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Vida em França
Guineense Lizidória Mendes lança versão francesa do livro “Sentimentos e Razão”

Vida em França

Play Episode Listen Later Sep 16, 2026 22:16


A autora guineense Lizidória Mendes vai lançar uma edição francesa do seu primeiro romance “Sentimentos e Razão”, este sábado, na Maison du Portugal - André de Gouveia, na Cidade Universitária de Paris. O livro fala sobre a emancipação da mulher, mas também sobre o peso da ‘matchundadi' [masculinidade] e imagina “uma nova mulher guineense” numa “Guiné-Bissau em construção”. Neste programa conversamos com a guineense Lizidória Mendes, de 28 anos, que vai lançar uma edição francesa do seu primeiro romance “Sentimentos e Razão”, este sábado, na Maison du Portugal - André de Gouveia, na Cidade Universitária de Paris. O evento vai ser acompanhado por uma exposição de pinturas da artista plástica guineense Cálida Erinaide, inspiradas nas personagens do livro. “Sentimentos e Razão” conta a história da jovem Malia que sonha com uma carreira académica, que luta contra o peso das construções sociais no seu país e que recusa o feminismo nos moldes ocidentais. Esta é uma história sobre a emancipação da mulher guineense e sobre o peso da ‘matchundadi' [masculinidade] na Guiné-Bissau, mas também sobre uma outra forma de olhar para a mulher “não a partir do corpo, mas do que ela pensa”. O livro também fala sobre o que Lizidória Mendes resume como “uma Guiné-Bissau em construção”, onde se imagina “a nova mulher guineense” que respeita as suas raízes, mas também as questiona e reajusta. A autora quer acreditar no poder simbólico e até sagrado da literatura e deseja que “daqui a algum tempo tenhamos muitas Malias na Guiné”. RFI: Poderia fazer-nos uma curta apresentação deste livro? Lizidória Mendes, Autora de “Sentimentos e Razão”: “O livro ‘Sentimentos e Razão' é um romance que falou basicamente da masculinidade na perspectiva guineense, sobretudo na sua fase mais embrionária, e também falou, através da personagem principal que é a Malia, da emancipação da mulher. De uma forma geral, para o enredo do livro, nós conseguimos ver que a Malia não é uma extracção da verdadeira mulher guineense, mas sim uma reescrita do que a mulher guineense deve-se tornar, tirando todas as construções sociais que ela é imposta de seguir, como ter a sua vida cronometrada, ter os seus desejos, entre aspas, controlados pelas expectativas sociais. Ao olhar para a Malia, as pessoas não conseguem ver uma mulher guineense com base nas tradições e culturas, mas se nós formos ver, hoje em dia, as possibilidades que as mulheres podem ter daqui a cinco anos, dez anos, nós podemos ter uma mulher guineense com expressão da Malia ou mais ainda.” O que é que a Malia tem da Lisidória? “Bom, essa é uma pergunta que eu posso dizer que as pessoas me têm feito. E aqui também não vou ser, entre aspas, mentirosa, porque nós não podemos dissociar a arte do artista. Para mim, a arte sempre tem um ponto de partida. Para mim, para reescrever a nova mulher guineense, se o ponto de partida deve ser a partir de mim, que seja, e a Malia pode ter alguma coisa da Lisidória porque a Lisidória é a autora. Além disso, nada mais.” O livro conta a história de Malia, uma jovem guineense que quer estudar e chegar até ao mestrado em França, que luta pela sua emancipação, mas que recusa o feminismo nos moldes ocidentais. Quer explicar-nos porquê este feminismo nos moldes ocidentais não se pode adaptar à cultura guineense? Lemos, por exemplo, que há tradições na Guiné-Bissau que “para muitas mulheres são redes de apoio, onde o Estado não é capaz de garantir a segurança”. Certas tradições não são contraditórias com o feminismo? “Ao dizer que isto é contraditório, leva-nos mais para um debate epistemológico porque o feminismo é o que é dentro de uma realidade em que nasceu. Outras coisas também podem ser dentro das suas próprias realidades. Eu não nego que o feminismo é um projecto sustentável e bom para as mulheres, é muito bom, mas o facto de nós não querermos importar um feminismo, não quer dizer que nós não o podemos reinventar dentro das nossas comunidades para resolver os nossos problemas. O debate que eu trouxe no livro, como algumas pessoas estão, entre aspas, a falar que eu sou antifeminista e tal, o facto de não ser feminista não quer dizer que a pessoa é antifeminista. Eu acho que amanhã [16 de Setembro] já serei socióloga e daqui a alguns dias serei especialista em estudos de género, portanto, é a minha área de estudo. O meu projecto de mestrado repousa basicamente nisto da participação política das mulheres, mas o meu problema epistemológico é: será que o feminismo é universal? Respondo que não. Em todas as comunidades, as mulheres têm as suas próprias realidades. Entretanto, pensar que a cultura é sinónimo de repreensão, não é verdade. Também o Ocidente tem algumas práticas que deixam as mulheres nos segundos planos. O que é que eu nego? É importante nós vermos a realidade das mulheres com base nas suas realidades, criarmos mecanismos de protecção, não trazer modelos que não têm nada a ver com as suas realidades. É essa visão que eu tento trazer no livro. Eu nego a universalidade das coisas, é por isso que a Malia não é universal. Para mim, a vida é feita do específico para o colectivo, nós não podemos pensar a vida do colectivo para o específico. É basicamente essa interpretação e não tem nada a ver com antifeminismo. E eu, enquanto especialista de género, eu respeito muito as lutas feministas, são as lutas que eu estudo, mas eu defendo lutas locais. Por exemplo, na Guiné-Bissau, trabalhei sobre outras formas de organização, no caso, as ‘mandjuandades', que são organizações associativas na Guiné-Bissau que repousam mais nas questões de solidariedade económica e também nas questões geracionais, mas são organizações que surgiram antes das lutas feministas. E nós temos isso na Guiné-Bissau, são ‘mandjuandades', e o feminismo guineense poderia ser chamado de ‘mandjuandade'. Não é necessariamente o que nós vamos fazer que obrigatoriamente deve ser chamado de feminismo porque o feminismo é uma denominação, é nome, é epistemológico. Dentro das outras comunidades também pode existir uma outra coisa e aqui quero ressaltar: eu não sou antifeminista, pelo contrário.” Também aborda os constrangimentos sociais e o que se espera da mulher na Guiné-Bissau. Ficamos a questionar se a mulher tem espaço para ser livre na Guiné-Bissau. Isso também transparece no livro? “Sim, transparece no livro. O meu problema aqui é quando as pessoas vão pensar a opressão da mulher. Por exemplo, os colegas que vão fazer trabalhos em África, sobretudo nos países da África Ocidental, muitas das vezes vêem a opressão das mulheres nessas regiões como se a opressão nasceu basicamente em África, mas a questão da opressão, a questão da desigualdade, não tem cor, é universal. Agora, tentar atribuir a identidade de opressão, de desigualdade, para uma determinada comunidade, é errado. Sobretudo, por exemplo, quando alguns antropólogos vão fazer os trabalhos em zonas de África e tal, e as categorias que eles utilizam muitas das vezes não têm nada a ver. Por exemplo, tratam certas categorias como se fossem homogéneas, mas na Guiné-Bissau não existe homogeneidade. Mesmo ao falar, por exemplo, do patriarcado, há sociedades que são matrilineares, em que os filhos pertencem às mulheres e não aos homens. Então, para mim, eu acho que é importante nós fazermos trabalho epistemológico baseado nos contextos porque nós temos realidades muito bem construídas, mas muitas das vezes ao irmos ao terreno, nós utilizamos categorias ocidentais, conceitos ocidentais para denominar estas realidades. Entretanto, o que é que acontece? Os conceitos acabam por sobrepor a realidade. O que nós devemos fazer é reverter a situação. Fazer um trabalho de terreno e com base nesse trabalho de terreno, construirmos os problemas. Mas as pessoas já saem daqui com hipóteses e chegam lá só para confirmar, o que eu acho errado.” Há outro conceito que me parece central no livro, que é a constatação de uma masculinidade rígida, a “matchundadi”, que impossibilita os homens de viverem e de aceitarem a sua vulnerabilidade. Por que é que é algo tão central no livro e até que ponto também é uma questão política e mostra como é a própria sociedade bissau-guineense? “Eu diria até que ponto isto é epistemológico porque é muito intencional a repetição da palavra ‘matchundadi' no livro. Como eu disse, os assuntos tratados neste livro são embrionários. De uma forma geral, o conceito de ‘matchundadi' no livro não é desenvolvido. Os personagens vão dizendo: ‘Ah, tu estás a fazer à tua matchundadi e não sei o quê.' Mas aqui entra a questão e aqui centra-se o debate: até que ponto a matchundadi guineense é masculinidade e não virilidade? Porque muitas das vezes as pessoas acham que tudo o que é matchundadi guineense é virilidade. O que é que as pessoas denominam como matchundadi na Guiné-Bissau? É virilidade: mostrar a força, fazer abuso de poder. Aquilo é virilidade. Matchundadi é mais baseada nos valores de proteger, de prover, de ser uma pessoa com carácter. É o que ensinam em diferentes etnias, sobretudo através dos rituais, como o fanado.” O que é o "fanado"? “O fanado é uma espécie de ritual de iniciação tanto para mulheres, em certas etnias, como para homens também. Vou ressaltar aqui: excisão e fanado são duas coisas diferentes. Fanado é mais assente na questão da transmissão dos valores e tal. Entretanto, como eu tinha dito, todos os conceitos e debates vieram neste livro de uma forma embrionária. No segundo volume terá mais desenvolvimento. Mas, como eu disse, ‘matchundadi' aparece neste primeiro livro, mas até que ponto é político, mas sobretudo, epistemológico? O que é que as pessoas percebem como 'matchundadi'? É esse debate que eu quero trazer, apesar de o romance não dever ter este objectivo de trazer ao debate as coisas, mas, para mim, no contexto em que nós vivemos, é necessário.” Vai haver um segundo volume? Quando será lançado? “Sim, porque o meu livro original, ‘Sentimentos e Razão', tinha cerca de 500 e tal páginas, só que, na revisão, algumas pessoas me perguntaram: ‘Publicar um livro de 500 páginas na realidade guineense, quem vai ler?' Foi nisto que surgiu a ideia de diminuir, de recompor os cenários e saiu este primeiro volume. Agora vai ter o segundo volume e o terceiro volume em que eu vou trazer todas as histórias. Eu estabeleci uma meta de até final de Novembro estar disponível porque eu tenho que fazer ajustes, fazer a edição, fazer a impressão. Não sei, mas eu acho que até final de Dezembro vai estar disponível só o segundo, porque depois eu tenho que me concentrar no projecto do meu segundo livro.” Vai haver um outro livro? “Sim, o meu segundo intitulado ‘M'pili'. Inclusive já fiz o trabalho etnográfico, entrevistas, observações, procura de arquivos.” E é sobre o quê? “É mais um tema baseado na nossa memória colectiva porque o tema ‘m'pili' é muito patente na nossa sociedade, inclusive foi cantado pelo José Carlos Schwarz. Retrata mais as dinâmicas pós-independência, sobretudo a relação de poder e, sobretudo, também a relação de género.” O que quer dizer “m'pili”? “A m'pili', por exemplo, na língua pepel, m'pili' significa mulher - se não me engano, não tenho certeza - mas é um nome mais derivado da etnia manjaco e pepel.” Regressando ao livro “Sentimentos e Razão”, o amor é um tema também central, mas é um amor romântico, idealizado, que ocupa um enorme espaço na vida da personagem principal. Este tipo de amor não colide com a noção de desejo, de corpo e de liberdade? “É verdade. Tudo que a Malia pensa é idealizado porque a sua realidade é outra, mas também há um facto muito importante. No enredo, de uma forma geral, nós não conseguimos caracterizar a Malia. Praticamente a Malia aparece no livro sem corpo. Nós conseguimos só caracterizar a Malia através do que ela pensa e através do que ela faz, mas ninguém consegue saber se a Malia é branca, se é preta, se tem um corpo muito bem definido ou não. E aqui levanta-se um debate: será que as relações que nós mantemos com mulheres devem ser a partir do corpo ou a partir da mente? Porque durante muito tempo a mulher sempre foi resumida ao corpo. Por isso é que no meu livro ninguém consegue caracterizar a Malia. A Malia sempre construiu as suas relações a partir do que ela pensa, a partir do que ela prega, a partir do que ela sente. A Malia não aparece como uma personagem física dentro do livro e há alguns críticos que ja criticaram isto: ‘Como é que as pessoas vão ler o livro sem saber as características físicas da personagem?' Não é obrigatório a mulher ser conhecida a partir do seu corpo. É possível a mulher ser conhecida a partir da sua voz, a partir do que ela pensa, a partir da sua ideologia. Basicamente é isto. Por isso é que o centro da Malia é o desejo. Nós devemos normalizar também essa questão dos homens, ou melhor, a sociedade admirar a mulher a partir dos seus desejos, sem, no entanto, tocar.” O que é que este livro também conta sobre a Guiné-Bissau? “Eu resumiria isso numa única palavra. Uma Guiné-Bissau em construção porque daqui a cinco anos precisamos de mulheres como a Malia, que vai respeitar as suas raízes, o seu fulcro cultural, mas também questionando as coisas que não estão bem dentro desse fulcro cultural porque para mudarmos nós não precisamos de desfazer-nos da nossa cultura. O que é que nós precisamos? É reajustar porque todas as culturas têm partes nefastas e são estas partes nefastas que a Malia pede para serem reajustadas porque ela só cabe dentro da sua cultura. Sair da Guiné-Bissau, escolher viver em Portugal ou em França ou em outra parte do mundo, ela nunca vai pertencer àquele espaço. O seu verdadeiro espaço é o seu país. Então, para que ele viva no seu país de uma forma tranquila, precisa do reajuste.” Para viver no seu país é preciso condições e a Guiné-Bissau não tem estabilidade política, social e económica. Como é que olha para a Guiné-Bissau actualmente? “Eu, enquanto autora, digo que nenhum artista deve ser neutro, por mais que sejamos neutros enquanto artistas, a nossa arte deve falar sobretudo ao lado do povo. E eu reafirmo isto que a Guiné-Bissau não está bem, está longe de estar bem. Ao olhar só pelo cenário político, o que é que nós devemos fazer? É cada um contribuir da sua forma, mas contribuir da nossa forma não quer dizer que sejamos neutros. Para mim, é deixando de ser neutro que nós podemos contribuir para sair desta situação porque eu acho que sair da Guiné-Bissau e estar a viver num outro país não é o caminho porque nós saímos com a expectativa de que um dia o cenário mude, mas se nós temos essa expectativa, quem é que vai mudar o cenário? Devemos ser nós.” Quanto ao livro “Sentimentos e Razão - Korson ku roson”, porquê este título e o que é que ele significa? “O título “Korson ku roson” é em crioulo e eu quis mantê-lo assim. Para mim, é algo que me lembra quem eu sou e de onde eu saí. Não importa em que línguas o meu livro seja traduzido, sempre vou pedir que mantenham “Korson ku roson”, a língua guineense que agora chamam de crioulo. ‘Sentimentos e razão' porque eu sempre tive a crença que o mundo existe, mas tendo uma linha ténue que divide duas dimensões: o que nós sentimos e o que nós pensamos. Ou fazemos as nossas escolhas através do que o nosso coração manda ou através do que a nossa cabeça manda. Eu resumo o mundo, a vida, nestas duas dimensões.” Este é o seu primeiro livro. Primeiro tinha feito uma versão em língua portuguesa e agora sai em francês. É um passo importante para si? “Sim, sim. Este é o meu primeiro livro, digamos assim, oficial, mas, desde os meus 14 anos, eu já vinha escrevendo muitas coisas. Antes de publicar este livro, eu já tinha participado em outras produções literárias, sobretudo antologias. Eu participei na Antologia de Poetas da CPLP ‘Rotas de Camões'. Participei também na equipa que escreveu a primeira telenovela guineense. Outros poemas que eu fiz foram publicados por jornais como Nô Pintcha, sobretudo ‘Simplesmente Menina Africana', ‘Labareda de Queda' e alguns que já não me lembro porque, hoje em dia, eu escrevo mais crónicas e romances do que poemas. Mas este, em especial, é o meu primeiro livro, ‘Sentimentos e Razão'. A primeira versão eu publiquei em 2025, tornou-se logo ‘best seller' na Guiné-Bissau e depois fizemos a publicação em Portugal e em Paris também lançámos a versão portuguesa num evento da comunidade brasileira na Maison du Brésil. Depois foi traduzido.” Traduzir para francês e chegar a um outro público que, se calhar, não está tão familiarizado com a Guiné-Bissau, que se calhar mal conhece a Guiné-Bissau, também é importante? “Para mim é muito importante. Eu soube desta importância, sobretudo, no processo da revisão do livro, em que eu recebi muitas sugestões, por exemplo, de traduzir algumas expressões crioulas para o francês. Eu não traduzi porque, para mim, para o livro ser traduzido deve poder manter a sua essência, porque a tradução, só em si, já é um problema, na minha concepção, porque a tradução é interpretar e, muitas das vezes, algumas nuances numa certa língua dificilmente encontram uma tradução certa numa outra língua. Então, para mim, enquanto guineense e, entre aspas, escritora, eu não queria ver o meu livro neste ângulo de ver traduzidas as expressões crioulas. Para mim, é um caminho, quando um francês ler o meu livro e encontrar a expressão ‘matchu' e ‘kuma', ele que procure saber o que é que aquilo significa. No livro, nós vamos encontrar um mapa da Guiné-Bissau. Então, para mim, a literatura serve para isso, para fazer o nosso país viajar sem, no entanto, deslocar-se, mas assim fazer as pessoas que vão ler deslocarem-se para conhecerem a realidade. Foi o que aconteceu com muitos dos meus colegas da universidade que já leram o livro e estão com curiosidade e alguns já conseguem pronunciar algumas palavras em crioulo. Então, é isto que me deixa orgulhosa, além de ser importante a tradução do meu livro.” Esta quarta-feira é o dia da defesa do seu mestrado em Sociologia em Paris, algo que a personagem Malia, no início do livro, quando é adolescente, apresenta como um sonho. Tem um peso especial conjugar a defesa do mestrado com o lançamento deste livro? É simbólico? “Talvez seja simbólico de uma forma indirecta. Alguém me chamou a atenção, um artista muito renomado, que me disse: ‘Olha, eu li o teu livro, eu gostei muito, mas eu vejo muito a Malia em ti. Tens que tomar muito cuidado porque as palavras têm poder, sobretudo a arte é sagrada. O que tu escreves, amanhã acontece. Será que este livro levou-te a Paris ou foi Paris que te levou ao livro?' Eu acredito que foi o livro que me trouxe a Paris porque eu escrevi isto antes de sonhar que eu conseguiria a bolsa para vir estudar cá. Mas, se a arte é sagrada e as palavras também são sagradas e tudo o que nós escrevemos há-de acontecer, eu desejo que daqui a algum tempo tenhamos muitas Malias na Guiné.”

M80 - Linha de Passe
Basicamente, foram 85 vezes em menos de um quarto de hora, certo, Adama?!

M80 - Linha de Passe

Play Episode Listen Later Sep 3, 2026 6:26


Em Espanha, uma boa notícia para as desportistas que quere ser mães. O futebol vai para na Argentina ao minuto dez, e ainda Jaime Faria, que perdeu com um dos melhores do mundo!

Convidado
"Kiev, na prática, é peão do grande xadrez entre as grandes potências" Major-General Carlos Branco

Convidado

Play Episode Listen Later Sep 3, 2026 22:28


O Major-General do exército português Carlos Branco que tem partilhado periodicamente na RFI as suas análises sobre os conflitos vigentes no Médio Oriente e entre Kiev e Moscovo, lançou no passado mês de Julho um livro especificamente dedicado às raízes da guerra na Ucrânia. Intitulado "Ucrânia, variações de uma guerra inacabada", este livro compila uma série de artigos que o Major-General publicou nestes últimos anos sobre a história recente da Ucrânia. Autor de cinco livros publicados sobre a Guerra Fria, o Afeganistão, ou ainda sobre o conflito na ex-Jugoslávia, o Major-General Carlos Branco analisa ao pormenor e desfaz o discurso oficial em torno do conflito na Ucrânia, baseando-se em fontes documentais e na sua experiência em diversas organizações internacionais, nomeadamente a Aliança Atlântica, no seio da qual ocupou o cargo de Director da Divisão de Cooperação e Segurança Regional, do Estado-Maior Militar Internacional da NATO, em Bruxelas. Em entrevista à RFI, o Major-General Carlos Branco começa por apresentar no que consiste a sua obra sobre a Ucrânia. RFI: Do que fala concretamente o seu livro? Major-General Carlos Branco: Este livro é a compilação de mais de 70 artigos que eu fui publicando sobre o tema da guerra na Ucrânia, com uma série de artigos anteriores ao início da guerra propriamente dita em 2022, artigos publicados a seguir a 2014. Porque, na prática, a guerra não começa em 2022, começa em 2014 e é fundamentalmente uma reflexão no seu conjunto, claro, de uma uma interpretação realista das relações internacionais aplicadas ao caso concreto da guerra na Ucrânia. Basicamente, é uma análise centrada no papel das grandes potências na cena internacional. Neste caso concreto, o papel dos Estados Unidos e da Rússia e, no fundo, apresentar este conflito fundamentalmente com duas vertentes: a vertente internacional que envolve a afirmação hegemónica dos Estados Unidos. É apenas um capítulo, a guerra na Ucrânia, como outros, o Irão, como agora mais recentemente estas iniciativas para a Gronelândia, o controlo da Venezuela, o controlo do Canal do Panamá, etc. Portanto, uma dinâmica de conflito entre grandes potências e, nesse caso, uma tentativa dos Estados Unidos chegarem às fronteiras da Rússia, algo que uma grande potência não autoriza, não autoriza a Rússia, como também não autorizam os Estados Unidos, como também não autoriza a China. E depois há a outra dinâmica, que é um conflito que é fundamentalmente interno na Ucrânia, entre os diferentes grupos ucranianos. Porque a Ucrânia não é um país uno, é um país multinacional, é um país com vários grupos étnicos. E o que nós estamos a assistir é a tentativa de um grupo prevalecer relativamente aos outros, impondo-lhes uma série de coisas que para eles são inaceitáveis. Podíamos começar pelo exemplo da língua. O grupo que nesta altura se encontra no poder na Ucrânia, tenta que a língua ucraniana seja a única língua falada na Ucrânia. Quando nós sabemos perfeitamente que por toda a Europa democrática existem vários países multilingues e isso não é de modo nenhum uma excepção. São vários os países em que isso acontece. Não se compreende porque é que isto também não acontece na Ucrânia, um país que tem vários grupos étnicos e linguísticos. Portanto, a estes dois confrontos, este segundo confronto acabou por ser um confronto Ucrânia-Rússia. Uma vez que a esmagadora maioria da população do leste da Ucrânia é a população russa. Quando a população russa começou a ser atacada no rescaldo de um golpe de Estado de 2014 que derrubou um governo, um Presidente da República democraticamente eleito e instrumentalizado, sem qualquer margem para dúvidas e com a imensa evidência, por parte dos Estados Unidos, essas populações naturalmente reagiram. E houve, portanto, depois, uma solidariedade russa entre Moscovo e os seus 'irmãos' russos, que se encontravam inseridos na Ucrânia. Portanto, o livro elabora muito à volta dessas duas dinâmicas. Como é que elas se interceptam, como é que elas se influem mutuamente e como é que, em última análise, uma acaba por servir de instrumento à materialização da outra. Concretamente, refiro-me ao projecto hegemónico norte-americano que procura impor à Rússia uma derrota estratégica. Uma derrota estratégica essa que terá seguramente várias matizes, mas que fundamentalmente passa por colocar um governo que lhe seja favorável no Kremlin. E, portanto, a partir daí, desenvolver todas as suas acções, nomeadamente no domínio económico, do controlo energético, etc, etc. Se isso acontecesse, seria um controlo mundial por parte dos Estados Unidos e isso não vai acontecer. O que é de salientar, é mais um erro de cálculo estratégico dos Estados Unidos que nos tem vindo a habituar. Tiveram erros de cálculo no Vietname, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia. É mais um erro de cálculo estratégico no Irão, porque as coisas saíram quase que diametralmente opostas àquilo que eles queriam fazer. E é sempre a mesma tentativa de substituir um governo por outro que lhe seja favorável. E a partir daí, conseguem manobrar. Foi o que fizeram em Kiev. E portanto, Kiev, na prática, é peão deste grande xadrez entre as grandes potências. RFI: Precisamente, desfaz uma série de mitos em torno das raízes da guerra, aquilo que foi apresentado como uma revolução em 2014, também desfaz os mitos sobre o que acontece dentro da própria Ucrânia, também sobre o estado da oposição dentro da Rússia e também dos próprios interesses, não só dos Estados Unidos, como também da Europa. No meio deste conflito, como é que está a Europa no meio disto tudo? Major-General Carlos Branco: A Europa está num beco sem saída porque com estes dirigentes que estão no poder nesta altura, é difícil ver uma saída para este conflito. Inicialmente, a Europa acabou por aliar-se aos Estados Unidos e apoiar os Estados Unidos neste esforço contra a Rússia. Temos presente, por exemplo, a questão das sanções, etc. Mas a Europa, no meio disto tudo, foi extremamente prejudicada. Por exemplo, a questão energética. O modelo de desenvolvimento industrial europeu baseava-se muito na energia barata que era fornecida pela Rússia e isso acabou. E nós sabemos quem é que fez isso. Os Estados Unidos não permitiram que existisse essa relação entre a Europa, mas fundamentalmente, entre a Alemanha e a Rússia. Isso não é nada de agora, é uma coisa antiga. E a Europa, nesta altura, acaba por, em termos energéticos, consumir muito mais caro. O gás natural, vai comprá-lo aos Estados Unidos e não só, mas é muito mais caro e está a ter grandes dificuldades do ponto de vista do desenvolvimento económico e industrial, fundamentalmente porque não tem as matérias-primas que são indispensáveis para o novo paradigma económico, que passa fundamentalmente pela computação, a computação quântica, grande consumo de dados e a Europa não tem terras raras, para não falar na questão energética. Portanto, tem uma grande dependência. Mas o que é curioso é que a Europa está a falar para dentro, porque quando fala de autonomia, tem que perceber que não é autónoma e portanto, tem que considerar este elemento no processo de decisão e provavelmente terá que se adaptar do ponto de vista das políticas. Mas eu acho que o problema da Europa não é só a questão das matérias-primas. Repare, se nós tivermos em consideração as grandes tecnológicas mundiais, as 'sete magníficas' são todas americanas e nenhuma delas é europeia. E além disso, temos também a juntar-se a este grupo de grandes tecnológicas, também as chinesas. E quando falamos, por exemplo, de 'chips', a Europa é absolutamente deficitária nessa matéria. E se quisermos fazer uma análise mais profunda e verificarmos, por exemplo, as patentes nos mais variados domínios registadas pelos europeus e registadas pelos americanos e pela China, então pela China, muito mais, nós cada vez percebemos que existe uma 'décalage' aí. Repare, há cerca de talvez 20 anos, o PIB agregado da Europa era muito semelhante ao dos Estados Unidos. Hoje é cerca de dois terços. Portanto, quando falamos em dados concretos, nós podemos ter uma dimensão despida de preconceitos ideológicos e perceber que a Europa está numa regressão. Portanto, devia ter tomado uma série de medidas que pudessem inverter esse caminho. Mas as pessoas que estão nesta altura à frente da União Europeia e também dos países da Europa, não são pessoas qualificadas e, portanto, o caminho é escuro. Por exemplo, o comportamento da Europa relativamente a esta guerra na Rússia é uma coisa absolutamente difícil de explicar. RFI: Precisamente, no seu livro fala da deterioração das relações da Europa não só com a China, mas também com a Rússia. E, portanto, tendo em conta que a Europa, ou pelo menos os seus dirigentes, conhecem qual é a agenda dos Estados Unidos relativamente a este conflito, como é que se explica que hoje em dia, os líderes europeus, nomeadamente do Reino Unido, da Alemanha e da França, estejam actualmente com um discurso que tende a dar crédito à possibilidade de um conflito aberto com a Rússia? Major-General Carlos Branco: A explicação é difícil. Há várias possíveis. Uma delas é o facto de terem prometido às suas populações mundos e fundos e agora têm um nada para lhes dar. Não têm nada para lhes dar porque andaram a enganar as suas populações. Andaram a dizer que a Rússia não tinha mísseis, não tinha tecnologia, era apenas uma estação de serviços com armas nucleares. Portanto, deram uma imagem absolutamente errada da situação. Inclusivamente alinharam também num erro de cálculo estratégico, descurando a história. E nós sabemos o que tem sido o comportamento dos europeus relativamente às diferentes Rússias desde o século XVII que tem havido sempre tentativas de invasão da Rússia. A última foi no século XX, esta levada a cabo pelo presidente Biden. Era mais uma aventura, mas essa aí a iniciativa vinha do outro lado do Atlântico. A situação dos europeus relativamente à Rússia é diferente de país para país. Há um ódio visceral entre os russos e os ingleses. Relativamente à Alemanha, a situação tem outros matizes. Mas para responder à sua questão, esta gente andou a dizer que o caminho era a vitória, que íamos ser todos muito felizes e iriam fazer-se grandes negócios na Rússia, aliás, preferencialmente provocando a implosão da Federação e fazer negócios com as diferentes federações e ganhar muito dinheiro. Onde é que estamos? Agora estamos passados cinco anos numa Rússia que está na mó de cima do ponto de vista militar, como do ponto de vista económico, independentemente dos ataques que sofreu na sua profundidade, fundamentalmente nos últimos dois meses, o que é um facto, é que a Rússia não vai claudicar. E cada vez apresenta uma capacidade bélica maior. Como se está a verificar agora, há quase uma semana que Kiev está em permanente ataque e parece que estes dirigentes não perceberam ainda que se atingiu o 'impasse doloroso' e que se calhar, era altura de negociar. Era a altura de falar, era altura de pôr a diplomacia em cima da mesa. Mas isso não vai acontecer porque não estou a ver a Kaja Kallas (chefe da diplomacia da UE) com os requisitos mínimos para se encontrar na função em que se encontra. Tivemos, aliás, uma coisa absolutamente chocante. Houve uma reunião dos ministros das Finanças do G20 (esta semana) nos Estados Unidos. Repare bem nisto: o ministro das Finanças russo foi convidado pelo ministro das Finanças americano porque os Estados Unidos eram a nação anfitriã do evento e os países europeus recusaram-se a tirar uma fotografia dos participantes na reunião. Portanto, com esta gente, não vai haver nunca diplomacia. A situação vai-se agravar ou vai continuar. A isto acrescentam-se as iniciativas de Trump relativamente ao Médio Oriente, o petróleo, independentemente daquelas tiradas de Trump para que o petróleo afinal suba menos um bocadinho. O que é um facto é que continua a subir a inflação na Europa, salvo erro, já vai na casa dos 3% e eu não vejo como é que isto vai ser revertido, porque os europeus parecem estar empenhados em ir para o confronto militar. E hoje tivemos este caso absolutamente estúpido o argumento do tal drone que os alemães não conseguiram descobrir quem e que lhes rebentou com o Nord Stream (gasoduto Alemanha-Rússia), mas descobriram agora, passado um mês, que teria sido a Rússia, mas não apresentaram provas. Eu não estou a dizer que não foram os russos que fizeram aquilo, embora eu não perceba para quê. Eu não entendo. Mas não vamos excluir a possibilidade de terem sido os russos. Apresentem provas. Isso é a primeira questão. Mas isto só está a ser trazido ao de cima, porque Merz (o chanceler alemão) leva nesta altura cerca de 20 pontos de atraso relativamente à AFD (partido de extrema-direita) e vai ter eleições dentro de menos de uma semana. Isto é que é o problema e portanto estão a utilizar uma situação destas para procurar tirar benefícios em termos de política interna. Não há outra palavra. Mas isto cria dinâmicas. Por exemplo, ouvimos o secretário-geral da NATO a fazer uma série de afirmações absolutamente ignóbeis que, no fundo estava a alinhar com esta farsa toda e no fundo a criar situações que depois são extremamente difíceis de serem revertidas. RFI: No seu livro diz que no começo do conflito tinha havido uma possibilidade de eventualmente se chegar a um acordo de paz que foi impossibilitada, nomeadamente por líderes europeus, que convenceram Zelensky de que poderiam ter um acordo melhor e, portanto, relativamente a esta situação, quais são as possibilidades que existem neste momento de eventualmente negociar, sentar à mesa, discutir, chegar a um acordo? Major-General Carlos Branco: Eu vejo isso de forma muito remota. Isso só será possível, isso que eu vou dizer é incómodo, mas penso que nesta altura não há outra volta que é a vitória militar de uma das partes. Só haverá negociações quando se atingir aquilo que se chama de 'impasse doloroso', quando as partes perceberem que têm mais a ganhar à mesa das negociações do que no campo de batalha. Quando psicologicamente interiorizarem essa situação -e é o que nós dizemos- atingiu-se a maturidade e, portanto, há portas abertas para se avançar nesse caminho. Agora estamos longe de isso acontecer, porque a Ucrânia está a ser partida todos os dias. Há um sofrimento brutal para o povo ucraniano, mas os seus dirigentes estão a alimentar uma situação que está perdida. E eu sublinho isto. Mas vai ser até ao último ucraniano. Exactamente. Estes líderes não têm maturidade para perceber isto que eu estou a dizer e portanto vão continuar até ao fim. Para isto contribui também o papel dos europeus, porque se os europeus não dessem fogo a esta fornalha, se não criassem nos ucranianos o sonho de que isto pode ser revertido, de que podem derrotar a Rússia, quer dizer, eu não consigo perceber como é que isso acontece. O próprio chefe de gabinete do presidente Zelensky, Kyrylo Budanov, mas não só, foi também o seu lugar-tenente, que vieram dizer que a Ucrânia precisa de 30.000 soldados por mês. Não sou eu que digo. Portanto, um país que se encontra numa situação destas, que tem largos milhões de cidadãos fora das suas fronteiras, que está a recrutar da forma que é conhecida, que as pessoas são apanhadas no meio da rua e levadas à força, um país que está numa situação destas, a meu ver, está numa situação de grande vulnerabilidade. Mas os seus dirigentes continuam a achar que não. 'Não, isto ainda a gente ainda pode ganhar'. Portanto, é exactamente por causa disso e pela irresponsabilidade do estímulo que é dado pelos presidentes europeus. Aliás, vimos agora quando foi das comemorações do 35.º aniversário da independência da Ucrânia e que foram lá uma série de dirigentes a Kiev. E eles estavam com uma cara muito sorridente a tirar uma fotografia com o presidente. E eu interrogo-me: estão sorridentes porquê? Quer dizer, isto é de uma falta de senso e de uma falta de capacidade de análise da situação. Esta gente não sabe o que é que está a acontecer. Vivem numa bolha exactamente por causa disso. O futuro não pode ser brilhante. Para já, veremos se não há nenhuma movimentação incauta por parte de determinados países da Europa e que venham depois chamar a NATO. Até porque a tentativa de envolver a NATO com este argumento do ataque directo e na tentativa de provocar o artigo quinto (defesa colectiva no caso de um membro ser atacado), já houve várias. Portanto, nós estamos recordados quando houve o míssil ucraniano que caiu na Polónia e que matou, salvo erro, dois agricultores (em Novembro de 2022). O ministro dos Negócios Estrangeiros polaco e a Ucrânia começaram logo a dizer 'isso foi à Rússia, foi à Rússia' e, portanto, já abriu portas para Zelenksy, porque sabe que não consegue sozinho ganhar a guerra. Precisa dos europeus. E o Biden veio mandá-los calar. Objectivamente, foi isso que aconteceu. Portanto, não alinhou nesse projecto porque o que queria, não era criar uma guerra na Europa. O que queria era remover o Putin do poder e colocar lá um seu apaniguado. Mas é que as pessoas às vezes não conseguem distinguir uma coisa da outra. Aliás, isso é outra coisa importantíssima. Biden nunca esteve muito empenhado na vitória militar da Ucrânia. Isso é outra questão que está profusamente documentada. O que ele queria era provocar uma alteração do poder em Moscovo. São coisas diferentes. poderão ter caminhos paralelos, poderão interceptar-se nalgumas fases, mas são coisas diferentes porque, em última análise, o objectivo estratégico é distinto. Portanto, não ter clarividência sobre esta matéria é dramático. RFI: Outro aspecto também importante do seu livro tem a ver com a forma como também são apresentados os acontecimentos pela comunicação social aqui na Europa. É bastante crítico relativamente ao papel da comunicação social. Major-General Carlos Branco: Sim, é verdade. A comunicação social está, com algumas excepções, mas muito reduzidas, plenamente alinhada com uma das partes, está entrincheirada e, portanto, não é um espaço de debate sobre o que está a acontecer, mas é fundamentalmente um espaço onde se divulga de uma forma exclusiva e frequentemente propagandística, os pontos de vista de uma das facções. E o espaço de debate está extremamente reduzido. E muitas das vezes quem tem uma opinião que não coincide com a do meio, acaba por ser marginalizado. Associado a isso, a União Europeia tem-se tornado cada vez mais um organismo autoritário, porque há indivíduos que tiveram maior protagonismo no espaço público e o que lhes aconteceu foi inclusivamente congelarem-lhes as contas bancárias. Portanto, isto que está a acontecer é uma deriva autoritária na qual a comunicação social está a alinhar. Relativamente a estas matérias, não vi estas notícias na televisão e muito menos manifestação de desconforto e de discussão destes assuntos, porque estes assuntos são cruciais. Os americanos saberão muito bem o que aconteceu no rescaldo do 11 de Setembro e as tentativas de calar opiniões, críticas e outras opiniões, vamos pôr isto nesses termos, e a Europa vai por esse caminho.

