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Quem trava os excessos do regime na Guiné-Bissau? O Radar DW analisa os riscos para o país e possíveis soluções.
A actualidade luso-africana ficou marcada, esta semana, pelo fim da campanha eleitoral em São Tomé e Príncipe, com declarações dos quatro candidatos à magistratura suprema. A prisão preventiva de Domingos Simões Pereira na Guiné-Bissau gerou reacções a nível internacional e a defesa do líder do PAIGC conta agora com um advogado senegalês radicado em Dacar. Em Cabo-Verde, o primeiro-ministro foi acusado de vários crimes pelo Ministério Público, juntamente com três vereadores da Cidade da Praia, incluindo corrupção passiva, falsificação de documentos públicos e burla qualificada. Em São Tomé e Príncipe, mais de 142 mil eleitores são chamados às urnas, este domingo 19 de Julho. A RFI deu voz aos quatro candidatos à magistratura suprema. O Presidente cessante, Carlos Vila Nova, descarta advogar no seu programa a mudança do regime constitucional do arquipélago. O deputado e candidato Nito Abreu pronunciou-se sobre o sistema semi-presidencialista em vigor no arquipélago, que não considera ser um problema. O advogado Miques João alega não estar animado por um espírito de vingança, apesar de ter sido detido e de ter estado ligado à defesa do único civil condenado na sequência do caso 25 de Novembro de 2022 e o ataque ao Quartel general. Por fim o jurista, Eugénio Tiny, sem apoios partidários, descarta qualquer nececessidade de se aumentar os poderes do Chefe de Estado. A fechar a campanha eleitoral, o analista político são-tomense Abílio Neto considera que estas eleições presidenciais vão influenciar as legislativas marcadas para o próximo mês de Setembro. "Vão influenciar muito porque todo o quadro político-partidário está fraccionado, está debilitado. Os partidos tradicionais estão todos eles a viver à base de conflictualidade intensa entre facções. Para mim, essa é que é a perspectiva interessante: tentar perceber se, na sociedade civil são-tomense, se a cidadania são-tomense está capaz de propor alternativas, muito mais do que olhar para o quadro tradicional dos partidos políticos, onde não se vê que venha nada de novo nem nada de especialmente interessante", analisou Abílio Neto. Relativamente à Guiné-Bissau, a equipa de defesa de Domingos Simões Pereira, em prisão preventiva desde 11 de Julho, fica agora reforçafa com o advogado senegalês Boukounta Diallo, residente em Dacar. Boukounta Dialo denuncia uma justiça selectiva em termos de golpes de estado e questiona: que legitimidade tem uma acusação de tentativa de golpe quando efectuada por militares golpistas? Em Paris, por ocasião de uma conferência organizada pela comunidade guineense, o presidente do PAIGC na diáspora, Francisco de Sousa Graça, apelou à acção da comunidade internacional, e apresentou os objectivos do "Livro Branco", documento que apresenta recomendações de sanções contra as autoridades golpistas de Bissau. De notar que a cimeira da Cedeao decorre este domingo em Freetown, na Sierra Leoa, um evento em que a situação da Guiné-Bissau deverá ser debatida. Quanto à revisão constitucional anunciada pelos militares e prevista para 30 de Agosto, um colectivo de 5 partidos políticos enviou na quarta-feira uma carta ao Presidente da transição, General Horta Inta-a, formulando uma série de exigências. Idrissa Djaló, é líder do PUN, Partido da Unidade nacional, que integra este colectivo, ele apela ao levantamento da proibição de reuniões afectando a liberdade de expressão. Em Cabo-Verde, o Ministério Público acusou o Primeiro-ministro Francisco Carvalho e três vereadores da Cidade da Praia de mais 107 de crimes, incluindo corrupção passiva, falsificação de documentos públicos, burla qualificada, abuso de poder e atentado contra o estado de Direito Democratico. Por sua vez, Francisco Carvalho caracterizou esta acusação do Ministério Público como uma tentativa de golpe de estado disfarçada de oposição.
A CPLP, Comunidade dos países de língua portuguesa, assinala hoje 30 anos de existência. Uma organização confrontada com múltiplo desafios e fragilizada pela suspensão da Guiné-Bissau na sequência do golpe de Estado de Novembro passado. O antigo Primeiro-Ministro angolano Marcolino Moco foi o primeiro secretário executivo da organização lusófona e fez um balanço à RFI destas três décadas de existência do bloco lusófono. Marcolino Moco começa por afirmar a sua grande decepção relativamente ao desempenho da CPLP. Eu tenho uma ideia de uma certa desilusão. Porque eu tinha a ideia inicial de que essa CPLP podia ser um impulsionador, sobretudo na área de reafirmação dos valores que constituíram o histórico dos países que constituem a CPLP: Portugal mais as suas ex-colónias, mais o Brasil. Portanto trabalhar em mais-valias que poderiam resultar deste histórico. Mas isso não tem sido possível, por várias razões, entre as quais eu costumo sublinhar especialmente o maior desperdício de energias para uma actividade meramente formal, diplomática ou formal entre os Estados. Portanto, aquela ideia de que, especialmente os países africanos poderiam adquirir vantagens, uma espécie de recomposição daqueles aspectos positivos que resultaram da nossa história, isso não se tem conseguido porque na relação entre Estados há muito formalismo. O problema do respeito das soberanias de cada um é tão forte que se desprezam as mais-valias que poderiam beneficiar às populações. Embora se fale muito até hoje dos males da colonização. Mas havia muitos aspectos positivos que poderiam ter sido recuperados e que não o foram. Pelo contrário, continuamos, especialmente nos países africanos, a perder valores éticos, sobretudo na área política, em que, por exemplo, as eleições são praticamente uma inutilidade. Talvez com a excepção de Cabo Verde, onde as eleições são um factor de estabilização, são factor de escrutínio da acção dos políticos governantes. Mas isso não acontece nos outros países, especialmente continentais africanos, com casos graves: em Angola, começou por Angola, que é o meu país, da Guiné-Bissau. São casos muito graves e também de Moçambique. A suspensão da Guiné-Bissau da CPLP, onde um ex-secretário executivo da CPLP está desde a semana passada em prisão preventiva, com os golpistas a assumirem o poder, não pode ser fatal à sobrevivência da organização? Talvez não seja fatal, porque vai-se continuar a trabalhar na base do formalismo e não na base de algo que seja útil para estabilizar politicamente todos os Estados. Possivelmente a Guiné-Bissau, Angola também, a situação não é, como muita gente pensa, boa, óptima. E também temos acompanhado aspectos negativos em Moçambique. Na sua opinião, a CPLP deve ser mais exigente na defesa da democracia e dos direitos humanos nos Estados-Membros? Ora, nem mais. Em relação a esse aspecto, a CPLP não actua por causa do tal respeito à soberania e por causa da defesa de interesses de algumas pessoas, tudo agentes do Estado. Veja que, pelo contrário, foi associado um país muito pior em termos de respeito dos direitos humanos, da democracia, da preocupação dos dirigentes do seu Estado, em relação ao bem-estar social das suas populações. Estou-me a referir à Guiné Equatorial, por exemplo, que por nenhuma razão que se invocasse deveria fazer parte da CPLP, tanto pelo respeito aos direitos humanos como por outros aspectos do regime. Este Estado foi atraído pela CPLP, indiciando que o tal ideal da democracia, o ideal ético, de uma política ética não tem grande significado perante perante nós, elites políticas. Eu também faço parte das elites políticas, dos nossos Estados. E veja este caso da Guiné-Bissau. Um dirigente que até também foi secretário da CPLP, detido arbitrariamente de forma vergonhosa e tanto quanto eu saiba, a CPLP está impotente para actuar. A expulsão é uma coisa que não não tem grande relevância. Mas eu pensaria que haveria atitudes anteriores. Essas situações deviam ser promovidas para darmos maior utilidade à nossa organização. Daqui a 30 anos, o que eu gostaria que se dissesse da CPLP? Eu sou professor ainda e às vezes digo muita coisa que é politicamente incorrecta. Devemos começar primeiro por reconhecer que as nossas independências foram muito mal conduzidas. Não houve reflexão. Foram rejeitadas ideias de Constituição de transições mais úteis. Eu não estou a preconizar um regresso ao passado, uma recolonização, mas pelo menos uma capacidade de olhar para o presente, fazermos uma retrospectiva correctiva do que aconteceu e não permitirmos efectivamente muitas coisas que estão a acontecer hoje nesses países, que tiveram o seu surgimento graças à presença de Portugal aqui em África. Independentemente dos aspectos negativos que possam ter acontecido. Tenho para os amigos muito próximos dito que podíamos ter independência, mas sem descolonizar. Acho que isso é politicamente incorrecto, sobretudo para quem não reflectiu, como eu tenho reflectido. Mas nós temos exemplos positivos de uma prática desse tipo. Onde houve independência sem descolonização. Portanto, as instituições estão preservadas. Quando se fala em descolonização, normalmente pensa-se que é afastar o branco da administração e deixá-lo sair, se for possível. Mas nos nossos Estados, onde se realizou uma descolonização precipitada, onde constituímos essas pátrias com pessoas de todas as proveniências e depois 74-75, montámos um esquema mental completamente errado. Aquele êxodo que houve aqui nos nossos países. É talvez por isso que justamente Cabo Verde é um exemplo onde não houve êxodo, com uma parte da população retendo as elites com conhecimento, etc. Hoje vão, digamos, se estabilizando melhor. E aqui onde houve o êxodo da população branca em grande quantidade, estávamos pobres em tudo, a partir da própria moralidade, da própria ética, passando pelas prioridades que são traçadas por pessoas mal preparadas. Eu também me incluo nesse aspecto, porque também ocupei funções. De modos que é isso que eu lamento que a CPLP, 30 anos depois, não possa ter contribuído para, digamos, remediar esses problemas. Era Marcolino Moco, primeiro secretário executivo da CPLP, no dia em que a organização assinala três décadas de existência.
Guiné-Bissau congela relações diplomáticas com Cabo Verde. Rússia disponível para ajudar Moçambique no combate ao terrorismo em Cabo Delgado. Até onde pode ir o apoio militar russo a Moçambique? Ativistas e defensores dos direitos humanos denunciam ameaças exercício da cidadania em Moçambique. E quem os projete?
Jovem de Guiné-Bissau afirmou que comércio e cooperação cultural também devem ser prioridades dentro do bloco lusófono; ela sugeriu ações para garantir equivalência de graus acadêmicos, expandir bolsas de estudo e criar plataformas digitais que integrem cidadãos dos diferentes países membros.
