Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.

Na semana passada, refletimos sobre o valor e o significado que a palavra «Deus» tem na nossa vida. Hoje, essa mesma palavra convida-nos a pensar no Reino de Deus e a compreender que a conversão a Jesus consiste, precisamente, em acolher em nós a dinâmica do seu reinado.Converter-se não é apenas mudar alguns comportamentos exteriores. É aprender a viver segundo a lógica de Deus, deixando que a sua graça transforme os nossos critérios, os nossos afetos e as nossas escolhas. Mas, para que isso aconteça, é necessário desejar a conversão, querê-la verdadeiramente e deixar que esse desejo se inscreva no coração.Podem impressionar-nos os grandes monumentos, as manifestações religiosas, os templos, os rituais ou as obras grandiosas realizadas ao longo da história por homens e mulheres de fé. Tudo isso pode despertar em nós o desejo de Deus. Contudo, se ficarmos apenas pela aparência, permaneceremos muito longe do essencial.A fé bíblica ensina-nos que Deus está presente no mundo e se dá a conhecer através da sua Palavra. Sem olhos e coração educados pela escuta, pela meditação e pela graça, podemos não reconhecer os sinais de Deus e até interpretar de modo errado as próprias manifestações religiosas.O povo de Israel conheceu, no Egito, uma religião imponente: templos grandiosos, rituais organizados e sinais visíveis de poder. Ainda hoje permanecem monumentos dessa civilização, como as pirâmides. Mas uma religião que se limita ao esplendor exterior corre o risco de permanecer epidérmica: impressiona os sentidos, mas não converte o coração.Para entrar verdadeiramente em nós, Deus dá-nos a sua Palavra. A semente lançada no coração é a Palavra que desperta o desejo de uma vida nova, segundo a beleza, a verdade e a bondade que Deus nos revela. O Senhor, porém, não pode mostrar-nos essa beleza se não nos demorarmos a escutá-lo.Escutar a Palavra exige que convoquemos tudo aquilo que somos: a inteligência, a memória, a experiência e a vontade. O conhecimento começa muitas vezes por uma pergunta: o que significa isto? Porque acontece assim? Onde está Deus nesta situação? Depois procuramos compreender, reunimos informação, escutamos, refletimos e formamos uma convicção.Mas o conhecimento autêntico não pode ficar reduzido a uma mera opinião. Aquilo que reconhecemos como verdadeiro deve gerar uma decisão, uma prática e uma mudança de vida. No campo da fé, essa aprendizagem chama-se conversão. Não basta saber; é preciso escolher e agir em conformidade.Por isso, o cristão não deve ter medo das perguntas. A fé não elimina a inquietação; orienta-a. Podemos interrogar Deus diante da morte, da doença, da injustiça ou da catástrofe. Podemos até reclamar com Ele, como fazemos com os amigos. A Sagrada Escritura está cheia dessas perguntas. O importante é não fechar o coração, mas continuar a escutar, a discernir e a procurar o que o Senhor nos ensina.Quando acolhemos a dinâmica do Reino, tornamo-nos mais comprometidos, mais compassivos e mais pacientes. Compreendemos que a realidade não é simplesmente branca ou preta. O trigo e o joio crescem juntos no mundo e também dentro de nós. Nem tudo o que é imperfeito deve ser arrancado imediatamente, porque, na ânsia de eliminar o joio, podemos destruir também o trigo.Esta consciência torna-nos misericordiosos connosco próprios e com os outros. Aprendemos a respeitar os tempos de crescimento, a confiar na ação de Deus e a colaborar com a sua graça. O Reino de Deus já está entre nós, não porque tudo seja perfeito, mas porque a verdade, a beleza e a bondade já começam a acontecer.Alimentados pela Palavra e fortalecidos pela graça, recebemos a coragem para nos comprometermos, com esperança, na construção de um mundo mais humano, mais justo e mais fraterno.

