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Antonio Rabàdan é Doutor em Design Estratégico pela Unisinos-RS; Mestre em Artes Visuais pela Faculdade Santa Marcelina (FASM-SP); Pós-Graduado em Negócios e Marketing de Luxo Contemporâneo pela ESPM-SP; Bacharel em Moda e Tecnólogo em Moda e Estilo pela Universidade de Caxias do Sul. Atualmente está em pós doutoramento investigando a Passarela Performática na ECA da USP.Grande experiência na área da moda, atuando na produção de desfiles e eventos, editoriais de revistas e campanhas fotográficas. Recebeu prêmios nacionais, como o Açorianos e o Tibicuera, de teatro, e prêmios internacionais, como o Mário Rui Gonçalves Internacional, pelo figurino do espetáculo “Vanessa Quer Voar”, em Portugal.Foi Professor titular e Professor visitante em instituições como UFRGS, Feevale, Senac-RS, Senai-RS, UCS, UCPEL e Univates e, atualmente, é Professor Doutor nos cursos de Design e de Comunicação e Publicidade da ESPM-SP e ministra as disciplinas de Mercado e Produção de Moda; Varejo de Moda e Visual Merchandising; Prototipagem Criativa; Coolhanting; Narrativas de Espetáculos; Moda Autoral; Pesquisa e Tendência de Produto e Semiótica.Release:“O Inspetor Geral”, de Nicolai Gogol, ganhou em 1998 uma montagem radicalmente visual, grotesca e circense através da direção de Zé Adão Barbosa e da Cia. das Índias, em Porto Alegre.A encenação partia de um teatro físico, imagético e de forte construção plástica. A estética do espetáculo buscava um estado permanente de exagero e artificialidade, aproximando-se da palhaçaria, do grotesco e da escultura viva.A cena era composta por grandes painéis pintados manualmente pelo artista plástico Zezé Kronbauer. Esses painéis funcionavam como enormes quadros móveis que criavam diferentes atmosferas e espacialidades ao longo do espetáculo. Para movimentá-los, foi desenvolvido um sistema mecânico rudimentar construído a partir do maquinário de uma máquina de lavar roupas. Em determinados momentos da encenação, os painéis despencavam sobre os atores, provocando instabilidade visual e física, reforçando a sensação de colapso político e moral presente no texto.Outro elemento fundamental da cenografia era um grande sofá multifuncional que se transformava constantemente durante a peça: chaise, mesa, plataforma, cama e estrutura cênica. Esse único objeto assumia diferentes funções dramatúrgicas e operava como eixo central da movimentação dos atores.O figurino, também assinado por Antonio Rabadan, antecipava discussões que hoje se aproximam do upcycling e da ressignificação têxtil.Naquele momento, ainda em processo de descoberta enquanto ator, cenógrafo e figurinista, Rabàdan desenvolveu os figurinos inicialmente como desenhos idealizados. Porém, diante das limitações financeiras comuns às produções teatrais independentes da época, tornou-se impossível executar as peças utilizando materiais novos.A solução encontrada transformou-se no principal conceito do figurino.Junto da figurinista e costureira Titi Lopes, roupas usadas, tecidos domésticos, peças antigas e aviamentos foram completamente desmontados, separados e reconstruídos manualmente para formar novas superfícies têxteis. O processo envolvia desconstruir roupas já existentes para recriar tecidos híbridos que posteriormente davam origem aos figurinos do espetáculo. Antonio Rabàdan recebeu o Prêmio Açorianos de Melhor Figurino pelo espetáculo.Ficha Técnica:Texto: Nicolai GogolDireção: Zé Adão BarbosaMontagem: Cia. das ÍndiasDiretora Assistente: Jaqueline PinzonCenário: Antonio RabadanAssistente de Cenografia: Juliana RivetCriação de Painéis: Zezé KronbauerFigurinos: Antonio RabadanDesenhos de Figurino: Luciana ChavesConfecção de Figurinos: Titi Lopes e Mada OliveiraEnchimentos: Janine GomesChapéus: Juliana KunzBijuterias: Cigana SallyCabeças: Antonio RabadanMaquiagem: Zé Adão BarbosaIluminação: Fernando OchoaSonoplastia: Eduardo ManeraCriação Gráfica: Alessandro SalvatoriFotografia: Myra GonçalvesDivulgação: Renato Campão
Trump defende a Doutrina Monroe / Agora Michelle está na campanha de Flávio / IPCA cai, mas futuro preocupa / Esses são assuntos em destaque na edição de hoje do Jornal do Boris
Jornal da ONU com Ana Paula Loureiro. Esses são os destaques desta terça-feira, 11 de agosto de 2026Nações Undias na Colômbia se unem a autoridades no socorro a vítimas do terremotoComeça, em Genebra, mais uma sessão do Comité para a Eliminação da Discriminação Racial
Neste episódio do Performa Q. Pod. na CBN, recebemos Dra. Naiana Cunha, Diretora de Governança Clínica da Rede Total Care–Amil, para uma conversa sobre como a tecnologia está transformando a saúde e redefinindo a forma como hospitais, operadoras e profissionais tomam decisões. Ao longo do episódio, a Dra. Naiana compartilha sua trajetória da medicina para a gestão em saúde e explica como inteligência artificial, governança clínica, qualidade assistencial e análise de dados podem apoiar a padronização de protocolos, aumentar a segurança do paciente e tornar os processos mais eficientes. A conversa também aborda os desafios da interoperabilidade de dados, os hospitais inteligentes e o papel da medicina preditiva no futuro do setor. Esses temas aparecem de forma recorrente ao longo do episódio, especialmente quando são discutidos o uso de IA como apoio à decisão clínica, protocolos assistenciais, compartilhamento de dados e evolução da medicina.
O Programa Resgatando a Cidadania deste sábado(08), recebeu para entrevista a professora, psicopedagoga, comunicadora e escritora Rosa Gonçalves. Ela é autora do livro "A Voz Que Rasga o Véu", que aborda a realidade de mulheres que enfrentam a violência de gênero, a misoginia e o capacitismo, inclusive as mulheres com deficiência. Também participaram dos debates Mara Lilian, jornalista e assistente social; Verônica Saboia, pedagoga e professora da educação Infantil e Selma Melo, agricultora familiar. " A misoginia é uma herança que vem de muito tempo. É um conjunto de ações, que já na idade média era muito forte, como as bruxas que eram queimadas. Muitas tragédias aconteceram com as mulheres em toda a história, e hoje herdamos essa herança que ainda não foi desconstruída. Hoje na era digital ela vem ainda mais forte, com grupos de homens que caracterizam as mulheres como inferiores, e utilizam as redes sociais para espalhar mensagens de ódio contra as mulheres. Esses homens levam para os jovens essa visão. A mulher é culpabilizada até por relacionamentos tóxicos. A lei Maria da Penha avançou nesses 20 anos, mas ainda há muita violência e morte de mulheres."Declarou Rosa Gonçalves. O Programa Resgatando a Cidadania é apresentado todo sábado, a partir do meio-dia, pela Rádio Folha 96,7FM, produzido e apresentado pelo radialista Domingos Sávio.
o cinema não espera a maturidade chegar. neste episódio, mergulhamos no fenômeno dos diretores que, aos 20 anos, já estavam entregando obras-primas que muitos veteranos levam a vida inteira para tentar alcançar. como é possível ter esse nível de visão tão cedo?além dos prodígios, o papo vai para lugares mais sombrios: discutimos a estética e o vazio das backrooms, e como a obsessão pode ser o motor (ou a ruína) de um criador.no final, como sempre, tem aquela lista de indicações de filmes para quem quer ir além do óbvio.o que você vai ver: • diretores prodígios: gênios aos 20 anos • backrooms e o medo do vazio • a psicologia da obsessão na arte • indicações de filmes (lista completa no final)se inscreva no canal para mais conversas sobre cinema, literatura e as estranhezas da mente humana.
Jornal da ONU com Ana Paula Loureiro. Esses são os destaques desta sexta-feira, 7 de agosto de 2026:Na RD Congo, chefe da OMS pede ampliação urgente e massiva da resposta ao ebolaVisibilidade fortalece jovens indígenas do Brasil na luta contra a crise climática
Marcola é Lula? / Por assédio, STJ tira cargo de ministro / Trump muda regras de cidadania / Esses são assuntos em destaque na edição de hoje do Jornal do Boris
Abertura dos trabalhos na Amorosidade
Marcola é afastado da campanha de Lula / Ensino tem números melhores, embora insatisfatórios / Campanha eleitoral comanda crise diplomática / Esses são os destaque da edição de hoje do Jornal do Boris
Jornal da ONU com Monica Grayley. Esses são os destaques desta quarta-feira, 5 de agostoViolações do espaço aéreo e atividade militar escalam tensão no sul do LíbanoMulheres moldam novas dinâmicas de migração na Europa e Ásia Central
Tanya 22 av Cap 7 Parte 2 -Esses reflexos dividem-se em porções que correspondem a Torá e as almas
Confira os destaques do Jornal da Manhã desta terça-feira (04): O partido Avante oficializou nesta segunda-feira (3) a candidatura do escritor e psiquiatra Augusto Cury à Presidência da República. Conhecido pelos livros no segmento de autoajuda, Cury afirmou, durante discurso aos filiados e na presença do governador Tarcísio de Freitas, que, se for eleito, pretende propor a mudança do regime presidencialista para o semipresidencialista. Segundo ele, o presidente ficaria responsável pelas questões estratégicas, Forças Armadas e política externa, enquanto um primeiro-ministro administraria o dia a dia do país. Cury afirmou ainda que Tarcísio de Freitas está em seu radar para ocupar esse cargo. Reportagem: Beatriz Manfredini. A Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo impugnou o pedido de registro da candidatura do ex-ministro Ricardo Salles (Novo) ao Senado por falta de documentos e pediu ao Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) que negue o registro. Segundo o órgão, Salles não apresentou certidões de objeto e pé com informações completas sobre os processos judiciais mencionados em suas certidões. Esses documentos detalham o objeto de cada ação, as decisões já tomadas e a situação atual dos processos. O caso ainda será analisado pelo TRE-SP. Reportagem: Matheus Dias. O presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao chamá-lo de “ladrão” e “corrupto” durante entrevista à emissora argentina LN+. Milei afirmou que Lula “não é inocente” e disse que as condenações relacionadas à Operação Lava Jato foram anuladas por uma falha no processo jurídico. O argentino também rejeitou as críticas do governo brasileiro ao discurso feito na convenção do Partido Liberal que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, afirmando que sua fala foi espontânea e que “chamar um ladrão de ladrão é infinitamente menos grave do que o próprio roubo”. Reportagem: André Anelli. A greve dos ferroviários das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM começou na madrugada desta terça-feira (04) em São Paulo. Apesar da paralisação, apenas a Linha 13-Jade está totalmente interrompida nesta manhã, enquanto as linhas 11-Coral e 12-Safira operam parcialmente. Segundo o Governo de São Paulo, as linhas concedidas 7-Rubi, 8-Diamante e 9-Esmeralda, além da Linha 10-Turquesa, funcionam normalmente. Reportagem: Danúbia Braga. O Republicanos decidiu adotar uma posição de neutralidade na disputa presidencial. Dos diretórios estaduais da sigla, 19 se posicionaram pela neutralidade, sete defenderam apoio a Flávio Bolsonaro (PL) e apenas um manifestou apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em nota, o partido afirmou que a independência na eleição presidencial não representa ausência de princípios ou posicionamento político, mas sim maturidade institucional, respeito ao pacto federativo e compromisso com a unidade partidária, preservando a autonomia das lideranças estaduais dentro das diretrizes estabelecidas pela legenda. Reportagem: Beatriz Manfredini. Seis homens presos nos Estados Unidos admitiram participação em uma sofisticada rede internacional de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo as autoridades americanas, a organização teria movimentado e ocultado mais de US$ 30 milhões provenientes do tráfico de drogas. Cinco dos acusados são brasileiros e um é cidadão americano, todos residentes na região de Orlando, na Flórida. Eles foram presos em uma operação conduzida pelo FBI em janeiro deste ano. O processo tramita na Justiça Federal dos Estados Unidos, no Tribunal Distrital do Sul da Flórida, e os réus respondem ao caso em território americano. Reportagem: Eliseu Caetano. Essas e outras notícias você acompanha no Jornal da Manhã. Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
As imagens de milhares de pessoas a chegarem a Ceuta podem contribuir para “normalizar a ideia de uma Europa Fortaleza”, considera a investigadora Maria Ferreira. A professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa sublinha que o que aconteceu no enclave espanhol no norte de África alimenta “a representação discursiva muito utilizada pelos partidos de direita radical da grande invasão” e alerta que essa narrativa já entrou na agenda política dos partidos moderados que vão “cavalgar a onda do alegado perigo dos fluxos migratórios”. “O que seria desejável era que se encontrasse um princípio de solidariedade entre os Estados-Membros que pertencem ao espaço Schengen”, diz Maria Ferreira, mas, até agora, o que esta crise revelou é essa falta de solidariedade. A chegada a Ceuta, na semana passada, de milhares de migrantes desencadeou uma crise diplomática entre Espanha e os parceiros europeus mais críticos em relação à política de migração do Governo do socialista Pedro Sánchez. O líder espanhol lamentou a falta de solidariedade dos parceiros europeus, lembrou que Espanha controlou a sua fronteira em 48 horas e que repatriou a quase totalidade dos migrantes. Mesmo assim, 22 Estados-membros pediram uma reunião de emergência de ministros do Interior, esta terça-feira, em que participam também governantes dos países que não pertencem ao bloco da UE mas que integram o espaço Schengen, como a Suíça, a Noruega, a Islândia e o Liechtenstein. A liderar esse movimento esteve a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que foi rápida a suspender o tratado de Schengen por causa de Ceuta, tendo no horizonte a campanha eleitoral italiana de 2027. De recordar que, segundo a Frontex, entre 2021 e 2026, a Espanha registou metade das entradas irregulares de migrantes do que Itália, mesmo sendo o único Estado-membro com uma fronteira terrestre com África. Para falarmos sobre este tema, convidámos Maria Ferreira, investigadora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, que alerta que esta situação pode contribuir para “normalizar a ideia de uma Europa Fortaleza” e sublinha que “o que seria desejável era que se encontrasse um princípio de solidariedade entre os Estados-Membros que pertencem ao espaço Schengen”. O problema é que esta crise parece revelar precisamente essa falta de solidariedade, três anos depois de a União Europeia ter ajudado Itália durante a crise migratória de Lampedusa. RFI: O que se espera da reunião desta terça-feira? Maria Ferreira, Investigadora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa: “O que seria desejável era que hoje se encontrasse um princípio de solidariedade entre os Estados-Membros, nomeadamente os Estados-Membros que pertencem ao espaço Schengen. No passado, essa solidariedade permitiu, de alguma forma, que se ultrapassassem as anteriores crises migratórias que foram fustigando as fronteiras externas do espaço Schengen. O que se está a passar neste momento é que Ceuta e Melilla estão a surgir como as cadeias mais fracas da vasta rede que é formada pela fronteira externa do espaço Schengen. E como as questões migratórias estão na agenda não só dos partidos populistas de direita radical, mas também na agenda dos partidos do