Nacidas Para Segundear
ESTAMOS EN CASA

Nacidas Para Segundear

Play Episode Listen Later Aug 22, 2026 56:37


SEGUNDERAS bienvenidos a este episodio especial de hace BASICAMENTE 2 MESES que nos olvidamos de editar, espero que les sea de su agrado, los queremos.

Convidado
Marta Lança publica memórias entre Lisboa, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo e Rio de Janeiro

Convidado

Play Episode Listen Later Aug 20, 2026 37:05


Neste programa, conversamos com Marta Lança, a autora de “Essas pessoas na sala de jantar”, um livro que conta as histórias de uma vida escrita entre Lisboa, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro e outras geografias, tendo como fio condutor as mudanças de casa e os encontros com novas pessoas que enchem salas de jantar transformadas em lugares de resistência e comunidades de pensamento e de arte. Este é o seu segundo livro, depois de “infinitas-pessoas-mais-uma”, ambos editados na Tigre de Papel. Marta Lança é jornalista, escritora, programadora cultural e também coordena o portal Buala, uma plataforma dedicada à cultura e ao pensamento sobre o Sul Global.  O livro “Essas pessoas na sala de jantar” é como uma casa, ou melhor, uma sala de jantar repleta de amigos e reinventada a cada nova morada entre três continentes. Mas não é “uma sala de jantar auto-satisfeita”, não. É um convite à viagem, à partilha e aos novos sabores, com pratos cheio de histórias e portas abertas, com sorrisos e cumplicidades, algures em prédios onde – podemos ler – “nos desenrascamos uns aos outros, e dispensamos ovos e coentros, em que crescemos juntos”. Foi a partir das sucessivas mudanças de casa para “outro bairro, às vezes outra cidade, ou continente” que a autora quis “encapsular temporadas em certos lugares e circunstâncias”. Através da sua história pessoal, conta o que viu nos países onde viveu, observando com “um olhar para dentro e para fora” capaz de arrombar quartos fechados e mentes quadradas. Esta é uma história de encontros, de “geografias afectivas múltiplas” e é também um diário de bordo de um mundo em risco de extinção e de um outro a cimentar-se, num “tempo saturado de estímulos e de tecnofascismo” e em que os ecrãs substituíram livros e o brincar na rua. Escrito com muito humor, o livro é também uma forma de transmissão da memória, offline, um registo proustiano em busca de um tempo perdido em que tanto se ganhou e tanto se foi perdendo. Às memórias pessoais da protagonista, às suas histórias de amizades, de amores, de viagens e experiências noutros países, misturam-se os grandes acontecimentos que marcaram a História e a política do pós-25 de Abril em Portugal até aos dias de hoje no mundo. Tudo acompanhado pelo ritmo dos filmes, dos livros e da banda sonora que também escreveram esses anos. A partir de Lisboa, Faial, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro, Baixo Alentejo, as histórias  são acompanhadas por reflexões sobre as injustiças sociais, o racismo, as cidades segregadas, o capitalismo desenfreado, a crise da habitação, a especulação insaciável e as rendas insustentáveis, a ecologia em crise, a pobreza, as sempiternas lutas das mulheres e muitas e variadas e repetidas opressões. São também histórias de lugares de resistência, de salas de jantar transformadas em comunidade de pensamento e de arte. A autora lembra como foi crescer numa Lisboa arrastada pela especulação imobiliária, o que foi a “Geração à Rasca” nos tempos da Troika e lembra que “o fascismo nunca desapareceu no país dos brandos costumes”.  Depois, recorda como “ter vinte e um anos em Paris foi um embate de geopolítica existencial, um momento fundador na mundividência íntima”. Em Cabo Verde, reconheceu “a personalidade telúrica dos habitantes vulcânicos" que tinha conhecido em menina nos Açores, “mas o mais difícil de erradicar permanece: as mentalidades, a anos-luz de descolonizar”. Segue-se Luanda, “mal tinha desembrulhado o grogue, o veludo e a calabaceira de Cabo Verde e partia de novo, desta vez para uma grande metrópole africana da qual afinal não sabia quase nada”. Em Luanda compreendeu que “a mesma cidade onde se luta para conseguir comer ou para facturar milhões, toda a hora é hora de celebrar a vida, porque a toda a hora se pode morrer.” Em Maputo, o que mais conquistou o seu “coração rebelde eram os concertos de hip-hop, agregadores de jovens desejosos de mudar a sociedade restrita e opressora”, como Azagaia que “confrontava o regime e a geração da independência” com, por exemplo, a música “Quem vendeu a minha pátria?”. No Rio de Janeiro, surge a pergunta: “Como se pratica a alegria num lugar atravessado por tanta violência?”, onde “a desigualdade continua a ser a espinha dorsal da vida urbana brasileira.” A resposta começa, talvez, nos baile funk na Zona Norte, “uma das maiores expressões da resistência cultural, social e identidade das periferias brasileiras”. Mais tarde, o refúgio no Baixo Alentejo, em Portugal, onde uma casa no campo é a possibilidade de “pequenos lugares engendrarem utopias”. Porém, mesmo aí, “a terra é colonizada e posta a render” e nos cafés se percebe “como muita gente desistiu e se deixou manipular pelo populismo e abandono”. No final, regressa às raízes para cuidar de quem dela cuidou e de quem dela cuidará, confessa. Consciente de fazer “parte da paisagem da desigualdade montada”, ao longo dessas viagens entre os três continentes, a narradora nunca esquece “o Atlântico que devolve continuamente a memória do terror e da sobrevivência”. Também omnipresente, de viagem em viagem, a comida, das bolinhas da Xandite aos gelados do Pintado, do empadão de esparguete com carne nos avós, ao “panelão de arroz de grelos servido em pratos lascados e vinho de pacote”, passando pelo amarindo, loengo, mamão, goiaba e fruta pinha da zungueira de Luanda, sem esquecer o acarajé no Rio e a Cozinha Ocupação. Afinal, “poucas coisas unem tanto as pessoas como partilhar uma refeição”. A inspirar as suas páginas sente-se a busca e um enorme respeito pela liberdade, partindo de uma personagem-arquétipo a que chamou Júlia e que andava “a desenhar um mapa poético para mudar o sistema sem tomar o poder”. Era uma Júlia que, para além do engajamento em vários combates políticos, concentrava “a liberdade das infinitas mulheres que nunca puderam fazer nada mais senão trabalhar muito e cuidar dos outros". "Essas pessoas na sala de jantar" talvez seja "o mapa poético" de Marta Lança, esboçado a partir da "força de todas as que foram reprimidas". Marta Lança: "Aproveita, vive com consciência toda essa liberdade, o que tantas mulheres antes de ti não puderam fazer" RFI: Do que fala este livro? Marta Lança, Autora de “Essas pessoas na sala de jantar”: “Este livro compila várias crónicas de diversos momentos da minha vida. Quando estava a pensar o que é que ligaria estas histórias, achei que seria o mínimo denominador comum a questão de mudar. Mudar de casa, mudar de cidade, mudar de geografia emocional e de trabalhos, entre eles tem esta questão de cada um que se passa num determinado tempo e espaço. Começa com a casa onde cresci, a casa dos pais, a casa de onde parti para a vida e depois são sucessivas casas como ponto de partida: várias em Lisboa, várias depois com a vida profissional, em que fui viver para os países africanos onde também se fala português, como Cabo Verde, Angola, Moçambique. Depois o Brasil e o regresso a Lisboa, sendo Lisboa também em vários bairros, em vários tempos. Isso é o que coordena. Depois, fala de muitas outras coisas. Cada história tem os seus universos, alguns vão-se repetindo, mas é basicamente um livro que tem a ver com o crescer, com o tornar-se uma mulher, tornar-se adulta, e tem esse lado um pouco confessional, autobiográfico - mesmo assim, tentando não expor muito os outros - mas é o devir adulto. Basicamente, é um livro que tem a ver com o crescimento.” Por que é que decidiu chamar-lhe “Essas pessoas na sala de jantar”? “Porque sempre gostei muito dessa canção de 'Os Mutantes', um grupo brasileiro de movimento Tropicália. A canção chama-se ‘Panis et Circenses', tem a ver com uma crítica à ditadura militar brasileira. É muito irónico porque enquanto se está a distribuir pão e circo, essa classe média que está entretida na sala de jantar, ocupada em manter-se, em nascer e morrer, e que fica numa certa passividade enquanto o mundo explode, enquanto há uma série de injustiças, há uma classe média que está muito contente com a sua vidinha de privilégio. Então, trouxe este título para falar também dessa tensão que eu própria sinto entre o meu meio, esse meio pequeno-burguês de Lisboa que teve acesso à educação, saúde a seguir ao 25 de Abril. Portanto, somos essa primeira geração em liberdade que pôde uma série de coisas e, ao mesmo tempo, o que é que fazemos com isso? Então, também tem essa questão de tentar politizar-me e ter atenção à abertura para outras realidades do mundo e da minha própria cidade e ter uma participação não passiva, sendo que há esse dentro e fora da sala de jantar. Acho que é uma canção que traduz muito essa vontade também de trazer poesia para a vida, um outro olhar, não aquele convencional, e por isso a escolhi como título.” O espaço casa tem um lugar central, mas essas casas vão sendo criadas em diferentes países. Quase parece um paradoxo porque a casa é algo aparentemente estável, seguro, e aqui as suas casas são resultado de viagens e cada cidade é como uma nova casa. Até que ponto é que as casas e as cidades são personagens centrais neste livro? “São porque têm um lado de dentro de casa, mas não muito. Então, dentro de casa porque aconteceu que quase todas estas casas, como os leitores vão ver, foram casas partilhadas, casas colectivas onde viviam outras pessoas. Desde o início com a família, o núcleo duro, etc, e depois os amigos, os namorados e, hoje em dia, as casas com crianças quando estamos a criar filhos. Na partilha de casa, sempre achei muito interessante, como uma espécie de laboratório social, como é que as pessoas habitam uma casa, como é que pessoas, além de mim, tornam a casa um lugar habitável, um lugar acolhedor, mas um lugar onde há conflitos com a divisão de espaço, divisão de tarefas. Foi interessante que a minha vida suscitou ver várias maneiras de habitar a casa porque fui partilhando casa com pessoas diferentes ao longo da vida e sendo que essas outras cidades, outros bairros, também traziam sempre um microcosmos de realidades diferentes. Então, não são cenários, são participantes dessa observação de costumes, de ponto de partida para ver o que está à volta da casa. Aliás, o livro parte desse interior da casa, mas depois vai muito para fora, sai logo. A narradora - que sou eu - acaba por estar mais interessada no que se passa fora. Tenho algumas observações sobre o dentro de casa, mas o mais interessante será mesmo essa etnografia de ambientes à volta dessas casas, do bairro, dos sistemas políticos, dos assuntos que inquietam naquele momento, como se cristalizasse um certo tempo de observação. É por aí que interessa, é como a casa ser um mirante, um ponto de observação do exterior.” Vamos às casas nas diferentes cidades. Por exemplo, Lisboa. Lisboa não é apenas a cidade bonita e multicultural onde cresceu, onde ia ao ballet da Gulbenkian, ao cinema, aos bares do Bairro Alto dançar kizomba e ouvir Os Tubarões. Foi também a cidade onde um rapaz cabo-verdiano, Alcino Monteiro, foi espancado até à morte por um bando de skins no Dia de Portugal, em 1995, um cenário que se repetiria. Olha para este ódio racial que reverbera ainda na própria cidade. Quer-me falar sobre Lisboa? “Sim, é interessante ter ido buscar esse exemplo porque essa linha de cor que atravessa a cidade de Lisboa, essa colonialidade ainda estamos a vivê-la, não é? Crescer nos anos 80, numa cidade que estava a urbanizar-se, é o meu ponto de partida: era ali a zona de Carnide, depois assistir ao fenómeno do Colombo, toda essa Lisboa que se queria tornar uma cidade europeia, com a entrada na União Europeia, o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, o realojamento dos bairros mais auto-construídos, etc, mas que obviamente foi criando para as margens, foi marginalizando, tornando periféricas uma série de realidades socioculturais e económicas de tornar muitos bairros empobrecidos e pessoas empobrecidas em que a linha de cor coincide. Ou seja, são as pessoas racializadas que acabam por ter esse estigma que vinha de um país a seguir ao 25 de Abril, ainda com uma grande carga colonial, racista, foi mantendo, se calhar um pouco mais com um certo pudor, sendo que agora, com a ascensão da extrema-direita e todo este populismo e instrumentalização do ressentimento voltou a sair à carga e ainda mais estigmatizou estes territórios, estas pessoas, e no livro vou falando desses momentos. De facto, o ódio racial foi um momento definidor quando aconteceu esse assassinato do Alcino Monteiro num bairro que eu frequentava, o Bairro Alto, que eu frequentava com os meus amigos. Para nós, que éramos novos, sentir esse medo nas ruas, ali no centro da cidade, e perceber: ‘Afinal isto é terrível. Há pessoas que são um alvo muito mais declaradamente de uma purga, dessa motivação do ódio.' E acho que isso nunca deixou de existir em Lisboa, aliás, culminou no ano passado com a morte do Odair Moniz, e vamos vendo como a cidade evolui e não resolve essas suas feridas sociais de ódio. E, portanto, acho que isso atravessa de alguma forma o livro. Eu, no lugar de também de um certo activismo anti-racista, mas como é que uma jovem lisboeta branca vai percebendo essas injustiças. Também entrei por aí de uma forma, não aprofundando muito, mas dando a entender que isso é uma realidade que só não vê quem não quer. Podemos estar num certo meio protegidos, mas somos cúmplices desse estado de coisas se mantivermos essa passividade. Portanto, temos de denunciar.” Vamos agora a Paris. Conta que “ter 21 anos em Paris foi um embate de geopolítica existencial, um momento fundador na mundividência íntima”. Foi para lá estudar, viveu na Cité Universitaire. Fala daquele momento, mas também na continuação das lutas sociais até hoje, com os Coletes Amarelos, as revoltas suburbanas na sequência também do assassínio de jovens de pele negra, a mobilização contra a ascensão da extrema-direita. Que lugar tem para si Paris? “Nessa tal geografia de afectos e de crescimento, Paris foi muito importante porque foi esse tal embate político. A minha relação com Paris no livro é no ano de 1997, 98, eu era uma jovem estudante de Erasmus em Paris. E teve esse papel de perceber como o mundo é enorme, como as lutas sociais são muito mais vastas do que a partir de Lisboa e também de perceber que há uma esquerda muito organizada e disseminada nas universidades, nas manifestações e isso foi muito importante de assistir, de acompanhar, de testemunhar esse fervor. Quanto mais organização, até de contestação, também mais se sentia essa tensão de uma cidade a uma escala muito maior do que Lisboa. Eu conto uma manifestação dos ‘chomeurs' [desempregados] que me impressionou muito, a forma muito combativa e muito radical de confrontar a polícia, etc, e depois Paris sempre continuou a ser uma meca da esquerda europeia com essas outras lutas que se seguiram e mais do que nunca, agora, com a situação política da Europa e de França em particular. Acho que é um bom barómetro da temperatura social, continua a ser.” Viveu também em Cabo Verde, que diz que se tornou em “um país exemplar no contexto africano”, graças ao empenho, ao valor atribuído à educação. Diz ainda que o mais difícil de erradicar permanecem “as mentalidades a anos-luz de descolonizar”. Quer falar-nos um pouco sobre Cabo Verde e a sua experiência? “Cabo Verde foi também uma transição enorme na minha vida. Ir viver para uma ilha pequenina como São Vicente e fazer uma revista com jovens cabo-verdianos e perceber as questões deles, algumas frustrações e muita vontade de participar, de ter opinião. Então, foi uma experiência que eu acarinho muito. De facto, viver nos sítios, trabalhar nos sítios, ajuda-nos muito a compreender essas tais relações, a sair do postal turístico das férias na ilha do Sal ou da Boavista em que a pessoa não percebe muito mais para além de que é um país maravilhoso, cheio de morabeza, etc. Ao trabalhar com jovens e ao ouvir os artistas, ao fazer também jornalismo de muita escuta, fez com que eu entendesse que há uma grande questão identitária. Portanto, isto é Cabo Verde de 2004, é claro que muitas coisas mudaram, mas havia ali muitas conversas sobre a questão da crioulidade, da situação atlântica de Cabo Verde cultural, da mestiçagem, todas essas heranças de ‘somos mais africanos, somos mais europeus', toda essa indefinição, que é uma discussão interessante, mas depois, no dia-a-dia, sentia-se que ainda havia um certo racismo em relação a pessoas do continente africano, muito pejorativamente chamados de mandjacos, como se isso fosse um insulto a uma etnia da costa da África, guineense, etc, e sobretudo a geração mais velha tinha um certo preconceito com a questão das pessoas mais negras. Falo também nessas manifestações, de alguns comentários, de algumas tradições como os Mandingas no Carnaval do Mindelo. E acho que sim, há uma mentalidade ainda muito colonizada que vai-se percebendo também em coisas mais recentes. Por outro lado, há uma juventude que reivindica o lado pan-africanista, a herança de Amílcar Cabral como os grandes valores da independência, tudo isso, mas é, mais uma vez, perceber que o contexto de um país é muito mais complexo do que a gente pensa no início. “Mal tinha desembrulhado o grogue” - estou a citá-la – “o veludo e a calabaceira de Cabo Verde", partiu de novo, desta vez para "uma grande metrópole africana, da qual, afinal, quase nada conhecia”. Luanda é a cidade onde "a toda a hora é hora de celebrar a vida porque a toda a hora se pode morrer”. Quer falar-nos sobre Luanda? “Luanda, essa grande cidade! Foi incrível conhecer Luanda nesse momento que saía há poucos anos de longuíssima guerra civil e ir trabalhar na área da cultura, das artes, em que estava tudo por fazer, havia uma alegria, um entusiasmo, e foi mesmo extraordinário também partilhar casa no bairro da Maianga, uma casa que já é histórica nas lendas urbanas, que é o Sete e Meio. Era um apartamento que dividíamos entre artistas angolanos e eu e uma amiga portuguesa que também trabalhávamos na Trienal de Luanda. Morava lá o Kiluanji Kia Henda, o Orlando Sérgio, o Yonamine, o Ihosvanny, artistas que estavam em grande força na sua carreira como artistas visuais, e o Orlando que é um actor na área do teatro e cinema. Então, era um ponto agregador da cidade, onde fazíamos muitos jantares, muitas conversas na nossa varanda, que também tinha um ponto de observação para as transformações urbanas da própria cidade de Luanda. E sim, é uma cidade de contradições, não é? Nessa altura - já não é a realidade actual - havia muita gente a fazer dinheiro porque o petróleo era, de facto, a economia muito efervescente, o crescimento económico era incrivelmente alto e acelerado, mas sabemos que isso depois não se traduziu em melhorias na qualidade de vida do povo angolano, que hoje em dia está bastante sufocado, numa crise enorme. Eu, como estrangeira, mas tentando viver como angolana no dia-a-dia, andar de candongueiro, depois também fiquei lá a trabalhar como professora, ouvi muitas histórias e o que mais me fascinava eram as biografias das pessoas. As pessoas tinham histórias de vida incríveis e apetecia cartografar tudo e escrever tudo, mas depois a realidade era tão veloz e alucinante que era difícil. Então, esses dois textos no livrinho sobre a Luanda dessa época são muito fragmentados, mas era um espelho da própria cidade, dessas vozes todas, dessas contradições e também um grande carinho nas pessoas e, ao mesmo tempo, uma brutalidade porque é a lei da sobrevivência.” Em Maputo, foi a música e o ímpeto do hip-hop, nomeadamente as letras do Azagaia, que a conquistaram, ele que tantas denúncias fez contra o regime, contra inclusivamente a geração da independência, contra a exploração do povo, contra o neocolonialismo português. Mais uma vez a atenção e a observação acutilantes da Marta… “Gostei muito de ir aos concertos do Azagaia. Foi um privilégio poder ir a vários concertos de hip-hop. Também já tinha frequentado muito o rap angolano, gostava muito também. Na altura, em Angola, ouvia muito o MCK, depois o Luaty Beirão também voltou à cidade e outros. Havia um grande movimento de hip-hop que era um grande escape de denúncia política. Então, era uma forma de entender o que é que os jovens estavam a pensar sobre a sua situação. Maputo é uma cidade extremamente musical, havia muitos concertos, muita música ao vivo nos bares e acho que é um dos pontos mais fortes que eu retenho: essa cidade musical. O Azagaia, além de, na altura, me ter chamado a atenção pelas letras tão interessantes, depois, tudo o que suscitou quando ele morreu, o cortejo fúnebre, a repressão e os tumultos todos que houve em Maputo e Matola e na Beira a seguir à morte dele… Aliás, eu tinha escrito esse texto antes de o Azagaia morrer e depois acrescentei mais isso como um questionamento também sobre a geração que fez a independência e a herança que deixou ao país como está actualmente, que ainda tem tanta juventude urbana descontente porque não tem muitos horizontes de expectativa para poder ficar no país com uma vida digna.” Também viveu no Rio de Janeiro e começa por falar de um baile funk em que questiona "como é que se pratica a alegria num lugar atravessado por tanta violência". O que representou para si o Rio de Janeiro? “Comecei o texto com esse episódio do baile funk porque também tive a sorte de poder frequentar as comunidades faveladas da Zona Norte do Rio de Janeiro. E sim, são zonas da cidade, territórios muito permeáveis à violência, seja do tráfico de droga, seja da própria polícia. Na altura, havia operações de pacificação dos morros e, no entanto, eram sempre bastante ameaçadoras para a população trabalhadora dessas comunidades. E havia uma banalização dessa violência que acho que todos sabemos com os filmes e as notícias que nos chegam. Portanto, é viver numa guerra aberta e isso é muito desgastante para os moradores. Depois conto também como é que algumas figuras, como um estudante de mestrado, se sentia uma excepção no seu contexto de jovem negro, periférico, pobre, mas como as políticas de discriminação positiva, as quotas, são muito importantes no contexto do Brasil para furar essa repetição da pobreza e, portanto, também como é que a partir dali se estava a pensar a questão da cidade, do asfalto e da periferia, todas essas divisões de uma sociedade tão classista, tão racista… Algumas opções vão-se repetindo ao longo dos textos, mas com novos figurantes e novas reflexões, penso eu.” Acaba por haver alguns temas e até injustiças que se repetem ou que dialogam entre as cidades onde viveu? “Exacto e a procura da alegria, que citou, é mesmo uma força de resistência nestes lugares, não é uma alegria alienante, é uma alegria que tem o seu peso, da sua dor, dessas feridas todas da história, da história da escravatura, da história da pobreza, e, ao mesmo tempo, a capacidade de ‘estamos aqui, continuamos, sobrevivemos e transformamos a dor em alegria, uma alegria de não nos vão apagar, aqui continuamos'. Essa lição dessa alegria sobrevivente, para uma europeia, é mesmo importante, porque eu acho que em Portugal, por exemplo, se cultiva muito o lamento, o queixume, mas é um queixume que depois não muda nada, é um queixume quase de apaziguamento. Acho que esses países, como eu digo, abaixo do Equador, nos davam uma lição de vida nesse sentido que é: ‘Vamos para a frente, resistimos' e, cada vez mais, confrontacionais e a desejarem uma outra vida com todo o seu sentido crítico. Portanto, é uma alegria que também traz a crítica ao estado de coisas.” Outro aspecto é a comida, que de viagem em viagem também é omnipresente, seja na sala de jantar, seja na rua, no café, no restaurante. Das bolinhas da Xandite aos gelados do Pintado, do empadão de esparguete com carne da casa dos avós, ao “panelão de arroz de grelos servido em pratos lascados e vinho de pacote”, em Lisboa, ao amarindo, loengo, mamão, goiaba e fruta pinha da zungueira de Luanda, ao acarajé no Rio e à Cozinha Ocupação… Escreve: “Poucas coisas unem tantas pessoas como partilhar uma refeição”. Porquê tanto sabor neste livro? “Muito bem visto! E também o grande ensopado de borrego no Alentejo!” É verdade, não falámos do Alentejo, mas também é bom deixar aos leitores a possibilidade de descobrir outras geografias e sabores… “Exactamente. A refeição partilhada é também ligada à ideia das pessoas na sala de jantar que estão a partilhar o seu momento, a distribuição de comida, a vontade de experimentar coisas novas e como cada lugar também com os seus sabores, porque é uma forma de convívio, não é? E esse é outro grande tema do livro: o convívio entre pessoas diferentes e uma refeição pode pôr na mesma mesa pessoas de realidades muito diferentes e estarem unidas pelo prazer de comer, de descobrir e também como os novos sabores traziam novas realidades. Quando estou a apontar para esses frutos tropicais, estou a aprender novos léxicos e novas realidades e, portanto, quis trazer essas diversas comidas.” Esses sabores não são só gustativos, também há os sabores auditivos, porque a música também está muito presente no livro. É como uma banda sonora em pano de fundo… “É porque a música também é uma forma de conhecermos realidades novas. Acho que todos nós temos sempre as nossas músicas electivas. Por exemplo, ouvir música em Angola ou Moçambique ou Brasil, é a partir das letras e das sonoridades que nos trazem as tais outras realidades. E depois também as músicas que nos formaram, a nossa forma de olhar o mundo e de viver a História é feita das partilhas das universidades, das leituras, dos filmes, mas muito a partir da música. A música tem um pendor educativo, formativo muito forte em todos nós e eu queria prestar essa homenagem a tudo o que a música trouxe à minha vida, só que era difícil estar a escolher entre tantas músicas e tantos autores e então fui referindo de acordo com o que eu ia ouvindo em cada fase de vida.” Num dos capítulos fala do “Lobo da Mata” e conta um episódio terrível. Recorda a francesa Gisèle Pelicot quando disse que “a vergonha tem de mudar de lado” e também escreve, “nos anos 90 a consciência feminista era de nicho e o ‘girl power' era mais slogan do que força colectiva” e que ainda hoje “em vários países, ser mulher continua ser quase um acto ilegal”. Porque decidiu escrever o “Lobo da Mata” e falar sobre a sua própria história? “Porque nós criamos mais empatia, relação com um assunto, quando nos implicamos nele, e todas as mulheres, sem excepção, terão histórias de abusos, desconfortos no mínimo, e situações em que se sentiram com medo ou discriminadas pelo facto de serem mulheres. Acho que temos a sorte de estarmos em países onde há alguma protecção, mas até precisamente pela Gisèle Pelicot em França, sabemos como histórias tão hediondas podem estar aqui ao voltar da esquina. Eu queria trazer algumas reflexões feministas porque, tal como a música, o feminismo também é uma forma de conhecer, de aprender muito para tentar ambicionar um mundo onde haja mais igualdade nas questões de género, mas mais do que a igualdade, acredito num feminismo que não é necessariamente a luta pelo poder, mas é outra forma de convivência entre as pessoas que não passe por esta competição, por estas relações de poder, por este ímpeto bélico e destrutivo que o mundo patriarcal nos tem proporcionado e por ele chegámos aqui, a este estado de coisas tão devastador e sem futuro quase. E, portanto, o feminismo seria uma grande opção entre homens e mulheres de outro tipo de comunhão, de partilha, de uma paz social que poderia vir através do feminismo. Esse ‘Lobo da Mata' é uma história na Caparica, na adolescência. Não é uma história que seja assim o grande trauma porque eu quis também passar esse lado, de como eu encontrei as minhas ferramentas para viver com isso e para transformar essa história numa espécie de alívio e de força pessoal, mas claro que cada mulher lida com isso de maneiras diferentes, com os seus próprios traumas e fantasmas. Mas acho que sim, acho que foi importante escrevê-la, não no sentido terapêutico, mas para partilhar alguns episódios que todas temos e, depois, a partir daí, o que é que suscitou como preparação para a vida porque qualquer mulher terá passado por isso.” Fala numa mulher no livro que é uma personagem-arquétipo daqueles tempos. Chamou-lhe Júlia que andava “a desenhar um mapa poético para mudar o sistema sem tomar o poder”, uma Júlia que, para além do engajamento em vários combates políticos, concentrava “a liberdade das infinitas mulheres que nunca puderam fazer nada mais senão trabalhar muito e cuidar dos outros. A força de todas as que foram reprimidas.” O que é feito dessa Júlia? Este livro é esse “mapa poético”? “Sim, acho que sim. Essa Júlia é um arquétipo, não é uma pessoa real, mas sim um conjunto dessas vontades todas reprimidas e de alguém que pôde experimentar, pôde errar, pôde implicar-se em cada situação e fazer com que as coisas aconteçam, sair da tal sala de jantar auto-consolada para que a vida nos aconteça porque não podemos estar só à espera de uma mudança se não nos implicarmos nela. Essa Júlia ainda está aqui presente, pelo menos tenho-a comigo, como alguém que me faz lembrar: ‘Olha, aproveita, vive com consciência toda essa liberdade, o que tantas mulheres antes de ti não puderam fazer.' E é preciso celebrar essa liberdade de circulação, de podermos ser quem queremos, de podermos até mudar em qualquer fase de vida para procurar essa pessoa que nos vamos tornando em cada momento, mas não ficar a achar que isso é garantido porque as liberdades nunca estão garantidas. É também essa inquietação. A Júlia é essa inquietação que me persegue e que certamente outras pessoas se identificarão com ela.”

