O Assunto

Follow O Assunto
Share on
Copy link to clipboard

Um grande assunto do momento discutido com profundidade. Renata Lo Prete vai conversar com jornalistas e analistas da TV Globo, do G1, da GloboNews e dos demais veículos do Grupo Globo para contextualizar, explicar e trazer um ângulo diferente dos assuntos mais relevantes do Brasil e do mundo, além…

G1


    • Jan 22, 2022 LATEST EPISODE
    • weekdays NEW EPISODES
    • 24m AVG DURATION
    • 632 EPISODES


    Search for episodes from O Assunto with a specific topic:

    Latest episodes from O Assunto

    Vida e obra de Elza Soares, por Ruy Castro

    Play Episode Listen Later Jan 22, 2022 31:15

    Neste episódio especial, antecipado para homenagear uma de nossas maiores cantoras, O Assunto recebe o jornalista e escritor, profundo estudioso da música brasileira. Ele conduz o ouvinte por marcos da trajetória de Elza, que morreu na quinta-feira aos 91 anos: da estreia no programa de rádio de Ary Barroso, em 1953, à colaboração com jovens compositores em anos recentes, passando pela histórica gravação de “Língua”, de Caetano Veloso, que a resgatou de um período de ostracismo na década de 80. "Ela cantava muito com o corpo. Impressionante como tinha mobilidade, uma potência não só vocal, mas do corpo todo”, diz. Biógrafo de Garrincha, com quem Elza viveu longo e conturbado casamento, Ruy a entrevistou dezenas de vezes para a feitura do livro, colhendo em primeira mão relatos das adversidades enfrentadas desde a infância de menina negra na favela até a luta, em vão, contra o alcoolismo do jogador. "Ela encarava tudo”, afirma. “É uma coisa espantosa que tenha ‘recomeçado' a carreira aos quase 80". Elza realmente “cantou até o fim”, conforme letra da canção destacada no obituário do jornal americano “The New York Times”. Dessa extensa produção, Ruy não titubeia quando chamado a escolher sua fase favorita: é a dos sambas, em especial até o início dos anos 70. Nesse capítulo, diz, não teve pra mais ninguém.

    Os arrastados, 3 anos de Brumadinho

    Play Episode Listen Later Jan 21, 2022 30:00

    No calendário, 25 de janeiro de 2019. Na vida de bombeiros, legistas e, principalmente, familiares dos 270 mortos, o maior desastre humanitário da história do país segue em curso - e não apenas porque seis das vítimas ainda não foram encontradas na lama e nos rejeitos liberados com o rompimento da Barragem 1 da mina Córrego do Feijão, da Vale. Neste episódio, O Assunto recebe Daniela Arbex, que reconstituiu cada detalhe do dia fatídico e deu voz a dezenas de personagens da tragédia em seu novo livro, “Arrastados”. O título remete a algo que a jornalista aprendeu acompanhando o trabalho incansável de médicos e técnicos do IML de Belo Horizonte: sem pele, “todos ficaram iguais na morte”. Na conversa com Renata Lo Prete, Daniela resgata as evidências de que a mineradora sabia, desde pelo menos um ano antes, dos riscos de rompimento da B1 - e da escala da destruição que isso provocaria. Sobre a luta inacabada dos sobreviventes por Justiça e reparação, ela diz: “Quando você é arrancado de seu lugar de origem, você passa a ser de lugar nenhum”.

    China: limites da política de Covid zero

    Play Episode Listen Later Jan 20, 2022 25:35

    Um cordão sanitário nas fronteiras e dezenas de milhões de pessoas em lockdowns focalizados. Às vésperas de seu principal feriado e de um evento global em Pequim, o país que primeiro identificou o novo coronavírus segue com as medidas mais draconianas para contê-lo. Aliada a uma taxa de vacinação superior a 85%, essa estratégia conseguiu segurar as mortes pela doença num patamar comparativamente baixo (em torno de 5 mil registradas desde o início da pandemia, contra mais de 850 mil nos EUA, por exemplo). Mas agora é questionada tanto do ponto de vista da eficácia (a variante ômicron já está presente em pelo menos 7 das 31 províncias) quanto de efeitos colaterais (recuperação insuficiente da atividade). Professor da Universidade de Nova York em Xangai, o economista Rodrigo Zeidan conta como funciona na prática: “Se um caso for detectado num condomínio, as autoridades fecham o lugar com quem estiver dentro” e promovem testagem em massa. Empresas e governos estrangeiros podem torcer o nariz, mas essa abordagem tem “alto apoio popular”, afirma. Participa também do episódio o jornalista Carlos Gil, que por mais de três anos foi correspondente da TV Globo na Ásia. É ele quem explica as rígidas regras da “bolha” onde ficarão atletas e demais envolvidos nas Olimpíadas de Inverno, a partir de 4 de fevereiro na capital chinesa. Como público, nas arenas, apenas convidados e em número restrito. Gil compara esse ambiente ao dos Jogos de Tóquio, em 2021. “Na China, quem pisar fora do circuito fechado vai sofrer sanções”, até mesmo deportação.

    A panela de pressão do funcionalismo

    Play Episode Listen Later Jan 19, 2022 24:43

    Os atos desta terça-feira em Brasília são o capítulo mais recente de um movimento que começou ainda em 2021, quando Jair Bolsonaro operou para que fosse incluído, no Orçamento deste ano, R$ 1,7 bilhão destinado a reajustar os salários dos policiais federais, cujo apoio o presidente espera obter nas urnas em outubro. O tratamento diferenciado deflagrou reivindicações de servidores da Receita Federal e do BC, principalmente, mas reverbera em dezenas de outras categorias, com gestos de advertência e ameaças de paralisação. Neste episódio, O Assunto procura entender distorções e suas consequências conversando com os economistas Bruno Carazza e Daniel Duque. "É um grupo articulado e poderoso da administração pública", diz Carazza, doutor em direito e colunista do Valor Econômico, sobre os setores que lideram a atual temporada de reivindicações. Ele, que finaliza um livro a respeito do tema, resgata as origens da disparidade de remuneração e defende uma reforma que “racionalize carreiras e institua um sistema sério de avaliação". Pesquisador do Ibre-FGV, Duque detalha estudo comparativo da evolução salarial de diferentes categorias na última década, mostrando quem ganhou e quem perdeu da inflação. E chama a atenção para uma peculiaridade nacional: “O Brasil gasta com o Judiciário 3 vezes mais do que países desenvolvidos. Temos essa jabuticaba para resolver”.

    Djokovic: quando a lei vale para todos

    Play Episode Listen Later Jan 18, 2022 23:57

    Ele era o favorito para vencer o Aberto da Austrália, iniciado no domingo passado. O título seria seu 21º de Grand Slam, feito inédito na história do tênis. Mas, em vez de desfilar talento nas quadras de Melbourne, o número 1 do mundo foi deportado depois de uma queda-de-braço com as autoridades locais: o sérvio de 34 anos desembarcou sem ter tomado vacina contra a Covid, e ainda mentiu no formulário de imigração para burlar a perspectiva de quarentena. “Hoje, ele também não poderia disputar Roland Garros (França) e o US Open (Nova York)”, complementa Guga Chacra. Na conversa com Renata Lo Prete, o comentarista da Globo nos EUA detalha a carreira de um dos maiores tenistas de todos os tempos e relembra outros episódios de negacionismo em que ele se envolveu na pandemia -a lista inclui a promoção de um torneio sem nenhum protocolo restritivo e a realização de entrevista (sem máscara) após teste positivo para a doença. “A Austrália entendeu que ele é uma ameaça à segurança pública”, avalia Deisy Ventura, professora titular de ética da Faculdade de Saúde Pública da USP, sobre a decisão do governo, referendada por uma corte federal. A pesquisadora ainda analisa a diferença entre três diferentes políticas de estímulo à vacinação, a partir de exemplos do Brasil, do Canadá e da Áustria – que está prestes a impor a imunização a todos os adultos maiores de 18 anos.

    A falta de fiscalização no turismo de natureza

    Play Episode Listen Later Jan 17, 2022 20:34

    A tragédia de Capitólio, em Minas Gerais, colocou em evidência a falta de regulamentação para a visitação de atrações naturais no Brasil – e, consequentemente, o risco que oferecem aos turistas. Depois da paralisação quase total no setor durante a pandemia, o turismo voltou a aquecer no país, principalmente a partir de setembro, informa Luiz Del Vigna, diretor-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura. Em entrevista a Natuza Nery, ele fala sobre o crescimento da procura por contato com o ambiente natural - “para descomprimir as tensões da pandemia” - e alerta para o problema colateral: a segurança. Seu diagnóstico relaciona a falta de cuidado dos próprios viajantes, a situação de informalidade de muitos profissionais do setor e, principalmente, a falta de fiscalização sobre a legislação vigente. “Precisamos minimizar os riscos para a aventura ocorrer somente no campo do imaginário”. A geóloga Joana Paula Sanchez, professora da Universidade Federal de Goiás, chama atenção para a falta de estrutura das pequenas cidades, cuja população pode até dobrar de tamanho durante feriados ou férias escolares. “Não tem hotéis ou mesmo saneamento básico suficiente”. Ela também alerta os turistas sobre os maiores perigos e recomenda o que fazer para garantir uma viagem segura.

