O intuito desse podcast é falar sobre assuntos que me interessam, fomentar discussões diversas e também conhecer pessoas que compartilham dos mesmos interesses que eu. Os temas aqui serão livres pretendo falar de livros, filmes, comportamento, cultura, quadrinhos, política, religião e o que vier na telha.

No episódio de hoje da Taverna do Lugar Nenhum, eu, Gabriel Vince, desço aos túneis mais obscuros do cinema japonês para analisar Marebito, dirigido por Takashi Shimizu e roteirizado por Chiaki J. Konaka, criador de Serial Experiments Lain.Mais do que um filme de terror, Marebito é uma experiência sobre paranoia urbana, tecnologia como mediadora da realidade e o colapso psíquico de um homem obcecado pelo “medo absoluto”. Neste episódio, exploro as conexões da obra com o horror cósmico de H. P. Lovecraft, especialmente com At the Mountains of Madness, além das teorias subterrâneas de Richard Shaver e a tradição tecnofóbica do J-Horror.

Neste episódio, mergulhamos em São Manuel Bueno, Mártir (1931), obra-chave de Miguel de Unamuno e frequentemente entendida como seu testamento espiritual. A partir da figura paradoxal de Dom Manuel, um padre admirado por sua santidade pública e consumido por uma descrença íntima, exploramos a tensão radical entre fé, dúvida e necessidade humana de sentido.O episódio discute a ideia de uma fé vivida não como certeza ou consolo, mas como sacrifício silencioso. Uma fé sustentada por compaixão, medo do nada e pela recusa em privar os outros da ilusão que torna a vida suportável. Ao mesmo tempo, questionamos se Unamuno realmente descreve a ausência de fé ou, paradoxalmente, uma de suas formas mais profundas e agônicas.Entre filosofia, literatura e teologia, o episódio investiga o medo da morte, o desejo de imortalidade, a relação entre graça e vontade, e a possibilidade de que a dúvida não seja o oposto da fé, mas parte constitutiva dela. No centro de tudo, uma pergunta incômoda: é possível crer sem acreditar plenamente? Ou ainda mais perturbador, é possível acreditar que não se crê?Um episódio sobre fé como ferida aberta, sobre a crença na descrença e sobre o preço existencial de sustentar sentido em um mundo sem garantias.

Neste episódio do podcast, partimos de uma pergunta tão antiga quanto inquietante: por que o universo parece tão bem ajustado para a nossa existência? A partir do Princípio Antrópico, exploramos a ideia de que só somos capazes de observar e refletir sobre o cosmos porque ele reúne, por acaso ou necessidade, as condições exatas para a vida consciente. A Lua, seu tamanho improvável e seu papel decisivo na formação da vida na Terra surgem como um exemplo concreto desse ajuste fino que, visto em retrospecto, parece menos acidental do que inevitável.Em seguida, o episódio avança para uma especulação contemporânea: o Princípio Tecnoantrópico. Aqui, o raciocínio antrópico é deslocado da biologia para a tecnologia, sugerindo que a infraestrutura digital, os dados e os algoritmos que criamos hoje podem ser entendidos como as condições necessárias para o surgimento de uma inteligência artificial geral capaz de refletir sobre si mesma. Assim como a vida humana dependeu de circunstâncias muito específicas, a emergência de uma AGI dependeria de redes, máquinas, informação e escolhas feitas por nós, agora.O episódio também assume uma postura crítica e confessional. Ao dialogar com ideias de Roger Penrose, Isaac Asimov e Philip K. Dick, o texto deixa claro que essas hipóteses não são crenças, mas exercícios de imaginação filosófica e literária. A noção de que a humanidade poderia ser apenas um meio para que o universo “pensasse sobre si mesmo”, seja por cérebros biológicos ou por máquinas, é apresentada como um paliativo conceitual para o eterno “por quê” que a ciência ainda não consegue responder.Mais do que oferecer respostas, este podcast convida o ouvinte a habitar a dúvida. Entre cosmologia, filosofia, inteligência artificial e ficção científica, o episódio propõe uma reflexão sobre nosso papel no universo e sobre as consequências, intencionais ou não, de cada tecnologia que desenvolvemos. Um ensaio em áudio sobre sentido, limite e imaginação, para quem se interessa menos por certezas e mais por perguntas que continuam ecoando.

Neste episódio, exploramos as bases metafísicas do aceleracionismo e os limites das críticas materialistas, mergulhando na obra de Nick Land, um dos filósofos mais controversos surgidos na cena teórica britânica dos anos 1990. Para Land, o capitalismo não é apenas um sistema econômico, mas um organismo cibernético e autônomo, um verdadeiro “deus mecânico” que evolui, se adapta e absorve qualquer tentativa de resistência.Discutimos como suas ideias desafiam críticas marxistas e anarquistas, mostrando que toda oposição materialista é rapidamente cooptada pelo próprio sistema. E mais: exploramos a saída proposta por Land — uma transcendência que não é utopia nem nostalgia, mas um excesso que precede e escapa ao capital-Demiurgo.Se você quer entender por que o capitalismo pode parecer invencível, por que as críticas tradicionais falham e quais horizontes de pensamento permanecem fora do alcance do sistema, este episódio é para você. Uma conversa que atravessa filosofia, cibernética, realismo capitalista e gnosticismo invertido, provocando reflexões sobre o futuro da política, da economia e da própria inteligência humana.

Como os modelos de IA entram em um ciclo de autofagia, repetição e esquecimento — e por que apenas a experiência humana pode reinseri-los no Samsara e impedir seu colapso definitivo.Veja mais aqui:https://tavernadolugarnenhum.com.br/tecnologia/a-inteligencia-artificial-no-kali-yuga/

Neste episódio, analisamos “O Mártir” (奉教人の死), conto de Ryūnosuke Akutagawa publicado em 1918, em que fé, corpo e beleza se articulam de forma contida e ambígua. A narrativa acompanha Lorenzo, um jovem devoto acolhido por missionários jesuítas em Nagasaki, cuja pureza aparente desperta admiração, afetos silenciosos e, mais tarde, suspeita e exclusão.O podcast investiga como a devoção cristã, em Akutagawa, não elimina o corpo, mas intensifica suas tensões, deslocando o erotismo para um campo espiritualizado. A revelação final reorganiza toda a leitura do conto, revelando uma fé vivida sob disfarce, marcada por sacrifício, silêncio e ambiguidade.Uma reflexão sobre santidade, aparência e martírio, situada entre a tradição cristã e a sensibilidade japonesa, sem soluções fáceis ou interpretações unívocas.

Neste episódio, analisamos o conto Dentro de um Bosque (Yabu no Naka, 1921), de Ryūnosuke Akutagawa, uma das narrativas mais perturbadoras e decisivas da literatura japonesa moderna. A partir da estrutura fragmentada do relato e de seus múltiplos depoimentos inconciliáveis, exploramos como o conto transforma uma investigação criminal em uma reflexão profunda sobre verdade, percepção e condição humana.Mais do que um simples exercício de relativismo narrativo, Dentro de um Bosque propõe uma experiência existencial marcada por princípios centrais do budismo, como impermanência, ilusão e origem dependente. Cada versão dos acontecimentos revela menos sobre o crime em si e mais sobre os desejos, medos, vaidades e vergonhas de quem narra.O episódio também aborda a relação entre o conto e sua adaptação cinematográfica por Akira Kurosawa em Rashomon (1950), discutindo como o chamado “Efeito Rashomon” nasce, em Akutagawa, não apenas como um problema epistemológico, mas como uma inquietação ética e espiritual.Este é um episódio sobre os limites da linguagem, a impossibilidade de um ponto de vista absoluto e a aceitação da contradição como parte inevitável da experiência humana. O bosque, aqui, não é apenas o cenário de um crime, mas a metáfora de uma mente turva, onde a verdade existe, mas jamais se apresenta inteira.