XVI Domingo do Tempo Comum - Evangelho

XVI Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

XVI Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

A Palavra de Deus ocupa hoje o centro da liturgia. Quando falamos da Palavra de Deus, pensamos muitas vezes apenas na Bíblia. Mas a Palavra de Deus é mais do que um livro: a Sagrada Escritura, lida na Tradição viva da Igreja, conduz-nos até Jesus Cristo, que é a Palavra de Deus feita carne.Podemos cair em dois extremos. O primeiro é pensar que a Palavra de Deus é apenas mais uma palavra entre tantas vozes que ouvimos todos os dias. O segundo é imaginá-la tão distante e misteriosa que nunca a poderemos compreender. A verdade é outra: a Palavra de Deus é uma palavra humana na qual Deus Se diz. Deus fala-nos através de palavras humanas para entrar em diálogo connosco e transformar a nossa vida.Vale a pena perguntar: tenho verdadeiramente fé na Palavra de Deus? Ou procuro nela apenas um consolo para os momentos difíceis? A Palavra não nos é dada apenas para confortar, mas para nos converter, para nos tornar aquilo que Deus sonha para cada um de nós.Isaías oferece-nos uma imagem belíssima: «Assim como a chuva e a neve descem do céu e não voltam para lá sem terem regado a terra, assim acontece com a palavra que sai da minha boca: não voltará para Mim sem ter produzido o seu efeito.» A questão é esta: a Palavra produz efeito em nós?Todos sabemos como determinadas palavras permanecem na nossa memória. Uma palavra de carinho enche-nos de alegria; uma palavra dura pode ferir-nos durante muito tempo. As palavras significativas acompanham-nos, ocupam o coração e transformam a nossa maneira de olhar a realidade. Assim acontece também com a Palavra de Deus: ela só produz fruto quando a guardamos, a meditamos e a deixamos habitar em nós.O Evangelho compara a Palavra à semente. A semente é pequena, quase insignificante, mas está cheia de vida. Quando encontra terra boa, torna-se planta, árvore, fruto abundante. Também a Palavra de Deus pode parecer discreta perante tantas mensagens que diariamente nos rodeiam, mas possui uma força de vida incomparável.Precisamente porque comunica vida, a Palavra desafia-nos. Desinstala-nos, tira-nos da mediocridade e convida-nos a dar passos que talvez não estivéssemos dispostos a dar. Por vezes dizemos: «Não entendo a Palavra de Deus.» Mas será sempre falta de compreensão? Ou será, por vezes, resistência ao caminho novo que ela nos propõe?Quando deixamos que a Palavra atue, ela não nos anestesia. Pelo contrário, torna-nos mais atentos, mais sensíveis, mais humanos. Faz-nos perceber melhor aquilo que desumaniza, aquilo que precisa de ser mudado, e desperta em nós o desejo de uma vida mais plena.É neste sentido que São Paulo afirma que os sofrimentos do tempo presente não se podem comparar com a glória que há de manifestar-se em nós. A conversão pode implicar algum desconforto, porque abandonar hábitos, corrigir atitudes e recomeçar nunca é fácil. Mas trata-se de uma dor fecunda, que prepara uma vida nova.Deus não nos olha para nos condenar. Olha-nos como filhos muito amados, chamados à plenitude da vida. É por isso que nos dirige a Sua Palavra: para que cresçamos, amadureçamos e demos fruto.Perante este Evangelho, fica uma pergunta para cada um de nós: que espécie de terra sou eu? Um coração endurecido e fechado, ou uma terra fértil, disponível para acolher a semente da Palavra de Deus e deixar que ela produza fruto abundante?

XIV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

XIV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

XIV Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

O Evangelho deste domingo parece particularmente oportuno para o tempo que estamos a viver. O calor intenso, as noites mal dormidas, o cansaço acumulado e até a preocupação causada pelos incêndios fazem-nos compreender melhor o convite de Jesus: «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.» Contudo, logo a seguir, Jesus acrescenta algo que, à primeira vista, parece contraditório: «Tomai sobre vós o meu jugo.» O jugo é, precisamente, o instrumento colocado sobre os animais para transportarem cargas. Como pode o Senhor prometer descanso e, ao mesmo tempo, pedir que tomemos um jugo? A imagem é profundamente esclarecedora. O jugo não serve apenas para suportar um peso; serve para o transportar da forma mais adequada, permitindo alcançar o maior resultado com o menor esforço. O jugo de Cristo não elimina as exigências da vida, mas ensina-nos a vivê-las de modo diferente: com a leveza de quem sabe que é amado incondicionalmente por Deus. Descansar, no sentido cristão, não significa simplesmente interromper a atividade. Descansar é reencontrar a nossa verdadeira humanidade. O descanso diário, semanal ou anual existe para nos retemperar, para recuperarmos a qualidade de vida a que somos chamados como filhos de Deus. É um tempo de harmonização interior, em que procuramos reconciliar aquilo que desejamos, aquilo que sentimos, aquilo que sabemos e aquilo que somos chamados a fazer. Por isso compreendemos melhor a primeira parte do Evangelho, quando Jesus louva o Pai por revelar estas verdades aos pequeninos. A vida de fé nasce da consciência de que precisamos de Deus. Conhecemo-Lo não porque acumulamos teorias ou leituras, mas porque nos deixamos amar por Ele. O verdadeiro conhecimento de Deus nasce da experiência do seu amor. Também a segunda leitura, da Carta aos Romanos, ilumina esta realidade. São Paulo distingue entre as obras da carne e as obras do Espírito. Muitas vezes reduzimos as «obras da carne» apenas aos pecados ligados à sexualidade. Mas Paulo fala de algo muito mais profundo: viver segundo a carne é viver dominado pela autossuficiência, pela arrogância, pela inveja e pelo fechamento sobre si mesmo. Quando estamos demasiado cheios de nós próprios, já não há espaço para Deus nem para os outros. Acabamos por nos destruir a nós mesmos. Viver segundo o Espírito significa deixar que a nossa vida seja animada pelo amor de Deus. As tarefas podem ser exatamente as mesmas, mas a forma de as realizar muda completamente. Já não nos colocamos no centro; deixamos que seja Deus o centro da nossa existência. É esta a paz anunciada pela profecia de Zacarias. O Messias entra humildemente, montado num jumentinho, e destrói os carros de combate e os arcos da guerra. A paz que Deus oferece não elimina todas as dificuldades da vida, mas transforma a maneira como as enfrentamos. Sabemos que Deus está verdadeiramente presente quando a paz habita as nossas comunidades, quando nos respeitamos, quando reconhecemos em cada pessoa não apenas um indivíduo ou um crente, mas um filho amado de Deus. Se vivermos com esta consciência, procurando agir segundo o Espírito, construiremos comunidades mais humanas, mais fraternas e mais pacíficas. Então compreenderemos o verdadeiro sentido do descanso de que Jesus fala. As ondas de calor poderão continuar, as dificuldades não desaparecerão, mas haverá dentro de nós e entre nós uma paz que nos permitirá viver tudo isso de maneira diferente, sustentados pelo amor de Deus.

