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De segunda a sexta-feira, sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

Rfi - Miguel Martins


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    Papa Leão XIV recebido com euforia em Luanda

    Play Episode Listen Later Apr 19, 2026 8:59


    Luanda viveu este sábado, 18 de Abril, momentos de grande entusiasmo com a chegada do Papa Leão XIV ao Aeroporto 4 de Fevereiro. O avião papal aterrou cerca de 15 minutos antes da hora prevista, sendo recebido por milhares de fiéis que aguardavam há horas sob um sol intenso para ver de perto o Sumo Pontífice. Entre cânticos, aplausos e acenos, o Papa seguiu pelas principais artérias da capital angolana, desde o aeroporto até à Presidência da República. Já no Palácio Presidencial, Leão XIV manteve um encontro privado com o Presidente João Lourenço, antes de discursar perante autoridades governamentais, representantes da sociedade civil e diplomatas acreditados em Angola. No seu primeiro discurso em território angolano, o Papa apontou o dedo hoje em Luanda àquilo que descreve como uma “cadeia de interesses” que “reduz a realidade e a própria vida humana a uma mera mercadoria”. O Sumo incidiu sobre o modelo extractivista, assente na exploração intensiva de recursos naturais sem retorno proporcional para as populações locais. E questionou: “Quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais acarretam esta lógica extractivista?”. O Presidente João Lourenço, por sua vez, destacou a importância da colaboração entre o Estado e a Igreja Católica, sublinhando o papel da instituição religiosa na formulação de políticas sociais em áreas como saúde, educação, habitação, energia e combate à pobreza. O chefe de Estado defendeu ainda um envolvimento mais activo da Igreja como parceira no desenvolvimento do país. Leão XIV é o terceiro Papa a visitar Angola, depois de João Paulo II, em 1992, e Bento XVI, em 2009. A visita integra um périplo de dez dias ao continente africano, com passagens pela Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.

    Fé, multidão e expectativa: Kilamba pronto para receber o Papa

    Play Episode Listen Later Apr 18, 2026 9:39


    A poucas horas da missa campal presidida pelo Papa Leão XIV, na centralidade do Kilamba, nos arredores de Luanda, o ambiente é já de grande expectativa. No local onde o Sumo Pontífice vai celebrar, os preparativos entram na fase decisiva e os ensaios sucedem-se, afinando cada detalhe de uma cerimónia que deverá reunir milhares de fiéis. A RFI esteve no terreno e acompanhou de perto o ensaio dos seminaristas que vão participar activamente na celebração. Sob orientação do padre Daniel Mateos, da diocese de Luanda, repetem-se gestos, ajustam-se movimentos e afinam-se os últimos detalhes para este que será um dos pontos altos da visita de Leão a Angola. O sacerdote vai explicando a disposição dos diferentes grupos, corrigindo movimentos e ajustando o ritmo. “Vai ser missa dominical. E o extraordinário é que vai ser o Santo Padre a celebrar”, explicou o padre Daniel Mateos, sublinhando a dimensão inédita do evento: “se espera mais de 1 milhão de pessoas”. Na mensagem que poderá deixar sobre Angola, o sacerdote antevê um discurso directo e sem hesitações por parte do Papa Leão XIV: “O nosso Papa Leão não tem medo de dizer a verdade”. Segundo o responsável, é expectável que toque nas desigualdades sociais, num contexto em que o crescimento económico nem sempre se traduz na melhoria efectiva das condições de vida da população. Trata-se, diz, de uma realidade “muito visível” e que faz parte do quotidiano de muitos angolanos, sobretudo nas periferias urbanas. Ao mesmo tempo, o sacerdote acredita que o Papa deverá reforçar uma mensagem de paz e reconciliação, num momento que considera sensível do ponto de vista político e social. “No próximo ano, em 2027, serão as eleições. Muita gente tem um pouco de receio do que possa acontecer, um clima de expectativa e medo do que poderá acontecer. Então, esperamos também que o Papa venha trazer paz, tranquilidade e sobretudo esta reconciliação aqui em Angola”, afirmou. Entre correcções e repetições, a RFI falou com alguns dos seminaristas envolvidos na cerimónia, que partilharam o significado deste momento e a emoção e nervosismo de participar na missa presidida pelo Papa Leão XIV. Vivaldo António, seminarista da Arquidiocese de Luanda e estudante do quarto ano de Teologia, integra o grupo que vai acolitar a missa papal. O sentimento oscila entre emoção e responsabilidade, “o Santo Padre é o sucessor de Pedro e vem para poder abençoar a nossa terra”. Para o jovem, trata-se de uma presença rara e profundamente marcante, vivida com expectativa e sentido espiritual. Já Wilson Paulo Marinheiro, do Seminário Maior da Diocese de Viana, reconhece a preparação, mas também o peso da responsabilidade. “Sentimo-nos preparados porque já estamos a dar respostas positivas no que toca aos nossos ensaios”, acrescentando que o receio de falhar está presente, mas é ultrapassado pela preparação e pela fé. Leão XIV é o terceiro Papa a visitar Angola, depois de João Paulo II, em 1992, e Bento XVI, em 2009. A visita integra um périplo de dez dias ao continente africano, com passagens pela Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.

    Angola: “Vamos receber Leão XIV com todo o carinho, com as duas mãos”

    Play Episode Listen Later Apr 17, 2026 8:05


    Na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Luanda, vive-se um ambiente de expectativa e azáfama à medida que se aproxima a visita do Papa Leão XIV. À entrada do recinto, uma imagem do Sumo Pontífice dá as boas-vindas aos fiéis, enquanto, no jardim em frente, vendedoras propõe bancas repletas de artigos alusivos ao líder da Igreja Católica, desde panos e t-shirts a lenços, chapéus e terços. As vendas reflectem o entusiasmo gerado pela visita. “Graças a Deus as vendas estão a correr muito bem, muito bem mesmo”, conta uma das vendedoras, destacando que os lenços são os artigos mais procurados: “Sai mais lenços. É um pouco mais barato e é o que as pessoas mais usam”. Ainda assim, refere que os produtos estão prestes a esgotar: “Para falar a verdade, t-shirts e panos já estão quase escassos. Só sobraram lenços e eu espero acabar mesmo até lá.” Para muitos, este momento tem também um significado pessoal profundo. Católica, desde sempre, a vendedora não esconde a emoção: “É uma felicidade imensa, porque nos outros Papas eu era uma bebezinha e não podia ir, mas nesta vez eu vou ver.” Entre os pedidos que pretende fazer ao Santo Padre, destaca “saúde, amor e proximidade a Deus”. “Tem havido mais vendas, porque o Papa está a chegar aqui em Angola. É boa para nós, para a economia angolana”, afirma outra comerciante, sublinhando que a preparação começou assim que foi anunciada a deslocação. Entre os fiéis, o sentimento é de alegria e esperança. “Fico feliz por saber que o Papa Leão XIV vem cá”, diz uma paroquiana, que espera que a visita traga melhorias ao país: “Que abençoe Angola e que Angola possa melhorar mais no seu quotidiano.” A devoção mariana também marca presença, com referências à Muxima, local de grande significado religioso no país e que o Leão XIV visitara no domingo 19 de Abril para presidir à oração de um Santo Rosário (terço) “Muxima significa coração, é a nossa Mãe”, explica uma fiel. “Vamos receber com todo o carinho, com as duas mãos”, afirma uma outra crente, recordando a passagem do Papa João Paulo II por Angola. Questionada sobre o que irá pedir, responde: “Uma bênção para nós angolanos, para as nossas famílias e filhos.” A expectativa estende-se também às questões sociais. Entre as principais preocupações apontadas pelos fiéis estão a pobreza e as dificuldades enfrentadas por muitas famílias. “Acredito que o primeiro problema seja mesmo a pobreza, o nível de crianças desamparadas”, “as cheias que assolaram muitas famílias em Benguela… há muito luto. Que ele diga algo que possa consolar os nossos corações”, disseram outras fiéis junto à Paróquia de Nossa Senhora de Fátima em Luanda. A deslocação do Papa Leão XIV a Angola arranca amanhã, sábado, 18 de Abril, com passagens pelo Kilamba (arredores de Luanda), pela Muxima (um dos maiores centros de peregrinação da África subsaariana) e por Saurimo. Leão XIV é o terceiro Papa a visitar Angola, depois de João Paulo II, em 1992, e Bento XVI, em 2009. A visita integra um périplo de dez dias ao continente africano, com passagens pela Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.

    “Angola em paz, mas com crise profunda”: os desafios da visita do Papa Leão XIV

    Play Episode Listen Later Apr 17, 2026 11:31


    A visita do Papa Leão XIV a Angola, de 18 a 21 de Abril, insere-se num périplo africano que inclui várias etapas e que, no caso angolano, passará por Luanda, Muxima e Saurimo. A deslocação é encarada pelas autoridades e pela Igreja como um momento de grande mobilização espiritual e social. Em entrevista à RFI, Dom José Manuel Imbamba, arcebispo de Saurimo e presidente da CEAST, sublinha que o Sumo Pontífice "vai encontrar uma Angola em paz”, “embora a atravessar uma crise económica, social e cultural muito profunda e que está a afectar o próprio desenvolvimento das famílias”. Em entrevista à RFI, Dom José Manuel Imbamba, arcebispo de Saurimo e presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe (CEAST), afirmou que “toda a comunidade cristã, e não só, está entusiasmada e galvanizada para acolher o Santo Padre. E em termos logísticos, as condições estão todas criadas. (...) Estamos prontos para acolher condignamente o Santo Padre.” Esta será a terceira visita de um Papa a Angola, depois de João Paulo II em 1992 e Bento XVI em 2009. Para Dom José Manuel Imbamba, o país que agora se prepara para receber Leão XIV é diferente. “Vai encontrar uma Angola em paz”, “embora actualmente o país esteja a atravessar uma crise económica, social e cultural muito, muito profunda e que está a afectar e de que maneira, o próprio desenvolvimento das famílias e a realização dos seus sonhos.” O arcebispo considera que a presença do Papa terá um impacto espiritual importante: “O Papa trará a sua palavra de conforto, de esperança e de encorajamento para que todos nós nos empenhemos na construção de uma Angola mais irmanada, uma Angola mais reconciliada.” A visita do Papa Leão XIV inclui três locais distintos: Luanda, Muxima e Saurimo. Para Dom José Manuel Imbamba, a escolha resulta da dinâmica pastoral do país. “Luanda é a capital política, a capital religiosa. Era incontornável”. Já o Kilamba, onde será celebrada uma missa campal, foi escolhido pela sua capacidade de acolhimento: “uma localidade urbana muito jovem, muito nova e dinâmica e que está a crescer e é o local que ofereceu o melhor espaço para acolher as milhares de pessoas.”   Sobre a Muxima, destacou o peso espiritual: “um santuário mariano, o coração de Angola em termos de espiritualidade mariana”, um espaço “secular que conhece vivências muito fortes”. Quanto a Saurimo, sublinha o carácter simbólico da visita ao interior do país: “nunca tinham visitado o Leste e por isso achamos por bem que era a altura de o Santo Padre também vir conhecer esta realidade”, de uma região ricas em recursos naturais, mas que contrasta com a pobreza das comunidades. Para o arcebispo, a visita também deve ser entendida como um sinal para o país no seu todo. “As oportunidades devem ser iguais para todos. As realizações devem se fazer sentir em todas as partes”. E acrescenta: “é um chamariz muito importante, o país é um todo”, sublinhando a importância das periferias e das zonas menos desenvolvidas. Sobre o possível aproveitamento político da visita, Dom José Manuel Imbamba é claro: “É inevitável numa sociedade como a nossa, é normal que os partidos tirem os seus proveitos. O mais importante é termos a figura espiritual do Santo Padre para nos unir.” Quanto ao financiamento da visita, o arcebispo explica que há uma partilha de responsabilidades: “há uma partilha de custos por parte da própria Santa Sé, do Estado angolano que acolhe e da Igreja angolana que acolhe”. Acrescenta, ainda, a participação da sociedade: “há uma mobilização dos próprios fiéis, dos empresários, dos amigos que se solidarizam com estas causas”.

    Papa Leão XIV em Angola: "Os escuteiros estão ávidos, todos querem ouvir e ver o Papa"

    Play Episode Listen Later Apr 16, 2026 11:06


    A visita do Papa Leão XIV a Angola, entre 18 e 21 de Abril, está a mobilizar milhares de fiéis e voluntários por todo o país. Entre eles, os escuteiros católicos que assumem um papel central na organização e segurança dos principais momentos da deslocação do Sumo Pontífice, que inclui passagens por Luanda, Muxima e Saurimo. Em entrevista à RFI, o coordenador da Associação dos Escuteiros Católicos de Angola, Gilberto Gil Lopes, revelou a dimensão do dispositivo montado: “Vamos participar com 11.414 escuteiros no total”. O trabalho dos escuteiros será essencialmente de apoio logístico e segurança, sobretudo ao longo dos percursos do Papa. “Vamos fazer um cordão humano nas ruas. O Papa vai passar com o papamóvel (…) os escuteiros vão fazer o trabalho do cordão humano nesse perímetro para o povo não ir para a estrada”. Além disso, os voluntários terão várias outras funções: “vamos também fazer o acolhimento das pessoas que se dirigem aos espaços de celebração, indicar como é que chegam, ajudar com água, com os cadeirantes, apoiar na saúde (…) apoiar os alojamentos, os transportes”. Para garantir o bom funcionamento da operação, foram realizados vários momentos de formação. “Tivemos cinco encontros preparatórios, dois online e três presenciais. Fizemos também simulacros”, afirmou Gilberto Gil Lopes. A preparação incluiu não só questões logísticas, mas também comportamentais e de gestão de risco: “quem é o Papa, como é que nos devemos comportar num encontro como esse com tanta gente (…) a gestão de risco, uma visão de 360 graus e ver possíveis riscos”. A coordenação com as autoridades também tem sido fundamental. “Tivemos várias reuniões (…) para alinhar tudo: percurso, zonas mais críticas, abordagem de cada um, o limite da autoridade de cada um”, acrescentou coordenador dos Escuteiros Católicos de Angola Apesar de Angola já ter recebido visitas papais no passado, o entusiasmo mantém-se elevado, sobretudo entre os mais jovens. “É diferente”, reconheceu Gilberto Gil Lopes, lembrando que muitos escuteiros já participaram na visita de Bento XVI, mas há também uma nova geração envolvida. “Os escuteiros estão ávidos (…) todos querem ouvir, ver o Papa passar”, sublinhando o impacto simbólico do momento: “para nós também é uma renovação da nossa fé, uma renovação da nossa espiritualidade, um encontro com a nossa Igreja”. O responsável deixa ainda algumas recomendações práticas para quem pretende assistir: “chegar cedo (…) levar água, protector solar (…) e vir com alegria”. O Papa Leão XIV desloca-se a Angola, de 18 a 21 de Abril, a visita deverá pôr em evidência as temáticas sociais defendidas pelo líder da Igreja Católica: um país rico em petróleo e minerais, mas marcado por profundas desigualdades, onde cerca de um terço da população vive abaixo do limiar internacional de pobreza. Leão XIV deverá insistir na gestão equitativa dos recursos e no combate à corrupção. O Papa desloca-se à capital Luanda, nas margens do Oceano Atlântico, símbolo de contrastes onde coexistem bairros de luxo e bairros de lata, bem como ao santuário mariano de Muxima, principal local de peregrinação nacional, e ainda a Saurimo (leste).

    Moçambique liquida dívida ao FMI, mas levanta riscos sobre reservas

    Play Episode Listen Later Apr 15, 2026 8:51


    Moçambique liquidou antecipadamente mais de 700 milhões de dólares de dívida ao Fundo Monetário Internacional (FMI), eliminando pagamentos previstos entre 2026 e 2029. O Governo garante que a operação foi feita com recurso às reservas internacionais, sem impacto no Orçamento do Estado. A decisão melhora a imagem externa do país, mas levanta dúvidas sobre sustentabilidade, uso de divisas e motivações estratégicas futuras. A decisão de Moçambique de liquidar antecipadamente a totalidade da sua dívida ao Fundo Monetário Internacional (FMI) está a ser interpretada como um sinal de reforço da credibilidade financeira, mas também como uma operação que exige prudência, num contexto económico ainda frágil. Segundo a economista do Centro de Integridade Pública (CIP), Estrela Charles, a medida deve ser lida em várias dimensões: “É uma medida positiva, sim, porque coloca Moçambique numa situação de uma melhor imagem em termos de dívida”, afirma, sublinhando, no entanto, que “temos que ser cautelosos e analisar de forma mais profunda esta questão da liquidação da dívida, exactamente por ter-se usado as reservas”. A economista considera que a operação terá tido uma motivação estratégica clara: “Tudo indica que era uma questão mesmo para salvaguardar o balanço do Banco de Moçambique para os próximos empréstimos”. E reforça: “É como se Moçambique estivesse a arrumar a casa para novos financiamentos”. Reservas internacionais sob pressão O pagamento foi feito com recurso às reservas internacionais, uma opção que levanta preocupações num país altamente dependente de importações. “Significa que neste momento nós reduzimos a quantidade de meses que temos para poder importar”, explica Estrela Charles, lembrando que “Moçambique é um país muito importador”. A economista alerta para o impacto potencial dessa redução: “Pode ter impacto a nível das reservas, da liquidez e da disponibilidade para o pagamento de algumas facturas, principalmente a dos combustíveis”. Acrescenta ainda que o país enfrenta já dificuldades estruturais: “Nós temos problemas de escassez de divisas” e “uma taxa de câmbio apresentada de forma falseada”. Neste contexto, a utilização de reservas deve ser monitorizada. “O uso das reservas para o pagamento integral deve ser usado com muita cautela”, defende, apontando que cabe agora ao Banco de Moçambique “garantir que esta medida não tenha impacto direto nos problemas que já existem”. Os riscos associados à operação são claros. “Quando reduzimos as nossas reservas internacionais significa que teremos menos capacidade para responder às nossas importações”, afirma Estrela Charles. Num cenário de possível subida dos preços dos combustíveis, a pressão pode intensificar-se. “Poderá haver ainda mais dificuldades para satisfazer a importação destes bens e adquirir as divisas necessárias”, acrescenta, classificando o risco como “iminente”. Ainda assim, a economista admite que a decisão pode trazer benefícios futuros, desde que bem gerida. “Estamos a sacrificar as nossas reservas hoje para podermos ter um ganho futuro”, sintetiza. Uma aposta na credibilidade do país Para Estrela Charles, o pagamento antecipado tem uma forte componente política e estratégica. “É uma medida que deixa Moçambique com uma imagem bonita e provavelmente irá abrir outras portas para financiamentos futuros”. A economista não tem dúvidas quanto à intenção: “Acredito que esse foi um motivo fundamental; colocar o país numa situação mais credível e negociar melhor futuros empréstimos”. Este reforço de imagem surge num contexto em que Moçambique procura recuperar a confiança internacional após o escândalo do caso das Dívidas Ocultas. “Essa imagem é fundamental, é a base para conseguirmos negociar melhor as próximas dívidas”, sublinha. Apesar do impacto positivo na percepção externa, os benefícios imediatos para a população são reduzidos. “Em termos de impactos sociais, praticamente não teremos nenhum”, admite. “Não vamos ter vantagens em infraestruturas ou serviços sociais neste momento.” Os ganhos dependem do futuro: “Tudo vai depender de como o Governo vai gerir a negociação dos novos empréstimos e o uso desses recursos”. E deixa um aviso: “As dívidas só têm impacto quando beneficiam quem precisa”.

    Cheias deixam rasto de destruição em Benguela

    Play Episode Listen Later Apr 14, 2026 11:50


    Na província angolana de Benguela, há pessoas desaparecidas e teme-se que haja muito mais vítimas mortais do que as avançadas, até esta segunda-feira, pelas autoridades. No domingo, o transbordo do rio Cavaco provocou inundações que também destruiram infraestruturas e deixaram milhares de desalojados. Agostinho Celestino, Director da Aldeia de Crianças SOS Benguela, falou-nos sobre a situação no terreno e lançou um apelo à solidariedade. A província de Benguela tem sido afectada por fortes chuvas que, no domingo, provocaram o transbordo do rio Cavaco devido ao rompimento de um dique. O último balanço do Serviço de Protecção de Civil e Bombeiros divulgou, na segunda-feira, que o número de mortes subiu para oito, com sete pessoas desaparecidas. Porém, teme-se que haja muito mais vítimas. Há, ainda, milhares de desalojados. A força da corrente destruiu casas, infraestruturas, deixou submersa a ponte rodoviária sobre o rio Cavaco e também obrigou à suspensão da circulação ferroviária no Corredor do Lobito. A Aldeia de Crianças SOS Benguela também foi afectada pelas inundações, teve de ser evacuada e houve uma onda de solidariedade para alojar os residentes em locais mais elevados. Agora, o objectivo é ajudar as famílias que ficaram isoladas. Agostinho Celestino, Director da Aldeia de Crianças SOS Benguela, explicou à RFI que se está a fazer um mapeamento das pessoas que ainda não receberam apoio por estarem em zonas de difícil acesso - que estima em uma centena de pessoas - e disse que os voluntários da Aldeia irão distribuir-lhes comida, vestuário, mosquiteiros, kits de higiene, material de segurança, botas e cordas, entre outros bens. A Aldeia espera poder contar com a solidariedade de todos os que possam ajudar. Agostinho Celestino conta que centenas de casas desabaram em Benguela e teme que o número de vítimas mortais possa chegar às centenas. Até esta segunda-feira, as autoridades confirmaram oito mortos. Oiça o testemunho neste programa.

    “Visita do Papa Leão XIV a Angola tem forte dimensão religiosa e diplomática”

    Play Episode Listen Later Apr 13, 2026 9:14


    O Papa Leão XIV inicia a partir desta segunda-feira, 13 de Abril, uma digressão africana que o leva a vários países do continente, incluindo Angola, onde estará entre 18 e 21 de Abril. A visita insere-se num contexto de aproximação entre a Santa Sé e vários Estados africanos, com destaque para Angola, país de forte tradição católica. A visita a Angola destaca-se pelo impacto religioso e diplomático, relançando o debate sobre reconciliação e desigualdades no país, como explica o analista político Osvaldo Mboco. Em entrevista à RFI, o analista político Osvaldo Mboco sublinha que a deslocação a Angola ultrapassa a dimensão estritamente religiosa. “Nós assistimos nos últimos anos uma maior aproximação entre a Igreja Católica e o Governo angolano e penso que esta visita, para além do simbolismo religioso que ela tem, acarreta consigo um simbolismo das relações entre os Estados do Vaticano e o angolano”. O lema da visita “peregrino da esperança, da reconciliação e da paz” continua, segundo o analista, plenamente actual no contexto angolano. “Faz sentido [continuar a falar de reconciliação] porque o conflito civil angolano terminou recentemente, há 24 anos. E olhando para a nossa própria história, os acontecimentos sociais, uma certa tensão política entre os angolanos, algumas feridas ainda não estão completamente saradas”, afirmou Osvaldo Mboco. O analista considera que ainda existem sinais de divisão política no país, sobretudo entre os principais partidos. “Ainda é visível uma certa política de discriminação entre os dois maiores partidos Angola”, referindo-se ao MPLA (poder) e à UNITA (oposição). Para Osvaldo Mboco, “ainda falta a busca do consenso e de diálogo para as questões estruturais dos dois grandes partidos políticos em Angola” e sublinha que “o país ainda fica muito a reboque das decisões das tensões existentes entre esses dois partidos políticos”. Questionado sobre a possibilidade de a visita ser alvo de aproveitamento político num ano pré-eleitoral, o analista afasta essa hipótese: “Eu penso que não, porque quer a UNITA quer o MPLA sobre questões religiosas… gravitam na mesma direcção” e acrescenta que figuras políticas, de ambos os campos, conhecem bem o Vaticano e mantêm relações institucionais estáveis com a Santa Sé. Ainda assim, reconhece que “nós estamos num ano politicamente sensível, um ano pré-eleitoral”. Em Angola, os pontos altos da deslocação do Sumo Pontífice são as celebrações na Centralidade do Kilamba, a cerca de 30km da capital, depois vai deslocar-se ao Santuário de Nossa Senhora da Muxima, na província de Ícolo e Bengo, o 'principal local de peregrinação nacional. Fica a cerca de 130 km de Luanda. Além disso, Leão XIV vai ainda a Saurimo, no Leste de Angola, junto à fronteira com a RDC. A visita do Papa a estas três realidades distintas poderá, segundo Osvaldo Mboco, transmitir uma mensagem sobre as desigualdades do país: “Angola é um país que apresenta características assimétricas do ponto de vista de desenvolvimento”. O Papa poderá deixar uma mensagem de unidade e de apelo à coesão nacional: “os angolanos precisam continuar a trabalhar, continuar a estar unidos e na fé e no espírito de reconciliação nacional”. Sobre Saurimo, coração da região diamantífera, Mboco sublinha o contraste entre riqueza natural e pobreza social, mas ressalva que a presença do Papa nessas regiões pode servir também como alerta: “passar a mensagem da necessidade de melhor se trabalhar e melhor se estabelecer algumas metas para o desenvolvimento e crescimento dessa mesma província”.

    Tiago Rodrigues: “É imperativo sonhar” e questionar o mundo a partir de Avignon

    Play Episode Listen Later Apr 9, 2026 15:57


    A 80ª edição do Festival de Avignon decorre de 4 a 25 de Julho e tem, no cartaz, um enorme ponto de interrogação para destacar a importância de questionar o mundo através da arte. O tema acabou por surgir "de uma forma bastante livre", conta Tiago Rodrigues, o director do festival, que apresentou, esta quinta-feira, a programação no Théâtre du Rond-Point, em Paris. Foi aí que conversámos com o encenador e dramaturgo português sobre os nomes que preenchem uma edição em que, mais do que nunca, “é imperativo sonhar num mundo onde parecemos cercados por uma tremenda e terrível má notícia a cada dia”. Tiago Rodrigues é o artista português que dirige um dos mais prestigiados festivais de teatro do mundo e que este ano cumpre a 80ª edição. Desta vez, a linha de força de Avignon está estampada no cartaz do evento: de um fundo amarelo solar sobressai um enorme ponto de interrogação. A força das dúvidas e dos questionamentos talvez seja a chave para entrar no espírito de Avignon, a cidade-teatro que abre portas para o mundo durante os dias do festival. Tiago Rodrigues assume que “o questionamento” acabou por se impor como um tema natural desta edição porque todos os espectáculos e eventos programados deixam no ar perguntas que são antídotos contra as “respostas simplistas” que “criam a violência” dos tempos que correm. O encenador e dramaturgo sublinha que juntar pessoas no mesmo espaço para fazerem perguntas através da arte “é uma coisa absolutamente essencial e cheia de futuro”. Talvez por isso, o teatro é hoje ainda mais urgente e “claro que não está em vias de extinção”, avisa. Aos comandos do festival desde 2023 e reconduzido para um segundo mandato até 2030, Tiago Rodrigues alerta que “é imperativo sonhar num mundo onde parecemos cercados por uma tremenda e terrível má notícia a cada dia”, exemplificando com o medo que o assola quando vê artistas como o libanês Ali Chahrour a viver sob bombardeamentos em Beirute. Mas vamos à programação do festival, que divulgámos esta quarta-feira depois da apresentação no espaço La FabricA, em Avignon. Um dia depois, Tiago Rodrigues foi ao Théâtre du Rond-Point, em Paris, para a conferência de imprensa do lançamento desta edição e a RFI teve a oportunidade de falar com ele. Começámos por abordar os nomes lusófonos e o director do festival apontou, desde logo, a artista brasileira Carolina Bianchi como “a grande revelação nos últimos anos no teatro mundial”, lembrando que ela foi a grande aposta de Avignon em 2023 (o primeiro ano programado por Tiago Rodrigues). A encenadora, actriz e escritora vai estrear em Avignon o terceiro capítulo da trilogia "Cadela Força", três anos depois de ali ter apresentado o primeiro capítulo, “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”, que ganhou o Leão de Prata da Bienal de Veneza. Por outro lado, haverá dois dias de maratona teatral de 10 horas em que as três peças poderão ser vistas de seguida: “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”, “The Brotherhood” e “Uma Luz Cordial”. Sobre os também brasileiros Christiane Jatahy e Wagner Moura, que vão apresentar “Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo”, Tiago Rodrigues lembra que “Christiane Jatahy é uma artista muito amada pelo público do festival” e que, pela primeira vez, trabalha com Wagner Moura, “neste momento, o actor brasileiro mais conhecido no mundo” e que regressa ao teatro 16 anos depois “com essa vontade de quem regressa à essência do trabalho de actor”. Nesta edição, acabam por ser poucos os artistas lusófonos, mas fica a promessa que, depois de portugueses, cabo-verdianos e brasileiros terem estado em edições anteriores, “os artistas moçambicanos, angolanos e guineenses” também merecem ter o seu palco em Avignon. Continuando o seu projecto de convidar línguas para o festival, depois do inglês, espanhol e árabe, Tiago Rodrigues justifica a escolha, este ano, da língua coreana como “uma vontade de viajar até longe”. Daí que um quarto da programação seja constituída por artistas da Coreia do Sul e uma das convidadas de honra, que inspira dois espectáculos, é a Nobel da Literatura Han Kang. De resto, mais de metade dos projectos são dominados por artistas mulheres com “propostas absolutamente extraordinárias”. Na entrevista, o director do Festival de Avignon mostrou-se, ainda, muito “preocupado com o que está a acontecer em Portugal, nomeadamente em Lisboa”, algo que descreveu como “uma espécie de cerco à liberdade de criação” e “um grande abandono da verdadeira democratização” do acesso às artes e à criação. RFI: Na apresentação da programação, o Tiago Rodrigues falou na vontade de que o festival seja uma “festa de questionamentos” e o cartaz apresenta um grande ponto de interrogação. Quais são as linhas de força que cosem as entrelinhas desta edição e até que ponto o questionamento é uma delas? Tiago Rodrigues: “O questionamento foi uma forma bastante livre de darmos um tema a este festival, de relembrarmos ao público que este festival - que faz muito trabalho sobre a sua história, sobre o seu arquivo - ao chegar à 80ª edição, queria estar muito concentrado também no presente e no futuro, perguntar o que é que vamos fazer nos próximos 80 anos de festival. Hoje, quando defendemos a importância das artes, do teatro, da dança na vida das pessoas, muitas vezes dão-nos a entender que estamos a defender qualquer coisa que está em vias de extinção ou qualquer coisa que é antiga e que estamos a tentar ainda fazer sobreviver não se sabe bem porquê, quando o que nós defendemos é uma coisa absolutamente essencial e cheia de futuro que é a possibilidade de nos reunirmos em sociedade, pessoas juntas fisicamente no mesmo espaço para fazer perguntas juntos, mas fazer perguntas através da arte. E é isso que o festival faz há 80 edições e queríamos relembrar-nos a nós, os artistas, mas também ao público, que é isso que nós fazemos aqui. Num mundo onde estamos cheios de más respostas - poucas respostas mas más na maioria dos casos - respostas violentas, respostas simplistas, respostas pouco informadas, nós queremos colocar as boas perguntas. Perguntas às vezes complexas, perguntas também com prazer, perguntas com dúvida, perguntas que permitam o debate em vez de respostas que criam a violência. Eu acho que as artes podem ter esta função e certamente um festival onde vêm pessoas do mundo inteiro e se reúnem numa cidade que duplica a sua população no momento do festival para acolher o mundo inteiro que a visita, esse é o momento em que podemos fazer perguntas juntos.” Há três artistas brasileiros em destaque nesta edição: Carolina Bianchi, Christiane Jatahy e Wagner Moura. Comecemos por Carolina Bianchi, que foi revelada no primeiro ano de Tiago Rodrigues à frente do Festival de Avignon, em 2023. O que nos traz Carolina Bianchi? “Carolina Bianchi foi uma aposta do festival em 2023, na primeira edição que eu programei, porque acreditava que seria um grande acontecimento para o teatro europeu e mundial descobrir o trabalho de Carolina Bianchi que era um trabalho que estava muito discretamente escondido na cidade de São Paulo, que não rodava muito, que não era muito conhecido mesmo no Brasil. Tivemos a oportunidade de a desafiar a começar um projecto, uma trilogia. Ela sonhava fazer uma trilogia com três espectáculos consagrados à questão da violência e, sobretudo, a violência sobre as mulheres. O primeiro episódio é consagrado a essa violência na história da arte e na performance. O segundo no teatro e o terceiro na literatura mas como também a escrita pode ser uma forma de libertação, de emancipação. Ao ouvir essa ideia, dissemos imediatamente: ‘Vem fazer o primeiro espectáculo no Festival de Avignon'. O que aconteceu a seguir é do conhecimento geral. Carolina Bianchi, depois desse espectáculo, ganha o Leão de Prata da Bienal de Veneza, torna-se uma artista que faz todas as cenas europeias e mundiais, é revelada por esse festival. Criou o segundo capítulo entretanto, “Brotherhood”, e nós tínhamos combinado há muito que ela encerraria esta trilogia de novo em Avignon. A grande sorte que temos é que encerra com um espectáculo que será absolutamente fenomenal, “Uma Luz Cordial”, mas também conseguimos preparar, pela primeira vez, a hipótese de ver a trilogia seguida. São dez horas de teatro, uma grande aventura que tem ocupado esta artista durante quase cinco ou seis anos da sua vida e vamos poder ver não só a estreia mundial do último capítulo da trilogia, mas também, pela primeira vez, toda a trilogia seguida no Festival de Avignon, com cerca de 20 intérpretes brasileiros liderados por esta grande artista. É uma grande revelação dos últimos anos no teatro mundial.” E em relação a Christiane Jatahy, que já esteve em Avignon, e Wagner Moura, o que é que eles trazem ao festival? “Christiane Jatahy é já uma artista muito amada pelo público do festival, muito conhecida em França, uma encenadora que também é muito conhecida do público lusófono, seja no Brasil, seja em Portugal, que tem marcado as cenas europeias nos últimos anos, com as suas adaptações de repertório e desta vez, pela primeira vez, trabalha com Wagner Moura, que decide voltar ao teatro 16 anos depois. Ele tem vivido a sua aventura cinematográfica, televisiva, neste momento é, sobretudo, talvez o actor brasileiro mais conhecido no mundo com a nomeação ao Oscar, com o Globo de Ouro que ganhou e com a Palma de Ouro em Cannes que ganhou pelo filme “O Agente Secreto”. E é muito comovente ver Wagner Moura regressar ao teatro com essa vontade de quem regressa à essência do trabalho de actor. Aqui, Christiane Jatahy e Wagner Moura escreveram juntos, inspiraram-se no “Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen, autor norueguês, e pegando na história do “Inimigo do Povo”, onde o protagonista acabou de anunciar que as águas de uma vila termal estão contaminadas e, portanto, ao salvar a saúde das pessoas, condenou economicamente essa cidade, ele é acusado de ser inimigo do povo. O que vemos nesta peça é que imediatamente a seguir a esta história há um julgamento e nesse julgamento há vários testemunhos, nomeadamente o do Dr. Stockmann, interpretado por Wagner Moura e escrito por Wagner Moura com Christiane Jatahy, que defende que não é inimigo do povo, pelo contrário, enquanto outros defendem que ele é inimigo do povo. Será o público a decidir o resultado deste julgamento e o espectáculo tem dois finais em função da decisão do público.” Em termos de lusofonia, não há muitos mais nomes lusófonos. Porquê? “Porque o Festival de Avignon é uma página em branco onde nós tentamos responder às mesmas questões com respostas diferentes todos os anos. Evidentemente, a língua portuguesa, nem que seja pela minha presença na direcção do festival, tem estado mais presente do que no passado na história do Festival de Avignon, com artistas portugueses, cabo-verdianos e brasileiros também. Este ano, a presença da língua portuguesa está defendida por duas grandes artistas brasileiras e no futuro voltará a estar defendida por, não sei, artistas angolanos, moçambicanos, guineenses, porque não? Portanto, a língua portuguesa tem essa riqueza de poder ter artistas, nomeadamente no teatro e na dança, que merecem ser descobertos e mostrados no Festival de Avignon. Certamente que a cena lusófona - e não só lusófona, também a cena especificamente portuguesa - continuará a ter presença no Festival de Avignon. Este ano não tem, porque nem todos os países podem estar todos os anos no festival. Há países, por exemplo, como a Coreia do Sul, que, através do convite à língua coreana como língua convidada, este ano regressa ao Festival de Avignon depois de 25 anos de ausência. Há 25 anos que não havia um artista coreano no festival. O mundo é grande, o festival também é muito grande, mas não é tão grande como o mundo. E, portanto, embora gostássemos de fazer um festival que tivesse artistas de todos os países do mundo todos os verões, esse sonho terá que ficar para mais tarde. Por agora, queremos ter todos os artistas do mundo, mas um festival de cada vez.” Até porque o Tiago Rodrigues foi reconduzido até 2030 na direcção do festival, não é? “Tenho a grande sorte de ter sido reconduzido para um segundo mandato que começará após este festival. Este é o meu último festival do primeiro mandato, mas estou já a preparar os próximos quatro festivais até 2030. Sem dúvida que até 2030 não faltarão artistas de língua portuguesa.” O que é que o incitou a convidar a língua coreana? “A vontade de viajar até longe esteve na origem deste convite à língua coreana. É a quarta língua que convidamos para o Festival de Avignon. Começámos com o inglês, depois com o espanhol, duas línguas globais, mas de origem europeia. A terceira língua foi o árabe, uma língua de origem não europeia, mas muito presente na Europa e muito presente em França, onde é a segunda língua mais falada. Portanto, estas três línguas, por serem globais e também, por uma certa proximidade, por serem línguas que nos dizem coisas quando somos público do Festival de Avignon, que é um público maioritariamente francês, e o internacional que é maioritariamente europeu, merecia ser provocado pela distância. Então, começámos a procurar as línguas asiáticas que poderia ser interessante propor e percebemos que a língua coreana, sendo uma língua que só é falada numa península, é também uma espécie de 'soft power' através do K-pop, da música popular, através do 'K-drama', as séries televisivas coreanas que são muito populares no mundo inteiro...” Da Prémio Nobel da Literatura... “Da Prémio Nobel da Literatura. Mas por trás dessa presença global, há um grande desconhecimento, por exemplo, do teatro e da dança da Coreia, portanto, fomos pesquisar. Fomos muitas vezes à Coreia do Sul, a várias cidades, descobrimos muitos artistas e compusemos aquilo que corresponde a um quarto da programação do festival, com artistas coreanos. Há muito teatro, muito teatro documentário, muita dança, muitas formas tradicionais como o pansori ou outras formas populares de circo, de música, de teatro, de dança, mas actualizadas com uma leitura contemporânea. E também a literatura porque Han Kang [Prémio Nobel da Literatura] estará no Festival de Avignon, será uma das figuras centrais do festival. Haverá uma grande leitura de partes do seu romance, dirigida por Julie Deliquet, pela actriz Isabelle Huppert e pela actriz coreana Hyeyoung Lee, que juntas lerão, em francês e em coreano, partes do romance de Han Kang em presença da própria Han Kang. Haverá espectáculos que adaptam outros romances de Han Kang. E haverá também encontros e entrevistas públicas com a Prémio Nobel e ela será uma das grandes presenças da língua convidada.” Há uma artista lusodescendente, percussionista da cena electro-pop francesa Lucie Antunes, que faz um espectáculo com Mathilde Monnier, uma presença conhecida em Avignon. São duas mulheres fortes, "guerreiras", como o nome de um dos álbuns de Lucie Antunes. Também está programada Rébecca Chaillon, que faz igualmente espectáculos muito fortes. Nesta edição, há mais mulheres a dirigirem projectos do que homens. Qual é a mensagem subjacente? “É a mensagem natural de que não é difícil fazer uma programação que eu considero de grande, grande, grande qualidade, tendo uma grande maioria de mulheres à frente dos projectos. Não queremos passar outra mensagem que aquela de dizer que deveria ser perfeitamente normal haver muitas programações em muitos festivais do mundo onde há uma maioria de mulheres, porque há enormemente artistas mulheres que fazem projectos absolutamente extraordinários. A mensagem termina aí e depois as conclusões são tiradas pelas pessoas. Foi sem esforço que chegámos a uma programação maioritariamente feminina e por pura paixão pelo trabalho proposto por estas artistas. Quando fomos fazer as contas no final, porque gostamos sempre de poder perceber até que ponto é que estamos a respeitar a nossa vontade de paridade, percebemos que estávamos muito para lá da paridade. E ainda bem que sim, porque artistas como por exemplo Lucie Antunes e Mathilde Monnier, que vão colaborar nesse espectáculo “Silence”, são grandes artistas. Uma vem pela primeira vez ao Festival de Avignon, a Lucie, e a Mathilde Monnier é a artista - depois do fundador do festival Jean Vilar - que mais vezes se apresentou no Festival de Avignon. Mas temos também toda uma geração de grandes encenadoras francesas, como Rébecca Chaillon, Jeanne Candel, Marion Siéfert, Tiphaine Raffier, que vêm marcar presença no festival e mostrar como uma boa parte da pujança, da qualidade e da diversidade do teatro francês passa pelas encenadoras.” No seu primeiro ano na direcção do Festival de Avignon, em 2023, disse-nos que quando se vem a Avignon pela primeira vez, sai-se transformado. Que utopias ainda faltam cumprir em Avignon? No mundo tão complicado em que vivemos hoje, ainda é possível sonhar? “Não só é possível, como é imperativo sonhar num mundo onde parecemos cercados por uma tremenda e terrível má notícia a cada dia. Eu hoje, nesta apresentação, pude mencionar o choque com que vi as mensagens expressas por Ali Chahrour, um artista libanês que esteve no ano passado no festival e que está neste momento em Beirute sob bombardeamentos, e pude exprimir a minha perplexidade, o meu medo, o meu choque e, ao mesmo tempo, perante isto, é absolutamente imperativo sonhar, concretizar os sonhos e propor sonhar a outros. É por isso que nós falamos desta ideia de questões no festival. Questões podiam ser aqui um sinónimo de sonho. No Festival de Avignon eu diria que há ainda muitas coisas que eu gostaria de conseguir fazer até 2030. A batalha essencial, que é aquela que dá sentido ao facto de acompanharmos a criação artística, de defendermos a liberdade artística, de procurarmos meios para os artistas poderem trabalhar, é de conseguir completar, aperfeiçoar, prolongar a aventura do acesso democrático às artes. A democratização do acesso à criação continua a ser a enorme aventura não só em Avignon, mas no mundo inteiro e - porque estou a falar em português - preocupa-me muito o que está a acontecer em Portugal, em muitas cidades, nomeadamente em Lisboa, onde é completamente inesperado o que é uma espécie de cerco à liberdade de criação, ingerências políticas, mas também um grande abandono da verdadeira democratização. O acesso democrático às artes não é um exercício populista, uma flor que se põe na lapela nos dias de festa. É um trabalho quotidiano que deve permitir o acesso fácil à criação exigente, criação de grande qualidade feita em liberdade e à qual todas e todos devem ter acesso. Se fosse fácil, não era um serviço público. A cultura é um serviço público porque não é fácil de fazer. É preciso tempo, é preciso investimento e é preciso sonhar.”

