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Paris celebra neste domingo (21) a Festa da Música, evento gratuito que ocupa ruas, praças e espaços culturais com programação diversa e descentralizada, marcada nesta edição 2026 pela presença de culturas urbanas, cenas afro‑europeias e a já tradicional participação brasileira. Criada em 1982, a iniciativa mantém a proposta de transformar a cidade em palco aberto no início do verão europeu, sem concentração em um único espetáculo e com ampla circulação de público entre bairros. Neste domingo (21), Paris volta a organizar a Festa da Música, com uma programação que se espalha por toda a cidade e transforma o espaço urbano em um circuito contínuo de apresentações. O evento ocorre simultaneamente em diversos bairros, sem centralização, com acesso gratuito e livre circulação do público ao longo do dia e da noite. Criado em 1982, o evento ocorre sempre no início do verão no hemisfério norte e se baseia na ocupação simultânea de diferentes espaços urbanos. Ruas, praças, museus, igrejas e edifícios históricos recebem concertos e intervenções musicais ao longo do dia e da noite. Desde então, a festa se consolidou como uma das maiores manifestações culturais do país. Democratizar o acesso à música Mais de quatro décadas depois, o modelo permanece praticamente inalterado, sustentado pela ideia de democratizar o acesso à música ao vivo e integrar diferentes práticas culturais no espaço urbano. Concertos ocorrem em ambientes diversos, incluindo museus, igrejas e edifícios institucionais. A edição de 2026 confirma essa escala abrangente, com centenas de apresentações distribuídas entre ruas, parques, centros culturais e margens do Sena. A cidade se transforma em um grande palco aberto, com programação contínua ao longo do dia. A lógica do evento difere da adotada em grandes festivais comerciais. Não há hierarquia rígida entre atrações, nem um palco principal que concentre o público. Artistas emergentes e nomes mais conhecidos coexistem em condições semelhantes. A proposta segue centrada na democratização do acesso à música ao vivo. Artistas amadores e profissionais compartilham a programação espalhada pela capital francesa, em um formato que privilegia a circulação do público e a descoberta de apresentações fora dos circuitos tradicionais. Leia tambémParis vira “Coachella urbano” por uma noite na Festa da Música de 2025 Culturas urbanas e diásporas africanas A edição de 2026 se destaca pela presença ampliada de expressões ligadas às culturas urbanas e às diásporas africanas na Europa. No centro cultural La Place, em Châtelet, no coração de Paris, um encontro entre o coletivo parisiense AFRO LIVE e o londrino ADA Collective reúne artistas associados às cenas afro‑europeias contemporâneas. A programação evita a lógica de um espetáculo central. Em vez disso, privilegia a diversidade de formatos, com apresentações que vão da música eletrônica e afro a concertos em espaços históricos, além de festas de bairro e performances espontâneas. Projetos internacionais também integram a programação, aproximando artistas de diferentes regiões. Parcerias conectam cenas mediterrâneas e latino‑americanas, ampliando o intercâmbio cultural presente na festa. Leia tambémMais de 120 países comemoram Festa da Música nesta sexta-feira Funk brasileiro no Louvre? Um dos exemplos dessa convivência entre linguagens ocorre na igreja Saint‑Germain‑l'Auxerrois, em frente ao Louvre. Das 16h às 23h59, hora local, o espaço recebe o Baile da Euro, com apresentações de DJs e presença marcante do funk brasileiro. A utilização de um edifício histórico para música urbana contemporânea sintetiza a proposta de ressignificação dos espaços. A festa busca transformar temporariamente o uso dos locais, sem romper com seu valor patrimonial. A programação de 2026 também destaca iniciativas ligadas à cena independente e a projetos multidisciplinares. No bairro do Marais, o novíssimo espaço Sabiá Arte & Cultura reúne música, artes visuais e intervenções urbanas. Para Anderson Vital, também conhecido como DJ Sabiá, a iniciativa exigiu um set list caprichado. “Preparei um set com música brasileira, de São Paulo, de Adoniran Barbosa, até o carimbó do Pará, na voz de Eliana Pittman. Então vai ter samba, vai ter groove, vai ter tropicália, forró, carimbó, e algumas surpresas da variedade francesa”, disse à RFI. O espaço também recebe o coletivo Casa Moyo, voltado à promoção de artistas emergentes e à criação de projetos colaborativos. A organização define sua atuação como a construção de uma comunidade criativa baseada em encontros e experimentação artística. Segundo Julia Vital, cofundadora do centro cultural, os organizadores decidiram “[se] aproximar da Casa Moyo, que é um coletivo de artistas, uma casa criativa que gera uma comunidade artística. Esse coletivo defende a ativação dos espaços, a conexão entre culturas e a criação de experiências”. Ela conta ainda que “há pintores, grafiteiros, músicos, DJs, criadores de moda, fotógrafos e designers. A ideia é que nada seja fixo e que as culturas dialoguem, e as estéticas se misturem”. Vital reforçou que o coletivo reúne artistas de áreas diversas e propõe ativar espaços, conectar culturas e criar experiências. "Vamos apresentar várias disciplinas nesta edição do evento. Haverá exposição de imagens com fotógrafos, há designers gráficos, e há também produção de eventos. Para eles, a ideia é de que nada é fixo e que as culturas dialogam, e as estéticas se misturam. Isso fez muito sentido para nós quando os encontramos, e, como acabamos de abrir a loja, quisemos fazer algo juntos", conclui. Circulação Em parques como o Parc des Buttes‑Chaumont, a expectativa é de grande circulação ao longo do dia. A dinâmica da festa incentiva deslocamentos sem roteiro definido, permitindo ao público alternar entre apresentações. A prática de percorrer diferentes bairros é parte central da experiência. Sem programação centralizada, o evento valoriza a descoberta e o contato direto com manifestações variadas. Embora inspiradora para iniciativas internacionais, a Festa da Música não tem equivalente nacional com a mesma abrangência no Brasil. Ainda assim, cidades brasileiras realizam programações gratuitas e eventos que se aproximam da proposta original. A principal diferença está na escala e na ocupação simultânea do espaço urbano, mais estruturada na França. Ao fim da jornada musical, a cidade reafirma a capacidade de se transformar em palco aberto, reunindo estilos, origens e formatos diversos em uma mesma celebração.

A Cooperativa-Museu Cérès Franco, no sudoeste da França, abriga a coleção de arte única e excepcional da crítica de arte, curadora e galerista brasileira. Depois de três anos fechada para reforma, a instituição, instalada em uma antiga cooperativa vinícola de Montolieu, reabre a partir de 20 de junho. Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Montolieu A gaúcha Cérès Franco (1926-2021) foi uma pioneira. Ela inovou a cena artística parisiense depois de se instalar na França nos anos 1950, inicialmente como crítica de arte. Ao organizar uma primeira exposição, em 1962, intitulada "L'oeil de Boeuf", ou Olho de Boi, ela pediu aos artistas que realizassem somente obras em formato redondo ou oval, rompendo com o padrão quadrado vigente e desafiando a estética burguesa. O princípio norteou o seu percurso. Em 1972, ela foi a primeira brasileira a abrir uma galeria de arte em Paris, batizada naturalmente de L'Oeil de Boeuf. Cérès Franco, que conhecia e frequentava todos os grandes artistas da época, de Picasso a Cocteau, defendia uma arte sem fronteiras. Ela também foi uma das primeiras a divulgar na França a arte bruta e naïf brasileira, na época ainda pouco conhecida e marginalizada. A galerista estabeleceu um diálogo entre artistas populares e autodidatas com as vanguardas artísticas do Brasil, da Europa e de outras regiões. Para o diretor da Cooperativa-Museu Cérès Franco, Maximilien Fortier, a “liberdade” define a singularidade da colecionadora brasileira. “O destino de Cérès Franco é particular e muito pessoal. Raramente uma pessoa na história da arte misturou tanto o pessoal e o profissional, especialmente no que diz respeito aos seus amigos, que eram quase todos artistas, para os quais ela solicitava produções com muita frequência. O que também é bastante original é o fato de ela apreciar muito a figuração, a cor e o aspecto internacional. Um termo que a define, e com o qual ela mesma se definia, é, acima de tudo, a liberdade”, afirma Fortier. Em 1995, a brasileira fechou a galeria em Paris e instalou sua vasta e singular coleção de arte moderna e contemporânea em duas casas em Lagrasse, no sudoeste da França, que abriu ao público. Seis anos antes de morrer, ela doou, em 2015, a coleção de 1763 quadros, de artistas de 39 nacionalidades, a Montolieu, um vilarejo de apenas 800 habitantes, mas com 16 livrarias, conhecido como cidade do livro e das artes. A coleção foi instalada em uma antiga cooperativa vinícola. O belo prédio, em estilo art déco, passou por reformas durante três anos para melhorar sua acessibilidade. Antes da reabertura, a instituição ganhou, em dezembro de 2025, o selo de Museu da França. “Integrar a grande rede dos 1.200 museus da França, presentes em todo o território francês, era algo que Cérès Franco desejava conceder à sua coleção para poder preservá-la, especialmente garantindo sua transmissão às gerações futuras”, salienta o diretor. “Temos também a missão de dinamizar a cultura no meio rural e mostrar que todas as nossas regiões possuem pequenos tesouros, como o nosso museu”, acrescenta. Duas exposições na reabertura A Cooperativa-Museu Cérès Franco reabre com duas exposições. A mais importante delas, “Les aventuriers de l'oeil-de-boeuf” ou Os aventureiros do Olho de Boi, reúne 185 obras, de 100 artistas, para retraçar parte de seu percurso e homenagear a colecionadora brasileira. “'Les aventuriers de l'œil-de-bœuf' é uma exposição que reconstrói a trajetória de Cérès Franco entre 1962 e 1972, ou seja, o período em que ela foi curadora e em que vemos que, partindo da crítica de arte e da escrita, ela acabará se tornando galerista”, explica Maximilien Fortier. Artistas de 25 nacionalidades estão representados nessa primeira mostra, entre eles cerca de vinte artistas de origem brasileira. “Essa é uma característica da Cérès Franco, que expôs bastante a arte naïf brasileira e buscou, por meio do 'L'œil de bœuf' e de diversas outras exposições, valorizar as obras de seu país natal”, detalha o diretor do museu. Entre os brasileiros expostos ou que integram a coleção estão Frans Krajcberg, Flávio Shiró, Waldomiro de Deus, Eli Heil, Pedro Paulo Leal e Gontran Netto, que fez o retrato de Cérès Franco no círculo central da bandeira do Brasil. Gontran era um exilado político brasileiro e, assim como ele, outros artistas refugiados da América do Sul ou da Europa do Leste também integram a coleção eclética de Cérès Franco. “Corneille, Chaïbia, Cérès Franco des poèmes pour le monde” ou poemas para o mundo é a segunda exposição montada para a reabertura da Cooperativa-Museu de Montolieu. Desconhecida no Brasil "Estou bastante surpresa e bastante feliz com essa visita", comentou a jornalista brasileira e editora da revista francesa "Beaux Arts" Débora Bertol, que não conhecia muito bem o trabalho de Cérès Franco. “Ela foi uma pioneira da crítica de arte aqui na França, e mesmo na história da crítica de arte, essa galeria L'Oeil de Boeuf foi realmente um lugar superimportante para as vanguardas artísticas da escola de Paris, nos anos 70 e 60”, ressalta a jornalista. Débora Bertol acredita que a reinauguração do Museu Cérès Franco irá contribuir para o devido reconhecimento da brasileira. “Eu acho que a gente vai ouvir falar bastante dela agora, nesses próximos meses. É interessante porque os franceses também vão redescobrir essa personalidade que é interessante não só para o Brasil, em termos de história da arte, da crítica de arte brasileira, mas da França e internacional também, porque ela trabalhava com artistas do mundo todo”, espera. A jornalista, que estudou história da arte e crítica de arte, é categórica ao afirmar que nem no Brasil, onde fez exposições importantes na época da Ditadura Militar, Cérès Franco “é tão conhecida como deveria ser. E talvez esse seja o primeiro passo para restabelecer o papel dela na crítica de arte mundial, como uma brasileira”, torce. Mulher e brasileira Cérès Franco também foi singular ao se impor como mulher e estrangeira em um meio artístico ainda dominado por homens franceses, ressalta Maximilien Fortier. “O fato de ela ser uma mulher extraeuropeia em um ambiente masculino e francês, na Paris dos anos 1960, entre 1962 e 1972, marcou profundamente sua trajetória e fechou muitas portas. No entanto, podemos dizer que tudo terminou bem, já que hoje sua coleção está preservada e integra o patrimônio francês, acessível a todos”, relativiza. Para Débora Bertol, a curadora e galerista brasileira teve uma coragem extrema “porque realmente se lançar numa aventura dessas, sendo estrangeira, sendo mulher, é muito corajoso, é bastante impressionante o percurso dela. Ela deve ter batalhado muito para se impor e conseguir fazer valer a visão dela. Mas ela conseguiu e construiu uma coleção excelente”. As duas exposições de reabertura da Cooperativa-Museu Cérès Franco em Montolieu ficam em cartaz de 20 de junho de 2026 a 3 de janeiro de 2027, quando outras mostras, revelando novos aspectos da coleção e do percurso singular da galerista e curadora brasileira, serão montadas. Para saber como chegar e visitar o Museu Cérès Franco clique no link. A descoberta da região e do museu vale a pena.

Armas, munições, veículos blindados e drones. Em um momento de aumento dos gastos militares e de intensificação das tensões internacionais, a Eurosatory 2026 reúne em Villepinte, na Grande Paris, um dos maiores encontros da indústria de defesa do mundo. Ao circular pelos pavilhões do evento, não é difícil imaginar como é o front. Maria Paula Carvalho, da RFI Em um cenário internacional cada vez mais tenso, países ampliam investimentos em defesa sob o argumento de garantir a paz, impulsionando um mercado em plena expansão. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares globais atingiram 2,7 trilhões de dólares em 2024, o maior valor já registrado, com aumento de 9,4% em relação ao ano anterior. A Eurosatory coincide com a cúpula do G7 na França, que reúne líderes mundiais, incluindo Donald Trump, para discutir os principais conflitos internacionais. "Os gastos e os orçamentos estão aumentando significativamente em todos os países, principalmente na União Europeia. Isso é o que eu chamo de oportunidade", analisou em entrevista à RFI o secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa brasileiro, tenente-brigadeiro Heraldo Luiz Rodrigues, que veio a Paris participar da Eurosatory. O Brasil marca presença, ele destaca. "São 24 empresas brasileiras de defesa expondo nesta feira, que é gigante — talvez a maior do mundo nessa área — e tenho certeza de que vamos fazer bonito e ter resultados expressivos." O setor já movimenta cifras relevantes para o país. "Nós temos muita capacidade, muita tecnologia, empresas excelentes para produção de armamento. Temos cerca de US$ 4 bilhões em exportações por ano — não é uma coisa trivial — e esperamos aumentar esse volume com o passar do tempo", completou. "A indústria de defesa brasileira está preparada para acompanhar esse aumento da produção global," concluiu o tenente-brigadeiro Heraldo Luiz Rodrigues. Com mais de 2 mil expositores de 65 países, a Eurosatory reúne o que há de mais avançado em tecnologia militar. Até sexta-feira (19), empresas e delegações buscam ampliar contatos e fechar negócios. "Ver e ser visto" Entre os brasileiros, a Cinadra aposta na internacionalização. A empresa fabrica componentes para bombas e munições e atua nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. O CEO Marcello de Brito Meira destaca a importância da visibilidade no evento: "É o famoso ver e ser visto, num mercado global. O Brasil já foi um grande player e está voltando a se projetar nesse mercado. Então, para a gente, estar aqui é muito importante." Ele ressalta o modelo de atuação da companhia: "Nós fabricamos no Brasil componentes para bombas, munições de artilharia, infantaria e carros de combate, tudo exportado para o mundo, tecnologia brasileira." E completa: "Vendendo componentes, eu tenho acesso a mais mercados. Eu não sou competidor de ninguém, então consigo fornecer para várias empresas da mesma área." O coronel Antônio Ribeiro, diretor de promoção comercial da Abimde — a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança — afirma que as empresas vêm à feira em busca de diferentes oportunidades: contratos, novos fornecedores, representantes comerciais no exterior e também para fazer benchmarking de seus produtos, avaliando se estão alinhados com a demanda do mercado. "A França é um ponto de encontro. Iremos receber aqui delegações da África, da Ásia e até da América do Sul", completa. "Não somente a França, mas todo esse entorno geográfico acaba refletindo e ressentindo essa movimentação política e geopolítica que a Europa está vivendo, desde o conflito na Ucrânia até essa mudança de postura de outros players. Há também a questão da migração descontrolada, que gera um problema não apenas de defesa, mas de segurança pública. Então, este é um local muito adequado para discutir todos esses aspectos", conclui. "Espaço Brasil" O Espaço Brasil reúne empresas de áreas como comunicação, comando e controle de drones, cibersegurança, engenharia de sistemas e suporte logístico. O estande conta com apoio também da ApexBrasil, agência de promoção de exportações. Para o especialista em negócios internacionais da entidade, Daniel Pirola, a feira tem alcance global: "É a principal feira da Europa. Daqui, a gente consegue vender não só para a Europa, mas também para o Oriente Médio e boa parte da Ásia. Esta feira é uma referência mundial e, para nós, é uma baita oportunidade." Ele destaca ainda o crescimento da participação brasileira: "Este ano, estamos batendo um recorde de expositores." E avalia o contexto internacional: "O mundo inteiro está se armando, isso já é um fato, e tem sido bom também para as empresas brasileiras de defesa." Segundo Pirola, o país oferece uma ampla gama de produtos: "Desde software de sistemas até logística, armas e equipamentos, como coletes à prova de balas. O Brasil tem praticamente tudo o que um Exército precisa." Realizada a cada dois anos, a Eurosatory combina feira comercial, demonstrações militares e debates, refletindo as tensões do cenário geopolítico atual. Em meio a conflitos como a guerra na Ucrânia e a instabilidade no Oriente Médio, a demanda por equipamentos militares cresce no mundo todo. Nesse contexto, o Brasil tenta se posicionar como fornecedor competitivo. Para o general de brigada Diógenes de Souza Gomes, o principal diferencial do país é o capital humano: "A nossa maior capacidade, a nossa maior força é o nosso pessoal. Temos um recurso humano diferenciado (...) quando falamos que estamos um pouco atrasados em tecnologia, talvez seja por falta de investimento." Ele ressalta, no entanto, as limitações orçamentárias. "O Exército tem restrições que acabam limitando esse avanço tecnológico", aponta. Apesar disso, destaca avanços concretos: "Hoje, o Brasil detém a tecnologia de um míssil anticarro fabricado totalmente no país, no estado da arte, com um custo muito reduzido." E reafirma o papel institucional da força: "O Exército brasileiro mantém sua missão de defesa da soberania e da segurança das nossas fronteiras, protegendo um país gigantesco, com riquezas incontáveis." Restrita a profissionais credenciados, entre militares, autoridades e representantes da indústria, a Eurosatory inclui conferências, demonstrações ao vivo e espaços dedicados à inovação. No conjunto, o evento se consolida como uma das principais vitrines globais do mercado de defesa.