XIV Domingo do Tempo Comum - Evangelho

XIV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

XIV Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

A liturgia da Palavra deste domingo convida-nos a olhar para a nossa vida e a meditar na nossa condição de filhos de Deus. Rezámos na oração coleta que, por adoção divina, Deus nos tornou filhos da luz. Isto significa que somos chamados a ver o mundo com a luz de Cristo. A realidade nem sempre muda; o que muda é a nossa forma de a compreender, de a habitar e de interagir com ela.É neste horizonte que escutamos a primeira leitura, do Segundo Livro dos Reis. Eliseu é acolhido por uma mulher de Sunam, que o convida a entrar, lhe oferece uma refeição e reconhece nele a passagem de Deus pela sua vida. Por isso, decide preparar-lhe um pequeno quarto, um lugar onde o profeta pudesse repousar quando por ali passasse. Este gesto simples mostra-nos algo essencial: acolher Deus é acolher aquele que passa pela nossa vida, aquele que está ao nosso lado, aquele de quem o Senhor se serve para se tornar presente entre nós.Quando acolhemos Deus, tornamo-nos homens e mulheres novos. Renasce em nós uma vida diferente, uma vida mais plena, orientada pelos valores do Evangelho. Na primeira leitura, esse acolhimento gera vida: «Daqui a um ano, terás um filho nos braços». No caso daquela mulher, trata-se de vida biológica; em nós, trata-se de uma vida nova, uma vida que se reorganiza segundo Deus.É também assim que devemos compreender as palavras fortes de Jesus no Evangelho: «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim não é digno de Mim; quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim não é digno de Mim». À primeira vista, estas palavras podem parecer duras, quase uma oposição entre Deus e a família. Mas não é isso que o Senhor nos diz. Ele recorda-nos que o primeiro amor deve ser Deus; e que todos os outros amores encontram nele a sua justa medida. Quando outro amor ocupa o lugar de Deus, esse amor pode transformar-se em ídolo e desordenar a vida. Quando Deus é o amor primeiro, o amor à família, aos amigos e ao próximo não diminui; pelo contrário, purifica-se, aprofunda-se e torna-se mais verdadeiro.Amar a partir de nós é muitas vezes procurar no outro aquilo que nos falta. Amar a partir de Deus é desejar para o outro a plenitude da vida. Isto é mais exigente, não menos. Exige entrega, liberdade interior e conversão. Por isso, Jesus acrescenta: «Quem encontrar a sua vida há de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa há de encontrá-la». Quem procura salvar a vida apenas segundo os seus cálculos acaba por desperdiçá-la; quem a entrega a Cristo descobre nela uma fecundidade nova.Mas esta radicalidade não se manifesta apenas em gestos heroicos. O Evangelho termina com uma imagem muito simples: «Quem der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, não perderá a sua recompensa». As grandes exigências de Deus concretizam-se nas pequenas coisas de cada dia: dar um copo de água, abrir uma porta, deixar passar alguém à frente, não responder à violência com violência, ser delicado à mesa, escutar com atenção, ajudar quem precisa de uma informação, tratar com bondade até quem não conhecemos.Também a cruz de que Jesus fala não é um convite ao sofrimento pelo sofrimento. Tomar a cruz é assumir a vida concreta, com as suas alegrias e dificuldades, com as suas feridas e possibilidades, e fazer dela o lugar do encontro com Deus. É nas pequenas fidelidades do quotidiano que somos moldados como discípulos.Assim compreendemos melhor que a Igreja é sacramento universal de salvação: sinal eficaz da graça de Deus no mundo. Também a nossa vida, quando iluminada por Cristo, pode tornar-se sinal de salvação. Peçamos, pois, a graça de acolher Deus nas pessoas e nos acontecimentos, de o amar sobre todas as coisas e de organizar a nossa vida segundo esse amor que gera vida, e vida em plenitude.