Sejam bem-vindos ao magazine Semana em África, a rúbrica onde recapitulamos os principais acontecimentos da semana no continente africano. Esta semana fica marcada por uma nova reviravolta na Guiné-Bissau com o principal líder da oposição, Domingos Simões Pereira, a ter sido colocado em prisão preventiva, esta sexta-feira. Simões Pereira vai cumprir uma ordem decretada por um Juiz de Instrução Criminal, no âmbito de uma investigação sobre a sua alegada participação num golpe de Estado que teria ocorrido em outubro de 2025. A defesa diz tratar-se de uma "cabala política". De acordo com os advogados de defesa e fontes familiares, Simões Pereira foi conduzido por volta das 10 horas, hora de Bissau, para as instalações da Segunda Esquadra, onde vai cumprir a prisão preventiva. A medida teria sido decretada na quinta-feira, pelo Juiz de Instrução Criminal, Mamadu Embalo, dando deferimento a um pedido nesse sentido que tinha sido formulado pela Promotoria da Justiça Militar. O opositor Fernando Dias da Costa, que reclama ter vencido as eleições presidenciais de Novembro passado, entretanto interrompidas pelo golpe de Estado militar, denunciou o que considera ser uma perseguição política a Simões Pereira. Dias da Costa afirma que Pereira é vítima de perseguição unicamente por ter apoiado a sua candidatura às eleições de Novembro. Entretanto, os advogados de defesa do líder do PAIGC e presidente eleito do parlamento guineense, não compareceram ao Tribunal Militar, onde Simões Pereira, está a ser investigado, por considerarem que o seu processo ganhou contornos políticos e não judiciais. Portanto, dizem, não valia a pena ir ao Tribunal, instância da qual não receberam nenhuma notificação. Seja como for, é facto que Domingos Simões Pereira está detido na Segunda Esquadra, onde já esteve de 26 Novembro de 2025 a 31 Janeiro deste ano. Desde essa altura, Pereira encontrava-se em prisão domiciliária, sob forte vigilância policial. Após ser ouvido pelo Tribunal Militar na quarta-feira, o responsável político tinha sido notificado ontem à noite para tornar a comparecer perante a justiça nesta sexta-feira. Uma situação perante a qual as eurodeputadas portuguesas Catarina Martins e Marta Temido, bem como a diplomata Ana Gomes, manifestaram o seu repúdio denunciando o que qualificaram de inacção da comunidade internacional. Guiné-Bissau: referendo a 30 de Agosto sobre nova Constituição Ainda na Guiné-Bissau, os cidadãos serão chamados no próximo dia 30 de Agosto a pronunciar-se sobre a nova Constituição do país. A sociedade civil insurge-se contra esta iniciativa, que apelida de "teatro". Cada guineense com capacidade eleitoral activa vai dizer “sim” ou “não” como resposta. A consulta popular será feita por sufrágio universal, directo, secreto e pessoal, sobre a entrada em vigor da nova Constituição da República aprovada pelo Conselho Nacional de Transição. O decreto presidencial, assinado por Horta Inta-a esclarece que “o Supremo Tribunal de Justiça emitiu parecer favorável” à realização do referendo. A questão que se coloca é saber o que diz a própria Constituição já que a maioria dos guineenses desconhece as novas formulações que constam do texto revisto pelo Conselho Nacional de Transição, órgão que exerce as competências do parlamento guineense. Os militares tomaram o poder a 26 de novembro de 2025, num golpe de Estado e uma das primeiras acções foi a alteração da Constituição da República da Guiné-Bissau que passa a dar mais poderes ao Presidente da República. A oposição e as organizações da sociedade civil têm criticado todo o processo que conduziu à alteração da Constituição que dizem foi feita por via da força. Seja como for, no próximo dia 30 de agosto, os guineenses serão chamados a dizer se concordam ou não com a nova Constituição da República. Armando Lona, coordenador da Frente popular, representando a sociedade civil, denuncia um "teatro". "Não passa de uma aberração crónica, uma fuga para a frente por parte de um grupo que, todos nós sabemos que assaltou as instituições, que instalou uma ditadura sanguinária na Guiné-Bissau nos seis últimos anos. Apesar da derrota que sofreu nas eleições de 23 de novembro de 2025, não se acomodou, não se convenceu. Continua a multiplicar encenações, golpes cerimoniais, teatros, como agora estamos a assistir com esse pseudo referendo que não passa de um autêntico teatro no circo. Porque um referendo constitucional, em qualquer parte do mundo, é um acto de soberania popular. Acontece dentro de um quadro histórico duma realidade histórica interpretada pelo povo sobre a necessidade ou não de proceder a um referendo. E quando acontece, acontece dentro dos parâmetros legais, devidamente legitimado pelo povo do país. Na Guiné-Bissau temos leis que indicam claramente como é que se deve proceder perante um referendo popular. Qualquer revisão constitucional tem que decorrer dentro desses parâmetros legais. Portanto, o que está a acontecer nesse momento é um autêntico teatro de um bando que capturou as instituições da Guiné-Bissau, que tenta a todo o custo salvaguardar o regime que já está desmoronado. Um regime que está completamente à deriva, portanto. E tudo isso não passa de um teatro"." Neste contexto, acha que, porventura, muitos guineenses já tomaram conhecimento das alterações que a transição preconiza? Acha que as pessoas estão esclarecidas sobre o que vai ser o objecto deste referendo? Os guineenses não avaliam essas mudanças oportunísticas, essas mudanças ilegais. O que os guineenses avaliam é a tentativa da sua confiscação, da vontade exprimida nas urnas. O povo da Guiné-Bissau escolheu um presidente no dia 23 de Novembro de 2025 e aconteceu um falso golpe para poder impedir que este presidente assumisse as funções presidenciais. Tudo o que nós estamos a assistir até agora faz parte desse projecto de confiscação da vontade popular. E o povo da Guiné-Bissau não reconhece esse grupo, esse bando. O povo da Guiné-Bissau está determinado a lutar para fazer valer a vontade expressa soberanamente nas urnas. Moçambique: Igreja quer esclarecimentos sobre assassinato de bispo de Quelimane A igreja católica, realça o presidente da conferência episcopal de Moçambique, Dom Inácio Saúre, está preocupada e busca respostas para o que aconteceu na madrugada dia 06 de Junho na residência pastoral na cidade de Quelimane onde sabe-se apenas que Dom Osório Citora foi morto a tiro. "Ficando apenas o que foi dito publicamente pela imprensa de que o bispo foi morto a tiro, por uma arma de fogo sem nenhuma referencia as possíveis respostas para as perguntas cruciais tais como: quem matou exactamente Dom Osório, quem foi o mandante e quais seriam as motivações do assassinato". A Conferência Episcopal de Moçambique pede, diz o arcebispo de Maputo Dom Carlos Nunes, que seja levado a cabo uma nova linha de investigação ao assassinato do bispo de Quelimane. "Ali não é fábrica de armas. Veio de algum sítio, alguém trouxe essa arma. Então que se abra mais o campo porque o modo como agora está sendo orientado parece que é uma coisa de casa, caseira. A igreja tem problemas então é vitima dos seus próprios problemas". A preocupação dos bispos católicos foi manifestada em conferência de imprensa na capital moçambicana. Os arcebispos de Nampula, Dom Inácio Saúre, de Maputo, Dom João Carlos, e o emérito da Beira, Dom Claúdio Dalla Zuanna, mantiveram encontros no dia 04 deste mês de Julho, em Roma, com o Papa Leão XIV e com o Cardeal Pietro Parolin - Secretário de Estado do Vaticano onde onde foi condenado o baleamento do bispo da diocese de Quelimane, Dom Osório Citora. Entretanto, cerca de 1.400 moçambicanos foram repatriados pelas autoridades nacionais após a violência xenófoba na África do Sul. O anúncio foi feito pelo Governo que garante estar a acompanhar a situação e a criar condições para o enquadramento profissional destes cidadãos. O porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, revelou, esta semana, os números de moçambicanos regressados da África do Sul. Em São Tomé e Príncipe, a missão de observação às eleições presidenciais em São Tomé e Príncipe deverá chegar ao país entre dia 14 e 15 de Julho e deverá ser liderada pelo antigo ministro angolano, João Bernardo Miranda. Estas precisões foram feitas por Maria de Fátima Jardim, secretária-executiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O Tribunal Constitucional são-tomense admitiu cinco candidatos às presidenciais de 19 de julho, nomeadamente Eugénio Rodrigues da Trindade Tiny, Nito de Sousa Viegas D'Abreu, Miques João do Nascimento de Jesus Bonfim, Carlos Manuel Vila Nova, que é recandidato ao cargo, e Jorge Bom Jesus, que anunciou a sua desistência já fora do prazo legal. É o ponto final deste magazine Semana em África. Nós, já sabe, estamos de volta na próxima semana. Até lá, fique bem.
Os direitos humanos estão consagrados na lei, mas continuam fora do alcance de grande parte da população da Guiné-Bissau. O novo relatório Observando os Direitos na Guiné-Bissau revela um país marcado por profundas desigualdades no acesso à água, saúde, educação, justiça, energia e habitação. Para o presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, Bubacar Turé, a ausência do Estado está a empurrar a população para o limite da sobrevivência. Na Guiné-Bissau, os direitos humanos continuam, muitas vezes, a existir apenas no papel. Embora a Constituição e a legislação reconheçam um vasto conjunto de direitos económicos, sociais, culturais e cívicos, a realidade diária de milhares de famílias continua marcada pela falta de acesso aos serviços mais básicos. É esta a principal conclusão do relatório Observando os Direitos na Guiné-Bissau, elaborado pelo Observatório dos Direitos Humanos a partir de um inquérito realizado em todo o país junto de 632 famílias, escolas, centros de saúde, estabelecimentos prisionais e outras instituições. O estudo conclui que a pobreza, a fragilidade das instituições públicas e as desigualdades territoriais continuam a impedir que uma parte significativa da população exerça direitos que já lhe são reconhecidos por lei. "O relatório mostra que tem havido uma proclamação formal dos direitos humanos ao nível constitucional e legal, mas, do ponto de vista prático, há uma grande distância e os cidadãos têm um acesso deficiente aos serviços sociais básicos", resume Bubacar Turé, presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos. Para o responsável, o documento pretende também "interpelar as autoridades nacionais sobre a necessidade de inverter esse rumo". Água imprópria, hospitais degradados O acesso à água potável surge como um dos indicadores mais preocupantes. Bubacar Turé afirma que "mais de 50% da população não tem acesso à água potável" e depende de água retirada de poços que, "na sua esmagadora maioria, não têm condições higiénicas". Uma situação que, segundo o dirigente, está associada ao aumento de doenças de origem hídrica e da mortalidade materno-infantil. As dificuldades repetem-se no sector da saúde. Apesar dos progressos registados nas últimas décadas, o acesso aos cuidados continua condicionado pela escassez de profissionais, pelos custos suportados pelas famílias e pela distância aos centros de saúde. "Há regiões em que os cidadãos percorrem mais de 30 quilómetros para ter acesso aos primeiros cuidados médicos", refere Bubacar Turé, acrescentando que muitos estabelecimentos de saúde continuam a funcionar sem acesso regular à água potável ou à energia eléctrica. "São situações extremamente preocupantes." O nascimento continua a determinar oportunidades O relatório mostra, ainda, que o acesso aos direitos varia entre regiões. O Sector Autónomo de Bissau e Biombo apresentam os melhores indicadores, enquanto Gabú, Bafatá e Quinara continuam entre as zonas mais desfavorecidas. Para Bubacar Turé, não existem "cidadãos de primeira e de segunda", mas sim uma profunda falta de coesão territorial. "O Estado não consegue cumprir a sua função de proporcionar o bem-estar social", afirma. Segundo o dirigente, a concentração de investimentos públicos e de projectos das organizações não governamentais em determinadas regiões acaba por aprofundar as desigualdades existentes, quando deveria existir uma estratégia nacional que garantisse um desenvolvimento mais equilibrado. A resiliência já não é suficiente Apesar das dificuldades, o relatório destaca a capacidade de resistência das famílias e das comunidades, que continuam a criar mecanismos próprios de solidariedade para responder à ausência dos serviços públicos. Mas Bubacar Turé alerta para o risco de transformar essa capacidade de adaptação numa desculpa para a inacção do Estado. "O povo guineense tem travado uma luta titânica pela sua própria sobrevivência, mas essa resiliência tem limites. O povo está neste momento no limite dos seus esforços", afirma. Na sua perspectiva, esse desgaste já está a produzir consequências visíveis. "As pessoas entram em desespero", diz, apontando a crescente emigração de professores, médicos e outros quadros qualificados, que procuram melhores condições de vida no estrangeiro, agravando ainda mais a fragilidade dos serviços públicos. Questionado sobre as causas desta realidade, Bubacar Turé aponta directamente à instabilidade política crónica. "A classe política não tem correspondido às expectativas do povo", afirma. Apesar de a Guiné-Bissau realizar eleições consideradas livres e pacíficas, o dirigente lamenta que estas sejam frequentemente seguidas por "má governação, corrupção, instabilidade, golpes e violações sistemáticas dos direitos humanos". Na sua opinião, apenas uma governação transparente, estável e respeitadora da Constituição permitirá transformar os recursos naturais do país em desenvolvimento efectivo e reduzir a pobreza. Para Bubacar Turé, não existe uma prioridade única, porque os défices se acumulam. "Temos urgência de colocar milhares de crianças na escola, de transformar o sistema de saúde, de garantir água potável, energia eléctrica e de reduzir drasticamente a pobreza extrema", enumera. Sem esse investimento, conclui, continuará a existir uma Guiné-Bissau onde os direitos são amplamente reconhecidos na lei, mas permanecem inacessíveis para uma grande parte da população.
Esta Semana em África ficou marcada pelo fim da participação de Cabo Verde no Mundial de Futebol, mas também as críticas da oposiçõa na Guiné-Bissau, o fluxo de moçambicanos que sai da África do Sul sob ameaças racistas ou ainda a desistência final de Jorge Bom Jesus nas presidenciais de São Tomé e Príncipe. Os Tubarões Azuis caíram de pé no Mundial de Futebol masculino que decorre nos Estados Unidos, México e Canadá. Face aos campeões em título, a Argentina, Cabo Verde deu luta e conseguiu por duas vezes igualar a partida, perdendo apenas por um auto-golo já no prolongamento do jogo. Durante 120 minutos, os cabo-verdianos sonharam e saem desta competição com a cabeça erguida dando a conhecer ao Mundo a sua forma de jogar, mas sobretudo o seu país, as suas tradições e a sua alegria. Na hora do adeus, o guarda-redes Vozinha, que se tornou uma das sensações desta competição e é agora aclamado mundialmente, diz esperar que Cabo Verde continue a atingir novas metas e que o futuro está aberto para o arquipélago. Na Guiné-Bissau, os dois principais blocos da oposição acusam a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) de ter perdido neutralidade para legitimar o regime de transição militar instalado após a tomada de poder em Dezembro de 2025. Numa carta aberta, denunciam a exclusão da oposição das missões da organização, contestam o apoio ao processo de revisão constitucional e alertam para a degradação das condições democráticas no país. O coordenador interino da PAI-Terra Ranka e um dos signatários da carta, António Samba Baldé, explica as razões deste repúdio em entrevista a Lígia Anjos. Na África do Sul, as manifestações e a violência contra os imigrantes continuam, tendo já levado pelo menos 25 mil pessoas a abandonar o país. A fronteira de Ressano Garcia, na província de Maputo, no sul de Moçambique, está a registar o regresso massivo de cidadãos, entre moçambicanos e malauianos, como nos conta o nosso correspondente Orfeu Lisboa. Do outro lado, na África do Sul, continuam as manifestações e a ausência dos imigrantes, que optam por fugir para os seus países de origem ou esconder-se nas suas casas, já está ter um forte impacto no quotidiano de várias cidades como descreve a nossa correspondente Mariamo Hassamo. Em São Tomé e Príncipe, o ex-primeiro-ministro são-tomense Jorge Bom Jesus anunciou a sua decisão de desistir da corrida às presidenciais de 19 de Julho, alegando uma “avalanche de inverdades criminosas” e um clima de “divisão e crispação política” em torno da sua candidatura. Mantêm-se na corrida Carlos Vila Nova, Eugénio Rodrigues da Trindade Tiny, Nito de Sousa Viegas D'Abreu e Miques João do Nascimento de Jesus Bonfim. A campanha eleitoral começa hoje em São Tomé e Príncipe. Em Angola, vão começar a ser cobrados os serviços de saúde prestados à população devido à revisão da Lei de Bases do Sistema Nacional de Saúde, pondo fim à gratuidade universal da assistência médica em vigor há 34 anos. A proposta, aprovada na especialidade, está a gerar controvérsia entre parlamentares, embora o governo clarifique que a medida será aplicada apenas a cidadãos com capacidade financeira, como explica o nosso correspondente Francisco Paulo.