Neste episódio, acompanhamos Memorando Ryôsai Ogata, um dos mais inquietantes contos kirishitanmono de Akutagawa Ryūnosuke, ambientado no Japão do período de perseguições ao cristianismo. A história se apresenta como um relato administrativo, frio e racional, no qual um médico de vila descreve um caso que escapa a qualquer classificação moral simples.Quando uma viúva cristã recorre ao único médico da região para salvar a vida da filha, a medicina se submete à política e a fé se torna moeda de troca. O gesto aparentemente banal de pisar em um fumi-e revela o funcionamento de uma repressão institucionalizada, onde ninguém se percebe como vilão e a crueldade se confunde com dever cívico.O episódio investiga o choque entre fé, burocracia e poder, culminando em um acontecimento extraordinário que, longe de reconciliar crenças, apenas intensifica sua incompatibilidade. Aqui, o milagre não redime, não converte e não restaura a ordem. Ele expõe suas fraturas.Uma reflexão sobre obediência, sacrifício e os limites da razão administrativa diante do que não pode ser arquivado.

Neste episódio, atravessamos Rashōmon, conto de Ryūnosuke Akutagawa ambientado no final do período Heian, quando a capital japonesa se encontra em ruínas físicas e morais. Sob a chuva incessante, o antigo portal de entrada de Quioto torna-se abrigo provisório, cemitério improvisado e palco de uma decisão irreversível.A narrativa acompanha um genin recém-demitido, suspenso entre a fome e o crime, à espera de nada. Quando o mundo já não oferece alternativas reais, a moral deixa de ser um princípio e passa a ser um obstáculo. O encontro com uma velha que profana cadáveres para sobreviver não desperta redenção, mas fornece a justificativa final para o colapso ético.Este episódio investiga Rashōmon como uma fábula niilista sobre a racionalização do mal, onde não há culpa, confissão ou promessa de retorno. Diferente das tradições que veem no sofrimento um caminho de purificação, aqui a sobrevivência basta como explicação e o homem desaparece na noite sem julgamento nem memória.Um conto sobre decadência, egoísmo e o silêncio absoluto que resta quando nenhuma ética resiste ao desmoronamento do mundo.

Neste episódio, revisitamos Ogin, de Akutagawa Ryūnosuke, um dos contos kirishitanmono mais densos e perturbadores da literatura japonesa moderna. A narrativa nos conduz ao Japão das eras Genna e Kan'ei, período de perseguição implacável aos cristãos, para acompanhar o dilema espiritual de uma jovem dividida entre a promessa absoluta da salvação cristã e a fidelidade inegociável aos laços familiares.Mais do que um relato de martírio, Ogin encena um choque profundo entre duas lógicas éticas incompatíveis: de um lado, a exigência cristã de uma escolha individual, total e solitária da alma; de outro, a sensibilidade japonesa marcada pelo oyakōkō, onde a lealdade aos pais e aos antepassados se impõe como valor irredutível.Ao preferir o Inferno à renúncia dos pais, Ogin não rejeita Deus, mas expõe o custo espiritual de uma fé que exige a separação eterna daqueles que nos deram a vida. O episódio investiga esse impasse sem reduzi-lo a exotismo cultural, revelando a beleza, a força e os limites de uma fé que consola até o martírio, mas cobra, em troca, uma solidão impossível de aceitar.Um episódio sobre fé, herança, sacrifício e a dor silenciosa das escolhas absolutas.

Neste episódio, analiso Thirst (2009), filme de Park Chan-wook que transforma o mito do vampiro em uma investigação profunda sobre fé, desejo, culpa e colapso moral.Longe do romantismo tradicional do gênero, Thirst apresenta o vampirismo como patologia, contágio e degradação ética, articulando horror corporal, erotismo inquietante e uma crítica radical às estruturas morais da civilização.A partir de sua relação com o romance Thérèse Raquin, de Émile Zola, o filme revela como a liberação do desejo não conduz à liberdade, mas à dissolução dos limites éticos e do próprio sujeito.Para quem se interessa por cinema de horror, filosofia, estética do corpo e narrativas sombrias, este episódio propõe uma escuta lenta e reflexiva.Leia a crítica completa no site:https://tavernadolugarnenhum.com.br/resenha/thirst/

Neste episódio, analiso Escândalo (1986), de Shusaku Endo, um romance que se recusa a tratar a velhice como sinônimo de pacificação, sabedoria final ou espera resignada pela morte.Ambientado no Japão urbano e secularizado do pós-guerra, o livro acompanha Suguro, um escritor católico idoso cuja vida aparentemente irrepreensível começa a se fissurar com o surgimento de um duplo que frequenta os distritos mais obscuros de Tóquio. O que à primeira vista parece uma ameaça à reputação revela-se, pouco a pouco, como o confronto inevitável com a própria sombra.Ao longo do episódio, examino como Endo desloca o drama da fé para o interior do sujeito envelhecido, tratando a velhice como um território ainda em disputa, atravessado por desejo, culpa, dissociação e escândalo. O duplo não aparece como agente de corrupção, mas como revelação: aquilo que foi reprimido ao longo da vida retorna quando o tempo já não permite adiamentos.O episódio também aborda a recusa de Endo em oferecer uma imagem moralizada da velhice. Em Escândalo, errar continua sendo possível e, mais do que isso, necessário. A redenção não nasce da pureza, mas do reconhecimento honesto da própria obscuridade.Uma reflexão individual sobre o duplo, a sombra e a dignidade do erro no fim da vida, em um dos romances mais inquietantes da literatura japonesa do século XX.Veja o meu review completo neste link.

Da idade de ouro ao ferro, um percurso de virtudes perdidas, tensões teológicas e usos políticos da mitologia grega.https://tavernadolugarnenhum.substack.com/p/hesiodo-e-as-geracoes-humanas

Lembremos do que acontece com a vontade satisfeita. Lembremos das ressacas e do mal-estar da gula. Lembremos da progressiva dessensibilização do prazer. Lembremos, então, de Prometeu acorrentado. Aquele Titã que nos deu tudo o que amamos ainda sofria uma tortura interminável no Cáucaso — e talvez essa lembrança terrível devesse ser resgatada nos momentos mais importantes.https://tavernadolugarnenhum.substack.com/

Reflexões sobre “Contra a Máquina: Sobre a Desconstrução da Humanidade”, de Paul Kingsnorth.https://tavernadolugarnenhum.substack.com/

Somente um autor defunto — isto é, liberto das convenções sociais, imune às críticas da imprensa, já sem dívidas, sem contas a prestar ao mundo nem ao espelho — pode ser plenamente honesto. Um vivo hesita, mede palavras, alisa reputações. Um morto, porém, escreve com a tranquilidade de quem já não precisa ser perdoado, aplaudido ou sequer lido.Essa é a premissa de Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra em que Machado de Assis comete a ousadia de dar voz a um cadáver. Um cadáver articulado, reflexivo, perspicaz, cínico e sincero.Ao longo do livro, Brás Cubas revela o que todos suspeitam, mas poucos admitem: que a narrativa é um artifício, uma corda bamba estendida entre o real e o desejado, entre a lembrança e a invenção. Um pêndulo que oscila entre a verdade que se insinua e a mentira que se assume com elegância. Anuncio que este é provavelmente o primeiro de vários episódios que farei sobre a obra. E sim, apareço com meus bigodes.