XIII Domingo do Tempo Comum - Evangelho

XIII Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

XIII Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

Um dos temas centrais da Liturgia da Palavra de hoje é o testemunho. O testemunho é natural na vida de qualquer pessoa e, por maioria de razão, na vida de um cristão. Contudo, a nossa linguagem e prática eclesial acabam, por vezes, por o deturpar. Dizemos, por exemplo: «Vou dar testemunho». Mas o testemunho, em rigor, não se dá; o testemunho é-se.Ser testemunha não consiste em preparar um discurso para convencer alguém, como se a fé fosse uma técnica de marketing ou de publicidade. O testemunho é a própria forma de existir. Na maneira como vivemos, falamos, escolhemos e nos relacionamos, manifestamos aquilo que ocupa o centro da nossa vida, quais são as nossas prioridades e qual é a razão pela qual consideramos que vale a pena existir. Ser cristão é, por isso, ser testemunha. Não temos de nos preocupar, em primeiro lugar, em dar testemunho; temos de procurar ser discípulos de Jesus Cristo.A primeira leitura apresenta-nos Jeremias, um homem perseguido, incompreendido e ameaçado por permanecer fiel à missão que Deus lhe confiara. No meio da perseguição, porém, ele reconhece: «O Senhor está comigo como herói poderoso». Esta é também uma das grandes dificuldades da vida cristã: muitas vezes sentimo-nos sozinhos. E sentimo-nos sozinhos porque talvez já não prestemos atenção suficiente à presença de Deus ou porque nos isolamos, pensamos apenas a partir de nós próprios e esquecemos que pertencemos a uma comunidade.Deus fala-nos também através dos irmãos e das irmãs que connosco vivem a fé. Por isso, é tão importante estar inserido numa comunidade: nela encontramos mediações de Deus que nos recordam, alentam, confortam e, quando necessário, também nos despertam e corrigem.Perante o sofrimento, podemos pensar que o mal vence. São Paulo, na segunda leitura, não ilude a realidade: o mal e o pecado existem, e todos sentimos as suas consequências. Mas o mal não tem a última palavra. Mais forte do que o pecado é a graça; mais forte do que a nossa fragilidade é a fidelidade de Deus.No Evangelho, Jesus reafirma esta certeza: Deus está presente, sustenta-nos e conhece-nos profundamente. «Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.» Esta imagem diz-nos que nenhum aspeto da nossa vida é insignificante para Deus. Podemos não nos conhecer plenamente nem reconhecer as feridas e os medos que nos habitam. Deus, porém, conhece-nos e não nos abandona. Por isso, podemos confiar n'Ele e deixar que a nossa vida, com o desejo sincero de seguir Jesus Cristo, se torne testemunho do seu amor.É importante, contudo, não confundir testemunho com exemplo. O exemplo apresenta frequentemente alguém irrepreensível, acabado, quase inacessível. O testemunho cristão não consiste em afirmar: «Eu faço tudo bem». Consiste antes em reconhecer: «Eu apoio-me na força de Deus; confio na sua graça». Muitas vezes falhamos, somos infiéis e não correspondemos ao discípulo que Jesus espera. Mas o essencial é desejarmos segui-Lo e confiarmos mais na sua misericórdia do que nas nossas capacidades.Por isso, às vezes, é precisamente quando as coisas correm mal que o testemunho se torna mais verdadeiro. Quando tudo parece contrário e, apesar disso, conseguimos dizer: «Deus está aqui; Deus sustenta-me; Deus ampara-me», então a nossa vida aponta para além de nós.Bento XVI definiu de modo admirável o testemunho cristão: somos testemunhas quando, através das nossas ações, das nossas palavras e do nosso modo de ser, é Outro que se manifesta. Não somos testemunhas quando atraímos a atenção para nós, mas quando apontamos para Jesus Cristo, para Deus e para a sua graça.Não precisamos, portanto, de nos apresentar como pessoas impecáveis. Se o fizéssemos, não seríamos testemunhas, mas mentirosos. Somos testemunhas quando podemos dizer, com verdade e humildade: «Sou frágil, falho muitas vezes, mas Deus trabalha em mim». Esta certeza liberta-nos do peso de parecermos perfeitos e permite-nos viver a fé com mais confiança, mais verdade e mais alegria.

© Mark Wallinger. Courtesy the artist and Hauser & Wirth. Se calhar, ainda estou muito marcado pela solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que celebrámos na passada sexta-feira. Mas, ao escutar as leituras de hoje, não consigo deixar de ver nelas a mesma verdade fundamental: a paixão de Deus por cada um de nós, o amor gratuito, excessivo e misericordioso com que Ele nos ama.Muitas vezes, porém, crescemos com uma imagem deturpada de Deus: “porta-te bem para Jesus gostar de ti”, “faz isto para Deus gostar de ti”, “não faças aquilo, senão Deus deixa de gostar de ti”. São frases que parecem piedosas, mas estragam a nossa relação com Deus, porque nos fazem pensar que o seu amor tem de ser comprado, merecido ou conquistado.A primeira leitura mostra exatamente o contrário. Deus diz a Israel: “Vistes o que Eu fiz ao Egito, como vos transportei sobre asas de águia e vos trouxe até Mim.” Primeiro, Deus liberta. Primeiro, Deus chama. Primeiro, Deus faz o bem. Só depois propõe a aliança e convida o povo a viver de acordo com essa experiência de libertação. A obediência não é o preço do amor de Deus; é a resposta agradecida de quem já foi amado.São Paulo diz o mesmo de forma ainda mais forte: “Quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios.” Cristo não morreu por nós quando já éramos santos, perfeitos ou merecedores. Morreu por nós quando éramos fracos, pecadores, incapazes de nos salvar a nós mesmos. É esta a loucura de Deus: Ele ama-nos antes de qualquer mérito nosso. Podemos ser frágeis, incoerentes, uns pequenos diabinhos; mesmo assim, Deus não deixa de nos amar.O Evangelho concretiza esta verdade. Jesus vê as multidões e enche-se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor. Jesus não começa por julgar, criticar ou condenar. Começa por se comover. Começa por sofrer com o sofrimento dos outros. E depois envia os discípulos. Isto é decisivo: ser cristão não é, antes de tudo, saber muitas coisas ou fazer muitas atividades. Ser cristão é participar na compaixão de Deus.A pastoral, a oração, a Eucaristia, a vida cristã inteira deveriam nascer desta certeza: Deus ama-nos. Se rezamos, celebramos e servimos, não é para comprar Deus, nem para o convencer a olhar para nós. É porque já fomos olhados, amados e alcançados pela sua misericórdia. A conversão começa aqui: deixar os nossos esquemas humanos, marcados pelo cálculo, pelo medo e pela recompensa, e aprender a mentalidade de Jesus Cristo.Por isso, Jesus diz: “Não sigais o caminho dos gentios.” Isto quer dizer: não entreis na lógica do mundo, na lógica do interesse, da troca, do prestígio ou da recompensa. Ide aos que estão perdidos, anunciai que o Reino dos Céus está próximo, curai, levantai, libertai. O amor recebido de Deus torna-se amor oferecido aos outros.Podemos chamar a isto um estilo samaritano, uma espiritualidade hospitaleira. Ser hospitaleiro é acolher o outro na sua diferença, sem o julgar nem o reduzir ao que eu penso dele. É dar-lhe não apenas aquilo que eu acho que ele precisa, mas aquilo de que ele efetivamente precisa. E isto vale também para Deus. Acolher Deus é acolher o diferente, Aquele que não cabe nos nossos esquemas. Não há ninguém mais diferente de nós do que Deus.Por isso, deixar-se amar por Deus é fácil e difícil. É fácil, porque a nossa vida está cheia de sinais do seu amor. Mas é difícil, porque temos orgulho, feridas, medos e histórias que nos tornam desconfiados diante de uma bondade tão grande.O Evangelho termina com uma frase luminosa: “Recebestes de graça; dai de graça.” Recebeste como dom; oferece como dom. Dar de graça é dar sem esperar aplauso, resultado ou reconhecimento. É cumprir a vontade de Deus sem esperar recompensa que não seja fazer a sua vontade.Humanamente, isto é difícil. Precisamos de reconhecimento e cuidado, também connosco próprios. Mas a raiz da vida cristã permanece esta: antes de tudo, fomos amados gratuitamente por Deus. E é dessa gratuidade recebida que nasce a gratuidade oferecida.