    Morte de Vigário Luís Balanta motiva apelo ao Tribunal Penal Internacional

    Play Episode Listen Later Apr 9, 2026 9:37


    O assassínio do activista Vigário Luís Balanta, cujo corpo foi encontrado a 31 de Março, continua sem esclarecimento e está a intensificar a pressão internacional sobre a Guiné-Bissau. Perante a ausência de investigação eficaz e denúncias de execução extrajudicial, a jurista guineense Carmelita Pires anuncia um recurso junto do Tribunal Penal Internacional, alertando para indícios de crimes contra a humanidade e classifica o actual poder como um “narcogoverno” que capturou as instituições do Estado. A morte do activista guineense Vigário Luís Balanta permanece por esclarecer, dez dias depois do corpo ter sido encontrado, a 31 de Março, perto de Bissau, num contexto que tem gerado forte preocupação internacional e interna. O porta-voz da política externa da União Europeia, Anouar El Anouni, condenou o crime e exigiu uma investigação “célere, rigorosa e imparcial”, sublinhando a necessidade de restaurar a ordem constitucional e garantir o respeito pelos direitos fundamentais na Guiné-Bissau. Também a Organização das Nações Unidas classificou o caso como um “assassínio brutal” e alertou para um agravamento do clima de repressão, marcado por detenções arbitrárias e intimidação de opositores. A ONG senegalesa Encontro Africano para a Defesa dos Direitos Humanos aponta para a possibilidade de uma execução extrajudicial, alegando que Vigário Balanta terá sido raptado durante uma conferência de imprensa, levado para uma esquadra e posteriormente encontrado morto. Para a jurista e antiga ministra da Justiça da Guiné-Bissau, Carmelita Pires, o caso insere-se num padrão mais amplo de violência política. “Existem indícios porque é uma espécie de uma espiral final”, afirma, referindo-se à repetição de práticas como perseguições e tortura, ascresentando que “o caracteriza um crime contra a humanidade são as perseguições, a tortura entre vários outros factores cometidos contra a população.” Na sua avaliação, a morte de Vigário Luís Balanta não é um episódio isolado, mas parte de um processo prolongado de degradação institucional. “O Estado foi completamente capturado e estamos a falar de um governo militar que vem na sequência de toda uma montagem para continuar a massacrar, a torturar, a perseguir a população da Guiné-Bissau.” A jurista sustenta que há indícios de uma execução extrajudicial com motivação política: “Trata-se de criminalidade organizada, execução sumária, de um activista por se opor ao regime.” Carmelita Pires considera que não existem condições internas para uma investigação independente: “A nível nacional não nos sobra nada”, afirma, apontando para a captura das principais instituições do Estado. “O Supremo Tribunal de Justiça, os conselhos das magistraturas, quer do Ministério Público quer judicial, foi tudo capturado”, diz, acrescentando que “não temos expedientes para accionar estes indivíduos”. A jurista denuncia ainda a dependência política das estruturas de investigação criminal: “A polícia de investigação criminal depende do Ministério da Justiça e da Procuradoria. Estamos a falar de um narcogoverno, não há interesse político para que haja investigação.” Sobre as circunstâncias da morte de Vigário Luís Balanta, refere indícios de uso de meios militares e ausência de procedimentos legais: “O falecido levou tiros de arma militar e foi imediatamente enterrado sem investigação.” Repressão e clima de intimidação A morte de Vigário Balanta desencadeou protestos populares, entretanto reprimidos pelas forças de segurança. Organizações internacionais têm vindo a alertar para um ambiente de crescente repressão. Carmelita Pires refere a existência de um padrão de violência: “Temos um deputado baleado à porta de casa e outros casos semelhantes. Não é o primeiro corpo que aparece assim.” Segundo a jurista, há sinais de actuação de estruturas paralelas: “Estamos a falar de uma milícia extraconstitucional que actua contra a população há muito tempo.” O caso acontece num contexto político marcado pela interrupção do processo eleitoral e pela instalação de um governo militar de transição desde Novembro. “Não há democracia neste momento”, afirma Carmelita Pires. “Quando se sequestra a vontade do povo e as autoridades legítimas correm risco, não podemos falar de Estado de direito.” A jurista rejeita a existência de condições para eleições livres: “Não há eleições nenhumas. O que existe é uma tentativa de forjar uma transição.” Perante a ausência de resposta interna, a jurista defende o recurso a instâncias internacionais, nomeadamente ao Tribunal Penal Internacional. “O Tribunal Penal Internacional dá-nos condições através do seu procurador. Temos provas, factos e testemunhas”, afirma. Defende o reforço da pressão diplomática: “Temos de continuar a insistir junto da União Africana, da CEDEAO e da União Europeia, com alertas máximos.”

    "Houve uma subavaliação da capacidade iraniana" de resistir durante esta guerra

    Play Episode Listen Later Apr 7, 2026 13:15


    Mais de um mês depois do início da guerra, o Irão não parece dar provas de recuar, dizendo que o conflito pode manter-se por, pelo menos, mais seis meses. Já os Estados Unidos ameaçam com uma acção relâmpago e poderosa para tentar sufocar o regime, esquecendo, no entanto, a capacidade de resistência de Teerão. No Irão, a guerra dura há mais de um mês com as ameaças do Presidente Donald Trump a subirem de tom. O líder norte-americano avisou hoje que toda a civilização iraniana pode morrer esta noite, deixando antever um ataque de grande envergadura por parte dos Estados Unidos nas próximas horas. Já o regime de Teerão disse que a guerra pode ainda durar seis meses. Para o major-general do Éxercito português, Carlos Branco, actualmente na reserva, as forças iranianas foram subestimadas por Donald Trump, especialmente no que diz respeito à produção e à tecnologia dos misséis iranianos utilizados contra os diferentes países que abrigam bases áreas norte-americanas no Médio Oriente. "Houve uma subavaliação da capacidade iraniana. Aliás, ainda hoje existe uma série de analistas que continuam a fazer essa análise, em que não têm em conta a capacidade militar iraniana. Não é que essa informação esteja disponível. Não sabemos exactamente até onde é que vai a capacidade de resistência do Irão. Agora, o que é um facto é que eles estão bastante preparados para este conflito. É um conflito que eles preparam há algumas décadas e isso tem que ser levado em conta. E eu consigo deslocar-me até à década de 80, ainda durante a guerra com o Iraque, em que na altura eles não tinham capacidades balísticas porque nos tempos do Xá eles estavam limitados em termos do alcance dos seus mísseis. E durante a guerra com o Iraque, eles mandaram indivíduos à Síria obter informação e a partir daí criaram uma capacidade balística autónoma. Quando inicialmente faziam só revolução tecnológica, passaram a criar, investigar e desenvolver nas suas universidades e ligaram as universidades à indústria. Nós não sabemos exactamente todo o potencial militar que eles têm, mas têm uma capacidade, por exemplo, de mísseis hipersónicos bastante relevante", explicou o o estratega português. Mesmo se há poucas certezas sobre as capacidades do Irão, era conhecida a produção de mísseis e a determinação do regime iraniano em sobreviver a um confronto contra os Estados Unidos e Israel. Essas realidades terão sido descritas a Donald Trump antes do início da guerra, com os militares norte-americanos que alertaram para o perigo de um conflito longo e de larga escala a terem sido afastados pelo Presidente norte-americano, como explica Carlos Branco. "Para evitar o que aconteceu em 2003 e com a história das armas de destruição do Saddam Hussein, os serviços de inteligência, de uma forma subtil, demarcaram-se da posição de Trump. A questão é que Trump não ouve quem tem opiniões distintas. Inclusivamente despede-os. Aliás, o último exemplo disso foi a destituição de uma série de oficiais generais, começando no próprio chefe de Estado-Maior do Exército. O que significa que quem tem opinião diferente é para abater e para ser removido dos seus cargos", detalhou. Esta tem também sido uma guerra de desinformação. Na sexta-feira, um avião F15 da Força Aérea norte-americana terá sido abatido por um míssil iraniano. Dois dias depois, os Estados Unidos anunciaram ter resgatado segundo piloto numa zona montanhosa do país com recurso a uma missão de grande envergadura, sem, por enquanto, haver qualquer fotografia ou declaração do piloto. Para o major-general do Éxercito português, Carlos Branco, esta operação de resgate não é clara e pode ter servido para encobrir uma operação mais alargada contra locais onde se estima que haja grandes quantidades de urânio enriquecido. "O que nós temos como referência são as declarações do presidente Trump e também as declarações do lado iraniano e que são, quase que diria, diametralmente opostas. O presidente Trump veio dizer que tinha sido uma operação de resgate com sucesso. Bom, sem querer contraditar o que ele disse, ele tem que mostrar os pilotos. Nós não ouvimos ainda nenhum discurso, nenhuma imagem, nenhuma fotografia dos pilotos. O que nós vimos foram fotografias perfeitamente identificadas por terem sido originadas pela inteligência artificial. De facto não há evidências da presença desses dois pilotos sob custódia norte americana. E é importante que haja para podermos corroborar a veracidade das declarações do presidente Trump. Segunda questão a equipamento norte americano destruído. E isso é incontornável. E não é tão pouco como isso. São, salvo erro, dois C-130, 4 Blackhawk. O nível de aeronaves destruídas é considerável e significativo. E ele omitiu esta questão na conferência de imprensa. Depois há aqui uma grande interrogação, que é a seguinte: o piloto foi abatido num sítio e esta operação, alegadamente de resgate, aconteceu algumas centenas de quilómetros de distância. E as aeronaves que foram destruídas estavam próximas de uma das instalações onde está cerca de 70% ou 60% do urânio enriquecido. Portanto, o que tudo leva a crer, que Trump estava a referir-se não à operação de resgate de dois pilotos, mas a uma operação diferente. E repare, ele disse que tinham sido empregues nesta operação 155 aeronaves. Não faz sentido para uma operação de resgate utilizar equipamento desta envergadura", concluiu.

    Elida Almeida apresenta o seu novo álbum "Spedju" em Paris

    Play Episode Listen Later Apr 6, 2026 17:00


    A cantora cabo-verdiana Elida Almeida regressa esta semana a Paris para apresentar o seu novo trabalho "Spedju". As suas canções mostram uma nova fase da vida da cantora, com uma grande ênfase na maternidade, no amor romântico, mas também a força das mulheres e a resistência do povo cabo-verdiano. Elida Almeida afirmou-se na última década como uma das principais vozes de Cabo Verde na música. Com os ritmos tradicionais do seu país, Elida Almeida nunca esquece nas suas canções, a maior parte da sua autoria, a realidade que a rodeia. O seu novo álbum "Spedju", ou espelho em português, é um reflexo da sua vida. Foi preprarado durante uma gravidez esperada e desejada, sendo um reflexo do amor maternal, do amor romântico, mas também das inquietações que vêm com a maternidade. Em entrevista à RFI, Elida Almeida fala sobre esta nova fase da sua vida e como isso influenciou a concepção deste novo álbum. "Fui muito activa durante a minha gravidez. O meu maior problema era descansar. Não conseguia descansar, não conseguia parar. E o álbum veio dessa fase que eu tinha vontade de fazer muita coisa e não queria ficar parada. Tive um motivo mais do que suficiente para inspirar-me desde o primeiro mês. A minha primeira gravidez foi uma gravidez muito turbulenta. Uma gravidez na adolescência em que não consegui apreciar e viajar nessa jornada que de nove meses, porque era muito nova e estava preocupada com muita coisa. E desta vez tive esta oportunidade de poder saborear melhor esta dádiva. Assim, o álbum foi acompanhando no meio dos momentos bem bonitos e felizes que tinha. Também havia questionamentos e inseguranças e todos os poréns. Podia estar afastada do palco? Será que que quando voltar o meu lugar ainda é ali? Então eu acho que não havia melhor escolha de título do que Spedju, que significa espelho em português", afirmou. Para este trabalho, Elida Almeida chamou diversas figuras da música cabo-verdiana algo inédito face aos seus precedentes álbuns. "Spedju" conta com participações das Freirianas Guerreiras (no tema "Nka Ta Pasa"), de Garry (no tema "Baka Brabu"), Nancy Vieira (no tema "Daddy) e ainda Grace Évora (no tema "Mintira"). Estas foram colaborações evidentes para Elida Almeida que não jesitou em juntar nomes mais recentes e mais clássicos da música cabo-verdiana à sua sonoridade. "Venho de um país extraordinariamente talentoso. Tenho muito orgulho em ser cabo-verdiana. Tenho muito orgulho em fazer parte desta geração. Uma geração que também está a dar muito contributo para música de Cabo Verde. O nosso tapete vermelho já está estendido, foi estendido pelos grandes músicos, muitos deles que já não estão cá. E nós agora estamos a desfilar e estamos a tentar dar continuidade ao que eles fizeram. Eu tenho a sorte de misturar-me com todos e gravar com todos", declarou. Como em todos os seus trabalhos, Elida Almeida não foge às questões actuais e no tema "Funa Ku Nana" fala sobre a música como acto de resistência dos escravos face ao colonialismo português em Cabo Verde. "Claro que é uma coisa que nos inquieta nós todos. É um passado sombrio e sujo e com muito sangue, com muita, com muita tristeza e com muito estupro. Não há como não afectar qualquer pessoa, sendo africana ou não, quando ela se dá conta de realmente o que é que se passava na altura. Qualquer um sente que foi algo desumano. Então isto até hoje traz sequelas e traumas que nós carregamos e que só nós sabemos como é que isto repercute na nossa vida e na vida dos nossos filhos. Cabo Verde sempre usou principalmente a música. Nós nunca tivemos a luta armada nos nossos territórios, então a música foi sempre uma das nossas armas. Nós usamos durante toda a colonização, durante a nossa luta também para a libertação. Os ritmos que nós fizemos questão de manter, que resistimos porque os rebelados, os escravos que fugiram pela montanha, não só fugiram do trabalho físico de tudo que é exploração, mas também era uma resistência a nível musical, porque tentaram a todo custo banir tudo o que era africano, tudo que tinha uma sonoridade africana da nossa música, da mestiçagem que estava a surgir em Cabo Verde. Tanto que baniram todos os instrumentos percussivos e só deixaram a gaita que tinham trazido e a guitarra portuguesa. Mas esses escravos que fugiram pelas montanhas conseguiram levar com eles muitos ritmos africanos em que deram origem à tabanca, ao batuco e ao funaná, ritmos estes que fizeram questão de manter todas as sonoridades de todas as partes percussiva da música africana. Então é sobre isso que eu falo na musica 'Funa Ku Nana'", detalhou Elida Almeida. A cantona cabo-verdiana volta agora a Paris já na sexta-feira, dia 10 de Abril, para um concerto na sala New Morning, na capital francesa, sendo o seu regresso aos palcos gauleses para apresentar o seu novo álbum. Para o Verão e já com o novo espectáculo do "Spedju", Elida Almeida já tem datas agendadas para concertos individuais e festivais em França.

    Parlamento português aprova Lei da Nacionalidade mais restritiva

    Play Episode Listen Later Apr 3, 2026 11:58


    A Assembleia da República Portuguesa aprovou nesta quarta-feira alterações à Lei da Nacionalidade. Os critérios de acesso à cidadania portuguesa são mais restritivos. O sociólogo e historiador Manuel Dias dos Santos considera que as alterações representam um “recuo” e “o discurso oficial é uma falácia”. A Assembleia da República Portuguesa aprovou alterações à Lei da Nacionalidade. Os critérios de acesso à cidadania portuguesa são mais restritivos. A legislação foi aprovada com os votos favoráveis da direita e extrema-direita (do PSD, CDS-PP, Iniciativa Liberal e Chega) e 64 votos contra, do PS, Livre, Bloco de Esquerda, PCP e PAN. O JPP absteve-se. Entre outras alterações, para os cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) o tempo mínimo de residência legal para pedir naturalização aumenta de cinco para sete anos. Para os restantes estrangeiros, o prazo passa a ser de dez anos. Mas o diploma ainda tem de ir ao Palácio de Belém. O Presidente da República, António José Seguro, tem três opções: promulgar a lei, vetá-la politicamente devolvendo-a ao Parlamento, ou suscitar nova fiscalização preventiva da constitucionalidade junto do Tribunal Constitucional. O sociólogo e historiador Manuel Dias dos Santos considera que as alterações representam um “recuo” e “o discurso oficial é uma falácia”.   O Manuel Dias dos Santos é sociólogo e historiador, como olha para as alterações à Lei da Nacionalidade recentemente aprovada no Parlamento português? É interessante, de facto, que as alterações estejam a ser lidas numa perspectiva de uma nova lei da nacionalidade, quando eu acho que a lei da nacionalidade é a lei da nacionalidade e só pode sofrer alterações. Mas a ideia é que parece que se quer uma nova lei da nacionalidade, uma roupagem completamente diferente. Há ganhos que eu acho que Portugal mostrava também uma maturidade, podemos dizer, política, não na perspectiva partidária, mas na perspectiva cidadã, um ganho político extraordinário. Essas alterações são um verdadeiro recuo quando nós todos temos plena consciência que há grupos que saem nitidamente prejudicados e há outros que vão continuar a ser beneficiados. Tem a ver, de facto, também com aspectos que muito se fala, que é a questão dos laços históricos, das relações humanas entre Portugal e esses mesmos grupos. Mas depois, com esse tipo de alterações, todo esse discurso oficial passa a ser uma falácia. Porque vejamos, nós temos o caso dos descendentes dos judeus em Portugal, que beneficiaram da lei da nacionalidade como nenhum outro grupo beneficiou e fazia recurso ao mesmo. E grupos que até têm uma relação histórica, como o povo do Bangladesh, da Índia, porque andamos por lá, Portugal andou por lá a fazer história, e como se diz, as ondas que levam também trazem. Para não falar já no caso dos países africanos, em que muitos dos casos há pessoas em determinadas idades que deviam ter ao abrigo da lei da nacionalidade, a legitimidade para alcançarem a nacionalidade portuguesa e não estarem a ser constrangidas quase que permanentemente por instituições burocráticas como o caso da AIMA. Todas essas alterações encaminham-se para uma dimensão de controlo administrativo e policial, de um aspecto que deveria ser pensado como um direito que deve ser alargado para não fazer aquilo que as pessoas gostam muito, que é a integração, mas a pertença ao espaço nacional. Eu acho que o que a lei da nacionalidade deve buscar sempre é trazer pertença a quem solicita se tornar cidadão de um país. Não é integrar as pessoas, as pessoas não são massas ou objectos para serem integrados dentro de uma caixa ou qualquer outra coisa, precisam é de uma aceitação como membros de facto dessa comunidade. Eu acho que essas alterações à lei da nacionalidade caminham no sentido contrário. O que é que terá motivado esta procura de alteração à lei da nacionalidade? Eu acho que tem a ver mais com uma construção de uma percepção falsa de que a nacionalidade portuguesa está banalizada e pode ser atribuída por “toma lá dá cá aquela palha” a qualquer pessoa, o que não é verdade. E a prova mais inequívoca de que não é verdade, os instrumentos burocráticos para dar resposta cabal e por via administrativa a quem solícita a nacionalidade em Portugal têm prazos que são sistematicamente violados sem consequências, quando se as pessoas tivessem recursos e capacidade jurídica, muitas delas tornar-se-iam cidadãos portugueses por incapacidade do Estado português de dar respostas em tempo útil conforme a lei determina por via do consentimento tácito. Esta questão, esta alteração, não vai melhorar essa capacidade de resposta que os serviços burocráticos do Ministério da Justiça, dos registos centrais que têm de cuidar disso, devem ter. O tempo que se demora para tomar qualquer decisão à volta da atribuição da nacionalidade, com excepção do caso dos descendentes das judiarias portuguesas, que foi um processo claramente político e por isso nem sequer o crivo, podemos dizer, burocrático esteve ali presente, não há mais nenhum tipo de cidadãos, creio eu, com excepção também das elites políticas das antigas colónias portuguesas, que se tornaram todos esses cidadãos portugueses apesar de serem cargos de responsabilidade política nos seus próprios Estados, tiveram um processo tão célere como qualquer outra pessoa que solicitou a nacionalidade não teve. Então, o que eu vejo é justamente esses aspectos que não vão melhorar, e passam uma mensagem securitária para justificar o sistemático “soundbite” de insegurança, insegurança, insegurança. A nacionalidade portuguesa não é um pastel de nata que está ali à esquina onde qualquer pessoa pode ir e comê-lo. Essa perspectiva foi falsamente alimentada e cria imensos constrangimentos depois para pessoas que decidem fazer a vida em Portugal, porque sentem que aqui é um lugar de pertença para elas, muitas vezes até sem consciência histórica de que há uma ligação com este mesmo país. Vieram cá muito na busca de solução da sua vida pessoal e depois encontram cá um espaço. Apesar de ser sempre um condicionamento de rejeição mais exterior a eles do que eles, nunca rejeitam o país nem o modo como se vive no país, antes pelo contrário o abraçam. Eu continuo a dizer que Portugal tem imensa sorte, tem uma integração por via da nacionalidade de muita gente que não nasceu em Portugal mas que sente este país como o seu, Que encontrou aqui, de facto, o seu lugar apesar de continuar a haver hostilidade, porque há a ideia do português puro. Eu não sei bem o que é isso, é como falar de raças puras em cães, os cães são sempre de algum cruzamento. O Governo, através do ministro da presidência, disse que houve uma conversa com os países membros da CPLP. Qual é que terá sido essa conversa? Imagina? Eu acho interessante essa ideia da conversa com os países da CPLP, mas não me estranha que algumas convergências também restritivas à obtenção da nacionalidade são construídas muitas vezes pelo comportamento das elites políticas desses mesmos Estados. E porquê? Porque o acesso dos cidadãos que saem desses países para Portugal e a obtenção da nacionalidade é um elemento de protecção para os mesmos aos abusos e desvarios dessas elites desses mesmos países. Mas vejo claramente o Estado angolano a concordar com todas essas barbaridades da alteração à lei da nacionalidade para que os angolanos tenham maior dificuldade em aceder à nacionalidade angolana, como vejo o Estado guineense ou vejo o Estado moçambicano a corroborar claramente com isso. O caso do Brasil é diferente porque há um acordo, também de forma diferente, e isso tem a ver também com as elites que controlam o poder do Estado. Para os casos de Angola-Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Cabo Verde, há mesmo uma atitude, podemos dizer de continuidade colonial, para permitir que esses instrumentos se coloquem como elementos que regulem o fluxo de saída dos seus cidadãos dos seus países para Portugal e que possam alcançar a cidadania portuguesa. Porque é um elemento de protecção, claramente, porque esses mesmos Estados já não podem tratar esses cidadãos de qualquer forma, porque passam a ser membros de um Estado integrado numa comunidade que é a comunidade europeia e os cuidados são outros, mas esse consentimento é mais fácil. Também a acontecerem essas alterações, que são alterações a todos os títulos que deviam merecer um repúdio por parte desses mesmos Estados nacionais. Esta é uma lei que foi aprovada pela direita e extrema-direita. Se no futuro vier a existir um Governo que não seja como este, pode haver um volta-face na situação? Eu acho que faz todo sentido, porque, como eu já salientei, essas alterações foram feitas com base na criação de uma suspeição, que não se justifica e que não é verdade. É só olhar para as estatísticas da atribuição da nacionalidade portuguesa e cai por terra a ideia da banalização do acesso à nacionalidade, não é? Por isso, essa narrativa é uma narrativa não sustentável, mas que quando se tem maioria ou se consegue convergência para obter a aprovação de leis, não se está a ter em conta o primado da lei, mas o primado da força de maioria. É uma lei, claramente, do meu ponto de vista, profundamente autoritária. Já basta toda a história da humanidade do que é que as leis com dimensão autoritária trazem ou o que é que elas, no fundo, representam em termos de ensaio social, não é? Eu acho que um pormenor que importa enfatizar no meio desse processo é a pouca reacção, no geral, da parte de imensos grupos que são defensores das dignidades, dos direitos e das garantias, inclusive alguns grupos profissionais, que tiveram um papel de ausência, de silêncio, enquanto decorria todo esse triste espectáculo. Eu não ouvi quase nada de reacção da Ordem dos Advogados, por exemplo, em Portugal, não ouvi reacções da comunidade cristã em Portugal, sejam eles católicos, protestantes ou baptistas. Porque a questão da nacionalidade não é uma questão que possa ser vista na perspectiva de decisão dos partidos, não é? Ela tem uma dimensão política para a construção ou não da cidadania e alterações dessas diminuem, de facto, a dimensão cidadã das pessoas. Não só os nacionais, mas também aqueles que aspiram, porque encontraram aqui o seu lugar, fazer parte dessa comunidade de forma plena, não é? Não é a integração, como o discurso é muitas vezes apresentado. E quase que ficaram isolados nessa luta, regra geral, associações de afrodescendentes que são portugueses, mas que sentiram e sabem muito bem o que representam essas alterações. É triste perceber como há uma auto-exclusão por parte de atores sociais fundamentais nesse país, que em outros momentos tiveram um papel extraordinário com aquilo que o 25 de Abril trouxe, para pensar que Portugal se queria. Parece que esse Portugal que se queria ficou na utopia, enquanto um Portugal que toda a gente achou que estava enterrado, mostra que sempre esteve bem vivo, só estava à espera da altura certa para renascer.

    Liga denuncia que “ninguém está a salvo” na Guiné-Bissau

    Play Episode Listen Later Apr 2, 2026 9:42


    A Liga Guineense dos Direitos Humanos reagiu com profunda consternação ao assassínio do activista político Vigário Luís Balanta, classificando-o como uma execução sumária marcada por extrema brutalidade. Segundo Bubacar Turé, presidente da liga, este acto envia uma mensagem clara de insegurança generalizada num país onde “ninguém está a salvo”. RFI Português: Começo por lhe pedir um posicionamento sobre o assassínio do activista político vigário Luís Balanta. Bubacar Turé, presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos: A Liga guineense Direitos Humanos, à semelhança do país em geral, foi surpreendida com esta triste, macabra notícia de assassinato do jovem activista Luís Balanta. A Liga considera este acto uma execução sumária. A forma bárbara como esta execução foi feita nos entristece bastante e, por isso, solicitamos às autoridades nacionais, com a máxima urgência, a abertura de uma investigação transparente, conclusiva, para apurar, identificar os autores deste acto e traduzi-los à justiça. Portanto, nós consideramos este acto como uma ameaça geral a todos os cidadãos, a todos os activistas de direitos humanos, a todas as vozes discordantes, a todas as pessoas que ousam utilizar e exercer as suas liberdades para discordar, sobretudo do contexto político, social e económico da Guiné-Bissau. O que pensa a propósito das declarações da directora nacional adjunta da Polícia Judiciária da Guiné-Bissau que prometeu descobrir os assassinos do líder do “Po di Terra”? A única coisa que nós podemos dizer é que tomámos boa nota deste anúncio, deste posicionamento da Polícia Judiciária. Era exactamente este tipo de posicionamento que os cidadãos em geral esperam das autoridades judiciárias, de cada vez que acontecem actos de raptos, espancamentos ou desaparecimentos dos cidadãos, portanto, nós pensamos que é um posicionamento que vai ao encontro daquilo que são as missões da Polícia Judiciária, a missão estatutária da Polícia Judiciária no quadro do nosso ordenamento jurídico. Esperamos que esta promessa se concretize e que, de facto, uma vez por todas, se possa pôr fim a estes actos de raptos, espancamentos, desaparecimentos, assassinatos dos cidadãos que tem sido agora frequentes no país, criando medo generalizado ao cidadãos e consequentemente, um ambiente de tensão no país. Vigário Luís Balanta, activista político tinha, entre outros, o objectivo de que os resultados das eleições de Novembro do ano passado fossem divulgados. Neste momento, as vozes que se levantam contra o poder instalado na Guiné-Bissau, o poder militar, correm perigo de vida? Eu acho que a execução sumária do Vigário Luís Balanta é uma mensagem para todos nós. Ninguém está a salvo. Todos nós corremos riscos muito sérios da nossa vida e integridade física. Nós temos consciência muito clara disso. Mas, apesar disso, entendemos que não nos podemos silenciar. Nós temos que saber resistir, claro, com prudência, com os necessários cuidados, porque ninguém quer ser herói. Eu sei que o Vigário Luís Balanta não quis ser herói. Não tinha nenhuma pretensão disso. Infelizmente, teve esse fim trágico. Um jovem de 33 anos que tinha muito a dar à Guiné-Bissau e à sua família. De qualquer maneira, nós vamos continuar a fazer o nosso trabalho e vamos continuar a dialogar com as autoridades, sejam elas civis e militares, porque, na nossa perspectiva, neste momento, não há alternativa ao diálogo. E este contexto de repressão, de assassinatos, de raptos, espancamentos… Ninguém ganha com isso. Ninguém vai vencer com esse comportamento, pelo contrário. A Guiné-Bissau vai mergulhar cada vez mais no abismo, numa crise profunda e numa situação de ingovernabilidade. É por isso que nós temos apelado firmemente ao diálogo, que todos, sem excepção, escolham o diálogo construtivo como estratégia para resolução dos nossos desencontros, para a procura de soluções a este contexto que o país infelizmente, se encontra mergulhado. Há um medo generalizado na Guiné-Bissau de se falar sobre as autoridades que estão no poder. De cada vez que tentamos obter opiniões de analistas políticos na Guiné-Bissau, há pessoas que não falam por medo de consequências. É evidente. Com esta escalada de violência, naturalmente que as pessoas têm medo. Hoje, falar neste país, sobretudo aos órgãos de comunicação social, é um acto de extrema coragem. Aliás, falar connosco, estar próximo de nós, juntar-se a nós, mesmo num restaurante ou qualquer recinto, para falar de outras coisas, desporto, etc, nem todas as pessoas têm essa coragem, porque nós somos vistos como pessoas inimigas do regime e pessoas contra o regime e, consequentemente, ser próxima de nós é um risco para as pessoas. É um contexto, de facto, de medo generalizado, lamentavelmente. Nós pensamos que todos, sem excepção, devemos fazer esforço para reverter este contexto. A Guiné-Bissau sempre viveu períodos de instabilidade política governativa, golpes de Estado, etc… mas sempre soube preservar uma certa liberdade, um certo funcionamento das actividades políticas, cívicas. Nós nunca chegámos a esse ponto. O país chegou a um nível extremamente preocupante e perigoso. Ninguém ganha com isso, nem as autoridades actuais, nem a oposição. É a Guiné-Bissau que sai a perder, é a imagem e a reputação desse país que sai a perder. Portanto, nós pensamos que todos devemos fazer esforços para reverter este contexto. E, para isso, pensamos que a única alternativa é o diálogo. A liberdade de expressão restrita neste momento, mas também a liberdade de imprensa com o encerramento de várias rádios. Sim, foi anunciado o encerramento das várias rádios, mas pelas informações que nós já dispomos, houve um recuo nesse sentido. Tudo indica que as rádios retomaram as respectivas emissões. Isso é um bom passo. Nós congratulamo-nos com este recuo do Governo, que é extremamente importante. É preciso que haja diálogo entre o governo e as redacções, as estruturas representativas dos órgãos de comunicação social para encontrar soluções aos problemas financeiros que as rádios enfrentam num contexto generalizado de crise económica, política e social. Grande parte das liberdades fundamentais estão suspensas. Mas nós pensámos que é possível resolver através do diálogo. No caso de existir um inquérito aberto a este assassínio de Vigário Luís Balanta, a Liga teria algum interesse em poder integrar esse comité de inquérito de forma a garantir a transparência desse processo? Não, não é vocação da Liga fazer inquéritos. Nós pensámos que inquéritos fazem parte do mandato das instituições judiciárias: Polícia Judiciária, Ministério Público. Portanto, o que falta é criar condições objectivas para que essas instituições funcionem de forma objectiva, transparente e independente para fazer as investigações. Se houver essa vontade política, não tenho dúvidas que as instituições judiciárias conseguiram identificar os autores deste acto macabro e traduzi-los à justiça. Portanto, nem a Liga, nem qualquer outra organização da sociedade civil, na nossa perspectiva, outra estrutura estatal, para além da instituição judiciária, devem fazer parte de qualquer comissão de inquérito. Esta terça-feira, a Liga lançou o relatório sobre a situação dos direitos humanos na Guiné-Bissau, referente ao período de 2023-2025, no âmbito do projecto “Direitos Humanos em Risco". Quais são as grandes conclusões deste relatório? As conclusões do relatório apontam claramente que a Guiné-Bissau está mergulhada numa grave crise dos direitos humanos, uma erosão da legalidade democrática, um retrocesso no que concerne à democracia, ao Estado de Direito. O período avaliado pelo relatório (2023-2025) foi marcado por detenções arbitrárias, raptos, espancamentos e também destruição das instituições democráticas do país. A degradação dos serviços sociais básicos, nomeadamente educação e saúde, o aumento da extrema pobreza e problemas sociais sem ignorar as questões relacionadas com violações sistemáticas dos direitos das mulheres, práticas culturais ou obscurantistas.

    Morte de Vigário Balanta “é um crime internacional”, defende perito da ONU

    Play Episode Listen Later Apr 1, 2026 6:42


    A morte de Vigário Luís Balanta, líder do Movimento Revolucionário "Po di Terra" encontrado com sinais de tortura, está a agravar as preocupações sobre a deterioração das liberdades na Guiné-Bissau. O jurista senegalês e perito independente junto da ONU, Alioune Tine, classifica o caso como “execução extrajudicial” e alerta para um “crime internacional”, num contexto de repressão crescente, intimidação da sociedade civil e apelos urgentes a uma investigação independente com apoio internacional. A morte de Vigário Luís Balanta, figura central da contestação à transição militar na Guiné-Bissau, está a desencadear uma onda de indignação e a reforçar denúncias de repressão num país que atravessa uma fase de elevada tensão institucional. O corpo foi encontrado com sinais de tortura, circunstâncias que, segundo activistas e organizações da sociedade civil, apontam para um assassínio com motivações políticas. Para Alioune Tine, jurista senegalês, activista dos direitos humanos e perito independente das Nações Unidas, a qualificação jurídica dos factos é clara e grave. “Escute, trata-se de um crime internacional. Estamos indignados, chocados e revoltados pelo facto de um activista ter sido raptado e executado. Trata-se de uma execução extrajudicial, o que é extremamente grave”, afirmou. O especialista, que se encontra em Bissau a participar na conferência internacional 'Diálogo por um futuro com justiça, direitos humano e democracia na África Ocidental', descreve um ambiente de forte repressão política e social. “Aqui, na Guiné-Bissau, muitas pessoas estão indignadas, porque o clima político é muito pesado. As pessoas não podem exercer qualquer actividade”, sublinhou, apontando para uma deterioração acelerada das condições de participação democrática. Entre os exemplos mais evidentes dessa restrição de liberdades está a situação de Domingos Simões Pereira, líder político que permanece em prisão domiciliária. “Continua em prisão domiciliária, o que equivale praticamente a uma detenção. Nem sequer pode receber visitas”, denunciou Alioune Tine. O próprio jurista confirmou ter tentado, sem sucesso, reunir-se com o dirigente: “Eu próprio solicitei encontrá-lo, mas tal não foi possível.” Segundo Alioune Tine, o bloqueio político vai além de casos individuais, afecta o funcionamento do sistema democrático. “Também falei com partidos políticos e organizações da sociedade civil. O que vemos são sedes de partidos encerradas, sociedade civil impedida de realizar conferências de imprensa, numa altura em que se aproximam eleições. Isto é totalmente contraditório.” Neste contexto, o activista de direitos humanos defende uma intervenção imediata da CEDEAO, considerando que a organização regional não pode manter-se afastada. “É tempo de a CEDEAO regressar ao terreno, porque não se pode deixar a situação na Guiné-Bissau degradar-se desta forma”, afirmou, apelando simultaneamente à abertura de “um diálogo sincero e ético” que permita encontrar soluções políticas sustentáveis. A nível internacional, Alioune Tine aponta mecanismos concretos que podem ser rapidamente activados para investigar o caso. “Existe, por exemplo, o relator especial das Nações Unidas sobre execuções extrajudiciais”, referiu, acrescentando que a Comissão Africana dos Direitos do Homem e dos Povos dispõe igualmente de instrumentos adequados para conduzir investigações independentes. “São mecanismos fundamentais para apurar responsabilidades e punir os autores destes crimes.” Para o activista senegalês, o caso de Vigário Luís Balanta não é isolado, mas antes sintomático de um padrão mais amplo de violações de direitos humanos. “O que está a acontecer é extremamente grave. Não se pode aceitar que pessoas sejam detidas e mortas simplesmente por se expressarem. Se isto continuar, a situação tornar-se-á insustentável na Guiné-Bissau.” O sentimento de insegurança e medo é, segundo descreve, generalizado. “O mal-estar já é profundo. Há cidadãos que dizem não poder sair de casa, que os seus espaços foram encerrados”, descreve, traçando o retrato de uma sociedade civil sob forte pressão. Apesar da gravidade das denúncias, Alioune Tine considera que a reacção internacional está aquém do necessário. “Não, a reacção da comunidade internacional, incluindo a CEDEAO, não é suficiente”, afirmou. “Se a situação persistir, poderá ter consequências graves, como a história do país já demonstrou.” Ainda assim, o jurista garante que estão em curso esforços de mobilização diplomática e institucional. “Da minha parte, irei desenvolver esforços de advocacia junto da CEDEAO e das Nações Unidas. Já contactei algumas entidades e partilhei informações sobre este crime”, acrescentando que fará “tudo o que estiver ao nosso alcance para que haja um inquérito imparcial.” No plano interno, o diagnóstico é severo. “As liberdades públicas estão extremamente restringidas, quase inexistentes”, afirmou. “É incoerente marcar eleições e, ao mesmo tempo, encerrar sedes de partidos e impedir conferências de imprensa. Isto equivale a destruir a democracia na Guiné-Bissau.” Alioune Tine alerta ainda para a existência de actores armados não institucionais envolvidos em práticas repressivas. “Existem também milícias que procedem a detenções arbitrárias, actos de tortura e execuções”, denunciou, defendendo uma resposta firme da comunidade internacional. “É fundamental que os chefes de Estado e as organizações internacionais intervenham para travar estas práticas.” Quanto à capacidade de resposta interna, o cenário é frágil. “Por agora, não há uma força capaz de enfrentar estas milícias. O exército deveria desempenhar esse papel, mas parece também estar ultrapassado pelos acontecimentos”, afirmou, acrescentando que o descontentamento atravessa diferentes sectores do Estado. Alioune Tine garantiu que vai entrar em contactos com líderes regionais; Bassirou Faye e Julius Maada Bio, no sentido de reforçar a pressão política e diplomática. “Quando estiver em Dakar, continuaremos esse trabalho de sensibilização”, concluiu.

    Guiné-Bissau: “A luta tem de continuar até ao desmantelamento desta rede criminosa”

    Play Episode Listen Later Apr 1, 2026 9:39


    A morte do activista guineense Vigário Luís Balanta, figura central da contestação à transição militar na Guiné-Bissau, expõe um clima político marcado por medo, repressão e suspeitas de violência sistemática. Encontrado com sinais de espancamento num local a 30 quilómetros de Bissau, o seu corpo tornou-se símbolo de um país onde a dissidência pode custar a vida e onde a informação continua sob pressão. A morte do activista guineense Vigário Luís Balanta é mais do que um crime. É uma mensagem ou, pelo menos, assim é lida por quem acompanha de perto a deterioração do espaço político na Guiné-Bissau. Aos 35 anos, o líder do movimento “Po di Terra” afirmava-se como uma das vozes mais persistentes contra o poder militar instalado após a tomada do poder pelos militares do ano passado. A sua morte surge, para muitos, como o culminar previsível de uma trajectória de confronto. O corpo foi encontrado na localidade de Ndam Lero, próximo de Nhacra, a cerca de 30 quilómetros de Bissau, com marcas de espancamento. Os indícios apontam para tortura antes da morte. “Ele foi vítima de tortura selvática até à morte. É isso que dói mais”, afirma Armando Lona, coordenador da Frente Popular, numa leitura que mistura indignação e constatação. Segundo Armando Lona, o activista terá sido raptado num bairro da capital por indivíduos não identificados, “como tem acontecido”, e levado para um destino desconhecido. Nos últimos meses, Vigário Luís Balanta tornou-se incómodo para muitos. Denunciou a proibição de manifestações, exigiu a libertação de presos políticos e contestou resultados eleitorais que considerava fraudulentos. Fê-lo sob ameaça, com episódios de desaparecimento temporário, mas manteve-se activo até à véspera da morte. Para Armando Lona, não há ambiguidade quanto ao significado político desta morte: “Os actuais detentores do poder são os responsáveis únicos e exclusivos da morte do Vigário Luís Balanta. Não temos nenhuma dúvida.” E acrescenta: “A motivação desse crime é satisfazer os caprichos desse grupo e instalar um clima de medo para consolidar a ditadura.” Uma acusação que se insere numa narrativa mais ampla. O coordenador da Frente Popular descreve o actual poder como “um regime de natureza terrorista que tem cometido muitos crimes”, que mantém a população sob controlo essencialmente pela força. “É uma íntima minoria que não representa praticamente nada. A única condição pela qual tem mantido refém todo o povo é porque detém armas.” A morte de Vigário Balanta não é vista como excepção, mas como continuidade. “O grupo que se instalou no poder dá seguimento a práticas de rapto, espancamento e assassínios”, diz Armando Lona, sublinhando que o caso recente é apenas mais um episódio de uma série mais longa. A reacção das autoridades à divulgação da morte veio reforçar esse clima. As rádios privadas que avançaram com a notícia foram suspensas durante escassas horas, numa decisão que levantou preocupações quanto ao controlo da informação. Ainda assim, o impacto foi limitado. “Não muda praticamente nada”, afirma Armando Lona. “As redes sociais estão em todos os cantos do país e a população fica informada num instante.” A tentativa de silenciamento revela mais sobre o poder do que sobre os órgãos de comunicação: “É um grupo retrógrado que ainda pensa que a opinião pública se controla pela rádio.” Na prática, a circulação de informação escapa cada vez mais aos canais tradicionais, tornando menos eficazes as estratégias de censura. Perante este cenário, a questão central passa a ser a capacidade de resposta. Armando Lona aponta para a necessidade de uma convergência alargada: “Forças sociais, cívicas, políticas e patriotas militares têm que encontrar uma via de salvação nacional.” E insiste que a ausência de armas não pode justificar a inacção: “Não podemos continuar a adiar o futuro da Guiné-Bissau só porque não temos armas.” A via internacional surge como complemento, ainda que não como solução imediata. “Os crimes têm de ser responsabilizados, a nível nacional e internacional”, afirma, reconhecendo, porém, que internamente “não há condições” para o fazer neste momento. Enquanto essa possibilidade não se concretiza, a estratégia passa por aquilo que define como “luta política popular”. Uma luta que, no seu entendimento, é inevitável: “Temos que accionar outros mecanismos para reverter esta situação. Basta de práticas bárbaras, de mortes macabras cometidas por gente que nós conhecemos.” No plano pessoal, a perda é descrita como profunda. “É uma perda enorme para a Guiné-Bissau, para a juventude”, diz. Recorda Vigário Luís Balanta como “um jovem destemido, tecnicamente competente, um patriota com estilo próprio”, alguém que acreditava que “a vitória só vem da luta”. A morte não encerra a sua história, mas amplifica-a e transforma-a num ponto de inflexão. “Não podemos ter conforto enquanto o povo continua a ser privado do direito à liberdade”, conclui Armando Lona. “Temos a obrigação de continuar.”