centro, quer de centro-esquerda quer de centro-direita, os Estados, perante aquelas imagens que percorreram os media e as redes sociais, sentem necessidade de dar resposta perante as suas próprias populações e não parecerem vulneráveis àquele tipo de, digamos assim, violação das fronteiras externas do espaço Schengen.” Está a haver, de certa forma, uma instrumentalização da situação em Ceuta por parte dos governos populistas do resto da Europa? “Não só por parte dos governos populistas. Há que notar que é verdade que as questões migratórias e as questões do asilo - que são coisas distintas, muito embora os partidos populistas de direita radical tendam a não distinguir estes dois factores - são um importantíssimo elemento da agenda política dos partidos radicais de direita populistas, mas há um efeito de contágio para as agendas mesmo dos partidos mais moderados de centro-direita e de centro-esquerda e dos governos mais moderados de centro-esquerda e centro-direita, que muitas vezes estão em coligação com partidos de direita radical ou que, de alguma forma, têm uma posição muito frágil e dependem dos partidos de direita radical - como por exemplo, acontece com a AD e o Chega [Portugal]. Por isso há aqui um efeito de contágio entre os partidos de direita e os próprios partidos que normalmente eram moderados e que tinham uma posição de maior equilíbrio em relação às migrações, mas que hoje têm que responder perante as suas populações e têm que responder perante o medo crescente da população europeia em relação àquilo a que se chama ‘a grande substituição' e aos fluxos que vêm de outros continentes, de outras culturas, e acabam por cavalgar a onda do alegado perigo dos fluxos migratórios que é uma representação discursiva, mas que acabou por ser confirmada por aquelas imagens que nos chegaram nos últimos dias de Ceuta e que vêm, de alguma forma, corroborar a imagem tradicional que é muito utilizada pelos partidos de direita radical da ‘grande invasão', da onda que vem do mar, da onda que vem de uma cultura diferente do Islão e que - dizem - nos vem de alguma forma assaltar e pôr em causa o nosso estilo de vida.” A reunião de hoje, que decorre por videoconferência, surge depois de uma carta assinada por 22 Estados-membros do bloco europeu, não subscrita por Portugal. Esses países lamentaram o que chamaram de “imigração descontrolada”, que constituiria uma “ameaça para a Europa”. Também chegaram a propor a exclusão de Espanha do espaço Schengen, a zona de livre circulação na Europa. É possível excluir a Espanha do espaço Schengen? Ceuta e Melilla pertencem ao espaço Schengen? “Ceuta e Melilla têm um estatuto específico dentro do espaço Schengen porque não é possível haver livre circulação entre os territórios de Ceuta e Melilla e o território continental espanhol. Não é possível à União Europeia excluir um Estado do espaço Schengen. Já foi feita uma proposta pela Comissão Europeia de ser a Comissão Europeia a decidir quando e em que circunstâncias se pode suspender do espaço Schengen. Essa proposta foi vetada, curiosamente, pelos parlamentos nacionais da União Europeia que invocaram o princípio da subsidiariedade e não deixaram que o poder de suspender um Estado do espaço Schengen coubesse à Comissão Europeia. Portanto, esse poder permanece nas mãos dos Estados e só um Estado pode decidir se uma determinada circunstância é grave o suficiente para que esse Estado tome a decisão de suspender o espaço Schengen e reinstaurar o controlo externo das fronteiras. No caso de Ceuta e Melilla, o governo espanhol não precisa de tomar essa decisão porque têm um estatuto especial dentro do espaço Schengen e isso é confirmado por documentos da própria União Europeia. A Espanha não precisa de suspender a livre circulação no espaço Schengen porque não há a possibilidade de haver livre circulação entre esses dois enclaves e o território continental espanhol. Ou seja, há verificação de documentos de identificação entre esses dois territórios que são autónomos e o território continental espanhol, exactamente porque se considera que Ceuta e Melilla são, digamos assim, os elos mais fracos de uma cadeia muito vasta que são as fronteiras externas do espaço Schengen. E como a robustez dessa cadeia depende da robustez dos elos mais fracos, a Ceuta e Melilla foi-lhes concedido este estatuto especial e não há possibilidade de se entrar no espaço continental espanhol e logo no espaço Schengen através de Ceuta e Melilla. E é por isso que a reacção italiana ou a reacção finlandesa ou mesma a reacção francesa noutro grau não têm grande sentido porque não é possível aos migrantes, como aliás se viu, entrarem no território continental espanhol via Ceuta ou via Melilla e depois passarem a circular livremente no espaço Schengen de forma regular. Não quer dizer que isso não aconteça de forma ilegal ou irregular, mas de forma regular isso não pode acontecer até porque nem Itália nem a Finlândia fazem fronteira directa com a Espanha, só França e Portugal é que estariam nessa situação. Por isso, a reacção, sobretudo italiana, quer de outros Estados europeus, não faz sentido no quadro das próprias leis do regime de Schengen.” Alguns analistas sugeriram que Marrocos poderia ter permitido a travessia dos migrantes para exercer pressão diplomática sobre Espanha, que recentemente melhorou as suas relações com a Argélia. As autoridades espanholas, por sua vez, responsabilizaram redes criminosas de difundir boatos sobre a questão do Tribunal Supremo Espanhol sobre a imigração. Qual é que é concretamente a política migratória espanhola? Pedro Sánchez tem uma visão diferente do resto dos europeus, uma visão mais aberta para acolher os migrantes? “Tem uma visão que é, ao mesmo tempo, mais humanista porque trata os migrantes como seres humanos, o que muitas vezes é esquecido na retórica dos partidos populistas de direita radical - e chamo a atenção que hoje saiu a notícia de que o governo espanhol está já atento ao facto de grande parte destes imigrantes serem menores não acompanhados e terem que ser, por exemplo, reintegrados em centros de acolhimento - mas também tem uma perspectiva particularmente pragmática porque com o envelhecimento demográfico nós sabemos que a Europa e a União Europeia precisa de mão-de-obra. E se nós ouvirmos os testemunhos destes jovens que fizeram a travessia, muitas vezes eles dizem: ‘Nós temos skills, nós temos profissões, nós temos coisas para dar aos europeus, nós podemos trabalhar'. A Europa precisa dessa mão-de-obra laboral, algo que muitas vezes é esquecido na retórica dos partidos de extrema-direita que rejeitam este tipo de fluxos migratórios, sabendo, por exemplo, que em Portugal, no sector da construção, há uma grande necessidade de mão-de-obra. Agora, não podemos pôr só o foco de análise nos governos europeus. O governo de Marrocos tem aqui um papel fundamental porque, de alguma forma, fechou os olhos a este fluxo massivo para Ceuta, porque tem problemas internos de desemprego, de instabilidade social que nós, quando olhamos para a questão migratória no sul da Europa, tendemos a esquecer. Portanto, não podemos olhar só para as políticas migratórias italiana, francesa, portuguesa e neste caso, espanhola. Também temos que olhar para os vectores que vêm do sul, ou seja, para os problemas que os países como Marrocos ou como a Argélia têm. E não estou só a falar de problemas de política internacional que têm a ver, por exemplo, com os acordos entre Espanha e Argélia que teriam beliscado a relação com Marrocos. Estou a falar de problemas de segurança humana, de escassez de recursos para manter a população. E é claro que essa pressão sentida por Marrocos faz com que estes países facilitem o trânsito, sobretudo de jovens que não conseguem empregar e que não conseguem integrar nas suas sociedades, para os países europeus. Temos que ter aqui uma análise, penso eu, mais abrangente. Olhar não só para as nossas necessidades enquanto país de acolhimento, mas também para as necessidades dos países que são a origem dos fluxos migratórios e é aquilo que a União Europeia tem estado a fazer nos últimos anos, e tentar eliminar as raízes dos fluxos migratórios, sobretudo ilegais, nos países de origem. E não nos esqueçamos que daqui a quatro anos e meio, Marrocos vai também organizar com Portugal e Espanha, o Campeonato do Mundo de Futebol e, portanto, vão aqui existir dinâmicas de fluxos migratórios possivelmente mais intensas e esta questão vai ser recorrente, mesmo que Espanha agora consiga reenviar para Marrocos como está a fazer com grande parte destes fluxos migratórios, esta questão será sempre recorrente. Como nós vimos, basta uma notícia começar a correr nas redes sociais de que haverá uma maior facilitação por parte de Espanha, uma perspectiva mais favorável em relação aos fluxos migratórios, para esta questão poder ser recorrente e poder ocorrer mais vezes.” O que aconteceu em Ceuta, com estes milhares de pessoas a tentarem entrar a nado, pode fechar ainda mais as portas da Europa? “Vem, no fundo, normalizar a ideia da ‘Europa Fortaleza', a Europa que mesmo estando com uma situação de inverno demográfico, não está disponível para aceitar fluxos migratórios que venham de países pobres e, sobretudo, fluxos migratórios que venham de países com práticas religiosas e práticas culturais muito distintas das nossas. Aqui a questão é que os partidos populistas de extrema-direita conseguiram normalizar a ideia de que os fluxos migratórios que vêm, por exemplo, do Norte de da África ou que vêm do Médio Oriente, mas sobretudo do Norte de África, são fluxos migratórios cujo objectivo é substituir a população nativa europeia, que - dizem - têm uma religião diferente porque têm práticas culturais diferentes, por isso são um perigo para a nossa sobrevivência enquanto cultura. Esta é uma ideia que não circula só nos partidos de direita radical, é uma ideia que foi internalizada pelos partidos de centro-direita e de centro-esquerda, sobretudo centro-direita, e que se está a tornar recorrente, não só a nível dos Estados como também ao nível da União Europeia. Repare que a Comissão, nas suas políticas de integração de migrantes, aconselha aos Estados que façam uma triagem da população migrante que quer efectivamente integrar nos seus Estados. Ou seja, a própria Comissão Europeia sinaliza aos Estados que prefere a integração, por exemplo, de migrantes altamente qualificados vindos de Estados que não coloquem uma ameaça existencial à sobrevivência daquilo que se considera ser a cultura europeia. Isto é um anátema porque a cultura europeia sempre foi mestiça, sempre foi feita de trocas, de interculturalidade, mas isto é obliviado por esta ideia da ‘grande invasão'. Ainda ontem eu ouvia comentários de analistas insuspeitos do centro a dizer que há uma vontade dos líderes religiosos islâmicos de colonizar a Europa. Isto não é dito por líderes de partidos de extrema-direita, é dito por analistas de política internacional, insuspeitos, de centro. Portanto, é uma ideia de que ‘a grande invasão' está em marcha e que, a longo prazo, o objectivo é voltar a colonizar certas áreas da Europa, por exemplo, a Península Ibérica, que já foi uma área islâmica.” Há um pacto de migrações e asilo da União Europeia. O que é que diz este pacto e as políticas migratórias de cada Estado-Membro são diferentes? “As políticas migratórias de cada Estado-Membro são muito diferentes porque na União Europeia está proibida a harmonização de políticas de integração. A União Europeia só tem políticas migratórias no que toca ao controlo das fronteiras externas, nomeadamente das fronteiras de Schengen. A União Europeia, porque não tem competências no campo das leis da nacionalidade, não pode interferir nas regras que cada Estado define para a integração de migrantes e está muito bem definido no Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia que a União Europeia não pode harmonizar nenhum tipo de regulamento que tenha a ver com integração de migrantes. O que significa que os Estados têm uma grande margem de manobra para definir as suas políticas migratórias internas porque a União Europeia só intervém na gestão das fronteiras externas e faz - isso é muito visível no tratado sobre o funcionamento da União Europeia, nas regras do espaço, liberdade, segurança e justiça - faz uma divisão muito vincada entre os cidadãos europeus e aquilo a que se chama os nacionais de países terceiros. Portanto, os Estados-Membros sentem-se com margem de manobra - e vão sentir que esta regra da não harmonização das políticas de integração vai prevalecer no futuro – sentem-se como margem de manobra para poderem definir as suas políticas migratórias. A União Europeia, no fundo, tem muito poucas competências para além da gestão do controlo do espaço Schengen no campo da migração e do asilo. Tem algumas competências no campo do acolhimento dos migrantes, mas o verdadeiro cerne das competências de migração e de integração - aqui as políticas de integração são fundamentais - está nas mãos dos Estados.”
Jornal da ONU com Ana Paula Loureiro. Esses são os destaques desta segunda-feira, 3 de agosto de 2026Combate ao ebola enfatiza riscos, ciência e solidariedade na ÁfricaRedução da natalidade leva a repensar educação na América Latina
Campanha presidencial: entremos na era das promessas que nunca serão cumpridas / Governo Lula continua gastando o que pode e não pode / Trump anuncia mais negociações. Irã desmente / Esses são assuntos em destaque na edição de hoje do Jornal do Boris
Mendonça autoriza e Lulinha será investigado / Trump diz que Hamas deporá armas / Tereza Cristina pode ser vice de Flávio / Esses são assuntos em destaque na edição de hoje do Jornal do Boris
Jornal da ONU com Monica Grayley. Esses são os destaques desta quinta-feira, 30 de julho.ONU alerta que vítimas de tráfico humano estão sendo forçadas a participar de golpes na internetFamílias ucranianas fogem para metrô para se proteger de ataques da Rússia
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Jornal da ONU com Ana Paula Loureiro. Esses são os destaques desta quarta-feira, 29 de julho de 202675 vozes influentes lançam declaração de solidariedade com refugiadosDoenças tropicais nos países lusófonos na mira da OMS
Durante muito tempo, o mercado olhou para as operadoras como utilities: empresas previsíveis, donas da infraestrutura por onde passavam voz, dados e internet.A Vivo quer desmontar essa tese. O CEO Christian Gebara diz que o objetivo da Vivo é ser, a cada dia, mais uma empresa de tecnologia – e menos apenas a companhia que simplesmente conecta o cliente.“O mercado financeiro chegou a nos falar que a Vivo seria simplesmente o canudo por onde passaria todo o conteúdo e que não teríamos nenhuma outra função que não fosse conectar. Eu nunca acreditei nisso,” Gebara disse ao McKinsey Talks.No segundo episódio do videocast, Gebara e Heitor Martins, sócio sênior da McKinsey, discutem uma mudança que vai muito além das telecomunicações: a corrida para transformar empresas tradicionais em ecossistemas digitais. Hoje, a Vivo já vende cloud, cyber, serviços financeiros, entretenimento, saúde e soluções de IoT. Esses novos negócios já representam mais de 12% da receita da companhia, com potencial de crescer nos próximos anos, segundo o CEO. Na visão de Heitor, a tecnologia permite que empresas antes confinadas a um setor avancem sobre outros mercados – algo que tem sido feito por bancos, varejistas, empresas de saúde e telcos no Brasil e no mundo. Ouça ao segundo episódio do McKinsey Talks, uma parceria do Brazil Journal com a McKinsey.