    A falta de exames e o autoteste para Covid

    Play Episode Listen Later Jan 14, 2022 24:33

    Desde as últimas semanas de 2021, a demanda por diagnóstico cresceu como há muito não se via. Resultado, afirmam especialistas, de uma “tempestade perfeita” que atingiu o Brasil: um mix de festas de fim de ano, contágio acelerado da variante ômicron, surto de casos de gripe H3N2 e descuido nas medidas não farmacológicas de contenção do vírus. Neste episódio, a jornalista Ana Carolina Moreno, repórter de dados da Globo em São Paulo, conta como a procura por testes subiu quatro vezes desde novembro – e que a taxa de positividade explodiu de 9% para 30%. Ela também revela que os principais distribuidores no Brasil já estão em processo de reposição de estoque: “Já fizeram as compras e tem grande volume de testes em trânsito para cá”. Natuza Nery ouve também Claudio Maierovitch, coordenador do núcleo de epidemiologia e vigilância de saúde da FioCruz, que explica a importância da testagem em massa para o estabelecimento de políticas públicas de saúde: “Permite diminuir a velocidade com que o vírus se espalha”. Ele, que foi diretor da Anvisa entre 2002 e 2008, alerta para o risco de que a alta velocidade de transmissão sem a medição adequada pode resultar em mais casos graves e óbitos “sem que os sistemas de saúde tenham se preparado para isso”. E recorda os primeiros meses da pandemia: “Tenho a impressão de que estamos no começo de novo: propagação rápida e testes insuficientes”.

    Burnout: o esgotamento do trabalho

    Play Episode Listen Later Jan 13, 2022 24:21

    A partir de 1º de janeiro deste ano, a OMS incluiu a síndrome relacionada ao trabalho na classificação internacional de doença. Já há anos, o número de pessoas que recebem o diagnóstico cresce, mas houve um boom durante a pandemia – estima-se que, no Brasil, cerca de um terço da população seja afetada. A então publicitária Carol Milters sofreu em duas oportunidades: sintomas como dores no peito, reincidência em infecções e exaustão a afastaram de dois empregos. Hoje, ela, que mora na Holanda, é autora do livro “Minhas páginas matinais: crônicas da síndrome de burnout” e relata sua experiência ao Assunto. Também neste episódio, Natuza Nery conversa com a psicanalista Vera Iaconelli, que fala sobre a importância da decisão da OMS para jogar luz sobre a “patologia social” das relações laborais. E alerta: “Precisa tomar cuidado para entender que o problema não é com a pessoa, mas com a lógica de trabalho”. Ela explica as características da síndrome que, entre outros sintomas, leva à crença de que o trabalho deve “tomar todo o espaço” da vida e de que seus esforços “nunca são o suficiente”. Natuza e Vera falam também dos recortes de gênero e de raça em relação ao aumento de casos, que se multiplica principalmente entre mulheres e, sobretudo, mulheres negras. “Trabalhar cansa, mas não adoece”, resume Vera.

    Explosão da ômicron: como ela mudou a pandemia

    Play Episode Listen Later Jan 12, 2022 24:39

    O tsunami de infecções provocado pela nova variante registra, dia após dia, recorde no número de casos: no mundo, foram mais de 3,2 milhões em 24 horas; no Brasil, a média móvel subiu mais de 600%. Trata-se de um cenário inédito na pandemia, que o médico Márcio Bittencourt, mestre em saúde pública e professor da Universidade de Pittsburgh (Estados Unidos), explica neste episódio. Em entrevista a Natuza Nery, ele esclarece por que é possível deduzir desta nova onda conclusões otimistas. “Não é só o vírus que mudou, mas seu hospedeiro também”, afirma. “Hoje estamos mais protegidos e imunizados”. A lógica é a seguinte: embora a ômicron seja “intrinsicamente mais transmissível” e “escape da imunidade”, a vacinação se provou capaz de reduzir o risco de internação ou complicação decorrente da Covid em até 20 vezes. No entanto, embora as evidências científicas demonstrem que a nova variante é cerca de 30% menos grave do que a variante dominante anterior, a delta, sua alta transmissibilidade ameaça sobrecarregar os sistemas de saúde em todo o mundo – inclusive no Brasil – e coloca em risco principalmente as crianças, ainda não imunizadas. A retomada de atividades cotidianas, como ir a festas ou voltar ao trabalho presencial, expõe a população adulta a novas contaminações e “essas pessoas, que são as que mais interagem com as crianças, acabam levando o vírus para casa”. Bittencourt ressalta que novas medidas de enfrentamento à Covid devem levar em conta, além dos índices de saúde pública, fatores como economia e convívio social. Mas que, agora, estamos em um momento no qual “se não houver medidas de contenção novamente, a transmissão seguirá intensa e irá infectar grande parte da população”.

    Por que está chovendo tanto?

    Play Episode Listen Later Jan 11, 2022 21:27

    Em 2021, o Brasil passou por uma estiagem que fez a conta de energia subir e acendeu o alerta vermelho do risco de um apagão. Isso até dezembro chegar. De lá pra cá, todas as regiões do país sofreram com enchentes, inundações e deslizamentos de terra decorrentes do intenso volume de chuvas. O sul da Bahia foi a primeira região a enfrentar a força das águas, que agora devastam Minas Gerais. Um evento que, descreve Marcelo Seluchi, coordenador-geral do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), pode ser considerado o “maior desastre das últimas décadas” no Estado. Em entrevista a Natuza Nery, ele explica a “zona de convergência do Atlântico Sul”, fenômeno que é o principal responsável pela alta na precipitação fluviométrica, e justifica que, embora as tragédias deste verão não estejam diretamente vinculadas às mudanças climáticas, a tendência é de mais irregularidades no regime de chuvas. “Não vai aumentar a média, mas as oscilações. Os extremos, tanto chuvas mais intensas como secas mais longas, serão mais comuns”. Neste episódio, participa também Pedro Luiz Côrtes, professor de ciência ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da USP. Ele lista os principais mecanismos de mitigação dos eventos climáticos extremos no Brasil e resume: “A palavra-chave é prevenção”.

    Cerrado: um bioma sob ameaça

    Play Episode Listen Later Jan 10, 2022 22:11

    Ele é o segundo maior do Brasil e ocupa uma área de quase um quarto do território nacional, mas está em vias de ser deixado à mercê do desmatamento. A partir de abril, o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) irá encerrar o projeto que monitora a destruição do Cerrado – cujo custo anual é de R$ 2,5 milhões. “Falta visão estratégica”, resume Mercedes Bustamante, professora do departamento de ecologia da UnB e integrante da Academia Brasileira de Ciências, em relação ao fim do monitoramento. Ela explica que a “savana mais biodiversa do mundo” tem uma importância hidrológica que impacta todas as regiões do país. “Garante a segurança hídrica, energética e alimentar do Brasil”. E conclui que o avanço do agronegócio na conversão de terras é um “tiro no pé”. Também neste episódio, Natura Nery entrevista o jornalista Fábio Campos, da TV Anhanguera, afiliada da Globo em Goiás, que há duas décadas trabalha no Cerrado. Ele descreve a paisagem local, com suas “árvores baixas, troncos retorcidos e coloração amarelada” e conta por que os pesquisadores têm tanta urgência em estudar a região – que, informa, está sendo dizimada. “Hoje, as unidades de conservação representam 3% do que é o bioma”, informa. “O resto do Cerrado já não existe mais”.

    Apagão: Brasil sem dados na pandemia

    Play Episode Listen Later Jan 7, 2022 20:47

    Quando os sistemas do Ministério da Saúde sofreram um ataque hacker, em 10 de dezembro, o número de casos, hospitalizações e mortes por Covid estava no nível mais baixo do ano até então. Mas isso antes das celebrações de fim de ano, do surto de gripe em várias cidades e do avanço da variante ômicron, que já representa mais da metade das contaminações no país. Desde então, já há quase um mês, as autoridades sanitárias brasileiras enfrentam a pandemia de olhos vendados, sem os dados necessários para frear a nova onda de infecções - a taxa de positividade nos laboratórios particulares cresce acima de dois dígitos e os hospitais já registram lotação de leitos. “Informação é poder e não faz sentido a gente não ter”, diz Julio Croda, integrante da Fundação Oswaldo Cruz e presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. Em entrevista a Natuza Nery, o infectologista detalha o que faz cada um dos sistemas integrados do SUS e qual o caminho da informação do atendimento nas unidades de saúde até a consolidação no Ministério. Ele também revela que conversou com diversos técnicos que trabalham com a rede do SUS – eles afirmam que “esse sistema poderia ser restabelecido em dias”. "O ataque hacker não justifica a lentidão”. Neste episódio, participa também Leonardo Bastos, pesquisador do Programa de Computação Científica (Procc), da Fiocruz, que explica como funciona a análise dos dados para a avaliação que guia as possíveis ações de políticas públicas no combate à Covid. “Tendo essas informações, as autoridades podem fazer algo, como abrir mais leitos”, afirma. “Inclusive o cidadão pode olhar para isso e pensar: ‘opa, não vou mais àquela festinha que eu ia'”.

    O começo de 2022 para Bolsonaro

    Play Episode Listen Later Jan 6, 2022 23:44

    O fracasso na condução da pandemia, a economia em estado vegetativo e o derretimento da aprovação nas pesquisas assombraram o fim de ano do presidente. Vieram as férias - que não foram interrompidas sequer diante da tragédia provocada pelas chuvas no sul da Bahia. Depois do susto que o levou a uma internação hospitalar repentina, Bolsonaro inicia 2022 pensando em um só objetivo: a reeleição. “Há um eleitor duro do bolsonarismo, que está em torno de 20% nas pesquisas”, afirma o jornalista e analista político Thomas Traumann, colunista da revista Veja do site Poder360. “Pode não ser alto o suficiente para ganhar o segundo turno, mas é muito alto para ele deixar de estar no segundo turno”. Em entrevista a Natuza Nery, o autor do livro “O pior emprego do mundo”, sobre a passagem de 14 ministros pela Fazenda, analisa as pesquisas de opinião para avaliar as chances de o capitão reformado chegar ao segundo mandato: para ele, Bolsonaro “já pagou o preço pela pandemia” eleitoralmente, mas sofre com uma economia estagnada na qual, “se nada for feito não reelege o presidente”. Thomas explica ainda as principais estratégias do bolsonarismo para a corrida eleitoral. Duas já estão em andamento: a “tática de jogar com os seus” - a exemplo do aumento concedido a policiais federais em detrimento a todos os outros funcionários públicos - e a “narrativa dos problemas de saúde decorrentes da facada”. O movimento mais importante, no entanto, deve ocorrer durante a campanha formal ao Planalto: Thomas explica que a “pergunta clássica” em casos de reeleição é se o presidente merece mais 4 anos. “Assim, ele não se reelege. Mas vai tentar mudar a pergunta: o PT merece voltar?”