O colectivo de rappers guineenses ‘Fartudibos' acaba de lançar em Junho o seu primeiro álbum intitulado ‘Sissoco Na Kai ‘. Como os nomes do colectivo e do próprio disco indicam, trata-se aqui de usar o vector da música para abanar as consciências e dar uma visão da situação política da Guiné-Bissau. Fundado em 2023, o colectivo ‘Fartudibos' que reivindica a ausência de qualquer elo com partidos políticos, junta músicos e rappers dispersos por diferentes partes, nomeadamente a França, a Alemanha, o Brasil e Portugal. A RFI falou com dois dos sete membros do colectivo : Jada Imperatriz que vive e trabalha em Portugal, assim como Slim Drácula que mora em Curitiba no Brasil, país para onde foi há quase nove anos. Ao evocar a génese do grupo, este último recorda que o projecto surgiu "num período em que o regime autoritário sangrento buscava calar a todas e todos para encobrir os seus actos criminosos". "Todos nos sentimos convidados, de certa forma, a uma reflexão", conta o artista referindo-se às circunstâncias em que foi convidado a integrar o colectivo. "Como guineense comprometido com a causa social, tornou-se muito preocupante ver o rumo desastroso que a Guiné-Bissau vem tomando desde a época que estava na Guiné-Bissau. (…) Não podia ficar indiferente vendo tudo aquilo acontecendo. Ainda que estou num espaço e tenho uma ferramenta onde eu posso dar a voz para o meu povo, afirmando o meu descontentamento com tudo o que está a acontecer. Por isso, quando recebi esse convite eu me identifiquei logo e aceitei a proposta e seguimos em frente", diz o rapper que revela ter sempre vivido no universo da arte. A morar em Portugal desde 2017, Jada Imperatriz, única mulher do colectivo, trabalha na área da administração em Lisboa. Apesar da distância, continua atenta à vida do seu país. Ao descrever-se como "cidadã consciente", ela refere ter "sempre sentido a necessidade de abordar as coisas que se passavam no país". "No meu ‘stories' escrevia coisas, às vezes fazia ‘freestyle' e punha nas minhas redes sociais. Depois, fui abordada por um colega a perguntar se eu tinha interesse e uma vez que eles compartilhavam a mesma vontade de estar à frente e ser a voz de alguma forma das pessoas que estão no momento, porque nós, como não estamos aí, é diferente a forma como nos atinge, mas não deixam de ser os nossos. Então eu acho que seria um pouco mau da nossa parte tapar os olhos e fingir simplesmente que não se passa nada. Então senti a necessidade de entrar lá e dar o meu contributo da maneira que eu consigo, que é fazendo a arte", diz a rapper. A consciência no exílio Em quase uma década fora do seu país, Jada Imperatriz não voltou a estar na Guiné-Bissau, por considerar que "ainda não é o momento oportuno". Também para Slim Drácula, ainda não chegou a altura de ir novamente ao encontro das suas raízes, mesmo no caso de ter a possibilidade material para tal. "Não sinto que seja muito diferente das pessoas que estavam fora da Guiné-Bissau e foram para lá. Tenho muitos colegas que estavam fora. Foram para lá. Foram perseguidos, raptados, espancados. (…) Por isso prefiro esperar mais um tempo para ver o que é que acontece, se realmente todas as nossas denúncias ao sistema vão construir um caminho menos perigoso para a gente andar para as próximas lutas que a gente tem", justifica. Por estarem dispersos geograficamente, os membros do grupo, não se conhecem todos fisicamente. Isto não os impede de trocar ideias e trabalhar juntos à distância. "Todas as reuniões são feitas online, num espaço de concertação que criámos no WhatsApp. Ali acontece. Todas as reuniões, todas as decisões são tomadas ali, em conjunto. Quanto à produção, nós decidimos não aceitar apoio de nenhuma pessoa claramente alinhada a algum partido político. E todas as músicas foram gravadas com custos próprios. Temos um produtor que faz mixagem e masterização e também faz instrumental, que no caso é o Marlon C. Temos dois editores de vídeos e temos um responsável pelo design. Hoje, com essa tecnologia que a gente tem, ficou muito mais fácil. Mesmo estando em situações geográficas diferentes, a pessoa pode gravar aqui e enviar para o produtor e depois de receber todas as vozes, ele compila tudo numa única música", explica Slim Drácula que, para além de rapper é também um dos editores dos vídeos do grupo. Um álbum marcadamente crítico Após divulgar gradualmente algumas músicas ao longo destes últimos meses, o colectivo lançou o seu álbum na internet no passado mês de Junho. São 17 faixas em que denunciam a situação política do seu país, a corrupção, a pobreza, a violência política, os raptos, espancamentos e assassínios destes últimos anos. Dado o teor fortemente crítico do disco, Jada Imperatriz considera que o seu impacto é abafado pelo medo que o público sente. "A impressão que tenho é que as pessoas ouvem. As pessoas ouvem, tem uns que comentam, mas lá está, existe aquela coisa do medo, do medo de partilhar, do medo do ouvir em público. Aqui (em Portugal) não. Mas na Guiné-Bissau, por exemplo, tem familiares e amigos que dizem ouvir a vossa música. ‘Interessante, mas eu não posso partilhar ou eu não posso ouvir em público.' Ou ‘Tu não podes voltar para o país por teres cantado isto'. Então existe sempre um bocadinho de receio nas pessoas partilharem o álbum ou partilharem as nossas músicas", descreve a artista. Esta análise é partilhada por Slim Drácula. "Por ser um um trabalho de denúncia para um país onde a liberdade de expressão é negada, nós recebemos feedback mais direto das pessoas que nos conhecem. Alguns vêm dizendo ‘Por favor, afasta-te disso. Tu és um jovem, um jovem talentoso. Tem muitas coisas para fazer, então não vale a pena denunciar esse sistema'. E tem alguns que ouvem, aplaudem dizendo ‘Sim, senhor, vale a pena'. E entre todo esse universo também do feedback que nós recebemos e ainda estamos a receber, em termos de consumo e de partilha do trabalho, entendemos que muitas pessoas ainda têm receio de partilhar ou consumir em público, sobretudo pelo conteúdo que o álbum tem", considera. Enquanto Slim Drácula admite ter recebido pressões indirectas no sentido de não expressar a sua opinião publicamente, Jada Imperatriz refere ter optado por bloquear as mensagens nas redes sociais. Uma esperança adiada Questionada sobre a situação vigente desde a desestabilização militar do final do ano passado, com a instalação de um governo de transição, as detenções de vozes de oposição, a perspectiva de presidenciais em Dezembro, assim como um possível referendo sobre a Constituição da Guiné-Bissau, Jada Imperatriz mostra-se pouco optimista. "Eu acho que estamos a sair do mau para o pior, porque o Sissoco não está lá fisicamente, mas ele está na mesma. Porque o comando militar que assumiu esta farsa do golpe, isto tudo é uma coisa planeada. Então está a piorar. O comando militar está a fazer o que bem entende. As pessoas não conseguem falar e isto de mexerem com a Constituição é um absurdo", lamenta a artista para quem a comunidade internacional pouco fez para ajudar a Guiné-Bissau. "A impressão que tenho é que embora a CEDEAO já tenha lá ido e tenha havido intervenções também de Portugal, eu sinto que estamos sozinhos e este problema é nosso e nós é que temos que resolver", comenta. O activismo através da arte, um salto no escuro Sobre a experiência do activismo através da música, Jada Imperatriz reconhece estar assustada. "Sou mãe de dois meninos pequeninos e tenho sempre os familiares a dizer que ‘não estou a fazer bem. Estou a pôr em risco a minha família, Estou a arriscar-me imenso. Isto nunca vai mudar. Não há nada a ser feito. Isto sempre foi assim'. Mas eu acredito o contrário. Então eu sinto quando faço alguma coisa, embora sinta medo, mas faço na mesma, porque eu não quero sentir que estou a trair a minha nação. Não quero sentir que estou a aplaudir com o meu silêncio o opressor. Porque eu acho que é mais insatisfatório para mim sentir isso do que sentir medo. Então esta experiência está a ser boa. Estou a compartilhar com pessoas que acreditam no mesmo que eu", conclui. Slim Drácula também não vive essa experiência de forma serena. Todavia, para ele, o importante é fazer passar mensagens. "Para mim, está sendo uma experiência muito dolorosa. A Guiné-Bissau faz mais de meio século de independência e em todo esse tempo vivenciamos muitas situações em que o povo pedia o básico. O governo prometia. Não cumpria. Não fazia praticamente nada. Nem as justificativas eram convincentes. E o povo vive mal o tempo todo. Então, ser um activista usando a música, para mim dói muito. De sentar, pegar na folha e caneta, escrever sobre uma coisa básica e, sobretudo, ver que aquela situação poderia ser resolvida, sobretudo se o ministro decidir não comprar carros para ir agradar os deputados na Assembleia, ao escrever sobre esse tipo de situação, dá uma raiva e essa raiva cansa e dá uma tristeza enorme. Essa tristeza cansa. Por isso que eu falo que é uma experiência muito horrível. Agora me alegra também que a minha mensagem chegue ao meu povo. E não sou mais um que ficou preso numa caixinha, comportando e agindo de acordo com o que é que o sistema espera de nós", remata Slim Drácula. Podem ouvir o álbum de Fartudibos aqui : https://www.youtube.com/watch?v=ZQrtmhx9aKU&list=PLcp-0zXmNItxrDtlHmfQztBaqMTILbg4B&index=1
Cerca de oito milhões de pessoas vivem com doença falciforme, uma das doenças genéticas mais frequentes do mundo. Apesar dos avanços no diagnóstico e nos tratamentos, continua a ser pouco conhecida e muitas vezes identificada tarde, sobretudo em África, onde é mais prevalente. Uma semana depois do Dia Mundial da Doença Falciforme, que se assinala no dia 19 de Junho, especialistas e famílias insistem que o desafio não é apenas médico: é também social, económico e político. A doença falciforme é uma das patologias genéticas mais frequentes no mundo, mas continua longe de receber a atenção proporcional ao número de pessoas que afecta. Estima-se que cerca de oito milhões de pessoas vivam com esta doença hereditária, marcada por crises de dor intensa, anemia crónica, infecções frequentes e complicações que podem atingir vários órgãos. A recente evocação do Dia Mundial da Doença Falciforme voltou a expor uma contradição persistente: a medicina avançou, mas milhões de doentes continuam sem diagnóstico precoce, sem tratamento regular e sem acompanhamento especializado. A realidade é particularmente dura em vários países africanos, onde a doença é mais prevalente e onde os sistemas de saúde continuam a enfrentar limitações. A doença resulta de uma alteração genética da hemoglobina, proteína dos glóbulos vermelhos responsável pelo transporte de oxigénio. Quando uma criança herda essa alteração de ambos os progenitores, os glóbulos vermelhos deixam de ter a forma arredondada habitual e tornam-se rígidos, frágeis e semelhantes a uma foice. Esta deformação dificulta a circulação sanguínea e pode provocar crises dolorosas, anemia e lesões progressivas em órgãos vitais. Celdidy Monteiro, profissional de saúde são-tomense e mãe de uma menina de sete anos que vive com a doença, resume o problema de forma directa: "É uma doença que se transmite dos pais para os filhos. Esta alteração faz com que os glóbulos vermelhos não tenham a forma normal e, em determinadas situações, pode causar problemas a nível da circulação, dores intensas, anemia e complicações em vários órgãos." Apesar da dimensão do problema, a doença permanece largamente invisível. Para Celdidy Monteiro, essa invisibilidade não é neutra. "Apesar de cerca de oito milhões de pessoas no mundo terem esta doença, ela continua desconhecida, principalmente porque atinge sobretudo a população de origem africana e durante muito tempo não teve a mesma atenção", afirma. A falta de informação continua a atrasar diagnósticos e a alimentar preconceitos. Muitos doentes chegam tarde aos serviços de saúde ou vivem anos sem uma explicação clara para as crises repetidas, a fadiga, as infecções ou as dores incapacitantes. "Ainda existe muita falta de informação sobre a doença, o que contribui para que o diagnóstico seja tardio e que também existam preconceitos", sublinha a profissional de saúde. A dor é o sintoma mais conhecido, mas não é o único. As crises podem ser desencadeadas por infecções, alterações emocionais ou mudanças bruscas de temperatura, e surgem frequentemente de forma imprevisível. "Podemos acordar bem dispostos e, por causa de uma alteração emocional ou de uma mudança brusca de temperatura, desencadear uma crise", explica Celdidy Monteiro. As complicações menos conhecidas são muitas vezes as mais graves. A doença pode provocar acidentes vasculares cerebrais, síndrome torácica aguda, lesões renais, pulmonares ou cardíacas e situações fatais. "Fala-se muito das crises de dor porque é o sintoma principal, mas todos os órgãos podem ser afectados", alerta. Em alguns casos, acrescenta, as complicações "podem mesmo levar à morte". Nos últimos anos, registaram-se progressos; há hoje testes rápidos que permitem diagnosticar a doença em contextos com poucos recursos laboratoriais, programas de rastreio neonatal em alguns países e medicamentos capazes de reduzir as crises e melhorar a qualidade de vida. "Felizmente, ao longo dos últimos anos, temos registado progressos significativos", reconhece Celdidy Monteiro, lembrando que "há evidências de que, se fizermos o diagnóstico precoce, estes doentes poderão ter melhor qualidade de vida". Entre os tratamentos disponíveis, a hidroxiureia tem desempenhado um papel central na redução das crises dolorosas e de algumas complicações. Em casos específicos, o transplante de medula óssea pode representar uma possibilidade terapêutica. Mais recentemente, a investigação em terapia genética abriu novas perspectivas. Para Celdidy Monteiro, trata-se de "uma luz", mas ainda distante da realidade da maioria dos doentes. O problema, insiste, é que muitos países continuam sem garantir o básico. "Nós temos problemas de base nos nossos países, que são o acesso ao diagnóstico e ao tratamento", afirma. A inovação científica, por si só, não basta se os sistemas de saúde não conseguirem assegurar rastreio, medicação, acompanhamento especializado e apoio às famílias. A desigualdade é visível nos países africanos de língua portuguesa. Em São Tomé e Príncipe, a doença é conhecida e já existem melhorias no diagnóstico, mas o tratamento continua limitado. "A hidroxiureia não é uma realidade para todos os pacientes", lamenta. A situação repete-se noutros países da CPLP. Segundo a profissional de saúde, Angola e Guiné-Bissau enfrentam dificuldades semelhantes, com acesso desigual ao diagnóstico e à terapêutica. "Os pacientes nos nossos países não têm igual acesso tanto ao diagnóstico como ao tratamento", afirma. Entre os países de língua portuguesa, apenas Portugal e Brasil têm rastreio neonatal implementado, e só o Brasil realiza transplante de medula óssea para estes doentes. Em contextos onde coexistem outras doenças frequentes, como a malária, a ausência de diagnóstico pode ser fatal. Celdidy Monteiro lembra que, em muitos casos, crianças e adultos morrem sem nunca saberem que tinham doença falciforme. "Muitas vezes esses doentes acabam por falecer antes de terem o diagnóstico. Muitas vezes o diagnóstico é malária, mas está lá mascarada a anemia falciforme porque ela não é diagnosticada." A doença afecta também a vida escolar, profissional dos doentes. As crises podem afastar crianças da escola, limitar a vida laboral dos adultos e impor às famílias uma vigilância permanente. O acompanhamento psicológico, a aceitação social e a inclusão escolar são, por isso, parte essencial da resposta. "São desafios constantes que os familiares enfrentam a nível do tratamento, do diagnóstico, do acompanhamento psicológico, da aceitação na escola e do impacto na vida escolar e no trabalho", resume. Para Celdidy Monteiro, a prioridade deve ser aumentar a literacia sobre a doença. Não apenas junto das famílias, mas também entre profissionais de saúde. "Devemos aumentar a literacia da doença, não só para a população, mas também para alguns profissionais de saúde", defende. Uma semana depois das mensagens associadas ao Dia Mundial da Doença Falciforme, o apelo mantém-se: transformar uma data simbólica em políticas concretas. Rastreio neonatal, acesso gratuito ou comparticipado aos medicamentos, formação dos profissionais, acompanhamento especializado e investigação são algumas das respostas apontadas por especialistas e famílias.
