Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.

A Quaresma pode soar “dura”, mas é, na verdade, um tempo fantástico: bonito, fecundo, de crescimento espiritual e de maior autoconhecimento. Inicialmente foi o tempo de preparação dos catecúmenos para o Batismo na Vigília Pascal; depois, toda a Igreja o assumiu como tempo em que nós, já batizados, recordamos o nosso Batismo e reassumimos os seus compromissos. É um tempo privilegiado para olhar quem somos — não apenas a partir da nossa perspetiva, mas sobretudo a partir da perspetiva de Deus.A primeira leitura diz algo decisivo: “O Senhor formou o homem do pó da terra e insuflou em suas narinas um sopro de vida”. Não é um texto escrito para responder à pergunta moderna “foi mesmo assim?”, mas para nos fazer perguntar: “o que é que isto significa?”. E significa isto: somos pó — frágeis, limitados, quebráveis —, mas trazemos em nós o sopro de Deus. A vida vem porque Deus sopra em nós e nos concede o Seu Espírito. Por isso, apesar da nossa fragilidade, existe em nós uma semente, um desejo de eternidade e de felicidade.O problema é quando tentamos responder a esse desejo apenas com os nossos critérios, “com a nossa cabecinha”, sem escutar Deus. Aí está, em última instância, o mecanismo do pecado: em vez de escolher Deus, escolho-me a mim mesmo como medida de tudo, como se sozinho pudesse alcançar a plenitude. E depois descubro que só Deus pode dar aquilo que eu procurava. Do pecado nasce limitação, sofrimento e dor. Mas São Paulo lembra-nos: se por um homem entrou o pecado no mundo, por um só Homem entrou a graça e a salvação — Jesus Cristo.O Evangelho mostra Jesus no deserto: “foi conduzido pelo Espírito para ser tentado”. Parece estranho, mas as tentações podem ser um lugar importante, porque revelam os nossos desejos mais profundos. Quando caímos, procuramos satisfazê-los com os nossos critérios; quando resistimos, aprendemos a respondê-los com os critérios de Deus. Por isso, no Pai-Nosso não pedimos para não haver tentações; pedimos: “não nos deixeis cair em tentação”. O exame de consciência ajuda-nos precisamente a reconhecer o que desejamos, o que nos falta, e a decidir: sigo a minha cabeça ou deixo-me guiar por Deus?Aqui ajuda a imagem do Bom Jesus do Monte. Ao subir, há um “terreiro” onde se faz uma escolha: ficar voltado para a cidade (de costas para Deus) ou voltar-se para o santuário (de costas para a cidade). É o lugar da decisão. Se escolho Deus, entro num caminho que revela beleza e sentido — até nos momentos de dor e sofrimento, onde Deus caminha connosco.As três tentações mostram isso com clareza: transformar pedras em pão (“nem só de pão vive o homem”); atirar-se do alto para “forçar” Deus (“não tentarás o Senhor teu Deus”); escolher a glória humana (“só a Deus adorarás”). E o que vence a tentação? Jesus responde sempre com a Escritura. Isto ensina-nos que o “mapa”, o GPS no meio das tentações, é a Palavra de Deus: alimento que dá critérios para conhecer Deus e para nos conhecermos a nós mesmos.No início desta Quaresma, assumimos a verdade da nossa vida: somos homens e mulheres formados do pó da terra, frágeis; mas chamados a uma vida de comunhão com Deus, vida divina, porque Ele soprou em nós. Essa vida perde-se quando voltamos as costas ao Senhor; aprofunda-se quando nos voltamos para Ele.

I Domingo da Quaresma - Segunda Leitura

I Domingo da Quaresma - Primeira Leitura

A primeira leitura, do livro de Ben-Sirá, começa com uma afirmação exigente: «Se quiseres guardar os mandamentos… ser fiel depende da tua vontade». Parece colocar sobre nós toda a responsabilidade entre cumprir ou não cumprir. Devemos, certamente, esforçar-nos por viver a lei de Deus. Mas o Novo Testamento recorda que Jesus Cristo não veio abolir a Lei, mas cumpri-la. E isto responde a uma convicção muito instalada em nós: a ideia de que cumprir a lei é doloroso, que custa, e que talvez fôssemos mais livres e felizes se ela não existisse. É uma leitura humana, alimentada pela nossa experiência das leis civis, tantas vezes sentidas como limitações e proibições. Porém, a lei que o Senhor dá não é para nos coagir, prender ou diminuir; é um apoio para vivermos em plenitude. Jesus não proíbe o que nos faz bem; proíbe o que nos faz mal. Até certas prescrições do Antigo Testamento, ligadas às condições de vida no deserto, tinham um intuito de cuidado e de proteção da vida: pense-se, por exemplo, em evitar alimentos facilmente corruptíveis num tempo sem refrigeração, quando a intoxicação podia ser fatal. A lei de Deus, portanto, não tem como objetivo limitar-nos, mas dar-nos vida, e vida em abundância.Contudo, Ben-Sirá diz que ser fiel depende da vontade; e a nossa vontade não é isolada: depende do que sabemos e, sobretudo, do que desejamos. Os profetas anunciaram que Deus não gravaria a sua lei apenas em pedra, mas no coração; e isso cumpre-se em Cristo, que transforma a obediência em desejo e a norma em caminho de liberdade. As mãos e os pés fazem, na verdade, o que o coração deseja. Se faço algo de que não gosto, pesa-me e cansa-me; se faço algo que amo e cujo sentido reconheço, mesmo que custe, faço-o com alegria. Veja-se o exercício físico: é exigente, mas muitos o assumem porque desejam saúde, equilíbrio, disposição. O esforço torna-se habitável quando o fim é bom. Assim também com a lei de Deus: o Senhor dá-nos a graça de desejar as coisas de Deus e a sabedoria de compreender que a sua lei não nos diminui; torna-nos mais livres e abre-nos à plenitude. Seria belo que conseguíssemos olhar a lei desta forma.Por isso Jesus aprofunda os mandamentos. «Ouvistes que foi dito aos antigos: não matarás…». Numa leitura legalista, matar seria apenas tirar a vida com uma arma ou uma faca. Mas Jesus completa: quem se encoleriza contra o irmão, quem o insulta, quem o reduz com palavras, coloca-se já no caminho do julgamento. Não se trata apenas de eliminar fisicamente; também se mata quando se fere a dignidade, quando se rouba a alegria, quando se desfigura o outro com desprezo. E esta lei, aparentemente “mais dura”, é na verdade mais verdadeira, porque revela que o mal feito ao outro repercute-se sobre mim: deformo-me quando ajo mal; edifico-me quando ajo bem. O mal contra a criação, contra a natureza, ou mesmo nos comentários agressivos nas redes, faz mal, mas também me faz mal a mim; nega a graça de Deus. Pelo contrário, quando ajo bem, deixo que a graça me planifique e me construa.Talvez então possamos dizer com verdade: «Feliz o que anda na lei do Senhor». E é importante perguntar com sinceridade: sou realmente mais feliz quando caminho com o Senhor? Se a resposta for difícil, não há escândalo: é ocasião para pensar porquê, para compreender melhor a lei de Deus e confrontar as imagens distorcidas de uma religião feita apenas de obrigações e proibições. Às portas da Quaresma, facilmente reduzimos a fé a um catálogo: «proibido comer carne», «devo fazer isto e aquilo». E pode surgir a tentação de pensar que, sem Deus, viveríamos melhor. Mas o Deus de Jesus Cristo quer dar-nos vida em plenitude. Se não o experimentamos assim, talvez estejamos a seguir ídolos, ou a projetar deformações de Deus que pedem conversão. Hoje desafio-me, e desafio-vos, a olhar a nossa relação com Deus: mais do que preocupar-nos apenas em cumprir mandamentos, peçamos a graça de desejar a beleza e a plenitude de vida que o Senhor quer dar.

