Podcasts about houve

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Botequim GP - Fórmula 1 entre amigos!
O QUE HOUVE COM O CARRO DA FERRARI? - COMENTANDO COMENTÁRIOS

Botequim GP - Fórmula 1 entre amigos!

Play Episode Listen Later Jun 19, 2026 13:23


00:00 – Introdução00:23 – Concorra a uma camiseta Minial Club01:26 – Desempenho da Ferrari04:16 – Russel é 2º piloto?06:15 – Trauma dos pilotos08:14 – Parceiros do canal09:52 – Rádios traduzidos

TechUntalked
Siri Ai Review, Surfaces e o XXX | aiu Podcast

TechUntalked

Play Episode Listen Later Jun 19, 2026 36:41


O Daniel teve mais que tempo para fazer uma análise à Siri AI! Houve ainda conversa durante 120 segundos dos novos Surface e uma lembrança sobre o X!

O teu mal é sono
#98: Nursesitting com Patrícia Ferraz: maternidade na Holanda, enfermeira em casa e voltar a dormir no pós-parto

O teu mal é sono

Play Episode Listen Later Jun 17, 2026 50:03


Dormir nos primeiros meses de um bebé devia vir com manual… mas raramente vem, e quase nunca vem com descanso incluído!

TEATRA
Cire Ndiaye | #159

TEATRA

Play Episode Listen Later Jun 16, 2026 57:53


Cire Ndiaye, atriz, performer, violinista clássica, sonoplasta, membro da banda rock As Docinhas e, ainda, técnica de serviços funerários, passou pelo TEATRA para conversar com a Mariana Maia de Oliveira. Num registo íntimo, Cire reflete sobre o seu percurso artístico e partilha detalhes da metodologia que desenvolveu para investigar e trabalhar temas ligados à violência e ao trauma. A partir de práticas de reconhecimento, autoconsciência e consentimento informado, explica como encontrou uma forma de tornar os processos criativos mais estáveis. Revisitamos o seu caminho no teatro, desde o primeiro contacto através da peça 'Carta', de Mónica Calle, até à participação mais recente em 'Auto das Anfitriãs', de Inês Vaz e Pedro Baptista. Um percurso quase inteiramente ligado ao Teatro Nacional D. Maria II, com experiências que lhe permitiram refletir sobre identidade, racismo, memória e disciplina, e onde o Teatro se tornou o lugar onde conseguiu juntar todas as dimensões da sua vida. Houve ainda tempo para relembrar a infância em Viana do Castelo, o encontro com o violino e a importância da música na sua formação, das aprendizagens que trouxe dos serviços funerários e da forma como continua a reinventar a sua prática artística e a sua relação com o mundo. Uma conversa para ouvir na íntegra, nas plataformas digitais. Sugestão Cultural:

TIAGOL! com Tiago Leifert
O QUE HOUVE COM A SELEÇÃO?

TIAGOL! com Tiago Leifert

Play Episode Listen Later Jun 15, 2026 55:15


UM PRIMEIRO TEMPO PAVOROSO, UM SEGUNDO TEMPO MENOS PIOR... E AGORA?

Convidado
Nina Laisné transforma o museu num teatro de resistências visuais e sonoras

Convidado

Play Episode Listen Later Jun 15, 2026 17:36


Neste programa, vamos conhecer o universo da artista francesa Nina Laisné que está em exposição no FRAC Franche-Comté, em Besançon, entre 14 de Junho e 3 de Janeiro. A retrospectiva chama-se “Un monde renversé” [“Um mundo derrubado” ou “virado do avesso”] e mostra obras que propõem outras formas de ver o mundo e que esbatem as fronteiras entre teatro, música, cinema e arte contemporânea. O mundo de Nina Laisné situa-se na intersecção entre as artes performativas e as artes visuais. As suas instalações têm uma dimensão teatral e as suas criações para a cena também se deixam contaminar pelas artes plásticas. Com a exposição “Un monde renversé”, Nina Laisné transformou o museu num vasto palco onde o público pode ver o mundo a partir de outros pontos de vista, incluindo alguns ângulos escondidos da Historia, da Arte e da História da Arte. Nina Laisné interessa-se por personagens, comunidades e minorias situadas à margem das narrativas oficiais e trabalha a partir de arquivos, repertórios musicais antigos e lendas populares para construir "contra-narrativas" que questionem a História que nos é ensinada nas escolas e nos museus. Também tem aprofundado questões relacionadas com colonialismo, identidade e metamorfose. É este o mundo que ela leva ao FRAC Franche-Comté, em Besançon. “'Un monde renversé' significa olhar para o mundo de outro ponto de vista, ao contrário, de forma diferente, inversa (…) Nesta exposição reunimos muitas obras de várias épocas, quase dez anos, e o mais óbvio, ao reunir tudo, foi falar de minorias, de hibridação, de coisas que realmente são a essência do meu trabalho, mas que eu não percebia assim tão frontalmente. Esta oportunidade de apresentar todas estas obras juntas realmente muda a forma de ler, de receber essa mensagem. E claro, no meu mundo, sempre tem um espaço muito grande, uma importância muito grande para narrativas diferentes, narrativas contrárias, coisas que sempre ficam na sombra dos relatos oficiais, figuras marginais ou figuras que foram apagadas, silenciadas”, conta à RFI. Nos últimos anos, a artista nascida em 1985 ganhou maior projecção em França e no estrangeiro graças ao seu trabalho em palco, nomeadamente com as colaborações com o coreógrafo francês François Chaignaud -“Romances inciertos, un autre Orlando” (2017) e “Ultimo Helecho” (2025) - que combinam canto, dança e música instrumental. Além das artes performativas, Nina Laisné é também artista plástica, música, fotógrafa, cineasta e apaixonada pela História. As suas pesquisas artísticas envolvem o estudo de arquivos históricos de diversos formatos que vão do século XV ao XIX, mas também a procura de músicas antigas, mitos populares e lendas esquecidas que depois transforma em experiências visuais, sonoras, imersivas, poéticas e políticas. Em Besançon, através de instalações, vídeos, esculturas, fotografias, livros, gravuras, pinturas e dispositivos sonoros, Nina Laisné propõe uma viagem por universos onde mito, memória, identidade, tradição, história e ficção se entrelaçam. Às vezes não se sabe onde fica a fronteira a realidade e a ficção. Às vezes, a lenda é a base para criar novas ficções. No centro deste “mundo revirado” e da sua investigação artística há lendas populares, tradições orais e repertórios musicais ancestrais que revisitam figuras híbridas ou em permanente transformação. É o caso do projecto “A mulher ursa”, que ela tem desenvolvido com a escritora Célia Houdart, a partir de lendas e tradições ouvidas em terras portuguesas, nomeadamente junto das adufeiras de Monsanto. Numa das salas do FRAC, além do adufe, há gravuras, livros, fotografias, arquivos sonoros e um vídeo que serve de prólogo ao filme que Nina Laisné está a escrever com Célia Houdart. A figura da “mulher ursa” acaba por questionar fronteiras entre humano e animal, mas também os próprios mecanismos intemporais que definem quem pertence e quem permanece à margem. “Estamos a escrever um filme de ficção que vai acontecer na zona de Monsanto, essa linda região da fronteira com a Espanha. É um lugar quase mitológico, por ser uma aldeia muito antiga, que tem uma história bem complexa, com muitas camadas, muitos níveis de história e também mitologia própria. Também apareceu essa tradição das adufeiras de Monsanto, um grupo de mulheres que tocam adufe e que também cantam. Eu gosto de chegar neste lugar e mudar um pouco a tradição, virar um pouco a história para abrir a outras mitologias, convidar outras histórias da Península Ibérica e, neste lugar, mudar um pouco o repertório, chegar com novas letras e também fazer aparecer nessa ficção a figura da mulher ursa, que seria uma mulher selvagem que convive com animais da montanha e, aos poucos, se aproxima dessa aldeia e começa a criar uma relação com o grupo de adufeiras”, descreve a artista. Nina Laisné vai à procura dos arquivos esquecidos ou censurados, de iconografias marginais, de relatos de resistência e vai destapando os silêncios da historiografia oficial. É o que acontece na sala que acolhe duas obras inéditas: uma extensão em grande formato da instalação “Na maré cheia, lá no meio da mata. Na maré baixa, surge a resistência” (2026) e a nova instalação “Portulanos virados” (2026). A primeira é constituída por duas pinturas em grande escala, frente a frente, que fazem uma releitura das imagens do Brasil colonial. Vemos escravos a trabalharem na vasta paisagem a preto e branco e vemos montanhas de vermelho-sangue, a cor extraída do pau-brasil, a invadirem a tela. No meio, estão os “Portulanos virados”, ou seja, 16 violinos abertos dentro dos quais a artista desenhou os tais “portulanos” (mapas de navegação) em que se vêem figuras da resistência à escravatura e ao colonialismo. “O problema é que, além de não falarmos do que aconteceu, também apagámos e silenciámos toda a memória das grandes figuras de resistência. Houve revoltas por todo o lado no Brasil, mas só se apresenta a dominação, a humilhação, coisas de violência. Só agora, nestes últimos dez anos, é que historiadores do Brasil começaram a recuperar essas histórias e a identificar gente - para além do Luís Gama e do Zumbi dos Palmares que já são ícones no Brasil - como Maria Filipa de Oliveira, que atacava barcos portugueses e franceses, ou também Zacimba Gamba que foi uma princesa da Etiópia que foi escravizada e que envenenava proprietários de fazendas. Houve muitas coisas de resistência e de criar quilombos e também as crenças de matriz africana, todas essas festas populares que hoje em dia são bem fortes no Brasil, mas que fora dessa fronteira são totalmente silenciadas”, explica. Nina Laisné quis lembrar também o papel de França na exploração do pau-brasil. “Já sabemos que Portugal foi muito importante nesta história e a responsabilidade é muito grande, mas nunca se fala da responsabilidade também da França na primeira época do coloniaismo. A França também foi nessas costas para roubar esse pau-brasil que foi muito usado para pinturas de tela e também na fabricação de arcos de violino”, recorda, sublinhando que o pau-brasil era comercializado pela sua capacidade tintorial e também para a produção de arcos para instrumentos de corda.  O título “Un monde renversé” é também uma referência a um libreto barroco do compositor Estienne Moulinié e ilustra, desde logo, a importância que a música tem na vida da artista transdisciplinar. Nesta exposição, há, de facto, repertórios das tradições ibéricas, brasileiras, venezuelanas e italianas, de tempos idos e de outros mais recentes. Uma das obras mais impressionantes no FRAC é a monumental “Arca ostinata” (2021), concebida em parceria com o músico Daniel Zapico e que reproduz, de forma imersiva, um pouco do espectáculo com o mesmo nome. A instalação é musical e transforma um  instrumento de música barroca, a teorba, numa construção escultórica em grande escala, decorada por criaturas fantásticas. “É verdade que esta exposição é muito musical porque, fora das imagens, a minha primeira linguagem seria a música. Especificamente, podemos falar da música tradicional, da música folclórica e da música antiga. A música antiga, para mim, é muito interessante quando tem algo popular e colectivo, seja do século XVI ou XVII. Comecei a trabalhar, a colaborar com muita gente, muitos músicos que trabalham também para recuperar músicas sobre instrumentos históricos, como a teorba, que é um instrumento europeu de corda pulsada da família do alaúde. Tem um braço muito grande, quase dois metros e é um instrumento muito híbrido, muito fascinante pelo som. Com o músico Daniel Zapico, com quem pensamos essa obra, quisemos ampliar e abrir novas portas do repertório para não ficarmos fechados no repertório barroco, e quisemos propor novas leituras de folclore sul-americano, português, italiano e também mais contemporâneo”, acrescenta Nina Laisné. A música também é basilar nas obras “esas lagrimas son pocas” (2015), “Marisol/Mariluz” (2015), “En présence” (2013) e “Frati Uccelli” (2023). Em todas, mais uma vez, há várias camadas de significados, muitos jogos de percepção, questionamentos e, sobretudo, o cruzamento de diferentes disciplinas artísticas. “Un monde renversé” é uma viagem ao labirinto teatral de várias artes, mas é também uma reflexão sobre a capacidade de a arte dar voz aos que dela foram excluídos. Algures entre arquivo e ficção, entre investigação histórica e criação poética, entre provocação e jogo, Nina Laisné constrói uma “cartografia da resistência”, um lugar mais inclusivo e assumidamente político, onde passado e presente se vêem com outros olhos. “O meu trabalho faz parte dessa resistência colectiva. Conecto-me a diversas resistências do passado para crescer e fabricar novos movimentos aqui, no mundo presente”, conclui. A exposição “Nina Laisné, un monde renversé” está patente de 14 de Junho a 3 de Janeiro de 2027.

Leste Oeste de Nuno Rogeiro
“O exército britânico está no pior momento dos últimos dois séculos”: a nova era da defesa europeia

Leste Oeste de Nuno Rogeiro

Play Episode Listen Later Jun 14, 2026 100:37


A Saúde e outros setores da vida pública já fizeram a transição da era do papel para a era dos dados. Mas o que aconteceria se amanhã ocorresse um grande ciberataque? Qual seria o impacto, por exemplo, no Serviço Nacional de Saúde? “Seria desastroso”, alerta Nuno Rogeiro. No seu habitual espaço de comentário, o analista chama a atenção para as vulnerabilidades do mundo tecnológico em que vivemos e sublinha a necessidade urgente de uma verdadeira cultura de higiene cibernética nas instituições públicas. A conversa estendeu-se também ao estado preocupante das Forças Armadas britânicas, com o Exército a registar os efetivos mais baixos desde o século XIX, e ao reforço da cooperação militar entre Portugal e o Reino Unido, recentemente consolidado através de um protocolo entre as duas marinhas. No plano geopolítico, Rogeiro analisou o possível memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irão, descrevendo um acordo em duas fases que prevê o congelamento do programa nuclear militar iraniano e a garantia da livre circulação no Estreito de Ormuz, em troca do descongelamento gradual de fundos iranianos. Houve ainda espaço para o futebol. Já perto das rubricas finais, Rogeiro destacou uma curiosidade: “O trajeto da Seleção Portuguesa até à Florida foi um dos mais acompanhados pelos entusiastas da aviação através de plataformas de rastreamento aéreo. Bateu todos os recordes.” Ouça aqui o programa Leste/Oeste em podcast, emitido na SIC a 14 de junho. A sinopse foi gerada com apoio de Inteligência Artificial, saiba mais sobre a aplicação desta tecnologia nas redações do Grupo Impresa.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Alta Definição
João Cancelo: “Lembro-me do último grito da minha mãe e de tentar levantar o carro para tirá-la de lá. Forma milésimos de segundo que mudaram a minha vida para sempre”

Alta Definição

Play Episode Listen Later Jun 13, 2026 56:15


Nesta entrevista ao Alta Definição, longe dos relvados, João Cancelo revela a Daniel Oliveira momentos profundamente marcantes da sua vida pessoal, num testemunho raro de um dos futebolistas portugueses mais reconhecidos internacionalmente. O lateral, atualmente com 32 anos, partilhou com abertura pouco habitual o trauma que moldou a sua vida e carreira: o acidente de viação que vitimou a sua mãe quando tinha apenas 17 anos. Com uma narrativa que oscilou entre a serenidade de quem já fez as pazes com o passado e a emoção de quem ainda carrega essa perda, Cancelo descreveu os instantes imediatamente após o acidente com uma clareza perturbadora. “Lembro-me do último grito da minha mãe. Lembro-me do meu irmão a chorar. Eu tentei levantar o carro para tirar a minha mãe debaixo do carro e não consegui”, confessou. Para além do relato do trágico acidente, a conversa percorreu outros episódios igualmente reveladores de uma vida pautada pela adversidade e resiliência, desde a infância humilde no Barreiro, com um pai emigrante na Suíça e uma mãe que acumulava três empregos por dia, até ao assalto violento que sofreu em Manchester. O futebolista falou ainda da morte súbita do seu colega Diogo Jota, com quem partilhava o balneário da seleção nacional, e da forma como essa perda reavivou a sua própria dor. Mas foi ao refletir sobre o legado familiar que Cancelo mostrou a sua convicção mais profunda: “Houve uma vida antes da minha mãe falecer e depois da minha mãe falecer. Completamente diferente, porque comecei a ver a vida de outra maneira. Tive que crescer muito rápido”. A emissão deste episódio aconteceu a 13 de junho na SIC e a sinopse foi gerada com apoio de Inteligência Artificial. Saiba mais sobre a aplicação desta tecnologia nas redações do Grupo Impresa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

Conversas à quinta - Observador
Melhor é Difícil. Cristina Fonseca: “Abrimos a porta à nova geração”

Conversas à quinta - Observador

Play Episode Listen Later Jun 12, 2026 39:15


“Nascemos globais logo no primeiro dia” diz ela da Talkdesk”, seu primeiro êxito retumbante. Houve outros. Mas ninguém sabe onde a levará ainda a curiosidade e o gosto do risco.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Oxigênio
#220 – Paul Singer, uma utopia militante 