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O governo brasileiro decidiu ampliar a proteção contra a bactéria Streptococcus pneumoniae, ou pneumococo, que causa pneumonia, meningite e outras doenças que podem ser graves. Entre 2023 e 2025, cerca de 1.400 pessoas morreram de meningite no país. Segundo dados do Ministério da Saúde, entre janeiro e abril deste ano, o Brasil também registrou 47.285 casos de pneumonia, um dos maiores aumentos registrados nos últimos anos. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Para reverter essa tendência, o governo disponibilizou a vacina Pneumo 20 (vacina pneumocócica conjugada 20-valente, VPC20) nas unidades básicas de saúde e pontos de vacinação para crianças menores de cinco anos e grupos especiais. Entre eles, povos indígenas sem histórico de vacinação pneumocócica conjugada, idosos a partir de 60 anos acamados e/ou institucionalizados e pessoas com condições clínicas especiais atendidas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE). A Pneumo 20 substituirá a Pneumo 10, incluída no calendário vacinal infantil em 2010. O novo imunizante amplia a proteção de 10 para 20 sorotipos da bactéria pneumococo e inclui novos sorotipos, como 3, 6A e 19A, que causam doença pneumocócica invasiva. Mais de seis milhões de doses poderão ser disponibilizadas em 2026, de acordo com o governo brasileiro. Disponível na rede privada, o custo do imunizante pode chegar a R$ 600. A obstetra Adriana Ribeiro, diretora médica da Pfizer Brasil, explicou quais são os benefícios da vacina e por que ela apresenta um nível maior de proteção. A executiva é especialista em ginecologia e obstetrícia, com atuação em medicina fetal, tem pós-graduação em gerenciamento de projetos pela Universidade da Califórnia, em Irvine, e está na Pfizer desde 2011. “A PCV10, que era a vacina disponível na rede pública, não oferecia proteção contra dois sorotipos importantes do pneumococo, especialmente os sorotipos 3 e 19. Esses sorotipos estavam associados a mais de 50% das internações pela doença", lembra. O novo imunizante também amplia a proteção contra outros sorotipos prevalentes no país, como 8, 10A, 11A, 12F e 15B, aumentando a cobertura vacinal. Quais são os grupos podem tomar a vacina na rede pública? “É uma vacina que já estava disponível na rede privada e agora também integra a rede pública. No SUS, ela é oferecida para crianças de até 5 anos e para pacientes de risco atendidos pelos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE)", explica. Entre esses pacientes estão pessoas com imunidade comprometida, diabetes, hipertensão ou em tratamento oncológico com imunossupressão. Ao todo, mais de 20 condições dão direito à vacinação. "Até então, o sistema público utilizava a vacina PCV10 para criança e a cobertura oferecida pela PCV10 havia caído para cerca de 3%, porque os sorotipos predominantes da bactéria mudaram ao longo do tempo”, explica a executiva. “A vacina cumpriu seu papel, mas deixou de proteger contra os sorotipos que passaram a causar mais casos da doença. Com a introdução da PCV20, essa proteção sobe para cerca de 77%, representando um avanço significativo para a saúde pública.” Vigilância epidemiológica global O laboratório tem acesso a uma vigilância epidemiológica global de vírus e bactérias para antecipar tendências e preparar futuros imunizantes. “À medida que a circulação dos sorotipos muda, novas variantes podem emergir e ganhar relevância epidemiológica. É fundamental manter vigilância constante e estar preparado para desenvolver e incorporar novas vacinas que ampliem a proteção da população contra os sorotipos mais prevalentes.” Essa metodologia faz com que o imunizante seja eficaz em diferentes continentes. A vacina, explica Adriana Ribeiro, é conjugada e protege contra vários tipos de pneumococo ao mesmo tempo. “Em termos simples, é como se houvesse 20 ‘minivacinas' dentro de uma única vacina. Ela utiliza a tecnologia de vacina conjugada conhecida pela comunidade científica”, detalha a diretora médica do laboratório. Segundo a executiva, essa tecnologia é utilizada pela Pfizer há muitos anos nas vacinas pneumocócicas e tem um histórico consolidado de segurança e eficácia. No caso da PCV20 e de suas versões anteriores, os açúcares da cápsula dos 20 sorotipos do pneumococo são ligados a uma proteína chamada CRM197, uma versão inativada da toxina da difteria. Essa proteína ativa o sistema imunológico e ajuda o organismo a reconhecer melhor os sorotipos, gerando proteção. Adesão da população Nos últimos anos, a adesão vacinal voltou a crescer no Brasil e, após um período de queda, desde 2022 há uma recuperação das coberturas vacinais infantis, segundo dados do Ministério da Saúde. Para a diretora da Pfizer, a disseminação da desinformação contribuiu para esse cenário. Apresentadas com aparência de conteúdo científico, muitas notícias confundem o público. Embora pareçam baseadas em evidências, transmitem informações “falsas ou distorcidas”, ressalta. Esse fenômeno, lembra ela, não é exclusivo do Brasil. O crescimento da desinformação relacionada à saúde e às vacinas, diz, tem sido observado em diversos países e representa um desafio global para as estratégias de imunização e para a confiança da população nas vacinas. “É importante destacar que, para uma vacina ser incorporada ao mercado brasileiro, ela precisa passar por todas as etapas de desenvolvimento clínico e obter aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”, diz Adriana. A agência, reitera, é reconhecida pelo rigor de seus critérios regulatórios, o que garante que apenas vacinas com segurança e eficácia comprovadas sejam disponibilizadas à população. Esse processo contribuiu para a recuperação das coberturas vacinais observada nos últimos anos. No caso da vacina pneumocócica, por exemplo, o país já possui uma tradição consolidada de vacinação, o que favorece altas taxas de adesão. “Ao mesmo tempo, é fundamental que a população não apenas mantenha o calendário vacinal em dia, mas também esteja atenta às vacinas que exigem reforços ou revacinação ao longo da vida. É o caso, por exemplo, da vacina contra o tétano e de imunizantes recomendados em fases específicas, como a gestação." Em diferentes momentos da vida, é importante verificar a situação vacinal e atualizar a proteção quando necessário. A ampliação da cobertura depende tanto do acesso às vacinas quanto da oferta de informações confiáveis. Por isso, o combate à desinformação continua sendo um trabalho essencial e coletivo para fortalecer a confiança da população na vacinação.
Michelle candidata a presidente? / Eleição: Lula exagera nos gastos de publicidade / Forte terremoto no sul do Japão / Esses são assuntos em destaque na edição de hoje do Jornal do Boris
O estreito de Ormuz tornou-se uma das principais frentes do conflito no Médio Oriente. No primeiro episódio do Hoje, olhamos para o impacto da guerra em milhares de marinheiros que ficaram retidos em navios petroleiros no Golfo Pérsico, numa crise que a ONU descreveu como sem precedentes. Entre eles estava Daniela Brito, uma portuguesa que trabalha em navios petroleiros há quase 20 anos e que passou vários meses encurralada em Ormuz. Ao Hoje, conta como viveu esses dias numa zona de conflito e como conseguiu sair. “Aviões militares que nunca paravam, os primeiros drones a aparecerem durante a noite. Esses primeiros dias em que nós vimos essas coisas deram-nos a noção de que estávamos em guerra, ou numa zona de guerra, e de que corríamos perigo real”, recorda Daniela Brito. Para perceber o que está em causa nesta crise é preciso olhar para a importância estratégica do estreito, para o papel do Irão e de Omã e para as consequências de uma instabilidade que afecta uma das principais rotas de transporte de energia do mundo. A jornalista Maria João Guimarães, que acompanha o Médio Oriente há vários anos no PÚBLICO, explica porque é que Ormuz é uma peça central nesta disputa.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Nem todo fundo do poço parece um fracasso. Às vezes, por fora, ele se parece exatamente com o sucesso.No episódio 200, eu abro uma parte da minha história que quase nunca contei: o momento em que percebi que crescer, produzir e conquistar mais não significava necessariamente estar no caminho certo. Falo sobre os erros, as escolhas e as ilusões que me fizeram perder o controle e sobre tudo o que precisei simplificar, abandonar e reconstruir para voltar a viver uma vida que realmente fazia sentido para mim.Preencha aqui seu formulário de aplicação para o sparkz (mentoria empresarial focada em conteúdo e vendas): https://sparkzclub.com/podcastFaça o diagnóstico do seu negócio aqui (pra gente te ajudar da melhor forma): https://form.imatize.com.br/diagnostico
O Império da IA, com Karen HaoEm 2019 — tempos mais simples! — a jornalista Karen Hao foi fazer o primeiro “perfil” jornalístico da sua carreira, aquelas reportagens em que um jornalista passa dias acompanhando uma pessoa ou empresa, uma coisa meio biografia, meio retrato congelado no tempo.A tal empresa era uma startup do Vale do Silício, ainda pequena e desconhecida dos meros mortais como eu e você, mas que hoje é a mais valiosa da história: a OpenAI, também conhecida como “a criadora do ChatGPT”.A Karen Hao vendeu o projeto do perfil para o MIT Technology Review porque a OpenAI parecia, naquela época, uma startup diferente. O “open” no nome nasceu da visão de que inteligência artificial é um assunto tão importante para o futuro da humanidade que precisava ser explorado de um jeito aberto, compartilhando conhecimento com todo mundo, e mais preocupado em proteger esse tal futuro do que em só gerar lucro.Hoje, aqui direto de 2026, a gente já sabe que não foi exatamente isso que aconteceu. Com o tempo, a OpenAI se transformou numa empresa oficialmente voltada para o lucro como qualquer outra e chegou a ser processada por Elon Musk — um dos apoiadores iniciais do projeto — por quebrar essa promessa de ser ‘open'. Em maio, o Elno perdeu a causa, e a OpenAI agora se prepara para lançar as ações na bolsa e, pelos números atuais, já largar valendo mais de 1 trilhão de dólares.Mesmo em 2019, a Karen Hao sentiu que todo esse papo de “open” não era bem assim: segredos e competitividade em todas as conversas que ela ouvia na empresa. Publicou o tal perfil contando isso e o pessoal da OpenAI… não gostou muito. Achou que ela ia só falar bem deles, e a empresa cortou contato com ela por três anos.O Boa Noite Internet é uma publicação apoiada por pessoas como você, nosso público. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se um assinante gratuito ou pago.Até que, em maio do ano passado, ela lançou nos EUA o livro O império da IA: Por dentro da corrida irresponsável pela dominação total, que segue contando a história da OpenAI — e abre com a bizarra saída do Sam Altman, demitido do cargo de CEO por “nem sempre falar a verdade” ao conselho da empresa, para voltar quatro dias depois nos braços dos funcionários.Mas esse livro não é exatamente uma biografia da OpenAI. Para mim, é mais um retrato de todo o sistema empresarial em que vivemos hoje — inteligência artificial ou não. O importante é que ele acabou de sair no Brasil pela Editora Rocco, que me procurou para saber se eu queria entrevistá-la aqui no programa, aproveitando que ela veio participar do Esquenta do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. O congresso, aliás, acontece dia 30 de julho — vai lá no site da Abraji saber mais, quem sabe comprar seu ingresso.Mas enfim, claro que eu queria conversar com ela. Obrigado, Abraji, obrigado, pessoal da Rocco, pelo presente. Quem me conhece sabe que IA agora é um assunto muuuito importante no meu trabalho. Eu fico aqui tentando navegar o meio do caminho entre o fim do mundo exterminador do futuro e a utopia vendida por muita gente. Não acredito em nenhum dos dois cenários, falei disso com a Karen antes e durante a conversa. Mas no final da entrevista a gente volta para falar não só disso, como também de como o IA em Curso, minha comunidade de letramento contínuo em IA, se conecta com tudo. Com promoção? Pode ser. Quem ficar até o fim, verá.A entrevista foi gravada em inglês — a Karen também fala mandarim, mas não fala brazilian —, então vai funcionar assim. Se ouvir no áudio, vai ser a versão original, do mesmo jeito que foi com o Ted Chiang ano passado, para você botar o seu cursinho para trabalhar. Aqui no site boanoiteinternet.com.br você está acompanhando a transcrição completa traduzida, se quiser ler enquanto ouve. E no YouTube tem uma versão legendada. Assim, você entra na conversa do jeito que preferir.Combinado? Então, bora lá entender O Império da IA com Karen Hao, no Boa Noite Internet.Cris: Karen Hao, bem-vinda ao Boa Noite Internet.Karen Hao: Obrigada pelo convite.Cris: Que bom ter você aqui. Espero que o Brasil esteja te tratando bem durante a Copa do Mundo — a gente veio falar sobre isso. Hoje é dia de falar de futebol, de Copa do Mundo, quais são as chances de cada país. Mas a primeira coisa que você precisa saber sobre essa conversa é que eu não sou jornalista. Não sei fazer isso. Peço desculpas antecipadas à sua profissão e ao seu ofício.Além disso, você foi enganada. Eu não estou aqui pra te entrevistar. Isso aqui é uma sessão de terapia. Você vai me ajudar a superar meus traumas.Porque eu sou da… do que eu chamo de “geração esquecida” — sou geração X, nasci nos anos 70. Esquecida porque, nessa guerra de gerações, as pessoas esquecem que a gente existe, e isso é incrível, porque a gente causou muito estrago no planeta. O Elon Musk é geração X, então é só isso que você precisa saber sobre a minha turma. Gente como ele, ou como Marc Andreessen… eu cresci lendo e assistindo à ficção científica que dizia que tecnologia é a melhor coisa do mundo, que ciência e engenheiros são incríveis e vão nos levar pra um lugar incrível.Sou uma daquelas pessoas que, quando a internet surgiu, falou: a paz mundial está logo ali. O conhecimento a um clique de distância, o futuro vai ser incrível. E aqui estamos nós. Então, quando usei o GPT pela primeira vez, e depois o ChatGPT, fiquei super empolgado. Foi a primeira vez, desde a internet, que eu fiquei realmente empolgado.Tenho até uma certa fama de ser mal-humorado com tecnologia: Bitcoin é lavagem de dinheiro, Clubhouse não presta — e as pessoas, ah, Clubhouse é a próxima grande coisa. Mas quando a IA chegou, eu falei: isso é importante. Só que eu já não era mais aquela criança dos anos 70. Tinha crescido, tinha visto o que aconteceu com a internet, tinha trabalhado numa big tech. E estava em desespero com o sistema em que a IA estava sendo construída.Dito tudo isso, o seu livro, aqui, já nas livrarias, recebe provavelmente o melhor elogio que eu posso dar: é otimista. Não é uma lista de reclamações e gente má fazendo coisas más. Claro, você fala muito sobre a OpenAI — ela é o fio condutor da história, especialmente aqueles quatro dias em que o Sam Altman saiu e voltou. E é muito divertido de ler. Mas você toma o cuidado de ser otimista.E uma das coisas que você menciona é como as pessoas na OpenAI, e em todas essas empresas, dizem: “isso é inevitável, a gente tem que fazer”. Quero falar sobre isso. Mas a gente tem que começar pela pergunta que você provavelmente ouve em todo podcast, a do título — Império da IA. Por que império?E acho que essa pergunta é ainda mais relevante no Brasil, país do sul global, colonizado. Por que império da IA?Karen Hao: Antes de mais nada, obrigada por dizer que o livro é otimista. Muita gente não reconhece isso, mas é verdade. Eu escrevo com um profundo otimismo de que os danos que a gente vê podem mudar. Não faria o trabalho que faço se não achasse que as coisas vão mudar.Sobre por que eu uso a expressão império, ou império da IA: a forma como empresas como a OpenAI operam é impressionantemente parecida com a dos impérios antigos. Eu traço quatro paralelos no livro. O primeiro é que elas reivindicam recursos que não são delas — os dados das pessoas, a propriedade intelectual de artistas, criadores como você, jornalistas.Segundo, elas exploram uma quantidade extraordinária de mão de obra. Isso vale tanto para os trabalhadores da cadeia de produção de IA, mal pagos e maltratados, que ainda assim geram uma riqueza extraordinária para essas empresas, quanto para os trabalhadores cujos empregos são automatizados e cujos direitos são corroídos pela implantação dessas tecnologias em diferentes setores.A terceira característica é que impérios controlam os fluxos de informação na sociedade. Essas empresas censuram a pesquisa fundamental sobre essas tecnologias, o que limita nossa capacidade de entender as verdadeiras limitações e capacidades dos modelos que desenvolvem. E estão criando uma tecnologia de informação que tentam transformar no portal único pelo qual qualquer pessoa se relaciona com o mundo.Esse portal impregna as ideologias do Vale do Silício, seus sistemas de valores, sua língua, e projeta a hegemonia do inglês. Isso influencia boa parte do conhecimento que a gente vai produzir