    Francês ganha espaço nas escolas primárias de Angola

    Play Episode Listen Later Mar 31, 2026 8:40


    Actualmente, cerca de 12% dos angolanos falam francês, uma percentagem mais expressiva nas zonas fronteiriças com a RDC e o Congo, bem como em Cabinda, onde a língua é mais falada entre a população escolarizada. Ainda assim, o francês continua a ser uma língua estrangeira minoritária, muito atrás do português - falado por mais de 70% da população - do inglês e das línguas nacionais. É neste contexto que o Governo angolano decidiu reforçar, numa reforma adoptada em Junho de 2025, o ensino do francês no ensino primário, uma medida que, segundo o director-geral do Instituto Nacional de Avaliação e Desenvolvimento da Educação, Diasala Jacinto André, visa responder a razões geográficas, diplomáticas e educativas, sublinhando que a intenção é que, no ano lectivo de 2027/2028, o ensino do francês seja generalizado em todas as escolas. Por que razão foi implementado o projecto de ensino do francês no ensino primário em Angola? O projecto surge no âmbito da regulamentação da docência no terceiro ciclo do ensino primário, em particular na quinta e sexta classes, mas, acima de tudo, está também ligado ao Programa de Transformação Curricular, como resposta à necessidade de atender à procura e ao interesse em massificar as principais línguas de comunicação internacional em todo o sistema de ensino em Angola, tal como recomenda a Lei de Bases do Sistema de Educação em Angola. E como é que esta decisão foi recebida pela população? A introdução da língua francesa no sistema de ensino em Angola não foi uma novidade, mas é uma inovação a introdução no ensino primário, neste caso na quinta e sexta classes, e em geral, foi bem acolhida pela população. Este projecto já foi testado em algumas escolas. Qual foi o balanço e como será aplicado nas restantes? A língua francesa está integrada no plano de estudos como componente curricular reservada à coadjuvação, com dois tempos lectivos semanais em cada uma das classes da quinta e sexta classes, perfazendo 120 horas anuais. Esta disciplina está a ser introduzida de forma gradual. Começámos no ano lectivo 2024/2025 e alargámos gradualmente para o presente ano lectivo de 2025/2026. Ainda não temos a disciplina generalizada na totalidade. O que é que isto exige? Por um lado, a formação e preparação de professores que vão assumir a leccionação desta disciplina nestas classes; por outro, a preparação e produção de material didáctico. Há professores suficientes? Vão receber apoio de países francófonos, como, por exemplo, a França, no que se refere à formação de docentes? Temos professores em formação. Não prevemos receber professores de outros países, embora tenhamos, na vizinhança norte e leste de Angola, países francófonos. Não devemos recrutar nem solicitar apoio de professores de outros países. Temos um cronograma de implementação da disciplina que prevê a formação de professores. Docentes que já estão no sistema têm sido adaptados, porquanto actuam essencialmente no primeiro ciclo do ensino secundário, e serão adaptados para actuarem no ensino primário, enquanto continuamos na modalidade de formação inicial, preparando novos professores para assumirem a disciplina no ensino primário. Em quantas escolas está, neste momento, a ser leccionado o francês e quando pensam que estará generalizado em todas as escolas angolanas? O plano operacional de implementação deste programa prevê a generalização no ano lectivo 2027/2028. Neste momento, temos cerca de 126 escolas a implementar a disciplina, embora algumas que inicialmente prevíamos não tenham conseguido criar condições para a formação. Ainda assim, o balanço é positivo. Esta decisão revela que Angola se aproxima mais da francofonia, o país aderiu à Organização Internacional da Francofonia em 2018 como membro observador, numa altura em que, no mundo global, o inglês é a língua prioritária? Esta decisão tem algumas razões fundamentais. Uma delas é a razão geográfica: Angola faz fronteira com dois países de língua francesa, RDC e Congo Brazaville, que têm o francês como língua oficial, havendo proximidade entre os povos fronteiriços e uma troca permanente que exige facilidade de comunicação. Há também uma razão multilateral: o facto de Angola participar em diversas organizações e conferências internacionais e regionais em que a língua de trabalho é o francês. Assim, potenciar os alunos que passam pelo sistema de educação angolano, aprendendo as línguas francesa e inglesa, confere-lhes uma valência adicional, dominando pelo menos duas línguas estrangeiras. Ou seja, o francês estará ao mesmo nível que o inglês? É esse o objectivo — apostar no multilinguismo? Sim. Essa é a intenção. Já temos o inglês no ensino secundário e o francês, e pretendemos potenciar também o inglês no ensino primário. Isto ainda não começou, mas está previsto. Tendo em conta o apoio e a cooperação bilateral decorrentes da adesão de Angola à Organização Internacional da Francofonia, tivemos apoio técnico e financeiro da cooperação francesa, o que facilitou e acelerou a introdução da língua francesa no terceiro ciclo do ensino primário. A intenção é potenciar os alunos no domínio tanto da língua inglesa como da língua francesa. Não há aqui uma intenção da França de impor o ensino do francês ao inglês nas escolas angolanas? Não. Angola é um Estado soberano. Numa altura em que a França tem algumas dificuldades em países francófonos, não se estará a virar para Angola para manter a sua zona de influência? Talvez essa pergunta devesse ser dirigida às autoridades francesas. Da nossa parte, estamos a fazer algo que está em conformidade com a política educativa angolana: o francês e o inglês já são línguas estrangeiras no sistema educativo angolano. O que estamos a fazer é alargar este ensino - que até agora se concretizava apenas no ensino secundário - ao ensino primário. Tal como acontece com a língua francesa, pretendemos também, nas classes iniciais do ensino primário, introduzir o ensino da língua inglesa. Angola participa activamente em organizações africanas, como a Francofonia. É também uma forma de o país procurar uma liderança na África Central e Austral? Com certeza. Se tivermos em conta, por exemplo, a nossa participação nas instituições da UNESCO a nível regional, fazemos actualmente parte da sub-região P5, correspondente à África Central, cujo grupo está sediado nos Camarões, onde a língua de trabalho é o francês. Tivemos, inclusivamente, no último mandato, ao nível da direcção da Internacional da Educação, um quadro angolano. É também nossa intenção, com o domínio da língua francesa, potenciar a inserção de quadros angolanos nestas organizações regionais e multinacionais. Há também uma componente económica? O objectivo é reforçar a relação com países vizinhos francófonos? Sendo da área da educação, posso responder sobretudo pelos objectivos educativos e do sistema de educação. Porém, no mundo globalizado, isto tem uma valência importante, pois permite também o acesso ao mercado de trabalho por parte dos alunos que frequentam o sistema educativo angolano. Ao nível regional, o domínio de línguas internacionais e estrangeiras facilita o acesso ao conhecimento. Trata-se, portanto, de uma mais-valia, um capital que o sistema está a proporcionar aos seus educandos.

    Protestos em São Tomé: "país atravessa crise tremenda e má condição das estradas nem é o pior"

    Play Episode Listen Later Mar 30, 2026 8:40


    Em São Tomé e Príncipe as más condições das estradas são a gota de água que geraram uma onda de protestos e de indignação popular. Causas e efeitos são múltiplos e impactam fortemente a vida dos habitantes, além da economia nacional. Em algumas localidades, o processo de reabilitação das estradas prolonga-se há anos. Inação governamental, constrangimentos financeiros, o que está na origem deste problema? De que forma pode o governo trazer estabilidade e esperança para as populações? Colocamos estas perguntas a Abílio Neto, analista político são-tomense.  A má condição das estradas é apenas a parte visível de um problema multifactorial. Mas foi a gota de água que levou para as ruas uma população "cansada" da falta de condições de vida, refere Abílio Neto. A estrada que liga a freguesia da Madalena à vila de Santo Amaro teve a sua obra de reabilitação lançada nas vésperas das eleições legislativas de 2022 e até agora, quatro anos mais tarde, continua só com pedras. Como se explica que uma estrada, elemento de base para a rotina das populações (escola, saúde, trabalho, mobilidade, agricultura, urgências) possa permanecer sem obras durante tanto tempo?  Abílio Neto: É efectivamente um problema económico e financeiro do país, que não consegue ser económica e financeiramente soberano, ao ponto de não poder fornecer a infraestrutura necessária para que o país funcione normalmente. Não há mobilidade, nomeadamente do campo para a cidade, os alunos têm dificuldades em ter acesso à educação, porque isso implica deslocações entre distritos ou municípios. Há uma série de problemas que não se resolvem com instabilidade política e governativa. Precisamos também de governos com reputação suficiente para convencer os parceiros internacionais a investir no país. Não conseguimos nada disso nos últimos 50 anos da nossa independência. O contexto é pior do que a má condição das estradas. Há inexistência de electricidade contínua há quase um ano, inexistência de abastecimento regular de água e um cúmulo de insatisfação e de desesperança. É esse o momento que o país está a viver: uma crise política tremenda, uma crise social tremenda, e uma crise económica e financeira pior ainda. E depois é olhar para o panorama internacional e ver que a crise internacional não nos vai ajudar, só vai piorar a situação. E já se começa a intuir a inflação galopante que aí vem. Tudo isto quando estamos num ciclo de eleições, que será um ciclo de eleições de grande tensão política e social. RFI: O Governo reconheceu a "legitimidade das reivindicações enquanto expressão democrática", mas parece que insinuou que possam existir planos de manipulação ou destabilização. A ministra da justiça, Vera Cravid, afirmou que as "autoridades estão a investigar a origem e as motivações destas acções, incluindo eventuais ligações a interesses organizados com o objectivo de desestabilização". É uma afirmação realista do seu ponto de vista ou é apenas uma forma também de desresponsabilizar da situação. Abílio Neto: É uma forma de não assumir a responsabilidade sobre a situação. Se pegarmos na questão da crise energética no país, esse mesmo governo, desde que se rompeu o contrato com a Tesla, já prometeu sete prazos. Não conseguiu cumprir nenhum. Não cumpriu as promessas de acesso à energia para a população. Portanto, o Governo não está em condições de dar lições de responsabilidade. Nesta altura, o que precisamos é de gente que seja capaz de assumir responsabilidades, comprometer-se com prazos e, sobretudo, propôr ao país reformas profundas, eu diria até transformadoras. RFI: O presidente do MLSTP, Américo Barros, exigiu a "libertação imediata dos detidos" nos protestos e denunciou um "uso indevido do dinheiro público", em afirmações citadas pela imprensa local. Américo Barros afirmou que "o país continua às escuras", apesar dos 12 geradores adquiridos pelo governo em menos de seis meses e que, nesse âmbito, iria convocar o ministro das infraestruturas para um debate parlamentar. Poderá haver debate parlamentar sobre esta questão? Abílio Neto: Suponho que não porque o Parlamento está profundamente inoperante. É um parlamento disfuncional, muito parecido com o Parlamento da Guiné-Bissau, por exemplo, quase inexistente, portanto não vejo que a solução possa vir pelo Parlamento. Aliás, não faz sentido nenhum porque existe uma nova aliança política no país e o MLSTP faz parte dessa nova aliança, juntamente com o partido Basta e o ADI no governo. Afirmaram que têm um novo contrato político. Portanto, não creio que vá fazer grande diferença aparecer agora o MLSTP a simular uma espécie de oposição à forma como a política tem sido feita.

    Parlamento Europeu endurece política migratória, especialistas alertam para retrocesso

    Play Episode Listen Later Mar 27, 2026 9:02


    O Parlamento Europeu aprovou, esta quinta-feira, 26 de Março, um conjunto de medidas que reforçam a política de regresso de migrantes em situação irregular na União Europeia.O docente da Universidade de Coimbra, Pedro Góis, considera que o recente acordo representa “uma das mudanças mais importantes na política migratória europeia”, mas levanta sérias dúvidas quanto à sua eficácia e impacto nos direitos humanos. O Parlamento Europeu aprovou, esta quinta-feira, 26 de Março, um conjunto de medidas que reforçam a política de regresso de migrantes em situação irregular na União Europeia. O novo enquadramento prevê o aumento das deportações, o endurecimento de sanções para pessoas com ordens de saída e a possibilidade de criação de “centros de regresso” em países terceiros, destinados a acolher migrantes cujos pedidos de asilo tenham sido rejeitados. Com 389 votos a favor, 206 contra e 32 abstenções, o processo pode assim avançar para negociações com os Estados-membros no âmbito do pacto migratório europeu. A primeira ronda das negociações com a presidência cipriota do Conselho da União Europeia deve realizar-se em breve. O sociólogo e docente da Universidade de Coimbra, Pedro Góis, considera que o recente acordo representa “uma das mudanças mais importantes na política migratória europeia”, mas levanta sérias dúvidas quanto à sua eficácia e impacto nos direitos humanos. Aprovado com larga maioria, o novo enquadramento prevê o aumento das deportações, sanções mais duras para quem não cumpre ordens de saída e a possibilidade de criação de centros de regresso em países terceiros. Para Pedro Góis, o ponto de partida da reforma é claro: “o sistema actual de retorno de facto não funciona”, sublinhando que “apenas 20 a 25% das decisões de retorno são efectivamente executadas”, número que se mantém há cerca de uma década. Apesar disso, o investigador questiona a solução encontrada. “Há aqui uma leitura errada do momento que a Europa devia viver”, e acrescenta que a proposta surge num contexto de “percepção muito negativa sobre a migração”, o que abre espaço a medidas mais restritivas, ainda que potencialmente ineficazes. Segundo o sociólogo, o acordo traduz “uma cedência à ideia de que o sistema tem de ser mais coercivo e mais rápido”, impulsionada sobretudo por forças políticas à direita. Esta decisão “muda a agenda migratória”, num momento em que a União Europeia continua sem políticas comuns de integração, mas avança com uma estratégia conjunta de rejeição e retorno. Ainda assim, alerta que os principais obstáculos ao retorno não são legais, mas estruturais. “Se não existir cooperação dos países de origem, eu não tenho para onde enviar estes cidadãos”. A isto somam-se dificuldades na identificação dos migrantes e a complexidade administrativa entre os 27 Estados-membros. Um dos pontos mais críticos prende-se com a criação de centros de retorno fora da União Europeia. Para Pedro Góis, esta solução coloca os migrantes “numa zona cinzenta”. “Quem vai defender juridicamente estes migrantes? Quem vai defender os seus direitos fundamentais e os seus direitos humanos fora do espaço europeu?”, questiona. O especialista lembra que estamos a “falar de famílias, de crianças, de jovens menores de idade, de idosos, de pessoas doentes. Como é que eu vou resolver, na prática, todos estes casos?”, uma questão que, considera, o acordo não responde. Quanto ao impacto dissuasor das medidas, Pedro Góis prefere cautela. “Teremos que aguardar para perceber”, muitas vezes a realidade contraria a retórica política. Aponta o exemplo de Itália, onde o fecho de fronteiras acabou por colidir com a necessidade de mão-de-obra. O docente reconhece que o acordo representa “um retrocesso em termos de direitos humanos”, ao mesmo tempo que constitui “um avanço em termos de políticas europeias”, por impor uma linha comum aos Estados-membros.

    Aprovação da resolução sobre a escravatura é "um processo gradual de descolonização mental"

    Play Episode Listen Later Mar 26, 2026 28:22


    A Assembleia Geral da ONU aprovou nesta quarta-feira uma resolução que declara a escravatura como o "Crime mais grave contra a Humanidade" e defende o princípio de reparações históricas. Sobre os 193 Estados-membros da ONU, uma maioria de 123 votou a favor desta iniciativa lançada pelo Gana em nome da União Africana. 52 Estados, entre os quais países europeus como a França, o Reino Unido, Espanha e Portugal, antigos colonizadores, optaram pela abstenção, enquanto três outros países, os Estados Unidos, Israel e a Argentina votaram contra a resolução que, apesar de não ser vinculativa, abre a via para reparações, pedidos de desculpas, compensações para os descendentes das vítimas, restituição de obras de arte e objectos com significado documental, espiritual ou simbólico que foram pilhados. Reconhecida como "Crime contra a Humanidade" em 1998 pelo Tribunal Penal Internacional e em seguida pela ONU em 2001, a escravatura e o tráfico de seres humanos escravizados envolveu, segundo estimativas da UNESCO, 15 a 20 milhões de africanos que foram deportados para a América e as Caraíbas entre os séculos XV e XIX. Apesar de os países que colonizaram e praticaram o tráfico de seres humanos escravizados reconhecerem paulatinamente este passado, a França tendo votado em 2001 uma lei qualificando a escravatura como "Crime contra a Humanidade", enquanto o antigo Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa pediu desculpa pela colonização em 2023, sobra muito caminho por percorrer. Para Benigna Zimba, historiadora moçambicana especialista da História da escravatura, o passo dado ontem é de grande importância. RFI: O que representa a resolução votada ontem na Assembleia Geral da ONU? Benigna Zimba: Esta aprovação de uma resolução com este conteúdo é um passo extremamente grande e eu diria, de uma dimensão quase que incalculável, porque nós estamos a falar de escravização. Este conceito, que é também relativamente novo, durante décadas, sempre viemos falando de escravos e são as próprias Nações Unidas que nos levaram a este passo de uma certa "Humanização" de todo este processo. A partir de agora, todo aquele crime, tudo aquilo que está ligado ao processo que nós, durante muitos anos, chamamos de escravização, de tráfico de escravos, de tráfico de pessoas, passa a ter o estatuto de crime agravado a nível mundial. Está certo que aqui em África e é em África onde nós temos a maior incidência para aquilo que a partir de agora é considerado como crime agravado. Mas este crime só se agrava com a intervenção dos outros intervenientes, para onde os escravos foram e eram levados. E aqui permitam-me que volte de novo, um pouco atrás. O primeiro passo que as Nações Unidas deram, não o primeiro, um dos passos importantes que as Nações Unidas deram neste processo que permite hoje que coloquemos este crime como um dos mais agravados para toda a Humanidade, foi precisamente esta conceptualização sobre a maneira de olhar para o assunto. Permitiu que nós passássemos a falar realmente de pessoas humanas, aquelas que em algumas enciclopédias, em alguns escritos, ainda não tinham estatuto de pessoa, passassem a ter o estatuto de pessoa e, tendo estatuto de pessoa, já lhes permite que elas possam entrar dentro de um quadro jurídico-legal que possa ser assumido e tratado como pessoa. De 2024 para 2025, a União Africana decretou todo um ano de "justiça e reparação" para este tipo de crimes. E agora este crime tem um quadro legal porque é um crime contra uma pessoa e não uma mercadoria, que é assim que era considerado. Isto é de uma importância incalculável. RFI: A escravatura foi já considerada Crime contra a Humanidade pela justiça internacional em 1998 e também foi reconhecida como Crime contra a Humanidade pela ONU em 2001. O que é que o facto de considerar que é o "Crime mais grave contra a Humanidade" acrescenta? Benigna Zimba: Acrescenta precisamente esta expressão "mais grave". E estas convenções de 1998 e 2001 não tinham este aspecto em que o escravo não era mera mercadoria especial, mas era pessoa humana. Então, quando nós já 2022 para cima, não foi exactamente num único momento, mas foi um momento gradual, relativamente rápido que nós passamos a ter este conceito. Tanto assim que a própria UNESCO também mudou o nome: já não é a "rota do escravo", mas a "rota de pessoas escravizadas". E trata-se também de assuntos sobre racialização, racismo agravado e etc. Um pouco neste contexto. Então, quando se diz que é o mais grave ou extremamente agravado, isto dá-nos a oportunidade de olhar e contextualizar historicamente de uma outra maneira. Quer dizer que se você escravizou, se você se tornou alguém escravizado, isto significa que a eventual forma de criminalizar este crime tem um quadro jurídico, mas também agravado. Tem penalizações com maior gravidade, é todo um contexto legal, jurídico e histórico. Coloca-se que aqueles que estiveram envolvidos, tanto pessoas individuais, instituições -pessoas individuais, não são muitas- nós estamos a falar aqui de sistemas económicos, de países para países. Estamos a falar de um quadro de colonização, nós estamos a falar de um sistema complexo, que é político, que é económico e social, com bases ideológicas fortes, que sustentaram todo este sistema da escravização e da venda de pessoas escravizadas a vários níveis, interno, intercontinental, internacional, etc. Então, quando nós chegamos a um ponto em que as Nações Unidas, que são a instituição e o organismo máximo que tem a palavra e o poder para dizer isto, nós atingimos um ponto analítico de máxima e extrema importância, permite-nos a nós também estudiosos, estudar este fenómeno de uma outra maneira, abordá-lo de uma outra maneira, e as eventuais "comissões de verdade e Justiça" que vão existindo cada vez mais ao nível dos países e a nível regional, principalmente em África, já tivemos uma nas Maurícias que praticamente cumpriu a sua missão, já tivemos uma parecida, no entanto ligada à escravização, mas de uma certa maneira ligada a estes fenómenos que na África do Sul, são os países expoentes máximos. Neste sentido, permite que outros países também possam começar politicamente a abordar este aspecto. Aqui não se trata de estar a apontar dedos acusadores. Pelo menos não é essa a perspectiva que eu, como estudiosa, defendo. Eu defendo a perspectiva analítica, segundo a qual permite uma interacção diferente entre aqueles que foram os actores do processo de escravização e os que foram escravizados. E permite colocar os termos justiça e reparação num outro quadro interactivo mais positivo. RFI: Relativamente à questão das reparações, fala-se, por exemplo, de um pedido de desculpas formais, compensações para os descendentes das vítimas, políticas de luta contra o racismo, restituição de bens culturais e espirituais. Como é que encara precisamente este processo de restituição e de reconhecimento do que foi a escravatura? Benigna Zimba: Indo ao fundo da questão que é a escravatura, agora considerada como crime mais agravado com este quadro todo ele complexo, há uma outra maneira de conversar entre as partes envolvidas. Primeiro, não olhar, não apontar. Era isto que eu estava a dizer. Não apontar o dedo acusador. Esta não é melhor forma de interagir, mesmo que seja considerado o crime mais agravado, mas uma forma interactiva, onde é possível e onde realmente se justifica, que não é a maior parte dos casos, reparações financeiras devidamente identificadas, justificadas e que não criem lugar e espaço para outros problemas que normalmente o dinheiro costuma provocar. As instituições, sob o ponto de vista de arquivos, documentos, objectos de arte, que é uma parte substancial de um legado cultural que acabou indo para fora, principalmente do continente africano, nestas condições, de todo o processo de escravização e tráfico de seres humanos escravizados que se encontra a abordagem, primeiro "sentar de igual para igual". Quando digo "entre aspas", quero dizer que deve se olhar como ser humano. Não somos nós, não sou eu, Benigna Zimba, que fui escravizada. Eu estou a falar em memória dos antepassados que sofreram isto. Mas quando alguém olha para mim ainda neste patamar, é isto que dificulta a interacção. E a agravação do crime chama uma maior responsabilidade daqueles que têm toda esta herança da colonização e do processo de escravatura. Chama a uma maior responsabilidade, porque, afinal de contas, não foi só levar alguém. Isto é o crime mais grave que pode existir em toda a Humanidade no âmbito dos sistemas políticos e, assim sendo, permite também que a África, os antigos colonizados, também tenham formas mais interactivas e mais positivas de olhar para esta questão. Pode parecer pouco, mas a restituição dos documentos, isto é extremamente importante. Se o documento pertence a um determinado país, então que volte para lá. Se este monumento, este objecto de arte, deve ir para lá. Se há um acordo entre as partes que isto deve ser restituído, vai ser restituído, Não vai restituir a pessoa que morreu durante o tráfico transatlântico. Mas vai restituir uma parte de todo um processo que criou toda esta mentalidade colonial. É um processo gradual de descolonização mental por parte dos antigos colonizados e também dos antigos colonizadores, para que sentem numa mesa onde os dois têm as mesmas cadeiras, o mesmo patamar, isto é, que poderá fazer com que se possa olhar para uma forma de restituição, construção económico-cultural com base numa reconstrução cultural, por assim dizer, da própria Humanidade. RFI: Como é que encara o facto de esta resolução não ser vinculativa? Esta é uma resolução que, concretamente, corre o risco de ficar por aí e não ser seguida de efeitos, uma vez que não é obrigatória. Benigna Zimba: Este tem sido um dos grandes assuntos. Eu não diria problema. Tem a ver com a natureza das próprias Nações Unidas. Hoje em dia, muito do que está escrito nas Nações Unidas, as nações não cumprem. Para este caso depende muito, principalmente dos próprios países, que são, "as vítimas". A União Africana decretou praticamente um ano e, para mim, um ano não é praticamente nada. Se olharmos para trás, o que é que foi feito neste ano da "reparação e justiça" neste sentido? Em termos palpáveis, eventualmente criaram-se bases para passos seguintes, mas não é tempo suficiente para que todas as nações africanas tenham aquilo que em inglês se diz "awareness", que tenham consciência e seja o momento oportuno. Debatem-se com tantos constrangimentos para o desenvolvimento económico e cultural, para que possam olhar para este assunto com a devida atenção. Então, aqui é mesmo uma questão de contexto e de oportunidade e nós podermos dizer já existe este instrumento tal e qual quando surgiram as abolições da escravatura. Para o caso do Império colonial português, houve várias abolições. Havia decretos de abolição que muitos dos traficantes de escravos nunca chegaram a conhecer e eles achavam que estavam dentro da legalidade, porque eles tinham papéis. Eles faziam este comércio. Então, quando surgem estes documentos, o papel da disseminação, o papel da normatização, o papel da conscientização, é o faz com que os Estados estejam politicamente interessados e cria mecanismos para que isto seja uma norma. Para que isto seja adquirido, para que isto seja uma prática, depende muito de nós. Também não interessa estar somente no papel, interessa é a maneira como nós encontramos criativamente, positivamente, uma maneira de implementar, porque o instrumento está lá e se ele não é vinculativo legalmente, nós temos aqui uma base para o torná-lo vinculativo legalmente. Há alguém acima das Nações Unidas neste sentido que pode falar para as nações? Não tem. RFI: Evocou precisamente Portugal. Portugal fez parte dos países europeus que se abstiveram durante a votação de ontem. Qual é a sua reacção? Benigna Zimba: Aqui é um pouco difícil dizer quais seriam os motivos. Portugal é um país soberano e Portugal é aquele que, nos tempos que já lá vão, teve um dos maiores, senão o maior império colonial em termos de tempo, foi o maior império colonial de todos os tempos, extensão também, se olharmos para os continentes que abrangeu ao mesmo tempo num determinado período histórico. O país terá tido as suas razões, que não cabe a mim, na qualidade de moçambicana, eventualmente fazer algum juízo e eu seria um pouco cautelosa em comentar esta questão. Em alguns momentos históricos, os países podem não sentir-se em condições de se pronunciar sobre determinados eventos. Portugal foi um dos que mais escravos fez. As abolições de Portugal levaram vários tempos. Eventualmente, Portugal ainda não tenha encontrado as palavras e o momento para subscrever algo de tamanha envergadura, onde ele próprio, como antigo país colonizador, esteve envolvido. Então também não estou aqui a defender Portugal. Mas gostaria de ser o mais neutra e cautelosa possível e respeitar a posição de Portugal que certamente como país idóneo que é e com excelentes relações que tem com os antigos países colonizados, terá os seus motivos para ter tomado esta posição. RFI: Também houve três países que se pronunciaram contra esta resolução. Os Estados Unidos fazem parte dos países que votaram contra, apesar de nos próprios Estados Unidos, a questão da escravatura ser de facto, também uma questão essencial. Há textos de lei também que estão na gaveta à espera de serem aprovados para também haver esse reconhecimento. Como é que encara esse voto contra dos Estados Unidos? Benigna Zimba: Talvez para os Estados Unidos seja relativamente mais fácil a nossa compreensão. Nós estamos aqui, do lado de fora do teatro jurídico, ali dentro. Nós olhamos para os Estados Unidos do hoje, para o papel que têm dentro e fora do seu território. Seria relativamente um pouco mais fácil entender o voto contra dos Estados Unidos à luz daquilo que tem sido a sua política. E não estamos a falar nada contra, não estamos a criticar, simplesmente estamos a olhar para o papel dos Estados Unidos hoje. Para ir hoje ou daqui a alguns dias, para os Estados Unidos, vai ser necessário pagar um visto de 15.000 Dólares, em moeda moçambicana é um milhão de Meticais. Isto é uma restrição imediata e são 50 países envolvidos. Países lusófonos estão nesta lista. Estaremos vedados a ir para lá eventualmente. Os que estão lá vão ter que encontrar um meio relativamente rápido de voltar para as suas terras, por causa da falta de mobilidade que irá existir. Então, temos elementos palpáveis da actual política interna e externa dos Estados Unidos que nos abre uma janela para entendermos por que eventualmente não concordar com esta qualificação. E eles, concordando, estariam no lugar de concordar com um grande processo dos Estados Unidos que aconteceu por causa do tráfico das escravaturas. A Carolina do Sul de hoje não existiria sem o tráfico de escravos e o tráfego também triangular. Aqueles que não pararam na América do Sul. Estamos a falar do Brasil, que é um autêntico continente e seguiram depois para as Américas, para os Estados Unidos. Uma boa parte da população que é conhecida como afro-americana, não existiria se não fosse esta escravatura, este tráfico dinâmico para lá. Então a posição dele, a ter sido eventualmente mais clara e mais transparente, dizem que não concordam. Os Estados Unidos são soberanos e tiveram a coragem de dizer que não. Nestes acórdãos internacionais, à medida que o tempo vai passando, nós temos hoje "muitas guerras no prato" que nos fazem entender muito melhor como surgiu uma Primeira Guerra Mundial, como surgiu uma Segunda Guerra Mundial. É-nos mais fácil este entendimento e o entendimento também de cada país neste teatro. Então, neste momento, para mim, é fácil entender a posição dos Estados Unidos. Acho que eles foram corajosos, foram transparentes, falaram que não, que não concordam, porque eles fazem parte disto. Não têm como. Isto teria algumas implicações, eventualmente, sob o ponto de vista do respeito das normas do Direito Internacional, que aparentemente neste momento não estão a respeitar. Eles defendem-se da maneira como eles se defendem. RFI: Outro país que também votou contra esta resolução é Israel. E aí coloca-se nomeadamente a questão da concorrência das memórias, que é falada já há muito tempo. Benigna Zimba: No teatro político, Israel e Estados Unidos, neste momento, pelo menos da porta para fora, são aliados. Pode ser uma aliança temporária, mas são aliados. Podem ter os seus pontos de desacordo, mas são aliados. E grandes aliados para determinados propósitos. Então é muito fácil perceber, na minha opinião, porque é que os Estados Unidos, votando contra, também Israel vota contra. Pode ter havido até um pré-consenso, que é o que muitas vezes acontece quando se trata de votação para este tipo de acordos. E estes são países, tanto Israel como Estados Unidos, nós não estamos aqui a falar da memória popular, não estamos aqui a falar de heranças, de tradições, etc, estamos a falar de sistemas políticos que estão ali no poder neste momento. É isto que conta ali no teatro das Nações Unidas. Não é um voto popular, não é uma voz que se está a levantar. Eventualmente também Portugal terá sido cauteloso ao colocar-se como neutro ou abster-se. Nós temos que olhar aquilo que é o hoje, os interesses políticos e de expansão e de territorialização e de afirmação do poderio político e monopólio a nível internacional. Onde é que estão os principais focos e como é que eles olham para algo do passado que, se eles aprovassem, não estaria a colocá-los numa situação extremamente complicada se eles aceitassem que isto é o "crime mais grave"? Eventualmente iriam ter que aceitar amanhã que a invasão a um determinado país também é o crime mais grave. É claro que eles não vão votar a favor. RFI: Mas para falarmos, por exemplo, de um argumento que foi ouvido durante a sessão de ontem, que foi expressado nomeadamente pelo Reino Unido, era a questão de recusar estabelecer uma hierarquia entre os Crimes contra a Humanidade. Julga que aí está-se de facto a estabelecer uma hierarquia e que isto está a prejudicar outras memórias que, por exemplo, têm a ver com o genocídio dos judeus na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, ou outros acontecimentos trágicos da história da Humanidade? Benigna Zimba: Eu não percebi porque é que o Reino Unido colocou esta questão de hierarquização. Não concordo com este termo por uma razão muito simples: as Nações Unidas estão a partir do princípio de que isto é realmente generalizado. Não há continente neste planeta Terra que, directa ou indirectamente, não tenha sido afectado pelo tráfico de pessoas escravizadas. Nesse sentido, nós estaríamos a globalizar positivamente este fenómeno. Ela aconteceu em todo lugar. Também temos genocídios, infelizmente, em muitos países do mundo. Mas este é um ponto comum e, de certo modo, de partida. E foi este ponto que fez também que muitos se desenvolvessem à custa do subdesenvolvimento do outro. E hoje somos chamados de países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento. E essas conotações duram décadas. Nunca se sai daí. Então, ao globalizar este crime, eu penso que aqui não se deve estabelecer hierarquia. Porquê hierarquizar? Eu confesso que eu não entendi. Eles também fizeram parte. Os primeiros abolicionistas foram os britânicos. Então todos estes países estão dentro deste contexto e são as maiores potências hoje. Então, respondendo de novo à questão, eu não concordo com esta questão da hierarquização. Foi colocado com base numa determinada constatação. Foi bem fundamentado. Era difícil fundamentar melhor, porque também quem faz a fundamentação tem heranças que estão dentro deste processo. Isto é um pouco complicado. Eu de facto não concordo que este termo seja objecto de discussão. Isto desvia os focos daquilo que as Nações Unidas querem atingir e as Nações Unidas também sabem que vão ter dificuldades, que isto simplesmente leva anos. Pode levar décadas, mas em algum momento nós temos que ter a capacidade de cada vez mais que o tempo passa, de utilizar estes instrumentos para que nós possamos fazer jus a tal verdade e justiça que se quer atingir.

    Da Wagner à África Politology: Julgamento expõe rede de Influência russa em Angola

    Play Episode Listen Later Mar 25, 2026 9:47


    O julgamento de dois cidadãos russos - o consultor político Igor Ratchin e o tradutor Lakshtanov - foi adiado para 14 de Abril. Eles foram detidos em Agosto do ano passado, durante a manifestação dos taxistas em Angola, e são acusados de incitar protestos antigovernamentais, conduzir uma campanha de desinformação e tentar interferir nas eleições presidenciais do próximo ano. O presidente da Associação Justiça, Paz e Democracia de Angola, Serra Bango, alerta que o processo ocorre num momento particularmente sensível, após os tumultos de Julho, sublinhando que “é preciso que a acusação apresente provas concretas e não meras especulações”. Que acusações são feitas aos dois cidadãos russos? Estes dois cidadãos russos estariam a praticar actos que poderiam ser considerados como actos de subversão. Ou seja, dizia-se que pretendiam criar uma associação cultural para influenciar cidadãos. Iam recrutando jornalistas, e essa associação cultural funcionaria como uma “figura aparente” que encobria as reais intenções dos cidadãos russos. O consultor político Igor Ratchin e o tradutor Lakshtanov são acusados de terrorismo, espionagem e tráfico de influência... Exactamente. Portanto, a leitura que se faz, a ligação que se estabelece, é semelhante ao que se passou no Níger e no Burkina Faso. Esta é a leitura que o Governo fez e é a informação que pretendeu passar. Os advogados de acusação dizem que os russos agiram em nome da “África Politology”, uma rede obscura de agentes e oficiais dos serviços de informação em África, originária do extinto grupo Wagner, cujo fundador, Yevgeny Prigojine, morreu em 2023, num acidente de viação. No entanto, a defesa russa afirma não ter qualquer ligação à “África”, nem ao grupo Wagner, nem estar a agir em nome do Estado russo. Até que ponto estas alegações de ligação à “África Politology” e ao grupo Wagner têm fundamento? Provavelmente, isso será discutido em sede própria. A acusação deverá apresentar elementos de prova sobre estes factos, mas terão de ser provas irrefutáveis, concretas, claras e precisas, não meras especulações. Para além dos russos, há também dois angolanos a serem julgados. Trata-se do jornalista da TPA, Amor Carlos Tomé, e do activista político Francisco Oliveira. Quais são as acusações que são feitas aos dois angolanos? As acusações indicam que estavam ligados e facilitavam os contactos. Eram como que a “ponta de lança” dos russos. Mas está claro que é preciso situarmo-nos para sabermos em que fase e em que momento surge este processo. Isto surge na sequência dos acontecimentos que ocorreram nos dias 28, 29 e 30 de Julho. As manifestações dos taxistas… A paralisação dos taxistas e os tumultos que ocorreram no ano passado. A presença desses cidadãos russos criou um quadro de opinião favorável à opinião pública internacional e fez passar a ideia de que, de facto, aqueles cidadãos russos tinham essa pretensão. E que aquele movimento estaria ligado a essa pretensão da “África Politology”. Portanto, o contexto é este. E isto fez com que se desviasse a atenção do real problema para esta situação dos russos. O Presidente angolano, João Lourenço, tem-se aproximado do Ocidente. Já não se reúne com o homólogo russo, Vladimir Putin, desde 2019. A empresa mineira russa de diamantes e o banco VTB foram obrigados a abandonar Angola devido às sanções internacionais impostas com a guerra na Ucrânia.Há aqui uma preocupação da Rússia com o rumo que Angola está a tomar sob o governo de João Lourenço? O Governo angolano foi apanhado neste vendaval de disputas entre as duas grandes potências [EUA e Rússia] e procurou colocar-se do lado aparentemente mais forte, do ponto de vista económico, para evitar outros males. Como vimos, a administração americana usou o seu poder económico para condicionar todos aqueles que não se identificassem com as suas pretensões, quer na Europa, no Oriente ou em África. E o Presidente João Lourenço, de acordo com as suas pretensões, resolveu posicionar-se mais do lado americano do que do russo, com quem Angola tem uma relação de quase 50 anos, sobretudo no domínio da defesa e segurança. A Rússia tem, até agora, capacitado a dimensão político-militar de defesa e segurança do Estado angolano e de outros Estados em África. O Governo angolano quer fazer uma inflexão, da Rússia para os Estados Unidos da América. E isto, claro, faz com que a questão dos russos possa funcionar como uma forma de mostrar ao Ocidente que Angola está atenta e que não quer seguir o caminho do Burkina Faso, do Níger ou do Mali. E, portanto, que é um parceiro sério, responsável e confiável. Entre 2024 e 2025, os arguidos terão pago 24 mil dólares a jornalistas e especialistas como parte de uma alegada operação de influência para minar a confiança nos parceiros ocidentais, incluindo críticas ao corredor do Lobito e rumores sobre a guerra na Ucrânia. Isto prova uma tentativa de desacreditar a política externa de João Lourenço? Pode parecer que sim. Mas desacreditar a política externa não passa apenas por esses factos. Deverão existir outros. De qualquer forma, o Estado angolano deverá apresentar provas concretas. E, perante essas provas, as partes envolvidas poderão esgrimir os seus argumentos e nós, enquanto sociedade civil, poderemos perceber o que realmente se passa e de que lado está a verdade. As autoridades acusam os russos de contactos com membros do MPLA e da UNITA, nomeadamente Higino Carneiro e Adalberto Costa Júnior. A UNITA nega as alegações e alerta para o risco de utilização política da justiça. Há esse risco? Os cidadãos mencionados, quer do MPLA quer da UNITA, são vistos como figuras com ambições políticas. No caso do MPLA, alguns poderão querer concorrer à liderança do partido, o que torna estas acusações particularmente sensíveis. Isso pode servir para os fragilizar internamente e limitar as suas ambições. No caso da UNITA, pode também criar a percepção de que o seu líder está associado a tentativas de subversão. O julgamento foi adiado para 14 de Abril, e a defesa diz que não há matéria jurídica, que a acusação assenta em mera especulação. Acha que é disso que se trata? Vamos esperar que a acusação traga elementos substanciais, factíveis e contundentes, para que não se diga que estamos perante meras especulações. Por outro lado, estes processos também podem desviar a atenção dos cidadãos de problemas internos, fazendo com que, por momentos, deixem de exigir respostas do Estado. Existem muitas situações às quais o Governo angolano não consegue dar resposta e, nessas alturas, um processo como este pode ajudar a desanuviar e a desviar atenções. É conhecida a máquina de propaganda da Rússia. Numa altura em que João Lourenço se aproxima do Ocidente, poderá haver esta preocupação por parte da Rússia? É provável que sim. Tal como outros países, como a França ou os Estados Unidos, também se preocupam com mudanças de direcção em África. Ainda assim, estas disputas não podem levar à instrumentalização do sistema judicial. É preciso deixar a justiça angolana trabalhar? Sim, de forma independente e imparcial. É legítimo que o Estado se preocupe com a sua estabilidade e integridade. Mas não é legítimo criar factos que não estejam comprovados. Vamos esperar pelo desenrolar do processo.

    Moçambique "não está preparado para o boom da exploração de gás" após bloqueios no Qatar e Irão

    Play Episode Listen Later Mar 24, 2026 11:31


    O bloqueio do gás vindo do Qatar e do Irão está a levar muitos países a olharem para Moçambique e para a sua produção de gás natural liquefeito como uma alternativa viável para o abastecimento desta matéria prima essencial. A Ucrânia disse na segunda-feira que estava disposta a trocar o gás moçambicano por tecnologias militares, uma troca que preocupa o politólogo moçambicano, Fidel Terenciano. Na segunda-feira, Daniel Chapo, o Presidente moçambicano, e Volodymyr Zelensky, Presidente ucraniano, tiveram uma conversa telefónica em que Kiev mostrou interesse no gás moçambicano. Em contrapartida, a Ucrânia prometeu apoio militar, nomeadamente a nível tecnológico, deixando entender que se trata de tecnologias usadas actualmente pelo país nos combates contra os russos como drones. No caso de Moçambique, segundo a Ucrânia, estas tecnologias poderiam servir para a segurança interna do país e a protecção das populações face ao terrorismo. Esta conversa surge num momento em que a crise de combustíveis, nomeadamente de gás, se está a acelerar devido aos ataques no Qatar e no Irão, assim como o encerramento do estreito de Ormuz. Impedida de voltar aos níveis de produção de gás dos tempos de paz, a Ucrânia procura alternativas de abastecimento estando já a preparar-se para o próximo Inverno. No entanto, o aprofundamento das relações com a Ucrânia pode abalar a política de não-alinhamento de Moçambique nos conflitos internacionais, segundo o politólogo moçambicano, Fidel Terenciano. "Neste momento não é oportuno para Moçambique estabelecer relações quer comerciais, quer diplomáticos com a Ucrânia, até por conta do tipo de relações históricas estabelecidas entre Moçambique e Moscovo. Nos últimos seis meses Moçambique mudou a sua abordagem de não alinhamento para alinhamentos e isso pode sobremaneira perigar a posição de Moçambique nos próximos tempos, até no concerto das nações. [...] Este acordo eu penso que ele é benéfico para Ucrânia. É uma forma de fazer pressão sob a Rússia no sentido de, se nós não tivermos possibilidades de utilizar os combustíveis que se encontram no território controlado pela Rússia, vamos abrir novas linhas de cooperação e parceria, incluindo com o país chamado Moçambique, que tem grandes reservas de gás e também de petróleo e que nos próximos tempos poderá ser a principal fonte de abastecimento para Ucrânia", explicou o especialista. Este analista considera ainda que Moçambique não está preparado para o interesse internacional crescente no gás natural liquefeito existente no país, o maior projecto africano de gás que se localiza na Bacia do Rovuma. "Tenho a impressão que nós, como país, não estávamos preparados para esse boom da exploração de recursos naturais, particularmente o gás. O que pode acontecer é que a exploração vai iniciar e Moçambique vai ser uma opção real para um conjunto de países ocidentais, já que o Irão e o Qatar estão com uma conotação negativa por parte da NATO. E, consequentemente, Moçambique vai ser o espaço de eleição. Mas o problema é que tenho muitas reservas que Moçambique como nação, Moçambique como país, terá de se preparar para esse boom. E essa escolha, tanto quanto forçada, de um conjunto de actores internacionais que agora vão começar a olhar Moçambique como a principal saída para continuar a exploração do gás e petróleo nos próximos tempos", declarou Fidel Terenciano. Para este politólogo, Moçambique deve concentrar-se nas suas relações com os parceiros africanos, considerando que as forças do Ruanda se devem manter no país de forma a reforçar os esforços levados a cabo para encontrar “um equilíbrio” em Cabo Delgado. "Devemos encontrar novos aliados no contexto africano. Preocupa-me bastante como cientista político baseado em Moçambique, o porquê da África do Sul não ter sido uma grande opção para Moçambique para debelar a questão da insurgência no contexto de Cabo Delgado. Parece-me que estamos a deixar de lado os vizinhos muito próximos que, de alguma maneira, ressentem a problemática do conflito em Cabo Delgado. Estamos a pagar a aliados um pouco mais distante que, na minha opinião, talvez nem estão interessados nos efeitos nefastos e negativos do conflito, quiçá apenas estão interessados nos efeitos positivos para eles próprios, dentre eles o fornecimento de material bélico, envio de seus homens e a cobrança das facturas muito altas. Há o contínuo controle do processo de exploração, produção e venda dos barris de gás a nível de Cabo Delgado e os lucros que eles podem obter através desse apoio que eles dão à Moçambique", concluiu e avisou Fidel Terenciano.

