vai adiantada, que “já vamos no domingo de Lázaro”. Estamos a aproximar-nos do fim deste caminho e este Evangelho ajuda-nos a perceber, com grande profundidade, quem é Jesus Cristo para cada um de nós: Ele apresenta-Se como sinal de vida.Jesus vem cumprir aquilo que já tinha sido anunciado no Antigo Testamento. Na primeira leitura, o profeta Ezequiel fala a um povo perseguido, sofrido, exilado. E, no meio dessa dor, Deus diz: “Abrirei os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel.” Isto significa que Deus quer arrancar o seu povo da morte e reconduzi-lo à terra da salvação. A vida que o Senhor nos quer dar não é apenas uma vida biológica. É uma vida nova, uma vida de liberdade, uma vida salva.É neste horizonte que entendemos melhor a ressurreição de Lázaro. Jesus, ao ouvir que o amigo está doente, parece não ter pressa. E isso causa estranheza. Mas Jesus tem o seu tempo, e o tempo de Deus não é o nosso. O ideal seria que o nosso tempo aprendesse a ajustar-se ao tempo de Deus.Quando Jesus chega a Betânia, Lázaro já morreu. Primeiro Marta, depois Maria, vão ao seu encontro. E, diante da morte do amigo, Jesus não se perde em explicações. Jesus chora. E isto é de uma beleza imensa. Deus não está acima da nossa história, como alguém distante e exterior ao nosso sofrimento. Deus entra na nossa história com compaixão verdadeira. Deus chora connosco. Deus é solidário connosco.Depois, diante da afirmação de Marta — “eu sei que ele ressuscitará no último dia” — Jesus responde: “Eu sou a ressurreição e a vida.” Marta fala no futuro; Jesus fala no presente. E aqui está um ponto decisivo: a ressurreição que Cristo nos oferece não é apenas algo que acontecerá um dia. É uma vida nova que já começou. A vida eterna não começa apenas depois da morte; já começou.Por isso, esta Palavra convida-nos a olhar para a nossa vida e a perguntar: que lugares de morte existem em mim? Que situações de morte trago no coração? Muitas vezes são feridas, dores, situações que preferimos encerrar, como quem diz: “vamos pôr uma pedra por cima”. Mas, diante do túmulo de Lázaro, Jesus manda tirar a pedra. Não porque não pudesse fazê-lo, mas porque quer dizer-nos que também nós temos de querer remover as pedras que nos fecham por dentro. Temos de abrir os nossos túmulos e deixar vir à luz aquilo que nos aprisiona, para que o Senhor nos possa dizer: “Sai para fora.”Este é o grande desafio desta semana: que túmulos trago fechados em mim? Que pedra preciso de deslocar, para que Cristo faça em mim a sua obra de ressurreição? À medida que Lhe apresentamos as nossas mortes, Ele vai-nos curando, libertando e dando vida.Também nós acreditamos em Jesus Cristo porque fazemos a experiência de que Ele nos dá vida, e vida em abundância. A fé não pode ser apenas uma obrigação. Acreditar em Jesus deve ser uma experiência alegre, porque, no meio da dor, Ele não nos oferece explicações fáceis, mas presença; não nos deixa fechados na morte, mas conduz-nos à vida.Por isso, a pergunta decisiva é esta: que experiência de salvação fazemos nós? Em que é que o ser cristão qualifica a nossa vida, a torna mais humana, mais plena, mais livre? Talvez seja bom guardar um pouco de silêncio interior e deixar ressoar esta pergunta: de que pedras me pede hoje Jesus que me desfaça? Em que situações de morte me quer Ele dizer, já hoje: levanta-te, sai para fora? Porque a verdade é esta: se acreditamos n'Ele, então acreditamos que Jesus já nos está a ressuscitar.