Santo Antônio, um dos santos mais populares em Portugal, é comemorado de formas muito diferentes em todo o mundo neste mês de Junho. Do Brasil à Índia, do Timor a Macau, a devoção ao religioso foi difundida pelos portugueses. Conhecido como o santo casamenteiro, Santo Antônio é bastante celebrado no Brasil com encenações de casamentos, simpatias, bandeirinhas coloridas e comidas típicas. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Basta entrar o mês de junho para que os brasileiros comecem a se programar para as tradicionais festas juninas. Nesta época, os arraiás se espalham por todo o país, de norte a sul, ganhando contornos e sabores regionais. Santo Antônio é o primeiro a ser homenageado, no sábado, 13 de junho, data em que é aberta a temporada dos festejos dos santos populares, que reúne milhões de pessoas e movimenta bilhões de reais, ficando atrás apenas do Natal e do Carnaval. São muitas as tradições ligadas ao religioso, e o “pão de Santo Antônio”, costume que vem da França do século XIX, é uma das mais populares em Portugal. O antropólogo Pedro Teotónio Pereira, diretor do Museu de Santo Antônio em Lisboa, explica à RFI que “o pão é vendido nas igrejas de Santo Antônio e deve ser guardado de um ano para o outro para que não falte alimento em casa”. Santo Antônio, o casamenteiro, ganhou essa fama no século XVII, em Portugal, quando ajudou uma mulher a se casar com quem realmente amava, em uma época em que os matrimônios eram arranjados pelos pais. Mas os pedidos para que Santo Antônio arranje namorados ou maridos permanecem atuais nos dois lados do Atlântico. Caso eles demorem a ser atendidos, o santo é mergulhado de cabeça para baixo na água, virado para a parede ou colocado em um poço, até que o protetor das moças encontre um amor para as donzelas, ou nem tanto assim. Vida & obra Santo Antônio, ou Fernando Martins de Bulhões, nasceu em 1191, em Lisboa, em plena reconquista da Península Ibérica pelos reinos cristãos das mãos dos muçulmanos. Segundo filho de uma família burguesa, coube a Fernando escolher entre a carreira militar ou a vocação religiosa. Aos 18 anos, ele decide tomar o hábito de Cônego Regrante de Santo Agostinho e, mais tarde, segue para Coimbra, onde vive mais dez anos, aprofundando os seus estudos e conhecimentos. Em Coimbra, ele encontra cinco frades franciscanos que iriam evangelizar o Marrocos, mas que são martirizados quando chegam ao país. Os restos mortais dos frades são enviados de volta a Coimbra, e o noviço Fernando fica tão abalado com o episódio que decide passar para a Ordem dos Franciscanos, mudando o seu nome para Antônio. Santo Antônio tinha uma inteligência fora do comum e um conhecimento extraordinário; ele sabia a Bíblia quase de cor. Segundo Pedro Teotónio Pereira, São Francisco de Assis vai entender que é preciso alguma erudição, além de ajudar os pobres. “Santo Antônio revela todo o seu conhecimento que tinha das Escrituras e vai ser considerado por São Francisco o primeiro teólogo franciscano”, ressalta. O Milagre dos Peixes Não se conhecem milagres de Santo Antônio em vida; só depois é que vão sendo revelados. Quando ele morreu em Arcela, nos arredores de Pádua, as crianças nas ruas intuíram e começaram a gritar: Morreu o Padre Santo! Morreu Santo Antônio! Quando o seu corpo foi transladado para Pádua, três dias depois de sua morte, há relatos de muitos milagres, e são estes milagres que vão acompanhar o seu processo de beatificação. “Santo Antônio distingue-se como um grande taumaturgo; ele é conhecido pela quantidade de milagres que fez. É curioso porque, no processo de beatificação de Santo Antônio, os seus milagres foram muito ligados à cura de doentes. Só mais tarde vão ser acrescentados, ao longo dos anos, outros tipos de milagres”, comenta o antropólogo. O Sermão aos Peixes é o milagre mais famoso de Santo Antônio e acontece quando o religioso vai a Rimini, na Itália, para tentar converter os hereges. Sem sucesso, Santo Antônio anda até o mar e fala com os peixes: “vocês também são filhos de Deus e entendem o que eu tenho a dizer”. É quando peixes começam a aparecer, de cabeça de fora, mostrando atenção ao seu sermão. Isso provoca um impacto muito grande junto aos hereges que estavam assistindo à cena e, assim, Santo Antônio consegue convertê-los. Festas nas ruas de Lisboa Em junho, Lisboa traz o seu coração para fora e comemora o Sant'Antoninho, um dos padroeiros da cidade, tratado quase como um membro das famílias portuguesas. Os lisboetas se alegram nos arraiás celebrados nos bairros populares, onde se vendem sardinhas e chouriço assados. A programação é extensa nesta sexta-feira e sábado, com destaque para os casamentos de Santo Antônio celebrados na Igreja da Sé, a bênção com a relíquia do santo, as missas, as marchas populares na Avenida da Liberdade e a procissão de Santo Antônio, que percorre o bairro de Alfama e convida as imagens de São João, São Miguel, Santo Estevão, São Vicente e São Tiago a participarem da procissão. O Museu de Santo Antônio de Lisboa é um mergulho na vida e na obra do religioso. É possível acompanhar o percurso deste santo, protetor dos lares e das famílias, padroeiro dos marinheiros, pescadores e animais, entre outros. Também conhecido como Santo Antônio de Pádua, onde viveu os seus últimos anos de vida e onde teve a aparição do Menino Jesus.

Com o torneio de Roland-Garros chegando ao fim, o desempenho do carioca João Fonseca, que alcançou as quartas de final, trouxe entusiasmo aos torcedores brasileiros. Mas não foi apenas no circuito profissional que o país chamou atenção em Paris. A participação consistente das novas gerações, nas categorias juvenis, indica um cenário promissor para o tênis nacional nos próximos anos. Maria Paula Carvalho, de Roland-Garros A avaliação é compartilhada por um nome experiente do circuito. O duplista Marcelo Demoliner, que chegou às quartas de final nesta edição do torneio, vê um momento especialmente positivo para o tênis no Brasil. “Eu acho que o tênis brasileiro está vivendo um momento maravilhoso, tanto no profissional, como isso também faz com que a nova geração acredite mais nela, vendo que os profissionais estão chegando”, disse em entrevista à RFI. "O contato que temos com eles é importante para passar experiência e confiança de que eles também podem chegar. A gente vai ter aí uns dez anos de um bom ciclo no tênis brasileiro”, aposta. Nas arquibancadas, o entusiasmo também é evidente. A torcedora Gabriela Costa destacou o nível apresentado pelos jovens atletas. “É muito impressionante. O nível dos juniores já é impressionante de ver. A próxima geração está vindo forte, inspirada pelo João”, disse. Os resultados confirmam essa impressão. Jovens tenistas brasileiros acumulam vitórias importantes em simples e duplas, evidenciando a força da base e a renovação do esporte. Entre os destaques, o goiano Luis Guto Miguel, de 17 anos e número 4 do mundo no ranking juvenil, alcançou a semifinal, ao vencer, na quinta-feira (4), o austríaco Thilo Behrmann por dois sets a um, com parciais de 6/4, 1/6 e 6/3. Já Leonardo Storck França avançou após derrotar o americano Jack Kennedy com um tie break nas quartas de final por 6/3 e 7/6 (7-1). O percurso até esse nível é resultado de anos de trabalho. Eduardo Frick, CEO da Rio Tennis Academy, onde Leonardo treina, detalha essa trajetória. “O Leonardo está conosco desde os 13 anos. Ele chegou de Cuiabá e mora na academia. É um trabalho de quase três anos e meio. Ele conquistou a vaga ao vencer o Roland-Garros Junior Series, um projeto de parceria entre a Federação Francesa de Tênis e a Federação Sul-Americana”, explica. Frick também destaca características técnicas do atleta: “Ele tem um diferencial que eu gosto muito, que é a esquerda com uma mão. Hoje em dia isso é raro. Mas ele precisa transformar isso em vantagem. É um menino com um jogo bonito, com muita garra e evolução mental.” Victoria Barros, um talento em ascensão Outro nome que chamou atenção foi o da jovem Victoria Luiza Barros. A brasileira se classificou para a semifinal nesta quinta-feira, após uma virada sobre a sul-coreana Ha Num Lee, com parciais de 2/6, 6/1 e 6/4 — resultado superior ao desempenho de 2025, quando parou na terceira rodada. A tenista destaca a importância da consistência no processo. “Eu sou muito focada no dia a dia, em cada momento na quadra, em cada bola. Venho de bons jogos e de um bom processo. Claro que trabalho para chegar ao profissional, mas é passo a passo. Fico feliz com o reconhecimento, confio em mim, mas preciso seguir no meu ritmo”, disse à RFI. Essa confiança, sobretudo o talento, chamou a atenção de quem acompanha de perto o tênis feminino latino-americano. Após a carreira como jogadora, Claudia Van der Weck consolidou-se como treinadora internacional, atuando especialmente na formação de atletas e no circuito juvenil. Depois de trabalhar com nomes de destaque do tênis brasileiro, como a gaúcha Miriam D'Agostini, ela afirmou à RFI que viu algo diferente na jovem Vitória. “Eu fiquei em estado de choque. Assisti ao jogo e não podia acreditar no que estava vendo. Porque eu conheço três ou quatro gerações de brasileiras, incluindo a Maria Esther Bueno, mas nunca vi um talento como Victoria Barros. Além de ter todos os golpes, ela tem uma direita muito forte, talvez como a Sabalenka, quando ela acelera e imprime muita potência”, afirma. "Eu vi isso na Barros e fiquei em choque. Depois vi o saque e fiquei apaixonada, pois é tecnicamente perfeito. Vi algo que não via há muito tempo: ela desfruta do jogo. Eu vi uma quantidade de coisas que, em 15 anos, eu não via em uma juvenil no mundo. Ela é um diamante”, compara. Mesmo aqueles que não avançaram no torneio mantêm a ambição. O brasiliense Pedro Chabalgoity, 18 anos, sonha com o futuro. “Quero voltar aqui. Tenho o sonho de ganhar esse torneio, mas é pensar no passo a passo. Pensar muito no futuro traz ansiedade”, diz. O contato direto com o circuito profissional também tem impacto importante na formação dos jovens. Nauhany Vitória Leme da Silva, a Naná, 16 anos, destacou a inspiração ao conviver com atletas de elite. “Fico muito feliz de estar aqui com os profissionais. Ontem a Bia Haddad Maia estava assistindo ao meu jogo. É uma referência. Ver como elas treinam, como se comportam, isso é muito importante”, afirma. Transição promissora A edição de 2026 de Roland-Garros já entrou para a história do tênis brasileiro. Até o momento, é o Grand Slam com maior número de vitórias do país: 35 ao todo, superando as 26 registradas no US Open de 2014. O desempenho coletivo reforça a percepção de que o Brasil atravessa uma fase de transição promissora, com uma nova geração capaz de sustentar resultados no médio prazo e ampliar a presença do país no cenário internacional.

Com temperaturas excepcionalmente altas em Paris, o público tem lotado o complexo de Roland-Garros, na zona oeste da capital francesa, onde são disputados esta semana os torneios de simples e de duplas do Grand Slam francês no saibro. Sob sol forte, os torcedores enfrentam o calor para acompanhar de perto os jogos e também para apoiar os brasileiros na competição. Maria Paula Carvalho, de Roland-Garros “Está difícil, mesmo para um carioca está muito difícil, porque a maioria das quadras externas ficam no sol o dia todo e tem uma hora que o carisma acaba”, relatou à RFI a torcedora Júlia Febraro. Se nas arquibancadas o calor impõe desafios, dentro de quadra as condições também influenciam diretamente o jogo. O carioca Fernando Romboli, número 73 do ranking da ATP de duplas, foi um dos afetados. Ele perdeu na estreia ao lado do australiano John-Patrick Smith, por dois sets a um. “Está fazendo esse calor aqui em Paris já há uns cinco ou seis dias, então as condições a gente já estava acostumado. A bola quica mais por causa do calor, porque ela fica mais dura. Quando há umidade, mais frio, a bola fica mais macia, então ela anda menos, pica menos na quadra e o jogo fica mais lento”, explicou o tenista. Além de Romboli, outros três brasileiros entraram em quadra, na quarta-feira (27) pelo torneio de duplas. A única a avançar para a próxima fase foi a paulista Luisa Stefani. Aos 28 anos, número 9 do ranking de duplas da WTA, ela estreou com vitória ao lado da canadense Gabriela Dabrowski, número 4 do mundo na modalidade. A dupla chegou embalada pelo título do WTA 500 de Estrasburgo, conquistado na semana passada, e confirmou o bom momento em Paris, com triunfo em sets diretos, por 6/2 e 6/3, contra a holandesa Isabelle Haverlag e a britânica Maia Lumsden. “Estou super feliz de estar de volta. Sempre vejo como uma linda oportunidade estar de volta em um Grand Slam, é onde a gente quer ter as nossas melhores semanas. E estou feliz com a estreia também", disse. "Está bem calor e as condições estão mais rápidas, diferente de Estrasburgo. A gente vem de um título lá, então acho que é continuar com as mesmas intenções, melhorando, usando essa confiança, mas sentindo o jogo. Hoje elas acabaram dando muitos pontos de graça, a gente manteve a pressão do começo ao fim, sabendo que impondo o nosso jogo elas teriam que jogar bem, mas a gente fez um jogo bem firme”, analisou Stefani. "Frustração" nas duplas masculinas Já os gaúchos Orlando Luz e Rafael Matos, que estrearam como cabeças de chave número 16, foram eliminados na primeira rodada. Eles foram superados pela dupla formada pelo americano Evan King e o sueco Andre Goransson, em dois sets. Os brasileiros chegaram a sair na frente, mas viram os adversários levarem o primeiro set ao tiebreak e dominar o restante da partida. Após a derrota, Orlando Luz lamentou o resultado e destacou a expectativa da dupla em torneios desse nível. “Não tem como entrar num torneio sem expectativa. A gente queria fazer um bom torneio, uma boa semana, como todos os outros. A gente fez quartas de final na Austrália, ano passado eu tinha feito quartas aqui, o Rafa fez quartas em Wimbledon. Em Grand Slam a gente sempre imagina chegar na segunda semana, é o objetivo. Então fica um pouco a frustração”, disse à RFI. Rafael Matos volta à quadra nesta quinta-feira (28) para a disputa de duplas mistas, ao lado da espanhola Cristina Bucsa. O tenista ressaltou a importância de virar a página após a eliminação. “Melhor de três tem que ganhar dois sets, perder o primeiro vai acontecer muitas vezes, hoje a gente deixou cair nesse início e eles aproveitaram, fizeram a quebra e mantiveram até o final", avaliou. "Agora vamos esquecer hoje e amanhã é um novo dia, uma nova competição. Assim é o tênis, uma nova semana, jogo a jogo”, afirmou. João Fonseca enfrenta Djokovic A grande expectativa do Brasil em Roland-Garros segue sendo o carioca João Fonseca. Na quarta-feira, ele venceu de virada o croata Dino Prizmic, número 72 do ranking da ATP de simples. O brasileiro vai enfrentar, pela primeira vez, o sérvio Novak Djokovic, na sexta-feira (29), pela terceira rodada do torneio. Em entrevista aos jornalistas após a partida, disse: “Vai ser duro. Quero aproveitar essa experiência, mas chegar à terceira rodada já é um sonho. Eu o respeito, mas farei o máximo para vencer”. Fora das quadras, o jovem tenista mobiliza torcedores. "Fomos buscar, brasileiro é guerreiro. Estamos aqui no sol, mais de 5 horas em pé, mas o João mereceu muito", disse Gabriel Batista, médico de passagem por Paris. Uma família que veio de São Paulo acompanhou de perto um treino do brasileiro e comemorou o contato com o jogador. “Muito quente, mas muito legal. Muitos jogos importantes. Acabamos de ver o João Fonseca treinando com as crianças e eles ficaram muito felizes de vê-lo. Ele autografou a bola, e hoje até os pais viraram crianças”, contou um dos integrantes. O entusiasmo se repete entre brasileiros que vivem em Paris. Para Bernardo, professor carioca radicado na capital francesa, o apoio das arquibancadas pode ser um diferencial. “Eu acho que ele tem carisma, ele é do Rio, a gente também, isso conta. E o estilo de jogo dele: tem um saque e uma direita impressionantes. A energia que ele passa é muito legal”, avaliou. Com o respaldo da torcida e em meio a condições desafiadoras, João Fonseca tenta avançar no torneio e confirmar o bom momento do tênis brasileiro em Roland-Garros.