Dois Empregos
#282 - O BASEADO da Dona Clotilde

Dois Empregos

Play Episode Listen Later Jun 22, 2026 47:55


Um técnico de enfermagem recebeu na emergência dona Clotilde

E eu com isso?
#378 É um judeu ali? (Judeus no cenário cultural)

E eu com isso?

Play Episode Listen Later Jun 10, 2026 54:28


Ao longo dos últimos anos, a palavra “representatividade” passou a ocupar um espaço maior no nosso dia a dia. Basicamente, é o conceito que fala sobre presença e visibilidade de diferentes grupos sociais na comunicação. E no audiovisual, como é ser judeu ou criar personagens judeus? Há algum tipo de resistência a essas figuras? E o que significa ser judeu hoje no meio da cultura? Nossa convidada é Iafa Britz, produtora de cinema, sócia da Migdal Filmes, psicóloga e uma autêntica iídiche mame! Bem-vinda.

Vida em França
França: Historiador explica a "dimensão moral" da revogação do “Code Noir”

Vida em França

Play Episode Listen Later May 29, 2026 17:37


A Assembleia francesa aprovou, esta quinta-feira, 28 de Maio, a proposta de lei que revoga formalmente o “Code Noir” [“Código Negro], um conjunto de éditos reais que regulamentou a escravatura nas colónias francesas entre os séculos XVII e XVIII. A França aboliu a escravatura a 27 de Abril de 1848, mas os textos do "Code Noir" nunca foram formalmente retirados. O historiador António de Almeida Mendes considera que o gesto se reveste de uma dimensão moral e histórica que corresponde “ao reconhecimento de um crime” e que pode abrir portas para que se deixe de olhar para a escravatura como “um anexo da história ”. A Assembleia francesa aprovou, a 28 de Maio, a proposta de lei que revoga formalmente o “Code Noir” [“Código Negro], um conjunto de éditos reais que regulamentou a escravatura nas colónias francesas entre os séculos XVII e XVIII. A votação ocorreu em primeira leitura e terminou com 254 votos favoráveis, nenhum contra, nem nenhuma abstenção. A proposta de revogação do “Code Noir” foi apresentada pelo deputado Max Mathiasin, de Guadalupe e tem carácter sobretudo simbólico. O "Code Noir" é considerado um “fóssil legislativo” porque apesar de a França ter abolido a escravatura há 178 anos, o documento ainda não tinha sido revogado de modo explícito. Por isso, é um gesto "muito importante", explica o historiador António de Almeida Mendes, sublinhando que se reveste de uma dimensão moral e histórica que corresponde “ao reconhecimento de um crime” e abre portas para que se deixe de olhar para a escravatura como “um anexo da história como até hoje tem sido”. “É uma coisa muito importante porque estamos a falar de um decreto que já não era aplicado. Estamos a falar do século XVII e, entretanto, houve a abolição do tráfico e a abolição da escravatura no Império francês, Mas a dimensão moral é muito importante porque estamos a falar da dimensão de reconhecimento de um crime. Eu acho que no contexto francês e europeu dessa relação entre história nacional e história imperial, há sempre esse tabu dos crimes do passado. O reconhecimento moral está cá, mas o que é preciso é ir além e inscrever essa história na história da nação e não ser um anexo da história - como até hoje tem sido - essa história de um crime que não foi só um crime de alguns anos, foi um crime que durou vários séculos”, explica o professor de História Moderna na Universidade de Nantes, em França, especializado nomeadamente na história da escravatura. O texto também prevê que o governo entregue ao Parlamento, no prazo de um ano após a promulgação da lei, um relatório sobre o direito colonial e as suas consequências económicas, sociais, culturais e ambientais a longo prazo, nomeadamente em termos de racismo e de desigualdades. O relatório deverá, ainda, avaliar como a história da escravatura, do tráfico negreiro e da sua abolição é tratada nos programas escolares. Algo “muito importante” para o nosso convidado que admite que história do tráfico de pessoas escravizadas “tende a ser minimizada” e vista como “um apêndice da história europeia”. “Eu acho que é muito importante porque eu próprio sou professor e vejo que essa história, muitas vezes, tende a ser minimizada, Eu acho que estamos aí mesmo no centro do que foi o capitalismo e a história moderna que se inicia no século XVI. Essa relação entre a Europa e o mundo, muitas vezes, foi pensada como uma relação harmoniosa, como uma relação de mestiçagem, ainda que com seus crimes. Eu acho que temos que ver também a face sombria do que foi esse encontro, essa modernidade do século XVI e não só pensar que a Europa desenvolveu o mundo e trouxe a modernidade ao mundo, mas pensar mesmo os efeitos negativos desse encontro. Eu acho que isso tem que ser reavaliado nos programas escolares para pensar uma história mais inclusiva (...) Eu acho que é muito importante repensar essa história, mesmo numa cronologia europeia. Por exemplo, se formos a ver, uma das consequências do 'Code Noir' e dessa relação de França com as antigas colónias é que, por exemplo, o Palácio do Eliseu foi construído pela fortuna dos maiores negreiros da época. Estamos a ver que mesmo o enriquecimento da Europa, na altura, tem muito a ver com essa história da escravidão, esta história colonial. Eu acho que é importante complexificar esta história e não só fazer da história do tráfico um apêndice da história europeia”, afirma o investigador. O "Code Noir" foi criado em Março de 1685, sob Luís XIV, e foi ampliado por normas posteriores, de 1723 e 1724, voltadas para outros territórios coloniais. Este conjunto de documentos fixava o estatuto jurídico das pessoas escravizadas, institucionalizando a violência colonial e o tráfico de pessoas consideradas como mercadorias ou "bens móveis", passíveis de serem adquiridos por um “mestre”. O “Code Noir” também instituía sanções em caso de fuga, que iam desde orelhas cortadas, marcas a ferro, pessoas chicoteadas em público e pena de morte. “O 'Code Noir' é é mesmo próprio ao contexto francês. Só existe um 'Code Noir'. Não há, no contexto português, por exemplo, um decreto jurídico idêntico. Basicamente, estamos a falar do Império francês, que tinha um grande império colonial, sobretudo nas Antilhas, no espaço das Caraíbas. O 'Code Noir' organiza as pessoas escravizadas como sendo uma propriedade do 'senhor', como ‘um bem móvel', a saber, um bem que se pode transmitir em herança de família em família. É para transformar essas pessoas escravizadas em bens patrimoniais, tal como uma casa, uma mesa, uma forma de desumanizar as pessoas”, explica o historiador. Durante o debate no Parlamento, Max Mathiasin classificou a revogação como “um acto poderoso de memória, de justiça e de reconhecimento”, mesmo que admita que não possa “curar sozinho as feridas da história”. Os debates centraram-se na história francesa da escravatura e do colonialismo, dos efeitos visíveis hoje através das desigualdades persistentes entre os territórios ultramarinos e a França continental, e da discriminação sofrida pela população negra. Alguns deputados criticaram o facto de os debates acontecerem bem perto da estátua, em frente da Assembleia, de Jean-Baptiste Colbert, o principal autor do “Code Noir”. Esta revogação acontece 25 anos depois da Lei Taubira, de 2001, em que França reconheceu a escravatura e o tráfico de pessoas escravizadas como crimes contra a humanidade. Resta saber se a revogação vai abrir a discussão sobre reparações, algo que não está no texto, mas que também alimentou os debates na Assembleia, com vários parlamentares a salientarem que antigos proprietários de escravos receberam indemnizações, ao contrário dos próprios escravos. Reparar também passa por abrir o debate, acrescenta António de Almeida Mendes. “É um debate que está mesmo no centro dos debates sobre os crimes do passado. Será que temos de só ficar nesse reconhecimento moral do crime ou ir mais além e considerar que as desigualdades de hoje em dia que subsistem, em termos de acesso à riqueza, em termos de discriminação racial, em termos de racismo, será que isso necessita de ir mais além de uma condenação moral e de abrir o debate sobre as reparações financeiras? É um debate que já tem dez anos, iniciou-se na América Latina, está muito presente nos Estados Unidos. Então, há essa questão: será que a gente pode imaginar uma reparação financeira, que não é só uma reparação em termos monetários, mas uma reparação sobre o que é que a gente pode reparar em termos de desigualdades criadas por esses crimes do passado”, sublinha António de Almeida Mendes. A 21 de Maio, a proposta de lei recebeu o apoio do Presidente francês, Emmanuel Macron, que considerou que manter estes textos em vigor, mesmo sem efeitos legais, constitui "uma traição à República". Durante uma recepção no Palácio do Eliseu para assinalar o 25º aniversário da Lei Taubira, o Presidente afirmou que "esta imensa questão" não deve ser ignorada, mas preveniu que não se devem fazer "falsas promessas" e não anunciou quaisquer acções concretas. Macron falou na “reflexão inacabada” sobre a questão das reparações que, a seu ver, passam pelo “reconhecimento” e nunca poderão ser “totais”. Presente na cerimónia, a autora da lei e antiga ministra, Christiane Taubira lembrou que, no final de Março, a Assembleia Geral da ONU adoptou uma resolução que considerou a escravatura e o tráfico de pessoas africanas como “os crimes mais graves contra a humanidade”. A França e outros países europeus abstiveram-se porque consideraram que não deve haver hierarquia entre crimes contra a humanidade. Emmanuel Macron recordou, ainda, que lançou, há um ano, um trabalho de historiadores para avaliar "o preço" da liberdade imposta pela França ao Haiti, estando as conclusões previstas serem entregues em Dezembro. A 17 de Abril de 2025, o Presidente francês reconheceu, em comunicado, “a força injusta da História” imposta ao Haiti que, há 200 anos (1825), foi obrigado a pagar a França uma indemnização colossal para que esta reconhecesse a independência da antiga colónia. Na altura, Macron não evocou qualquer reparação financeira por parte de França, como pedido pelas autoridades haitianas. Note-se que, em 2003, o antigo Presidente haitiano, Jean-Bertrand Aristide, avaliou a dívida a 21,7 mil milhões de dólares, algo então visto como “anacrónico” pelo governo francês. Relembremos: Após uma proclamação da independência em 1804, depois de uma vitória contra as tropas de Napoleão Bonaparte, as novas autoridades do Haiti - sob a ameaça dos canhões dos barcos franceses - aceitara, a 17 de Abril de 1825, pagar 150 milhões de "francos-ouro" aos antigos colonos proprietários de terras e de escravos, em troca do reconhecimento da independência pelo rei Carlos X. Em 1938, a soma desceu para 90 milhões. Mas, para pagar, a jovem República das Caraíbas teve de contrair um empréstimo junto de bancos franceses, com juros elevados, numa altura em que afunda o preço do café, o principal recurso do país. O pagamento da dívida durou até 1952, quando se liquidaram os últimos juros. Ou seja, 127 anos a pagar a própria independência ao antigo país colonizador. Para a Fundação para a Memória da Escravatura, esta indemnização colossal arrastou o Haiti para “uma espiral de dependência neocolonial da qual o país não conseguirá sair nunca”. Com 12 milhões de habitantes, o Haiti é hoje o país mais pobre das Américas. Depois da Assembleia Nacional, o texto da revogação do "Code Noir" precisa ainda de passar pelo Senado para se tornar lei.

45 Graus
Nadia Calviño: desafios de competitividade europeia e o papel do BEI

45 Graus

Play Episode Listen Later Apr 22, 2026 21:25


Assista tambem no Youtube. Nadia Calviño é Presidente do Banco Europeu de Investimento (BEI). Foi anteriormente Vice-Presidente do Governo de Espanha e Ministra da Economia, liderando a política económica durante um período marcado pela pandemia e pela implementação do plano de recuperação europeu. Com uma longa carreira nas instituições europeias, incluindo a Comissão Europeia, onde foi Diretora-Geral do Orçamento, é uma das figuras mais influentes da política económica europeia. _______________ Índice: Challenges to European Competitiveness Access to funding Mobilizing investment from pension funds and insurance firms Mobilizing private savings | Example of Sweden Capital markets initiative 28th regime Promoting mergers & acquisitions Industrial policy How EIB loans create soft power for Europe Access to critical raw materialsSee omnystudio.com/listener for privacy information.

Brasil-Mundo
Uma bailarina brasileira na Alemanha em defesa da dança “que incomoda”

Brasil-Mundo

Play Episode Listen Later Apr 18, 2026 8:52


Estamos no Ballethaus, o impressionante complexo de ensaios da companhia de dança Ballett am Rhein, o Balé do Reno, em Düsseldorf, na Alemanha. Por estes corredores, a bailarina brasileira Norma Magalhães caminha como se estivesse em casa. Aqui é onde ela passa a maior parte do seu tempo. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf “Basicamente o dia inteiro. A gente começa a trabalhar às dez, com aula de balé, todo mundo, por uma uma hora e vinte. E depois começam os ensaios, as criações, até às seis da tarde. Isso é uma semana comum para a gente.” O prédio de 3000 metros quadrados desenhado pelos arquitetos Gerkan und Marg & Partner foi inaugurado em 2015, justamente no ano em que a brasileira de 33 anos, na época com apenas 22, se tornou parte do corpo de 45 bailarinos do Ballett am Rhein. Abrimos uma porta, e nos deparamos com um dos quatro enormes estúdios de ensaio. Outra porta, e damos de cara com um spa completinho. “A gente aqui é super privilegiado”, conta Norma. “Não é toda companhia na Alemanha que tem essa estrutura. Tem sauna, para quando a gente está meio quebrado, tem banheira de gelo, fisioterapeuta, academia”. Os espetáculos ocorrem nos dois teatros de ópera da região: o Theater Duisburg e a Opernhaus Düsseldorf, a casa da Deutsche Oper am Rhein, a Ópera Alemã do Reno. Eu já vi Norma se apresentar algumas vezes na Opernhaus e sempre fiquei impressionado com a complexidade de suas performances. Então é claro que eu preciso começar a nossa conversa perguntando sobre como ela gera o medo do palco em um ambiente tão exigente. “Quando estou no palco é mais prazer, eu não penso muito. Mas os segundinhos antes de entrar parece que tem aquele momento de realização: ‘Meu Deus, essa casa com mil pessoas, qualquer coisa pode dar errado!'”, conta Norma. “E isso é o legal do ao vivo, você pode trabalhar e se preparar o quanto for, mas se você pisar naquele lugar, escorregar e cair… Erros coreográficos são muito comuns, mas a gente aprende a esconder”. “Não sabia o que esperar da Alemanha” Voltamos no tempo para entender como é que esta bailarina de Ribeirão Preto veio parar em um dos corpos de balé mais prestigiados da Alemanha. “Meu interesse pela dança foi sempre um mistério na minha família. De alguma forma, sempre tive certeza de que eu queria ser bailarina. Fazia tudo na meia-ponta. Minha mãe sempre dizia que, se ela me pedisse um copo d'água, eu fazia duas piruetas, pegava no copo e voltava com o copo vazio, porque a água caía no chão.” Norma encontrou suporte para começar a carreira na ONG cultural FINAC, de Ribeirão Preto, e o passaporte para estudar balé fora do Brasil veio quando venceu o Festival Internacional de Dança de Brasília. A bolsa de estudos oferecida à ganhadora a levou para estudar na Universidade de Música e Artes Cênicas de Mannheim, no sudoeste da Alemanha. “Eu vim realmente sem nenhuma expectativa, sem saber nada do que esperar daqui. Eu sabia que era frio e que era um idioma em que eu ia ficar super perdida, mas o resto foram surpresas e novidades.” Na escola, ela teve de lidar com a disciplina exigida pela profissão e pela cultura alemã: “Era uma coisa meio militar, não podia ter um fiozinho de cabelo fora do lugar, não podia esquecer nenhum passo, era uma coisa bem mais puxada. O balé tem essas regrinhas, coisinhas bobas tipo: não pode bocejar, porque aí parece que você está desinteressado, ou você não pode necessariamente demonstrar cansaço, dependendo de quem está ali na frente levando o ensaio.” Autógrafos na rua Depois dos estudos, Norma passou pelo teatro de ópera de Karlsruhe e pelo Balé da Turíngia, até desembarcar no Ballett am Rhein, em Düsseldorf, onde está há 11 anos e onde diz ter se encontrado. “Eu cresci aqui, então o pessoal fala que eu sou uma brasileira já alemanizada. Aqui não só o bailarino e a companhia dão muito valor ao balé, mas também as pessoas. Às vezes estou andando na rua e as pessoas param para dizer que me viram no teatro e pedem um autógrafo.” O envolvimento da sociedade faz com que boa parte da Ópera e do Balé do Reno sejam financiados por um clube de mecenas e patrocinadores, em conjunto com o estado. A casa cheia em quase todas as apresentações também demonstra que o balé e a ópera estão mais vivos do que nunca, ao contrário do que disse o ator franco-americano Timothée Chalamet no início do ano. “Ele fez um comentário muito infeliz, mas também bem ignorante”, crava Norma. “Estando nessa profissão por tantos anos, consigo ver como está crescendo. As pessoas têm sede de ver ao vivo, não só pela televisão. Acontece o mesmo no balé, os teatros estão lotando.” Balé contra a lógica dos algoritmos Nestes 11 anos de carreira em Düsseldorf – e 16 na Alemanha –, Norma Magalhães interpretou clássicos como a Rainha das Neves, em "O Quebra-Nozes", mas é também uma ferrenha defensora do balé mais conceitual, que é uma das especialidades do Ballett am Rhein, mesmo que ele seja mais difícil para a compreensão do público. “Às vezes a gente também tem que se colocar em lugares e viver experiências que não são confortáveis para a gente. Em uma era de algoritmos que te mostram no Instagram ou na Netflix somente coisas que você vai curtir, é importante sentir esse desconforto e aprender o quê o desconforto pode te ensinar, pode trazer para te fazer questionar. Então não tem que ser sempre uma historinha ou uma experiência agradável para te fazer sentir coisas. A gente está desacostumado a ‘se incomodar' um pouquinho.” Na saída do Ballethaus, em Düsseldorf, eu cruzo com o francês Raphaël Coumes-Marquet, que é um dos atuais diretores do Ballett am Rhein, ao lado de Bridget Breiner. Peço para ele encerrar nosso passeio falando sobre o trabalho de Norma Magalhães: “Norma é um verdadeiro raio de sol. Ela traz uma positividade e um olhar fresco sobre a criação e o trabalho no estúdio de ensaio.”