O Evangelho de hoje causa-nos alguma impressão. Impressiona-nos, antes de mais, o milagre: um homem que era cego começa a ver. Mas impressiona-nos também o diálogo entre esse homem, agora curado, e os judeus. Há aqui uma tensão muito forte. Por um lado, vemos a dinâmica interior que acontece na vida daquele homem: tocado pela misericórdia de Deus, chega ao ponto de dizer: «Eu creio, Senhor.» Por outro lado, vemos a resistência dos judeus, tão presos aos seus esquemas mentais, aos seus preconceitos e à sua forma fechada de olhar a realidade, que se tornam incapazes de reconhecer a novidade de Deus no meio deles.Por isso, esta página do Evangelho é também um apelo para nós: termos um coração aberto e desperto para acolher Deus. E acolher Deus implica deixar que o Senhor ilumine a nossa vida. Aqui estamos a falar da luz. A luz é um fenómeno muito interessante: não faz barulho, não tem peso, não tem volume, e contudo tem uma característica única: permite ver, identificar e conhecer. Jesus apresenta-Se, assim, como Aquele que nos abre os olhos, Aquele que nos dá luz. E, iluminados pela sua graça, pelos seus ensinamentos e pela sua sabedoria, somos convidados a ver o mundo de maneira nova.É precisamente isso que a segunda leitura nos desafia a viver. Ser iluminado por Deus e viver como batizado é, no fundo, a mesma coisa, porque o batismo é iluminação. Não se trata apenas de procurar a luz, mas de reconhecer que, em Cristo, já não somos trevas: agora somos luz. E isto é decisivo. Não basta uma atitude passiva de quem se deixa iluminar. Isso é importante, mas não chega. É necessário também ser luz no mundo. Somos chamados a ser como candeeiros, como faróis, que ajudam a iluminar a realidade e a compreendê-la de forma esperançosa.Mas como é que se é luz? São Paulo dá-nos critérios muito concretos: «o fruto da luz está em toda a bondade, justiça e verdade.» Viver como filhos da luz é viver na bondade, na justiça e na verdade. É olhar o mundo com os olhos de Deus. E isso não de modo superficial, como quem apenas cumpre um ritual ou executa uma prática exterior, mas como alguém que foi iluminado por dentro e, por isso, já não consegue viver de outra maneira.Ora, isto é belo, mas também exigente. Porque, diante da injustiça, do erro e da falsidade, nós, que somos batizados e iluminados por Cristo, não podemos ficar indiferentes. Somos chamados a olhar o mundo com atenção e a pensá-lo segundo os critérios de Deus. Não apenas segundo o que eu acho, o que eu sinto ou o que me parece, mas segundo aquilo que, pela graça de Deus, foi purificado, moldado e convertido em nós.A primeira leitura, com a eleição de David, mostra-nos bem a diferença entre os critérios do mundo e os critérios de Deus. Samuel, ao ver um dos filhos de Jessé, pensa imediatamente: «Certamente é este o ungido do Senhor.» Mas Deus responde: «Não te deixes impressionar pela aparência nem pela elevada estatura.» Deus não olha as aparências; Deus olha o coração. E é por isso que o escolhido acaba por ser aquele que nem sequer estava entre os primeiros nomes da lista, o mais novo, aquele em quem ninguém pensava.Isto acontece muitas vezes também connosco. Quantas vezes a pessoa de quem menos esperamos é aquela que traz mais luz, mais paz, mais solução, mais harmonia para a nossa vida? Para Deus, não há pessoas de primeira nem de segunda. Há pessoas. E cada pessoa é um filho amado, digno do maior cuidado, da maior estima e da maior consideração.Talvez este seja, para nós, o grande desafio desta semana: olhar a vida, o mundo e as pessoas que estão à nossa volta como homens e mulheres iluminados por Cristo, e agir com todos segundo a bondade, a justiça e a verdade. Na medida em que tivermos com cada pessoa atitudes de bondade, justiça e verdade, seremos verdadeiramente luzeiros que iluminam a vida, a história e o mundo com a luz de Deus.