Oxigênio

Play Episode Listen Later Jun 12, 2026 23:09


Um dos mais importantes economistas brasileiros. Marxista, que teve uma carreira brilhante na academia, como professor da USP e da PUC em São Paulo. Houve um período em que teve que ficar afastado, por conta da ditadura militar no Brasil. Ele sempre teve uma militância política junto com a carreira acadêmica, e também como intelectual. Uma figura muito inquieta, no sentido de que ele não se acomodava a um determinado tema. Este foi Paul Singer, personagem do documentário que faz parte de uma série de documentários de não ficção realizados pelo diretor Ugo Giorgetti. Este terceiro episódio sobre a série teve a colaboração por meio de entrevistas com o ex-aluno de Singer, Marcos Barreto, a jornalista e pesquisadora Paula Quental, autora de uma dissertação de mestrado sobre a trajetória política e intelectual de Singer, e Marcelo Justo, diretor executivo do Instituto Paul Singer.  Roteiro Liniane Brum: Paul Singer, uma utopia militante: esse episódio é o terceiro de uma série sobre os documentários e as peças de não ficção do diretor de cinema Ugo Giorgetti.  Meu nome é Liniane Brum, sou doutora em teoria e crítica literária pela Unicamp e realizei a pesquisa de pós-doutorado “Contra o apagamento – o cinema de não ficção de Ugo Giorgetti” também na Unicamp, no Labjor, com o apoio da Fapesp. [Trilha musical] Liniane: A partir do ano de 2020, Ugo Giorgetti assina três documentários biográficos. São produções realizadas sob encomenda, que têm em comum a apresentação de homens que se destacaram em suas áreas de atuação e como pessoas também. São filmes que não partem de uma inquietação artística ou de uma necessidade intelectual. Ainda assim, são autorais.  Estou falando dos filmes Paul Singer, uma utopia militante, produção de 2021, A invenção de Conrado Wessel, de 2024, e Alberto Dines – vínculos de liberdade, que saiu em 2026. Neste episódio vamos tratar de Paul Singer, uma utopia militante. Eu conversei com três pessoas sobre esse documentário. O economista, produtor do filme e ex-aluno de Singer, Marcos Barreto, que me ajudou a entender os bastidores da produção. A jornalista e pesquisadora Paula Quental, autora de uma dissertação de mestrado sobre a trajetória política e intelectual de Singer, e Marcelo Justo, diretor executivo do Instituto Paul Singer. [Vinheta Oxigênio] Liniane: Antes de mais nada, pedi a eles que apresentassem quem foi Paul Singer.   Paula Quental: Ele era de uma família judia, assimilada, como se diz, não era religiosa. Ele vinha da Áustria, a mãe percebeu para onde caminhava a coisa do nazismo. Ele conta, inclusive tá na dissertação, que ele descobriu que era judeu, aos seis anos de idade, quando a Áustria foi anexada por Hitler. Aí, chegaram os amiguinhos dele do colégio, com aquelas bandeirinhas nazistas, com a suástica, e ele queria sair junto (com os meninos) com aquela bandeirinha. Aí, a mãe dele vira para ele e diz: “mas, Paul, você é judeu”. Marcos Barreto: É um dos mais importantes economistas brasileiros, marxista e veio com sete anos fugindo do nazismo, com a mãe, o pai já havia falecido, ele veio com a mãe para São Paulo, e ele faz um curso técnico primeiro, ele começa a trabalhar como metalúrgico, só depois ele vai fazer faculdade. E vai fazer faculdade por conta de uma militância política dele, porque o sindicato, o movimento, achava, o mesmo movimento operário, que eles deveriam se qualificar as lideranças, e sugerem que ele vai fazer economia, e ele faz economia, ele se forma já com quase 30 anos, e ele depois tem uma carreira brilhante na academia, professor da USP, foi professor da PUC em São Paulo também, no período que teve que ficar afastado por conta da ditadura militar no Brasil. Ele sempre teve uma militância política junto com a carreira acadêmica, e também como intelectual, uma figura muito inquieta, no sentido de que ele não se acomodava a um determinado tema. Paula Quental: Quando ele entrou na USP, ele já tinha lido o Capital, Trotsky, Lenin, Rosa Luxemburgo, que é muito da tradição dele, ele se considerava um luxemburguista. Então, é uma história de alguém que foi mergulhando nos clássicos e foi desenvolvendo um trabalho muito original, porque ele acabou indo para uma vertente, digamos, herética do marxismo, não convencional, heterodoxa, porque ele criticava, por exemplo, a União Soviética, ele criticava o centralismo da economia, ele defendia que deveria vir da base, da economia solidária, das cooperativas. Então, ele era um crítico da Revolução de 17 de outubro, da Revolução Bolchevique. Marcos Barreto: Depois, já mais nos últimos 20 anos da vida dele, ele se dedica a um tema muito importante, que é a economia solidária, então ali ele encontra talvez o assunto dos quais ele estudou, que mais ele pôde misturar uma militância política com um saber acadêmico, e colocou em prática, ele foi secretário de economia solidária no governo Lula e Dilma, até o impeachment da Dilma, praticamente ele ficou em Brasília coordenando essa Secretaria.  Liniane: Esta apresentação foi feita pela Paula e pelo Marcos. E por aí a gente já consegue ver uma trajetória bem particular, que mistura prática militante e teoria, o que já o difere de muitos intelectuais. Faltou o destaque que o Marcelo Justo fez do nosso protagonista, que trago agora. Marcelo Justo: Tem um marco na vida do Singer, tanto pessoal quanto como militante, que é trabalhar em grupo. Ele se destaca como intelectual e parece que o intelectual é uma figura sozinha, isolada, mas ele só tem essa força que ele tem pela capacidade de estar em grupo e de se conectar o Singer é o que a gente chama mais contemporaneamente de um articulador de redes, ele está sempre mantendo redes de amigos e de militantes juntos, que caminham juntos. Liniane: Marcos, como surge a ideia de um filme sobre ele, ou seja, quem fala: “olha, agora tem que ser feito um documentário sobre o Paul Singer”. Marcos Barreto: Quando ele falece, um grupo de amigos, de pessoas que gostavam muito do professor, dizem, bom, a gente precisa fazer alguma coisa pra contar essa história dele, precisamos registrar isso de alguma forma, fazemos um livro, fazemos o que? Não, vamos fazer um filme e aí a gente faz então uma campanha de crowdfunding, pra conseguir o recurso pra fazer o filme. O primeiro passo foi esse: nós não tínhamos diretor, nós não sabíamos exatamente que filme seria, mas a gente resolve fazer algo que tem muito a ver com a economia solidária, uma grande vaquinha, em todos os 27 estados do Brasil, no Distrito Federal, há pessoas que contribuíram pra que o filme fosse feito. E aí ficamos, então, pensando que diretor pode fazer esse filme, ou diretora? Quebramos a cabeça até que eu sugeri que fosse o Ugo Giorgetti.  Liniane: Por que Ugo Giorgetti?  Marcos Barreto: Porque, entre várias coisas, o Paul Singer escolheu a cidade de São Paulo, quer dizer, ele veio criança, ele não escolheu propriamente, foi a mãe dele que veio, porque já haviam familiares em São Paulo. Mas ele acaba vindo pra São Paulo e adota a cidade como a cidade dele. Ele era um apaixonado por São Paulo, falava isso várias vezes, ele voltava às vezes pra Europa, ia fazer palestra, dizendo que não tem nada como São Paulo.  Liniane: Assistindo o documentário, a gente percebe que Ugo Giorgetti traduz o Singer múltiplo. Os entrevistados comentam o olhar do diretor sobre suas conexões com figuras importantes da política, do campo da educação e mesmo e seu papel na difusão de O Capital, de Marx no Brasil. Foi ele quem primeiro traduziu o livro para o português.  Paula Quental: Teve uma passagem no documentário do Ugo Giorgetti, em que ele entrevista o Paul Singer, porque ele fez ainda várias entrevistas com o Paul Singer, em que o Singer lembra da época que ele dividiu o secretariado da Erundina com Paulo Freire. E ele fala que aprendeu muito com o Freire, que se sente extremamente influenciado pelo Freire. E isso até me estimulou a escrever uma sessão na minha dissertação, chamada Dois Paulos, em que eu analiso justamente o aspecto pedagógico da obra do Paul Singer, que ele próprio se coloca como muito influenciado pelo Freire. Marcos Barreto: Com essa amplitude que tem a vida do professor, as pessoas podiam conhecer um lado, mas pouca gente conhecia o todo, e o filme permite esse registro. E do ponto de vista acadêmico, é um registro interessante também, mais uma vez, sem ser algo cansativo, extenuante, chato, ou mais maçante, vamos dizer assim, porque ele está ali, o registro da vida intelectual, de uma forma leve, de uma forma que você compreende e fala nossa, ele fez tudo isso, nossa, foi ele então que traduziu o Capital.  Liniane: No final dos anos 1950, professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, dentre os quais José Arthur Gianotti, Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso, organizaram um grupo para fazer a leitura de O Capital. Paul Singer integra esse grupo com a missão de traduzir o livro diretamente do alemão. Não custa lembrar que se trata de uma obra canônica no campo das ciências humanas. E que naquele momento Paul Singer ainda não era o economista, intelectual destacado e homem público da alta burocracia governamental. Aqui, as falas de Marcelo, Marcos e depois a Paula. Marcelo Justo: Isso é um marco né? é um marco, acho que para o Singer, é um marco na esquerda brasileira também, porque é um primeiro momento falando pelos relatos deles, que vão se debruçar sobre a obra do Marx de uma forma sistemática, durante muitos anos, – que é interrompido com o golpe de 64, mas começa, se eu não me engano, em 58, 59 e aí vão para outros autores, não só Karl Marx, que aí vão pegar o Singer como um leitor, desde criança, do alemão. Então ele integra o grupo como quem vai ler, trazer a versão original do alemão, mas é que eles vão comparando também a tradução. Então tem a leitura em alemão, tem a leitura em francês, a leitura do que existia em português. Isso depois vai servir também como base para o Singer depois fazer a tradução, a primeira tradução original em alemão do Capital, aí já nos anos 80. A partir desse grupo sai a tese de doutorado do Fernando Henrique Cardoso, então acho que tem todos esses marcos. O professor Roberto Schwarz até hoje também se refere a esse momento, o professor Michael Löwy, que é conselheiro do nosso instituto, que foi muito amigo do Singer, também se refere até hoje como um marco na vida dele, esse momento de leitura do Capital. Marcos Barreto: E depois tem um segundo momento, que é muito rico também, quando ele é convidado por um grupo de jovens que diz assim: “poxa, a gente queria fazer uma leitura do Capital”. E aí veio a ideia de fazer uma leitura no Teatro de Arena. Então já pensou o que era isso? Você reunia no Teatro de Arena, já na ditadura militar – aí nós estamos falando de um Brasil já fechado do ponto de vista político – e esse grupo se reunia sábado de manhã para fazer a leitura do Capital com a coordenação do professor Paul Singer. Então isso é um marco também, e desta leitura ele também aproveitou, como bom acadêmico, e fez um livro sobre essa experiência. Paula Quental: Eu ouvi do Lincoln Seco, professor de História da USP, que ouviu do Florestan Fernandes, que ele é a pessoa que mais conheceu O Capital no Brasil. Ele editou uma edição da Abril Cultural do Capital, uma edição famosa do início dos anos 1980, que a editora Ubu agora reeditou. E ele lia no original, ele mergulhou, e desde uma externa idade. Liniane: Eu selecionei um trecho do documentário em que o próprio Paul  Singer fala sobre Marx. Ele integra o segmento intitulado por Ugo Giorgetti “Um autodidata na USP”. Ouve só: [Trecho do documentário] Paul Singer: Marx, em primeiro lugar, deu uma visão do capitalismo que ninguém havia dado antes, e que agora se mostra inteiramente verdadeira. Marx está sendo ressuscitado por não marxistas, exatamente como coincide, eu diria, de uma forma ultra surpreendente com este capitalismo extremamente em crises, crises que se repetem etc. porque ele entendeu, uma das coisas que tem Marx, a contribuição dele, é só dele, não é de outros, é que os economistas clássicos, tipo Ricardo, Adam Smith e tantos outros, que não eram reacionários, não, eles não eram de direita, mas eles jamais lembrariam em analisar a economia através de lutas de classes, isso é Marx.  [Efeito Sonoro] (Voz de Paul Singer bem baixinha) [Silêncio prolongado] [Trilha incidental] Liniane: Marcelo, o Instituto Paul Singer e o documentário nascem praticamente ao mesmo tempo e se dedicam à difusão do legado do professor. Em que medida essa coincidência influencia o trabalho da entidade? Marcelo Justo: O Instituto, ele começa em 2021, a organização dele. No final do ano é que ele se formaliza com o CNPJ, e em 2022 é lançado, tornado público o Instituto. Ele é uma iniciativa dos familiares do Paul Singer, basicamente eu e a Helena Singer, que é a minha esposa, filha dele. É uma associação sem fins lucrativos que tem como missão preservar e reinventar esse legado. Um legado que tem esse histórico de uma luta pela democracia, pela solidariedade, a luta contra todas as formas de injustiça e desigualdade. Marcelo Justo: O nosso principal desafio é a difusão, é a divulgação das ideias e obras do Singer. Então, um documentário como esse é muito importante, ajuda muito nisso em 50, 40 e poucos minutos, assim, você tem a trajetória inteira dele, da história de vida, as principais ideias e algumas das polêmicas enfrentadas na trajetória, na vida dele. Então, para a gente, é um material muito importante, muito rico para divulgar.  Liniane: É fato: documentário e Instituto convergem em objetivo e se fortalecem mutuamente. Porém, Marcos Barreto me explicou que o filme foi feito a partir de entrevistas realizadas em momentos diferentes. Na primeira, de 2015, Paul Singer é entrevistado pelo grupo que viria a produzir o documentário. A segunda é feita por Giorgetti, em 2018, antes do falecimento do professor. Já o Instituto, como Marcelo me contou, e formalizado em 2022. Marcos Barreto: O professor, no final da vida, já nos últimos anos, tinha alguns fatores de memória, algumas coisas que estavam começando a falhar. E a gente identificou isso, e a família, e a gente falou, bom, vamos gravar, vamos colocar o Paul Singer falando sobre a vida dele, sobre coisas que ele fez na vida que são marcantes, sobre passagens importantes, vamos quase que fazer uma entrevista com ele. E a gente fez duas sessões grandes com o professor, foi o Fernando Kleyman quem organizou isso, em Brasília. E ele então, por duas sessões de quase três, quatro horas, falou um monte, o que foi ótimo, porque quando a gente conseguiu resolver o dinheiro para fazer o filme, escolher o Ugo, etc, o professor havia já avançado na doença, já tinha dificuldade, o Ugo chegou a conversar com ele ainda em vida, o filme é lançado depois que o professor já faleceu. Liniane: O documentário foi divulgado na imprensa como uma produção que praticou a Economia Solidária. O que significaria essa afirmação, Marcelo? Marcelo Justo: Então, na economia solidária, democracia e autogestão são sinônimos, praticamente, nos escritos dele. Então, o que é isso? As pessoas se organizarem para produzir juntos, sem patrão e sem empregado. Todo mundo é cooperado.  Não é à toa que o documentário tem o nome da utopia militante, que esse é o título do livro dele, que ele se coloca a isso, né? A questão da utopia como uma militância. A militância dele é por essa utopia, que é uma utopia de construir um socialismo que seja democrático, que não seja a experiência do chamado socialismo real, que é uma ditadura de esquerda.  Liniane: Marcos também comentou sobre o termo utopia que está no título do documentário. E destacou, mais uma vez, a multiplicidade de papeis de Singer nos vários espaços em que atuou. Marcos Barreto: Esse título é tão forte e também resume tanto do que é o professor, porque justamente reúne essas duas facetas, que é uma pessoa que é um intelectual brilhante, professor titular da USP, com um militante que nunca deixou de ser militante. Ele foi estudar economia porque ele era um militante, e ele termina a vida como alguém que está pensando a economia solidária, que é algo prático, então ele não tava sendo um teórico da economia solidária, só que aí no meio desse percurso, já nessa última década da vida, nas últimas duas décadas, ele escreve esse livro, que é uma utopia militante, então ele assume ali o quê? Que ao mesmo tempo que ele está defendendo algo que é utópico, que é um desejo do que ele gostaria de ver acontecer, ele assume que aquilo só vai acontecer se tiver militância, ou seja, talvez aí, diferente do socialismo científico, que parte da ideia de que há uma evolução natural da história que vai ligar o socialismo, e que é algo que aliás o Singer não acreditava. Então o título, na verdade, quem escolheu foi o professor Paulo Singer, para o livro, e a gente quando viu, quando foi pensar no título do filme, a gente falou, putz, difícil achar um nome melhor do que Utopia Militante. Liniane: O documentário estreou no Festival Internacional É Tudo Verdade, em 2021, em um momento em que a letalidade do coronavírus alcançava um dos seus picos. Ele foi exibido de modo on-line, mediante a distribuição de duas mil senhas, que se esgotaram em poucos minutos. [Efeito sonoro] Liniane: “A trajetória política e intelectual de Paul Singer: da crítica marxista à Economia Solidária” é o título da dissertação de mestrado defendida por Paula Quental no Instituto de Estudos Brasileiros, o IEB, da USP, a Universidade de São Paulo, em 2024.  Marcelo Justo, que é doutor em geografia pela mesma universidade, organizou o livro “Urbanização e Desenvolvimento”, uma coletânea de textos de Paul Singer. O volume foi editado pela Autêntica em parceria com a Fundação Perseu Abramo.  Marcos Barreto é hoje Diretor Geral do Instituto Equipe Educação, Cultura e Cidadania e Vice-Diretor Geral da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), e segue engajado com a divulgação do legado de Singer.  [Vinheta de encerramento Oxigênio] Esse trabalho de divulgação sobre a obra de não ficção do cineasta Ugo Giorgetti é realizado no âmbito do Programa Mídia Ciência, do Labjor, com supervisão da Simone Pallone.  As entrevistas, o roteiro e a narração desse episódio foram feitos por mim, Liniane Brum. A revisão do roteiro é da Simone Pallone. A edição é do Guilherme Lopes, estagiário da Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares da Unicamp, a Cocen. A vinheta do Oxigênio é do Elias Mendez.  As trilhas usadas no podcast são de  Blue Dot Sessions, tiradas do Free Music Archive. A gente vai deixar a ficha técnica do filme na descrição do episódio.  As reportagens referentes à divulgação da obra de não ficção de Ugo Giorgetti foram publicadas no dossiê “Ugo Giorgetti” da Revista ComCiência.  Este episódio conta com o suporte da Diretoria Executiva de Apoio e Permanência, da Unicamp e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, por meio de bolsas, e também da Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp. Você encontra a gente no site oxigenio.comciencia.br, no Instagram e no Facebook, basta procurar por Oxigênio Podcast.  Se você gostou do conteúdo, deixe seu like e compartilhe com seus amigos.

Clube dos 52
Melhor é Difícil. Cristina Fonseca: “Abrimos a porta à nova geração”

Clube dos 52

Play Episode Listen Later Jun 12, 2026 39:15


“Nascemos globais logo no primeiro dia” diz ela da Talkdesk”, seu primeiro êxito retumbante. Houve outros. Mas ninguém sabe onde a levará ainda a curiosidade e o gosto do risco.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Direto ao Assunto
Melhor é Difícil. Cristina Fonseca: “Abrimos a porta à nova geração”

Direto ao Assunto

Play Episode Listen Later Jun 12, 2026 39:15


“Nascemos globais logo no primeiro dia” diz ela da Talkdesk”, seu primeiro êxito retumbante. Houve outros. Mas ninguém sabe onde a levará ainda a curiosidade e o gosto do risco.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Conversas de Fim de Tarde
Melhor é Difícil. Cristina Fonseca: “Abrimos a porta à nova geração”

Conversas de Fim de Tarde

Play Episode Listen Later Jun 12, 2026 39:15


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Estadão Notícias
Carlos Andreazza: 'Lula nem precisa crescer contra um Flávio Bolsonaro pesadão' | Estadão Analisa

Estadão Notícias

Play Episode Listen Later Jun 11, 2026 61:16


No “Estadão Analisa” desta quinta-feira, 11, Carlos Andreazza fala sobre o cenário das eleições para presidente de 2026. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes acuado pelo baixo desempenho nas pesquisas e pela popularidade em queda, começou a anunciar medidas eleitoreiras que, embora causem um rombo nas contas públicas, cumpriram seu objetivo de direcionar a discussão nacional em temas a favor do governo. Pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira, 10, captou os primeiros resultados da estratégia. Houve uma inversão na curva de percepção do eleitorado sobre as notícias serem mais positivas ou negativas ao governo Lula. O levantamento aponta que o petista oscilou dois pontos porcentuais para cima desde a rodada passada, divulgada em maio, indo de 42% para 44%, enquanto Flávio Bolsonaro caiu de 41% para 38%. Antes, o presidente e o senador estavam em empate técnico dentro da margem de erro da pesquisa, de dois pontos porcentuais. Agora, Lula lidera por seis pontos porcentuais de vantagem. Além disso, o presidente liderou as narrativas contra seu adversário Flávio Bolsonaro (PL) no caso do Master e do novo tarifaço dos Estados Unidos. Acompanhe Estadão Analisa com o colunista Carlos Andreazza, de segunda a sexta-feira, o programa traz uma curadoria dos temas mais relevantes do noticiário, deixando de lado o que é espuma, para se aprofundar no que é relevante Assine por R$1,90/mês e tenha acesso ilimitado ao conteúdo do Estadão. Acesse: https://ofertas.estadao.com.br/_digital/ See omnystudio.com/listener for privacy information.

Devocionais Pão Diário
DEVOCIONAL PÃO DIÁRIO | O TÚMULO DE SEBNA

Devocionais Pão Diário

Play Episode Listen Later Jun 11, 2026 3:35


LEITURA BÍBLICA DO DIA: ISAÍAS 22:15-24 PLANO DE LEITURA ANUAL: ESDRAS 1–2; JOÃO 19:23-42  Já fez seu devocional hoje? Aproveite e marque um amigo para fazer junto com você! Confira:  O poeta W. B. Yeats desejava ser enterrado em Ben Bulben, uma montanha de topo plano e também título de um de seus últimos poemas. O verso final deste poema encontra-se em sua lápide: “Lance frio olhar na vida, na morte. Cavaleiro, em frente!” (tradução livre). Houve muita especulação sobre seu significado. Talvez seja o poeta reconhecendo a veracidade da vida e da morte. Independentemente disso, Yeats realizou seu desejo sobre onde seria enterrado e o que seria gravado em sua lápide. Mas a fria verdade é que a vida continua, indiferente à nossa partida. Em um período difícil para Judá, Sebna, administrador do palácio, fez uma tumba para si, tentando garantir seu legado. Mas Deus, por meio do profeta Isaías, disse-lhe: “Quem você pensa que é, e o que está fazendo aqui, construindo uma bela sepultura para si, um monumento no alto da rocha?” (ISAÍAS 22:16). Isaías falou: “[Deus] o embrulhará como uma bola e o atirará para uma terra distante. Você morrerá naquele lugar” (v.18). Sebna não tinha entendido. O importante não é onde estamos enterrados; o que importa é a quem servimos. Os que ser vem a Jesus têm imenso conforto: “Felizes os que, de agora em diante, morrem no Senhor” (APOCALIPSE 14:13). Servimos a Deus, que nunca é indiferente à nossa partida. Ele anseia por nosso retorno e nos recebe em casa!   Por: TIM GUSTAFSON 

Convidado Extra
Beatriz Narciso: “Com Macron houve cortes de 40% na cultura em França”

Convidado Extra

Play Episode Listen Later Jun 10, 2026 40:08


“O valor da arte não é uma equação exacta”, refere Beatriz Narciso, vencedora da 1ª bolsa Women in Art Fellowship, que resgata do esquecimento as mulheres inventoras na exposição “Sótão”See omnystudio.com/listener for privacy information.