Brasil-Mundo
Uma bailarina brasileira na Alemanha em defesa da dança “que incomoda”

Brasil-Mundo

Play Episode Listen Later Apr 18, 2026 8:52


Estamos no Ballethaus, o impressionante complexo de ensaios da companhia de dança Ballett am Rhein, o Balé do Reno, em Düsseldorf, na Alemanha. Por estes corredores, a bailarina brasileira Norma Magalhães caminha como se estivesse em casa. Aqui é onde ela passa a maior parte do seu tempo. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf “Basicamente o dia inteiro. A gente começa a trabalhar às dez, com aula de balé, todo mundo, por uma uma hora e vinte. E depois começam os ensaios, as criações, até às seis da tarde. Isso é uma semana comum para a gente.” O prédio de 3000 metros quadrados desenhado pelos arquitetos Gerkan und Marg & Partner foi inaugurado em 2015, justamente no ano em que a brasileira de 33 anos, na época com apenas 22, se tornou parte do corpo de 45 bailarinos do Ballett am Rhein. Abrimos uma porta, e nos deparamos com um dos quatro enormes estúdios de ensaio. Outra porta, e damos de cara com um spa completinho. “A gente aqui é super privilegiado”, conta Norma. “Não é toda companhia na Alemanha que tem essa estrutura. Tem sauna, para quando a gente está meio quebrado, tem banheira de gelo, fisioterapeuta, academia”. Os espetáculos ocorrem nos dois teatros de ópera da região: o Theater Duisburg e a Opernhaus Düsseldorf, a casa da Deutsche Oper am Rhein, a Ópera Alemã do Reno. Eu já vi Norma se apresentar algumas vezes na Opernhaus e sempre fiquei impressionado com a complexidade de suas performances. Então é claro que eu preciso começar a nossa conversa perguntando sobre como ela gera o medo do palco em um ambiente tão exigente. “Quando estou no palco é mais prazer, eu não penso muito. Mas os segundinhos antes de entrar parece que tem aquele momento de realização: ‘Meu Deus, essa casa com mil pessoas, qualquer coisa pode dar errado!'”, conta Norma. “E isso é o legal do ao vivo, você pode trabalhar e se preparar o quanto for, mas se você pisar naquele lugar, escorregar e cair… Erros coreográficos são muito comuns, mas a gente aprende a esconder”. “Não sabia o que esperar da Alemanha” Voltamos no tempo para entender como é que esta bailarina de Ribeirão Preto veio parar em um dos corpos de balé mais prestigiados da Alemanha. “Meu interesse pela dança foi sempre um mistério na minha família. De alguma forma, sempre tive certeza de que eu queria ser bailarina. Fazia tudo na meia-ponta. Minha mãe sempre dizia que, se ela me pedisse um copo d'água, eu fazia duas piruetas, pegava no copo e voltava com o copo vazio, porque a água caía no chão.” Norma encontrou suporte para começar a carreira na ONG cultural FINAC, de Ribeirão Preto, e o passaporte para estudar balé fora do Brasil veio quando venceu o Festival Internacional de Dança de Brasília. A bolsa de estudos oferecida à ganhadora a levou para estudar na Universidade de Música e Artes Cênicas de Mannheim, no sudoeste da Alemanha. “Eu vim realmente sem nenhuma expectativa, sem saber nada do que esperar daqui. Eu sabia que era frio e que era um idioma em que eu ia ficar super perdida, mas o resto foram surpresas e novidades.” Na escola, ela teve de lidar com a disciplina exigida pela profissão e pela cultura alemã: “Era uma coisa meio militar, não podia ter um fiozinho de cabelo fora do lugar, não podia esquecer nenhum passo, era uma coisa bem mais puxada. O balé tem essas regrinhas, coisinhas bobas tipo: não pode bocejar, porque aí parece que você está desinteressado, ou você não pode necessariamente demonstrar cansaço, dependendo de quem está ali na frente levando o ensaio.” Autógrafos na rua Depois dos estudos, Norma passou pelo teatro de ópera de Karlsruhe e pelo Balé da Turíngia, até desembarcar no Ballett am Rhein, em Düsseldorf, onde está há 11 anos e onde diz ter se encontrado. “Eu cresci aqui, então o pessoal fala que eu sou uma brasileira já alemanizada. Aqui não só o bailarino e a companhia dão muito valor ao balé, mas também as pessoas. Às vezes estou andando na rua e as pessoas param para dizer que me viram no teatro e pedem um autógrafo.” O envolvimento da sociedade faz com que boa parte da Ópera e do Balé do Reno sejam financiados por um clube de mecenas e patrocinadores, em conjunto com o estado. A casa cheia em quase todas as apresentações também demonstra que o balé e a ópera estão mais vivos do que nunca, ao contrário do que disse o ator franco-americano Timothée Chalamet no início do ano. “Ele fez um comentário muito infeliz, mas também bem ignorante”, crava Norma. “Estando nessa profissão por tantos anos, consigo ver como está crescendo. As pessoas têm sede de ver ao vivo, não só pela televisão. Acontece o mesmo no balé, os teatros estão lotando.” Balé contra a lógica dos algoritmos Nestes 11 anos de carreira em Düsseldorf – e 16 na Alemanha –, Norma Magalhães interpretou clássicos como a Rainha das Neves, em "O Quebra-Nozes", mas é também uma ferrenha defensora do balé mais conceitual, que é uma das especialidades do Ballett am Rhein, mesmo que ele seja mais difícil para a compreensão do público. “Às vezes a gente também tem que se colocar em lugares e viver experiências que não são confortáveis para a gente. Em uma era de algoritmos que te mostram no Instagram ou na Netflix somente coisas que você vai curtir, é importante sentir esse desconforto e aprender o quê o desconforto pode te ensinar, pode trazer para te fazer questionar. Então não tem que ser sempre uma historinha ou uma experiência agradável para te fazer sentir coisas. A gente está desacostumado a ‘se incomodar' um pouquinho.” Na saída do Ballethaus, em Düsseldorf, eu cruzo com o francês Raphaël Coumes-Marquet, que é um dos atuais diretores do Ballett am Rhein, ao lado de Bridget Breiner. Peço para ele encerrar nosso passeio falando sobre o trabalho de Norma Magalhães: “Norma é um verdadeiro raio de sol. Ela traz uma positividade e um olhar fresco sobre a criação e o trabalho no estúdio de ensaio.”

Oxigênio
#216 – O futuro do cacau entre saberes tradicionais, ciência e tecnologia

Oxigênio

Play Episode Listen Later Apr 2, 2026 33:53


No episódio desta semana, Talita Gantus conta sobre um novo projeto interdisciplinar em desenvolvimento pelo BI0S, na Unicamp. O CacauClima, como foi apelidado, alia técnicas de sensoriamento remoto, sistemas agroflorestais e ciência cidadã para investigar o cultivo de cacau e pensar como é possível melhorar essa prática. Participam do episódio Giovanni Moura de Holanda, que coordena o projeto pela FITec, Jurandir Zullo Junior e Priscila Coltri, pesquisadores do CEPAGRI, e Claudia Pfeiffer, pesquisadora do Labeurb. ____________________________________________________________________________________________________ ROTEIRO Talita: No sul da Bahia, o cacau não cresce sozinho. Ele cresce junto a árvores altas, aproveitando sua sombra, e entre troncos centenários da Mata Atlântica. Cresce em sistemas que misturam floresta e cultivo. Cresce com a memória de quem aprendeu a ler o tempo olhando pro céu.  Durante mais de um século, essa paisagem moldou a economia, a ciência agrícola e os modos de vida da região. Mas, ao longo do tempo, a busca por maior produtividade e por respostas mais rápidas do mercado foi transformando essa relação com a terra. Sistemas tradicionais,  como  o cacau que cresce sob a sombra da floresta, passaram a conviver com modelos de cultivo mais intensivos, que apostam na mecanização e no uso ampliado de fertilizantes e agrotóxicos. É uma mudança de ritmo e rendimento. As paisagens também mudam. E nos últimos anos, um novo fator entrou nessa equação: o clima. Secas mais longas, chuvas fora de época, ondas de calor mais intensas… Pra quem vive da terra, essas mudanças não aparecem somente  em relatórios científicos. Elas aparecem na flor que não abriu, na doença que se espalhou, na produção que caiu. Ao mesmo tempo, satélites monitoram a superfície do planeta todos os dias. Modelos climáticos projetam cenários pra 2050, 2070, 2100. E algoritmos tentam traduzir o futuro em gráficos. Mas, como transformar informações sobre as imprevisíveis mudanças do clima em decisões concretas no campo hoje? E como fazer isso junto com quem cultiva o cacau todos os dias?  Eu sou Talita Gantus, e nesse episódio do Oxigênio a gente vai conhecer o CacauClima – apelido do projeto Solução de Monitoramento Inteligente Climático nas Esferas Produtiva e Ambiental da Cacauicultura. A pesquisa acontece em fazendas de cacau no sul da Bahia, uma das regiões mais tradicionais da produção no Brasil. O objetivo é combinar sensoriamento remoto, modelagem climática e conhecimento dos próprios agricultores para entender como as mudanças do clima estão afetando os cacaueiros – e transformar esse conhecimento em recomendações práticas de manejo para tornar as lavouras mais resilientes. A urgência desse tipo de iniciativa ficou evidente nos últimos anos. Durante o evento de El Niño de 2015 e 2016, uma seca excepcional atingiu agroflorestas de cacau na região e causou cerca de 15% de mortalidade dos cacaueiros, além de uma queda de até 89% na produção, acompanhada pelo aumento de doenças como a vassoura-de-bruxa. Estudos recentes também indicam que sistemas agroflorestais como a cabruca, em que o cacau cresce sob a sombra de árvores nativas, podem reduzir a vulnerabilidade das plantações frente ao clima quando comparados a cultivos a pleno sol. É nesse contexto que o CacauClima busca apoiar agricultores e técnicos a adaptar a produção – integrando ciência, tecnologia e conhecimento local para fortalecer a sustentabilidade da cacauicultura brasileira. [vinheta Oxigênio] Talita: No senso comum, foi cultivada a imagem de que as descobertas e os avanços científicos brotam da noite pro dia, acompanhado com um grito de “Eureka”! Mas, na verdade, a ciência começa como uma semente discreta, quase invisível, lançada à terra por muitas mãos, regada dia após dia, ano após ano. Assim como plantar, produzir ciência é um ofício que demanda seu próprio ritmo.  Na maior parte das vezes, porém, o que chega até os leitores e ouvintes curiosos é só o instante em que essa árvore já está frondosa – o anúncio da descoberta, o “avanço revolucionário”, o rosto de um pesquisador transformado em protagonista solitário. Essa ideia reforça a aura de genialidade que esconde todo o sistema de raízes, insumos, tempo, trabalho e colaborações que tornam a ciência possível.  A divulgação científica, quando assume seu papel de contar a história inteira, e não apenas o “grande momento”, abre uma trilha diferente. É nessa trilha que este episódio caminha: como um passeio guiado por uma agrofloresta em construção, em que cada edital aprovado, cada parceria firmada entre instituições, cada definição de método e cada visita de campo é mais uma semente plantada, e que só pode florescer de verdade quando todo mundo enxerga o processo desde a semeadura, e não apenas na colheita. Giovanni: A ideia surgiu, pra esse projeto especificamente, surgiu como uma resposta ao edital da FINEP. E era um desafio colocado nesse edital, que era aumentar a produtividade e a sustentabilidade dos sistemas agroalimentares e da agricultura familiar. A gente já vem trabalhando há um tempo, esse mesmo grupo que tá agora conduzindo esse projeto, FITec, CEPAGRI, da UNICAMP, com o BI0S e a CEPLAC, em outras tentativas de submissão de projeto. E a gente foi amadurecendo ao longo dessas oportunidades. Talita: Esse que você acabou de escutar é o Giovanni Moura de Holanda, que coordena o projeto pela FITec, um dos atores institucionais envolvidos na execução do CacauClima junto com o CEPAGRI, o BI0s e a CEPLAC. Sei que parece uma sopa de letrinhas todas essas siglas de instituições, mas a gente vai explicando cada uma ao longo do episódio. O projeto CacauClima foi selecionado em chamada pública lançada em 2024 e é financiado pela Financiadora de Estudos e Projetos, a FINEP, uma empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Essa chamada está no escopo da linha de financiamento de pesquisas aplicadas, voltadas ao fortalecimento de cadeias produtivas da agricultura familiar. Por meio desse instrumento, a FINEP promove o desenvolvimento econômico e social do Brasil apoiando pesquisas em empresas, universidades, institutos tecnológicos e outras instituições públicas ou privadas.  Como parceiros executores do projeto estão 3 atores: a FITec (que é diferente da FINEP), o CEPAGRI e a CEPLAC,  mencionados pelo Giovanni. A FITec é a Fundação para Inovações Tecnológicas de Campinas, responsável pela realização de todas as atividades típicas de um processo de pesquisa e desenvolvimento. Por exemplo, a modelagem de algoritmos de inteligência artificial, a gestão financeira do projeto, o levantamento do estado da arte,que é a revisão e sistematização de estudos anteriores sobre o tema e outras atividades. É na FITec que o Giovanni trabalha. Já o CEPAGRI é o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da UNICAMP. Dois pesquisadores do CEPAGRI vão dar as caras, ou melhor, as vozes, por aqui, o Jurandir e a Priscila. O terceiro e último ator que executa o projeto é a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira, a CEPLAC, que foi criada em 1957 como um instituto governamental de pesquisa responsável pela produção de cacau no Brasil. A CEPLAC atua de forma descentralizada em diversos estados produtores, sendo reconhecida como referência mundial por sua expertise em sistemas agroflorestais. A CEPLAC contribui diretamente com os agricultores locais oferecendo apoio técnico nas práticas agrícolas. O projeto como um todo se integra ao BI0S, o Instituto Brasileiro de Ciência de Dados, que é um Centro de Pesquisa Aplicada em Inteligência Artificial sediado na UNICAMP. O BI0S nasceu de outro edital, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.  Talita: Em resumo, tem a FINEP e a FAPESP financiando o projeto, a FITec, o CEPAGRI e a CEPLAC executando a pesquisa. Além de todas essas instituições, têm também os produtores rurais locais colaborando com o desenvolvimento de uma solução piloto pra monitoramento climático em áreas de cultivo de cacau. Tá vendo como o desenvolvimento científico não se resume a um cientista solitário que geralmente aparece na capa de uma revista anunciando uma matéria sobre uma grande descoberta?! Foi o esforço coletivo em torno de um objetivo comum que uniu esses atores diversos na construção do CacauClima. O Giovanni aqui de volta… Giovanni: Em todo objeto de estudo que a gente vai avançando no tempo, a gente vai tendo mais elementos e vai colocando camadas em cima de camadas e ele vai ficando um pouco mais maduro. Então essa foi a ideia, trabalhar nesse sentido, trazendo o foco agora, também, além da questão da mudança climática, nós agregamos um outro pilar que até então não estava muito nítido nas iniciativas anteriores, que era da ciência cidadã (…) pra envolver ainda mais a participação e a colaboração dos agricultores na condução das tarefas.  Talita: Daqui a pouco eu vou dar mais detalhes de como será essa participação dos agricultores locais na pesquisa. Antes, é importante destacar que o projeto surge de uma demanda social, colocada, justamente, por agricultores e técnicos agrícolas que buscam uma resolução para os problemas enfrentados nos últimos tempos no plantio de cacau. A pesquisa busca também atender uma demanda econômica e tecnológica apontada pelos órgãos públicos que buscam manter a produtividade dessa matéria-prima tão apreciada. Giovanni: A cultura do cacau tá precisando desse impulso tecnológico pra, inclusive, ela mudar de ponto. A CEPLAC, quando nos procurou, ela tinha isso muito claramente, que tava no momento de um salto tecnológico para a cultura do cacau. E, à medida que a gente ia formatando esse projeto, a gente ia vendo que tinha outros campos que precisavam ser incluídos, outros campos do saber, outras disciplinas e tudo mais. Talita: Ou seja, o projeto responde também a uma  demanda científica. E, como diz Giovanni, o primeiro desafio posto em evidência foi a multidisciplinaridade. Giovanni: Era um projeto que, naturalmente, traz desafios em várias áreas de saber disciplinares. Um deles a gente viu logo de imediato que era a parte do sensoriamento remoto, que o sensoriamento remoto ia ter suas dificuldades, porque a gente está lidando com a produção em sistema de cabruca, é agroflorestal. Então, também vamos olhar a parte de cultura do cacau a pleno sol, inclusive pra fazer uma comparação das características em termos de mudança climática, tanto para quem tá trabalhando em regime de agroflorestal, quanto pra quem está trabalhando a pleno sol, fazendo as comparações entre os prós e contras de cada uma delas, as dificuldades de cada uma delas.  Talita: Antes de seguir no assunto dos desafios científicos, eu preciso explicar uma coisa que o Giovanni comentou e que vai aparecer mais vezes por aqui: existem dois métodos de plantio em análise nesse projeto: o método cabruca, que é feito por meio de sistema agroflorestal, e o método a pleno sol. No pleno sol, as plantas ficam expostas diretamente ao sol e recebem irrigação e fertilizantes intensivos. Essa forma de plantio oferece alta produtividade, mas exige grande investimento em máquinas, adubos químicos e pesticidas; além de ser mais vulnerável, e aí doenças atacam mais facilmente, solos se esgotam rápido, e uma estiagem pode dizimar tudo. Na cabruca, método tradicional na Bahia, o cacau cresce sob a sombra de árvores nativas da Mata Atlântica, preservando a biodiversidade e a fertilidade do solo. Esse sistema, cultivado há séculos pelas populações tradicionais, mantém até 70% da cobertura florestal intacta. Árvores nativas sombreiam as cacaueiras, protegendo-as das secas e de doenças, como a tão temida vassoura-de-bruxa. O cabruca é um método sustentável, com baixa necessidade de insumos, mas tem uma produtividade moderada. Giovanni: E uma das coisas que a gente viu é que o sistema agroflorestal, de certa forma, dificulta a visibilidade das imagens satelitais, por conta de que, às vezes, o cacau está abaixo na floresta, ele está sob a floresta. Então, isso é uma dificuldade, um desafio interessante que a gente pensou em enfrentar.  Talita: Além desse desafio que o Giovanni mencionou, existem vários outros. E, pra responder a todas as demandas e perguntas levantadas pela pesquisa, o CacauClima foi estruturado em 4 pilares: o sensoriamento remoto; a modelagem climática; a percepção pública; e a ciência cidadã. Começando do começo: sensoriamento remoto é a técnica de adquirir informações sobre a Terra sem contato físico direto, usando sensores em plataformas, como satélites, drones ou aviões. Ele falou sobre o desafio de analisar “imagens satelitais” da vegetação em sistema agroflorestal. Esse desafio existe porque, diferentemente do cultivo de monocultura a pleno sol, a vegetação mais densa e diversa da agrofloresta pode confundir os pesquisadores na hora de interpretar as imagens. Mas, e como é que  o sensoriamento remoto, por meio das imagens de satélite, pode ajudar os agricultores a lidarem com os efeitos das mudanças climáticas na produção de cacau? O Jurandir Zullo Junior, pesquisador da CEPAGRI, respondeu essa pergunta. Jurandir: Nós temos dois tipos de satélites: os meteorológicos e os de observação da Terra. Então, a ideia é utilizar esses dois tipos. Os meteorológicos, atualmente, eles geram uma quantidade muito grande de produtos que podem ajudar o agricultor na tomada de decisões. Com esses dados, que são dados de umidade, temperatura, são dados, às vezes, básicos, mas que ajudam muito a tomada de decisões e ajudam o manejo, porque o manejo da cultura é uma das formas de enfrentar as doenças. Uma forma é usar plantas resistentes, e outra é no manejo, nesse controle de poda, de colheita, plantio. Então, é aquela… aqueles tratos que são feitos com frequência, aquele dia a dia da agricultura.  Outro grupo de satélites é o de observação da Terra. Então, fazer essa identificação. Basicamente, os trabalhos nessa linha são de procurar identificar a cultura e o estado da cultura via remota (…) Se você consegue identificar o plantio a pleno sol, se você consegue identificar o plantio cabruca com outras plantas ali juntas. E também identificar o estado dessa vegetação. Esse que é sempre o objetivo, de forma remota. Como vai ter sempre alguém no campo, isso vai ajudar esse desafio: “olha, está com algum problema aqui…” Daí nós estudamos se isso consegue aparecer na imagem, porque às vezes não aparece na imagem. Às vezes a imagem não registra uma doença, praga, deficiência hídrica, alguma deficiência de adubação. Talita: Por meio do sensoriamento remoto, vai sendo formado um repertório de imagens pra se construir um padrão de determinada cultura agrícola. E, a partir dele, identificar tanto plantas saudáveis quanto plantas doentes ou com alguma deficiência, seja de água ou de adubo. Com essas informações, os agricultores e técnicos locais conseguem tomar decisões mais assertivas e cientificamente embasadas. Jurandir: Isso ajuda bastante o acompanhamento, a tomada de decisões, tanto do agricultor como do setor; uma cooperativa, o país, o ministério quer tomar alguma decisão, acompanhar como está determinada cultura, ele pode fazer com esses dados. Como eu disse, isso é um grande desafio, porque é uma cultura que, até onde nós encontramos, não tem muita literatura, tanto no Brasil como no exterior. Talita: Junto com o sensoriamento remoto, o segundo pilar do projeto são os modelos climáticos. Esses modelos fazem projeções sobre o clima futuro, auxiliando nessa tomada de decisão sobre o plantio e o manejo do cacau. A Priscila Coltri, pesquisadora do CEPAGRI responsável pela frente de modelagem climática do projeto, explica como é isso. Priscila: A gente escuta muito sobre a mudança do clima, mas, normalmente, quando a gente escuta isso, né, a gente entende que a mudança do clima vai acontecer lá em 2070. E diversos estudos mostram que o clima já tá mudando em muitas regiões. Então, um primeiro passo é a gente identificar ali como é que o clima dessas regiões que já são cultivadas, né, ele vem mudando ao longo dos últimos anos. E aí, eu falo ao longo dos últimos anos, eu tô falando aí ao longo dos últimos 30, dos últimos 50 anos. Então, um primeiro passo é a gente saber se nessas regiões a temperatura já subiu… Se a mínima subiu mais, se a máxima subiu mais, se a gente tem chuvas como a gente tinha antes, se a gente tá tendo mais épocas de seca, se as secas estão mais longas. Então, um primeiro passo é a gente fazer essa identificação do clima local. E a gente quer fazer isso também porque a própria CEPLAC trouxe pra nós que eles já estão vendo algumas mudanças na produção da cultura, nas pragas e doenças que essa cultura tem. Talita: Nossa entrevistada também aborda a questão da diferença entre os dois modos de cultivo do cacau.  Priscila: Um outro ponto que a gente quer responder também, verificando aí como que o clima vem mudando nos últimos anos, é a diferença entre o cultivo sombreado e o cultivo a pleno sol. A monocultura, em geral, é um sistema que sofre, entre aspas, sofre muito em relação ao clima. Então a gente tem que ter muitos aditivos pra que ela funcione. Então tem que ter adubos e defensivos agrícolas e assim vai. As culturas sombreadas acabam tendo uma relação muito boa, assim, lógico que tem todo um estudo que a gente tem que saber de qual que é a melhor cultura que sombreia a outra, qual cultura que não briga ali, entre aspas, ou por solo ou por nutriente ou por sombra, né? Então tem todo um estudo que tem que ser feito. Mas normalmente os cultivos sombreados são mais indicados em termos de mitigação e de adaptação às mudanças do clima. Então a gente quer ver de que forma a cultura, tanto a pleno sol quanto a sombreada, vai reagir nesses cenários futuros. Talita: A Priscila me explicou que o cenário de dados climáticos hoje é complexo. Os sensores instalados no campo – que medem temperatura, chuva, vento e radiação – são fundamentais pra entender o que acontece no clima local. Mas é difícil manter séries históricas longas só com esses dados: há falhas, trocas de equipamento e áreas sem cobertura de sensor. Ao mesmo tempo, nas últimas décadas cresceram os dados de satélites e modelos climáticos, que cobrem o planeta inteiro e oferecem séries mais longas. O problema é que nem sempre eles representam bem a realidade local – alguns superestimam, outros subestimam. Por isso, é preciso validar essas informações com as medições feitas no campo. Funciona assim: os modelos usam dados como temperatura e umidade pra simular o clima atual, validam com o que foi medido no território e, depois, projetam cenários futuros com base em diferentes trajetórias de emissão de gases de efeito estufa. Em resumo, os modelos ensaiam qual será o cenário se emitirmos mais gases, menos gases, ou se mantivermos as emissões atuais… A partir daí, é possível estimar como o clima pode mudar e como o cacau pode responder a essas mudanças. Priscila: A gente vai ter ajuda dos nossos agricultores ali. Eles vão ajudar a gente a ver esse dado e a contar um pouco se aquele dado que a gente tá vendo agora, ele tem se reproduzido nos últimos anos e o quê que ele tem sentido em relação ao clima daquele local. E isso é importantíssimo! Talita: É aí que entra o terceiro pilar do projeto: a percepção pública, que busca entender a percepção dos agricultores e dos técnicos agrícolas da CEPLAC sobre o cenário que vivenciam na prática de cultivo do cacau. Pra isso, o grupo de pesquisa irá aplicar a técnica do grupo focal, coordenado pela Claudia Pfeiffer e pela Simone Pallone, ambas pesquisadoras aqui do Nudecri. A Simone e a Claudia, que trabalham juntas em outro projeto, o Coffee Change, falaram sobre sua experiência com grupos focais realizados com agricultoras de café no episódio número 201 aqui do Oxigênio, em “Um bate-papo sobre café” muito interessante – e se você não escutou ainda, já anota a dica pra escutar quando acabar esse episódio aqui. E eu conversei com a Claudia pra ela contar um pouco como essa técnica irá colaborar com os estudos em sensoriamento remoto e em modelos climáticos do CacauClima. Claudia: É importante que a gente entenda que grupo focal é uma ferramenta que produz a possibilidade de pessoas que têm um determinado tipo de perfil similar, que é definido pelos organizadores do grupo focal, estejam juntos numa roda de conversa. Uma conversa que acontece a partir de um roteiro formulado previamente, com perguntas disparadoras, que têm objetivos específicos. Então, no nosso caso, o objetivo da percepção sobre as mudanças climáticas, mas não pressupondo de antemão o que sejam mudanças climáticas, justamente pra que haja uma abertura, pra que as pessoas possam significar do seu modo, a partir das suas histórias, da sua relação com o território, com as suas práticas agrícolas, os sentidos que elas atribuem àquilo que a ciência chama de mudanças climáticas. Então a expressão “mudanças climáticas” não deve comparecer diretamente nessas perguntas disparadoras. Você vai olhando isso, vai provocando isso por perguntas que de algum modo abordam questões que estão relacionadas pra ouvir como é que essas pessoas se relacionam com determinadas questões que são afetadas pelas mudanças climáticas. Talita: Segundo a Claudia, a percepção das pessoas sobre o que elas vivenciam, como vivenciam e sobre como percebem essa realidade vivida se manifesta no modo como se expressam, ou seja, em seus discursos. E esse discurso é o objeto de estudo extraído por meio dos grupos focais. Claudia: A maneira como uma sociedade indígena lida com a Terra e a maneira como alguma liderança do agronegócio lida com a Terra é absolutamente diferente. Porque é uma história absolutamente diferente da relação desses sujeitos com a Terra, como é que a terra significa e como é que você pratica as suas ações, as suas atividades na relação com a Terra. Talita: É essa análise da percepção dos agricultores e dos técnicos agrícolas que vai informar as pesquisadoras sobre como esses atores estão vivenciando as mudanças climáticas na sua prática cotidiana de cultivo do cacau. E esse conhecimento também vai contribuir com as pesquisas tanto em sensoriamento remoto quanto em modelagem climática, fornecendo informações sobre a mudança do clima, o plantio e as tecnologias usadas em suas práticas agrícolas. Os grupos focais também irão ajudar a compreender como as tecnologias de monitoramento climático, desenvolvidas ao longo do projeto, podem ser incorporadas à cacauicultura. Claudia: Porque no grupo focal a gente não vai olhar só pra mudanças climáticas, a gente vai olhar também para a percepção sobre as tecnologias e aí… Qual que é a importância do lugar de onde a gente fala, né… É que a gente não vai situar a tecnologia na formulação das perguntas disparadoras desse roteiro, simplesmente como as novas tecnologias. Tecnologia existe desde sempre. Toda prática humana na relação com o mundo, ela produz, ela é feita por meio de tecnologias e ela produz outras tecnologias, né. Então, a gente também vai trabalhar com a percepção sobre os diferentes sentidos de tecnologia, né. Não só de ferramentas palpáveis, mas justamente de percepções que são ancestrais, que dizem respeito a diferentes gerações, que podem não estar diretamente lá naquele território, mas trazem saberes sobre esse território que são praticados no modo como aquela prática agrícola acontece, né. Talita: O quarto e último pilar do projeto CacauClima, a ciência cidadã, é transversal a todos os outros três – lembra: o sensoriamento remoto, a modelagem climática e a percepção pública. A ciência cidadã consiste na participação ativa do público não acadêmico na pesquisa científica, colaborando com os cientistas na coleta, análise e interpretação de dados, e até na formulação dos estudos. E pra envolvê-los, o projeto conta com a parceria do Instituto Cabruca, que tem sua sede no Assentamento Terra Vista, no município de Arataca, na Bahia. O Giovanni explicou como os agricultores e as agricultoras do assentamento contribuirão pro piloto da solução que a pesquisa busca desenvolver. Giovanni: A participação deles envolve, primeiramente, a tutoria das estações de coleta de dados, dados meteorológicos de clima, temperatura, índice pluviométrico, ação atmosférica, a parte de radiação solar que é outra coisa importante que a gente precisa ver com o efeito extremo agora das mudanças climáticas, isso pode ter uma informação muito importante. Todas essas informações que fazem parte das condições climáticas da região. Eles vão tutorear o funcionamento dessas estações. Então, eles vão ajudar como os guardiões daquela miniestação meteorológica que vai ficar nas suas propriedades, ou na propriedade que ele tem acesso e que ele interage diretamente. Além disso, ele vai dar suporte, vamos colocar assim, a eventuais problemas que elas apresentem, a reportar, “olha, está tendo um problema aqui e parou de funcionar.” E a outra é na troca de saberes. Então, da mesma forma que os técnicos vão levar informações pra eles, baseado em todos os estudos que vão ser tratados no âmbito do projeto, eles vão também alimentar os analistas, alimentar o sistema com as informações riquíssimas que eles estão tendo ali do dia a dia. Eventos que só eles estão percebendo, por exemplo. Eventos que eles já percebem, eles têm inclusive a memória daquela região, então eles podem dizer no tempo do meu pai, no tempo da minha mãe, não era assim. No tempo dos meus ancestrais era muito diferente, é o que a gente ouve, agora tá tudo mudado. Esse tipo de informação é riquíssima pro projeto. Talita: No livro Uma outra ciência é possível – Manifesto por uma desaceleração da ciência, a filósofa Isabelle Stengers comenta em uma passagem que a ciência cidadã é um dispositivo que, quando eficaz, tem a função de oferecer resistência a hierarquias de pontos de vista. Pra autora, a ciência cidadã constitui aquilo que ela chama de “operador de horizontalização”, pois parte do princípio de que tanto o saber científico dos pesquisadores e técnicos quanto o saber comunitário dos agricultores estão no mesmo patamar, destituindo os cientistas da posição simbólica de “cérebros da sociedade”… Esse movimento mostra que a produção científica também é uma escolha política: envolve decidir quem participa, quais saberes são reconhecidos e como diferentes experiências entram na construção da ciência. E pesquisas assim são fundamentais, porque colocam a cabeça pra pensar onde o pé pisa. Nesse caso: na terra onde brota o cacau. No fim das contas, o CacauClima não é só sobre sensores, modelos ou algoritmos. É sobre como diferentes formas de conhecimento podem trabalhar juntas diante de um cenário de incerteza. É sobre usar satélites para enxergar melhor o que acontece no campo – e usar a experiência de quem vive do campo para interpretar melhor o que os satélites mostram. Entre o microclima da lavoura e o macroclima do planeta, entre a memória dos mais velhos e os cenários projetados pra 2050, o projeto constrói pontes. Pontes entre ciência e prática, entre tecnologia e território, entre futuro e história. E talvez seja assim que novas sementes possam germinar… Trecho de música: “no meu jardim de sementes valiosas / plantas tão maravilhosas podem germinar / no meu jardim água nova vai brotar / passarinhos vem voar abençoando a plantação (…)” Talita: Essa música que você ouviu por último foi gentilmente cedida por Beto Bina. Os créditos da música vão para a Rede de Apoio a Mulheres Agroflorestoras (RAMA), a  Ecovila Iandê e a FarFarm. O @ deles tá lá no nosso Instagram. A gente agradece por cederem um trecho da música pra esse episódio, que tem tudo a ver com o trabalho que essa turma desenvolve. Vou dar uma dica aqui. Em 2019, a Camila Cunha produziu um episódio sobre Cacau. O título é À Sombra da Floresta. Trata da produção de cacau por agricultores familiares, do sistema cabruca e sobre a cadeia produtiva do chocolate. Ouve lá. Deixamos o link no site.  https://www.oxigenio.comciencia.br/79-tematico-a-sombra-da-floresta/ Este episódio foi produzido e roteirizado por mim, Talita Gantus. A revisão é da Simone Pallone e da Mayra Trinca, coordenadoras do Oxigênio. Este material foi gerado como parte do projeto de divulgação científica do CacauClima, desenvolvido por mim e coordenado pela Claudia Pfeiffer e pela Simone Pallone.  A edição de áudio foi feita pela Carolaine Cabral, bolsista do Programa BAS da Diretoria Executiva de Apoio Estudantil. A vinheta do podcast foi criada pelo músico Elias Mendez.O Oxigênio é um podcast produzido pelos alunos do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da UNICAMP e colaboradores externos. Tem parceria com a Secretaria Executiva de Comunicação da UNICAMP.  Você encontra todos os episódios no site oxigenio.comciencia.br e também na sua plataforma de podcasts favorita. Procura a gente nas redes sociais: no Instagram e no Facebook você nos encontra como OxigenioPodcast. Segue lá pra não perder nenhum episódio. Muito obrigada por escutar até aqui.