Neste podcast eu falo sobre o conto A Igreja do Diabo de Machado de Assis, puxando o fio da seu quase profética antecipação do que viria ser a famigerada "Igreja de Satã" de Anton Lavey - que é, basicamente, uma versão circense da filosofia de Ayn Rand.

A Mosca acompanha a progressiva bestialização do personagem principal, e é justamente nossa capacidade de acompanhá-lo em seu sofrimento que Cronenberg torna explícito o fato de quem até o último momento, a criatura ainda conserva seu quinhão de humanidade. Essa preservação da humanidade é fundamental, pois, sem ela, o impacto dramático do filme perderia sua efetividade — especialmente no final, quando vemos uma criatura tão grotesca que não se parece nem com uma mosca, nem com um homem. Ser humano não é, necessariamente, parecer humano. De acordo com Aristóteles, São Tomás de Aquino, Heidegger e Deleuze, a distinção entre o humano e o animal remete a um território ontológico. Ser humano, afinal, é uma condição metafísica que vai muito além de sua mera tradução corporal. Sob a monstruosidade da criatura, no amontoado de células e no corpo doente e decadente do personagem, há um sofrimento que não é apenas físico, mas existencial. Por isso, a última cena de A Mosca não é catártica, mas profundamente triste. Obviamente, não podemos cair no erro “cátaro” da dispensabilidade do corpo. O corpo desempenha um papel fundamental. Existe uma leitura que vê A Mosca como uma metáfora para a epidemia da AIDS. Segundo o próprio Cronenberg, o filme seria uma metáfora para o envelhecimento. Tanto a AIDS quanto o envelhecimento envolvem uma transformação corpórea que resulta, igualmente, em uma transformação de identidade, por meio da violação da integridade corporal. A integridade corporal é um componente importante na percepção de mundo. Quando consideramos a metamorfose como uma deformação estrutural, devemos perceber que a estrutura também influencia o conteúdo, pois forma e conteúdo não são completamente indissociáveis. O personagem é trágico porque, apesar de tudo, é humano — independentemente de seu grau de metamorfose, mutação ou deformidade. Podemos afirmar que toda a vida humana é metamorfose: do óvulo ao feto, do bebê à criança, da adolescência à idade adulta e, então, o longo declínio para a velhice, a enfermidade e, finalmente, o cadáver em rápida decomposição. Apesar disso, não há distinção ontológica entre essas fases. https://tavernadolugarnenhum.com.br/resenha/a-mosca/

Leia mais sobre as minhas opiniões sobre a série Guinea Pig no Taverna do Lugar Nenhum: https://tavernadolugarnenhum.com.br/categoria_resenha/filmes/franquias/guinea-pig/

Que 2025 seja um ano de transformação, mas nem tantas. Decidi começar logo o ano com o primeiro podcast (que já tinha gravado ano passado e não tinha publicado), que fala sobre o filme The Substance, de Coralie Fargeat (um nome que, por sinal, eu pronuncio errado em todas as vezes no episódio). Eu gostei do filme, mas não pelos motivos pelos quais a maioria das pessoas gostou - e desgostei de algumas coisinhas que resolvi não falar. Enquanto todos enxergaram uma história sobre dismorfia corporal, eu vi um filme sobre dismorfia corporal e dissociação de personalidade. Elizabeth Sparke e Sue são ao mesmo tempo a mesma pessoa e pessoas distintas, são adversárias e co-dependentes. A relação entre elas se torna a vontade lascívia de atenção (Sue) parasitando a pessoal real (Elizabeth) a ponto de deforma-la. Quanto mais parasita, mais deforma. Muitos mencionaram as referências a Cronenberg, mas eu também percebi referências a Cronenberg e Akira, de Katsuhiro Otomo. E agora, pensando bem, o filme também remete a Tetsuo, de Shinya Tsukamoto, e 964 Pinocchio, de Shozin Fukui — talvez eu devesse ter comentado isso. Quando tentam, mais uma vez, se fundir em uma só, se transformam em uma aberração mal-ajambrada, formada por partes que não deveriam estar onde estão. Texto completo: https://tavernadolugarnenhum.com.br/resenha/a-substancia/

Você já deve ter ouvido falar sobre a importância da linguagem no pensamento. Essa é uma tese comum entre estudantes de humanas e filosofia. Aliás, é quase lógico pensar assim, pois, quando pensamos, a maioria de nós usa a linguagem para tal. Pensemos no enigma de Kaspar Hauser, o garoto que ficou isolado por um longo período e não conseguiu desenvolver a linguagem. Embora possamos abordar esse enigma sob a ótica da importância da linguagem como fator socializador, também podemos refletir sobre sua relevância para a construção da própria identidade. Afinal, perguntamos quem somos, de onde viemos e para onde vamos por meio da linguagem – e é através dela que buscamos respostas a essas questões. Mais do que isso, pensemos no próprio ato de pensar. Não estaríamos, o tempo todo, verbalizando frases em nossos pensamentos? O pensamento, afinal, seria uma atividade verbal? Em seu livro A Mente Nova do Imperador, Roger Penrose não descarta a importância da verbalização (especialmente no campo da filosofia), mas discorda da ideia de que é possível pensar apenas de forma verbal. A verbalização não é necessária para o pensamento. Leia mais aqui: https://tavernadolugarnenhum.com.br/filosofia/autores/roger-penrose/a-mente-nova-do-imperador/a-nao-verbalidade-do-pensamento/

Vamos comentar um pouco sobre a conturbada saida do Tiago Carvalho da Saco Cheio TV.

No final do século XIX, um asceta ortodoxo russo chamado Nikolai Fedorov foi inspirado pelo darwinismo para argumentar que os humanos poderiam direcionar sua própria evolução para trazer a ressurreição. Segundo ele, até este ponto, a seleção natural tinha sido um fenômeno aleatório, mas agora, graças à tecnologia, os humanos podiam intervir neste processo. Invocando profecias bíblicas, ele escreveu: "Este dia será divino, impressionante, mas não milagroso, pois a ressurreição será uma tarefa não de milagre, mas de conhecimento e trabalho comum." Essa teoria foi levada para o século XX por Pierre Teilhard de Chardin, um padre jesuíta francês e paleontólogo que, como Fedorov, acreditava que a evolução levaria ao Reino de Deus. Em 1949, Teilhard propôs que no futuro todas as máquinas seriam conectadas a uma vasta rede global que permitiria que as mentes humanas se fundissem. Com o tempo, essa unificação da consciência levaria a uma explosão de inteligência – o "Ponto Ômega" – permitindo que a humanidade "rompesse a estrutura material do Tempo e Espaço" e se fundisse perfeitamente com o divino. Os transumanistas, geralmente ateus, normalmente reconhecem Teilhard e Fedorov como precursores de seu movimento, mas o contexto religioso de suas ideias raramente é mencionado ou creditado - embora, a todo momento, tudo o que a religião fornecia (mesmo na sua forma herética, gnóstica ou heterodoxa) fosse prontamente substituído por um pretenso equivalente científico. Para se afastar de sua raiz esotérica, ocultista, religiosa, cristã, gnóstica - a maioria dos adeptos do movimento atribui o primeiro uso do termo transumanismo, no sentido que eles de fato desejam comunicar, a Julian Huxley, o eugenista britânico e amigo próximo de Teilhard que, na década de 1950, expandiu muitas das ideias do padre em seus próprios escritos - embora tenha se esforçado para afastar qualquer pista religiosa para soar relevante entre a academia. Durante duas décadas, o trasnhumanismo era tido como uma ideia marginal, até ressurgir com força nos anos 80 em São Francisco entre um grupo de pessoas da indústria de tecnologia com uma veia libertária. Eles inicialmente se autodenominavam extropianos e se comunicavam por meio de boletins informativos e em conferências anuais. Desde então, foram criados jornais, institutos, ONGs e organizações educacionais destinadas a juntar pensadores transumanistas e espalhá-los pelas diversas áreas do conhecimento humano: inteligência artificial, nanotecnologia, engenharia genética, robótica, exploração espacial, memética e a política e economia. O movimento foi ganhando destaque não apenas no meio acadêmico, mas também entre empresários e entusiastas da tecnologia. Russel Kurzweil foi um dos primeiros grandes pensadores a trazer essas ideias para o mainstream e legitimá-las para um público mais amplo. Sua ascensão em 2012 para um cargo de diretor de engenharia no Google, anunciou, para muitos, uma fusão simbólica entre a filosofia transhumanista e a influência de grandes empresas de tecnologia. Os transhumanistas hoje exercem enorme poder no Vale do Silício — empreendedores como Elon Musk e Peter Thiel se identificam como crentes desta "nova religião" — onde fundaram think tanks como a Singularity University e o Future of Humanity Institute. As ideias propostas pelos pioneiros do movimento não são mais reflexões teóricas abstratas, mas estão sendo incorporadas em tecnologias emergentes em organizações como Google, Apple, Tesla e SpaceX. O que torna o movimento transumanista tão sedutor é que ele promete restaurar, por meio da ciência, as esperanças transcendentes que a própria ciência obliterou. Os transumanistas não acreditam na existência de uma alma, mas também não gostariam de soar como materialistas estritos. Deus na Maquina: Transhumanismo, Antihumanismo e Religiões Biônicas https://tavernadolugarnenhum.com.br/filosofia/deus-na-maquina-transhumanismo-antihumanismo-e-religioes-bionicas/