Vida em França
"Estamos todos no mesmo Mundo, Terra, Pátria"- Álvaro Vasconcelos

Vida em França

Play Episode Listen Later Jun 10, 2026 40:47


Foi apresentado em finais de Maio em Paris, o terceiro e último volume do livro "Memórias em tempo de amnésia" de Álvaro Vasconcelos, especialista de relações internacionais e voz bem conhecida das nossas antenas. Nesta obra em três partes, o autor relata as épocas que atravessou, o salazarismo, o colonialismo português em África, nomeadamente em Moçambique onde viveu, os anos de militância política na África do Sul, em França e em seguida em Portugal, onde regressou na altura do 25 de Abril. No terceiro volume das suas memórias intitulado "O futuro para além do apocalipse", Álvaro Vasconcelos recorda a conquista da independência das ex-colónias, assim como os primórdios da democratização de Portugal e a sua adesão à União Europeia. O antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia e fundador em Portugal do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais também evoca a viragem autoritária a que se assiste actualmente em várias partes do mundo, a que ele chama de «brutalismo» e que tem a ver com a corrente 'tecno-totalitarista', encabeçada nomeadamente por alguns magnatas da Silicon Valley. Álvaro Vasconcelos fala também da urgência ambiental, da urgência de não nos esquecermos que somos humanos, numa época em que tendemos a colocar tudo nas mãos da Inteligência Artificial. No fundo, ele fala da urgência de pensarmos. Neste livro denso que é uma chamada de atenção, ele começa cada capítulo com uma espécie de guião de filme e fala com um gosto não dissimulado de todas as fitas que o fizeram reflectir de outra forma sobre o mundo, porque este texto, ainda mais do que os anteriores, é uma declaração de amor à sétima arte. E evidentemente não podíamos deixar de falar -antes de mais- da importância que o cinema tem para Álvaro Vasconcelos. "O cinema é algo que me formou porque eu vivia na África colonial, na Beira, em Moçambique. E como era lá no fundo do Império, a ditadura era certamente muito mais suave para os brancos, para os negros era mais brutal do que em Portugal era para os portugueses. E os brancos da cidade da Beira, onde eu vivia, tinham acesso ao Cineclube da Beira, às grandes obras do cinema mundial, por exemplo, nós vimos o ‘Couraçado Potemkin', que em Portugal era absolutamente proibido. (…) E como o cinema, começamos a vê-lo mesmo muito, desde muitos miúdos, não só nos cineclubes, os cinemas eram a maravilha da época, era aquilo que nos educava, nos abria novos horizontes, que nos fazia rir com Charlot, com os irmãos Marx, que nos ensinava os problemas graves do mundo, como ‘Hiroshima mon amour', o neo-realismo italiano, ‘Os ladrões de bicicletas', etc. Evidentemente que o cinema teve para a minha geração e em particular para aquela que viveu no Império, mas não só, também também em Portugal, um impacto enorme, portanto, foi formativo. E ao escrever o último livro da minha trilogia, senti a necessidade de fazer um livro que fosse mais de reflexão que apenas descritivo da minha vida e de reflexão. Não sou filósofo, portanto, não podia ser uma reflexão filosófica. Mas era uma reflexão à volta das ideias que são veiculadas pelo cinema, que foram veiculadas pela grande literatura que eu li desde miúdo, que sempre me apaixonou e continuo a ler e que me ensinou imenso sobre o mundo. Eu descobri muitas coisas no cinema e na literatura que não era capaz de descobrir com o mesmo grau de profundidade dos ensaios", explica o autor. Nas suas memórias, Álvaro Vasconcelos fala da época colonial e também de uma descolonização das mentes que ainda não foi totalmente feita. "Em África, descobri a violência colonial e que a palmatória é um símbolo absoluto dessa violência. Palmatória com que iam castigar os empregados negros por coisas, não importa o quê. Mas mesmo que fossem coisas graves, era a mesma palmatória que era usada contra os escravos, como eu vi no Museu Afro-Brasileiro, em São Paulo. Infelizmente não temos em Portugal, nenhum museu sobre a escravatura. Temos um pequeno museu em Lagos, mas não temos um grande museu, como têm os brasileiros. E essa palmatória era usada também pelo professor primário para nos manter. Identifico a violência brutal de que era vítima pelo professor primário, que tinha um poder absoluto sobre mim, com a violência, de que eram vítimas os negros, que não tinham direitos nenhuns, nem direito à vida. E para que isso pudesse ter acontecido, foi preciso criar uma narrativa de que eles não eram gente civilizada. E essa narrativa perdurou no pós 25 de Abril, porque nunca se fez um trabalho verdadeiro de descolonização das mentalidades. E hoje, quando os imigrantes são tratados como são tratados com desumanidade, é porque não são considerados humanos iguais a nós. E como não são considerados humanos iguais a nós, podem ser vítimas da arbitrariedade. Não têm os direitos iguais. Isso é uma questão fundamental", considera o estudioso. "Quando se deu o 25 de Abril, podia-se ter feito uma coisa extraordinária e teria ficado para a história. Era considerar que toda a gente que reside em Portugal tem os mesmos direitos. Há um país no mundo em que isso, pelo menos já acontece, que é na Nova Zelândia. E, portanto, se os imigrantes tivessem o direito do voto, seriam tratados de forma completamente diferente ", diz ao referir que, em vez disso, "são vítimas da desigualdade mais absurda da escravatura às vezes da violência da morte no Mediterrâneo. Em vez de irem socorrer, acham que é uma forma dissuasiva que eles morram no Mediterrâneo. Isso, evidentemente, é feito posto em prática por políticos democráticos, mas evidentemente que estão a abrir o caminho à extrema-direita que fará disso uma doutrina de poder." No capítulo que reserva a estes aspectos, o autor escreve que “o silêncio sobre a verdadeira natureza do colonialismo é um dos grandes fracassos da democracia portuguesa” e que “a Europa assumir que o colonialismo foi um crime contra a humanidade tornaria o seu discurso sobre a democracia muito mais legítimo.” "O 25 de Abril foi uma revolução extraordinária. Libertou os portugueses da ditadura e criou um sistema de liberdades públicas, de Estado de Direito. Isso deve ser sublinhado e eu sublinho no livro, porque é único no século XX, uma revolução que não foi só uma libertação, mas trouxe a liberdade. Podemos pensar, por exemplo, que a Revolução de Outubro libertou os russos do Czarismo, que era um regime terrível. Mas não construiu um regime de liberdade. Isso aconteceu em Portugal. Simplesmente, Portugal era ao mesmo tempo uma ditadura e um império. E quando se construiu a democracia, fez-se um trabalho mais ou menos profundo sobre o que era a ditadura, o que é que era o fascismo. Existem vários museus, o Museu do Aljube, um museu em Peniche, existe um trabalho de memória. Existem nos livros de História. Conta-se o 25 de Abril, todo esse passado ditatorial. As pessoas sabem que houve a tortura, que havia a PIDE, que as pessoas não tinham direito à palavra. Tudo isso faz parte da memória colectiva dos portugueses", constata Álvaro Vasconcelos. "O que não se fez nenhum trabalho. O que é que era o colonialismo? Não se explicou o que é que era a tortura em África, o que era o trabalho forçado. Qual era a origem que isso tinha na escravatura? Manteve-se um mito do lusotropicalismo, ou seja, que Portugal tinha contribuído para criar um mundo diferente, um mundo não racista, um mundo multiétnico. Até se dizia isso : ‘Deus criou os homens e os portugueses criaram as mulatas' escondendo que as mulatas nasciam muitas vezes de actos de violação absoluta, porque as mulheres negras não tinham direitos e, portanto, o senhor tinha um direito de pernada sobre a mulher negra. Isso acontecia frequentemente. Eu, aliás, entrevistei para um dos meus livros uma senhora africana que conta exactamente a história de uma mulher que, depois do 25 de Abril, andava à procura do homem branco, que tinha sido o pai dos seus filhos e que o homem branco tinha desaparecido. Tinha regressado a Portugal e que nunca mais soube dele. E as crianças queriam conhecer o pai. Mas isto é um caso de uma pessoa que se movimentou. A maior parte das vezes ficaram e são vítimas de toda a discriminação. Isso é o aspecto em que o 25 de Abril não fez esse trabalho", diz o politólogo. "Quando em Portugal surge um movimento de sociedade civil poderoso, hoje formado por intelectuais afro-descendentes que defendem o direito à igualdade, que tem voz no espaço público, quando nos lembramos, por exemplo, da Joacine Katar Moreira que foi deputada na Assembleia da República, a campanha racista contra ela. No Parlamento, a extrema-direita dizia ‘Volta para o teu país'. Estou a falar numa deputada, membro do Parlamento. Mas depois as intelectuais todas que são superactivas na sociedade portuguesa, que é aquilo que há hoje de mais vibrante na sociedade portuguesa, mais criativo. Publicam, fazem filmes como a Pocas Pascoal e outros. Ainda recentemente a Kitty Furtado organizou na Gulbenkian um ciclo sobre o cinema africano produzido em Portugal, com numerosos filmes, numerosos realizadores. Portanto, na Bienal de Veneza, há dois anos, a representação de Portugal foram artistas negros. Portanto, temos um movimento extraordinário. Esse movimento choca com esta mentalidade dominante. E então são acusados de serem ‘wokistas'. ‘Wokistas, quer dizer que são pessoas com consciência", sublinha o universitário. Relativamente às lições que se podem tirar do pós 25 de Abril, Álvaro Vasconcelos faz um balanço agridoce : apesar de considerar que “os seus objectivos essenciais foram atingidos: liberdade, fim do colonialismo e um estado inspirado nos modelos sociais europeus”, ele constara que “o que triunfou não foram os mecanismos que permitiriam compatibilizar a democracia liberal com o desejo de participação dos cidadãos (...) com o tempo, os partidos tornaram-se organizações fechadas (...) foram-se impondo como actores únicos do sistema politico”. "Portugal fez uma revolução que permitiu a existência de partidos políticos que não existiam antes. Mas a revolução, no momento em que ela aconteceu, despertou uma vontade de participação enorme na sociedade portuguesa. Todos os portugueses queriam participar na vida política pública. Eu próprio participei na criação de um jornal que era a voz do trabalhador e aquilo vendia-se como pãezinhos quentes. Quer dizer, toda a gente cria jornais. Toda a gente queria ler. Toda a gente fazia um pequeno comício. Enchiam-se de pessoas. Criaram-se cooperativas, associações de bairro, associações, moradores, associações agrícolas, movimentos cooperativos por todo o lado. Ao mesmo tempo, os partidos políticos foram-se consolidando como forças dominantes da sociedade portuguesa. E esses movimentos participativos foram vistos pelos partidos que acabaram por triunfar como movimentos que eram contrários à consolidação da democracia representativa liberal, como havia no resto da Europa. E foram desaparecendo. E o sistema político português ficou concentrado nos partidos políticos. Esses anos todos passaram e as pessoas hoje, como têm acesso às redes sociais, já têm outra forma de expressão, sem passar pelos partidos políticos. Exprimem-se nas redes sociais. Muitas vezes, o que dizem alguns? Nós não gostamos nada. Mas outras coisas dizem coisas correctas. Estes movimentos que eu referi, ecológicos, anti-racistas, de solidariedade social, também usam as redes sociais. Mas há muita gente que usa as redes sociais e que diz coisas horríveis. Mas não interessa, diz. Acha que tem direito à palavra. E acha que os partidos não dão direito à palavra. Então vão atrás de um demagogo que diz ‘Eu dou vos a palavra. Eles não vos dão a palavra'. Os partidos políticos são organizações fechadas. Em Portugal nunca se fez a regionalização, porque os partidos acharam que aquilo era fugir ao controlo central dos partidos de Lisboa. Era abrir o controlo da sociedade a nível regional. E tudo isso foi enfraquecendo a democracia portuguesa", comenta. “Foi nas redes sociais, espaço sem regras, que descobri que estávamos perante um brutalismo neofascista. O significado das palavras e a verdade deixaram de ser facilmente reconhecíveis. O algoritmo privilegia a violência verbal, exponencia o número de visões e partilhas. Acreditei – e escrevi –, depois das revoluções árabes de 2011, que as redes sociais tinham potencial de empoderamento dos cidadãos e poderiam ser um factor de emancipação democrática, mas hoje sou obrigado a constatar que não tive em conta a capacidade de manipulação, seja pelos algoritmos ou ainda mais pela IA, dos Estados e grupos que controlam as empresas da indústria do mundo virtual", escreve Álvaro Vasconcelos no capítulo que dedica ao regresso do que chama de 'brutalismo'. "A nível europeu, nós não podemos separar de um fenómeno mundial, que é aquilo que atravessa bastante o meu livro, que é a ideia do colapso do pensamento. E esse colapso do pensamento. O que significa que quando os homens deixam de pensar, diz Hannah Arendt, são capazes dos piores crimes. E esses homens são capazes dos piores crimes. E o homem banal, o homem comum que pode seguir um líder que vai destruir as suas liberdades e a liberdade dos outros. E isso pode se chamar ‘tecno-totalitarismo'. Porquê tecno-totalitarismo? Porque grande parte da economia mundial hoje está a ser dominada pelas grandes empresas tecnológicas. Estamos numa nova revolução tecnológica. E as grandes empresas tecnológicas que dominam a inteligência artificial, que dominam as redes sociais, como o Musk, é o exemplo mais claro, defendem aquilo que eu chamei de ‘tecno-totalitarismo'», explica o autor das "Memórias em tempo de amnésia". "Há uma politóloga francesa, Asma Mhalla que diz que ‘este século não vos proíbe de pensar. Ele ocupa-vos até que já não se saiba como fazer. Isto vem, como eu digo aqui no livro, do desenvolvimento da Inteligência artificial. O desenvolvimento da inteligência artificial cria um mundo onde os humanos deixam de pensar. A banalidade do mal passa a ser a norma. Isso acontece em muitos actos quotidianos. Quando recorremos à inteligência artificial para tomarmos decisões. Quando manipulados por algoritmos, ficamos de tal forma hipnotizados que somos levados a acreditar nos líderes populistas como Trump, como Bardella em França como em Portugal, o André Ventura, como Bolsonaro no Brasil", diz Álvaro Vasconcelos. "Há um aspecto deste ‘tecno-totalitarismo' que também nos deve inquietar, que é menos presente em França, mas está presente em muitos países, que é a relação dele com uma determinada corrente religiosa. Ele é religioso na sua essência, porque ao mesmo tempo, fala de Apocalipse, destruição do mundo pelo aquecimento global, pela guerra nuclear e está a propor uma solução tecnológica para estes problemas. Ora, isto é típico da crença religiosa. A ideia do Apocalipse, se pensarmos no apoio dos evangélicos americanos a Trump e em cenas em que Trump se reúne com os evangélicos e os evangélicos rezam na Casa Branca a volta do Trump ou quando o Bolsonaro tomou posse rodeado pelos evangélicos, a primeira coisa que fizeram, foi um ato religioso. (…) Vemos que o ‘tecno-totalitarismo' muitas vezes é também uma ‘tecno-teocracia'. E, portanto, esse problema, que é um problema mundial, que é da criação do mundo em que os homens deixam de pensar, a inteligência artificial substitui o pensamento humano. É um mundo em que o brutalismo, que é o tema do meu livro, se torna possível. É possível que o Trump decida destruir o Irão, que o Netanyahu faça o genocídio de Gaza e agora esteja a fazer no Líbano o que fez em Gaza, no sul do Líbano. É exactamente a mesma coisa. Vai destruir o sul do Líbano completamente", diz o especialista em relações internacionais. No capítulo em que aborda o que chama de dever de hospitalidade, Álvaro Vasconcelos considera que é neste aspecto que a Europa pode fazer a diferença "para superar o brutalismo contemporâneo, porque, por um lado, é uma das regiões do mundo onde as democracias ainda resistem ao assalto da extrema‑direita neofascista, e por outro porque a hospitalidade é a essência da sua sobrevivência". "Estamos a falar da União Europeia, a que se podem juntar alguns Estados, como a Noruega, como hoje o Brasil do Lula. Têm a mesma ambição de escapar ao brutalismo de Putin, Trump, Netanyahu, ao ‘tecno-totalitarismo' que domina a China. Verdadeiramente o único sítio do mundo em que ainda há um grupo de Estados que pode e quer resistir é na União Europeia, mas que tem estes aliados muito importantes que tem que procurar no Canadá, já procura no Brasil. Por isso, o acordo com o Mercosul é tão importante, apesar de a Argentina do Milei estar completamente na mesma linha de brutalismo. Mas o Brasil é um país importantíssimo. Na Ásia, o Japão, a Coreia do Sul. (…) Portanto, a Europa é a nossa esperança. Mas para que essa esperança não passe de uma utopia não realizada, para ser uma utopia realizada, é preciso que a Europa integre toda a sua vitalidade num projecto comum, (…) é preciso uma mudança radical de política. Ou seja, é preciso uma política que seja alternativa à política da extrema-direita. Claramente. E o que é que se deve fazer? Os imigrantes que são grande parte da população europeia ou originários na imigração devem ser cidadãos plenos, activos, integrados nas nossas sociedades, dando-lhes o voto. Aqueles que ainda não têm, damos-lhe a palavra, ouvindo-os e tornando as nossas democracias muito mais participativas", preconiza o autor. No seu livro, Álvaro Vasconcelos estabelece um elo directo entre o ‘tecno-totalitarismo', a negação dos direitos de boa parte da humanidade e a destruição do meio ambiente. "Um dos temas que eu acho que é muito importante é a questão do ambiente. Eu, aliás, começo o meu livro com uma citação do Camus que diz ‘A minha geração quis mudar o mundo. Não o mudou, mas pelo menos lutou para preservar o que de melhor tinha sido conquistado'. (…) O aquecimento global está a ser um problema gravíssimo que pode pôr em causa a vida na terra. E aí é lembrarmo-nos de Edgar Morin, um grande pensador. Eu cito Edgar Morin dez ou 15 vezes no meu livro. Ele diz que nós não estamos só perante um mundo que destrói a vida humana. Estamos num mundo em que a globalização foi extremamente destrutiva do ponto de vista económico e social. Criou também a consciência de um destino comum da humanidade a consciência de que estamos todos no mesmo barco. Ou seja, no barco da vida. Nós sabemos que a vida não é eterna. Mas enquanto estamos no barco da vida, não vamos cair no niilismo. Nem vamos cair na melancolia de esquerda. Isto é uma conclusão que alguém tirou do meu livro que eu sou contra a melancolia de esquerda. A melancolia de esquerda é nós pensarmos em tudo aquilo por que a gente lutou está a desaparecer e já não podemos fazer nada. Vai tudo acabar. Vai acabar a democracia, a liberdade. Vai voltar o racismo como política de Estado. Vai desaparecer a ordem internacional. Vai desaparecer o multilateralismo", diz o universitário. "Estamos perante uma guerra cultural. É um tema central, porque a guerra cultural é algo que acompanha a civilização europeia desde o Iluminismo e desde a Revolução Francesa. Houve sempre uma corrente que se opôs às conquistas de liberdade, igualdade, fraternidade da Revolução Francesa. Considerou sempre que a compaixão pelo outro não fazia nenhum sentido, que o homem era um animal fundamentalmente egoísta e violento E que tinha que ser treinado desde criancinha para a competição. E por isso, a cooperação não é uma questão fundamental da aprendizagem. As pessoas não aprendem a cooperar, aprendem a competir. Já vimos no sistema escolar como é terrível a competição. A infância nas grandes escolas. O que é que é difícil chegar lá acima. Portanto, formam-se elites que foram treinadas para a competição e não foram treinadas para a cooperação. E se nós não cooperarmos neste barco da vida, se não percebermos que o clima não tem fronteiras, que o aquecimento é global, que os calores do Norte de África chegam à Europa, que as transformações da Amazónia transformam as correntes do Atlântico e nos atingem também como europeus. Então não perceberemos que estamos todos no mesmo mundo. Mundo, terra, pátria, como diz o Edgar Morin. E que neste mundo, terra pátria, nós somos todos cidadãos, mesmo quando não somos considerados cidadãos", conclui Álvaro Vasconcelos.

O Mundo Agora
Copa do Mundo de 2026 revela choque entre a integração do futebol e política migratória de Trump

O Mundo Agora

Play Episode Listen Later Jun 8, 2026 4:40


Entre vistos negados, controles migratórios reforçados e tensões diplomáticas, o Mundial de 2026 expõe o contraste entre a promessa de integração do futebol e a política de fronteiras de Donald Trump. Thomás Zicman de Barros, analista político Na próxima quinta-feira (11), será dado o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2026. Como todo brasileiro, parto do pressuposto de que o hexacampeonato é apenas uma questão de tempo. Mas não é por isso que menciono o torneio. Alguém pode perguntar, de fato, o que uma competição de futebol está fazendo numa crônica de política internacional. A história, porém, não deixa mentir: competições esportivas são permeadas por política. Das Olimpíadas de Berlim em 1936 ao boicote ocidental aos Jogos de Moscou em 1980, passando pelas ditaduras sul-americanas que buscaram legitimidade em grandes torneios, o esporte sempre refletiu disputas que o ultrapassam. Poucas Copas ilustram tão bem essa realidade quanto a que começa agora. Pela primeira vez, o torneio será compartilhado entre três países da América do Norte. O primeiro jogo será na Cidade do México, haverá partidas em Vancouver e Toronto, no Canadá, e o maior número de duelos – inclusive a final, nos arredores de Nova York – acontecerá nos Estados Unidos governados por Donald Trump. A ideia de dividir a Copa entre diferentes países se explica, em parte, pelo tamanho do novo formato da competição, assim como pela perda de atratividade de sediar grandes eventos esportivos que implicam custos elevados e frequentemente provocam protestos – como se viu inclusive no México nesta edição. Mas havia também o desejo de superar fronteiras. O lema da candidatura conjunta era “United 2026”. Muito além dos “United States”, a proposta era simbolizar a integração entre os povos. Ocorre que esse discurso entra cada vez mais em choque com a retórica anti-imigrante do presidente americano. Desde sua primeira campanha republicana, há dez anos, Trump tem atacado imigrantes latino-americanos, e mexicanos em particular. Segundo ele, seriam “bad hombres”, responsáveis por trazer drogas, crime e violência para os Estados Unidos. “Alguns poucos, eu acredito, devem ser boas pessoas”, dizia então o candidato. Seu grande mote de campanha era construir um inexpugnável muro na fronteira mexicana, alimentando fantasias de uma supremacia branca americana supostamente ameaçada pela substituição demográfica por um povo que fala espanhol e que, por coincidência, também gosta de futebol. Restrição à imigração De volta ao poder, Trump tem adotado políticas ainda mais restritivas em relação à imigração. E não apenas contra mexicanos. Vistos têm sido negados, e muitos viajantes veem sua entrada barrada pelos serviços de imigração com base em critérios frequentemente arbitrários. Estrangeiros nos Estados Unidos vivem preocupados com o fortalecimento do ICE, a temida polícia migratória, que por vezes detém e deporta até imigrantes em situação regular. Houve queda no número de viajantes para o país, numa combinação entre dificuldades para obter autorização de entrada e a simples desistência de visitantes diante dos inconvenientes. Como receber o mundo inteiro para uma Copa do Mundo em um ambiente assim? Os Estados Unidos criaram o chamado FIFA PASS, que prometia priorizar entrevistas para concessão de vistos a torcedores com ingressos. Ao mesmo tempo, porém, a própria administração americana deixou claro que não hesitaria em vetar rigorosamente visitantes considerados indesejáveis. Em especial, torcedores de países sujeitos a restrições, como Haiti, Irã, Senegal e Costa do Marfim, têm enfrentado obstáculos. Em tese, haveria exceções para atletas e delegações. Mas mesmo aqui os incidentes se multiplicam. A seleção do Irã só obteve seus vistos na última semana e decidiu realizar sua concentração no México para evitar mais dores de cabeça. No último fim de semana, o atacante da seleção do Iraque foi detido e interrogado por sete horas no aeroporto de Chicago. Enquanto isso, a FIFA segue acusada de complacência com Trump, cujo ego o presidente da entidade, Gianni Infantino, parece empenhado em massagear. Um exemplo foi a criação do Prêmio FIFA da Paz, feito sob medida para agradar o presidente americano, primeiro e único agraciado com tão distinta honraria. Como se vê, futebol e política são inseparáveis. E as próximas semanas prometem deixar claro o contraste entre um evento que prometia união e integração e um governo que transformou o controle das fronteiras na sua principal bandeira.

XQuadradoY

A temporada de anúncios dos videogames está a todo vapor, e os holofotes da vez ficaram por conta do State of Play e do Summer Game Fest 2026. Com dezenas de trailers, novos jogos, datas de lançamento, retornos aguardados e algumas surpresas inesperadas, os eventos deram o tom do que os jogadores podem esperar para os próximos meses e anos.Mas quais foram os anúncios que realmente chamaram atenção? Quem apresentou o catálogo mais forte? Houve espaço para grandes surpresas ou predominou o que já era esperado? E, no meio de tantas apresentações, quais jogos merecem entrar imediatamente na sua lista de desejos?Neste episódio passamos pente fino nos principais destaques dos eventos, comenta os anúncios mais importantes, debate as estratégias adotadas pelas empresas e compartilha as impressões sobre o atual momento da indústria dos games.Prepare o bloco de notas, atualize sua wishlist e venha conferir com a gente tudo o que rolou no State of Play e no Summer Game Fest 2026.Aperte Start e vem com a gente!Capítulos:(00:00:00) - Vinheta introdução(00:00:54) - Resumo do episódio(00:02:46) - 1º Bloco State of Play(00:40:09) - 2º Bloco Summer Game Fest(01:08:15) - Encerramento.Redes Sociais:

Novus Capital
NovusCast - 05 de Junho 2026

Novus Capital

Play Episode Listen Later Jun 5, 2026 14:19


Nossos sócios Luiz Eduardo Portella e Tomás Goulart debatem, no episódio de hoje, os principais acontecimentos da semana no Brasil e no mundo. No cenário internacional, a semana foi marcada por forte reavaliação das perspectivas de política monetária global. Nos Estados Unidos, indicadores de atividade e mercado de trabalho seguiram apontando economia resiliente, com melhora do sentimento empresarial refletida nos ISMs e reaceleração da média móvel de criação de empregos no payroll. O mercado passou a discutir um cenário de juros mais altos por mais tempo, com parte dos investidores começando a precificar altas de juros nos EUA, em linha com o movimento já observado na Europa e no Reino Unido. No campo geopolítico, as negociações envolvendo EUA e Irã continuam, mas sem resolução. Houve tentativa de cessar-fogo envolvendo Israel e Líbano, rejeitada pelo Hezbollah, mantendo a incerteza elevada e o petróleo pressionado. No Brasil, os dados seguem apontando atividade forte. A produção industrial reforçou a leitura de crescimento elevado no início do segundo trimestre, enquanto as projeções de inflação continuaram piorando, com revisões altistas tanto para este ano quanto para 2027. O mercado passou a reavaliar de forma relevante as expectativas para o Copom, diante da combinação entre atividade resiliente, inflação elevada, piora do cenário externo e desvalorização cambial. A expectativa segue sendo de corte na próxima reunião, mas com percepção crescente de que o ciclo estaria próximo do fim. Nos EUA, o juro de 2 anos abriu 16 bps, e as bolsas tiveram desempenho negativo – S&P 500 -2,59%, Nasdaq -4,53% e Russell 2000 -2,94%. No Brasil, o jan/29 abriu 95 bps, o Ibovespa caiu 2,62% e o real 2,37%. O petróleo subiu mais 3,34%. Na próxima semana, destaque para o CPI nos EUA e, no Brasil, atenção ao IPCA e PMS.