    França sai fragmentada das autárquicas: "Ninguém perdeu, todos ganharam"

    Play Episode Listen Later Mar 23, 2026 11:27


    A segunda volta das eleições autárquicas francesas deste domingo, 22 de Março, expôs um país politicamente fragmentado, onde nenhuma força reclama vitória clara. A esquerda resiste nas grandes cidades, mas perde influência territorial; a direita e o centro consolidam posições; e a extrema-direita cresce localmente sem conquistar grandes municípios. Para o politólogo Eric Monteiro, os resultados antecipam um cenário “incerto e competitivo” a um ano das presidenciais. A leitura dos resultados das autárquicas em França revela um paradoxo: todos os principais partidos reclamam vitórias, mas nenhum emerge como vencedor inequívoco. Segundo Eric Monteiro, docente em Ciências Políticas na Universidade de La Rochelle, esta ambiguidade decorre, em grande medida, do próprio sistema eleitoral autárquico francês. “O sistema atribui um bónus de maioria de 50% à lista vencedora, o que amplifica resultados e dificulta comparações com eleições nacionais”, explica. Assim, derrotas tangenciais traduzem-se frequentemente em maiorias confortáveis nos executivos municipais, distorcendo a leitura política. Esquerda urbana, mas em retração territorial A esquerda manteve bastiões emblemáticos como Paris, Lyon e Marselha, confirma a sua força nos grandes centros urbanos. Contudo, perdeu cidades relevantes como Estrasburgo, Clermont-Ferrand ou Brest, sinal da fragilidade fora dos grandes pólos metropolitanos. Eric Monteiro sublinha que esta dualidade expõe uma divisão estrutural: “A esquerda ganha nas grandes cidades, mas perde no território.” As alianças com a França Insubmissa (LFI) revelaram-se, na maioria dos casos, penalizadoras. O eleitorado mostrou-se relutante em seguir entendimentos considerados artificiais ou excessivamente ideológicos. Excepções como Nantes, onde houve uma coligação técnica sem integração efectiva da LFI no executivo, não alteram a tendência. Pelo contrário, reforçam a ideia de que a cooperação à esquerda permanece frágil. Direita e centro consolidam, sem triunfar À direita e ao centro, os resultados traduzem-se numa consolidação mais do que numa expansão. Sem grandes conquistas, estes campos políticos asseguraram reeleições estratégicas e beneficiaram das divisões à esquerda. Eric Monteiro destaca um factor decisivo: a recusa de alianças com a extrema-direita. “Quando a direita respeita a linha histórica de não pactuar com a extrema-direita, pode vencer”, afirma, evocando a tradição iniciada por Jacques Chirac. Ainda assim, casos isolados como Nice, marcados por rivalidades pessoais e alianças heterodoxas, mostram que a disciplina estratégica não é uniforme. Extrema-direita cresce, mas falha objectivos maiores A União Nacional (RN) não conseguiu conquistar grandes cidades, falhou objectivos simbólicos como Marselha, Toulon ou Paris. No entanto, ampliou a presença nas pequenas e médias cidades, beneficiando de uma participação eleitoral relativamente baixa. Este crescimento territorial, ainda que discreto, não deve ser subestimado. “Os extremos começam a ter uma implantação que antes não tinham”, alerta o docente, referindo tanto o RN como a esquerda radical. O sul de França permanece um bastião importante da extrema-direita, mas a incapacidade de conquistar grandes centros urbanos limita, para já, a sua projecção nacional. Quatro blocos e o regresso do “arco governativo” Contrariando previsões recentes, os partidos tradicionais: socialistas e republicanos, demonstraram resiliência. O sistema político francês mantém-se estruturado em quatro blocos: esquerda moderada, direita moderada, extrema-esquerda e extrema-direita. Eric Monteiro identifica um reforço do chamado “bloco republicano”, composto por forças de centro-esquerda e centro-direita com vocação governativa. Este espaço político beneficiou de um eleitorado mais pragmático, sensível a questões de gestão e rigor orçamental. “O eleitorado rejeitou promessas irrealistas e valorizou candidatos com credibilidade governativa”, observa. Ecologistas perdem centralidade Outro dado relevante destas eleições foi o recuo dos partidos ecologistas, que perderam várias autarquias conquistadas nas últimas eleições de 2020. Segundo Eric Monteiro, esta perda não representa um retrocesso da agenda ambiental, mas antes a sua integração transversal. “As questões ecológicas deixaram de ser monopólio dos ecologistas e passaram a fazer parte dos programas de governo”, afirma, interpretando esta evolução como um sinal de maturidade política. A faltar um ano das eleições presidenciais, o cenário permanece altamente aberto. Os resultados autárquicos sugerem uma competição intensa, com risco de os candidatos dos extremos dominarem a primeira volta. Eric Monteiro aponta para um dado preocupante: sondagens que colocam Jordan Bardella acima de potenciais candidatos moderados. Num sistema em que apenas dois candidatos passam à segunda volta, a fragmentação do centro pode favorecer a extrema-direita. Entre os nomes já posicionados, destaca-se o de Édouard Philippe, antigo primeiro-ministro de Emmanuel Macron, cuja candidatura assenta numa legitimidade local já testada.

    “O grande perigo desta guerra é provocar ainda mais o fecho do Irão”

    Play Episode Listen Later Mar 20, 2026 11:54


    O livro Tudo sobre o Irão é apresentado este sábado, 21 de Março, em Lisboa, Ricardo Alexandre traça um retrato de um país no centro da tensão internacional. Entre ataques israelitas, narrativas de poder e o risco de escalada. O jornalista português expõe as múltiplas camadas do regime iraniano, da sociedade civil e da geopolítica. Na véspera da apresentação de Tudo sobre o Irão, Ricardo Alexandre fala de um país que raramente se deixa ver por inteiro. É assim que começa: com a ideia de opacidade, de camadas sobrepostas, num momento em que o Irão regressa ao centro da actualidade internacional, entre ataques, retaliações e a permanente ameaça de escalada. Os recentes bombardeamentos de Israel no sul do Líbano e em Teerão, diz, não surgem do vazio. “Israel quer há muito tempo dominar o Médio Oriente”, afirma, apontando para “uma narrativa dentro deste governo” que procura uma “grande Israel” para lá das fronteiras actuais. E acrescenta: “do ponto de vista militar e tecnológico, Israel já é a grande potência do Médio Oriente”, sem concorrência comparável na região. Mas mais do que mudança estratégica, há uma demonstração contínua de força. “Não há nenhuma potência no Médio Oriente que se possa sequer aproximar do poder de Israel”, afirma, sublinhando também o domínio no campo da informação. A guerra, hoje, joga-se em múltiplos tabuleiros e nem todos visíveis. Do lado iraniano, a narrativa de fragilidade difundida por Israel tem limites. “Não me parece que a estratégia iraniana nesta altura seja a de desistir”, diz. Apesar das mortes sucessivas de figuras-chave, “essas pessoas têm sido substituídas de forma imediata”.  A ideia de um Irão em colapso, defende, é simplificação. “Aquilo que parece ser uma narrativa que Israel vende de que o Irão está num caos absoluto, não corresponde ao que se observa”, afirma. Há continuidade, há adaptação, há uma máquina de poder que se recompõe, mesmo sob pressão. No centro das tensões permanece a questão nuclear. “O Irão nunca afirmou querer ter uma arma nuclear”, lembra, evocando a fátua que proíbe esse caminho. Para Ricardo Alexandre, a viragem dá-se com a saída dos Estados Unidos do acordo de 2015: “Donald Trump, assim que entrou em funções, deu cabo disso tudo”. A partir daí, “é só depois disso que o Irão começa a enriquecer urânio a níveis superiores”. E aponta responsabilidades europeias: “perante a passividade europeia, com medo de represálias norte-americanas”, o equilíbrio rompeu-se. O resultado foi um aumento das tensões e dos receios internacionais; “uma evolução que só aconteceu depois de os Estados Unidos terem rompido unilateralmente com os compromissos”. O livro, resultado de mais de duas décadas de investigação, é uma tentativa de fugir ao preto e branco. “Há muitas nuances e muitas camadas”, diz. E sublinha: “não é um livro que tente passar um pano sobre a repressão”, mas também não ignora “o contexto em que determinadas decisões políticas são tomadas”. Essa complexidade estende-se à sociedade. “Temos tendência para fazer leituras através daquilo que nos chega em dois minutos de televisão”, aponta. Sobre as mulheres iranianas, desmonta estereótipos: “não é assim” que se resume a realidade. As mulheres “têm uma participação política e cívica muito mais forte do que em muitas monarquias do Golfo”. Ainda assim, o presente pesa sobre o futuro. “O grande perigo desta guerra é provocar ainda mais o fecho do país”, alerta. E termina com uma ideia que atravessa tudo: “vai ser mais difícil às vozes progressistas poderem fazer-se ouvir”. No meio da guerra, há um país que resiste e que continua, em grande parte, por compreender.

    "Decapitar o regime" não vai acabar com o sistema autoritário no Irão

    Play Episode Listen Later Mar 18, 2026 10:53


    Só nas últimas 24 horas, mais duas figuras importantes do regime dos ayatollahs foram abatidas pelos ataques norte-americanos e israelitas. No entanto, as mortes destas figuras, entretanto já substituídas na cúpula do poder em Teerão, não significam o fim do regime e tornam cada vez mais difícil que as figuras moderadas e a oposição se exprimam no Irão. O conflito no Médio Oriente continua a sua escalada de violência, com Teerão a confirmar a morte de Ali Larijani, chefe da segurança do país, e também, nas últimas horas, de Esmail Khatib, ministro dos Serviços Secretos iranianos. Estas mortes não parecem abalar a determinação do regime no Irão, que continuam a enviar drones contra os países da região. "A estratégia americana e israelita é decapitar o regime pensando que matando quadros superiores do regime e líderes fazem cair o regime ayatollahs. Ora, nada disso parece estar a acontecer, não é? Morrem uns, são substituídos por outros. Há muitos quadros do regime e nunca se viu na História, pelo menos que eu me lembre, que a morte de um dirigente num regime autoritário ditatorial signifique necessariamente o fim desse regime. Isto não tem precedentes históricos", explicou Álvaro Vasconcelos, antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia. Para este especialista em Relações Internacionais, as acções dos Estados Unidos e de Israel no Irão estão a fazer com sectores mais moderados no país sejam "completamente marginalizados e substituídos por sectores muito mais duros, muito mais violentos e muito mais repressivos". Quanto à oposição que restava no país e que nos últimos anos se tinha vindo a organizar, face ao corte da internet e aos bombardeamentos constantes, também não se consegue manifestar. "Temos que pensar que a oposição iraniana, que é forte, que mostrou em manifestações significativas o seu poder, a sua influência, a sua capacidade de mobilização, usando as redes sociais, redes sociais que agora estão todas cortadas, não é nesta situação de guerra que essa oposição vai para a rua, sabendo que o aparelho repressivo iraniano, nomeadamente os Guardas da Revolução e não só, continuam intactos e que seriam dizimados de uma forma ainda mais terrível do que foram no passado. Portanto, não é sobre as bombas que vai surgir uma oposição forte no Irão que irá, no fundo, pôr em causa o regime dos ayatollahs", avisou Álvaro Vasconcelos. A partir da Sala Oval, na Casa Branca, Donald Trump continua a lamentar a falta de apoio dos europeus à abertura do Estreito de Ormuz, tendo dito que se trata de um “erro ridículo” por parte dos países da NATO. O Presidente norte-americano não quer dar o braço a torcer, adicionando que os Estados Unidos também não precisam de ajuda para nada, mas esta guerra está já a causar fissuras internas na sua administração, com Joe Kent, director do Centro Nacional de Contraterrorismo norte-americano, a demitir-se, afirmando não poder apoiar a guerra no Irão. Para Kent, não havia qualquer ameaça directa do Irão aos Estados Unidos e esta foi uma guerra que começou devido à influência de Israel sobre Donald Trump. "Este isolamento internacional para Trump, na sua visão do mundo, não é verdadeiramente um problema. Porque Trump vive na ideia de destruir a ordem internacional, de achar que o poder americano é tal e o seu poder pessoal é tal que nada o poderá limitar, nem o facto de se isolar dos seus aliados europeus, que aliás, não deu qualquer importância nem os informou de que ia começar uma guerra, nem de ter contra si a opinião pública mundial. Aliás, é uma estratégia semelhante a Netanyahu. O isolamento de Israel depois da Guerra de Gaza é praticamente total. Esse isolamento internacional que nós constatamos para Trump, verdadeiramente, na sua visão brutal de poder absoluto que ele crê que pode ter e crê que tem, com um ego que ultrapassa muito de longe o poder que tem realmente, não é para Trump, verdadeiramente um problema. É um problema para os Estados Unidos, é um problema para a ordem internacional e um problema para a paz e a prazo, um problema para Trump. Mas de imediato, é um poder grotesco, como dizia Foucault. É um poder brutal que não mede as consequências dos seus actos", concluiu.

    “A saída dos ruandeses de Moçambique não interessa a ninguém”

    Play Episode Listen Later Mar 17, 2026 10:01


    O Ruanda admitiu retirar o contingente militar destacado no combate ao terrorismo em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, caso não sejam asseguradas garantias de financiamento sustentável para a operação. No terreno desde 2021, cerca de mil militares ruandeses apoiam as forças moçambicanas no combate à insurgência armada activa desde 2017, associada ao grupo jihadista Estado Islâmico. O aviso surge numa altura em que se aproxima o fim do apoio financeiro da União Europeia à missão, previsto para Maio, ao fim de 36 meses e após um total de 40 milhões de euros desembolsados. Em Bruxelas, o Presidente Daniel Chapo tenta assegurar a continuidade desse financiamento. O investigador do Observatório do Meio Rural, João Feijó, considera que não há interesse em ver as forças ruandesas abandonarem o país. O Ruanda admitiu retirar o contingente militar destacado no combate ao terrorismo em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, caso não sejam asseguradas garantias de financiamento sustentável para a operação. Quais serão as consequências dessa decisão para a estabilidade de Moçambique? Não é uma decisão. É uma chamada de atenção para a necessidade do apoio do Ruanda a Moçambique, para que possam continuar as operações. Esta posição surge numa altura em que há sanções dos Estados Unidos às forças de defesa do Ruanda, devido ao conflito na República Democrática do Congo. Há aqui um certo aproveitamento por parte do país? A situação é distinta, porque essas sanções visam obrigar o Ruanda a deixar de intervir da forma como está a intervir nz RDC. Em Moçambique, pelo contrário, a acção do Ruanda tem sido benéfica para o capital internacional, nomeadamente para os interesses estratégicos do gás e do grafite, que pertencem a multinacionais com capital francês, americano e, no fundo, global. As tropas ruandesas estão em Moçambique desde 2021. A verdade é que o conflito ainda não foi resolvido e até alastrou a Nampula. Há o risco de este conflito se eternizar? O Ruanda teve como função não necessariamente acabar com a insurgência, mas proteger o raio em torno das zonas onde estão os investimentos. As forças estavam sobretudo localizadas em Palma e na faixa costeira. O objectivo foi claramente criar uma “green zone”, restabelecer a segurança e retomar a exploração de gás. A insurgência movimentou-se, de forma estratégica, para zonas onde o inimigo é mais fraco. Deslocou-se para áreas com geografia muito complicada, onde historicamente movimentos de guerrilha -como a Renamo ou mesmo a Frelimo- nunca foram derrotados. Estes grupos têm, assim, a vantagem do terreno. Ainda assim, já não têm a mesma força que tinham em 2021, nem a mesma capacidade para atacar ou ocupar vilas distritais. Chegaram a realizar vários ataques a sedes distritais, algumas mais do que uma vez, mas hoje essa capacidade está bastante reduzida. Por outro lado, também não interessa ao Ruanda eliminar totalmente a insurgência. Interessa contê-la, reduzir a sua capacidade operacional, sobretudo nas zonas de grande investimento económico, mas manter o risco suficientemente presente para justificar a sua presença em Moçambique. Há um interesse em manter Moçambique dependente do Ruanda? Exactamente. Dessa forma, o Ruanda mantém o processo de internacionalização das suas empresas, nomeadamente nos sectores da construção, do acesso a recursos naturais e até da presença militar. Procura afirmar-se como uma espécie de “polícia africana” na estabilização de zonas de indústria extractiva, financiadas pelo capital do Norte global. No dia em que os ruandeses saíssem, é possível que surgissem dinâmicas que voltassem a criar instabilidade, pressionando os grandes interesses económicos a recorrer novamente à sua presença. Não será fácil retirar os ruandeses, até porque não existe uma alternativa viável. O exército moçambicano ainda não tem capacidade para enfrentar sozinho os grupos insurgentes. Pelo contrário, uma retirada poderia facilitar a reorganização desses grupos. A população tem dito, muitas vezes, que se sente mais segura com as tropas ruandesas do que com os soldados moçambicanos… Isso é natural. Os ruandeses dominam as línguas locais, têm bons equipamentos, estão bem treinados, são disciplinados e conseguem estabelecer uma relação de confiança com a população. Conseguem, através da comunicação directa, distinguir quem colabora com a insurgência. Já as forças moçambicanas enfrentam problemas logísticos, falta de equipamento, fragilidades na organização e na liderança e, sobretudo, dificuldades de comunicação com a população. O que é irónico: militares e população do mesmo país não conseguem comunicar entre si. Além disso, há muitos relatos e indícios de abusos cometidos por militares moçambicanos contra civis, o que gera medo e desconfiança. A população fica, muitas vezes, presa entre dois lados em conflito, numa situação extremamente vulnerável. O Presidente de Moçambique, Daniel Chapo, está em Bruxelas para pedir a continuação do apoio da União Europeia. Acredita que será bem-sucedido? Terá de apresentar garantias e contrapartidas. Esses apoios terão certamente um custo. Não se sabe se será através de concessões mineiras, benefícios fiscais ou outras formas. Moçambique encontra-se numa posição muito difícil: precisa de garantir a segurança dos grandes projectos, mas não tem capacidade interna para o fazer. Isso obriga ao recurso a apoio internacional, que tem um preço. O problema é estrutural: um Estado frágil, com dificuldades em assegurar direitos fundamentais como justiça, educação, saúde ou emprego. Isso gera descontentamento e fragiliza ainda mais a relação entre o Estado e a população. Daniel Chapo enfrenta um desafio enorme. As receitas do gás só deverão começar a chegar dentro de cinco ou seis anos. Até lá, será difícil manter a estabilidade. O país atravessa - e continuará a atravessar - um período muito complexo. Daniel Chapo poderá contar com o apoio da França, tendo em conta os interesses franceses no país? É possível que tenha havido um esforço diplomático francês para mobilizar a União Europeia a apoiar a intervenção do Ruanda, com recurso a financiamento de vários Estados-membros, tendo em vista a protecção de investimentos como os da Total em Moçambique. Durante estes dias, deverão decorrer várias negociações em Bruxelas para encontrar soluções. A saída dos ruandeses não interessa a ninguém, tendo em conta a importância estratégica da região - incluindo os corredores de Pemba, Lichinga e Nacala - ricos em recursos como carvão, areias pesadas, grafite, gás e pedras preciosas. A interrupção da exploração destes recursos poderia ter impactos nos mercados energéticos e alimentares globais. E não há interesse nessa interrupção… Exactamente. Além disso, o custo das forças ruandesas é relativamente baixo - cerca de 50 milhões de dólares por ano - quando comparado com alternativas como forças norte-americanas ou europeias, que seriam significativamente mais dispendiosas. É provável que este cenário faça parte de uma estratégia negocial, eventualmente para transferir custos para o Estado moçambicano ou garantir novas condições para investimento internacional. Neste momento, trata-se sobretudo de negociações políticas em curso nos bastidores de Bruxelas.

    História do “Cinema Português em Revolução” publicada em França

    Play Episode Listen Later Mar 16, 2026 13:16


    O cinema português do pós-25 de Abril também fez a sua revolução política e estética, enquanto retratava o momento histórico que se vivia em Portugal depois de 48 anos de ditadura. O espírito e os bastidores desse “ideal colectivo do cinema português” foi estudado pelo historiador de cinema Mickaël Robert-Gonçalves que agora publica, em França, o livro "Cinéma Portugais en Révolution : 1974-1982". A RFI falou com o autor no lançamento da obra, a 13 de Março, em Paris. Mickaël Robert-Gonçalves começa por contar à RFI que “o livro trata de como a revolução portuguesa foi filmada e como os cineastas organizaram a revolução dentro da instituição do cinema”, mas também aborda “um estudo estético dos filmes” e “uma reflexão” sobre o percurso dos filmes e o seu contacto com o público. O que foi, afinal, este “cinema português em revolução” e o que levou Mickaël Robert-Gonçalves a fazer deste assunto o tema central da sua tese de doutoramento numa universidade francesa? A descoberta do filme Bom Povo Português (1981) de Rui Simões foi o ponto de partida para o investigador, que também se rendeu a Gestos & Fragmentos - Ensaio sobre os Militares e o Poder (1982) de Alberto Seixas Santos. Ambas as obras marcam, para ele, “o fim de um espírito sobre os filmes revolucionários” e “o fim, talvez, do ideal colectivo do cinema português”, o que também explica as datas do título do livro. Mickaël Robert-Gonçalves mergulhou, então, nessa “outra forma de fazer cinema” em Portugal, um cinema radical, na forma e no conteúdo, que abordou temas calados por 48 anos de ditadura e que retratou as lutas do Período Revolucionário em Curso, deixando-se simultaneamente absorver pelo próprio ímpeto revolucionário. A partir de Paris, o historiador lusodescendente agarrou num tema “ainda muito desconhecido” em Portugal e foi pesquisar esse cinema colaborativo que - conta - “questionou o lugar do autor e do poder no cinema” através, nomeadamente, de “uma variedade de cooperativas que tinham um modelo diferente de produção e uma discussão permanente, como era possível num período revolucionário”. Na apresentação da obra, em Paris, Raquel Schefer, professora de cinema na universidade Sorbonne Nouvelle, resumiu o livro como “a mais importante sistematização do cinema revolucionário português até à data”. Oiça a entrevista com Mickaël Robert-Gonçalves neste programa. RFI: Do que fala este livro Cinéma Portugais en Révolution:1974-1982? Mickaël Robert-Gonçalves, Autor do livro Cinéma portugais en révolution : 1974-1982: “Este livro é uma espécie de síntese da minha tese de doutoramento que foi defendida em Paris 3-Sorbonne Nouvelle, em 2018. O livro trata de como a revolução portuguesa foi filmada e de como os cineastas organizaram a revolução dentro da instituição do cinema, na primeira parte. Na segunda parte é mais um livro sobre os filmes e como os filmes foram feitos durante a revolução, um estudo estético dos filmes. E, depois, é uma reflexão sobre o destino dos filmes, como foram projectados, como circularam nos festivais, nas salas de cinema, etc.” Como é que a revolução entrou e se manifestou no cinema português? “É um cinema interessante porque questionou, por exemplo, o lugar do autor, sendo que o cinema português é um cinema de autor, e no período revolucionário foi um cinema colaborativo, um cinema colectivo. Por isso, foi uma das primeiras maneiras de fazer um cinema diferente. Também questionou as questões do poder no cinema porque houve uma tentativa de socialização da produção cinematográfica em Portugal durante a revolução, que durou mais ou menos dois anos, e havia uma variedade de cooperativas que tinham um modelo diferente de produção e foi uma discussão permanente, como era possível num período revolucionário.” Há dois filmes que estruturam o seu livro. Quais são e porquê a escolha destes dois? “O primeiro é ‘Bom Povo Português' de Rui Simões, foi o primeiro filme que descobri sobre a revolução. É um dos filmes mais conhecidos sobre a revolução. Era um filme que sintetizava toda a revolução e, ao mesmo tempo, é um filme também muito poético e havia muitas imagens que eu queria descobrir e foi a minha maneira mais fácil e mais rica de entrar no período revolucionário. Este filme foi terminado no início dos anos 80. O segundo filme é ‘Gestos & Fragmentos - Ensaio sobre os Militares e o Poder' de Alberto Seixas Santos. Este é um filme mais radical, um filme mais intelectual talvez, também foi um filme que foi difícil de acabar para a equipa do filme e só foi finalizado em 1982. Para mim, era já o fim de um período, de um espírito sobre os filmes revolucionários. Era também, talvez, o fim do ideal cooperativo, o ideal colectivo do cinema português. Acabou com ‘Gestos & Fragmentos' e Bom Povo Português'.” Daí a escolha das datas 1974-1982? “Sim, para mim, era uma maneira poética ou filosófica de acabar a revolução com os filmes, não com o processo histórico, porque claro que a revolução acabou antes de 1982, mas houve mais influências e referências da revolução depois do fim da revolução. Então, para mim, era lógico acabar em 1982 com ‘Gestos & Fragmentos'”. Olhando para além de 1982, até que ponto hoje essa vaga revolucionária toca algum cinema português? “É uma questão complicada porque não sei se há mesmo um eco agora nos filmes contemporâneos. Há uma referência, por exemplo, nos filmes do Colectivo Terratreme e, por exemplo, acabei o meu livro com o filme ‘A Fábrica de Nada'. Para mim, no modelo de criação do filme, havia um eco do período revolucionário, mas não sei se é uma ligação voluntária ou se é qualquer coisa que os realizadores conscientizaram quando estavam a fazer este filme, espero que fosse uma espécie de referência e influência. Mas também é preciso conhecer este património cinematográfico dos anos 70 e não sei se isso está a ser ensinado nas escolas de cinema. É um período ainda muito desconhecido.” Quais são os temas que até então não tinham aparecido na história do cinema português e que aparecem nessa altura? “Há muitos, porque neste cinema militante havia muitos problemas que surgiram no período revolucionário, problemas que já existiam durante a ditadura, por exemplo, a questão do aborto, a questão da reforma agrária, a questão da organização dos trabalhadores, várias questões políticas e de sociedade, a questão do direito ao alojamento, a questão do hospital psiquiátrico, por exemplo. Foi um período onde era possível ter todos esse objectos de trabalho e foi um período decisivo.” Qual foi o papel das cooperativas de cineastas? Além de apagarem, entre aspas, o nome do autor, fizeram um trabalho colectivo que, muitas vezes, se associa a uma utopia colectiva e revolucionária… “Sim, mas como uma utopia, também é sempre difícil que isso fique no tempo. Foi uma experiência. Para os realizadores era uma maneira de experimentar, fazer um cinema diferente também e experimentar outras formas de fazer cinema. Depois, a figura do autor voltou em Portugal, então, só foi um período muito curto na história do cinema português.” Além de ser um cinema revolucionário nos temas, com temas que até então não tinham sido abordados, em termos formais, houve também uma radicalização das formas, algo novo? “Sim, houve uma radicalização das formas porque era um cinema que estava influenciado pelas formas de cinema político da Europa: o cinema político francês, o cinema militante que já havia na América Latina, por exemplo. Era possível porque havia uma revolução. Havia também formas de cinema mais antigas e, às vezes, menos valorizadas, porque já havia este tipo de cinema em França, em Itália, na América do Norte, mas não havia este tipo de cinema em Portugal. Então era uma descoberta e também foi uma maneira de experimentar este tipo de cinema em Portugal.” Além destes dois filmes que falou, que outros poderia recomendar às pessoas que querem descobrir este cinema revolucionário português? “Posso recomendar não os filmes, porque é difícil, mas as plataformas onde é possível ver esses filmes, como a RTP Arquivos onde podem encontrar os filmes do programa ‘Nome Mulher' e ‘Ver e Pensar' que é um outro programa. Também a plataforma da Real Ficção de Rui Simões, que é uma sociedade de produção portuguesa, e há uma possibilidade de ver os filmes do Grupo Zero: ‘A Lei da Terra', ‘Gestos & Fragmentos', ‘Assim começa uma cooperativa', por exemplo, e os filmes da Cooperativa VirVer de Rui Simões que estão também na plataforma Real Ficção.” Na apresentação da obra, a historiadora de cinema Raquel Schefer disse que é uma obra que sistematiza e desmistifica a história do cinema revolucionário português, desidealizando a história das cooperativas de cineastas. Houve esse intuito? “Não sei. Acho que isso é a percepção da Raquel [Schefer], mas acho que talvez seja verdade porque talvez seja uma coisa que está ligada com o facto de que eu não vivi em Portugal, nasci aqui em França e tenho uma espécie de um olhar sobre Portugal que é um olhar um pouco estrangeirado sobre a História de Portugal. Então, talvez seja por isso que eu possa olhar para esta história e para estes filmes, talvez, com distância e uma maneira de analisar que permite essa sistematização e esse olhar específico que eu tenho no meu livro.”

    Partido de Macron "desaparece" nas eleições autárquicas e extremos conseguem "bons resultados"

    Play Episode Listen Later Mar 16, 2026 9:54


    Em França, a primeira volta das eleições autárquicas ficou marcada por um aumento dos extremos tanto à direita como à esquerda, assim como pelo quase desaparecimento do partido do Presidente, Emmanuel Macron. O investigador Victor Pereira explica as tendências destas eleições. A primeira volta das eleições autárquicas em França decorreu no domingo e, especialmente nas grandes cidades, deixou muitos resultados em aberto, já que haverá uma segunda volta no dia 22 de março, onde se conhecerá o desfecho político para os próximos seis anos de cidades como Paris, Marselha, Lyon, Lille, Toulouse, Nice ou Bordéus. A subida da extrema-direita, através da União Nacional de Marine Le Pen, e da extrema-esquerda, com a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon, marcam esta primeira volta, assim como o desaparecimento do partido de Emmanuel Macron, como explicou Victor Pereira, investigador principal no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em entrevista à RFI. "Assistimos ao quase desaparecimento do partido de Emmanuel Macron. Isto é, o centro à volta do Presidente da República quase não ganhou nenhumas cidades e as pessoas que estão nesse campo e conseguiram ter resultados é porque já traziam bons resultados antes. Outro ponto importante são os dois extremos. A extrema-direita, a União Nacional, consegue guardar várias cidades. O caso mais evidente é em Perpinhã, com Louis Aliot, que ganhou logo na primeira volta. Então a extrema-direita guarda as suas câmaras — o que não tinha sido o caso nos anos 90, por exemplo — e consegue ampliar os bons resultados, sobretudo no sudeste. Uma das principais surpresas do voto foi o resultado da França Insubmissa, que consegue bons resultados no norte da França; provavelmente vai ganhar Roubaix, tem um bom resultado em Lille e ganhou Saint-Denis, junto a Paris", detalhou o académico. Até terça-feira à noite, as listas com mais de 10% que passaram para a segunda volta vão tentar criar alianças ou desistir em prol umas das outras, de forma a afinar o escrutínio de dia 22. Com várias eleições onde passaram quatro, cinco ou até seis candidatos diferentes, todas as possibilidades estão em cima da mesa. "Vai haver vários casos. Nalguns casos, pessoas do mesmo campo político, seja esquerda, direita ou centro, talvez não vão encontrar soluções e vão manter-se. Na segunda volta não é preciso ter a maioria, é só preciso ficar à frente. Noutros casos, onde os candidatos se podiam manter, vão desistir para não permitir que o outro campo, direita ou esquerda, ganhe, e isso vai acontecer em vários sítios. Há ainda um terceiro caso, mais complicado, até porque há uma certa polarização, que é o caso das fusões. Isto é, de duas listas fundirem-se numa só. E isso implica negociações. Implica, às vezes, o sentimento de diluir os seus princípios e os valores", explicou Victor Pereira. Estas eleições autárquicas permitem já fazer algumas reflexões sobre as eleições presidenciais que se realizam em 2027. Parece haver um desinteresse dos franceses pela política e, também, o aumento da extrema-direita e da extrema-esquerda mostra já possíveis desfechos para a escolha do próximo Presidente. "Um ponto importante é a taxa de abstenção, que é muito alta, um bocadinho mais de 40%. As eleições municipais eram muitas vezes eleições em que as pessoas iam votar porque são as eleições do quotidiano, as eleições em que se fala do lixo, das ruas, da limpeza, e é bastante raro haver tanta abstenção, fora as últimas eleições por causa da Covid-19. Há um cansaço dos eleitores, que não vão votar e que acham que o voto já não faz assim tanta diferença. Depois, tanto a França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, como a União Nacional, de Marine Le Pen, veem estas eleições como um estímulo, já que conseguem ver os seus bastiões e a França Insubmissa vai ganhando cidades. Por outro lado, os candidatos mais centrais, mais moderados, parecem não conseguir ter bons resultados", concluiu.

    Guerra no Médio Oriente gera "uma outra crise petrolífera muito parecida aos anos 70"