A nova Lei da Nacionalidade, que acaba de entrar em vigor em Portugal repleta de alterações, mudou o destino de milhares de pessoas, entre elas, os descendentes de judeus sefarditas, agora impedidos de obter a cidadania portuguesa. Desde 2015, quem comprovasse a descendência dos antigos judeus ibéricos perseguidos podia se naturalizar no país sem os habituais requisitos de residência e domínio da língua. Mais de 400 mil processos de nacionalidade pela via da descendência sefardita ainda aguardam resposta do governo português. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Há mais de 500 anos, Portugal expulsou milhares de judeus de seu território e obrigou os que ficaram a se converter ao catolicismo. Uma reparação histórica foi aprovada em 2015, mas as portas se fecharam agora com a nova Lei da Nacionalidade. Para a comunidade, o fim do regime especial de concessão da cidadania portuguesa pela ancestralidade sefardita inviabilizou bem mais do que um meio de adquirir a nacionalidade. A mudança impediu um retorno simbólico às raízes dos antepassados que viveram em Portugal antes da diáspora. A antropóloga Marina Pignatelli, professora de antropologia da Universidade Técnica de Lisboa (ISCSP) e pesquisadora do CRIA, Centro em Rede de Investigação em Antropologia, diz que “muitos requerentes ao fazerem a busca genealógica encontraram essas raízes judaicas e se encantaram com elas. Eles acabaram por desenvolver uma ligação forte com Portugal, com as terras onde os antepassados tinham origem”. Pignatelli tem uma impressão ambivalente sobre as mudanças na lei. “Por um lado a lei foi justa, devia continuar aberta, porque se é uma reparação histórica não deveria ter um limite temporário. Mas por outro lado, a lei foi toda mal feita desde o início, e os quesitos de como as pessoas deviam fazer o processo foram bastante arbitrários”, esclarece. “Então, isso permitiu que as comunidades judaicas em Portugal criassem critérios diferentes para as pessoas se habilitarem ao passaporte", aponta a antropóloga. "Essa duplicidade criou confusão, dúvidas sobre o processo e começaram a haver críticas em nível político ao governo português por estar 'vendendo' os passaportes. E isso nunca devia ter acontecido. Isso é um processo de reparação histórica que não devia ter a ver com política, nem com mercantilização”, conclui. A advogada Ana Pacheco Araújo, especialista em imigração e direito internacional afirma que as pessoas que foram afetadas pela extinção desta via sefardita vão sofrer consequências em muitas décadas. “Nós vamos ter famílias inteiras em que metade é portuguesa, metade não é. Ou que o pai é, e o filho não é; que o filho é, e o pai não é. Então, é necessário também algum tipo de legislação para resolver estas questões mal resolvidas pela Assembleia da República”, pondera. Pacheco Araújo chama a atenção para a forma abrupta da mudança do sistema. "Não se trata de término de direito por limitação da própria reparação ou que a reparação histórica já foi realizada. A limitação se dá pela ingerência estatal em não conseguir analisar os milhares de processos que estão sendo submetidos, em não criar regulamentação da lei, e com isso, a grande culpa foi jogada aos descendentes, e não na falta de estruturas mais rígidas de análise, o que é muito complicado porque o objetivo pelo qual a lei foi criada simplesmente foi esvaziado.” Quando o presidente português, António José Seguro, promulgou a nova Lei da Nacionalidade, no início do mês, ele pediu que os processos pendentes não fossem afetados. Com a publicação da lei e suas alterações no Diário da República, o Instituto dos Registos e do Notariado (IRN), órgão do Ministério da Justiça de Portugal, confirmou que o que irá definir a aplicação ou não das novas regras é a data de submissão do pedido de cidadania na plataforma online do IRN. Há cerca de 700 mil processos em curso no IRN, sendo a maioria de brasileiros. Mais da metade dos pedidos de nacionalidade portuguesa pendentes são de descendentes de judeus sefarditas. O empresário mineiro Sérgio Mendes conseguiu comprovar suas raízes judaicas ainda quando morava no Brasil. No ano passado, quando recebeu o título de residência, decidiu mudar para Portugal com a família; mas assim como milhares de pessoas, Sérgio está aguardando a cidadania portuguesa pela via sefardita. “No início, fiquei decepcionado com as mudanças da lei, mas mesmo assim vou continuar morando aqui em Portugal esperando o meu processo avançar”, conta. Jordania Benevides, presidente da Associação dos Descendentes de Judeus Sefarditas em Portugal, comenta que o fim da concessão da cidadania portuguesa provocou decepção na comunidade, que se mobiliza. "Nós protocolamos uma petição junto ao Parlamento e os descendentes não a estão assinando porque estão descrentes com a nova lei. Eles acreditam que não tem como retornar, e isso gera um sentimento de tristeza e uma grande decepção", relata. Origem Os judeus sefarditas são descendentes das antigas e tradicionais comunidades judaicas da região de Sefarad, na Península Ibérica. A presença deste povo na Ibéria – nome dado à região pelos romanos em homenagem ao rio Iberus, o Ebro – é anterior à formação dos reinos ibéricos cristãos como Portugal, que foi criado no século XII. A partir do final do século XV, essas comunidades judaicas começaram a ser perseguidas pela Inquisição espanhola e muitos de seus integrantes se refugiaram em Portugal. Na época, o rei D. Manuel I promulgou uma lei que garantia proteção dos judeus sefarditas. Porém, em 1496 o monarca determinou a expulsão de todos os que não se sujeitassem ao batismo católico. Foi quando muitas famílias hebraicas abandonaram o país e se estabeleceram em outras nações mais tolerantes, entre elas, o Brasil que acabava de ser colonizado. Com a conversão forçada, decretada por D. Manuel I, deixaram então de existir oficialmente judeus em Portugal. A denominação cristãos-novos escondia a origem judaica. Os judeus sefarditas de origem portuguesa e seus descendentes mantiveram não só a língua portuguesa mas também seus sobrenomes. Os sobrenomes dos judeus sefarditas mais frequentes no Brasil e que constavam nos arquivos da Inquisição são: Albuquerque, Almeira, Álvares, Azeredo, Barros, Bragança, Branco, Cardoso, Carneiro, Carvalho, Castelo Branco, Chaves, Coelho, Correia, Cruz, Cunha, Dantas, Espírito Santo, Ferreira, Fonseca, Henriques, Jesus, Leão, Lobo, Lopes, Macedo, Melo, Mendes, Menezes, Miranda, Monte, Moreno, Negro, Noronha, Oliveira, Pacheco, Paredes, Pereira, Pinheiro, Raposo, Rios, Rodrigues, Santarém, Santos, Serra, Silva, Silveira, Valle, Vasconcelos e Ximenes.

A coprodução brasileira "Seis Meses no Prédio Rosa e Azul", do diretor mexicano Bruno Santamaría Razo, estreou em Cannes na mostra paralela Semana da Crítica. O longa é inspirado nas memórias do cineasta, mais precisamente no momento em que ele tinha 11 anos, nos anos 1990, quando o pai foi diagnosticado com o vírus HIV. Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Cannes O longa foi elogiado pelo jornal Libération. “A memória vibrante do mexicano Bruno Santamaria Razo tem uma audácia incrível”, escreve o diário francês. Rodado em 16 mm, “Seis Semanas no Prédio Rosa e Azul” é um filme híbrido, que mistura ficção e documentário. Com cores vivas e muita alegria, Bruno Santamaría Razo relembra a época de seu aniversário de 11 anos, quando começava a descobrir sua sexualidade e não compreendia completamente a situação após o diagnóstico do pai. A tensão do momento foi esquecida, como um trauma, durante quase 30 anos e veio à tona durante a pandemia de Covid-19. “Durante a pandemia, eu tinha uma sensação de medo, de estranhamento, de incômodo no corpo, e senti que isso tinha relação com a memória do passado. Entrevistei minha família para tentar entender e, depois de entrevistá-los, fiquei muito comovido, muito tocado por algo que tem a ver com a desconfiança. Fiquei muito mais confuso”, conta. Para entender melhor o que estava sentindo, começou a escrever as lembranças que tinha. “Ao escrever, percebi que a memória não era suficiente, como se eu não conseguisse acessar uma emoção real. E, de repente, percebi que comecei a inventar, a inventar deliberadamente, a imaginar. Entrelaçava memória, imaginação, entrevistas. Continuei fazendo isso repetidamente e percebi que estava escrevendo um roteiro de ficção. Naquele momento, me encantei com a ideia de fazer um filme para, a partir da imaginação, voltar a olhar algo que, de outra maneira, seria impossível”, lembra. Bruno Santamaría Razo revela que a tensão entre afeto e sofrimento foi retratada no filme com muita alegria, música e festa, muito presentes em sua família e na cultura mexicana. “Cresci ouvindo muita música salsa. Sou fascinado pela salsa, gosto de dançar, de ouvir. E algo que me emociona muito, que me arrepia, é que as letras falam de sofrimento, de traição, de dor, de morte, mas nós dançamos, cantamos, nos movimentamos. E essa sensação, para mim, era central para entender como vivemos na minha família. Apesar da dor e do sofrimento, colorimos as paredes e nos pusemos a dançar”, afirma. Passado e presente “Seis Semanas no Prédio Rosa e Azul” tem duas camadas. O passado, reconstruído pela ficção, e o presente em uma linguagem documental, feito de entrevistas com a família de Bruno Santamaría Razo. O mexicano já trabalhava no cinema como diretor de fotografia e assina com “Seis Semanas no Prédio Rosa e Azul” seu primeiro longa-metragem. “Queria deixar claro que o filme não é apenas compartilhar uma história, mas mostrar que existe alguém que quer voltar a olhar o passado, que está buscando, que está tentando sentir algo que de outra forma seria impossível no próprio corpo, mas também pela relação entre passado e presente. Ou seja, a encenação é o passado e as entrevistas são o presente. Então esse espaço tão grande de 30 anos entre a lembrança e o momento em que esse jovem decide fazer um filme me interessava muito que estivesse no centro da história”, explica. Rachel Daisy, da produtora Desvia, produziu o longa “Seis Semanas no Prédio Rosa e Azul”. “A gente chegou ao projeto em 2023. Já tínhamos trabalhado com o Bruno Santamaría, que foi diretor de fotografia em outro filme. Eu me apaixonei imediatamente pela história e pela maneira como ele queria contar essa história muito pessoal da família dele. Conseguimos acessar um fundo de coprodução no Brasil nessa altura, ganhamos e seguimos”, conta. Projeto coletivo O longa é uma coprodução do México (Ojos de Vaca), Brasil (Desvia) e Dinamarca (Snowglobe). A pós-produção de “Seis Semanas no Prédio Rosa e Azul” aconteceu principalmente no Brasil, concluindo um projeto “coletivo e colaborativo”, segundo a produtora. “Eu acho que fazer coprodução é muito bonito, porque temos essa possibilidade de troca, de olhares, cultura e maneiras de trabalhar que eu percebo que, no nosso trabalho, sempre beneficiam muito os projetos. O fato de ter uma participação grande brasileira na pós-produção, tanto na montagem quanto no som e nos efeitos especiais, traz a possibilidade de troca, de pensar o filme com um alcance maior. Com certeza contribuiu para o resultado tão lindo do filme”, diz Rachel. Os vencedores da Semana da Crítica foram anunciados nesta quarta-feira, 20. O grande vencedor foi “La Gradiva”, da francesa Marine Atlan. “Seis Semanas no Prédio Rosa e Azul” não foi premiado na mostra paralela, mas o longa de Bruno Santamaría Razo ainda concorre a dois prêmios em Cannes, o Queer Palm e o Caméra d'Or, que recompensa o melhor primeiro filme apresentado em todas as mostras do festival.

O mistério que rondava a convocação da seleção brasileira para a Copa do Mundo acabou. O técnico Carlo Ancelotti definiu nesta semana os 26 jogadores que vão disputar o Mundial deste ano. E no grupo que vai vestir a amarelinha está Neymar. Marcio Arruda, da RFI em Paris O camisa 10 do Santos vai se juntar a um seleto grupo de brasileiros que jogaram quatro Copas. Só Pelé (1958/62/66/70), Ronaldo Fenômeno (1994/98/2002/06), Cafu (1994/98/2002/06), Nilton Santos (1950/54/58/62), Djalma Santos (1954/58/62/66), Castilho (1950/54/58/62) e Emerson Leão (1970/74/78/86) jogaram quatro Mundiais. O técnico Ancelotti, que convocou Neymar pela primeira vez desde que assumiu a seleção, explicou a escolha pelo camisa 10 do Brasil nas últimas três Copas. “Vimos a evolução do Neymar durante o ano e vimos que, nesse último período, ele melhorou sua condição física. O Neymar tem a possibilidade de jogar, de não jogar e de estar no banco e entrar”, explicou Ancelotti. A convocação de Neymar dividiu opiniões por ainda não ter voltado a apresentar o futebol que o mundo já viu. 1% de chance e "100%" de fé O jornalista Carlos Eduardo Mansur, que cobre Copas do Mundo desde 1998, falou sobre a convocação do jogador do Santos. “No fundo, o que me parece é que, diante de uma lista de atacantes do Brasil que não tem tanto peso, ou não tem o peso de outros tempos, prevaleceu uma fé de que, no grande palco, esse talento que está aprisionado num corpo que no momento não permite ao Neymar executar os movimentos técnicos de outros tempos, esse talento vai aflorar e que algo genial, ou algum lampejo, possa acontecer e ser decisivo”, disse Mansur. “Enfim, é um exercício de fé mesmo porque é algo que não vem acontecendo nos jogos do Neymar, mas que se espera que numa Copa do Mundo ele, por ter uma qualidade ainda que guardada ou adormecida, e que outros não têm, possa executar isso.” Seleção é extensão do povo O jornalista Eric Faria, que cobre Copas desde o Mundial disputado na África do Sul, disse que a convocação de Neymar está atrelada à vontade popular. “Nesse ano, o Neymar fez jogos espetaculares a ponto de todo mundo se comover e falar que ele precisaria ir para a Copa do Mundo? Eu não acho. A figura que o Neymar representa para o torcedor brasileiro e a festa que foi feita aqui no Brasil pela convocação dele faz com que a gente tenha de olhar com bons olhos para esta convocação, sabe? Em algum momento, eu achei que ele não deveria ir para a Copa”, declarou Eric. “Agora, talvez olhando para o que foi toda a manifestação popular, acho que é uma convocação justa porque a seleção é também um pouco a extensão do povo. A seleção joga para o torcedor brasileiro. E se o torcedor brasileiro está feliz com a convocação do Neymar, então eu acho que o Ancelotti acertou na ida dele para a Copa”, completou. "Agora, se ele vai jogar, quanto tempo ele vai jogar e como ele vai jogar, aí é uma discussão para os próximos capítulos." Carlo Ancelotti afirmou que Neymar só entrará em campo na Copa se merecer. “Quero ser claro, limpo e honesto. Ele vai jogar se merecer jogar. É importante não focar toda expectativa sobre um jogador. Temos uma responsabilidade comum, como equipe. Cada um tem de mostrar suas próprias qualidades com um objetivo: ajudar a seleção a ganhar a Copa do Mundo”, afirmou o treinador do Brasil. Colunista do jornal O Globo, Carlos Eduardo Mansur lembrou que a convocação de Neymar sacrificou um jogador que está em grande fase no futebol inglês. “É curioso como o futebol, por vezes, também satisfaz o desejo de muita gente, né? Havia uma mobilização popular aguardando a convocação ou não do Neymar. Mas, ao mesmo tempo, o futebol pode ser cruel, né? É o que deve estar pensando agora o João Pedro, do Chelsea”, ressaltou. “Ele foi o grande derrotado desta convocação. Após um ciclo de Copa do Mundo em que o João Pedro viu a carreira crescer, brilhou no Brighton, chegou ao Chelsea, tendo impacto imediato na Copa do Mundo de clubes e terminando a temporada com 20 gols e seis assistências pelo time inglês, acabou ficando de fora da convocação. Ele deu lugar a um jogador que, nos últimos três anos, jogou poucas partidas, viveu uma dura tentativa de se recuperar de lesões e, quando conseguiu ter sequência de jogos, não podemos dizer que foram atuações acima dos seus principais concorrentes; atuações de um jogador de elite internacional. É um jogador que tenta retomar a sua carreira, que é o caso do Neymar”, falou Mansur, que também é comentarista dos canais Globo. Leia tambémEuropa repercute volta de Neymar à seleção brasileira e vê possível despedida em Copas Meia da seleção brasileira pentacampeã na Copa de 2002, Ricardinho também citou o atacante João Pedro. “Lógico que, se tratando de convocação da seleção brasileira, sempre vai haver discussões. A principal, desta vez, foi a ausência do João Pedro, até pelo número de gols que ele fez na Premier League. Mas eu acho que foi uma questão de opção do treinador. Ele tinha alguns nomes para convocar e também tinha o retorno do Neymar, até pela melhora da condição física do Neymar. O João Pedro teve algumas oportunidades na seleção e acabou não conseguindo performar da mesma forma que performou no Chelsea. E aí houve essa opção”, opinou Ricardinho. Escassez no meio-campo Titular da zaga da seleção brasileira pentacampeã em 2002, Roque Júnior destacou a escassez de meio-campistas que vão jogar pelo Brasil na Copa deste ano. “Um setor que hoje o Brasil tem dificuldade é o meio de campo.” “De maneira geral, nós temos produzido menos jogadores de meio-campo com características que desequilibram da intermediária para frente; jogadores que têm essa qualidade para desequilibrar mais perto do gol”, opinou Roque Júnior. Meio-campista de criação na última conquista do Brasil em Copas, Ricardinho explicou a escassez de meias brasileiros. “O futebol brasileiro não tem revelado muitos meio-campistas clássicos, que são aqueles meias de criação. O [Lucas] Paquetá tem uma característica, que é um articulador de jogadas, mas ele não é esse meia clássico; um meia organizador de jogadas. Eu acho que ele é mais um jogador tático e isso é reflexo também da nossa formação, tanto é que os jogadores com essa característica que jogam no futebol brasileiro são, na maioria, de fora do país”, opinou o camisa 7 da seleção na Copa de 2002. Experiência no gol Além de Neymar, outra novidade na lista de Carlo Ancelotti foi o goleiro Weverton. Ricardinho explicou a escolha do treinador italiano da seleção brasileira pelo goleiro do Grêmio. “Devido às condições do Alisson, que essa temporada teve alguns problemas de lesão, e do Ederson, que acabou trocando o Manchester City pelo Fenerbahçe, da Turquia, e que não fez uma grande temporada, o Ancelotti optou por não ter um terceiro goleiro jovem e com pouca experiência de Copa do Mundo. Por isso, ele escolheu o Weverton, que é um grande goleiro”, opinou o campeão mundial. Comentarista do Grupo Globo, Eric Faria lembrou que alguns jogadores que vão à Copa foram chamados pela primeira vez por Ancelotti na lista anunciada em março deste ano. “Algo que me chamou muito a atenção foram sete jogadores que ganharam vagas na seleção tendo sido chamados pelo Ancelotti pela primeira vez em março. Então, os amistosos contra a França e contra a Croácia foram muito decisivos nessa montagem final da lista. O Ibañez, o Léo Pereira, o Bremer, o Danilo, o Endrick, o Igor Thiago e o Rayan só foram chamados pelo Ancelotti em março”, lembrou Eric. “Todos eles se saíram bem e ganharam essa chance de ir à Copa do Mundo. Lista de Copa do Mundo se faz com oportunidades aproveitadas”, completou. Favoritismo O Brasil vai ter nesta Copa mais uma oportunidade para conquistar o hexa. Com a experiência de quem foi campeão com a seleção brasileira em 2002, o ex-zagueiro Roque Júnior falou do peso da camisa amarelinha. “O Brasil, como camisa, como tradição, e por ser ainda o único país que tem cinco títulos mundiais, sempre vai para uma Copa do Mundo como favorito. Se a gente fizer um comparativo com a seleção de hoje, tem outras equipes melhores, que eu aponto como favoritas: a Argentina, que ganhou o último Mundial, a Espanha e a França estão num patamar acima. Mas depois vem o Brasil”, afirmou o zagueiro da conquista do penta brasileiro. Ricardinho, que também levantou a taça ao lado de Roque Júnior em 2002, ano do último título do Brasil em Copas do Mundo, concorda com o ex-zagueiro. E foi além. “Eu colocaria hoje a França e a Espanha numa primeira prateleira. Um pouquinho abaixo, Argentina e Portugal. Os portugueses são, inclusive, uma seleção muito boa, com um meio de campo de altíssimo nível, dois bons laterais, e o Cristiano Ronaldo na frente para finalizar. Depois destas seleções favoritas, eu colocaria o Brasil. Mas é lógico que a prática é o que vai nortear, né? Estou falando tudo isso na teoria, embasado nos processos que as seleções realizaram nesse ciclo de Copa. Vamos ver a partir do dia 11 de junho se essas previsões se confirmam ou se a gente vai ter alguma surpresa na Copa ”, opinou Ricardinho. Retrospecto desde 1938 Apesar das últimas frustrações em Copas do Mundo, a seleção brasileira tem um retrospecto invejável. O país é o maior vencedor da história das Copas do Mundo e o único a ter cinco títulos do torneio. Além disso, o Brasil tem sido um osso duro de roer. Desde a terceira Copa do Mundo, disputada em 1938 na França, um cenário curioso se repete. Ou o Brasil termina o Mundial como campeão, como aconteceu em 1958, 62, 70, 94 e 2002, ou acaba eliminado por uma seleção que encerra sua participação na Copa entre os três primeiros colocados. Ou seja, desde 1938 o Brasil fica com o título ou perde para um país que, se não termina campeão, chega muito perto. Este é o primeiro Mundial que será disputado por 48 seleções; serão 104 partidas nesta Copa. O regulamento prevê que os dois melhores de cada um dos 12 grupos avancem para a segunda fase, além dos oito melhores terceiros lugares. Depois desta fase, que é o primeiro mata-mata da Copa, as seleções que se classificarem disputarão as oitavas, quartas, semifinais e final, caso superem seus adversários. O país que alcançar o título terá feito uma campanha de oito jogos, um a mais do que era jogado nas últimas sete edições. Campanha do hexa? O Brasil está no Grupo C e vai estrear contra o Marrocos em 13 de junho, em Nova Jersey. Seis dias depois, a seleção vai encarar o Haiti, na Filadélfia. Em 24 de junho, os brasileiros fecham a fase de grupos contra a Escócia, em Miami. Leia tambémAncelotti analisa estreia do Brasil contra o Marrocos e alerta para grupo desafiador na Copa de 2026 Se avançar em primeiro no Grupo C, o Brasil vai encarar o segundo colocado do Grupo F, que tem Holanda, Japão, Suécia e Tunísia. Passando por esta fase, a seleção chegará às oitavas. A torcida do Brasil espera que a seleção brasileira não pare por aí e alcance a sua oitava final de Copa do Mundo.