IV Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

IV Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

A Palavra de Deus que hoje escutamos coloca diante de nós um fio condutor muito claro, que nos pode ajudar a viver esta terceira semana da Quaresma: o tema da sede. Todos sabemos o que é ter sede. Já todos experimentámos essa necessidade física de água, quando o corpo pede para ser hidratado. Mas, nas leituras de hoje, a sede diz-nos mais do que isso. Fala-nos daquilo que nos habita por dentro: os nossos desejos, os nossos medos, as nossas inquietações, a nossa procura de sentido e de segurança.Na primeira leitura, o povo está zangado, triste, revoltado. Reclama com Moisés, porque sente que foi arrancado do Egito para morrer à sede no deserto. No fundo, aquilo que o povo exprime é esta suspeita dolorosa: talvez Deus já não queira nada connosco, talvez Deus nos tenha abandonado, talvez se tenha esquecido de nós. E, se formos sinceros, também nós conhecemos esta experiência. Também nós, por vezes, pensamos ou sentimos que Deus está ausente, que nos deixou sozinhos, que já não cuida da nossa vida. Esta sede, mais do que falta de água, é a falta de segurança, de proteção, de paz interior. Mas é precisamente neste contexto que Deus manda Moisés ir à frente e bater na rocha, de onde jorra água. O gesto é muito significativo: antes de o povo chegar, Deus já lá está; antes de a necessidade ser plenamente dita, Deus já preparou a resposta. Mesmo no meio das nossas reclamações, Deus vai sempre à nossa frente e continua a oferecer-nos presença, bênção e vida.É isto que São Paulo nos recorda na segunda leitura. Diz-nos que estamos em paz com Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo, e que foi quando ainda éramos pecadores que Cristo morreu por nós. A graça de Deus não é um prémio para os perfeitos, nem recompensa para quem faz tudo bem. É dom. É iniciativa de Deus. É amor que nos precede. Deus não espera que sejamos dignos para nos amar; ama-nos primeiro. E é precisamente porque nos sabemos amados e reconciliados por Deus que nos tornamos capazes de viver melhor, de procurar corresponder melhor ao seu projeto, de recomeçar entre a fidelidade e o erro, entre o acerto e a fragilidade.O Evangelho da samaritana mostra, de modo belíssimo, como Jesus vem ao encontro da nossa sede. Sentado junto ao poço, ao meio-dia, cansado do caminho, Jesus pede de beber. Isto é muito importante: Jesus não nos salva de fora, como se não conhecesse a nossa condição; salva-nos assumindo-a, entrando nela, partilhando a nossa sede. E, diante d'Ele, a samaritana responde com os seus utensílios habituais. Como se dissesse: a sede resolve-se com aquilo que sempre usei. E, no entanto, Jesus conduz esta mulher a perceber que há uma sede mais profunda, para a qual os meios habituais não chegam. Há coisas que, num primeiro momento, parecem saciar-nos, mas não nos dão a paz, a verdade e a vida que duram.A samaritana vai, pouco a pouco, tomando consciência da sua sede, das suas limitações e até da sua história ferida. E é precisamente a partir dessa fragilidade que reconhece em Jesus o Messias. O Evangelho mostra-nos, assim, que não é apesar da nossa pobreza que Deus nos visita, mas muitas vezes é através dela que mais claramente Se revela. Talvez o desafio desta semana seja este: de que sede é que eu tenho? O que é que, verdadeiramente, me falta? Com que “baldes” é que tento saciar-me? E não acontecerá, por vezes, que temos vergonha de pedir a Jesus a água viva, porque conhecemos demasiado bem a nossa própria vida? Mas o Evangelho diz-nos: não tenhas medo. Deus já sabe. E, mesmo assim, vem.Por fim, quando a vida começa a ser saciada pelo amor, pela verdade e pelo sentido que vêm de Deus, então nasce espontaneamente o testemunho. A samaritana corre a dizer que encontrou o Messias. Não porque tenha resolvido todos os problemas da sua vida, mas porque se sentiu olhada, compreendida, amada e renovada. E é isto o testemunho cristão: não marketing, nem proselitismo, mas a transparência simples e serena de quem encontrou em Deus a fonte que mata a sede da vida e da vida eterna.

III Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

III Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

Tambémesta é a nossa vocação. Somos chamados não por causa das nossasobras ou capacidades, mas segundo o desígnio e a graça de Deus. Asegunda leitura exprime-o com clareza: Ele salvou-nos e chamou-nos àsantidade não pelas nossas obras, mas pelo seu próprio desígnio. Éa sua graça que atua em nós; é o seu amor gratuito que está naorigem de tudo. Àluz deste chamamento, o Evangelho da Transfiguração ganha umatonalidade particular. O episódio acontece depois de Jesus anunciara sua paixão. Os discípulos estão perturbados: não compreendem ocaminho da cruz. É nesse contexto que Pedro, Tiago e João sobem comJesus a um alto monte. E aí Jesus transfigura-Se diante deles. Maisdo que perguntar “como foi”, importa deter-nos no sentido dapalavra. No quotidiano, quando alguém “se transfigura”, querdizer que revela o mais íntimo de si. Na Transfiguração, osdiscípulos veem para além da aparência habitual de Jesus;contemplam a sua identidade profunda. Isso provoca espanto econsolação: “Como é bom estarmos aqui!” Maseste “estar aqui” pode tornar-se tentação. Ficar no conforto daexperiência espiritual, no “quentinho” da fé, esquecendo que omonte não é morada definitiva. Jesus faz subir, mas também fazdescer. A experiência da glória não nos retira do mundo; envia-nosa ele. Subimos para contemplar, descemos para nos comprometermos. Aglória deve reorganizar o quotidiano segundo a graça. OEvangelho fala ainda de Moisés e Elias: a Lei e os Profetas. Jesus évisto transfigurado à luz da história da salvação. Também nós Ovemos transfigurado quando lemos a nossa história e osacontecimentos do mundo à luz da Palavra de Deus. Meditar a vida àluz da Palavra provoca transformação. Notexto grego surge a ideia de metamorfose. A metamorfose não ésimples mudança exterior; é transformação interior que semanifesta por fora. Talvez seja mais expressiva do que a palavra“conversão”, que pode sugerir apenas alteração decomportamentos. A metamorfose é algo que acontece no íntimo. Cadaescuta da Palavra é ocasião de metamorfose. Em linguagem paulina,trata-se de deixar o homem velho e revestir-se do homem novo. Nestecaminho quaresmal, importa fixar-nos na Transfiguração: o Senhornão nos pede nada que não esteja ao nosso alcance com a sua graça.Pede-nos uma vida boa, santa, equilibrada — e dá-nos a forçanecessária. Quandodeixamos que a Palavra se instale no coração, ela transforma-nos apartir de dentro. Por isso, quando pensamos: “Se o Senhor Setransfigurasse diante de mim, eu acreditava”, talvez devamosreconhecer que Ele já Se transfigura diante de nós. Oque nos é pedido é simples e exigente: subir ao monte. Procurar oslugares onde Deus Se torna mais próximo — a oração, a meditaçãoda Palavra, a liturgia, as obras de caridade. Estes exercíciostornam-se lugares de metanoia, de transformação interior. E,pouco a pouco, o Senhor instala-Se luminosamente no nosso coração,gerando a convicção de que Ele é bom, que nos liberta e que noscapacita a viver como filhos da luz.

II Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

I Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

A Quaresma pode soar “dura”, mas é, na verdade, um tempo fantástico: bonito, fecundo, de crescimento espiritual e de maior autoconhecimento. Inicialmente foi o tempo de preparação dos catecúmenos para o Batismo na Vigília Pascal; depois, toda a Igreja o assumiu como tempo em que nós, já batizados, recordamos o nosso Batismo e reassumimos os seus compromissos. É um tempo privilegiado para olhar quem somos — não apenas a partir da nossa perspetiva, mas sobretudo a partir da perspetiva de Deus.A primeira leitura diz algo decisivo: “O Senhor formou o homem do pó da terra e insuflou em suas narinas um sopro de vida”. Não é um texto escrito para responder à pergunta moderna “foi mesmo assim?”, mas para nos fazer perguntar: “o que é que isto significa?”. E significa isto: somos pó — frágeis, limitados, quebráveis —, mas trazemos em nós o sopro de Deus. A vida vem porque Deus sopra em nós e nos concede o Seu Espírito. Por isso, apesar da nossa fragilidade, existe em nós uma semente, um desejo de eternidade e de felicidade.O problema é quando tentamos responder a esse desejo apenas com os nossos critérios, “com a nossa cabecinha”, sem escutar Deus. Aí está, em última instância, o mecanismo do pecado: em vez de escolher Deus, escolho-me a mim mesmo como medida de tudo, como se sozinho pudesse alcançar a plenitude. E depois descubro que só Deus pode dar aquilo que eu procurava. Do pecado nasce limitação, sofrimento e dor. Mas São Paulo lembra-nos: se por um homem entrou o pecado no mundo, por um só Homem entrou a graça e a salvação — Jesus Cristo.O Evangelho mostra Jesus no deserto: “foi conduzido pelo Espírito para ser tentado”. Parece estranho, mas as tentações podem ser um lugar importante, porque revelam os nossos desejos mais profundos. Quando caímos, procuramos satisfazê-los com os nossos critérios; quando resistimos, aprendemos a respondê-los com os critérios de Deus. Por isso, no Pai-Nosso não pedimos para não haver tentações; pedimos: “não nos deixeis cair em tentação”. O exame de consciência ajuda-nos precisamente a reconhecer o que desejamos, o que nos falta, e a decidir: sigo a minha cabeça ou deixo-me guiar por Deus?Aqui ajuda a imagem do Bom Jesus do Monte. Ao subir, há um “terreiro” onde se faz uma escolha: ficar voltado para a cidade (de costas para Deus) ou voltar-se para o santuário (de costas para a cidade). É o lugar da decisão. Se escolho Deus, entro num caminho que revela beleza e sentido — até nos momentos de dor e sofrimento, onde Deus caminha connosco.As três tentações mostram isso com clareza: transformar pedras em pão (“nem só de pão vive o homem”); atirar-se do alto para “forçar” Deus (“não tentarás o Senhor teu Deus”); escolher a glória humana (“só a Deus adorarás”). E o que vence a tentação? Jesus responde sempre com a Escritura. Isto ensina-nos que o “mapa”, o GPS no meio das tentações, é a Palavra de Deus: alimento que dá critérios para conhecer Deus e para nos conhecermos a nós mesmos.No início desta Quaresma, assumimos a verdade da nossa vida: somos homens e mulheres formados do pó da terra, frágeis; mas chamados a uma vida de comunhão com Deus, vida divina, porque Ele soprou em nós. Essa vida perde-se quando voltamos as costas ao Senhor; aprofunda-se quando nos voltamos para Ele.

I Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

I Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

A primeira leitura, do livro de Ben-Sirá, começa com uma afirmação exigente: «Se quiseres guardar os mandamentos… ser fiel depende da tua vontade». Parece colocar sobre nós toda a responsabilidade entre cumprir ou não cumprir. Devemos, certamente, esforçar-nos por viver a lei de Deus. Mas o Novo Testamento recorda que Jesus Cristo não veio abolir a Lei, mas cumpri-la. E isto responde a uma convicção muito instalada em nós: a ideia de que cumprir a lei é doloroso, que custa, e que talvez fôssemos mais livres e felizes se ela não existisse. É uma leitura humana, alimentada pela nossa experiência das leis civis, tantas vezes sentidas como limitações e proibições. Porém, a lei que o Senhor dá não é para nos coagir, prender ou diminuir; é um apoio para vivermos em plenitude. Jesus não proíbe o que nos faz bem; proíbe o que nos faz mal. Até certas prescrições do Antigo Testamento, ligadas às condições de vida no deserto, tinham um intuito de cuidado e de proteção da vida: pense-se, por exemplo, em evitar alimentos facilmente corruptíveis num tempo sem refrigeração, quando a intoxicação podia ser fatal. A lei de Deus, portanto, não tem como objetivo limitar-nos, mas dar-nos vida, e vida em abundância.Contudo, Ben-Sirá diz que ser fiel depende da vontade; e a nossa vontade não é isolada: depende do que sabemos e, sobretudo, do que desejamos. Os profetas anunciaram que Deus não gravaria a sua lei apenas em pedra, mas no coração; e isso cumpre-se em Cristo, que transforma a obediência em desejo e a norma em caminho de liberdade. As mãos e os pés fazem, na verdade, o que o coração deseja. Se faço algo de que não gosto, pesa-me e cansa-me; se faço algo que amo e cujo sentido reconheço, mesmo que custe, faço-o com alegria. Veja-se o exercício físico: é exigente, mas muitos o assumem porque desejam saúde, equilíbrio, disposição. O esforço torna-se habitável quando o fim é bom. Assim também com a lei de Deus: o Senhor dá-nos a graça de desejar as coisas de Deus e a sabedoria de compreender que a sua lei não nos diminui; torna-nos mais livres e abre-nos à plenitude. Seria belo que conseguíssemos olhar a lei desta forma.Por isso Jesus aprofunda os mandamentos. «Ouvistes que foi dito aos antigos: não matarás…». Numa leitura legalista, matar seria apenas tirar a vida com uma arma ou uma faca. Mas Jesus completa: quem se encoleriza contra o irmão, quem o insulta, quem o reduz com palavras, coloca-se já no caminho do julgamento. Não se trata apenas de eliminar fisicamente; também se mata quando se fere a dignidade, quando se rouba a alegria, quando se desfigura o outro com desprezo. E esta lei, aparentemente “mais dura”, é na verdade mais verdadeira, porque revela que o mal feito ao outro repercute-se sobre mim: deformo-me quando ajo mal; edifico-me quando ajo bem. O mal contra a criação, contra a natureza, ou mesmo nos comentários agressivos nas redes, faz mal, mas também me faz mal a mim; nega a graça de Deus. Pelo contrário, quando ajo bem, deixo que a graça me planifique e me construa.Talvez então possamos dizer com verdade: «Feliz o que anda na lei do Senhor». E é importante perguntar com sinceridade: sou realmente mais feliz quando caminho com o Senhor? Se a resposta for difícil, não há escândalo: é ocasião para pensar porquê, para compreender melhor a lei de Deus e confrontar as imagens distorcidas de uma religião feita apenas de obrigações e proibições. Às portas da Quaresma, facilmente reduzimos a fé a um catálogo: «proibido comer carne», «devo fazer isto e aquilo». E pode surgir a tentação de pensar que, sem Deus, viveríamos melhor. Mas o Deus de Jesus Cristo quer dar-nos vida em plenitude. Se não o experimentamos assim, talvez estejamos a seguir ídolos, ou a projetar deformações de Deus que pedem conversão. Hoje desafio-me, e desafio-vos, a olhar a nossa relação com Deus: mais do que preocupar-nos apenas em cumprir mandamentos, peçamos a graça de desejar a beleza e a plenitude de vida que o Senhor quer dar.