    Vacina: direito das crianças

    Play Episode Listen Later Jan 5, 2022 24:25

    Nicolas Rodrigues dos Santos, de 9 anos, começou a se sentir mal ainda no início de dezembro. Depois de um vai-e-volta nos hospitais de Astorga, interior do Paraná, foi internado com apendicite e veio a confirmação de Covid-19. Um dia depois do Natal – para qual sua avó já comprara uma bicicleta para presenteá-lo – ele se tornou uma das mais de 500 crianças mortas durante a pandemia no Brasil. “Foi por causa da Covid que ele faleceu”, lamenta Marta Cristina Machado, avó do garoto. “Estava esperando ter a vacina para ele tomar, mas não deu tempo”. Embora a Anvisa já tenha anunciado a decisão de liberar doses da Pfizer para 35 milhões de crianças entre 5 e 11 anos (em uma versão com dosagem diferente da usada em adultos) em 16 de dezembro, o Ministério da Saúde ainda não deu o aval para a imunização em massa. Neste episódio, em entrevista a Natuza Nery, o médico e advogado Daniel Dourado explica a diferença nas atribuições da Anvisa - quem “reconhece a vacina como válida para ser usada no Brasil” - e do Ministério da Saúde - quem “define política pública, caso da vacinação em si no SUS, na esfera federal”. Ele analisa o que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente sobre o dever do Estado brasileiro de garantir a imunização e a obrigação de pais e responsáveis em levar menores de idade para a vacinação. O pesquisador do Centro de Pesquisa em Direito Sanitário da USP ainda avalia o passo a passo das decisões tomadas pela pasta comandada por Marcelo Queiroga: desde a lentidão no pedido de novas doses para a Pfizer até a consulta pública com “perguntas mal elaboradas e amostragem que não temos como considerar”. “É uma maneira de fazer aceno para sua base antivacina e ao mesmo tempo ganhar tempo”, resume.

    Covid a bordo: cruzeiros suspensos no país

    Play Episode Listen Later Jan 4, 2022 21:22

    Depois de quase dois anos, foram liberadas as primeiras viagens de cruzeiro no Brasil. Milhares de turistas embarcaram atrás de dias de descanso e lazer, mas acabaram presos dentro de cabines. Um deles é o empresário Maxwell Rodrigues, apresentador do programa Porto 360 Graus, da TV Tribuna, afiliada da Globo em Santos. Em entrevista a Natuza Nery, ele relata as falhas de comunicação a bordo do navio Costa Diadema: desde a falta de contato após a realização do teste de Covid até o “silêncio ensurdecedor” sobre as informações de casos confirmados entre tripulação e passageiros. Ele recorda também como, ao atracar na costa de Salvador, os turistas receberam a notícia de testes positivos de coronavírus no navio pela imprensa. “Depois do anúncio do lockdown, começou a correria em busca de comida”. Participa também deste episódio a pesquisadora em saúde Chrystina Barros, integrante do Grupo Técnico de Enfrentamento à Covid da UFRJ. É ela quem explica por que, mesmo no caso de as operadoras de turismo terem cumprido à risca os protocolos, não há como evitar novos casos dentro dos navios: “Não dá para conter, é uma realidade aumentada da sociedade”. E aponta que a ômicron e eventuais novas variantes tornam imprevisível o cenário para a volta dos cruzeiros – a partir da recomendação da Anvisa, a associação de empresas do setor interrompeu as atividades até dia 21 de janeiro.

    Os 100 anos da Semana de Arte Moderna

    Play Episode Listen Later Jan 3, 2022 30:04

    No palco principal do Teatro Municipal de São Paulo, em 13 de fevereiro de 1922, o escritor Graça Aranha abriu a Semana de Arte Moderna da seguinte forma: “Para muitos de vós, essa curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de horrores”. Naqueles dias, artistas como Heitor Villas-Lobos, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Anita Malfatti – a quem os especialistas creditam o mérito de ser a “primeira realmente modernista” do país – apresentaram composições, peças, quadros e poemas que seriam um “catalizador das várias iniciativas e direções da implementação da arte moderna no Brasil”, como define Luiz Armando Bagolin, um dos curadores da exposição Era Uma Vez o Moderno, em São Paulo. Em entrevista a Natuza Nery, o professor e pesquisador do Instituto de Estudos Brasileiros da USP disseca os eventos históricos que culminaram no evento, cujo ”forte efeito de propaganda” foi fundamental para chamar a atenção ao movimento e impulsionar o modernismo no Brasil. Ele recorda como o Abaporu, mais célebre obra de Tarsila do Amaral, dá origem à antropofagia e como daí nasce o conflito que afastaria Mário de Andrade do núcleo duro do modernismo. “Mário foi o primeiro autor brasileiro a buscar entender antropologicamente o que é o ‘Brasil profundo'”, afirma. “Ele dizia que o Brasil não conhece o Brasil e que apenas assim se poderia conhecê-lo de verdade”. O desgaste entre o autor de Macunaíma com os demais modernistas, explica Bagolin, se intensifica sob o projeto ultranacionalista do Estado Novo, que “coopta o movimento” e mata aquilo que ele descreve como “dimensão utópica do modernismo”. Nos últimos 100 anos, sua herança passa pela construção da capital Brasília, assinada pelo mais célebre arquiteto modernista, Oscar Niemeyer, e pelo tropicalismo, que reforma a cultura nacional na música, cinema e teatro entre as décadas 1960 e 1970. Bagolin e Natuza resgatam ainda o balanço de Mario de Andrade sobre o modernismo. “Não adianta uma arte moderna em uma sociedade desigual”, cita o pesquisador. “E 100 anos depois, vivemos a mesma coisa: somos modernos, mas ainda temos irmãos que não conseguem comer”.

    REPRISE: Em busca das árvores gigantes da Amazônia

    Play Episode Listen Later Dec 31, 2021 23:57

    Elas se erguem muito acima da média do dossel da floresta. Como conseguem crescer tanto e não quebrar é algo que sempre intrigou estudiosos. Em outubro, quatro guias e quatro engenheiros florestais partiram da pequena Cupixi, na região central do Estado do Amapá, e se embrenharam durante três dias no rio e na mata com o objetivo de chegar à segunda mais alta já identificada pelos radares do Inpe: um angelim vermelho de 85 metros, marca que o faz superar um prédio de 30 andares ou duas vezes a estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Concluída a expedição – na qual equipe de cientistas captou áudios especialmente para o episódio do podcast que O Assunto reprisa neste 31 de dezembro – o professor Diego Armando Silva conversou com Renata Lo Prete a respeito da importância do projeto que coordena. "As árvores gigantes são as mães da floresta", diz. “Além de resistir ao vento, à luz e às tempestades, elas precisam sustentar o próprio peso". A observação de perto, o inventário e a coleta de informações nos ensinam não apenas sobre elas, mas sobre “a estrutura da floresta”. E ele não tem dúvida: ainda há muitas gigantes por mapear e conhecer na Amazônia.

    REPRISE: Brasileiros sem documento - os verdadeiros invisíveis

    Play Episode Listen Later Dec 30, 2021 24:59

    Segundo o último dado oficial disponível, são cerca de 3 milhões de pessoas que, como Maria Helena Ferreira da Silva, chegam à vida adulta (e eventualmente à idade avançada) sem certidão de nascimento: um problema nacional que foi tema da redação do Enem neste ano e do episódio que O Assunto reprisa neste 30 de dezembro. No caso da agricultora de 70 anos, que vive no interior do Paraná, a carência virou barreira na hora de se vacinar contra a Covid-19. No posto, recomendaram-lhe que se conformasse em ficar sem o imunizante, “porque o governo nem sabia que eu existia”. Ela só veio a receber a primeira dose meses depois, por ação da Defensoria Pública, e agora está perto de conseguir a tão sonhada certidão de nascimento. “A gente fica envergonhado, né?” O relato feito por Maria Helena ao podcast introduziu a conversa entre Renata Lo Prete com Fernanda da Escóssia, autora do livro "Invisíveis - Uma Etnografia sobre Brasileiros sem Documento", fruto da tese de doutorado da jornalista na Fundação Getúlio Vargas. Ela explica o papel fundador desse registro e o efeito bola de neve que a ausência dele provoca: vai ficando mais difícil obter outros documentos e, com o passar dos anos, limitações muitos concretas se apresentam, notadamente no acesso aos serviços públicos de educação e saúde. Editora na revista Piauí, com longas passagens pelos jornais O Globo e Folha de S. Paulo, Fernanda se interessa há quase duas décadas por um fenômeno que descreve como “transversal”, porque ligado a múltiplos fatores, como miséria e desestruturação familiar. Em sua pesquisa e nesta entrevista, ela conta histórias de pessoas que conheceu no momento em que buscavam o registro de nascimento e reencontrou tempos depois -- quando haviam resgatado direitos, cidadania e às vezes o próprio "fio da vida".