Diário Mágicko
Choque de Egregoras #6 – O Poder do Nome

Diário Mágicko

Play Episode Listen Later Mar 18, 2026 143:19


Ai sim! Você conhece o conceito de "Mente de Colméia" (Hive Mind)? Basicamente se trata de uma mente coletiva, uma situação em que indivíduos de uma mesma espécie compartilham informações uns com os outros em tempo real. Não é bem telepatia, está mais para o conceito de uma nuvem de arquivos que sincroniza automaticamente: o que um sabe, os outros também sabem. E, em geral, esses seres operam em conjunto, e têm agendas parecidas - muito embora possam haver particularidades que os distigam do conjunto e que endossem sua individualidade. E por que isso é importante? Por que nesse episódio a gente vai começar falando sobre seres, espíritos, entidades, divindades que compartilham de um mesmo nome, mas nem sempre são a mesma inteligência… E aqui a gente pode estar falando de entidades de uma mesma falange, mas a gente também pode falar do exemplo de Lúcifer, que é uma entidade específica no Antigo Testamento, outra completamente diferente na Goecia Salomônica e Grimorium Verum, e que se apresenta de forma completamente díspar na Quimbanda Luciferiana. entre outros tantos sistemas em que esse nome aparece… E, bem, esse é só o primeiro tópico. Durante o episódio discorremos sobre o poder da admiração na consagração de um Mestre, os aspectos estéticos e doutrinários da Grande Fraternidade Universal, a mitologia como fundamentação psicológica e como cunhagem de uma referência possível para a divinização, as influências do matrimônio na senda iniciática, o cuidado com as relações que se formam no caminho, entre outros! A gente ainda não tem uma plataforma de Hive Mind, mas você pode se inscrever e deixar um comentário e o seu aplicativo vai te entregar novos episódios com todo o conhecimento que compartilhamos e disponibilizamos continuamente! Próximas Lives (Páginas Abertas): Páginas Abertas #52 – 10/04 às 20:00 [Dia a Dia Encantado] Envie seu relato!

Podcast Cinem(ação)
#633: Marty Supreme

Podcast Cinem(ação)

Play Episode Listen Later Feb 20, 2026 95:55


Rafael Arinelli, Julia Barth, Diego Quaglia e Daniel Cury entram na máquina do tempo suada e gordurosa de Marty Supreme, a estreia solo de Josh Safdie que transforma Timothée Chalamet num vigarista narcisista dos anos 1950. E que alívio ver o garoto sensível finalmente interpretando um babaca profissional.Marty é um vendedor de sapatos que joga tênis de mesa como se fosse salvar a alma (spoiler: não vai), mas o filme não é sobre esporte. É sobre ambição podre, capitalismo selvagem e um protagonista que faz você torcer contra ele. Os Safdies (ou melhor, o Safdie) entregam aquela estética claustrofóbica de sempre: Nova York filmada em 35mm, suja, frenética e desconfortável como uma camisa de poliéster no verão.O plot twist técnico? A trilha sonora anos 80 num filme passado nos anos 50, porque Marty mentalmente já vivia no futuro do "eu, eu, eu". E tem Kevin O'Leary do Shark Tank pedindo pra levar raquetadas na cara. Sim, você leu certo.Marty Supreme é cinema ansioso sobre um homem criança que destrói tudo ao redor e ainda sai por cima. Basicamente, uma alegoria da própria América. Desconfortável? Sim. Genial? Também.• 06m07: Pauta Principal• 1h14m50: Plano Detalhe• 1h28m30: EncerramentoOuça nosso Podcast também no:• Spotify: https://cinemacao.short.gy/spotify• Apple Podcast: https://cinemacao.short.gy/apple• Android: https://cinemacao.short.gy/android• Deezer: https://cinemacao.short.gy/deezer• Amazon Music: https://cinemacao.short.gy/amazonAgradecimentos aos padrinhos: • Bruna Mercer• Charles Calisto Souza• Daniel Barbosa da Silva Feijó• Diego Alves Lima• Eloi Xavier• Flavia Sanches• Gabriela Pastori Marino• Guilherme S. Arinelli• Thiago Custodio Coquelet• William SaitoFale Conosco:• Email: contato@cinemacao.com• X: https://cinemacao.short.gy/x-cinemacao• BlueSky: https://cinemacao.short.gy/bsky-cinemacao• Facebook: https://cinemacao.short.gy/face-cinemacao• Instagram: https://cinemacao.short.gy/insta-cinemacao• Tiktok: https://cinemacao.short.gy/tiktok-cinemacao• Youtube: https://cinemacao.short.gy/yt-cinemacaoApoie o Cinem(ação)!Apoie o Cinem(ação) e faça parte de um seleto clube de ouvintes privilegiados, desfrutando de inúmeros benefícios! Com uma assinatura a partir de R$30,00, você terá acesso a conteúdo exclusivo e muito mais! Não perca mais tempo, torne-se um apoiador especial do nosso canal! Junte-se a nós para uma experiência cinematográfica única!Plano Detalhe:• (Julia): Filme: A Voz de Hind Rajab• (Diego): Filme: A Cor do Dinheiro• (Diego): Filme: Desafio à Corrupção• (Diego): Filme: Os Embalos de Sábado à Noite• (Daniel): Série: The Pitt• (Daniel): eBook: Fantástico Guia dos Escritores Perdidos• (Rafa): Vídeo: Jacob Collier Improvises With Orchestra (Live in San Francisco)Edição: ISSOaí

Oxigênio
#213 – Curupira: da floresta à COP30

Oxigênio

Play Episode Listen Later Feb 12, 2026 42:54


O Curupira foi incorporado ao folclore brasileiro e foi transformado em personagem de histórias infantis, filmes e séries. Recentemente, se tornou mascote da COP-30, a conferência internacional da Organização das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, que em 2025 foi realizada pela primeira vez no Brasil, em Belém do Pará. Mas para os povos da floresta ele é muito mais que um mito. Você vai descobrir curiosidades sobre esse personagem nesse episódio que foi idealizado e produzido por Juliana Vicentini, revisado por Mayra Trinca e editado por Yama Chiodi.  ____________________ Roteiro Juliana: Se você entrar na floresta e ouvir um assobio, fique atento, você não está sozinho. É o Curupira, o guardião da natureza. Ele defende a mata e os animais daqueles que invadem, desmatam, caçam ou exploram o meio ambiente sem necessidade. O Curupira nasceu na cultura dos povos indígenas e continua vivo por meio da oralidade e da memória que se perpetua de geração em geração. Para os indígenas, ele é uma entidade, um espírito protetor da floresta e dos seres vivos. Mas durante o processo de colonização, o Curupira foi distorcido e sofreu tentativas de apagamento. Ele resistiu a isso e saiu do seu habitat natural para ganhar o Brasil e o mundo. O Curupira foi incorporado ao folclore brasileiro e foi transformado em personagem de histórias infantis, filmes e séries. Recentemente, se tornou mascote da COP-30, a conferência internacional da Organização das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, que em 2025 foi realizada pela primeira vez no Brasil, em Belém do Pará.  Juliana: Nesse episódio, nós faremos uma viagem para entendermos o Curupira. Nossa trilha começa pela perspectiva de quem cresceu ouvindo sobre ele não como uma lenda, mas como uma presença viva e protetora da natureza. Ao longo do nosso caminho, pesquisadores e jornalistas nos conduzem nessa jornada, nos revelando camadas que passam pela linguística, história e colonialidade, apresentando a trajetória do Curupira desde uma figura ancestral até a sua chegada como símbolo da COP30. Essa viagem nos ajuda a compreender o Curupira como um símbolo potente de resistência cultural, de decolonialidade e de sustentabilidade.  Juliana: Eu sou a Juliana Vicentini, esse é o podcast Oxigênio e o episódio de hoje é o “Curupira: da floresta à COP30”. [vinheta] Juliana: Algumas histórias não são ensinadas em aulas, não são vistas em livros, vídeos e fotografias. Elas são compartilhadas na convivência entre as pessoas, no chão da floresta, em meio ao som das águas e pássaros, e até mesmo ao redor de uma fogueira. Tem histórias que não são apenas lúdicas, mas que fazem parte da vida, da memória e do território e que pulsam no coração das pessoas com um significado especial.  Juliana: No Brasil, há 391 etnias indígenas, segundo o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2022. E cada povo indígena tem suas próprias entidades que protegem a natureza. O Curupira é um desses seres e ainda assim, suas características nem sempre são contadas da mesma maneira por todos os povos.  Juliana: Hoje nós vamos ouvir alguém que cresceu entre a aldeia e a escola e que carrega histórias que quase não se contam no povo Suruí atualmente — histórias guardadas, íntimas, que vêm do vínculo com o pai e com o território. Maribgasotor Suruí: Não é um ser mitológico, não é um ser assim, de livro de história, né? Mas é verdadeiro. Nós acreditamos no Curupira. Juliana: Maribgasotor Suruí é estudante de Direito na Universidade Federal de Rondônia. Ele pertence a etnia Suruí, da terra indígena Sete de Setembro, localizada nos estados de Rondônia e Mato Grosso.  Maribgasotor Suruí: Eu cresci no meio disso, alguém falando disso, já faz parte do meu convívio, da minha cultura, do meu sangue, inclusive eu tenho curiosidades, tem isso também, um dia a ver, né? Mas como meu pai mesmo fala que não é qualquer pessoa que vê, e é um privilégio um dia, né? Hoje em dia, no Suruí, ninguém conta muito, ninguém pergunta muito, ninguém tem essa história que nós estamos falando. Eu e meu pai somos muito íntimos, né e  desde pequenos, somos uma pessoa muito curioso. Eu saí muito cedo de casa, eu estudei com a escola internato, escola agrícola, eu estudei em São Paulo, né? Eu tenho esse conhecimento, essa mistura de duas culturas diferentes. Eu sempre tive curiosidade com meu pai contar isso para mim, não é todos que querem saber, né? Porque hoje em dia, como eu falo, a evangelização chegou né, junto com os contatos e isso tirou a sensibilidade, a tradição, é como a gente descreve no direito indígena, como se fosse etnocídio. Juliana: A própria palavra Curupira carrega em si muito da história desse ser com os povos indígenas. Quem explica para a gente é o Thomas Finbow da Universidade de São Paulo, onde é professor de linguística histórica, área que investiga como as línguas evoluem.  Thomas: Curupira é uma palavra que vem do tupi, especificamente a fase que a gente conhece como tupi antigo, que seria aproximadamente do período entre 1500 e o final do século 17. E tupi é uma língua que era falada no litoral do que é o atual Brasil e é falada por várias nações indígenas. Esse é uma língua tupi guarani, que é um ramo de uma grande família linguística, família tupi, que tem 10 ramos e essas línguas estão localizadas desde Rondônia, dentro do Brasil, e atravessando a Amazônia, historicamente também no litoral e também existem na Guiana Francesa, no Peru, na Colômbia, na Venezuela, na Argentina, também na Bolívia, então é uma família muito muito dispersa geograficamente. Atualmente não tem mais falantes nativos dessa língua tupi, mas existem vários projetos entre os grupos descendentes das nações falantes de tupi, então os potiguara, na Paraíba, no Rio Grande do Norte, os tupinambás na Bahia, os tupiniquins no Espírito Santo que estão trabalhando para revitalizar essa língua. Juliana: Quando a gente tenta entender a origem de uma palavra indígena, nem sempre encontra uma resposta única e Curupira é um exemplo de ambiguidades. O Thomas explicou que a palavra pode ter alguns significados, mas que nem sempre eles batem com as histórias que conhecemos.  Thomas: Curupira parece ter um item coru e pira como se comenta, então, mas o problema exatamente é de interpretar o que que seriam essa parte de coru. Coru significa uma pele com bolhas, como uma pele de sapo, com uma pele irregular, então isso é uma possibilidade para esta raiz e pira é uma raiz. Pira significa pele. Que é curioso porque isso não é uma característica que se comenta do Curupira. Tradicionalmente hoje, se fala de pele vermelho, de ter os pés virados para trás, de ter o corpo pequeno etc. Então é curioso, talvez isso pode levantar hipótese de que isso não seja exatamente o significado desses raízes e tem alguma coisa que se perdeu em termos da construção da palavra, na transição entre o tupi e o português. Juliana: Temos outras explicações possíveis pra essa palavra então? Thomas: Eu também vi tentativas de explicar essa palavra Curupira usando a palavra kurumin, ou seja, menino, em tupi é kunumin. Esse raiz piir poderia ser uma interpretação da palavra para corpo. Isso também é algo que se vê na língua geral amazônica, no Yengatu, que pira hoje não tem o significado de pele. E aí seria uma tentativa de dizer que é um homemzinho, uma estatura pequena, baixa do Curupira. Então, poderia ser corpo de menino, em tupi, o possuidor vem primeiro como em inglês e a coisa possuída vem depois. A gente sabe que é um conceito antigo, parece que é algo pré-colonial, pré-europeu, porque os primeiros registros já no século XVI mencionam esse nome, Curupira. Então, não parece ser alguma coisa que tenha saído da cabeça dos europeus. E as pessoas que registravam os termos eram pessoas que conheciam o tupi antigo muito bem. É pouco provável que eles tenham errado muito no registro do nome também. Mas eles não explicam o que significa. Juliana: Assim como é difícil estabelecer um consenso sobre o significado da palavra Curupira, também não há unanimidade quanto à sua descrição. O Curupira é representado de diversas maneiras e suas características físicas ilustram o seu papel como o guardião da floresta e dos animais. A Januária Cristina Alves, que é jornalista, escritora, pesquisadora da cultura popular e apaixonada pelo folclore brasileiro nos dá detalhes sobre isso.  Januária: Ele é um menino, dizem que ele raramente anda sozinho, né, ele anda sempre ao lado de uma companheira, tem hora que ele aparece com um só olho no meio da testa, né, com um nariz bem pontudo. Em outras descrições, ele não tem nem nariz, ele não tem nenhum buraco, nenhum orifício no corpo. Ele tem dentes verdes, em algumas regiões, em outras, os dentes são azuis. Ele muitas vezes aparece careca, outras vezes bastante cabeludo. Em algumas ocasiões descrevem com orelhas enormes, sem articulações nas pernas. Mas de qualquer maneira, ele é sempre visto como uma entidade muito forte, que anda virado, com os pés virados para trás, exatamente para confundir as pessoas que tentam persegui-lo, que vão seguir a pista errada. Juliana: Afinal de contas, por que a gente se depara com tantas descrições físicas diferentes do Curupira, Januária? Januária: Na verdade, não é exclusivo do Curupira, não, a Caipora também é assim. Por serem parte da tradição oral, suas histórias correm de boca em boca, quem conta um conto, aumenta um ponto, é assim que diz o ditado popular. Então, de fato, essa narrativa oral vai permitindo com que as pessoas muitas vezes esqueçam um ponto ou acrescentem alguma outra característica e com isso a gente vai reunindo diferentes versões, muitas vezes o nome do personagem muda também, mas as suas características principais, a sua essência, ela é mantida. Então, no caso do Curupira, é verdade, ele aparece em diferentes versões, dependendo da região, da época, né? Mas, no geral, a gente sabe que ele é aquele menino que tem basicamente os pés virados para trás. Juliana: Independentemente das características físicas do Curupira, o que é unânime nas cosmologias indígenas é que ele ensina que a convivência entre os seres humanos e a natureza deve ser respeitosa e quando isso não acontece, o Curupira desaprova, não é mesmo Maribgasotor? Maribgasotor Suruí: Normalmente os caçadores, mata o bicho por hobby, deixa o animal padecendo no mato, ele não gosta. Até com nós que é índio que faz essas coisas, que nasceu dentro do mato, ele já não gosta, imagina com as pessoas que faz destruição com o habitat dele. Ele não tem limite, ele está em todo lugar e inclusive não pode falar muito o nome dele, né? Porque ele é um ser que devemos respeitar.  Juliana: Luís da Câmara Cascudo, em seu livro intitulado Geografia dos Mitos Brasileiros, detalha que a personalidade do Curupira varia segundo as circunstâncias e o comportamento dos frequentadores da floresta. Basicamente, o Curupira não gosta de quem desrespeita o meio ambiente e acaba punindo essas pessoas, por isso, nem sempre ele visto com bons olhos. A Januária conta mais sobre isso  Januária: Ele é o protetor da floresta, né, e muitas vezes, de fato, ele não é politicamente correto. Ele tem lá as leis dele. Por exemplo, um caçador que mate uma fêmea grávida, ele não vai perdoar. Ele vai matar. Muitas vezes, até por isso, ele foi tido como demônio da floresta, principalmente com a chegada dos jesuítas, que tentaram catequisar os índios e tal. A figura do Curupira foi bastante associada ao mal, ao demônio. Ele costuma fazer acordos, né, em troca de bebida, comida, presente. E ele gosta de confundir, né, as pessoas. Então ele passa informações erradas. Ele indica o caminho confuso, faz as pessoas buscarem coisas que ele oferece lá e não tem nada, né. Enfim, mas de qualquer jeito, ele não aceita que ninguém mate por gosto, sem necessidade. Ele se torna mesmo um inimigo implacável. Então, essa é a personalidade do Curupira. Ele é implacável na defesa da natureza. Juliana: O Curupira utiliza algumas estratégias para proteger a floresta e os animais. Ele é um ser muito ágil, o que faz com que ele ande de um lugar para o outro  na mata muito rapidamente. Também é conhecido pelos assobios, gritos e outros barulhos que usa  para desorientar invasores e pelos rastros deixados por seus pés virados, que é considerado um artifício poderoso para confundir sua direção. Mas afinal de contas, Januária, o que mais o Curupira é capaz de fazer? Ele tem poderes? Januária: Ele mesmo consegue se disfarçar em caça, por exemplo, num bicho,  para fugir dos caçadores. Mas o caçador nunca consegue pegá-lo, né. Ele é bom de se disfarçar, ele é bom de disfarçar os caminhos. O pé virado para trás facilita, mas ele de qualquer maneira faz com que o caçador se perca na floresta, no meio dos labirintos. Então, muitas vezes o caçador fica perdido sem nunca conseguir sair de lá, porque o Curupira faz esses caminhos muito confusos. Então, na verdade, não é um super-poder, mas é, sobretudo, uma convicção de que para proteger a floresta, os animais, ele é capaz de tudo. Dizem que ele tem um assobio muito alto e muito estridente. E ele anda em muitas regiões montado num porco do mato. E aí atrás dele sempre vem uma manada também dos porcos do mato. E muitas vezes também vem cachorro selvagem. Ele gosta dos cachorros. Ele é um ente muito ligado à questão da caça. E muitas vezes dizem também que ele consegue saber se vai ter tempestades, se vai ter essas intempéries grandes na natureza, porque ele bate no tronco da árvore dependendo do barulho que faz ele consegue saber se vai chover ou não, por exemplo. E ele também faz vários barulhos. E os caçadores que tentam segui-lo por meio dos barulhos acabam se confundindo. Porque são barulhos que os caçadores não têm condição de identificar. Enfim, mas ele não é um super-herói.   Juliana: Dá pra perceber que o Curupira é ardiloso e tem uma série de truques pra proteger a floresta e quem vive nela, mas afinal de contas, qual é a origem do Curupira e qual foi o primeiro registro que descreveu esse ser, Januária? Januária: A figura do Curupira tá mais ligada mesmo aos indígenas, inclusive o primeiro registro é uma descrição que o padre José de Anchieta faz na carta, onde ele descreve as coisas naturais da Capitania de São Vicente, ele já fala do Curupira. Então ele é fortemente ligado à mitologia indígena. Então, a gente não tem muita dúvida e ele é encontrado, suas histórias, suas tradições no Brasil inteiro. Juliana: A Carta de São Vicente foi escrita em 1560 pelo jesuíta José de Anchieta. Esse tipo de registro era uma mistura de relatório e observação do território brasileiro pelo olhar europeu e cristão. O objetivo dessa carta em específico era descrever a natureza, os habitantes e a cultura indígena. Quem conta para gente como o Curupira foi interpretado e materializado nesses escritos é a Gracinéia dos Santos Araújo. Ela é tradutora, escritora, professora universitária e docente de Espanhol na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Pará. Ela atua sob uma perspectiva decolonial piracêmica-emancipatória que reivindica o protagonismo dos mitos e lendas de maneira geral. Gracinéia: A gente precisa retroceder no espaço, no tempo, e lembrar que com a chegada da empresa colonizadora, ao que se chamou Novo Mundo, entre aspas, né, a história dos nossos mitos, mitos autóctones, foi marcada pela demonização. Seres encantados como Curupira e muitos outros foram relegados à condição de demônio, isso foi o que registrou, por exemplo, o Jesuíta Espanhol, Jesuíta de Anchieta. Evidentemente não foi apenas a Anchieta quem o demonizou, porque outros letrados, cronistas da época, ou não, também o fizeram, bem como nos lembra o folclorista Luís da Câmara Cascudo. Juliana: A maneira de os jesuítas explicarem o que viam onde hoje é o Brasil, é marcada pela oposição entre o divino e o demoníaco. Na ausência de um meio-termo e na tentativa de afastar os indígenas de suas crenças, toda figura que não fosse divina, na percepção dos europeus, era demoníaca e, consequentemente, maligna. O Curupira foi o primeiro, mas não o único, a passar por esse processo.   Gracinéia: Cascudo destaca, que Curupira foi o primeiro duende selvagem que a mão branca do colonizador europeu fixou em papel e deu a conhecer além das nossas fronteiras e o fez precisamente por meio de uma espécie de certidão de batismo que escreveu na referida carta de São Vicente. Para o colonizador europeu, nesse caso, o José de Anchieta, o Curupira foi visto como um ser temível, um ser meramente do mal, totalmente a contracorrente da perspectiva nativa em relação a este ser encantado. Juliana: O Thomas detalha como o José de Anchieta usou as características de defensor da mata do Curupira pra transformar ele nesse ser que engana as pessoas  de um jeito puramente maldoso no lugar do personagem complexo que ele é. Thomas Finbow: Na segunda metade do século 16, ele menciona a existência de tipos, vou lhe descrever como demônios na visão cristã dele, para que maltratavam indígenas em certas situações, quando ele podia levar eles a se perder nas matas, até acidentes, a sofrer lesões corporais que açoitavam as pessoas, aí as pessoas deixavam oferendas em determinados lugares na floresta para esses demônios. Juliana: Mais pra frente na história, nos registros dos naturalistas e viajantes do século XIX, o Curupira não era descrito como o protetor das florestas. Nos contos escritos a partir do olhar estrangeiro nesse período, ele  retoma a figura ambígua: ora ajuda as pessoas, ora as persegue. O Thomas fala mais sobre isso. Thomas: Por exemplo, Barbosa Rodrigues, um botânico importante, ele tem toda uma série de contos sobre o Curupira, de aventuras nas florestas, que às vezes ajuda, às vezes atrapalha as pessoas, muitas vezes é o caçador que precisa escapar do Curupira. Ele simplesmente é o Curupira que conversa com os seres humanos, mas pode ajudar dando flechas mágicas, por exemplo, que sempre acertam a caça, ou pode querer comer as pessoas também. Então, assim, ele oscila, ele não tem uma característica apenas boa ou ruim. São entidades, seres, habitantes das matas que são um aspecto dos perigos da mata, que as pessoas que circulam precisam lidar e precisam se prevenir contra esses seres. Então, assim, teve essas versões que mostram certos atributos dos Curupiras e essa visão que temos hoje é muito adaptada pelos contos transmitidos pelo século XIX. A nossa imagem do Curupira atualmente é uma coisa composta, que é feita de várias tradições que existiam desde tempos muito antigos em diversos lugares do Brasil, mas todos relacionados mais ou menos com essas figuras da cosmovisão dos povos tupi-guarani principalmente. Juliana: O significado do Curupira depende de quem conta a sua história, por isso, um dia ele já foi demônio, mas continua sendo o protetor da floresta. Essas interpretações diferentes nos revelam mais sobre as pessoas do que o próprio Curupira. Quem nos ajuda a entender isso é a Gracinéia.  Gracinéia: Com o contato linguístico e cultural, resultante do processo de colonização, estendeu-se a ideia do Curupira como um demônio, porque a ideologia predominante dogmática foi a ideologia eurocêntrica dogmática que viu o mito apenas como um demônio, mas para os povos nativos da floresta, o Curupira não é e nunca foi um demônio, mas o pai ou mãe da mata, um ser encantado, que se tem muito respeito, se obedece, porque sabe que como pai da mata, ele a protege, e evidentemente vai defendê-la dos possíveis invasores e dos perigos que põem em jogo a vida dos seus habitantes. Daí que aplique inclusive castigos exemplares, mas mesmo assim, quem padece desses castigos exemplares, não considera como demônio, e reconhece muitas vezes que foi pela sua atitude inapropriada para com a mãe natureza.  Juliana: Parte da transformação do Curupira em demônio também passa pelo projeto de exploração de recursos naturais que se baseava a colonização portuguesa por aqui. Destruir a imagem do protetor da floresta facilitava isso. Gracinéia: Não podemos esquecer que o principal objetivo da empresa colonizadora foi explorar nossas matérias primas e por outro lado, impor ao colonizado, o seu modo de vida e tudo o que isso implicou, a língua, a religião, a guerra etc. os seus mitos, né? Mas, tamanha é a valia de Curupira, que ele ou ela, porque é um ser multifacetário, o Curupira ou a Curupira, sobrevive até os nossos dias e continua igualmente mencionado, dosando o seu valor real. Para o nativo não houve um antes e depois do mito Curupira. Os estudos mais atuais têm nos revelados que para os habitantes da Amazônia, nativos ou forâneos, Curupira é pai ou mãe da mata e isso não resta dúvida.  Juliana: Quando o Curupira é compreendido a partir de versões diferentes, a gente começa a refletir que não se trata apenas de leituras distintas, mas que há disputas sobre memória, cultura e poder. Podemos pensar que esse processo de demonização do Curupira foi uma tentativa de apagamento cultural. A visão eurocêntrica estava se sobrepondo ao simbolismo indígena, como disse a Gracinéia.   Gracinéia: Eu acredito, sem dúvidas, né, que com a chegada do colonizador europeu, não apenas mitos como Curupira sofreram uma tentativa de apagamento, mas muitos povos e culturas milenárias, culturas originárias em uma dimensão ampla, foram apagadas, muitas delas exterminadas. Cabe destacar que muitos povos foram, inclusive, dizimados, e com eles desapareceram línguas, desapareceram culturas, e tudo o que isso implica, né, como seus mitos e as suas lendas. Foram sim seus mitos, porque os mitos também morrem, precisa a gente destacar isso. Então, é importante destacar, por outro lado, que muitos povos ainda resistem também, mas vivem sufocados e condenados a desaparecer, agonizando, junto com os seus mitos, com os mitos que ainda restam, e essa é uma das consequências funestas do processo de colonização, que ainda perdura até os nossos dias.  Juliana: A tentativa de apagamento do Curupira, e consequentemente, da cultura dos povos indígenas, é uma herança colonial, mas que não ficou no passado. No presente, há outros elementos que contribuem para silenciar o Curupira?  Gracinéia: Há outros fatores igualmente impactantes, como podem ser os avanços tecnológicos, a televisão, a internet, entre outros, que exercem uma evidente influência, uma vez que sem pedir licença acabam impondo novas formas de vida, novos mitos também. O Ailton Krenak no seu livro “Futuro Ancestral”, destaca e denuncia que querem silenciar, inclusive, nossos seres encantados, de que forma isso ocorre? Acredito eu, que uma vez que nós destruímos as matas, estamos silenciando os nossos encantados, porque estamos destruindo o seu habitat, então, uma vez que não há floresta, evidentemente os mitos desaparecem. Então, isso vem ocorrendo desde a chegada do colonizador europeu. Criaturas fantásticas como Curupira, que é parte da floresta como é o sol, as águas, a terra etc., se funde, se confunde com a realidade, assumindo um papel de guardião da floresta, tudo que ela habita, sendo uma espécie de protetor da própria vida no planeta.  Juliana: A fala da Gracinéia mostra como o processo de apagamento da cultura indígena segue em curso. Ainda assim, o Curupira ainda tem forças e permanece como guardião da floresta.  Gracinéia: Apesar de tudo, muitos seres encantados da floresta conseguem sobreviver, como é o caso do Curupira, e outros mitos né, que sobrevivem, embora a duras penas, sem que a civilização entre aspas e progresso, tenham conseguido acabar com eles. Isso é o fato de um progresso científico e tecnológico não conseguirem tranquilizarem os nossos medos, ou seja, os frutos desse progresso ainda estão longe de acalmar os medos ancestrais de homens e mulheres. Curupira é um ser que faz parte da idiossincrasia dos povos originários e se manteve vivo pelo papel que representa como pai ou mãe da mata, né, do mato. Juliana: Manter o Curupira vivo no século XXI é uma forma de honrar e valorizar a cultura indígena e a importância desses povos na preservação da natureza e no enfrentamento à crise climática. Então, faz sentido que essas histórias se mantenham por outro elemento muito importante da cultura originária: a oralidade e as histórias contadas de geração em geração. Quem compartilha conosco a sua perspectiva sobre isso é o Maribgasotor: Maribgasotor Suruí: A melhor estratégia para manter essa história, é falar para as crianças que é verdade, não é conto de história, que esse ser existe. Outro dia eu estava pensando sobre isso, que poderia ser mais pesquisado, mais na área acadêmica, na base da cultura, dar mais valor, reconhecer mais, não visto como um mito, uma história, mas como uma coisa verdadeira. Juliana: O Curupira tem circulado para além das florestas e ganhou o Brasil. Ele está presente em livros, poemas, filmes e séries. Isso se deve em parte a ele ser um dos integrantes do nosso folclore. Quem nos conta quando foi isso é a Januária.  Januária: É muito difícil a gente demarcar quando foi que isso aconteceu. Os indígenas foram preservando as suas tradições também oralmente. Então, a gente entende que é uma coisa natural, né? Que essas histórias que os indígenas foram contando, os seus cultos, as suas tradições, foram também se imbricando com a nossa cultura, a ponto de integrarem nosso folclore, serem quase que uma coisa só. Mas, de qualquer maneira, é muito importante deixar claro que mesmo sendo uma figura folclórica, não existe desrespeito, né, à figura do Curupira. Muito pelo contrário, né? Ele é muito respeitado exatamente por ser um protetor da natureza. Juliana: Januária, a essência indígena do Curupira se manteve no folclore brasileiro?   Januária: Basicamente ele se manteve tal como os indígenas o descreviam, né, tanto fisicamente como de personalidade, o que prova exatamente isso, que houve uma mistura. As histórias se amalgamaram do culto religioso para as tradições populares. Como é muito comum de acontecer com diversos personagens do folclore brasileiro. Juliana: O Curupira que já é conhecido no Brasil – seja como um ente da cultura indígena, integrante do folclore brasileiro ou personagem infantil – ganhou projeção internacional. Ele foi escolhido para ser o mascote da COP30. Segundo o comunicado oficial, disponível no site cop30.br Simone: o “Curupira reforça a relação da identidade brasileira com a natureza”. Juliana: Maribgasotor Suruí fala sobre as suas impressões a respeito de quem escolheu o uso do Curupira como símbolo da conferência sobre clima. Maribgasotor Suruí: Espero que essa pessoa tenha mesmo compreensão, tenha o mesmo respeito que eu tenho por ele, não por brincadeira, não por marketing, não por nada. Espero que essa pessoa esteja pedindo a permissão dele, dos seres espirituais. Um evento desse daí, desse nível, né, é um apelo, um grito, e espero que as pessoas compreendam isso, que para falar de Curupira, não é qualquer um, e como se fosse falar de uma religião, que você fala de uma ideia e uma filosofia de vida, não é só apenas um Curupira, uma filosofia de vida que a pessoa vai levar. Por isso, é uma honra falar isso para você, o que é tão significado que esse ser tem para nós, e eu estou muito orgulhoso por falar do meu irmão. Juliana: O Curupira como mascote da COP30 é uma maneira de fortalecer a cultura indígena e de reforçar a necessidade de respeito à natureza. Quem detalha isso pra gente é a Gracinéia.  Gracinéia: Depois de muitos anos, de muitos séculos de invisibilização do modo de vida dos povos originários, considerados primitivos, muitos séculos de apagamento das suas tradições, das suas crenças, de chamá-los de gente sem Deus e sem alma, selvagens indígenas de tutela do colonizador europeu, dar protagonismo para um ser mítico ancestral e próprio das culturas nativas, como é o caso do Curupira em um evento com uma COP30 é sem dúvida, uma forma muito acertada de reconhecimento também, e de certa reparação histórica, uma reparação histórica e cultural, para com os nossos antepassados indígenas e as suas crenças, as suas tradições. Os povos indígenas, é bem sabido, mantém uma relação estrutural com a natureza.  Juliana: A realização da COP30 acontece para que a sociedade como um todo e em todo o mundo discutam ações para o enfrentamento do aquecimento global. Isso significa que vivemos um cenário de crise climática e que entes como o Curupira se tornam ainda mais relevantes nesse contexto,  não é mesmo, Gracinéia? Gracinéia: Insisto que dar protagonismo a seres encantados como Curupira é mais do que importante, é muito necessário. É um compromisso moral e ético que todos deveríamos assumir se queremos continuar sobrevivendo no planeta. Aqui eu falo desde o lugar que eu ocupo como docentes do contexto amazônico e do contexto amazônico, especialmente pelo papel que representa o mito como o protetor da floresta.  Juliana: Isso não significa se ver preso a um modo de vida do passado ou pensar na mata como uma espécie de paraíso perdido… Gracinéia: Mas de olhar e agir para um futuro de maneira circular, ter de encontro nosso passado para entender o nosso presente, e conviver com a natureza de maneira mais respeitosa sem degradação. É precisamente isso que nos ensina o mito Curupira, com o uso responsável dos recursos naturais que significa claramente extrair da natureza apenas o que precisamos para sobreviver, sem avareza, sem devorá-la. Nesse sentido, colocar de releio figuras tão relevantes como Curupira, é sem dúvidas o anúncio de um recomeço, de respeito de ressignificar a nossa relação com a natureza e tudo o que ela nos aporta. Juliana: O combate à crise climática deve ir além da ciência e da tecnologia. É preciso integrar as culturas originárias e tradicionais que são detentoras de saberes profundos sobre a natureza. O Curupira, como o guardião da floresta, é um ser capaz de conectar esses conhecimentos diversos rumo a sustentabilidade planetária, Gracinéia?  Gracinéia: Curupira, sem dúvida, pode ajudar a conectar a cultura, ciência e espiritualidade na luta climática, né. Porque temos em conta que o Curupira não é um simples adorno da floresta. O Curupira é uma lei reguladora da própria vida no planeta, em uma dimensão ampla, porque permite, de certo modo, que siga havendo vida na Terra. O Curupira é essa lei que nos exige que redimensionemos a nossa forma de viver e nos relacionar com a natureza.  Juliana: O modo de vida trazido pelos europeus durante a colonização nos afastou dessa conexão com a terra e com a natureza. Mas os muitos povos indígenas que resistem no Brasil ainda protegem essa herança e podem nos ensinar a ter uma outra relação com o ambiente que nos cerca. Gracinéia: No mundo amazônico, ao longo de séculos e séculos, a relação do ser humano com a Terra era de estreita sintonia, de evidência e dependência, uma dependência harmoniosa. Nessa relação, surge a ciência ancestral como geradora de cultura, geradora de vida abundante, fecunda. No entanto, hoje em dia não é assim. Estamos atordoados. O grande problema da ruptura da relação com a Terra é evidente. Não existe uma espiritualidade com a Terra, com o rio, com a floresta. Porque essa relação com a natureza está se tornando cada vez mais distante. Está havendo uma total ruptura do contato com a Terra, porque a Terra é vista como algo sujo, nos lembra Krenak. Algo que as crianças não podem pisar descalça porque a Terra suja o pé. Essa é uma espécie de mantra que tem se repetido especialmente no contexto das cidades, no contexto dos mais urbanizados ou mais urbanos. Daí que reivindicamos a espiritualidade indígena no contato com a Terra, com a água, com a natureza, em uma dimensão ampla de respeito e de cuidado, mas também de desfrute, de deleite. Isso demonstra que a espiritualidade mantém uma relação estreita com a ciência e vice-versa, porque a ciência é parte da cotidianidade da vida. Juliana: O Curupira com seus pés virado para trás nos ensina que é preciso olharmos para o passado e para a relação de nossos ancestrais com a natureza, para que possamos seguir para o futuro na construção de um mundo mais justo, ético e sustentável.  Juliana: Nossa viagem pelo universo do Curupira chega ao fim. Registramos nossos agradecimentos à Maribgasotor Suruí, Thomas Finbow, Januária Cristina Alves e Gracinéia dos Santos Araújo pelas contribuições valiosas e gentis. Pesquisas, entrevistas e roteiro foram feitas por mim, Juliana Vicentini, e narração do podcast é minha e da Simone Pallone, a revisão do roteiro foi realizada por Mayra Trinca e a edição foi de Yama Chiodi.  A trilha sonora é do Pixabay. A imagem é do acervo do Freepik. O Oxigênio é um podcast vinculado ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LABJOR) da UNICAMP. Segue a gente nas redes sociais, curte, comenta e compartilha. Até a próxima! Tchau. 