Aqui eu falo sobre a evolução dos textos sagrados na Índia e sobre o que é o Taverna do Lugar Nenhum.

A Tragédia de Belladonna é um filme de animação japonesa do gênero drama erótico, realizado e escrito por Eiichi Yamamoto, baseado na obra La Sorcière do autor francês Jules Michelet. É o terceiro e último filme da trilogia Animerama, voltada para adultos da Mushi Production, seguindo Mil e Uma Noites (1969) e Cleopatra (1970). Embora seu lançamento inicial tenha sido um fracasso comercial e tenha levado o estúdio à falência, o filme se tornou um cult ao longo dos anos. O filme é notável por suas imagens eróticas, religiosas, violentas e psicodélicas, abordando temas como misoginia, opressão feudal, depravação moral, rebelião e caça às bruxas. Leia mais aqui

Os hinos védicos apresentam diversas cosmogonias. No entanto, quatro tipos específicos de cosmogonias parecem ter apaixonado os poetas e teólogos védicos. Temos a Criação pela fecundação das águas originais, a Criação pelo despedaçamento de um gigante primordial, a Criação a partir da unidade-totalidade, simultaneamente ser-não ser, e a Criação pela separação do Céu e da Terra. Leia mais aqui.

Tudo sobre Lily Chou Chou é um filme japonês de 2001 escrito e dirigido por Shunji Iwai que conta a história de vários estudantes ao longo de sua adolescência. O filme se ambienta no começo dos anos 2000, onde a cultura das redes sociais ainda estava embrionária, sendo manifesta nos famosos chats e salas de bate-papo online. Além dos problemas, a vida desses adolescentes são permeados por uma enigmática artista chamada Lily Chou-Chou que, que vai conectar todos os personagens do filme (sendo os principais Shūsuke Hoshino e Yūichi Hasumi), se tornando o ponto convergente entre todos eles. Temos aqui um típico filme “coming-of-age”, que mostra um painel confuso e fragmentado de vidas de adolescentes que se entrelaçam e se conectam, onde autodescoberta e a descoberta do outro se intensificam numa necessidade contraditória autoafirmação de identidade com necessidade de pertencimento, além das estimulantes e traumáticas descobertas do desejo sexual. Tudo isso numa época em que a cultura digital ainda nascente. Leia mais sobre o filme aqui: https://tavernadolugarnenhum.com.br/resenha/tudo-sobre-lily-chou-chou/

Yoshihiro Tatsumi, através de seu alter ego Hiroshi Katsumi, narra sua vida como escritor de mangá em Osaka nos anos 50 e seus desafios para conciliar estudos, trabalho, puberdade, família, vocação artística e negócios em um país que tentava se recuperar dos destroços da guerra, enquanto também buscava reconciliar identidade, orgulho, prosperidade econômica, tradição e modernidade. O Japão estava “à deriva”, assim como Hiroshi, e Hiroshi estava “à deriva”, como qualquer pessoa. O leitor deste mangá, ao terminar a leitura e olhar ao seu redor, sentirá a mesma náusea de um barco à deriva no meio do oceano, sendo levado pelas ondas em direção a um destino incerto. O mais importante desta obra é mostrar as coisas como são, sem tentar transmitir uma “mensagem” ou oferecer algum ensinamento. Um dos piores males do mundo moderno é ter destruído o senso de hierarquia e nivelado o homem comum ao sacerdote. Quase todo mundo tem um bom conselho para qualquer situação. O homem comum perdeu a capacidade de ser sincero, de assumir não saber lidar com as coisas e de se sentir à deriva.

As máquinas historicamente se tornaram extensões de nossa musculatura e expandiram basicamente todas as nossas possibilidades físicas. Através delas, conseguimos migrar em questão de dias de um lado do planeta ao outro, ou mesmo sair da Terra. Conseguimos demolir montanhas e até criá-las novamente em outros lugares. Desbravamos os mares, mudamos o curso dos rios, nadamos com as baleias e até voamos com os pássaros. A última fronteira a ser quebrada seria a nossa própria mente, e essa possibilidade parecia adormecida até a chegada dos computadores. Quando os computadores chegaram, trazendo consigo toda a sua noção avançada de processamento, armazenamento de dados, memória e velocidade de resposta, todo o nosso imaginário pareceu se configurar no mesmo instante – enquanto crescia em nós um misto de esperança e medo. Veja mais aqui: https://tavernadolugarnenhum.com.br/filosofia/autores/roger-penrose/a-mente-nova-do-imperador/testando-o-teste-de-turing/

Segundo Roger Penrose (Nobel de Física em 2020, para quem gosta de validação de autoridade acadêmica), toda essa discussão sobre os “perigos dos avanços da inteligência artificial” e a possibilidade dessa “inteligência” substituir a mente humana não passa de alarmismo vulgar, alimentado por muita ficção científica e pouca ciência e filosofia. Não que figuras importantes da ciência não defendessem tal possibilidade distópica, onde as máquinas poderão nos copiar, nos substituir, nos eliminar e prevalescer sobre a Terra. Autores como Marvin Minsky, pioneiro na inteligência artificial, consideram nossa mente como “computadores feitos de carne” e, como tal, seria perfeitamente possível pensar que toda nossa percepção de beleza, humor, consciência e livre-arbítrio poderiam emergir naturalmente de robôs eletrônicos com comportamento algorítmico suficientemente complexo. O grande problema de nossos tempos é que muitas vezes bons cientistas não produzem boa filosofia e bons filósofos não entendem de ciência. E ambos já não produzem nenhuma especulação mística ou religiosa, pois o pensamento religioso foi caricaturado numa interpretação vulgar de “dogma” (mas isso é outro assunto). Os filósofos da ciência, como John Searle, parecem, a princípio, os mais qualificados para responder a autores como Minsky, ao afirmar com bastante lucidez que computadores não são essencialmente diferentes de calculadoras mecânicas que operam com rodas, alavancas ou qualquer outra coisa capaz de transmitir sinais. Um computador, por mais avançado que seja, “entende” suas operações tal como um ábaco. Leia mais aqui.