A semana fica marcada pela instabilidade política em São Tomé e Príncipe, pela eleição de Venâncio Mondlane para a liderança do Anamola, em Moçambique, pela acusação formal do general Higino Carneiro, em Angola, pelas críticas à reduzida representação feminina no novo Governo de Cabo Verde e pelo desmentido da CEDEAO sobre alegadas tentativas de suborno durante uma missão à Guiné-Bissau. Em São Tomé e Príncipe, o Conselho Nacional da ADI marcou para 26 de Julho o congresso do partido. A decisão é contestada pelo actual primeiro-ministro, Américo Ramos, que reafirmou a sua candidatura à presidência da formação política. Ainda no arquipélago, o Tribunal Constitucional confirmou a rejeição da candidatura do empresário e político Domingos Monteiro às eleições presidenciais de 19 de Julho, por considerar que nenhum dos seus pais é são-tomense. Permanecem na corrida cinco candidatos: o antigo primeiro-ministro Jorge Bom Jesus, o líder parlamentar da ADI, Nito D'Abreu, o actual Presidente da República, Carlos Vila Nova, e os juristas Miques João Bonfim e Eugénio Tiny. Segundo dados provisórios da Comissão Eleitoral Nacional, estão inscritos 142.298 eleitores, mais cerca de 19 mil do que nas eleições de 2022. Em Moçambique, Venâncio Mondlane foi eleito presidente da Aliança Nacional por um Moçambique Livre e Autónomo, Anamola. Em entrevista à RFI, afirmou que pretende transformar a nova força política no maior partido da história democrática do país até 2029 e anunciou ainda a criação de uma "Escola Anamola". Entretanto, as autoridades moçambicanas repatriaram, nos últimos dias, mais de duas centenas de cidadãos do Malawi que tinham entrado ilegalmente no país para fugir aos ataques xenófobos na África do Sul. Em Angola, o general Higino Carneiro foi formalmente acusado pela Procuradoria-Geral da República dos crimes de peculato e branqueamento de capitais, alegadamente cometidos quando exerceu funções de governador do Cuando Cubango. A defesa afirma não ter sido notificada e acusa o Ministério Público de violar o segredo de justiça, considerando que o processo procura travar as ambições políticas do também candidato à liderança do MPLA. Ainda em Angola, o Tribunal da Comarca de Luanda iniciou o julgamento do influenciador digital Gerson Quintas, conhecido como "Man Genas", acusado de ofensas ao Presidente da República e de declarações dirigidas a altas patentes da Polícia Nacional. As alegadas ofensas foram proferidas quando se encontrava em Moçambique, de onde foi deportado em Fevereiro de 2024 por situação migratória irregular. Em Cabo Verde, os partidos da oposição e a presidente da Rede das Mulheres Parlamentares criticam a composição do novo Governo liderado pelo primeiro-ministro Francisco Carvalho, apontando a reduzida representação de mulheres e jovens nos principais cargos de decisão. Na Guiné-Bissau, a CEDEAO desmentiu as alegações de uma tentativa de suborno a membros da sua mais recente missão oficial ao país. A organização classificou as acusações como falsas e sem qualquer fundamento, depois de notícias divulgadas nas redes sociais e replicadas por vários órgãos de comunicação social darem conta de uma alegada entrega de cerca de 22 mil euros no quarto de hotel de um dos membros da missão. A delegação esteve na Guiné-Bissau entre 19 e 23 de Junho para acompanhar a implementação do mandato revisto da Missão de Apoio à Estabilização no país.
Após dez anos de Brexit o Reino Unido tem vivido ciclos de crise. A prostituição na Guiné-Bissau reflete a pobreza, mas também a impunidade e a falta de responsabilização.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Missão da CEDEAO conclui visita à Guiné-Bissau. Um dos integrantes da missão terá alegadamente sofrido uma tentativa de suborno. Moçambique enfrenta aumento de professores formados, mas desempregados. Em São Tomé e Príncipe: Licenciados recorrem a educação para escapar ao desemprego.
Convidados: Benazira Djoco, empresária e refugiada de Guiné-Bissau; Silvia Caironi, fundadora e presidente da ONG Aventura de Construir; e Paulo Illes, fundador do Fórum Social Mundial de Migrações, ex-coordenador de política migratória do Ministério da Justiça e Segurança Pública e presidente da ONG Sem Fronteiras. Num momento em que parte do mundo ergue barreiras contra o fluxo migratório, a Copa do Mundo está mostrando que nações se constroem com pluralidade. Algumas das seleções mais fortes do Mundial são formadas a partir da imigração: na França, 20 dos 26 jogadores são filhos de pessoas que não nasceram no país; na Holanda, metade; na Inglaterra e na Alemanha, um terço; no Canadá, são mais de 70%. O acolhimento a quem vem de fora mostra resultados nos campos, mas gera ainda mais impactos positivos na sociedade e até na economia: 5% da força de trabalho global, hoje, vem de trabalhadores que migram. No Brasil, a maioria dos imigrantes e refugiados encontra oportunidades no empreendedorismo: 70% seguem este caminho e, dentro deste universo, quase metade já tem empresas que geram mais empregos. Neste episódio, Natuza Nery entrevista dois profissionais que trabalham diretamente com migrantes e refugiados. Primeiro, Silvia Caironi explica por que eles encontram um caminho sólido no empreendedorismo. Depois, Paulo Illes analisa os fluxos globais de migração e diz o que o Brasil pode fazer para aproveitar o potencial dessas pessoas. Participa também a refugiada Benazira Djoco, empresária que veio de Guiné-Bissau para o Brasil aos 16 anos.
Paulo pregou em sua própria casa e o evangelho avançou. Sua casa também pode ser o começo de algo eterno!Neste sermão pregado na Primeira Igreja Presbiteriana de Governador Valadares, o Rev. Sabino Lamas (da Guiné-Bissau) expõe o fim do livro de Atos como um convite aberto: Paulo, mesmo preso, recebeu a todos em sua casa e pregou o reino de Deus sem impedimento. Uma imagem poderosa do que cada cristão pode fazer onde está.Se você acredita que o evangelho precisa avançar e quer ser parte da missão de Deus no mundo, esse sermão vai mover seu coração.