    REPRISE: Fogo na Cinemateca - memória destruída

    Play Episode Listen Later Dec 29, 2021 28:12

    “Todo mundo sabia que ia acontecer. E aconteceu", diz o diretor Cacá Diegues sobre o processo crônico de negligência e asfixia de recursos que culminou no incêndio do galpão na Vila Leopoldina, em São Paulo, em 29 de julho deste ano. O fogo destruiu cerca de um milhão de documentos que registravam décadas da produção audiovisual brasileira, entre trabalhos de artistas de renome e de anônimos, e que contavam a história do país. O descaso vem de longe, mas o desejo de extermínio é recente, diferencia Cacá, integrante da Academia Brasileira de Letras “Não é que o atual governo não se interesse pelo cinema. Ele é contra o cinema, contra a cultura e não quer que o Brasil exista”. Na conversa com Renata Lo Prete, que O Assunto reprisa neste 29 de dezembro, o diretor reflete sobre o significado de seu “Bye Bye Brasil”. O filme, que no ano 1 da pandemia completou quatro décadas, aborda temas para lá de atuais, como destruição ambiental e aniquilação de povos indígenas. A despeito das dificuldades, Cacá continua a criar e mantém a esperança de que ninguém conseguirá matar o cinema brasileiro. E afirma que sem a arte “você corta a possibilidade de o país se organizar e ser alguma coisa".

    REPRISE: Simone Biles - saúde mental primeiro

    Play Episode Listen Later Dec 28, 2021 32:30

    A maior ginasta de todos os tempos chegou aos Jogos Olímpicos sob pressão para ampliar sua lista de medalhas. Já em Tóquio, a atleta revelou que passava por uma espécie de bloqueio ao saltar e desistiu de quatro finais olímpicas para priorizar o cuidado com sua saúde mental – e abriu um debate que rompeu as fronteiras do esporte. No episódio que O Assunto reprisa neste 28 de dezembro, Renata Lo Prete recebe dois convidados: o ex-repórter da Globo Marcos Uchoa e a doutora em psicologia pela USP Vera Iaconelli. “O que ela faz ninguém mais é capaz de fazer”, resume Uchoa sobre o fenômeno Biles. Ele, que cobre Olimpíadas há mais de três décadas, descreve o estresse a que são submetidos desde muito cedo os atletas de alta performance, especialmente na ginástica. “Há uma deformação da infância e da adolescência", diz. Vera, que também é diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, analisa o caso da ginasta sob o aspecto da “relação com os nossos desejos". Ela questiona a caracterização do gesto da atleta como “um problema”, e pondera: “Saúde mental é poder dizer não a certas coisas que não são aceitáveis. E não tentar loucamente se adaptar a elas".

    REPRISE: Militares de novo no poder: as origens

    Play Episode Listen Later Dec 27, 2021 25:13

    Primeiro, eles saíram dos quartéis para o front internacional em missões de grande visibilidade, notadamente a do Haiti. Depois, foram chamados a atuar em segurança pública interna, numa escalada de operações que culminou com a intervenção de 2018 no Rio de Janeiro. Logo depois da eleição de Jair Bolsonaro, o então comandante do Exército, Eduardo Villas-Bôas, qualificou como “volta à normalidade” a atuação de quadros das Forças Armadas em áreas de natureza civil da administração federal -hoje em patamar sem precedentes. “Este é um governo de militares", afirma Natália Viana, autora do livro “Dano Colateral”, um dos mais importantes lançamentos de 2021, tema do episódio que O Assunto reprisa neste 27 de dezembro. No momento em que eles disputam terreno com políticos do Centrão -e recebem a conta do desempenho desastroso na pandemia-, a jornalista resgata o capítulo inaugural dessa história. Mostra, com apuração minuciosa, a opacidade de informações e a impunidade de atos cometidos, em especial no Rio. E constata que “a democracia já está rota” quando um general (Braga Netto, ministro da Defesa) se sente à vontade para ameaçar ninguém menos do que o presidente da Câmara com a ruptura do calendário eleitoral. “Eles entraram na política e não pretendem se retirar”.

    REPRISE: O vale-tudo das “narrativas”

    Play Episode Listen Later Dec 24, 2021 21:26

    O dicionário diz que se trata da “exposição de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados”. Na política, porém, a palavra se perdeu numa epidemia de usos equivocados, quase sempre voltados ao diversionismo e à tentativa de ocultar verdades inconvenientes. No episódio que O Assunto reprisa neste 24 de dezembro, o apelo incessante à carta da “narrativa”, notadamente pelos bolsonaristas na CPI da Covid, compõe a trilha sonora da conversa de Renata Lo Prete com o jornalista Eugênio Bucci, professor da Universidade de São Paulo e autor do livro “A Superindústria do Imaginário”. Eugênio resgata o sentido original do termo -em diferentes mitologias, na literatura e no jornalismo. Passa por transformações ligadas à lógica dos mercados e chega às fake news, um território onde “a verdade não pesa”. Para ele, abster-se de responder pelos fatos é o "objetivo final dessa discurseira vazia e histérica".

    O Orçamento capturado de 2022

    Play Episode Listen Later Dec 23, 2021 19:53

    A peça aprovada pelos parlamentares evidencia o que os especialistas vinham apontando: menos de metade do “espaço” de R$ 113 bilhões criado com a aprovação da PEC dos Precatórios irá para o novo programa social do governo. “Não houve, de fato, preocupação em reforçar o Auxílio Brasil”, observa Adriana Fernandes, repórter especial e colunista do jornal O Estado de S. Paulo. Em compensação houve, ela explica, ampla e bem-sucedida preocupação em contemplar os interesses do presidente Jair Bolsonaro (como R$ 1,7 bilhão para dar reajuste a policiais federais, deflagrando a ira de outras categorias do funcionalismo) e de deputados e senadores (caso dos R$ 16,5 bilhões para emendas do relator, que seguirão quase tão secretas quanto antes). Na conversa com Renata Lo Prete, Adriana também descreve as idas e vindas que resultaram num Fundo Eleitoral de quase R$ 5 bilhões, a baixa no volume de recursos para investimento e a primazia dada à Defesa sobre pastas como Saúde e Educação. A jornalista destaca ainda o caráter simbólico das ausências de Bolsonaro e do ministro da Economia, Paulo Guedes, de Brasília quando da aprovação: “Quem realmente está mandando no Orçamento é o Congresso”.

    Lula: chapa, pesquisas e mais sobre 2022

    Play Episode Listen Later Dec 22, 2021 27:12

    O ano termina com o petista na liderança isolada das intenções de voto para a Presidência, enquanto negocia uma composição que, até recentemente, poucos sequer imaginariam, com o ex-governador Geraldo Alckmin, recém-saído do PSDB. Se concretizada, será “a aliança do establishment político da Nova República”, diz o cientista político Miguel Lago, que leciona na Universidade Columbia, em Nova York, e na Sciences Po, em Paris. Daí vem sua força e, segundo ele, também seu calcanhar de Aquiles, que Jair Bolsonaro tentará explorar. Na conversa com Renata Lo Prete, Lago analisa movimentos e falas de Lula. Reconhece que nenhum outro candidato desperta tanto no eleitorado pobre, amplamente majoritário no Brasil, a lembrança de dias melhores, mas pondera que o país mudou bastante desde os dois mandatos do ex-presidente. Ele cita dois exemplos: o trabalho formal encolheu para dar lugar ao chamado “precariado”, e a religião ganhou peso no debate e nas definições de perfil. A dicotomia, afirma o professor, agora se dá entre “batalhadores” e “encostados”, estes últimos bem representados, segundo ele, pela família Bolsonaro. “São milionários e nunca fizeram nada".

    Chile: a esquerda no poder

    Play Episode Listen Later Dec 21, 2021 23:20

    Ao final do primeiro turno, muitos previam disputa acirrada e até mesmo favoritismo do candidato da extrema-direita. Porém, encerrada a apuração da etapa final, o ex-líder estudantil Gabriel Boric emergiu vencedor com mais de dez pontos percentuais de vantagem sobre José Antonio Kast. “Era preciso atrair o eleitor do centro. E Boric soube fazer isso melhor do que Kast”, afirma Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV. Na conversa com Renata Lo Prete, ele analisa a sucessão de eventos inaugurada no país com os protestos de 2011, até chegar à Assembleia Constituinte e, agora, à eleição do primeiro presidente que não saiu de nenhuma das duas coalizões que se alternaram no poder desde o fim da ditadura do general Pinochet, em 1990. “É preciso ter cuidado com as expectativas”, pondera Stuenkel. O jovem eleito (35 anos) terá que lidar não apenas com um Congresso dividido, mas com reticências em sua própria aliança. “O Partido Comunista está distante”, diz. Mais importante: num cenário de inflação e fim dos auxílios da pandemia, precisará enfrentar a desigualdade econômica e social que inflamou as ruas. Sem desconsiderar o histórico recente de resultados eleitorais da América Latina, o professor matiza: “Boric é uma outra esquerda, mais parecida com partidos progressistas da Europa. Um fenômeno típico chileno, difícil de imaginar em países como Paraguai, México ou o próprio Brasil”.

    Pandemia: o que esperar do ano 3

    Play Episode Listen Later Dec 20, 2021 24:22

    Ao fim de 2020, o trauma de meses dificílimos cedeu lugar à euforia com o início da vacinação. De fato, onde ela avançou mais, o quadro melhorou bastante. Mas a desigualdade na aplicação contrapõe países com mais de 80% da população completamente imunizada a outros, quase sempre pobres, nos quais o percentual não chega a 10%. “Mais do que um imperativo ético e moral, o acesso equitativo às vacinas ainda é a melhor resposta à pandemia”, afirma Jarbas Barbosa, vice-diretor da Opas, braço da OMS nas Américas. Isso porque somente o controle da transmissão do vírus poderá impedir o surgimento sem fim de variantes de preocupação. A ômicron, mais recente delas, embaralhou todos os prognósticos para 2022, ao combinar manifestações aparentemente menos graves da doença à maior transmissibilidade vista até aqui. “Mesmo países com sistemas de saúde fortes poderão enfrentar problemas”. Em entrevista a Renata Lo Prete, o médico brasileiro analisa estudos preliminares sobre a ômicron e a necessidade das doses de reforço. E lança um olhar esperançoso sobre o futuro: “Se tivermos vigilância genômica funcionando, mantivermos a adesão da população às recomendações de saúde pública e avanço da vacinação, acredito que possamos chegar ao final de 2022 com perspectiva de controle”.