O ministro do Ensino Superior da França, Philippe Baptiste, anunciou em 20 de abril que o aumento das taxas de matrícula para estudantes internacionais de fora da União Europeia, decretado em 2018, deverá ser efetivamente aplicado pelas universidades. A medida gera preocupação entre estudantes brasileiros na França, que sentem que deixaram de ser "bem-vindos" no país. Ana Carolina Peliz, da RFI em Paris A decisão integra o plano Choose France for Higher Education (Escolha a França para o Ensino Superior), do Ministério do Ensino Superior e da Pesquisa. Embora tenha sido instituída há oito anos, a política provocou forte reação de associações estudantis e reitores contra a medida. Em resposta, muitas instituições criaram mecanismos de isenção que poupavam os alunos estrangeiros das taxas. Agora, apesar da autonomia das universidades, o governo pressiona para que o preço diferenciado para estrangeiros seja aplicado já na matrícula para o ano letivo de 2026–2027, com início em setembro. Segundo o ministério, um decreto obrigará as universidades a adotar a medida, sem detalhar prazos. Apenas 10% dos estudantes poderão ser isentos, em situações específicas, como aqueles oriundos de países em grave dificuldade. Pela regra, alunos de fora da União Europeia terão que pagar € 2.895 (cerca de R$ 16 mil) para cursos de graduação, contra € 180 atualmente, e € 3.941 (aproximadamente R$ 21.700) em nível de mestrado, contra os € 250 atuais. Os estudantes franceses e europeus continuarão pagando os valores mais baixos, enquanto o doutorado não sofreu aumento. “Isso representa apenas 30% do custo real da formação”, afirma Baptiste, destacando que os valores ainda são inferiores aos praticados em destinos como Estados Unidos e Reino Unido. O governo sustenta que a medida visa reforçar a atratividade da França como polo de ensino e pesquisa, além de melhorar o acolhimento de estudantes estrangeiros. A justificativa, no entanto, não convence Matheus Morandini, presidente da Associação de Estudantes e Pesquisadores Brasileiros na França (Apeb-Fr). “É contraditório com a própria política de atrair mais brasileiros para o país”, diz, referindo-se ao compromisso firmado em 2024 durante visita de Lula à França. Na ocasião, o presidente brasileiro e Emmanuel Macron estabeleceram a meta de elevar o número de estudantes brasileiros de cerca de 5 mil para 8 mil até 2026. Dados da Campus France indicam, porém, uma queda de 1% em cinco anos, entre 2019 e 2024. Para Morandini, o aumento das taxas caminha na direção oposta. “É uma espécie de convite para não vir. Não condiz com a política de promoção do ensino superior francês no Brasil”, afirma. Ele também aponta outras medidas que desestimulam a permanência de estrangeiros, como o fim do auxílio-moradia para estudantes de fora da UE, restrito agora a bolsistas. “A impressão é de que essas pessoas deixaram de ser bem-vindas”, diz. Faculdades sob pressão financeira A justificativa apresentada pelas universidades difere da versão oficial do governo. “Alguns alunos contribuirão mais para o financiamento da universidade no próximo ano. Por razões orçamentárias, somos obrigados a aumentar essas taxas”, afirma Christine Neau-Leduc, presidente da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, em dezembro. “Os valores são definidos por decreto de 2019. Não temos autonomia sobre isso”, acrescenta. Em resposta à RFI, a instituição citou sua deterioração financeira. “Há anos sofremos os efeitos de decisões do Estado que foram apenas parcialmente compensadas”. Diante do déficit, a universidade recebeu da autoridade regional a tarefa de implementar um plano de economia de € 13 milhões até o fim do ano. A situação da prestigiosa universidade não é isolada. Diversas instituições enfrentam dificuldades semelhantes, o que ajuda a explicar o recuo em relação a um princípio histórico do ensino francês: a gratuidade para todos. Diferentemente de países como Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, esse sempre foi um dos pilares do sistema universitário na França. Desde o início do ano, dirigentes universitários vêm alertando para a crise orçamentária. Segundo relatos, cerca de três quartos das instituições operam no vermelho. Embora o orçamento para 2026 preveja um acréscimo de € 175 milhões, o montante é considerado insuficiente para compensar a inflação, de acordo com a Federação de Educação, Pesquisa e Cultura, ligada à CGT. “As universidades estão à beira do colapso”, conta à RFI a professora e pesquisadora em Ciências Política da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne. “Cortamos 90% dos investimentos; já não compramos livros”. Ainda assim, ela critica a medida: “Essa diferenciação por origem é inaceitável. Esses estudantes terão as mesmas condições de ensino que outros que pagam poucas dezenas de euros”, opina. A proposta do governo é controversa e, segundo entidades estudantis, pode agravar ainda mais a situação financeira dos alunos estrangeiros. Incerteza entre estudantes Muitas universidades ainda não confirmaram se aplicarão integralmente a medida ou se manterão isenções, o que aumenta a incerteza entre os estudantes. “Perguntei se serei afetada, mas ainda não tive resposta”, relata Alice Machado, que deve iniciar uma graduação em psicopedagogia em Paris, um curso realizado pela Escola de Formação em Psicopedagogia, em parceria com a Universidade de Nanterre. “Estou muito preocupada”, completa. A estudante explica que, após mudar de tipo de visto, ficou impedida de trabalhar por meses. “Vou ter que me reorganizar e talvez buscar um emprego de verão para conseguir pagar a universidade. Mas posso trabalhar no máximo 20 horas semanais, e isso não é suficiente”. Segundo ela, o dinheiro que pretendia usar para visitar a família no Brasil deverá ser destinado à matrícula. Ela ressalta que o custo é elevado para muitas famílias. “Vou ficar em uma situação bem apertada. Não é qualquer família que pode disponibilizar € 2 mil ou mais para estudar fora”, declara. Caio Dério, mestrando em Desenvolvimento e Ação Humanitária Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, vive situação semelhante. Ele foi surpreendido pela decisão da universidade no meio do curso. “Fiquei muito preocupado, mas, após pressão dos estudantes, a cobrança não foi aplicada para quem já estava inscrito”, conta. “Quem entrou em 2025 poderá concluir pagando as taxas anteriores" segundo ele, que sublinha que a decisão só foi revertida após mobilização. Ele lamenta que não foi alertado sobre um possível aumento quando se inscreveu na universidade. “Planejei tudo com base nos valores informados. Deixei meu emprego no Brasil, usei minhas economias e organizei minha mudança contando com esses custos”. Caso a cobrança fosse mantida, Caio não teria condições de permanecer e teria que abandonar o curso. Na avaliação do aluno, a medida pode empurrar estudantes para empregos e formações fora de suas áreas. Ele questiona ainda a lógica da política. “Parece que a qualidade do estudante está sendo associada ao quanto ele pode pagar. Isso não faz sentido. O governo acaba fechando portas para pessoas talentosas”, aponta. Morandini, da Apeb-Fr, também relata a importância das isenções. Ele chegou à França em 2021 e só conseguiu estudar graças a esse mecanismo. “Eu não teria vindo se tivesse que pagar esses valores”. Para ele, o cenário indica uma mudança de orientação. “O governo caminha para uma política que precariza estudantes estrangeiros de fora da União Europeia, especialmente os estudantes de países do Sul Global e com menor poder econômico”, conclui.

O intelectual, escritor e poeta modernista Mario de Andrade foi pioneiro nos estudos sobre a música popular brasileira. Entre as décadas de 1920 e 1940, o autor de Macunaíma recolheu e pesquisou cantos, danças e tradições folclóricas em diversas regiões do Brasil, em busca de uma cultura brasileira autêntica. Pela primeira vez, ensaios, críticas, artigos e poemas de Mario de Andrade sobre a música brasileira foram traduzidos para o francês e publicados pela editora da prestigiosa Philharmonie de Paris (Filarmônica de Paris). Adriana Brandão, da RFI em Paris O livro "Écrits sur la Musique Populaire Brésilienne" (Escritos sobre a Música Popular Brasileira), de Mario de Andrade, foi organizado por Pedro Fragelli, especialista na obra do escritor modernista. A tradução é de Mathieu Dosse, e a edição é ilustrada com fotografias das expedições de Mario de Andrade pelo Brasil. O organizador Pedro Fragelli, que esteve em Paris para o lançamento, destaca o caráter único da obra em francês. “Não existe no Brasil um volume que reúna uma parte significativa dos ensaios de Mario de Andrade sobre música, nem que articule esses textos com as fotografias de suas expedições. Uma edição como essa faz falta no país”, diz. As traduções dos textos para o francês também são inéditas. O tradutor Mathieu Dosse observa que os ensaios de Mario de Andrade preservam a oralidade presente na ficção do autor. “Ele usa expressões originais, elipses e uma ortografia particular. Optamos por não reproduzir isso literalmente em francês, mas procurei manter a oralidade e a proximidade com o leitor, porque mesmo nos ensaios o Mario dialoga e narra de forma muito generosa”, conta Dosse. Intelectual brasileiro mais importante da primeira metade do século XX Mario de Andrade fundou a etnomusicologia no Brasil e promoveu uma verdadeira revolução na produção artística nacional. Ele foi um dos principais expoentes do modernismo brasileiro, ao lado de Oswald de Andrade e Sérgio Milliet, entre outros. Mas no prefácio de “Escritos sobre a Música Brasiliera”, Pedro Fragelli afirma que Mario é o intelectual brasileiro mais importante da primeira metade do século XX. O especialista sabe que sua afirmação é passível de contestação e crítica, mas sustenta a sua tese. Segundo ele, “a intervenção cultural de Mario de Andrade é incomparável pela abrangência e pela influência. Sua obra ultrapassa a literatura e inclui música, artes plásticas, cultura popular, costumes e dança. Além disso, ele compreendia a cultura como uma construção coletiva, dialogava intensamente com intelectuais de todo o país e acabou se tornando um centro de articulação da vida cultural brasileira”. O conjunto excepcional de documentos reunidos por Mario de Andrade sobre a música brasileira "diversa e variada" constitui um de seus maiores legados. O autor acreditava que a singularidade dos ritmos nacionais estava justamente na diferença ou no desvio em relação aos padrões da música clássica ou tradicional europeia. Mario de Andrade começou a escrever sobre música brasileira nos anos 1920, quando músicos e ritmos do país começavam a ganhar projeção internacional. Para Pedro Fragelli, no entanto, a singularidade defendida por Mario era muito diferente do exotismo que fazia sucesso no exterior. “Ele se preocupava com a valorização excessiva de traços exóticos para agradar ao gosto europeu. Seu projeto buscava construir uma música nacional capaz de contribuir para a música dita universal”, afirma. Visionário Para o tradutor Mathieu Dosse, Mario de Andrade foi um visionário. “Ele falava de uma outra época, mas já percebia que a música brasileira se internacionalizaria. Não sei o que teria pensado da Bossa Nova, mas tinha um conhecimento profundo da música popular, especialmente do Nordeste, e defendia que ela servisse de base para a música erudita no Brasil. Era um nacionalismo positivo, voltado para o que o Brasil podia oferecer ao mundo.” Apesar de escritos há cerca de cem anos, os textos de Mario de Andrade revelam ao público francês um Brasil ainda pouco conhecido na Europa. “Eles mostram uma música muito mais complexa, variada e rica do que se imagina, cheia de contradições internas" avalia Pedro Fragelli. Além disso, revelam um país multifacetado e uma produção intelectual cosmopolita, mas autônoma em relação aos parâmetros culturais europeus, Mario de Andrade "mostra a possibilidade de desprovincianizar o pensamento nos países de origem colonial", resume o especialista. Por enquanto, "Écrits sur la Musique Populaire Brésilienne" existe apenas em francês, mas Pedro Fragelli já trabalha em uma edição em português que reunirá, em um único volume, o trabalho revolucionário de Mario de Andrade sobre a música popular brasileira. Os textos defendem uma visão nacionalista crítica, sem qualquer forma de patriotismo simplista. Pedro Fragelli e Mathieu Dosse participam nesta segunda-feira (4) à noite de uma mesa redonda sobre o livro de Mario de Andrade na Maison de l'Amérique latine de Paris. Na terça-feira, eles voltam a falar sobre Escritos sobre a Música Popular Brasileira na livraria Portuguesa e Brasileira de Paris.