VI Domingo do Tempo Comum - Evangelho

VI Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

VI Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

V Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

V Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

IV Domingo do Tempo Comum - Evangelho

IV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

IV Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

Se mais não fosse pelo gesto que fizemos antes da proclamação do Evangelho, acordamo-nos de que hoje celebramos o Domingo da Palavra. Neste domingo, a Igreja lembra-nos, de modo muito concreto, que vivemos guiados e orientados pela Palavra de Deus. Por isso, a Palavra merece de nós carinho e respeito, mas também uma curiosidade boa: ela é a narração da experiência de Deus feita por homens e mulheres ao longo da história e, inspirados pelo Espírito Santo, ensina-nos um caminho certo para fazermos, aqui e agora, uma experiência viva de Deus.Importa, porém, retirar uma ideia que às vezes nos acompanha e que pode até causar choque quando começamos a ler a Bíblia. A Escritura não conta apenas histórias “limpas” e edificantes; nela encontramos também quedas, conflitos e verdadeiras misérias humanas. E alguém pode perguntar: “Mas isto é Palavra de Deus?” Sim, porque Deus não Se revela num mundo artificial, mas na realidade concreta, com as suas sombras e contradições. A Bíblia não romantiza a existência: mostra que, mesmo quando a vida se torna dura, Deus continua presente e continua a falar, com uma palavra de esperança e de recomeço.Essa esperança é anunciada na primeira leitura. O povo vive oprimido e humilhado, como quem caminha nas trevas. E é então que o profeta ousa dizer: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz.” Esta palavra não nega a dor nem nos pede que a ignoremos. Pelo contrário, convida-nos a dar nome ao que nos faz sofrer, ao que nos oprime, ao que parece roubar vida por dentro. Este é um passo espiritual fundamental: não fugir da realidade, mas colocá-la diante de Deus, com verdade. No meio da dor, pede-se luz; e Deus não responde com evasões, responde com presença.E aqui o Evangelho faz coincidir promessa e cumprimento. A luz anunciada na Galileia concretiza-se quando Jesus vai para a Galileia: Ele próprio é a luz que Se levanta sobre os que habitam na sombra da morte. E repare-se: a luz não é um holofote virado para nós, para exibirmos virtudes ou para chamarmos atenção. A luz é para iluminar o mundo e nos ajudar a vê-lo como ele é. Por isso precisamos de deixar que o Senhor converta o nosso olhar, para vermos como Ele vê e para aprendermos a ler a vida sem ilusões, mas com esperança.Daqui nasce a necessidade de um contacto assíduo com a Palavra. Uma das tentações mais comuns é pensar que já sabemos: “Eu já li, eu já conheço, eu já sei.” Mas a Palavra de Deus não é, sobretudo, para “saber”; é para dialogar, para meditar, para nos deixar surpreender. Às vezes digo, com alguma ironia, que há alguém que sabe mais do que nós — o diabo — e, mesmo assim, isso não o conduz à vida. A liturgia dá-nos este alimento todos os dias, para que a Escritura não seja um recurso ocasional, nem apenas quando estamos bem-dispostos, nem apenas quando estamos tristes. A Palavra é um diálogo contínuo: Deus fala-nos e nós respondemos, até que a nossa vida comece, pouco a pouco, a ganhar o ritmo e o horizonte do Evangelho.O cristianismo, de resto, não é apenas “uma religião do livro”. O cristianismo é a religião de uma Pessoa: Jesus Cristo, a Palavra feita carne. Conhecer Deus não é apenas repetir informações sobre Ele; é amar e deixar-se amar. Isto implica tempo, como acontece com as relações verdadeiras. Penso que ninguém conhece melhor uma pessoa do que a sua própria mãe e, no entanto, as mães não se cansam de estar com os filhos, porque não se trata de acumular dados, mas de saborear a presença. Assim também com a Palavra: o objetivo principal não é saber mais, mas saborear a presença de Deus e deixar que essa presença nos molde, converta o coração, ilumine a inteligência e purifique o desejo. E assim, mesmo na vida real, com as suas lutas e limites, vamos aprendendo a reconhecer na nossa história a história misericordiosa de Deus, que nos ama, nos liberta e nos abre um caminho de luz. Por isso, andemos com Jesus, andemos com a Palavra: nela está a alegria que não passa e a esperança que não desilude.