    Gripe fora de época se espalha no Brasil

    Play Episode Listen Later Dec 17, 2021 23:11

    Os primeiros sinais surgiram na UPA da Rocinha, onde explodiu o número de pacientes com queixas respiratórias. Alguns dos sintomas se assemelhavam aos da Covid, mas testes deram outra resposta: influenza. E uma variante diferente, a Darwin, que predominou no hemisfério norte no início de 2021 e agora, atipicamente longe do inverno, ganha terreno por aqui. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Marcelo Gomes, coordenador do Boletim Infogripe, da Fiocruz. O pesquisador em saúde pública explica a piora do quadro, notadamente no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, onde a doença já adquiriu caráter epidêmico, com espalhamento dos casos. Cidades como São Paulo, Salvador, Belém e Manaus também enfrentam surtos, com sobrecarga de seus hospitais e postos. “Infelizmente, a perspectiva para as próximas semanas é de mais ocorrências”, diz Marcelo. Ele cita entre os motivos a “queda na cobertura vacinal deste ano” no Brasil. Ainda que o imunizante disponível não proteja contra a variante H3N2, ele não tem dúvida em recomendar que especialmente os segmentos mais vulneráveis da população tomem a vacina. Para prevenção, as recomendações são as mesmas dos últimos dois anos: usar máscaras de boa qualidade e sempre, preferir lugares abertos e evitar aglomerações.

    Violência obstétrica: como se proteger

    Play Episode Listen Later Dec 16, 2021 23:02

    O relato da influenciadora digital Shantal Verdelho sobre abusos sofridos durante o nascimento de sua filha em um hospital privado paulistano evidenciou um drama silenciado por longo tempo e que atinge uma legião de mulheres no país. Um tipo de violência que pode ocorrer no atendimento pré-natal, no parto ou depois dele, e se manifestar em intervenções cirúrgicas (realizadas sem consentimento ou mesmo à revelia da paciente) e assédio moral (por meio de gritos e ofensas), explica a jornalista Giovanna Balogh, especialista em temas ligados à maternidade e à infância. “Os profissionais da saúde não querem cometer violência, mas reproduzem condutas que aprenderam, estão desatualizados ou são insensíveis ao fato de haver uma mulher atrás daquela vagina”. A ginecologista e obstetra Larissa de Freitas Flosi, do coletivo Nascer, enxerga o momento histórico em que o trabalho de parto saiu maciçamente do ambiente familiar, entre as décadas de 1950 e 1960, como uma espécie de marco zero desses casos. “Virou um evento médico”, que ocorre “no momento de maior vulnerabilidade física e emocional” da mulher e envolve traços da sociedade como machismo, racismo e preconceito de classe. A médica afirma que a assistência obstétrica precisa ser baseada em dois pilares: ciência e autonomia da mulher. Para a gestante, o mais importante é ter informação de qualidade. “É o melhor item do enxoval”.

    O desmanche das decisões da Lava Jato

    Play Episode Listen Later Dec 15, 2021 24:18

    Na largada, em março de 2014, a operação investigava lavagem de dinheiro e evasão de divisas. A partir daí vieram as descobertas de malfeitos bilionários, relacionados sobretudo à Petrobras, e a prisão de representantes da elite empresarial e política. Numa sucessão espetacular de fases, a Lava Jato conquistou grande apoio popular, mas não sem danos colaterais. Excessos cometidos pelos investigadores passaram a ser questionados pelo Judiciário: hoje, nas cortes superiores, condenações em série são revertidas, e pilares da operação, derrubados. “A decisão do STF de deixar na vara de Curitiba apenas casos relativos à Petrobras foi um divisor de águas”, afirma Marco Aurélio de Carvalho, integrante do Grupo Prerrogativas. Assim como, no entender dele, a de remeter à Justiça Eleitoral casos de crimes comuns relacionados a caixa dois. Tudo isso, acredita Marco Aurélio, faz parte de um processo de depuração e restabelecimento de marcos institucionais, no qual ele inclui ainda a declaração de suspeição de Sergio Moro para julgar o ex-presidente Lula. Neste episódio, Renata Lo Prete recebe também Raquel Pimenta, professora de direito na FGV. Ela, que estuda corrupção e poder econômico, analisa erros e acertos no uso, pela Lava Jato, de instrumentos como delações premiadas e acordos de leniência.

    Os evangélicos e seu espaço no Judiciário

    Play Episode Listen Later Dec 14, 2021 25:36

    Logo no início do mandato, Jair Bolsonaro prometeu que levaria ao STF um nome “terrivelmente evangélico”. André Mendonça foi o segundo escolhido pelo presidente (depois de Nunes Marques), mas não corresponde exatamente ao perfil. “Ele é, na verdade, um conservador moderado”, define a socióloga Christina Vital da Cunha, “que inclusive já apoiou governos à esquerda”. Em entrevista a Renata Lo Prete, a professora da Universidade Federal Fluminense, também colaboradora do Instituto de Estudos da Religião, explica que o interesse de grupos religiosos pelo Judiciário é anterior ao atual governo e vai além dos evangélicos. Em sua origem está a dificuldade de fazer avançar, via Legislativo, determinados pontos da agenda conservadora. E a necessidade de se contrapor ao que consideram “ativismo do Judiciário”, sobretudo em pautas comportamentais. Christina recorda a entrevista que fez em 2014 com o então candidato à Presidência Pastor Everaldo (PSC), na qual ele reconhecia que o projeto era “trocar a cabeça”, com a finalidade de indicar ministros afinados com os interesses de seu grupo. O alinhamento de muitas lideranças evangélicas com o bolsonarismo se deu ainda no discurso anticorrupção que prevaleceu nas eleições de 2018 -mesma pauta que “agora motiva o rompimento” de parte do segmento com o presidente. Essa é uma das razões, acredita, pelas quais o eleitorado evangélico pode chegar a 2022 fragmentado entre a reeleição de Bolsonaro, a nostalgia dos tempos de prosperidade de Lula e o apelo lavajatista de Sergio Moro. Um racha que o presidente terá de enfrentar também diante da base parlamentar e ativista que empurrou Mendonça até a aprovação pelo Senado - onde a indicação ficou quatro meses parada e enfrentou expressiva resistência. “Se ele atuar conforme o interesse dos grupos que realmente o apoiaram, entrará em choque com Bolsonaro, inevitavelmente”.

    Natal com fome: como ajudar quem precisa

    Play Episode Listen Later Dec 13, 2021 24:33

    O ano 2 da pandemia agravou uma situação que já era a de milhões de brasileiros em 2020: insegurança alimentar. Ao longo de 2021, a demanda por doações cresceu 30%, enquanto o volume caiu 20%. Uma realidade que Renata Alves, uma das responsáveis pelas ações de enfrentamento à Covid na favela paulistana de Paraisópolis, define como “perturbadora”. Ela relata que a crise tem levado pessoas a buscar comida até em Unidades Básicas de Saúde. Para Daniel Souza, presidente do conselho da ONG Ação da Cidadania, o quadro resulta do “desmonte criminoso das políticas públicas” em anos recentes. Por maior que seja o imperativo da solidariedade, “é só por meio delas que poderemos sair novamente do mapa da fome”, afirma. A terceira entrevista de Renata Lo Prete é com Preto Zezé. O presidente da Central Única das Favelas mostra como o empobrecimento atinge parcelas da sociedade antes relativamente protegidas -resultando no aumento da população de rua e em mais de 20 milhões de brasileiros sem alimentação básica. Para responder a essa tragédia, ele espera promover uma mobilização “mais contagiosa do que o próprio vírus”. A exemplo do que viu acontecer com mães de Fortaleza: em uma ação na capital cearense, havia 50 cartões no valor de R$ 120 reais para distribuir entre essas mulheres; no entanto, 100 apareceram. Então, as primeiras 50 da fila compartilharam o dinheiro com as demais. “Elas fizeram isso não só em um momento difícil do Brasil, mas no pior momento”. O episódio traz indicações de como doar para organizações de ajuda atuantes em todo o Brasil.

    Capes: a crise na pós-graduação

    Play Episode Listen Later Dec 10, 2021 25:17

    De setembro a dezembro deste ano, por força de uma decisão judicial, centenas de pesquisadores da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior não puderam executar a avaliação de cursos de mestrado e doutorado. Muitos deles responsabilizam a presidência do órgão, ligado ao Ministério da Educação, que não teria recorrido a instâncias superiores com a devida celeridade para reverter esse quadro. Em meio a esse impasse, e diante de uma série de outras denúncias, pelo menos 114 pesquisadores de quatro áreas deixaram a Capes, em movimento inédito. Renata Lo Prete recebe o ex-ministro da Educação e ex-diretor da Capes, Renato Janine Ribeiro, e a repórter do jornal O Globo Paula Ferreira para explicar a questão. Paula apresenta os argumentos dos pesquisadores, segundo os quais a pós-graduação no Brasil “não é mais política de Estado”. Eles apontam ainda falta de diretrizes e de consultas aos técnicos - a presidente da Capes, terceira a ocupar o cargo no governo Bolsonaro, rejeita todas as acusações. Renato lembra que, na produção científica brasileira, "a base de tudo é a avaliação”, um trabalho “barato”, que custa ao governo apenas as despesas dos avaliadores. Para explicar a importância da Capes, Janine lembra que quase toda a ciência no Brasil é feita na pós-graduação. Assim como em outras áreas, ele reforça que, para a ciência, é fundamental ter um plano "que diga quais são as prioridades para o futuro".