UFOP CAST
Tempos de Copa - Ep.5: Copa de 2002

UFOP CAST

Play Episode Listen Later Jun 3, 2026 10:55


Em 2002, o ocidente virava os olhos e as armas para o Oriente Médio e os brasileiros para a seleção. Houve uma troca intensa de técnicos, Ronaldo estava se recuperando de uma lesão que quase acabou com a sua carreira, Rivaldo só jogava bem no Barcelona e Romário não era convocado, apesar da vontade do público. Mas, depois de perder para a França em 1998, Cafu, o único jogador da história a disputar 3 finais seguidas, levantou a taça de pentacampeão. Nessa série especial produzida pela equipe da Rádio UFOP, você vai conhecer a história dos títulos mundiais do Brasil, entender como era o mundo naquela época e perceber que futebol e política andam lado a lado.Ficha TécnicaProdução: Luis Otávio XavierEdição de Texto:Elis Cristina e Patrícia ConscienteEdição de áudio e sonoplastia: Luis Otávio Xavier

Tiago Paiva
MORAIS - Devaneios

Tiago Paiva

Play Episode Listen Later Jun 3, 2026 73:39


Neste episódio do Devaneios, recebemos o Morais para uma conversa sem filtros sobre um percurso que poucos conseguem imaginar.Falamos sobre como chegou ao ponto de pesar mais de 300kg, os desafios físicos e mentais que enfrentou ao longo dos anos e o impressionante processo que o levou a perder mais de 220kg.Mas esta conversa vai muito além da perda de peso. Exploramos o documentário que está a preparar, a missão que sente hoje em ajudar outras pessoas que enfrentam desafios semelhantes e as aprendizagens que retirou de uma das maiores transformações de vida que já vimos em Portugal.Houve ainda espaço para falar sobre o mundo da criação de conteúdo numa realidade cada vez mais competitiva, onde captar atenção é cada vez mais difícil em conteúdo longo.Uma conversa sobre superação, responsabilidade, saúde mental, propósito e o impacto que uma única decisão pode ter numa vida inteira.

TEATRA
Joaquim Arena | #158

TEATRA

Play Episode Listen Later Jun 2, 2026 58:28


Joaquim Arena, escritor luso-cabo-verdiano, jornalista e músico, foi o mais recente convidado do TEATRA. Com uma vida marcada por um estado de viagem constante, o autor encontra no quotidiano e nos acasos da vida a inspiração para a ficção. Habituado aos romances, partilha nesta conversa o desafio que foi estrear-se no teatro com o Projeto PANOS, do Teatro Nacional D. Maria II. Na conversa com Mariana Maia de Oliveira, reflete sobre o processo de criação de 'O Meu Pai Carlitos', uma peça escrita para jovens que aborda o misterioso desaparecimento de um homem adulto que vive no espectro do autismo, e revela o quão surpreendente foi ver o seu texto transposto para o palco por uma nova geração de adolescentes que se exprimem através do teatro. Houve ainda tempo para falar sobre o seu percurso literário, influências marcantes, desde Saramago a Baltasar Lopes, da assessoria ao ex-presidente da República a Cabo Verde, processos de criação e da primeira memória que guarda de quando chegou a Lisboa de barco, com apenas 5 anos. Uma conversa para ouvir na íntegra, nas plataformas digitais. Sugestão Cultural:

Notícia no Seu Tempo
Prejuízo dos Correios sobe 83% e chega a R$ 3,15 bi no trimestre

Notícia no Seu Tempo

Play Episode Listen Later Jun 2, 2026 7:34


No podcast ‘Notícia No Seu Tempo’, confira em áudio as principais notícias da edição impressa do jornal ‘O Estado de S.Paulo’ desta terça-feira (02/06/2026): Os Correios tiveram prejuízo de R$ 3,15 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 83% em relação à perda de R$ 1,72 bilhão registrada no mesmo período de 2025. Houve uma queda de 2,3% na receita líquida no trimestre passado e um forte aumento nas despesas gerais e administrativas. Esse aumento foi puxado por R$ 1,079 bilhão em provisão para contingências, principalmente trabalhistas Apesar do prejuízo maior, a estatal afirmou que o resultado trimestral ficou melhor do que o esperado e que já refletiria medidas implementadas no plano de contenção de custos. Desde 2022, os Correios fecham seus balanços no vermelho. Em 2025, o prejuízo foi recorde, de R$ 8,5 bilhões, o que levou a companhia a buscar um empréstimo de R$ 12 bilhões com um consórcio de bancos, com garantia da União, para tentar implementar um plano de reestruturação e sair da crise – e que virou alvo de investigação do TCU. Economia: Empresários brasileiros preveem que EUA vão impor novas tarifas ao País Política: Ação contra desvio de dinheiro público atinge produtora de filme de Bolsonaro Metrópole: Nova regra faz brasileiros iniciarem corrida por cidadania portuguesa Internacional: Irã cita ataques de Israel no Líbano e suspende negociações com EUA Esportes: João Fonseca enfrenta Mensik por vaga histórica na semifinal de Roland Garros See omnystudio.com/listener for privacy information.

Convidado
Abiy Ahmed reforça poder nas urnas, mas persistem dúvidas sobre o futuro da Etiópia

Convidado

Play Episode Listen Later Jun 2, 2026 9:17


A Etiópia foi a votos esta segunda-feira, 1 de Junho, para eleger os deputados federais e os representantes regionais, num escrutínio que deve garantir a continuidade do primeiro-ministro Abiy Ahmed à frente do Governo. Apesar da participação registada em várias cidades, as eleições decorreram sob críticas da oposição, num contexto marcado por conflitos armados, dificuldades económicas e exclusão de algumas regiões. A vitória do Partido da Prosperidade, liderado por Abiy Ahmed, nunca esteve em causa. A formação governamental partia como favorita para conservar a maioria parlamentar e garantir a continuidade do actual primeiro-ministro à frente do Governo. Ainda assim, a participação eleitoral levanta interrogações sobre o grau de mobilização da sociedade etíope. O padre José Vieira, missionário português que regressou recentemente da Etiópia após 13 anos de trabalho no país, descreve um ambiente de relativa apatia política nos meses que antecederam a votação. “O que foi mais evidente durante os últimos meses era ver os centros de inscrição para as eleições completamente vazios”, observa. Apesar de a Comissão Nacional de Eleições apontar para cerca de 50 milhões de eleitores registados, o missionário considera o número reduzido para um país com cerca de 130 milhões de habitantes. “Havia uma certa desmobilização em relação ao evento”, afirma. Abiy Ahmed chegou ao poder em 2018 envolto numa forte expectativa de mudança. Um ano depois recebeu o Prémio Nobel da Paz, sobretudo pelo acordo alcançado com a Eritreia. Hoje, a avaliação dos seus 8 anos de governação divide opiniões. O padre José Vieira reconhece transformações visíveis, particularmente na capital. “Adis Abeba não tem nada a ver com o que era há dez anos. É uma cidade muito moderna, com grandes avenidas”, afirma. Destaca ainda a construção dos chamados “corredores urbanos”, que incluem espaços dedicados a peões e ciclistas e que o Governo procura replicar noutras regiões do país. No entanto, alerta para as limitações desse modelo fora dos grandes centros urbanos. Em muitas localidades, diz, os projectos são afectados pela falta de fiscalização e pela corrupção. “A corrupção é um dos grandes problemas na Etiópia de hoje”, sublinha, apontando casos em que verbas destinadas a obras públicas acabam desviadas para proveito pessoal de responsáveis locais. A guerra que continua a marcar o país Embora a guerra do Tigray tenha terminado formalmente em Novembro de 2022, com os Acordos de Pretória, as suas consequências continuam presentes no quotidiano dos etíopes. “As pessoas no Tigré não têm tanto acesso a combustíveis e a outros bens de primeira necessidade como noutras regiões”, explica o missionário. Além das dificuldades económicas, persistem receios quanto a um eventual reacender das tensões armadas, alimentadas por rivalidades regionais e por interesses externos. Segundo o padre português, o Governo foi obrigado a concentrar efectivos militares na região do Tigray, deixando outras zonas mais vulneráveis. Na Oromia, onde trabalhou, as preocupações de segurança aumentaram significativamente. “Houve um momento em que nos aconselhavam a telefonar antes de viajar para confirmar se as estradas estavam seguras”, recorda. A instabilidade não se limita ao norte do país. Em Amhara e Oromia continuam activos grupos armados que desafiam a autoridade do Estado e contribuem para um clima de insegurança que afecta a vida quotidiana e limita a capacidade do Governo para projectar uma imagem de normalidade democrática. Jovens preocupados com o futuro Nas conversas com famílias, líderes comunitários e estudantes, José Vieira encontrou uma preocupação comum: o acesso à educação e às oportunidades de emprego. Nos últimos anos, o Governo introduziu novos exames nacionais com o objectivo de elevar a exigência académica. Contudo, os resultados têm sido preocupantes. “Há três anos, quando foi introduzido o novo modelo de exame de admissão à universidade, apenas 5% dos candidatos passaram”, recorda. No ano lectivo mais recente, a taxa de aprovação rondou apenas os 7%. O missionário considera que muitos alunos não estão preparados para o grau de dificuldade das provas. O problema torna-se ainda mais grave porque os estudantes que não conseguem aprovação ficam dependentes de instituições privadas, inacessíveis para grande parte da população. A situação gera frustração entre os jovens. Muitos concluem vários anos de formação superior, mas arriscam terminar sem diploma caso não obtenham aprovação nos exames finais obrigatórios. “Depois de três, quatro ou cinco anos de estudos, podem ficar sem nada”, lamenta. Inflação e escassez de combustível A economia constitui outra fonte de preocupação. A inflação continua elevada e o acesso a combustíveis permanece problemático em várias regiões. O padre José Vieira relata situações extremas vividas pelas comunidades locais. Num dos centros missionários onde trabalhou, dois veículos permaneceram semanas sem poder circular por falta de gasóleo. “Descobriram que o mercado negro dá muito mais lucro do que o negócio normal”, explica. O missionário recorda ainda casos em que funcionários tiveram de esperar mais de dois dias em filas para abastecer um automóvel. Nas semanas que antecederam as eleições verificou-se uma melhoria na distribuição. “Antes havia grandes filas. Nas últimas semanas a situação foi normalizada”, relata. Resta saber se essa normalização corresponde a uma solução duradoura ou se foi apenas uma medida temporária para garantir um ambiente mais favorável durante o período eleitoral. As autoridades etíopes apresentam estas eleições como uma demonstração de estabilidade e de consolidação democrática. No entanto, a ausência de votação em algumas zonas, as denúncias da oposição, os conflitos armados persistentes e os problemas económicos mostram uma realidade mais complexa. Para José Vieira, a Etiópia continua a viver um momento de transição. Entre os avanços nas infra-estruturas e as dificuldades sentidas pela população, o país procura ainda encontrar um equilíbrio capaz de transformar a promessa de reforma que levou Abiy Ahmed ao poder numa estabilidade para os seus mais de 130 milhões de habitantes.

Ciência
Microplásticos e contaminantes químicos em aves marinhas subantárcticas

Ciência

Play Episode Listen Later Jun 2, 2026 9:19


Microplásticos e compostos químicos potencialmente nocivos para a saúde foram detectados em aves marinhas da Geórgia do Sul, uma ilha remota da subantárctica. Um estudo internacional liderado por investigadores do Centre for Functional Ecology (CFE) do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) identificou 1275 partículas de origem antropogénica em sete espécies de aves, algumas delas classificadas como vulneráveis ou ameaçadas. A investigação foi conduzida no âmbito de um doutoramento em Biociências na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra pela investigadora Joana Fragão, que também colabora com o British Antarctic Survey, no Reino Unido. A investigação procura avaliar a presença de microplásticos e contaminantes químicos ao longo da cadeia alimentar antárctica: “Este estudo está inserido no meu projecto de doutoramento, sendo que o projecto é uma avaliação mais global da presença de microplásticos e quais os níveis dos microplásticos, bem como dos compostos químicos em toda a cadeia alimentar da Antárctida”. Segundo a investigadora, os plásticos podem funcionar como vectores de contaminação. Além dos compostos adicionados durante o seu fabrico, conseguem absorver outros poluentes presentes no meio marinho, incluindo metais pesados. Apesar de a presença de microplásticos em regiões remotas já ter sido documentada por outros estudos, alguns dos resultados surpreenderam a equipa. “Houve um estômago de uma ave em que contabilizei 130 partículas”, revela Joana Fragão. Embora a média tenha sido de cerca de 17 partículas por indivíduo, a investigadora admite que observar directamente estas partículas durante as análises reforça a percepção do impacto da actividade humana na biodiversidade. O estudo detectou, também, vários compostos químicos com potencial acção como disruptores endócrinos, substâncias capazes de interferir com o sistema hormonal. Ainda assim, a investigação não conseguiu demonstrar uma relação directa entre a presença destes contaminantes e a ingestão de microplásticos. As amostras analisadas foram recolhidas a partir de aves encontradas mortas no âmbito de programas de monitorização realizados na Geórgia do Sul. Esta abordagem impõe limitações ao estudo, uma vez que os investigadores dependem dos animais encontrados e não podem controlar factores como o número de indivíduos ou o período exacto de recolha. De acordo com o comunicado oficial, “os investigadores destacam que estes dados contribuem para uma melhor compreensão da exposição da fauna marinha a diferentes tipos de poluentes, sublinhando a importância de reforçar medidas internacionais que visem a redução da poluição marinha e a protecção da biodiversidade, incluindo a implementação de programas de monitorização de plásticos e contaminantes químicos, mesmo em ecossistemas considerados isolados”.

O Antagonista
Votação da PEC sobre o 6x1 foi um show de horrores na Câmara

O Antagonista

Play Episode Listen Later May 28, 2026 27:32


Houve troca de acusações, pedaladas regimentais, atropelos e acusações entre petistas e bolsonaristas.Você já leu uma notícia hoje e sentiu que já viveu esse momento antes?   Essa sensação de déjà Vu não é coincidência. No Brasil, o que é manchete hoje costuma ser o eco de decisões e fatos que analisamos meses, ou até anos atrás.   Para celebrar os 8 anos da Crusoé, decidimos enfrentar esse ciclo. Pegamos o que nasceu no digital e, pela primeira vez, transformamos em um registro físico, tátil e permanente.   Chegou a edição especial Crusoé impressa.   É um item colecionável, atemporal e limitado. Uma revista feita para quem gosta de ler com calma, longe das notificações do celular. Um exemplar para guardar sobre o que realmente importa na história recente do brasil.   Esta edição é um presente exclusivo para novos assinantes do Combo de 2 anos O Antagonista e Crusoé.   Utilize o cupom 8ANOSCRUSOE e acesse o link:   https://bit.ly/crusoe-edicao-impressa  Meio-Dia em Brasília traz as principais notícias e análises da política nacional direto   de Brasília.     Com apresentação de José Inácio Pilar e Wilson Lima, o programa aborda os temas mais quentes do cenário político e econômico do Brasil.     Com um olhar atento sobre política, notícias e economia, mantém o público bem informado.    Transmissão ao vivo de segunda a sexta-feira às 12h no nosso canal do Youtube.  https://www.youtube.com/@OAntagonista   Siga O Antagonista no X:  https://x.com/o_antagonista   Acompanhe O Antagonista no canal do WhatsApp. Boletins diários, conteúdos exclusivos em vídeo e muito mais.  https://whatsapp.com/channel/0029Va2SurQHLHQbI5yJN344  Leia mais em www.oantagonista.com.br | www.crusoe.com.br #PEC6x1 #CamaraDosDeputados #VotacaoPEC #JornadaDeTrabalho #DireitosTrabalhistas #PoliticaBrasileira #CongressoNacional #DebatePolitico #Internet #RedesSociais #PodcastBrasil #Atualidades #Discussao #Trabalho #ReformaTrabalhista #Opinião #Tendencias #Sociedade #Legislação #MercadoDeTrabalho

Convidado
“Resistência continua dentro e fora da Guiné-Bissau”, afirma activista

Convidado

Play Episode Listen Later May 27, 2026 9:33


O activista guineense Yussef considera que os acontecimentos de 26 de Novembro de 2025 na Guiné-Bissau representaram uma manobra política destinada a impedir a tomada de posse das figuras escolhidas nas urnas. O militante guineense denuncia repressão política, perseguições a opositores e limitações às liberdades democráticas, defendendo que a resistência continua activa tanto no país como na diáspora. RFI: Quando se fala em “golpe de estado cerimonial” na Guiné-Bissau, estamos a falar de uma ruptura do regime ou de uma encenação que formaliza a ausência de democracia? Yussef: Existe um conceito relativamente fechado de golpe de Estado. Normalmente implica a deposição, pela força das armas, dos titulares dos órgãos de soberania e a instauração de um novo regime. Ora, na Guiné-Bissau aconteceu exactamente o contrário. Houve um conluio entre sectores do poder político e das Forças Armadas para manter o regime tal como estava e impedir que a vontade popular expressa nas eleições fosse respeitada. O objectivo foi impedir a divulgação dos resultados eleitorais e evitar que assumissem funções as figuras escolhidas pelo povo guineense, nomeadamente para a Presidência da República. Ou seja, manteve-se tudo na mesma, criando apenas a aparência de um golpe de Estado. Não fomos os únicos a denunciar esta situação. Figuras políticas internacionais importantes, como o ex-presidente nigeriano Goodluck Jonathan e Ousmane Sonko, então primeiro-ministro do Senegal, também manifestaram dúvidas sobre a narrativa oficial. Na Guiné-Bissau existe uma percepção generalizada de que não houve um verdadeiro golpe, mas sim uma tentativa deliberada de impedir o respeito pela soberania popular. O que mudou desde 26 de Novembro de 2025? Há mais medo, mais controlo, mais resistência? Existe simultaneamente mais repressão e mais resistência. A repressão atingiu o auge com o assassínio político do nosso camarada Vigário Balanta. É impossível ignorar o significado desse acto: estamos a falar de alguém que sacrificou a própria vida pela luta democrática na Guiné-Bissau. Não podemos romantizar o diálogo com um regime que assassina opositores e mantém presos políticos. Entre esses casos estão Domingo Simões Pereira, líder do maior partido da oposição, e Fernando Dias, apontado por nós como vencedor legítimo das eleições presidenciais. Mas há muitos outros presos políticos menos mediáticos. Na verdade, a Guiné-Bissau transformou-se numa grande prisão política a céu aberto. Não há liberdade para manifestações, conferências de imprensa ou críticas abertas ao regime. As características de uma ditadura estão presentes. Ainda assim, a resistência continua, tanto dentro do país como na diáspora. Continuamos a denunciar a situação política, os presos políticos e os assassinatos de opositores. A mobilização política fora da Guiné-Bissau, como este debate organizado em Portugal, tem impacto concreto em Bissau? Acreditamos que sim. Na Guiné-Bissau sabe-se que a diáspora continua organizada e mobilizada na defesa das liberdades democráticas. Temos uma responsabilidade acrescida porque vivemos em países onde existem liberdades mínimas para denunciar o que se passa. Não vemos qualquer ruptura entre o povo guineense que está no país e o que vive na diáspora. Fazemos a mesma luta, apenas em geografias diferentes. Ao convidarmos figuras como Armando Lona, que desempenharam um papel importante na resistência política e nas manifestações populares, estamos também a amplificar as reivindicações que nascem dentro da própria Guiné-Bissau. Talvez os resultados não sejam imediatos, mas estamos numa fase de acumulação política: acumulação de experiência, de organização, de solidariedade e de consciência. Acreditamos que esse processo acabará por produzir mudanças concretas. Qual é hoje o custo pessoal e político de ser activista guineense? O caso de Armando Lona é esclarecedor. Quando ficou evidente o carácter repressivo do regime, a Frente Popular decidiu sair à rua sem qualquer garantia de segurança física. Isso demonstra o nível de coragem exigido aos activistas. Os custos são enormes, não apenas para os próprios militantes, mas também para as suas famílias. O regime não hesita em perseguir familiares, tanto na Guiné-Bissau como na diáspora. Mas a história política guineense ensina-nos que a luta pela liberdade sempre teve custos. A geração de Amílcar Cabral sacrificou-se pela libertação política, económica e cultural do país. Mais recentemente, Vigário Balanta tornou-se outro símbolo desse sacrifício. Sabemos os riscos que corremos, mas estamos dispostos a assumi-los. Faz parte da resistência.

Conversando com o Nucci
#225 Desacato

Conversando com o Nucci

Play Episode Listen Later May 26, 2026 13:18


Por que se pune o desacato, que significa desprezo e desrespeito, contra funcionário público? Houve um julgamento no STF a respeito da constitucionalidade do crime de desacato? O funcionário público pode cometer desacato contra outro servidor público? Desacato é o tema desta semana! Dê o play e veja as respostas para essas e outras questões!Você já viu as playlists específicas de cada tema abordadono podcast? Clique aqui: https://spoti.fi/3eFSLdb=========INDICAÇÕES NO PROGRAMASaiba tudo sobre a obra PACOTE ANTICRIME COMENTADO do Professor Nucci:http://bit.do/fpe4TConheça todos os livros do autor:bit.ly/GuilhermeNucciComentários, sugestões, críticas: contato@guilhermenucci.com.brSite: http://www.guilhermenucci.com.brFacebook: https://www.facebook.com/professorguilhermenucciInstagram: https://www.instagram.com/professor_guilherme_nucciLinkedIn: https://www.linkedin.com/in/professor-guilherme-nucciTwitter: https://twitter.com/GSNUCCI==========Guilherme de Souza Nucci é Livre-docente em Direito Penal,Doutor e Mestre em Direito Processual Penal pela PUC-SP. Professor concursado da PUC-SP, atuando nos cursos de Graduação e Pós-graduação (Mestrado e Doutorado). Desembargador na Seção Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Carta de Cerveja | Com José Raimundo Padilha

O Brasil ultrapassou a marca de 1.950 cervejarias registradas, impulsionado pela produção local e artesanal, além de registrar um crescimento nas exportações para a América do Sul, com Paraguai, Bolívia e Uruguai como principais compradores. O impacto econômico do setor soma mais de 40.000 empregos diretos na fabricação de cerveja e chope, movimentando também bares, restaurantes e eventos. Houve uma mudança de perfil do consumidor brasileiro, que demonstra maior interesse por novos estilos e harmonizações, transformando a cerveja em uma experiência de gastronomia, cultura e turismo.