A diáspora guineense enviou uma carta ao Presidente francês, Emmanuel Macron, pedindo a retirada da Legião de Honra atribuída a Umaro Sissoco Embaló, alegando que o mandato do antigo Presidente da Guiné-Bissau foi marcado por violações da Constituição, repressão política e enfraquecimento das instituições democráticas. Braima Mané, economista e um dos mais de 50 signatários da iniciativa, afirma que a manutenção da condecoração contradiz os valores da democracia, dos direitos humanos e do Estado de direito que a França diz defender. O que é que pretendem com esta iniciativa? Pretendemos alertar as autoridades francesas para o facto de Umaro Sissoco Embaló não reunir as condições morais e políticas compatíveis com uma distinção como a Legião de Honra. Consideramos que a sua actuação política foi contrária aos valores que esta condecoração simboliza. É por essa razão que consideram que uma pessoa com este percurso não deve continuar a ser detentora da Legião de Honra francesa? Exactamente. Não é uma carta contra a pessoa de Umaro Sissoco Embaló; é uma carta em defesa de um princípio. Como guineenses, aspiramos ao programa maior sonhado por Amílcar Cabral, que ainda não se concretizou porque certas pessoas continuam a bloquear o processo de democratização da Guiné-Bissau. É necessário consolidar as instituições para, depois, lançar o país num verdadeiro processo de desenvolvimento. Entendemos que não se pode premiar quem viola esses princípios. Na carta falam de uma deriva autoritária. Quais são os acontecimentos mais graves que demonstram essa degradação do Estado de direito na Guiné-Bissau nos últimos anos? Entre 2020 e 2026, Umaro Sissoco Embaló manteve-se no poder para além do limite constitucional. Desde que assumiu funções, registaram-se episódios recorrentes de perseguição e até de tortura de activistas, adversários políticos e deputados. Assistimos também à captura de instituições da República, nomeadamente do Supremo Tribunal de Justiça. Todas as instituições passaram a servir exclusivamente os seus interesses. Nas últimas eleições, por exemplo, o candidato da plataforma PAI-Terra Ranka- Domingos Simões Pereira- foi impedido de se candidatar às eleições presidenciais sem qualquer fundamento legal. Existem ainda relatos e imagens de pessoas torturadas e até assassinadas. Temos também o episódio recente do alegado golpe de Estado, que consideramos ter sido um simulacro destinado a evitar a transferência do poder e a rejeitar a lógica democrática. Os seis anos de Sissoco Embaló demonstram comportamentos que não são aceitáveis numa democracia. No caso concreto da Guiné-Bissau, o país e o povo foram sequestrados por uma organização criminosa que se apresenta como força política, mas que, do nosso ponto de vista, não o é. Tudo isto acontece com a conivência de sectores militares. Não se trata apenas de uma questão política. Como avalia a situação de Domingos Simões Pereira e o impacto que ela tem na democracia do país? O engenheiro Domingos Simões Pereira, goste-se ou não da sua orientação política, destaca-se como uma das figuras com maior apego à democracia. Apresenta-se a eleições, vence eleições, mas não o deixam governar. Isto acontece porque sabem que, se lhe permitirem governar um mandato completo, a situação da Guiné-Bissau poderá mudar. A Guiné-Bissau é um dos poucos países em desenvolvimento que reúne praticamente todas as condições para prosperar, mas não o consegue porque está sequestrado. As pessoas que tentam concretizar o ideal de Amílcar Cabral e um projecto de desenvolvimento para o país acabam sistematicamente bloqueadas e impedidas de avançar. A carta refere alegadas irregularidades nas eleições presidenciais de 2025. Que elementos sustentam essas acusações? As irregularidades ocorreram a dois níveis. Antes das eleições, o Supremo Tribunal de Justiça, que é a mais alta instância judicial do país, não decidiu as candidaturas com base na lei. Esse foi, justamente, o mecanismo utilizado para afastar o principal adversário político de Sissoco Embaló. O próprio Sissoco Embaló não esperava que Fernandes Dias da Costa vencesse as eleições. No entanto, venceu, em grande medida graças ao apoio de Domingos Simões Pereira e da sua plataforma política. Pela primeira vez na jovem democracia guineense, um candidato venceu as eleições presidenciais à primeira volta. Toda a gente sabia o que estava a acontecer. Estiveram presentes observadores internacionais, representantes da União Africana e da CPLP. As eleições na Guiné-Bissau apresentam um paradoxo: são normalmente processos tranquilos, transparentes e civilizados. O povo aderiu a um projecto político e eles sabem que perderam. O problema é que dispõem das armas e têm utilizado esse poder para impedir a concretização da vontade popular. O que aconteceu a Domingos Simões Pereira não tem sustentação legal. Não se trata de uma detenção judicial; trata-se de um sequestro. São homens armados que actuam sob orientação de Sissoco Embaló, a partir do estrangeiro, com o objectivo de neutralizar ou afastar Domingos Simões Pereira da cena política. Como explica a reacção da comunidade internacional perante esta situação? É inegável que existe uma certa fadiga por parte da comunidade internacional relativamente à situação da Guiné-Bissau. A CEDEAO, na sua configuração actual, não tem capacidade nem credibilidade suficientes para resolver o problema. A própria organização atravessa dificuldades, agravadas pelo afastamento dos três países do Sahel. Tudo isto contribuiu para uma certa normalização da crise guineense. Foi criado um Conselho Nacional de Transição e adoptada uma nova Constituição sob o silêncio, ou até alguma conivência, da comunidade internacional? Sim. E isso não se aplica apenas às organizações africanas. Refiro-me também à União Africana, à CPLP e, em particular, a Portugal e ao Brasil, que deveriam desempenhar um papel mais activo junto das restantes organizações internacionais, nomeadamente da União Europeia. Existe uma preocupante indiferença. O maior perigo é o risco de resignação colectiva. Essas organizações acabam por dialogar com entidades que consideramos ilegais e inconstitucionais. Quem integra esse Conselho Nacional de Transição? Militares e sectores derrotados nas últimas eleições. Trata-se, no fundo, de um conselho dos derrotados. Quanto à nova Constituição, entendemos que foi encomendada por Sissoco Embaló quando este já exercia funções à margem da Constituição vigente. A elaboração constitucional é uma competência que pertence aos deputados. O objectivo é, mais uma vez, neutralizar os opositores, nomeadamente Domingos Simões Pereira, regressar triunfalmente à Guiné-Bissau, participar no simulacro eleitoral previsto para Dezembro e consolidar definitivamente um regime autocrático. É também por causa desse receio que enviam esta carta? O objectivo principal desta carta é demonstrar que a conduta e as práticas de Umaro Sissoco Embaló não são compatíveis com os valores de honra que a França procura representar. Mas existem também dois objectivos complementares. O primeiro é alertar a comunidade internacional para a gravidade da situação na Guiné-Bissau. O segundo é chamar a atenção para a necessidade de actuar antes das eleições. Se a situação continuar a deteriorar-se, existe o risco de uma escalada da violência. A eurodeputada portuguesa do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, pediu sanções contra a Guiné-Bissau. O que esperam dessa iniciativa? O Parlamento Europeu aprovou uma resolução, por larga maioria, condenando aquilo que considera ter sido um golpe e recomendando à Comissão Europeia a adopção de medidas, incluindo sanções. Contudo, nada aconteceu até agora. As sanções podem ser instrumentos muito eficazes. Essas pessoas dependem da possibilidade de viajar e de manter relações internacionais para procurarem afirmar alguma legitimidade. Além disso, existem mecanismos de financiamento que devem ser revistos. É necessário limitar todas essas fontes de apoio. Já receberam alguma resposta do Presidente francês a esta carta? Ainda não recebemos qualquer resposta. Estamos a aguardar. Gostaria de acrescentar que não ficaremos por aqui. Pretendemos dirigir iniciativas semelhantes às autoridades de Cabo Verde, uma vez que aquele país também condecorou Umaro Sissoco Embaló com a Medalha Amílcar Cabral. Tencionamos igualmente desenvolver diligências junto das autoridades portuguesas.
Angola e Moçambique enfrentam financiamento caro e instável; Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe dependem de crédito.
No recapitulativo desta semana em África, o destaque vai para Moçambique onde na madrugada do sábado passado, foi morto o bispo de Quelimane por indivíduos armados na sua residência. Este assassínio provocou uma onda de choque em todos os quadrantes no país e também no seio do Vaticano, o Papa Leão XIV tendo apela ao "fim dos actos violentos" em Moçambique. Na quarta-feira, o Presidente moçambicano garantiu que as autoridades do seu país iriam esclarecer o que a igreja moçambicana qualificou de "crime gravíssimo". Entretanto, na quinta-feira, o Serviço Nacional de Investigação Criminal (Sernic), anunciou a detenção de três suspeitos no âmbito da investigação sobre este assassínio. Após um primeiro interrogatório judicial, as autoridades decidiram mantê-los em detenção preventiva. Também na actualidade de Moçambique, estes últimos dias, o país continuou a monitorar o regresso progressivo dos moçambicanos vítimas de violências xenófobas na África do Sul. No começo da semana, chegou mais um grupo cujos relatos são de momentos de terror. Noutro quadrante, ao longo destes últimos dias, a RFI e um conjunto de outros órgãos de comunicação social, em coordenação com o consórcio "Forbidden Stories", publicou uma série de reportagens sobre a situação de Cabo Delgado. Um dos aspectos que indagaram foi o elo entre a exploração das riquezas da região, a corrupção, os abusos dos direitos humanos e a insurgência armada que afecta o extremo norte de Moçambique desde 2017. Micael Pereira, jornalista do Expresso em Portugal que participou nesta investigação, considerou que o extremismo presente naquela zona é também o reflexo das desigualdades aí persistentes. Outro dos jornalistas envolvidos nesse inquérito, Tomás Queface, do Zitamar News, explicou que a concentração das forças moçambicanas e ruandesas junto dos projectos de gás deixa outras zonas vulneráveis, permitindo aos insurgentes financiar-se através da exploração das minas de ouro. Noutra actualidade, em Angola, no final da semana passada, a subcomissão de candidaturas ao IX Congresso Ordinário do MPLA, no poder em Angola, anunciou a validação da candidatura de João Lourenço à presidência do partido, após a aprovação de um pouco mais de 98% das cerca de 11 mil subscrições que sustentam o seu dossier. O anúncio da validação desta candidatura mereceu resposta por parte dos restantes candidatos à presidência do MPLA que não descartam uma acção judicial. Também na actualidade angolana, Manuel Augusto, antigo ministro das relações exteriores de 2017 a 2020, faleceu no final da semana passada aos 68 anos numa unidade hospitalar de Luanda. Formado em Direito Internacional Público e especializado em direito diplomático, Manuel Augusto exerceu o essencial da sua carreira nessa área. Após a sua morte, foram numerosas as homenagens à acção que conduziu pelo seu país. Em São Tomé e Príncipe, entra-se progressivamente em período de pré-campanha. Depois de seis responsáveis políticos, nomeadamente o Presidente cessante, terem apresentado a sua candidatura para as presidenciais previstas a 19 de Julho, as autoridades fizeram um primeiro balanço do número de eleitores recenseados e habilitados a votar no próximo escrutínio. Na Guiné-Bissau, depois de o chefe da diplomacia portuguesa, Paulo Rangel dizer esta semana que a CPLP está a empenhar-se para o regresso da normalidade constitucional na Guiné-Bissau, Fernando Vaz, porta-voz do Conselho Nacional de Transição da Guiné-Bissau, fez na quarta-feira uma advertência diplomática ao Estado português, vincando que o seu país "não se vergará a exames de bom comportamento". Para finalizar não podíamos deixar de mencionar o arranque na passada quinta-feira do Mundial 2026 de futebol no Canada, Estados Unidos e México. Uma competição na qual a equipa cabo verdiana vai-se estrear-se neste 15 de Junho em Atlanta contra a equipa espanhola. Em entrevista à RFI, o seleccionador dos Tubarões Azuis, Bubista, falou do orgulho de representar o país nesta competição em que participa pela primeira vez.
Ter várias paixões, o prejuízo de se ser gentil, a série "Novas Narrativas de Caça", as atitudes sobre o cabelo e as origens, a relação com a Guiné-Bissau, a educação dos filhos, o processo de dirigir um teatro, o medo.See omnystudio.com/listener for privacy information.
A artista luso-guineense Manuela Jardim encontra-se em Paris no âmbito da residência artística “Création & Engagement”, promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Thanks For Nothing. O programa cruza criação artística e intervenção social, envolvendo ateliers com pessoas apoiadas pela associação Aurore e alunos de escolas do 14.º bairro de Paris. A residência culminará numa exposição este mês de Junho, no espaço La Roche, instalado no antigo hospital La Rochefoucauld, no centro da capital francesa. Em entrevista à RFI, Manuela Jardim sublinha o carácter experimental desta residência no seu percurso artístico. “Creio que é sempre um desafio de um trajecto que eu nunca fiz, o das residências”. Manuela Jardim sublinhou que o que mais a atraiu no projecto foi “essa ligação entre a arte e a parte social e sobretudo as pessoas que não estão próximas da arte”. A artista, nascida na Guiné-Bissau em 1949 e radicada em Lisboa, desenvolve uma prática que cruza pintura, instalação, escultura e têxtil. Grande parte do seu trabalho assenta na investigação sobre tecidos tradicionais, memória e plantas tintureiras. “Os panos são memória e a tradição é a memória”, explicou, referindo-se ao uso de materiais reciclados, fibras naturais e pigmentos tradicionais. Na exposição estarão presentes várias fases desse percurso artístico, incluindo trabalhos realizados com papel reciclado, sacas de serapilheira e gaze. A investigação sobre têxteis levou também a artista a explorar ligações culturais entre África, Portugal, Índia e Brasil. “As pessoas falavam, comunicavam com as outras, havia guerras, mas no fundo a comunicação existia”, afirmou, defendendo a importância da arte enquanto espaço de encontro e partilha. Para Manuela Jardim, a arte desempenha igualmente um papel essencial no desenvolvimento humano e na inclusão social. “A arte será o primeiro factor que se deve dar a uma criança, porque através da arte ela pode se exprimir”, disse. Sobre os ateliers realizados durante a residência, acrescenta que a aproximação à arte pode funcionar “como um processo de libertação” para pessoas em situação de vulnerabilidade.
O activista guineense Yussef considera que os acontecimentos de 26 de Novembro de 2025 na Guiné-Bissau representaram uma manobra política destinada a impedir a tomada de posse das figuras escolhidas nas urnas. O militante guineense denuncia repressão política, perseguições a opositores e limitações às liberdades democráticas, defendendo que a resistência continua activa tanto no país como na diáspora. RFI: Quando se fala em “golpe de estado cerimonial” na Guiné-Bissau, estamos a falar de uma ruptura do regime ou de uma encenação que formaliza a ausência de democracia? Yussef: Existe um conceito relativamente fechado de golpe de Estado. Normalmente implica a deposição, pela força das armas, dos titulares dos órgãos de soberania e a instauração de um novo regime. Ora, na Guiné-Bissau aconteceu exactamente o contrário. Houve um conluio entre sectores do poder político e das Forças Armadas para manter o regime tal como estava e impedir que a vontade popular expressa nas eleições fosse respeitada. O objectivo foi impedir a divulgação dos resultados eleitorais e evitar que assumissem funções as figuras escolhidas pelo povo guineense, nomeadamente para a Presidência da República. Ou seja, manteve-se tudo na mesma, criando apenas a aparência de um golpe de Estado. Não fomos os únicos a denunciar esta situação. Figuras políticas internacionais importantes, como o ex-presidente nigeriano Goodluck Jonathan e Ousmane Sonko, então primeiro-ministro do Senegal, também manifestaram dúvidas sobre a narrativa oficial. Na Guiné-Bissau existe uma percepção generalizada de que não houve um verdadeiro golpe, mas sim uma tentativa deliberada de impedir o respeito pela soberania popular. O que mudou desde 26 de Novembro de 2025? Há mais medo, mais controlo, mais resistência? Existe simultaneamente mais repressão e mais resistência. A repressão atingiu o auge com o assassínio político do nosso camarada Vigário Balanta. É impossível ignorar o significado desse acto: estamos a falar de alguém que sacrificou a própria vida pela luta democrática na Guiné-Bissau. Não podemos romantizar o diálogo com um regime que assassina opositores e mantém presos políticos. Entre esses casos estão Domingo Simões Pereira, líder do maior partido da oposição, e Fernando Dias, apontado por nós como vencedor legítimo das eleições presidenciais. Mas há muitos outros presos políticos menos mediáticos. Na verdade, a Guiné-Bissau transformou-se numa grande prisão política a céu aberto. Não há liberdade para manifestações, conferências de imprensa ou críticas abertas ao regime. As características de uma ditadura estão presentes. Ainda assim, a resistência continua, tanto dentro do país como na diáspora. Continuamos a denunciar a situação política, os presos políticos e os assassinatos de opositores. A mobilização política fora da Guiné-Bissau, como este debate organizado em Portugal, tem impacto concreto em Bissau? Acreditamos que sim. Na Guiné-Bissau sabe-se que a diáspora continua organizada e mobilizada na defesa das liberdades democráticas. Temos uma responsabilidade acrescida porque vivemos em países onde existem liberdades mínimas para denunciar o que se passa. Não vemos qualquer ruptura entre o povo guineense que está no país e o que vive na diáspora. Fazemos a mesma luta, apenas em geografias diferentes. Ao convidarmos figuras como Armando Lona, que desempenharam um papel importante na resistência política e nas manifestações populares, estamos também a amplificar as reivindicações que nascem dentro da própria Guiné-Bissau. Talvez os resultados não sejam imediatos, mas estamos numa fase de acumulação política: acumulação de experiência, de organização, de solidariedade e de consciência. Acreditamos que esse processo acabará por produzir mudanças concretas. Qual é hoje o custo pessoal e político de ser activista guineense? O caso de Armando Lona é esclarecedor. Quando ficou evidente o carácter repressivo do regime, a Frente Popular decidiu sair à rua sem qualquer garantia de segurança física. Isso demonstra o nível de coragem exigido aos activistas. Os custos são enormes, não apenas para os próprios militantes, mas também para as suas famílias. O regime não hesita em perseguir familiares, tanto na Guiné-Bissau como na diáspora. Mas a história política guineense ensina-nos que a luta pela liberdade sempre teve custos. A geração de Amílcar Cabral sacrificou-se pela libertação política, económica e cultural do país. Mais recentemente, Vigário Balanta tornou-se outro símbolo desse sacrifício. Sabemos os riscos que corremos, mas estamos dispostos a assumi-los. Faz parte da resistência.