As empresas brasileiras se preparam para a entrada em vigor, neste mês, da nova versão da Norma Regulamentadora número 1 (NR-1), que torna obrigatória a identificação e o gerenciamento de riscos psicossociais no trabalho. A atualizão ocorre após o Brasil ter registrado um novo recorde de afastamentos por transtornos mentais, com mais de 546 mil licenças concedidas pelo INSS em 2025. Daniella Franco, da RFI Até hoje, a NR-1 estabelecia disposições gerais de Segurança e Saúde no Trabalho sem considerar os problemas de saúde mental do trabalhador. A atualização deveria ter entrado em vigor no ano passado, mas foi adiada, por pressão das próprias empresas e dos sindicatos patronais. Para a psicóloga Luciana Gisele Brun, especialista em avaliação de transtornos mentais e depressão no trabalho e professora de Psicologia nas Faculdades Integradas de Taquara (Faccat-RS), a nova norma chega com atraso, mas é extremamente necessária. "Essa responsabilidade já existia anteriormente e só foi endurecida e esclarecida, gerando a necessidade de fiscalização a partir de 26 de maio", observa. "A norma mostra que as organizações também precisam se preocupar com a saúde mental. Então, vai começar a haver um reposicionamento, em alinhamento com a Justiça do Trabalho, de forma sistemática, para manutenção de um ambiente de trabalho saudável", prevê. Em 2025, as licenças no trabalho por problemas na saúde mental cresceram 15% em relação ao ano anterior, gerando um prejuízo de R$ 3,5 bilhões ao INSS. Segudo Luciana, uma série de fatores explica o aumento, como fenômenos climáticos - a exemplo da enchente no Rio Grande do Sul, entre abril e maio de 2024 - a instabilidade econômica, os deslocamentos nas grandes cidades, a falta de infraestrutura para o trabalho remoto e as próprias tecnologias, que impedem o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. "Quando as pessoas concluem a sua jornada de trabalho, muitas vezes, através dos celulares, seguem em contato com clientes ou com colegas, ou resolvendo demandas de trabalho em geral", exemplifica. "Essa característica já era própria de algumas categorias profissionais, mas essa dificuldade da divisão entre a vida privada e o trabalho tem se agravado nos últimos anos", destaca. Mudança de cultura nas empresas Um dos maiores desafios na aplicação da atualização da NR-1 será a mudança de cultura dentro das empresas. Muitas organizações ainda demonstram resistência em considerar a saúde mental de seus colaboradores. O Ministério do Trabalho lançou, no ano passado, uma cartilha para orientar as empresas e, no início deste ano, um manual de interpretação e aplicação da norma. Mas, para a advogada e especialista em Direito do Trabalho, Amanda Caputo, ainda faltam informações sobre as novas diretrizes. "A atualização da NR-1 determina que as empresas têm obrigação legal, a partir de agora, de mapear os riscos à saúde mental do trabalhador. Para isso, precisam lançar programas de prevenção, aprender e implantar regras internas para conseguir liderar com trabalhadores que estão adoecendo com essas doenças psicossociais", explica. "Essa é uma grande inovação, porém falta a informação sobre como a norma será implantada e como será fiscalizada", reitera. Apesar de todos os ajustes necessários na nova regra, Amanda Caputo acredita que a atualização das diretrizes serão benéficas para ambos os lados, evitando a evasão e o presencialismo de trabalhadores. A advogada lembra que empregados com saúde mental em dia geram maior lucratividade para as empresas. "Hoje nós temos o exemplo de grandes multinacionais que investem mais de R$ 1 milhão em programas para fomentar o bem-estar, com treinamentos econômicos, sociais, interpessoais para tentar equilibrar o ambiente de trabalho. Pessoas felizes produzem mais: isso é um benefício inegável para as empresas", conclui. 840 mil mortes por ano no mundo Os riscos psicossociais (RPS) mais comuns no trabalho são sobrecarga de trabalho, pressão excessiva por metas, assédio (moral ou sexual), conflitos internos, falta de autonomia, clima organizacional tóxico e ausência de reconhecimento. Eles se manifestam como mal‑estar, sensação de esgotamento profissional (burnout) ou sofrimento mental e/ou físico. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), os RPS são responsáveis por cerca de 840 mil mortes anuais no mundo. O balanço, publicado no último 28 de abril, indica que os transtornos mentais são a segunda maior causa de óbitos no trabalho e representam uma perda anual equivalente a 1,37% do produto interno bruto (PIB) mundial.

Com menos voos, escassez de combustível e redução no número de visitantes, Cuba perde uma de suas principais fontes de receita e agrava dificuldades de trabalhadores que dependiam do setor. Entre janeiro e março, a ilha recebeu 298.057 visitantes estrangeiros, 48% a menos que no mesmo período de 2025, segundo números divulgados pelo Escritório Nacional de Estatística e Informação. Pedro Pannunzio, de Havana, especial para a RFI A queda do turismo tem ampliado os efeitos da crise econômica em Cuba e afetado a rotina de moradores da ilha. A redução no número de visitantes atinge empregos, diminui a circulação de dólares e impacta setores que dependiam diretamente da presença de estrangeiros. Em março, apenas 35.561 turistas chegaram ao país, um dos níveis mais baixos dos últimos anos. O turismo é a segunda fonte de receitas em divisas e até janeiro empregava mais de 300 mil pessoas na ilha de 9,6 milhões de habitantes. Em Havana Velha, no centro histórico da capital do país, que costumava ficar cheia de turistas, o cenário mudou. Restaurantes continuam abertos, mas agora recebem poucos clientes. Bares tradicionalmente frequentados por turistas operam com movimento reduzido. Lojas de souvenires permanecem vazias durante boa parte do dia. Período Especial O turismo ganhou importância estratégica para Cuba nos anos 1990, depois do colapso da ex-União Soviética, quando o país enfrentou uma grave crise econômica conhecida como Período Especial. Naquele momento, a entrada de divisas por meio de visitantes estrangeiros se tornou uma das principais fontes de receita da ilha e também uma alternativa para muitos moradores enfrentarem as dificuldades cotidianas. Nos anos seguintes, o turismo manteve papel estratégico para a economia cubana. Desde a pandemia, porém, o número de visitantes começou a cair. Agora, a retração se aprofundou. No início de fevereiro, o governo cubano anunciou que não conseguiria mais abastecer aeronaves nos aeroportos da ilha. A medida levou algumas companhias aéreas a suspender operações. Segundo um funcionário de um hotel no centro histórico de Havana, após o cancelamento dos voos, turistas que já tinham viagens marcadas entraram em contato para cancelar reservas. Com a baixa ocupação, parte dos hotéis administrados pelo Estado foi fechada para concentrar hóspedes nos estabelecimentos que permaneceram abertos. A queda atingiu todos os principais mercados emissores. O Canadá, historicamente o maior fornecedor de turistas à ilha, registrou 124.794 visitantes no trimestre, 54,2% a menos que um ano antes. As chegadas da Rússia caíram 37,5%, enquanto as da comunidade cubana residente no exterior, em sua maioria radicada nos Estados Unidos, diminuíram 42,8%. 'Efeito Trump' O trabalhador rural Calisto Aguilar, que vive entre Havana em uma propriedade localizada a quarenta quilômetros da capital, aluga quartos na casa que mantém no centro da cidade. Ele afirma que a procura praticamente desapareceu. “Há alguns anos, havia gente na rua procurando lugar para ficar e não tinha vaga. Depois que Donald Trump chegou à Casa Branca, tudo isso acabou”, afirma. Calisto diz que o turismo já havia sido afetado durante o primeiro mandato do republicano. Em 2019, o governo norte-americano proibiu cruzeiros dos Estados Unidos para Cuba, medida que desfez a abertura promovida durante o governo de Barack Obama “A entrada de cruzeiros foi interrompida e, de forma geral, o turismo parou. Todas as medidas que tinham sido planejadas desde o governo Obama foram interrompidas. Lembro que via cruzeiros desembarcando em Havana pela manhã quando saía para trabalhar.” A redução no número de turistas afeta também quem dependia das vendas diretas aos visitantes. O professor aposentado Rafael Rosa afirma que a pensão mensal que recebe do governo não é suficiente para comprar alimentos no mercado privado, uma das alternativas diante do desabastecimento nos estabelecimentos subsidiados pelo Estado. Para complementar o orçamento, ele passou a vender souvenires nas ruas. Rafael relata que, quando consegue vender alguma peça, o dinheiro costuma ser usado para comprar comida. “Tenho essa atividade que, às vezes, quando tenho sorte, me rende algum dinheiro para a comida.” Ao falar com a reportagem, Rafael disse que não conseguia vender nada havia duas semanas. “Cada vez me sinto mais cansado, porque preciso caminhar horas atrás de turistas para que comprem de mim. Sorrio muito pouco porque minha mãe está velha e fico triste com o que está acontecendo comigo. Estou doente e ainda não encontrei solução para o meu problema”, lamentou. Na avaliação de Calisto Aguilar, a situação de Cuba não deve melhorar tão cedo. Ele reconhece que a recuperação será lenta, mas afirma que ainda mantém esperança, sobretudo por causa dos filhos. “Se você analisar o panorama, percebe que as coisas não vão mudar de um dia para o outro. Isso demora anos. Mas tenho esperança, sempre. Quem tem filhos precisa ter esperança.” Sem combustível, com menos voos e com a forte redução no número de visitantes, Cuba vê desaparecer uma importante fonte de receita. Durante décadas, o turismo ajudou o país a atravessar períodos difíceis. Hoje, com o setor esvaziado, a ilha ainda procura caminhos para reagir a uma das mais duras crises de sua história.

A 64ª edição do Salão do Móvel de Milão começou na terça-feira (21) e deve receber mais de 319 mil visitantes até domingo (26), dos quais 62% estrangeiros. O estande brasileiro destaca o valor da madeira nacional e de peças que incorporam a assinatura de seus criadores. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão O Salão do Móvel de Milão, a principal feira internacional do setor de móveis e design, foi criada inicialmente com o objetivo de promover o design italiano, mas se transformou ao longo do tempo em um evento global, reunindo profissionais da arquitetura e do design de interiores de diversas partes do mundo. Neste ano, são mais de 1.900 expositores de 32 países. Pelo 10º ano, o Brasil conta com um estande próprio, uma iniciativa da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário, a Abimóvel, em parceria com a Apex Brasil – Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos. Em 2026, a Abimóvel traz ao Salão de Milão 70 marcas e designers brasileiros. O tema escolhido para o estande do Brasil foi “Conexões”. “É a conexão da indústria com as matérias-primas. A gente traz produtos assinados mostrando a madeira brasileira, os revestimentos brasileiros que nos distinguem, as tramas, os fios, o couro brasileiro, algo tipicamente do Brasil”, explica Cândida Cervieri, diretora executiva da Abimóvel. Para a edição de 2026, o Salão do Móvel reforça a valorização dos materiais e dos processos de produção no design, um campo em que o Brasil se destaca no exterior, especialmente pelo uso da madeira nacional. “Temos mais de 20 mil espécies de madeira e a gente sabe que esse é um produto procurado, desejado pelo mundo. Então este é um ativo que nos distingue nos nossos produtos e que faz a diferença”, diz Cervieri. Uma das novidades da participação brasileira neste ano é a presença de peças vencedoras do 1º Prêmio Design da Movelaria Nacional, promovido pela Abimóvel no ano passado e que contou com participantes de diversos perfis, desde designers já no mercado a estudantes. A premiação era exatamente ter a peça exposta na feira em Milão. Um dos vencedores do prêmio foi Alexandre Kasper. A cadeira que ele assina, batizada de Zé, está exposta na feira. Natural do Paraná, o designer afirma que a participação no evento abre portas no Brasil e no exterior. “Como criativo, o design brasileiro tem uma autenticidade muito singular. O brasileiro se arrisca mais, ele cria produtos, gosta de experimentar. Muitas lojas, tanto do Brasil quanto da Europa, já vêm nos procurando justamente por causa dessa identidade. Nosso estande foi muito percorrido hoje, muitos clientes passaram por aqui, a gente está abrindo para novos clientes e isso é muito positivo”, celebra o designer. Identidade do designer se integra à indústria As principais indústrias do mobiliário global estão presentes no Salão do Móvel de Milão, que se espalha por 22 pavilhões. No entanto, a presença do designer é cada vez mais forte em cada uma das marcas. O designer Tiago Curioni destaca que já não há interesse no setor em produzir algo sem relacioná-lo ao criador. “Não existe criar um produto sem ter alguém por trás assinando, alguém pensando. (Sem) o designer como alguém que vai tratar não só da estética do produto, mas de todo o conceito de como a matéria-prima chega na fábrica, como ela é armazenada, até como esse produto vai ser comunicado”, defende. Por isso, investir em identidade se tornou central para o setor. O designer Michael Milhomem, natural de Roraima, apresenta no estande brasileiro uma poltrona inspirada nos indígenas Warao, de origem venezuelana, que hoje estão presentes na Amazônia roraimense. O design remete a um barco e é composto por uma rede sustentada por uma estrutura de aço e madeira. “A palavra Warao significa povo das águas. Utilizo a rede deles de fibra de buriti, extremamente resistente. Uma única rede leva dois meses pra ser feita e é produzida dentro da floresta Amazônica a mão pelas indígenas. É um projeto de 50 unidades apenas, uma edição limitada, feita por amazônidas para o mundo”, afirma Milhomem. A criação de Milhomem reflete o contexto ao seu redor, algo que, agora, ele apresenta ao mundo. “Para mim é um divisor de águas. Eu saí de Roraima, [de onde] produzo dentro da selva, para poder mostrar meu valor fora do país. Isso pra mim é sensacional, pois a visibilidade que temos aqui é única.” A diversidade do design brasileiro chama a atenção de quem visita o estande, até mesmo de quem vem do Brasil. “Um brasileiro olhar essa peça com um olhar exótico, uma estranheza, como um gringo olha, é sinal de que o design alcançou um ponto muito interessante. Porque geralmente o que impacta um gringo não impacta um brasileiro e vice-versa”, aponta Milhomem. Atrações fora da feira Durante a mesma semana do Salão do Móvel, Milão também vive a chamada Semana do Design. Além da feira, voltada à indústria de móveis, a cidade recebe mais de 1.850 instalações artísticas espalhadas por diferentes bairros. É o chamado Fuorisalone, ou “Fora do Salão”, quando marcas, lojas e designers organizam suas próprias exposições e eventos, criando oportunidades de conexão entre profissionais e apaixonados pelo design de todo o mundo.

Desde 2024, a França vive uma explosão de denúncias de abusos psicológicos, físicos e sexuais cometidos por agentes de recreação que atuam nas escolas públicas fora do período de aula — sobretudo em Paris. Esses profissionais são responsáveis por acompanhar as crianças durante as refeições, os momentos de lazer e após o fim das aulas, mas não fazem parte do corpo docente do Ministério da Educação. Maria Paula Carvalho, da RFI A situação se agravou em 2026, com dois casos graves ocorridos em escolas de educação infantil da capital. Em um deles, a família de um menino de três anos denunciou o estupro da criança em um banheiro da escola. No segundo episódio, outro menino da mesma idade teria sido violentado em circunstâncias semelhantes, por um homem que já havia sido denunciado anteriormente em outro estabelecimento. As identidades dos suspeitos não foram divulgadas, e as investigações seguem sob sigilo judicial. Sistema falha também para quem denuncia A RFI conversou com uma brasileira que trabalha como agente de recreação em Paris. Por razões de segurança, ela pediu para não ser identificada. No depoimento, descreve um cotidiano marcado por precariedade, medo e falta de resposta institucional. “A gente não pode ter contato físico com criança, não pode pegar no colo, não pode dar beijo. Houve um caso de um animador que só queria pegar as crianças no colo ou fazer atividades com portas fechadas. A gente sinalizou esse mau comportamento. Depois disso, eu fui mudada de escola porque essa pessoa teve momentos de agressividade, tentou me jogar da escada. Tive que ir à delegacia registrar queixa. Passei a ter crises de angústia, faço tratamento até hoje, e no fim não deu em nada.” Segundo ela, os problemas se estendem à falta de pessoal e às condições de trabalho. “Nós reivindicamos mais contratações, principalmente nos dormitórios, onde deveriam estar dois animadores. Hoje, por falta de recrutamento, há apenas um", diz. "Enquanto as crianças brincam, há acidentes, e não há gente suficiente para dar conta. Eles querem economizar, essa é a verdade. Os salários são baixos, os horários são fragmentados e não atraem. Estamos pedindo respeito: melhores salários, horários e valorização”, completa. Após a multiplicação de denúncias de violência sexual contra crianças em escolas públicas, cerca de uma centena de agentes de recreação se reuniram na semana passada em frente à prefeitura de Paris. A mobilização foi organizada por sindicatos e acompanhada de greve, com o objetivo de denunciar a precariedade do setor e exigir melhores condições de trabalho. Pais denunciam falhas no modelo de contratação Do lado das famílias, cresce a mobilização. Um dos coletivos mais ativos é o Me Too École, formado por pais que denunciam falhas estruturais no sistema de contratação e supervisão desses profissionais. Diferentemente dos professores, os agentes de recreação são contratados diretamente pelas prefeituras. O coletivo lançou uma petição com mais de 22.300 assinaturas, denunciando o que define como um silenciamento sistemático de casos de violência física, psicológica e sexual contra crianças no ensino público. Anabel, uma das fundadoras do Me Too École, explica por que o sistema é especialmente vulnerável: “Na pré-escola, as crianças têm dois anos e meio, três anos. São bebês, muito sensíveis à autoridade. Em teoria, um adulto nunca deveria ficar sozinho com uma criança, mas isso acontece por falta de funcionários. Os momentos mais críticos são a soneca, a ida ao banheiro ou a hora de se despir, quando elas ainda não são independentes. Existem também espaços isolados, como bibliotecas: projetadas para serem silenciosas, mas que, quando estão fechadas, se tornam lugares ideais para pedófilos.” De acordo com o site Les Pros de la Petite Enfance, 52 agentes de recreação foram suspensos pela prefeitura de Paris entre 2023 e 2025 por suspeitas de caráter sexual. Só em 2026, a prefeitura informou que 78 profissionais foram suspensos, incluindo 31 por suspeita de abuso sexual. Mesmo assim, os pais dizem se sentir abandonados. “Quando um filho nos conta que sofre violência, seja de outras crianças ou de um agente de recreação, não sabemos a quem recorrer", diz Anabel. Não sabemos se devemos procurar um médico ou a direção da escola, que muitas vezes não é responsável pelas atividades extracurriculares”, continua. Pressão política e promessas de mudança Diante da ausência de respostas, as famílias deram um ultimato às autoridades parisienses. O tema entrou no centro da campanha eleitoral municipal, levando o novo prefeito de Paris, Emmanuel Grégoire, a afirmar que o combate às violências no sistema de recreação escolar seria uma prioridade de seu mandato. O prefeito socialista apresentou um plano de ação com tolerância zero, que inclui a criação de um guia de acolhimento, reuniões anuais de início de ano sobre as atividades extracurriculares em todas as 620 escolas da capital e o compromisso de entregar às famílias todas as conclusões das investigações administrativas em caso de denúncia. Para Anabel, trata-se de um primeiro avanço — ainda insuficiente. “No início, encontrávamos portas fechadas e silêncio absoluto. Diziam: ‘Isso não existe', ‘Eu não sabia'. Fizeram-nos acreditar que se tratava de um caso isolado. Mas percebemos rapidamente que não era. Houve humilhações, ameaças de morte, importunação sexual, violência sexual e até estupro de vulneráveis, tudo na pré-escola. E, diante disso, só víamos negação. Isso é absolutamente inaceitável.” As revelações impulsionaram um movimento nacional, com o apoio de coletivos como o SOS Périscolaire, que recolhe denúncias de famílias em todo o país. Elisabeth Guthmann, cofundadora do grupo, relativiza a ideia de que o problema seja exclusivamente francês, mas aponta uma diferença. “Existem pedófilos em todas as áreas e países. Isso não é exclusivo da França. A especificidade francesa é que estamos começando a falar sobre isso.” Ela critica a forma como o sistema judicial lida com os depoimentos das crianças. “Todos os profissionais de saúde dizem que uma criança não inventa algo que não viveu ou viu. Mesmo assim, ouvimos argumentos como ‘talvez ela tenha escutado alguém falar', ou ‘talvez os pais tenham colocado palavras na boca da criança'. Isso faz parte do problema”, acrescenta Guthmann. Casos parados na Justiça Atualmente, pelo menos 15 investigações judiciais sobre abusos cometidos em atividades de recreação escolar estão em curso no Ministério Público de Paris. Entre elas está o caso de Marie (nome fictício), cuja filha foi abusada na pré-escola aos quatro anos. Apesar da denúncia e da suspensão do profissional, o processo segue sem desfecho. “Foram sete anos de investigação. Há um ano, nada acontece. Ele não é mais agente de recreação, mas continua recebendo salário da prefeitura de Paris há sete anos, sem trabalhar, e vivendo em outra região. E a prefeitura continua pagando. É um escândalo”, denuncia a mãe. A RFI entrou em contato com o Ministério Público de Paris, que informou que a fase de investigação está concluída. Para a mãe, no entanto, o caso permanece paralisado, enquanto os traumas da filha se aprofundam. Ela diz que tentou contato com o novo prefeito, sem resposta. “Ele disse que receberia todos os pais. Mas nem sequer tivemos confirmação de recebimento do e-mail. O que assusta é isso: não devemos esperar que a justiça seja feita. Sete anos depois, o agressor está livre, não houve julgamento, e o caso pode ser arquivado, mesmo com centenas de depoimentos.” Procurada pela RFI, a juíza responsável afirmou que não pode comentar o processo.