XI Domingo do Tempo Comum - Evangelho

XI Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

XI Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

X Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

X Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

Domingo da Santíssima Trindade - Homilia

Domingo da Santíssima Trindade - Evangelho

Domingo da Santíssima Trindade - Segunda Leitura

Domingo da Santíssima Trindade - Primeira Leitura

Ao celebrarmos a solenidade dePentecostes, com a qual encerramos o tempo pascal, tomamos consciência de umaconsequência decisiva da Páscoa: o Senhor ressuscitado concede-nos o EspíritoSanto e confia à Igreja a missão de evangelizar. “Assim como o Pai Me enviou,também Eu vos envio a vós.” A Igreja reconhece aqui a sua origem e a sua razãode ser: continuar, no mundo, a missão de Cristo.Mas esta missão não se realizaapenas com as nossas forças, capacidades ou qualidades. Assim como o Espíritoguiou Jesus Cristo, também agora guia a Igreja. Somos enviados, sim, masenviados com a força do Espírito Santo.Impõe-se, então, perguntar: que éo Espírito Santo? Poderíamos fazer uma longa reflexão teológica. Mas oEvangelho ajuda-nos de modo mais simples: Jesus “soprou” sobre os discípulos edisse-lhes: “Recebei o Espírito Santo.” Este gesto remete-nos para a criação,quando Deus soprou no ser humano o sopro da vida. Agora, Cristo ressuscitadosopra de novo. É como uma nova criação. Já não vivemos apenas animados pelavida biológica; somos chamados a viver animados pela vida que vem do Espírito.E como sabemos que esse sopro nosanima? O sopro, como o vento, não se vê diretamente. Vemos os seus efeitos.Olhamos para as árvores e percebemos que há vento porque as folhas se movem eos ramos se inclinam. Assim acontece com o Espírito Santo. Não o vemosdiretamente, mas reconhecemos a sua presença pelas consequências que provoca nanossa vida, na comunidade e na Igreja.Se sou dominado pelo medo ou,pelo contrário, encontro coragem para anunciar Jesus Cristo, que sopro meanima? Se vivo centrado em mim, nos meus interesses e apetites, ou se medescentro de mim para cuidar do outro, que sopro me conduz? Se a minha opçãopor Cristo é vivida por obrigação, ou se nasce de uma alegria profunda e de umaserenidade interior, então posso perguntar-me: é o Espírito que me anima, ou éoutra coisa?Quando o Senhor constitui aIgreja e a envia, concede-lhe o Espírito Santo. E isso tem consequênciasconcretas. A vida no Espírito manifesta-se em carismas e vocações. Os carismassão dons que Deus concede à sua Igreja para o bem dos outros. Não sãopropriedade privada, nem instrumentos de afirmação pessoal. Também osministérios, incluindo o ministério ordenado, existem para o serviço. Se aquiloque recebemos não promove a vida em Cristo nos outros, então não está a servivido segundo o Espírito.Podemos aplicar isto à nossavida. Aquilo que digo, aquilo que escrevo, aquilo que faço, serve apenas paraalimentar o meu orgulho, ou ajuda alguém a viver melhor a sua vocação cristã?Também uma homilia deve ser avaliada assim: não pela sua elaboração, mas pelasua capacidade de ajudar quem a escuta a viver melhor a sua opção por Cristo.Há ainda uma marca clara dapresença do Espírito: a paz. Depois da ressurreição, Jesus repete aosdiscípulos: “A paz esteja convosco.” Não se trata apenas da ausência de guerraou de conflito. A paz cristã é uma harmonia profunda, uma vida reconciliada quevem de Deus e nos permite harmonizar aquilo que sabemos, sentimos, desejamos efazemos; o modo como nos relacionamos e tratamos os outros.Por isso, nas nossas comunidadesdevemos perguntar: promovemos apenas a paz para fora, com declarações contra aguerra e contra os atentados à dignidade humana, ou vivemos essa paz dentro daIgreja, nas paróquias, nos grupos, nas relações concretas?Quando rezamos, quandoparticipamos na Eucaristia, quando celebramos os sacramentos, quando realizamosuma ação apostólica, saímos mais pacificados, mais harmonizados, maisreconciliados com Deus, connosco e com os outros? Se sim, então estamos adeixar que a nossa vida seja conduzida pelo sopro do Espírito Santo. Esse é ogrande dom de Pentecostes: sermos recriados por Deus para continuarmos, nomundo, a missão de Cristo.