Desmobilizados da RENAMO apresentam queixa contra Ossufo Momade na PGR. Ataques de insurgentes voltam a aumentar na província em Cabo Delgado. Seis meses depois do Golpe de Estado na Guiné-Bissau, cidadão pedem estabilidade.
Por ocasião da celebração hoje do Dia da Libertação de África, esta segunda-feira e nos dias 28, 29 e 30 de Maio, decorre em Lisboa, um colóquio sobre o legado cultural e político de Mário Pinto de Andrade, líder independentista angolano, intelectual de vulto, contemporâneo de Aimé Césaire e Leopold Sédar Senghor, que escreveu obras designadamente sobre literatura e história e foi ministro da cultura da Guiné-Bissau, país onde se exilou em 1975. O evento que abrange conferências, projecções de filmes ou ainda exposições em Picoas, na Cidade Universitária e no Espaço Cultural Mbongi 67 nas imediações da Lisboa, é organizado nomeadamente pela associação dos amigos de Sarah Maldoror e Mário Pinto de Andrade, o Centro de Estudos Internacionais, a Casa da Cultura da Guiné-Bissau, ou ainda o Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral. Entre os estudiosos que participam no evento, estão presentes os sociólogos Cristina Roldão e Miguel de Barros, a universitária Inocência Mata ou ainda o historiador Julião Soares Sousa. Em entrevista à RFI, Sumaila Djaló, activista e estudioso guineense membro da organização desta série de encontros, evocou a figura de Mário Pinto de Andrade e o seu enorme legado intelectual. RFI: Nesta data em que se celebra o Dia da Libertação de África, o que os levou a escolher organizar um colóquio específico em torno de Mário Pinto de Andrade? Sumaila Djaló: Mário Pinto de Andrade é uma figura interessante, incontornável das lutas de libertação dos países africanos colonizados por Portugal. Nasceu em Angola, mas teve uma passagem por Portugal entre as décadas de 40 e 50 do século passado, onde conheceu com toda aquela malta da Casa dos Estudantes do Império, que veio das várias colónias portuguesas para estudar em Portugal e onde também esses encontros forjaram a consciência para o anticolonialismo. Liderou não só o MPLA como o seu primeiro presidente e um dos seus fundadores, mas as organizações unitárias das ex-colónias portuguesas em África. A partir destes espaços, também abriu possibilidades de alianças internacionais na Europa, na Ásia e em outros cantos do mundo desses movimentos de libertação. Por isso, a sua figura é muito importante não só para a independência de Angola, mas também para as independências de todos os outros países. Aliás, depois da independência, logo em 1975, exilado na Guiné-Bissau, desempenharia funções governamentais muito importantes nesse país também, para além de mais tarde, outras funções em organizações internacionais como a UNESCO. Portanto, a sua figura, na sua vertente militante, revolucionária, política, intelectual e cultural, é toda esta diversidade em torno do intelectual que é e é muito importante para as gerações actuais e para a historiografia, mas também a memória das lutas de libertação das ex-colónias de Portugal em África. RFI: Não dá, com certeza, para evocar, todos os acontecimentos que estão a ser organizados em torno da figura de Mário Pinto de Andrade. Mas se pudesse citar alguns, quais vão ser os pontos altos dessa série de eventos? Sumaila Djaló: Logo no dia 25 de Maio, em que é celebrado também o Dia da Libertação Africana, temos a abertura de uma exposição no Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral - CITAC, em Lisboa, Picoas, onde às 17 da tarde abre-se um painel em debate sobre a memória e os arquivos que também conduzem a esse legado cultural e político de Mário Pinto de Andrade. Uma exposição em que estará disponível para investigadores, para pessoas interessadas, estudantes e também jornalistas e todas as pessoas interessadas. Uma exposição que conduz ao arquivo do CITAC sobre Mário Pinto de Andrade. Livros, artigos sobre Mário Pinto de Andrade. Comunicações que também ajudam a compreender todo este seu percurso multifacetado. Depois, no dia 28 e dia 29, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, teremos durante esses dois dias conferências mesas redondas em torno desse mesmo legado cultural e político de Mário Pinto de Andrade, juntando investigadores, historiadores, ensaístas e pessoas que estudam o percurso político e cultural de Mário Pinto Andrade, mas também activistas e outras pessoas que se contactam com o seu legado de outra forma. No último dia, no dia 30, teremos na parte da manhã um passeio histórico intitulado de 'Itinerários de Mário Pinto de Andrade', que passa por diferentes espaços frequentados por Mário Pinto de Andrade durante a sua estadia em Lisboa nos anos 40 e 50. E, finalmente, à tarde, temos uma sessão cultural no Espaço Cultural Mbongi 67, no Monte Abraão, em Lisboa, também onde o contacto será com textos da literatura oral e tradicional angolana, mas também da literatura moderna angolana ao ritmo de Kora, uma mesa redonda de diálogo a partir do seu livro 'As origens do Nacionalismo Africano' e a partir desse livro debater o panafricanismo, desde as suas origens até hoje. São estas actividades que fazem o conjunto do colóquio a acontecer em quatro dias, que também visa a resgatar esta memória importante para os povos africanos de língua oficial portuguesa, mas para os povos que combateram o colonialismo português em África. RFI: Relativamente a, lá está, resgatar esta memória, Mário Pinto de Andrade marcou a época em que viveu. E como é que ele marca a nossa época hoje em dia? Sumaila Djaló: Mário de Andrade tem um legado interessante e diverso. Esse legado faz a intersecção entre a cultura e política. Ele não concebia a cultura fora de uma intervenção política que visa a transformação da vida das pessoas na sociedade e de toda a humanidade. Isto é um legado muito importante para os nossos dias, em que se tende a separar a acção cultural com a vida social e política que até certo ponto mais interessa a transformação da vida das pessoas e ao progresso da própria humanidade. Para ele não havia essa dicotomia entre política e cultura. Na medida em que se acrescentam, se complementam estas duas áreas e o seu legado intelectual, passando pela intersecção destas duas áreas, leva nos à literatura, à militância política, ao pensamento intelectual que não dissocia o acto de pensar a sociedade, o acto de reflectir sobre a vida das pessoas nas sociedades, da intervenção para a transformação dessas mesmas sociedades e para o bem da humanidade. Eu julgo que é o principal ensinamento que podemos retirar do legado de Mário de Andrade, mas também o esforço para a construção da união num sentido panafricano em termos de unidade entre os povos africanos, para a concretização do grande objectivo da construção do progresso de todos os povos africanos e a partir de África, para o benefício da humanidade. Isto é uma questão também muito presente no seu pensamento, pensar a partir de África. RFI: Isto é um evento de vulto em torno de África, em torno de uma figura africana de primeiro plano que está a acontecer em Lisboa. Como é que estamos em Portugal relativamente a este passado? Sumaila Djaló: Portugal tem vários desafios a enfrentar em relação às suas responsabilidades. Também com um passado colonial muito marcado por violências de vária ordem e por subalternizações que persistem até aos dias de hoje. O passado colonial ajuda a configurar questões muito presentes, como o racismo e o neocolonialismo que também se expressa de alguma maneira nas relações entre o Estado português e as suas ex-colónias. Por isso, a figura de Mário Pinto de Andrade, tendo passado por Portugal, onde estudou e onde iniciou a primeira fase da sua militância política, mas também passado por outros países da Europa, como a França, onde teve grande impacto nos círculos panafricanos que também viriam a influenciar os movimentos de libertação na sua construção ideológica, os movimentos de libertação africanos, mas também as dinâmicas do envolvimento directo no processo das lutas de libertação a partir de Conacri, a partir de Angola, a partir da Guiné-Bissau e do envolvimento com todas estas redes transnacionais de lutas anticoloniais, ajudam-nos hoje, a partir de Portugal, também a reflectir sobre o papel que o Estado português e a sociedade portuguesa têm para a sua mobilização no sentido de superar os resquícios do colonialismo manifestados hoje regularmente, através do racismo que é muito marcado na sociedade portuguesa e que tem esse desafio de superar o racismo, mas também nas relações do Estado português com as ex-colónias africanas, onde a relação de subalternização destas ex-colónias permanece nos nossos dias e onde o espaço chamado Lusofonia tem servido como um antro da manutenção desta relação de subalternização entre Portugal e as ex-colónias. Portanto, evocar Mário Pinto de Andrade nos dias de hoje também tem esse papel, essa função de chamar a sociedade portuguesa na sua pluralidade, ao diálogo que contraria os legados do colonialismo presentes na sua sociedade. RFI: Este colóquio conta com a participação de diversos intelectuais de primeiro plano a nível de África. Há um fervilhar em termos de estudos em torno da questão pós colonial. E há também uma passagem de testemunho. Há cada vez mais estudiosos jovens que vão tentar estudar de outra forma a história de África. Sumaila Djaló: Penso que o movimento intelectual que ajudou a configurar o espaço ideológico anticolonial em África e de que fez parte numa das suas fases mais salientes, Mário Pinto de Andrade tem um legado que persiste até aos nossos dias e por isso é que tudo o que jovens estudantes, investigadores e estudiosos africanos, mas também estudiosos e investigadores da Europa e de outros cantos do mundo vão fazer a partir dos legados destas figuras proeminentes das lutas de libertação, tem também a ver com uma forma de continuidade, uma linha de pensamento que pauta pelas sociedades mais plurais e democráticas, onde a liberdade do homem e da mulher nessas sociedades estará sempre no centro, mas também um pensamento que contraria todas as formas de subalternização de povos e de menorização de culturas. E por isso, a partir deste colóquio, mobiliza-se também pessoas de várias geografias, obviamente a partir de África. Como podemos ver no programa, assinalo aqui duas conferências, a da abertura e do encerramento, a serem dirigidas por dois intelectuais africanos que passam muito pelos estudos das várias formas de pensamento africano anticolonial a partir da literatura, a partir da cultura, como a professora Inocência Mata e a partir da história e da historiografia, com o professor Jean-Michel Mabeko Tali e de outros intelectuais que vão fazer os painéis, quer da nova geração, quer de uma geração mais antiga, de intelectuais africanos e de outros cantos do mundo.
Ministra dos Negócios Estrangeiros de Moçambique conta com o apoio de Angola para superar a crise dos combustíveis. A Guiné-Bissau poderá registar em 2026 uma das piores campanhas de produção e comercialização da castanha de caju de sempre.