III Domingo do Tempo Comum - Evangelho

III Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

III Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

O Evangelho de hoje faz-nos recordar o de domingo passado, quando celebrámos a festa do Batismo do Senhor. Agora, na versão de São João, voltamos ao mesmo acontecimento, mas com outro olhar. E pode surgir a pergunta: “Isto não se repete? Não está já dito?” A verdade é que o batismo não é apenas um episódio do passado; é uma realidade que se fez em nós e que continua a fazer-se em nós. Ser batizado é entrar num caminho, numa identidade e num projeto de vida que se vai concretizando dia após dia.Estamos também a celebrar o segundo domingo do Tempo Comum, o tempo dos paramentos verdes. Começa depois do Natal, é interrompido pela Quaresma e pela Páscoa, e retoma até ao fim do ano litúrgico. Às vezes, este tempo pode parecer um “tempo de segunda”, menos importante. Se pensássemos numa prova de ciclismo, como a Volta a Portugal, diríamos que é uma “etapa de rolar”: parece que não decide nada, parece apenas para cumprir. Na liturgia, poderíamos achar que o essencial são os tempos “roxos” da Quaresma e os tempos “brancos” do Natal e da Páscoa. E é verdade que esses tempos são belíssimos e muito intensos. Mas o Tempo Comum é decisivo, porque é no comum do dia a dia que nós nos identificamos, ou não, com o Senhor Jesus. Nos tempos fortes, tudo nos desperta e nos recorda Deus; no comum, distraímo-nos com mais facilidade.Por isso, hoje, recordar o batismo é importante. Não para o ver como uma obrigação imposta, mas como um projeto de vida sonhado e querido por Deus. A primeira leitura diz-o com força: “Tu és o meu servo, em ti manifestarei a minha glória.” E ainda: “Ele formou-me desde o seio materno.” Nós fomos escolhidos por Deus não por sermos melhores, nem por termos méritos especiais, mas porque Ele quis, porque nos amou desde sempre, porque nunca deixa de tomar a iniciativa. E depois nós respondemos. Cantámos no salmo: “Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.” E, se me permitem, tantas vezes eu sinto vontade de mudar uma palavra e dizer: “Eu venho, Senhor, para fazer a nossa vontade.” Não porque deixemos de seguir Deus, mas porque a conversão é precisamente este processo: deixar que a vontade de Deus se torne também a nossa vontade. Aquilo que Deus nos pede e sonha para nós é sempre maior e mais realizador do que aquilo que, sozinhos, conseguimos desejar.É neste contexto que a segunda leitura, no início da carta de São Paulo aos Coríntios, faz todo o sentido. Paulo saúda a comunidade com palavras que a liturgia conserva: “A graça e a paz de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam convosco.” Reparemos na ordem: a graça vem primeiro. O amor de Deus vem antes de tudo. É sempre Deus quem dá o primeiro passo. E João aponta para Jesus e diz: “Eis o Cordeiro de Deus.” Cordeiro de Deus lembra-nos o Cordeiro Pascal: a Páscoa, a libertação, a alegria de uma vida nova, plena.E a paz, para nós, não é apenas ausência de conflitos. Isso é pouco. Paz é harmonia interior: comigo, com os outros e com Deus. É a consequência da ação de Deus na nossa vida. Por isso somos capazes de viver tendencialmente em paz: aceitando quem somos, compreendendo a complexidade do mundo e até as feridas que por vezes nos chegam através dos outros, mas amando mesmo assim ao estilo de Deus, construindo pontes e laços.São Paulo diz ainda: “Aos que foram santificados em Cristo, chamados à santidade.” A santidade não é privilégio de alguns; é vocação de todos. Em Cristo, somos santos e, ao mesmo tempo, estamos a caminho de o ser de forma concreta. E assim se cumpre a promessa: “Vou fazer de ti a luz das nações.” Tornamo-nos luz quando somos homens e mulheres de paz, moldados pela graça de Deus, levando aos lugares onde estamos uma presença mais pascal, mais reconciliada e mais humana.

II Domingo do Tempo Comum - Evangelho

II Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

II Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

Ao passarmos do tempo do Natal para o tempo comum, a liturgia faz-nos celebrar a festa do Batismo do Senhor. No Evangelho, João Batista batiza no Jordão com um batismo de penitência e de conversão, para lavar e purificar os pecados. É neste contexto que Jesus se aproxima para ser batizado. João estranha e resiste: “Eu é que preciso de ser batizado por Ti, e Tu vens ter comigo?” Mas Jesus responde: “Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça.” Aqui vê-se o projeto de vida de Jesus: Ele assume por inteiro a nossa condição humana. Por vezes imaginamos Jesus como um “super-homem”. É verdade que Jesus Cristo é verdadeiro Deus, mas é igualmente verdadeiro homem; e, para viver até ao fim a missão recebida, entra na nossa história com a densidade real da vida humana: com as suas dúvidas, escolhas e lutas interiores, com dificuldades, tentações e contradições, permanecendo fiel ao Pai até às últimas consequências.Depois do batismo, os céus abrem-se, o Espírito de Deus desce como pomba e uma voz proclama: “Este é o meu Filho muito amado, em Quem pus toda a minha complacência.” Quem é este Filho, e que Messias esperava o povo? A primeira leitura de Isaías dá-nos o retrato do Servo eleito: sustentado por Deus, cheio do Espírito, enviado para levar justiça às nações. Não se impõe pela força, nem pelo grito, nem pela violência; impõe-se pelo serviço e pela dedicação. “Não quebrará a cana já fendida” e “não apagará a torcida que ainda fumega.” A imagem é belíssima: quando a cana já está rachada e frágil, Ele não a parte; como numa candeia a azeite, quando o pavio já só fumega e já só resta um fio de brasa, Ele não apaga; guarda esperança.“Complacência” é uma palavra pouco usada, mas diz isto: o olhar de Deus com alegria, ternura e prazer, como o olhar de um pai e de uma mãe sobre o seu filho. Deus olha para Jesus e põe n'Ele toda a sua alegria e todo o seu cuidado.Ao celebrarmos o batismo de Jesus, recordamos também o nosso batismo. Muitos não se lembram, porque foram batizados em bebés, mas, mais tarde, cada um foi confirmando o seu “sim” a Cristo. Por isso, aquilo que hoje ouvimos acerca de Jesus toca a nossa identidade: também sobre nós Deus diz, no batismo, “tu és meu filho muito amado”. Aqui está o motor da vida cristã. Não somos cristãos por obrigação, por medo, nem para “fazer pontos”. Somos cristãos porque, antes de tudo, nos sabemos amados; e desse amor nasce um estilo: não levantar a voz para nos impormos, não quebrar a cana fendida, não apagar a torcida que ainda fumega.Isto é relativamente fácil com desconhecidos e com os fortes; custa mais com quem está “na mão de baixo” e, sobretudo, com os de casa, onde conhecemos as feridas e os erros repetidos. Aí, ser cristão é aprender a esperar contra toda a esperança: voltar a olhar, recomeçar, oferecer uma palavra e um gesto que não fecham a porta ao futuro. E de onde vem a força para isto? Não vem apenas das nossas energias. Vem do amor de Deus: um amor total, alegre, fiel e eterno, um amor em que Deus sente prazer só em amar-nos.Por isso, quando a liturgia nos envia, as fórmulas do Missal podem resumir tudo como programa de vida: “Glorificai a Deus com a vossa vida” e “A alegria do Senhor seja a vossa força.” Se aceitarmos, de verdade, que somos batizados a partir da experiência de sermos amados por Deus, então esse amor transforma-nos, redime-nos e liberta-nos.