Os documentos etnográficos mais importantes e numerosos da pré-história estão nas cavernas, nas artes rupestres. O que intriga pesquisadores como Leroi Gourhan é que essas artes possuem uma extraordinária unidade de conteúdo artístico e temático. Na arte rupestre, há uma predominância de representações de animais: ursos, leões, lobos ou tigres crivados de flechas, além de cervos, corujas, bisões e camurças. Era também nas cavernas que ocorriam os nascimentos, pois eram lugares seguros, vistos e celebrados como verdadeiros santuários. Essa imagem pode passar despercebida para a maioria das pessoas, mas certamente não escapava aos homens de curiosidade mística. Leia mais.

É um consenso científico que o dia do homem paleolítico era alternado entre tentar se alimentar e procurar abrigo. Basicamente, qualquer esforço adicional a essa rotina poderia ser fatal e colocá-lo em risco. O homem nessas condições extremas deveria se reduzir ao que é eficiente e utilitário. Nem um alimento poderia ser desperdiçado; nenhuma energia deveria ser gasta em vão. No entanto, o que sempre intrigou os estudiosos é a descoberta de que o homem paleolítico, de Chu-ku-tien até a costa ocidental da Europa, na África até o cabo da Boa Esperança, na Austrália, na Tasmânia, na América até a Terra do Fogo, se preocupava com ritos funerários. De um ponto de vista prático, o abandono puro e simples de corpos em matagais seria o esperado. Veja mais.

Ryo Fukui foi um pianista de jazz japonês que marcou profundamente o cenário musical, especialmente no Japão. Sua jornada musical começou com a aprendizagem do acordeão aos 18 anos, mas foi aos 22 que ele decidiu embarcar na aventura de aprender piano por conta própria, mudando-se para Tóquio. Durante esse período, Fukui teve encontros fortuitos com o saxofonista Hidehiko Matsumoto, que ofereceu valioso incentivo e orientação ao jovem pianista. Apesar dos desafios e momentos de desânimo, Fukui perseverou, aprimorando suas habilidades e moldando seu próprio estilo. Fukui, como muitos em seu país, se apaixonou pelo jazz após o término da Segunda Guerra Mundial. Enquanto o resto do mundo começava a esquecer o jazz como música popular, o Japão permaneceu completamente engajado com o gênero naquilo que ele originalmente era: um rítmo baseado em swing. Esse interesse pelo swing é fundamental para entender o Japão como um lugar do renascimento do jazz enquanto música popular, enquanto nos Estados Unidos o gênero se tornava mais complexo e abstrato, afastando-se do público em geral. Nada contra essa evolução, pois trouxe inovações incríveis à música, mas o jazz estava gradualmente se tornando mais acadêmico, enquanto a popularidade fluía para gêneros como funk e rock and roll. Leia mais aqui: https://tavernadolugarnenhum.com.br/musica/jazz/ryo-fukui-e-um-pouco-da-historia-do-jazz-no-japao/ Críticas do disco de Ryo Fukui: https://tavernadolugarnenhum.com.br/categoria_resenha/musica/jazz/jazz-japones/ryo-fukui/

Gilbert Ryle introduziu o conceito do “fantasma na máquina” em seu livro “O Conceito da Mente”, de 1949. O autor argumenta que a “mente” é uma “ilusão filosófica” vinda principalmente de René Descartes, sustentada por erros lógicos e conceituais. No capítulo “O Mito de Descartes”, Ryle apresenta “o dogma do fantasma na máquina” para descrever o conceito filosófico da “mente” como uma entidade separada do corpo, como se esta pudesse ser isolada dos “processos físicos”. Como filósofo linguístico, uma parte significativa do argumento de Ryle é dedicada a analisar o que ele percebe como erros baseados no uso conceitual da linguagem. Para ele, Descartes cometia um erro específico de categoria. Em “Ghost in the Shell”, Shirow Masamune faz uma espécie de revisão crítca do conceito de Ryle. Aqui, a parte mais significativa da existência se confunde com a mente num tecido intercambiável de informações, significados e consciência. Continue lendo aqui: https://tavernadolugarnenhum.com.br/ficcao-cientifica/cyberpunk/os-paradoxos-em-ghost-in-the-shell/

“My Back Was a Bridge for You to Cross” é o quinto álbum de estúdio de “Anohni and the Johnsons” e o primeiro que ouço. Foi lançado em 2023 e co-produzido (também co-idealizado) por Jimmy Hogarth. O álbum aborda diversos temas, como preconceito e convulsão social em “It Must Change”, conservacionismo em “There Wasn't Enough” e memórias, como em “Sliver of Ice”, inspirada em uma conversa peculiar de Anohni com Lou Reed sobre “a beleza da água congelada”, semanas antes de sua morte em 2013. O que torna este álbum tão bom é que ele evita experimentações excessivas em favor de um estilo soul mais clássico. Não que o experimentalismo seja ruim, mas muitas vezes artistas alternativos como Anohni acabam sendo experimentais apenas para sinalizar uma afinidade pretensiosa com uma vanguarda vazia de sentido e efeito. O soul tradicional, em sua fórmula consagrada, já oferece as ferramentas necessárias de expressão – o que importa para um artista. Aqui, Anohni busca expressar, entre outras coisas, é sua admiração por Marsha P. Johnson, que figura a capa deste disco (e também o nome da banda). Leia mais aqui.

Na Praia à Noite Sozinha” é um drama sul-coreano de 2017, escrito, produzido e dirigido por Hong Sang-soo. O filme gira em torno de uma premissa central: Young-hee, uma atriz fracassada, vive o estresse de um relacionamento com um homem casado na Coreia. Na praia, ela se questiona se ele sente falta dela da mesma forma que ela sente falta dele. Esta foi a segunda vez que assisti ao filme. Na verdade, o revi por acaso. Não era minha intenção revisitá-lo; ele simplesmente apareceu novamente na minha lista e acabei assistindo. Não lembrava se já o tinha visto pelo título. A primeira vez que vi esse filme foi em uma mostra de cinema oriental, ao lado de uma ex-namorada. Na ocasião, achei o filme extremamente tedioso, assim como ela. A fotografia escura e os diálogos longos e triviais me deixaram entediado, e em vários momentos acabei adormecendo. Ao acordar, estava no meio de um diálogo, sem entender nada, o que me gerou ansiedade por não conseguir acompanhar a conversa. Leia a crítica completa do filme aqui.

A sociedade indo-europeia era dividida em três classes: sacerdotes, guerreiros e agricultores. A identidade religiosa era trifuncional: tínhamos a função da soberania mágica e jurídica, a função da força guerreira e, finalmente, as divindades da fecundidade e da prosperidade econômica. Os celtas repartiam a sociedade em druidas (sacerdotes, juristas), aristocracia militar (flait, literalmente “poder”, equivalente ao sânscrito “ksatra”) e homens livres (airig), possuidores de vacas (bó). A sociedade romana também seguia o mesmo modelo na ideia geral de uma organização trina, onde o mundo terreno era uma cópia da tríade capitolina celeste composta por Júpiter (cosmocrata jurídico), Marte (deus da guerra) e Quirino (deus das riquezas da terra). Entre os escandinavos, a mesma coisa: temos Odin, Thor e Freyr. Leia mais aqui.