As denúncias de crimes sexuais cometidos contra crianças matriculadas em atividades de recreação nas pré-escolas de Paris vêm provocando forte mobilização de pais e associações de proteção à infância. A pressão sobre as autoridades municipais é tamanha que o novo prefeito da capital, o socialista Emmanuel Grégoire, recém-eleito, anunciou o combate a esse tipo de violência como uma das prioridades de seu mandato. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris Uma das vítimas é filha de Marie (nome fictício), mãe profundamente traumatizada pelo estupro sofrido pela menina quando tinha apenas quatro anos. A criança foi violentada por um agente de recreação em uma escola do 13º distrito de Paris, onde cerca de 15 casos semelhantes foram registrados. Para preservar sua identidade, o nome da mãe foi alterado. "Ela foi estuprada por um agente de recreação. Ele também fazia com que as crianças o tocassem e se tocassem entre elas, nas partes íntimas, e dizia que, se elas contassem alguma coisa, os pais morreriam. Que elas deveriam guardar segredo. Você imagina o traumatismo que isso provoca?", questiona. Sete anos depois, a família segue marcada pelo trauma. A menina vive em estado permanente de estresse, agonia e raiva, sendo acompanhada por psicólogos, o que também representa um alto custo financeiro. “Ninguém nos ajuda”, afirma a mãe. Ao tomar posse em 29 de março, Emmanuel Grégoire destacou o problema em seu discurso, prometendo identificar os responsáveis pelas agressões. Desde o início de 2026, apenas em Paris, 78 agentes de recreação foram suspensos, dos quais 31 por suspeita de crimes sexuais. Diante desses números, o prefeito anunciou uma revisão completa dos procedimentos, com “tolerância zero”. Segundo ele, será criada uma comissão independente para reavaliar os processos de contratação, os mecanismos de denúncia e os sistemas de controle. "Devemos proteger nossas crianças e criaremos um grupo de escuta dos pais para casos suspeitos", acrescentou. Paris anuncia plano milionário para proteger crianças A prefeitura aprovou um plano orçado em € 20 milhões, que inclui a revisão da formação profissional dos agentes, o aprimoramento do atendimento às denúncias, apoio às vítimas e a aplicação de sanções. Em entrevista recente, Emmanuel Grégoire revelou carregar uma “cicatriz interna” após ter sido vítima de violências sexuais durante vários meses quando tinha menos de dez anos, inclusive em uma piscina municipal. O caso de Paris se insere em um contexto mais amplo: a França enfrenta uma explosão de denúncias de pedofilia envolvendo profissionais responsáveis por atividades extracurriculares, fora do período de aulas. As vítimas têm entre 3 e 5 anos, e os casos incluem estupros e atos repetidos de violência sexual. A situação se agravou este ano com a revelação de episódios graves em pelo menos três escolas da capital. Esses trabalhadores, vale destacar, não são vinculados ao Ministério da Educação. A explicação é de Elisabeth Guthmann, cofundadora do grupo SOS Périscolaire, coletivo criado em 2021 por pais e profissionais para denunciar, documentar e combater a violência no ambiente extracurricular. Segundo Guthmann, na maioria das famílias francesas ambos os pais precisam trabalhar para garantir a subsistência, o que levou as prefeituras a criarem serviços de acolhimento antes e depois do horário escolar. No entanto, ela alerta para falhas estruturais nesses programas. “Faz cinco anos que alertamos para graves disfunções nos programas extracurriculares em Paris e em todo o país. Temos denunciado a violência física, psicológica e sexual desde 2021 e, até muito recentemente, a Prefeitura de Paris se recusava a nos ouvir, a ouvir todas as famílias", disse em entrevista à RFI. A ampla cobertura da imprensa desde o ano passado, no entanto, levou a uma conscientização coletiva e forçou o anúncio de medidas. "Isso criou uma conscientização coletiva", ela destaca. Trauma precoce Os momentos considerados de maior vulnerabilidade para as crianças incluem idas ao banheiro, períodos de soneca, atividades de leitura em salas fechadas e até mesmo os refeitórios. As consequências dos abusos, segundo Guthmann, são profundas e duradouras. Casos documentados desde 2018 revelam crianças estupradas aos três anos que ainda hoje sofrem sequelas físicas e psicológicas graves, incluindo sintomas de estresse pós-traumático. Para o coletivo Me Too École, o fato de o prefeito ter tornado público seu próprio passado de vítima não altera o sofrimento cotidiano de muitas famílias. Anabel, uma das fundadoras do grupo, lembra que as famílias confiam na escola como espaço de formação e proteção. “As crianças não têm armas para se defender. A escola deveria ser um santuário, mas infelizmente não é mais assim”, afirma. Ela também questiona a atuação de Emmanuel Grégoire no passado, quando um relatório de 2015 já apontava problemas e ele era responsável pelo recrutamento dos agentes. Segundo Anabel, na época nenhuma medida foi tomada, ao contrário do discurso de excelência adotado pela prefeitura. Outro entrave apontado pelo coletivo é a lentidão das autoridades e da Justiça no combate a esses crimes. "Apenas 3% dos pedófilos são julgados, porque há dificuldade em recolher e levar a séerio os depoimentos das crianças," explica. Para Anabel, é essencial uma articulação coletiva. "É preciso reunir todos — as prefeituras, a polícia, o Ministério Público e o Ministério da Educação. Sem isso, não será possível implementar um protocolo para proteger as crianças, uma vez que cada instituição tem seus próprios interesses", aponta. Após um ultimato dos pais, a prefeitura de Paris prometeu divulgar estatísticas trimestrais sobre suspensões de agentes de recreação, dados que até então eram de difícil acesso. Para Elisabeth Guthmann, trata-se de um avanço. “É um bom começo, foram anunciadas medidas que reivindicamos desde 2021, mas ainda há muito a ser feito, para garantir segurança às crianças”, disse à RFI. Entre as principais demandas está a criação de um sistema de denúncia realmente eficaz. Até agora, relatos feitos pelos pais frequentemente não chegavam às instâncias superiores, esbarrando em disputas de responsabilidade entre escolas e programas extracurriculares. O coletivo defende que, diante de qualquer denúncia, o agente seja imediatamente suspenso, que investigações administrativas sejam rápidas, que os relatórios sejam entregues às famílias e que o Ministério Público seja automaticamente informado. Sem respostas adequadas, muitas famílias vivem sob constante medo. A de Marie decidiu se mudar para o interior. Mesmo assim, o trauma persiste. Sete anos depois, a filha, hoje com 11 anos, afirma que só conseguirá viver normalmente quando o agressor estiver preso. O medo de que ele volte a atacá-la permanece. “A infância dela foi destruída. Não há mais alegria despreocupada. Nossa vida familiar foi destruída”, conclui a mãe.

Portugal continua sem avançar na implementação de um projeto considerado essencial para ampliar o acesso à PrEP, medicamento altamente eficaz na prevenção do HIV. Apesar de ter sido aprovado, o programa permanece sem financiamento, travando a expansão de uma das principais ferramentas de saúde pública no combate às novas infecções. Lizzie Nassar, correspondente da RFI em Portugal A PrEP (profilaxia pré-exposição) é um medicamento de uso regular por pessoas HIV-negativas que estão em maior risco de exposição ao vírus. Quando tomada corretamente, a proteção pode chegar a 99%. Ele faz parte de uma estratégia de prevenção amplamente recomendada por entidades como a ONUSIDA e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças. Mas em Portugal, a cobertura atual do medicamento está muito abaixo das necessidades identificadas por especialistas. A denúncia é feita por organizações do setor, que alertam para um bloqueio financeiro que impede a resposta a centenas de pessoas em risco. No centro desta crítica está Luis Mendão, diretor do GAT (Grupo de Ativistas em Tratamentos), que descreve um cenário de procura crescente e capacidade limitada. “O projeto foi aprovado, mas não teve financiamento. E sem financiamento não é possível avançar”, resume o responsável. Três organizações, o GAT, Grupo de Ativistas em Tratamentos, a Abraço e a Liga Portuguesa Contra a Sida, propõem criar um modelo de acompanhamento comunitário da PrEP, mais próximo da população e menos dependente da estrutura hospitalar do Serviço Nacional de Saúde. Segundo as organizações, o dispositivo permitiria aumentar rapidamente o número de pessoas em prevenção ativa. Estima-se que entre 6.000 e 6.500 pessoas estejam em PrEP em Portugal. No entanto, os dados indicam que seria necessário alcançar pelo menos 20.000 pessoas para começar a reduzir de forma significativa a transmissão do HIV, e até 40.000 pessoas para atingir objetivos alinhados com metas internacionais até 2030. Um investimento total de cerca de € 3 milhões por ano. “Estamos muito longe do mínimo necessário para ter impacto na epidemia”, afirma Luís Mendão. O projeto de expansão da PrEP prevê o acompanhamento descentralizado de pessoas em risco através de equipes especializadas em contexto comunitário, reduzindo pressão hospitalar e acelerando o acesso. Na prática, o bloqueio é financeiro. O GAT estima que o custo de acompanhamento comunitário por pessoa seja de € 300, num total de 10 mil pessoas por ano, dependendo do modelo de implementação. Ainda assim, não houve alocação de verba específica para iniciar o programa em 2025. As organizações insistem nas vantagens do dispositivo, que tornam-se ainda mais evidentes quando se compara com o custo do tratamento do HIV, que é vitalício e recai integralmente sobre o sistema público de saúde. “É mais barato prevenir do que depois tratar pelo resto da vida o HIV”, sublinha Luís Mendão. Lista de espera crescente e capacidade limitada Enquanto o projeto não avança, a resposta existente está sobrecarregada. O GAT acompanha atualmente cerca de 400 pessoas em PrEP, mas já tem mais de 700 pessoas em lista de espera. A organização foi obrigada a suspender novas admissões devido à falta de financiamento para equipes médicas e de enfermagem. “Temos mais de 700 pessoas à espera e não conseguimos abrir novas vagas porque não temos condições financeiras para expandir a resposta”, explica o responsável. Este bloqueio acontece num contexto em que a procura continua aumentando, especialmente entre populações consideradas mais expostas ao risco de infeção. No modelo atual, o acesso à PrEP no SNS (sistema nacional de saúde português), depende sobretudo de consultas hospitalares especializadas. Segundo as organizações, os tempos de espera podem atingir até um ano para a primeira consulta. Na prática, isso cria um sistema desigual: quem consegue pagar recorre ao setor privado e acede mais rapidamente ao tratamento preventivo; quem depende do sistema público entra numa fila de espera prolongada. Além do projeto comunitário bloqueado, as organizações alertam para a ausência de financiamento estável para atividades essenciais de prevenção e rastreio. Em 2024, o GAT realizou mais de 40 mil testes rápidos de HIV, representando mais de metade dos 68 mil testes oficiais realizados no país. Em 2025, ultrapassou os 45 mil testes, mas teve de limitar a sua atividade por falta de recursos. Segundo os responsáveis, a dependência das ONG para o rastreio e prevenção evidencia uma fragilidade estrutural do sistema. Meta distante até 2030 Portugal comprometeu-se com metas internacionais (ONUSIDA) para reduzir drasticamente novas infeções por HIV até 2030. No entanto, com a cobertura atual de PrEP muito abaixo do necessário e projetos de expansão sem financiamento, organizações alertam para um desequilíbrio crescente entre objetivos e realidade. “Se queremos cumprir as metas de saúde pública, precisamos de escala. E escala exige investimento”, resume Mendão. Enquanto isso, centenas de pessoas continuam em lista de espera para um tratamento preventivo já reconhecido como altamente eficaz – mas ainda fora do alcance de todos os que dele necessitam.

Após ter encerrado a turnê "Tempo Rei" no Brasil, no último fim de semana, Gilberto Gil desembarcou em Paris, onde emplaca o line-up do festival Back2Black nesta sexta-feira (3), com ingressos esgotados há semanas. Ao lado de filhos e netos, ele subirá no palco no célebre Théâtre du Châtelet para apresentar os grandes sucessos de seus mais de 60 anos de carreira. Daniella Franco, da RFI em Paris O festival Back2Black é realizado desde 2009, com 12 edições no Rio e uma em Londres, em 2012. Em Paris, o evento foi inicialmente pensado para ocorrer em 2025, durante a Temporada Cultural França-Brasil. No entanto, a organização se estendeu, levando o festival a coincidir com o encerramento da turnê "Tempo Rei", na qual Gil se despediu dos grandes palcos no Brasil, reunindo mais de um milhão de fãs. A edição parisiense do Back2Black tem o formato de um dia, mas conta com uma rica programação. Entre as atrações, está a exposição do artista plástico Carybé e duas sessões de projeção do documentário "3 Obás de Xangô", de Sérgio Machado, às 16h30 e às 18h. A festa começa com o Baile Bom no Grand Foyer do teatro, seguido de um DJ set da luso-guineense Umafricana, às 19h. Em seguida, a cantora brasileira Agnes Nunes e o artista camaronense Blick Bassy entram em cena às 20h e o espetáculo se encerra com chave de ouro, com o show de Gilberto Gil, às 21h20. "O Back2Black foi criado no sentido de levar para o Brasil uma África contemporânea que era pouco conhecida, principalmente quando eu comecei o festival, em 2009", diz a idealizadora e diretora do Back2Black, Connie Lopes. "Nesta época, havia muito poucos artistas contemporâneos africanos que iam ao Brasil. A África ainda era algo muito folclórico no Brasil e as pessoas conheciam muito pouco sobre essa cultura pulsante que é a cultura africana", reitera. Connie, que conhece Gilberto Gil há mais 40 anos, ressalta a relação do cantor e compositor com o público francês. "Eu viajei muito com Gil no início dos anos 1990, eu vim muitas vezes com ele à França, então sei do carinho que ele recebe em cada país. Na França, ele sempre teve uma acolhida muito, muito grande", lembra. Apesar de não ter detalhes sobre o repertório que será apresentado nesta noite, Connie garante que será um momento especial. "Gil é Gil, um símbolo tão forte! Qualquer show dele, seja acústico, solo com violão, junto a uma banda de quinze pessoas, a gente sempre sai de alma lavada", afirma. Gil: um tesouro nacional Nascido em 26 de junho de 1942 em Salvador, na Bahia, Gilberto Gil é um dos maiores artistas do Brasil, pilar da MPB. Junto de Caetano Veloso, Gal Gosta e Tom Zé, fundou o Tropicalismo, movimento artístico que revolucionou a cultura brasileira na década de 1960. Com mais de 50 álbuns lançados e oito Grammys, é muito mais que um músico, e alcança um status de tesouro nacional. Na política, Gil teve participação ativa na resistência à ditadura militar, chegando a ser preso e tendo de se exilar. Teve também um papel importante na vida pública: foi ministro da Cultura entre 2003 e 2008, onde promoveu políticas voltadas à diversidade cultural. "Ao longo do tempo, ele vai incorporando no imaginário, tanto no Brasil como no exterior, uma ideia de alegria, de resiliência e de uma reflexão ativa", avalia Sheyla Diniz, professora e pesquisadora colaboradora do Departamento de História da USP. "O professor e crítico literário José Miguel Wisnik se refere a Gil num texto como 'o bom pastor'. É como se ele conduzisse e fosse um intelectual orgânico daquilo que ele faz. O Gil está pensando o Brasil o tempo todo", destaca. Segundo Sheyla, essa encarnação da brasilidade também ajudou o artista baiano a se posicionar na cena internacional como um dos músicos mais importantes do país. "O mercado europeu, principalmente a França, se interessam pela música brasileira. A marca Brasil tem uma marca simbólica muito grande neste mercado e o Gil sabe trabalhar muito bem com essa marca. Ele explora símbolos de brasilidade sendo ao mesmo tempo internacional", aponta. Além disso, a professora e pesquisadora destaca o papel que Gil incorpora de mediador cultural do Atlântico Negro, título de uma das obras do sociólogo britânico Paul Gilroy. Sheyla lembra que a partir do momento em que ele é obrigado a se exilar pelo regime militar e chega em Londres, Gil tem contato com artistas e intelectuais da diáspora africana no Reino Unido. Esses encontros desembocarão em uma viagem que o baiano faz para Lagos, na Nigéria, um capítulo de sua vida que resultará no álbum "Refavela", de 1977, uma homenagem aos laços entre o Brasil e a África. "Gil assume um papel muito importante na revitalização das práticas afro-diaspóricas brasileiras, e vai se construindo mesmo como um músico intelectual negro. Estabelece parcerias com Jimmy Cliff, regrava 'No, Woman, No Cry', do Bob Marley", exemplifica. "Ou seja, é impossível não olhar para o Gil e entendê-lo nesse papel. Ele foi conseguindo essa entrada no mundo como intelectual e músico que pensa o lugar do Brasil e dos negros do Brasil no mundo", conclui. Depois de Paris, Gil passa pela Itália, com shows em Roma, em 6 de abril, e Milão, em 8 de abril, e Porto, em Portugal, em 10 de abril. Em julho, Gil volta para a Europa para outras três datas em Londres, dia 7 de julho, Cascais, em Portugal, em 8 de julho, e Perugia, na Itália, em 10 de julho.