Domingo de Pentecostes - Segunda Leitura

Domingo de Pentecostes - Primeira Leitura

Domingo da Ascensão - Segunda Leitura

Domingo da Ascensão - Primeira Leitura

VI Domingo da Páscoa - Segunda Leitura

VI Domingo da Páscoa - Primeira Leitura

Ainda não podemos esquecer os diálogos da Semana Santa. Na Sexta-feira Santa, Pilatos pergunta a Jesus: «Que é a verdade?» E Jesus não responde. Talvez porque há perguntas demasiado importantes para qualquer contexto; precisam de um espaço favorável para serem pensadas e acolhidas.Hoje, porém, no contexto íntimo da despedida, Jesus diz aos discípulos: «Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim». Tomé pergunta: «Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?» E Jesus responde: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida».Diante de Pilatos, Jesus cala-Se. Diante dos discípulos, revela-Se. A verdade, para nós cristãos, não é uma ideia abstracta, nem apenas um conceito filosófico. A verdade é uma pessoa: Jesus Cristo, o Verbo encarnado. Por isso, conhecê-la não é só aderir a uma doutrina; é entrar numa relação, fazer um caminho, deixar-se conduzir por Cristo. Caminhando com Ele, recebemos vida em plenitude.Jesus não abandona os seus. Vai para o Pai, mas permanece connosco pela acção do Espírito Santo. E diz-nos: «Quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço, e fará ainda maiores». Pelo baptismo, somos continuadores da sua missão. Somos, como escutámos na carta de São Pedro, «geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus».Pelo baptismo recebemos a salvação e tornamo-nos seus portadores. Receber e anunciar são duas faces da mesma moeda. Quanto mais recebemos, mais somos enviados; quanto mais anunciamos e servimos, mais profundamente acolhemos aquilo que Deus nos dá. A salvação não é um conceito: é uma existência transformada.A primeira leitura, dos Actos dos Apóstolos, ajuda-nos a compreender a Igreja. Por vezes imaginamos que a comunidade cristã deveria ser perfeita, sem falhas, tensões ou fragilidades. Mas a Igreja nasce constituída por homens e mulheres como nós: santos e pecadores, generosos e egoístas, sinceros e contraditórios.A primeira comunidade também teve problemas. As viúvas dos cristãos de língua grega não estavam a ser cuidadas. Havia uma ferida real dentro da comunidade. E os discípulos não esconderam o problema. Não o abafaram em nome de uma falsa paz, de uma falsa unidade ou de uma falsa verdade. Assumiram-no, discerniram-no e procuraram uma solução.Este é um ensinamento decisivo. Reconhecer um problema numa comunidade cristã não significa criar divisão. Pelo contrário: se for tratado ao estilo cristão, pode tornar-se ocasião de conversão e crescimento. Foi isso que aconteceu. Os Doze reconheceram que não podiam abandonar o anúncio da Palavra para servir às mesas; mas perceberam que o cuidado das pessoas não podia ser negligenciado. Escolheram homens cheios do Espírito e de sabedoria, e assim nasceu o ministério dos diáconos.Um problema, acolhido com fé e discernimento, tornou-se ocasião para a Igreja compreender melhor a sua missão. Se o tivessem escondido, todos teriam perdido. Mas, porque o enfrentaram em comunidade, a Igreja percebeu que anunciar a Palavra e cuidar da vida pertencem à sua identidade.Ser cristão não é apenas acreditar em verdades. É fazer aquilo que Jesus fez. É anunciar, sim; mas é igualmente cuidar, servir, levantar quem está esquecido, dar atenção a quem ficou à margem. São João é claro: quem diz que ama a Deus, que não vê, e despreza o irmão, que vê, é mentiroso.Por isso, ser membro da Igreja é viver de modo activo e sincero. Quando há problemas, devemos identificá-los e procurar juntos soluções. Quando há bem, devemos reconhecê-lo e fazê-lo crescer. Não somos uma comunidade perfeita. Somos uma comunidade chamada por Cristo, feita de pessoas frágeis, mas convidadas à conversão.Nunca podemos perder de vista o essencial: Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida. A fé é união com Ele. E a comunidade cristã só é verdadeiramente discípula quando conhece a palavra de Jesus, mas sobretudo quando vive e pratica aquilo que Ele nos ensinou.