daqui pra frente, porque cientistas e educadores usam essas plataformas e acabam perpetuando essas mesmas ideologias e valores.E o quarto e último paralelo é que impérios sempre se agarram a uma narrativa existencial ou moral sobre por que precisam existir. Essas empresas fazem a mesma coisa. Dizem que são o “império do bem”, numa missão civilizatória de trazer progresso e modernidade pra toda a humanidade, competindo contra um “império do mal” que ameaça mandar a humanidade pro inferno.Quando você conversa com algumas pessoas dentro dessas empresas, ou que as lideram, elas dizem: se você nos deixar construir uma inteligência artificial geral, que elas de alguma forma moldam como um deus, a gente vai acabar numa espécie de utopia, um paraíso onde a mudança climática é resolvida, o câncer é curado, a pobreza é aliviada.Mas, se os caras maus conseguirem isso antes, a gente pode acabar com todos os humanos mortos — um risco de extinção pra todos nós.Cris: E eles vêm dizendo isso há quase dez anos, e ainda usam como ferramenta. A gente está num país que foi influenciado por três impérios ao longo da história: Portugal, Inglaterra e agora os Estados Unidos. Então a gente olha pra essas empresas de um jeito meio cínico: sim, sim, já conhecemos essa história.Mas, ao mesmo tempo, ano passado, o Pew Research Center fez uma pesquisa sobre como o mundo enxerga a IA, e o sul global é bem mais otimista do que o norte. Uma das razões é a ideia de democratizar — não só informação, mas: ah, finalmente eu posso montar uma startup, sair desse lugar de exploração e criar o unicórnio de um bilhão de dólares. Os números são grandes na China. Países em desenvolvimento veem muito mais benefício do que risco na IA.China, 83%. Tailândia, 77%. Holanda, 36%. Canadá, 40%. Será que a gente está deixando passar alguma coisa? A gente está certo? Isso está democratizando mesmo? Até que ponto?Karen Hao: Provavelmente tem duas razões. Uma é que muitos dos danos que a indústria de IA causa à maioria global são bem escondidos. Ela se esforça muito pra esconder como polui o ambiente dessas comunidades, como explora e devasta a mão de obra, deixando traumas psicológicos — como documento no livro.E, recentemente, li um artigo de opinião no New York Times que trazia um bom ponto: muitas economias desenvolvidas estão especialmente atentas ao potencial da IA de desmontar oportunidades de emprego de tempo integral. A gente começa a ver isso cada vez mais. Já na maioria global, muito mais gente vive em economias informais, e aí a ideia de que a IA vai tomar um emprego de tempo integral não pesa tanto.Então os danos mais visíveis — a erosão do emprego formal de tempo integral — pesam mais no norte global, ou pelo menos é lá que as pessoas se sentem mais ansiosas. E os danos invisíveis, que atingem o sul global, ninguém percebe tanto, justamente porque são invisíveis. É meio por isso que tanta gente sente essa divisão que aparece na pesquisa do Pew.Cris: Eu tenho acompanhado as notícias sobre IA no Brasil, e toda semana tem um novo data center sendo construído em alguma cidade. Isso é vendido como uma coisa boa: que ótimo investimento, gera emprego. E me fez pensar de novo — a gente passou por três impérios, mas algumas famílias no Brasil, e aposto que em outros lugares também, estão no poder há 500 anos ao longo da história do país.Então, ao mesmo tempo, a gente pensa: é, estamos sendo explorados, é a mesma coisa. Eu já não tenho emprego, então deixa eu usar essa tecnologia pra melhorar minha vida. Mas as pessoas que realmente tomam as decisões, de novo, nos últimos 500 anos, se perguntaram: como a gente ajuda esse pessoal a explorar nosso país de um jeito que nos mantenha no poder e nos dê muito dinheiro?Mas também foi verdade que, sei lá, a Volkswagen abre uma fábrica no Brasil e aquilo gera emprego, contrata gente pro chão de fábrica e pros escritórios. Como é que isso é diferente com a IA?Karen Hao: De certa forma, não é diferente. Existe um fenômeno parecido: a indústria de IA terceiriza muitos dos trabalhos que ela não quer dentro dos centros de poder, e joga isso pra comunidades empobrecidas, do mesmo jeito que outras multinacionais fizeram por décadas.Mas também é diferente, porque a escala dos impactos trabalhistas e ambientais da IA é completamente outra, muito maior que a da indústria automobilística ou da moda. E a velocidade é outra, porque são tecnologias digitais que atravessam fronteiras muito rápido.E é diferente porque a maioria das pessoas não percebe que a IA, mesmo sendo tecnologia digital, tem uma cadeia de suprimentos muito física e intensiva em mão de obra manual.Quando você compra roupa, café, um carro, é mais óbvio que existem materiais que precisam ser extraídos e depois manuseados por pessoas pra criar aquele produto. Já com a IA, a maioria aceita a narrativa que o Vale do Silício projeta: a de que isso vem da “nuvem”, desses espaços etéreos que parecem nem existir no planeta. E a verdade é exatamente o oposto.Ela depende de uma quantidade extraordinária de extração mineral. Depende da construção de infraestruturas enormes — data centers, instalações de supercomputação espalhadas pelo mundo. E depende de muita, muita mão de obra manual: trabalhadores de dados que limpam, preparam e moderam o conteúdo dos sistemas de IA que chegam até você quando usa o ChatGPT.É isso que a torna tão diferente. E há também uma ideologia completamente diferente sustentando a expansão da IA. Quando você conversa com executivos da moda, eles não vão dizer: se você não comprar nossa roupa, vai pro inferno.Já a indústria de IA diz: se você não nos deixar capturar cada vez mais terra, mais recursos e mais mão de obra pra produzir essas tecnologias, vamos ter uma destruição civilizacional. Isso é, ao mesmo tempo, retórica política usada como arma pra moldar o debate público e a cabeça de quem formula políticas, e também está enraizado num sistema de crenças — algumas pessoas dentro dessas empresas realmente acreditam que, se uma AGI fosse construída, e construída nas mãos erradas, isso levaria mesmo a esse tipo de destruição.E é isso que move a sede cada vez maior da indústria por mais capital, mais recursos e mais terra.Cris: Eu quero falar sobre AGI, mas antes: ano passado, a OpenAI estava sendo processada no Reino Unido por violação de direitos autorais, basicamente todos os livros do mundo digitalizados e usados pra treinar modelos. E um dos executivos disse ao júri: bem, se a gente não puder fazer isso, fecha as portas. Me chocou que muita gente reagiu com um “ah, tá, o que a gente pode fazer? Eles vão fechar as portas”.Em parte porque a gente já está acostumado com essa narrativa. Outro dia, numa conferência, um ex-CEO dizia: a gente teve que usar embalagem de plástico porque é mais barata que papel, senão prejudicaria nosso resultado. E a plateia reagia: ah, então é só fechar as portas — a sociedade não pode arcar com isso.Mas isso também, como você disse, se conecta à ideia de uma grande missão, uma missão de salvar o mundo, que a gente precisa cumprir antes que seja tarde, senão estamos condenados. OpenAI está literalmente no nome — só que em português não é tão direto: é “inteligência artificial aberta”.Foi criada a partir de um sonho, um projeto que era pra ser uma coisa pro bem comum. Em 2019, num tempo bem distante, antes da pandemia, você cobriu a OpenAI, foi até o escritório deles, ficou lá dentro. O que você viu? E, mais importante, como essa missão mudou? O Elon Musk os processou outro dia justamente por mudarem a missão. Isso alguma vez foi verdade? Em algum momento eles pensaram mesmo “ah, a gente vai salvar o mundo”?Como essa narrativa de ser aberta funciona com a OpenAI?Karen Hao: Quando comecei a cobrir a OpenAI, levei a sério o que eles diziam — que tinham sido recrutados com a missão de beneficiar toda a humanidade. E aí, quando me infiltrei na empresa, fui ficando bem mais cética, porque via como eles operavam de um jeito completamente diferente, portas adentro, do que diziam em público.Diziam que iam publicar todas as pesquisas e abrir o código de tudo, e na prática eram uma das organizações mais secretas que já cobri. Eram muitas discrepâncias, e, na época, presumi que tinha havido algum tipo de corrupção que os levou a abandonar a missão original. Depois de cobrir a empresa por mais alguns anos e de trabalhar neste livro, mudei de ideia até sobre a missão original.Não acho mais que ela era um esforço sincero e generoso de beneficiar a humanidade. A missão foi criada pra dar à empresa — na época, uma organização sem fins lucrativos — uma margem de manobra extraordinária pra depois levantar muito capital, acumular muito talento e perseguir a força motriz de verdade por trás de tudo aquilo: se tornar a força dominante no desenvolvimento de IA.E penso assim agora porque, quando você olha pras narrativas de cada nova empresa de IA no começo — a Anthropic, a xAI, a Safe Superintelligence do Ilya Sutskever, a Thinking Machines Lab da Mira Murati —, todas usam a mesma narrativa da OpenAI: nós somos os mocinhos, eles são os bandidos.É por isso que precisamos criar uma nova empresa que avance a IA do nosso jeito, não do deles. E você começa a perceber, por esse padrão, que eles repetem a mesma coisa em parte porque acreditam nela até certo ponto, mas também porque ela funciona muito bem com a imprensa, com o público, com quem formula políticas.No livro, eu reproduzo os e-mails internos que Elon Musk, Sam Altman e Greg Brockman trocavam nos primeiros dias da OpenAI. Eles tinham plena consciência de que estavam criando uma missão que soasse bem para o público. E o propósito de verdade, que também deixaram registrado nesses e-mails, era vencer o Google. Viam o Google como a força dominante em IA e queriam ser eles essa força.Não gostavam de ver o Google na frente, então inventaram justificativas: o Google é uma empresa com fins lucrativos, então nós vamos ser sem fins lucrativos. Mas, no fundo, acho que era puro ego: tem que ser a gente, não eles, a gente quer ser quem lidera isso.E aí passaram um tempão moldando essa missão pública, que acabou sendo super útil pra recrutar o primeiro grupo de pesquisadores e turbinar o avanço deles.Cris: Então agora é um bom momento pra falar de AGI, a inteligência artificial geral. Muita gente pergunta: o que é AGI? O que “geral” quer dizer? E a impressão que peguei lendo seu livro é que, por design, isso nunca fica claro de verdade, porque é um alvo móvel. Essas empresas um dia vão dizer “chegamos, alcançamos a AGI”? Ou o plano é sempre “não, não, ainda não chegamos, me dá mais dinheiro, me dá mais poder”?Qual é o papel da AGI na narrativa dessas empresas?Karen Hao: Já que a gente está falando de ficção científica, eu costumo usar a analogia de que o mundo da IA é meio como Duna. Em Duna, o personagem principal, Paul Atreides, entende, ao chegar no planeta Arrakis, que o povo de lá foi semeado com um mito: o de que um dia viria um Messias pra libertá-los. Ele sabe que é um mito, mas decide entrar nele e agir como se fosse o Messias pra controlar melhor aquele povo.E, vivendo, respirando e encarnando esse mito dia após dia, ele começa a perder a noção de que é um mito. Passa a se perguntar se o mito era mesmo verdadeiro ou se foi ele quem o tornou verdadeiro. É essa confusão entre mito e realidade — ele vive num espaço intermediário, sem ter mais certeza do que é verdade e do que é ficção.E trago isso pra responder sobre a AGI porque a AGI é, ao mesmo tempo, um mito e algo que os líderes e os trabalhadores dessas empresas vivem, respiram e encarnam dia após dia, a ponto de perderem a noção do que é mito e do que é realidade. É a ideia de um sistema de IA teórico que um dia igualaria as capacidades humanas. Só que a gente nem tem consenso científico sobre o que é inteligência humana.Por isso, de certa forma, por design, é um termo bem maleável, que deixa essas empresas fazerem o que quiserem. Elas definem e redefinem a AGI conforme a necessidade, movem a trave pra onde quiserem. E, ao mesmo tempo, isso é sustentado por uma crença genuína de certas pessoas lá dentro, por causa dessa confusão entre mito e realidade. Pelas minhas contas, a OpenAI já usou pelo menos quatro definições diferentes de AGI.A primeira está no site deles: “sistemas altamente autônomos que superam humanos na maioria dos trabalhos economicamente valiosos”. É uma definição de automação do trabalho — eles dizem, de forma explícita, que estão atrás dos empregos mais bem pagos. A segunda apareceu no contrato com a Microsoft, por um tempo a maior investidora deles: ali, a AGI virou um sistema que geraria 100 bilhões de dólares em receita.Ou seja, uma definição feita pra incentivar a Microsoft a investir. Já o Sam Altman disse ao Congresso que AGI é um sistema que cura o câncer e resolve a mudança climática — uma definição de benefício social, muito útil quando você quer que os reguladores não te regulem.E, por fim, quando falam com o consumidor, dizem que vai ser o melhor assistente digital que você já teve — porque, claro, estão tentando vender o produto.E aí você percebe duas coisas. Primeiro, que é um conjunto de definições completamente incoerente. Segundo, que eles trocam de definição conforme o público que querem convencer. Mas também tem gente nessas empresas que acredita de verdade que está construindo uma tecnologia capaz de dar conta das quatro coisas.Então é uma realidade bem confusa e complicada: o que a AGI de fato é, e pra que ela serve, para essas empresas, para a agenda delas e também para as crenças delas.Cris: Como ex-funcionário da Meta — entrei em 2013 —, a missão era unir o mundo e torná-lo mais aberto e conectado. É uma missão incrível. E tem uma coisa que eu sempre digo, porque muito amigo meu vem falar comigo, “ah, esse cara da OpenAI, ou a própria Meta, são maus”. Eu conheci muita gente na empresa. Nunca conheci uma pessoa mal-intencionada.Todo mundo, independente da missão, era gente boa tentando entregar o melhor produto possível, pra dar poder a quem tem um pequeno negócio, por exemplo. Tenho amigos pessoais que construíram a empresa deles em cima da publicidade do Facebook e do Instagram. E esse é justamente o problema, porque ainda assim é uma corporação muito má, pelo que ela causa ao mundo pra bater as metas de negócio.Ou seja, você não precisa de um vilão tipo Lex Luthor pra causar um estrago desse tamanho no mundo. E adorei a referência a Duna. Duna é engraçado: é o livro que eu mais reli na vida que não foi escrito pelo Tolkien. Li o primeiro Duna umas três vezes, e toda vez é como se fosse um livro diferente. Na primeira, eu era adolescente, e era só o Paul Atreides, o cara durão.Na segunda, eu morava no Canadá e li com olhos de estrangeiro, pensando em colonização. E na terceira vez foi quando os filmes do Denis Villeneuve saíram, e aí era: ah, o Bene Gesserit criou esse mito, isso é meio pós-moderno. Narrativamente, fico me perguntando o que vai significar pra mim se eu ler uma quarta vez.Karen Hao: Eu ia te perguntar isso. Quando você disse que cresceu numa época cheia de ficção científica falando das maravilhas da tecnologia, fiquei curiosa: que histórias você estava lendo? Porque muita coisa que saiu nos anos 70 e 80 dizia exatamente o oposto. E muita gente já apontou que os executivos de tecnologia de hoje, que vivem citando essas histórias, interpretam elas justamente ao contrário da intenção original.Cris: Concordo plenamente. Mas, respondendo: foi basicamente Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. E é por isso mesmo — os executivos de tecnologia, e o Elon Musk mais que todos, leem esses livros como receita, não como aviso. O livro de que eu mais me lembro, nem lembro o título, era um do Asimov em que ele descreve o elevador espacial que aparece na série da Apple TV, Fundação.E o enredo é: eu sou esse engenheiro brilhante, quero construir essa coisa no Sri Lanka, mas o governo trava tudo com regulação — eu sou um gênio e a regulação é a vilã. Hoje eu leio e penso: ah, sei. Mas, quando garoto, era só “olha, um elevador espacial, que genial, a gente nem precisa de foguete”. E aí você começa a entender. E aí eu parei de ler esses caras.E passei a ler gente com uma visão completamente diferente: o Ted Chiang, que entrevistei ano passado, a N.K. Jemisin, o Cory Doctorow, de quem sou muito fã. E talvez eles sejam mais explícitos, pra gente burra como eu entender: “não, bobo, a analogia é essa”. Mas Duna era incrível — vermes gigantes de areia, o tal garoto durão, e aquela coisa do “eu não aceito o meu destino”.Tenho esse grande destino, mas não quero ele. Do resto da série eu já não gosto tanto. Mas o mais importante de tudo: Duna gerou o melhor GIF de filme de todos os tempos, o “Lisan al Gaib” do Javier Bardem — que eu devia ter colocado durante a sua explicação, aquele “uau, ele está cumprindo a profecia, agindo como o profeta”.Mas, de novo, falando de vilões: você mencionou que essas empresas se colocam como o bem contra o mal, feito impérios antigos. Só que elas também jogam a carta da China, né? “Se a gente não fizer, a Rússia faz