Mensagens do Meeting Point
22 criados em Cristo

Mensagens do Meeting Point

Play Episode Listen Later Feb 3, 2026 2:12


devocional Efésios A cada um de nós foi dada a graça de Deus, conforme a medida do dom de Cristo . Por isso diz a Sagrada Escritura: Ao subir ao céu, levou consigo os que estavam prisioneiros e distribuiu dons aos homens. Ora o que quer dizer subiu, senão que antes tinha descido ao mais profundo da Terra? Esse mesmo que desceu é o que subiu também ao mais alto dos Céus, para encher o Universo com a sua presença. Efésios 4.7-10 O que possuímos é uma dádiva de Deus. Nada há que nos venha parar ao colo que d'Ele não venha. Por maior que tenha sido o nosso labor, ainda assim, é a Ele que devemos qualquer ganho ou feito. Ele é a fonte de todas as bênçãos. D'Ele jorram dádivas sem fim. O Seu amor por nós é de tal ordem que nos concedeu Cristo, o supremo dom. Logo, em Jesus, temos o essencial e muito mais. Somos amados e equipados. Revestidos de afectos e virtudes. Dotados de toda a sorte de talentos. Desafiados a servir em todas as frentes. Basicamente, burilados para imitar Aquele que se manteve igual a Si próprio: Amando sem reservas e dando-Se a toda a hora. Jesus, tanto na terra quanto na glória, jamais deixou de amar: “Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas.” A Sua especialidade sempre foi fazer a vontade do Pai e é Seu desejo estampá-la também em nós. N'Ele, portanto, se inspira a nossa vida. Revelemos a nossa gratidão caminhando em fidelidade. - Jónatas Figueiredo Oramos para que este tempo com Deus te encoraje e inspire. Dá a ti próprio espaço para processar as tuas notas e a tua oração e sai apenas quando te sentires preparado.

Café & Corrida
Revisão CAUSA ALVOROÇO no mundo do consumo de CARBOIDRATOS na performance

Café & Corrida

Play Episode Listen Later Jan 24, 2026 14:51


Saiu uma revisão científica aí que tá causando um alvoroço gigante no mundo do esporte de endurance, que inclui a corrida. Basicamente, os caras tão falando que a galera tá consumindo muito mais carboidrato do que deveria. Link da revisão - https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41562187/Nossos links - https://linktr.ee/corridanoarO Corrida no Ar News é produzido diariamente e postado por volta das 6 da manhã.

Oxigênio
#210 – Restauros de um golpe – Ep. 1

Oxigênio

Play Episode Listen Later Jan 8, 2026 18:34


No primeiro episódio do ano, Aurélio Pena, Marcos Ferreira e Rogério Bordini retomam os eventos do 8 de janeiro de 2023 para pensar como a destruição de obras de arte reflete a forma de pensar que motivaram as ações golpistas nesse dia. E depois, como o restauro dessas obras pode ajudar a elaborar a reconstrução da democracia no país? No episódio, você escuta pesquisadores que explicam os impactos dos atos golpistas e também como foi o processo de restauro das obras danificadas. _________________________________________________________________________________________________ ROTEIRO “Série – Reparos de um Ataque –  8 de Janeiro” – Ep.1 Restauros de um golpe Golpistas: Quebra tudo. Vamos entrar e tomar o que é nosso. Chega de palhaçada. Marcos: Quebradeira, gritaria e confusão. Ouvindo essa baderna, pode-se imaginar que estamos falando de um cenário de guerra. Mas esse foi o som ouvido durante os ataques antidemocráticos do 8 de janeiro de 2023 em Brasília. Golpistas: Entremos no Palácio dos Três Poderes. Telejornalista: Milhares de pessoas invadiram a sede dos três poderes em 8 de janeiro de 2023. Elas não aceitavam a derrota de Jair Bolsonaro e pediam um golpe de Estado. Golpistas: Intervenção federal. Intervenção federal. Telejornalista: De lá pra cá, investigações da Polícia Federal descobriram que a tentativa de golpe começou meses antes. Políticos e militares alinhados a Bolsonaro se reuniram e elaboraram planos para permanecer no poder. Para eles, era importante que os manifestantes se mantivessem exaltados. Aurélio: Durante o atentado, os golpistas danificaram diversas obras de arte do Acervo Nacional, sendo elas de valor inestimável para a cultura, memória e história do nosso país. Quadros como o Mulatas à Mesa, do pintor Emiliano di Cavalcanti, o retrato de Duque de Caxias, do artista Oswaldo Teixeira e o Relógio de Baltasar Martinot são apenas alguns dos itens danificados e destruídos. Marcos: Os escombros de toda essa devastação não foram simplesmente abandonados. Hoje, tais obras estão restauradas, quase como se nada tivesse acontecido naquele dia fatídico. E é isso que a gente vai contar pra você nesta série, com dois episódios. No episódio de hoje, vamos rememorar como foi o dia da invasão à Brasília. Vamos também conhecer um pouco sobre as etapas do processo de restauro das obras que pertencem ao nosso Acervo Nacional, que você já consegue visitar novamente. E no próximo episódio, vamos explorar mais detalhes dos desafios técnicos e científicos em se estudar e restaurar as obras raras no Brasil, de forma mais aprofundada. Aurélio: Eu sou Aurélio Pena. Marcos: E eu sou o Marcos Ferreira. Aurélio: Nosso editor é Rogério Bordini. E este é o podcast Oxigênio. Vinheta: Você está ouvindo Oxigênio. Aurélio: Para entender a importância desse restauro, primeiro a gente precisa saber um pouquinho sobre o que foi o 8 de janeiro. Marcos: A mudança do ano de 2022 para 2023 foi o período de troca entre governos presidenciais no Brasil. Em 2022, o atual presidente Lula foi eleito com 50,9% dos votos contra 49,1% para o agora ex-presidente Bolsonaro, durante o segundo turno das eleições. Essa disputa acirradíssima representa uma enorme divisão política no Brasil, como nunca tivemos antes na nossa história. Aurélio: O cenário era de tensão. Durante anos, Bolsonaro vinha questionando a legitimidade das eleições e dando declarações favoráveis a um golpe de Estado, caso não vencesse as eleições. Bolsonaro: Nós sabemos que se a gente reagir depois das eleições vai ter um caos no Brasil, vai virar uma grande guerrilha, uma fogueira. Nós não podemos, pessoal, deixar chegar as eleições, acontecer o que tá pintado, tá pintado. Eu parei de falar em votos, em eleições há umas três semanas… Cês tão vendo agora que acho que chegaram à conclusão, a gente vai ter que fazer alguma coisa antes. Aurélio: Dessa forma, quando o ex-presidente foi derrotado nas urnas, ele já havia plantado as sementes de uma revolta antidemocrática que explodiu nos ataques do 8 de janeiro de 2023. Marcos: Vale ressaltar que as inúmeras alegações de fraude eleitoral feitas por Bolsonaro nunca foram confirmadas. Pelo contrário, segundo um relatório encomendado pelo TSE, o Tribunal Superior Eleitoral, que contou com uma análise de nove organizações internacionais independentes, o sistema eleitoral brasileiro é, abre aspas, ”seguro, confiável, transparente, eficaz, e as urnas eletrônicas são uma fortaleza da democracia”, fecha aspas.  E ainda mais, o próprio ex-presidente nunca forneceu evidências que suportassem essas alegações. Aurélio: Em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse de Lula, alguns grupos alinhados ao bolsonarismo, insatisfeitos com o resultado da eleição e, claro, influenciados por discursos de contestação ao processo eleitoral, organizaram as manifestações que culminaram na invasão de prédios dos três poderes da república na cidade de Brasília. Trajados de verde e amarelo, os golpistas invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto, que é a sede do Executivo, e o Supremo Tribunal Federal, que a gente conhece como STF. Esses edifícios são símbolos da democracia brasileira e abrigam as principais instituições políticas do nosso país. Marcos: Durante os ataques, os golpistas destruíram janelas, móveis, obras de arte históricas, documentos e equipamentos. Além disso, realizaram pichações, roubaram objetos e tentaram impor sua insatisfação por meio de atos de vandalismo e intimidação. Hoje sabemos que uma parcela das Forças Armadas foi conivente com os atos antidemocráticos e, por conta disso, a devastação causada pelos bolsonaristas foi imensa, principalmente ao acervo histórico e cultural nacional. Aurélio: No próprio dia desses ataques, centenas de manifestantes foram detidos e investigações subsequentes foram e vêm sendo conduzidas para identificar os organizadores e os financiadores dessas ações. Marcos: Em março de 2025, Bolsonaro se tornou réu em ação penal sobre a acusação dos crimes: Organização criminosa armada; Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito; Golpe de Estad; Dano qualificado pela violência e grave ameaça contra o patrimônio da União; Deterioração de patrimônio tombado. E em novembro de 2025, o ex-presidente foi condenado pelo ministro do Supremo, Alexandre de Moraes, a 27 anos e 3 meses de cumprimento de pena em regime fechado, tornando Bolsonaro inelegível até 2060. Pelo menos essas são as últimas informações até a gravação deste episódio. Aurélio: Para ter uma maior noção do significado político dos atos do 8 de janeiro, conversamos com o Leirner, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos. Ele fez uma análise desse crescente cenário antidemocrático desde o ano de 2013 até hoje. Marcos: Professor Piero, como a nossa democracia chegou ao ponto de termos vivenciado esses atos golpistas no 8 de janeiro de 2023? Piero: Esse é um ponto que eu acho que talvez divirja um pouco de algumas leituras, porque eu acho que o fenômeno Bolsonaro é secundário em relação ao fenômeno do desajuste institucional que a gente começou a viver no pós-2013. Após junho de 2013, houve uma espécie de janela de oportunidade, uma condição para que certos atores institucionais promovessem uma desorganização desses parâmetros que a gente está entendendo como parâmetros da democracia. Basicamente, esses atores são muitos e estão ramificados pela sociedade como um todo, mas me interessa, sobretudo, quem foram os atores estatais que produziram esse desarranjo, lembrando que eles são atores que têm muito poder. Basicamente, eu acho que esses atores estatais vieram de dois campos, o judiciário de um lado e os militares de outro. Ambos contribuíram de maneira absolutamente problemática para esse desarranjo institucional. Marcos: As investigações relacionadas à invasão de Brasília, realizadas pelo STF, responsabilizaram cerca de 900 pessoas por participação nos ataques. Os crimes realizados pelos golpistas estão nas categorias de: Associação criminosa; Abolição à violência do Estado Democrático de Direito; e danos ao patrimônio público. Aurélio: Além de Bolsonaro, outros dois grandes envolvidos na trama golpista chegaram a ser presos. O Tenente-Coronel Mauro Cid, em março de 2024, por coordenar financiadores privados dos ataques e manifestações golpistas. E o General Walter Braga Neto, preso em dezembro de 2024, por dar suporte estratégico aos golpistas, fornecendo estrutura para que eles não fossem interceptados. Piero: Eu não quero tirar, evidentemente, o caráter golpista do que aconteceu no dia 8 de janeiro de 23, mas eu queria chamar a atenção para um aspecto que eu só vi considerado nas reflexões de um livro chamado “Oito de Janeiro, A Rebelião dos Manés”. Eu acho que eles trabalham um lado, que é um lado que é bastante interessante, do ponto de vista de quem está pensando a questão simbólica do que foi a conquista do Palácio. E do fato desse grupo ter sequestrado todo o potencial antissistêmico e iconoclasta, que é, vamos dizer assim, tradicionalmente, um potencial atribuído àquilo que a gente pode entender como, vamos dizer assim, a potência virtual da massa revolucionária da esquerda. Há muito tempo a gente vê essa ideia da direita sequestrando, primeiro, a ideia de linguagem antissistêmica.  Aurélio: Conforme nos conta Piero, a destruição do acervo nacional possui também um aspecto simbólico de destruição da democracia e da cultura por uma massa que se imagina antissistema.   Marcos: Meses após a triste destruição do acervo nacional em Brasília, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, junto com instituições parceiras, iniciou o projeto de recuperação das obras danificadas. Aurélio: A equipe do projeto contou com diversos restauradores profissionais, da Universidade Federal de Pelotas, a UFPel, que hoje é uma das instituições com grande tradição em formar restauradores no nosso país. O projeto durou cerca de 10 meses, sendo que todos os restauros foram entregues em janeiro de 2025. Marcos: E para entender como é realizado esse processo de resgatar um patrimônio vandalizado, a gente conversou com uma especialista que coordenou esse enorme desafio. Andréa: Bem, eu sou a professora Andréa Lacerda Bachettini, sou professora do departamento de museologia, conservação e restauro do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Pelotas, na qual também sou vice-diretora do Instituto do ICH. E atualmente eu coordeno esse projeto que se chama LACORP, Laboratório Aberto de Conservação e Restauração de Pintura, que coordenou então as restaurações das obras vandalizadas no 8 de janeiro do Palácio do Planalto, em Brasília. Contando um pouquinho a história desse projeto, ele começa justamente lá no 8 de janeiro de 23, quando aconteceu o ataque às instituições em Brasília. O nosso grupo de professores ficou muito estarrecido com tudo que a gente estava acompanhando nas mídias e nas redes sociais e pela televisão ao vivo, a destruição das praças e das instituições dos três poderes. Marcos: E Andréa, como que foi o início desse processo e o seu primeiro contato com as obras danificadas? Andréa: Inicialmente a gente recebeu um dossiê de 20 obras danificadas no 8 de janeiro, muito minucioso, com detalhamento enorme do estado de degradação que elas se encontravam. E aí foi nessa oportunidade que a gente viu as obras pessoalmente. Eu fico emocionada e arrepiada até hoje quando eu lembro da gente ver, por exemplo, a obra do Flautista do Bruno Jorge, que é uma obra em metal, ela é um bronze, e ela tem uns 2,8 metros de altura, e ela tem uma barra de ferro maciça por dentro, e ela estava fraturada em quatro pedaços. Aurélio: Conforme nos contou Andréa, a equipe de restauração realmente fez um trabalho bem impressionante, que demandou construir um laboratório todo lá em Brasília para conseguir trabalhar com as obras. Andréa: Então, o projeto tinha inicialmente cinco metas, a meta 1, que era a restauração das obras de arte, das 20 obras, com também a montagem de um laboratório em Brasília. Por que a montagem de um laboratório em Brasília? Pelo custo do seguro dessas obras de arte. O seguro das obras de arte inviabilizaria o projeto, levando essas obras para a Pelotas. Até porque, para vocês terem uma ideia, o laboratório foi montado, então, dentro do Palácio do Alvorada, que é a residência do presidente da República, e nós tivemos que levar uma série de equipamentos, produtos solventes, reagentes químicos, que são usados até para outras substâncias, fazer bombas, então a gente tinha que ter uma série de autorizações para poder entrar com esses insumos dentro da casa do presidente. Então, era uma rotina de trabalho bem difícil logo no início, até por questões de segurança mesmo da presidência, por causa desse atentado. E hoje a gente descobre que existiam até outros planos de assassinato do presidente, vice-presidente… Então, hoje a gente fica pensando, ainda bem que existiu toda essa segurança no início. Marcos: E você pode contar para a gente como se deu a finalização desse projeto? Nós ficamos sabendo que vocês estiveram em Brasília com o presidente Lula. Como foi isso? Andréa: Na finalização do projeto, agora no dia 8 de janeiro de 25, lá em Brasília, a gente então presenteou os alunos das escolas que participaram de oficinas, presentearam o presidente Lula com uma réplica da miniânfora e também a releitura da obra do Di Cavalcanti. Tudo foi muito gratificante, tudo muito emocional, a gente montou uma exposição na sede do Iphan em Brasília, em agosto, quando a gente fez também um seminário para apresentar as nossas etapas da restauração e todos os colegas, o desenvolvimento do projeto como um todo, foi aberto ao público, foi transmitido também pelos canais do Iphan, pelo YouTube, para nossos alunos em Pelotas também poderem acompanhar. Eu nunca imaginei que hoje, depois de 16 anos, a gente ia fazer um trabalho tão lindo, tão maravilhoso. Para a carreira da gente é muito bacana, mas como cidadã apaixonada pelo patrimônio cultural, pela arte, eu fico muito realizada, estou muito feliz. Aurélio: É muito lindo ver a paixão que a Andréa tem pelas obras e pela cultura brasileira, mas infelizmente a gente percebe que há muito descaso com a conservação do nosso patrimônio material. Pensando nisso, professora, qual é a importância da conservação e do restauro de acervos artísticos e culturais no Brasil? Andréa: A importância dessas obras restauradas é extremamente importante para a preservação da nossa memória, da nossa cultura, da nossa identidade. Pensar por que essas obras foram vitimizadas, foram violentadas. É importante também a democratização dessas obras, que as pessoas tenham acesso, que elas tenham representatividade. Muitas pessoas não conheciam essas obras, porque elas também ficam dentro de gabinetes. Como é importante a valorização da arte, do nosso patrimônio cultural, para a preservação da memória do nosso povo. E, sem isso, a gente não é um povo civilizado, porque isso é a barbárie que a gente passou. Eu fico pensando, a gente está devolvendo agora para a população brasileira essas obras que foram muito violentadas, dentro da sua integridade física, com uma pesquisa que mostra também a força das universidades, que foram também muito atacadas. Então, é a valorização disso tudo, da ciência, da arte, da cultura, do povo brasileiro. E mostrando que a gente tem resiliência, que a gente é forte, que a gente resiste. Que não é só uma tela rasgada, ela representa a brasilidade, a história da arte do nosso país. Marcos: Chegamos ao final do nosso primeiro episódio. No próximo, vamos nos aprofundar ainda mais nos inúmeros desafios enfrentados pela equipe de restauradores, e refletir sobre o estado da nossa democracia. Se você gostou, não se esqueça de deixar 5 estrelas para o nosso podcast. Isso nos ajuda muito a chegar em mais ouvintes. E também, compartilhe Oxigênio com seus amigos e em suas redes sociais. Aurélio: Esse episódio foi produzido por Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira, Aurélio Bianco Pena e Rogério Bordini. Foram utilizados trechos de áudios de matérias jornalísticas da internet. Marcos: Agradecemos a todos os especialistas que conversaram com a gente neste episódio. Também agradecemos ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas, LabJor da Unicamp. Em especial, a professora Simone Pallone de Figueiredo e a doutoranda Mayra Trinca. Um grande abraço e até o próximo episódio! Vinheta: Você ouviu Oxigênio, um programa de jornalismo científico-cultural produzido pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, LabJor da Unicamp. – Roteiro, produção e pesquisa: Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira, Aurélio Bianco Pena e Rogério Bordini. Narração: Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira e Aurélio Bianco Pena. Capa do episódio: Andréa Lacerda Bachettini trabalhando na restauração do quadro ‘As mulatas', de Di Cavalcanti. A obra levou sete cortes nos ataques do em 8 de janeiro — Foto: Nauro Júnior/UFPel. Revisão: Mayra Trinca, Livia Mendes e Simone Pallone. Entrevistados: Piero de Camargo Leirner, Andréa Lacerda Bachettini. Edição: Rogério Bordini. Vinheta: Elias Mendez Para saber mais:  Reportagem “Entre Tintas, Vernizes e Facadas” | Revista ComCiência: https://www.comciencia.br/entre-tintas-vernizes-e-facadas/ Documentário “8 de Janeiro: Memória, Restauração e Democracia” (Iphan): https://youtu.be/CphWjNxQyRk?si=xcIdb26wQTyTmS5m

Entrevistas Jornal Eldorado
Como ficam as penas de Bolsonaro e aliados com o PL da Dosimetria? Ouça análise de especialista