Festa do Batismo do Senhor - Evangelho

Festa do Batismo do Senhor - Segunda Leitura

Festa do Batismo do Senhor - Primeira Leitura

O Evangelho de hoje, segundo São Mateus, não é apenas a narração de um episódio antigo: é a revelação de um encontro. Nele, Deus vem ao encontro de toda a humanidade e a humanidade é chamada a reconhecer Deus. Por isso, mais do que fixarmo-nos nos pormenores históricos e circunstanciais, importa escutar a mensagem que a história transporta. Aquilo que celebrámos no dia 25 de dezembro — o nascimento do Messias — manifesta-se agora como dom oferecido a todos, inclusive a homens vindos de longe, de diferentes geografias e culturas.Os Magos vêm do Oriente, do lugar onde nasce a luz. São sábios, atentos aos sinais do céu, capazes de desejar e de procurar. Contudo, para que a procura se torne verdadeiro encontro, é preciso perguntar. Eles interrogam, procuram orientação, vão junto dos sumos sacerdotes e dos escribas, isto é, junto de quem conhecia as Escrituras. A procura humana pode pressentir o caminho, mas não basta a si mesma: é necessário deixar-se conduzir pela Revelação, pelas fontes da fé, pela Sagrada Escritura e pela vida de uma comunidade que guarda e transmite essa fé. E aqui surge um contraste que deve inquietar: os que sabiam não se moveram; os que procuravam, com a indicação recebida, puseram-se a caminho. Também nós podemos saber muitas coisas sobre Deus e, ainda assim, viver sem espanto, sem curiosidade, sem desejo de ir mais além.Chegados a Belém, encontram o Menino e prostram-se em adoração. Esta é a resposta própria de quem reconhece Deus: adorar. Por isso, a Eucaristia não pode ser vivida como rotina ou mera obrigação, como se bastasse cumprir um preceito para “não pecar”. Ela é a experiência mais densa de encontro com o Senhor. Adorar em espírito e verdade é permitir que os gestos, as palavras, as fórmulas e o silêncio nos transformem por dentro, revelando quem é Deus e quem somos nós diante d'Ele; é deixar que a verdade de Deus tenha peso real na nossa existência.Depois, “voltaram por outro caminho”. A razão imediata é clara — não voltar a Herodes, que queria matar o Menino —, mas o sentido espiritual é ainda mais forte: o encontro com Jesus provoca conversão. E conversão não é apenas trocar alguns hábitos; é passar a ver o mundo, os outros e a própria vida a partir do olhar de Deus. Quando se vive mais perto do Senhor, a indiferença torna-se impossível: nasce o compromisso, o serviço, a disponibilidade para sair do conforto que nos fecha em nós mesmos, vencendo as “pantufas” do comodismo.A estrela, que os guiou, permanece como símbolo. Também nós precisamos de luzes de referência, de faróis que orientem as escolhas. A pergunta é inevitável: quais são hoje as minhas luzes? É Jesus, de facto, a luz que interpreta a realidade e conduz os meus passos, ou sigo outras promessas, outros critérios, outras urgências? Que a festa da Epifania renove em nós o desejo, o caminho, a adoração e a conversão, para que o Natal se torne vida e nos faça, também a nós, regressar por outro caminho.

Epifania do Senhor - Primeira Leitura

Segue uma versão organizada da homilia, já com pontuação e parágrafos, e a caber confortavelmente em 4000 caracteres (cerca de 3620, com espaços incluídos).Em termos litúrgicos, celebramos hoje o último dia da oitava de Natal. As grandes festas, Páscoa e Natal, têm oitava; e este último dia coincide com o primeiro dia do ano civil e com a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Desde Paulo VI, assinala-se também o Dia Mundial da Paz. À primeira vista, parecem temas dispersos, como realidades que não casam. No entanto, casam quando olhamos para Cristo.Depois da ressurreição, sempre que Jesus aparece aos discípulos, começa do mesmo modo: «A paz esteja convosco». O sinal mais perfeito de que o Ressuscitado está no meio de nós é, precisamente, a possibilidade de falar de paz e de a desejar, apesar de tudo. É verdade que, nos nossos dias, falar de paz pode soar irónico: há conflitos sociais, há guerra na Europa, há guerras no mundo; basta ligar a televisão, a rádio ou a internet. Ainda assim, faz todo o sentido: se celebramos o nascimento de Jesus Cristo, somos chamados a ser homens e mulheres de paz.A primeira leitura, do Livro dos Números, é luminosa: «O Senhor te abençoe e te proteja; o Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e seja favorável; o Senhor volte para ti o seu olhar e te conceda a paz». Muitas vezes desvalorizamos a bênção, reduzindo-a a superstição ou a uma espécie de amuleto para “correr bem”. Mas a bênção é outra coisa: abençoar é dizer bem; e deixar que a Palavra de Deus faça bem, reorganize a vida, cure o coração, abra caminhos. Quando transformamos a bênção em juízo moral, fazemo-lo muito mal: não somos juízes de ninguém; podemos, sim, bem dizer a Deus e deixar que Deus faça o seu bem em cada pessoa. Isso não se nega a ninguém.É nesta luz que se entende a segunda leitura: «Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, sujeito à Lei, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar filhos adotivos». Celebrar Maria, Mãe de Deus, é afirmar uma verdade fundamental: Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É na nossa carne e na nossa história que a salvação nos visita; é na vida concreta que podemos saborear a novidade de Deus e renovar a relação com Ele.Mas a paz tem uma ambiguidade. Pode ser paz interior, e isso é bom; porém, pode degenerar num comodismo egoísta: “eu estou em paz, não me meto com ninguém, ninguém se mete comigo”. A Escritura não diz: bem-aventurados os que apenas vivem em paz. Diz: «Bem-aventurados os construtores da paz». E aqui está a mudança decisiva: a paz não se alcança de pantufas no sofá; constrói-se quando se combate o mal nas suas formas quotidianas, quando se cuida do que se diz e do que se faz, quando se vigia a forma como nos relacionamos com os outros, no que potenciamos e no que evitamos, para que a paz aconteça.O Evangelho ajuda-nos a perceber por onde começar. Os pastores, então considerados pobres e excluídos, aproximam-se do Menino, contam o que viram e ouviram, e «todos se admiravam». Deus começa pelos que estão à margem; e talvez isso nos peça uma conversão do olhar: menos à procura de “grandes sinais” e mais atentos aos que estão ao nosso lado. A paz começa nas pequenas pontes, nos laços de proximidade, na dignidade reconhecida a quem parece não contar.No Baptismo e na Confirmação fomos ungidos com o santo crisma. O óleo deixa marca e, com o tempo, alarga-se: faz nódoa, espalha-se. Assim também a unção de Cristo, fonte da paz: onde nos colocamos, deve alargar o bem. Se cada um construir paz à sua beira, essas marcas tocam-se e a nossa textura social torna-se mais pacífica, mais harmoniosa, mais conforme à lógica do Ressuscitado. Que o Senhor nos abençoe e nos conceda a paz, fazendo de nós construtores de paz.

