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Expresso - Eixo do Mal
Sugestão de Verão: Daniel Oliveira conversa com Luaty Beirão, em Luanda. Como pode Angola sair do ciclo de opressão e corrupção? [julho de 2026]

Expresso - Eixo do Mal

Play Episode Listen Later Aug 21, 2026 71:09


Reedição do arquivo de podcasts do Expresso. Episódio publicado originalmente a 1 julho de 2026, do “Perguntar Não Ofende”, podcast de Daniel Oliveira. Filho do regime, o rap levou Luaty Beirão a uma Angola que o privilégio não lhe tinha permitido conhecer, a consciência do país em que vivia levou-o à oposição frontal a José Eduardo dos Santos e a oposição levou-o à prisão, onde esteve com mais de 14 companheiros, há 11 anos. Na prisão, onde esteve por duas vezes, completou 36 dias de greve de fome, não permitindo que a sua luta fosse esquecida. Angola está encalhada e desesperada. Bastará aparecer um demagogo agressivo como Venâncio Mondlane para que explosões de protesto e violência, como as que aconteceram em 2025 com a greve dos candongueiros, ganhem dimensões semelhantes às que vimos em Moçambique. A esperança de Angola é uma geração que já não é determinada pelas clivagens da guerra civil e já não aceita a terrível herança colonial como desculpa para os erros de uma elite que, na realidade, mimetizou a opressão e exploração do colono. Nesta hora podem ouvir a conversa que tive com Luaty, em Luanda. A sua luta – e a dos seus companheiros – continua. Corajosa, como sempre.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Convidado
Marta Lança publica memórias entre Lisboa, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo e Rio de Janeiro