Esta semana, continuou a campanha para as eleições legislativas deste domingo em Cabo Verde, enquanto na Guiné-Bissau houve acordo entre a direcção do histórico PAIGC e o grupo de oposição interna. Em Moçambique, continuou a crise dos combustíveis e revelou-se que 2,4 milhões de crianças estão ou foram submetidas ao trabalho infantil no país, incluindo na mineração e garimpo. Em Nairobi, houve cimeira franco-africana e em Angola celebrou-se mais um título do Petro de Luanda. Este domingo, os cabo-verdianos são chamados às urnas para as eleições legislativas. Melhorias nos sectores dos transportes, da saúde e da educação são algumas das principais preocupações da população. Oiça aqui a reportagem da nossa enviada especial a Cabo Verde, Neidy Ribeiro na cidade da Ponta do Sol, na ilha de Santo Antão. Na Guiné-Bissau, a direção do histórico PAIGC e o grupo de oposição interna chegaram a “um entendimento” sobre a realização do próximo congresso. O acordo prevê a inclusão na comissão preparatória do congresso de dois elementos do grupo que contestavam a direcção: José Carlos Esteves, actual ministro das Obras Públicas, e Mário Musante, ministro da Energia. Em Moçambique, continua a crise dos combustíveis. No início da semana, os transportadores voltaram a paralisar a actividade em várias rotas e a exigir a revisão da tarifa do transporte ou do combustível, apesar do acordo alcançado entre o governo e a Federação Moçambicana da Associação dos Transportadores rodoviários para subsidiar o transporte. O Conselho da União Europeia prorrogou o mandato da Missão de Assistência Militar da UE em Moçambique por mais seis meses, até 31 de Dezembro de 2026. O anúncio foi feito, esta quinta-feira, em Maputo. Em Moçambique, cerca de 2,4 milhões de crianças em Moçambique estão ou já foram submetidas ao trabalho infantil, muitas delas em actividades consideradas perigosas, como a mineração artesanal e o garimpo. A situação preocupa o ministério do Trabalho, Género e Acção Social, que alerta para o agravamento do fenómeno nos últimos anos, sobretudo nas províncias de Nampula, Tete e Inhambane. A cimeira franco-africana de Nairobi, "Africa Forward", terminou esta terça-feira. Em entrevista à RFI, o Presidente francês falou nomeadamente sobre a situação na RDC e mostrou reservas sobre eventuais sanções europeias contra o Ruanda devido ao papel de Kigali na guerra no leste daquele país. Em Angola, o candidato à liderança do MPLA, Higino Carneiro, foi chamado, na quarta-feira, à Procuradoria-Geral da República para ser notificado sobre a reabertura de um processo, que já tinha sido arquivado, envolvendo uma alegada burla com viaturas. Higino Carneiro considera que há motivações políticas por detrás da convocação que surge dias depois de o Presidente angolano João Lourenço, ter formalizado a recandidatura à liderança do partido. No desporto, o Petro de Luanda sagrou-se Campeão de Angola pela quinta vez consecutiva, quando faltam ainda três jornadas para o fim da temporada. Ao microfone da RFI, Joaquim Valinho, treinador-adjunto do Petro de Luanda, disse que é uma “felicidade tremenda” ter novamente conquistado o Girabola.
A semana ficou marcada pela visita do Papa Leão XIV a Angola, por um agravamento do surto de cólera em Benguela, por denúncias envolvendo estudantes guineenses retidos em Portugal e pela situação política na Guiné-Bissau. Em Moçambique, avançam novos investimentos no gás natural, enquanto milhões continuam sem acesso a água potável. Em São Tomé e Príncipe, a crise energética mantém a população sem respostas concretas. A visita do Papa Leão XIV a Angola dominou a actualidade da semana. Durante três dias, o Sumo Pontífice passou por Luanda, Muxima e Saurimo, onde deixou críticas à corrupção, à desigualdade social e à concentração da riqueza. O líder da Igreja Católica apelou ainda a uma mudança profunda baseada na justiça social, dignidade humana e reconciliação nacional. No Santuário de Nossa Senhora da Muxima, um dos momentos centrais da visita, o Papa presidiu à oração do terço perante milhares de fiéis. Na celebração, defendeu um mundo sem guerras nem injustiças e recordou que a fé deve traduzir-se em acções concretas de solidariedade e amor ao próximo. Ainda em Angola, a província de Benguela enfrenta uma vaga de cólera agravada pelas chuvas intensas e pelo transbordo do rio Cavaco. As autoridades sanitárias alertam para o aumento de casos e de mortes, sobretudo nos municípios do litoral, enquanto decorrem campanhas de vacinação nas zonas mais afectadas. Face à crise sanitária em Benguela, o governo provincial anunciou medidas de emergência no saneamento básico. Entre as acções em curso está a construção de latrinas comunitárias nas regiões mais atingidas, no âmbito da Estratégia Nacional de Saneamento Total. Na Guiné-Bissau, continua a gerar polémica o caso de dez estudantes guineenses intercetados no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. Um dos jovem permanece retido há uma semana, apesar de viajarem com vistos válidos, cartas de admissão e comprovativos de matrícula. Seis foram repatriados e três autorizados a entrar em Portugal. Também na Guiné-Bissau, a equipa de defesa de Domingos Simões Pereira denunciou a inexistência de um processo regular no tribunal militar e acusa as autoridades de manterem o líder do PAIGC privado da liberdade em condições desumanas. Os advogados referem ainda isolamento prolongado e restrições impostas ao candidato presidencial Fernando Dias da Costa. Em Moçambique, a petrolífera estatal chinesa CNOOC deverá iniciar em breve trabalhos de prospeção e pesquisa de gás natural na bacia do Rovuma, no norte do país. O anúncio foi feito pelo Presidente Daniel Chapo durante uma visita oficial à China, onde se reuniu com o homólogo Xi Jinping. Ainda em Moçambique, a província de Nampula continua a enfrentar graves carências no acesso a água potável. Numa região com cerca de sete milhões de habitantes, grande parte da população não dispõe de abastecimento seguro, realidade reconhecida pelas autoridades provinciais. Em São Tomé e Príncipe, a crise energética mantém-se sem solução imediata. O primeiro-ministro Américo Ramos pediu desculpa à população e prometeu melhorias nas primeiras semanas de maio. No entanto, vozes críticas afirmam que os cidadãos já não acreditam em promessas e continuam a viver com cortes constantes de electricidade.
Da Guiné-Bissau a Moçambique, passando por Angola e República Centro-Africana, a actualidade africana ficou marcada por tensão política, denúncias de violações de direitos, o regresso de Manuel Chang após cumprir pena nos EUA, o debate sobre a presença militar ruandesa em Cabo Delgado, a preparação da visita do Papa Leão XIV a Angola e a libertação de um investigador luso-belga após quase dois anos de detenção. A actualidade africana da semana ficou marcada por novos desenvolvimentos políticos na Guiné-Bissau, pelo regresso de Manuel Chang a Moçambique após cumprir pena nos Estados Unidos, pelo debate sobre a presença militar ruandesa em Cabo Delgado e ainda pela preparação da visita do Papa Leão XIV a Angola. Guiné-Bissau: carta aberta denuncia situação de Domingos Simões Pereira Na Guiné-Bissau, Dionísio Simões Pereira, irmão do líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira, divulgou uma carta aberta dirigida à comunidade nacional e internacional, apelando a uma intervenção urgente para pôr termo à situação do antigo primeiro-ministro. Segundo a denúncia, Domingos Simões Pereira continua privado de liberdade desde a tomada do poder em Novembro do ano passado, que interrompeu o processo eleitoral no país. Entretanto, os sectores da sociedade civil criticaram a audiência concedida em Bruxelas, a 26 de Março, ao antigo Presidente Umaro Sissoco Embaló e ao antigo chefe de Estado senegalês Macky Sall por António Costa. Os críticos consideram que o encontro representa um sinal político favorável ao actual poder em Bissau. Ainda no país, o assassínio do activista Vigário Luís Balanta, encontrado morto a 31 de Março, continua sem esclarecimento oficial. A jurista Carmelita Pires defendeu o recurso ao Tribunal Penal Internacional, alegando inexistência de condições internas para uma investigação independente. Moçambique: Manuel Chang regressa após cumprir pena nos EUA Em Moçambique, o regresso de Manuel Chang voltou a colocar em evidência o caso das dívidas ocultas. O antigo ministro das Finanças cumpriu pena de sete anos e meio de prisão nos Estados Unidos, após condenação por conspiração para fraude electrónica e branqueamento de capitais. Detido em 2018, na África do Sul, Chang foi posteriormente extraditado para território norte-americano, onde enfrentou julgamento relacionado com o escândalo financeiro que lesou o Estado moçambicano em mais de dois mil milhões de dólares. O caso levou os parceiros internacionais a suspenderem, em 2016, a ajuda directa ao Orçamento do Estado moçambicano. Cabo Delgado: parlamento debate estratégia anti-terrorismo Também em Moçambique, o Governo apresentou no parlamento uma proposta de estratégia nacional de combate ao terrorismo na província de Cabo Delgado. O debate surge após declarações do Presidente ruandês, Paul Kagame, que admitiu retirar as tropas destacadas no norte moçambicano caso não seja assegurada a continuidade do financiamento externo. Partidos parlamentares defenderam que a soberania nacional deve permanecer sob controlo do Estado moçambicano, embora reconheçam a importância do apoio internacional no combate aos grupos armados. Angola prepara visita do Papa Leão XIV Em Angola, a visita do Papa Leão XIV, agendada para os dias 18 a 21 de Abril, está a ser apresentada como um momento de reforço diplomático entre Luanda e o Vaticano. O embaixador angolano junto da Santa Sé, Carlos Alberto Fonseca, afirmou que a deslocação poderá impulsionar a revisão do Acordo-Quadro assinado em 2019, além de abrir caminho a novos acordos de cooperação. As relações diplomáticas formais entre Angola e o Vaticano contam já com mais de 27 anos. República Centro-Africana: libertado investigador luso-belga Na República Centro-Africana, o investigador luso-belga Joseph Figueira Martin foi libertado passados quase dois anos de detenção. A libertação resultou de uma mediação diplomática conduzida por Portugal, com apoio da Bélgica e de instituições europeias. O eurodeputado Francisco Assis saudou o desfecho, considerando-o um sinal positivo da cooperação diplomática europeia no continente africano.
O ativista Sumaila Djaló condena, em entrevista à DW, o assassinato de Vigário Luís Balanta, secretário do movimento "Po di Terra", na Guiné-Bissau. Djaló afirma que “foi um crime político" e sociedade civil deve reagir.
O espancamento até à morte do activista Vigário Balanta marcou a semana na África lusófona, com a sociedade civil a pedir o apuramento das responsabilidades neste crime. O corpo do activista Vigário Luís Balanta, representante do Movimento Revolucionário Pó de Terra, foi descoberto no início da semana com sinais de espancamento a cerca de 30 quilómetros de Bissau. Desde a tomada de poder pelos militares em Novembro de 2025 an Guiné-Bissau, que Vigário Balanta se tinha vindo a destacar como uma das figuras mais activas na denúncia do regime militar e defesa das liberdades cívicas no país. Para Armando Lona, coordenador da Frente Popular, entrevistado por Lígia Anjos, trata-se de "uma grande perda" para a Guiné-Bissau. Ao mesmo tempo que os primeiros rumores do desaparecimento e morte de Vigário Balanta começaram a correr em Bissau, as rádios privadas guinenses foram temporariamente fechadas pelo Governo de transição devido a uma alegada falta de pagamento de licença de emissão. O encerramento durou entre terça e quarta-feira, como relatou o nosso correspondente Mussá Baldé. Para Armando Lona, coordenador da Frente Popular, esta foi uma decisão política e não ligada às licenças, sendo que não serve de nada já que as notícias são agora difundidas e comentadas nas redes sociais, não sendo possível privar o povo de saber o que se passa no país. As autoridades guineenses condenaram a morte “em circunstâncias particularmente violentas” de Vigário Luís Balanta. O Governo de transição disse ter tomado conhecimento “com profunda consternação e viva indignação” do que considera ser um “lamentável e condenável acontecimento”. Para o jurista senegalês e perito independente junto da ONU, Alioune Tine, presente na Guiné-Bissau aquando o assassinato de Vigário Balanta, tratou-se de “crime internacional” e uma caso de “execução extrajudicial” para intimidar a sociedade civil do país, como disse em entrevista a Lígia Anjos. A Liga Guineense dos Direitos Humanos reagiu com profunda consternação ao assassínio do activista político Vigário Luís Balanta, classificando-o como uma execução sumária marcada por extrema brutalidade. Segundo Bubacar Turé, presidente da liga em, este acto envia uma mensagem clara de insegurança generalizada num país onde “ninguém está a salvo”, comod escreveue m entrevista a Cristiana Soares. Na quinta-feira realizaram-se as cerimónias fúnebres de Vigário Luís Balanta levando centenas de pessoas às ruas de Bissau com palavras de ordem como liberdade e democracia.
Vigário Luís Balanta foi espancado até à morte; porta-voz do movimento Po di Terra, ele foi um dos apoiadores das marchas de dezembro para pedir restauração da ordem constitucional após o golpe de Estado no país, em 26 de novembro de 2025.