primeiro.” Só que a Rússia começou uma guerra e está ocupada demais. “Mas a China chega lá, e é por isso que a gente tem que ser fechado.” É por isso que Mythos e Fable e agora o GPT-5.6 foram proibidos pelo governo. Isso tem fundamento?Quero saber se é possível a China competir — quero mesmo essa resposta — mas também porque, desde toda essa conversa do Fable-Mythos, países como Índia e Brasil vêm dizendo que precisam de um modelo soberano. Dá pra fazer, ou a OpenAI, a Anthropic e o Google estão tão à frente que já não dá?Karen Hao: Sobre a China: você está certíssimo, o Vale do Silício usou por anos a carta do “e a China?” pra escapar de qualquer responsabilização de verdade. Fizeram muito isso na era das redes sociais.A Meta fez muito isso, com o Mark Zuckerberg dizendo ao governo dos EUA: vocês não podem nos regular, senão a gente perde. Mas, se a gente ganhar, vai ter um efeito liberalizante no mundo e nas democracias em todo lugar. E, infelizmente, o que a gente viu foi que jogar essa carta repetidamente produziu exatamente o efeito contrário do que o Vale do Silício prometeu.Uma das empresas de rede social dominantes dessa era é a ByteDance. Ou seja, mesmo sem regulação das redes sociais nos EUA, existe uma empresa chinesa de rede social bem dominante. E as redes sociais estadunidenses acabaram tendo um efeito antiliberal no mundo — é bastante consensual que enfraqueceram democracias em todo lugar. E aí, na era da IA, elas seguiram jogando a mesma carta.Mas o que eu sempre aponto é que a gente definitivamente não devia acreditar nelas. Já existe evidência significativa de que tudo o que elas dizem está, de novo, se provando o oposto. Elas disseram: não regulem a gente como empresas de IA, regulem a China, via controles de exportação — um mecanismo do governo dos EUA com alcance extraterritorial.Só que as empresas chinesas agora estão produzindo modelos de IA de código aberto extremamente eficientes, que viraram super populares no próprio Vale do Silício. Existe um monte de startup de lá que prefere usar modelo chinês a OpenAI, Anthropic ou Google.Então, nesse sentido, é um conjunto de evidências bem decisivo, acho, pra mostrar que a gente devia simplesmente responsabilizar essas empresas, não importa o que digam sobre “ah, vamos perder pra China”. No fim das contas, é só retórica política. Não é um argumento real que elas consigam sustentar pra escapar da responsabilização.Responsabilizá-las vai fortalecer a democracia pelo mundo, vai trazer mais direitos humanos, trabalhistas e de privacidade de dados pras pessoas — é sempre o contrário do que elas dizem que aconteceria. E, sobre a sua pergunta em torno da IA soberana: acho a ideia realmente importante, mas acho também que muitos países estão meio confusos sobre o que querem dizer com isso.Muitos governos, hoje, pensam a IA soberana pela pergunta: a gente consegue construir o nosso próprio ChatGPT? O nosso próprio grande modelo de linguagem, o nosso sistema de IA generativa? Estão olhando só pro modelo que o Vale do Silício já definiu e tentando descobrir como recriar aquilo.E o que eu digo pra quem formula políticas é: defina pra que a IA serve no seu país, no seu contexto. Quais são, no fim das contas, os objetivos do seu país? Os objetivos do seu povo? E também os nossos objetivos coletivos, entre países?Porque a gente tem, por exemplo, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Já definimos coletivamente que há coisas que precisamos resolver juntos: superar a crise climática, reduzir a pobreza, melhorar a educação.E, enquanto o Vale do Silício adora dizer que está fazendo tudo isso, na prática não está. Mas a gente poderia — poderia desenvolver, de forma colaborativa, sistemas de IA que realmente avançassem em cada um desses objetivos coletivos que já acordamos.E cada país também devia fazer o exercício: quais objetivos você quer alcançar, e que tipos de sistema de IA você poderia desenhar pra chegar lá — sistemas que talvez não se pareçam em nada com um grande modelo de linguagem. Se os países fizessem isso, acho que descobririam que a maioria dos sistemas de que precisam exigiria muito menos recursos.Ou seja, contextos como o Brasil, a Índia e outros, quando não precisam competir construindo essas infraestruturas de computação gigantescas e gastando centenas de bilhões de dólares, na verdade já têm, localmente, todos os recursos necessários pra desenvolver um sistema de IA soberano.Cris: Quando ouvi falar do seu livro pela primeira vez, uma amiga me disse que você não poupa ninguém — fala mal do Sam Altman, mas também do Dario Amodei. E as pessoas costumam escolher um lado. Eu sou time Claude, odeio o ChatGPT, essas coisas. Então cheguei no livro pensando: ah, é mais um livro dizendo que a IA é terrível, que a gente não devia usar IA.Mas, conforme fui lendo, e ouvindo outras entrevistas suas, me pareceu que o seu problema é justamente o que você acabou de descrever: a forma como essa tecnologia é feita. E, em especial, a palavra escala — a ideia de que a solução é a escala. O que você quer dizer com isso?Karen Hao: Eu costumo usar a analogia de que “IA” é como a palavra “transporte”: na verdade se refere a uma coleção de tecnologias que vão da bicicleta ao foguete. São tipos bem, bem diferentes de tecnologia, que exigem insumos diferentes pra se desenvolver e depois têm impactos diferentes na sociedade.E você está certo: sou especificamente crítica ao que chamo de “foguetes da IA”, os sistemas que os impérios da IA estão desenvolvendo, aqueles que exigem uma quantidade enorme de exploração de mão de obra e extração ambiental.E sou bem otimista com o que chamo de “bicicletas da IA”: sistemas especializados, eficientes, com bom custo-benefício, governáveis pelas pessoas, cujo desenvolvimento pode ser participativo. Países como o Brasil, o Chile, a Índia, qualquer contexto, têm recursos pra desenvolver e se autodefinir, em vez de simplesmente herdar um sistema criado pelos dois únicos centros do mundo capazes de gastar uma quantidade extraordinária de capital: o Vale do Silício e o ecossistema tecnológico chinês.E o motivo pelo qual eu acho tão corrosivo o que os impérios da IA estão desenvolvendo é exatamente o que você disse: a forma como eles fazem isso, por um mecanismo de força bruta pra avançar as capacidades da IA em escala. Eles vão simplesmente empurrando cada vez mais dados de treinamento nesses modelos, e isso exige corroer a privacidade das pessoas, tomar a propriedade intelectual delas e, ainda por cima, baixa a qualidade dos dados que entram nos modelos — o que leva aos danos de exploração de mão de obra, porque aí você tem que dar conta da moderação de conteúdo.E aí você tem pessoas psicologicamente traumatizadas por serem expostas a todo aquele conteúdo horrível que se tenta “lavar” através desses modelos.E aí vem o problema dessas infraestruturas de computação enormes, com impactos ambientais que aumentam a conta de luz das comunidades que as hospedam e agravam a crise de custo de vida. Elas precisam ser alimentadas por fontes fósseis, que jogam mais carbono na atmosfera e mais poluição no ar dessas comunidades.Então todos os problemas que eu identifico, no que têm de corrosivo, derivam inteiramente da abordagem deles pro desenvolvimento de IA. Por que não descartar a abordagem, em vez de descartar a tecnologia? Redefinir e redesenhar de que tipos de sistema de IA a gente precisa de verdade, com uma cadeia de suprimentos fundamentalmente diferente. E isso não é exclusivo da IA.A gente já viu muitas outras indústrias que começaram com uma cadeia de suprimentos bem ruim. A moda, por exemplo: muita degradação ambiental, muita exploração de mão de obra.Com muita organização, protesto, ação de consumidores, regulação governamental e cooperação entre governos, a gente conseguiu criar mercados novos pra moda sustentável e ética, cadeias de suprimentos novas e inovações pra fazer roupa mais saudável pras pessoas e pro planeta.E é basicamente isso que eu defendo: transformar a indústria de IA do mesmo jeito que transformamos a moda, e as cadeias de suprimento de alimentos. Assim a gente fica com os benefícios da tecnologia, ajuda ela a avançar os objetivos que importam pra gente, sem jogar uma fração enorme da população mundial numa condição atrasada e numa qualidade de vida pior.Cris: O Brasil está agora, no Congresso, discutindo a escala de seis dias por semana. A regra atual é: você trabalha seis dias e descansa um. E muitas empresas, o comércio principalmente, dizem “vamos fechar as portas”, e os trabalhadores respondem “isso é problema seu, não meu”. É mais ou menos a mesma narrativa dessas empresas de IA: se eu não usar a sua água, a Idade das Trevas está chegando.Falando em Idade das Trevas, e falando em bicicleta: a sua analogia me lembrou uma coisa. Eu gosto de jogo de zumbi, de mundo aberto, e em nenhum deles tem bicicleta. Num desses jogos, instalei um plugin que deixava andar de bicicleta — você acha uma e sai pedalando. E aí entendi por que não tem bicicleta: desbalanceia tudo. Parte da graça do jogo é você precisar achar um carro, e daí pneu, gasolina, comida pra carregar. De bicicleta, você vai a qualquer lugar.E eu pensei: ah, é. Meio que estraguei o jogo pra mim, porque agora tenho uma bicicleta, é incrível. Enfim, em termos práticos: no fim do ano passado, uns meses atrás, a revista Wired publicou um artigo pedindo pra jornalistas de tecnologia contarem como usam IA no trabalho. E cada um usava de um jeito. Você usa IA no seu trabalho? Como?Karen Hao: Eu não uso nenhum sistema de IA generativa no trabalho — nem ChatGPT, nem Gemini, nem Claude. Por três motivos. O primeiro é uma postura ética, depois de tanto investigar essas empresas. O segundo é privacidade de dados: eu investigo essas empresas.Não quero que elas conheçam todo o meu raciocínio enquanto eu apuro o livro, literalmente investigando elas. E o terceiro é que, no meu caso específico, a força do meu trabalho está na capacidade de construir relações fortes com as fontes, pela empatia, e de contar histórias envolventes, pela narrativa. E os grandes modelos de linguagem simplesmente não são a ferramenta certa pra nenhuma das duas coisas.Não vão melhorar a minha empatia nem a minha escrita. Então eu não perco nada com essa postura ética: simplesmente corto essas ferramentas e sigo fazendo o meu trabalho muito bem. Pra outros jornalistas pode ser diferente, e pra quem está em outras áreas o cálculo pode ser outro.Mas eu incentivo as pessoas a pensarem primeiro: quais são as suas forças no trabalho? Quais são os seus objetivos? E aí ir de trás pra frente pra descobrir se a IA é a ferramenta certa, qual tipo de IA é a ferramenta certa, e qual fornecedor você quer de fato usar, apoiar, votar com os pés. Agora, eu uso, sim, IA preditiva.Aquelas ferramentas de IA especializadas, as “bicicletas da IA”, digamos. No livro, tinha um detalhe que eu queria muito ilustrar: como a OpenAI deu um salto quando passou de organização sem fins lucrativos a um empreendimento bancado pela Microsoft. Percebi que as cadeiras do escritório ficaram bem mais caras. Então fotografei as cadeiras de um escritório e as do outro.E joguei tudo na busca reversa de imagens do Google, que é um sistema de IA especializado — não é baseado em grandes modelos de linguagem, não é IA generativa. Assim descobri quanto essas cadeiras costumam custar. No primeiro escritório, cerca de 2 mil dólares por cadeira. No segundo, eram cadeiras de um designer brasileiro famoso, uns 10 mil dólares cada.Coloquei esse detalhe no livro pra ilustrar o tipo de riqueza e de concentração de recursos de que a gente está falando. Esses são alguns dos jeitos como eu uso IA, ainda que de forma bem limitada, sempre pontual, quando acho que vai ajudar. E, claro, uso ferramentas de transcrição por IA — outra IA especializada — em todas as minhas entrevistas.Cris: Essa foi uma das partes em que a minha cabeça explodiu, eu nunca tinha percebido: a OpenAI criou o Whisper. Deixa eu dizer de outro jeito, do meu ponto de vista. A OpenAI liberou abertamente essa ferramenta incrível de transcrição, o Whisper, em que eu jogo o áudio e ela me devolve as palavras que as pessoas disseram. E eu pensei: ah, que generoso da parte deles.Mas o motivo real de terem criado a ferramenta foi pegar todos os vídeos do YouTube, transcrever e alimentar a máquina. E aí é: ah, claro. Enfim, falando de ferramentas e de otimismo — a gente está chegando ao fim da conversa. Eu tenho uma regra desde o episódio dois deste programa, há oito anos: de novo, como eu disse do seu livro, não pode ser só uma lista de reclamações e coisa ruim. E a gente tem se saído bem até aqui.Você falou de caminhos e de bicicletas, mas eu quero ser mais específico. Se isso aqui fosse uma reunião de negócios: qual é o plano de ação, quais são os próximos passos? Só que uma das coisas que eu repito bastante, na vida e neste programa, é que problema sistêmico não se resolve com ação individual. Se eu tomar banhos mais curtos, isso nunca vai salvar o planeta do aquecimento global.E muitos amigos meus simplesmente: não quero falar de IA, não quero usar IA. Voltando aos videogames: leram que tal jogo usa IA e pronto, não vão jogar. E a minha primeira pergunta pra você é: como a gente ocupa esses espaços da IA generativa — ChatGPT, Gemini e por aí vai? Porque o que a gente viu com as redes sociais foi: ah, o Facebook é do mal, vou sair do Facebook. Ah, vou sair do Twitter.E, na esperança de quê, sei lá, talvez alguém diga: ah, sinto falta do Cris, cadê ele? Ah, está no Bluesky. Mas isso deixa o espaço aberto pra os radicais entrarem e postarem o que quiserem, sem ninguém contrapor ou tornar aquilo um lugar melhor. Então como a gente ocupa o espaço da IA — seja qual for a definição de “espaço da IA” que você preferir — com todos esses problemas que a gente vem discutindo?Karen Hao: Acho que tem duas categorias de ação pra gente pensar. Uma é desmantelar o império. A outra é investir e construir novos tipos de sistema de IA, que se tornem alternativas às tecnologias do império. Quando eu digo desmantelar o império, não estou dizendo que quero que a OpenAI, o Google, a Anthropic, seja quem for, simplesmente deixem de existir.É que eu não quero que elas sejam imperiais. Não quero que fiquem extraindo uma quantidade extraordinária de valor sem redistribuir nada em troca. Se elas voltassem a ser negócios que praticam uma troca justa de valor com o mundo, eu ficaria perfeitamente feliz com qualquer tecnologia que estivessem desenvolvendo.E a forma de desmantelar o império, acho, se resume a muita organização de base, que vai pressionar os governos a regular e responsabilizar essa indústria. No último ano, a gente viu uma quantidade incrível dessa organização de base florescendo pelo mundo.Recentemente, lancei com um grupo de jornalistas, pesquisadores de IA e acadêmicos críticos um projeto chamado AI Resist List, que busca documentar parte dessa organização de base pelo mundo. A gente encontrou cerca de 30 exemplos, de todas as regiões, de ações individuais, institucionais e movidas pela comunidade.Tinha ação artística, ação política. E isso mostra bem o seu ponto: não dá pra contar só com a ação individual, mas o indivíduo pode, sim, ter impacto. Até uma ação pequena pode gerar um grande efeito cascata. Claro que se juntar com os vizinhos pra protestar contra o data center é ainda mais eficaz. Se juntar dentro da sua escola ou universidade pra protestar contra a parceria dela com uma empresa de IA também é mais eficaz.Se juntar com os colegas de trabalho de um setor pra barrar a adoção de uma IA que corrói os direitos trabalhistas é mais um jeito eficaz. A gente tem um monte desses exemplos. Um dos meus favoritos é o de uma comunidade sobre a qual escrevi no livro, Quilicura, no Chile, na periferia de Santiago. É uma comunidade da classe trabalhadora, bem pobre, que vem sendo alvo incessante da expansão de data centers.E por isso protestaram de forma bem aguerrida contra essa expansão, porque não acharam bom negócio hospedar essas instalações sem tirar nenhum benefício, enquanto elas consomem uma parte significativa dos recursos naturais da região.E, logo depois que escrevi sobre eles, foram além na resistência e criaram uma plataforma chamada Quili.ai. É um site em que você entra e que parece um chatbot, parece o ChatGPT: tem uma interface de chat pra você digitar. Só que, quando você faz uma pergunta, em vez de um modelo de IA responder, a mensagem é encaminhada pra alguém que mora em Quilicura, no Chile. Aí, se você pede “quero a imagem de um cachorro”, aquilo vai pro artista local deles, o Benji. Ele pega um pedaço de papel, desenha um cachorro, tira uma foto e te manda de volta.Eles fizeram isso essencialmente como um projeto de arte performática, pra fazer as pessoas pensarem duas vezes antes de usar IA generativa pra bobagem. A mensagem era: ei, quando você fica brincando com essas ferramentas em pedido besta, isso afeta comunidades como a nossa, drena os recursos de que a gente precisa pra viver bem.E também queriam levar as pessoas a pensar: por que não perguntar pra alguém da sua própria comunidade aquela receita que você procurava, ou pedir aquela imagem? Porque aí você reconstrói as conexões que estão tão em falta na sociedade — a falta delas é o que nos deixa mais vulneráveis a esse tipo de colonização do império.Eles deixaram o projeto aberto por 24 horas, e qualquer pessoa no mundo podia mandar um pedido. Receberam uma quantidade extraordinária deles. Viralizou de vez. E essa cidadezinha conseguiu uma virada enorme de narrativa sobre a suposta inevitabilidade e necessidade dessa tecnologia, sobre tudo o que o Vale do Silício diz — que, se você não usar, vai ficar pra trás de quem usa.E esse é só um exemplo, entre muitos, de como pessoas comuns, não importa a sua posição na sociedade, podem ter impacto real no debate, na consciência pública e até na regulação. A gente está vendo isso agora com os protestos contra data centers. Nos EUA, em 2025, cerca de 150 bilhões de dólares em projetos de data center foram travados.Isso virou uma das questões políticas mais quentes nos EUA para as próximas eleições de meio de mandato. Tem gente eleita sendo literalmente tirada do cargo por ter aprovado data centers, contrariando a vontade do povo. E isso já está tendo efeito real sobre as empresas e sobre a trajetória do desenvolvimento de IA.A OpenAI teve que encerrar recentemente a sua ferramenta de geração de vídeo, o Sora. Quando lançaram, apresentaram como o segundo produto mais importante desde o ChatGPT. O que aconteceu entre o lançamento e o fim? Uma reportagem do Wall Street Journal apontou três motivos, todos moldados por ação de base. Um: um gargalo enorme de capacidade de computação.Muitos dos data centers travados ou parados eram da OpenAI. Dois: um cenário financeiro bem mais incerto. A OpenAI está se preparando pro IPO, o que significa ficar mais exposta a Wall Street — e Wall Street está cada vez mais nervoso com a capacidade dessas empresas de cumprir o que prometem.E aí a OpenAI teve que reforçar alguns projetos paralelos pra fazer o balanço parecer um pouco melhor aos olhos de Wall Street. E, terceiro: os consumidores simplesmente não estavam usando o produto — o que também é ação coletiva de consumidores. Então, por todo esse tipo de resistência, de várias formas, de baixo pra cima, as pessoas estão de fato tendo impacto real na indústria e responsabilizando ela.Essa é a primeira categoria de ação. A segunda é: ok, que tecnologias de IA a gente usaria como alternativa? E aí a gente precisa investir mais nelas. Muitas vezes, quando converso sobre o livro, a pessoa diz: ok, me convenci de que não quero usar ChatGPT, não quero usar Claude — mas então uso o quê no lugar?E o problema é que eu não tenho muitas respostas pra essa lista de alternativas. Tem umas poucas aqui e ali, uma plataforma, uma empresa.Cris: Dá pra rodar o modelo no seu próprio computador, como o Cory Doctorow faz, mas aí é limitado e…Karen Hao: Exatamente, exige mais habilidade técnica. Mas, pra quem consegue instalar modelos de código aberto no próprio computador, eu incentivo 100%. Só que a gente também precisa de mais gente desenvolvendo interfaces bem fáceis pra esses modelos de código aberto, pra que qualquer pessoa consiga usar.A gente também precisa de mais gente desenvolvendo “bicicletas da IA”, de investidores e governos investindo mais nesse tipo de solução, e de talento — pesquisadores de IA, desenvolvedores e outras pessoas dispostas a sacrificar um pouco e abrir mão dos pacotes de remuneração enormes.Cris: Eu estava começando a achar que agora as empresas precisam ter menos lucro — e isso nunca vai acontecer.Karen Hao: Não, não é a empresa ter menos lucro. É o trabalhador topar abrir mão do pacote de milhões de dólares pra levar o talento dele pra outro lugar. Mais fácil, bem mais fácil. Eu converso com muito pesquisador de IA cansado da abordagem da indústria, porque ela é completamente sem criatividade intelectual.Eu conversei com pesquisadores que não passaram seis anos num doutorado em IA só pra ficar empurrando mais dados na máquina — pra eles, é o trabalho mais chato do mundo. E depois automatizar a programação, que era justamente o que eles gostavam de fazer. Converso com tanta gente que já não acha graça nenhuma nisso. Estão meio presos por “algemas de ouro”.E estão tentando descobrir, dentro de si, que carreira alternativa poderiam ter. Eu costumo incentivar esses pesquisadores a gastar o talento deles construindo um tipo diferente de empresa, que trabalhe com “bicicletas da IA”. E a gente já começa a ver cada vez mais desse talento indo por aí.E a gente precisa que todas as facetas da sociedade invistam num ecossistema muito mais robusto e rico de tecnologias de IA, capaz de substituir as que hoje dominam. Eu ainda tenho as cicatrizes das minhas próprias “algemas de ouro”, mas concordo plenamente.Cris: E as redes sociais são o exemplo — veja o que aconteceu com elas. Tem aquela frase famosa: as mentes mais brilhantes da minha geração passam o tempo fazendo as pessoas clicarem em anúncios. E ainda dizem: ah, isso pode ser o futuro. Pois é.Você contou a história do Quili.ai e isso me lembrou um dos primeiros criadores de conteúdo do Brasil, o Cid Não Salvo. Uns 10, 15 anos atrás, ele tuitou o seguinte: “Gente, eu disse pro meu pai que, sempre que ele precisar pesquisar alguma coisa na internet, é pra ir no Twitter.com e digitar a pergunta na caixa”. E olha que ele tinha milhões de seguidores.E, por uns bons dias, quase um mês, você entrava no Twitter do pai dele e via perguntas tipo “onde eu compro pizza?”. Era engraçadíssimo. No fim, ele contou pro pai — ou talvez não. Mas eu adoro essa ideia. Antes de a gente terminar: você já deve ter respondido isso mil vezes, mas vai continuar cobrindo IA? O que está na sua cabeça, o que vem por aí? Turnê mundial? O que vem pela frente?Karen Hao: Com certeza estou pensando em como continuar responsabilizando essas empresas. Estou envolvida em várias colaborações, com gente incrível, em diferentes projetos ligados a isso. O AI Resist List foi um deles. Também co-criei um programa chamado AI Spotlight Series, com o Pulitzer Center, uma organização jornalística sem fins lucrativos que financia jornalismo investigativo pelo mundo.É um programa que treina jornalistas do mundo inteiro a cobrir IA por uma lente de responsabilização. Até agora, já treinamos mais de 3 mil. E eu sigo pensando em como construir mais capacidade dentro do jornalismo, da sociedade civil, de outros contextos, pra mobilizar ainda mais essa organização de base — pra conter de verdade os impérios da IA e ajudar a desmantelá-los.Cris: Adorei o seu exemplo da moda. É possível, já foi feito. Ou até a indústria automotiva. Ou o grande exemplo que a gente não mencionou, e que o pessoal da OpenAI vive citando: o Projeto Manhattan, a energia nuclear.O mundo não acabou. Quando eu era criança lendo Asimov, achava que ia tudo acabar num fogo nuclear. Enfim — alguma última palavra, alguma mensagem, algum palpite pros jogos do Brasil na Copa, alguma coisa que você queira dizer antes da gente encerrar?Karen Hao: No fim das contas, o que eu espero que fique desta conversa e do livro é o seguinte: neste momento, o Vale do Silício está concebendo a IA como um projeto político. E a característica central desse projeto é tirar a autonomia de todo mundo — a autonomia de moldar de verdade o próprio futuro e o nosso futuro coletivo. Mas, no instante em que você reconhece que já tem uma autonomia significativa pra resistir, o império começa a desmoronar.Então espero que as pessoas encontrem a própria voz, a afirmem, conquistem o seu lugar à mesa e se conectem com os vizinhos, com a comunidade, com os colegas de trabalho, pra criar mais movimentos juntos.Cris: Que ótimo. Karen Hao, o seu livro é O Império da IA: Por dentro da corrida irresponsável pela dominação total. Obrigado por vir ao Brasil conversar com a gente. Foi um prazer.Karen Hao: Muito obrigada.Uma das primeiras perguntas que anotei quando comecei a pensar nessa conversa foi justamente a do final, a da ocupação de espaços. Porque, como eu disse, quando as redes sociais chegaram para ficar, muita gente falou “ah, não vou usar, é do mal” — e aí as pessoas ruins, vamos chamar assim, acabam ocupando esse espaço e falando o que bem entendem. A gente precisa aprender essa lição agora, no mundo da IA.Fora que vejo muita gente falando de IA sem nunca ter usado — ou que usou, sei lá, dois anos atrás, acha que continua tudo igual e já diz que não quer chegar perto.E por quê? Porque essa abordagem de ocupar espaços é o que eu e a Ana Freitas buscamos fazer no IA em Curso, nossa comunidade de letramento contínuo em IA. Foi, aliás, uma conversa que tive com a Karen antes da entrevista: ao mesmo tempo que a gente fala do impacto da IA no mundo, também precisa focar no que é prático, no que dá para fazer hoje com IA, sem vender sonho nem desastre. A analogia que usei foi a de que é que nem quando a gente fazia curso de Word e Excel — é o que eu faço agora que vai facilitar minha vida, me fazer ganhar tempo, botar a IA para me ajudar. Quem viu minha conversa com a Ana aqui no Boa Noite Internet, no fim de 2025, sabe do que estou falando. Se não viu, volta lá e confere.Desde que a gente lançou este episódio, o IA em Curso já passou de 400 pessoas. Tem muita gente colocando projetos pessoais incríveis na rua, tirando do papel aquela ideia que rondava a cabeça há um tempão. E a comunidade tem mentoria ao vivo, aula gravada, newsletter, banco de agentes, grupo de Telegram… que mais? O que não falta é jeito de passar para você o conhecimento sobre IA de que você precisa hoje, agora. Quero te dar a bússola para navegar nesse universo.Se esse é o tipo de abordagem que você quer ter com a IA, passa lá no iaemcurso.com.br e usa o cupom BNI2026 para ganhar 20% de desconto no plano anual. Mas corre, porque daqui a duas semanas vou apagar esse cupom — não é todo dia que a gente dá um desconto desses.É isso. Boa Noite Internet, temporada 2026 começando — como todo ano, com mudança, ideia, projeto. Ou, como diz minha citação preferida de todos os tempos: “vivemos uma fase de transição, como sempre”. 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A literatura indígena no Brasil passou por diversas fases e batalhou contra o apagamento em todas elas. Dos primeiros encontros com os jesuítas, que tentaram impor as regras de gramática e de assentamentos importadas da Europa, ao crescimento das publicações editorais de autoria indígena que vemos hoje. Nesse episódio, Mayra Trinca e Lívia Mendes contam mais dessa história a partir de entrevistas com a pesquisadora Carolina Rodrigues, da Unicamp, e com a escritora Trudruá Dorrico. Você vai conhecer mais sobre as primeiras gramáticas, a importância da oralidade para a literatura indígena e a relação disso tudo com a política (no passado e no presente). ____________________________________________________________________________________________________ ROTEIRO TRUDRUÁ: Cara, o Brasil é tão indígena e ele nem se dá conta assim, sabe? Do quanto ele é indígena. MAYRA: No episódio de hoje, a gente vai falar sobre a importância da escrita pra história do movimento indígena no Brasil. TRUDRUÁ: Eu entendo assim que a presença indígena nesses espaços literários, é o que faz a nossa literatura ser interessante hoje. Faz deslocar um pouco os homens brancos, jornalistas do Rio – São Paulo, assim, numa produção completamente egocêntrica. LÍVIA: E sobre como isso ganha ainda mais relevância diante de um histórico de apagamentos. CAROLINA: Que algo escrito nem sempre é um texto. Quem lê nem sempre é um leitor. E quem escreve nem sempre é um autor. MAYRA: Isso porque o ato de escrever foi, e talvez ainda seja, uma das ferramentas mais usadas pra hierarquização social. E aí, ao longo da história, isso deixou marcas que revelam muito do que a gente pensa e entende como autoria de povos indígenas no Brasil. TRUDRUÁ: A autoria coletiva indígena, ela sempre existiu. O problema é que ela foi descaracterizada por conta da história de apropriação dos povos indígenas ao Estado-nação Brasil. LÍVIA: Pra entender essas questões, conversamos com a escritora e pesquisadora Trudruá Dorrico, do povo Macuxi, e com a linguista Carolina Rodríguez. MAYRA: Eu sou a Mayra Trinca, bióloga e comunicadora de ciência e você já me conhece aqui do Oxigênio. LÍVIA: E eu sou a Lívia Mendes, linguista e especialista em jornalismo científico, e também já apareci algumas vezes por aqui. [VINHETA] CAROLINA: Eu sou pesquisadora do Laboratório de Estudos Urbanos, o Labeurb, que pertence ao Núcleo de Criatividade da Unicamp e sou também professora no departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem, o IEL, também da Unicamp. É, a minha formação inicial é em letras, mas eu me especializei em linguística. Fiz o doutorado, pós-doutorado, especificamente nas áreas de análise do discurso, história das ideias linguísticas e saber urbano e linguagem. LÍVIA: Essa que você ouviu é a Carolina. Nos últimos anos, ela têm se dedicado a pesquisar a língua Guarani e as relações dessa língua com a atuação dos jesuítas na região que era a província do Paraguai. CAROLINA: Que não deve ser confundida com a província civil do Paraguai, né? Porque a província jesuítica ocupava todo o sul do Brasil, Argentina, parte da Bolívia, enfim. MAYRA: O Guarani era a língua falada pelos povos indígenas da região e que teve seus primeiros registros escritos feitos por esses jesuítas. CAROLINA: O espaço em que surge a escrita em Guarani vai determinar, a finalidade com que é introduzida a escrita nessa língua, vai determinar a relação entre escrita e oralidade, né? Vai determinar o que que é um texto, o que que é ler, o que é escrever em Guarani. LÍVIA: Os jesuítas chegaram na região por volta de 1580 e se instalaram ali, fundando a tal província. Esses missionários, tinham como tarefa estudar a língua local. CAROLINA: A finalidade principal, né, desse trabalho linguístico era se comunicar com os indígenas no dia a dia, aprender a língua, né? Que os missionários estrangeiros pudessem aprender a língua para se comunicar com os indígenas e para catequizar. A questão principal não é o cultivo da língua como bem cultural. Isso pode até ter um resquício, mas não é esse o objetivo principal. MAYRA: Essa lógica por trás do estudo do Guarani fez com que a escrita e a gramática utilizada para essa língua fosse bem diferente de outras línguas. Enquanto as línguas europeias tiveram sua escrita elaborada e rebuscada como uma forma de enriquecimento cultural, a escrita das línguas indígenas era muito mais pragmática, usada apenas como instrumento para ensinar outros jesuítas. LÍVIA: Ainda assim, a Carolina conta que as primeiras gramáticas, as primeiras organizações e regras linguísticas do mundo surgiram todas meio que juntas. CAROLINA: É interessante isso porque muitas vezes a gente pensa que “ah, as gramáticas europeias foram feitas primeiro e as línguas ameríndias, por exemplo, depois e não. Então, a diferença entre uma gramática, a primeira gramática em francês, do francês, tem dois, três, quatro anos de diferença com a primeira gramática do Nahuatl, no México, por exemplo. [começa trilha] LÍVIA: Só que nesse momento, na Europa, durante o Renascimento, as gramáticas estavam surgindo pra organizar e padronizar as línguas que representariam os Estados-nação, como o francês, o português e o espanhol. Era preciso reduzir as variações dos dialetos, fixar regras linguísticas, para dar uma ideia de unidade praquele território. MAYRA: Gramatizar uma língua, assim como escrever essa língua , é importante para consolidar regras gramaticais e fazer com que ela mude mais devagar. Por isso as gramáticas surgem com a formação dos Estados, porque conforme as nações hegemônicas iam colonizando diversas partes do mundo, levavam também consigo o processo de gramatização das outras línguas. CAROLINA: Então, essa associação, né, língua cidade através da ideia do movimento, da fixação, eles tinham que fixar a língua pela escrita e fixar os indígenas em povoados, não é? Para que, como dizia o Manuel da Nóbrega, o padre jesuíta, era preciso fazer com que ficassem quietos, né? E não se movessem o tempo todo. Ele reclamava que o trabalho da catequese era jogado fora, porque eles se mudam o tempo todo. LÍVIA: De novo a gente percebe aí a linguagem sendo usada como uma forma de dominação desses povos. O estudo da língua Guarani não estava a serviço dos povos indígenas e sim dos colonizadores. Mesmo que eles começassem a dominar a escrita de sua língua, isso não significava que eles iriam conseguir realmente se apropriar política e culturalmente dessa ferramenta. CAROLINA: A cultura é imposta como modelo, ao mesmo tempo que se impede o acesso integral a esse modelo. Porque senão a desculpa para subordinação desaparece, não é? [sobe som e encerra música] MAYRA: E a Carolina encontrou, em alguns textos da época, exemplos que mostram isso muito bem. Ela me deu o exemplo de vários textos religiosos, que eram escritos em Guarani, mas que não eram lidos pelos