Convidado

Play Episode Listen Later Aug 20, 2026 37:05


Neste programa, conversamos com Marta Lança, a autora de “Essas pessoas na sala de jantar”, um livro que conta as histórias de uma vida escrita entre Lisboa, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro e outras geografias, tendo como fio condutor as mudanças de casa e os encontros com novas pessoas que enchem salas de jantar transformadas em lugares de resistência e comunidades de pensamento e de arte. Este é o seu segundo livro, depois de “infinitas-pessoas-mais-uma”, ambos editados na Tigre de Papel. Marta Lança é jornalista, escritora, programadora cultural e também coordena o portal Buala, uma plataforma dedicada à cultura e ao pensamento sobre o Sul Global.  O livro “Essas pessoas na sala de jantar” é como uma casa, ou melhor, uma sala de jantar repleta de amigos e reinventada a cada nova morada entre três continentes. Mas não é “uma sala de jantar auto-satisfeita”, não. É um convite à viagem, à partilha e aos novos sabores, com pratos cheio de histórias e portas abertas, com sorrisos e cumplicidades, algures em prédios onde – podemos ler – “nos desenrascamos uns aos outros, e dispensamos ovos e coentros, em que crescemos juntos”. Foi a partir das sucessivas mudanças de casa para “outro bairro, às vezes outra cidade, ou continente” que a autora quis “encapsular temporadas em certos lugares e circunstâncias”. Através da sua história pessoal, conta o que viu nos países onde viveu, observando com “um olhar para dentro e para fora” capaz de arrombar quartos fechados e mentes quadradas. Esta é uma história de encontros, de “geografias afectivas múltiplas” e é também um diário de bordo de um mundo em risco de extinção e de um outro a cimentar-se, num “tempo saturado de estímulos e de tecnofascismo” e em que os ecrãs substituíram livros e o brincar na rua. Escrito com muito humor, o livro é também uma forma de transmissão da memória, offline, um registo proustiano em busca de um tempo perdido em que tanto se ganhou e tanto se foi perdendo. Às memórias pessoais da protagonista, às suas histórias de amizades, de amores, de viagens e experiências noutros países, misturam-se os grandes acontecimentos que marcaram a História e a política do pós-25 de Abril em Portugal até aos dias de hoje no mundo. Tudo acompanhado pelo ritmo dos filmes, dos livros e da banda sonora que também escreveram esses anos. A partir de Lisboa, Faial, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro, Baixo Alentejo, as histórias  são acompanhadas por reflexões sobre as injustiças sociais, o racismo, as cidades segregadas, o capitalismo desenfreado, a crise da habitação, a especulação insaciável e as rendas insustentáveis, a ecologia em crise, a pobreza, as sempiternas lutas das mulheres e muitas e variadas e repetidas opressões. São também histórias de lugares de resistência, de salas de jantar transformadas em comunidade de pensamento e de arte. A autora lembra como foi crescer numa Lisboa arrastada pela especulação imobiliária, o que foi a “Geração à Rasca” nos tempos da Troika e lembra que “o fascismo nunca desapareceu no país dos brandos costumes”.  Depois, recorda como “ter vinte e um anos em Paris foi um embate de geopolítica existencial, um momento fundador na mundividência íntima”. Em Cabo Verde, reconheceu “a personalidade telúrica dos habitantes vulcânicos" que tinha conhecido em menina nos Açores, “mas o mais difícil de erradicar permanece: as mentalidades, a anos-luz de descolonizar”. Segue-se Luanda, “mal tinha desembrulhado o grogue, o veludo e a calabaceira de Cabo Verde e partia de novo, desta vez para uma grande metrópole africana da qual afinal não sabia quase nada”. Em Luanda compreendeu que “a mesma cidade onde se luta para conseguir comer ou para facturar milhões, toda a hora é hora de celebrar a vida, porque a toda a hora se pode morrer.” Em Maputo, o que mais conquistou o seu “coração rebelde eram os concertos de hip-hop, agregadores de jovens desejosos de mudar a sociedade restrita e opressora”, como Azagaia que “confrontava o regime e a geração da independência” com, por exemplo, a música “Quem vendeu a minha pátria?”. No Rio de Janeiro, surge a pergunta: “Como se pratica a alegria num lugar atravessado por tanta violência?”, onde “a desigualdade continua a ser a espinha dorsal da vida urbana brasileira.” A resposta começa, talvez, nos baile funk na Zona Norte, “uma das maiores expressões da resistência cultural, social e identidade das periferias brasileiras”. Mais tarde, o refúgio no Baixo Alentejo, em Portugal, onde uma casa no campo é a possibilidade de “pequenos lugares engendrarem utopias”. Porém, mesmo aí, “a terra é colonizada e posta a render” e nos cafés se percebe “como muita gente desistiu e se deixou manipular pelo populismo e abandono”. No final, regressa às raízes para cuidar de quem dela cuidou e de quem dela cuidará, confessa. Consciente de fazer “parte da paisagem da desigualdade montada”, ao longo dessas viagens entre os três continentes, a narradora nunca esquece “o Atlântico que devolve continuamente a memória do terror e da sobrevivência”. Também omnipresente, de viagem em viagem, a comida, das bolinhas da Xandite aos gelados do Pintado, do empadão de esparguete com carne nos avós, ao “panelão de arroz de grelos servido em pratos lascados e vinho de pacote”, passando pelo amarindo, loengo, mamão, goiaba e fruta pinha da zungueira de Luanda, sem esquecer o acarajé no Rio e a Cozinha Ocupação. Afinal, “poucas coisas unem tanto as pessoas como partilhar uma refeição”. A inspirar as suas páginas sente-se a busca e um enorme respeito pela liberdade, partindo de uma personagem-arquétipo a que chamou Júlia e que andava “a desenhar um mapa poético para mudar o sistema sem tomar o poder”. Era uma Júlia que, para além do engajamento em vários combates políticos, concentrava “a liberdade das infinitas mulheres que nunca puderam fazer nada mais senão trabalhar muito e cuidar dos outros". "Essas pessoas na sala de jantar" talvez seja "o mapa poético" de Marta Lança, esboçado a partir da "força de todas as que foram reprimidas". Marta Lança: "Aproveita, vive com consciência toda essa liberdade, o que tantas mulheres antes de ti não puderam fazer" RFI: Do que fala este livro? Marta Lança, Autora de “Essas pessoas na sala de jantar”: “Este livro compila várias crónicas de diversos momentos da minha vida. Quando estava a pensar o que é que ligaria estas histórias, achei que seria o mínimo denominador comum a questão de mudar. Mudar de casa, mudar de cidade, mudar de geografia emocional e de trabalhos, entre eles tem esta questão de cada um que se passa num determinado tempo e espaço. Começa com a casa onde cresci, a casa dos pais, a casa de onde parti para a vida e depois são sucessivas casas como ponto de partida: várias em Lisboa, várias depois com a vida profissional, em que fui viver para os países africanos onde também se fala português, como Cabo Verde, Angola, Moçambique. Depois o Brasil e o regresso a Lisboa, sendo Lisboa também em vários bairros, em vários tempos. Isso é o que coordena. Depois, fala de muitas outras coisas. Cada história tem os seus universos, alguns vão-se repetindo, mas é basicamente um livro que tem a ver com o crescer, com o tornar-se uma mulher, tornar-se adulta, e tem esse lado um pouco confessional, autobiográfico - mesmo assim, tentando não expor muito os outros - mas é o devir adulto. Basicamente, é um livro que tem a ver com o crescimento.” Por que é que decidiu chamar-lhe “Essas pessoas na sala de jantar”? “Porque sempre gostei muito dessa canção de 'Os Mutantes', um grupo brasileiro de movimento Tropicália. A canção chama-se ‘Panis et Circenses', tem a ver com uma crítica à ditadura militar brasileira. É muito irónico porque enquanto se está a distribuir pão e circo, essa classe média que está entretida na sala de jantar, ocupada em manter-se, em nascer e morrer, e que fica numa certa passividade enquanto o mundo explode, enquanto há uma série de injustiças, há uma classe média que está muito contente com a sua vidinha de privilégio. Então, trouxe este título para falar também dessa tensão que eu própria sinto entre o meu meio, esse meio pequeno-burguês de Lisboa que teve acesso à educação, saúde a seguir ao 25 de Abril. Portanto, somos essa primeira geração em liberdade que pôde uma série de coisas e, ao mesmo tempo, o que é que fazemos com isso? Então, também tem essa questão de tentar politizar-me e ter atenção à abertura para outras realidades do mundo e da minha própria cidade e ter uma participação não passiva, sendo que há esse dentro e fora da sala de jantar. Acho que é uma canção que traduz muito essa vontade também de trazer poesia para a vida, um outro olhar, não aquele convencional, e por isso a escolhi como título.” O espaço casa tem um lugar central, mas essas casas vão sendo criadas em diferentes países. Quase parece um paradoxo porque a casa é algo aparentemente estável, seguro, e aqui as suas casas são resultado de viagens e cada cidade é como uma nova casa. Até que ponto é que as casas e as cidades são personagens centrais neste livro? “São porque têm um lado de dentro de casa, mas não muito. Então, dentro de casa porque aconteceu que quase todas estas casas, como os leitores vão ver, foram casas partilhadas, casas colectivas onde viviam outras pessoas. Desde o início com a família, o núcleo duro, etc, e depois os amigos, os namorados e, hoje em dia, as casas com crianças quando estamos a criar filhos. Na partilha de casa, sempre achei muito interessante, como uma espécie de laboratório social, como é que as pessoas habitam uma casa, como é que pessoas, além de mim, tornam a casa um lugar habitável, um lugar acolhedor, mas um lugar onde há conflitos com a divisão de espaço, divisão de tarefas. Foi interessante que a minha vida suscitou ver várias maneiras de habitar a casa porque fui partilhando casa com pessoas diferentes ao longo da vida e sendo que essas outras cidades, outros bairros, também traziam sempre um microcosmos de realidades diferentes. Então, não são cenários, são participantes dessa observação de costumes, de ponto de partida para ver o que está à volta da casa. Aliás, o livro parte desse interior da casa, mas depois vai muito para fora, sai logo. A narradora - que sou eu - acaba por estar mais interessada no que se passa fora. Tenho algumas observações sobre o dentro de casa, mas o mais interessante será mesmo essa etnografia de ambientes à volta dessas casas, do bairro, dos sistemas políticos, dos assuntos que inquietam naquele momento, como se cristalizasse um certo tempo de observação. É por aí que interessa, é como a casa ser um mirante, um ponto de observação do exterior.” Vamos às casas nas diferentes cidades. Por exemplo, Lisboa. Lisboa não é apenas a cidade bonita e multicultural onde cresceu, onde ia ao ballet da Gulbenkian, ao cinema, aos bares do Bairro Alto dançar kizomba e ouvir Os Tubarões. Foi também a cidade onde um rapaz cabo-verdiano, Alcino Monteiro, foi espancado até à morte por um bando de skins no Dia de Portugal, em 1995, um cenário que se repetiria. Olha para este ódio racial que reverbera ainda na própria cidade. Quer-me falar sobre Lisboa? “Sim, é interessante ter ido buscar esse exemplo porque essa linha de cor que atravessa a cidade de Lisboa, essa colonialidade ainda estamos a vivê-la, não é? Crescer nos anos 80, numa cidade que estava a urbanizar-se, é o meu ponto de partida: era ali a zona de Carnide, depois assistir ao fenómeno do Colombo, toda essa Lisboa que se queria tornar uma cidade europeia, com a entrada na União Europeia, o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, o realojamento dos bairros mais auto-construídos, etc, mas que obviamente foi criando para as margens, foi marginalizando, tornando periféricas uma série de realidades socioculturais e económicas de tornar muitos bairros empobrecidos e pessoas empobrecidas em que a linha de cor coincide. Ou seja, são as pessoas racializadas que acabam por ter esse estigma que vinha de um país a seguir ao 25 de Abril, ainda com uma grande carga colonial, racista, foi mantendo, se calhar um pouco mais com um certo pudor, sendo que agora, com a ascensão da extrema-direita e todo este populismo e instrumentalização do ressentimento voltou a sair à carga e ainda mais estigmatizou estes territórios, estas pessoas, e no livro vou falando desses momentos. De facto, o ódio racial foi um momento definidor quando aconteceu esse assassinato do Alcino Monteiro num bairro que eu frequentava, o Bairro Alto, que eu frequentava com os meus amigos. Para nós, que éramos novos, sentir esse medo nas ruas, ali no centro da cidade, e perceber: ‘Afinal isto é terrível. Há pessoas que são um alvo muito mais declaradamente de uma purga, dessa motivação do ódio.' E acho que isso nunca deixou de existir em Lisboa, aliás, culminou no ano passado com a morte do Odair Moniz, e vamos vendo como a cidade evolui e não resolve essas suas feridas sociais de ódio. E, portanto, acho que isso atravessa de alguma forma o livro. Eu, no lugar de também de um certo activismo anti-racista, mas como é que uma jovem lisboeta branca vai percebendo essas injustiças. Também entrei por aí de uma forma, não aprofundando muito, mas dando a entender que isso é uma realidade que só não vê quem não quer. Podemos estar num certo meio protegidos, mas somos cúmplices desse estado de coisas se mantivermos essa passividade. Portanto, temos de denunciar.” Vamos agora a Paris. Conta que “ter 21 anos em Paris foi um embate de geopolítica existencial, um momento fundador na mundividência íntima”. Foi para lá estudar, viveu na Cité Universitaire. Fala daquele momento, mas também na continuação das lutas sociais até hoje, com os Coletes Amarelos, as revoltas suburbanas na sequência também do assassínio de jovens de pele negra, a mobilização contra a ascensão da extrema-direita. Que lugar tem para si Paris? “Nessa tal geografia de afectos e de crescimento, Paris foi muito importante porque foi esse tal embate político. A minha relação com Paris no livro é no ano de 1997, 98, eu era uma jovem estudante de Erasmus em Paris. E teve esse papel de perceber como o mundo é enorme, como as lutas sociais são muito mais vastas do que a partir de Lisboa e também de perceber que há uma esquerda muito organizada e disseminada nas universidades, nas manifestações e isso foi muito importante de assistir, de acompanhar, de testemunhar esse fervor. Quanto mais organização, até de contestação, também mais se sentia essa tensão de uma cidade a uma escala muito maior do que Lisboa. Eu conto uma manifestação dos ‘chomeurs' [desempregados] que me impressionou muito, a forma muito combativa e muito radical de confrontar a polícia, etc, e depois Paris sempre continuou a ser uma meca da esquerda europeia com essas outras lutas que se