    Ucrânia: vai ter invasão da Rússia?

    Play Episode Listen Later Dec 9, 2021 24:21

    Até meados de novembro, o serviço ucraniano de inteligência estimava em 90 mil os soldados russos deslocados para a fronteira entre os dois países. Os Estados Unidos sugerem que pode ser o dobro, no que enxergam como preparativos para uma ofensiva a partir de janeiro. E ameaçam impor novas sanções a um velho adversário, que por sua vez insinua disposição de pagar para ver. Na perspectiva da Rússia, é a Otan (aliança liderada pelos EUA) que pretende cruzar a “linha vermelha” tentando atrair para seus quadros a mais estratégica das ex-repúblicas soviéticas. Para analisar essa reencenação da Guerra Fria, motivo de teleconferência na terça-feira entre os presidentes Joe Biden e Vladimir Putin, Renata Lo Prete recebe Guga Chacra. O comentarista da Globo em Nova York começa por lembrar que “a Ucrânia faz parte do sentimento de nação dos russos” desde o tempo dos czares e que isso não mudou depois do fim da URSS, em 1991. Para explicar a tensão atual, ele resgata o capítulo anterior, ocorrido em 2014, quando um movimento de inflexão pró-ocidente na Ucrânia terminou com a anexação, pela Rússia, da península da Crimeia. Assim como há sete anos, diz Guga, os americanos não pretendem e dificilmente teriam condições de avançar sobre a vizinhança de Putin. Com outros problemas para resolver, Biden espera, no máximo, manter influência e “uma certa estabilidade na Europa”. Quanto a Putin, embora esteja promovendo a maior mobilização de contingente militar no Leste Europeu em décadas, ainda é cedo para cravar se pretende ir até o fim.

    O aparelhamento da Polícia Federal

    Play Episode Listen Later Dec 8, 2021 23:09

    Desde o início do mandato, o presidente da República é claro sobre seu projeto de subordinação. Na fatídica reunião ministerial de 22 de abril de 2020, prometeu trocar o diretor-geral e o ministro da Justiça, se necessário - e assim o fez. “Não estamos aqui para brincadeira”, sentenciou no evento. Desde então, acelerou-se o “processo de tomada da PF pelo bolsonarismo”, como define Allan de Abreu, repórter da revista Piauí. Em conversa com Renata Lo Prete, ele descreve as conexões políticas que levaram ao cargo o atual “DG”, Paulo Gustavo Maiurino, conhecido por subordinados como “delegado de cativeiro”, devido à pouca experiência em investigações. O jornalista observa que, ao decretar o fim do “segredismo” na corporação, durante evento interno em maio, Maiurino estava na verdade escancarando a diretriz de tornar a PF uma “polícia política” nas mãos do presidente. O jornalista recorda outras trocas nas quais “gente de confiança” do Executivo assumiu posições de diretoria ou superintendência portando “currículos não tão auspiciosos” e cita especialmente a perseguição ao delegado Felipe Leal - que, depois de investigar afastamentos suspeitos de colegas, acabou ele mesmo sendo retirado do inquérito que apura a interferência de Bolsonaro na PF. Renata e Allan traçam o histórico de conquista de autonomia e protagonismo da corporação a partir dos anos 2000. “Agora é o oposto”, compara Allan. “Uma delegada me disse: aquilo que a instituição demorou anos para construir foi destruído em meses”.

    Por que é preciso exigir passaporte vacinal

    Play Episode Listen Later Dec 7, 2021 23:02

    A recomendação da Anvisa, emitida há quase um mês, é direta quanto à necessidade de impedir o acesso ao Brasil de viajantes não imunizados contra a Covid. Em suas notas técnicas, a agência pondera que esse é um movimento global diante do aumento no número de casos e da emergência da variante ômicron, mais transmissível. Em entrevista a Renata Lo Prete, a jornalista Isabela Camargo, repórter da GloboNews em Brasília, observa que a atitude da Anvisa foi apoiada por Estados e municípios, além de reiterada pelo Tribunal de Contas da União. Mas nada disso basta num caso que envolve fronteiras nacionais, lembra a jornalista: “só uma portaria do governo federal pode estabelecer a exigência do passaporte da vacina”. E, diante da ostensiva oposição de Jair Bolsonaro, até uma reunião interministerial para tratar do tema foi cancelada nesta segunda-feira -pouco depois de o ministro do Supremo Luís Roberto Barroso cobrar uma posição do Executivo em até 48 horas. Para Rosana Richtmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas, esse comprovante e o de testagem são fundamentais para proteger os brasileiros da ômicron. “Ela é quase outro vírus, se comparada a variantes anteriores”, afirma. “E o problema é que outras virão”. A médica cita o caso da febre amarela, cuja vacina é exigida há décadas por pelo menos 100 países, como exemplo de que “a liberdade individual deve ser limitada quando tem impacto no bem coletivo”. E reforça que, para a segurança do país, não bastam ações de administradores locais: “é necessário o governo federal” agir.

    Alemanha: na 4ª onda e sob nova direção

    Play Episode Listen Later Dec 6, 2021 25:20

    Depois de 16 anos, a era Merkel deve chegar ao fim nesta quarta-feira, quando o Parlamento se reunir e confirmar Olaf Scholz como chanceler. De cara, às portas do inverno, o social-democrata terá de enfrentar o arrefecimento da pandemia - e a resistência de parte da população a se vacinar. Isso será “prioridade absoluta do novo governo”, afirma Kai Enno Lehmann, professor de Relações Internacionais da USP. Angela Merkel e seu sucessor vêm trabalhando juntos em medidas nessa área. Depois da transição, no entanto, conflitos em torno de temas menos consensuais podem emergir. Afinal, a coalizão formada é a primeira, desde a metade do século passado, a abrigar três partidos distintos e “ideologicamente bem diferentes” (verdes e liberais completam o trio). “São parceiros pouco naturais, e isso vai produzir muito debate”, sobretudo a respeito da sempre adiada reforma do sistema previdenciário. Entre as concordâncias, ele aponta investimento na transição para uma economia mais verde - o que, prevê o professor, ameaça colocar mais pressão nas tratativas da União Europeia com o Brasil. Na conversa com Renata Lo Prete, Kai também analisa o longo período Merkel. Segundo ele, a cientista que se tornou uma das políticas mais influentes do mundo “encarnou muito bem” a estabilidade que a Alemanha buscava e conseguiu alcançar, mesmo diante de sucessivas turbulências globais. A democracia-cristã de Merkel foi derrotada nas urnas, mas a chanceler sai de cena com alta popularidade. “Ela tem perfil cauteloso, mas, quando a oportunidade se apresenta, ela pega”, resume. “E esse jeito frio de lidar com as crises conquistou os alemães”.

    Recessão técnica: daqui vamos para onde?

    Play Episode Listen Later Dec 3, 2021 25:08

    O resultado do PIB brasileiro teve o segundo trimestre seguido no vermelho: de acordo com o IBGE, a economia retraiu 0,1% no 3° trimestre de 2021 em relação ao período anterior - condição que coloca o país em recessão técnica. Miriam Leitão, comentarista da Globo, da CBN e colunista do jornal O Globo, analisa em conversa com Renata Lo Prete o processo de recuperação dos índices neste 2021 em relação ao ano anterior - “um Brasil que caiu, levantou mas não conseguiu andar”. E por que estamos ficando para trás em relação ao resto do mundo. Parte das respostas está em Brasília, nas figuras de um presidente “desorganizador e criador de conflitos” e de um ministro da Economia “fora da realidade”. Miriam fala das perspectivas para 2022: com juros mais altos, a previsão é de "economia parada", mas com inflação menor, "em parte pela produção maior da agricultura". E como a alta menor nos preços dos alimentos deve aliviar o orçamento das famílias “que estará apertado por um país que não cresce, e por um desemprego muito alto". Participa também deste episódio Mauro Rodrigues Júnior, professor da USP e economista do site “Por quê? Economês em bom português”. Ele explica a composição do PIB, número que “dá o valor de tudo o que foi produzido”. E como o resultado reflete “a renda total da economia”, além de detalhar os mecanismos para a medição dos resultados. E aponta ainda para onde olhar para diagnosticar a saúde econômica do país: “é preciso entender a renda média”, conclui, ao apontar que, muito desigual, “o Brasil está muito mal”.

    Centrão-raiz: esteio de Bolsonaro para 2022

    Play Episode Listen Later Dec 2, 2021 25:11

    Depois de passar mais de dois anos sem legenda, Bolsonaro ingressou na nona de sua carreira política. E se declarou “em casa” na cerimônia de filiação ao Partido Liberal, que teve a presença também de lideranças do Progressistas (PP) e do Republicanos. É nesse trio que o presidente pretende apoiar sua campanha à reeleição - na contramão de 2018, quando concorreu como candidato “antissistema”. Neste episódio, Renata Lo Prete conversa com Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo e comentarista da rádio CBN, para entender motivos, vantagens e riscos desse consórcio. Bernardo começa por lembrar que, quando deixou o PSL, a ideia de Bolsonaro era criar um partido, mas isso “exige organização e trabalho, duas coisas que não são o forte dele”. Resgata também as opções que o presidente cogitou até finalmente se decidir. “Pesou a favor do PL o fato de ter dono único”, explica. Ele se refere a Valdemar Costa Neto, político de 7 vidas condenado no mensalão e influente em todos os governos. Para o cacique, Bolsonaro representa, no mínimo, um impulsionamento de votos capaz de expandir uma bancada que já é das maiores da Câmara. E, no melhor cenário, oferece a perspectiva de entrar no principal gabinete do Palácio do Planalto “pela porta da frente e sem bater”. Desde que a aliança se mantenha firme até a eleição - o que, Bernardo ressalva, depende de muitos fatores e ninguém tem como garantir.