V Domingo da Páscoa - Segunda Leitura

V Domingo da Páscoa - Primeira Leitura

A primeira leitura continua o texto do domingo passado. Pedro, no dia de Pentecostes, dá testemunho de Cristo: quem Ele era, o que fizeram com Ele e como Deus O ressuscitou. Perante este anúncio, todos ficaram com o coração trespassado.Não se trata apenas de um coração ferido, mas de um coração atravessado por uma certeza nova, por uma ternura que envolve e transforma. Diante de Cristo ressuscitado, a pergunta nasce espontaneamente: «Que havemos de fazer?» Que consequência deve ter esta notícia imensa?Pedro responde: «Convertei-vos e receba cada um de vós o batismo.» Mas nós já fomos batizados. Por isso, a pergunta não é simplesmente o que devemos fazer para receber o batismo, mas como havemos de viver o batismo que recebemos. Ser batizado é tomar consciência de que Deus nos conhece, nos chama e nos ama.No Batismo, a primeira pergunta feita aos pais é: «Que nome dais ao vosso filho?» Este momento é decisivo. A partir do nome, reconhece-se que aquela pessoa não é uma massa anónima, nem um número, nem apenas parte de um grupo. É alguém único diante de Deus. Cada um de nós é chamado pelo seu nome e é importante para Deus.A segunda leitura mostra até onde vai esse amor: Cristo, insultado, não respondia com injúrias; maltratado, não ameaçava; entregava-se Àquele que julga com justiça. Em Jesus Cristo, Deus entrega-se totalmente por cada um de nós. Cada um de nós é olhado, amado e cuidado por Ele.O Evangelho apresenta isto com a imagem do Bom Pastor. O pastor era aquele que conhecia cada ovelha, sabia o que lhe fazia bem e o que lhe fazia mal, protegia-a dos perigos e a conduzia às melhores pastagens. O pastor cuidava do rebanho para que ele vivesse.Quando Jesus se apresenta como Bom Pastor, diz-nos que Deus não quer dominar-nos, esmagar-nos ou castigar-nos. Quer cuidar de nós, conduzir-nos à vida e fazer de nós pessoas livres, com vida em abundância.Hoje, celebramos também o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. A primeira vocação não é ser padre, diácono, religioso ou religiosa. A primeira vocação é o batismo. Tudo o resto nasce daí. Pelo batismo, somos chamados a participar na vida de Cristo e a tornar presente o cuidado do Bom Pastor.Talvez a nossa maior dificuldade seja imaginar a fé como um peso ou um sacrifício imposto para agradar a Deus. Há até aquele provérbio popular: «O que é bom ou é pecado ou faz mal.» Mas esta ideia, espiritualmente, é uma barbaridade. A proposta de Jesus não é uma ameaça à nossa humanidade; é a sua plenitude. Somos tanto mais humanos quanto mais seguimos Jesus Cristo.O cristianismo não nos diminui; dilata-nos. Não nos rouba a vida; devolve-nos a vida verdadeira. Quando sentimos necessidade de sentido, de paz ou de horizonte, procuramos respostas em técnicas de autoajuda, meditações rápidas ou soluções de ocasião. É como se tivéssemos a melhor farmácia diante de nós e procurássemos remédio numa farmácia improvisada.A proposta de Jesus Cristo não funciona segundo a lógica do mercado: eu dou tempo, dinheiro ou atenção, e recebo uma solução imediata. A lógica de Jesus é a liberdade responsável. Ele não diz apenas: «Faz isto e tudo ficará resolvido.» Ele diz-nos: «Segue-Me. Aprende de Mim. Faz como Eu faço.» E, à medida que O seguimos, a sua salvação começa a instalar-se em nós.Jesus conhece-nos pelo nome. Olha-nos com atenção total. E pede-nos que façamos o mesmo com os outros. Se somos discípulos do Bom Pastor, somos chamados a ser bons pastores: pessoas capazes de escutar, de cuidar, de tratar os outros pelo nome, de dar tempo, de criar relações verdadeiras, de conduzir para a vida.Neste Domingo do Bom Pastor, recordemos isto: Cristo é o Pastor que nos conhece e nos ama. Pelo batismo, participamos da sua vida. E participar da sua vida é participar da sua alegria, da sua plenitude e da sua vida em abundância.