seguiram e mais do que nunca, agora, com a situação política da Europa e de França em particular. Acho que é um bom barómetro da temperatura social, continua a ser.” Viveu também em Cabo Verde, que diz que se tornou em “um país exemplar no contexto africano”, graças ao empenho, ao valor atribuído à educação. Diz ainda que o mais difícil de erradicar permanecem “as mentalidades a anos-luz de descolonizar”. Quer falar-nos um pouco sobre Cabo Verde e a sua experiência? “Cabo Verde foi também uma transição enorme na minha vida. Ir viver para uma ilha pequenina como São Vicente e fazer uma revista com jovens cabo-verdianos e perceber as questões deles, algumas frustrações e muita vontade de participar, de ter opinião. Então, foi uma experiência que eu acarinho muito. De facto, viver nos sítios, trabalhar nos sítios, ajuda-nos muito a compreender essas tais relações, a sair do postal turístico das férias na ilha do Sal ou da Boavista em que a pessoa não percebe muito mais para além de que é um país maravilhoso, cheio de morabeza, etc. Ao trabalhar com jovens e ao ouvir os artistas, ao fazer também jornalismo de muita escuta, fez com que eu entendesse que há uma grande questão identitária. Portanto, isto é Cabo Verde de 2004, é claro que muitas coisas mudaram, mas havia ali muitas conversas sobre a questão da crioulidade, da situação atlântica de Cabo Verde cultural, da mestiçagem, todas essas heranças de ‘somos mais africanos, somos mais europeus', toda essa indefinição, que é uma discussão interessante, mas depois, no dia-a-dia, sentia-se que ainda havia um certo racismo em relação a pessoas do continente africano, muito pejorativamente chamados de mandjacos, como se isso fosse um insulto a uma etnia da costa da África, guineense, etc, e sobretudo a geração mais velha tinha um certo preconceito com a questão das pessoas mais negras. Falo também nessas manifestações, de alguns comentários, de algumas tradições como os Mandingas no Carnaval do Mindelo. E acho que sim, há uma mentalidade ainda muito colonizada que vai-se percebendo também em coisas mais recentes. Por outro lado, há uma juventude que reivindica o lado pan-africanista, a herança de Amílcar Cabral como os grandes valores da independência, tudo isso, mas é, mais uma vez, perceber que o contexto de um país é muito mais complexo do que a gente pensa no início. “Mal tinha desembrulhado o grogue” - estou a citá-la – “o veludo e a calabaceira de Cabo Verde", partiu de novo, desta vez para "uma grande metrópole africana, da qual, afinal, quase nada conhecia”. Luanda é a cidade onde "a toda a hora é hora de celebrar a vida porque a toda a hora se pode morrer”. Quer falar-nos sobre Luanda? “Luanda, essa grande cidade! Foi incrível conhecer Luanda nesse momento que saía há poucos anos de longuíssima guerra civil e ir trabalhar na área da cultura, das artes, em que estava tudo por fazer, havia uma alegria, um entusiasmo, e foi mesmo extraordinário também partilhar casa no bairro da Maianga, uma casa que já é histórica nas lendas urbanas, que é o Sete e Meio. Era um apartamento que dividíamos entre artistas angolanos e eu e uma amiga portuguesa que também trabalhávamos na Trienal de Luanda. Morava lá o Kiluanji Kia Henda, o Orlando Sérgio, o Yonamine, o Ihosvanny, artistas que estavam em grande força na sua carreira como artistas visuais, e o Orlando que é um actor na área do teatro e cinema. Então, era um ponto agregador da cidade, onde fazíamos muitos jantares, muitas conversas na nossa varanda, que também tinha um ponto de observação para as transformações urbanas da própria cidade de Luanda. E sim, é uma cidade de contradições, não é? Nessa altura - já não é a realidade actual - havia muita gente a fazer dinheiro porque o petróleo era, de facto, a economia muito efervescente, o crescimento económico era incrivelmente alto e acelerado, mas sabemos que isso depois não se traduziu em melhorias na qualidade de vida do povo angolano, que hoje em dia está bastante sufocado, numa crise enorme. Eu, como estrangeira, mas tentando viver como angolana no dia-a-dia, andar de candongueiro, depois também fiquei lá a trabalhar como professora, ouvi muitas histórias e o que mais me fascinava eram as biografias das pessoas. As pessoas tinham histórias de vida incríveis e apetecia cartografar tudo e escrever tudo, mas depois a realidade era tão veloz e alucinante que era difícil. Então, esses dois textos no livrinho sobre a Luanda dessa época são muito fragmentados, mas era um espelho da própria cidade, dessas vozes todas, dessas contradições e também um grande carinho nas pessoas e, ao mesmo tempo, uma brutalidade porque é a lei da sobrevivência.” Em Maputo, foi a música e o ímpeto do hip-hop, nomeadamente as letras do Azagaia, que a conquistaram, ele que tantas denúncias fez contra o regime, contra inclusivamente a geração da independência, contra a exploração do povo, contra o neocolonialismo português. Mais uma vez a atenção e a observação acutilantes da Marta… “Gostei muito de ir aos concertos do Azagaia. Foi um privilégio poder ir a vários concertos de hip-hop. Também já tinha frequentado muito o rap angolano, gostava muito também. Na altura, em Angola, ouvia muito o MCK, depois o Luaty Beirão também voltou à cidade e outros. Havia um grande movimento de hip-hop que era um grande escape de denúncia política. Então, era uma forma de entender o que é que os jovens estavam a pensar sobre a sua situação. Maputo é uma cidade extremamente musical, havia muitos concertos, muita música ao vivo nos bares e acho que é um dos pontos mais fortes que eu retenho: essa cidade musical. O Azagaia, além de, na altura, me ter chamado a atenção pelas letras tão interessantes, depois, tudo o que suscitou quando ele morreu, o cortejo fúnebre, a repressão e os tumultos todos que houve em Maputo e Matola e na Beira a seguir à morte dele… Aliás, eu tinha escrito esse texto antes de o Azagaia morrer e depois acrescentei mais isso como um questionamento também sobre a geração que fez a independência e a herança que deixou ao país como está actualmente, que ainda tem tanta juventude urbana descontente porque não tem muitos horizontes de expectativa para poder ficar no país com uma vida digna.” Também viveu no Rio de Janeiro e começa por falar de um baile funk em que questiona "como é que se pratica a alegria num lugar atravessado por tanta violência". O que representou para si o Rio de Janeiro? “Comecei o texto com esse episódio do baile funk porque também tive a sorte de poder frequentar as comunidades faveladas da Zona Norte do Rio de Janeiro. E sim, são zonas da cidade, territórios muito permeáveis à violência, seja do tráfico de droga, seja da própria polícia. Na altura, havia operações de pacificação dos morros e, no entanto, eram sempre bastante ameaçadoras para a população trabalhadora dessas comunidades. E havia uma banalização dessa violência que acho que todos sabemos com os filmes e as notícias que nos chegam. Portanto, é viver numa guerra aberta e isso é muito desgastante para os moradores. Depois conto também como é que algumas figuras, como um estudante de mestrado, se sentia uma excepção no seu contexto de jovem negro, periférico, pobre, mas como as políticas de discriminação positiva, as quotas, são muito importantes no contexto do Brasil para furar essa repetição da pobreza e, portanto, também como é que a partir dali se estava a pensar a questão da cidade, do asfalto e da periferia, todas essas divisões de uma sociedade tão classista, tão racista… Algumas opções vão-se repetindo ao longo dos textos, mas com novos figurantes e novas reflexões, penso eu.” Acaba por haver alguns temas e até injustiças que se repetem ou que dialogam entre as cidades onde viveu? “Exacto e a procura da alegria, que citou, é mesmo uma força de resistência nestes lugares, não é uma alegria alienante, é uma alegria que tem o seu peso, da sua dor, dessas feridas todas da história, da história da escravatura, da história da pobreza, e, ao mesmo tempo, a capacidade de ‘estamos aqui, continuamos, sobrevivemos e transformamos a dor em alegria, uma alegria de não nos vão apagar, aqui continuamos'. Essa lição dessa alegria sobrevivente, para uma europeia, é mesmo importante, porque eu acho que em Portugal, por exemplo, se cultiva muito o lamento, o queixume, mas é um queixume que depois não muda nada, é um queixume quase de apaziguamento. Acho que esses países, como eu digo, abaixo do Equador, nos davam uma lição de vida nesse sentido que é: ‘Vamos para a frente, resistimos' e, cada vez mais, confrontacionais e a desejarem uma outra vida com todo o seu sentido crítico. Portanto, é uma alegria que também traz a crítica ao estado de coisas.” Outro aspecto é a comida, que de viagem em viagem também é omnipresente, seja na sala de jantar, seja na rua, no café, no restaurante. Das bolinhas da Xandite aos gelados do Pintado, do empadão de esparguete com carne da casa dos avós, ao “panelão de arroz de grelos servido em pratos lascados e vinho de pacote”, em Lisboa, ao amarindo, loengo, mamão, goiaba e fruta pinha da zungueira de Luanda, ao acarajé no Rio e à Cozinha Ocupação… Escreve: “Poucas coisas unem tantas pessoas como partilhar uma refeição”. Porquê tanto sabor neste livro? “Muito bem visto! E também o grande ensopado de borrego no Alentejo!” É verdade, não falámos do Alentejo, mas também é bom deixar aos leitores a possibilidade de descobrir outras geografias e sabores… “Exactamente. A refeição partilhada é também ligada à ideia das pessoas na sala de jantar que estão a partilhar o seu momento, a distribuição de comida, a vontade de experimentar coisas novas e como cada lugar também com os seus sabores, porque é uma forma de convívio, não é? E esse é outro grande tema do livro: o convívio entre pessoas diferentes e uma refeição pode pôr na mesma mesa pessoas de realidades muito diferentes e estarem unidas pelo prazer de comer, de descobrir e também como os novos sabores traziam novas realidades. Quando estou a apontar para esses frutos tropicais, estou a aprender novos léxicos e novas realidades e, portanto, quis trazer essas diversas comidas.” Esses sabores não são só gustativos, também há os sabores auditivos, porque a música também está muito presente no livro. É como uma banda sonora em pano de fundo… “É porque a música também é uma forma de conhecermos realidades novas. Acho que todos nós temos sempre as nossas músicas electivas. Por exemplo, ouvir música em Angola ou Moçambique ou Brasil, é a partir das letras e das sonoridades que nos trazem as tais outras realidades. E depois também as músicas que nos formaram, a nossa forma de olhar o mundo e de viver a História é feita das partilhas das universidades, das leituras, dos filmes, mas muito a partir da música. A música tem um pendor educativo, formativo muito forte em todos nós e eu queria prestar essa homenagem a tudo o que a música trouxe à minha vida, só que era difícil estar a escolher entre tantas músicas e tantos autores e então fui referindo de acordo com o que eu ia ouvindo em cada fase de vida.” Num dos capítulos fala do “Lobo da Mata” e conta um episódio terrível. Recorda a francesa Gisèle Pelicot quando disse que “a vergonha tem de mudar de lado” e também escreve, “nos anos 90 a consciência feminista era de nicho e o ‘girl power' era mais slogan do que força colectiva” e que ainda hoje “em vários países, ser mulher continua ser quase um acto ilegal”. Porque decidiu escrever o “Lobo da Mata” e falar sobre a sua própria história? “Porque nós criamos mais empatia, relação com um assunto, quando nos implicamos nele, e todas as mulheres, sem excepção, terão histórias de abusos, desconfortos no mínimo, e situações em que se sentiram com medo ou discriminadas pelo facto de serem mulheres. Acho que temos a sorte de estarmos em países onde há alguma protecção, mas até precisamente pela Gisèle Pelicot em França, sabemos como histórias tão hediondas podem estar aqui ao voltar da esquina. Eu queria trazer algumas reflexões feministas porque, tal como a música, o feminismo também é uma forma de conhecer, de aprender muito para tentar ambicionar um mundo onde haja mais igualdade nas questões de género, mas mais do que a igualdade, acredito num feminismo que não é necessariamente a luta pelo poder, mas é outra forma de convivência entre as pessoas que não passe por esta competição, por estas relações de poder, por este ímpeto bélico e destrutivo que o mundo patriarcal nos tem proporcionado e por ele chegámos aqui, a este estado de coisas tão devastador e sem futuro quase. E, portanto, o feminismo seria uma grande opção entre homens e mulheres de outro tipo de comunhão, de partilha, de uma paz social que poderia vir através do feminismo. Esse ‘Lobo da Mata' é uma história na Caparica, na adolescência. Não é uma história que seja assim o grande trauma porque eu quis também passar esse lado, de como eu encontrei as minhas ferramentas para viver com isso e para transformar essa história numa espécie de alívio e de força pessoal, mas claro que cada mulher lida com isso de maneiras diferentes, com os seus próprios traumas e fantasmas. Mas acho que sim, acho que foi importante escrevê-la, não no sentido terapêutico, mas para partilhar alguns episódios que todas temos e, depois, a partir daí, o que é que suscitou como preparação para a vida porque qualquer mulher terá passado por isso.” Fala numa mulher no livro que é uma personagem-arquétipo daqueles tempos. Chamou-lhe Júlia que andava “a desenhar um mapa poético para mudar o sistema sem tomar o poder”, uma Júlia que, para além do engajamento em vários combates políticos, concentrava “a liberdade das infinitas mulheres que nunca puderam fazer nada mais senão trabalhar muito e cuidar dos outros. A força de todas as que foram reprimidas.” O que é feito dessa Júlia? Este livro é esse “mapa poético”? “Sim, acho que sim. Essa Júlia é um arquétipo, não é uma pessoa real, mas sim um conjunto dessas vontades todas reprimidas e de alguém que pôde experimentar, pôde errar, pôde implicar-se em cada situação e fazer com que as coisas aconteçam, sair da tal sala de jantar auto-consolada para que a vida nos aconteça porque não podemos estar só à espera de uma mudança se não nos implicarmos nela. Essa Júlia ainda está aqui presente, pelo menos tenho-a comigo, como alguém que me faz lembrar: ‘Olha, aproveita, vive com consciência toda essa liberdade, o que tantas mulheres antes de ti não puderam fazer.' E é preciso celebrar essa liberdade de circulação, de podermos ser quem queremos, de podermos até mudar em qualquer fase de vida para procurar essa pessoa que nos vamos tornando em cada momento, mas não ficar a achar que isso é garantido porque as liberdades nunca estão garantidas. É também essa inquietação. A Júlia é essa inquietação que me persegue e que certamente outras pessoas se identificarão com ela.”