A crise no abastecimento de gás do Qatar e do Irão está a colocar Moçambique no centro do interesse internacional como alternativa energética. Enquanto isso, Cabo Verde enfrenta escassez de gás butano, e a Guiné-Bissau agrava tensões diplomáticas com Portugal após declarações do órgão de transição. Em Angola, o julgamento do caso dos “espiões russos” foi adiado, ao mesmo tempo que preocupações climáticas em Moçambique e protestos sociais em São Tomé e Príncipe marcam a actualidade africana. O bloqueio do gás vindo do Qatar e do Irão está a levar muitos países a olharem para Moçambique e para a sua produção de gás natural liquefeito como uma alternativa viável para o abastecimento desta matéria prima essencial. Segundo o politólogo moçambicano, Fidel Terenciano, Moçambique não está preparado para o interesse internacional crescente no gás natural liquefeito existente no país, o maior projecto africano de gás que se localiza na Bacia do Rovuma. Por seu turno, a ministra das Finanças moçambicana, Carla Louveira, assegura que o governo acompanha com atenção e preocupação a evolução do conflito no Médio Oriente, transmitindo uma mensagem de confiança na capacidade de resposta nacional. No que diz respeito a Cabo-Verde, o Presidente da República pediu esclarecimentos às petrolíferas e ao Governo sobre a escassez de gás butano em várias ilhas de Cabo Verde que tem provocado longas filas em diferentes postos de combustíveis. Por enquanto, José Maria Neves afirmou que as únicas informações que tem sobre a ruptura de gás no país são aquelas que passam na imprensa e pediu esclarecimentos às petrolíferas e ao governo. Na Guiné Bissau o Conselho Nacional de Transição (CNT), órgão criado pelos militares para substituir as competências do Parlamento insurgiu-se contra o que considera de “hostilidade deliberada” e “diplomacia de conluio de corredor” de Portugal. O órgão guineense visa todo o Governo português, mas com ênfase no Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Paulo Rangel. Segundo Fernando Vaz, porta-voz do CNT Portugal deve saber que o golpe de Estado é uma realidade e que a Guiné-Bissau é agora gerida pelo CNT e pelo Alto Comando Militar. Em Angola, foi adiado para 14 de Abril o julgamento do chamado caso dos "espiões russos", envolvendo dois cidadãos nacionais e dois russos, designadamente acusados de terrorismo e espionagem. Segundo o advogado de defesa David Guz, este adiamento teve como base a submissão de questões prévias no arranque da audiência. Ainda sobre este julgamento e na opinião do presidente da Associação Justiça, Paz e Democracia de Angola, Serra Bango, o processo ocorre num momento particularmente sensível, após os tumultos de Julho, sublinhando que “é preciso que a acusação apresente provas concretas e não meras especulações”. Esta Semana em África ficou marcada igualmente com as preocupações climáticas vindas de Moçambique. O Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) apresentou, em Maputo, o relatório sobre o estado do clima relativo ao último ano. Um documento apresentado pelo climatologista Isaías Raiva, onde se destaca um aumento generalizado das temperaturas e da intensidade da precipitação no país. Por fim centramos as atenções para São Tomé e Principe onde o nosso correspondente Maximino Carlos nos relata que as estradas degradadas são motivo de protestos de moradores de várias comunidades de São Tomé e Príncipe. A população denuncia promessas não cumpridas e exploração de recursos. O Governo promete retomar obras e prestar esclarecimentos.
Líder do Instituto de Saúde Global e Desenvolvimento aponta desigualdade entre alto número de mulheres operadoras e fornecedoras de serviços e poucas administradoras no sistema; Magda Robalo vê sociedades melhores com mais participação feminina entre administradores do sistema.
Moçambique aprova novas leis da comunicação social sob polémica: críticos apontam restrições aos órgãos internacionais. A Guiné-Bissau registou a maior queda no índice da Freedom House após golpe militar de 2025. Para compreender melhor o impacto ouvimos Bubacar Turé, presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos.
No dia 5 da guerra no Médio Oriente, NATO interceta míssil iraniano no espaço aéreo da Turquia. Envolvidos no desvio de fundos para apoio às vítimas das cheias em Moçambique devem ser responsabilizados, diz analista. "Manelinho" denuncia perseguição a deputados que criticam a Junta Militar no poder na Guiné-Bissau.
Esta semana damos destaque para a detenção de um antigo conselheiro presidencial em São Tomé e Príncipe, novos desenvolvimentos judiciais em Moçambique e na Guiné-Bissau, as graves inundações em Angola e as preocupações com os direitos e liberdades no país, além da próxima visita do Papa a África Em São Tomé e Príncipe, o cidadão sueco Carlsson Magnus foi detido na ilha do Príncipe por uma brigada da Interpol, em colaboração com a Polícia Judiciária são-tomense. O arguido detinha passaporte diplomático são-tomense desde Dezembro de 2025 e foi exonerado pelo Presidente da República no passado dia 4 de Fevereiro. O Chefe de Estado, Carlos Vila Nova, afirmou aguardar com serenidade a decisão judicial e confirmou que o antigo conselheiro é acusado de ofensas corporais graves, detenção e uso de armas proibidas e violação sexual grave. Ainda no plano institucional, Artur Vera Cruz foi eleito novo presidente do Tribunal Constitucional. Na cerimónia de tomada de posse, garantiu que a instituição vai pautar a sua actuação pelo estrito cumprimento da Constituição. Também o presidente da Assembleia Nacional, Abnildo de Oliveira, sublinhou a importância do papel do Tribunal Constitucional no equilíbrio dos poderes e na defesa da legalidade democrática. Moçambique: detenções por desvio de donativos e combate à corrupção Subiu para dez o número de agentes e funcionários públicos detidos por alegado desvio de donativos destinados às vítimas das cheias na província de Gaza, no sul de Moçambique. O porta-voz do Serviço Nacional de Investigação Criminal em Gaza, Zaqueu Mucambe, admite que o número de detidos poderá aumentar, numa investigação que continua em curso. No mesmo país, foram igualmente detidos o antigo director-geral das Linhas Aéreas de Moçambique, João Pó Jorge, o director das Finanças e o chefe da tesouraria da companhia aérea estatal. As detenções ocorreram no mesmo dia em que o Presidente da República deixou um aviso claro quanto ao lugar dos corruptos, reforçando a mensagem de tolerância zero face à corrupção. Angola: cheias devastadoras e alerta sobre direitos e liberdades As chuvas torrenciais que continuam a atingir várias regiões de Angola estão a provocar inundações, destruição de infra-estruturas e o desalojamento de centenas de famílias. Na província do Cunene, mais de mil famílias ficaram sem casa. Bairros inteiros encontram-se submersos, com escolas e outras infra-estruturas seriamente danificadas. A situação dos direitos e liberdades no país também está sob escrutínio. Um relatório semestral das organizações não-governamentais Movimento Cívico MUDEI, Associação Handeka e Mizangala Tu Yenu Kupolo denuncia o agravamento da repressão da liberdade de expressão e da participação cívica e política. As organizações acusam as forças de segurança de actuações ilegais, em particular durante a greve dos táxis, em Julho de 2025, que ficou marcada por episódios de violência e provocou 22 mortos, entre os quais três menores.O jurista Jaime Mussinda, do MUDEI, acusa as autoridades de não garantirem justiça às vítimas. Entretanto, o Papa vai visitar Angola de 18 a 21 de Abril de 2026. Vai ser recebido pelo Chefe de Estado, celebrará missas no Kilamba e em Saurimo e visitará o santuário da Muxima. A viagem apostólica inclui ainda passagens pela Argélia e pelos Camarões, antes de terminar na Guiné Equatorial. Guiné-Bissau: julgamento por tentativa de golpe na fase final Na Guiné-Bissau, entrou na fase final o julgamento do antigo chefe da Armada, acusado de tentativa de golpe de Estado em 2022. O Ministério Público Militar pede uma pena efectiva de seis anos de prisão para Bubo Na Tchuto, enquanto a defesa requer a absolvição. A decisão do tribunal é aguardada com expectativa num país marcado por sucessivas crises político-militares.
Em Moçambique foram confirmadas detenções relacionadas com esquemas de corrupção na LAM (Linhas Aéreas de Moçambique). Guiné-Bissau: três meses após a intervenção militar que travou o processo eleitoral, vive-se uma das fases políticas mais tensas dos últimos anos. Terminou esta quinta-feira a primeira visita oficial do chanceler alemão Friedrich Merz à China.
Mais de 60% das vítimas identificadas de tráfico humano na região são menores; Türk pede união das nações para garantir plena implementação da Convenção sobre os Direitos da Criança; Guiné-Bissau integra lista.
O Presidente de Moçambique elogiou a liderança angolana na 39.ª Cimeira da União Africana, destacando os esforços de paz e a necessidade de África reforçar a sua influência, nomeadamente no Conselho de Segurança da ONU. A transição na Guiné-Bissau gera tensões na CPLP e, em Angola, um jornalista denuncia um alegado caso de espionagem com recurso ao sistema “Predator”. A 39.ª Cimeira da União Africana ficou marcada por um balanço positivo da presidência angolana, pela reafirmação dos desafios das alterações climáticas e pelo apelo a uma maior representação africana no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O Presidente de Moçambique, Daniel Chapo, considerou “excelente” a liderança de Angola, destacando o empenho de João Lourenço na promoção da paz, em particular no leste da República Democrática do Congo. A cimeira deu especial atenção às infra-estruturas e à gestão da água, sem descurar as questões de paz e segurança. Daniel Chapo defendeu ainda que África deve organizar-se para garantir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e reforçar a sua influência nos centros de decisão internacionais. Em Adis Abeba, uma reunião de alto nível, promovida pela Libéria, permitiu concertar posições africanas sobre a sucessão de António Guterres na liderança das Nações Unidas. O mandato termina a 31 de Dezembro e o processo de escolha do novo secretário-geral arranca a 1 de Abril. Diplomatas sublinham a importância de uma estratégia comum do continente. Na Guiné-Bissau, o enviado especial da União Africana, o antigo primeiro-ministro são-tomense, Patrício Trovoada, iniciou contactos no âmbito da crise política desencadeada pela tomada do poder pelos militares a 26 de Novembro. O responsável reconheceu que há “muito para fazer” na transição para uma ordem constitucional legítima e recusou comentar críticas sobre alegadas proximidades ao Presidente Umaro Sissoco Embaló. A situação em Bissau tem provocado tensões na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O porta-voz do Conselho Nacional de Transição acusou Cabo Verde, Angola e Timor-Leste de ingerência. Para Pedro Seabra, do ISCTE, regimes saídos de golpes de Estado tendem a usar críticas externas para reforçar a sua legitimidade interna e consolidar a narrativa de estabilidade. Em Angola, o jornalista Teixeira Cândido denunciou ter sido alvo de espionagem através do sistema informático “Predator”, alegadamente utilizado para aceder ao seu telemóvel. A Amnistia Internacional classificou o caso como uma grave violação do direito à privacidade. O jornalista anunciou que apresentará queixa junto do Ministério Público, enquanto persistem suspeitas sobre um eventual envolvimento de entidades estatais.
Jornal da ONU com Monica Grayley. Esses são os destaques desta quinta-feira, 19 de fevereiro:Relatório de Missão Independente alerta para evidências de genocídio no SudãoOMS soa alerta sobre ensaio clínico de vacina na Guiné-Bissau
Ensaio clínico do imunizante para recém-nascidos apresenta lacunas éticas e científicas preocupantes; agência da ONU alerta que alguns bebês participantes não receberiam a vacinação, ficando expostos a riscos desnecessários; nação de língua portuguesa suspendeu estudo.
Moçambique: Sistema Nacional de Saúde está a sucumbir e ONG defende muito mais do que uma resposta estrutural. A Guiné-Bissau pode reclamar a devolução dos 5 milhões de euros apreendidos no jato que transportava a esposa do ex-Presidente Embaló? Angola: No município de Porto Amboim, a água tornou-se num negócio para a administração local.
Radar DW: Será que Umaro Sissoco Embaló está prestes a regressar à Guiné-Bissau, após o golpe de Estado? E como será o futuro de Domingos Simões Pereira?
Moçambique em alerta máximo: a tempestade tropical severa Gezani aproxima se e pode tornar se ciclone. Guiné Bissau: a menos de 24 horas da audição no tribunal militar, Domingos Simões Pereira recebe finalmente autorização para contactar os seus advogados.Angola: cresce o ceticismo em torno da nova ministra da Educação, desafiada a enfrentar o elevado número de crianças fora da escola.
CPLP vai enviar missão de alto nível para a Guiné-Bissau: a visita é "importante" porém chega "tarde", diz ativista dos direitos humanos. Em Moçambique, António Muchanga pode estar a forçar a sua própria suspensão da RENAMO, alerta analista. Ainda neste jornal, acompanhe, em exclusivo, o relato de um jovem são-tomense que acusa a polícia portuguesa de agressão.
Embaixador da União Europeia na Guiné-Bissau expulso da Casa dos Direitos pela polícia durante visita: incidente pode manchar relações diplomáticas, diz analista. Em Portugal, diáspora africana suspira de alívio com a vitória de António José Seguro nas presidenciais. Ainda neste jornal conhecemos relatos de quem passou pela rota de migração mais perigosa do mundo.
Diáspora guineense mobiliza manifestação em Bruxelas para chamar a atenção internacional para a situação política na Guiné Bissau. Em Moçambique, mulheres de Cabo Delgado expõem vulnerabilidades no contexto dos ataques terroristas. EUA e o Irão retomam hoje conversações sobre questões nucleares.
Agência indica progressos em iniciativas desenvolvidas ao longo do ano no Brasil, na Guiné-Bissau, em Timor-Leste e em Moçambique; avanços incluem cobertura de saúde, vacinação e resposta a emergências.
Guiné-Bissau: Jurista acusa o Alto Comando Militar de "forçar uma realidade" ao povo. Colapso da democracia na Guiné-Bissau só pode ser revertido com intervenção da comunidade internacional, defende ex-ministra guineense. Será que terminou "o sonho americano" para os angolanos e cabo-verdianos com as elevadas cauções impostas por Washington para o acesso ao visto?
Quase metade de Gaza submersa: cheias no sul de Moçambique deixam Xai Xai em estado crítico. Chefe da diplomacia portuguesa considera "bastante grave" nova Constituição e preocupante haver detidos na Guiné-Bissau. Chimoio vive dias de terror com ataques mortais de grupos armados com catanas.
Donald Trump está muito interessado nas eleições presidencias em Honduras, ao ponto de libertar um ex-presidente do país, condenado por tráfico de drogas nos EUA.Também repercutimos as últimas atualizações do golpe de estado em Guiné-Bissau e da guerra na Ucrânia.Aprenda tecnologia com a Alura com nosso desconto: https://alura.tv/xadrezverbalUse o cupom XADREZVERBAL50 para ter 50% de desconto no plano de saúde do seu pet na Petlove: https://petlovebr.com/xadrezverbalCampanha e comunicado sobre nosso amigo Pirulla: https://www.pirulla.com.br/