Há realidades da vida religiosa e da vida crente que facilmente se deixam olhar de modo idealizado, perfeccionista e até idílico, como se vivessem num plano sem rugosidades nem chão. A família é um desses lugares onde a tentação do ideal é forte: imagina-se uma “família cristã” como molde rígido ao qual todas as famílias e todas as histórias deveriam caber. Não é esse o caminho. Quando se contempla a família de Nazaré, não se recebe um modelo estreito para reproduzir, mas uma forma de viver: uma familiaridade que pode existir na família nuclear, na família alargada, nas famílias recompostas, e também em comunidades como a “família hospitaleira”, onde homens e mulheres se encontram e, por diversas circunstâncias, constroem uma casa comum.O que se entende, então, por “família” e por “familiaridade” em sentido cristão? Antes de mais, a consciência de que todos derivam do mesmo Pai, Deus, e que, por serem filhos, se devem tratar como irmãos. As primeiras comunidades cristãs diziam-no com naturalidade; hoje, por vezes, reserva-se a palavra “irmão” para contextos religiosos, esquecendo que o estilo cristão é, todo ele, um modo de viver como família de Deus. É nesse horizonte que ganha relevo o apelo paulino: suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro; como o Senhor perdoou, assim também vós. A consequência concreta de vestir o “traje” da misericórdia é um perdão real, praticado, que não fica em teoria. E, acima de tudo, como toque final, revesti-vos de caridade, vínculo da perfeição: a caridade é o elo que une de forma plena e madura.Há, porém, uma tensão que se sente no quotidiano: também se escolhe roupa para “estar na moda”, para não destoar, para se sentir integrado. Revestir-se de misericórdia e caridade pode não ser a “moda” de muitos ambientes; pode até parecer um fato antigo, como algo ultrapassado. Por isso é importante a comunidade cristã, onde, pelo menos ao domingo, se volta a ver que esse traje não está fora de tempo: há outros homens e mulheres que o vestem, e nele encontram alegria e vida plena. Ainda assim, isto exige aprendizagem; pede tempo, pede que estas atitudes se entranhem, que se tornem “carne” em quem crê.Aqui se percebe a importância insubstituível da família biológica. É nela, com o pai e a mãe, com irmãos, tios, avós, primos, que surgem as primeiras relações significativas; é aí que, idealmente, se aprende a experiência fundamental de ser amado de forma incondicional. Sem essa base, educar na fé torna-se mais difícil: se, lá atrás, não houve a experiência de amor recebido e oferecido sem cálculo, a relação com Deus pode ficar mais árdua e inquieta. Quando essa experiência existe, a receção de Deus tende a fazer-se com maior serenidade e confiança. E, a partir daí, a família cristã e a comunidade tornam-se lugar onde se exercitam, de modo continuado, laços de misericórdia, humildade, mansidão, paciência e caridade. “Suportar” uns aos outros, no sentido pleno da palavra, aprende-se também em situações concretas: quando alguém adoece, quando a fragilidade cresce, quando a mente enfraquece e o ritmo abranda, nasce o respeito e a delicadeza que permitem a paz, sustentadas pelo perdão.A Escritura, aliás, ajuda a purificar equívocos: não é legítimo invocar a religião para privilegiar homens ou mulheres. Há uma beleza particular naquela afirmação: Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade, incluindo a autoridade da mãe. A complementaridade, o lugar próprio e a imprescindibilidade de cada um não se opõem; sustentam-se. Assim se aprende a viver em família com alegria, presença inteira e confiança.

Festa da Sagrada Família - Segunda Leitura

Festa da Sagrada Família - Primeira Leitura

No Evangelho que acabámos de escutar, o prólogo do Evangelho segundo São João, encontramos uma afirmação verdadeiramente bombástica: *“O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.”* Este é o centro, o essencial daquilo que hoje celebramos no dia de Natal. Não se trata de uma frase acessória, mas do coração da nossa fé cristã.Esta verdade é tão importante que, cada vez que recitamos o Credo na Eucaristia, quando dizemos *“e encarnou”*, somos convidados a fazer um gesto especial de reverência. No dia de Natal, aqueles que puderem ajoelham-se nesse momento, para mostrar com o próprio corpo o quanto esta verdade é fundamental para nós: Deus fez-Se homem.Aqui começa a revelar-se uma tensão que muitas vezes marca a celebração do Natal. Por um lado, celebramos uma realidade profunda, central e decisiva para a vida de todos nós: Deus fez-Se carne e habitou entre nós. Por outro lado, a forma como o Natal é vivido nas famílias, nas cidades e nas vilas pode facilmente parecer uma festa infantil, ou até infantilizante. Esta tensão mostra-nos como a religião pode, por vezes, ser mal vivida ou mal compreendida, levando a uma experiência que não assume plenamente aquilo que somos enquanto homens e mulheres adultos, capazes de profundidade, de pensamento e de responsabilidade.Contudo, quando afirmamos que o Verbo Se fez carne e habitou entre nós, estamos a dizer algo imensamente profundo e exigente. Deus podia ter vindo ao mundo apenas como Deus: apresentando-Se, falando, realizando milagres. Mas não foi assim que escolheu vir. Deus veio ao mundo assumindo a nossa condição humana. Não está apenas diante de nós; está em nós. Assumiu aquilo que somos, a nossa fragilidade, os nossos limites, a nossa história.Ao assumir a condição humana, Deus passa a falar connosco a partir da nossa própria experiência. O Verbo eterno diz Deus através das nossas emoções, dos nossos sentimentos, da nossa forma humana de pensar e de compreender o mundo. Por isso, o dia de Natal é, de certa forma, o dia da sabedoria: o dia em que, a partir da nossa própria vida concreta, temos legitimidade para fazer experiência de Deus, para pensar quem Ele é e reconhecer a Sua presença no nosso quotidiano.Esta experiência não tem nada de infantil. Pelo contrário, humaniza-nos profundamente. Quando vivemos atentos à nossa vida, às nossas ações, aos nossos sentimentos e emoções, começamos a pressentir a presença de Deus. E, sem nos darmos conta, percebemos que aquilo que desejamos no mais fundo de nós — aquilo que queremos, pensamos e procuramos — é sempre uma vida plena, uma plenitude que nos transcende. Todos nós desejamos “ser como deuses”, isto é, desejamos plenitude. Podemos procurar esse desejo pela transgressão ou pela obediência.Em Jesus Cristo, Deus fala-nos em linguagem humana e mostra-nos que fomos criados à Sua imagem e semelhança. No Natal, celebramos precisamente isto: um Deus que se faz próximo, que entra na nossa história, para que, na nossa humanidade, possamos descobrir o caminho da verdadeira plenitude.