Perguntar Não Ofende
Luaty Beirão, em Luanda: como pode Angola sair do ciclo de opressão e corrupção?

Perguntar Não Ofende

Play Episode Listen Later Jul 1, 2026 71:09


Filho do regime, o rap levou Luaty Beirão a uma Angola que o privilégio não lhe tinha permitido conhecer, a consciência do país em que vivia levou-o à oposição frontal a José Eduardo dos Santos e a oposição levou-o à prisão, onde esteve com mais de 14 companheiros, há 11 anos. Na prisão, onde esteve por duas vezes, completou 36 dias de greve de fome, não permitindo que a sua luta fosse esquecida. Angola está encalhada e desesperada. Bastará aparecer um demagogo agressivo como Venâncio Mondlane para que explosões de protesto e violência, como as que aconteceram em 2025 com a greve dos candongueiros, ganhem dimensões semelhantes às que vimos em Moçambique. A esperança de Angola é uma geração que já não é determinada pelas clivagens da guerra civil e já não aceita a terrível herança colonial como desculpa para os erros de uma elite que, na realidade, mimetizou a opressão e exploração do colono. Nesta hora podem ouvir a conversa que tive com Luaty, em Luanda. A sua luta – e a dos seus companheiros – continua. Corajosa, como sempre.See omnystudio.com/listener for privacy information.

DW em Português para África | Deutsche Welle
13 de Abril de 2023 - Jornal da Noite

DW em Português para África | Deutsche Welle

Play Episode Listen Later Apr 13, 2023 19:58


FBI detém o principal suspeito de ter divulgado documentos confidenciais do Pentágono. PAIGC congratula-se com decisão do Supremo Tribunal e vai avançar com pedido de indemnização contra Bolom Conte. Província moçambicana de Nampula continua a registar casos de cólera. Luaty Beirão continua retido em Portugal e pretende apresentar queixa contra o Estado angolano.