Igreja Presbiteriana de Anápolis - Central
Houve grande alegria na cidade - At 8.8 - 26.04.2026 - Culto Matutino

Igreja Presbiteriana de Anápolis - Central

Play Episode Listen Later May 20, 2026 37:47


26.04.2026 - Mensagem do Culto Matutino da Igreja Presbiteriana de Anápolis com Rev. Samuel Vieira. Texto bíblico: Atos 8.8 Tema: Houve grande alegria na cidade.

Convidado
Encontro entre João Lourenço e Adalberto Costa Júnior "abre espaço para um diálogo permanente"

Convidado

Play Episode Listen Later May 20, 2026 9:46


O encontro entre João Lourenço e Adalberto Costa Júnior sobre o Pacto para a Estabilidade e Reconciliação Nacional proposto pela UNITA saldou-se com uma apreciação negativa do Presidente a esta proposta. No entanto, Agostinho Sikato, director do Centro de Debate e Estudos Académicos, considera que se trata de um "não" que abre a possibilidade a um diálogo interpartidário em Angola. Em Angola, o Presidente João Lourenço recebeu na terça-feira o líder da oposição, Adalberto Costa Júnior, de forma a analisarem em conjunto o Pacto para a Estabilidade e Reconciliação Nacional proposto pela UNITA. Poucas horas após o fim do encontro, a Presidência anunciou em comunicado que este pacto não faz sentido, já que não existem razões “objectivas, políticas ou institucionais” em Angola que justifiquem um acordo político desta amplitude. Em entrevista à RFI, o director do Centro de Debate e Estudos Académicos, Agostinho Sikato, analisou este encontro e considera que este "não" de João Lourenço abre as portas a um diálogo entre a UNITA e o MPLA em Angola. "Creio que é um não que abre a possibilidade para o debate, porque se fosse um não definitivo, creio que o Presidente João Lourenço nem sequer recebia em audiência o líder da oposição para ouvir e discutir. Acredito que o Presidente João Lourenço precisava informar o líder da oposição da sua posição, qual era a sua opinião em relação àquele pacto. Mas mesmo no próprio comunicado, nota-se que ele também reconhece a legitimidade da UNITA, tanto em poder continuar, no caso, utilizando outros mecanismos, no caso a Assembleia Nacional. Acredito que fora do próprio Pacto, abre-se também aqui um espaço para um diálogo permanente. O que faltava em Angola era essencialmente isto, porque existem muitos pontos fracturantes, desde a própria Constituição a outros temas importantes da vida do país que criava uma espécie de tensão. A discussão aberta acredito que pode frear um pouco. Acredito que foi neste sentimento de aproximação das partes que o presidente João Lourenço recebeu o líder da UNITA", explicou o analista político. Adalberto Costa Júnior já afirmou entretanto que levará este acordo à Assembleia Nacional, defendendo um amplo acordo em Angola sobre uma nova Constituição, mas também uma amnistia para quem cometeu crimes de corrupção mediante o pagamento de um parte do que teria sido roubado ao Estado. Uma medida que divide também a sociedade angolana. "A sociedade angolana está bastante dividida em relação a esta lei da amnistia económica. Há aqueles os adeptos de que todos aqueles que cometeram deveriam pagar, deviam restituir ao Estado aquilo que se apropriaram e deveriam pagar pelos seus actos. Há uma ou outra corrente à qual se associa, o maior partido político na oposição que defende que deve haver uma amnistia, claro. Houve uma discussão muito ampla sobre sobre este tema desde que João Lourenço chegou ao poder. Grande parte da franja da sociedade entende que a segunda opção seria melhor. Seria melhor no sentido de que também a amnistia permitiria uma espécie de reconciliação entre as partes. É uma espécie de um alerta de que atenção! Houve sim, amnistia para estes, estamos a começar a organizar o processo e de agora em diante, quem mais cometer, então vai pagar pelos seus actos. Portanto, é essencial porque a estrutura económica de Angola assenta essencialmente aqueles a quem se acusa de terem desviado o erário. E a perseguição a estes indivíduos para que restituam esses dinheiros do erário está a ser bastante inglória, porque não se consegue restituir fundamentalmente o dinheiro que já não está em Angola", concluiu Agostinho Sikato.

Saúde
'Hantavírus nunca representou risco', diz infectologista francês após surto em navio

Saúde

Play Episode Listen Later May 19, 2026 5:51


O surto da cepa Andes do hantavírus, que atingiu os passageiros do navio MV Hondius em abril, despertou o trauma da pandemia na França e exigiu uma resposta rápida das autoridades sanitárias para tranquilizar a opinião pública. Mas, de forma surpreendente, o assunto rapidamente foi relegado a segundo plano pelo governo francês e pela imprensa mundial.  Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Para o infectologista francês Jean Paul Stahl, membro da SPIL (Sociedade Francesa de Infectologia), e professor de doenças infecciosas e tropicais no CHU (Centro Hospitalar Universitário) de Grenoble, esse esvaziamento se explica pela “precipitação” das autoridades francesas. Segundo ele, a propagação em massa do hantavírus é uma hipótese que poderia ter sido descartada desde o início. Houve “excesso” na comunicação, além de “perda de sangue-frio”.  “É um vírus conhecido há décadas, alvo de publicações científicas há muito tempo. Há uma recomendação das autoridades sanitárias americanas, por exemplo, que data de 2007, e os cientistas conhecem perfeitamente esse vírus desde então. Nesse caso, não há nada de novo. Algumas pessoas se contaminaram, como outras se contaminam regularmente na América do Sul.”  O navio de cruzeiro MV Hondius chegou nesta segunda-feira (18) ao porto de Roterdã, encerrando seu périplo de quase 50 dias, após uma etapa nas Ilhas Canárias para o desembarque dos passageiros e de parte da tripulação. Ele transportava cerca de 150 pessoas de 23 países, quando um foco de hantavírus foi detectado e relatado pela primeira vez, em 2 de maio, pela Organização Mundial da Saúde (OMS).  Até o momento, três passageiros morreram. Oito casos, que incluem essas mortes, foram confirmados, e dois são considerados possíveis, segundo a organização, que insiste, desde o início, que o risco é “limitado” para a população em geral.  Na França, uma mulher de 65 anos, repatriada do Hondius, sentiu-se mal no dia 10 de maio, testou positivo e foi internada em estado grave em Paris. As pessoas que estiveram em contato com contaminados foram hospitalizadas e colocadas em quarentena.  As medidas foram determinadas pelo governo francês em função do período de incubação do vírus, estimado em seis semanas. Mas elas são consideradas excessivas pelo infectologista francês. “Esse vírus só se transmite se a pessoa está doente. Sem sintomas, elas não são contagiosas”, explica o especialista francês. "É preciso entender que todas essas decisões são políticas, não científicas”, resume. Alegando ter a obrigação de “transparência”, a ministra francesa da Saúde, Stéphane Riss, organizou uma coletiva no dia 12 de maio, ao lado de um grupo de cientistas franceses, para esclarecer dúvidas sobre a contagiosidade, modos de transmissão e fatores de risco, deixando claro que muitas perguntas ainda permaneciam sem resposta. Nesse momento, a possível emergência de uma epidemia ainda era difícil de avaliar para o público leigo, e a mobilização das autoridades levantou questões. Para o infectologista francês, a ansiedade da população é compreensível, mas o único elemento novo no recente surto de hantavírus é o contexto — ou seja, o fato de ele ter ocorrido dentro de um cruzeiro. “É um bom enredo e uma história interessante para os jornais”, avalia. “Imagine uma embarcação com um cadáver a bordo durante dez dias e um vírus circulando entre os passageiros.” As características da cepa dos Andes, explica, já antecipavam o cenário atual, sem disseminação. O vírus tem uma taxa baixa de transmissão, estimada em torno de 0,5%, que pode variar de acordo com as circunstâncias. Esse foi o caso do surto no MV Hondius, onde os contatos são próximos e ocorrem em espaços fechados.  Vírus não sofreu mutação  O vírus também não sofreu mutações, como mostraram recentemente os sequenciamentos de seu genoma feitos pelo Instituto Pasteur de Paris, que utilizou amostras de uma paciente contaminada. Essa é, aliás, uma característica conhecida dos hantavírus. A taxa de letalidade, em torno de 40%, também deve ser vista com cautela, pois depende da capacidade e da qualidade de atendimento, que, em áreas remotas da América do Sul, não são similares às dos países europeus.   “É uma infecção grave, conhecida há muito tempo, mas a questão não é essa. Nesse episódio, não havia nenhum elemento novo além do navio”, reitera. “Houve, sem dúvida, uma ou duas transmissões dentro do barco, relacionadas às condições muito particulares que existem dentro de um navio e à promiscuidade inerente a esse meio de transporte. Isso é tudo, e não há nada de novo.”  Segundo um comunicado publicado pelo Instituto Pasteur de Paris, não há tratamento específico disponível, embora um medicamento à base de ribavirina tenha demonstrado eficácia durante uma infecção por um tipo específico do hantavírus (vírus Hantaan). A transfusão de plasma humano contendo anticorpos contra o vírus Andes permitiu reduzir a mortalidade em pacientes infectados, mas o resultado ainda precisa ser confirmado em ensaios clínicos. Os sintomas incluem febre, dores musculares e gastrointestinais, cansaço e podem evoluir para insuficiência respiratória aguda.

O Mundo Agora
Acordo sino‑americano pressiona soja brasileira e expõe falta de estratégia

O Mundo Agora

Play Episode Listen Later May 18, 2026 3:55


Quando Donald Trump pousou em Pequim, na última quinta-feira (14), a coreografia já estava pronta nos mínimos detalhes. Os roseirais de Zhongnanhai foram escolhidos a dedo — aqueles mesmos canteiros que pertenceram à liderança imperial e depois ao regime comunista. Ali o presidente americano caminhou ao lado do líder chinês, Xi Jinping, em um passeio que mais parecia ensaio de filme do que uma reunião entre os dois homens mais poderosos do planeta. Thiago de Aragão, analista político Houve almoço sem agenda divulgada, sementes oferecidas a Trump para que florescessem no jardim da Casa Branca, e a frase de Xi sobre uma "nova relação bilateral de estabilidade estratégica construtiva" recebida do outro lado com a palavra amigo. Quem viu aquilo e achou que era só teatro perdeu o que importava, porque diplomacia de superpotência é sempre um pouco teatro e o que vale mesmo é ler o roteiro nas entrelinhas. E o roteiro, para o Brasil, é desconfortável. Faz dois anos que o agronegócio brasileiro vive uma das melhores janelas da sua história recente, e essa janela se abriu quase por acidente. A guerra tarifária aberta por Trump no segundo mandato fechou o mercado chinês para a soja americana, e nós entramos nesse vácuo com a velocidade de quem encontra a porta destrancada e simplesmente passa. Em 2016, antes da primeira guerra comercial, os Estados Unidos forneciam 41% da soja consumida pela China. No ano passado, esse número despencou para 15%. A diferença, em larga medida, é brasileira: foram quase US$ 37 bilhões em soja exportada em 2025, com mais de 60% desembarcando em portos chineses. A tentação imediata diante de números desse tamanho é interpretá-los como conquista, como se o Brasil tivesse finalmente descoberto uma vocação que sempre esteve ali esperando, como se houvesse uma estratégia coordenada por trás de tudo isso. Não há, e talvez seja melhor falar isso em voz alta antes que mais alguém suba em um palco para fazer discurso bonito sobre o assunto. De Iowa ao Mato Grosso O que aconteceu não foi vitória brasileira, foi penalização americana, e essa distinção parece pedante até o momento em que deixa de ser. O produtor de Iowa apanhou da política tarifária do seu próprio presidente e o produtor de Mato Grosso colheu o que não plantou. A vitória construída pertence a quem construiu, enquanto janela aberta pela imprudência alheia fecha no instante em que a imprudência cessa. Foi exatamente isso que saiu de Pequim na semana passada, com o acordo que Trump e Xi costuraram prevendo a retomada das compras chinesas de soja americana em volume crescente até chegar a 25 milhões de toneladas anuais em 2028, o que corresponde a mais de um terço de tudo que o Brasil exporta hoje para o mercado chinês. O compromisso pode não se cumprir por inteiro porque a história das relações sino-americanas é uma coleção generosa de promessas que evaporam no caminho, mas o vetor político mudou, e mudou contra o nosso interesse. Quem acompanha o setor mais de perto sabe que existe ainda uma segunda camada, mais lenta e mais profunda, e que tem a ver com a decisão chinesa de reduzir gradualmente a dependência de proteína vegetal importada para ração animal. Não é que vão comer menos carne, é que vão produzir essa carne com uma matriz proteica menos dependente de soja, dentro daquela obsessão crescente de Pequim com soberania alimentar que atravessa todos os planos quinquenais recentes. Para o Brasil, é uma curva que se desenha no horizonte de 2030. Quando se soma essa curva à reaproximação americana o quadro fica difícil de ignorar: o pico da nossa exposição à demanda chinesa de soja talvez já tenha ficado para trás sem que a gente tenha percebido. Nada disso configura tragédia iminente, porque o Brasil continua sendo fornecedor central e a sazonalidade da safra sul-americana garante mercado entre fevereiro e agosto independentemente do humor de Washington ou Pequim. O problema não é o colapso, é a complacência, e ela tem nome no vocabulário diplomático brasileiro: pragmatismo, uma palavra que ficou perigosa de tão usada e que do jeito que aplicamos virou eufemismo educado para ausência de estratégia. Vendemos para a China o que ela precisa enquanto ela precisa, sem verticalizar indústria, sem diversificar destinos com a agressividade que o momento exige, sem montar uma diplomacia comercial proporcional ao tamanho do nosso superávit agrícola, tratando uma posição privilegiada conjuntural como se fosse paisagem permanente quando ela nunca foi mais do que um momento. Aviso entre rosas O que aconteceu em Pequim na semana passada foi, no fundo, um aviso entregue entre rosas. Os dois maiores compradores e produtores de commodities do planeta sinalizaram com sorrisos largos que pretendem voltar a fazer negócios um com o outro. Isso não destrói o Brasil mas reduz drasticamente a folga que o país vinha tendo para confundir sorte com mérito. Brasília que entender essa diferença antes de outubro chegará mais preparado para a década que vem. O país que não entender vai continuar celebrando recordes anuais sem perceber que qualquer um deles pode ter sido o último.

Convidado
Cabo Verde: “A elevada abstenção é um sintoma antigo de descrença na política”

Convidado

Play Episode Listen Later May 18, 2026 9:27


A elevada abstenção, o reforço do bipartidarismo e a exigência crescente de descentralização marcaram as eleições legislativas em Cabo Verde. Em entrevista, Roselma Évora, investigadora na área da democracia e dos sistemas de governação, analisa os resultados do escrutínio, o desgaste do MpD após dez anos no poder, a ascensão do PAICV e os desafios que se colocam à democracia cabo-verdiana. Que balanço faz do dia de votação? Penso que devemos continuar a acreditar na democracia cabo-verdiana. Apesar dos desafios, Cabo Verde tem vindo a consolidar, de forma gradual, o rocesso democrático e eleitoral. Há ainda aspectos a melhorar, mas é evidente que o país continua a dar passos importantes nesse caminho. Uma das grandes vantagens de Cabo Verde é precisamente a sua dimensão. Sendo um país pequeno, consegue organizar eleições de forma eficiente e apresentar resultados no próprio dia, o que reforça a confiança no sistema. Além disso, Cabo Verde possui um activo fundamental: a estabilidade política. O país conseguiu, ao longo destes 35 anos de democracia, assegurar alternâncias de poder de forma pacífica, algo que constitui um marco importante, sobretudo no contexto africano e na região onde estamos inseridos, marcada por frequentes episódios de instabilidade. A possibilidade de formar maiorias estáveis permite aos governos aplicar os seus programas e pensar o país numa lógica de continuidade, desenvolvimento e melhoria progressiva da qualidade de vida das populações. Foi uma eleição muito renhida. O PAICV e o MpD estiveram praticamente “taco a taco”. Os resultados provisórios dão 35 deputados ao PAICV, 31 ao MpD e dois à UCID. O presidente do PAICV reclama maioria absoluta. Que cenário se pode adivinhar para o país? Os cabo-verdianos têm uma forte cultura de valorização da estabilidade política. Não digo isto num sentido conservador negativo, mas no sentido de procurarem segurança e previsibilidade na governação. Desde a abertura política, em 1991, Cabo Verde tem demonstrado preferência por soluções governativas estáveis. O país nunca teve uma tradição de coligações fortes. Houve, por exemplo, a experiência da Aliança Democrática para a Mudança, em 2001, mas essa tentativa não conseguiu consolidar-se, elegendo apenas um deputado. Isso mostra que o eleitorado tende a privilegiar partidos com capacidade efectiva para formar governo. No fundo, quando votam, os cabo-verdianos procuram garantir que o partido escolhido terá condições para governar com estabilidade e executar aquilo que prometeu durante a campanha. Pelos dados mais recentes, tudo indica que o PAICV poderá alcançar a maioria absoluta, sobretudo devido aos resultados na diáspora, particularmente no círculo das Américas. Ao mesmo tempo, verificam-se mudanças importantes em círculos tradicionalmente menos favoráveis ao partido, como São Vicente e Santo Antão, onde há agora um equilíbrio de forças. Isso pode representar um regresso a uma lógica de alternância semelhante à vivida no início dos anos 2000. O líder do MpD e primeiro-ministro cessante assumiu a derrota e anunciou a demissão. Era uma decisão expectável, depois de dez anos de governação? Penso que houve vários factores que contribuíram para este desfecho. Desde logo, parece-me que existiram erros na configuração das listas eleitorais, mas também dificuldades evidentes ao nível da coordenação governativa e da comunicação política. Apesar dos indicadores macroeconómicos apontarem para crescimento económico, muitos cabo-verdianos não sentiram melhorias concretas nas suas vidas. O sentimento generalizado era de que esse crescimento não se reflectia no quotidiano das famílias. Ficou também a percepção de que a governação estava excessivamente concentrada num grupo restrito, o que acabou por alimentar algum afastamento entre o poder político e a população. Nesse contexto, Francisco Carvalho conseguiu mobilizar muitos eleitores, inclusive com propostas que considero mais radicais. Ainda assim, é importante reconhecer que Cabo Verde já registou avanços significativos nas condições sociais e no seu percurso de desenvolvimento, passando da categoria de país menos avançado para país de rendimento médio, fruto do esforço colectivo dos cabo-verdianos. O desgaste do partido no poder era evidente, sobretudo em relação ao primeiro-ministro. No entanto, confesso que não esperava o anúncio da sua demissão. Penso que o país continuará a precisar de uma oposição estruturada e orientada. Talvez ele esteja cansado, mas o MpD terá agora de reflectir sobre o seu futuro e redefinir o seu caminho político. A taxa de abstenção atingiu 53,3%, um valor histórico na democracia cabo-verdiana. Que mensagem quiseram os cabo-verdianos transmitir aos líderes políticos? A questão da abstenção deve ser analisada numa perspectiva longitudinal. Nas primeiras eleições multipartidárias, em 1991 e 1995, a participação foi muito elevada, porque a democracia representava uma novidade e uma conquista para os cabo-verdianos. No entanto, a partir de 2001 começou a surgir um crescente descontentamento com o funcionamento do sistema político. Os cabo-verdianos valorizam profundamente a democracia, mas muitos sentem-se frustrados com a forma como ela funciona na prática. Existe a percepção de que o sistema político está demasiado fechado sobre os partidos e que as oportunidades não chegam de forma igual a todos os cidadãos. Apesar de termos uma Constituição moderna, muitas pessoas acreditam que apenas uma pequena elite ligada aos grandes partidos beneficia verdadeiramente do sistema democrático. Os dados mostram isso claramente: apenas 19% dos cabo-verdianos dizem estar satisfeitos com a democracia. E é legítimo perguntar quem são esses 19%. Na minha opinião, trata-se sobretudo das elites partidárias que têm controlado o poder ao longo dos anos. A elevada abstenção é, portanto, um sintoma antigo de descrença e desconfiança. Muitas pessoas deixaram de se rever nos políticos e nas lideranças actuais. Cabo Verde não está isolado desta tendência mundial de crise de liderança e de afastamento entre cidadãos e representantes políticos. Nesta eleição, a UCID perdeu mandatos, passando de quatro deputados para dois. O Partido Popular voltou a não eleger deputados e o PTS, apesar de ter aumentado a votação, também não conseguiu representação parlamentar. Como se explica este resultado? O país está condenado ao bipartidarismo? Não diria que Cabo Verde está condenado ao bipartidarismo. O problema não é a existência de dois grandes partidos, mas sim a qualidade do funcionamento desse sistema e a capacidade de renovação política. Ao longo destes 35 anos de democracia, consolidou-se um sistema claramente bipartidário, no qual os pequenos partidos enfrentam enormes dificuldades para se afirmarem. Há questões estruturais que explicam isso. Desde logo, os grandes partidos têm maior capacidade de implantação em todas as ilhas e beneficiam de mais recursos financeiros e logísticos através da subvenção eleitoral. Isso permite-lhes organizar campanhas muito mais eficazes em todos os círculos eleitorais. Já os partidos pequenos enfrentam limitações materiais, organizativas e até de liderança, o que dificulta a afirmação de alternativas credíveis. Nesse cenário, muitos eleitores acabam por preferir votar nos partidos que efectivamente têm capacidade para formar governo. Vimos também, neste escrutínio, a importância e o peso da diáspora. Isto mostra que as autoridades têm de olhar para a diáspora como uma prioridade? Sem dúvida. A diáspora cabo-verdiana continua a ter um peso político muito inferior àquele que deveria ter. Se Cabo Verde possui mais de um milhão de emigrantes, é difícil compreender como existem apenas cerca de setenta mil eleitores inscritos no exterior. Isso demonstra que ainda há um enorme défice de integração política da diáspora. É necessário aproximar o Estado dessas comunidades, reforçar o recenseamento eleitoral e criar mecanismos que facilitem a sua participação no processo político, incluindo soluções digitais. A diáspora não pode continuar a ser vista apenas como um apoio económico. Ela deve ser encarada como um parceiro estratégico no desenvolvimento do país e na construção de uma nova etapa para Cabo Verde, centrada na qualidade, no conhecimento e na inovação. Durante a campanha eleitoral falou-se muito da centralização do poder em Santiago e na cidade da Praia. A liderança de Francisco Carvalho pode alterar essa realidade ou tende a reforçá-la? Existe uma grande expectativa, sobretudo nas ilhas do Norte, em relação a essa questão. São Vicente, por exemplo, demonstrou nesta eleição uma vontade clara de mudança e espera agora maior reconhecimento político. O próximo governo terá de construir uma composição governativa que transmita a ideia de equilíbrio regional e de inclusão das diferentes ilhas. Há um sentimento crescente de exclusão fora de Santiago, precisamente porque a capital concentra o poder político, económico e administrativo. Essa centralização acaba por empurrar muitas pessoas para Santiago à procura de oportunidades de trabalho e melhores condições de vida. Por isso, penso que Cabo Verde precisa de aprofundar a descentralização, aproximando o poder das populações e criando condições para que as pessoas possam viver e desenvolver-se nas suas próprias ilhas, sem sentirem necessidade de migrar para a capital.