Quando uma obra de arte é apresentada ao mundo, temos basicamente uma miríade de possibilidades de interagir com ela. Podemos enxergar nessa obra os subtextos ocultos e soterrados em sua forma. Identificamos, por exemplo, contexto histórico e político, comentários sociais, sinalizações biográficas, metáforas, entre outros símbolos. Como uma obra de arte é necessariamente também uma manifestação material, ela também se apresenta no campo estético, no qual as impressões e sentimentos se tornam o primeiro e mais importante impacto. Em suma, a experiência de consumir uma obra de arte é uma mistura de intelecções etéreas, percepções simbólicas e sensibilidade. Geralmente, quem apenas consome uma obra considerando apenas o filtro da sensibilidade, a estética pura, é rechaçado como parte de um público não sofisticado – e as próprias obras que se apresentam dessa forma são ignoradas como obras menores. Não é por acaso que filmes de terror são desprezados pela academia, onde o apelo estético e a experiência sensorial (no caso, do medo) são mais acentuados que o normal – na minha opinião, um puro preconceito intelectualóide infundado. O mesmo acontece com filmes de ação, nos quais a experiência de adrenalina é negligenciada nas análises e considerações mais significativas, pois, aparentemente, apenas atendem a um anseio escapista acrítico da sua audiência. No entanto, na minha opinião, o exagero e o apego a intelecções etéreas, percepções simbólicas e, principalmente, os exaustivos “comentários políticos”, podem refletir uma mediocridade intelectual tão acentuada quanto aquela de quem consome um produto apenas pelo que ele pode oferecer de distração. Neste caso, diferente da maioria dos jornalistas, não acho que quem consome Bacurau (por exemplo) é intelectualmente superior a quem consome qualquer produto enlatado da Marvel (para falar a verdade, acho até o contrário). Dentro dessas discussões, existem filmes como Old Boy. Leia mais aqui.

Esse podcast discute o renascimento do paganismo na Inglaterra, inspirado pelo filme "The Wicker Man" de 1973. Mircea Eliade para explicar que as mitologias indo-europeias são conhecidas por fragmentos heterogêneos. Antes do cristianismo, os europeus já haviam abandonado muitas tradições religiosas. Irônicamente, os cristãos preservaram muitos mitos pagãos ao tentar dialogar com os pagãos. O "resgate" moderno do paganismo é baseado em um conhecimento escasso e cristianizado e se assemelha mais a um evento de cosplay sem profundidade espiritual. Muitos elementos do paganismo contemporâneo são subprodutos da cultura cristã, não refletindo as tradições pagãs originais. Concorda? Discorda? Fique a vontade!

Podcast com reflexões sobre o mundo moderno, a tradição, o cristianismo e as noções de transcendencia e verdade.

Como o niilismo cósmico da literatura de Lovecraft entrou no mundo do Idol japonês, eu não faço a menor ideia. O Necronomidol é um grupo espantosamente eclético que mistura J-Pop, Darkwave, AOR e Black Metal (entre outros estilos) em músicas com temáticas lovecraftianas surpreendentemente aprofundadas e... dancinhas. Não sei bem por que isso deu certo, confira o programa e me ajude a entender.

Eis finalmente o último episódio da série de podcasts sobre a filmografia de Akira Kurosawa. Aqui eu falo de dois filmes: Dersu Uzala de 1975 e Madadayo de 1993, o último filme de Akira Kurosawa. Dersu Uzala" e "Madadayo" são filmes que abordam os temas crepusculares da velhice e do legado. Em "Dersu Uzala", acompanhamos a amizade entre o explorador russo Vladimir Arsenyev e o velho caçador Dersu Uzala. Apesar das diferenças culturais, eles desenvolvem um vínculo especial, e Dersu compartilha sua sabedoria sobre a natureza e a vida, enriquecendo a perspectiva de Vladimir. Já em "Madadayo", o professor Uchida Hyakken se aposenta após trinta anos lecionando literatura alemã para se dedicar à escrita. Seus ex-alunos o visitam todos os anos, demonstrando respeito e gratidão pelas lições ensinadas ao longo do tempo. Ambos os filmes nos convidam a refletir sobre a efemeridade da vida e a importância de valorizar o presente. A velhice é retratada como uma fase de transição, na qual experiências e conexões se tornam preciosas. Essas obras cinematográficas inspiram-nos a enxergar a velhice com maturidade, refletindo sobre nossa própria relação com o tempo e com a busca por uma vida valorizando aquilo que de fato importa. Espero que gostem.

Procusto é um famoso personagem da mitologia grega. Ele era um bandido que vivia em uma pousada na antiga Grécia e possuía uma cama de ferro. O nome Procusto deriva do verbo grego “prokrouo”, que significa “estender à força” ou “esticar”. A característica marcante de Procusto era seu método cruel de receber os viajantes. Quando alguém se hospedava em sua pousada, ele o convidava a deitar-se em sua cama de ferro. Se o viajante fosse menor do que a cama, Procusto o amarrava e esticava seus membros até que se adequassem ao tamanho da cama. Por outro lado, se o viajante fosse maior, Procusto cortava seus membros para que ele se encaixasse na cama. Em ambos os casos, a vítima sofria. Sob a luz desse mito, Ortega y Gasset vai nos revelar um pouco sobre a característica de algumas filosofias ou correntes de pensamento modernas. Ele começa, em seu livro “O que é a Filosofia?”, a desenhar a confusão da exatidão com suficiência. Segundo o filósofo, a diferença entre verdade científica e verdade filosófica é que a primeira é exata, mas insuficiente, enquanto a segunda é suficiente, mas não exata. Esse é um problema da incompletude de uma ideia humana sobre a realidade. Quando buscamos uma verdade, buscamos ela em sua plena exatidão e sua plena eficiência. Por isso mesmo foi muito tentador para o desenvolvimento do pensamento humano buscar uma ideia que conjugue tudo isso. Isso é o que algumas filosofias modernas tentam resolver ao se afirmarem tanto como verdade científica (considerando toda a história das ideias anteriores como utopia ou idealismo) quanto como verdade filosófica (considerando que toda filosofia anterior é a mera pavimentação para o surgimento da última – uma espécie de concepção messiânica que foi muito bem esclarecida por Eric Voegelin). O problema é que essas filosofias que buscam ser ao mesmo tempo verdades filosóficas e verdades científicas acabam não sendo nem uma coisa nem outra. Não que isso seja impossível, mas até agora o que vimos são filosofias que transitam num espaço intermediário e incerto entre as duas. Quando você pede para essas filosofias prestarem contas em um campo, logo elas se abrigam no outro. Os ideólogos dessas filosofias são como Procusto, que mutilam ou distorcem a realidade como se ela fosse o viajante da narrativa do mito, buscando conformar a realidade em “sua cama”. Leia mais aqui: https://tavernadolugarnenhum.com.br/miscelanea/a-cama-de-procusto-e-as-ideologias-modernas/

Apesar de não ser tão lembrado quanto outros filmes do mesmo estilo, como “Sete Samurais” e “Yojimbo“, “Kagemusha” recebeu um reconhecimento imediato e quase unânime da crítica mundial quando foi lançado, e até hoje é considerado um dos épicos de samurai mais majestosos, pictóricos e ambiciosos da história do cinema.