Artes
"Nayola", o filme de animação que retrata Angola pela voz das mulheres

Artes

Play Episode Listen Later Mar 14, 2023 28:08


O filme “Nayola”, a primeira longa-metragem de animação de José Miguel Ribeiro, retrata o impacto da guerra civil angolana na vida de três mulheres: Lelena (a avó), Nayola (a filha) e Yara (a neta). Inspirada na peça “A Caixa Preta”, de José Eduardo Agualusa e Mia Couto, com argumento de Virgílio Almeida, o filme mostra que "as guerras nunca terminam" e que as lutas por um mundo melhor se podem perder se as vozes se calarem. Em 1995, Nayola deixa a sua bebé Yara com a avó, Lelena, para procurar o marido desaparecido em combate, durante a guerra civil angolana. Em 2011, Yara é uma "rapper" e activista dos direitos humanos perseguida pela polícia. Dois percursos paralelos que crescem em duas linhas temporais que não se conseguem encontrar. Duas vidas que reflectem um país dilacerado pelas guerras do passado que contaminam o presente. "Ninguém volta da guerra", ouve-se no filme "Nayola", uma história que também é de esperança por um futuro melhor enquanto houver vozes comprometidas com um sonho comum.O filme estreou em França simbolicamente a 8 de Março, Dia Internacional dos Direitos da Mulher, vai estrear em Angola a 31 de Março e chega aos cinemas portugueses a 13 de Abril. Depois do circuito dos festivais e de ter conquistado vários prémios, o realizador José Miguel Ribeiro diz que o maior prémio é que os angolanos sintam o filme como deles e começa por descrever como é que a luta pela construção de uma família também reflecte a luta pela construção de um país.RFI: Como é que resume a história do filme “Nayola”?José Miguel Ribeiro, Realizador de “Nayola”: Nayola conta a história de três gerações de mulheres angolanas que resistem e sonham com um país melhor e lutam por um país melhor, bem melhor, e tentam no meio dessa luta conciliar aquilo que é a construção de uma família com a construção de um país.É uma história que se baseia no texto teatral "A Caixa Preta" do angolano José Eduardo Agualusa e do moçambicano Mia Couto. O que é que o levou a querer adaptar esta obra?Quando descobri a obra que me foi mostrada pelo Jorge António, um amigo realizador que vive em Angola há mais de trinta anos, foi ele que mostrou a peça de teatro antes de ela ser publicada. O que me pareceu interessante nessa peça de teatro era essa dimensão humana destas três mulheres e a forma como tocadas pela guerra, uma guerra imensa que foi a guerra da libertação - são 13 anos mais 27 anos de guerra civil - foi um percurso enorme de sofrimento do povo angolano.O que eu gostei na peça de teatro é essa dimensão humana e quando digo humana é porque todas estas três personagens têm as suas qualidades, mas também têm os seus segredos, os seus lados menos positivos e todas elas lutam e mostram-se de uma forma bastante humana. Essa dimensão humana das personagens foi uma das coisas que mais gostei, a forma como eles as escreveram, como nós tentámos depois também trazê-la de uma forma, se calhar, mais simbólica. Acrescentámos a viagem da Nayola ao passado, à procura de marido, que não existia na peça de teatro; introduzimos uma Medusa que é uma 'rapper' que também não existia como 'rapper' na história do Mia Couto e do Agualusa. Houve um trabalho de contaminação também da história de Angola e daquilo que nós fomos acompanhando: o caso do Luaty Beirão e dos 15 activistas que foram presos. Enfim, o filme demorou nove anos e durante esses nove anos o mundo não esteve parado, esteve sempre a mudar e casos como a morte de George Floyd foram casos que me influenciaram nas tomadas de decisões artísticas também.Falou da dimensão humana, mas há também uma dimensão militante muito forte de mulheres. A história anda à volta de três mulheres. Todas elas lutam à sua maneira: uma vai para a guerra; a outra faz rap e é procurada pela polícia porque, como diz um dos personagens "o rap é guerrilha" e o poder estava "com medo das músicas" dela. No quarto da Yara temos um cartaz a dizer "Feminists" e estreou o filme em França a 8 de Março, Dia Internacional dos Direitos da Mulher. Quis mostrar esta força das mulheres? Era necessário?Eu acho que sim. Continua a ser necessário. Infelizmente continuamos num mundo muito machista, onde o espaço das mulheres tem que ser conquistado com luta e com força e são, de facto, as mulheres que têm feito essa luta. Eu acho que é nossa obrigação - também homens - juntar-nos a essa luta e antecipar esse equilíbrio na sociedade porque já não se compreende como é que temos uma sociedade continuamente machista que impõe às mulheres um desgaste todos os dias de energia para conseguirem coisas que os homens já têm há tanto tempo.A música está sempre no filme. Até na guerra civil um dos soldados tem uma guitarra e na Luanda de 2011 do filme a Yara é uma "rapper" perseguida como já foi Luaty Beirão e tantos outros. No filme, conta com as vozes de Bonga e da "rapper" Medusa que dá voz a Yara. A cantiga como arma também guiou o filme?Sim, aliás, a música com que nós fechamos o filme é a música do Bonga 'Mona Ki Ngi Xiça', que foi uma música do primeiro álbum que ele já gravou na Holanda - quando teve de fugir do regime fascista português e refugiar-se na Holanda - e essa música por si só, e também todas as primeiras músicas do Bonga, eram essa manifestação de resistência e de luta. Primeiro, ainda contra o ocupante, o colonisador Portugal e, depois, a Yara, neste momento, é a luta contra a injustiça social que ela identifica no país e pelas quais ela se defende. A luta continua. A democracia e a conquista dos direitos e da justiça num país não é nada que se possa dizer que está conquistado e está garantido. É uma luta permanente, constante e talvez para os europeus é mais visível a de Angola, mas na Europa há muitas lutas também ainda a fazer e há muitas conquistas que se podem perder.Porque é que quis focar-se em Angola? Que memórias de África é que o levaram a querer fazer este filme sobre Angola?Eu cresci com álbuns do meu pai na Guiné-Bissau que foi militar das forças portuguesas na altura da guerra colonial - como muitos portugueses que não tiveram alternativa, era imposta essa permanência e essa luta contra as colónias. Eu cresci a ver álbuns do meu pai em cima de árvores, vestido de militar, com macacos ao lado. Imagens que eu, na minha inocência de criança, achava muito exóticas e muito distantes. Depois fui crescendo, felizmente tivemos o 25 de Abril em Portugal, a chegada da democracia, a independência das colónias, mas infelizmente fui acompanhando a guerra civil, especialmente em Angola e Moçambique, mas em Angola com mais violência e que durou ainda mais tempo.Angola não é propriamente um tema distante de mim, acho que de nenhum português. Mas conhecia muito pouco Angola, confesso, e quando comecei este trabalho tive que reconhecer a minha ignorância e fazer uma longa pesquisa de mais de cinco anos a ler tudo o que apanhava, a ler também altos autores para além do Agualusa, Pepetela, fazer a minha investigação pessoal para depois, já num processo criativo, poder fechar os livros, escutar a minha memória dessa experiência que foi longa e grande e onde aprendi muito.Aprendi essencialmente a sair da minha posição de ocidental porque essa é talvez a grande aprendizagem deste processo criativo de fazer este filme. É que em Portugal e na Europa continuamos muito limitados na capacidade de nos meter no lugar dos africanos. E quando lá estamos e quando começamos a aproximar-nos, aí é que vemos a distância entre aquilo que é o olhar de África sobre a Europa e o olhar da Europa sobre a África. É uma distância enorme.Vamos então ao processo criativo. As máscaras africanas são um padrão central no filme, mas também as cores quentes, os rituais, as pontes entre vivos e mortos. Como é que construiu o universo gráfico de Nayola?As máscaras influenciam a arte na Europa há muito tempo, desde o Picasso, com o Cubismo que teve influência das máscaras; o Modigliani que também utilizou muito as máscaras para um momento da criação da sua obra. Eu estudei essa arte contemporânea e não podia ficar indiferente à capacidade de síntese e à beleza e força gráfica das máscaras. Para mim, as máscaras africanas já me influenciavam nos meus filmes anteriores, antes de eu fazer um filme africano.Quando eu decidi avançar para este projeto, era óbvio que as máscaras tinham que ser centrais na construção dos personagens até porque elas também são referidas na própria peça de teatro do Mia e do Agualusa. Há um momento em que a Yara diz: "Toda a gente devia usar uma máscara que mostrasse aquilo que nós realmente somos". Com base nessa evidência, nessa presença das máscaras na peça, eu fiz uma pesquisa ainda mais profunda e tentei encontrar uma coerência para a utilização das máscaras e, até, do design das personagens que justificasse também porque é que usamos máscaras. Usamos as máscaras para nos proteger ou para nos mostrarmos? É um questionamento que eu faço no filme e desenvolvo, depois, graficamente as personagens.Parece que o desenho e as cores acompanham tempos paralelos. O passado, de Nayola, à procura do marido na guerra e no mato, e o presente, de Yara, em Luanda. Houve essa vontade de marcar graficamente diferentes universos e tempos?Sim, porque, na verdade, o momento presente é o pós-guerra, o passado é a guerra. Se há alguma coisa que a guerra tem é a intensidade. Tudo é intenso. Na guerra não há meio termo. O que se sente, o que se vive, o que se sofre, é tudo intenso e eu tentei graficamente mostrar essa intensidade com a utilização de uma paleta gráfica muito forte, com cores fortes como os amarelos, os laranjas, os vermelhos, os verdes puros, quase puros. Uma textura, também, sem ser muito trabalhada, crua, e um movimento a nível da animação. Usámos o 2D no passado e animação 3D no presente. Uma animação 2D também muito expressiva e muito intensa e, portanto, eu faço esse contraste entre um passado intenso e plasticamente marcante para um presente mais próximo do fotográfico, uma visão fotográfica com uma dimensão também mais real, se quisermos. É desse contraste que se cria a relação entre um país em paz e o país em guerra e como a guerra continua a tocar a paz do país, mesmo depois de já ter acabado. É esse zigue-zague porque o filme é construído com saltos temporais do presente para o passado exactamente para reforçar essa ideia de que o passado continua a influenciar-nos mesmo que já esteja um bocadinho distante.Uma das frases mais pungentes do filme é "Ninguém volta da guerra". Há também outra frase: "Lutam melhor os que têm belos sonhos. As armas também matam sonhos". Que mensagem é que quis deixar com este filme para a Angola de 2023?Eu acho que é para Angola, mas é para o mundo todo também. Eu acho que as lutas, as guerras nunca terminam. Aliás, eu estava agora a ver uma entrevista de uma viagem que fizemos a Angola em que estivemos a mostrar o filme. Estivemos  em Luanda, Benguela e Lubango e há uma das pessoas que nós entrevistámos que nos disse de uma forma que eu acho muito directa e muito visível que a guerra continua.  A guerra, claro que não tem se calhar essa dimensão de guerra no sentido de uma violência mais bárbara, mas é uma guerra de procura de um país melhor, de um país sonhado, das pessoas se reverem naquilo que é o seu país, de sentirem que estão a construir qualquer coisa que é um sonho comum e isso, para mim, é fundamental não só em Angola como no mundo todo.A guerra, essas batalhas pela justiça, pela paz, pela distribuição equitativa da riqueza, pela tolerância, são guerras todos os dias. A Yara representa isso, representa a nova geração de jovens comprometidos com um mundo melhor que não se consegue se ficarmos todos em casa. Esse mundo só se consegue quando as pessoas saem e mostram aquilo que querem e não se resignam àquilo que é a condição que lhes querem impor. Eu acho que essa luta, no dia em que nós nos calarmos, ela é perdida, portanto, é importante as pessoas ouvirem-se e fazerem-se ouvir.E o José Miguel Ribeiro não pretende calar-se... Teve antestreia em Luanda, em Fevereiro, e chega ao circuito comercial angolano no final de Março. Quando exactamente e como é que tem sido a recepção em Angola?Na semana que estivemos, e que foi uma semana muito intensa, estivemos com os produtores belgas, também nos acompanharam produtores franceses, com o Jorge António que vive lá e o Henrique, a Medusa também andou connosco. A sensação que tive foi que as pessoas primeiro se emocionaram muito e também se riram muito porque a cena do tio e do sobrinho, que afinal descobrem que estão a lutar em lados contrários, é uma cena hilariante no sentido em que as guerras muitas vezes sabemos como as começamos, mas depois já não sabemos bem porque é que elas existem, porque as pessoas às tantas estão todas a lutar do mesmo lado mas lutam umas contra as outras.O que me tocou mais também foi sentir que as pessoas sentiram o filme como um filme angolano. Um filme que é deles, que é a realidade de Angola, são as lutas deles e é a Angola do passado mas também uma Angola do presente e do futuro. E aí foi o que eu tentei também fazer porque a peça de teatro foi escrita pelo Mia Couto e pelo Agualusa algures em 2011 e esta dimensão mais actual trazida pela Medusa foi também uma intenção de não fazer um filme só a falar do passado mas que fale também do presente e do futuro. Os angolanos reveem-se neste filme, naquilo que são as suas lutas actuais também por um país mais justo, mais equilibrado, mais democrático. Enfim, o país é uma construção, nunca acaba, mas eu fiquei assim muito tocado de os ver falar do filme como se estivessem a falar de um filme angolano. Para mim, é o maior prémio que posso ganhar depois de fazer este filme, é sentir os angolanos a sentirem o filme como um filme deles, que é isso que eu tentei fazer.Quando é que o filme se vai estrear exactamente em Angola?Em Angola é 31 de Março. Em Portugal, sai a 13 de Abril. Em França, vai continuar, estreou na semana passada. Na Holanda, já há uma data de estreia também a 13 de Abril. Na Bélgica, ainda não está anunciada e irá sair também no Brasil. Estes são os países que eu posso confirmar hoje que vão fazer o filme sair em sala.Precisamente, o filme é uma co-produção com a Bélgica, França, Holanda e Portugal. Como é que foi viabilizado financeiramente e quanto é que custou?O filme teve um custo total de três milhões e duzentos mil euros, sabendo que nós em Portugal conseguimos arranjar 46% mais ou menos deste orçamento. Portanto, era preciso arranjar o resto. Um filme de animação com este valor nem sequer é um filme muito caro. Os filmes de longas-metragens rondam os dez milhões de euros na Europa, um preço médio, portanto, nós nem nos ousámos a fazer um filme muito europeu nesse sentido do preço. Agora, fomos criativos, trabalhámos com equipas, com pessoas muito talentosas em todos estes países. A vantagem da co-produção é que é um trabalho colaborativo, sempre, fazer um filme. Se tivermos coprodutores que nos entendem, que estão em sintonia connosco, como foi o caso, a JPL, a S.O.I.L e a il Luster são três produtoras que desenvolvem muito o seu trabalho com uma base muito grande de filmes de autor. Todos nós estávamos em sintonia que é uma obra artística aquilo que nós queremos fazer, não tínhamos ambições de fazer blockbusters e estivemos sempre muito em sintonia. Depois foi preciso distribuir o trabalho, dividir o filme, tentámos manter uma escala pequena na produção em cada país e em vez de concentrarmos em cada país uma parte da execução do filme como se costuma fazer: por exemplo, faz-se a animação num país, depois a intercalação noutro, depois a pintura noutro. Nós tentámos manter em todos os países estas fases, dividindo o filme, uma vez que o filme é um quase road movie, é um filme de percurso, com estilos gráficos também diferentes em vários momentos - temos pintura animada, desenho animado, 3D - fizemos essa divisão mais do princípio ao fim para cada país do que especializar cada país só numa fase da produção. Isso fez com que as equipas trabalhassem de uma forma mais próxima do filme, verem o segmento que é feito nesse país, a verem esse segmento do princípio ao fim a ser construído. Na verdade, trabalhamos muito próximo daquilo que é a forma de trabalhar quando se fazem curtas-metragens.O cinema de animação de autor em Portugal está a dar cartas. Houve o primeiro filme português candidato efectivo aos Óscars ,‘Ice Merchants' de João González, algo que já podia ter acontecido com Regina Pessoa que chegou à short list dos Óscars. Com esta longa, você esteve no festival de animação de Annecy com este filme e já conquistou vários prémios em 2022. Ou seja, o cinema de animação de autor português realmente está a dar cartas, apesar de não ter assim tanto dinheiro? Eu acho que o cinema de animação é curioso porque ele inicia-se com o Abi Feijó num primeiro filme que ele consegue o apoio do Instituto Português do Cinema que, na altura, não tinha concursos só para a animação, portanto, os concursos eram para cinema na generalidade, ele consegue um primeiro apoio e ele e o Fernando Galrito são a geração que luta pelo apoio ao cinema em concursos separados da imagem real.Isso foi uma conquista enorme porque criou uma base financeira para a produção que tem dado resultados ao longo destes últimos anos e, portanto, há gerações de realizadores como o Vasco [Sá] e o David [Doutel], a Laura [Gonçalves] que fizeram um percurso como eu fiz. Eu comecei por trabalhar nos filmes do Abi Feijó, do Zepe e depois um dia comecei a fazer os meus. E a maior parte destes realizadores têm esta escola, que é não só as escolas que existem em Portugal e que ensinam o cinema de animação, mas depois quando entram no mercado de trabalho começam a trabalhar em filmes de outros realizadores até um dia terem a sua oportunidade e começarem o seu percurso como realizador. Essa conquista ao nível das curtas já existe e felizmente, à excepção do ano 2011 em que não houve apoio ao cinema, tem-se mantido regular. Agora, havia aqui o salto a dar para as longas-metragens que felizmente foi dado, há uma longa-metragem apoiada de dois em dois anos no ICA. É provável que nos próximos anos, com os candidatos que estão a propor e com o desenvolvimento do cinema de animação, faça mais sentido que o concurso em vez de ser bianual seja anual. Depois, há aqui um lado que nós não temos tão desenvolvido como a Espanha, que está aí mesmo ao lado, e que é a indústria do cinema de animação. A mim pessoalmente como realizador talvez não me interesse tanto, mas como produtor pode ser um caminho também para criar mais escala de produção, começar a trabalhar também para uma escala onde é possível mais facilmente encontrar mercado e dar oportunidade aos portugueses que são formados nas escolas portuguesas de poderem continuar a trabalhar em Portugal sem terem que emigrar. Porque o que acontece muitas vezes em Portugal é termos formação, temos já algumas escolas em várias zonas do país, mas quando o talento é grande, os animadores acabam a trabalhar para fora. Pronto, isso é uma conversa longa e podemos um dia falar sobre isso, mas parece-me a mim que o cinema de animação, ao nível do filme de autor de curta-metragem, é um cinema que já conquistou quase todos os prémios que existem, só falta mesmo o Óscar. No maior festival de animação de França, que é o festival de Annecy, a Regina Pessoa já ganhou esse festival, enfim, já tivemos realizadores nos maiores festivais do mundo.Agora, para mim, é este o salto que falta dar. As longas, demos o salto nos últimos anos. Saiu a minha longa no ano passado e saiu a longa do Nuno Beato também e irão sair outras em breve, há mais duas longas que estão em produção. Acho que as longas-metragens vão-se começar a afirmar. Para mim, a grande questão aqui está no salto das séries de animação, que Espanha é um país fortíssimo em séries e em França também é muito forte, e nós em Portugal é quase inexistente. Isso prende-se, julgo eu, com dois passos que têm que ser dados. Um que me parece que é o mais importante que é as televisões fazerem investimentos significativos na produção de séries de animação em Portugal, o que não acontece neste momento. O outro é também o ICA, Instituto Português de Cinema, começar a apoiar as séries de animação com valores mais substanciais porque uma série de animação não se faz com 500 mil euros. Uma série são vários episódios, dependendo da duração de cada episódio podem ser várias horas de programação e precisam de financiamentos que rondem os três milhões, no mínimo. Portanto, o custo desta longa é o mínimo de um trabalho de uma série com alguma dimensão. Julgo que é isso que falta em Portugal. Acho que as curtas vão continuar, as longas, espero eu, que se vão instalar e ganhar esse espaço que já estão a conquistar e falta este salto que é o salto da produção de conteúdos de séries.Coproduzido entre Portugal, França, Bélgica e Holanda, "Nayola" esteve em vários festivais em 2022, ano em que conquistou vários prémios, nomeadamente de Melhor Longa Metragem de Animação no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, no México, no Animest Film Festival, na Roménia, no Manchester Animation Festival, no Reino Unido, no Anilogue International Animation Festival in Budapest & Vienna, na Hungria, no Afrykamera African Film Festival, na Polónia, (onde também conquistou o Prémio do Público). O Prémio do Público também foi para « Nayola » na Mostra de Cinema de São Paulo, no Brasil, assim como no Cinanima – Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho, em Portugal. Houve, ainda, o Prémio BE TV da Melhor Longa Metragem da Seleção Oficial do Festival Internacional do Filme de Animação de Bruxelas (Anima), assim como o Cocomics Best Music e DHL Diversity prize no Bucheon International Animation Festival, na Coreia do Sul. O filme esteve, também, em competição na Selecção Oficial no Festival de Annecy, em França.