    Play Episode Listen Later Mar 12, 2026 25:18


    O conflito no Médio Oriente já vai no seu 13° dia sem sinais de abrandar, apesar de Donald Trump ter dito no começo da semana que a "guerra estava prestes a terminar". Em quase duas semanas de ofensiva israelo-americana, fontes oficiais dão conta de mais de 630 mortos no Líbano, enquanto o Irão contabiliza mais de 1.230 mortos. Paralelamente, os países do Golfo registaram dezenas de mortos, Israel, 14 mortos, entre os quais dois militares, e do lado americano, sete soldados foram mortos. Para além do balanço humano, estes 13 dias de guerra tiveram igualmente consequências materiais não só no Irão como também nos países da região, onde Teerão visa as bases militares americanas, aeroportos e infra-estruturas petrolíferas, com o efeito imediato de obrigar os países do Golfo a diminuir de 10 milhões de barris a sua produção diária. O Estreito de Ormuz, por onde passava até agora 20% do comércio mundial de petróleo, está bloqueado pelo Irão. Apesar de Trump prometer retaliações "nunca vistas" se Teerão persistir nesta direcção, as autoridades iranianas garantem que "nenhuma exportação vai transpor" este ponto de passagem, que o mundo "vai ter que se preparar para um barril a 200 Dólares" e que "vai ser impossível fazer baixar o preço do petróleo artificialmente". Uma resposta implícita à iniciativa tomada pela Agência Internacional da Energia, uma entidade que junta 32 países, nomeadamente os Estados Unidos, que acaba de anunciar a sua decisão de colocar no mercado 400 milhões de barris provenientes das suas reservas estratégicas, no intuito de tentar evitar uma explosão dos preços, numa altura em que o barril já ronda os 100 Dólares. Um momento particular aqui analisado por Ivo Sobral, Coordenador de Mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Abu Dhabi. RFI: Ficou surpreendido com este conflito? Ivo Sobral: O Irão, estrategicamente é o país mais importante do Médio Oriente. Sempre foi assim desde o tempo de Alexandre Magno. Historicamente, na Antiguidade, é a passagem entre o Oriente e o Ocidente e o país é zona fulcral, assim como o Iraque. O Iraque antes era uma província do Império Persa. E olhando por esta óptica, o grande Império oriental que é a China tinha fez um acordo estratégico com a República Islâmica do Irão, no valor de 400 biliões de Dólares, um acordo de várias dezenas de anos para cooperação. Ou seja, a China tentou unir o Irão no seu projecto futuro de superpotência mundial, obviamente, accionando uma série de alarmes, particularmente no Pentágono, em Washington. Relativamente à posição estratégica dos Estados Unidos na zona, era uma situação inconfortável também. Existem três factores: o factor número um, a população iraniana, mais que sobejamente, várias vezes tentou libertar-se. Mas a crueldade do Governo da República Islâmica do Irão é quase inimaginável para nós, ocidentais. As informações que eu tenho, tenho ligações bastante grandes, faz cerca de 25 anos que visito o Irão, trabalhei no Irão e operei no Irão e é uma situação que de facto conheço bem. De facto, a população queria modificar o 'status quo' do país. Outra questão é a questão económica pura e dura. O Irão está sem controlo da sua moeda e completamente paralisado, com as pessoas a perderem todas as suas poupanças que arduamente conseguiram pôr de parte para tentar comprar uma casa e sobreviver nesta ditadura. O desemprego é enorme, particularmente nos jovens. Uma fórmula já vista que mais cedo ou mais tarde iria explodir em alguma coisa. RFI: Estávamos a falar da situação económica do Irão. Dá a sensação, no fundo, que o Irão está a jogar tudo por tudo e que, apesar das dificuldades, tinha a sua estratégia bem montada. Ivo Sobral: Sim, era a sobrevivência a todos os custos do regime. Ou seja, vender e basicamente dar como garantia todos os recursos naturais do país, pondo em xeque todas as gerações futuras de cidadãos iranianos. Dando basicamente a exploração do gás e petróleo do Irão, assim como muitos outros contratos multibilionários que iriam ser dados à China, neste caso, em troca de um apoio chinês ao Irão. Portanto, era este o grande negócio. Depois há uma linha vermelha que foi cruzada amplamente, que é a posição do Irão em relação à Rússia. Eu relembro que desde a criação da República Islâmica, a Rússia, em particular a União Soviética, foi um país que era visto com hostilidade pelo Irão. Não nos esqueçamos que o Khomeini, o fundador da República Islâmica do Irão, disse várias vezes que a Rússia era o "outro diabo que tinha que ser abatido". Portanto, o primeiro era os Estados Unidos e a União Soviética era o segundo. Existiu sempre alguma cooperação, particularmente nos anos 90 e a partir do ano 2000 com a Rússia, mas foram sempre contactos superficiais, em que o Irão esteve sempre um pouco à distância da Rússia, apesar de a Rússia tentar sempre atirar o Irão para a sua esfera de cooperação, sem nunca conseguir. Finalmente, foi preciso a guerra da Ucrânia para o Irão cruzar essa meta e apoiar a invasão russa da Ucrânia, com os célebres drones Shahed que agora estão a sobrevoar basicamente todo o Médio Oriente. Foram exportados para a Rússia e as vítimas dos drones iranianos foram e continuam a ser os civis da Ucrânia. Portanto, há aqui uma ligação, um eixo Rússia, Irão e China, que atiraram o Irão para o xadrez estratégico mundial como um alvo. Como dizia Churchill, um "softbelly" (elo fraco) do novo Império russo-chinês. Falando aqui também de questões puramente económicas e interesses estratégicos, o Irão tem uma economia gigantesca, com uma população altamente educada, com níveis de ensino, de engenheiros, médicos, muito superiores até ao Ocidente. Falamos de um país que normalmente fica em segundo ou terceiro lugar em termos de evolução da matemática nas escolas. A nível mundial, normalmente o primeiro é o Japão, depois é a Coreia do Sul e a seguir é o Irão. Portanto, é deste tipo de pessoas que estamos a falar. O Irão tem uma população acima de 90 milhões de pessoas, com todos os investimentos financeiros internacionais completamente congelados há quase 48 anos e um mercado central para o Médio Oriente, central para a Ásia Central e para o próprio subcontinente indiano. Portanto, é uma potencial economia que irá precisar de centenas de milhões de investimento para o futuro e é um país absolutamente crucial para qualquer cooperação internacional, americana e europeia. É uma conjugação de factores que consolidaram provavelmente esta guerra. RFI: Neste momento, fala-se para os Estados Unidos de gastos em 13 dias de mais de 11 biliões de Dólares neste conflito. Mas há também outras consequências, nomeadamente a subida do preço do petróleo e os receios causados pelo facto do Irão estar a bloquear o estreito de Ormuz. Pode durar muito tempo? Ivo Sobral: Eu não creio que irá durar muito tempo, porque é incomportável. Agora, no curto prazo, é óbvio. É uma outra crise petrolífera e muito parecida aos anos 70. Mas existem países que serão mais expostos à crise. A Europa normalmente é mais exposta, assim como países na Ásia, como o Japão, a China. Dos dois lados do Golfo, a China, particularmente, depende do petróleo iraniano. Todo o outro golfo, o Kuwait, os Emirados, a Arábia Saudita, Bahrein, dão o petróleo para, por exemplo, a Coreia do Sul e o Japão, assim como para o Ocidente. A Europa e a Ásia serão os que irão mais sofrer em termos económicos, a curto prazo, deste mesmo bloqueio. Agora o bloqueio, é um bloqueio efectivo do Ormuz? Não. Neste momento é mais uma ameaça, um outro tipo de ameaça terrorista. O Irão não tem meios para efectivar este bloqueio. O que o Irão neste momento usa é uma estratégia de terror. Portanto, existe uma estratégia baseada em mísseis e drones que foi montada há mais de 30 anos. O Irão investiu maciçamente na criação de meios para projectar estrategicamente as suas posições. Um bloqueio, não creio que seja possível. Os Estados Unidos, assim como Israel e outros países não irão deixar que isso aconteça. E depois, estrategicamente, particularmente, os Emirados Árabes Unidos possuem vários 'pipelines' que trazem o petróleo não através do estreito de Ormuz, mas directamente para o Oceano Indico. Uma zona muito perto de Omã, onde exportam o petróleo, sem passar pela posição do controlo de Ormuz. Portanto, é uma maneira de estar ao lado desta zona de Ormuz. Existirão, obviamente perturbações, porque há perturbações vindas também ainda do petróleo russo que está a ser alvo de um boicote internacional e o mercado internacional já estava com algumas fontes de pressão. Esta nova pressão obviamente desequilibra no curto prazo. Agora, no longo prazo, não creio que isso irá acontecer. Esta estratégia foi feita já há algum tempo. Existem reservas energéticas, existem outras fontes energéticas. E se esta guerra tivesse ser feita pelo menos dez anos atrás, seria pior. Neste momento, existem outras fontes alternativas. Obviamente, não ajuda termos a crise russo-ucraniana e uma guerra a ocorrer ao mesmo tempo. Esse facto é o problema. RFI: Em resposta ao facto de os países do Golfo serem obrigados, neste momento a produzir menos e também haver esse problema no Estreito de Ormuz, a Agência Internacional da Energia disponibiliza 400 milhões de barris de petróleo para manter o preço mais ou menos estável. Julga que esta medida pode ser eficaz? Ivo Sobral: No curto prazo, irá ajudar, seguramente para melhorar a situação. Eu recordo que o valor do petróleo estava relativamente há pouco tempo atrás, a menos de 50 Dólares o barril e aqui já se fala talvez em 100 Dólares até ao final desta semana. 100 Dólares ainda é muito abaixo dos preços que nós normalmente pagamos quando tínhamos crises. Eu recordo que quando foi o Iraque, o petróleo chegou a um pico de 150 Dólares cada barril. Ainda é financeiramente barato. Existem também, obviamente, as enormes reservas americanas e depois há aqui um gigante petrolífero que poderia ajudar a equilibrar toda esta situação que é a Venezuela. A Venezuela, neste momento, está ainda sob embargo. Ainda há a possibilidade de explorar outros acordos com o governo vigente, onde o petróleo seria libertado para o mercado. Teria algum impacto limitado, talvez 10%, porque o petróleo venezuelano é ligeiramente diferente do petróleo produzido no Médio Oriente. Existem condicionantes técnicas para a sua refinação, enquanto as refinarias europeias e asiáticas estão mais centralizadas no petróleo do Médio Oriente. Portanto, há aqui uma facilidade para isso. Agora, penso que todas estas reservas a ser libertadas neste momento são reservas que foram de criadas depois da guerra do Iraque e que visam fazer uma espécie de protecção e isolamento relativamente a choques energéticos futuros. E veremos se serão eficientes ou não. 400 milhões de barris não é uma quantidade bastante importante, mas obviamente poderá durar talvez duas semanas. A partir daí, a situação terá que voltar à normalidade. Se não voltar à normalidade, aí o petróleo vai ultrapassar muito mais os 100 Dólares, talvez chegar aos 150. Depende. Tudo o que acontecer nestas próximas duas semanas, como a guerra e como a questão do governo iraniano estará solucionada, que tipo de governo será instaurado, o que é que vai sair de Teerão para o futuro, o que vai acontecer, isto tudo está dependente da guerra. RFI: Tem-se a sensação que os países do Golfo estão relativamente desprotegidos no âmbito deste conflito. Para já, os Estados Unidos não conseguem garantir a segurança dos navios que andam pelo Golfo e designadamente junto do estreito de Ormuz. E durante todas estas ofensivas por parte do Irão contra as diversas monarquias do Golfo, elas tiveram que responder pelos seus próprios meios. Ivo Sobral: Isto era relativamente expectável. Já tinham existido outros ataques no passado por parte das milícias Hutis, pelo menos dois incidentes bastante graves, em que drones Hutis de longo alcance aparentemente foram bombardear a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. E desde que isto aconteceu, estes dois países prepararam-se abundantemente para um conflito futuro em que estes drones iriam vir directamente do Irão. E foi isso que aconteceu. Portanto, em termos estratégicos, em particular os Emirados Árabes Unidos, tem uma série de sistemas antimíssil e anti-drones de várias nacionalidades e sistemas antimísseis Americanos, antiga e nova geração, tem sistemas antimísseis da Coreia do Sul que são bastante eficientes. E temos ainda vários sistemas antiaéreos de origem alemã que são utilizados para garantir uma protecção de médio e curto alcance em zonas específicas e que são também bastante eficientes. São sistemas que protegem fábricas e zonas estratégicas na Ucrânia contra os mesmos drones utilizados pela Rússia. E estes sistemas, por exemplo, existem também nos Emirados. A Arábia Saudita também tem vários sistemas antiaéreos. E a questão é que, obviamente, o Irão, uma vez mais, prova que não é um parceiro recomendável. Eu recordo que estes ataques visaram todos os países do Golfo, inclusive o Qatar, que era visto como um aliado do Irão, assim como Omã. Omã, até há pouco tempo, fazia exercícios militares com a própria República Islâmica do Irão. A Academia Militar de Omã tinha oficiais iranianos que vinham estudar e trabalhar com os seus congéneres e nem sequer Omã e Mascate escaparam aos drones iranianos. Portanto, estes ataques ocorreram em todos os países do Golfo, Omã, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Arábia Saudita, Kuwait, Iraque. Todos os países foram visados unilateralmente por estes ataques iranianos e indiscriminadamente. O Irão, ao início, falou de ataques em zonas onde estão bases americanas. Mas afinal visou aeroportos, shoppings, hotéis. Agora falam em bancos. O que normalmente acontece quer em zonas completamente civis, indiscriminadamente, como tecnicamente, estes mísseis de cruzeiro e drones não têm qualquer precisão e caiem indiscriminadamente em qualquer sítio, inclusive dentro do próprio território iraniano. Por 100 mísseis e drones iranianos, dez caem no próprio território iraniano, o que é impressionante. Portanto, muitos dos países do Golfo já tinham alguma protecção. Eu relembro os números, por exemplo, Israel teve um ataque com por volta de mil drones e mísseis, em particular mísseis balísticos, que são muito mais difíceis de serem detectados. Os Emirados já foram visados por 1800 ataques. Só os Emirados foram ainda mais visados do que Israel. Também houve ataques de várias centenas de drones na Arábia Saudita e no Koweit. Houve também uma tentativa de ataque no Azerbaijão. Portanto, o Irão, nos dez minutos após o seu ministro dos Negócios Estrangeiros dizer que o "Irão é um país que visa a paz e que visa a cooperação com o Golfo para acabar com esta agressão iraniana", dez minutos após este discurso, atacou com drones os Emirados, a Arábia Saudita, o Kuwait e Omã. Portanto, aqui demonstra que o governo islâmico do Irão é uma ameaça regional e internacional. Não só é um absolutamente brutal ao nível medieval, com a sua própria população, como é também um país extremamente perigoso para qualquer dos seus vizinhos mais próximos. Um dos princípios da sua própria Constituição é a destruição de outros Estados, assim como a imposição da sua própria religião em todos os países à volta e chegar, inclusive à própria Europa. Isso está escrito em vários documentos basilares da República Islâmica do Irão desde 47 anos atrás. Portanto, é interessante que os países da Europa continuarão a fazer negócios com o Irão, pensando que os iranianos eram realistas. Mas não são. O governo iraniano é um governo ideologicamente conectado, com uma forma de radicalização islâmica xiita. Muito recentemente, foram descobertos vários detalhes, inclusive em França, e este é um livro bastante conhecido feito pelo chefe dos serviços secretos franceses, que fala especificamente na cooperação entre o governo francês e a República Islâmica do Irão, em termos de perseguição, monitorização de todos os iranianos dentro da França, assim como a Inteligência francesa deixou os membros da República Islâmica do Irão executar, raptar e torturar cidadãos iranianos dentro da França. Isto aconteceu na França e aconteceu noutros países. Há outro país que foi um grande amigo do Irão, no passado, que é a Áustria com a qual houve contratos de cooperação técnica. Os motores actualmente utilizados pelo Irão, que mataram milhares de pessoas na Ucrânia e continuam a matar neste momento em todo o Médio Oriente, foram desenvolvidos na Áustria, foram copiados pela República Islâmica do Irão num projecto de cooperação e são utilizados para fazer puro mal. As suas maiores vítimas são a sua própria população. Um dia, quando o governo cair e nós iremos todos, todos os jornalistas europeus, americanos irão filmar as prisões, serão numa escala gigantesca. Eu lembro-me muito bem que vimos na Síria as salas onde os guardas prisionais eliminavam os restos humanos das pessoas que matavam. Quando nós queremos observar isto, não podemos perceber a escala do puro mal que estará dentro deste país. Continuo a receber contactos, apesar de neste momento a internet não estar bloqueada há várias semanas, mas existe ainda a possibilidade de mandar mensagens a partir dos próprios cartões da Telecom do Irão para fora do país. É uma coisa que eles não conseguiram bloquear. Eu tenho algumas informações secundárias sobre o que está a acontecer no Irão e as pessoas, neste momento, olham para este ataque como um mal necessário. Estão bastante contentes para o futuro, porque se neste momento não existir uma mudança de governo e se Israel e os Estados Unidos perderem esta guerra. A República Islâmica do Irão, irá massacrar ulteriormente à sua própria população. Isto é uma realidade. Falamos das prisões que foram descobertas na Síria. Falamos de dezenas de valas comuns. Na Síria, a população era quase 18 milhões de pessoas. Num país como o Irão, com 90 milhões, com um regime de 47 anos, eu não tenho imaginação suficiente para pensar na mortandade que foi feita no passado e poderá ser feita ainda mais no futuro, se não existir uma mudança de governo.

    "A vida Luminosa" de João Rosas abre Festival de cinema português "Olá Paris"

    Play Episode Listen Later Mar 7, 2026 18:32


    A segunda edição do Festival de cinema português "Olá Paris" decorre até este domingo. A abertura, nesta sexta-feira, contou com a ante estreia de "A vida luminosa", a primeira longa metragem de ficção do cineasta João Rosas, que estreou em Portugal no ano passado. O retrato de um jovem lisboeta, à procura de um lugar ao sol, entre uma ruptura amorosa, e a descoberta de uma jovem cuja luz o vai ajudar a afirmar-se. A RFI esteve no local e falou com a actriz Cécile Matignon, o co produtor François d'Artemare e, obviamente, com o próprio realizador João Rosas que começa por comentar como descobriu Francisco Melo, quando este era apenas um adolescente de 11 anos. O actor não profissional que deu corpo a Nicolau, hoje com 24 anos, e o protagonista de "A vida luminosa" e que vimos crescer, nas três curtas metragens que antecederam esta longa. Descobri-lo foi um acaso, porque quando ele participou no "Entrecampos", ele nem sequer era o protagonista desse filme. Na altura ele tinha 11 anos, portanto era apenas uma criança engraçada. Enfim, como outras que participaram no filme, mas com quem eu me entendia bem. E como eu na altura, depois já estava logo a seguir escrevi o "Maria do Mar", que era sobre um jovem de 13, 14 anos e como protagonista e tinha que estar a trabalhar com o Francisco... Depois decidi continuar a trabalhar com ele e a partir daí é que começou um bocadinho a ganhar forma. A ideia, depois de ser uma história mais longa e de continuá-la noutros filmes. Apesar de lhe dizerem que ele até nem tinha muito jeito para isso, não é ?   Sim, ele próprio o diz. O que é interessante e para mim, fascinante, a um nível puramente pessoal é que de facto, acompanhar o crescimento dele também foi acompanhar o meu próprio crescimento como cineasta e, portanto, ir aprendendo a olhar o mundo através do cinema, construindo o meu próprio olhar, mas também através do olhar do Francisco, ão é ? Portanto, do Francisco/Nicolau que é esta personagem em que todos os filmes ele está em períodos de transição e, portanto, perante o ter que tomar decisões ou descobertas, pequenas descobertas do quotidiano, mas que podem por vezes ter o valor de uma epifania no curso da nossa vida. E, portanto, para este filme foi mais uma vez essa ideia de retratá-lo num período de transição, um bocadinho de no final da juventude, para o que seria o início de uma idade adulta. E como é que essa idade adulta é vista ou vivida pelos jovens de hoje em dia ?   Portanto, até nem é só ele, também há a Mariana também há o Miguel, não é ? Há duas personagens que já acompanha há algum tempo. Mas também há agora aqui a personagens novas. Cécile Matignon, por exemplo, um elenco também internacional. As cenas são muito escritas, pensadas, concebidas. Pode falar-nos do processo de escrita, do guião e depois da rodagem?   Sim, o processo acaba por ser um vai e vem entre o meu trabalho, mais solitário de escrita e, depois de dramaturgia e de preparação, ão é ? Um trabalho de secretária, é um trabalho de diálogo e de partilha com as pessoas que vão entrando no filme ao longo do processo. E, portanto, é um processo muito longo, porque, de facto, eu aproveito também o casting para saciar a minha própria curiosidade por pessoas que quer conhecer, neste caso os jovens, muitos deles estrangeiros, que estão a viver em Lisboa e que mudaram também uma certa maneira de viver em Lisboa. E, portanto, aproveito ao máximo os recursos da produção para estender este casting e saciar a minha própria curiosidade. E depois os ensaios também são um período muito longo em que há, de facto este vai e vem entre o que as pessoas, a voz das pessoas ao ler o texto e a voz que eu quero, depois, também dar aos personagens escrevendo. É por isso é que os filmes são muito escritos. Mas a partir deste trabalho conjunto. Mas claro, pois isto tudo é fixado numa dada altura através dos ensaios, não é? E há muitos ensaios. E, portanto, são muitos escritos, mas escritos muitas vezes a várias mãos, sendo que depois eu tenho de tomar a decisão como um maestro que decide quem é que fala quando, mas respeitando a linguagem e a música de cada um. Neste filme em particular, interessava-me também trabalhar esta ideia dos vários sotaques de portugueses, os estrangeiros. Do Brasil e dentro, mesmo de Portugal, portanto do Sul do Norte, enfim, ter esta riqueza também polifónica de uma língua.   E você também gosta muito de tratar a dúvida. A dúvida, que é uma coisa desorienta muita gente, não é? E o Nicolau está cheio de dúvidas. Tem 24 anos. Gostaria, eventualmente, de ser autónomo, mas não é. Ter um trabalho, ter estabilidade, mas não tem. Também há uma denúncia de uma precariedade que se calhar tomou conta também de Lisboa, a sua cidade ? Sim. Enfim, a precariedade, não é que tenha chegado agora, não é ? Portanto, a precariedade, também já se falava em precariedade quando eu tinha a idade do Nicolau e a vida também já era precária na altura. Agora era uma precariedade talvez menos evidente. E era diferente. Obviamente. Era uma cidade muito diferente, não necessariamente melhor, mas já existia precariedade nessa altura, não é? E, portanto, eu acho que a dúvida que... É introduzida aqui num canto magnífico no início do filme.   Sim, sim, de uma peça do Brecht. Mas eu acho que a dúvida, embora possa ser paralisante, não é ? Porque todos nós provavelmente passámos por isso momentos que temos dúvidas e não conseguimos decidir. E isso paralisa-nos e cria-nos angústia. Mas há também uma dúvida que é um questionamento que faz avançar e como é que nós, através da dúvida, do questionamento, podemos avançar e descobrir coisas ? É, portanto, a dúvida é sempre um caminho para uma descoberta e, portanto, para mim, o próprio fazer o filme e daí também ter começado com esse canto. Para além de espelhar um bocadinho o estado emocional do protagonista do Nicolau, reflecte o próprio processo em que as dúvidas que eu tenho sobre o filme são o que fazem o filme avançar e, portanto, acho que também, hoje em dia, em particular em que vivemos numa época em que há todo um discurso identitário em que apresenta certezas e visões fechadas sobre o mundo... A dúvida, pelo contrário, é porosidade e abertura. E acho que isso é cada vez mais um gesto político que é preciso sublinhar.   Precisamente, falemos um pouco da multiculturalidade. Já no filme anterior, no documentário, você tinha se aproximado e de que maneira, dos operários das obras, naquele estaleiro de um prédio que se veio a tornar um hotel de luxo em Lisboa. Uma Lisboa a mudar a uma velocidade muito rápida. E são pessoas que vêm dos quatro cantos do mundo, nomeadamente de África.   Guiné-Bissau, sim ! Diria que os protagonistas, embora seja um filme plural, portanto, não há propriamente um protagonista. talvez a cidade, mas não é um filme. Portanto, num estaleiro de obra onde há dezenas de trabalhadores e nenhum acaba por ter mais protagonismo que os outros, uma regra um bocadinho de todos são protagonistas por igual nessa ideia de filme coral. Mas é verdade que, em particular, um grupo de trabalhadores da Guiné-Bissau foi aquele do qual eu me senti mais próximo e que, depois, mais uma vez, como neste filme de ficção, perante uma realidade completamente diferente. O filme foi também uma maneira de desenvolver relações de amizade com estas pessoas e o filme foi feito nesse espírito da partilha, do diálogo e não necessariamente de um gesto meu de lançar um olhar sobre este grupo de pessoas, neste caso guineenses, mas de estar tempo com eles. E, portanto, o filme ser feito a partir desse tempo passado em conjunto. No fundo, como este filme de ficção, portanto, a ideia acaba por ser sempre essa. Tanto na ficção como no documentário e o cinema ser uma forma também de passar tempo com as pessoas que eu convido para os filmes ou que a realidade me traz, por acaso e por ser uma forma de relacionamento com a cidade, o próprio cinema.   A vida luminosa pode ser vida do Nicolau, o protagonista, mas é também, de alguma forma, a vida de Lisboa, a capital portuguesa, que é uma personagem de pleno direito, diria eu no seu filme. Você continua apaixonado pelas cidades, pela sua arquitectura e pela maré humana que lá vive, não é ? Sim, eu acho que filmar cidades foi um bocadinho o que me levou a começar a pensar o cinema. Com "Birth of a city" [filme documental de 2009 rodado em Londres].   Sim, mas mesmo como espectador. Lembro-me de, ainda adolescente, ver por acaso, com a minha mãe no cinema, o filme "Caro Diário", do Nanni Moretti. E aliás, até adormeci a meio do filme. Mas [o cinesta iraniano] Kiarostami dizia que alguns dos filmes preferidos dele eram filmes em que ele tinha adormecido. Portanto, ele, no início do filme diz isso ao filmar umas imensas fachadas e bairros de Roma. "Que belo Seria um filme feito apenas com fachadas !" Portanto, eu desde aí isso ficou como uma espécie de mantra que, pela minha própria depois vivência das cidades em que vivi. Tornou-se um fascínio de facto pela vida urbana, não tanto pela arquitectura, embora a arquitectura obviamente também faça parte de uma cidade, mas mais as práticas do quotidiano e, portanto, a vivência quotidiana. E como é que a cidade é um lugar de encontro entre pessoas diferentes? E como é que essa negociação da alteridade ou com a alteridade não é com as pessoas que são diferentes de nós e com quem nós partilhamos o espaço? E como é que as cidades podem ser vistas, pelo menos para mim, como arquivos de histórias, Seja a própria cidade enquanto espaço físico que me dá elementos que me inspiram para escrever as cenas, sejam bairros, ruas, cafés, esquinas, paragens de autocarro ou de metro ou as próprias pessoas, obviamente. Que levam cada uma a sua história pela cidade e que através de viver a cidade, constroem a cidade. E assim me ajudam a construir cada fio.     Cécile Matignon encarna Chloé, jovem francesa instalada em Portugal, cuja energia positiva vai iluminar um Nicolau, algo perdido perante os tantos desafios com que a juventude o confronta. Esta começa por se referir ao gosto desta estreia na sua terra natal, a França, do filme de João Rosas.   Teve o sabor de uma viagem, de uma viagem de volta a uma das minhas casas. E foi um excelente pretexto para voltar a ver os meus amigos e esta cidade que já conhecia há alguns anos. E também de ver quais são as reacções do filme num país que não é lusófono. E ver como é que isto está recebido. E finalmente ver com algumas conversas, já que começamos a ter que essas questões que aparecem no filme finalmente são transversais a outros países também são questões de gerações que partilhamos de um país a outro. Há muito de Chloé em si ?   Há muito de Chloé em mim ? Sim, acho que temos uma energia parecida. Acho que é uma coisa que nos diferencia muito é que eu sou muito mais precária do que Chloé. Porque a Chloé, no filme, é esta pessoa que é menos precária de todos porque vem de fora e tem essa energia de" Pá, vou trabalhar em França e vou viajar e não sei o quê ! Insurge-se contra os preços dos salários em Portugal. E é uma coisa que é muito engraçada. É que no filme digo nunca vou trabalhar por 5 € a hora. E o que faço eu, que fiz e que faço, às vezes, porque a realidade é assim. Mas, ou seja, é engraçado. Essa diferença de "Eu não sou portuguesa, venho de fora, mas fiz a escolha de trabalhar para a cultura portuguesa e para o país português". E então também estou a jogar este jogo dessa precariedade. E finalmente, eu acho que me identifico mais neste aspecto a outras personagens do filme do que à própria Chloé. Mas de resto,  energia e tudo, somos parecidas.   François d'Artemare, presença assídua no cinema português, com Manoel de Oliveira, João Canijo, ou lusófono, como com o guineense Flora Gomes, ou francês, como com Nadine Trintignant, este produtor dos Filmes do Tejo e dos Films de l'Après midi, co-produziu "A vida luminosa". Ele comenta a satisfação desta estreia parisisense no cinema Club de l'étoile com o qual tem tantas ligações.   É um percurso um pouco... tortuoso, não, quase direito... Porque esta estreia aqui no "Clube de l'étoile", quando estava a preparar o filme de Nadine Trintignan em Paris, em 94, até... Era aqui no Club de l'étoile, era com uma produtora francesa que era na época dona do Clube de l'étoile. E o nosso escritório era no Club de l'étoile. Era no prédio ao lado, e passávamos todo o nosso tempo aqui no Clube de l'étoile. Não imaginava nesta época, onde tinha 28 anos, era jovem director de produção que 32 anos depois, já assistia a projecções de filmes que produzi, que co-produzi. Mas não imaginava, nesta época, que eu ia continuar a fazer, a organizar projecções aqui. Estou feliz com isso. Estou feliz de continuar a guardar uma ligação com Portugal. É óbvio que tenho uma ligação com Portugal. O meu filho é português. Depois de viver alguns anos em Barcelona, voltou a viver em Portugal há dois meses atrás. Continuo a ir  aí a Portugal imensas vezes. Mas o facto de continuar a fazer filmes em Portugal e continuar a produzir em Portugal é para mim importante. É uma coisa natural que me permite guardar uma ligação profissional de que gosto. Estava a produzir o filme do João Canijo...   Que entretanto nos deixou...   Que nos deixou agora. Era o quarto filme do João que estava a produzir. Gostava imenso do João e gosto de continuar a ter esta ligação com Portugal. Trabalhou também, penso, obviamente em Flora Gomes. A maior parte dos nossos ouvintes estão precisamente em África e conhecem este cineasta da África Ocidental da Guiné-Bissau. O que é que viu aqui no João Rosas e neste filme para apostar nele? Conheço o João há imenso tempo também. Há 20  anos acho. Eu tinha tinha visto as curtas do João e o documentário do João sobre Lisboa. A morte de uma cidade !    Sim, e gostei imenso do olhar que João tinha sobre os personagens. Nas curtas que ele fez e do olhar que João tinha sobre o personagem da cidade de Lisboa enquanto personagem. No documentário é sobre a evolução da cidade. Vivia esta evolução desde o fim dos anos, um meio dos anos 90 até hoje. Acho que o olhar do João era bastante pertinente e sensível. Sentia isso no guião. E sinto isso no filme dele.  Instantâneos da reportagem da ante estreia parisiense de "A vida luminosa" no âmbito da segunda edição do Festival de cinema português "Olá Paris" que decorre até este domingo, 8 de Março.

    Macky Sall "não é a pessoa certa para representar os interesses africanos” junto da ONU

    Play Episode Listen Later Mar 6, 2026 10:15


    Esta semana, o Burundi, que exerce a presidência rotativa da União Africana, apresentou a candidatura do ex-Presidente senegalês ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Até agora, os Estados africanos ainda não reagiram oficialmente a esta proposta. A candidatura de Macky Sall não conta com o apoio do Senegal, uma vez que o ex-chefe de Estado é acusado pela nova liderança do país de ocultar dados económicos importantes, como a dívida pública. O último mandato do Presidente senegalês ficou ainda marcado por episódios de violência e repressão da população. Régio Conrado, professor de Ciência Política e Direito na Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique, afirma que “Macky Sall não é a pessoa certa para representar os interesses africanos”. Esta semana, o Burundi, que exerce a presidência rotativa da União Africana, apresentou a candidatura do ex-Presidente senegalês ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Que comentário lhe merece esta candidatura? É profundamente complicado que um Presidente que já foi chefe de Estado num país que não o reconhece como candidato oficial -e, portanto, não é apoiado pelas autoridades do seu próprio país -seja apresentado pelo actual presidente da União Africana, o Presidente do Burundi, e não necessariamente pela própria União Africana. Isto já significa que há um duplo problema. Por um lado, há um problema de legitimidade no próprio país de origem, onde foi chefe de Estado. Por outro lado, os restantes chefes de Estado do continente africano ainda não se pronunciaram sobre o assunto, o que mostra que esta é uma iniciativa particular do Presidente do Burundi. É muito provavelmente uma má iniciativa e Macky Sall está, provavelmente, à procura de uma saída internacional, talvez para escapar a eventuais responsabilizações que possam recair sobre ele, não só no plano interno do país, mas também como uma forma de sobrevivência política através de dinâmicas internacionais. O antigo chefe de Estado do Senegal é a pessoa certa para representar o continente africano nos fóruns internacionais? Não, ele não é a pessoa certa para representar os interesses africanos. Quando esteve na presidência do Senegal e mesmo na presidência rotativa da União Africana, esteve muito mais ligado aos interesses franceses, funcionando quase como um dispositivo operativo -um cipaio, digamos -não dos interesses africanos, mas sobretudo dos interesses franceses e, por consequência, dos interesses europeus. Não é uma figura que, no continente africano, possa ser vista como a mais razoável para ocupar este lugar neste momento. Precisamos de uma figura pan-africana, com uma percepção de independência profundamente entranhada. Alguém que tenha uma visão de África fora das relações de subordinação ou de neocolonialismo com o Ocidente. Portanto, uma figura que congregue e agregue respeitabilidade no plano da defesa dos interesses africanos. E quem poderia ser essa pessoa? A actual Presidente da Tanzânia poderia, provavelmente, sugerir alguém da sua máxima confiança para representar os interesses africanos. Temos também Carlos Lopes, que é uma grande figura no continente africano e que tem estado sempre na linha da frente da defesa dos interesses africanos. Para além da sua carreira académica, é uma figura que já trabalhou com vários secretários-gerais das Nações Unidas e que tem uma longa experiência dentro das estruturas da organização e da União Africana. É uma figura alinhada com a defesa dos interesses africanos. Carlos Lopes, antigo secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas em África , poderia reunir o consenso dos líderes africanos? Penso que ele tem todo o potencial para reunir muitos consensos. Primeiro, porque não se trata de uma figura amarrada a um determinado país. Mesmo sendo originário da Guiné-Bissau, é uma figura completamente pan-africana. Isso poderia evitar, talvez, algumas clivagens regionais. Agora, também sabemos que os processos de negociação para apresentar uma candidatura são sempre profundamente complexos. E, obviamente, esses processos nem sempre traduzem aquilo que são as verdadeiras convicções de todos os actores envolvidos. África tem reclamado uma maior presença nas diferentes organizações das Nações Unidas. Já houve dois secretários-gerais africanos, Boutros Boutros-Ghali e Kofi Annan. Há possibilidade de o próximo secretário-geral das Nações Unidas ser oriundo do continente africano? Fica muito difícil. O que podemos dizer é que, neste momento, tendo em conta aquilo que África tem defendido -uma maior presença nos diferentes organismos das Nações Unidas, e muito particularmente ao nível do Conselho de Segurança, essa reivindicação faz sentido. Estamos a falar de 54 países e de um continente com uma população que ultrapassa mil milhões de pessoas. É um continente que tem um peso muito profundo e determinante para o futuro do mundo. O problema é que o mundo em que vivemos hoje mostra que várias potências procuram também controlar as Nações Unidas. Até ao momento foram apresentadas duas candidaturas oficiais: a da ex-Presidente chilena Michelle Bachelet e a do responsável da Agência Internacional de Energia Atómica, Rafael Grossi. A Costa Rica também nomeou a ex-Presidente Rebeca Grynspan, mas a candidatura ainda não é oficial. Segundo uma tradição de rotação geográfica, que nem sempre é observada, o cargo estaria agora a ser disputado pela América Latina. Muitos países defendem também que uma mulher deveria ocupar este cargo. A organização está preparada para ter uma mulher na liderança? Neste momento, o continente que está melhor posicionado parece ser a América Latina, onde há quase um consenso generalizado. Grandes potências regionais como o Brasil e a Argentina, bem como outros países que orbitam à volta destas potências, podem ser determinantes para orientar a dinâmica da escolha do próximo secretário-geral. Na minha opinião, mais do que nunca ficou demonstrado que as mulheres têm capacidade para dirigir determinadas agências das Nações Unidas, grandes programas e a diplomacia de alto nível no sistema internacional. Não me parece irrazoável pensar que uma mulher possa reunir consensos para dirigir a organização. Seria também uma forma de chamar a atenção para a necessidade de confiar responsabilidades às mulheres que demonstraram competências, ao longo das suas carreiras, sobretudo quando se trata de figuras que têm estado empenhadas em temas centrais como a paz, o desenvolvimento e outras questões fundamentais da agenda internacional. Relativamente à questão da paz: de que forma o contexto actual, com uma guerra no Médio Oriente e outros conflitos em várias partes do mundo, pode influenciar a escolha do novo secretário-geral da ONU? Está cada vez mais evidente que as Nações Unidas precisam de uma reforma profunda para aprimorar a sua capacidade de resolução dos grandes conflitos. Com a emergência de novos conflitos, marcados pela força física e pela brutalidade nas relações internacionais, assistimos também à erosão do direito internacional e à fragmentação da capacidade das Nações Unidas para resolver problemas complexos. Veja-se, por exemplo, a situação envolvendo o Irão, Israel e os Estados Unidos. Torna-se claro que chegou o momento de repensar a arquitectura das Nações Unidas, a arquitectura do Conselho de Segurança e o próprio sistema internacional de promoção da paz. O que é facto é que, neste momento, as Nações Unidas têm demonstrado limitações profundas - para não dizer fragilidades - na capacidade de conter os conflitos no mundo. Muitos dos conflitos em que a organização interveio continuam por resolver. São os membros do Conselho de Segurança que deverão iniciar o processo de selecção até ao final de Julho, em particular os cinco membros permanentes com poder de veto -Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França - que detêm, na prática, o futuro dos candidatos nas mãos. São conhecidas as divergências actuais. O que se pode esperar desta eleição? A Grã-Bretanha é hoje um país que pesa muito pouco no sistema internacional. Tem pouca capacidade de influenciar o processo. O verdadeiro debate vai acontecer entre as grandes potências. A China e a Rússia estão em confrontação directa com o Ocidente e encontram apoio em vários países do chamado Sul global, como o Brasil e a África do Sul, que são actores importantes. Há também países como o Irão e outros que defendem que não é positivo que haja uma dominação ocidental das instituições internacionais. Estas clivagens já existentes e o agravamento das tensões internacionais -como a situação envolvendo o Irão - vão certamente tornar o processo mais complexo. O que está em jogo nas próximas eleições para secretário-geral das Nações Unidas não é apenas a questão da eficácia, como defende a Grã-Bretanha. O que está em jogo é quem vai influenciar o rumo do sistema internacional nos próximos anos: sobre que bases serão tomadas as decisões, qual será a arquitectura das Nações Unidas e sob que orientação política actuará o próximo secretário-geral. Essas são as grandes questões. Que força terão os países africanos nesta escolha? Hoje não é possível pensar qualquer arquitectura das Nações Unidas sem considerar os 54 países do continente africano. O que será profundamente importante é perceber até que ponto os países africanos conseguirão articular posições comuns. Muitos deles estão hoje mais alinhados com o discurso do chamado Sul global, nomeadamente com posições defendidas pela China, pela Rússia e pelo Brasil, e menos próximos das posições do Ocidente. Infelizmente, há também divisões dentro do próprio continente. Existem países que estão mais alinhados com interesses externos. A Costa do Marfim, por exemplo, mantém uma forte proximidade com a França e, por consequência, com a União Europeia. Há também outros países pequenos que seguem essa linha. Mas há igualmente países com posições fortemente pan-africanas -como a África do Sul, o Quénia, a Tanzânia, Moçambique ou Angola -que podem defender um posicionamento mais autónomo do Sul global. O peso do continente africano dependerá da capacidade de coordenação política entre os seus líderes e da capacidade do presidente da União Africana de construir consensos entre os diferentes países e regiões. Mas tudo começa mal quando um presidente da União Africana decide avançar com uma candidatura sem um consenso mínimo, porque isso revela desde logo um processo de divisão desnecessária.

    António Lobo Antunes: O escritor que “desmontou tudo” e “inventou um estilo próprio”

    Play Episode Listen Later Mar 5, 2026 12:45


    António Lobo Antunes foi um escritor “radical”, revolucionário, que “desmontou tudo” e “inventou um estilo próprio, uma língua sem equivalente". As palavras são de Dominique Nédellec, tradutor em França daquele que foi um dos maiores nomes da literatura portuguesa contemporânea e que morreu, esta quinta-feira, aos 83 anos. Ana Lima, editora e parceira da Livraria Portuguesa & Brasileira, em Paris, explica que António Lobo Antunes é “um dos autores portugueses mais conhecidos em França” e “uma presença em praticamente todas as livrarias francesas”. A morte de António Lobo Antunes, esta quinta-feira, marca o desaparecimento de uma das figuras maiores da literatura portuguesa contemporânea. António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1 de Setembro de 1942, licenciou-se em Medicina em 1969 e especializou-se em Psiquiatria, mas optou pela escrita a tempo inteiro em 1985. Foi aos 37 anos que publicou o seu primeiro romance, “Memória de Elefante”, em 1979, ano em que também lançou “Os Cus de Judas” e iniciou a sua revolução na literatura portuguesa pós-25 de Abril. A guerra colonial atravessou toda a sua obra, a partir da sua passagem por Angola entre 1971 e 1973 ao serviço do Exército colonial como médico. A sua forma de escrever e de explorar a condição humana no que tem de mais “terrível, cómico, ridículo e comovente” percorreu, como “um rio, uma tempestade”, os seus mais de três dezenas de romances, no entender de Dominique Nédellec, tradutor de António Lobo Antunes em França nos últimos quase 15 anos. O tradutor acrescenta que ele foi um escritor “radical”, revolucionário, que “desmontou tudo” e “inventou um estilo próprio, uma língua sem equivalente". “Ele frequentemente dizia que ninguém escrevia como ele, nem sequer ele próprio. Ele desmontou tudo, foi um golpe terrível no estilo normal, habitual, tradicional. Ele inventou um estilo próprio, conseguiu elaborar uma língua sem equivalente", resumiu. Lobo Antunes foi , sem dúvida, “um dos autores portugueses mais conhecidos em França”, sublinha Ana Lima, parceira da Livraria Portuguesa & Brasileira, em Paris, falando em “uma presença em praticamente todas as livrarias francesas, as grandes e as independentes”, ao lado de nomes como Fernando Pessoa e José Saramago. A editora fala de um escritor de “um grande modernismo”, com “um tipo de escrita que é um fluxo de consciência permanente” e “sem compromisso”.   Dominique Nédellec: "Não é todos os dias que se tem a sensação de se traduzir um génio” RFI: O que representa António Lobo Antunes para a literatura portuguesa e mundial contemporânea? Dominique Nédellec, Tradutor de António Lobo Antunes: “O trunfo maior de Lobo Antunes foi este jeito de fazer uma revolução estilística. Ele frequentemente dizia que ninguém escrevia como ele, nem sequer ele próprio. Eu acho que ele desmontou tudo, foi um golpe terrível no estilo normal, habitual, tradicional,  e ele inventou um estilo próprio, uma língua super tensa, uma língua que parece ao mesmo tempo um rio, uma tempestade, que mistura as histórias, que mistura os planos temporários, em que os mortos têm a mesma importância que os vivos, em que os mortos estão sempre a chegar, a falar, a participar na vida dos vivos. Ele conseguiu elaborar uma língua sem equivalente, carregada de sentimentos e da experiência humana no que tem de terrível, de cómico, de ridículo, de comovente. Para mim, o Lobo Antunes é isto tudo.” Como foi traduzir toda esta “experiência humana” no que tem de mais complexo? “É uma experiência única também porque exige um mergulho total na obra dele para ouvir principalmente. São livros que devem ser lidos com o ouvido. É muito sensorial, chama a atenção de todos os sentidos. Então, tentar traduzir a riqueza do estilo dele exige muito tempo, paciência, perseverança também. O paradoxo é que traduzir exige uma lentidão imensa para agenciar todo aquele esquema muito complexo, mas o objectivo final é que a última leitura seja tão fácil e tão fluida e rápida como no original. No dia a dia, eu avanço passo a passo, muito lentamente e só fico contente quando, no final, na altura da última leitura, eu recupero aquela naturalidade, aquela fluidez da mistura que ele consegue e da pungência do estilo dele. É uma tarefa complicada, mas ao mesmo tempo muito gratificante porque não é todos os dias que se tem a sensação de se traduzir um génio.” Dos livros que traduziu de António Lobo Antunes ou da sua obra em geral, qual é aquele que mais o tocou pessoalmente? “Há um que realmente faz a súmula de tudo o que ele sabe fazer e dos temas de predileção do autor. Se calhar seria ‘Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água” porque está lá tudo ao mesmo tempo. Está lá ‘Os Cus de Judas' com o tema da guerra em Angola, o que foi obviamente fundamental para ele, mas é um livro que vai muito mais longe do que ‘Os Cus de Judas'. Tem uma mestria, um domínio total da técnica que ele elaborou ao longo dos anos. Então, para mim é uma soma, realmente é uma obra-prima total e para quem nunca leu o Lobo Antunes está lá tudo com uma virtuosidade ímpar.” António Lobo Antunes fala da guerra colonial e dos seus fantasmas de uma forma muito particular e, também, se calhar, revolucionária. Quer falar-nos sobre sobre esse tema e outros que atravessem a obra dele? “Bom, obviamente é central na vida dele e na obra dele. E, aliás, é possível reparar que são temas que voltaram sempre na cabeça dele e tem imagens ou episódios que se encontram logo em ‘Os Cus de Judas', mas que também se encontram contados nas cartas que enviou para a mulher durante a guerra e que voltam nos últimos livros. Ou seja, na vida toda houve episódios que nunca conseguiu eliminar, que ficaram lá para sempre gravados na cabeça dele, na vida dele, no corpo dele. Ele conseguiu fazer desta matéria-prima traumatizante o motivo de uma obra e através destes temas conseguiu dar uma dimensão diferente daquela tragédia. Este tema alimentou a obra dele, mas também queria salientar que é preciso não limitar a obra do Lobo Antunes à guerra e a Angola. Depois, cada vez mais, ficou longe dos primeiros volumes muito autobiográficos e cada vez mais aprofundou uma pesquisa estilística. Também queria que as pessoas entendessem que há humor, há muito humor na obra dele, humor negro, mas também humor burlesco, há coisas muito divertidas, sem cinismo, humor também leve. Há de tudo, obviamente e também é uma das marcas dele passar de uma coisa leve e engraçada e infantil, pueril até, a uma coisa gravíssima ou negra ou deprimente. É aquela fornalha toda sem equivalente.” Por que é que António Lobo Antunes não teve o Prémio Nobel da Literatura? “Eu acho que, se calhar, porque é demasiado fora das categorias normais, não é liso o suficiente se calhar. É demasiado abrupto, demasiado inclassificável, demasiado exigente com ele próprio. Ele nunca fez nada para facilitar o acesso dos leitores à obra dele. É demasiado radical, se calhar. Se calhar é esta a explicação. Nos últimos anos, foi sempre complicado perceber o raciocínio dos júris do Prémio Nobel, mas não temos de chorar por isso. Até seria uma marca de nobreza porque claro que ele merecia o prémio, mas será que o prémio merecia o Lobo Antunes? Não tenho a certeza porque ele estava acima disto tudo.” Falou na “sensação de traduzir um génio”. E a pessoa? Como é que era António Lobo Antunes? “Também foi uma surpresa para mim porque fui sempre avisado que ele era uma personagem complicada, abrupta, mas comigo foi sempre de uma grande ternura, uma grande generosidade. Acho que ele gostava do meu trabalho e ele repetiu isso várias vezes, em privado, mas também em público e foi sempre um incentivo e uma honra enormes. Eu lembro-me desta ternura, era capaz de dar uma piscadela, um abraço forte e são as imagens que vou lembrar.” Quais foram os livros de Lobo Antunes que traduziu em França? “Eu traduzo-o desde 2011, ou seja, quase 15 anos, e acabo de entregar a décima tradução de Lobo Antunes, que é o ‘Dicionário da linguagem das Flores'. Os nove anteriores fui eu que traduzi. Comecei com ‘O Meu Nome é Legião' e desde então fui eu a traduzi-lo.”   Ana Lima: António Lobo Antunes é “uma presença em praticamente todas as livrarias francesas” RFI: O que representa António Lobo Antunes nas livrarias em França? Ana Lima, Parceira da Librairie Portugaise & Brésilienne: “António Lobo Antunes é, pelo menos em França, um dos autores mais conhecidos do século XX e início do século XXI e talvez o que conseguiu que a literatura portuguesa, com Fernando Pessoa e Saramago, tivesse uma presença em praticamente todas as livrarias francesas, as grandes e as independentes. É um dos autores mais conhecidos portugueses, mesmo se não foi necessariamente lido pelos que o conhecem, e os autores contemporâneos portugueses, também traduzidos em França actualmente, muitos também se reivindicam dele. Portanto, há um contínuo e há uma presença dele bastante importante.” Qual é o ADN que compõe a literatura de António Lobo Antunes que faz dele um dos grandes autores do século XX e XXI? “Antes de mais, foram umas temáticas muito importantes sobre a guerra colonial, sobre o Portugal pós-25 de Abril, sobre uma descrição da sociedade sempre sem compromisso, sempre com uma visão entre ironia e uma visão muito clara que era, às vezes, um bocado feroz e também um tipo de escrita que é um fluxo de consciência permanente, um texto sempre a fluir, que era uma maneira de escrever um bocado nova na literatura portuguesa, que teve um impacto muito grande, um grande modernismo.” Que livros de António Lobo Antunes recomenda? “Desde logo ‘Os Cus de Judas' que foi mesmo um marco na literatura portuguesa, o ‘Fado Alexandrino', ‘O Regresso das Caravelas', ‘A Morte de Carlos Gardel'. Quer dizer, há assim estes que eu pessoalmente gostei muito e que foram importantes para mim. Agora, ele produziu muito, muito. Aconselho a ler tudo, mas se se tiver que ler alguns é ‘Os Cus de Judas', ‘Fado Alexandrino', ‘O Regresso das Caravelas' e talvez ‘A Morte de Carlos Gardel'. Mas isso é a minha escolha.” Por que é que ele nunca chegou a ter o Prémio Nobel da Literatura? “Isso é uma história bastante complicada. O Saramago teve o Prémio Nobel, sabe-se que era um bocado uma competição no prémio entre os dois. O Saramago teve o prémio e foi o primeiro Prémio Nobel de Literatura em língua portuguesa e antes que se desse outro sabíamos que íamos esperar um bocadinho, portanto era uma questão de tempo, o que é uma injustiça porque de língua portuguesa há autores enormes, também brasileiros que não tiveram e que deveriam ter tido.”