Neste quarto domingo do Advento, a liturgia conduz-nos ao mistério da concepção de Jesus no seio de Maria e, com ele, à pedagogia da história da salvação: Deus vai educando o seu povo para que reconheça a sua presença e o seu modo de salvar. A primeira leitura, do livro de Isaías, situa-se num tempo politicamente difícil. Para sustentar o rei Acaz e assegurar o seu povo, Deus convida-o a pedir um sinal; Acaz recusa, invocando uma espécie de prudência religiosa. À primeira vista, a resposta parece correcta; porém, pode esconder uma atitude de fachada: dizer o que soa bem, sem se deixar verdadeiramente interpelar por Deus. É também aqui que a Palavra nos toca, porque a tentação de “respostas certas” sem verdade atravessa a nossa vida: na relação com os outros, connosco mesmos e com Deus. Deus não pede fórmulas impecáveis; pede sinceridade, porque a verdade é sempre luminosa, mesmo quando custa.O Evangelho segundo Mateus oferece-nos uma anunciação marcada pela interioridade. Maria aparece grávida antes de viver com José. Ele tinha o direito de a expor publicamente e, desse modo, destruir-lhe a vida; contudo, porque a amava e era justo, decide repudiá-la em segredo. Em vez de vingança, escolhe proteger; em vez de humilhar, preserva. E, enquanto pensa nisto, não o vemos a discutir nem a procurar culpados; vemo-lo a meditar e a dar tempo ao acontecimento. Durante a noite, em sonho, recebe a luz de Deus: o que em Maria foi gerado vem do Espírito Santo, e José não deve temer acolhê-la. O sonho, na linguagem bíblica, indica precisamente este lugar interior onde a vida é trabalhada por Deus e onde o coração aprende a escutar.O nome é decisivo: Jesus significa “Deus salva”. José confia e compromete-se: acolhe Maria e aceita ser pai adoptivo de Jesus, dando corpo à obediência que nasce da fé. Mateus liga esta história à promessa antiga e proclama o seu sentido último: Emanuel, “Deus connosco”. O essencial permanece: Deus não salva à distância; aproxima-se, entra na nossa história e permanece connosco. Nesta última semana do Advento, importa aprender com José a criar espaço interior, apresentando ao Senhor as dúvidas e inquietações sem máscaras. Confiar não é um enfeite espiritual nem um optimismo vago: é abrir-se à palavra de Deus e comprometer-se com o caminho que ela traça, para que o Natal aconteça em nós como presença real de Deus connosco.

IV Domingo do Advento - Segunda Leitura

IV Domingo do Advento - Primeira Leitura

Na caminhada do Advento, à medida que nos aproximamos do Natal, a Igreja convida-nos a viver a espera com alegria. O terceiro domingo é, por isso, chamado Domingo da Alegria: a cor litúrgica poderia ser roxa, mas surge o rosa, como um roxo aligeirado, para indicar que já começamos a saborear a vinda do Senhor. Seria fácil fazer depender esta alegria de circunstâncias exteriores — por exemplo, de um fim de semana de sol depois de dias de chuva —, mas esse seria o mesmo equívoco que atravessa o Evangelho de hoje. João Baptista, preso e afastado, ouve falar das obras de Jesus e manda perguntar: «És Tu Aquele que há de vir ou devemos esperar outro?». Na sua expectativa, o Messias viria como juiz severo, a castigar o pecado e a fazer justiça pela via do castigo; e, no entanto, os sinais que lhe chegam revelam um Messias misericordioso. Daí a perplexidade: não é Jesus que falha, é a imagem do Messias que precisa de ser purificada.A primeira leitura, tirada de Isaías, aprofunda esta conversão através de uma aparente contradição: «Alegre-se o deserto e o descampado… floresça a terra árida… exultem e soltem brados de alegria». Como pode alegrar-se o deserto, lugar de hostilidade e de prova? Precisamente porque a alegria cristã não nasce do conforto, nem de a vida “correr bem”; nasce da confiança no Senhor, colocado no centro. Há alegrias passageiras e alegrias duradouras, conforme aquilo que, de facto, amamos. Santo Agostinho exprime-o de forma incisiva: a alegria é possuir o bem amado. Se o bem amado for apenas o êxito, a saúde ou a tranquilidade, a alegria torna-se frágil; se o bem amado for Deus, a alegria pode atravessar o luto, a perda e a adversidade. E aqui importa distinguir: euforia é exaltação momentânea; alegria é a certeza de comunhão com o Senhor, que reconfigura por dentro a maneira de viver.É por isso que Jesus não responde a João com uma definição abstracta, mas com sinais: «os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a boa nova é anunciada aos pobres». João conhecia estes sinais e reconhece, com humildade, que precisa de deixar cair a imagem que construíra na sua cabeça para acolher o Messias que Deus revela; e muitos dos seus discípulos tornar-se-ão discípulos de Jesus. O Advento coloca-nos, então, um desafio muito concreto: passamos por este tempo como quem apenas percorre um calendário, ou deixamos que ele nos converta por dentro — nos desejos, nas expectativas, naquilo que esperamos da vinda do Senhor?Esta história não terminou há dois mil anos. O anúncio do Messias continua quando, em nome de Cristo, abrimos os olhos a quem não vê, devolvemos esperança a quem está abatido e restituímos dignidade a quem foi diminuído. Também por isso vale a pena pensar nos “presentes” que oferecemos e recebemos. Um presente não é apenas um objecto: é uma oferta que nos torna presentes junto do outro; mesmo um postal, um telefonema ou uma mensagem podem transportar atenção, afecto e esperança. O Natal é isto: a vinda do Messias até nós e, ao mesmo tempo, o encargo de, como cristãos, sermos “outro Cristo”, levando o Senhor aos ambientes onde vivemos. Mas isso não é instantâneo; pede tempo e pede paciência. Santiago recorda-nos a paciência do agricultor: semeia, cuida, confia e espera. Esperar não é ficar parado nem triste; é esperar activamente, com confiança, deixando que a graça do Senhor faça florescer, mesmo em terreno árido, sinais de vida. Por isso, mesmo quando a vida parece deserto e descampado, podemos alegrar-nos: já vimos sinais de que o Senhor vem, e vem para salvar.