DW em Português para África | Deutsche Welle
5 de Agosto de 2022 - Noite

DW em Português para África | Deutsche Welle

Play Episode Listen Later Aug 5, 2022 19:58


Angola: Sociedade civil apresenta ação judicial popular contra João Lourenço e imprensa pública. Luaty Beirão, que integra a ação, lamenta instrumentalização da imprensa a favor do MPLA. Eleições em Angola: perfil de Nimi Ya Simbi, da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). Na província moçambicana de Tete imigrantes enfrentam fome e más condições. Arranca campeonato alemão - Bundesliga.

Musiques du monde
Musiques du monde - Rendez-vous lusophone avec Gabriel Saglio et Ikoqwe

Musiques du monde

Play Episode Listen Later Jul 2, 2021 48:30


Nous recevons d'abord Gabriel Saglio qui présente son nouvel album Lua chez Daydream Music. Featuring Bonga, Cyril Atef, Sekouba Bambino, Lucia de Carvalho. Né au sein d'une fratrie d'artistes, Gabriel Saglio parcourt la France depuis 2003 avec le groupe qu'il a fondé : "Les Vieilles Pies". Il réalise ainsi près de 700 concerts: 6 musiciens sur scène et des Live réputés pour leur générosité. Malgré une même équipe toujours très active sur scène, Gabriel Saglio assume cette fois un album à son nom. Chanteur, auteur, compositeur, il porte haut le verbe et la qualité de texte tout en invitant chacun dans une musique festive et métissée. Son opus précédent sorti en 2018: «Le Chant des rameurs» avait déjà commencé à creuser un sillon original à ce chanteur curieux à mi-chemin entre la Chanson Française et la musique d'Afrique de l'Ouest. Récompensé par un coup de cœur de l'académie Charles Cros côté Chanson et une invitation pour un Live à "l'Afrique en Solo" de France Inter côté Afrique, le pari audacieux de cette union a, semble-t-il, réussi… Nous retrouvons donc Gabriel Saglio avec ce nouveau disque: Lua ( = Lune en portugais). Cet élégant voyageur a décidé d'approfondir son créneau de chanson métissée, mais nulle possibilité pour lui d'être là où son public l'attend. Un pas de côté et le voilà qui revient avec ses dix nouvelles chansons aux rythmes syncopés d'une Afrique Lusophone cette fois. Si Gabriel Saglio signe une fois de plus les textes de ce nouvel album, les musiques, elles, ont été composées en trio avec l'aide de deux de ses musiciens: Yoan Hernandez (guitare) et Vincent Barrau (basse). L'Afrique Lusophone se fait entendre avec des rythmes empruntés aux musiques du Cap-Vert, de Guinée Bissau ou de l'Angola. Avec des textes toujours en français, la mélancolie de la Morna ne semble pourtant jamais bien loin dans la voix éraillée de Gabriel Saglio, les guitares se font tantôt Cavaquinho tantôt nerveuses pour danser le Funana avec l'accordéon et toujours la basse et les percussions invitent à la danse grâce aux syncopes de ces musiques enivrantes. Alors, quand la danse bat son plein, de nombreux chœurs inondent soudain cet album, nous plongeant définitivement dans l'héritage de ce Cap-Vert des années 70-80 ou la Guinée Bissau des Super Mama Djombo. Comme dans son précédent opus, Gabriel Saglio réussit à embarquer avec lui quelques passagers prestigieux venus apporter leur souffle reconnu à ses voiles: ➜ le batteur Cyril Atef signe la plupart des batteries de cet album qui lui ressemble ➜ la chanteuse Lucia de Carvalho (Angola / Brésil) vient poser sa voix sur le sensuel « Dans tes bras ». ➜ le beatmaker nantais Raphaël d'Hervez participe au son électronique avec "Nuage" ➜ le compagnon de route du précédent opus (et invité régulier sur scène) Sekouba Bambino (Guinée Conakry) vient rappeler qu'il est bien l'une des plus belles voix d'Afrique. ➜ le mixage a été réalisé par Olivier Lude au studio Ferber (M, Brigitte Fontaine, Johnny Hallyday) Enfin, comme Gabriel Saglio semble connaître les figures tutélaires de ces musiques qu'il affectionne, il s'offre même l'incroyable chance d'un duo avec la plus grande voix de cette Afrique Lusophone : le chanteur Bonga. Titres de Gabriel Saglio Lua Feat. Bonga voir le clip  Ma terre voir le clip  Dans Tes Bras Feat. Lucia De Carvalho Demain Stance à Marquise Feat. Sekouba Bambino Puis, nous recevons Ikonoklasta du duo Ikoqwe pour l'album The Beginning, The medium, The End & The Infinite sorti chez Crammed Discs. IKOQWE est un duo de personnages de fiction qui débarque d'un espace-temps à des années lumière de notre réalité. Confrontés au monde d'aujourd'hui, ils nous transmettent leurs impressions tout au long de cet album qui mélange allègrement musique électronique, hip hop et sonorités d'instruments angolais ancestraux. IKOQWE est né de l'union de deux vieux amis, étroitement liés à la scène musicale de Luanda: Pedro Coquenão, connu sous le nom de Batida (artiste né en Angola et élevé à Lisbonne et l'un des leaders de la nouvelle vague de la musique électronique africaine) est 'Coqwe', tandis que Luaty Beirão alias Ikonoklasta (rappeur angolais devenu activiste iconique) est ‘Iko'. Son inspiration vient autant du hip hop old school que de la musique traditionnelle angolaise. Certains morceaux comportent des sons provenant d'archives de la Bibliothèque internationale de musique africaine. IKOQWE a utilisé des enregistrements de terrain réalisés en Angola par l'ethnomusicologue Hugh Tracey, dans les années 50. Ils ont surtout travaillé avec des enregistrements comportant des ngomas, des dikanzas et des kissanges (pianos à pouces), l'instrument emblématique utilisé dans toute l'Afrique, dont la popularité a été renforcée grâce au groupe Konono N° 1. On se souvient peut-être que le dernier album de Konono N° 1 était une collaboration avec Batida, donc tout cela prend tout son sens… La musique et les paroles ont été écrites par IKOQWE et produites par Batida, parfois en collaboration avec des noms-clés de la musique de danse portugaise (Celeste Mariposa a co-écrit et coproduit The Medium, Octa Push a coproduit Vai de C @ n @! ), et avec l'artiste sud-africain Spoek Mathambo, qui a travaillé sur Falta Muito? .   Titres d'Ikoqwe Pele voir le clip Faita Muito ? Feat. Spoek Mathambo Vai de C @ n @!  Feat. Octo Push. Archive 2018 ►À écouter sur RFI Musique : Angola, la voix contestataire du rappeur Luaty Beirão   (Émission initialement diffusée le 13 mars 2021)