IV Domingo da Páscoa - Segunda Leitura

IV Domingo da Páscoa - Primeira Leitura

Neste terceiro domingo da Páscoa, como em todo o tempo pascal, somos convidados a reconhecer Jesus Cristo ressuscitado, vivo no meio de nós. A liturgia de hoje ajuda-nos a perceber que uma coisa é ter informações sobre Jesus; outra, muito diferente, é deixar que a sua presença toque realmente a nossa vida.Na primeira leitura, São Pedro levanta-se e, com autoridade, anuncia quem é Jesus: Aquele que foi morto, mas que Deus ressuscitou. Na segunda leitura, escutamos que não fomos resgatados por coisas corruptíveis, como a prata ou o ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo. Isto diz-nos algo essencial: não somos uma realidade secundária aos olhos de Deus. Temos um valor imenso. Deus quis a nossa vida e a nossa salvação ao preço da vida do seu Filho.Mas o Evangelho mostra-nos que a informação, por si só, não chega. Os discípulos de Emaús sabiam o que tinha acontecido. Tinham ouvido falar de Jesus, da sua morte e até da notícia da ressurreição. E, no entanto, continuavam tristes, desanimados, a caminhar de costas voltadas para Jerusalém. Em São Lucas, isto não é apenas um detalhe geográfico. Jerusalém é o lugar da ação de Deus. Ir de costas para Jerusalém é sinal de uma existência que ainda não foi reencontrada pela esperança.Também nós podemos estar assim. Podemos saber muitas coisas da fé, conhecer passagens da Escritura, repetir fórmulas religiosas, e, no entanto, continuar sem verdadeira sabedoria. Podemos ter informação, mas ainda não ter deixado que ela molde o nosso modo de viver.Por isso, o Evangelho mostra-nos um caminho. Primeiro, os discípulos falam entre si. Dizem o que lhes vai no coração. Nomeiam a tristeza, a desilusão, o desalento. E é precisamente aí que Jesus se aproxima. Ele entra na conversa deles quando eles se dispõem a dizer a verdade da própria vida. Também para nós este é um passo decisivo: reconhecer o ponto em que estamos, sem fugas, sem máscaras. Só quando a vida é posta em verdade é que Cristo encontra espaço para se manifestar.Depois, Jesus ensina-os a ler os acontecimentos à luz da Escritura. Começando por Moisés e pelos Profetas, ajuda-os a compreender que a sua história não estava fora do plano de Deus. Aqui está o centro do Evangelho de hoje: aprender a ler a nossa vida à luz da história da salvação. Não se trata apenas de saber o que Deus fez antigamente, mas de perceber o que Deus faz hoje na nossa própria vida. As alegrias e as tristezas, os êxitos e os fracassos, tudo pode ser iluminado por esta presença de Deus. E, quando isso acontece, o coração começa a arder dentro de nós. A fé deixa de ser apenas discurso e torna-se experiência, força interior, sabedoria viva.Há ainda outro passo importante. Os discípulos dizem a Jesus: “Fica connosco.” Começam a reconhecê-Lo quando acolhem o estranho. E reconhecem-No plenamente no partir do pão. Não apenas no gesto litúrgico da Eucaristia, mas em tudo aquilo que esse gesto significa: uma vida feita entrega, partilha, dom de si.Finalmente, regressam a Jerusalém. Quem encontra Cristo ressuscitado não fica fechado em si mesmo. Volta à comunidade, partilha a experiência e escuta a experiência dos outros. A fé cristã não é um caminho solitário.Este Evangelho é muito concreto. Mostra-nos, passo a passo, como encontrar Jesus ressuscitado: dizer a verdade da vida, caminhar com os outros, deixar que a Escritura ilumine o que vivemos, acolher, partir o pão e regressar à comunidade. A informação é importante, mas não basta. O essencial é a experiência de encontro com Cristo, que transforma o coração e orienta de novo toda a vida.

III Domingo da Páscoa - Segunda Leitura

III Domingo da Páscoa - Primeira Leitura

O Evangelho que acabámos de escutar narra-nos dois domingos: o domingo da Ressurreição e, oito dias depois, precisamente este domingo em que hoje nos reunimos. Diz-nos o texto que, na tarde daquele dia, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, por medo, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Esta localização dos discípulos é muito significativa. Estão fechados, presos no medo, afastados do exterior. E esta prisão, que eles tinham e que também nós tantas vezes temos, pode ser muito forte. Pensamos nas grades e nas correntes e dizemos que aí estão os presos. É verdade. Mas também nós, muitas vezes, estamos presos, e talvez ainda mais presos, porque não se veem as grades. Estamos presos no medo, na indiferença, na rotina, em tantas coisas que não nos permitem fazer esta experiência: encontrar o Senhor.Jesus vem, coloca-Se no meio deles e oferece-lhes a paz. É o Senhor ressuscitado que Se manifesta. Mas, ao manifestar-Se, não apaga o que aconteceu. Mantém os sinais dos cravos e a ferida do lado. Os sinais da paixão continuam lá, mas agora transfigurados. O passado não é negado: é transformado.Depois surge Tomé, tantas vezes mal compreendido. Quando alguém quer ver para crer, logo dizemos: «és como São Tomé», como se ele fosse um discípulo menor. Mas o Evangelho diz algo muito sugestivo: Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, isto é, gémeo. Gémeo de quem? O Evangelho não diz que tivesse um irmão. Tomé é gémeo de cada um de nós. Também ele estava preso. Não apenas no medo, como os outros, mas ainda noutras prisões: só acreditava naquilo que podia ver, tocar, experimentar. E quantas vezes também nós ficamos presos às nossas certezas e aos nossos preconceitos.Contudo, quando Jesus lhe dirige a palavra, tudo muda. Tomé faz então a mais bela confissão de fé do Evangelho: «Meu Senhor e meu Deus». O que aconteceu? A diferença está nisto: fora da comunidade, Tomé não tinha os recursos necessários para encontrar Cristo ressuscitado. Só quando volta a estar reunido com os outros é que faz essa experiência. Por isso, a ressurreição de Cristo não cria cristãos isolados; cria uma comunidade.A primeira leitura mostra bem quais são as características dessa comunidade: eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. Eis os traços da comunidade formada por Cristo ressuscitado: escutar a Palavra, viver a fraternidade, participar na Eucaristia e perseverar na oração. Só neste horizonte podemos reconhecer Cristo vivo.E quando isso acontece, quando Cristo ressuscitado nos toca precisamente na dúvida, na dor, na morte e no medo, então torna-se evidente a misericórdia. Se eu estou preso às minhas certezas, procuro rigor, exclusão, uma Igreja severa. Mas se me deixo tocar pelo amor de Deus, percebo, a partir das minhas próprias fragilidades, que vivo da misericórdia. E então começo também a compreender o perdão, o amor incondicional, a superabundância da graça.Por isso, ao celebrarmos o Domingo da Misericórdia, olhemos para os lugares onde estivemos presos, para as nossas feridas, infidelidades e misérias. Tudo isso deixou marcas em nós. Mas a graça de Deus é mais forte. Cristo ressuscitado entra precisamente nesses lugares fechados e dá-nos vida. Recordemos, com gratidão, o que o Senhor fez em nós; digamo-lo com alegria; e acolhamos também todos aqueles que se deixam tocar pela misericórdia do Senhor.