indígenas. CAROLINA: Porque esses textos traduzidos em Guarani, é, se destinavam aos missionários, não eram dados para a leitura dos indígenas, que eram mantidos a maior, maiormente não alfabetizados, não é? Era porque os missionários soubessem, é, aprendessem e pudessem transmitir oralmente aos indígenas. Então, na verdade, o destinatário do conteúdo do texto, né? Da mensagem religiosa, era o indígena, que não era o leitor do texto, né? Então era não era um público leitor, era um público ouvinte, era um auditório, porque quem lia era o missionário. LÍVIA: Ela também identificou o mesmo deslocamento da função do autor desse texto. Um dos exemplos mais didáticos é de um indígena chamado Nicolas Yapuguay, que publicou dois volumes de sermões bíblicos escritos em Guarani, só que sob direção de um missionário. CAROLINA: Então, o que significa sob a direção? Significa que a responsabilidade é do missionário. Bom, aí já temos uma dica, não é? Mas o prefácio é fantástico. Eu acho que Foucault leu esse prefácio para definir a função autor, né? Porque quem faz o prefácio ao livro é Paulo Restivo, o missionário. Até aí tudo bem, a gente pode fazer o prefácio de outro livro, né? Mas o que é interessante é que todos os “eus”, as primeiras pessoas, é o missionário que assume. Então, assim, ele chama o leitor de meu leitor, as doutrinas que eu te ofereço. MAYRA: Isso mostra pra gente que apresentar o Nicolas Yapuguay como autor era quase como um disfarce, um fingimento. Que ele estava ali pra que os missionários pudessem dizer que havia uma participação indígena, mas que não tinha liberdade de decidir o que ou como escrever. [começa trilha] TRUDRUÁ: Nesse processo de de entender um pouco a escrita e os povos indígenas, eu queria dizer assim que a escrita, essa escrita assim, ai, de escrever o nome, de escrever um poema, de escrever um livro ou de aprender a escrever alguma coisa que é importante assim no dia a dia, não é dessa escrita que nós estamos falando, quando a gente fala assim, ai, dos povos indígenas conseguirem escrever e serem uma sociedade desenvolvida. A gente está falando de um sistema de escrita que cria documentos, que cria cartórios, que cria notários, que cria é, que cria uma legislação para validar, por exemplo, um processo de expropriação territorial. [sobe som e encerra música] LÍVIA: Essa que você acabou de ouvir é a Trudruá Dorrico. TRUDRUÁ: Eu sou indígena Macuxi. O povo Macuxi tá no estado de Roraima. Eu sou escritora, essa é uma parte que eu atuo, no âmbito da literatura e eu também sou pesquisadora de literatura indígena e essa é a segunda parte assim da minha atuação no âmbito da pesquisa. MAYRA: Eu conheci o trabalho da Trudruá num grupo de leitura que eu faço parte. A gente leu “Originárias: Uma antologia feminina de literatura indígena”, que é uma coletânea organizada por ela, mas com histórias de diversas autoras de diferentes povos. Ela faz parte de um movimento contemporâneo de autores indígenas, como Daniel Munduruku, Ailton Krenak, Eliane Potiguara, Geni Nuñez e por aí vai. LÍVIA: A literatura indígena passou por diferentes fases no Brasil. Ela começou muito antes da chegada dos jesuítas, com a cultura oral, ainda sem registros escritos. Essa primeira fase, estruturada na oralidade, ainda é muito pouco aceita como literatura. Vamos falar disso um pouco mais pra frente, continua por aqui pra entender. MAYRA: Então, os registros dos jesuítas formam uma segunda fase, com os primeiros textos escritos, como a gente viu, mas não exatamente respeitando a cultura indígena. LÍVIA: Depois, a gente teve, durante o modernismo, lá da semana de 22, autores como Mário de Andrade, autor de Macunaíma, por exemplo, se apropriaram de histórias indígenas naquela onda da antropofagia e ficaram famosos por isso. TRUDRUÁ: O José de Alencar, Mário de Andrade e Oswaldo de Andrade fizeram carreira sobre com o nacionalismo indígena. Então, é uma terceira fase que a gente fala assim: “É, mas agora a gente vai escrever. A gente vai fazer nossas histórias, a nossa literatura com esta identidade, porque esta identidade é um território que o Brasil precisa reconhecer, que tudo o que diz respeito a nós tem valor e tem alguém ali para reivindicar dizendo assim: “Ó, você não vai falar de nós de qualquer jeito, como se a gente fosse nada ou como vocês estavam acostumados a tratar a gente”. Eu acho que é por isso que talvez esse identitarismo ameace, né? Porque essa pessoa não tá pronta ainda, ela tá muito mais na defesa de: “Ai, nossa, vai me podar, de pesquisar, vai me podar, de escrever, vai me podar, de publicar, vou ser malvista”. Vai mesmo. Vai, vou te dizer com certeza que vai. MAYRA: A Trudruá tá falando aqui de pessoas que falam sobre os povos indígenas ou sobre elementos da cultura indígena como se fossem donas desse saber, ignorando o movimento e a história desses povos. Como livros ou mesmo pesquisas acadêmicas que se apropriam desse conhecimento sem dar os créditos, as referências ou mesmo sem ter representantes indígenas fazendo parte do trabalho. LÍVIA: Isso porque, como a Trudruá contou na entrevista, esses escritores e pesquisadores sempre viram as práticas indígenas como “sem dono”. O motivo está no fato de que a maioria dos povos indígenas não tinham e ainda, em algumas regiões, continuam não tendo acesso ao domínio da escrita de suas línguas maternas. Por esse motivo não era considerada a participação do próprio indígena nessas produções. TRUDRUÁ: Eu acho que esse argumento, ele foi utilizado assim por muitos anos, por por décadas, né? Pelos indigenistas e também pelos professores que é que sempre pesquisaram povos indígenas e se tornaram porta-voz desses povos indígenas. E eu acredito assim que é boa fé, o fato é que isso virou uma tradição e essa tradição acabou colocando, né, esses pesquisadores que muito colaboraram, muito ajudaram, não tô nem julgando isso, mas colocou eles assim como paladinos, né? Colocou como representantes de povos indígenas, como uma voz, é, de autoridade, uma voz de tradução entre dois mundos. Traduziu o mundo branco para os indígenas e traduziu o mundo dos indígenas para os brancos. Então, essas pessoas eram as autoridades. MAYRA: É uma ideia que tá muito ligada a noção de que povos que usam a escrita são, de alguma forma, superiores do que sociedades que chamamos àgrafas, ou seja, que transmitem seus conhecimentos exclusivamente por meio da tradição oral, sem ter desenvolvido um sistema próprio de escrita. Eu vou trazer a Carolina aqui de volta pra ajudar a gente a entender isso. CAROLINA: Olha só, de novo, porque os europeus então gramatizaram as línguas do mundo, instrumentaram as línguas do mundo a partir do modelo que eles tinham usado da gramática grecolatina e também transformaram os espaços do planeta, os territórios a partir do modelo urbano europeu. Então, veja como os processos de gramatização massiva também coincidem com o processo de urbanização, isto é, de transformação das línguas e dos territórios do planeta, né, em direção ao modelo da escrita e da gramática da cidade europeia, não é? LÍVIA: É como se, porque a história da europa seguiu esse caminho, passando da tradição oral pra tradição escrita, do nomadismo para as cidades, todas as sociedades do mundo tivessem que fazer o mesmo percurso. CAROLINA: Então, esse modelo da escrita, esse modelo da cidade, nesse discurso historiográfico, né? Vai estabelecer uma relação entre espaço e tempo, né? Por quê? Porque as sociedades, cujas formas de vida não produziram esse modelo específico de espaço que é a cidade, né? São jogadas situadas para trás no tempo, são pré-históricas, estão atrasadas, não chegaram lá. Então, há uma temporalidade que vai ser acionada a partir do modelo de espaço, que é produzido a partir de suas tecnologias, entre as quais a escrita, não é? MAYRA: Só que essa é uma visão bem distorcida de como as coisas funcionam. Não é porque a escrita foi necessária pra organização de um modo de vida que ela é essencial em todas as configurações sociais. LÍVIA: E tem uma questão muito importante aqui. É que essa leitura de mundo não vem sem propósito, “sem querer”. Ela foi moldada pra justificar uma ideia de superioridade. CAROLINA: Você estar numa sociedade de escrita e não dominar a escrita é uma grande desvantagem. Né? Não ser alfabetizado numa cidade é uma grande desvantagem. A questão é quais são as explicações, né? E como isso acaba sendo ontologizado. É uma característica ontológica dessas sociedades ou desse sujeito, não é? Então, de fato, o que há, é, é o que eu chamei de uma memória da língua marcada pela escrita e uma memória do espaço marcada pelo urbano. Eu explico, né? O que que é memória no sentido discursivo, da análise do discurso. Memória não é lembrança, é o contrário, digamos, ou pelo menos esse tipo de memória discursiva. É aquilo que já foi dito, esquecido e passou a ser do senso comum e faz sentido nas próprias palavras, não é? Então, a gente tem essa memória da escrita, memória da escrita, o que que é? Você imagina a língua, você imagina através da escrita alfabética, não é? Você vê um espaço que não tem cidade, parece um espaço vazio e não tá vazio, né? Por exemplo, uma floresta, o espaço de populações indígenas, não é? MAYRA: É como se houvesse, ainda que de forma inconsciente, uma associação automática entre cidade e progresso, linguagem e “inteligência”. É como dizer que uma pessoa analfabeta não sabe ler porque não quer, ou porque não tem capacidade, e, assim, excluir completamente o papel do Estado, da escola e de outras pessoas no processo de transmitir essa habilidade. A Carolina deu um outro exemplo muito bom de como isso foi manipulado pra fazer povos indígenas parecerem menos capazes do que as pessoas brancas. CAROLINA: A educação literária, artística, da escultura, da pintura e da música são considerados como o modelo, né, de educação aos indígenas. Mas aí você vai nos povoados e mostram, essa daqui é escultura feita por um indígena, essa aqui para um europeu. E de acordo com esse modelo a feita por um indígena aparece uma caricatura muito simplificada, né? É, então como se apresenta isso, né? Olha, os jesuítas até ensinaram, mas até aí eles conseguiram chegar, mas então esse resultado aquém, de acordo com certo modelo, se apresenta como uma incapacidade lógica, natural dos indígenas. Eles não conseguem se apropriar desse modelo, então tem que se manter como subalternos, né? O que não se diz é que aos indígenas não se ensinava as técnicas de preparatórios para fazer uma escultura que se ensinava aos escultores europeus nas escolas de artesãos europeus. Simplesmente se dava o pedaço de madeira para os artistas e falaram: “Olha, copia aqui” LÍVIA: Se a gente parar pra reparar, a mesma lógica continua até hoje nos discursos meritocráticos, né? É uma ideia de que a habilidade de uma pessoa, seja ela indígena ou não, só depende do seu esforço individual. E assim oculta completamente o papel da sociedade de ensinar as bases necessárias pra isso. MAYRA: E tem outro ponto interessante aí. Olha como a gente tem todo um referencial do que deveria ser uma sociedade, baseado quase que exclusivamente num único modelo: o europeu. A escultura, a música, o jeito de se vestir, tudo segue as regras estabelecidas na Europa. Só que na maioria das vezes, isso não é colocado em perspectiva, né? É naturalizado, colocado como um processo único pro mundo todo. CAROLINA: Como se isso fosse um, um, um processo inexorável, não é? LIVIA: Quando na verdade a gente devia tá olhando pra isso mais como possibilidades de modos de viver numa diversidade gigante de culturas. Só que é muito natural, por conta da nossa história, a gente achar que o que vem desse padrão europeu é sempre o melhor. CAROLINA: Uma coisa importante, isso não tem a ver com o que a gente acha de melhor ou pior. No sentido de que se você nasce e cresce numa numa sociedade urbana e da escrita, pode achar absurdo não escrever a língua ou não se fixar, mas esse é problema seu, vamos dizer assim, não é? Porque assim, você não é o centro. Não é? Então, não precisa gostar. [trilha sonora] LÍVIA: Até hoje, a escrita tem sido um reflexo disso. Ao longo da idade média, como a escrita tinha praticamente sido sequestrada pela Igreja na Europa, fazendo com que fosse quase exclusiva dos sacerdotes, ela se tornou um símbolo de conhecimento. MAYRA: Como se um conhecimento só tivesse valor se estiver escrito, aquela ideia de que isso garante que ele será transmitido pro futuro. Isso também explica, voltando no que a gente tava falando antes, porque a primeira fase da literatura indígena, que tava na oralidade, não é considerada. TRUDRUÁ: Tem muita produção indígena que é uma produção intelectual que esteve no âmbito do imaterial, porque os povos indígenas foram impedidos de desenvolver sua própria escrita e ao mesmo tempo foram impedidos de adotar a escrita alfabética, né? Esse foi um jogo sistemático do Estado para impedir a presença indígena na sociedade brasileira. LÍVIA: Ou então, de forma mais sutil ou até mais perversa, o que era feito era diminuir a identidade indígena de quem escrevia. Uma coisa de “se sabe escrever, então já não é mais indígena”. Um pensamento totalmente relacionado àquela ideia de progresso linear que a gente falou agora pouco, que considera os povos indígenas como se estivessem num estágio cultural anterior e inferior aos dos povos europeus. TRUDRUÁ: Nesse caso, quando os povos indígenas e os sujeitos indígenas, eles começam a a escrever, a publicar, a romper essa tradição de que tudo que eles têm está na oralidade e quando está na oralidade não pertence a eles, é, eles, né, os primeiros escritores eles vem com essa tradição de dizer: é, não tem autoria porque vocês nunca deixaram, o país nunca deixou, nunca considerou, né, que um indígena que escrevesse, falasse língua portuguesa ou conhecesse os costumes da sociedade dominante pudesse ser considerado indígena. O que eu quero dizer com isso é não não não temos direito à nossa propriedade intelectual, material que tá na oralidade, eh porque eh ao escrever elas não somos mais tão indígenas. MAYRA: Aqui é importante a gente parar e explicar algo com mais calma, porque mesmo pra mim isso não tava bem claro quando comecei a conversar com a Trudruá pra esse episódio. TRUDRUÁ: Quando você fala de oralidade, eu penso em um sistema, em um dispositivo de memória que é trabalhado assim pelos povos indígenas. Quando você fala de de fala de de voz alta, você tá falando desse oral. né, de uma fala oral. Então são um é sistema de conhecimento, um é prática. Então são diversos, né? TRUDRUÁ: Não podemos entender a oralidade como uma fala, como se ela não tivesse consciência, mas ela tem um sistema todo organizado, é de memória mesmo, assim, que vai de geração em geração e vai ensinando valores e e, e, né, tem uma ciência, né, que a compõe. LÍVIA: Ou seja, quando a gente tiver falando de oralidade aqui, estamos falando de um conjunto de práticas que faz parte de uma tradição de centenas de anos, que foram capazes de fazer permanecer o conhecimento, sem precisar de recursos escritos. MAYRA: De certa forma, isso permeia o trabalho da Trudruá como escritora hoje. Eu ouvi uma entrevista dela falando sobre o último livro que publicou, o Tempo de Retomada, e como ela tinha o hábito de ler em voz alta pra mãe dela quando tava trabalhando no texto. TRUDRUÁ: Quando eu penso texto escrito, eu me preocupo muito assim com, é, com uma sofisticação que elas são contadas nessa oralidade. E aí nessa, quando a minha mãe tenta me passar certos valores, eu fico assim impressionada, porque eu realmente me sinto indo para um outro tempo a partir da palavra, eu me sinto viajando assim num outro tempo. E era, e era essa ideia assim de talvez transportar as pessoas para esse tempo que eu nunca sei se eu vou conseguir, ou nunca sei se as pessoas vão se abrir para elas, mas é uma preocupação de que é, talvez o mesmo ritmo ou o mesmo balanço que que eu escuto e que eu sinto, né? MAYRA: Durante a entrevista, eu comentei com a Trudruá como eu tenho percebido um pouco um movimento na literatura de resgatar esse jeito de contar histórias. Como eu falei, eu participo de um clube de leitura e isso é algo que vira e mexe aparece por lá. De como é gostoso ler um livro que você tem a sensação de que a autora tá ali falando mesmo com você. LIVIA: A Trudruá contou pra gente que, além do contato com as histórias contadas pela mãe, ela também teve, desde sempre, uma ligação muito forte com a literatura. E que os livros sempre tiveram um papel muito importante, não só de companhia, mas de vivência pra ela. TRUDRUÁ: Eu cresci com a literatura e a literatura me fez viajar por tantos mundos, me faz sonhar, me faz chorar, me faz é, me faz sentir uma magia que de artista, então eu não poderia desejar outra coisa que não, né, viver com a palavra. E aí nesse sentido eu eu também entendo que dá para levar um pouco essa magia nessa escrita literária. E esse era o trabalho assim, de talvez transportar um pouco aquilo que eu sinto quando eu escuto essas histórias. E aí o trabalho, ler em voz alta