Musiques du monde
Musiques du monde - Rendez-vous lusophone avec Gabriel Saglio et Ikoqwe

Musiques du monde

Play Episode Listen Later Mar 12, 2021 48:30


Nous recevons d’abord Gabriel Saglio qui présente son nouvel album Lua chez Daydream Music. Featuring Bonga, Cyril Atef, Sekouba Bambino, Lucia de Carvalho. Né au sein d’une fratrie d’artistes, Gabriel Saglio parcourt la France depuis 2003 avec le groupe qu’il a fondé : "Les Vieilles Pies". Il réalise ainsi près de 700 concerts: 6 musiciens sur scène et des Live réputés pour leur générosité. Malgré une même équipe toujours très active sur scène, Gabriel Saglio assume cette fois un album à son nom. Chanteur, auteur, compositeur, il porte haut le verbe et la qualité de texte tout en invitant chacun dans une musique festive et métissée. Son opus précédent sorti en 2018: «Le Chant des rameurs» avait déjà commencé à creuser un sillon original à ce chanteur curieux à mi-chemin entre la Chanson Française et la musique d’Afrique de l’Ouest. Récompensé par un coup de cœur de l’académie Charles Cros côté Chanson et une invitation pour un Live à "l’Afrique en Solo" de France Inter côté Afrique, le pari audacieux de cette union a, semble-t-il, réussi… Nous retrouvons donc Gabriel Saglio avec ce nouveau disque: Lua ( = Lune en portugais). Cet élégant voyageur a décidé d’approfondir son créneau de chanson métissée, mais nulle possibilité pour lui d’être là où son public l’attend. Un pas de côté et le voilà qui revient avec ses dix nouvelles chansons aux rythmes syncopés d’une Afrique Lusophone cette fois. Si Gabriel Saglio signe une fois de plus les textes de ce nouvel album, les musiques, elles, ont été composées en trio avec l’aide de deux de ses musiciens: Yoan Hernandez (guitare) et Vincent Barrau (basse). L’Afrique Lusophone se fait entendre avec des rythmes empruntés aux musiques du Cap-Vert, de Guinée Bissau ou de l’Angola. Avec des textes toujours en français, la mélancolie de la Morna ne semble pourtant jamais bien loin dans la voix éraillée de Gabriel Saglio, les guitares se font tantôt Cavaquinho tantôt nerveuses pour danser le Funana avec l’accordéon et toujours la basse et les percussions invitent à la danse grâce aux syncopes de ces musiques enivrantes. Alors, quand la danse bat son plein, de nombreux chœurs inondent soudain cet album, nous plongeant définitivement dans l’héritage de ce Cap-Vert des années 70-80 ou la Guinée Bissau des Super Mama Djombo. Comme dans son précédent opus, Gabriel Saglio réussit à embarquer avec lui quelques passagers prestigieux venus apporter leur souffle reconnu à ses voiles: ➜ le batteur Cyril Atef signe la plupart des batteries de cet album qui lui ressemble ➜ la chanteuse Lucia de Carvalho (Angola / Brésil) vient poser sa voix sur le sensuel « Dans tes bras ». ➜ le beatmaker nantais Raphaël d'Hervez participe au son électronique avec "Nuage" ➜ le compagnon de route du précédent opus (et invité régulier sur scène) Sekouba Bambino (Guinée Conakry) vient rappeler qu’il est bien l’une des plus belles voix d’Afrique. ➜ le mixage a été réalisé par Olivier Lude au studio Ferber (M, Brigitte Fontaine, Johnny Hallyday) Enfin, comme Gabriel Saglio semble connaître les figures tutélaires de ces musiques qu’il affectionne, il s’offre même l’incroyable chance d’un duo avec la plus grande voix de cette Afrique Lusophone : le chanteur Bonga. Titres de Gabriel Saglio Lua Feat. Bonga voir le clip  Ma terre voir le clip  Dans Tes Bras Feat. Lucia De Carvalho Demain Stance à Marquise Feat. Sekouba Bambino Puis, nous recevons Ikonoklasta du duo Ikoqwe pour l’album The Beginning, The medium, The End & The Infinite sorti chez Crammed Discs. IKOQWE est un duo de personnages de fiction qui débarque d'un espace-temps à des années lumière de notre réalité. Confrontés au monde d'aujourd'hui, ils nous transmettent leurs impressions tout au long de cet album qui mélange allègrement musique électronique, hip hop et sonorités d'instruments angolais ancestraux. IKOQWE est né de l’union de deux vieux amis, étroitement liés à la scène musicale de Luanda: Pedro Coquenão, connu sous le nom de Batida (artiste né en Angola et élevé à Lisbonne et l’un des leaders de la nouvelle vague de la musique électronique africaine) est 'Coqwe', tandis que Luaty Beirão alias Ikonoklasta (rappeur angolais devenu activiste iconique) est ‘Iko’. Son inspiration vient autant du hip hop old school que de la musique traditionnelle angolaise. Certains morceaux comportent des sons provenant d’archives de la Bibliothèque internationale de musique africaine. IKOQWE a utilisé des enregistrements de terrain réalisés en Angola par l'ethnomusicologue Hugh Tracey, dans les années 50. Ils ont surtout travaillé avec des enregistrements comportant des ngomas, des dikanzas et des kissanges (pianos à pouces), l'instrument emblématique utilisé dans toute l'Afrique, dont la popularité a été renforcée grâce au groupe Konono N° 1. On se souvient peut-être que le dernier album de Konono N° 1 était une collaboration avec Batida, donc tout cela prend tout son sens… La musique et les paroles ont été écrites par IKOQWE et produites par Batida, parfois en collaboration avec des noms-clés de la musique de danse portugaise (Celeste Mariposa a co-écrit et coproduit The Medium, Octa Push a coproduit Vai de C @ n @! ), et avec l'artiste sud-africain Spoek Mathambo, qui a travaillé sur Falta Muito? .   Titres d’Ikoqwe Pele voir le clip Faita Muito ? Feat. Spoek Mathambo Vai de C @ n @!  Feat. Octo Push. Archive 2018 ►À écouter sur RFI Musique : Angola, la voix contestataire du rappeur Luaty Beirão          

FAZ-TE AO LIVRO
SOU EU MAIS LIVRE, ENTÃO

FAZ-TE AO LIVRO

Play Episode Listen Later May 27, 2020 3:25


Na edição nº 29 (T3) da rúbrica FAZ-TE AO LIVRO, Mariana Ribeiro, aluna da turma A do 10º ano, da Escola Básica e Secundária de Infias, sugere o livro SOU EU MAIS LIVRE, ENTÃO de Luaty Beirão. 27-05-2020

Perguntar Não Ofende
Luaty Beirão: Angola está mesmo a mudar?

Perguntar Não Ofende

Play Episode Listen Later Feb 5, 2020


Em 2015, Luaty Beirão e mais 14 companheiros foram apanhados na mais sórdida das conspirações: aprendiam, através da leitura, como combater ditadores. Como o poder colonial, os homens do MPLA temiam o que os livros podem fazer a jovens idealistas. No dia 20 de junho foram detidos. A acusação de preparação de atentado contra José […]

O Bom, o Mau e o Vilão
Ainda há muito para fazer em Angola

O Bom, o Mau e o Vilão

Play Episode Listen Later Jan 24, 2020 5:07


Luaty Beirão, o Ministério da Educação e Marta Temido são o Bom, o Mau e o Vilão de hoje.

Direto ao Assunto
Luaty Beirão: "Era óbvio que havia trafulhices"

Direto ao Assunto

Play Episode Listen Later Jan 21, 2020 9:28


Luaty Beirão diz que angolanos respiraram de alívio ao conhecer os dados revelados pelo Luanda Leaks, mas que é preciso perceber como a investigação se vai desenvolver. 

havia luaty beir
Zona Mestiça
Luaty Beirão Ikonoklasta

Zona Mestiça

Play Episode Listen Later Mar 10, 2019


Edição de 11 Março 2019

As Donas da Casa (Entrevistas)
Luaty Beirão apresenta o livro "Sou eu mais livre, então"

As Donas da Casa (Entrevistas)

Play Episode Listen Later Jun 11, 2017 50:20


Renascença - Hora da Verdade
Hora da Verdade - Luaty Beirão - 01/06/2017

Renascença - Hora da Verdade

Play Episode Listen Later Jun 1, 2017


O activista e rapper luso-angolano Luaty Beirão é o convidado do programa Hora da Verdade desta semana, uma parceria Renascença/Público.