Podcasts do Portal Deviante
Teoricos do Guaxaverso 001 (Especial de aniversário)

Podcasts do Portal Deviante

Play Episode Listen Later May 13, 2026 46:25


Nosso especial no mês de aniversário!!!! Anote seus pontos, sem roubar, e venha torcer para Fabi, Caio ou Felipe Xavier e diga nos comentários quantos pontos você faria? TEXTOS: No início, sou só água. Água que espera. Então vêm as mãos. Uma pesa demais. Outra mede demais. A terceira hesita,  e essa hesitação muda tudo. Sou golpeado. Sovado. Esticado até quase romper. As primeiras tentativas são desiguais. Alguns fios nascem grossos, outros frágeis. Há pressa demais em uma palma. Orgulho demais em outra. O fogo observa. O ar fica pesado com sal, gordura, memória. Alguém quase perde o ritmo quando o aroma sobe rápido demais. Alguém quase se afoga na própria ansiedade. Mas então eles lembram do que aprenderam. Três movimentos. Não separados, simultâneos. Eu giro. Sou lançado contra calor que não recua. Uma força antiga tenta me dispersar, espalhar meus ingredientes, provar que ainda manda na chama. Quase me perco. Quase transbordo. Mas três tempos se alinham. Um impacto que atordoa. Um alongamento que desequilibra. Uma dobra que concentra. E eu encontro forma. O cenário é improvável. O cheiro de menta e produtos químicos tenta, sem sucesso, mascarar o odor de sangue que impregna o tecido azul escuro. O chão vibra com o rugido lá de fora e as paredes de metal rangem. Ao olhar para o lado, a visão de sua mulher segurando um cutelo com naturalidade é a única coisa que lhe dá confiança para tentar decifrar aquelas linhas técnicas em francês. Você precisa estabilizar a aeronave e ignorar, por um instante, o que aguarda por trás da porta: sete figuras que deveriam estar imóveis e ensacadas, mas que podem ser bem mais perigosos do que uma queda livre. O prédio tem três andares, mas nunca esteve completo. Uma ala inteira permanece vazia há mais de uma década. Prometeram móveis. Prometeram verba. Prometeram futuro. O cheiro ali é curioso: mofo recente, como se algo tivesse sido inaugurado ontem, e abandonado no mesmo dia. Lá dentro, poucas pessoas. Ou assim dizem os registros. Mas há sempre alguém na recepção. Lá dentro, poucas pessoas. Ou assim dizem os registros. Mas há sempre alguém na recepção. Alguém que sorri demais. A cidade é redonda. Não por acaso, por orgulho. Torres ovais, bandeiras amarelas, brasões com formas simples demais para serem inocentes. Dentro dos muros, tudo brilha. Fora deles, a lama é espessa. O ser mais protegido do reino vive numa torre alta. Oficialmente, é de companhia. Extraoficialmente, sustenta o tesouro. Na manhã da fuga, a janela estava estilhaçada de fora para dentro. No alto da colina próxima, marcas no solo indicavam algo pesado apoiado ali por horas. Não houve invasão. Houve lançamento. Dias depois, criadores começaram a notar ausências sincronizadas. Portões intactos. Cercas inteiras. E ainda assim, vazios. O soberano fala em sabotagem. Mas os relatórios usam outra palavra: organização. O tempo dos carros voadores ficou para trás e a Biblioteca não guarda apenas livros raros, mas a sobrevivência humana. Após passarem por um teste de sangue e álcool, eles são levados à cidade subterrânea, onde lâmpadas brilham como estrelas e o silêncio dos moradores esconde um medo profundo. O corredor estreito engole o som. Lá dentro, o silêncio ecoa estranho, em contraste com a animação esperada. Então a luz reaparece na outra extremidade. Mas não vem calor com ela. Vem pausa. Um a um, os passos diminuem. Não por ordem. Por contágio. Um último som ainda insiste em ser ouvido. Tum. Tum. Tum. O tambor falha no meio do gesto. Havia algo esperando do lado de fora. O ar muda antes do primeiro som metálico. Um estalo seco rasga o céu, não como trovão, que avisa. Como ruptura. A vibração chega antes da compreensão. Depois, o silêncio fica mais pesado do que antes. Ninguém corre. Ninguém canta. Até que alguém respira fundo demais. E o mundo decide se encolher, ou responder. O corredor estreito engole o som. Lá dentro, o silêncio ecoa estranho, em contraste com a animação esperada. Então a luz reaparece na outra extremidade. Mas não vem calor com ela. Vem pausa. Um a um, os passos diminuem. Não por ordem. Por contágio. Um último som ainda insiste em ser ouvido. Tum. Tum. Tum. O tambor falha no meio do gesto. Havia algo esperando do lado de fora. O ar muda antes do primeiro som metálico. Um estalo seco rasga o céu, não como trovão, que avisa. Como ruptura. A vibração chega antes da compreensão. Depois, o silêncio fica mais pesado do que antes. Ninguém corre. Ninguém canta. Até que alguém respira fundo demais. E o mundo decide se encolher, ou responder. O carro sobe por uma estrada estreita ladeada por muros de pedra antiga. Não é apenas uma propriedade, é um monumento. O cheiro não é só de terra: é de tradição. À esquerda, fileiras disciplinadas descem o terreno em declive. À direita, uma mansão que parece ter aprendido a envelhecer com elegância. Um anexo mais recente destoa, concreto mais claro, linhas mais retas. Mas eu não estou ali pela arquitetura. Estou ali porque algo apodreceu. Ajude esse projeto Apoiase: https://apoia.se/rpguaxa PIX: rpguaxa@gmail.com Contatos: Instagram: https://instagram.com/RPGuaxa Instagram do Guaxa: https://instagram.com/marceloguaxinim Assine o Feed! http://deviante.com.br/podcasts/rpguaxa/feed/ Se não esta achando no seu agregador cole esse link lá que ele acha! Assine o Feed! Edição: Marcelo Guaxinim. Idealizador e Host: André Trapani. Jogadores: Caio, Fabi e Felipe Xavier. “Happy Happy Game Show” Kevin MacLeod (incompetech.com) Licensed under Creative Commons: By Attribution 4.0 License http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ “Ancient Winds” Kevin MacLeod (incompetech.com) Licensed under Creative Commons: By Attribution 4.0 License http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

Quem Ama Não Esquece
A PIOR HERANÇA VEIO DE ONDE NUNCA HOUVE AMOR | HISTÓRIA DA MARIA| QUEM AMA NÃO ESQUECE 11/05/2026

Quem Ama Não Esquece

Play Episode Listen Later May 11, 2026 14:54


Maria (@silvamariaclaudino) cresceu em um lar violento, marcado por agressões da mãe. Sem proteção, saiu de casa aos 13 anos e passou a se sustentar sozinha, trabalhando como babá. Na vida adulta, entrou em um relacionamento que se tornou abusivo. Durante a gravidez, foi agredida pelo companheiro, o que causou problemas de saúde em seu filho, Matheus. Após o nascimento, decidiu ir embora para protegê-lo. Depois, conheceu Thomaz, com quem construiu uma relação saudável e teve mais dois filhos. Anos mais tarde, foi diagnosticada com distrofia muscular fácio-escápulo-umeral, doença hereditária e degenerativa herdada da mãe. Descobriu também que dois de seus filhos tinham a mesma condição. Com o avanço da doença, passou a enfrentar dores intensas e limitações físicas, sem acesso ao tratamento adequado. Chegou a pedir eutanásia, mas teve o pedido negado. Mesmo com o sofrimento, Maria segue lutando, encontrando força no amor pelos filhos e na família que construiu.Ouça a história completa

E eu com isso?
#372 Lei contra o antissemitismo

E eu com isso?

Play Episode Listen Later Apr 29, 2026 41:39


No cenário legislativo brasileiro, o antissemitismo está em pauta. Houve uma sequência importante de fatos nos últimos tempos: o Brasil deixou a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. Depois, a deputada Tabata Amaral apresentou um projeto de lei que define o antissemitismo. e mais recentemente, houve um seminário em Brasília para debater o tema. E esse cenário é o nosso assunto hoje. Nosso convidado é Fernando Lottenberg, advogado, Comissário da Organização dos Estados Americanos para o monitoramento e combate ao antissemitismo, e conselheiro do IBI. 

Gabinete de Guerra
"Não houve nenhuma rendição condicional do Irão"

Gabinete de Guerra

Play Episode Listen Later Apr 29, 2026 9:14


Francisco Pereira Coutinho explica que o Irão não se rendeu. O especialista em direito internacional critica Trump de ter falhado ao dizer que o regime de Teerão tinha mudado.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Central3 Podcasts - Travessia
#210 - Redes Sociais

Central3 Podcasts - Travessia

Play Episode Listen Later Apr 28, 2026 71:43


Houve um tempo em que não existiam redes sociais. E já parece que foi em outra era geológica. Desde que elas chegaram, os artistas mais velhos olham pra este mundo entre a desesperança e o fascínio, tentando entender o que está acontecendo. Já os mais jovens, claro, usam pra tudo, inclusive pra safadeza. O Travessia traz nesta edição as músicas na era da onipresença das redes sociais. Seja nosso apoiador e participe do maior e melhor grupo de música popular brasileira do país. Acesse apoia.se/travessiapodcast

Novus Capital
NovusCast - 24 de Abril 2026

Novus Capital

Play Episode Listen Later Apr 24, 2026 11:03


Nossos sócios Luis André Oliveira e Sarah Campos debatem, no episódio de hoje, os principais acontecimentos da semana no Brasil e no mundo. No cenário internacional, a semana trouxe dados relevantes, mas o foco seguiu no conflito entre Estados Unidos e Irã. Nos EUA, o varejo veio mais forte puxado por gasolina, enquanto o consumo real segue desacelerando desde o fim de 2024. Na Europa, os PMIs mostraram alta de manufaturas, influenciadas por fatores de oferta e estoques, enquanto serviços e o composto vieram mais fracos, indicando risco para a atividade. No Reino Unido, a inflação headline veio mais alta, também pressionada por energia, enquanto o núcleo ficou em linha com o esperado. As expectativas de inflação de curto prazo subiram, mas as de prazo mais longo seguem ancoradas. Em paralelo, seguem as negociações envolvendo o conflito, com conversas ocorrendo por meio de intermediários, mas sem confirmação de encontro direto entre Irã e Estados Unidos. No Brasil, a semana foi mais esvaziada em dados por conta do feriado. No campo político, o governo enviou proposta para utilizar receitas adicionais do petróleo para reduzir tributos sobre combustíveis, buscando neutralidade fiscal. Houve também avanço inicial na discussão sobre redução da jornada de trabalho – escala 6x1. Além disso, o governo prepara medidas voltadas à renegociação de dívidas para famílias de menor renda e reforço na regulação de apostas. Nos EUA, o juro de 2 anos abriu 7 bps, e as bolsas tiveram desempenho positivo – S&P 500 +0,55%, Nasdaq +2,37% e Russell 2000 +0,36%. No Brasil, o jan/29 abriu 33 bps, o Ibovespa caiu 2,55% e o real desvalorizou apenas 0,06%. O petróleo subiu 17%. Na próxima semana, destaque para decisões de política monetária nos EUA, Europa, Reino Unido, Japão, Canadá e Brasil; além do PIB e PCE nos EUA; IPCA-15 e dados de mercado de trabalho no Brasil.

E o Resto é História
Quantos presos políticos houve após o 25 de Abril?

E o Resto é História

Play Episode Listen Later Apr 21, 2026 37:48


É a polémica histórica do momento: quantos presos políticos havia, afinal, antes do 25 de Abril e depois do 25 de Abril? Procuramos responder a essa questão sem paixões e com os dados disponíveisSee omnystudio.com/listener for privacy information.

JORNAL DA RECORD
15/04/2026 | Edição Exclusiva: Supertufão atinge ilhas americanas no Oceano Pacífico

JORNAL DA RECORD

Play Episode Listen Later Apr 15, 2026 3:55


Confira nesta edição do JR 24 Horas: Um supertufão atingiu territórios americanos no Oceano Pacífico. Segundo o Serviço de Meteorologia dos Estados Unidos, os ventos em Guam e nas Ilhas Marianas do Norte chegaram a 240 quilômetros por hora. Houve alagamentos, queda de árvores e interrupção no fornecimento de energia. A velocidade dos ventos deve cair para cerca de 80 quilômetros por hora ainda nesta quarta-feira (15). Mesmo assim, as autoridades recomendam que a população evite sair de casa. Não há registro de mortes ou feridos. E ainda: Golfinhos fazem acrobacias na praia de Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro.

Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer
Cabeça na lua, dedo não gatilho

Programa Cujo Nome Estamos Legalmente Impedidos de Dizer

Play Episode Listen Later Apr 11, 2026 47:08


Nem as convulsões do mundo interrompem as minudências domésticas. Há lugares por preencher no Tribunal Constitucional e o arranjo na dança das cadeiras volta a adiar a resolução do problema para quando houver mais uma vaga disponível. Houve uma promessa do governo de atacar os problemas do Serviço Nacional de Saúde nos primeiros sessenta dias de governação, mas agora, quando já poucos se lembram da promessa e do prazo, chega a confirmação oficial de que não há forma de resolver o drama das listas de espera e que não o melhor é esquecermos a ideia de haver médico de família para todos. Mas há mais: a Igreja Católica decide poupar uns cobres nas reparações às vítimas de abusos sexuais e talvez até o Estado venha a cobrar IRS sobre as indemnizações a que têm direito. Enquanto isso, a humanidade atreve-se pelas profundezas do cosmos, para lá da lua, e o presidente do país mais poderoso do mundo ameaça, sem rodeios, aniquilar não apenas um país, mas uma civilização. Mas pode ser que seja só garganta.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Novus Capital
NovusCast - 10 de Abril 2026

Novus Capital

Play Episode Listen Later Apr 10, 2026 13:45


Nossos sócios Luiz Eduardo Portella, Tomás Goulart e Sarah Campos debatem, no episódio de hoje, os principais acontecimentos da semana no Brasil e no mundo. No cenário internacional, a semana foi marcada por uma redução de risco no conflito entre Estados Unidos e Irã. Após ameaça de escalada, um acordo de cessar-fogo de duas semanas foi mediado. Ainda assim, houve violações e o estreito de Ormuz seguiu com fluxo muito baixo, mantendo a relevância do tema para o mercado de petróleo. Nos dados econômicos, o CPI de março veio com surpresa baixista, com headline elevado, mas núcleo mais comportado e abaixo do esperado, indicando inflação subjacente ainda controlada. O payroll mostrou criação forte de vagas no setor privado, embora com sinais mistos na pesquisa das famílias. No Brasil, o IPCA veio em 0,88%, com surpresa altista frente ao esperado, concentrada em alimentação e bens industriais, com leitura qualitativa mais benigna. Ainda assim, a perspectiva segue de inflação pressionada nos próximos meses, com impacto maior do petróleo esperado para abril e maio. Dados de atividade, como vendas e produção de veículos, vieram fortes, indicando início de ano aquecido. Houve piora das expectativas de inflação de 2028 reportadas no Focus. Nos EUA, os juros fecharam marginalmente, e as bolsas tiveram desempenho positivo – S&P 500 +3,56%, Nasdaq 4,45% e Russell 2000 +3,97%. O petróleo caiu mais de 10%. No Brasil, o jan/35 fechou 40 bps, o Ibovespa subiu 4,93% e o real valorizou 3,04%. Na próxima semana, destaque para dados adicionais de inflação nos EUA, além da continuidade das negociações entre Estados Unidos e Irã e da comunicação dos bancos centrais. No Brasil, atenção aos dados de atividade (PMC e PMS).

Expresso - Eixo do Mal
No dia em que a Constituição fez anos, houve protestos e abandonos na AR

Expresso - Eixo do Mal

Play Episode Listen Later Apr 3, 2026 50:19


A leste nada de novo: Trump quer mandar o Irão de volta para a Idade da Pedra, sair da NATO e fazer uma gigantesca estátua de ouro. Por cá, comemoraram-se os 50 anos da Constituição, numa altura em que tanta se fala em mudá-la. A análise de Clara Ferreira Alves, Luís Pedro Nunes, Daniel Oliveira e Pedro Marques Lopes no Eixo do Mal em podcast. Emitido na SIC Notícias a 2 de abril. Para ver a versão vídeo deste episódio clique aquiSee omnystudio.com/listener for privacy information.

O Assunto
Escravidão: o mais grave crime contra a humanidade

O Assunto

Play Episode Listen Later Mar 30, 2026 31:51


Convidada: Ynaê Lopes dos Santos, doutora em história pela USP, pesquisadora sobre a História da Escravidão nas Américas e professora de História da América da Universidade Federal Fluminense. Na última quarta-feira (25), Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que declara que o tráfico de africanos escravizados foi o crime mais grave na história da humanidade. O texto foi apresentado por Gana e aprovado por 123 dos 193 países que integram as Nações Unidas – entre eles o Brasil. Houve 52 abstenções (caso do Reino Unido e de todos os integrantes da União Europeia) e somente 3 votos contrários: Argentina, Estados Unidos e Israel. O reconhecimento das Nações Unidas se refere ao tráfico de africanos que foram sequestrados e levados à força para as Américas: um crime que foi perpetrado durante quatro séculos e vitimou cerca de 12,5 milhões de pessoas. O Brasil foi o maior destino: quase 5 milhões de negros escravizados foram transportados para cá. A resolução agora exige reparações. Para analisar se o que foi decidido na ONU é apenas uma posição simbólica ou uma ação concreta em busca de justiça, Victor Boyadjian entrevista Ynaê Lopes dos Santos, doutora em história pela USP e professora de História da América da Universidade Federal Fluminense. Ynaê, que também é pesquisadora sobre a história da escravidão, descreve as três etapas da organização econômica da escravidão: a captura na África, o transporte nos navios negreiros e o trabalho forçado no Brasil. Ela ainda explica a que tipo de violências as pessoas escravizadas eram submetidas e aponta os caminhos para uma possível reparação histórica para este crime.