é importante, assim como ler em silêncio também, mas como eu tenho essa preocupação que a minha comunidade leia, eu também fico pensando assim: “Ai, como que elas podem como que elas vão ler isso, a disposição das frases, desce isso para ir num ritmo tão longo, né? Esse trabalho escrito, prático, de como pode também emular uma certa um certo oral. MAYRA: Uma coisa importante, como dá pra perceber nas falas da Trudruá quando ela tá falando sobre o que espera dos livros dela, é que essa oralidade, tanto a tradição, quanto o hábito de ler em voz alta, tão muito relacionados com o coletivo. E aí entra outro ponto importante. Não é porque um conhecimento é coletivo, que ele é de todo mundo. TRUDRUÁ: Um segmento assim que fica muito evidente no Brasil é o núcleo de folcloristas, o núcleo de estudiosos assim brasileiros que que olham para esses conteúdos, olham para esses materiais, para essas narrativas e entendem ela como uma cultura popular. A cultura popular nesse sentido de que ela é de todo mundo, mas não tem uma autoria específica. E isso é muito conveniente quando você, né, é, consciente ou inconscientemente, você rouba, é, narrativas prontas, narrativas criativas, fantásticas de outros povos para dizer: “Ah, isso faz parte da cultura brasileira no singular” LÍVIA: A Trudruá deu exemplos como o guaraná, a mandioca ou uma série de medicamentos que foram descobertos e desenvolvidos por povos indígenas, mas que nunca foram reconhecidos como autores ou proprietários dessas técnicas. MAYRA: E que depois, foram coisas incorporadas à cultura brasileira, como se todas as pessoas do país tivessem a mesma relação, a mesma história com esses elementos. E com isso, ignorando que os povos indígenas tiveram um papel fundamental nesse processo. LÍVIA: Lembra que a gente falou sobre como a primeira fase da literatura indígena, aquela da tradição oral, não é reconhecida? Isso porque quando a gente fala de oralidade, é difícil identificar um autor. E essa brecha foi usada pela sociedade brasileira como uma estratégia de incorporar essas histórias numa narrativa nacionalista. MAYRA: Só que isso, ao invés de valorizar os conhecimentos tradicionais e a individualidade de cada povo, como costuma ser dito por aí, acaba, na verdade, apagando a participação e a autoria dessas pessoas na sua própria história. [trilha sonora] TRUDRUÁ: Mas sobre a identidade indígena, vai ser algo que eu nunca vou abrir mão. E eu digo como escritora e eu digo como indígena, porque assim, a história brasileira e a história literária brasileira, tudo que ela quis foi apagar a identidade indígena para se apropriar das nossas narrativas. Quando a gente se coloca com essa identidade, a gente demarca um território simbólico de dizer: “Isso aqui não tá livre. Isso aqui não é terra de ninguém. Isso aqui tem uma autoria coletiva. Tem uma propriedade material que pertence a nós. Não é seu. Não é seu, brasileiro. LÍVIA: Por isso é tão importante hoje esse movimento de autores indígenas no Brasil. Ele ajuda a retomar uma série de histórias aos seus autores originais, dessa vez com os devidos créditos e com sua própria voz. TRUDRUÁ: E a autora individual, é essa autoria, que tá no mercado editorial e que vem reforçando, que vem para reforçar os valores, né, dos povos, das comunidades, mas o fato de tá no mercado editorial e circular, ela alcança um outro uma outra visibilidade, inclusive lançando luz a essa autoria coletiva MAYRA: E aí, obviamente, esse movimento acompanha o posicionamento político dos povos indígenas no Brasil. TRUDRUÁ: Tem um filósofo, tem um teórico da literatura que se chama Emil’ Keme, ele é do povo Maia Quechua da Guatemala. E ele fala que não é possível separar a teoria literária indígena da política indígena, porque elas caminham juntos. Quando os indígenas eles pegam a escrita para publicar e etc, estudar mesmo, eles entendem a escrita como uma técnica, a língua como uma técnica que vai ser essa transportadora dos desejos da luta do movimento indígena. Então, a gente entende, alinhado a política indígena, a gente entende, uma teoria da literatura que vai seguir as mesmas políticas que os povos indígenas tão tentando em termos de autonomia. Então, a política indígena fala do direito ao nome. Todos os autores indígenas que eu conheço, ou eles adotaram o nome de povo, ou eles adotaram o nome da tradição. Mas se você olha em documentos, eh que não faz, sei lá, 10 anos que tem 20 anos que tem essa política, eles têm nomes brasileiros, nomes e sobrenomes brasileiros por conta da política de que proibia nomes indígenas. Então, isso acompanha também dentro da literatura a política indígena. LÍVIA: Com esse movimento, a gente também tá tendo a oportunidade de conhecer mais da tradição indígena e de ter acesso a cultura de tantos povos indígenas que existem no brasil, aprendendo inclusive as diferenças que existem entre eles. TRUDRUÁ: Os escritores estão acompanhando as linhas de da política indígena, que é autonomia, soberania, autodeterminação. E é tão falso e isso de que a literatura indígena vai repetindo, vai falando das mesmas coisas, porque os temas indígenas, eles são tão abertos e são tão variados, assim, só fala isso quem nunca leu a literatura indígena. Porque, entrar no mundo da identidade indígena, ela é muito, assim, é um mundo muito amplo. A gente tá falando de uma identidade indígena, mas a gente tá falando de quase 400 povos indígenas, de quase 300 línguas faladas culturalmente, como elas são diversas entre si. Eu acho que quem fala isso nunca nem se aproximou da das culturas indígenas para entender um átimo dessa dimensão que é essa riqueza cultural. MAYRA: E também de pensar como a gente pode tentar se aproximar de outras formas de viver e entender o mundo. No grupo que eu faço parte, sempre que lemos alguma coisa de literatura indígena, a conversa rende muito nesse sentido, em pensar pequenas mudanças que a gente pode tentar trazer pra nossa realidade, inspiradas nessas outras culturas. TRUDRUÁ: E aí uma das coisas que eu amo, amo na literatura indígena é que não tem nada do amor romântico, mas não tem mesmo assim, sabe? Amo, sabe essa ideia de ai nossa, as mulheres foram abandonadas pelos homens, é, e as mulheres o que que elas fizeram? Ah, elas foram procurar outros maridos. Tchau amor, tchau e benção assim, é completamente, assim vai completamente na contramão do que a gente foi ensinado. De ficar chorando, de ficar se lamentando. [sobe trilha] LÍVIA: E falando em grupos de leitura, pra encerrar nosso episódio, a Trudruá pediu pra deixar um recadinho pra vocês. TRUDRUÁ: Eu tenho uma página no Instagram que se chama Leia Mulheres Indígenas. E aí eu tô com uma proposta para 2026 de abrir um clube de leitura do Leia Mulheres Indígenas. TRUDRUÁ: Como que você vai apreciar melhor essa leitura e essas produções se vocês não sabem, né? De onde que a gente parte, quais são os princípios, quais são os valores. E aí eu tô querendo muito abrir um clube de leitura para 2026, espero que dê certo. E é convidar todo mundo para, sei lá, tá com a gente, abrir o debate, ler, se se encantar ou se desencantar também, tá valendo, né? Tá tudo valendo. MAYRA: Fica aí o convite pra seguir a página e ler mais livros escritos por autoras indígenas. Eu sou a Mayra Trinca, produzi e escrevi esse roteiro, com pitacos e revisão da Lívia Mendes. A edição também é minha. LÍVIA: Aproveita quando for seguir a Trudruá e procura a gente, somos Oxigênio Podcast em todas as redes sociais. A trilha sonora é do blue dot session e os créditos estão na descrição desse episódio. A vinheta é do Elias Mendez. MAYRA: O Oxigênio tem apoio da Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp e é coordenado pela Simone Pallone. Obrigada por ouvir, e até a próxima! Trilhas: Trailmaker by https://app.sessions.blue/browse?trackId=384027 Thunderpass by https://app.sessions.blue/browse?trackId=385385 Posh and Vine by https://app.sessions.blue/browse?trackId=385621
Jornal da ONU com Ana Paula Loureiro. Esses são os destaques desta quarta-feira, 8 de julho de 2026.Jovens querem formar família, mas esbarram em moradia cara e economia OMS pede ação urgente: novos casos de câncer devem quase dobrar até 2050
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No “Estadão Analisa” desta terça-feira, 30, Carlos Andreazza fala sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), que já tem nove votos a favor para liberar o pagamento de parte dos “penduricalhos” a magistrados e membros do Ministério Público (MPs). Esses benefícios são verbas indenizatórias pagas além da remuneração formal e que, em alguns casos, ultrapassam o teto do funcionalismo público, atualmente no valor de R$ 46.366,19. Em março, o Supremo havia barrado esses pagamentos, mas uma chuva de embargos de declaração levou ao julgamento atual desses recursos, em sua maioria movidos por associações de profissionais das categorias afetadas. Na sexta-feira, 26, os ministros Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes haviam apresentado um voto conjunto para esses embargos de declaração no qual flexibilizaram algumas das restrições impostas em março. O ministro Edson Fachin acompanhou o voto na mesma data. No sábado, 27, Luiz Fux concordou com os colegas em alguns dos pontos, formando assim o placar parcial de 6 votos favoráveis à liberação. Nesta segunda-feira, 29, votaram os ministros Dias Toffoli, André Mendonça e Nunes Marques. Todos também concordando na ampliação dos penduricalhos para além dos limites sugeridos por Dino, Moraes, Zanin e Gilmar. Falta apenas o voto de Cármen Lúcia para o encerramento do julgamento. Acompanhe Estadão Analisa com o colunista Carlos Andreazza, de segunda a sexta-feira, o programa traz uma curadoria dos temas mais relevantes do noticiário, deixando de lado o que é espuma, para se aprofundar no que é relevante Assine por R$1,90/mês e tenha acesso ilimitado ao conteúdo do Estadão. Acesse: https://ofertas.estadao.com.br/_digital/See omnystudio.com/listener for privacy information.
No “Estadão Analisa” desta segunda-feira, 29, Carlos Andreazza fala sobre o ministro Gilmar Mendes, que fez um curioso alerta ao presidente Lula. O ministro do STF, Gilmar Mendes, deu um alerta ao presidente Lula sobre as eleições deste ano. As informações são da coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo. De acordo com a publicação, o decano do STF não esconde a preocupação com as críticas que a Corte vem sofrendo por conta das investigações envolvendo o Banco Master. O ministro chamou a atenção de Lula pelas recentes declarações sobre o STF e lembrou que “será o Supremo quem vai, se for preciso” fiscalizar o TSE durante as eleições. Durante as eleições, a Corte Eleitoral será comandada pelos ministros Nunes Marques e André Mendonça, respectivamente presidente e vice. Os dois foram indicados por Jair Bolsonaro. O Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria de votos para liberar o pagamento de parte dos “penduricalhos” a magistrados e membros do Ministério Público (MPs). Esses benefícios são verbas indenizatórias pagas além da remuneração formal e que, em alguns casos, ultrapassam o teto do funcionalismo público, atualmente no valor de R$ 46.366,19. Em março, o Supremo havia barrado esses pagamentos, mas uma chuva de embargos de declaração levou ao julgamento atual desses recursos, em sua maioria movidos por associações de profissionais das categorias afetadas.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Jornal da ONU com Monica Grayley. Esses são os destaques desta segunda-feira, 29 de junho.Na Venezuela, busca por vítimas dos terremotos enfrenta desafios OMS pede à Europa que implemente ações para enfrentar onda de calor extremo
Alguns livros dessa coleção simplesmente não existiam em português. Até agora... Após quase 10 anos de história, a Brasil Paralelo lança seu primeiro produto físico de assinatura: o Clube do Livro BP. Uma jornada com 12 obras cuidadosamente selecionadas para você construir uma biblioteca de valor, com direção, curadoria e o padrão de qualidade que você já conhece. Por se tratar de um produto físico com produção limitada, o número de assinantes deste lote de lançamento é restrito. Não perca tempo e garanta seu lugar antes que as vagas encerrem.
Send us Fan MailWe're having conversations with magazine-makers— big and small, new and seasoned, independent and commercial—from all over the world, who are sharing what they do and how they do it. This year's line up includes folks making magazines for kids, art and culture, as well as luxury lifestyle magazines, and a massive global publisher who covers all of this and more. There's something for everyone in these 4 episodes.This episode features Ojus Jain, Founder of Esses, a new publication celebrating global culture and motorsports. In this conversation, you'll hear how Esses fits into the media landscape for current and future F1 fans. In an expansive and fractured media landscape, you'll hear how Ojus and his team decide the right balance of content, tools, and platforms that help support the brand, including why print is central to their strategy of building trust, including how they extend that trust into digital publishing.You'll hear why building a strong team is critical, even in an age where tools allow us to do more of the process ourselves, and why job titles matter less than you might think in a start up. Ojus shares his insider take on what's possible in independent publishing, how he's thinking about AI, and how the Esses team is creating a financially-sustainable media brand through partnerships, events, and subscriptions. This episode was recorded as part of a guest lecture series in DG 8111 Digital Publishing in Spring 2026 at The Creative School at Toronto Metropolitan University. Let's Connect on the web or via Instagram. :)
Confira nesta edição do JR 24 Horas: Dois fortes terremotos atingiram a Venezuela, derrubaram prédios e deixaram milhares de mortos. Esses terremotos estão entre os mais fortes já registrados na Venezuela. Os tremores tiveram magnitudes de 7,5 e 7,2 em uma escala que vai até 10.
Esses is betting a high-end print magazine will help establish brand credibility an email list alone cannot. Founder Ojus Jain is building a model that uses that credibility and editorial distribution to power brand activations around the crowded F1 ra...
O uso de Inteligência Artificial nas empresas brasileiras passou de 13% para 17% em apenas um ano. Entre as grandes empresas, a adoção saltou de 38% para 50%. Já entre as pequenas, o índice cresceu de 10% para 15%. Os números são da nova edição da pesquisa TIC Empresas, do Cetic.br, e ajudam a entender o estágio de desenvolvimento da IA no ambiente corporativo brasileiro. O que explica esse avanço? Em quais setores a tecnologia está ganhando mais espaço? O Brasil está acelerando sua maturidade digital ou ainda estamos nos primeiros passos dessa transformação? Esses são alguns dos temas da entrevista de hoje no Start, que recebe Leonardo Melo Lins, coordenador da pesquisa TIC Empresas. Na conversa com o apresentador Daniel Gonzales, ele analisa os resultados da pesquisa e o que eles revelam sobre competitividade, produtividade e o futuro da Inteligência Artificial nas empresas brasileiras. O programa vai ao ar nos canais digitais do Estadão, todas as quartas-feiras, e também no canal Estadão Analisa, aos sábados.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Jornal da ONU com Monica Grayley. Esses são os destaques desta quinta-feira, 18 de junho.Em Dia Internacional, ONU diz que internet deve combater discurso de ódioAssembleia Geral ouve mais uma candidata para substituir António Guterres
Jornal da ONU com Ana Paula Loureiro. Esses são os destaques desta terça-feira, 16 de junho.Secretário-geral da ONU visita Haiti em solidariedade às vítimas da violência Ceticismo, dúvida e medo dificultam combate ao ebola
Jornal da ONU com Ana Paula Loureiro. Esses são os destaques desta quarta-feira, 10 de junho.Agência dá cartão vermelho simbólico para quem pratica trabalho infantilEm Dia de Portugal, diásporas celebram identidade
Jornal da ONU com Monica Grayley. Esses são os destaques desta segunda-feira, 5 de junho.ONU lança novo apelo para atender vítimas da crise no LíbanoPortugal defende proteção dos trabalhadores em tempos de IA e inovação tecnológica
Debate da Super Manhã: Alta demanda por benefícios, falta de servidores e peritos, além da demora na análise dos processos previdenciários. Esses são alguns dos motivos para a fila de solicitações junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), um dos principais desafios da Previdência Social no país. No debate desta quinta-feira (28), a comunicadora Natalia Ribeiro conversa com convidados sobre as ações governamentais para reduzir a espera, os motivos das pendências e os impactos socioeconômicos na vida dos segurados. Participam o secretário de Regime Geral de Previdência Social do Ministério da Previdência Social, Benedito Brunca, e os advogados especialistas em Direito Previdenciário, Almir Reis, Amanda Barros e Elizeu Leite.