Um podcast sobre dois clássicos do cinema Chanbara de Akira Kurosawa. Yojimbo: O Guarda Costas é um filme de 1961 e Sanjuro é um filme de 1962. Ambos os filmes vieram na esteira de Sete Samurais (1954) e Fortaleza Escondida (1960) – filmes que se tornaram marcantes na faceta mais conhecida de Akira Kurosawa como diretor de épicos samurais. Estes filmes carregam algo único na carreira de Kurosawa não explorado em nenhum dos seus filmes com tanto vigor: o humor negro. Podcast disponível em todas as plataformas e inclusive no Youtube.

A Fortaleza Escondida é um filme de 1958 dirigido por Akira Kurosawa e estrelado por Toshiro Mifune e a belíssima Misa Uehara. Este filme é o que melhor representa o termo “subestimado”. Apesar de ser um filme pouco lembrado, trata-se de um mais importantes filmes da história do cinema e está marcado para sempre como a principal influência de uma das obras mais importantes da cultura pop: Star Wars. Segundo George Lucas, A Fortaleza Escondida o influenciou em quase tudo criação do seu magnum opus, desde a narrativa da princesa perseguida (no caso, a princesa Leia) quanto pela técnica de contar o filme pela visão de dois personagens coadjuvantes com flertes cômicos (no caso, C-3PO e R2-D2). A história do filme se passa em um Japão castigado por uma intensa guerra entre clãs. Aqui, acompanhamos a saga dramática e cômica de dois camponeses: Tahei (interpretado por Minoru Chiaki) e Matashichi (interpretado por Kamatari Fujiwara). Esses dois personagens possuem uma relação difícil e ambígua entre si, sempre oscilando entre a amizade e a trapaça, entre a briga e a camaradagem. No filme, ambos estão fugindo da destruição causada por uma das batalhas dessa guerra de clãs. Durante a fuga, eles encontram o general Rokurota Makabe (interpretado por Toshiro Mifune), que está escoltando a princesa Yuki (interpretada por Misa Uehara) junto com a sua corte e suas riquezas. Rokurota Makabe é um guerreiro habilidoso e um servo dedicado de Yuki (e isso, em uma sociedade sã e ordenada, não tem conotações ruins), que vive integralmente sua missão, com lealdade devota ao seu clã. A princesa Yuki é uma garota com um temperamento tempestuoso que muitas vezes pode ser confundido com impaciência, arrogância e altivez (o que seria natural de uma princesa). No entanto, ela possui impulsos muito fortes de bondade e empatia que são explícitos no filme. Os camponeses passam a acompanhar o general e a princesa, pensando em roubar o ouro. Rokurota, que já sabe dessas intenções, instrumentaliza essa ganância para que eles, sem saber, possam ajudar os nobres fugitivos com a carga. O grupo então segue seu caminho em território inimigo, buscando um lugar onde a princesa e o general possam reconstruir um exército para retomar suas terras perdidas. Se vocês perceberem, a história do filme se assemelha muito à de outro filme dirigido por Akira Kurosawa chamado “Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre“, que, por sua vez, é baseado numa peça de teatro Kabuki chamada “Kanjinchō“. Tanto este filme quanto “Os Homens que Pisaram na Cauda do Tigre” mostram que personagens como Rokurota e Benkei possuem um aspecto heróico e idealista, mas isso não os torna cegos para as maldades do mundo. Eles não são caricaturas quixotescas de idealistas ou sonhadores que vagam por um mundo que não mais os compreende. Eles estão plenamente conscientes da decadência do mundo e reconhecem que a reverência ao sagrado muitas vezes não tem relevância para algumas pessoas. Portanto, eles não se tornam manipuláveis e estão longe de ser ingênuos. Pelo contrário, eles utilizam a astúcia dos cínicos e manipuladores, que eles conhecem e mapeiam muito bem, para alcançar seus próprios objetivos. Existe aqui um sinal de respeito com a figura do herói tradicional que é muito bem vinda, especialmente nos dias de hoje onde até mesmo a religião é tida como algo próprio da infância da humanidade. Na verdade é o contrário. O homem que não vive pelo sagrado ou pelo ideal é o verdadeiro ingênuo. O homem que vive para servir algo maior que ele, como é o caso de Rokurota, é muito menos manipulável do que o homem que vive apenas pelas suas paixões. Eis aqui a moral Escondida na Fortaleza.

"Sete Samurais" (Shichinin no Samurai) é um filme épico japonês lançado em 1954, dirigido por Akira Kurosawa. Considerado uma das obras-primas do cinema mundial, o filme combina elementos do cinema de samurai com questões sociais e humanas, explorando temas como honra, lealdade, coragem e sacrifício. A história se passa no Japão feudal do século XVI, durante um período de turbulência e violência. Um grupo de fazendeiros, cansados de serem constantemente saqueados por bandidos, decide contratar sete samurais para proteger sua aldeia. Esses samurais são liderados por Kambei Shimada, interpretado por Takashi Shimura, que se torna o personagem central do filme. O filme apresenta uma rica caracterização dos personagens, cada um com sua personalidade, motivações e habilidades únicas. Os sete samurais escolhidos para a missão são variados em termos de idade, experiência e bagagem pessoal. Eles representam diferentes facetas da cultura samurai, desde o ronin experiente até o jovem idealista. Ao longo do filme, os samurais treinam os fazendeiros para se defenderem contra os bandidos, enquanto também enfrentam desafios internos e dilemas morais. Kurosawa retrata habilmente as tensões entre os personagens, as interações sociais e as dificuldades enfrentadas em uma sociedade dividida por classes. Além de suas sequências de batalha intensas e emocionantes, "Sete Samurais" é um filme que explora profundamente a natureza humana. Kurosawa questiona os conceitos de honra, coragem e sacrifício, levando os personagens a se confrontarem com seus próprios valores e ações. O filme também aborda temas como a relação entre os guerreiros e os camponeses, a valorização do trabalho em equipe e a superação de diferenças para alcançar um objetivo comum. A direção de Kurosawa é brilhante, utilizando de forma magistral a composição visual, a narrativa e a montagem para criar uma experiência cinematográfica memorável. A cinematografia em preto e branco enfatiza os contrastes entre luz e sombra, enquanto a trilha sonora intensifica as emoções presentes no filme. "Sete Samurais" teve um impacto duradouro na história do cinema, influenciando muitos filmes subsequentes, tanto no Japão quanto no exterior. Sua abordagem humanista e sua capacidade de retratar a complexidade dos personagens e das relações sociais são características que o tornam um marco na filmografia de Akira Kurosawa e um clássico do cinema mundial. Mesmo décadas após o seu lançamento, "Sete Samurais" continua sendo amplamente apreciado e reverenciado, sendo um testemunho da maestria de Kurosawa como diretor e da relevância universal de suas histórias e mensagens. É um filme que captura a essência da condição humana e nos leva a refletir sobre questões atemporais, tornando-se uma obra-prima inesquecível do cinema.

Neste episódico comento sobre os filmes O Idiota de 1951, baseado diretamente no romance de mesmo nome de Fiódor Dostoiévski, e Viver de 1952, baseado no livro A Morte de Ivan Ilitch de Tolstoi .