Entrevistas Jornal Eldorado

Play Episode Listen Later Dec 19, 2025 10:10


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse ontem, durante café da manhã com jornalistas, que vetará a proposta que reduz as penas dos condenados pelos atos golpistas de 8 de Janeiro de 2023. O chamado Projeto de Lei da Dosimetria foi aprovado na véspera pelo Senado e seguiu para sanção presidencial. O presidente negou que tenha havido um acerto entre o governo e a oposição para a aprovação do texto. O Congresso ainda pode derrubar o veto, mas a nova lei deve ser questionada em ação no Supremo Tribunal Federal. Basicamente, o texto permite que o crime de abolição violenta do Estado Democrático de Direito seja absorvido pelo de golpe de Estado, o que reduziria, por exemplo, a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos e 3 meses de prisão. O projeto também estabelece que os condenados por envolvimento com os ataques golpístas terão direito a progredir ao regime semiaberto após o cumprimento de 16% da pena no regime fechado. A legislação atual prevê que esses criminosos precisam cumprir ao menos 25% para pleitear uma progressão. Em entrevista à Rádio Eldorado, o advogado criminalista Pierpaolo Bottini, professor de Direito Penal da USP, disse que a palavra final caberá ao STF, seja para validar ou não a lei ou ainda para fazer os cálculos das penas, caso a nova legislação seja mantida. Para ele, é possível apontar que o texto é inconstitucional “alegando que viola o princípio da igualdade” em relação aos condenados que cometeram outros tipos de crimes. Bottini também discorda da absorção de um crime tido como menos grave por outro considerado mais grave. “Você teve dois momentos nesse crime, um antes da posse do presidente Lula e outro depois. A tentativa de tirar o presidente é outro crime”, avaliou.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Podcast do Ladeira
Ep. 382 - Como encontrar o público que realmente quer comprar

Podcast do Ladeira

Play Episode Listen Later Nov 17, 2025 32:57


Você já percebeu como o Jornal Hoje é jornal com menos relevância no seu dia?! Basicamente ele traz pautas mais óbvias, que às vezes passa batido, ninguém nem lembra.Esse pode ser um dos erros mais básicos que está te impedindo de vender seu infoproduto. Assista até o final, nesse episódio eu vou te mostrar como fugir disso e encontrar o público que está pronto pra pagar mais pelo seu serviço. Se inscreva na Ultra Black Friday Infinita:http://vtsd.com.br/quero-bf-ep382 Me siga no Instagram:https://bit.ly/Insta-Leandro-LadeiraConheça o canal principal:https://bit.ly/Canal-Metodo-VTSDOuça nosso podcast:https://bit.ly/Podcast-do-Ladeira-no-Spotify

Podcast : Escola do Amor Responde
3204# Escola do Amor Responde (no ar 14.11.2025)

Podcast : Escola do Amor Responde

Play Episode Listen Later Nov 14, 2025 18:07


No programa de hoje, uma aluna contou que está casada há dois anos, mas nunca foi verdadeiramente feliz no casamento, nem o marido. Basicamente, eles se casaram porque ela engravidou. Ele diz que ainda ama a ex-noiva. A aluna não sabe o que fazer. Durante esses dois anos, ela se dedicou para melhorar a relação; contudo, as coisas só pioraram. Ademais, ele se tornou alcoólatra desde o término com a ex.A aluna disse ainda que o companheiro sempre a trata mal e pouquíssimas vezes faz algo para agradá-la. Ela não queria abrir mão do casamento e queria fazer dar certo. A aluna perguntou se deve seguir em frente ou não. A ex a assombra até hoje e ela disse que é humilhante viver nessa situação.Terapia do AmorAinda hoje, confira a história do Bruno. Antes de participar da Terapia do Amor, ele era uma pessoa cheia de complexos. Ele chegou às palestras após cometer uma traição e também estava repleto de complexos. Contudo, após aprender sobre o amor inteligente, ele se preparou para um novo relacionamento e, sobretudo, para ser um homem de verdade.Bem-vindos à Escola do Amor Responde, confrontando os mitos e a desinformação nos relacionamentos. Onde casais e solteiros aprendem o Amor Inteligente. Renato e Cristiane Cardoso, apresentadores da Escola do Amor, na Record TV, e autores de Casamento Blindado e Namoro Blindado, tiram dúvidas e respondem perguntas dos alunos. Participe pelo site EscoladoAmorResponde.com. Ouça todos os podcasts no iTunes: rna.to/EdARiTunes

Convidado
Mês da identidade Africana mostra a “fotografia multicultural que existe em Portugal”

Convidado

Play Episode Listen Later Nov 14, 2025 10:36


O Mês da Identidade Africana chega ao fim este sábado. A 4º edição do evento criado para “questionar, reflectir e pensar o futuro da existência da comunidade afro-descendente e africana”, tem uma programação, de entrada livre, que junta arte, cinema, literatura, infância, formação e música. A iniciativa da Bantumen tem-se desenrolado no centro da capital portuguesa, na Casa do Comum, no Bairro Alto. A RFI falou com Vanessa Sanches, administradora de projectos e co-fundadora da Bantumen. Uma ocasião para percebermos melhor o que é esta plataforma, as iniciativas futuras, e, acima de tudo, ficarmos por dentro de alguns dos pontos altos da programação do Mês da Identidade Africana e de como este surgiu. Vanessa Sanches, administradora de projectos e co-fundadora da Bantumen: O MIA surgiu em 2022, pouco depois da pandemia, pouco depois de todas aquelas questões sobre o movimento negro, de George Floyd. Surgiu numa altura em que a equipa da Bantumen começou a reflectir sobre a necessidade de em Portugal haver também um momento em que pudéssemos questionar, refletir e pensar o futuro da existência da comunidade afro-descendente e africana, sobretudo pelo facto de não ser uma comunidade que é reconhecida como estando cá há tanto tempo, é sempre reconhecida como uma comunidade estrangeira, quando não é. Eu, por exemplo, nasci em Portugal, vivi aqui toda a minha vida, portanto, é um país que também me pertence. Então, nestas conversas sobre este assunto, achávamos que fazia todo o sentido criarmos algo que noutros países já existe, como por exemplo o Black History Month nos Estados Unidos e no Reino Unido, assim como no Brasil lá há o Mês da Consciência Negra. E achávamos que aqui também está na hora de podermos conversar abertamente e sem pudor sobre este assunto. Esta fotografia multicultural que existe em Portugal, mas que ainda muitos têm receio de mostrar, de identificar e de nomear também. Então, este MIA surgiu nesta vertente cultural porque a cultura está sempre de braços abertos para toda a gente. Portanto, essa é a nossa intenção, é mostrar o que a comunidade africana e afro-descendente tem feito por aqui através da cultura e abraçarmos todos os que quiserem se aproximar e conhecer. RFI: O MIA, Mês da Identidade Africana, está na 4ª edição. O que é que a Bantumen propôs, o que é que há em cartaz? Vanessa Sanches: A intenção do MIA é propor sempre uma exposição, que é a base do ciclo de eventos, dentro desse ciclo depois há sempre conversas. Este ano, por exemplo, tivemos uma conversa sobre a parentalidade, sobre o brincar com a identidade, porque é que é importante as crianças se reverem em termos de representatividade em diferentes esferas. Tivemos também o lançamento online de uma biblioteca, a Biblioteca Negra, onde há todo um acervo de livros que falam sobre estes temas da afro descendência, da negritude. Vamos ter também neste sábado, dia 15, uma sessão de leitura para crianças. Portanto, tentamos sempre ter eventos que possam chamar até nós do mais pequeno ao mais velho e que possam proporcionar alguma reflexão. O tema central deste ano é os 50 anos da independência dos PALOP, o tema que atravessa de alguma forma todos os eventos. RFI: Esta exposição de que falou, onde é que está a acontecer e quais são os artistas que podem ser vistos lá? Vanessa Sanches: Todo o ciclo de eventos acontece na Casa do Comum, no Bairro Alto, em Lisboa. A exposição está patente também até este dia 15. As obras que apresentamos são dos artistas Ricardo Parker, é português mas tem origens em Cabo Verde, a Gigi Origo, francesa e cabo-verdiana, o Sai Rodrigues também, que vive na Holanda mas tem origens cabo-verdianas também, e da moçambicana Naia Sousa. RFI: Em relação à conversa sobre a parentalidade, como é que decorreu? O que é que se discutiu? Vanessa Sanches: Na conversa sobre parentalidade “Brincar com Identidade”, porque era este o tema da conversa, tivemos a psicoterapeuta Henda Vieira Lopes, tivemos a Bárbara Almeida, que tem o projecto TitaCatita, para crianças e pais e cuidadores de crianças, e tivemos a Ângela Almeida, que é assistente social, e a intenção foi, nesta conversa moderada pelo Wilds Gomes, jornalista da Bantumen e apresentador de televisão do Bem Vindos, foi perceber quão importante é criar, de alguma forma, representatividade em diferentes esferas para os mais pequenos. Quando, enquanto crianças, não nos revemos a fazer determinadas coisas, não imaginamos que é possível fazermos essas determinadas coisas, eu se nunca tiver visto um médico negro vou achar que a única coisa normal é aquela possibilidade, portanto não vou sonhar que também eventualmente posso fazê-lo, sobretudo quando estamos a falar num país em que a comunidade negra é minoria de facto, portanto, a necessidade de podermos proporcionar às crianças modelos de representatividade e levá-los a espaços onde isto é possível acontecer. Onde é possível, também, abraçar a sua própria identidade, explicando que o cabelo, por exemplo, que é um tema super importante dentro da comunidade afro-ascendente, que o seu cabelo é bonito, que o seu cabelo tem milhões de possibilidades, por exemplo, as crianças mais dificilmente terão alguns traumas, digamos assim, que levam até à idade adulta. Portanto, este foi o tema central da conversa. RFI: Para quem estiver interessado em descobrir e ler algo mais sobre a africanidade, foi também apresentada a Biblioteca Negra. Como é que funciona esta Biblioteca Negra? Vanessa Sanches: A Biblioteca Negra é um projecto que foi pensado e materializado pelo realizador Fábio Silva. Ela parte da experiência pessoal do próprio Fábio, ele começou a compilar, num simples Excel, alguns livros que ele ia lendo sobre esta temática da africanidade, da negritude, porque nem sempre é fácil chegar a estes livros numa livraria normal. Então, ele achou que faria todo o sentido começar a compilar estes títulos. Entretanto, o ano passado, se não estou em erro, decidiu que faria todo o sentido lançar um site onde as pessoas pudessem facilmente encontrar uma panóplia de livros que abordassem então estes temas. É assim que nasce, então, a Biblioteca Negra, onde ele compila uma série de livros, com as sinopses desses livros, e onde é possível encontrar também casas parceiras, que actualmente são três, onde eventualmente podem encontrar alguns destes livros à disposição e onde também podem efectuar doações, caso tenham os livros em casa e já não os queiram mais, podem doar esses livros a estas casas parceiras. RFI: Casas parceiras na Grande Lisboa, para já, e qual é o site? Vanessa Sanches: O site é muito simples, http://www.bibliotecanegra.pt  RFI: O filme do brasileiro Lázaro Ramos, Medida Provisória, foi exibido nos encontros MIA. Foi um momento muito participado? Vanessa Sanches: Bastante, bastante. Na verdade, nós tínhamos uma lotação para 50 pessoas e houve um dado momento em que houve pessoas a sentarem-se no chão porque os lugares estavam absolutamente lotados. Acho que é um filme que muita gente ainda queria ver, não teve a hipótese de o ver, e aproveitou então este ciclo de eventos do MIA para poder ver o filme. Tem um tema que nos leva à reflexão de algo que, provavelmente, muitas vezes já nos passou pela cabeça de forma inconsciente, que é; Todos os negros serão realmente de África? Porque, no filme há uma medida provisória que diz às pessoas negras brasileiras que, se calhar, o melhor para o futuro delas seria voltarem para a África. E então há toda uma panóplia de circunstâncias que acontecem ali, porque estamos a falar de pessoas que pertencem àquele país há centenas de anos. Então, é um debate que merece ser tirado do ecrã para o físico e convidámos o actor e cineasta Welket de Bungé e a actriz Cléo Diára para poder, então, conversar sobre este tema. Então foi um momento especial, não só pela lotação mas pelo tema abordado em si mesmo. RFI: Dia 15, sábado, encerra-se o MIA deste ano, o que é que foi pensado para o encerramento? Vanessa Sanches: Encerramos em grande com um momento dedicado às crianças, com uma sessão de leitura com a actriz, jornalista e autora Aoani Salvaterra, com origens santomenses. Vamos ler o livro da Nuna, A Aventureira Marielle, e logo de seguida, um bocadinho mais tarde, encerramos em grande com festa, como gostamos, com os sons da Independência. Basicamente, é um DJ set do DJ Camboja, que tem um acervo gigantesco de músicas que surgiram na altura das Independências e que têm, justamente, como moto a liberdade, a independência e o anticolonialismo. RFI: O Mia é apenas um dos momentos em que a Bantumen dá a conhecer o trabalho que desenvolve. Depois deste Mês da Identidade Africana, o que é que a Bantumen vai propor? Vanessa Sanches: Eu vou começar por explicar, dado que há algumas pessoas que têm alguma dificuldade em entender o que é a Bantumen. A Bantumen é, no fundo, uma plataforma de cultura e de informação. Portanto, online nós temos uma revista, mas no plano físico nós também fazemos algumas coisas. Portanto, resulta, então, neste MIA. E no final do ano temos o nosso maior evento, que é a Powerlist 100, a iniciativa que pretende prestar homenagem a 100 personalidades negras da lusofonia. Este ano a lista vai ser, então, revelada no dia 6 de Dezembro, a nível digital, no seu site próprio, podem encontrá-lo facilmente em bantumen.com. Ao mesmo tempo, irá acontecer também uma Gala para que algumas destas 100 personalidades possam, então, se sentir homenageadas de viva voz e olho no olho por esta comunidade, que se revê no seu trabalho de excelência, que tem feito e que é um espelho também para nós, as actuais gerações e para, quem sabe, futuras gerações. RFI: São personalidades que actuam nas mais diversas áreas, alguns exemplos? Vanessa Sanches: Nas mais diversas áreas. Já tivemos uma empregada doméstica, temos pessoas vindas do percurso associativo, como temos advogados, como temos cientistas, músicos, dançarinos. Nós tentamos não ter Categorias justamente para isso, para que possa ser o mais ampla possível esta lista final dos 100 homenageados. Link site Bantumen : https://www.bantumen.com 

Devocional Verdade para a Vida
Você negligencia a sua salvação? - Hebreus 2.3

Devocional Verdade para a Vida

Play Episode Listen Later Nov 5, 2025 1:58


Aprofunde sua devoção a Deus em fiel.in/devocionalVocê negligencia a sua salvação?Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? (Hebreus 2.3)Existe um senso de grandiosidade em sua mente a respeito da sua salvação? Ou você a negligencia?Você responde à grandiosidade da sua salvação? Ou você a considera da maneira que trata a sua vontade, ou o documento de posse do seu carro, ou a escritura da sua casa? Você a “assinou” uma vez e ela está em uma gaveta de documentos em algum lugar, mas não é realmente grandiosa. Ela não tem nenhum efeito diário em você. Basicamente, você a negligencia.Mas o que essa grande salvação realmente é? O que, de fato, está sendo dito é:• Não negligencie ser amado por Deus.• Não negligencie ser perdoado, aceito, protegido, fortalecido e guiado pelo Deus Todo-Poderoso.• Não negligencie o sacrifício da vida de Cristo na cruz.• Não negligencie o dom gratuito da justiça imputada pela fé.• Não negligencie a remoção da ira de Deus e o sorriso reconciliado de Deus.• Não negligencie a habitação do Espírito Santo e a comunhão e amizade do Cristo vivo.• Não negligencie o esplendor da glória de Deus na face de Jesus.• Não negligencie o livre acesso ao trono da graça.• Não negligencie o tesouro inesgotável das promessas de Deus.Essa é uma grande salvação. Negligenciá-la é muito ímpio. Não negligencie tão grande salvação. Porque se o fizer, você certamente perecerá.Portanto, ser cristão é algo muito sério — não é amargo, mas é sério. Nós somos simplesmente fervorosos quanto a sermos felizes em nossa grande salvação.Não seremos desviados por esse mundo para os prazeres passageiros e suicidas do pecado. Não negligenciaremos nossa alegria eterna em Deus — que é a salvação. Nós preferiremos arrancar os nossos olhos em vez de sermos atraídos para longe da vida eterna.--Devocional Alegria Inabalável, por John Piper | Editora Fiel.Conteúdo oferecido em parceria entre Desiring God e Ministério Fiel.

Arquivo Misterio
"Fui Sequestrada e Estup***a, mas NINGUÉM acreditou em mim!" | Denise Huskins e Aaron Quinn

Arquivo Misterio

Play Episode Listen Later May 19, 2025 33:36


Estadão Notícias
Duquesa de Tax react: "A armadilha para a Argentina e para Javier Milei"

Estadão Notícias

Play Episode Listen Later Apr 26, 2025 9:53


SIGA O PROGRAMA NAS PLATAFORMAS DE ÁUDIO: https://open.spotify.com/show/2r4WaCstcv4Gf5AExqSpHT?si=0c9a4f6f5a86449f Simplificação e previsibilidade. Basicamente é isso que todo investidor procura. E é o que a Argentina, de Javier Milei, tenta oferecer com suas medidas liberais, na contramão do resto do mundo que enfrenta uma guerra comercial deflagrada pelo presidente americano, Donald Trump. No Fala, Duquesa! desta semana, a colunista do Estadão Maria Carolina Gontijo, a Duquesa de Tax, comenta sobre os novos rumos da Argentina, que virou capa da The Economist recentemente, com a reportagem “A grande ousadia de Milei é transformar a Argentina numa economia global”. Leia a reportagem completa no Estadão:https://www.estadao.com.br/economia/duquesa-de-tax/duquesa-de-tax-armadilha-argentina-javier-milei/ ASSINE O ESTADÃO:Seja assinante por R$1,90/mês e tenha acesso ilimitado ao nosso conteúdo. Acesse: http://bit.ly/estadao-oferta-ytSee omnystudio.com/listener for privacy information.

Dragão Careca
DC 270 - Ruptura (Serverance): Teorizando nas temporadas 1 e 2

Dragão Careca

Play Episode Listen Later Apr 3, 2025 71:57


"- A sinopse é muito simples. Basicamente... " - Bron, em um trecho cortado do programa, prestes a narrar cada cena da série.

MoídaCast
#257 MUNDO CANIBAL: os PIONEIROS da animação BR (ft. Irmãos Piologo‬)

MoídaCast

Play Episode Listen Later Mar 13, 2025 72:12


Seja membro do MOEDOR e assista aos BASTIDORES deste programa caótico!Use o cupom PIOLOGO20 e ganhe 20% na hora!APROVEITE! https://moedor.com/MOEDOR: Animações inéditas e os clássicos censurados, podcasts exclusivos, bastidores e muito mais!BASICAMENTE: https://basicamente.com/Roupas básicas com frete grátis usando o cupom MOÍDACASTModa simples, funcional e acessível. Renove seu estilo hoje mesmo!O episódio mais chocante da história do MoídaCast chegou! Recebemos os mestres da zoeira, os irmãos Piologo, para contar tudo sobre o legado do Mundo Canibal, o canal que revolucionou a animação no Brasil! Histórias absurdas, bastidores insanos e, claro, um final eletrizante que ninguém esperava! CLIQUE AQUI⁠⁠⁠ E ACOMPANHE ESTE EPISÓDIO GRAVADO AO VIVO E COM IMAGENS NO YOUTUBE! // ⁠⁠⁠ANUNCIE NO MOÍDACAST⁠⁠⁠: carnemoidacast@gmail.com ///////////////////////////////////////// // NOSSAS REDES SOCIAIS: – ⁠⁠⁠Site Oficial⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitch⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Instagram⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitter⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠TikTok⁠⁠⁠ // OS ESPECIALISTAS EM P0RR4 NENHUMA: – ⁠⁠⁠Klaus Aires⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Kleber Tanide⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Letícia Godoy⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Rafa Longhini⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Silas Ravani⁠⁠ EQUIPE: // PAUTA E CAPA: – ⁠⁠Letícia Godoy⁠⁠⁠ // EDIÇÃO: – ⁠⁠Silas Ravani⁠See omnystudio.com/listener for privacy information.

Expresso - Comissão Política
Um Governo (ainda) mais laranja e os patos que não voam

Expresso - Comissão Política

Play Episode Listen Later Feb 18, 2025 46:59


Já foram chamados de “ajudantes de ministro”, mas também há quem lhes chame “patos”: os secretários de Estado são, basicamente, aquilo que os ministros os deixarem ser. Esta semana, entraram seis. Há “patos” que voam e que chegam a ministros, mas na semana passada cinco saíram do Governo e entraram seis novos secretários de Estado. Foi a primeira remodelação do Governo de Luís Montenegro. Na Comissão Política desta semana, os comissários residentes David Dinis e Vítor Matos e a jornalista Paula Caeiro Varela discutem as mudanças escolhidas pelo primeiro-ministro, com a maioria dos nomes a pertencer a estruturas do PSD. A moderação é de Eunice Lourenço.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Mundo Freak
Fique atento aos Stalkers | MFC 539

Mundo Freak

Play Episode Listen Later Jan 30, 2025 76:10


Um stalker é uma pessoa que pratica o stalking e que significa “perseguição", na tradução para o portugues. Basicamente é um comportamento repetitivo e indesejado de vigilância, desconforto, medo, constrangimento, ansiedade ou assédio direcionado a uma vítima específica.  Esse comportamento pode incluir seguir a vítima, monitorar suas atividades, enviar mensagens incessantes, fazer chamadas telefônicas constantes, aparecer em locais frequentados pela vítima sem ser convidado, e usar a tecnologia para rastrear ou invadir sua privacidade. Com a internet, a prática entrou no campo virtual conhecido como cyberstalking, onde o agressor utiliza meios informáticos para espionar e perseguir alguém.  A cada ano, o número de denúncias de stalking vem crescendo, somente na grande São Paulo, os casos quase triplicaram de um ano para o outro. Em 2022, o judiciário paulista registrou 72 processos pelo crime, enquanto em 2023, foram 212 novas ações, um aumento de 194%. De janeiro a abril de 2024, já foram registrados 48 casos. Isso só mostra que toda e qualquer pessoa, comum ou celebridade, pode sofrer com a prática.  No episódio de hoje, nossos investigadores Andrei Fernandes, Ira Croft e Jey Carrillo convidam Amanda Muniz e se perguntam: será que todo stalker sofre de algum transtorno ou problema mental? Quais eventos desse tipo assolaram o mundo? Você, ouvinte, lembra de algum caso famoso de stalking?  www.umapenca.com/mundofreak Minutagem 00:00:00 - INTRO 00:16:14 - RECADOS 00:47:48 - VÍRGULA1 01:15:01 - EXTRAS Tempo total do episódio: 76 minutos Tamanho do Arquivo: 73,2 MB Ficha Técnica:  Ass. de produção: Ananda Mida Pauta: Jey Carrillo e Tati Regis Vitrine: Clown Edição e sonorização: Murilo Lourenço; Trilha sonora: Myuu, Murilo Lourenço. Instagram: Ass. de produção: @ananda_mida Pauta: @shadowyjey, @tatiregis Vitrine: @clownartis Edição e sonorização: @murilou Trilha sonora: Myuu e @murilou

BBC Lê
'Limpeza da morte': a prática sueca de se livrar de bens acumulados em vida

BBC Lê

Play Episode Listen Later Jan 21, 2025 7:36


Basicamente, ideia é se livrar de tudo o que é desnecessário antes de deixar este mundo, uma forma de ajudar aqueles que deixamos para trás.

MoídaCast
Por que TODO VILÃO é CARECA? (Ft. SemPeNemCabelo)

MoídaCast

Play Episode Listen Later Oct 19, 2024 51:16


BASICAMENTE: https://basicamente.com/Roupas básicas com frete grátis usando o cupom MOÍDACASTModa simples, funcional e acessível. Renove seu estilo hoje mesmo! CLIQUE AQUI⁠⁠⁠ E ACOMPANHE ESTE EPISÓDIO GRAVADO AO VIVO E COM IMAGENS NO YOUTUBE! // ⁠⁠⁠SEJA NOSSO APOIADOR⁠⁠⁠: – Sorteios exclusivos, seu nome citado nos programas, acesso ao nosso grupo secreto do Discord pra falar com a gente por vídeo e assistir filmes com nois! http://moidacast.com.br // ⁠⁠⁠ANUNCIE NO MOÍDACAST⁠⁠⁠: carnemoidacast@gmail.com ///////////////////////////////////////// // NOSSAS REDES SOCIAIS: – ⁠⁠⁠Site Oficial⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitch⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Instagram⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitter⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠TikTok⁠⁠⁠ // OS ESPECIALISTAS EM P0RR4 NENHUMA: – ⁠⁠⁠Klaus Aires⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Kleber Tanide⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Letícia Godoy⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Rafa Longhini⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Silas Ravani⁠⁠   EQUIPE: // PAUTA:– Letícia Godoy// CAPA:– ⁠⁠Sketch1000grau⁠// EDIÇÃO:– ⁠⁠Silas Ravani⁠See omnystudio.com/listener for privacy information.

THShow
O que você faria se fosse o Gusttavo Lima?

THShow

Play Episode Listen Later Sep 24, 2024 27:15


Hoje é dia de trocar aquela ideia sobre banalidades e generalidades do cotidiano brasileiro... Basicamente acusação de crimes, sertanejo universitário, acordos com prefeituras e a chance de dizer pro mundo o que você faria se fosse o Gusttavo Lima... Baita episódio, vale escutar pra dar uma risadinha gostosa da vida! Igor Seco e Nhock tão onfire!