A coleção pessoal do crítico de arte brasileiro Roberto Pontual será leiloada em Paris nesta terça-feira (31). Trata-se da primeira venda na França dedicada exclusivamente a obras brasileiras. Reunido ao longo de décadas, o acervo reúne cerca de 150 peças de mais de 60 artistas contemporâneos, produzidas entre 1945 e 1994 – um conjunto que Vincent Wierink, ex-companheiro de Pontual, descreve como sendo “de afeto”. Crítico de arte, jornalista e poeta, Roberto Pontual marcou a cena artística carioca dos anos 1970. Após dirigir programas educativos e exposições no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), consolidou-se como uma voz influente, especialmente por meio de suas crônicas no Jornal do Brasil e da curadoria de exposições emblemáticas, como a representação brasileira na Bienal de Veneza em 1980. Seu livro Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, publicado em 1969, quando Pontual tinha apenas 30 anos, permanece como obra de referência no mundo das artes. Além disso, ele publicou diversos ensaios e catálogos sobre arte contemporânea. Em 1980, mudou-se para Paris, onde continuou atuando como crítico e curador até sua morte, em 1994, em decorrência da AIDS. Sua coleção reúne obras de artistas brasileiros contemporâneos emblemáticos, muitos deles amigos próximos de Pontual, como Paulo Roberto Leão, Carlos Scliar, Ione Saldanha, Alair Gomes, Glauco Rodrigues, Antonio Bandeira, Frans Krajcberg, Ivan Serpa, Cildo Meireles e Wanda Pimentel. O acervo foi constituído por meio de compras espontâneas em visitas a ateliês, presentes de artistas, trocas e até pagamentos por prefácios, catálogos ou curadorias. Um retrato de afeto Segundo Vincent Wierink, a coleção é “tanto um retrato da arte brasileira da segunda metade do século XX quanto um verdadeiro retrato de Pontual”, um homem apaixonado pelos artistas e que não tinha a intenção de ser colecionador. “Ele era uma pessoa que não tinha verdadeiramente uma preferência. Tinha um respeito tão grande pelos artistas que o leque de seu interesse era enorme. Ele passava pela fotografia, escultura, pintura, abstrato, figurativo, conceitual”, diz Wierink, legatário universal de Roberto Pontual e herdeiro de sua obra e de sua coleção. Ele conta que a decisão de vender um acervo tão pessoal, cujas peças decoravam o apartamento que o casal compartilhava, não foi simples. “Para mim, mergulhar novamente na coleção foi quase uma catarse, um movimento muito emocional. Eu redescobri a coleção, que estava escondida há mais de 30 anos.” “Logo após a morte do Roberto, em 94, eu tive que mudar tudo na minha vida. Tive que mudar de apartamento. Era quase insuportável ficar lá. Então mudei, empacotei a coleção inteira e pronto. Mudei de vida, mudei de lugar. Não vou dizer que esqueci a coleção, obviamente não, mas ela ficou guardada”, lembra. “No fim do ano passado, pensei: ‘estou avançando na idade, e se acontece alguma coisa comigo, o que vai ser dessa coleção? Ninguém conhece essa coleção'", explica Wierink, que decidiu então entrar em contato com Salomé Pirson, da casa de leilões independente Maurice Auction, que chamou a consultora de arte brasileira radicada em Paris, Maria do Mar Guinle. “Quando elas viram a coleção, tiveram uma reação imediata: a Salomé disse que era possível sentir uma alma por trás dela, e a Maria do Mar comentou que era uma coleção de afeto”, lembra. “Roberto, obviamente, tinha muito afeto e amizade por um grande número de artistas. Acho que não havia um artista que não gostasse do Roberto. Ele era uma pessoa luminosa, carismática, que queria o bem das pessoas. Às vezes eu digo que ele era mais um analista de arte do que um crítico. Não distribuía bons e maus pontos. Ele realmente ajudava as pessoas a se expressar, a atravessar crises”, diz Wierink. Uma aposta “Nunca houve uma venda de arte brasileira moderna na França. Mas é uma aposta”, afirma, lembrando que chegou a considerar realizar o leilão em Nova York ou no Brasil, mas decidiu rapidamente por Paris. “Tudo bem nunca ter sido feito. Tudo bem fazermos uma aposta. Mas há também uma lógica para mim. É como se o círculo se fechasse. Roberto escolheu – bom, nós nos conhecemos e, por causa do nosso encontro, ele decidiu mudar de vida, deixar o Brasil e se radicar em Paris. Ele amou profundamente a França, amou profundamente a Europa. Então era natural, mais lógico, que a coleção fosse vendida na cidade onde ele escolheu viver e onde faleceu", diz. O leilão será realizado às 15h em Paris (11h em Brasília). Uma parte do montante arrecadado será dedicada à organização francesa de luta contra o HIV, Sidaction.

Como toda pessoa que um dia decidiu mudar de país, a enorme comunidade brasileira que escolheu Portugal para viver trouxe na bagagem muito mais do que a saudade. O arroz com feijão, a farofa no domingo e o pão de queijo são frequentes nas mesas dos imigrantes brasileiros neste outro lado do Atlântico. Aromas, sabores, ingredientes e o nosso jeito de cozinhar têm conquistado paladares mundo a fora. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Nos últimos anos, Portugal viu crescer endereços onde o Brasil é a grande estrela, da comida de rua reinventada à cozinha de autor. Um cenário totalmente diferente dos rodízios de carne que durante muito tempo foram sinônimo de comida brasileira em terras lusitanas. Hoje, até mesmo em alguns restaurantes portugueses, é possível pedir uma moqueca de camarão com azeite de dendê e feita em panela de barro. Verdade seja dita, este prato nasceu na África, atravessou o oceano e criou raízes na Bahia. A versão servida no Cantinho do Avillez, um dos restaurantes do chef estrelado José Avillez, é a Moqueca do Mar, que é uma combinação de corvina com camarão e um toque de amendoim. Comida é memória, afeto e origem Outra estrela da gastronomia lusitana é Kiko Martins, conhecido por ser um chef ousado e criativo em seus cinco restaurantes lisboetas. Em um deles, o Boteco, dedicado à cozinha brasileira, há no cardápio dadinhos de tapioca, pão de queijo, pastéis de vento, feijoada, picanha e bolo brigadeiro. Filho de pai português e mãe pernambucana, o chef passou sua infância no Rio de Janeiro e explica que quis abrir este espaço para honrar a sua herança familiar. Graças ao talento de chefs o Brasil tem proporcionado descobertas que vão muito além dos clichês: um peixe grelhado com manteiga de maracujá ou uma picanha com farofa de mandioca e legumes na brasa com rapadura são exemplos da criatividade que tem feito a cozinha brasileira brilhar e ser mais respeitada. A chef sergipana Lizandra Almeida é uma estrela em ascensão. Ela estudou no renomado Le Cordon Bleu do México, graças a uma bolsa de estudos e depois trabalhou com grelhados em restaurantes de São Paulo. Agora, aos 31 anos e vivendo há três anos em Lisboa, Lizandra foi uma das finalistas na categoria chef revelação do prestigiado prêmio Mesa Marcada, que reconhece os talentos da gastronomia em Portugal. Ela, que trabalha com grelhados no Pils Grill Eatery, conta como recebeu a notícia de que tinha sido indicada ao prêmio. Ainda em São Paulo, ao ter contato com o processo de defumação da carne, Lizandra se apaixonou por este mundo e quis conhecer mais as técnicas. Ela relembra que teve bastante dificuldade por ser um universo bem masculino e fechado. “Foi desafiador, consegui me destacar e também alcançar as possibilidades de entrar para o meio, porque eu era sempre vista como a menina que estava ali para fazer a sobremesa e não para trabalhar com a carne”, recorda. Na opinião da chef, o aumento significativo da comunidade brasileira em Portugal – há cerca de 500 mil brasileiros residentes em terras lusitanas – explica esta “invasão” da nossa gastronomia. A relação luso-brasileira é também marcada pela gastronomia Durante os séculos que o Brasil foi colônia de Portugal os hábitos alimentares sofreram transformações profundas. Ingredientes essenciais dos povos indígenas como a mandioca e dos africanos como o azeite de dendê foram em parte substituídos pela comida que os portugueses estavam habituados a comer. A fritura dos alimentos é uma herança portuguesa e os doces bem açucarados começaram a surgir no Brasil com a chegada da família Real Portuguesa. O sociólogo e historiador Gilberto Freyre, autor de Casa Grande e Senzala, dizia que a influência da culinária portuguesa se manifestava de maneira mais forte no litoral - do Maranhão ao Rio de Janeiro - enquanto a africana sobressaia na Bahia e a indígena no norte do país. Já na década de 1960, Luís da Câmara Cascudo, um dos mais respeitados folcloristas brasileiros, escreveu em sua “História da alimentação do Brasil” que o patrimônio culinário brasileiro não possuía o peso do regionalismo, e sim, da miscigenação entre as cozinhas indígenas, africanas e portuguesas. Um dos símbolos mais emblemáticos da nossa culinária, a feijoada, teria raízes no cozido português, que no Brasil foi adaptado com o feijão preto. Para Câmara Cascudo, a feijoada como conhecemos hoje seria uma combinação criada apenas no século XIX. Décadas depois, os modernistas a elegeram prato nacional – onde influências portuguesas, africanas e indígenas se misturam - na construção de uma identidade brasileira. “Esta identidade da gastronomia brasileira está ainda em processo, não é uma realidade pronta”, costumava afirmar o historiador e membro da Academia Brasileira de Gastronomia, Ricardo Maranhão. “Nós passamos 150 anos valorizando a gastronomia estrangeira e não demos bola para a cozinha nacional.” Maranhão destacava a importância da culinária mineira, da amazônica, assim como as do litoral e do sertão do nordeste, a afrobrasileira da Bahia, a gaúcha e a do centro-oeste. “A gastronomia define nossa identidade tanto quanto os sons do samba, a arquitetura barroca ou modernista”, lembra o sociólogo Carlos Alberto Dória, especialista em cultura culinária. É inegável o espaço e prestígio que a gastronomia brasileira tem conquistado no exterior. Hoje em Portugal, além da cozinha autoral, há pão de queijo nas padarias e supermercados do país, brigadeiros nas festas infantis e lojas de doces, farofas como acompanhamento nas churrascarias. É o Brasil usando sua culinária como soft power para reforçar, ainda mais, os laços culturais entre os dois países.

Nem só de competição é feito um festival de cinema. O Cinélatino, em Toulouse, no sudoeste da França, conta todos os anos com uma aguardada premiação. Mas, em paralelo, o evento também promove sessões dedicadas exclusivamente a projeções de filmes já lançados e prestigiados em outros festivais. É o caso da mostra "Découvertes" (descobertas), na qual o público pode conhecer dois documentários brasileiros, "Copan", de Carine Wallauer e "Pau d'Arco", de Ana Aranha. Daniella Franco, enviada especial da RFI a Toulouse "Pau d'Arco", uma produção da Repórter Brasil e da Amana Cine, acompanha a busca por justiça dos sobreviventes da chacina em que a polícia matou dez integrantes do movimento sem-terra no Pará em 2017. Esse que é considerado um dos piores massacres de trabalhadores rurais no Brasil teve a investigação sobre os mandantes do crime encerrada em 2022, mas o processo contra os policiais está em via de ser julgado. Em entrevista à RFI, a diretora do filme, Ana Aranha, contou que a ideia de realizar o documentário surgiu durante uma reportagem que realizava para a Repórter Brasil sobre o armamento de fazendeiros no sul do Pará. "Durante essa investigação, aconteceu a chacina de Pau d'Arco. Ali a gente começou a filmar o documentário, porque eu entendi que a gente tinha uma história grande. Claro, uma chacina de dez pessoas já é uma história gigantesca, mas eu sabia que ela era ainda maior do que isso porque ela representava uma mensagem para toda a região", afirma. Boa parte do documentário é conduzida por Fernando, um dos trabalhadores sem-terra sobrevivente e principal testemunho da chacina. Com ares de um personagem ficcional, ele tem uma personalidade cativante, que encanta e emociona o público por onde o documentário é exibido. "A gente percebe que o Fernando cria uma conexão muito forte com as pessoas. Quem assiste ao filme dá risada e chora com ele. O Fernando acabou fazendo com que essa história virasse um filme. Foi a força deste personagem que nos chamou a fazer um documentário", diz Ana. A Repórter Brasil realiza atualmente uma campanha de impacto no Brasil e na Europa, com sessões estratégicas de "Pau d'Arco", para que ocorra o julgamento dos policiais que cometeram a chacina. Depois de uma última projeção no Cinélatino neste domingo (29), "Pau d'Arco" segue para Londres onde será exibido em 31 de março e 1° de abril no King's College e dia 2 de abril na London School of Economics. Histórias e imaginário em torno do edifício Copan Como o próprio nome diz, "Copan" conta a história do imenso edifício em São Paulo projetado por Oscar Niemeyer nos anos 1950 — um dos símbolos da arquitetura moderna brasileira, com capacidade de acolher cinco mil moradores. O filme venceu o prêmio principal do célebre festival internacional de documentários "É Tudo Verdade", em 2025. Em entrevista à RFI em Toulouse, Carine Wallauer explicou que ter morado no Copan a motivou a realizar o filme, no qual trabalhou durante cinco anos. Segundo ela, a ideia partiu de um desejo de fazer um retrato cinematográfico deste icônico prédio paulistano. "Até então tinham sido feitas reportagens, que acabavam falando das mesmas pessoas, e sempre moradores. Eu tinha um desejo particular de contar as histórias e o imaginário de quem trabalha no Copan", explica. O documentário foi filmado durante a campanha eleitoral de 2022, conferindo à Carine uma oportunidade dar voz às opiniões políticas dos empregados do prédio. "Foi um documentário que foi se transformando ao longo do tempo, principalmente pela participação dos personagens, conforme eles foram entendendo qual era a linguagem do filme, e que resultou com eles se vendo no cinema, muitos indo ao cinema pela primeira vez", reitera. "Copan" ganha uma última projeção no Cinélatino neste sábado (28). No dia 10 de abril o filme será exibido na capital francesa, onde compete no CLaP, o Festival de Cinéma Latino américano de Paris.