    Até onde pode ir a escalada da guerra no Médio Oriente?

    Play Episode Listen Later Mar 4, 2026 13:22


    Hoje é o quinto dia da guerra no Médio Oriente, desencadeada pela ofensiva israelo-americana contra o Irão no sábado. Desde então, morreram mais de mil pessoas nos ataques americanos e israelitas no Irão, de acordo com os media iranianos. Teerão continua a retaliar com ataques sobre alvos americanos nos países do Golfo e em Israel, mas o especialista em Defesa, Rui Vilar, considera que o país está a perder fôlego no contra-ataque, o que poderá levar a “esfriar o conflito”. O analista louvou, ainda, a postura do Presidente francês, Emmanuel Macron, com o anúncio do aumento do arsenal nuclear e descreveu a posição de Espanha como “isolacionista do ponto de vista europeu”. Ao quinto dia da guerra no Médio Oriente, desencadeada pela ofensiva israelo-americana contra o Irão, um conselheiro do antigo líder supremo avisou que o Irão está preparado para continuar a guerra o tempo que for preciso. Porém, o especialista em Defesa Rui Vilar considera que o Irão está a perder força. “Estamos a entrar numa fase crucial para percebermos até que ponto é que a escalada pode ir. O Irão tem reduzido gradualmente, de dia para dia, o envio de mísseis, o que pode significar que está a ficar com pouca disponibilidade e isso vai certamente esfriar o conflito”, analisou Rui Vilar, em entrevista à RFI. Esta quarta-feira, deveria começar - mas foi adiado - o funeral de Ali Khamenei, que liderou o Irão durante 36 anos antes de ser morto no sábado pelos ataques israelitas e norte-americanos. Hoje, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, ameaçou quem quer que o Irão escolha para ser o próximo líder supremo do país,  será "alvo de eliminação". A ameaça não é uma surpresa, sublinha Rui Vilar, acrescentando que “a ausência de lideranças vai também enfraquecer a resposta militar”. “Quem é que quer ser hoje, no Irão, designado como líder, sabendo que ao ser designado fica com um alvo na testa imediatamente e muito provavelmente será bombardeado pelos Estados Unidos? Quem é que, hoje em dia, mesmo no plano militar e de segurança e de informações, quer arriscar no Irão a fazer uma reunião para alinhar estratégias quando sabem que quer os americanos, quer os israelitas têm informações e acompanham dentro do Irão esses encontros?”, questionou Rui Vilar. Interrogado sobre a legitimidade moral e jurídica para “eliminar” o líder de um outro país e onde fica o direito internacional, Rui Vilar lembrou que “o direito internacional infelizmente há muito que tem ficado na gaveta”, pelo que o melhor escudo, nomeadamente para a Europa, neste momento, é a força. Nesse sentido, o especialista louva a postura e as medidas do Presidente francês, Emmanuel Macron. “A Europa tem que perceber que o tabuleiro mudou, o jogo mudou, as regras não são respeitadas como eram até há pouco tempo e, portanto, nós vivemos num mundo em que a lei da força está, de facto, a assumir a regra e é sobre esse tabuleiro que nós temos que jogar. Por isso saúdo, de certa forma, o Presidente Macron, que - apesar de todas as fragilidades internas que tem tido e que nós sabemos que tem tido, mesmo a nível económico - é o único líder europeu que me parece que quer assumir uma posição de força e quer liderar a Europa nesse equilíbrio de forças”, acrescentou Rui Vilar. O chefe de Estado francês fez um discurso de dissuasão nuclear em que anunciou o aumento do arsenal nuclear. Por outro lado, Emmanuel Macron anunciou que França vai enviar reforços militares para o Médio Oriente, incluindo o porta-aviões “Charles de Gaulle”, a sua escolta naval e caças Rafale. Foram também destacados equipamentos de defesa antiaérea adicionais para o Chipre. Posição diametralmente oposta é a de Espanha. O primeiro-ministro Pedro Sánchez disse não à guerra e rejeitou a utilização das suas bases militares, por parte dos EUA, para as operações relacionadas com os ataques ao Irão. Algo que enfureceu Donald Trump que já disse que vai cortar relações comerciais com a Espanha. Por causa das consequências, Rui Vilar olha para a posição espanhola como “um desastre em termos estratégicos” e “isolacionista do ponto de vista europeu”. Questionado se Portugal pode ser considerado cúmplice na agressão ao direito internacional por ter deixado a Base das Lajes, nos Açores,  ser usada pelos Estados Unidos na ofensiva no Irão, o especialista em Defesa diz que Portugal o faz ao abrigo de um acordo e que em termos geestratégicos “nem podia fazer outra coisa” para “proteger as nossas alianças, a nossa Defesa e o nosso interesse estratégico”.

    Médio Oriente: Analista afirma que “não há uma única razão para os ataques ao Irão"

    Play Episode Listen Later Mar 3, 2026 8:59


    No quarto dia do conflito no Médio Oriente, o exército israelita anunciou, esta terça-feira, o envio de forças terrestres para o sul do Líbano, depois de ter confirmado ataques aéreos simultâneos sobre Teerão e Beirute. Face à retaliação iraniana, o Departamento de Estado dos Estados Unidos recomendou a saída do pessoal diplomático não essencial e das respectivas famílias do Iraque, da Jordânia e do Bahrein, como medida de precaução perante o agravamento da situação na região. Em entrevista à RFI, João Henriques, vice-presidente do Observatório do Mundo Islâmico, analisa os objectivos estratégicos em jogo e sustenta que “não há uma única razão para estes ataques ao Irão”. Qual é o objectivo desta guerra? O objectivo desta guerra tem sido dúbio no discurso de Donald Trump. Tem havido diferentes cenários. Poderíamos dizer que o objectivo da guerra foi, até, mais por imposição de Israel: a queda do regime e, naturalmente, no seguimento disso, a criação de condições para que a liderança passasse para uma figura - não vou dizer imposta por Israel ou pelos Estados Unidos - mas para uma figura mais consensual e que alinhasse naturalmente nos propósitos de Israel e dos Estados Unidos. A outra ideia era decapitar completamente o regime, o que não aconteceu, embora ele tenha sido em parte já removido. Estou a falar da liderança iraniana. Mas não há, objectivamente, uma única razão para que estes ataques à República Islâmica do Irão estejam a acontecer. Vimos agora Ali Larijani [secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional] a dizer que não vai ceder a qualquer tipo de reforma. Ali Larijani é o homem com quem Donald Trump poderia negociar, o que leva a pensar que toda esta ofensiva não será capaz de derrubar este regime estruturado e autoritário… Não, não vai acontecer. Porque, se nós verificarmos o perfil dos nomes que são apontados como principais candidatos, o regime teocrático vai manter-se. E nenhum deles vai alinhar com cedências a Israel e aos Estados Unidos. Poderá haver, e há, elementos de uma linha mais branda, mas há determinados pontos que são comuns. Portanto, não há nenhuma cedência aos interesses do Ocidente. São essencialmente interesses de natureza económica e, naturalmente, a preservação de alguma influência política e até securitária na região, que tem estado a ser protagonizada por Israel. Vários Estados, como a Finlândia, a Noruega e a Colômbia, denunciaram um “ataque ilegal”. A Rússia fala em “agressão”. O Senegal condena o uso da força e países como a Suíça, a Irlanda e a Espanha pedem o respeito pelo direito internacional. Os Estados Unidos e Israel falam em “ataques preventivos”. Um ataque destes deveria ter sido lançado com a luz verde do Conselho de Segurança das Nações Unidas? Absolutamente. Este ataque, desde logo, deveria ter sido discutido, votado e eventualmente aprovado no Congresso norte-americano. Isso não aconteceu. A nível macro, as Nações Unidas deveriam ter uma voz activa nesta decisão bilateral, incluindo também Israel. Isto vai, de facto, contra aquilo que são as normas do direito internacional, que não contempla este tipo de intervenção. Trata-se, objectivamente, de uma agressão a um Estado soberano. E a Europa no meio disto tudo? A classe política europeia está dividida. De um lado, há aqueles que afirmam peremptoriamente que esta iniciativa - norte-americana e israelita - faz todo o sentido, porque estão a tentar decapitar as intervenções de um país que é considerado atentatório das liberdades e da paz. E há outros que defendem que tudo isto vai contra aquilo que é o direito internacional instituído e que já deixou de haver regras, porque há um protagonista chamado Donald Trump que decide de sua livre iniciativa, desrespeitando as instituições. O Irão retaliou, atacando não só cidades israelitas e bases norte-americanas, mas também alvos noutros Estados do Golfo, nomeadamente na Arábia Saudita, invocando a legítima defesa. Estes ataques são legais? Aqui volta a haver uma divisão, porque se trata de uma violação da soberania. Mas há o outro lado, que defende a tese iraniana: trata-se de um acto de legítima defesa, porque não estão a atacar a soberania desses países; estão a atacar território - entre aspas - norte-americano que se encontra nesses países. Estou a falar de bases militares que estão nesses países, incluindo Omã, que se disponibilizou para mediar o conflito. E as pessoas perguntam: se Omã está a querer mediar o conflito, porque é atacado? É atacado exactamente porque as forças ocidentais se encontram instaladas nesses territórios. E vai acontecer o mesmo no futuro. Eles vão continuar - estou a falar do Irão e, eventualmente, dos seus aliados, o Hezbollah e, mais a nível regional, os Houthis no Iémen - a atacar as bases norte-americanas. Mas é também uma forma de fazer pressão sobre os Estados Unidos para pararem com a ofensiva? Essa pressão, julgo, não vai ter grande sucesso junto de Donald Trump e, mais ainda, de Benjamin Netanyahu. Os Estados do Golfo poderão também invocar legítima defesa para responder aos ataques iranianos? Não acredito nessa possibilidade. Haverá manifestações públicas de ataque, manifestações de descontentamento e declarações relativas a uma agressão que não deveria ter acontecido, de qualquer maneira. A reacção dos Estados do Golfo perante os ataques iranianos é uma reacção perfeitamente legítima e constitui um motivo de discussão ao nível do direito internacional. O alastramento desta ofensiva já é visível entre Israel e o Líbano. De acordo com o último balanço, os ataques israelitas causaram 52 mortos e mais de 150 feridos. É real o risco de um conflito global? O conflito regional já existe. O risco global não é desejável. E eu, pessoalmente - e muitos analistas - não acreditamos que este conflito se globalize. Até porque, vejamos: o Hezbollah, a partir do Líbano, enviou mísseis para o norte de Israel. A reacção de Telavive é considerada normal e legítima. E isso provocou, de imediato, por parte do Presidente libanês, uma reacção dirigida naturalmente ao Hezbollah, para terminarem com essas agressões. E para entregarem as armas… Exactamente. O Hezbollah vai continuar a ser um apoio para o Irão. Não é crível que estes ataques sejam interrompidos. O Hezbollah vai continuar a atacar território israelita. Ainda sobre o Irão, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta segunda-feira, 2 de Março, que não hesitaria em enviar tropas norte-americanas para o Irão. Donald Trump, que sempre se opôs às guerras, poderá enviar homens para o terreno? Homens para o terreno - como se diz, botas no terreno - é improvável. Até porque os Estados Unidos não estão a confrontar-se com um Estado como a Venezuela. A questão do Irão é bem diversa, muito arriscada e muito perigosa. Para já, porque estão mais preocupados - os Estados Unidos e Israel - em eliminar fisicamente determinadas figuras do que em trazê-las para o seu território para depois serem julgadas. Quais são os impactos desta guerra no Médio Oriente? Impactos económicos? Fala-se já do preço do petróleo, que disparou, e do encerramento do Estreito de Ormuz. A China é o principal país impactado? A China está preocupada, embora ainda não se tenha manifestado de forma contundente, e a Rússia também condenou os ataques. O preço do petróleo já vai na casa dos 100 dólares por barril. O Estreito de Ormuz foi fechado. Todavia, há a possibilidade de haver, por parte dos Estados Unidos, uma acção para eliminar esta intervenção iraniana no Estreito de Ormuz. De qualquer maneira, a China vai contribuir decisivamente para que haja um abrandamento e para que o Estreito de Ormuz seja reaberto. Mas a troco de contrapartidas; terá de ser negociado. A China vai continuar a resolver o problema com a importação de petróleo e gás, mas, naturalmente, vai sofrer as consequências também ao nível dos preços. Esta situação, dentro de dias, começará a fazer-se sentir, com os efeitos do encerramento do Estreito de Ormuz, e estou naturalmente a falar da economia a nível mundial.

    Situação no Médio Oriente: "A maior preocupação é que a guerra se prolongue"

    Play Episode Listen Later Mar 2, 2026 7:58


    Aumento da tensão no Médio Oriente. Esta segunda-feira está em curso, pelo terceiro dia consecutivo, a operação conjunta "Fúria épica". Os Estados Unidos da América e Israel lançaram, no fim-de-semana, um ataque conjunto contra o Irão, numa operação que estava a ser preparada há meses. Washington e Telavive conseguiram eliminar a figura principal do regime iraniano, o aiatola Ali Khamenei, líder supremo do país, bem como vários altos quadros do regime iraniano. Em retaliação, o Irão está a levar a cabo ataques contra vários países da região. Esta manhã, pelo terceiro dia consecutivo, foram ouvidas explosões no Catar. Várias pessoas ficaram feridas e o espaço aéreo continua encerrado. A RFI falou com Vasco Leitão, português a viver há dois anos no Catar. Este jovem, de 32 anos, continua retido em Doha devido à suspensão dos voos. Este português, que trabalha na área da hotelaria, no Catar, explica que estão todos um pouco apreensivos no país e relata-nos qual é o sentimento dominante por estes dias. RFI: Como é que tem vivido os acontecimentos das últimas horas aí no Catar, país que também foi visado por mísseis iranianos? Vasco Leitão: Tem sido uma situação estranha e sempre a evoluir. Eu acho que aqui já tivemos uma situação no ano passado, em junho, quando tivemos também alguns mísseis que foram interceptados, mas desta vez está bastante diferente. Da outra vez, as coisas fecharam, o espaço aéreo fechou. Passado um bocadinho, houve um lançamento dos mísseis, depois voltaram a abrir o espaço aéreo. Foi tudo uma coisa de cerca de 8 horas. Agora, o sentimento de toda a gente aqui é bastante diferente. E especialmente agora, entrando no terceiro dia, em que estamos a ver que só está a piorar e não a melhorar... Estamos todos um bocadinho apreensivos. RFI : E não teve receio de que os estilhaços dos mísseis afectassem a zona onde vive? Vasco Leitão: Não muito. Nós temos visto onde é que têm caído e tem sido tudo muito longe. A base aérea americana também é bastante longe das zonas residenciais, portanto, aqui onde estamos, estamos relativamente protegidos dos estilhaços. Não tem caído nada aqui perto da nossa zona. RFI: Que indicações é que têm recebido por parte das autoridades? Têm sido devidamente acompanhados? Como é que tem funcionado todo este processo? Vasco Leitão: Sim. O Catar é muito, muito organizado e muito avançado na parte digital. Portanto, temos updates (atualizações) quase de 15 em 15 minutos através das redes sociais e dos canais oficiais. Temos também um grupo de WhatsApp com a embaixada onde a embaixada portuguesa vai pondo as atualizações, talvez duas ou três vezes por dia, mas através das redes sociais é bastante fácil estar a par de tudo o que se vai passando. RFI: E o Vasco dizia-me que que já vive aí há dois anos. Já conhece certamente muita gente, já tem muitos amigos aí. Como é que a população está a reagir a tudo isto? Vasco Leitão: Eu acho que calmamente. Acho que aqui no Catar nós estamos habituados a sentirmo-nos seguros e acho que temos todos muita confiança nas autoridades e especialmente na organização do país e, portanto, sabemos que, dentro do possível, é dos melhores sítios para se estar. E aqui eu acho que está tudo muito calmo, está tudo a fazer planos, está tudo a acompanhar as situações e a ver realmente o que é que poderá acontecer porque é muito imprevisível. RFI: E nota alguma diferença na rotina habitual das pessoas? Houve avisos para fazerem compras antecipadas, alguma coisa deste género a acontecer? Vasco Leitão: Não, nada disso. Aliás, o Catar faz o contrário que é anunciar que todos os supermercados e lojas vão estar abertos 24 horas por dia. Anunciaram também que não havia qualquer tipo de problemas na entrada de bens e comida no país e que, portanto, havia stock de tudo para ninguém se preocupar. Referiram que, por precaução, estariam todos os supermercados abertos 24h, portanto, não houve corridas às lojas, não houve corridas aos supermercados. Foi tudo relativamente tranquilo. Nesse sentido, eu consegui perfeitamente ir ao supermercado, comprar água e comprar comida, sem qualquer problema. E as plataformas de entrega em casa também estão a funcionar em pleno. Portanto, não houve assim grande alteração. RFI: O Vasco estava a dizer-me que que a população está a reagir com calma. Sente que existe de alguma forma um sentimento de maior união agora por parte da população, num momento em que estão a enfrentar uma crise como esta e num momento em que o futuro é imprevisível? Vasco Leitão: Eu acho que sim. O Catar é um país pequeno e nós somos todos expatriados aqui, ou quase todos. Portanto, já de si é normal haver este sentido de união porque estamos todos fora do nosso país. Estamos todos aqui. Portanto, acho que nesta altura claro que sim. Tem sido esse o sentimento. RFI : Existe preocupação aí no país, de que a guerra possa prolongar-se e afectar mais directamente a vida no Catar, neste caso Doha? Vasco Leitão: Isso acho que é a maior preocupação, realmente, porque lá está, no ano passado, quando tivemos aqueles pequenos incidentes, foi uma coisa de poucas horas e não gerou grande preocupação. Até as pessoas em Portugal ligavam a perguntar se estava tudo bem. E nós aqui muito, muito tranquilos. Desta vez, apesar de continuarmos tranquilos, acho que há uma preocupação muito maior das proporções que isto pode tomar e especialmente do tempo que pode levar a estar resolvido. O espaço aéreo está fechado. Acho que tudo isso são as maiores preocupações, a esta altura. RFI: O Vasco é português… Não está propriamente habituado a este tipo de situações. Como é que é, enquanto português, está a viver tudo isto num país tão longínquo? Como é que está a reagir a todos estes acontecimentos? Vasco Leitão: É estranho, É uma sensação estranha. O Catar é um país, eu diria, ainda mais seguro que Portugal, até mesmo no dia-a-dia. Eu deixo o carro destrancado com as chaves lá dentro à porta de casa, portanto, estamos habituados a uma sensação super, super segura aqui. E é muito estranho ver isto tudo a acontecer. Portanto, claro que sendo português e especialmente estando aqui num dos países mais seguros, esta sensação de insegurança é um sentimento que não estamos habituados a sentir. Portanto, estamos a ver as notícias. Estamos a acompanhar, a olhar lá para fora. É uma sensação mais estranha do que outra coisa qualquer. RFI: Tem receio que, no fundo, as defesas antiaéreas não funcionem de forma devida e que caia eventualmente algum míssil perto do local onde está? Há este receio vincado por estes dias? Vasco Leitão: Eu acho que pouco porque temos todos muita confiança na preparação do governo e na organização que o país tem. E até agora temos tido provas dadas de que todas as defesas estão a funcionar e todos os mísseis têm sido interceptados. Portanto, eu acho que não. Ainda não temos essa preocupação. Talvez porque ainda não aconteceu ou porque talvez ainda nos queiramos manter optimistas. Mas não sinto isso, nem sinto que as pessoas aqui estão com essa preocupação. Lá está, as plataformas de entrega de comida em casa continuam a funcionar. Há carros na estrada. Eu acho que há alguma confiança de que a defesa funciona. RFI: Existe, portanto, alguma normalidade também perante o caos... Eu sei, Vasco que tinha um voo para Portugal, que tem sido consecutivamente anulado. Pergunto-lhe se pensa voltar para Portugal, de forma definitiva, depois deste aumento da tensão agora nessa região do mundo? Vasco Leitão: Para já, penso em ir ter com a minha mulher, que felizmente já está em Portugal para passar o tempo de férias que já tinha programado antes disto tudo começar. Depois, vamos ver como é que a situação evolui. RFI: Quais são as expectativas agora para o futuro? Há alguns relatos de que esta guerra, que estes ataques possam durar alguns dias. Crê que a situação se poderá resolver em breve? Vasco Leitão: Não sei realmente o que esperar. É tudo muito imprevisível. Os líderes de um dos lados mudaram. Portanto, tudo o que se possa prever agora são só suposições. Eu acho que só o tempo nos dirá.

    EUA: Discurso de Trump “bate recordes no número de mentiras”

    Play Episode Listen Later Feb 27, 2026 8:04


    O Presidente dos Estados Unidos pronunciou esta semana o discurso sobre o Estado da União. Donald Trump descreveu um país dinâmico, destacando o aumento da produção económica, a redução da inflação e vangloriando-se da política migratória. No entanto, o fact-checking -a verificação de factos- revela que muitas das afirmações não correspondem à realidade, como explicou à RFI o especialista português em política internacional Germano Almeida, sublinhando que este discurso “é um insulto à inteligência dos americanos”. Que análise se pode fazer do discurso de Donald Trump? É um discurso que é um insulto à inteligência dos americanos. É o pior discurso sobre o Estado da União que ouvi até hoje. É um discurso que aumenta os receios de um progressivo autoritarismo de Donald Trump e que, pela sua duração, desrespeita também as regras. Quase duas horas -mais do dobro do normal, o triplo de muitos outros discursos- batendo recordes no número de mentiras. Um chorrilho de mentiras a apresentar uma realidade alternativa. Dizer que herdou uma economia estagnada e que agora está muito boa, quando o crescimento económico com Trump está a cerca de metade do que era com Biden; dizer que a questão da inflacção está resolvida quando não está; voltar ao fantasma da fraude eleitoral, quando não há qualquer evidência nesse sentido. Já antecipando uma derrota nas intercalares, mostra um desrespeito pelos adversários. É alguém que, como tenho dito e escrito, não tem dimensão para ser Presidente dos Estados Unidos, embora os eleitores americanos, há um ano, o tenham querido reconduzir à Casa Branca. Tem legitimidade democrática, mas, na minha opinião, não tem dimensão para o cargo. O slogan da campanha de Trump, “Make America Great Again”, prometia, entre outros aspectos, aumentar o poder de compra dos americanos. Essa promessa tornou-se realidade? Decretam pela palavra que a questão da affordability, da sustentabilidade e do poder de compra, está resolvida. Não está. A instabilidade da política tarifária -que o Supremo considerou ilegal- já antes era marcada por avanços e recuos constantes de Trump relativamente às tarifas. Isso gera instabilidade nos mercados e nas empresas, que não sabem com o que podem contar. Tem sido um factor para que a inflação não se resolva. Não é o único, mas é um deles. Depois há a questão da imigração. Em 2025, foi registado, pela primeira vez desde 1935, um saldo migratório negativo: saíram mais pessoas dos Estados Unidos do que entraram, numa economia que está em crescimento constante e que precisa de mão-de-obra. A perda rápida de imigrantes, nomeadamente em alguns Estados, gera perdas económicas por duas razões: pela falta de mão-de-obra, que cria dificuldades às empresas, e pela quebra no consumo. Os imigrantes são também consumidores. Ainda relativamente à política de imigração e à actuação das autoridades, têm surgido críticas junto da população e até no seio dos republicanos. Há estudos que mostram que 77% dos americanos defendem que as acções do ICE devem ser realizadas com mandado judicial, e apenas cerca de 20% apoiam acções sem qualquer mandado. Mesmo quem defende deportações em massa não defende que indivíduos mascarados, nas ruas dos Estados Unidos, abordem pessoas, as detenham ou usem força excessiva. A morte de dois cidadãos americanos prejudicou a imagem do país? Isso não foi referido por Trump no discurso do Estado da União. Dois cidadãos americanos, que não constituíam qualquer perigo para a ordem pública ou para os agentes envolvidos, foram mortos nas ruas de Minneapolis. É de enorme gravidade. Já aqui falámos das taxas alfandegárias, apresentadas como mecanismo para aumentar o poder de compra. O Supremo Tribunal considerou várias dessas taxas ilegais. Ainda assim, Trump avançou com novas tarifas de 15% para todos os países. Nada parece travar o Presidente. Essas taxas são utilizadas como forma de pressão da política externa? Donald Trump usa as tarifas como instrumento de pressão geopolítica. O Supremo foi muito claro: o Poder Executivo não tem poder tributário. Está escrito no acórdão. O tribunal considerou a grande maioria das tarifas ilegais, especificando as excepções. Levanta-se agora a questão, colocada pelos democratas e por algumas empresas, de um eventual reembolso do que foi pago indevidamente. Não me parece que isso venha a acontecer, mas veremos. Trump insiste numa política de tarifas que considero uma aberração, mas tem legitimidade política para a defender. Em termos de política externa, Donald Trump afirmou que -desde que regressou ao poder- acabou com oito conflitos e falou do Irão, um discurso ambíguo entre ameaças e acordos. Os Estados Unidos podem atacar o Irão? Os Estados Unidos vão atacar o Irão. Não tenho qualquer dúvida, tendo em conta o grau de envolvimento militar actual na região. Noutro contexto, com outro tipo de alianças, poderia discutir-se, tendo em conta o regime actual e o risco do programa nuclear iraniano, que é real. Mas os Estados Unidos estão a agir praticamente sozinhos, contra a opinião de aliados regionais como a Arábia Saudita, a Turquia, o Qatar ou os Emirados Árabes Unidos. Há outra contradição: Trump rompeu, em 2018, o acordo nuclear negociado por Barack Obama, que estava a funcionar, classificando-o como “a pior coisa de sempre”, e agora pretende usar poder militar para forçar o Irão a aceitar um acordo semelhante. Historicamente, os segundos mandatos tendem a privilegiar a política externa. É assim que se explica este intervencionismo -Groenelândia, Venezuela, Irão? Há uma tendência para tentar racionalizar o que não é racional. Não vejo essa racionalidade. Trump dizia ser o Presidente que não fazia guerras. Mas Trump, como tenho escrito, não é para levar a sério. Está cada vez pior. Há sinais de decadência cognitiva e de crescente autoritarismo. A base “MAGA” acreditava que tinha terminado a fase do intervencionismo americano. Mas Trump entusiasma-se com o poder militar. O Irão não é a Venezuela. É um país muito maior, mais distante, com mais capacidade. Sabe-se como uma intervenção militar pode começar; não se sabe como pode terminar. No discurso, Trump procurou preparar o terreno para as eleições intercalares de Novembro. A popularidade do Presidente dos Estados Unidos está em mínimos. Há risco de implosão numa sociedade tão polarizada? As eleições de Novembro podem funcionar como estabilizador, se os americanos, pelo voto, sinalizarem que esta administração está a falhar. Todavia, antecipando uma eventual derrota, Donald Trump e vários senadores republicanos já começam a falar de fraude eleitoral. Nos Estados Unidos, as eleições intercalares envolvem 50 sistemas estaduais distintos. A narrativa será focar os Estados competitivos com administração democrata e alegar irregularidades nesses casos. Não falarão de todos. Nos Estados claramente republicanos, presumem controlo. Há ainda medidas preocupantes, como cortes em programas federais em Estados governados por democratas, numa lógica de retaliação política. Isto é de enorme gravidade e coloca em causa a coesão federal.

    Angola: “Quem detém o poder está mais preocupado com o património do que com a vida do cidadão”

    Play Episode Listen Later Feb 25, 2026 8:12


    A liberdade de expressão, a participação cívica e política e os direitos humanos estão a ser cada vez mais reprimidos em Angola. As conclusões constam do relatório semestral das organizações não-governamentais Movimento Cívico MUDEI, Associação Handeka e Mizangala Tu Yenu Kupolo, que acusam as forças de segurança de acções ilegais -nomeadamente em Julho de 2025, durante a greve dos táxis, marcada por episódios de violência que provocaram 22 mortos, incluindo três menores. Em entrevista à RFI, Jaime Mussinda, jurista do MUDEI, afirma que quem detém o poder em Angola nada faz para levar justiça às vítimas destas atrocidades. Quais são as conclusões deste relatório? O relatório do Movimento Cívico MUDEI, agora tornado público, visa apresentar as violações sistemáticas de direitos humanos que ocorreram, sobretudo com maior incidência, nos dias 27, 28 e 29 de Julho de 2025. No entanto, trata-se de um relatório semestral, no qual conseguimos compilar todos os tipos de atrocidades e violações ocorridas nos primeiros seis meses do ano de 2025. No país, continua o encerramento do espaço cívico e as liberdades estão cada vez mais reprimidas. A participação cívica, política e até cultural continua a ser problemática. Registamos, com preocupação, um crescimento gritante das violações de direitos humanos. Em cada relatório apresentamos recomendações e documentamos as vítimas. Mas, pelo que parece, quem detém o poder político e os órgãos que deveriam auxiliar na investigação destas violações pouco ou nada fazem. A repressão não se limita apenas aos activistas. Quem são as vítimas destas práticas repressivas, tendo em conta que falam em 22 mortos, incluindo três menores? As vítimas desta brutalidade policial são cidadãos que podem ser activistas, jornalistas ou moto-taxistas. Vimos crianças serem executadas, sobretudo na província da Huíla. Vimos também uma mãe que saiu de casa à procura do filho, que se encontrava na rua, e que foi alvejada pelas costas. As vítimas desta brutalidade policial são todos os cidadãos que, em algum momento, se sintam encurralados ao exercer o seu direito de circulação. As organizações não-governamentais criticam a actuação das forças de segurança e, passo a citar, “frequentemente à margem da lei, revelando um padrão de impunidade e de instrumentalização do aparelho de Estado para fins de controlo social e silenciamento de vozes críticas”. Qual é a responsabilidade do aparelho de Estado nestas práticas violentas? Nos termos da Constituição da República de Angola e da legislação em vigor, a polícia tem como missão manter a ordem e a tranquilidade públicas e proteger o cidadão. Os serviços de investigação criminal, nos termos dos estatutos orgânicos do Ministério do Interior, têm como finalidade a investigação do crime. No entanto, infelizmente, as organizações não-governamentais em Angola, apesar de demonstrarem vontade de investigar e apurar os factos relativos a cada violação de direitos humanos, não têm tido essa possibilidade. São reprimidas e rotuladas. Os relatórios trimestrais e sequenciais que temos publicado são, de certo modo, actos de resistência. Mas quem investiga, neste caso, o agente da polícia que alvejou uma senhora que carregava o filho? É a própria polícia.... Qual é a resposta do Governo angolano a estes relatórios? O Governo angolano nunca respondeu. Temos dito que os nossos relatórios são lidos em França, em Inglaterra, em Portugal e noutras partes do mundo, mas nunca fomos ouvidos ou levados em consideração pelos órgãos de direito em Angola. Pediram para ser recebidos pelas autoridades angolanas? Não. Utilizamos os canais de comunicação que chegam à Índia, à América e à Europa, e temos plena certeza de que esses mesmos canais chegam ao Palácio da Justiça e ao ministro da Justiça. Contudo, estamos a falar de um ministro que é um órgão político e não uma entidade equidistante de quem detém o poder. Sempre que as violações de direitos humanos tenham como pano de fundo a protecção de quem detém o poder político, não podemos esperar imparcialidade de um ministro político, sobretudo quando não dispomos de instituições verdadeiramente independentes. Após aquelas atrocidades [a greve dos táxis que ocorreu em Julho de 2025] o Governo angolano disponibilizou 500 mil milhões de kwanzas para reparar os supermercados que tinham sido vandalizados nesse período. Todavia, até ao momento, nenhuma das vítimas mortais foi indemnizada. Quem detém o poder político parece mais preocupado com bens patrimoniais e recursos do que com a vida e a dignidade do cidadão. A seu ver, o que revela este silêncio dos responsáveis? Revela falta de compromisso com a nação e com a dignidade da pessoa humana. Não há outra explicação. Temos o caso de uma menina de 13 anos que foi alvejada e perdeu a sensibilidade nos membros inferiores. Até hoje, não teve assistência médica, nem medicamentosa adequada num hospital público. Foi necessário que activistas cívicos e cidadãos comuns se solidarizassem para comprar uma cadeira de rodas, garantindo-lhe o mínimo de condições. Foram membros do Movimento Cívico Mulheres que tiveram de a levar para um hospital noutra província, fora de Luanda, porque, sempre que recorriam a hospitais em Luanda, enfrentavam situações de tratamento indigno, como se a menina fosse uma vândala. Trata-se de uma criança de 13 anos que estava no local errado, à hora errada. É uma criança. Quais são as recomendações deste relatório? Pedimos uma investigação clara e aprofundada, despida de qualquer interferência política, sobre as violações de direitos humanos referidas no relatório. Exigimos igualmente a responsabilização criminal e civil dos agentes que alvejaram cidadãos indefesos. Pedem o reforço das garantias processuais e o respeito pelos direitos fundamentais… Certamente. Defendemos a responsabilização dos agentes envolvidos, desde o comandante-geral da Polícia ao ministro do Interior e, inclusivamente, ao comandante-em-chefe. Queremos também a responsabilização dos meios de comunicação social públicos que difundiram informações falsas antes, durante e depois destas atrocidades ocorridas em Julho 2025. Exigem ainda a libertação dos detidos arbitrariamente. Está marcada para o dia 28 de Março uma manifestação para protestar contra a prisão de Serrote de Oliveira, conhecido como "General Nila", André Miranda, e de Osvaldo Caholo. O que se pode esperar dessa manifestação? Vamos exigir a libertação do companheiro BuKa, que se encontra detido, acusado de terrorismo sem que tenha sido apresentada qualquer prova. O mesmo sucede com Osvaldo Caholo, detido por ter divulgado um vídeo nas redes sociais antes de uma manifestação em Junho de 2025. Até ao momento, não foi julgado. Há também o caso do "general Nila", Serrote de Oliveira; que, no dia da manifestação, saiu para filmar um acto que decorria na comunidade. Ele está impedido de ver a família ou um advogado… Os contactos estão severamente limitados. Embora residam em Luanda, foram colocados numa penitenciária de Calombololoca, na província de Ícolo e Bengo. Há múltiplas violações de direitos num único acto. Mesmo quando um indivíduo está detido, o único direito que lhe é retirado é o direito de circulação -o direito de ir e vir. Todos os demais direitos fundamentais: direito à vida, à integridade, ao lazer e ao contacto com a família e com os seus representantes legais devem ser mantidos. Não se compreende como é possível negar-lhes o contacto com advogados e familiares. É isto que está a mobilizar a sociedade a sair à rua para exigir, no mínimo, a libertação imediata e a responsabilização daqueles que desencadearam estas acções ou que pretendem encarcerar cidadãos por criticarem ou se oporem ao modus vivendi e operandi do poder. A RFI tentou contactar o ministro da Justiça de Angola, Marcy Lopes, para reagir às conclusões deste relatório, mas, até ao momento, não obteve resposta.

    Ucranianos pedem "paz justa" para o fim da invasão da Rússia

    Play Episode Listen Later Feb 23, 2026 8:46


    A Ucrânia foi invadida há quatro anos pela Rússia e, até agora, qualquer esforço internacional para um cessar-fogo foi infrutífero. Os ucranianos defendem "uma paz justa", ou seja, sem cedência de territórios a Moscovo e a continuidade do apoio Ocidental para travar os avanços de Vladimir Putin. Quatro anos após o início da invasão russa da Ucrânia, os ucranianos em todo o Mundo pedem "uma paz justa" para selar o conflito no seu país de origem que já matou pelo menos 15 mil civis ucranianos e terá dizimado quase 500 mil soldados dos dois lados do conflito, tornando esta guerra na mais sangrenta em solo europeu após a II Guerra Mundial. Alguns dias depois de uma ronda de negociações moderadas pelos Estados Unidos que não chegou a um cessar fogo, os ucranianos prometem não ceder território a Moscovo, com o Presidente Volodymyr Zelensky a dizer mesmo que os seus soldados retomaram nas últimas semanas mais de 300 km2 em posse dos russos.  Para Pavlo Sadokha, líder da comunidade ucraniana em Portugal, esta guerra só pode acabar com uma vitória da ucraniana e com o apoio do Ocidente para travar as tendências imperialistas de Vladimir Putin. "Uma paz justa significa para nós que não vamos ser obrigados a ceder a todas as exigências que quer Putin para acabar a guerra. Na verdade, ninguém sabe o que quer Putin, porque ele disse uma vez que se limita a ceder os territórios de Donbass e Donetsk. Outra vez ele diz que quer Odessa e outros outros territórios. E Trump, que disse no ano passado que conseguiria terminar esta guerra em 24 horas, está a pressionar a Ucrânia e não a Rússia. Trata-se de uma agressão. Sabemos que não podemos vencer como estas forças que a Ucrânia tem actualmente, como este apoio que Ucrânia tem dos países do Ocidente, mas a nossa proposta sempre foi, pelo menos, o cessar fogo e congelar a linha de frente e ter uma segurança dos países do Ocidente, o que vai dar-nos alguma certeza de que a Rússia não vai, daqui dois anos, atacar outra vez a Ucrânia", disse o activisita ucraniano. Este fim de semana, os ucranianos saíram à rua em 80 países e 600 cidades para reclaram esta paz justa e pedir também mais apoio para a Ucrânia, repetindo à comunidade internacional que a Ucrânia não trave a Rússia, a política expansionista de Putin vai continuar. "Nós queremos continuar a juntar todo o tipo de apoio para ajudar à Ucrânia a vencer esta guerra. Falamos com políticos, organizamos estas manifestações para mobilizar os países do Ocidente, para continuar a ajudar a Ucrânia e fazer ainda mais pressão contra a Rússia, porque nós acreditamos que só uma forte pressão contra Putin, tanto a nível económico como militar, pode parar esta guerra, a única via que vemos para terminar esta guerra", indicou. Mesmo para quem vive fora, o medo é constante pela família e amigos que ainda vivem na Ucrânia, já que os bombardeamentos e combates são constantes. "Os oradores que falaram lá nas nossas manifestações falaram do sofrimento que passam todos os dias, mesmo estando cá em Portugal. Mas todos os dias acordamos com as notícias do que aconteceu na Ucrânia. Se foi bombardeada tal cidade, se os familiares deles ainda estão vivos. Eles estão cá em Portugal e outros países onde foram acolhidos e estão em segurança física. Mas o estado psicológico delas, já no quarto ano de guerra é muito, muito difícil, porque eles vivemos com esta guerra, vivemos com notícias desta guerra. Isto é uma situação muito complicada para todos os ucranianos", concluiu.

    Festival Olá Paris!: "Nova geração de realizadores portugueses não tem medo"

    Play Episode Listen Later Feb 20, 2026 13:09


    O Festival Olá Paris regressa à capital francesa com cinco ante-estreias em sete longas metragens apresentadas ao púlico francês, assim como uma grande tónica dada ao cinema de animação. Nesta edição, que decorre em parceria com o IndieLisboa, vai mostrar-se uma nova geração de realizadores portugueses que não têm medo de abordar temas que fazem tremer a sociedade portuguesa como as drogas, a sexualidade ou o racismo. Nos dias 6, 7 e 8 de Março, o Festival "Olá Paris!" volta à capital francesa com cinco filmes em ante-estreia das sete longas-metragens que vai apresentar, assim como várias curtas metragens de animação. é um momento de partilha do cinema português em França, mas também de promoção dos realizadores, actores e cultura portugueses. Uma primeira edição bem-sucedida no final de 2024, com uma grande troca entre o público e os artistas, fez com que os fundadores e organizadores do festival, Fernando e Wilson Ladeiro, voltassem a organizar uma nova edição do festival. "Um dos pontos importantes do Olá Paris! é não só trazer artistas e realizadores e actores, mas também de permitir, depois do filme, fazer uma conversa entre os artistas e o público. E nós ficámos muito surpreendidos na primeira edição de ver que no final do filme, a sala toda ficava. Ninguém saía. E a conversa continuava. Éramos obrigados a parar porque as pessoas estavam mesmo interessadas. E foi também para os actores e realizadores uma inspiração grande de ver esse público interessado, a fazer perguntas, a analisar o filme e os próprios artistas diziam-nos que para eles foi muito interessante ver a reacção do público. É por isso que vamos continuar também este ano a ter sempre depois do filme encontros com o público", explicou Fernando Ladeiro em entrevista à RFI. Entre os filmes apresentados está "18 buracos para o paraíso", de João Nuno Pinto, "Entroncamento", de Pedro Cabeleira ou ainda "O vento assobiando nas gruas", de Jeanne Waltz, mostrando como os realizadores portugueses abordam actualmente temas como a diferença de classes, o racismo ou o tráfico de droga e as suas consequências. Uma forma "crua" de mostrar a realidade e que interessa aos espectadores franceses. "O cinema, e a cultura em geral, é também político. E o que é interessante no cinema português hoje é que aqui há uns anos não se falava muito de certos assuntos. Tudo o que tinha a ver com a sexualidade, com a droga, com a homossexualidade, não se falava. Eram tabus. E esta nova geração de cineastas portugueses não tem medo de falar ou de apresentar este tipo de tema. E é realmente um ponto interessante do cinema português de hoje. Há uma maneira, às vezes, até brutal de apresentar isto tudo. Mas que é crua, não é. Mas que existe e que é para nós. Aliás, a programação deste ano, comparado ao ano passado, foi uma programação mais clássica, com filmes que já tinham se visto, os realizadores conhecidos confirmados. Este ano também temos, mas aliás, temos mais. Esta nova geração que vem com filmes fortes, com temas assim que não se via muito há uns anos", indicou Fernando Ladeiro. Este ano o festival aposta  no cinema de animação, com uma curta-metragem a ser mostrada antes de cada longa-metragem e o público parisiense vai poder ver "Ice Merchants" de João Gonazalez, "Percebes" de Alexandra Ramires e Laura Gonçalves ou ainda "Entre sombras" de Alice Guimarães e Monica Santos. Haverá também uma masterclass, orientada por Regina Pessoa, em que a realizadora vai explicar o sue processo de criação nos filmes de animação. O "Olá Paris!" decorre este ano em parceria com o Indie Lisboa, festival lisboeta fundado em 2004, e que traz até Paris o filme "A vida luminosa" de João Rosas. Esta é uma parceria que se alinha em termos cinematográficos, mas também de valores, com a intenção de dar maior visibilidade aos dois festivais. "Queremos realmente fazer de Paris uma plataforma dos dois cinemas, dos dois mundos e permitir que eles se conheçam e que possam colaborar. E o facto de estarmos a trabalhar com o Indie Lisboa, para já, em termos de ideologia política corresponde à nossa arena e claro dá maior visibilidade a este evento que não é muito conhecido em França, mas que tem uma boa reputação em Portugal. Para nós foi interessante também lá ir ao Indie Lisboa. O ano passado vimos muitos filmes, escolhemos com eles o filme que vai ser apresentado agora no festival e é uma parceria que vai com certeza desenvolver nos anos que vêm", concluiu Fernando Ladeiro.