    Boate Kiss: enfim caso vai a julgamento

    Play Episode Listen Later Dec 1, 2021 22:59

    São quase nove anos desde o incêndio na casa noturna da cidade gaúcha de Santa Maria, no qual morreram 242 pessoas, a maioria estudantes universitários. A data era 27 de janeiro de 2013, mas “é como se esses meninos e meninas morressem todos os dias” desde então, afirma Daniela Arbex, autora do livro “Todo Dia a Mesma Noite - A História Não Contada da Boate Kiss”. Isso porque, até hoje, ninguém foi responsabilizado pelas irregularidades e negligências que resultaram na tragédia. “Eu percebo que a falta de Justiça dói tanto quanto a morte”, diz a jornalista, referindo-se a suas conversas com familiares e sobreviventes (estes, mais de 600, muitos com sequelas graves). Nesta quarta-feira, depois de longo e acidentado processo, um júri popular começa a decidir o destino de quatro réus - dois ligados à boate e dois à banda que se apresentava no local e deu início ao fogo. Na conversa com Renata Lo Prete, Daniela destaca a luta dos pais, sem a qual, ela acredita, o julgamento jamais aconteceria. A memória daquela noite é motivo de “adoecimento permanente” para eles, que enfrentam ainda a “hostilidade” de outros moradores, que os culpam pelas dificuldades econômicas de Santa Maria. “Hoje, é uma cidade dividida entre as pessoas que perderam seus amores e aquelas que querem que a história seja esquecida”.

    Ômicron: por que o mundo tem medo

    Play Episode Listen Later Nov 30, 2021 30:07

    Em poucos dias, a nova variante do coronavírus, de origem ainda desconhecida, mas sequenciada primeiro na África do Sul, alcançou o status de “gravidade máxima”, conferido pela Organização Mundial da Saúde. “Foi a mais rápida”, observa Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo. Na conversa com Renata Lo Prete, ela explica o que levou a comunidade científica e o mercado ao estado de alerta em tempo recorde: o risco de que as mutações da ômicron saibam “escapar” da resposta imune desenvolvida por pessoas vacinadas. Nas próximas duas semanas, estima a epidemiologista, os principais laboratórios do planeta devem estabelecer o nível de eficácia dos atuais imunizantes contra a nova variante. Até lá, cabe ao governo brasileiro “ampliar o programa de testagem e de vigilância genômica”. Se for constatado que a ômicron tem mesmo grande potencial de dano, analisa o jornalista do Valor Econômico Assis Moreira, haverá mais pressão para que os países se entendam sobre a suspensão de patentes. Mesmo que ela só venha a se mostrar útil “numa próxima pandemia”. “Vai levar anos para que todos consigam produzir”, ele afirma. E alerta para o relatório em que a OMS prevê mais 5 milhões de mortes “se tudo continuar como está” do ponto de vista da distribuição global de vacinas. No campo da diplomacia, China, Rússia e Estados Unidos prometem a transferência de bilhões de doses para reverter a desigualdade: os países do G-20 compraram 89% de todas as disponíveis - e já anteciparam a aquisição majoritária das futuras. “Já existe vacina suficiente para todo o mundo; o problema é o desequilíbrio”.

    Pobreza Menstrual: sociedade reage

    Play Episode Listen Later Nov 29, 2021 21:56

    Na esteira do veto de Jair Bolsonaro à lei que prevê fornecimento gratuito de absorventes a mulheres em situação de vulnerabilidade, prosperaram iniciativas locais, dos setores público e privado, para atacar uma carência essencial de milhões de brasileiras. A forte repercussão ameaça reverter o próprio gesto do presidente — está em curso uma articulação no Congresso para derrubá-lo na próxima sessão de análise de vetos, no início de dezembro.

    Garimpo: Serra Pelada no Rio Madeira

    Play Episode Listen Later Nov 26, 2021 25:21

    Um arrastão de centenas de balsas num dos mais importantes afluentes do Amazonas, lar de cerca de 1.200 espécies de peixes. Atracadas em trecho situado no município de Autazes, a 133 km de Manaus (AM), elas são o traço mais visível de uma corrida do ouro que muitos já comparam à que se deu nos anos 80 na Serra dos Carajás (PA). O repórter Alexandre Hisayasu, que sobrevoou a área, descreve uma “invasão em massa de garimpeiros” que, por lei, não poderiam operar ali. Nesta quinta-feira, depois de duas semanas de tensão escalando, o vice-presidente Hamilton Mourão anunciou que será criada “uma força-tarefa” para lidar com o problema. Em conversa com Renata Lo Prete, o jornalista da Rede Amazônia, afiliada da Globo, detalha o funcionamento do garimpo sobre balsas e seu impacto ambiental - uma vez que tudo, “incluindo mercúrio”, é jogado de volta no rio. Para Raoni Rajão, professor de Gestão Ambiental e Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia da UFMG, esse tipo de ação remete ao modo como agem as Farc do lado de lá da fronteira, “desafiando a autoridade e a soberania do Estado brasileiro”. A ousadia crescente dos garimpeiros, analisa Rajão, relaciona-se com o desmonte de órgãos como o Ibama e o “apoio explícito de parte do poder público” à atividade ilegal. Resultado de uma legislação criada décadas atrás para atender a lógica da lavra artesanal e que hoje é desvirtuada, facilitando a prática de crimes que mobilizam milhões de reais, equipamentos sofisticados e até helicópteros e aviões. Na Amazônia, mais da metade do ouro tem indícios de ilegalidade, afirma o pesquisador, gerando prejuízos de “escala bilionária”, muito superiores aos impostos arrecadados com a mineração legal. “Como um todo, é negativo para a sociedade”.

    Carne: embargo da China e outras pressões

    Play Episode Listen Later Nov 25, 2021 23:29

    Destino de 15% da carne bovina brasileira, a China suspendeu suas compras no início de setembro, depois que o Brasil reportou dois casos da doença da vaca louca. Agora, depois de mais de dois meses, dá sinal verde para a retomada parcial das importações. Roberto Rodrigues, ministro da Agricultura entre 2003 e 2006, analisa em conversa com Renata Lo Prete o impacto do embargo para o Brasil. Ele explica como a pandemia trouxe à tona duas questões que estão diretamente relacionadas ao agro: sustentabilidade e segurança alimentar. E seus resultados práticos: corrida acelerada dos países pela compra de mais comida, com pressão inflacionária global - com efeito mais severo para o mercado interno, diante da desvalorização do real em relação ao dólar. Em paralelo ao contencioso com a China, o ex-ministro fala sobre a preocupação do agro nacional com o eventual embargo ameaçado pela União Europeia sob argumento ambiental: uma “espécie de barreira não-tarifária”, que ele considera “protecionismo injustificado”. Participa também Rafael Walendorff, repórter do Valor Econômico. Ele atualiza o status da negociação entre os governos para a liberação da carne nos portos chineses e contextualiza a “jogada comercial” da China em derrubar parcialmente o embargo: repõe seu estoque interno de proteína animal (que tradicionalmente cai nos fins de ano) e “sinaliza boa vontade” aos frigoríficos brasileiros.

    Para onde vai o Chile no 2º turno?

    Play Episode Listen Later Nov 24, 2021 24:04

    Desde a redemocratização, coalizões de centro-direita e de centro-esquerda se alternaram no poder. Uma equação, ao menos na aparência, mais estável que a de outros países da região até 2019, quando milhares de chilenos tomaram as ruas por dois meses. “A panela de pressão explodiu”, resume a socióloga Beatriz Della Costa, diretora do Instituto Update, que estuda inovação política na América Latina. Para ela, dois fatores explicam a virada de vento: “brutal desigualdade social” e “baixo acesso a serviços públicos”. Os protestos abriram caminho para uma Assembleia Constituinte, eleita em maio deste ano, de configuração majoritariamente progressista. E agora, apenas seis meses depois, nova inflexão: no primeiro turno da disputa presidencial, realizado no domingo passado, o candidato da extrema-direita, José Antonio Kast, chegou na frente, com 28% dos votos. Na etapa final, seu adversário será o Gabriel Boric, de esquerda, que obteve 25%. “O que está em jogo é a capacidade de mobilização” de cada um, afirma Beatriz. Para o historiador Felipe Loureiro, os eleitores de Franco Parisi (terceiro colocado, com 13%), serão o fiel da balança. E, até aqui, os sinais são de que Kast teria capacidade de atraí-los em maior número. Loureiro, coordenador do curso de Relações Internacionais da USP e do Observatório da Democracia no Mundo, explica que a agenda econômica e o discurso de ordem de Kast têm aderência no mercado e entre nostálgicos da ditadura -ele é defensor ferrenho de Augusto Pinochet. Já a pauta de Boric, ligada a temas como preservação ambiental e defesa dos direitos humanos, encontra eco no eleitorado mais jovem.

    Prévias frustradas: o apagão tucano

    Play Episode Listen Later Nov 23, 2021 26:19

    De 1994 até 2014, o PSDB foi protagonista de todas as eleições presidenciais, vencendo as duas primeiras (com FHC) e perdendo para o PT no 2º turno das demais. Mesmo em 2018, Geraldo Alckmin conseguiu reunir a maior coalizão do pleito, antes de terminar em 4º lugar, com menos de 5% dos votos. Naquela altura, “o eleitor antipetista começou a enxergar mais defeitos no partido”, lembra o jornalista Fábio Zambeli, analista-chefe em São Paulo da plataforma Jota. E migrou em peso para Jair Bolsonaro. Desta vez, sem nenhum postulante com força suficiente para se impor de saída na disputa interna, a sigla marcou inéditas prévias para escolher entre João Doria (SP), Eduardo Leite (RS) e Arthur Virgílio (AM). Mas, na hora H, a milionária plataforma de votação simplesmente não funcionou. E agora os tucanos se bicam sobre o que fazer, expondo fraturas de difícil conserto. Na avaliação de Zambeli, o desastre de domingo “é um case de antipropaganda para o eleitor arrependido do voto em Bolsonaro” e empurra ainda mais o PSDB à condição de “plano C” para o espectro político que vai do centro à direita - atrás do próprio presidente e do ex-juiz Sergio Moro. “Há mais dúvida do que convicção na empreitada, seja com Doria ou com Leite”, diz. Favorito para vencer caso as prévias aconteçam, o governador de São Paulo será o mais prejudicado se o impasse se estender indefinidamente.