Chutando a Escada
Ecologia da mente e extrema-direita

Chutando a Escada

Play Episode Listen Later Mar 26, 2026 70:01


O que há em comum entre uma bateria antiaérea da Segunda Guerra Mundial, os algoritmos do WhatsApp e o bolsonarismo? Para Letícia Cesarino, professora associada de Antropologia Social na Universidade Federal de Santa Catarina, a resposta está na cibernética. Neste episódio, produzido em parceria com o Observatório da Extrema Direita, David Magalhães e Guilherme Casarões recebem Letícia para discutir seu artigo recém-publicado na revista Current Anthropology: “An Ecology of Mind Approach to Far-Right Publics in Brazil“, no qual ela aplica o quadro teórico da ecologia da mente, desenvolvido pelo antropólogo Gregory Bateson, para reler o bolsonarismo como um sistema tecnopolítico. No bloco de notícias, David traz dois termômetros da extrema-direita global: os resultados das eleições municipais na França, que revelam o avanço territorial do Rassemblement National a despeito de um teto de vidro nas grandes cidades, e as eleições húngaras de abril, onde Peter Magyar desafia 15 anos de governo Orbán. E ainda tem, no último bloco, dica cultural. Aperte o play! Quer apoiar o Chutando a Escada? Acesse chutandoaescada.com.br/apoio Mande um café usando nossa chave PIX: perguntas@chutandoaescada.com.br Comentários, críticas, sugestões? Escreva pra gente em perguntas@chutandoaescada.com.br Participaram deste episódio: Letícia Cesarino (UFSC), David Magalhães e Guilherme Casarões Capa do episódio: Agência Brasil (CC BY 3.0 BR) Escute também no Spotify, no YouTube ou Apple Podcasts. Capítulos: 00:00 — Abertura 00:02 — Entrevista: ecologia da mente, cibernética e extrema-direita digital 00:32 — Bolsonarismo, populismo e públicos digitais artificiais 00:45 — Radicalização, a lacuna online-offline e os limites da etnografia 00:57 — Boletim: França — eleições municipais e o Rassemblement National 01:03 — Boletim: Hungria — Orbán e Peter Magyar às vésperas das eleições de abril 01:08 — Dica cultural: Feels Good Man (Amazon Prime, 2020) Citados no episódio CESARINO, Letícia. “An Ecology of Mind Approach to Far-Right Publics in Brazil”. Current Anthropology, 2026. BATESON, Gregory. Steps to an Ecology of Mind. Chandler, 1972. GALISON, Peter. “The Ontology of the Enemy: Norbert Wiener and the Cybernetic Vision”. Critical Inquiry, v. 21, n. 1, 1994. WIENER, Norbert. Cybernetics: Or Control and Communication in the Animal and the Machine. MIT Press, 1948. MASSUMI, Brian. Ontopower: War, Powers, and the State of Perception. Duke University Press, 2015. SIMONDON, Gilbert. L’individuation à la lumière des notions de forme et d’information. Jérôme Millon, 2005. LIFTON, Robert Jay. The Nazi Doctors: Medical Killing and the Psychology of Genocide. Basic Books, 1986. EASTON, David. A Systems Analysis of Political Life. Wiley, 1965. Documentário Feels Good Man. Direção: Arthur Jones. EUA, 2020. Disponível na Amazon Prime. Chute 391 — Transcrição Parceria Chutando a Escada e Observatório da Extrema Direita Publicado em 26 de março de 2026 Abertura David Magalhães: Olá, pessoal! Sejam bem-vindos e bem-vindas a mais um episódio da parceria entre o Chutando a Escada e o Observatório da Extrema Direita — o primeiro episódio de 2026. A partir de agora, nos encontramos sempre na última semana de cada mês com episódios dedicados a discutir a extrema-direita em suas dimensões globais, teóricas e também reagindo ao calor dos acontecimentos. Para quem já acompanha o podcast, vale lembrar que nosso programa segue dividido em três blocos. No primeiro, trazemos uma entrevista mais aprofundada com pesquisadores e pesquisadoras que estão na linha de frente desse debate. Depois, passamos para um boletim com as análises das principais notícias envolvendo a extrema-direita global. E, para fechar, uma dica cultural sempre conectada com o universo do extremismo de direita — pode ser um livro, um filme, uma série, uma produção musical. Peço que você fique conosco até o fim, porque a dica deste episódio está completamente relacionada com o tema da nossa entrevista. Vamos lá. Entrevista — Letícia Cesarino David Magalhães: Estou aqui com o meu amigo Guilherme Casarões para receber a nossa convidada deste episódio, que é a Letícia Cesarino. A Letícia é professora associada de Antropologia Social na Universidade Federal de Santa Catarina e também uma das novas integrantes do Observatório da Extrema Direita. Aproveitamos para dar as boas-vindas — é um prazer ter você conosco, não só no episódio, mas também no Observatório. Nos últimos cinco anos, a Letícia desenvolveu uma pesquisa bastante aprofundada e relevante sobre antropologia digital, extrema-direita e redes sociais. E, mais recentemente, ela acaba de publicar — acabou de sair do forno — um artigo bastante interessante e instigante na revista Current Anthropology. O artigo se intitula “An Ecology of Mind Approach to Far-Right Publics in Brazil” — algo como uma abordagem da ecologia da mente aplicada aos públicos de extrema-direita no Brasil. A ideia deste episódio é discutir esse novo artigo. Letícia, você mobiliza um quadro teórico bastante sofisticado, especialmente ao trazer a ideia de ecologia da mente — ecology of mind —, que vem do trabalho de Gregory Bateson, um antropólogo e linguista britânico importante do século XX. Confesso que não o conhecia; encontrei o livro dele em PDF na internet e li um pouco para me inteirar de como você adota e aplica esse quadro teórico para discutir redes sociais e extrema-direita brasileira. Fiquei bastante interessado no uso do termo “cibernético”, porque para ouvidos contemporâneos ele remete imediatamente ao universo digital, de redes e internet. Mas as principais obras de Bateson são publicadas logo após a Segunda Guerra, nos anos 1960 e 1970 — embora ele tenha iniciado seu desenvolvimento nos anos 1930 —, e ele não estava falando exatamente de internet. Isso me gerou dúvidas. Antes de falarmos da aplicação propriamente dita, você poderia nos explicar um pouco sobre essa abordagem e esse quadro teórico? Bateson propõe tudo isso muito antes da chamada terceira revolução industrial. Letícia Cesarino: Oi, David, Casarões. É um grande prazer estar aqui com vocês no podcast e também no Observatório da Extrema Direita como um todo. Obrigada pelo convite. Acho que esse artigo é um bom gancho para trabalharmos questões da minha abordagem mais específica para a extrema-direita, porque, diferente de muitos que trabalham nesse campo, eu não venho dos estudos da política. Sou uma antropóloga cuja área de origem é a antropologia da ciência e tecnologia — sempre foi assim, desde a graduação —, e nos últimos anos fui transitando para essas questões das mediações digitais, das plataformas e da cibernética. O meu olhar para a extrema-direita é, portanto, um olhar tecnopolítico. O meu interesse é entender essa dimensão relativamente pouco trabalhada nas ciências sociais: o papel das máquinas, o papel da técnica, o papel das infraestruturas técnicas na conformação dessa força política e, mais especificamente no caso desse artigo, dos ecossistemas digitais de extrema-direita. A ecologia da mente e o Bateson — nos últimos anos consolidei em torno da obra dele um arcabouço que remeto também a outros autores da antropologia e da área dos estudos de mídia e tecnopolítica, para desenvolver uma perspectiva que veja agência humana e maquínica juntas, de forma recursiva. E aí a cibernética — podemos começar por ela, esclarecendo o termo. O termo remete a computadores, o que faz sentido, porque a cibernética clássica dos anos 1940, a de Norbert Wiener, o matemático estadunidense que inventou o termo, também deu origem à indústria de tecnologia que temos hoje. Existe, portanto, uma continuidade entre o que chamamos de cibernética hoje e o que era a cibernética como superciência da comunicação e do controle, tanto nos sistemas maquínicos como nos sistemas animais, incluindo o humano. Gregory Bateson fez parte do grupo original das chamadas Conferências Macy, nos anos 1940. Mas depois da Segunda Guerra houve uma bifurcação: uma linha foi trabalhar o que chamo de cibernética das máquinas — Norbert Wiener, Von Neumann, todos os nomes precursores da indústria de tecnologia, da construção dos computadores, da inteligência artificial —, enquanto Bateson foi trabalhar a questão da cibernética dentro de uma chave mais próxima da teoria da evolução e da história natural, o que chamo de cibernética da vida. Ele tem um arcabouço que inclui a cibernética das máquinas, os princípios comuns do funcionamento de máquinas cibernéticas, humanos e animais, mas vai além, trazendo as camadas extras que o humano coloca na relação com a máquina. Nesse sentido, a ecologia da mente inclui a cibernética, mas é maior. É a partir desse ponto de vista que tenho olhado para a participação de máquinas cibernéticas — que, no fundo, hoje são basicamente algoritmos, e a evolução dos algoritmos são as inteligências artificiais — e como elas influem e participam em processos que entendemos como políticos, mas que, na verdade, são tecnopolíticos, porque têm cada vez mais a participação de agências não humanas, agências maquínicas. Guilherme Casarões: Letícia, eu também ficava intrigado com essa terminologia cibernética. Lembro que na faculdade, na aula de sociologia, tive contato com David Easton, que aplicava a cibernética aos sistemas políticos e aos sistemas humanos em geral. Sempre achei curioso que não tivesse a ver com computador — essa foi a maneira como sempre encaramos o termo. Mas toda teoria de sistemas convida a um tipo de abordagem cibernética, com essa linguagem muito interessante de inputs e outputs, de como os sistemas funcionam. Trazer isso de volta à discussão é fundamental. E você argumenta no seu texto que a infraestrutura das redes sociais carrega uma espécie de ontologia do inimigo, herdada dessa cibernética militar da Segunda Guerra Mundial. Como essa visão do ser humano como um servomecanismo — um animal a ser controlado por algoritmos — cria uma afinidade eletiva com a lógica da guerra e a desumanização do outro praticadas pela extrema-direita? Letícia Cesarino: Ótima pergunta. É um bom gancho para colocarmos mais camadas na questão da cibernética. O que tentaram fazer nos anos 1940 — e é importante notar que a cibernética nasce do esforço de guerra, do esforço de guerra dos americanos entrando na Segunda Guerra contra o nazifascismo; a primeira conferência foi em 1946, se não me engano — era produzir conhecimento básico, porque a cibernética é uma ciência que explicaria formas comuns de funcionamento de máquinas cibernéticas, de animais e de humanos. O que têm em comum entre o funcionamento desses sistemas? A cibernética gira em torno da ideia não só de input e output, mas principalmente do feedback — quando o output volta para o sistema como input. O coração da cibernética é essa questão da recursividade, ou causalidade circular, que é uma característica de qualquer organismo vivo e também de máquinas construídas à imagem e semelhança desses organismos, ou seja, máquinas que tomam decisões sozinhas. Essa é, para mim, a principal definição de máquina cibernética, porque os algoritmos fazem isso. Mas muito antes da indústria de tecnologia, outras máquinas já faziam isso — como a própria máquina a vapor de James Watt, que é a base do que Marx, no uso grundrissiano, chama de automata. Ele já identificou no século XIX que havia máquinas sendo incorporadas nas infraestruturas do trabalho que tomavam decisões sozinhas — ainda muito rudimentares, mas a ideia de que as máquinas começam a dar o ritmo do trabalho humano já estava colocada desde o século XIX. A cibernética dos anos 1940 traz para o centro essa questão da guerra, que é quando houve um pico na produção dessas máquinas antes da indústria de tecnologia propriamente dita. Peter Galison — um dos grandes historiadores da ciência, físico de formação — tem um artigo no qual trabalha a ontologia da cibernética de Wiener a partir do contexto de guerra. Ele vai elaborar o que seria essa ontologia do inimigo de guerra a partir da cibernética. Ele faz uma progressão que vale a pena resgatar brevemente aqui. Quando você está numa conjuntura de guerra — uma conjuntura de exceção, isso é importante —, você precisa desumanizar seu inimigo, porque assim vai torná-lo eliminável. Em modelos de guerra anteriores, até a Primeira Guerra, quando você tinha que confrontar seu inimigo no corpo a corpo com uma baioneta ou uma arma de fogo de curto alcance, a forma de desumanização era através de analogias com animais, com monstros. Galison trabalha, por exemplo, cartas de soldados americanos que representam os japoneses através de analogias com ratos, com vermes. Essa é uma forma de desumanização. A segunda forma seria a da Segunda Guerra, que compartilha com a cibernética essa ideia do servomecanismo — um híbrido de humano-máquina. Quando Norbert Wiener começou a desenvolver a cibernética para produzir artilharia antiaérea — máquinas que conseguissem calcular sozinhas a trajetória do caça inimigo para atirar antes de o avião chegar, e o projétil encontrar o alvo no meio da trajetória —, o que o servomecanismo significa? Por que essa imagem do inimigo desumaniza? Porque não interessa quem está dirigindo aquele avião. O que interessa é como aquele avião se comporta — e um comportamento que possa ser previsto e controlado. É um tipo de desumanização cibernética. E podemos pensar também em outras formas de desumanização que evoluem com a guerra, como essa guerra de videogame que temos hoje, onde o inimigo não é sequer visto — é quase como algo da fantasia dos videogames. Isso sempre acompanha a guerra. A cibernética é uma boa epistemologia para entender contextos de exceção, conjunturas de guerra, conjunturas de crise que não se superam, porque são conjunturas de grande instabilidade, de não linearidade, com essa tendência à bifurcação do corpo social. Essas são ferramentas melhores para esse tipo de conjuntura do que muitas das ferramentas clássicas das ciências sociais — Durkheim, por exemplo, desenvolveu ferramentas em sua maioria para contextos de estabilidade, de paz, onde o social está mais estruturado, mais previsível e regido por normas. Num contexto de exceção, de crise e de guerra, o social muda de modo de funcionamento. Uma das hipóteses do meu próximo livro é a de que o social de guerra, de exceção e de crise, funciona em outra dinâmica, e que a cibernética tem boas ferramentas para entender isso, inclusive as formas de desumanização que tendem a se proliferar nesses contextos. David Magalhães: Excelente. Acho que é um bom gancho para avançarmos para a parte do seu texto em que você enquadra todo esse arcabouço para compreender a extrema-direita em ambiente digital. As principais linhas interpretativas preocupadas em compreender a ascensão dessa onda ultradireitista global olham para a questão ideológica, para eleitores frustrados, para a relação desses eleitores com a globalização e com a crise da democracia liberal. Mas você propõe algo diferente: observar esse fenômeno como um grande organismo cibernético, um sistema no qual humanos — lideranças, influenciadores, seguidores — e máquinas — algoritmos do WhatsApp, do Telegram, de redes sociais — operam de maneira integrada, como parte de um ecossistema. O que ganhamos analiticamente ao fazer esse deslocamento? Letícia Cesarino: São muitas camadas. Uma das coisas que acho importante — sempre começo palestras com isso — é a questão do ciborgue. O que é o ciborgue? É um híbrido de humano-máquina, outra forma de falar no servomecanismo. Mas temos essa imagem fantasiosa do ciborgue que vem da ficção científica, a de que seria um indivíduo com partes de sua função fisiológica — alimentação, respiração — suplementadas por máquina. O Robocop seria o tipo ideal disso. O ciborgue da vida real, porém, não se parece em nada com o Robocop. O ciborgue da vida real somos nós. É qualquer um que acorda e a primeira coisa que faz é pegar o celular — para olhar o WhatsApp ou para desligar o alarme — e fica nessa relação de dependência com aquela máquina o dia inteiro, para questões de memória e de tomada de decisão. Por que isso acontece? Porque o Homo sapiens é uma espécie extremamente técnica — uma questão antropológica. Sobrevivemos como espécie, enquanto todos os outros hominíneos foram extintos, pela questão da técnica, da cultura. Precisamos ser suplementados. Como espécie biológica, precisamos ser suplementados o tempo todo pela cultura e pela técnica. Isso não significa que outros animais não tenham técnica — vários mamíferos têm, pássaros também. Mas para o sapiens, isso é existencial. Como Bateson diz, a mente não termina na pele; a mente humana é estendida para o seu ambiente. A unidade de análise da ecologia da mente nunca é o indivíduo sozinho — tentamos delimitar qual é o circuito relevante, e esse circuito de feedbacks é sempre maior que o indivíduo. Pode ser uma família, como no caso dos cães e de uma matilha; pode ser uma comunidade, algum território existencial qualquer. E o nosso território existencial hoje passa necessariamente por essas tecnologias. Os algoritmos, as máquinas, a agência maquínica fazem parte desse território existencial. Isso é um preâmbulo para chegar ao argumento que também faço em vários textos — inclusive nesse —: de que a extrema-direita, se a gente for transposto para a política, é uma força política nativa digital, pelo menos essa extrema-direita que conhecemos hoje. O nazifascismo histórico tem muita participação de mídia, embora isso não seja suficientemente notado. Há muitos estudos históricos que mostram o papel do rádio na capilarização do Terceiro Reich, para conformar esse grande território existencial imaginado e como isso atraiu os alemães comuns em torno daquele projeto. De certa forma, algo similar — similar, mas muito diferente também — está sendo recolocado hoje com relação à nova infraestrutura técnica midiática que são as plataformas digitais. Evito usar a palavra “mídia” porque quando falamos em mídia pensamos em máquinas específicas — televisão, rádio —, mas plataformas não são exatamente mídias. Elas se sobrepõem a todo tipo de infraestrutura técnica, não apenas midiática. Com a plataformização — uma tendência relativamente recente; a internet era muito diferente antes de 2010 — e com os smartphones, que foram um verdadeiro game changer, as primeiras áreas cujos efeitos foram sentidos foram a política eleitoral e a área da saúde. Mesmo antes da pandemia, pesquisadores já identificavam como o autocuidado começou a passar rapidamente por essas infraestruturas, com o “doutor Google”. Para não me estender, vou colocar os dois pontos principais que desenvolvo no artigo, porque são mais ontológicos: como essas máquinas mudam a própria relação espaço-temporal dos nossos sistemas sociotécnicos. O que os algoritmos fazem? Eles hiperaceleram — e esse é, para mim, o ponto central. Quando você hiperaccelera, desestabiliza a relação da mente humana com o seu ambiente. Fica aquele fluxo constante de eventos ao qual você tem que responder o tempo todo, e cognitivamente isso é lido como uma situação de crise, do ponto de vista da ecologia da mente — não só para o humano, para qualquer espécie. Quando há uma instabilidade muito grande do ambiente, isso tende a reverter para o modo crise. É o que Wendy Chun chama de situação de crise permanente que as plataformas jogam nos nossos sistemas sociotécnicos. Isso é, obviamente, uma base fértil para a instrumentalização por forças de extrema-direita. Um outro ponto que os algoritmos introduzem, relacionado à hiperaceleração — que seria uma dimensão mais temporal —, é uma dimensão mais espacial de bifurcação. Algoritmos programados para segmentar públicos, porque essa é a lógica do modelo de negócios da economia da atenção, acabam gerando — não sozinhos, mas na interação com os usuários humanos, porque a recursividade do humano-máquina vai para os dois lados — um efeito sistêmico não de segmentação pura e simples, mas de bifurcação. É aí que entra o código amigo-inimigo, a polarização, a sismogênese — todos esses processos de antagonismo extremo, o que chamo de “mundo do avesso”: um lado é o extremo oposto do outro, numa dinâmica de guerra em que só um pode prevalecer, porque o outro é visto como uma ameaça existencial. No ecossistema de extrema-direita, ele vai desde um polo mais moderado — Tarcísio, digamos — até um polo mais radicalizado — o pessoal do 8 de janeiro, o “tio França” que se explodiu na frente do STF. O que é a extrema-direita? Um lado? O outro? Agentes específicos? Discursos específicos? Não. Do ponto de vista da ecologia da mente, a extrema-direita é toda essa ecologia, todo esse ecossistema que cobre todo esse espectro e que inclui a agência maquínica como um dos seus principais motores. Primeiro porque ela desestabiliza o mundo real, com a hiperaceleração e todos esses processos. Mas ao mesmo tempo ela direciona — é como um rio que tem uma corrente que vai para um lado, e os agentes da extrema-direita são aqueles que nadam a favor da correnteza, porque as plataformas são um ambiente; elas não são variáveis. Elas mudam o ambiente no qual fazemos política. E esse ambiente tem vieses técnicos intrinsecamente favoráveis a uma força política como a extrema-direita. Por isso não é que eles estejam mais espertos ou inteligentes — é que a forma como fazem política converge com a lógica das redes de maneira subliminar, intrínseca. Como o Casarões disse, há uma certa afinidade eletiva com a lógica das plataformas. Mas essa afinidade não é aleatória — por isso foi importante voltarmos à cibernética dos anos 1940, ao esforço de guerra, à artilharia antiaérea. O próprio DNA dessa indústria de tecnologia se originou da guerra e nunca saiu da chave de guerra. Depois da Segunda Guerra, a cibernética se tornou parte da Guerra Fria, com a mesma lógica do controle indireto — fazer o inimigo fazer o que você quer que ele faça indiretamente —, que é essa ideia cibernética do controle numa chave sempre não linear, sempre recíproca. É o que o Trump exatamente tenta fazer agora, em outra versão. Houve um breve interregno onde se tornou uma indústria civil, nos anos 1980 e 1990, mas a lógica algorítmica, a lógica cibernética, continuou sendo a da guerra — só que agora, em vez de controlar o inimigo, você vai controlar o usuário, para fazê-lo clicar num anúncio e vender a atenção daquele usuário para os anunciantes. Há também uma convergência, especialmente durante a Guerra Fria, entre a lógica de guerra indireta, a lógica da propaganda e a indústria de publicidade que temos hoje. Não foi a publicidade que originou a propaganda política — foi a propaganda política que veio primeiro e depois se tornou uma indústria civil, que é o coração da lógica da economia da atenção. Mesmo essas plataformas que se colocavam como liberais sempre tiveram um DNA mais próximo da lógica de guerra, propaganda e controle indireto do que de algo parecido com democracia. Era, de certa forma, um pouco inevitável que as coisas se desenrolassem como estão se desenrolando, porque já estavam previstas na própria ontogênese dessa indústria — como Simondon chamaria —, uma ontogênese ligada à guerra, ao controle e à desumanização. As plataformas, os algoritmos, não nos veem como humanos. É exatamente a mesma coisa do caça com o piloto dirigindo: a máquina é incapaz de ver interioridade, incapaz de ver subjetividade. Ela só nos interpela no nível do controle, da previsão de comportamento. A política está se tornando isso — retroalimentando-se com os discursos da extrema-direita que ativam o senso comum na direção da regeneração, que é a lógica do fascismo histórico: seria possível vencer essa crise, resetar o sistema e construir o estereótipo de um inimigo que precisa ser derrotado para que a crise permanente seja superada. No fim das contas, é uma mistificação de processos reais e de problemas reais, numa linguagem nacionalista e nativista. Guilherme Casarões: Letícia, um outro conceito com que você trabalha no texto e na sua obra é o de populismo. Uma das passagens que mais me chamaram a atenção — e que acho fascinante — é que essa abordagem ecológica de Bateson ganha muita relevância frente ao populismo contemporâneo, justamente porque esse populismo se ampara em públicos que, como você diz no texto, são parcialmente artificiais. A passagem, para quem quiser ler depois, está na página 2 do texto: “os públicos que são produzidos por essa dinâmica são resultados transindividuais de uma agência que é humana e não humana, na medida em que os algoritmos coemergem permanentemente por meio de ciclos cibernéticos”. Essa questão da artificialidade do público é muito central para entender tanto a dinâmica amigo-inimigo quanto a maneira pela qual o populismo contemporâneo consegue controlar a construção narrativa e a mobilização de seu público. Queria ir mais especificamente para o caso que você estuda no texto, que é o bolsonarismo. Seu texto descreve o bolsonarismo não só como uma ideologia, mas como uma dinâmica mutante que oscila entre a moderação e a radicalização. Você traz o conceito de indecidibilidade rítmica — essa coisa de ir e voltar — e eu queria que você explicasse como o bolsonarismo, a partir dessa chave analítica, alterna entre o institucional e o antiestructural, e como isso permitiu ao ex-presidente Bolsonaro manter o sistema político num estado de antagonismo permanente sem chegar a uma ruptura total — o que só vai acontecer em 2023. Letícia Cesarino: O que tentei fazer nesse texto é reler parte do governo Bolsonaro até as eleições de 2022 a partir dessa lógica cibernética — ou seja, como ele performou uma dinâmica cibernética que é essa tecnopolítica moldada pelas máquinas. Casarões, você trouxe a questão do populismo, e acho que são etapas. Desde 2013 até 2018, temos essa invasão muito forte e muito rápida da agência técnica dessas mídias e desses dispositivos dentro da política — um movimento mais tectônico, de desestabilização. E aí essas figuras aparecendo mais ou menos ao mesmo tempo: Modi, Trump, Bolsonaro, Duterte, Orbán — é aí que o conceito de populismo realmente faz mais sentido, nesse sentido dessa irrupção de uma política antiliberal, com uma norma mais afetiva, mais espontânea. É a política da exceção. E que, novamente, bate com a estrutura das plataformas, porque as plataformas também são políticas de exceção e de multidão. É importante termos isso em mente. A citação que você trouxe mostra como as plataformas fazem um tipo de prestidigitação: colocam uma coisa na interface, então o usuário tem a impressão de que é livre, de que é um indivíduo, enquanto o que está acontecendo atrás da tela é que esse indivíduo está sendo desagregado e reagregado com fragmentos de outros usuários em grandes multidões digitais. Ele não tem liberdade — ao contrário, está tendo seu comportamento indiretamente controlado, no sentido cibernético, pelos algoritmos. E esse social de multidão é o social de crise. Quem está imerso nesses ambientes está se colocando num modo crise — e a extrema-direita é a força política que mais combina com esse tipo de ambiente. Sem crise eles não são nada. Se você tirar a crise, a atmosfera de ameaça de que o Brasil vai acabar, eles não têm nada. Por isso não têm programa político: são uma força política na e da crise e da exceção. Daí esse paradoxo de como uma tecnopolítica de crise, de exceção e de guerra se rotiniza como um governo — que foi exatamente o paradoxo do governo Bolsonaro. E ainda teve a pandemia, que adicionou uma camada enorme de crise a isso. Ciberneticamente, faz muito sentido esse vai e vem — os ciclos de feedback positivo e negativo. O feedback positivo é o que acelera o viés que você já está; o negativo coloca um freio. Bolsonaro, enquanto governante, não podia ficar só no runaway, só no feedback positivo, porque o feedback positivo sozinho eventualmente leva a um colapso — tanto nos organismos vivos como nas máquinas. O que ele e o Trump fazem é colocar estrategicamente esses freios, esses recuos: avanço e recuo, feedback positivo e negativo. Tentei mostrar no artigo como isso se deu durante o governo e como esse processo perde o controle na eleição de 2022, redundando eventualmente no 8 de janeiro. O governo Bolsonaro não construiu nada — estava destruindo coisas, que é o que a extrema-direita faz — mas dosando até onde poderia ir na relação com os outros agentes: o Congresso Nacional, o público. E o público passou a ser medido através das redes sociais — pelas métricas das mídias digitais — e cada vez mais por pesquisas de opinião, que são outra forma de feedback que coteja com as mídias sociais. Bolsonaro foi assim sentindo, de forma propriamente recursiva, lidando com um ambiente de causalidades circulares, crises, etc. A linearidade só é possível em contextos de estabilidade e paz — e é exatamente o que o Trump está fazendo hoje. Agora, uma virada acontece, e aí é muito importante a questão do método. Esse artigo é baseado em pesquisa de métodos mistos, onde a abordagem qualitativa antropológica foi composta com uma abordagem computacional de grandes quantidades de dados, com os meus parceiros da Universidade da Bahia, do LabHD, onde fazíamos o mapeamento em tempo real dos públicos do Telegram. Foi muito interessante ver como, em meados de 2021, o comportamento desse ecossistema transindividual — que chamamos de públicos refratados, os públicos da extrema-direita — mudou. O comportamento pandêmico, ativado pela pandemia, e inclusive as teorias da conspiração começaram a diminuir. Isso foi bem na época da questão do voto impresso. Quando o voto impresso é enterrado, um conspiracionismo eleitoral começa a subir e se estabilizar. Por quê? As condenações do Lula tinham sido definitivamente canceladas, e eles, na mentalidade de guerra deles, já previam: “Está vindo um golpe que vai impedir o Bolsonaro de ganhar as eleições de 2022.” Isso mais de um ano antes da eleição. Já entraram no modo de contra-golpe. Que é outra característica desse social de crise — o que Brian Massumi, também batesoniano, chama de preempção: você passa a agir antecipando a ação do seu inimigo. É muito como a lógica da Guerra Fria entre os dois blocos. Por isso a extrema-direita está sempre reagindo — isso é uma característica muito consistente, inclusive dos ecossistemas misóginos, que estão sempre reagindo à suposta provocação ou traição da mulher. O bolsonarismo entrou nesse modo preemptivo, com a certeza de que haveria um golpe contra ele. Na cabeça deles, dessa grande mente transindividual controlada pelo Bolsonaro, o golpe deles era um contra-golpe: seria dado um golpe no Bolsonaro, e o que estavam fazendo seria a resposta. Quando você vê tudo o que fizeram ao longo desse tempo com esse olhar, tudo faz sentido — e o Bolsonaro, como depois ficou demonstrado, de fato estava tentando articular esse contra-golpe. Nas eleições de 2022, estavam nessa dinâmica de avanço e recuo, não deixando o sistema escalar demais, a temperatura subir demais, enquanto conspiravam. Quando ele finalmente desiste, vê que não ganhou a eleição — isso se arrasta por algumas semanas —, e quando realmente percebem que os comandantes das três forças não vão entrar, que o golpe não vai acontecer, Bolsonaro fica em silêncio. Ciberneticamente, isso foi muito importante, porque era ele que fazia a regulação cibernética entre a camada moderada e a camada radicalizada. Ele não deixava as coisas escalar. Era um agente de radicalização, mas também de moderação. Quando ele se retira, a coisa escala — e foi justamente o 8 de janeiro. Olha que interessante: quando aquela multidão invadiu o Congresso, o que aconteceu? Ficaram esperando para ver o que ia acontecer, porque confiavam no plano — só que o plano já tinha dado errado e eles não sabiam disso. Tem esse componente de um mundo de fantasia criado dentro das comunidades radicalizadas — o Bateson ajuda a entender isso, porque ele tem uma teoria cibernética da fantasia e do jogo. Foi aquele choque de realidade. Não houve mais regulação, não houve mais feedback negativo, a coisa escalou, a temperatura subiu — e é onde o artigo termina, fazendo essa releitura cibernética e ecológica dos eventos do segundo governo Bolsonaro e das eleições de 2022. David Magalhães: Ótimo, Letícia. Encaminhando para o fechamento: no finzinho do artigo você faz uma ressalva que achei bastante importante, ao apontar que a ecologia da mente é extremamente poderosa para entender essas dinâmicas sistêmicas mais amplas, mas que também tem limites — especialmente quando tentamos compreender a totalidade da vida cotidiana do sujeito. É justamente aí que você coloca a necessidade de retornar à etnografia tradicional, à etnografia offline. Queria te ouvir sobre esse desafio metodológico. Como a antropologia pode costurar essas duas pontes — de um lado, a visão de um sistema cibernético amplo no qual os indivíduos parecem agir quase como parte de um circuito, de maneira relativamente previsível; de outro, as trajetórias de vida, as experiências subjetivas, as dores concretas que não desaparecem. Como não reduzir essas pessoas a meros nós de rede? Letícia Cesarino: Ótima pergunta, porque é realmente um desafio metodológico. No caso da ecologia da mente, você nunca pode fechar só no indivíduo. Mas é possível — e é o que estou fazendo no livro novo — pensar como o indivíduo enquanto sistema, porque todo organismo individual é um sistema cibernético, com outras camadas além dele, mas ele próprio é uma camada de individuação bastante importante. Ele pode estar dividido entre dois territórios existenciais — e é um pouco como estou tentando trabalhar a questão da radicalização no livro novo. O online oferece um tipo de território existencial onde a persona online do sujeito está com interações específicas. É isso que gera o elemento de fantasia nas comunidades extremistas: no online é possível cultivar uma realidade e um tipo de estereotipação do inimigo, toda a questão da desinformação, que não é possível fazer no offline. Por isso o que aconteceu depois da invasão ao Congresso e ao STF: a realidade bateu. Eles achavam que a realidade era o que era cultivado na mente transindividual do online — e isso não bateu com o que estava acontecendo offline. Com a internet, não é mais preciso se deslocar fisicamente para se radicalizar. Você pode viver sua vida normalmente e, em parte do seu circuito, se radicalizar só no online. São muito esses casos que abordarei no próximo livro: adolescentes e jovens que estão no quarto jogando videogame, vivendo normalmente na escola, e estão fazendo coisas indescritíveis na internet — que você só vai descobrir quando a polícia bater na porta. Etnografar a radicalização é muito difícil, porque é um processo — você precisa acompanhar a pessoa desde o início, quando não estava radicalizada. É praticamente impossível, a não ser que alguém muito próximo passe por isso. Mas existem autorrelatos. Tenho trabalhado muito com o caso dos neonazistas, onde já há na Europa e nos Estados Unidos um repertório grande de testemunhos e autobiografias de pessoas que saíram dessas comunidades extremistas. No jihadismo também há bastante material; os manifestos de atiradores em escolas, por exemplo, muitas vezes trazem essa visão subjetiva da radicalização. Há um outro ponto que descobri e que não estava na pesquisa anterior: o que alguns estudos de radicalização chamam de reduplicação. Isso vem de um estudo histórico de Robert Lifton sobre médicos nazistas — como eles dividiam a personalidade. Quando estavam em Auschwitz, eram um tipo de pessoa; quando estavam em casa, com a família, eram completamente diferentes. Era uma reduplicação da personalidade em duas, como forma de resolver dissonâncias e contradições. O médico conseguia desumanizar as pessoas que selecionava para morrer em Auschwitz, enquanto em casa humanizava os seus. Algo assim parece acontecer também no nível da mente individual através da lacuna online–offline: as pessoas inconscientemente encontram formas de dividir a sua mente entre esses dois mundos, de forma que não precisem romper com familiares, amigos ou colegas de trabalho por razões políticas. Esse efeito da lacuna online–offline deve ser estudado — não é só uma questão metodológica, é a questão de qual é o efeito dessa própria separação, que é inédita: são as primeiras tecnologias que possibilitam essa divisão em ambientes existenciais separados, ainda que em relação recursiva. Isso pode ser um indutor de radicalização. Sabe aquele meme dos cachorros latindo no portão? Quando o portão abre, cada um vai para um lado. O humano tem um pouco disso: fica mais agressivo, fala coisas e faz coisas quando não está cara a cara com a pessoa — coisas que não faria no presencial. Isso é muito característico da extrema-direita: estão latindo, agressivos, no comportamento de ameaça, e quando a Polícia Federal bate na porta, revertem ao comportamento de autopiedade e vitimização — que é o que o Bolsonaro está fazendo agora na cadeia. Bateson trabalha isso muito bem, não só no humano, mas em outros mamíferos. A ecologia da mente, pegando inclusive insights de outros mamíferos — como o Bateson faz —, nos ajudaria a reincorporar o elemento biológico-evolutivo nas nossas explicações. E aqui chego a um ponto que acho muito importante: a extrema-direita tem todo um repertório do darwinismo social e da psicologia evolutiva para dizer que a forma como ela vê o humano é a forma real, a forma biológica, a forma natural. São leituras completamente erradas e enviesadas, mas para o senso comum são muito intuitivas. A questão de gênero, por exemplo: a ideia de que o homem é para um papel e a mulher para outro não tem apoio em estudos sérios de outras espécies ou da nossa. A antropologia, porém, abandonou esse campo — tornou-se etnografia, estudo da cultura, abandonou a natureza e a biologia, por razões relacionadas à história e à política interna da disciplina. Um dos meus objetivos é recuperar esse espaço de autoridade científica para falar do humano, do que é natural no humano, a partir de abordagens como a do Bateson — que é uma teoria da evolução que inclui a cultura — para competir também nesse campo da naturalização do comportamento humano. Eu diria que é talvez o campo mais persuasivo dos discursos da extrema-direita, porque a esquerda e as ciências sociais ficam só na desconstrução e no culturalismo, enquanto eles estão falando daquilo que é espontâneo, natural, atemporal. É assim que o fascismo mira, e precisamos competir nessa ordem de discurso, reivindicando uma abordagem científica mais universalista — um outro tipo de universalismo, não o positivista. A ecologia da mente é uma das principais vias que vejo para isso. No contexto desse artigo, foi também um subtexto: o artigo foi parte de um dossiê financiado pela Fundação Wenner-Gren, a maior fundação de antropologia dos Estados Unidos, e queria passar essa mensagem para os meus colegas antropólogos — a gente pode falar de universais humanos de uma forma mais refinada e rica, e competir com a extrema-direita nesse campo de discurso. Guilherme Casarões: Letícia Cesarino — incrível, tanto no pessoal quanto no profissional. E agora descobrimos, o que não deveria ser exatamente uma surpresa, que você é especialista em memes. Foi de longe uma das conversas mais eruditas que tivemos aqui, não só na colaboração com o OED, mas de todas as entrevistas que já fiz. Uma densidade impressionante, transmitida de forma didática. Tenho certeza de que os nossos ouvintes vão adorar esse papo. Quem está acompanhando, fiquem por aí — ainda temos a segunda parte da conversa, com o boletim de notícias e a dica cultural. Boletim — Giro de Notícias David Magalhães: Vamos ao nosso boletim com duas notícias envolvendo a ultradireita. França No próximo ano teremos eleições nacionais na França, que serão importantíssimas tanto para a Europa quanto para o futuro da direita radical no mundo. No dia 22 de março, domingo, ocorreu o segundo turno das eleições municipais francesas, que costuma ser um termômetro importante para medir o crescimento e a capilaridade da direita radical francesa, representada aqui pelo Rassemblement National. O resultado dessas eleições foi bastante ambíguo. O Rassemblement National, partido de Marine Le Pen e da estrela em ascensão Jordan Bardella, não conseguiu vencer em grandes cidades estratégicas — como Marselha e Toulon —, onde havia uma expectativa de vitória da direita radical. Por outro lado, o partido avançou de forma importante em outro nível: consolidou uma presença territorial, especialmente no sudeste e no nordeste do país, conquistando dezenas de prefeituras e ampliando de maneira bastante significativa sua base local. Hoje, de acordo com matéria do Le Monde de 23 de março, o Rassemblement National passa a governar aproximadamente 70 municípios e conta com cerca de 3 mil representantes locais — uma quantidade bastante considerável. Outro ponto central é um certo teto de vidro que tem impedido a vitória do RN em grandes cidades. Esses centros urbanos mais ricos, mais jovens e com maior nível educacional têm sido um desafio para a expansão da direita radical. Por outro lado, há um crescimento muito forte em áreas periféricas, regiões pós-industriais e comunas menores, geralmente marcadas por uma sensação de abandono e por um acúmulo de ressentimento — o que alguns autores chamam de left behinds, os que foram deixados para trás —, sentimento que a direita radical populista costuma explorar. Quero destacar ainda um fator que pode ser preocupante olhando para as eleições nacionais de 2027: não houve, ou houve em pouquíssimas cidades, a chamada frente republicana — também chamada de cordão sanitário. O cordão sanitário é o conjunto de alianças tradicionais de partidos com compromissos democráticos para barrar a direita radical no segundo turno das eleições. A quase inexistência desse cordão fez com que o RN conquistasse cidades onde, em eleições anteriores, havia sido bloqueado. No final das contas, essas eleições não deram o resultado que o RN esperava — um grande impulso nacional —, mas consolidaram uma base territorial sólida. Isso coloca uma questão relevante olhando para 2027: seria esse enraizamento local suficiente para sustentar uma vitória nas eleições presidenciais? Seguiremos acompanhando o caso da França. Hungria Passamos para a Hungria — continuamos falando de eleições, já que os húngaros vão às urnas em abril para decidir se encerram os 15 anos de governo de Viktor Orbán. No domingo, 15 de março, os dois principais atores políticos do país — Viktor Orbán, do Partido Fidesz, e o oposicionista Peter Magyar, do partido Tisza — realizaram grandes manifestações em Budapeste no Dia Nacional Húngaro. Mais do que uma comemoração histórica, os eventos funcionaram como um teste de força às vésperas das eleições de abril. Os dois lados reivindicaram vitória em termos de mobilização — como já vimos aqui no Brasil. O governo afirmou que foi uma das maiores marchas já realizadas no país, enquanto a oposição chegou a afirmar que reuniu meio milhão de pessoas. Ainda que sejam números exagerados, as estimativas independentes indicam que o Tisza, de Magyar, levou mais gente às ruas do que o Fidesz de Orbán, o que sinalizaria um possível avanço da oposição no campo urbano. Essas manifestações têm algo interessante: acontecem dentro de um calendário nacional, e foi possível observar uma disputa não só eleitoral, mas simbólica. Ambos os lados tentavam se apropriar da memória da Revolução de 1848. Orbán engendrou uma narrativa que associa o passado à luta contra o domínio estrangeiro, ao globalismo, à ingerência da União Europeia e à ameaça da guerra na Ucrânia. A oposição liderada por Peter Magyar utiliza os mesmos símbolos nacionais, mas com outros significados: para eles, a defesa da liberdade hoje se traduz em manter a Hungria dentro da União Europeia e vinculada à OTAN, além de restaurar o funcionamento das instituições democráticas do Estado húngaro — bastante prejudicadas nos anos de Orbán. As pesquisas de intenção de voto desde julho do ano passado mostram um quadro relativamente estável, com uma diferença de aproximadamente 10% em favor da oposição. É preciso ter cautela com essas pesquisas, no entanto, porque em 2011 Orbán fez uma importante reforma eleitoral que dá mais peso aos distritos rurais, geralmente mais conservadores. Além disso, ele concedeu cidadania a húngaros que vivem na Eslováquia, na Romênia e na Sérvia, uma população que tende a votar no governo. E há também uma mobilização ideológica mais incandescente da direita radical húngara, que pode fazer diferença nas urnas. Fato é que nenhum dos lados parece acreditar numa vitória esmagadora. Já se discute a possibilidade de alianças — o partido Jobbik, na Hungria, pode ser crucial para a formação de uma maioria no parlamento. No nosso episódio de abril, iremos repercutir o resultado dessa eleição. Dica Cultural David Magalhães: A nossa recomendação cultural deste episódio tem tudo a ver com a conversa que tivemos no primeiro bloco com a Letícia Cesarino. Se você se interessou pelo debate sobre internet, cultura digital, extrema-direita e disputa de narrativas, vale muito a pena assistir o documentário Feels Good Man, disponível na Amazon Prime. O documentário é de 2020, mas chegou recentemente a essa plataforma. O filme conta a história do Pepe the Frog, personagem criado pelo cartunista Matt Furie nos anos 2000. Originalmente era um sapo tranquilo, good vibes, que circulava numa tirinha independente. Com o tempo, porém, esse personagem foi sendo apropriado na internet — primeiro como meme, depois ganhando formas cada vez mais distorcidas, até virar um símbolo associado ao alt-right e a outros grupos de extrema-direita. O documentário é bastante interessante porque não trata isso como uma mera curiosidade da internet. Ele mostra como esse processo revela algo mais profundo: como essas comunidades online — fóruns, antigamente o 4chan, hoje um ecossistema bem mais complexo — funcionam como verdadeiros laboratórios de produção cultural e política, com uma lógica quase darwiniana de disputa por atenção, em que os conteúdos mais chocantes e extremos ganham mais visibilidade, com toda uma engenharia algorítmica por trás. O filme também acompanha o próprio criador do Pepe, que se vê completamente impotente diante da transformação da sua obra. E esse é um ponto central: na era da internet, a circulação de imagens e memes escapa completamente ao controle original — pode ser capturada e ressignificada por distintos atores políticos. O documentário tem um aspecto que dialoga diretamente com o que conversamos com a Letícia Cesarino: esses grupos utilizam o humor, a ironia, a ambiguidade e as trollagens para disseminar ideias racistas, misóginas e xenófobas, muitas vezes sob a aparência de brincadeira. Isso cria uma zona cinzenta que dificulta a crítica e, ao mesmo tempo, aumenta o alcance dessas mensagens de ódio. Feels Good Man nos ajuda a entender essa cultura digital e como ela se relaciona com a extrema-direita — e dialoga perfeitamente com os temas que trouxemos na entrevista do primeiro bloco. Até a próxima. The post Ecologia da mente e extrema-direita appeared first on Chutando a Escada.