    “Ainda temos cárceres mentais de fundamento colonial”, Karyna Gomes

    Play Episode Listen Later Feb 20, 2026 16:00


    Karyna Gomes acaba de lançar o álbum Kantigas di Liberdadi. O novo trabalho discográfico da cantora e compositora da Guiné-Bissau é um testemunho que celebra a liberdade, a história e o amor. Karyna Gomes propõe um resgatar da história que constitui o imaginário colectivo guineense para consolidar o que Amílcar Cabral e companheiros conquistaram. Navegando por ritmos com raízes na música guineense, como o gumbé e a tina, Kantigas di Liberdadi também deixa transparecer o efeito, por exemplo, da rumba, da soul music, da música popular brasileira ou do kompa haitiano. O álbum conta com as participações de Micas Cabral e de Alana Sinkëy e inclui a participação de Dara Haniel, filha de Karina Gomes. Integralmente cantado em kriol da Guiné, Kantigas di Liberdadi foi gravado “live on tape” porque, como diz Karyna Gomes, “a Guiné-Bissau sempre foi de fazer música ao vivo” ... “ e esta é a essência musical dos guineenses”. A RFI falou com a artista na capital portuguesa, Karyna Gomes começa por explicar o que idealizou colocar no novo trabalho e o que este representa na carreira. Karyna Gomes: (Kantigas di Liberdadi) é um trabalho que, para mim, constitui uma grande aventura, na verdade, porque eu sou cantora guineense radicada em Portugal, num universo muito desafiador para artistas que fazem música alternativa, que não fazem música pop, mas que têm uma carreira, graças a Deus, a correr bem, a solo, já há mais de 10 anos. Decidi juntar alguns músicos extraordinários da Guiné-Bissau e de Angola, a minha filha Dara Haniel, de 23 anos, que que também é cantora, e convidar o Micas Cabral e a Alana Sinkëy para se juntarem a mim, num dia, durante 12 horas, e gravar um álbum com 9 faixas. Um álbum que tem a minha essência, um álbum em que eu vou buscar as minhas raízes, mas que também vou-me dar a liberdade de navegar por outros mares, mares esses que fizeram parte da minha vida, da minha formação, falo do Brasil, falo das Antilhas, falo do Congo. Mas também não esquecendo a minha raiz crioula guineense, quando vou resgatar a raiz crioula e a raiz interventiva, quando vou resgatar canções como Titina, que é uma canção que o José Carlos Schwarz escreveu em 1975 e interpretou. Não editou, mas tive acesso à parte de uma bobina gravada num ensaio em Bissau, em que ele canta a música, mas só que a bobina já estava deteriorada e só se conseguiu resgatar a primeira estrofe. Essa primeira estrofe inspirou-me de tal maneira que eu andei 19 anos à procura do resto da canção e só fui conseguir juntá-la em 2024, quando, a convite da Casa da Cultura para o evento Hora di Canta Tchega, que é exactamente um evento de homenagem ao próprio José Carlos, onde eu vou com este quarteto, que depois vou convidar para gravar o disco, descobrir que a canção na verdade é um grande gumbé. Como é que eu vou juntando as peças? Eu vou falando com alguns contemporâneos de José Carlos, nomeadamente Djon Motta, Miguelinho N'Simba, mas quem me vai ajudar mesmo a juntar tudo é o Guto Pires, o cantor guinese Guto Pires, que, gentilmente, cantou para mim o restante da música e eu vou descobrir que na verdade é um grande gumbé. Ou seja, é um resgate daquilo que é nosso, mas também um apelo à história. Porque nós para chegarmos até aqui houve quem deu a sua vida para que nós fôssemos livres e independentes e pudéssemos navegar livremente nesse universo cultural e da música. Portanto, José Carlos é uma pessoa que eu conto sempre homenagear nos meus álbuns. Este não é diferente e foi através dessa visita à história, visita à nossa sonoridade, a passar por caminhos musicais onde já tinha passado, mas que em algum tempo da minha carreira decidi tentar outras sonoridades, mas que também tinha que fazer essa viagem, mas senti a necessidade de voltar às raízes e de resgatar o que é genuíno, o que é orgânico e não electrónico. RFI: O álbum chama-se Kantigas di Liberdadi, porquê este nome quando a independência da Guiné-Bissau já foi conquistada há mais de 50 anos? Karyna Gomes: Porque a descolonização ainda é um processo, um processo contínuo, um processo actual. Porque nós ainda precisamos de descolonizar a nossa mente e porque nós, mesmo nós que somos africanos, que somos guineenses, cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos e que já temos uma nacionalidade, que temos um passaporte, um bilhete de identidade, nós ainda temos cárceres mentais de fundamento colonial de onde nós precisamos nos libertar. Eu acredito que através da cultura e através da música, indo resgatar a história, a história que constituiu a nossa nação, o nosso imaginário colectivo, nós vamos conseguir então mobilizar, continuar a mobilizar essa juventude, esse capital jovem, para que nós possamos consolidar o que Amílcar Cabral e seus companheiros, Zé Carlos e seus companheiros conquistaram durante a luta pela independência. E também, esse disco foi gravado exactamente no ano em que os PALOP, digamos assim, quatro países dos PALOP completam 50 anos de independência e a Guiné completa 52 anos de independência. Isto tudo é simbólico, mas também é necessário, porque eu tenho percebido como artista, mas também como uma pensadora de África, que há uma forte tendência, uma forte corrente de branqueamento da nossa história, a querer apagar a nossa história, a querer minimizar o esforço dos combatentes da liberdade da pátria pela nossa independência. Lugares onde se fala muito da democracia, sem as nossas independências, sem a nossa luta pela independência, não chegaríamos a essa meta da democracia. Eu acho que é muito necessário nós, como artistas, meditarmos sobre. Já dizia Nina Simone, que o verdadeiro artista é aquele que pensa e reflecte o seu tempo. Eu acredito. Aliás, Nina Simone é uma das minhas grandes referências na música e no pensamento. Portanto, eu acho que é um exercício sobre quem somos e também um legado que eu gostaria de deixar para as minhas filhas e para a geração delas. Daí ter convidado a minha filha para participar do disco e a Alana Sinkëy, que é filha do nosso saudoso Bidinte da Silva, que é uma grande cantora guineense, que tem uma estrada brilhante pela frente e que está noutra geografia, ela mora em Madrid, mas tem uma carreira internacional, apadrinhada pelo grande Richard Bona, e eu penso que é dessa maneira que nós conseguimos passar o testemunho para que a história da nossa luta não se apague. RFI: Pode dar-nos um exemplo de como, tendo em conta toda a experiência passada de luta da Guiné-Bissau e depois destes 52 anos de independência, como é que foi traduzido isso? Um tema por exemplo. Karyna Gomes: O tema que eu escrevi para o meu pai, chama-se Djonsa, e é como se eu tivesse a desabafar com ele sobre tudo o que aconteceu depois dele ter desaparecido e também como forma de reconhecimento do que ele simbolizou em vida quando. Numa determinada altura da história, houve um recuo significativo daquilo que era o ideal do Amílcar Cabral, e ele ter escolhido o silêncio como forma de resistência … E depois de ele ter partido, estas coisas continuarem como estão. Portanto, é como se através da minha conversa com o meu saudoso pai, vou relatando a história de antes e de agora. Outros temas, Tufulin, que é um tema que fala sobre o espaço de intimidade entre mulheres no trançar o cabelo, que é um lugar de fala privilegiado entre duas mulheres quando estão uma a pentear o cabelo à outra. Estão a contar histórias, histórias íntimas, histórias sobre várias questões sociais. Isto desde os primórdios foi assim e ainda agora, apesar de ter uma tendência de desaparecer, mas continua a existir essa tradição das mulheres estarem em momentos mais íntimos, trançar cabelo à outra para contar histórias. Eu aproveito para dizer que ainda temos muitas histórias para contar. Temos histórias da nossa luta, temos histórias da resistência, temos histórias das Mandjuandadi, que é a irmandade das mulheres, que depois passa a ser de mulheres e homens, em que vai-se resistir contra um sistema colonial e vai-se criar uma nação forte, forjar-se uma nação forte e unida na diversidade. Portanto, o tema No Brinca também é um tema em que vou falar que, apesar da situação em que o país está, nós não podemos esquecer que nós temos que estar juntos, a partilhar, nos divertir, mesmo porque a vida é curta. Mas não esquecendo que, sim, o país não está bem, as coisas não estão bem, mas vamos nos divertir. E tem o tema do Zé Carlos (Schwarz), que fala da história da Titina. Tem vários outros temas. Há só dois temas aqui que não falam directamente dessa questão da nossa realidade sociocultural e política, mas falam daquilo que nós somos. Por exemplo, há temas mais íntimos relativamente às mulheres e há temas mais direccionados às famílias, mas é um tema só. Portanto, acaba tocando outras coisas, mesmo porque liberdade, para mim, também é a liberdade que eu tenho para expressar sobre outros assuntos e não só aquilo que toca a vida pública. RFI: Como mulher atenta a tudo que se passa na Guiné-Bissau, como é que olha para o actual momento político e social que o país atravessa? Karyna Gomes: É sempre com muita tristeza que eu, de longe, vou chorando pela forma como o povo da Guiné-Bissau tem sido ignorado relativamente ao que escolhe nas urnas, mas isso já vem de muitas décadas para cá. O povo da Guiné-Bissau sempre votou, sempre soube escolher os seus governantes, mas, infelizmente, nunca deixam que a sua vontade prevaleça. É sempre com muita tristeza que eu vejo isso. E é claro que as consequências são sempre muito graves, privilegiando um grupo muito exclusivo de pessoas, que, infelizmente, perderam a sensibilidade em relação ao povo. Mas eu sou aquela pessoa que acredito no perdão, há dias estive a falar sobre isso, porque às vezes as pessoas pensam que estão a fazer bem, mas não estão. Eu acredito que o povo guineense deve continuar resiliente, deve continuar resistente, deve continuar persistente em relação aos seus valores, aos valores que fundamentaram a luta pela sua independência, aos valores que Cabral transmitiu, e os seus companheiros, e continuar a lutar, continuar a lutar com dignidade, porque o povo guineense é um povo digno, um povo batalhador, tem dado mostras disto. Oprimido, triste, com medo, mas sempre ali guardando os seus valores. Eu acredito que dias melhores virão, é continuar agarrado aos seus valores. RFI: Voltando a falar do novo disco da Karyna Gomes, nove temas gravados live on tape, tudo num dia, doze horas seguidas. Porquê esta opção? Karyna Gomes: Porque é o que nós somos musicalmente na Guiné-Bissau e isso está-se a perder. A Guiné-Bissau sempre foi de fazer música ao vivo, música orgânica, música que toca a pele das pessoas, porque vai dentro da alma e não tem jeito de não fazer pele de galinha, como eu costumo dizer. Esta é a essência musical dos guineenses. Eu acho que no mundo em que estamos, faz-se necessário também voltar a ouvir aquilo que a Guiné-Bissau cria como música e eu gostaria de deixar um contributo. Deixar aqui alguma coisa também de homenagem aos nossos pioneiros da música guineense e deixar também um legado para a geração mais nova e perceber que há uma outra forma de fazer música na Guiné-Bissau, mesmo estando num mundo, num universo, de novas tecnologias na música. Mas há uma forma de fazer música na Guiné-Bissau que pode impactar o mundo de uma maneira diferente. RFI: Em relação aos espectáculos, já há agenda de concertos? Karyna Gomes: Sim, já há agenda de concertos. Vai começar agora no dia 10 de Abril, terei um concerto em Bissau, no Centro Cultural Português, em que eu vou apresentar exactamente o álbum e a seguir vou trabalhar aqui em alguns cineteatros em Portugal, e também tenho o Brasil para fazer uma digressão com o disco. Já estamos a preparar a agenda para 2026 e 2027. RFI: França faz parte de uma ideia de onde vir a apresentar este trabalho? Karyna Gomes: Com certeza, França é um sonho e já estamos a trabalhar na agenda para França. Se Deus quiser, brevemente teremos respostas. Línk vídeo “Tufulin”: https://www.youtube.com/watch?v=rTYuh5bJFMw

    ONGs continuam a lutar contra abusos da polícia em Moçambique

    Play Episode Listen Later Feb 19, 2026 14:47


    Duas semanas depois de a Human Rights Watch ter denunciado, no seu relatório anual, a persistência de atropelos aos direitos humanos em Moçambique, ONGs moçambicanas insistem junto da justiça para travar os abusos. O ex-ministro do Interior e o ex-comandante da polícia foram ouvidos pela Procuradoria-Geral da República no âmbito da queixa apresentada pela Plataforma Decide, há mais de um ano, relativa às mortes nos protestos pós-eleitorais. Por outro lado, a 17 de Fevereiro, a ONG Kóxukhuro apresentou, na Procuradoria Provincial de Nampula, duas queixas‑crime contra a polícia. Em Moçambique, o ex-ministro do Interior Pascoal Ronda e o ex-comandante da polícia Bernardino Rafael foram ouvidos, a 17 de Fevereiro, na Procuradoria-Geral da República sobre uma queixa da sociedade civil relativa às mortes, torturas e desaparecimentos nas manifestações que se seguiram às eleições gerais de Outubro de 2024. A acção tinha sido submetida por organizações da sociedade civil, nomeadamente pela Plataforma Decide, que monitoriza os processos eleitorais e que contabilizou 416 mortos nos protestos. O director da Plataforma, Wilker Dias, também foi ouvido na PGR como um dos autores da participação, e recordou à RFI o teor da queixa, lamentando que ainda continuem atropelos aos direitos humanos mais de um ano depois dos megaprotestos que agitaram o país. “Esta queixa faz menção às mortes que decorreram das manifestações, acusando directamente o ex-comandante da polícia Bernardino Rafael, mas também o ex-ministro Pascoal Ronda não só pelas mortes, mas também pelos feridos, principalmente, com recurso a armas de fogo, a balas reais que acabaram colocando algumas pessoas até com a impossibilidade de se locomover. Também entra a questão dos desaparecimentos forçados que decorreram em todo o país, em todas as províncias. Apercebeu-se que foi uma acção coordenada e sem nenhum tipo de repúdio por parte das autoridades policiais e até ministeriais, o que levou a crer que foi tudo premeditado e, por isso, é que se abriu este processo contra esses dois indivíduos”, resumiu Wilker Dias à RFI. O director da Plataforma Decide lembrou que o caso foi submetido pela ONG a 21 de Novembro de 2024 e que segue os trâmites legais. Mais de um ano e meio depois, Wilker Dias alerta que “os atropelos aos direitos humanos continuam”, ainda que não na dimensão verificada nos protestos pós-eleitorais. “Ainda continua infelizmente. Não naquela dimensão porque não estamos numa fase de manifestações, mas se formos olhar numa outra perspectiva, existem atropelos, principalmente na zona Centro e Norte, com mais incidência para a província da Zambézia e depois um pouco lá mais para cima. Os casos mais gritantes que nós temos estado a receber são os casos de Nampula. Nampula tem sido um dos grandes palcos em que a polícia tem cometido diversos desmandos relativamente às questões de direitos humanos, às detenções arbitrárias, à questão da tortura que também é uma realidade, mortes também de forma indiscriminada. Publicámos até, no princípio do ano, um relatório sobre o que é que terá acontecido em Mogovolas, em que até houve a denúncia de populares sobre a existência de uma provável vala comum por tudo aquilo que aconteceu lá. Nós pedimos à Procuradoria Geral da República que se monte uma comissão de inquérito, uma investigação, para que se possa apurar estes factos todos e responsabilizar os polícias que estarão por detrás disso. Também uma das coisas é a pressão e perseguições aos membros da oposição em Moçambique, que continua de forma triste, com maior incidência para o partido Anamola, aos seus membros, aos seus representantes distritais e provinciais ameaçados e, por vezes, também detidos. Isto também vai, de certa forma, colocando em causa todo este processo de diálogo nacional”, acrescentou Wilker Dias. Por sua vez, a ONG Kóxukhuro apresentou, também a 17 de Fevereiro, na Procuradoria Provincial de Nampula, duas queixas‑crime contra a Polícia da República de Moçambique, as quais colocam em causa o comandante da Segunda Esquadra. O activista social e dos direitos humanos Gamito dos Santos, director da associação, descreveu-nos essas queixas e denunciou uma “prática recorrente” de violação dos direitos humanos por parte da polícia, mas alerta que “a sede de fazer justiça fala mais alto que o medo”. “A primeira queixa tem que ver com a detenção e tortura de quatro jovens naturais de Nampula. Alegadamente, um dos jovens teria comprado um telefone roubado, mas ninguém, em nenhum momento, apresentou queixa sobre o telefone. Então, arrombaram a casa dos jovens e de lá começaram a torturar os miúdos até os levarem à Segunda Esquadra. De lá continuaram com a tortura, até que para serem soltos, estes jovens teriam pago valores. A pessoa acusada de comprar o telefone pagou um valor de 80.000 meticais para ser solta. A segunda pessoa pagou 15.000 meticais, a terceira pagou 14.500 e a quarta pagou 7.000 meticais. Este processo começa a ter suspeitas pelo simples facto de que eles não foram apresentados ao procurador, muito menos ao juiz de instrução. Foram capturados pela polícia, torturados pela polícia, a polícia cobrou os valores ilicitamente e a mesma polícia os soltou depois de três dias”, explicou Gamito dos Santos. “A segunda queixa tem que ver com um jovem capturado em casa e levado à Segunda Esquadra por volta das cinco horas de madrugada, mas depois, às 22 horas do dia em que foi capturado, foi tirado das celas para uma parte incerta, de onde teria sido exigido que ele assumisse os crimes de que ele era acusado:um furto. Aliás, estava sendo já torturado psicologicamente para que ele assumisse este furto. Ele não tendo assumido, a polícia levou-o naquela mata e tê-lo-ão baleado no membro inferior direito. Daí levaram o jovem para o Hospital Central de Nampula, onde teria recebido tratamento. Neste momento, está na Primeira Esquadra, já foi legalizada a sua prisão e está a seguir os seus trâmites legais. Então, tendo em conta que a confissão por tortura é crime na República de Moçambique, nós achámos por bem - pelo bem da dignidade humana e o bem dos princípios basilares da da pessoa humana -  processarmos o comandante da Segunda Esquadra”, acrescentou o activista. De acordo com a Deutsche Welle, a polícia negou as acusações, através da porta-voz em Nampula, Rosa Chaúque, que reafirmou que a corporação cumpre à risca as leis moçambicanas. [A RFI tentou obter uma reacção da polícia de Nampula, sem sucesso.] No início de Fevereiro, o relatório da Human Rights Watch sobre a situação dos direitos humanos a nível mundial, em 2025, apontava que, em Moçambique, os direitos humanos foram afectados pela insegurança alimentar, intensificação de ataques terroristas e sequestro de menores em Cabo Delgado, pelos feminicídios, repressão dos protestos pós-eleitorais, sequestros e tentativas de assassínio a jornalistas e activistas sociais.

    Daniel Chapo: “O terrorismo e o clima não se resolvem apenas com bilateralismo”

    Play Episode Listen Later Feb 18, 2026 15:10


    No rescaldo da 39.ª Cimeira da União Africana, o Presidente de Moçambique, Daniel Chapo, fez um balanço “bastante positivo” da liderança angolana da organização, alerta os desafios das mudanças climáticas ao nível do continente e lembra que áfrica tem de se fazer representar no Conselho de Segurança da ONU. RFI Português: Que balanço faz desta 39.ª Cimeira da União Africana? Presidente de Moçambique, Daniel Chapo: Faço uma análise bastante positiva, porque a 39.ª Cimeira da União Africana concentrou-se muito sobre questões relacionadas com infra-estruturas e, sobretudo, a questão da água a nível do continente. Concretamente, sobre a Presidência angolana [da União Africana], faço um balanço bastante positivo, porque o Presidente João Lourenço fez um esforço extraordinário para ver se conseguimos alcançar a paz, por exemplo, no Leste da República Democrática do Congo, para além de várias frentes que abriu para questões de paz e segurança, que é uma das grandes preocupações dos países ao nível do continente africano. Outro aspecto bastante importante está relacionado com os desafios das mudanças climáticas. Todos nós, ao nível do continente, estamos mais solidários. É uma matéria na qual África tem que continuar a se fazer sentir a nível mundial. O outro aspecto bastante importante é assento para o continente africano no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Inclusive, aconteceu uma reunião à margem da cimeira da União Africana, precisamente para preparar uma posição africana em relação ao próximo secretário-geral das Nações Unidas - o mandato de António Guterres termina em Dezembro de 2026. Seria importante que a África estivesse alinhada não só para a corrida ao secretário-geral das Nações Unidas, mas também na representação no Conselho de Segurança? É um ponto extremamente importante para o continente africano. O Presidente João Lourenço fez esse trabalho durante o seu mandato. Nós, como África, conseguimos fazer sentir a nossa voz ao nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Setembro do ano passado, quando estivemos em Nova Iorque. Como países africanos temos que nos organizar para que África também se faça sentir. Achamos que chegou o momento das Nações Unidas fazerem uma reforma, que passa além do secretário-geral das Nações Unidas, pela questão relacionada com o assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A questão dos golpes de Estado é uma temática que há muitos anos assola África e que foi novamente relembrada nesta cimeira, também é uma questão que o preocupa? Preocupa-me bastante e quero elogiar mais uma vez o Presidente João Lourenço, no seu discurso do fim do mandato, deixou de uma forma muito clara e condenou, deixou palavras muito duras e necessárias, de que não podemos normalizar os golpes de Estado ao nível do continente africano. E ultimamente, o que tem acontecido é que as pessoas golpeiam, acontecem golpes e depois nós normalizamos. Portanto, somos países de direito democrático. Temos realizado eleições de cinco em cinco anos e achamos que é extremamente importante, como africanos, continuarmos a respeitar os princípios que regem as nossas constituições dos países, mas também os princípios da União Africana. Os povos africanos têm direito de escolher os seus líderes e continuarem a trabalhar e não haver golpes de Estado. Estou bastante impressionado com a forma como o Presidente João Lourenço condenou e achamos que, como líderes africanos, este caminho que temos que seguir. A água e saneamento são prioridades desta nova presidência rotativa da União Africana. Este é um dossier crítico para África. Especificamente em Moçambique, qual é a situação? É um dossier extremamente crítico não só para Moçambique, mas para todo continente africano. Por uma razão muito simples, o maior desafio que nós temos são as infra-estruturas para a retenção da água, para o tratamento de água para termos água potável e questões relacionadas com o saneamento, que é extremamente importante para evitarmos as doenças. Em Moçambique, concretamente, estamos neste momento a sofrer de cheias e inundações. Tivemos também o ciclone Gezani que afectou, portanto, o país. Foram cerca de 800.000 pessoas deslocadas para os centros de acomodação temporária. Se nós tivéssemos recursos financeiros para a construção de barragens, a construção de vias que possam realmente conter o curso das águas, seria uma grande solução. Mas também quero falar uma coisa muito importante: as mudanças climáticas são uma realidade ao nível do mundo. É uma coisa que eu tenho dito em todos os encontros internacionais ligados às mudanças climáticas e à justiça climática, a justiça ambiental. A questão climática é mundial. Mas Moçambique é um dos países que mais sofre as consequências das alterações climáticas. O seu país ainda não recuperou das inundações e já estava a ser fustigado por um ciclone. Em que ponto é que está a justiça climática que tanto se fala nestas cimeiras? Infelizmente, da palavra à acção ainda falta muito caminho. Eu tenho dito isso em todos os encontros internacionais e como campeão africano para a gestão de desastres a partir da União Africana, também o voltei a fazer sentir essa voz. Se realmente o mundo reconhecesse que a África, em particular Moçambique, não polui quase nada, mas, dada a localização geográfica, sofre ciclicamente de cheias e inundações, ventos ciclónicos, tinha que haver aqui compensação - isso é que seria uma verdadeira justiça climática - para que Moçambique pudesse construir essas infra-estruturas para a gestão das águas, barragens, etc. Temos projectos, temos planos, mas os recursos financeiros que temos neste momento não são suficientes. Se o mundo fosse solidário e percebesse esta questão da justiça climática, poderíamos realmente ter financiamento daqueles que poluem mais para aqueles que poluem menos, como o caso de Moçambique, mas que infelizmente sofrem mais as consequências. Mesmo assim, Moçambique tem evoluído, tem melhorado a nível de sistemas de alerta e a população também já se encontra mais consciente das recomendações, dos alertas das autoridades, porque efectivamente, a nível de mortos, o número tem vindo a diminuir. Sim, sem margem de dúvidas, os números falam. Em 2000, aconteceram as cheias na província de Gaza, que tiveram uma magnitude menor do que estas cheias de 2026, mas tivemos cerca de 700 mortos e mais de 2.000 pessoas desaparecidas. Estas cheias de 2026, tiveram uma magnitude maior do que as 2000 e tivemos um número menor de desaparecidos. E em termos também de mortos, tivemos um número muito menor. Estou a falar de cheias que aconteceram no mesmo espaço, em épocas diferentes. Vamos melhorando cada vez mais e agora tivemos o [ciclone] Gezani. Se não tivesse havido o aviso prévio, se não tivesse havido alerta e as populações não tivessem assumido aquilo as medidas de prevenção para que não houvesse consequências graves, tenho certeza absoluta que o Gezani teria causado danos maiores. Causou danos menores porque a população moçambicana já está em alerta para estas situações e obedece. Ainda temos desafios porque ainda temos populações que, infelizmente, não obedecem. Mas quando comparamos o que acontecia antes e o que acontece hoje em termos de consequência, a situação moçambicana está a melhorar bastante. Eventualmente em Adis Abeba, procurou apoios para a reconstrução do país após inundações e após ciclone, nomeadamente na Cimeira Itália-África? Sim, conseguimos fazer vários contactos a partir da União Africana e a União Africana garantiu-nos que continua a mobilizar recursos, para que haja um apoio na fase de reconstrução. Na cimeira Itália-África, voltamos a agradecer o apoio que temos recebido da União Europeia e dos seus países membros. Nesta fase, as populações estão deslocadas, vão regressando paulatinamente às casas, mas ainda temos os centros de acomodação. Mas temos certeza absoluta que depois vamos precisar reconstruir o país. E os parceiros também responderam positivamente. Neste momento, tanto os parceiros de cooperação internacionais como os nacionais estão a se preparar para podermos trabalhar juntos por forma a reconstruímos o país, depois desta fase em que nos encontramos. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse-se muito preocupado com a situação em Cabo Delgado. Especificamente, que estratégias o seu governo está a adoptar para proteger os civis, para garantir a segurança? E quais são as grandes dificuldades que o governo moçambicano tem para acabar com o terrorismo, com a insurgência naquela região do país? Neste momento, o que posso garantir é que a situação da segurança é relativamente melhor do que estava antes. Digo isto porquê? Porque quando aconteceram os primeiros ataques em 2017, estes homens terroristas chegaram a ocupar várias vilas nos distritos da zona norte da Província de Cabo Delgado. A título de exemplo, a vila de Macomia, a vila de Mocímboa da Praia estavam totalmente ocupadas. Quando digo que está relativamente melhor é porque, neste momento em que estamos a falar, não há nenhuma vila da província de Cabo Delgado que esteja ocupada. As instituições públicas continuam a trabalhar, as populações estão nas vilas, mas têm havido ataques esporádicos dos terroristas, principalmente nas aldeias vizinhas das vilas, ao no nível do distrito de Mocímboa da Praia, distrito de Macomia, é esta que é a grande preocupação. Quando fazem esses ataques esporádicos, tem havido deslocação das populações. Então, quando há um disparo ou um ataque, as populações acabam se deslocando. E, felizmente, mais uma vez temos tido uma grande ajuda das agências das Nações Unidas e outros parceiros continuam e conseguem dar o apoio às populações quando se deslocam. Mas, o país precisa de mais ajuda? Neste momento, temos ajuda da União Europeia, que está a trabalhar connosco. Mas também continuamos a trabalhar com as forças do Ruanda, ao nível do terreno, e as nossas Forças Armadas de Defesa de Moçambique. Agora, no que toca realmente à assistência às populações, nós achamos que as ajudas são sempre necessárias. As agências das Nações Unidas e os parceiros de cooperação estão no terreno, continuam a trabalhar e nós também continuamos a trabalhar, de várias formas, para que possamos encontrar a solução para este assunto do terrorismo em Cabo Delgado. Mas é um assunto complexo. O terrorismo não é um fenómeno só de Moçambique, é um fenómeno global e internacional. À semelhança do que falava no início sobre a justiça climática, se o mundo se apercebesse que o terrorismo é um fenómeno global que tem que ser estancado, nós tínhamos que nos unir como mundo e trabalhar para terminar com esses fenómenos terroristas, à semelhança das mudanças climáticas que afectam todo o mundo, embora com focos de incidência em certos pontos do mundo.   A importância do multilateralismo que tanto se fala nos dias de hoje, com este mundo cada vez mais fragmentado e numa evolução, transformação alucinante. Exactamente. Eu acho que o multilateralismo é extremamente importante, mas, hoje em dia, há quem se concentre só nas questões bilaterais, não está preocupado com o multilateralismo e isto pode perigar o futuro deste planeta Terra. As mudanças climáticas e o terrorismo são fenómenos globais, aos quais não se responde só com situações bilaterais. E podia dar vários outros exemplos que mostram que o multilateralismo é extremamente importante ao nível do planeta Terra, para a resolução de vários desafios que o mundo tem. Vê com preocupação as ameaças que têm sido dirigidas à classe jornalística em Moçambique? Isto preocupa-me bastante. Quando aconteceu o atentado a um jornalista na província de Manica, fiz questão de reagir, logo, a condenar, porque Moçambique é um país de direito democrático, que respeita os direitos humanos. Moçambique é um país de liberdades, tem liberdade de imprensa como lei, tem liberdade de imprensa como um princípio a ser respeitado para podermos construir este Moçambique e outro aspecto bastante importante é que Moçambique é um país que defende a liberdade de expressão. Para mim é extremamente importante trabalhar com a imprensa, porque a imprensa não só comunica, não só informa, mas forma a sociedade moçambicana. Daí que as ameaças jornalistas são actos a condenar veementemente, para podermos construir um país de liberdade, que é o futuro que todos nós precisamos para, juntos como moçambicanos, desenvolvermos o país.

    CPLP passa por "momento agudo de tensões" entre Estados-membros

    Play Episode Listen Later Feb 18, 2026 12:08


    Desde o alegado golpe de Estado na Guiné-Bissau, a CPLP tem estado envolta em acusações e disputas entre os seus Estados-membros. Esta semana, as autoridades nomeadas pelos militares em Bissau teceram duras acusações contra Angola, Cabo Verde e Timor-Leste, mostrando o "momento agudo de tensões" que vive esta organização. A tomada de poder pelos militares na Guiné-Bissau veio expor as falhas e divisões no seio da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), com acusações mútuas e avisos sobre a situação inconstitucional no país. Xanana Gusmão, primeiro-ministro timorense, disse mesmo que se trata de "um estado falhado" e João Lourenço, Presidente angolano, deixou um aviso contra o "branqueamento dos golpes de Estado" na sede da União Africana. Em entrevista à RFI, Pedro Seabra, subdirector do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, lembrou que a história da CPLP está repleta de tensões, mas que este é "um momento bastante agudo de tensões" na instituição. "A história da CPLP está repleta de exemplos e de casos em que tem havido tensões entre os diferentes Estados membros. No entanto, mais uma vez, a Guiné-Bissau está neste momento a oferecer-nos um episódio em que, de facto, essas tensões vêm ao de cima e estão a demonstrar as fragilidades em que esta organização está assente. E, portanto, basta declarações de algum líder, algum chefe de Estado, um contexto já de si difícil e intenso dentro de um Estado membro, para estas fragilidades começarem a mostrar precisamente aquilo que a CPLP não consegue fazer. E as críticas que merece receber por vezes. Mas sim, concordo que podemos estar a falar num momento bastante agudo de tensões entre a organização", declarou o investigador. Para Pedro Seabra, há uma tendência "mais alargada em que regimes derivados de golpes militares necessitam muitas vezes de um adversário externo" de forma a legitimá-los como os "verdadeiros garantes de interesses nacionais". No caso da Guiné-Bissau, os militares no poder visam agora a CPLP. "Neste momento, qualquer declaração que venha do lado da CPLP e que seja percebida como contrária, pejorativa ou ofensiva, esta pretensa estabilidade que o novo regime quer transmitir. Vai ser sempre instrumentalizado na praça pública e acho que vai ser sempre também utilizada como forma de consolidar internamente a necessidade deste mesmo regime se manter no poder com aquilo que é, para todos os efeitos, um estado de excepção e suspensão da normalidade democrática. E, portanto, podemos dizer que calhou a vez da CPLP, fruto das declarações, obviamente das autoridades timorenses e que não será certamente a última vez que iremos assistir a casos deste género", garantiu. Se logo após o alegado golpe de Estado, os países lusófonos mostraram alguma reserva quanto à sua condenação e deixaram que tanto a CEDEAO como a União African tomassem a dianteira da condenação pública, mais de três meses após a mudança de regime e a prisão durante vários meses dos opositores políticos, tem levado a cada vez mais críticas vindas dos países lusófonos. "Vimos várias cautelas na forma como vários Estados membros da CPLP decidiram intervir ou pronunciar-se face ao que se estava a passar. Eu creio que isso demonstra bastante bem qual é o raio de alcance possível para uma intervenção eminentemente lusófona a este nível. É preciso sempre optar por uma abordagem de bastidores mais diplomática, que tente evitar esticar a corda e interromper os canais de contactos existentes. E assim se explica ou assim se justifica essa abordagem mais cautelosa ao início. Admito que com alguma esperança de que pudesse convencer os autores deste golpe a voltar às casernas e a reverter e a repor a normalidade democrática. Mas à medida que assistimos a uma consolidação deste regime e a vemos a um adiar cada vez mais, para médio longo prazo, de uma efectiva transição e retorno à normalidade democrática, vemos também que a maior parte dos países tem que se posicionar de alguma forma, condenar o que aconteceu e tentar oferecer aqui condições para, de alguma forma, ajudar a reverter o estado das coisas", concluiu Pedro Seabra.

    Tensões na vida política são-tomense são "apenas expedientes para se posicionar nas eleições"

    Play Episode Listen Later Feb 17, 2026 13:53


    Nestas ultimas semanas, São Tomé e Príncipe tem vivido ao ritmo de sobressaltos políticos que começaram em Janeiro, quando o Tribunal Constitucional considerou anticonstitucional o decreto do Presidente Vila Nova que demitiu há um pouco mais de um ano o governo então encabeçado por Patrice Trovoada, do mesmo partido que ele. Seguiu-se o anúncio de uma moção de censura por iniciativa da ala do ADI fiel a Patrice Trovoada, moção essa que acabou por ser retirada, sem que diminuísse a tensão política, apesar de entretanto o Presidente da Republica ter marcado as presidenciais para 19 de Julho e as legislativas para 27 de Setembro. A seguir a estes primeiros episódios, no dia 2 de Fevereiro, uma maioria de 29 deputados da oposição e alguns eleitos do ADI da ala presidencial, reuniram-se em sessão plenária e adoptaram a destituição da então Presidente do parlamento, Celmira Sacramento, a revogação da lei interpretativa, a exoneração dos cinco juízes do Tribunal Constitucional, e elegeram o presidente da Comissão Eleitoral. Esta plenária e as decisões daí decorrentes foram consideradas "ilegais" pelo Tribunal Constitucional, ao qual a presidente do parlamento destituída também disse que iria recorrer. Entretanto, na semana passada, Abnildo de Oliveira, antigo membro do ADI foi eleito novo Presidente do Parlamento. Tudo isto em poucas semanas, quando faltam já escassos meses para os são-tomenses serem chamados às urnas e renovarem os órgãos e instituições que os representam. Sobre esta situação, os pontos de vista são altamente divergentes. Patrice Trovoada considera que "houve um golpe palaciano" e que "a democracia está em perigo" no seu país. O actual chefe do governo, Américo Ramos, considera por seu lado que "é uma questão resolvida" e que "o Parlamento, como representante do povo, permitiu evitar uma situação de crise política e levar o Governo até às eleições". Foi neste âmbito que a RFI conversou com o sociólogo são-tomense Olívio Diogo que analisou este momento particular da vida política do arquipélago. RFI: Como é que se pode analisar toda esta sucessão de sobressaltos? Olívio Diogo: Para analisarmos tudo isso que está a acontecer agora em São Tomé e Príncipe, é preciso nós fazermos uma pequena retrospectiva daquilo que aconteceu a partir do momento que este partido chegou ao poder com o Patrice Trovoada. E foi com a entrada de Patrice Trovoada que se constituiu o novo Tribunal Constitucional. E é preciso dizer que foi também através de Patrice Trovoada que os juízes do Supremo Tribunal de Justiça foram jubilados antecipadamente, nomeadamente o Juiz Frederico da Glória, o Juiz José Bandeira. Portanto são um conjunto de acções que foram acontecendo quando Patrice Trovoada chegou ao poder. Passando esta fase, o que acontece com o Presidente da República? Exonerou o primeiro-ministro há mais de um ano. E para surpresa de todos, um ano depois, o Tribunal Constitucional dá o ar da sua graça, dizendo que esta decisão é inconstitucional. Mas este Tribunal Constitucional, que é o Tribunal Constitucional que tomou posse através das acções do antigo primeiro-ministro Patrice Trovoada, toma estas medidas num ano em que nós sabemos que haveria as eleições. É justamente neste ano em que o Presidente da República marca a data das eleições, que o Tribunal Constitucional vem dizer que é inconstitucional a demissão do primeiro-ministro. No ano de eleição, para ver que a tramóia é completa. A Assembleia Nacional, que é um órgão colegial, decidiu voltar a reunir-se para tomar deicisões porque a senhora presidente da Assembleia que estava em função decidiu tomar uma série de medidas que tornou a sua presença completamente vexatória diante dos outros deputados. 29 deputados pediram a exoneração da senhora presidente da Assembleia e fizeram eleição de novos órgãos para dirigir a Assembleia. Uma das decisões desta nova maioria na Assembleia foi destituir este Tribunal Constitucional. E mais, há um elemento a que não fez referência, que é a nomeação do novo presidente da Comissão Eleitoral Nacional. RFI: Para tentarmos perceber: o que é que está por detrás da exoneração de Celmira Sacramento do cargo de presidente do Parlamento de São Tomé e Príncipe? Olívio Diogo: Para qualquer cidadão atento, como é o meu caso, a atitude da Celmira passou a ser muito deficitária. A senhora quis que alguns deputados tomassem posse quando eles não tinham criado as condições para tomarem posse. Dentro destes elementos todos, há um outro elemento importante. É que o ADI, a franja de Patrice Trovoada, meteu uma moção de censura na Assembleia e decidiu ir discutir essa moção de censura. A Presidente tomou posições que fragilizaram a sua situação. Ela impediu que tomassem posse três deputados que foram eleitos. Celmira tentou inviabilizar isso e, mais adiante, tentou permitir que alguns deputados tomassem posse quando eles não tinham a legitimidade para tal. A situação tornou-se bastante complicada para que ela continuasse a exercer funções. E é preciso dizer qualquer coisa muito importante em relação a isso: é que Celmira Sacramento está consciente. Ela deixou o cargo, passou para o cargo de deputada porque ela percebeu que ela não foi de forma nenhuma destituída de forma ilegal, como tem-se tentado passar. RFI: Relativamente a outro aspecto, a nomeação da Comissão Eleitoral, isto quando falta poucos meses para pleitos eleitorais, as legislativas e, antes disso, as presidenciais. A nomeação dessa comissão eleitoral era também um ponto fulcral e aparentemente, também é algo problemático em todo este imbróglio. Olívio Diogo: A nomeação do presidente da Comissão Eleitoral é uma acção que já vem sendo desencadeada há algum tempo a esta parte. Portanto, já se estava a preparar este processo. Tanto é que a identificação do elemento da ala de Patrice Trovoada para esta função, a Isabel Domingos, já tinha sido identificada há muito tempo. Só que esta nova maioria, para além da Isabel Domingos, também indigitou um outro elemento e esse elemento foi votado. E é uma eleição, naturalmente, que é um acto da Assembleia. A Assembleia nomeou normalmente o novo presidente para a Assembleia, e para a comissão eleitoral. E é preciso dizer claramente, as pessoas, os deputados e ex-governantes deste país já perceberam uma coisa: é que estas acções são decorrentes de acções de outros indivíduos. Tudo o que está acontecendo hoje é o que já aconteceu no passado. Tem que se dizer claramente: esta é uma acção desencadeada por Patrice Trovoada única e exclusivamente. Patrice Trovoada tem promovido todo este debate, tem promovido toda esta situação que hoje nós vivemos. É preciso dizer que o ADI ganhou com maioria absoluta na Assembleia, o ADI elegeu o Presidente da República. Portanto, ali tinha tudo para governar e tudo isso com a liderança de Patrice Trovoada. E Patrice Trovoada conseguiu desentender-se com o Presidente da República, conseguiu desentender-se com o vice-presidente da Assembleia, Abnildo de Oliveira. É preciso perceber que Patrice Trovoada desencadeou um conjunto de acções, criando anticorpos para si próprio. RFI: Lá está, o calendário em que tudo isto acontece, estamos a poucos meses das eleições presidenciais e também das eleições legislativas. Qual é o interesse de haver toda esta confusão quando falta pouco tempo para os respectivos mandatos do Presidente e também do Governo terminarem? Olívio Diogo: Ora, lá está, isto é importante nós percebemos. É verdade que o mandato do Presidente da República está na fase final. Nós sabemos que o Presidente da República perde o seu mandato a partir de Junho, naturalmente. Mas o que é importante dizer é que é neste ano e que todos os partidos políticos têm que entrar em acção para esclarecer a sua posição. É uma questão de posicionamento, porque, repare, quando o presidente Vila Nova demitiu o primeiro-ministro Patrice Trovoada, o que aconteceu foi o seguinte: ele demitiu o primeiro-ministro e ele nomeou um elemento do ADI para continuar a governar. Neste momento, cada um dos partidos políticos, o ADI do Patrice Trovoada e ala do Américo Ramos, estão a tentar reunir condições para estar em melhores condições para ir às eleições. Mas é preciso dizer que a situação é sempre definida pelo povo, a não ser que eles tentem alterar isso. Os governantes são-tomenses sempre assumiram e aceitaram o resultado eleitoral. Eu acho que dessa vez não será ao contrário. O que está a acontecer é apenas expedientes para se posicionar em relação àquilo que será as eleições. RFI: Como é que a população são-tomense olha para tudo isto? Olívio Diogo: A população são-tomense não está envolvida neste problema. Está completamente fora disso. Ouvem, comentam naturalmente nos bares, nos cafés, nos mercados. Há sempre comentários em relação às acções políticas. Mas vou dar um exemplo. Nós temos uma população que está com uma crise energética há mais de quatro ou cinco meses em que nós continuamos. Não há convulsão, não há nada. A população não sai à rua para entrar em confusões desgovernadas. A população está, nesta fase do processo, a definir qual será a sua posição em caso de uma eleição. Estamos em Fevereiro. A eleição presidencial está marcada para Julho. Ainda não conhecemos o candidato a não ser o Carlos Vila Nova, que será candidato à sua própria sucessão. Portanto, é para perceber que nós temos um país completamente assimétrico. O povo resguarda a sua posição e só sairá para ir votar. RFI: Qual é a situação neste momento da população? Falou nomeadamente dos cortes de energia. Como é que estamos neste momento? Olívio Diogo: É uma situação crónica que nós vivemos. Nós tínhamos um fornecedor de energia que é a Tesla (empresa turca Tesla STP), que tinha sido contratada pelo anterior primeiro-ministro Patrice Trovoada. Este governo entendeu que o contrato com a Tesla não é o contrato mais adequado para o país. Decidiu não revogar o contrato, mas sim rever o contrato. Não houve entendimento com a Tesla. A Tesla saiu e apanhou este governo em contrapé. A situação da água também continua bastante complexa. A situação de vida das populações continua também com muitas dificuldades, apesar de algumas melhorias a que o país tem vindo a assistir. Mas a melhoria da vida da população ainda não se atingiu. Nós continuamos aqui convencidos de que haverá dias melhores para todos os são-tomenses. RFI: Para concluirmos, portanto, temos por um lado Patrice Trovoada a dizer que "a democracia em São Tomé e Príncipe está em perigo" devido àquilo que ele chama um "golpe palaciano" e "decisões contrárias à Constituição". E por outro lado, temos um primeiro-ministro, Américo Ramos, que diz que "não há crise em São Tomé e Príncipe" e que "tudo isto foi sanado com a designação do presidente do Parlamento". Em que ponto é que se situa de facto a situação política são-tomense? Olívio Diogo: Neste momento não tenho a posição nem do primeiro-ministro nem tenho a posição do Patrice Trovoada. O que é certo é que as instituições estão a funcionar. Quando se diz que a "democracia são-tomense está em risco", não se vê a democracia em risco. Nós temos uma democracia que está a funcionar com os seus níveis altos e baixos, mas a democracia está a funcionar. Repare, já temos a data das eleições. Vai acontecer eleições. Patrice Trovoada diz que a democracia não está a funcionar, porquê? Porque foi substituído o Presidente da Assembleia. Há quanto tempo estamos a espera para eleger um vice-presidente para a Assembleia? Porque Patrice Trovoada não queria designar este vice-presidente da Assembleia. Portanto, hoje o Patrice diz que a democracia está em causa. Tudo bem porque ele está fora do processo. Patrice Trovoada tem que perceber que este é um processo que vai-se alterando, vão entrando novos actores e novos actores vão saindo. E eu digo mais: não há dúvidas de se vai criar as condições para que ele venha às eleições. O país continua aqui. Nós estamos aqui. Não acredito que alguém o vá prender de forma ilegal. Se houver um processo na Justiça, isso é outra coisa. Será um processo normal. Mas neste preciso momento, ninguém está impedindo Patrice Trovoada de vir a São Tomé e aliás a divisão que existe neste momento é uma divisão interna do seu partido. Mais nada. Ele era o líder do partido. Ele deixou de continuar a controlar o partido. Isto está a desencadear toda essa atitude que nós estamos a ver. O Américo Ramos é do ADI, o Levy Nazaré sempre foi do ADI. Abnildo de Oliveira sempre foi, o Carlos Vila Nova, foi ministro de Patrice Trovoada. A democracia não está em causa. Nós vamos ter umas eleições e as instituições vão continuar a funcionar.