    Amazônia: a marcha batida da destruição

    Play Episode Listen Later Nov 22, 2021 27:28

    O balanço anual do Inpe indica, pela quarta vez seguida, avanço do desmatamento na região. No comparativo com o período anterior, a alta foi de 22%, correspondente a mais 13 mil km². Números não apenas assombrosos como ocultados pelo governo desde outubro, para que só viessem à luz depois da Cúpula do Clima da ONU. De posse das informações, o agrônomo André Guimarães, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazonia (Ipam), dimensiona o estrago: uma perda anual equivalente a quatro vezes o tamanho do Distrito Federal, 90% em operações ilegais e mais da metade em terras públicas, griladas para especulação fundiária. “Ao perder floresta, perdemos biodiversidade, serviços ambientais e ciclos hídricos que ela mantém”, explica. Esse longo período de desmatamento em patamares elevados coincide com o protagonismo dos militares no Conselho da Amazônia, contextualiza a jornalista Marta Salomon, colaboradora da revista Piauí e doutora em Desenvolvimento Sustentável. Ela se baseia em documentos públicos para afirmar que a atual estratégia oficial para o bioma remonta à época da ditadura. “É uma visão de que não se trata de um território estratégico para mudanças climáticas, mas sim de uma fronteira de recursos naturais a ser explorada”. Marta explica também que as Forças Armadas assumiram não só o comando estratégico, mas também o das verbas públicas: em 2020, geriram R$ 370 milhões para a Amazônia, o dobro do que os órgãos ambientais tiveram no período. E os resultados vemos agora.

    Os “sem-nada” são quase 30 milhões

    Play Episode Listen Later Nov 19, 2021 25:03

    Em um contexto no qual a inflação se aproxima dos dois dígitos e o desemprego nas faixas de menor renda atinge um terço da população, o mês de novembro marca o fim da última fase do auxílio emergencial e a substituição completa do Bolsa Família, criado há 18 anos, pelo Auxílio Brasil. Uma operação que vai empurrar para a pobreza mais brasileiros - a maior parte mulheres, negras, jovens, com filhos, sem trabalho formal e moradoras de periferias e favelas, como descreve Lucia Xavier, assistente social há mais de 30 anos e coordenadora da ONG Criola, que atua no Rio de Janeiro. Ela relata que vê pessoas sem condições de comprar até medicamentos e comida, sobretudo proteínas animais. “As pontas das carnes eram compradas em açougues ou mercados, mas, agora, o recurso não alcança”, conta. O economista Marcelo Neri, diretor da FGV-Social, dimensiona e analisa: a renda dos mais pobres caiu 21,5% desde o início da crise sanitária. “É um Brasil bem pior do que antes da pandemia”. E com sinais econômicos apontando para mais deterioração. Neri explica que, ao olhar para trás, observam-se duas grandes crises - a recessão brasileira de 2016 e a mais recente, agravada pela pandemia. Mas, ao mirar à frente, a paisagem aponta estagflação. E um governo incapaz de focalizar sua política social. Diante de um “apagão de informações” que atrapalha a aplicação das políticas públicas, a vulnerabilidade é a nova regra. “Os mercados gostam de estabilidade, mas são os beneficiários desses programas que precisam muito mais dela”.

    Argentina em seu labirinto pós-eleitoral

    Play Episode Listen Later Nov 18, 2021 23:02

    O presidente Alberto Fernandez terá que atravessar os dois anos remanescentes de mandato sem maioria no Senado e com vantagem estreita na Câmara. E, nessas condições, enfrentar uma inflação que neste ano já supera 40%, mesmo percentual da população que vive na pobreza. Em conversa com Renata Lo Prete sobre desdobramentos das eleições legislativas de domingo passado, o jornalista Ariel Palacios resgata o histórico de uma crise econômica que vem de longe, foi agravada pela pandemia e agora cobra a conta do condomínio peronista instalado no poder central. “Condomínio que mais parece um hospício”, diz o correspondente da Globo em Buenos Aires. Ele se refere, principalmente, à disputa permanente entre os apoiadores de Fernandez e de sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner - também derrotada nas urnas. Ariel analisa ainda mudanças dentro da coalizão oposicionista, com perda de poder do ex-presidente Mauricio Macri. E recomenda prestar atenção à chegada da extrema-direita ao Congresso, com a eleição do economista “antissistema” Javier Milei.

    Lockdown: agora para não-vacinados

    Play Episode Listen Later Nov 17, 2021 22:48

    Diante da quarta onda de infecções por Covid-19, a Áustria resolveu resgatar uma medida dos primeiros tempos da pandemia. Pelos próximos dias, vai impor restrições drásticas à circulação de pessoas, mas, desta vez, apenas aquelas que não se imunizaram. Direto de Viena, a jornalista Amanda Previdelli conta que, para entender o presente, é preciso lembrar do que aconteceu desde o verão passado: o distanciamento foi derrubado, e uma hora a vacinação “empacou”. Em parte porque, segundo ela, “o governo falhou em conversar com as pessoas”. Já efeito do isolamento recém-anunciado foi imediato: “filas para fazer teste de PCR e tomar vacina”. Participa também do episódio Bianca Rothier, correspondente da Globo na Suíça. Ela dá um panorama de medidas adotadas por países como Alemanha, Holanda e Dinamarca - num momento em que a Europa voltou a ser o epicentro da pandemia. E mostra que a situação é pior onde a vacinação menos avançou - casos de Rússia, Romênia e Bulgária, por exemplo.

    Inflação: a do Brasil e a do mundo

    Play Episode Listen Later Nov 16, 2021 29:47

    A aceleração de preços é global. Mas aqui ela não apenas alcança taxas mais elevadas como tem motores específicos. Com a ajuda de dois estudiosos do tema, este episódio procura explicar tanto o fenômeno geral quanto as peculiaridades do caso brasileiro. Para a primeira tarefa, o convidado é Otaviano Canuto, ex-diretor-executivo do FMI e do Banco Mundial. De Washington, onde dirige o Centro para Macroeconomia e Desenvolvimento, ele analisa o momento histórico “extraordinário”, no qual o aquecimento da demanda (especialmente nos países ricos) não encontra correspondência na oferta (ainda impactada pelo efeito disruptivo da pandemia nas cadeias produtivas). Canuto descreve as faces da crise de energia em diferentes regiões e a escassez de mão-de-obra nos Estados Unidos - onde a inflação anualizada é a maior em três décadas. Na comparação com ciclos passados, ele vê vantagem no fato de hoje não haver a “dinâmica perversa da corrida entre salários e preços”, nem economias tão fechadas, o que oferece “possibilidade maior de substituição de produtos”. A questão principal, diz, é “quando os agentes privados acham que a situação vai se estabilizar”. E conclui: não antes do meio de 2022. Renata Lo Prete conversa também com André Braz, pesquisador do Ibre-FGV, que aponta o espalhamento como um dos traços distintivos da inflação brasileira. Puxada sobretudo por energia elétrica e combustíveis (estes sob efeito permanente de uma desvalorização cambial acima da média), ela hoje está disseminada por todos os preços da economia, e em outubro atingiu o maior patamar, para esse mês, desde 2002. Braz chama a atenção para outro elemento complicador: “como nossa inflação não é de demanda, e sim de custos, aumentar a Selic ajuda pouco a resolver”. Ele se refere à elevação da taxa básica de juros que o Banco Central vem promovendo. Melhor remédio, avalia o economista, seria o fiscal. Mas ele mesmo acha improvável que, com uma campanha eleitoral pela frente, governo e Congresso tomem medidas relevantes de corte de gastos.

    Avanços e frustrações: saldo da COP-26

    Play Episode Listen Later Nov 12, 2021 26:21

    A mais aguardada cúpula climática desde o Acordo de Paris (2015) vai chegando ao fim com resenha mista, feita neste episódio por Daniela Chiaretti, repórter especial do Valor Econômico. Com a experiência de quem cobriu esta e as 12 conferências anteriores, ela destaca, entre os ganhos, o entendimento para cortar drasticamente as emissões de metano - ainda mais poluente que o gás carbônico. Aponta como revés o fato de EUA, China e Índia terem pulado fora de compromisso para reduzir a produção de carvão. E reconhece que, no cômputo geral, os resultados do evento devem ficar aquém da “palavra mágica” que o precedeu: “ambição”. Até porque o financiamento das medidas para conter o aquecimento do planeta “é sempre um problema”, lembra Daniela. Também participando do episódio direto de Glasgow, na Escócia, a administradora pública Natalie Unterstell, especialista em mudanças climáticas, analisa o papel desempenhado pelo Brasil, que chegou à COP-26 “como pária”. Isso obrigou a diplomacia do país a adotar posição “muito humilde” em várias discussões. Para além de gafes cometidas pelo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, o que fica de mais surpreendente, segundo ela, são concessões feitas num ponto central: os mercados de carbono.

    Claim O Assunto

    In order to claim this podcast we'll send an email to with a verification link. Simply click the link and you will be able to edit tags, request a refresh, and other features to take control of your podcast page!

    Claim Cancel