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Rádio AfroLis
Áudio 139 - Luaty Beirão Lança Livro - Sou Eu Mais Livre, Então - Na Conferência Activisms In Africa

Rádio AfroLis

Play Episode Listen Later Jan 11, 2017 10:08


"Só quem sonha é que transforma. Só quem sonha é que muda o mundo. E nós vamos transformando e mudando o nosso pequeno canto. Pensar global, agir local", Luaty Beirão. A Afrolis foi ouvir Luaty Beirão na apresentação  do seu livro na Conferência Internacional Activisms in Africa, no ISCTE-IUL (11 de janeiro, 2017). "Em Junho de 2015, Luaty Beirão e outros 16 activistas foram detidos em Luanda por estarem a ler uma adaptação do livro «Da Ditadura à Democracia», de Gene Sharp, e por questionarem publicamente a liderança de José Eduardo dos Santos. A história correu mundo, e continuar a ler..." Na Conferência Internacional Activisms in Africa, esta quinta-feira, 12 de janeiro de 2017, Luaty Beirão fará parte da mesa redonda de abertura, juntamente com o ativista nigeriano, Leo Igwe, e Juan Tomás Ávila Laurel, um dos intelectuais guinéu-equatorianos de maior projeção internacional. Ler mais (radioafrolis.com - audio 139)

Biblioteca de Bolso
Ep. 45 - Bárbara Bulhosa

Biblioteca de Bolso

Play Episode Listen Later Nov 21, 2016 43:45


A convidada desta semana é Bárbara Bulhosa. Lisboeta aproximou-se de vez do mundo dos livros ao fazer uma pós-graduação em Técnicas Editoriais. Em 2005, fundou a editora Tinta da China, e, sete anos depois, a Tinta da China Brasil. Em 2013 foi constituída arguida num processo judicial movido por sete generais angolanos, na sequência da publicação do livro "Diamantes de Sangue: Tortura e Corrupção em Angola", do jornalista Rafael Marques. Mais recentemente, editou "Da Ditadura à Democracia", de Gene Sharp, o livro que serviu de pretexto à detenção e julgamento de 17 activistas em Luanda, acusados de "rebelião e associação de malfeitores". De um deles, Luaty Beirão, a Tinta da China publicará, no final deste mês, o diário escrito na prisão. Trouxe-nos: Os Cadernos de Pickwick - Charles Dickens Anna Karenina - Lev Tólstoi As Benevolentes - Jonathan Littell

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Fumaça
Domingos Da Cruz sobre o Regime Angolano

Fumaça

Play Episode Listen Later Nov 4, 2016 33:10


Num momento da História em que pessoas não têm necessidades básicas garantidas e direitos humanos assegurados, tudo o que a comunicação social faça que não seja questionar isso mesmo, é apenas entretenimento. Hoje em dia, os media tradicionais limitam-se a reportar quando existem factos novos. Não é esse o papel dos media. O papel dos media é continuar a questionar os temas que são importantes e que são críticos nos dias de hoje até que eles mudem, e até que direitos humanos sejam assegurados. É isso que nós queremos fazer no É Apenas Fumaça. Falámos há meses atrás com o Luaty Beirão sobre Angola e sobre a mudança que ele exige para o país. Hoje, lançamos um novo episódio sobre Angola. Conversámos com o Domingos da Cruz, ativista, professor de Direitos Humanos, Filosofia e Teoria da Educação, investigador, jornalista e coordenador do Observatório da Imprensa e da Comunicação. Lançou recentemente o livro “Angola Amordaçada - A imprensa ao serviço do autoritarismo”. Abordámos temas como o autoritarismo do regime; a censura da imprensa; as eleições em Angola e porque não são representativas da opinião das pessoas; as consequências das revoluções na Libia e na Siria; a influência do capital angolano na comunicação social portuguesa; e os próximos passos dele, Domingos, como ativista pela Democracia. Não deixaremos cair este tema no silêncio. Links: 3’ - CLUB-K Notícias Imparciais de Angola http://www.club-k.net 3’ - Folha 8 Jornal Angola Independente http://www.jornalf8.net/ 9’ - “Angola Amordaçada - A imprensa ao serviço do autoritarismo”, Domingos da Cruz, Guerra e Paz http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=35034 11’ - Luaty Beirão sobre a Democracia em Angola, É Apenas Fumaça www.apenasfumaca.pt/luaty-beirao-democracia-angola/ 14’ - Frente a frente entre Luvualu e Agualusa, RTP https://www.youtube.com/watch?v=Wttf9OV1MlY 20’ - “Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura”, Domingos da Cruz, Maka Angola http://www.makaangola.org/images/files/Ditadura%20final%20Print.pdf Support the show.

Fumaça
Luaty Beirão sobre a Democracia em Angola

Fumaça

Play Episode Listen Later Jul 20, 2016 52:13


Luaty Beirão é ativista luso-angolano pela democracia em Angola e co-fundador da Central 7311. É rapper com o nome de Ikonoklasta e é também tradutor. Durante 50 minutos, conversámos sobre o que se passa em Angola hoje; sobre o futuro do movimento; sobre a inspiração que a Primavera Arabe lhe trouxe; sobre a (não) intervenção do governo português; e também sobre a cobertura da comunicação social. Esta conversa foi gravado por Skype, e com alguns problemas de som. Daí, disponibilizamos também uma transcrição do audio no nosso website, em www.apenasfumaca.pt. Support the show.

Fato em Foco
Fato em Foco - Em meio a tensão social, Angola celebra 40 anos da independência

Fato em Foco

Play Episode Listen Later Nov 11, 2015 5:01


Nesta quarta-feira (11), Angola celebra o 40° aniversário de sua independência. Mas a festa, com direito a show de Stevie Wonder e Jackson 5, ocorre em meio à tensão: os efeitos da crise financeira começam a afetar o crescimento, a contestação ao presidente José Eduardo dos Santos cresce e, com ela, a repressão do governo, às vezes brutal. Neste contexto, será que a comemoração pode servir de chamado à unidade? O cientista político angolano e professor licenciado da Universidade Técnica de Lisboa Eugênio Costa Almeida gostaria de pensar que sim. Mas, como ele mesmo diz, o pragmatismo aponta o contrário. "Eu gostaria que o dia fosse consagrado à reunificação das vontades de todos os angolanos", afirma o professor. "Todavia, a clivagem que algumas partes fazem, mesmo da parte do partido que apoia o poder e também do lado da oposição, reverberam demasiado, face às contingências". Para ele, é necessária uma "maior contenção nas palavras e uma maior abertura nos atos, de modo a promover a estabilização política e social do país". Em entrevista à RFI portuguesa, o representante do Conselho de Activistas de Angola Raúl Mandela prometeu que a mobilização deve continuar até que o presidente José Eduardo Santos peça demissão. Ele pede que os cidadãos tenham "a coragem de dizer ao senhor José Eduardo dos Santos que ele está há muito tempo no poder" e lembra que "Angola é um país democrático de direito e queremos que ele saia do poder". Presidente soberano Apesar de estar há 36 anos na função, não foi exatamente a longa permanência de Santos à frente do executivo que motivou os protestos, mas uma reforma constitucional. Em 2010, ele revisou a Carta Magna, classificando o presidente da República como um "órgão soberano" do Estado. A juventude se revoltou com essa medida e iniciou, em 2011, o que a imprensa local tem chamado de um "jogo de gato e rato" com as forças de segurança. Os manifestantes organizam protestos pelas redes sociais e a polícia tenta impedi-los antes que cheguem às ruas. Em coletiva de imprensa concedida no último dia 6, o ministro do Interior Ângelo Veiga Tavares justificou a repressão, dizendo que "a lei das manifestações diz que não se deve ofender os órgãos de soberania". Para ele, as manifestações visam justamente ofender "um órgão de soberania, que é o presidente da república" e "certamente, os órgãos de polícia devem fazer cumprir a lei". Como o próprio ministro explica, a lei diz que a "polícia pode, a todo momento, impedir a realização de uma manifestação", por menos democrático que isso seja. Assassinato e tortura Mas, no último mês, três ativistas foram mortos por agentes do Estado, uma outra barbaramente torturada, e 18 continuam presos. Para Eugênio Costa Almeida, a reação governamental é nitidamente exagerada: "Face a essas situações todas, deveria haver uma maior abertura, uma maior calma, uma maior ponderação. No caso dos três jovens, dizem que foram abatidos por alguém que se intitula autoridade". Mas, para o professor, alguém que mata de maneira leviana não é digno de ser autoridade. "Essas situações nunca foram qualificadas e isso provoca uma certa instabilidade emocional e social, mais que política", afirma, acrescentando que, no plano governamental, as cartas continuam as mesmas: o MPLA do presidente segue com maioria absoluta e a oposição continua encabeçada pela Unita. A novidade é que, desde 2013, a CASA-CE, dissidência centrista da Unita, vem se consolidando com terceira força política do país. Mas, se não foi capaz de reestruturar radicalmente o espectro político, o caso dos ativistas presos ganhou importante atenção internacional, principalmente por conta dos 36 dias de greve de fome de um deles, o rapper Luaty Beirão. A Anistia Internacional exigiu que eles fossem autorizados a aguardar o julgamento em liberdade, como prevê a lei. No Brasil, a deputada socialista Luiza Erundina apresentou uma moção de solidariedade aos jovens e pediu seu encaminhamento ao governo angolano. Para ela, não há independência sem liberdade de expressão. País dividido A festa nacional relembra o dia em que Angola se libertou do jugo português, mas não basta para sanar a polarização interna de um país que, apesar de ter uma elite rica o suficiente para salvar o sistema bancário português durante a crise financeira, não fornece saneamento básico a 40% da população. Angola ostenta a maior taxa de mortalidade infantil do mundo. Enfim, uma nação cujo dinamismo econômico e a abundância de riquezas naturais não se traduzem em distribuição de renda. Um país independente há 40 anos e livre da guerra civil há 13, mas radicalmente dividido pela desigualdade.

Rádio AfroLis
Sons de apoio à Libertação dos Presos Políticos angolanos em Lisboa

Rádio AfroLis

Play Episode Listen Later Oct 14, 2015 3:16


"O activista Luaty Beirão vai manter a greve de fome, iniciada há 22 dias em Angola. O seu estado de saúde agravou-se e o músico foi transferido para o hospital-prisão de São Paulo, na sexta-feira." Ler mais: http://www.publico.pt/mundo/noticia/luaty-beirao-nao-desiste-de-greve-de-fome-pela-libertacao-dos-activistas-ate-ao-julgamento-1710892 LISBOA 14 Outubro 17.30h CONCENTRAÇÃO a frente do Gabinete do Parlamento EUROPEU Largo Jean Monnet, 1 a 6 LISBOA 18.30h VIGILIA na Praca do ROSSIO Praca D. Pedro IV LISBOA