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#413 – IA, guerra, medicina e cybersecurity

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Play Episode Listen Later Mar 24, 2026 59:29


Neste episódio comentamos sobre as principais atualizações e desafios no mercado de tecnologia, trazendo uma análise objetiva sobre cibersegurança e proteção de dados. Ao longo da reprodução, você irá descobrir os recentes desdobramentos éticos do uso de inteligência artificial em contextos militares, envolvendo a recusa da Anthropic em aderir aos termos do Departamento de Defesa norte-americano e os impactos disso para a privacidade global. Você também irá aprender sobre o novo marco regulatório do Conselho Federal de Medicina para ferramentas automatizadas na área da saúde, compreendendo como as exigências da LGPD se aplicam à segurança da informação na proteção de dados médicos sensíveis. Além disso, você entenderá os detalhes do recente ataque hacker que causou graves incidentes de segurança no setor financeiro, e saberá identificar as vulnerabilidades críticas na integração de modelos de linguagem via protocolo MCP, como a perigosa injeção de prompts em servidores expostos. O host Guilherme Goulart compartilha ainda sua vivência no evento SecOps Summit, refletindo sobre a importância dos profissionais de segurança na governança corporativa. Por fim, você poderá avaliar como o uso excessivo do ChatGPT pode afetar a criatividade e gerar a homogeneização do pensamento. Para continuar acompanhando nossas discussões, não se esqueça de assinar o podcast na sua plataforma preferida, seguir nossos perfis nas redes sociais e avaliar o programa para apoiar o nosso trabalho. Esta descrição foi realizada a partir do áudio do podcast com o uso de IA, com revisão humana.     Visite nossa campanha de financiamento coletivo e nos apoie!  Conheça o Blog da BrownPipe Consultoria e se inscreva no nosso mailing Acesse WhisperSafe – Transcreva áudio e grave reuniões direto no seu computador, mesmo offline. Rápido, leve e pronto para usar com qualquer IA. Use o cupom SEGLEG50 para 50% de desconto na sua assinatura. ShowNotes Episódio citado – 2013-06-18 – Episódio #28 – PRISM – Privacidade X Segurança The Pentagon formally labels Anthropic a supply-chain risk Anthropic's Claude is suddenly the most popular iPhone app following Pentagon feud Anthropic vs. U.S. Department of War The Pentagon Can't Afford This A.I. Fight Statement from Dario Amodei on our discussions with the Department of War Employees across OpenAI and Google support Anthropic's lawsuit against the Pentagon AI safety leader says ‘world is in peril’ and quits to study poetry Microsoft & Anthropic MCP Servers at Risk of RCE, Cloud Takeovers AI Conundrum: Why MCP Security Can’t Be Patched Away MCP is the backdoor your zero-trust architecture forgot to close Ministério da Educação – REFERENCIAL PARA DESENVOLVIMENTO E USO RESPONSÁVEIS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA EDUCAÇÃO Nova resolução de uso de IA na CFM Artigo “When ChatGPT is Gone: Creativity Reverts and Homogeneity Persists“ BTG Pactual restabelece operações via Pix após ser alvo de ataque hacker BTG Pactual sofre ataque hacker e suspende operações via Pix PF investiga participação de funcionários no ataque hacker de R$ 100 milhões ao BTG Pactual Imagem do Episódio: A Torre de Babel — Pieter Bruegel