VI Domingo do Tempo Comum - Evangelho

VI Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

VI Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

V Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

V Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

IV Domingo do Tempo Comum - Evangelho

IV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

IV Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

Se mais não fosse pelo gesto que fizemos antes da proclamação do Evangelho, acordamo-nos de que hoje celebramos o Domingo da Palavra. Neste domingo, a Igreja lembra-nos, de modo muito concreto, que vivemos guiados e orientados pela Palavra de Deus. Por isso, a Palavra merece de nós carinho e respeito, mas também uma curiosidade boa: ela é a narração da experiência de Deus feita por homens e mulheres ao longo da história e, inspirados pelo Espírito Santo, ensina-nos um caminho certo para fazermos, aqui e agora, uma experiência viva de Deus.Importa, porém, retirar uma ideia que às vezes nos acompanha e que pode até causar choque quando começamos a ler a Bíblia. A Escritura não conta apenas histórias “limpas” e edificantes; nela encontramos também quedas, conflitos e verdadeiras misérias humanas. E alguém pode perguntar: “Mas isto é Palavra de Deus?” Sim, porque Deus não Se revela num mundo artificial, mas na realidade concreta, com as suas sombras e contradições. A Bíblia não romantiza a existência: mostra que, mesmo quando a vida se torna dura, Deus continua presente e continua a falar, com uma palavra de esperança e de recomeço.Essa esperança é anunciada na primeira leitura. O povo vive oprimido e humilhado, como quem caminha nas trevas. E é então que o profeta ousa dizer: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz.” Esta palavra não nega a dor nem nos pede que a ignoremos. Pelo contrário, convida-nos a dar nome ao que nos faz sofrer, ao que nos oprime, ao que parece roubar vida por dentro. Este é um passo espiritual fundamental: não fugir da realidade, mas colocá-la diante de Deus, com verdade. No meio da dor, pede-se luz; e Deus não responde com evasões, responde com presença.E aqui o Evangelho faz coincidir promessa e cumprimento. A luz anunciada na Galileia concretiza-se quando Jesus vai para a Galileia: Ele próprio é a luz que Se levanta sobre os que habitam na sombra da morte. E repare-se: a luz não é um holofote virado para nós, para exibirmos virtudes ou para chamarmos atenção. A luz é para iluminar o mundo e nos ajudar a vê-lo como ele é. Por isso precisamos de deixar que o Senhor converta o nosso olhar, para vermos como Ele vê e para aprendermos a ler a vida sem ilusões, mas com esperança.Daqui nasce a necessidade de um contacto assíduo com a Palavra. Uma das tentações mais comuns é pensar que já sabemos: “Eu já li, eu já conheço, eu já sei.” Mas a Palavra de Deus não é, sobretudo, para “saber”; é para dialogar, para meditar, para nos deixar surpreender. Às vezes digo, com alguma ironia, que há alguém que sabe mais do que nós — o diabo — e, mesmo assim, isso não o conduz à vida. A liturgia dá-nos este alimento todos os dias, para que a Escritura não seja um recurso ocasional, nem apenas quando estamos bem-dispostos, nem apenas quando estamos tristes. A Palavra é um diálogo contínuo: Deus fala-nos e nós respondemos, até que a nossa vida comece, pouco a pouco, a ganhar o ritmo e o horizonte do Evangelho.O cristianismo, de resto, não é apenas “uma religião do livro”. O cristianismo é a religião de uma Pessoa: Jesus Cristo, a Palavra feita carne. Conhecer Deus não é apenas repetir informações sobre Ele; é amar e deixar-se amar. Isto implica tempo, como acontece com as relações verdadeiras. Penso que ninguém conhece melhor uma pessoa do que a sua própria mãe e, no entanto, as mães não se cansam de estar com os filhos, porque não se trata de acumular dados, mas de saborear a presença. Assim também com a Palavra: o objetivo principal não é saber mais, mas saborear a presença de Deus e deixar que essa presença nos molde, converta o coração, ilumine a inteligência e purifique o desejo. E assim, mesmo na vida real, com as suas lutas e limites, vamos aprendendo a reconhecer na nossa história a história misericordiosa de Deus, que nos ama, nos liberta e nos abre um caminho de luz. Por isso, andemos com Jesus, andemos com a Palavra: nela está a alegria que não passa e a esperança que não desilude.