O Antagonista
Cortes do Papo - O negacionismo de Barroso e o sabão de Pacheco

O Antagonista

Play Episode Listen Later Aug 20, 2024 17:27


O STF afirmou, em nota, que os Três Poderes chegaram a um consenso sobre a distribuição de emendas. O comunicado foi divulgado após a reunião desta terça-feira em Brasília que contou com integrantes do Executivo, Legislativo e Judiciário. Segundo o Supremo, ficou acordado na reunião que as chamadas “Emendas Pix” serão mantidas, com o critério da impositividade. Porém, será necessária a identificação prévia do objetivo da destinação do recurso, com prioridade para obras inacabadas e com prestação de contas ao Tribunal de Contas da União.Em relação às emendas individuais, elas também serão mantidas com o critério da impositividade, seguindo critérios que serão estabelecidos em até 10 dias em acordo entre Executivo e Legislativo.Após a divulgação da nota, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, afirmou que “houve o entendimento de que as emendas pix podem ser muito úteis” em casos de obras inacabadas.O presidente do STF, Luís Roberto Barroso, classificou o encontro como um “diálogo franco” e afirmou:"Basicamente há um consenso pleno para ter rastreabilidade e transparência. Quem indica, para onde vai. Há um consenso de que o congresso deve ter um papel importante. É sobre a qualidade do gasto. O Brasil precisa urgentemente de uma nova lei que discipline esse tema. Conseguimos construir coletivamente as soluções. Ninguém chegou com proposta pronta. O STF não participa de negociação política."Felipe Moura Brasil e Carlos Graieb comentam:Você também pode assistir ao Papo Antagonista na BM&C, nos  canais de TV 579 da Vivo, ou 563 da Claro, além do SKY+.  Que tal presentear seu pai com a assinatura de O Antagonista+Crusoé?  10% desc. no combo anual.   https://bit.ly/papoantagonista  Acompanhe O Antagonista no canal do WhatsApp.  Boletins diários, conteúdos exclusivos em vídeo e muito mais.   https://whatsapp.com/channel/0029Va2S...   Ouça O Antagonista | Crusoé quando quiser nos principais aplicativos de podcast.  Leia mais em www.oantagonista.com.br | www.crusoe.com.br 

Rádiofobia Podcast Network
Pod Notícias 027 - Anúncios em podcast podem reter mais atenção que na TV

Rádiofobia Podcast Network

Play Episode Listen Later Aug 19, 2024 20:38


Olá, eu sou Leo Lopes e está no ar o POD NOTÍCIAS, o podcast semanal que traz até você um resumo de tudo que acontece de mais importante no mercado de podcasts no Brasil e no mundo! Hoje é segunda-feira, dia 19 de agosto de 2024 e esta é a nossa vigésima sétima edição! Este episódio conta com o apoio da CONTENT ACADEMY, uma plataforma de cursos online voltada para quem quer trabalhar com criação de conteúdo, onde o mais legal é que os professores são os próprios criadores e os profissionais que trabalham com eles. Então tem curso de True Crime com o Ivan Mizanzuk do Projeto Humanos, tem Webjornalismo independente com o Alvaro e a Ana do Meteoro Brasil, tem Storytelling com o Kenji do Normose, tem curso de Edição de vídeo para Youtube com o Will do Jogatina Maneira, tem também o meu curso Podcast para todos (que tá com uma mega promoção por tempo limitado) e mais um monte de cursos incríveis! Então entra lá no site pra dar uma conferida em contentacademy.com.br! 1 - Começando a edição de hoje, a gente vai trazer pra você os dados mais recentes de uma pesquisa sobre anúncios em podcasts. De acordo com um estudo feito pela empresa Adelaide Metrics, os níveis de retenção de atenção da publicidade em áudio digital já são comparáveis aos da TV. É isso mesmo, a gente já está batendo de frente com o meio de publicidade mais tradicional de todos! E esses anúncios não só capturam a atenção dos ouvintes; eles também tendem a ser muito menos ignorados que as propagandas da TV. O que faz total sentido, já que a gente criou a cultura de usar o intervalo comercial da televisão pra fazer outras coisas, e com o áudio isso acaba não sendo necessário. Mas a pesquisa não parou só nesse comparativo, não. A publicidade em podcasts também foi colocada lado-a-lado com outros formatos de mídia, como banners, vídeos online e estáticos patrocinados. E, é claro, também saiu na frente em custo-benefício: o gasto mensal com publicidade em podcasts e no YouTube fica entre U$700 - U$900 dólares, enquanto pra se chegar aos mesmos resultados anunciando no Facebook, Reddit e TikTok, as marcas teriam que desembolsar de 2mil a U$2.700 dólares - em CADA plataforma. Ou seja, trocando os anúncios nas redes sociais por anúncios em podcasts, as marcas podem economizar até 70% do investimento. Olha aí, tá vendo? Você está esperando o quê pra anunciar a sua marca, seu produto ou o seu serviço com a gente aqui no Pod Notícias? Vem pra cá, que a gente tem um público extremamente qualificado que se interessa pelo mercado de podcasts aqui no Brasil. Manda um e-mail pra gente em contato@podnoticias.com.br que a gente vai ter o maior prazer em conversar com você sobre todas as possibilidades de anúncios aqui no podcast e também no nosso site, em podnoticias.com.br . Bom, voltando pra notícia, não é preciso ser nenhum gênio da matemática pra ver que essa é uma troca (70% de economia) que vale muito a pena. E levando em conta que a eficiência da propaganda em podcasts é quase a mesma da TV, simplesmente não existe desculpa pros anúncios em áudio não serem considerados (e implementados, por que não?). Link 2 - Nos últimos anos, o Spotify foi a plataforma que mais movimentou a indústria de podcasts na América Latina. Mas será que isso é uma coisa boa? De acordo com o jornalista colombiano Stan Alcorn, não muito. Tanto aqui no Brasil quanto em outros países latinos, entre 2020 e 2022 o Spotify movimentou bastante coisa relacionada ao nosso mercado. A empresa criou estúdios, firmou parcerias, começou a investir em produções originais, deu voz à diversidade, como no caso do podcast "Mujeres Valientes" sobre as mulheres indígenas Triqui... Enfim, fez algum barulho. Teve até alguns eventos grandes aqui no Brasil, também, como o Spotify for Podcasters Summit - 2019 que eu estava presente, participando de mesa de debate e trabalhando pro Spotify, inclusive. Só que, de algum tempo pra cá, o Spotify têm reduzido essa movimentação e todo esse apoio ao podcasting. Vários contratos foram encerrados, originais Spotify foram deixados de lado, e atualmente muitos criadores de conteúdo que produziam pra plataforma ficaram sem financiamento. Essa última parte, aqui no Brasil, até que está mais ou menos controlada. Mas várias produções da Colômbia, Venezuela e Chile estão vendo as portas se fecharem na cara deles mesmo. E é aí que está o problema. O domínio que o Spotify criou na América Latina criou uma dependência, que agora, com essa saída-pela-direita da empresa, no melhor estilo Leão da Montanha, tá deixando um vazio no mercado. Ficou no pé do criador de conteúdo latino buscar alternativas e repensar toda a sua estratégia pra conseguir se sustentar sem qualquer suporte do Spotify. Mais uma vez a mão invisível do mercado está dando um tapinha de luva de pelica na nossa indústria, mas a gente vai conseguir contornar, como sempre fizemos nesses quase 20 anos. Link 3 - E a Headliner anunciou uma parceria com o Canva para facilitar a criação de audiogramas ainda mais personalizados. Ô ferramenta legal que é o Headliner, né? Antes, os usuários do Headliner podiam acessar o Canva pelo site, mas tinham que ser redirecionados pra uma página separada. Agora, as ferramentas de design do Canva foram integradas na própria plataforma, olha que legal. A parceria foi feita com o intuito de trazer recursos de design mais sofisticados pra quem usa o Headliner, com mais possibilidades de personalização e uso da própria identidade visual. Então agora nós, podcasters, selecionamos o episódio que queremos transformar em vídeo, fazemos todas as edições no visual do audiograma com as ferramentas do Canva, e exportamos o vídeo normalmente. Além disso, a Headliner também lançou uma ferramenta de geração de vídeos a partir de texto, que atualmente está em fase beta. O "text-to-video", como é chamado, é processado por inteligência artificial e por enquanto só está disponível para usuários Pro. Link AINDA EM NOTÍCIAS DA SEMANA: 4 - A Apple anunciou que a partir de novembro desse ano, vai exigir que o Patreon use o sistema de compras dentro do aplicativo iOS, aplicando uma taxa de 30% sobre todas as novas assinaturas feitas na plataforma. Olha que coisinha, né. Segundo a Apple, nesse primeiro momento a mudança não vai afetar quem já é membro, mas a ideia é que todos os criadores de conteúdo que usam o Patreon adotem o modelo de assinatura, eliminando outros formatos de cobrança até novembro de 2025. Eu não preciso nem dizer que 30% de adicional em pagamentos não é pouca coisa. Pra diminuir o impacto da decisão da Apple, o Patreon está desenvolvendo uma ferramenta opcional para permitir que criadores aumentem os preços das assinaturas - exclusivamente no iOS. Olha aí a Apple inflacionando as assinaturas do Patreon... Num comunicado de imprensa do Patreon eles deixaram claro que a mudança não foi planejada em conjunto, e que isso também acabou sendo uma dor de cabeça pra eles, mas a plataforma de assinaturas prometeu que vai apoiar os criadores de conteúdo durante a transição. Quer dizer; a gente tenta ganhar, paga a comissão devida pro Patreon, aí vem a Apple que só tá reproduzindo conteúdo lá na ponta e quer cobrar também. Aí complica, né! Link 5 - E depois de uma primeira edição bem-sucedida em junho desse ano, o Spotify marcou o segundo evento "Podcast ao Vivo" pro dia 28 de setembro. O evento vai acontecer na Unibes Cultural, em São Paulo, e vai contar com a presença de uma nova safra de podcasters populares. Alguns dos nomes confirmados são Bianca DellaFancy, Fabão, Jenny Prioli, Mabê Bonafé e Ju Cassini. Então a gente já sabe aí alguns dos temas de podcast que vão estar nessa edição: humor, cultura pop e true crime. Os ingressos já estão à venda no site Ingresse, com valores entre R$30 e R$60 por sessão. Link 6 - Um relatório da agência de publicidade Oxford Road revelou que o aumento de 39% na quantidade de anúncios em podcasts desde 2021 até agora, pode estar prejudicando o desempenho publicitário. O estudo, chamado “The Danger of Rising PodLoad”, alertou que uma alta carga de anúncios pode diminuir a eficácia das campanhas - até aí nada que não seja óbvio, porque qualquer publicidade excessiva pode ter o efeito contrário. Para evitar esse problema, a agência sugere limitar os anúncios a 6 minutos por hora, distribuídos de forma equilibrada nos programas. Basicamente, mantendo na média "saudável" de anúncios pra audiência. É claro que isso não seria um problema se a publicidade em podcasts não estivesse concentrada nos mesmos 100 programas de sempre, mas essa é uma tecla que a gente ainda vai ter que bater bastante até ver uma mudança de verdade, porque os investimentos vão quase sempre pras mesmas mãos - ou pras mesmas vozes. Link E MAIS: 7 - No segundo trimestre de 2024, a empresa iHeartMedia anunciou que teve um crescimento de 8% na receita de podcasts, com um total de U$ 105 milhões de dólares, ou 11% do seu faturamento total. A receita geral da empresa foi de U$ 929 milhões, com um aumento de 1% em relação ao mesmo período de 2023. O Grupo de Áudio Digital da empresa, que inclui podcasts, teve uma receita de U$286 milhões e, um ajuste de lucro de 32%. Ou seja, nada mal. E mesmo assim, os responsáveis financeiros da iHeart esperam que até o final desse ano, sejam adicionados mais 2 dígitos na receita de podcasts. Ambiciosos? Talvez, mas seja lá o que eles estejam fazendo internamente com a produção de mídia deles, está dando certo pra empresa. Link 8 - Os dados mais recentes do site Listen Notes sugerem que julho de 2024 teve o menor número de “novos podcasts” deste ano – o número foi mais de 60% menor em relação ao ano passado. Só que, tecnicamente, esse número só se refere a “novos feeds”, então a contagem fica comprometida, porque muitos novos podcasts foram lançados em feeds de programas que já existem, ou feeds de programas que foram replanejados antes desse período. A publicação de novos episódios de podcast também deu uma desacelerada: de acordo com o Índice de Podcast do Listen Notes, julho teve uma queda de 6% na comparação de ano-após-ano. Mas vale lembrar aqui que ano passado aconteceu a mesma coisa, e o número de novos podcasts e novos episódios lançados voltou a crescer em agosto. Então, aparentemente, julho é realmente o "mês do comércio fraco" pro podcasting em geral. Link 9 - O Hollywood Reporter publicou recentemente sobre “As pessoas mais poderosas do podcasting em 2024”, esse é o título do artigo. Os nomes mencionados foram uma mistura de executivos da indústria e apresentadores de podcast. Não, eu não estava lá. E é claro que não é surpresa nenhuma que uma lista feita nos Estados Unidos ia ser composta por 90% por estadunidenses né... Mas, pra não dizer que a lista foi totalmente americanizada, ela conta com 2 indicados britânicos - que moram nos Estados Unidos. É incrível como eles nem tentam, né? Enfim, as pessoas citadas na lista foram entrevistadas pelo Hollywood Reporter sobre qual a opinião delas em ouvir podcasts na velocidade 1.5x. Pegando na ferida! A Julia Louis-Dreyfus, do podcast Wiser Than Me, disse que nem sabe o que é a velocidade 1.5x, pra ela isso não existe (muito legal Julia Louis-Dreyfus, gosto muito de você!). O apresentador Bill Simmons disse que ouvir no 1.5x é coisa de sociopatas (concordo!). Já o Ben Shapiro disse que acha a velocidade 1,5x "muito lenta". Então, segundo o Bill, ele pode ou não ser um sociopata. Link HOJE NO GIRO SOBRE PESSOAS QUE FAZEM A MÍDIA: 10 - Na última sexta-feira, dia 16 de agosto, a Blimunda Editora realizou um evento na Livraria da Vila, em São Paulo, pra celebrar e promover o livro "Feminismos e Podcasts". Quem esteve presente nesse evento foi nossa colunista e amiga querida, advogada cansada Aline Hack, a própria organizadora do livro. Além dela, a querida Ira Croft do Mundo Freak também marcou presença por lá, pra discutir com o público sobre o uso do podcast como uma ferramenta de militância feminista, pesquisa e educação. O evento foi gratuito e aberto ao público. Teve roda de conversa, sessão de autógrafo, foto com as autoras... Um encontro muito legal, eu queria ter ido, mas não pude, infelizmente. E pros ouvintes de podcast é muito bacana poder encontrar com as suas hosts preferidas, e é claro, também pros leitores do livro Feminismos e Podcasts. A gente anunciou o encontro com antecedência no nosso portal de notícias, em podnoticias.com.br, então se você gosta de acompanhar esses eventos, fica ligado aqui no Pod Notícias que você vai estar sempre bem informado(a) e não vai perder nenhuma novidade da podosfera brasileira. Eu recomendo que você entre no nosso canal público do Telegram (t.me/podnoticias) porque lá tem um botzinho maroto, toda vez que tem uma notícia nova no portal, você recebe ali uma notificação no seu celular em primeira mão, então você vai estar sempre bem informado sobre tudo o que está acontecendo à medida que as notícias são publicadas no site. Link SOBRE LANÇAMENTOS: 11 - Na semana passada foi publicado nas plataformas de áudio o primeiro episódio do podcast ATRApaiLHADO, apresentado por Deco Neves. O podcast mergulha fundo no tema de paternidade ativa e participativa. Até porque ser pai não é uma tarefa fácil, e falar sobre isso é extremamente necessário (eu falo isso como pai de três meninos!), assim como estudar e se preparar pra isso. Em cada episódio, o intuito do ATRApaiLHADO é compartilhar histórias, dicas e entrevistas com especialistas e principalmente mães, sobre a jornada de criar uma criança da melhor forma possível. Muito legal a proposta, vale muito a pena conferir. O podcast já está disponível em vídeo no YouTube, e em áudio no Spotify. Link 12 - E na última terça-feira foi ao ar o podcast Imigração no Ar, comandado pelo jornalista Moacir Fritzen, e que celebra os 200 anos da imigração alemã no Brasil. O programa é publicado no canal do Jornal NH e vai ter ao todo 6 episódios, lançados semanalmente às terças-feiras. O podcast faz parte de uma série de ações realizadas pelo Grupo Sinos pra homenagear os imigrantes nesse bicentenário, e tem apoio da empresa alemã de ferramentas Stihl. Então se você quiser saber mais sobre a imigração alemã no Brasil e acompanhar as entrevistas com convidados que vivem nessa realidade, não deixa de conferir. Link RECOMENDAÇÃO NACIONAL: 13 - E na recomendação nacional dessa semana, a gente vai dar mais um merecido espaço para a divulgação científica! Se você gosta - ou quer saber mais - sobre astronomia e o universo, a indicação vai pro podcast Missão Exoplaneta, apresentado pela Julia Brazolim. O programa publica de 1 a 2 episódios por mês, e os temas são variados: já foi falado sobre o Programa Nacional de Atividades Espaciais, as atividades da Agência Espacial Brasileira, e até um Top 10 melhores filmes de ficção científica sobre o fim do mundo - mas é claro que no feed deles tem muito mais informação que isso. O Missão Exoplaneta é um programa muito didático, educativo e fácil de ouvir. Então se você tem interesse nas estrelas, no cosmos ou em qualquer coisa referente às ciências do espaço, não deixa de assinar o feed no seu agregador de podcast favorito, porque o podcast está disponível em todas as principais plataformas de áudio. Link Eu já falei lá no começo, mas falo aqui mais uma vez: se você quiser anunciar a sua marca, produto ou serviço com a gente aqui no Pod Notícias – tanto no podcast como no nosso site – e atingir um público qualificado que se interessa pelo podcast aqui no Brasil, manda um e-mail pro contato@podnoticias.com.br, que nós vamos ter o maior prazer em conversar com você sobre as nossas opções de publicidade. E caso você queira colaborar com a gente com texto, sugestão de pauta ou envio de notícias, também vai ser muito bem-vindo e pode fazer isso através do mesmo e-mail. E assim a gente fecha esta vigésima sétima edição do Pod Notícias. Acesse podnoticias.com.br para ter acesso à íntegra das notícias com todas as fontes e a transcrição completa do episódio, além dos artigos dos nossos colunistas e todos os links relacionados. Acompanhe o Pod Notícias diariamente:- Canal público do Telegram- Instagram- Page do Linkedin Ouça o Pod Notícias nos principais agregadores:- Spotify- Apple Podcasts- Deezer- Amazon Music- PocketCasts O Pod Notícias é uma produção original da Rádiofobia Podcast e Multimídia e publicado pela Rádiofobia Podcast Network, e conta com as colaborações de:- Camila Nogueira - arte- Eduardo Sierra - edição- Lana Távora - pesquisa, pauta e redação final- Leo Lopes - direção geral e apresentação- Thiago Miro - pesquisa Publicidade:Entre em contato e saiba como anunciar sua marca, produto ou serviço no Pod Notícias.See omnystudio.com/listener for privacy information.

MoídaCast
#224 DEADPOOL & WOLVERINE

MoídaCast

Play Episode Listen Later Jul 18, 2024 57:15


A Fórmula do Fracasso: https://www.fabricadohumor.com.br/projeto-a-formula-do-fracassoPROMOBIT: https://promoby.me/Moidacast_Promobit24 ECONOMIZE COM A PROMOBIT!

MoídaCast
#223 DIVERTIDA MENTE E TEORIA DA PIXAR

MoídaCast

Play Episode Listen Later Jul 11, 2024 94:00


TEORIA DA PIXAR: REAL OU DELÍRIO COLETIVO?? Acha que ela faz sentido ou é só preguiça dos animadores? Confira, pois esse é o programa com a teoria mais atualizada! (Até sair um novo filme da Pixar)A Fórmula do Fracasso: https://www.fabricadohumor.com.br/projeto-a-formula-do-fracassoPROMOBIT: https://promoby.me/Moidacast_Promobit24 ECONOMIZE COM A PROMOBIT!

MoídaCast
#222 COMENTÁRIOS XVIDE0S (+18)

MoídaCast

Play Episode Listen Later Jul 4, 2024 62:56


Não se faça de sonso dizendo que não sabe que site é esse!! Neste episódio lemos os comentários mais BIZARROS desta página que você só abre na aba anônima. A Fórmula do Fracasso: https://www.fabricadohumor.com.br/projeto-a-formula-do-fracassoPROMOBIT: https://promoby.me/Moidacast_Promobit24 ECONOMIZE COM A PROMOBIT!

Expresso - Eixo do Mal
Esta emissão não foi ouvida previamente pelo Ministério Público

Expresso - Eixo do Mal

Play Episode Listen Later Jun 21, 2024 44:13


Mais umas escutas e mais um pacote em análise no Eixo do Mal em podcast, com Daniel Oliveira, Luís Pedro Nunes, Pedro Marques Lopes e Clara Ferreira Alves. Enquanto António Costa esperava pelo resultado do jantar dos líderes europeus, por cá alguém decidiu publicar a transcrição de escutas em que aparece, basicamente, a dar a ordem ao então ministro Galamba, de despedimento da então CEO da TAP, para evitar mais embaraços políticos para o Governo. A PGR já ordenou a instauração de um inquérito para apurar-se como terá sido possível as escutas chegarem aos jornalistas nesta altura do campeonato europeu – o de Costa, não o de futebol. O Eixo do Mal foi emitido na SIC Notícias a 20 de junho.See omnystudio.com/listener for privacy information.

MoídaCast
#217 TODO MUNDO TEM UM VIZINHO INSUPORTÁVEL

MoídaCast

Play Episode Listen Later May 30, 2024 75:50


Qual é o tipo de vizinho mais insuportável? Arrombado, barraqueiro, fofoqueiro, aquele que se acha dono da rua... todos já tiveram algum tipo de vizinho que não gostariam de ter.BASICAMENTE: https://basicamente.com/ Cupom 15% nos moletons até o final de JULHO: AIQUEFRIOZINHORoupas básicas com frete grátis usando o cupom MOÍDACAST! Moda simples, funcional e acessível. Renove seu estilo hoje mesmo. Confira em https://basicamente.com CLIQUE AQUI⁠⁠⁠ E ACOMPANHE ESTE EPISÓDIO GRAVADO AO VIVO E COM IMAGENS NO YOUTUBE! // ⁠⁠⁠SEJA NOSSO APOIADOR⁠⁠⁠: – Sorteios exclusivos, seu nome citado nos programas, acesso ao nosso grupo secreto do Discord pra falar com a gente por vídeo e assistir filmes com nois! http://moidacast.com.br // ⁠⁠⁠ANUNCIE NO MOÍDACAST⁠⁠⁠: carnemoidacast@gmail.com ///////////////////////////////////////// // NOSSAS REDES SOCIAIS: – ⁠⁠⁠Site Oficial⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitch⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Instagram⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitter⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠TikTok⁠⁠⁠ // OS ESPECIALISTAS EM P0RR4 NENHUMA: – ⁠⁠⁠Klaus Aires⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Kleber Tanide⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Letícia Godoy⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Rafa Longhini⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Silas Ravani⁠⁠   EQUIPE: // PAUTA:– Letícia Godoy// CAPA:– ⁠⁠Sketch1000grau⁠// EDIÇÃO:– ⁠⁠Silas Ravani⁠See omnystudio.com/listener for privacy information.

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#216 O DIA DA TOALHA

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Play Episode Listen Later May 23, 2024 82:01


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#215 Qual o MAIOR CHIFRE do Brasil?

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Play Episode Listen Later May 16, 2024 85:41


"Um homem sem chifres, é um homem indefeso" ALBERT EINSTEIN  Essa galera recebeu do seus ex parceiros adereços na cabeça, que destroem forros e telhados... mas nesse episódio, a bancada decidiu definitivamente QUEM TEM O MAIOR CHIFRE DO BRASIL!BASICAMENTE: https://basicamente.com/ Roupas básicas com frete grátis usando o cupom MOÍDACAST! Moda simples, funcional e acessível. Renove seu estilo hoje mesmo. Confira em https://basicamente.com CLIQUE AQUI⁠⁠⁠ E ACOMPANHE ESTE EPISÓDIO GRAVADO AO VIVO E COM IMAGENS NO YOUTUBE! // ⁠⁠⁠SEJA NOSSO APOIADOR⁠⁠⁠: – Sorteios exclusivos, seu nome citado nos programas, acesso ao nosso grupo secreto do Discord pra falar com a gente por vídeo e assistir filmes com nois! http://moidacast.com.br // ⁠⁠⁠ANUNCIE NO MOÍDACAST⁠⁠⁠: carnemoidacast@gmail.com ///////////////////////////////////////// // NOSSAS REDES SOCIAIS: – ⁠⁠⁠Site Oficial⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitch⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Instagram⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitter⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠TikTok⁠⁠⁠ // OS ESPECIALISTAS EM P0RR4 NENHUMA: – ⁠⁠⁠Klaus Aires⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Kleber Tanide⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Letícia Godoy⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Rafa Longhini⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Silas Ravani⁠⁠   EQUIPE: // PAUTA:– Letícia Godoy// CAPA:– ⁠⁠Sketch1000grau⁠// EDIÇÃO:– ⁠⁠Silas Ravani⁠See omnystudio.com/listener for privacy information.

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#214 BEBÊ RENA e STALKERS FAMOSOS

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Play Episode Listen Later May 9, 2024 75:46


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#213 Gringos que PAGAMOS PAU!

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Play Episode Listen Later Apr 25, 2024 79:11


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#212 Fetiches que você NEM IMAGINAVA!

MoídaCast

Play Episode Listen Later Apr 19, 2024 72:46


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#211 IMITADORES e IMITAÇÕES (Ft. Gabriel Fanart)

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Play Episode Listen Later Apr 17, 2024 86:10


Imitar é uma arte, e rir das bobagens com as inúmeras vozes que esses mestres fazem é ainda melhor!E tivemos a presença ilustre do Gabriel Fanart contando inspirações e personagens que adora imitar.BASICAMENTE: https://basicamente.com/ Roupas básicas com frete grátis usando o cupom MOÍDACAST! Moda simples, funcional e acessível. Renove seu estilo hoje mesmo. Confira em https://basicamente.com CLIQUE AQUI⁠⁠⁠ E ACOMPANHE ESTE EPISÓDIO GRAVADO AO VIVO E COM IMAGENS NO YOUTUBE! // ⁠⁠⁠SEJA NOSSO APOIADOR⁠⁠⁠: – Sorteios exclusivos, seu nome citado nos programas, acesso ao nosso grupo secreto do Discord pra falar com a gente por vídeo e assistir filmes com nois! http://moidacast.com.br // ⁠⁠⁠ANUNCIE NO MOÍDACAST⁠⁠⁠: carnemoidacast@gmail.com ///////////////////////////////////////// // NOSSAS REDES SOCIAIS: – ⁠⁠⁠Site Oficial⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitch⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Instagram⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitter⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠TikTok⁠⁠⁠ // OS ESPECIALISTAS EM P0RR4 NENHUMA: – ⁠⁠⁠Klaus Aires⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Kleber Tanide⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Letícia Godoy⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Rafa Longhini⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Silas Ravani⁠⁠   EQUIPE: // PAUTA:– Letícia Godoy// CAPA:– ⁠⁠Sketch1000grau⁠// EDIÇÃO:– ⁠⁠Silas Ravani⁠See omnystudio.com/listener for privacy information.

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#208 Quem é o MELHOR COMEDIANTE?

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Play Episode Listen Later Mar 28, 2024 50:01


QUAL É O MELHOR COMEDIANTE DE TODOS OS TEMPOS??? Tentamos responder a essa questão, e também relembramos algumas POLÊMICAS que tem surgido no mundo frágil da comédia....BASICAMENTE: https://basicamente.com/ Roupas básicas com frete grátis usando o cupom MOÍDACAST! Moda simples, funcional e acessível. Renove seu estilo hoje mesmo. Confira em https://basicamente.com CLIQUE AQUI⁠⁠⁠ E TERMINE DE OUVIR ESSE EPISÓDIO NO YOUTUBE! // ⁠⁠⁠SEJA NOSSO APOIADOR⁠⁠⁠: – Sorteios exclusivos, seu nome citado nos programas, acesso ao nosso grupo secreto do Discord pra falar com a gente por vídeo e assistir filmes com nois! http://moidacast.com.br // ⁠⁠⁠ANUNCIE NO MOÍDACAST⁠⁠⁠: carnemoidacast@gmail.com ///////////////////////////////////////// // NOSSAS REDES SOCIAIS: – ⁠⁠⁠Site Oficial⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitch⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Instagram⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitter⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠TikTok⁠⁠⁠ // OS ESPECIALISTAS EM P0RR4 NENHUMA: – ⁠⁠⁠Klaus Aires⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Kleber Tanide⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Letícia Godoy⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Rafa Longhini⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Silas Ravani⁠⁠   EQUIPE: // PAUTA:– Letícia Godoy// CAPA:– ⁠⁠Sketch1000grau⁠// EDIÇÃO:– ⁠⁠Silas Ravani⁠See omnystudio.com/listener for privacy information.

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#207 A DECADÊNCIA de HOLLYWOOD! (ft. André Alba)

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Play Episode Listen Later Mar 21, 2024 46:41


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#206 As F4KENEWS que enganaram O MUNDO

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Play Episode Listen Later Mar 14, 2024 40:00


Neste episódio, discutimos as transmissões de rádio e documentários de TV que ENGARAM o público, mesmo quando afirmavam ser ficção.BASICAMENTE: https://basicamente.com/ Roupas básicas com frete grátis usando o cupom MOÍDACAST! Moda simples, funcional e acessível. Renove seu estilo hoje mesmo. Confira em https://basicamente.com CLIQUE AQUI⁠⁠⁠ E ACOMPANHE ESTE EPISÓDIO GRAVADO AO VIVO NO YOUTUBE. // ⁠⁠⁠SEJA NOSSO APOIADOR⁠⁠⁠: – Sorteios exclusivos, seu nome citado nos programas, acesso ao nosso grupo secreto do Discord pra falar com a gente por vídeo e assistir filmes com nois! http://moidacast.com.br // ⁠⁠⁠ANUNCIE NO MOÍDACAST⁠⁠⁠: carnemoidacast@gmail.com ///////////////////////////////////////// // NOSSAS REDES SOCIAIS: – ⁠⁠⁠Site Oficial⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitch⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Instagram⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Twitter⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠TikTok⁠⁠⁠ // OS ESPECIALISTAS EM P0RR4 NENHUMA: – ⁠⁠⁠Klaus Aires⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Kleber Tanide⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Letícia Godoy⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Rafa Longhini⁠⁠⁠ – ⁠⁠⁠Silas Ravani⁠⁠   EQUIPE: // PAUTA:– Letícia Godoy// CAPA:– ⁠⁠Sketch1000grau⁠// MIXAGEM DAS FAIXAS:– Filipe Leite// EDIÇÃO:– ⁠⁠Silas Ravani⁠See omnystudio.com/listener for privacy information.

Projeto Energia Crônica: Medicina Integrativa Quântica⚡- Saúde - Longevidade -Bem estar- VIBRE +⚡
A LEI DE PARETO NA SAÚDE - Como conquistar 80% dos Resultados com 20% do Esforço -PEC #303

Projeto Energia Crônica: Medicina Integrativa Quântica⚡- Saúde - Longevidade -Bem estar- VIBRE +⚡

Play Episode Listen Later Jan 15, 2024 64:08


Fala, Fala minha Amiga, meu Amigo BIOENERGÉTICO! Pronto para mais um episódio? Então vamos lá… Nessa aula você vai aprender sobre a Lei de Pareto.  E o que é isso, Bruno e Vanessa? Você deve estar se perguntando…  Basicamente, esta lei diz que 80% dos resultados que você tem na vida vem de 20% do que você faz.  Na saúde é exatamente a mesma coisa! Quer saber como utilizar esta Lei a seu favor?  Então confira o episódio agora mesmo para aprender:  ✅Como a Lei de Pareto funciona na sua saúde  ✅Fatores Primordiais - Importantes e Complementares ✅Como identificar os 20% que vão te dar 80% dos resultados Clique na sua mídia favorita logo abaixo para aprender agora mesmo!  LINKS Depois de escutar este episódio do Projeto Energia Crônica, visite nosso site http://www.projetoenergiacronica.com para saber mais sobre a Revolucionária Biomodulação Energética Integrada que é capaz de te energizar e transformar sua saúde de uma vez por todas! ❌SEM tomar medicamentos perigosos e contínuos. ❌SEM dietas milagrosas. ❌SEM privar-se das coisas boas da vida. (mesmo que você tenha apenas 15 minutos durante seu dia) Tenha um ótimo dia e até a próxima!! Vanessa e Bruno  Fundadores do Projeto Energia Crônica