III Domingo do Advento - Segunda Leitura

III Domingo do Advento - Primeira Leitura

Para além de estarmos no tempo do Advento, em que a Igreja nos convida a preparar a vinda do Senhor, celebramos hoje também a solenidade da Imaculada Conceição. As duas coisas ajudam-nos a perguntar: por que é que Deus enviou Jesus Cristo ao mundo, assumindo a nossa condição humana? Fê-lo para nos salvar, para nos tornar capazes de uma vida plena, daquela felicidade que, aos olhos de Deus, é promessa universal para todos.Quando falamos de felicidade e de alegria não ignoramos que a nossa vida é muitas vezes atravessada por inquietações, erros, desânimo, más escolhas. Conhecemos bem a nossa fragilidade, os limites e o mau uso da liberdade. Por isso, como cristãos, dizemos muitas vezes que “nos esforçamos para ser santos”. Mas talvez o essencial não seja “esforçarmo-nos para ser bons por nossas forças”, e sim abrir-nos para receber a graça de Deus, que é ela própria que nos transforma, nos torna bons e fiéis.A primeira leitura fala-nos, com imagens fortes, do pecado original como incapacidade de viver totalmente disponíveis para Deus. A serpente, figura do mal, é condenada a rastejar e a comer o pó da terra, e é-nos dada aquela promessa: “Estabelecerei inimizade entre ti e a mulher; ela esmagar-te-á a cabeça e tu a atingirás no calcanhar”. O mal será derrotado, mas ficamos com o calcanhar ferido. E sabemos como custa caminhar com uma ferida no pé: é mais difícil andar na noite, nas sombras, suportar as consequências do pecado.Contudo, este ferimento não é a última palavra. Deus “do alto dos céus” abençoou-nos “com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo”. À nossa fragilidade, Deus contrapõe a superabundância da graça. É por isso que, no Evangelho, o anjo saúda Maria como “cheia de graça”: toda a sua existência foi transformada pela ação de Deus. Em atenção aos méritos futuros de Cristo, Maria foi preservada das consequências do pecado original e pôde caminhar para Deus com liberdade e paz.Para percebermos melhor, podemos recorrer a duas imagens imperfeitas, mas úteis. A primeira é a de uma mãe que ama profundamente o seu filho e, conhecendo o caminho por onde ele vai passar, cheio de pedras e obstáculos, os vai retirando para que ele possa caminhar sem tropeçar. De certo modo, foi isto que Deus fez com Maria: retirou do seu caminho tudo o que a pudesse afastar do bem. A segunda imagem é a de uma vacina. Quando somos vacinados, não desaparece a possibilidade de adoecer, mas ganhamos defesas para enfrentar a doença e superar as suas consequências mais graves. Assim também a graça de Deus na nossa vida: não nos tira a liberdade, mas dá-nos força interior para resistir ao mal e para recomeçar.Maria e Jesus não deixaram de ser livres. Poderiam ter escolhido o mal, mas, na verdade, permaneceram sempre fiéis ao bem. E aqui se joga também a nossa resposta à graça. Podemos decidir apenas apoiados nas nossas capacidades, fazendo da vida um sacrifício absurdo em que pensamos poder tudo sozinhos, ou podemos acolher o dom da encarnação: o Verbo fez-se carne para que, pela graça, participemos da própria vida de Deus. E, sendo um povo mariano, sabemos que em Maria já se realizou aquilo a que todos somos chamados, se nos deixarmos conduzir pela graça.O dogma da Imaculada Conceição pode ser visto como uma música que embala e uma força que nos empurra a viver na graça de Deus. Quando fazemos o caminho ao ritmo da música, caminhamos mais animados, mais ritmados e até mais unidos. Assim também a graça: aponta-nos o caminho, dá-nos a força para o percorrer e sustenta a nossa fidelidade nas noites escuras e nas nuvens pesadas da vida.Hoje somos convidados a olhar para Maria como ícone da meta que Deus sonha para nós. Ele deu-nos inteligência, liberdade e desejo de felicidade; pela graça, torna-nos capazes de escolher o bem, de perseverar nas decisões justas e de saborear, já neste mundo, a alegria e a paz de quem vive em comunhão com Jesus.