    Guiné-Bissau: Patrice Trovoada relativiza críticas e lembra que “há muito para fazer”

    Play Episode Listen Later Feb 17, 2026 8:07


    O enviado especial da União Africana para a Guiné-Bissau, Patrice Trovoada, garante que ainda “há muito para fazer” no processo de transição do país. O ex-primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe sublinha que a prioridade é travar a erosão da confiança política e institucional e relativiza críticas sobre alegada proximidade política com Umaro Sissoco Embaló. “Encontrei-me com muita gente, falei com muitos actores políticos guineenses”, disse Patrice Trovoada, numa postura cautelosa, evitando detalhar se teve contactos recentes com o ex- Presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló. O objectivo, explica, é “estabelecer contacto e diálogo com as autoridades de transição, as forças políticas, as instituições republicanas e a sociedade civil, para criar um clima de confiança e iniciar conversações políticas sobre a saída da crise.” Patrice Trovoada anunciou que se deslocará brevemente a Bissau e frisou que a missão da União Africana trabalha em coordenação com a CEDEAO, “que está na linha da frente”, mas que qualquer apoio regional ou internacional é bem-vindo para consolidar a estabilidade e credibilidade do processo. Sobre as eleições anunciadas para 06 de Dezembro pelo Governo de transição, o diplomata não se compromete: “Tomamos nota e vamos falar. Não são coisas fáceis.” Na abertura da 39.ª Cimeira da União Africana, o Presidente angolano, João Lourenço,  criticou o branqueamento de golpes de Estado através de processos eleitorais subsequentes: “Quando falamos da necessidade do restabelecimento da ordem constitucional após a tomada do poder por meios inconstitucionais, não estamos a dizer que ela fica restabelecida desde que os autores do golpe de Estado realizem eleições e se façam eleger”, advertindo que a prática representa “uma forma de branqueamento de um acto ferido de legitimidade”. O enviado especial destaca que a UA acompanha a Guiné-Bissau há anos e que a experiência acumulada é fundamental: “Não vamos a terreno desconhecido. Estamos a trabalhar com todos aqueles que querem que a situação desemboque em algo estável e credível, para o bem dos guineenses.” Patrice Trovoada deixa claro que a neutralidade da UA é crucial, mesmo perante acusações de alinhamento político com figuras do poder: “Não tenho comentários a fazer quanto a essas críticas. Tenho a responsabilidade de dar o meu contributo para avançar no bom sentido.” A missão da UA, acrescenta, baseia-se na Carta da organização, defendendo a transição para uma ordem constitucional legítima, inclusiva e aceite por todos. Trovoada sublinha que a cooperação com outros parceiros, como CPLP, União Europeia e Nações Unidas, é essencial para que a Guiné-Bissau recupere estabilidade e confiança, evitando que a crise política se traduza em erosão institucional ou fragilização do calendário eleitoral.

    “O racismo mata”: precariedade agrava saúde mental de migrantes em Portugal

    Play Episode Listen Later Feb 16, 2026 9:53


    A psicóloga cabo-verdiana, Édna Tavares, alerta que o racismo, a discriminação e a precariedade laboral são hoje os factores que mais pesam na saúde mental das pessoas migrantes em Portugal. Entre processos de legalização, invisibilidade e falta de acesso ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), muitas vivem em stress contínuo, sem tempo nem condições para parar e cuidar de si. A psicóloga clínica cabo-verdiana Édna Tavares não tem dúvidas sobre o que hoje mais fragiliza a saúde mental das pessoas migrantes em Portugal: “o que pesa mais é a questão do racismo, a questão da discriminação”. No seu trabalho diário com migrantes e afrodescendentes, sublinha que estes factores se acumulam a um contexto de “visibilidade” desigual e a um silêncio persistente em torno do sofrimento psicológico. Para a especialista, a saúde mental continua a ser “um tabu relacionado às pessoas migrantes”, e muitas chegam já com “uma carga emocional muito forte que não é valorizado”. A experiência migratória, diz, não é apenas um processo administrativo ou laboral: é também uma vivência emocional que, muitas vezes, não encontra espaço para ser reconhecida nem tratada. Entre os elementos que mais pesam, Édna Tavares destaca ainda “a situação no contexto da legalização”, que se torna um foco constante de ansiedade. A incerteza documental, associada à falta de informação e à invisibilidade social, agrava a sensação de instabilidade e coloca muitas pessoas num estado permanente de alerta. Ao mesmo tempo, a precariedade laboral surge como uma ferida estrutural. A psicóloga refere “a questão da discriminação laboral” e o facto de “haver muitas pessoas também na precariedade do trabalho”, realidade que “acaba por afectar em grande parte a questão da saúde mental”. Para muitos, o emprego não é sinónimo de protecção, mas de exploração, sobretudo quando o estatuto documental fragiliza a capacidade de denúncia. Questionada sobre se é possível cuidar da saúde mental quando não há tempo para parar, a resposta é directa: “Não.” E explica porquê: “as pessoas não têm condições sociais que lhe permita parar” e, mesmo quando sentem que algo está errado, a sobrevivência diária impõe-se. No terreno, observa um dilema cruel: “entre escolher pôr a comida na mesa e tratar da saúde mental”. A psicóloga descreve esta relação de acompanhamento como “uma relação muito ingrata”, porque o desejo de ajudar confronta-se com uma hierarquia de urgências: “tem que pagar a renda”, “as pessoas têm que comer”, “tem os filhos para levar para escola”, “tem a questão da documentação”. Mesmo quem trabalha e desconta “muitas das vezes mesmo assim há empresas que exploram”. O impacto psicológico desse dia-adia, diz, é profundo. “Sim, tem um impacto grande”, confirma, explicando que o sofrimento se manifesta “no stress” e em episódios de ruptura visíveis no espaço público. Em casos extremos, o quadro degrada-se: “muitas das vezes aquilo que vimos é o suicídio”, e a dor deixa de ser apenas mental, tornando-se também física: “a descarga toda depois já vem para o físico”. Édna Tavares insiste num ponto que considera incontornável: “o racismo tem impacto clínico”. E vai mais longe: “o racismo mata”. A violência não é apenas explícita; existe também “racismo silencioso” e “racismo institucional”. E, apesar de ser crime, denuncia um paradoxo: “provar o racismo, como é que se prova o racismo?”. Para quem já está fragilizado, acrescenta, é uma exigência devastadora: “a pessoa já está num momento muito vulnerável de saúde mental, ainda tem que provar que é vítima do racismo”. Perante esta realidade, a resposta do sistema de saúde, segundo a psicóloga, está longe de ser suficiente. “Não”, afirma quando questionada sobre a preparação dos serviços. “Temos um déficit muito grande da saúde mental”, afirma, apontando também barreiras concretas: “muitas pessoas não estão inscritas”, “muitas pessoas não se conseguem inscrever” e, em casos ainda mais graves, quem “não tem um documento” e ficam sem acesso ao SNS. Mesmo onde existem associações e respostas comunitárias, o caminho não é simples. Há “muita desinformação”, “pouca literacia” e dificuldades práticas, como deslocações e falta de confiança. “Multiplica vulnerabilidade”, resume, explicando que a fragilidade social se transforma rapidamente em fragilidade psicológica e vice-versa. Quanto ao papel do Estado, Édna Tavares é contundente: “O estado não faz nada.” Para ela, o mínimo seria “mais meios”, mas também um reconhecimento claro do problema: “o estado tem que aceitar a discriminação, tem que aceitar que existe racismo, que o racismo cria desigualdades”. Defende ainda respostas de proximidade: “ter psicólogos, ter enfermeiros, ter pessoas capacitadas para reduzir ou minimizar o risco da exclusão”. No centro de tudo, permanece o silêncio. “Falar-se de saúde mental imigrante não existe. Não existe. Não existe mesmo”, lamenta. A psicóloga integra uma rede de profissionais afrodescendentes e migrantes, a Afropsis, e afirma que até os próprios profissionais sentem esta realidade: “sentimos isso na pele”. E denuncia preconceitos persistentes: “dizem sempre imigrantes não tem problemas de saúde mental”, “imigrantes não têm depressão”, “imigrantes não sentem”. Sem tempo, sem recursos e sem reconhecimento, muitos acabam por “silenciar” a dor. A psicóloga descreve estratégias de sobrevivência: trabalho incessante, tradições, “a música, com a dança”. Porque, como resume de forma brutalmente simples, “nós não temos tempo para chorar, não temos tempo para conviver, só temos tempo para trabalhar”. E, quando chega a noite, resta apenas o esgotamento: “quando chegamos a casa já é tarde”. Por fim, Édna Tavares aponta ainda um vazio estatístico que, para si, não é inocente. “Não há dados sobre real dimensão populacional de imigrantes em Portugal”, afirma. E acrescenta: “nem propriamente o estado não tem números de imigrantes de certeza absoluta”, o que considera “uma escolha também de não recensear a sua população”. Num país onde milhares vivem na clandestinidade e na invisibilidade, conclui, a ausência de números é também uma ausência de responsabilidade.

    São Tomé e Príncipe: “Bom senso tem que prevalecer”, defende Patrice Trovoada

    Play Episode Listen Later Feb 14, 2026 7:52


    Patrice Trovoada, classificou como “muito grave” a actual crise institucional em São Tomé e Príncipe. O ex-primeiro-ministro são tomense acusou as recentes decisões políticas no país de configurarem “uma ruptura do sistema constitucional”, advertindo para o risco de descrédito das instituições e defendendo a reposição imediata da legalidade. “É uma ruptura e tem que se dizer, é um golpe”, afirmou, em entrevista à RFI à margem da 39.ª cimeira da União Africana, em Addis Abeba. Questionado sobre o que considera ser o estado do país, Patrice Trovoada admitiu tratar-se de “uma situação confusa”, mas sustentou que os órgãos competentes já se pronunciaram. “Houve uma tentativa de demitir a presidente da Assembleia Nacional. O Tribunal Constitucional disse que não era possível”, afirmou, recordando que o mesmo entendimento já tinha sido expresso anos antes. O ex-primeiro- ministro descreveu o actual momento político como “uma situação confusa”, mas sustentou que os órgãos competentes já clarificaram os limites legais. “Houve uma tentativa de demitir a presidente da Assembleia Nacional. O Tribunal Constitucional disse que não era possível”, recordando que o mesmo entendimento já tinha sido assumido no passado. Segundo o antigo chefe do Governo, uma plenária “convocada por um grupo de deputados em que não houve uma verificação de mandato” avançou com “uma série de decisões”, incluindo a destituição da presidente do parlamento e a nomeação da Comissão Eleitoral Nacional. “O que se passa é que tudo isso foi promulgado pelo Presidente da República. Temos um presidente da Assembleia Nacional que eles escolheram, que não pertence a nenhuma bancada. Alguém que se tinha demitido do ADI e tinha saído da bancada do ADI, que é algo ‘sui generis'”, criticou. Para Patrice Trovoada, o processo “viola a Constituição e, sobretudo, desacredita todo o sistema judicial”: “Leva quer os políticos, quer o cidadão comum, não só a não acreditar na justiça, mas a não acatar as decisões da justiça, que é muito grave”. Confrontado com declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo de transição da Guiné-Bissau, João Bernardo Vieira, que, a 03 de Fevereiro, acusou o Presidente são-tomense, Carlos Vila Nova, de ser “instigador de um golpe palaciano”, o ex-primeiro-ministro foi peremptório: “Eu próprio falei em golpe de Estado palaciano e muita gente, muitos observadores também acham que há um golpe de Estado parlamentar, palaciano.” Ainda assim, manifestou esperança numa solução política. “Reconheço que nós estamos aqui perante uma ruptura do nosso sistema (…) mas, felizmente, eu penso que essa ruptura pode ser reversível. Eu acredito que o bom senso tem que prevalecer”, afirmou. Leia tambémGuiné-Bissau: MNE acusa Carlos Vila Nova de ser “instigador de um golpe palaciano” O líder da ADI defendeu a reversão das decisões tomadas fora do quadro legal. “Eu acho que deve-se reverter. Se estamos de acordo (…) de que não é possível demitir a presidente da Assembleia Nacional (…) isso seria bom. A partir daí repetimos todo o processo”, declarou, insistindo na validação dos mandatos e na realização de votações “dentro das regras”. Leia tambémCelmira Sacramento foi destituída do cargo de presidente da Assembleia Nacional Sobre a situação interna da Acção Democrática Independente (ADI), Patrice Trovoada rejeitou a ideia de fractura. “O partido não está dividido”, acrescentando que os “deputados fiéis à direcção do partido são 21, num total de 30”. E deixou críticas aos parlamentares dissidentes: “Não se pode brincar com a delegação de poderes que o povo dá aos deputados. É preciso respeitar o resultado das urnas.” Questionado sobre uma eventual candidatura presidencial, respondeu: “Ainda não decidi. Muita gente está a decidir por mim.” Perante o contexto, pretende avaliar posições. “Aquilo que me interessa agora (…) é ver quem tem fibra democrata. Porque um Presidente da República no nosso sistema não é um executivo. Ele é o garante da estabilidade e do funcionamento regular das instituições.” A entrevista decorreu à margem da 39.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana, que termina este domingo, 15 de Fevereiro, em Addis Abeba, Etiópia. Patrice Trovoada participa no encontro enquanto enviado especial da UA para a Guiné-Bissau. Leia tambémPR são-tomense fixa presidenciais para 19 de Julho e legislativas para 27 de Setembro

    José Maria Neves: “Não há nada irreparável” nas relações entre a CPLP e a Guiné-Bissau

    Play Episode Listen Later Feb 14, 2026 6:34


    O Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, alertou, em Addis Abeba, para a necessidade de proteger o multilateralismo num contexto internacional de “ruptura”. Confrontado com as recentes trocas de declarações entre responsáveis da CPLP e autoridades da Guiné-Bissau, José Maria Neves desvalorizou a ideia de um afastamento irreversível: “Não há nada irreparável. É importante que a diplomacia não se faça na praça pública”. Questionado sobre o encontro com o seu homólogo angolano, José Maria Neves confirmou que a CPLP e a Guiné-Bissau estiveram na agenda. “Falámos globalmente sobre vários assuntos que têm a ver com a CPLP. É claro que referimo-nos à questão da Guiné-Bissau. Neste momento, há todo um trabalho de mediação que está sendo feito (…) e também o esforço que a CPLP está a fazer para participar no processo e estimularmos as partes no sentido de trabalharem para que se encontre o melhor caminho para a restauração do Estado de Direito e para a paz, a democracia e o desenvolvimento da Guiné-Bissau”, afirmou. O Presidente cabo-verdiano enquadrou o diálogo numa análise mais vasta da conjuntura global, marcada, segundo disse, pela erosão das regras internacionais. “Falámos de toda a situação mundial. Toda essa questão da fragilização do multilateralismo, do direito internacional, da Carta das Nações Unidas. Esse momento de ruptura na ordem mundial que estamos a viver e o esforço que se está a fazer (…) e que os outros países, particularmente os países africanos, devem fazer no sentido de defender o multilateralismo, defender o direito internacional. Desde logo a Carta das Nações Unidas.” O chefe de Estado de Cabo Verde advertiu, ainda, para os riscos de maior fragmentação em África num cenário de crescente competição geopolítica. “Nós estamos num mundo em que há muitas partes. E a África tem de saber negociar e tem de saber defender os seus interesses. (…) Temos de trabalhar para reformar, repartir o trabalho entre a União Africana e as organizações sub-regionais, definir bem as responsabilidades e trabalharmos no sentido de pôr todos os recursos e todas as potencialidades de África ao serviço do desenvolvimento. Nós só teremos paz se conseguirmos efectivamente o desenvolvimento do continente africano.” Sobre os recursos naturais, e questionado se a paz em África passaria pelo “fim da pilhagem” como falou o secretário-geral das Nações Unidas, José Maria Neves foi taxativo: “Temos que mudar os termos de intercâmbio que existem neste momento, que são absolutamente injustos. Acabar com a pilhagem, acabar com essa guerra por recursos que existe e criar dinâmicas de crescimento e criar oportunidades para o continente africano. (…) Só com o desenvolvimento nós podemos ter condições de ser actores relevantes na arena internacional.” Confrontado com as recentes trocas de declarações entre responsáveis da CPLP e autoridades guineenses, José Maria Neves desvalorizou a ideia de um afastamento irreversível: “Não há nada irreparável. Sempre é possível reparar e é importante que a diplomacia não se faça na praça pública”. A 39.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana decorre em Addis Abeba, Etiópia e termina este domingo, 15 de Fevereiro.

    Guterres defende ordem constitucional na Guiné-Bissau e alerta para terrorismo em Moçambique

    Play Episode Listen Later Feb 13, 2026 7:25


    O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, reafirmou, em Addis Abeba, uma posição firme sobre a Guiné-Bissau, sublinhando a defesa inequívoca da ordem constitucional. Em entrevista à RFI, à margem da 39.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana, António Guterres, manifestou, ainda, forte preocupação com o terrorismo em Cabo Delgado, Moçambique, e apelou à comunidade internacional, em particular à União Europeia, para reforçar o apoio ao país. RFI em Português : Na Guiné-Bissau os atropelos ao Estado de Direito multiplicam-se: novo golpe de Estado, novamente os militares no poder. Tem acompanhado a situação, como é que olha para o que se passa na Guiné-Bissau? Secretário-Geral da ONU, António Guterres: Em primeiro lugar, nós temos uma posição muito clara de defesa da ordem constitucional e da democracia em todos os países, no mundo e, em particular, em África.  E, naturalmente, rejeitamos qualquer golpe de Estado. Rejeitamos qualquer forma inconstitucional de alterar a vida política de um país. Houve aqui uma situação clara. Houve eleições, havia resultados destas eleições e há um golpe de Estado que impede a publicação destes resultados e que cria uma situação que tem que rapidamente chegar ao fim.  Tem que se encontrar uma maneira - penso que alguns progressos se registaram - de regressar o mais depressa possível a um Estado constitucional. Ao longo dos seus mandatos fomentou e reforçou o trabalho conjunto entre as Nações Unidas e a União Africana, nomeadamente no âmbito da paz e da segurança.  Esta é a sua última cimeira da União Africana enquanto Secretário-Geral das Nações Unidas. Que resultados concretos produziram essas parcerias na prevenção de conflitos e na manutenção da paz? E em que áreas continuam a falhar? Em primeiro lugar, a cooperação entre as Nações Unidas e a União Africana é uma cooperação exemplar e essa cooperação, enquanto tal, não falhou em parte nenhuma. Agora, o que acontece é que.... e dou um exemplo da Somália... Na Somália há uma força da União Africana. Essa força da União Africana é apoiada pelas Nações Unidas. E nós conseguimos aprovar no Conselho de Segurança uma nova resolução que permite forças da União Africana de imposição de paz, financiadas pelas Nações Unidas através das chamadas contribuições obrigatórias, por decisão do Conselho de Segurança.  Infelizmente, em relação à situação da Somália, onde há uma força da União Africana, o Conselho de Segurança decidiu não apoiá-la porque houve uma posição muito contrária por parte de um dos países, dos Estados Unidos da América. Ou seja, não há falhas, mas continua a haver muitos desafios? Há muitos desafios e há, naturalmente, muitas dificuldades. O que há é uma cooperação exemplar. Agora, as ingerências externas e a criação de mecanismos que diminuem a confiança entre as diversas forças que se confrontam em vários cenários africanos, tudo isso torna muito difícil a acção das Nações Unidas e a acção da União Africana. Mas, apesar de tudo, há que reconhecer que alguns avanços importantes também têm acontecido. Sobre o Sudão, a guerra no Sudão continua. É a pior crise humanitária de sempre. A ONU ainda tem aqui margem de manobra de influência sobre as partes ? Nós estamos sempre activos com as partes e não só com as partes. Ainda recentemente se fez uma reunião conjunta com a Liga Árabe, com a União Africana e com o IGAD para conjugar esforços. Temos procurado encontrar formas de consenso que permitam um cessar-fogo com a desmilitarização de algumas zonas. E estamos muito activos na procura de soluções parcelares de, como digo, cessar-fogo, acesso humanitário ou desmilitarização de certas zonas. E continuaremos, não desistiremos, como disse, em colaboração com diversos outros países, enquanto não conseguirmos um resultado positivo. Infelizmente há dois grupos, ambos pensam que podem ganhar a guerra, o que torna difícil a paz. E depois há uma ingerência exterior que é evidente, inclusive com o fornecimento de armas aos beligerantes. E uma enorme população que sofre na pele essas consequências. A população sofre terrivelmente com o que se está a passar. A carnificina a que assistimos no Sudão é totalmente intolerável. Moçambique está a braços com duas problemáticas: alterações climáticas e terrorismo no norte. Como é que a ONU continua a olhar para o terrorismo em Cabo Delgado? Com preocupação. O terrorismo em Cabo Delgado é mais uma manifestação de uma expansão do terrorismo em África que nos preocupa enormemente. Temos o Sahel, a Somália, parte norte do Congo, não falo agora do M23, falo dos grupos terroristas propriamente ditos. E, portanto, há aqui uma progressão do terrorismo em África que é extremamente preocupante.  O meu apelo é que a comunidade internacional e em particular a União Europeia, para que façam tudo para apoiar Moçambique, para que Moçambique tenha condições para derrotar o terrorismo. Em relação ao clima, é absolutamente vital que as pessoas compreendam que estamos a ir por um mau caminho. Globalmente, já se sabe que os 1,5 graus vão ser ultrapassados. Vamos ter aquilo que os ingleses chamam um “over shooting”. Importa que ele seja tão curto quanto possível. Importa que seja de amplitude tão pequena quanto possível. Ainda é possível, no final do século, ter um aumento de temperatura abaixo de 1,5 graus ou na linha de 1,5 graus. Mas isso implica uma drástica redução das emissões agora. Isso implica a aceleração da transferência dos combustíveis fósseis para a energia renovável e um aumento substancial dos mecanismos de apoio aos países que estão a sofrer as consequências, como é o caso de Moçambique, das alterações climáticas, não tendo contribuído em nada para essas mesmas alterações, porque não têm praticamente emissões. Neste mundo marcado por guerras prolongadas, tensões políticas e a crise climática, as Nações Unidas ainda estão à altura destes desafios globais? O multilateralismo não está em causa? As Nações Unidas têm revelado uma clara capacidade de liderança no plano da ajuda humanitária em todo o mundo. São um instrumento fundamental para apoiar os países em matéria de direitos humanos, em matéria de desenvolvimento. As Nações Unidas ganharam recentemente uma batalha muito importante e acabámos de constituir o primeiro comité científico independente sobre a Inteligência artificial, que será a autoridade universal em matéria do tema que hoje mais preocupa as pessoas.  E as Nações Unidas têm tido uma liderança clara na luta contra as alterações climáticas e na defesa de políticas de drástica redução das emissões e de forte apoio aos países afectados, nomeadamente, por exemplo, ninguém mais que as Nações Unidas tem estado ao lado e dando todo o apoio às pequenas ilhas que são, porventura, os mais vulneráveis. Portanto, as Nações Unidas mantêm em todas estas áreas uma acção extremamente importante e em matéria de paz e segurança, continuamos activos. É evidente que não temos exército para combater. Não temos sanções, a não ser aquelas que o Conselho de Segurança aprova. O Conselho de Segurança, infelizmente, está normalmente dividido pelas divisões geopolíticas que existem no mundo. Acusam, muitas vezes, as Nações Unidas daquilo que são os problemas criados pelos Estados-Membros.

    Diáspora solidária com vítimas das cheias em Moçambique e Portugal

    Play Episode Listen Later Feb 12, 2026 14:15


    A diáspora moçambicana e portuguesa está a mobilizar-se em campanhas para ajudar as vítimas das cheias em Moçambique e em Portugal. São várias as associações que meteram “mãos à obra” através de diferentes iniciativas, como angariação de bens, transporte de material e organização de um concerto online. Concerto online “Vozes unidas por Moçambique” Várias associações moçambicanas juntaram-se para organizar um "Concerto Virtual Solidário", a 21 de Fevereiro, que vai ser transmitido a partir da plataforma Zoom, às 17h de Moçambique. A venda dos bilhetes vai servir para comprar material e bens essenciais para as vítimas das cheias no sul de Moçambique, onde muitas pessoas “perderam tudo”, explica Laura Chirrime, presidente e fundadora da Associação Muthiana, com sede em França. “No dia 21 de Fevereiro, nós vamos fazer um concerto virtual solidário, em que teremos a presença de 14 cantores, cem por cento da venda dos bilhetes é para ajudar famílias nas comunidades, há muitas famílias deslocadas neste momento. (...) As pessoas perderam tudo, perderam casas, perderam tudo o que tinham e precisam de tudo. Há pessoas que estão sem comer, sem sítios para dormir. Quem está no terreno diz que é preciso tudo”, explica Laura Chirrime. O concerto “Vozes unidas por Moçambique” é uma iniciativa da associação Alliance Solidaire pour les Femmes - Muthiana, da Associação para a promoção social e inclusão e diversidade social em Moçambique - Inclusão, da Associação Amigos de África em Madrid e do Movimento de Sociedade Civil dos Moçambicanos na Diáspora- Indignados. A iniciativa vai juntar vários artistas como Stewart Sukuma,Vintani Nafassi e May Mbira, e músicos da diáspora como Arsénio de Almeida e Cândido Xerinda (França), Nilsa Mosele (Suiça), Beny Tomás (Dinamarca), Jovi Chironda (Bélgica),Vicente Cossa (Itália), Shaila Jesuíta (Portugal) e Santinho Baahana (Alemanha). Em Moçambique, as cheias de Janeiro causaram, até esta quinta-feira, pelo menos, 27 mortos e afectaram mais de 700 mil pessoas, de acordo com o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres. O país prepara-se, agora, para a chegada do ciclone tropical Gezani, em que estão previstos ventos até 140 quilómetros por hora e chuvas intensas, que poderão afectar cerca de 1,1 milhão de pessoas. 70 toneladas de bens de Paris para o centro de Portugal  Portugal também foi fustigado por uma sequência de tempestades que provocou a morte de, pelo menos, 15 pessoas e uma destruição difícil de contabilizar, desde que a tempestade Kristin entrou no território continental, a 28 de Janeiro. As cheias e as inundações devastaram casas, empresas, escolas, campos e deixaram populações isoladas, sem luz, água e comunicações, estradas cortadas pela queda de árvores e postes de electricidade. A Associação Todos Juntos França e outras associações portuguesas mobilizaram-se para ajudar as vítimas das tempestades Kristin, Leonardo e Marta, testemunhou o dirigente associativo e empresário Patrick Mateus: “Quando soubemos da catástrofe Kristin não ficámos de mãos cruzadas. Resolvemos pôr mãos à obra e ajudar a população portuguesa com os meios que temos.” O também membro da Todos Juntos France e presidente da Associação Cravos Dourados de Livry-Gargan explicou que, numa primeira fase, a Associação Todos Juntos France comprou lonas e cordas e mandou “quase 22.000 metros quadrados de lonas para Portugal” num primeiro camião. Desde então - acrescenta Patrick Mateus - foram enviadas “lonas, materiais de construção, martelos, pregos, botas de água, casacos” e bens alimentares, ou seja, “quatro camiões que representam mais ou menos 70 toneladas de mercadoria”. O dirigente associativo admite que a zona severamente afectada pelas tempestades é uma região de onde são oriundos muitos dos emigrantes portugueses que vivem em França e que foi através deles que se teve a noção da amplitude dos danos materiais. Entretanto, foram várias as associações que se juntaram à onda de solidariedade e que têm angariado os bens, em contacto com a protecção civil e os autarcas portugueses. Na próxima terça-feira, a Rádio Alfa (estação da emigração portuguesa em França) vai difundir uma emissão especial com várias dessas associações para ajudar as vítimas das tempestades em Portugal.

    Reunião com Félix Tshisekedi em Luanda: "Angola é um mediador nato do conflito da RDC"

    Play Episode Listen Later Feb 10, 2026 15:36


    O chefe de Estado de Angola e Presidente em exercício da União Africana, João Lourenço, esteve reunido nesta segunda-feira em Luanda com o seu homólogo da RDC, Félix Tshisekedi, com o Presidente do Conselho da República do Togo e mediador da União Africana, juntamente com outros mediadores, para evocar o conflito que continua vigente no leste da RDC, apesar da recente assinatura de acordos para pôr fim às hostilidades. Segundo um comunicado da presidência angolana emitido no final do encontro, Luanda foi mandatada para encetar consultas "com todas as partes congolesas interessadas", para a criação de condições e a realização de um diálogo inter-congolês. Os participantes no encontro lançaram um apelo para que os beligerantes declarem um cessar-fogo, “a entrar em vigor na data e hora a serem acordadas”, incitando-os acelerar a aplicação dos Mecanismos de Verificação do Cessar-fogo, acordados em Doha a 14 de Outubro de 2025. Neste comunicado, Luanda refere que os participantes recordam a necessidade de se cumprirem “as decisões tomadas ao abrigo do Acordo de Washington de 4 de Dezembro de 2025" e "as Resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a retirada das tropas ruandesas do território congolês e a neutralização das FDLR”. Estes apelos surgem numa altura em que se constata que os acordos assinados pelas partes em conflito não estão a ser seguidos de efeitos, dado que o cessar-fogo tem sido tão repetidamente violado no terreno, que os Estados Unidos ameaçaram aplicar sanções contra quem desrespeita o acordo de paz que mediaram no ano passado. Esta reunião em Luanda que marca o regresso de Angola no processo negocial da RDC quase um ano depois de se afastar da mediação em Março de 2025, na ausência de entendimentos, acontece igualmente numa altura em que Luanda está prestes a deixar a presidência em exercício da União Africana. Nos próximos dias 14 e 15 de Fevereiro, decorre a cimeira de Chefes de Estado e de governo da União Africana durante a qual Angola vai passar o testemunho ao Burundi na liderança rotativa do bloco continental. Em entrevista concedida à RFI, Osvaldo Mboco, professor de Relações Internacionais ligado à Universidade Técnica de Angola, considera que a reunião desta segunda-feira traduz o reconhecimento de que Luanda tem um papel a desempenhar relativamente à RDC. RFI: Como se pode interpretar a reunião que decorreu nesta segunda-feira em Luanda? Osvaldo Mboco: Este encontro enquadra-se nos esforços para a pacificação no leste da República Democrática do Congo, por via de uma iniciativa africana e penso que o Presidente Félix Tshisekedi percebeu que a solução para os problemas no seu país não deve ser encontrada em outras geografias, quer a nível do Catar e quer a nível dos Estados Unidos, porque esses dois mecanismos não produziram efeitos factíveis, não reduziram ao máximo aquilo que são as tensões que se registam no Leste da República Democrática do Congo. O acordo de Washington continua a ser violado ciclicamente. O entendimento de Doha não avança e penso que este recuo por parte do presidente Félix Tshisekedi, por um lado, procura uma solução africana e, por outro lado, também é o reconhecimento pelo Presidente Félix Tshisekedi das acções que foram levadas a cabo por Angola, que esteve muito mais próxima da pacificação do Leste da República Democrática do Congo comparativamente ao cenário actual, e o reconhecimento que Angola é uma peça central para aquilo que pode ser a estabilidade no leste da República Democrática do Congo. Se fizermos um recuo histórico, vamos perceber que Angola, em determinado momento e contexto da história política congolesa, esteve sempre no meio deste processo de pacificação no leste da República Democrática do Congo. Primeiro, pela via daquilo que foi o derrube de Mobutu na RDC, depois pelas estratégias de protecção do Presidente Kabila pai e também pelos processos que Angola foi encabeçando a nível da RDC. Então, eu tenho estado a defender que Angola é um mediador nato do conflito da República Democrática do Congo. Agora, é importante também aqui sublinhar o seguinte: este encontro visa essencialmente um diálogo inter-congolês e esse diálogo inter-congolês procura, na sua essência, congregar quer a sociedade civil, quer os grupos de pressão, quer também as religiões, principalmente a Igreja Católica e os grupos insurgentes que gravitam na RDC. Mesmo também as vozes dissonantes e aqui, de vozes dissonantes, podemos citar o Presidente Joseph Kabila, podem ser chamados para este diálogo. Pode funcionar porque a RDC tem um elemento histórico que foi o diálogo inter-congolês em Sun City, na África do Sul, penso que em 2002-2003, onde também houve uma espécie de diálogo inter-congolês. E aqui a grande questão é observar que se o M23 não participa desse diálogo inter-congolês, que é hoje o grupo beligerante com maior capacidade combativa no terreno, esse diálogo pode não produzir os efeitos factíveis. E daí é que olhamos para a nota de imprensa da República de Angola quanto a este encontro. Eles chamam a atenção sobre a necessidade de se acelerar o mecanismo de Doha do ponto de vista do entendimento entre o M23 e a República Democrática do Congo. Primeiro, é uma pressão a Doha que deve dinamizar aquilo que foi o acordo encontrado entre o governo e o M23. Mas também é uma crítica porque percebe-se que Doha, independentemente de ter aquele encontro que foi muito mediatizado, a fotografia que circulou o mundo, mas não produziu o resultado factível do ponto de vista do entendimento entre o M23 e o governo. Claramente que é importante que as questões estruturais fracturantes possam estar por cima da mesa. Podemos ver que o M23 pode ser extinto pela via política, desde que determinados elementos que eles defendem estejam aí salvaguardados. Do ponto de vista do entendimento, eu acho um pouco difícil, porque hoje o M23 não quer simplesmente ter uma pressão ao fazer política, mas quer também controlar território. E o controlo desses territórios, muitas vezes são territórios ricos em termos de minérios. E aqui começa a abordagem de uma questão de cessão de território da RDC. RFI: E, lá está, relativamente, às pretensões do M23. O que se nota nestes últimos meses, depois da conclusão de diversos acordos, tanto no processo de Doha como também em Washington, é que, de facto, as partes envolvidas não estão confortáveis com os acordos que foram alcançados. Tanto o M23 como o Ruanda, sente-se que querem mais. O que é que eles querem? Osvaldo Mboco: Fica muito difícil trazer isto na análise, porque em muitos casos há elementos que não transpiram para fora. Mas o que nós podemos fazer é aqui algumas conjunções em função daquilo que a nossa observação e também de informações que vamos tentando cruzar. E uma delas é o Ruanda ter acesso a determinados minérios da RDC. Há quem já fale também que o Ruanda pretende alargar o seu território, porque reclama que a Conferência de Berlim (em 1884-1885) amputou território do Ruanda e há uma parte do Ruanda que está na RDC. Pode ser que o Ruanda pretenda reconfigurar esta questão para a estabilidade. E, como deve calcular, o Ruanda é um país pequeno que tem estado a crescer do ponto de vista demográfico também. Logo, há essa pretensão. Os grupos erráticos que surgem, normalmente eles procuram usar o sentimento étnico, mas na verdade são senhores de guerra. São senhores do contrabando, do tráfico, que usam a sua posição para o enriquecimento ilícito de uma determinada elite daquele grupo. E tanto é assim que nós conseguimos observar que os grupos erráticos que residem na RDC, muitos deles digladiam-se entre si na procura e no controlo de terras ou de espaços geográficos onde existem de facto minérios para poderem contrabandear esses minérios. RFI: Voltando à visita de Tshisekedi a Luanda, esta visita também se insere numa digressão que efectuou com o objectivo de obter sanções contra os M23. Julga que as sanções são uma alavanca útil neste processo? Osvaldo Mboco: Claramente que sim. Claramente que sim, porque os beligerantes só continuam com as acções de desestabilização e com a força militar que se encontra, o poder militar que têm no teatro das operações, porque eles continuam -primeiro- a contrabandear minérios e há é alguém que compra esses minérios, por um lado. E nesse contrabando de minérios, eu tenho estado a defender que existem figuras do Estado da RDC que facilitam a saída desses minérios. As sanções também podem ser para os países que têm estado a dar guarida aos M23, porque se aquele material bélico sofisticado chega até ao M23 que tem capacidade de desbaratar uma força regular que é o Exército da República Democrática do Congo, dentro de um quadro da conflitualidade, é porque vem de algum sítio. Tem país de trânsito. Qual é o país de trânsito? E é fundamental que todos os envolventes para a instabilidade no leste da República Democrática do Congo, a comunidade internacional, tenha uma posição muito mais clara, muito mais firme e não a ficar simplesmente do ponto de vista daquilo que são as condenações, mas do ponto de vista das sanções, porque se assim não fizer, a comunidade internacional acaba sendo cúmplice. Porque os próprios Estados Unidos entendem que o Ruanda tem estado a violar o cessar-fogo e a apoiar o M23. A presença de tropas ruandesas em solo da RDC é uma violação à soberania do Estado da RDC. Então como é que não se obriga o Ruanda a retirar os militares que lá estão? RFI: Os Estados Unidos anunciaram recentemente que estavam a ponderar a hipótese de sanções. Julga que este é o passo a seguir por Washington? Osvaldo Mboco: Uma coisa é o discurso político, outra coisa é a acção política. E nós vimos que os Estados Unidos, quando têm interesse, eles agem com a tenacidade que é exigida para o contexto. Se os Estados Unidos só ponderam sanções numa altura em que os Estados Unidos têm a força para impor que o Ruanda cumpra os acordos de paz, porque até o Ruanda não cumpriu os acordos de paz assinados em Washington, fragiliza a imagem dos Estados Unidos enquanto 'Estado gendarme' do sistema internacional, porque os Estados Unidos têm uma responsabilidade acrescida como guardião da paz e da estabilidade mundial. Então, quando um acordo é assinado em seu solo, onde há comprometimento, uma das partes, que é um país periférico como a RDC, Ruanda e grande parte dos países africanos que são países periféricos e a superpotência não consegue impor, isto descredibiliza até a capacidade dos EUA em mediar e negociar determinados assuntos. RFI: Não podemos também esquecer-nos que este encontro em Luanda decorre apenas alguns dias antes da cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana. O que é que se pode esperar para a RDC nesta cimeira? Osvaldo Mboco: Eu penso que a questão da paz, estabilidade e segurança no continente africano é um tema que é transversal às várias presidências que vão surgir. Com certeza, a RDC estará em cima da mesa. E podemos aqui perceber que este encontro preliminar, ainda no âmbito da sua Presidência, Angola, talvez percebeu que era fundamental ter dado um passo mais consistente nas vestes de Presidente da União Africana sobre a matéria de paz e estabilidade na República Democrática do Congo. Porque em abono da verdade, a forma como Angola foi tratada aquando da sua saída do processo de mediação foi uma forma que embaraçou a diplomacia angolana. Expôs até certo ponto, o Estado angolano numa posição não confortável. E penso que esses acontecimentos foram determinantes para que Angola entendesse se afastar temporariamente. E também os pronunciamentos do Presidente Kagame que fizeram com que Angola se afastasse temporariamente e reconfigurar-se a sua abordagem. Mas, conforme eu disse inicialmente, Angola é o mediador natural da República Democrática do Congo por vários factores e pelo factor também da aproximação geográfica. Nós partilhamos uma fronteira de 2511 km de extensão. Ou seja, a RDC é extremamente importante para Angola e toda e qualquer alteração securitária e política que decorre na RDC acaba tendo implicações para o Estado angolano devido à fronteira. Logo, Angola tem uma preocupação redobrada daquilo que acontece na República Democrática do Congo. E penso que, observando esses elementos e também a vinda do Presidente Félix Tshisekedi a Luanda no mês passado -foram aproximadamente três vezes- penso que deve ter dado garantias ao Presidente João Lourenço, que estaria disposto em observar e cumprir alguns dos conselhos saídos de Luanda. Porque, o Presidente Félix também é parte da culpa desse clima de deterioração em que se encontra hoje o leste da RDC. Por uma razão muito simples: o M23 no passado já havia aceitado acantonar. Houve um processo de acantonamento em como o M23 havia aceitado, que estava a ser conduzido por Angola, mas que por intransigência do Presidente Félix Tshisekedi, quer pela falta do comprometimento do Presidente Tshisekedi em aceitar que esses indivíduos pudessem ser enquadrados, houvesse processo de acantonamento e, posteriormente, uma abordagem interna para que esses indivíduos pudessem integrar o exército. E não só. Houve por parte do Presidente Tshisekedi uma acção que não foi nesta direcção, porque talvez na altura estava num período eleitoral e não queria, de facto, desagradar a um segmento do eleitorado que é muito anti-M23. E a perda deste processo de acantonamento, que estava acertado nos moldes que estavam convencionados, fez com que o M23 depois conquistasse e alargasse o seu controlo a outras cidades.

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