III Domingo do Tempo Comum - Evangelho

III Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

III Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

O Evangelho de hoje faz-nos recordar o de domingo passado, quando celebrámos a festa do Batismo do Senhor. Agora, na versão de São João, voltamos ao mesmo acontecimento, mas com outro olhar. E pode surgir a pergunta: “Isto não se repete? Não está já dito?” A verdade é que o batismo não é apenas um episódio do passado; é uma realidade que se fez em nós e que continua a fazer-se em nós. Ser batizado é entrar num caminho, numa identidade e num projeto de vida que se vai concretizando dia após dia.Estamos também a celebrar o segundo domingo do Tempo Comum, o tempo dos paramentos verdes. Começa depois do Natal, é interrompido pela Quaresma e pela Páscoa, e retoma até ao fim do ano litúrgico. Às vezes, este tempo pode parecer um “tempo de segunda”, menos importante. Se pensássemos numa prova de ciclismo, como a Volta a Portugal, diríamos que é uma “etapa de rolar”: parece que não decide nada, parece apenas para cumprir. Na liturgia, poderíamos achar que o essencial são os tempos “roxos” da Quaresma e os tempos “brancos” do Natal e da Páscoa. E é verdade que esses tempos são belíssimos e muito intensos. Mas o Tempo Comum é decisivo, porque é no comum do dia a dia que nós nos identificamos, ou não, com o Senhor Jesus. Nos tempos fortes, tudo nos desperta e nos recorda Deus; no comum, distraímo-nos com mais facilidade.Por isso, hoje, recordar o batismo é importante. Não para o ver como uma obrigação imposta, mas como um projeto de vida sonhado e querido por Deus. A primeira leitura diz-o com força: “Tu és o meu servo, em ti manifestarei a minha glória.” E ainda: “Ele formou-me desde o seio materno.” Nós fomos escolhidos por Deus não por sermos melhores, nem por termos méritos especiais, mas porque Ele quis, porque nos amou desde sempre, porque nunca deixa de tomar a iniciativa. E depois nós respondemos. Cantámos no salmo: “Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.” E, se me permitem, tantas vezes eu sinto vontade de mudar uma palavra e dizer: “Eu venho, Senhor, para fazer a nossa vontade.” Não porque deixemos de seguir Deus, mas porque a conversão é precisamente este processo: deixar que a vontade de Deus se torne também a nossa vontade. Aquilo que Deus nos pede e sonha para nós é sempre maior e mais realizador do que aquilo que, sozinhos, conseguimos desejar.É neste contexto que a segunda leitura, no início da carta de São Paulo aos Coríntios, faz todo o sentido. Paulo saúda a comunidade com palavras que a liturgia conserva: “A graça e a paz de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam convosco.” Reparemos na ordem: a graça vem primeiro. O amor de Deus vem antes de tudo. É sempre Deus quem dá o primeiro passo. E João aponta para Jesus e diz: “Eis o Cordeiro de Deus.” Cordeiro de Deus lembra-nos o Cordeiro Pascal: a Páscoa, a libertação, a alegria de uma vida nova, plena.E a paz, para nós, não é apenas ausência de conflitos. Isso é pouco. Paz é harmonia interior: comigo, com os outros e com Deus. É a consequência da ação de Deus na nossa vida. Por isso somos capazes de viver tendencialmente em paz: aceitando quem somos, compreendendo a complexidade do mundo e até as feridas que por vezes nos chegam através dos outros, mas amando mesmo assim ao estilo de Deus, construindo pontes e laços.São Paulo diz ainda: “Aos que foram santificados em Cristo, chamados à santidade.” A santidade não é privilégio de alguns; é vocação de todos. Em Cristo, somos santos e, ao mesmo tempo, estamos a caminho de o ser de forma concreta. E assim se cumpre a promessa: “Vou fazer de ti a luz das nações.” Tornamo-nos luz quando somos homens e mulheres de paz, moldados pela graça de Deus, levando aos lugares onde estamos uma presença mais pascal, mais reconciliada e mais humana.

II Domingo do Tempo Comum - Evangelho