João Batista é uma personagem de fronteira: é o último profeta do Antigo Testamento e, ao mesmo tempo, já uma figura do Novo. No Evangelho de hoje aparece como grande destaque, batizando e convidando à conversão, isto é, a confessar os pecados e a realizar obras de arrependimento. Converter-se significa deixar para trás formas antigas e desumanas de viver e começar a viver de modo mais digno, mais de acordo com a promessa de salvação de Deus. Por isso, João denuncia com firmeza os fariseus e os saduceus, que cumpriam ritos exteriores, mas não se deixavam tocar no coração, nem se preocupavam com uma verdadeira mudança de vida.Se olharmos para eles e para aquilo que fazemos neste tempo de Advento, temos também de nos interrogar. Todas as práticas com que preparamos a vinda do Senhor estão, de facto, a provocar mudança na nossa vida? Estão a abrir em nós um lugar onde Deus possa acontecer? Ou corremos o risco de viver mais um Advento que passa por nós sem nos transformar, sem nos modificar, sem nos tornar mais disponíveis para o Evangelho?Para que o Advento seja, de verdade, tempo de preparação, São Paulo, escrevendo aos Romanos, oferece-nos uma indicação decisiva: tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução. A Palavra de Deus não é apenas informação religiosa a acumular; é instrução no sentido mais profundo, é uma força que nos molda por dentro, que nos forma segundo o desejo de Deus. Por isso o apóstolo acrescenta que, pela paciência e consolação que vêm das Escrituras, tenhamos esperança. A escuta da Palavra gera paciência e consolação, e é assim que se acende em nós a verdadeira esperança.Paciência significa aceitar que nem tudo está bem, reconhecer que em nós há coisas que precisam de mudar, sem cair no desespero nem numa agitação frenética. Deus dá, a seu tempo, a graça necessária para a transformação de que precisamos. Consolação significa experimentar já, ainda que de forma imperfeita, algo daquilo que esperamos. Quando aguardamos algo bom, de algum modo começamos a saborear por antecipação o que está para chegar. Assim também no Advento: esperamos a vinda do Senhor com paciência, mas também com consolação, sentindo e desejando em nós essa presença que se aproxima.O profeta Isaías ajuda-nos a reconhecer quem é este Senhor que vem. Fala de um rebento que brota de uma raiz humilde, sobre o qual repousa o Espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de inteligência, de conselho e de fortaleza, de ciência e de temor de Deus. Não julgará pelas aparências, nem decidirá pelo que ouviu dizer, mas julgará os pequenos com justiça e defenderá os humildes do povo. Com o “chicote da sua palavra” atingirá o violento e com o “sopro dos seus lábios” exterminará o ímpio.Estas imagens não falam de um Deus que vem para agredir ou destruir, mas de um Senhor que traz uma paz exigente. O “chicote da palavra” não é um instrumento que fere; é uma Palavra que revela o que está mal e pede correção. E o “sopro dos lábios” não é um vento que arrasa tudo, mas a força subtil do Espírito que varre de nós o que é impuro, aquilo que impede que o Natal aconteça com a intensidade que Deus deseja.Deus vem ao nosso encontro na história concreta da nossa vida. Ele acontece quando nos deixamos purificar pela sua Palavra e pelo seu Espírito. Se, neste Advento, aceitarmos esse trabalho interior de conversão, deixando que a Palavra nos corrija e o Espírito sopre sobre aquilo que em nós é velho, duro ou egoísta, então este não será apenas mais um tempo que passa: será um tempo em que Deus passa por nós e nos renova na fé, na esperança e na caridade.

Estamos a iniciar hoje o tempo do Advento, tempo que, liturgicamente, prepara o Natal. A celebração do Natal pode soar a uma notícia já atrasada, porque, se andarmos pelas ruas – sobretudo à noite – vemos que já está tudo iluminado; quando vamos às lojas, deparamo-nos com as decorações de Natal. Socialmente, o tempo de preparação começa muito mais cedo.Porquê? Porque aí vigora outra lógica – legítima e válida – a lógica do comércio e do consumo, que faz antecipar tudo. E nós vivemos neste mundo, mas com o coração e com os olhos postos em Deus. Este é o grande desafio que o Advento coloca a cada um de nós.No Evangelho, o Senhor convida-nos a estar vigilantes e recorda os dias de Noé: casavam, davam-se em casamento, comiam, bebiam, viviam a sua vida normal, até que veio o dilúvio… e eles não deram por nada. O que é que o Evangelho nos quer dizer?Aquilo que fazemos – o nosso trabalho, a vida familiar, os amigos, as diversões – faz parte da existência e não tem mal nenhum; é bom que assim seja. O que é mau é vivermos tudo isso como distração, sem termos o coração e os olhos postos no Senhor. As ocupações do dia a dia, os filmes que vemos, aquilo que apreciamos, não têm nada de mal; o mal está em nos deixarmos distrair do essencial, em perdermos o desejo de encontrar a Deus.Aqui está o ponto: desejar encontrar Deus em cada circunstância e lugar. E, para isso, precisamos de incorporar em nós esta profecia de Isaías: “Vinde, subamos ao monte do Senhor; Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas.”Este texto não é apenas memória do passado; diz o que, para mim, é essencial e desejável como o melhor que pode acontecer: “Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas. De Sião há-de vir a Lei e de Jerusalém a palavra do Senhor. Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se hão-de preparar para a guerra.”Isto mostra a forma como quero estar no mundo: alcançar as coisas não pela violência, não pela guerra, mas pelo compromisso, pelo trabalho, por aceitar aquilo que a terra e o esforço podem dar e viver dignamente. Não levantar a espada nem preparar a guerra, mas ser pacífico, viver de forma harmoniosa, inteira, no nosso convívio humano.Aqui está uma ideia que nos pode ajudar a preparar o Advento: ter prazer em estar com os outros, em viver em ambientes de paz, harmonia e concórdia. Se nos deixarmos conduzir por este desejo de paz e de prazer bom em estar com os outros, havemos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que esses ambientes aconteçam.São Paulo, na segunda leitura, concretiza ainda mais: “A noite vai adiantada e o dia está próximo. Deixemos as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz.” Quais são as obras das trevas? Orgias e bebedeiras, devassidões e libertinagens, discórdias e ciúmes. Isto podemos fazer e sentir; o problema está em saber se queremos ficar ali ou sair dali.Será que gasto tempo com ciúmes, discórdias, devassidões, libertinagens? Ou procuro viver de tal maneira que aquilo que sou e vivo possa ser mostrado diante da luz? Aquilo que se pode mostrar à luz é o que me significa, organiza e faz de mim um homem ou uma mulher mais autêntico, mais pleno.Por isso, neste tempo de Advento – tempo curto, o Natal chega depressa, mas em que a noite vem mais cedo e temos mais ocasião de recolhimento – talvez fosse bom olharmos para nós mesmos e perguntarmo-nos o que é que realmente desejamos.Por exemplo, podemos pensar: “O que é que eu quero que Jesus me dê?” Está a chegar o tempo dos presentes. Então vamos pedir: eu quero que Jesus me dê uma vida harmoniosa, uma vida serena e uma vida alegre.Uma vida harmoniosa, serena e alegre pode parecer uma coisa simples, mas hoje é difícil de conseguir. No entanto, quando a alcançamos, já não queremos outra coisa, porque, na serenidade, na harmonia e na alegria, fazemos uma experiência de encontro com Deus.

I Domingo do Advento - Segunda Leitura