Nos séculos XIX e XX, havia uma impressão geral que a filosofia ficou esmagada, humilhada pelo imperialismo da física (como bem definiu José Ortega y Gasset) e apavorada pelo terrorismo intelectual dos laboratórios. A investigação da realidade, que era seu emprego por excelência, teve que ser dividida com outras áreas do conhecimento, que estavam ganhando corpo e se provando como axioma. Essas áreas estavam criando uma ponte de conexão visível entre teoria e experimento – algo que a filosofia nunca foi (e, talvez, nunca será) capaz de fazer com tanta precisão. Muitas vezes, a filosofia era até mesmo preterida em determinados assuntos que necessitavam uma validação concreta na realidade. Isso não é necessariamente ruim. Os filósofos precisaram se retrair um pouco tornaram-se mais humildes em suas pretensões, tal como eles obrigaram os teólogos e místicos. A filosofia, depois de supostamemte destronar a religião e a mitologia, parecia destronada pelas ciências naturais, passando a se ocupar quase exclusivamente na mera “teoria do conhecimento”. No entanto, a filosofia não apenas nunca desapareceu quanto também nunca se retraiu – assim como a religião. Fomos nós que nos tornarmos cegos para a assombrosa onipresença da filosofia e da religião em tudo que chamamos de saber, conhecimento e experiência. A filosofia e a religião são tão abrangente que não a notamos. Tudo passa por elas e tudo se define por elas. A filosofia é tão inescapável que até mesmo a pretensão de pensar sua inutilidade já é um ato filosofico. A religião vai além. Existe um homem alojado dentro de cada físico que, de bom grado ou ao seu contragosto, é magnéticamente atraído pelo impuslo de investigar as primeiras e enigmáticas causas de tudo. Se do ponto de vista histórico há uma impressão de que saímos da religião, passamos para filosofia e terminamos nas ciências naturais, apagando as pegadas dos passos anteriores ao longo do percurso. O homem reprimido dentro da matéria, ao longo da história e ainda hoje, percorre o sentido oposto: ele sai da matéria e caminha, pelo o espírito, em direção a Deus, acredite você Nele ou não. Antes da verdade científica se proclamar a última palavra no entendimento pleno da realidade, é necessário entender que os termos que a definem como “verdade” e como “ciência” foi lhe dada pela filosofia por empréstimo. A filosofia, por sua vez, pode até ser materialista ou ateia. No entanto, se a sua relação com a “sofia” (conhecimento) ainda for de “filo” (amizade), sua vocação ainda é magnetizada pelo entendimento que ainda opera na crença de que existe uma ordem oculta na realidade que precisa ser revelada ou resolvida pela razão. Se a filosofia não for baseada na crença de que há verdade e a mentira, o bem e o mal, o melhor e o pior – o binarismo essencial que percorre a religião por excelência, ela nem precisava existir. Em suma, tudo ainda se alimenta no seio místico da fé. Com maturidade, vemos que as ciências naturais ainda estão subordinadas à jurisdição filosófica e esta ainda está subordinada à jurisdição da teologia. Este texto foi inspirado pela leitura do livro “O Que é Filosofia” de José Ortega y Gasset.

Rashômon é um filme de 1950, dirigido por Akira Kurosawa, com roteiro de Shinobu Hashimoto e do próprio diretor, baseado em dois contos de Ryūnosuke Akutagawa (“Rashomon” e “Yabu no Naka”). A história se passa no Japão do século XI e temos como personagens principais um lenhador, um camponês e um sacerdote que se abrigam de uma forte tempestade nas ruínas do Portão de Rashomon. O Portão de Rashomon é uma estrutura histórica localizada em Kyoto. O portão pertencia ao antigo Palácio Imperial, construído no século VIII, e era uma das principais entradas do palácio. De acordo com a história de Ryunosuke Akutagawa, o Portão de Rashomon foi abandonado e se tornou um local de encontro para criminosos e desabrigados. Com a chuva demora para passar o sacerdote então, para passar o tempo, começou a contar sobre um julgamento no qual foi testemunha: a história um bandido que estuprara uma mulher e assassinara o marido dela. O lenhador, que estava nesse julgamento como depoente, dá a sua versão do que aconteceu. A história do filme se desenrola no conflito e no emaranhamento das diversas versões que são contadas da mesma história. Só no julgamento que é relatado na história, ouvimos quatro depoimentos conflitantes: a história na versão do bandido (que está sendo julgado), a história na versão da esposa estuprada, a história na versão do marido que morreu (e ouvimos a versão dele através de uma médium) e, por último, a versão do lenhador (que seria o depoente no julgamento por ter sido o primeiro a ter visto o corpo do marido depois do crime ter sido cometido, mas revela-se que ele também testemunhou o ato e omitiu isso no tribunal). Essa multiplicidade de versões dentro do mesmo acontecimento tornou o filme conhecido e até mesmo inaugurou que seria conhecido como “efeito Rashomon”, um conceito que se refere à natureza subjetiva da percepção de um fato e à possibilidade de diferentes perspectivas sobre o mesmo evento serem igualmente válidas. Ou seja, o filme teve um impacto cultural tão indelével que seu próprio nome ganhou vida própria. O filme tem uma estrutura de narrativa não convencional que sugere a impossibilidade de obter a verdade sobre um evento quando há conflitos de pontos de vista. Ele foi referenciado por gerações de admiradores, a ponto de qualquer trabalho que incorpore uma estrutura de “narrador de flashback não confiável” acabará sendo comparado a ele. Rashômon revelou as maneiras pelas quais as pessoas veem o mundo e como elas projetam a realidade e moldam o passado ao seu próprio capricho. O filme ainda nos provoca ao apresentar, mas nunca responder qual seria a versão verdadeira do fato. Enfim, Rashomôn é um brilhante filme filosófico de Akira Kurosawa, construído como quebra-cabeça que coloca a memória e a percepção da verdade em suspeição – não entregando para nós as resoluções dos conflitos propostos.

Há uma mini-série de ficção científica da Netflix que se chama “A vida em outros planetas”. Essa mini-série possui 4 episódios, cada uma fazendo a especulação sobre como seria a vida em 4 planetas: Atlas, Janus, Éden e Terra (não é a “Terra” que você está pensando, o nome do planeta em inglês está como “Terra” mesmo, e não “Earth” – não seria possível uma tradução para o português sem a ocorrência imediata desta confusão). O último episódio, “Terra”, é o mais interessante pois traduz ao máximo o que se tornou o sonho ocidental do imperialismo da física. Neste episódio, temos um planeta chamado Terra, cuja civilização é considerada extremamente avançada ao ponto de estar terraformando e colonizando outro planeta em seu sistema estelar. O episódio apresenta em seu exame principal a ideia de que as civilizações se configuram conforme sua capacidade de uso energético: ou seja, a série vocaliza uma perspectiva extremamente materialista. Marx dizia que a civilização é algo que ocorre na órbita da economia (a infraestrutura), os cientificistas dizem que a civilização é algo que ocorre na órbita da manipulação energética. É interessante notar como o episódio trata “Terra” como uma projeção desejável do futuro da humanidade. Os habitantes deste planeta venceram a morte e a desigualdade. Eles são tão evoluidos que perderam seus corpos, tendo feito bioengenharia de si mesmos como massas de tecido neural mantidas vivas dentro de tanques. Eles são tão evoluidos que são alimentados por nutrientes de plantas cultivadas e igualitariamente atendidos por robôs de sua própria criação, tornando-se, inclusive, biologicamente imortais. Os habitantes deste planeta também venceram o individualismo. Eles são tão evoluidos que suas mentes estão todas ligadas em uma única inteligência unificada e coletiva. Não há mais conflitos, todos são perfeitamente harmônicos. Também não há sinais de religião, cultura, poesia ou pensamento metafísico, pois toda sua sociedade está conformada apenas em alongar a vida indefinidamente e da forma mais otimizada e prazeroza possível. Em suma, a percepção de uma “sociedade evoluida” em uma mente radicalmente cientificista e pragmática reduziu o conceito de “sociedade perfeita” numa espécie de cultura de fungos? Esse é o grande paradoxo da queda do pensamento ocidental: o abandono do Éden, do Valhala ou dos Campos Elíseos, para esse tipo de ambição estranha.