Nenhuma outra ditadura na América do Sul sequestrou, torturou e matou tanto quanto a da Argentina, em apenas sete anos. O golpe de Estado de 1976 completa 50 anos na próxima terça-feira (24). Cerca de 400 bebês e crianças foram roubados, muitas vezes ao nascerem no cativeiro onde suas mães eram mantidas sob tortura, e destinados a famílias de militares e policiais ou a casais amigos dos torturadores. Buscarita Roa, uma Avó da Praça de Maio, ainda procura o filho, sequestrado pela ditadura argentina, mas conseguiu recuperar a neta, Claudia, criada por militares. Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires Em 1971, aos 16 anos, José Liborio Poblete Roa, o “Pepe”, perdeu as duas pernas ao cair de um trem no qual viajava de forma improvisada para evitar o custo da passagem entre Santiago e Curicó, no Chile. Um mês depois, ao receber alta médica, o jovem decidiu que queria estudar medicina, deixando seu país natal para iniciar uma nova vida na Argentina. Pepe gastou toda a indenização recebida da companhia ferroviária em uma cadeira de rodas e em uma viagem a Buenos Aires para tratamento ortopédico. “Quando lhe dei um beijo no hospital, ele me disse: ‘Mãe, por favor, não chore, porque eu serei o primeiro homem a correr com uma perna ortopédica'. Quando voltou para casa no mês seguinte, disse que haviam cortado suas pernas, mas não sua cabeça; que queria estudar medicina e começar uma nova vida na Argentina. Para mim, foi uma lição de vida”, recorda Buscarita Roa, de 88 anos, em entrevista à RFI na sede da Associação Avós da Praça de Maio. À época, o Chile era um país pobre e a vizinha Argentina, o “primo rico” da região, contava com sistemas de saúde e educação exemplares. Em dezembro de 1975, Buscarita Roa decidiu deixar a localidade chilena de La Cisterna, ao sul de Santiago, para ficar com o filho mais velho, levando com ela os outros seis filhos. “O meu filho tinha 23 anos quando desapareceu — praticamente a mesma idade da minha neta quando a reencontrei. Ele lutava por um mundo melhor. Em casa, faltava comida, mas ele levava um pão à escola para dividir com quem não tinha. Às vezes, quase não comia para poder compartilhar. Até hoje preparo um lanche e o deixo pendurado na porta de casa para quem precisar”, conta Buscarita. No instituto de reabilitação onde morava, Pepe conheceu a argentina Gertrudis Marta Hlaczik, conhecida como “Trudi”. Os dois se apaixonaram e tiveram Claudia. Com outros jovens do instituto, Pepe fundou a Frente de Aleijados Peronistas, uma organização política de esquerda que reunia cerca de 200 militantes. O peronismo seria alvo da ditadura argentina, instaurada em 24 de março de 1976, há 50 anos. O sequestro Em 28 de novembro de 1978, o casal e a bebê de oito meses foram sequestrados por militares e levados ao centro clandestino de prisão, tortura e extermínio em Buenos Aires, chamado pelos próprios torturadores de “El Olimpo”, pois se consideravam deuses sobre a vida dos cerca de 500 sequestrados que por ali passaram — a maioria até hoje desaparecida, como Pepe e Trudi. Buscarita Roa relembra à RFI o cenário que encontrou ao chegar à casa do filho, no dia do sequestro, para cuidar da neta: “Eu cuidava da Claudia enquanto eles trabalhavam. Quando cheguei de manhã, encontrei a casa destruída: janelas quebradas, porta arrombada no chão. Uma vizinha me disse: ‘Ontem à noite vieram um caminhão do Exército e uma viatura policial. Derrubaram tudo e os levaram embora'”, relembra. “Comecei a procurá-los. Encontrei outras pessoas que também buscavam seus familiares. Depois descobri que havia muitos casos. Reuníamo-nos numa igreja, todos chorando, sem conseguir encontrar nossos filhos. Era algo espantoso”, descreve, emocionada. Dois dias depois, o então coronel Ceferino Landa, que não podia ter filhos, foi ao centro clandestino e levou Claudia. Ele se apropriou da menina, mudou seu nome para Mercedes Beatriz Landa Moreira e a criou como filha até ela completar quase 22 anos. A informação sobre o destino do casal só surgiu anos depois, com investigações realizadas após o retorno da democracia na Argentina. Segundo a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), Trudi e Pepe foram “terrivelmente torturados”. Durante anos, Buscarita procurou, sem sucesso, pelo filho, pela nora e pela neta. No início, era acompanhada pela mãe de Trudi, que acabou entrando em depressão e cometeu suicídio. Na época, Buscarita trabalhava como supervisora de limpeza no Ministério do Planejamento da Argentina, a apenas quatro quarteirões da Praça de Maio. O ministério era repleto de militares. Para não levantar suspeitas, mantinha silêncio no trabalho; depois do expediente, saía em busca da família sequestrada. A cada dia, encontrava mais casos semelhantes ao seu. Avó da Praça de Maio Um dia, ao passar pela Praça, viu várias mulheres com lenços brancos na cabeça. Curiosa, perguntou por que estavam reunidas ali. Descobriu que procuravam seus filhos e netos desaparecidos. Foi nesse momento que Buscarita se tornou uma Avó da Praça de Maio. Hoje, é vice-presidente de um dos mais importantes organismos de direitos humanos do mundo. “Comecei a fazer as rondas, chorando sem parar, porque era terrorífico. Minha nora, minha neta e meu filho… não era fácil viver. E eu precisava entrar no Ministério do Planejamento, cheio de militares da ditadura, aparentando tranquilidade para que ninguém percebesse o que eu estava passando”, conta. A postura era essencial. No fim de 1977, mães da Praça de Maio — Esther Ballestrino, María Eugenia Ponce e a fundadora Azucena Villaflor — também foram sequestradas e lançadas vivas nos chamados “voos da morte”, método usado para eliminar prisioneiros: eram jogados de aviões, geralmente dopados e nus. Até hoje, as poucas Mães da Praça de Maio ainda vivas percorrem a praça religiosamente às quintas-feiras. Já realizaram 2.501 rondas desde abril de 1977, quando passaram a usar lenços na cabeça para se reconhecerem e tiveram de circular continuamente, já que reuniões eram proibidas pelo estado de sítio. Seis meses depois, em outubro de 1977, algumas perceberam que também precisavam procurar os netos, dando origem às Avós da Praça de Maio. “Eu procurava pelos três: meu filho, minha nora e minha neta. As marchas davam visibilidade. Jornalistas do mundo todo começaram a aparecer. Foi assim que mães e avós da Praça de Maio se tornaram conhecidas”, diz Buscarita. “Anos depois, soube que minha neta havia sido apropriada. Nas Avós da Praça de Maio recebemos a informação de que bebês e crianças eram entregues a militares e policiais. O problema era descobrir por quem”, explica. A descoberta Graças às campanhas na mídia e às investigações judiciais, uma denúncia anônima apontou uma jovem como possível vítima de apropriação ilegal. As datas e descrições coincidiam. O exame de DNA, no início de 2000, confirmou: era Claudia. “Como dizer a uma jovem de 21 anos: ‘Você é minha neta?' Não é fácil. Foi preciso paciência, equilíbrio e espera. Aos poucos, conseguimos conquistá-la”, relata Buscarita. “Desde muito jovem, eu sentia que algo estava errado. Meus apropriadores — as pessoas que eu pensava serem meus pais — eram muito mais velhos. Meus colegas achavam que fossem meus avós. Eles tinham quase 50 anos em 1978”, conta Claudia Poblete à RFI. “Escondiam documentos e diziam que não tinham fotos da gravidez porque haviam sido roubadas.” No início, Claudia passou a chamar o casal que a criou pelos nomes; depois, passou a se referir a eles como “apropriadores”. Hoje, não mantém mais contato e afirma que eles nunca demonstraram arrependimento. “Mesmo assim, mantive vínculo com eles por um tempo. Quando minha filha nasceu, ela se parecia muito comigo e com fotos minhas de bebê com meus pais biológicos. Foi um choque. Comecei a entender o que significa ser mãe”, diz. “Passei a refletir sobre o que minha mãe viveu: a gravidez, a separação, o sequestro. E percebi que, para meus apropriadores, tudo aquilo fazia parte do cotidiano — eles mentiram para mim todos os dias.” Claudia demorou a assimilar sua história, e a família temeu perdê-la. Foram necessários mais cinco anos para que acontecesse o primeiro abraço. “Num momento de descuido, nos abraçamos pela primeira vez e choramos. Foi muito forte. Senti como se Pepe e a mãe dela estivessem ali. Então pensei: ‘Filho, cumpri minha missão. Aqui está sua filha'”, desabafa Buscarita. Passaram-se 26 anos desde o reencontro, mas permanece um vazio entre avó e neta. “Sinto a perda irreparável daqueles vinte anos que nos foram roubados. Quando a abraço, percebo que há algo que nunca poderemos recuperar. É triste”, diz Claudia. “Ao mesmo tempo, é um privilégio tê-la. Muitos netos recuperam a identidade quando a avó já não está mais viva.” A procura continua Buscarita ainda procura pelo filho e pela nora; Claudia, agora, busca pelos pais. “Encontrar os corpos nos permitiria entender o que aconteceu e começar a fechar essa ferida. Enquanto não sabemos, ela permanece aberta”, afirma Claudia. “No fundo, sei que os mataram. Seria um milagre encontrá-los vivos. Mas queremos ao menos saber onde estão os restos. Mesmo que seja um pequeno fragmento, já seria uma bênção. Poder tocá-los e dar-lhes uma sepultura cristã me permitiria morrer em paz”, diz Buscarita, emocionada. No início da ditadura, crianças já nascidas eram entregues como abandonadas a instituições e adotadas com apoio de juízes. Com o aumento do sequestro de grávidas, surgiu uma segunda fase: o plano sistemático de roubo de bebês. Posteriormente, quando as Avós da Praça de Maio ganharam visibilidade, iniciou-se uma terceira fase: o roubo era disfarçado, registrando-se a criança como abandonada por poucas horas antes de sua entrega a militares, com aparência de legalidade. As Avós estimam que cerca de 400 netos foram sequestrados. Até agora, 140 foram recuperados. Claudia foi a neta número 64. Alguns corpos de mulheres foram encontrados ainda com o feto — assassinadas grávidas. O plano sistemático e perverso de roubo de bebês foi uma prática singular da ditadura argentina.

Paris se prepara para o primeiro turno das eleições municipais francesas, neste domingo (15), as mais disputadas dos últimos anos na capital. Com a saída da socialista Anne Hidalgo após 12 anos no poder, a corrida à Prefeitura vive um clima de forte tensão política e debates intensos sobre o futuro da cidade. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris A segurança aparece no topo das preocupações dos parisienses, e os candidatos apresentam propostas para reforçar a presença policial e combater ações de vandalismo. “Nos subúrbios de Paris há pontos de tráfico, venda de cigarros, sobretudo no leste. Há muitos camelôs, e esse é um problema que eu acredito que venha da imigração”, diz Arnaud, técnico da construção civil. “Há muitas pessoas desabrigadas, sem domicílio, que estão pelas ruas; não sabemos o que elas fazem. Vemos bastante barracas perto de Châtelet–Les Halles, muitas tendas embaixo das marquises e pessoas que estão na miséria. Não sabemos se existe algum risco”, acrescenta. Outro tema que domina a campanha: a limpeza da cidade. Com críticas crescentes ao estado das ruas, alguns candidatos defendem até triplicar o orçamento para deixá-la mais limpa. As propostas incluem modernizar a coleta de lixo, lidar com pichações e controlar a população de ratos. “Sim, há bastante ratos, mas há muita comida também, muitos restaurantes, então eles vêm para comer”, relata, sem medo. “Há mais ratos do que gente em Paris”, diz em tom de brincadeira. Paris vive uma transformação profunda na mobilidade. Ciclovias, redução do espaço para carros, zonas de baixa emissão de poluentes e a reorganização das grandes avenidas geram debates acalorados. A direita critica o “trânsito caótico”, enquanto a esquerda e os verdes defendem uma cidade mais calma e menos poluída. “É mais nas grandes linhas que há problemas de transporte”, opina Florian. “O metrô e o ônibus funcionam muito bem em Paris. Hoje aceitamos mais as bicicletas, e é melhor com bicicletas do que com carros. Isso permite aos pedestres circular tranquilamente”, diz. Crise de moradia Paris vive hoje uma das piores crises de moradia de sua história. Do total de 1,4 milhão de moradias da cidade, só um quarto está disponível para alugar, sendo que 300 mil imóveis estão vazios ou fechados. Em três anos, o número de anúncios de imóveis para alugar caiu 74%. E, a cada ano, Paris perde cerca de 8 mil apartamentos do mercado de aluguel para outros usos, como locação para turismo ou escritórios. Entre os mais afetados estão estudantes e jovens trabalhadores. Hoje, 10% dos estudantes da capital já viveram em situação de rua em algum momento. Na região parisiense, a situação é ainda mais grave: 1,3 milhão de pessoas vivem em condições precárias, e mais de 125 mil não têm domicílio fixo. Paris e arredores contam com 4.300 sem-teto. O sistema de moradia social também está sobrecarregado. Quase 900 mil pessoas esperam na fila por um apartamento com aluguel subsidiado, e só 7% conseguem um teto por ano. A crise imobiliária ocupa boa parte dos programas eleitorais: controle do valor dos aluguéis, construção de casas e prédios populares, regulação de Airbnbs e novos planos de urbanismo estão em disputa. Serge é piloto de avião e conta como viu Paris se transformar. “Uma cidade que, em 20 anos, se tornou triste. Há muitos parisienses deixando Paris; há cada vez menos habitantes”, lamenta. “A imagem icônica de Paris está ruindo. Eu moro no centro e está parecendo a Disneylândia. Convivo cada vez menos com parisienses e cada vez mais com turistas. E eles ficam decepcionados porque não encontram mais a imagem icônica de Paris. Uma invasão de Airbnbs; muita gente se aproveita”, observa. Políticas ambientais em debate As políticas ambientais introduzidas pela prefeita Anne Hidalgo seguem em debate. A vegetalização de grandes avenidas virou alvo de críticas da direita, que teme alterações na circulação e no comércio local. A pauta ambiental continua central: mais verde, menos carros e adaptação às mudanças climáticas. O taxista Bettayb acha que há exageros. “A bicicleta entrou, isso é normal, mas às vezes acho exagerado”, aponta. “Um exemplo: aqui na Rue de Rivoli, são quatro pistas para as bicicletas e uma pista para ônibus, táxis e outros”, calcula. Além disso, “há muitos engarrafamentos em Paris”. Outro problema, segundo ele, é a instalação de postes e barreiras de proteção que às vezes não são visíveis e podem danificar carros. Como apoiar os mais vulneráveis? Os candidatos divergem sobre políticas de acolhimento, saúde pública e assistência social em um cenário de aumento da precarização. Quem assume Paris depois de Anne Hidalgo? A esquerda tenta manter o controle com o candidato Emmanuel Grégoire, líder nas pesquisas. Atrás dele, Rachida Dati, da direita, e outros três concorrentes têm mais de 10% das intenções de voto e podem passar para o segundo turno. Entre propostas urbanas, disputas políticas e escândalos, a eleição de Paris promete um dos cenários mais imprevisíveis dos últimos anos. Além disso, as eleições municipais realizadas em 15 e 22 de março servem como teste das questões que preocupam a sociedade, aproximadamente um ano antes da próxima eleição presidencial.

A autora, diretora e atriz brasileira Viviane Dias vem despertando o interesse dos estudantes da Universidade Paris 8 com um curso acadêmico dedicado ao teatro brasileiro. A partir de figuras do teatro nacional, das ressonâncias modernistas e de referenciais decoloniais, ela apresenta a inventividade da cena paulista a alunos que pouco conhecem da riqueza cultural do país. Em sua segunda edição, a formação voltou a lotar rapidamente as 40 vagas disponíveis e deve permanecer na grade universitária no próximo ano letivo, fortalecendo o intercâmbio artístico entre o Brasil e a Europa. O curso integra o Departamento de Artes, Filosofia e Estética da Universidade Paris 8 e reúne estudantes de teatro, cinema, artes plásticas e filosofia. Para Viviane Dias, a iniciativa surgiu do desejo de apresentar aos jovens franceses outras referências para além do repertório europeu tradicional. “A gente fala das invenções do Teatro de São Paulo, das invenções de linguagem”, explica. “Fazemos um caminho que começa desde o modernismo, nesse primeiro momento em que se buscou uma arte emancipada da Europa. Em que foram formuladas questões mais próprias da cultura brasileira. Seguimos até o momento em que essas ideias acabaram se materializando na cena por meio do José Celso e do Teatro Oficina, que é uma grande referência, e que oferecem uma cena completamente diferente do que eles estão habituados a ver.” Segundo a professora, muitos alunos buscam o curso justamente porque sentem “saturação” de referências tradicionais e precisam de novos estímulos. “Normalmente, eles vêm de formações muito logocêntricas. Tento deslocar um pouquinho essa percepção”, conta. Perspectiva decolonial e o ensino do Sul Global A professora ressalta que compreender melhor a produção do Sul Global é fundamental para jovens que, no futuro, atuarão em novas cenas culturais da Europa. Nesse sentido, autores como o contemporâneo Ailton Krenak, o modernista Oswald de Andrade e artistas como Tarsila do Amaral têm gerado grande interesse entre os estudantes. “Eles têm poucas referências sobre o Brasil, e quando têm, é muito raso, às vezes o clichê do Brasil, do carnaval”, afirma. “É importante falar do Brasil e mostrar que a gente é ótimo para fazer festa, mas a gente também é excelente em fazer teatro, cinema e artes visuais. Além disso, a gente produz pensamento, que é muito interessante e pode nos ajudar a pensar melhor o século 21”, afirma Viviane Dias. Alunos veem o curso como abertura de horizontes Entre os inscritos está Kayij Baku‑Carlos, de 18 anos, estudante de Cinema e francês de origem angolana. Ele considera essencial compreender outras tradições artísticas para construir sua identidade profissional. “Aqui na França, muitas vezes, quando aprendemos História na escola recebemos, inevitavelmente, um ponto de vista mais eurocêntrico e francocêntrico”, diz. “Na universidade, somos expostos a diferentes percursos culturais ligados à arte de vários países. Preciso ampliar meu olhar e entender como esse trabalho é feito em outros lugares. Como sou angolano por parte de pai, pensei que o curso poderia me ajudar a compreender melhor uma parte da minha cultura e da minha herança lusófona, de um país PALOP”, conclui o jovem. Para Ryod Caldas, de 19 anos, estudante de Teatro, o impacto é semelhante: “Quase nunca vemos o que acontece fora do nosso próprio país. Geralmente ouvimos falar de Shakespeare e dramaturgos europeus. Explorar outras referências amplia nossa visão e nossas inspirações”. A única brasileira da turma, Mayara Marçal, de 25 anos, destaca a importância de mostrar à universidade que há interesse por temas ligados ao Brasil e a outros continentes. “Aqui a gente costuma estudar muito autores franceses. Quando vi que tinha um curso na grade curricular ministrado por uma professora brasileira, um curso de descolonização do teatro, eu achei incrível! É uma forma de mostrar para a universidade que a gente se interessa por professores de outros países, por aulas que falem sobre arte de outros continentes, não só da França”. Um curso em Paris e São Paulo ao mesmo tempo O alcance do trabalho fez com que a formação chamasse a atenção da pós-graduação em Artes Cênicas da USP. Com isso, o curso será oferecido simultaneamente na Universidade Paris 8 e na ECA‑USP, em parceria com o professor Ferdinando Martins – algo inédito, segundo Viviane. “É a primeira vez que um curso dedicado às invenções cênicas brasileiras contemporâneas é oferecido ao mesmo tempo em uma universidade parisiense e na USP”, afirma. Para ela, essa articulação reflete um espírito do século 21 de ampliação de caminhos possíveis e inovadores para a educação. “Vivemos entre mundos e espaços, mas ainda somos muito caretas na nossa maneira de pensar processos pedagógicos. Espero que eu possa fazer mais pontes entre as coisas do Brasil e daqui. Eu também faço uma pesquisa de criação. Eu sou uma artista e pesquisadora. As duas coisas são importantes e andam juntas na minha vida”, conclui Viviane Dias.

Os tradicionais centros do futebol mundial ganharam um concorrente nos últimos anos. As atenções não estão mais divididas apenas entre sul-americanos e europeus. A Arábia Saudita, que vai sediar a Copa do Mundo de 2034, surge como um dos principais mercados emergentes do futebol. O país tem atraído cada vez mais jogadores estrangeiros: Roberto Firmino, Cristiano Ronaldo, Benzema e Sadio Mané são alguns dos principais nomes que desfilam seus talentos em gramados árabes. Marcio Arruda, da RFI em Paris Mas o país não chama a atenção somente de jogadores da modalidade masculina. O campeonato feminino tem atraído cada vez mais mulheres estrangeiras. A liga feminina, chamada de Saudi Women's Premier League, reúne atualmente oito clubes; e seis contam com brasileiras em seus elencos. Uma delas é a mineira Letícia Nunes, que ainda busca seu espaço na seleção brasileira. Enquanto sonha em ser chamada pelo técnico do Brasil, Arthur Elias, a atacante de 28 anos tem se firmado como uma das principais jogadoras do Al-Ittihad Jeddah. Em entrevista ao jornalista da RFI, Marco Martins, a jogadora destacou o bom momento que vive no futebol. “Já é minha segunda temporada aqui na Arábia Saudita. Eu venho de uma temporada boa no ano passado, quando fiz muitos gols. Na atual temporada, o grupo encaixou melhor e temos tido mais vitórias e mais empates, que tem sido um pouco diferente da passada. Acredito que o futebol saudita está numa evolução. Como o grupo está melhorando, o individual também melhora”, afirmou Letícia. Leia tambémBrasil vai sediar a Copa do Mundo Feminina de futebol em 2027 Na última rodada do campeonato saudita, o Al-Ittihad Jeddah venceu o Al-Hilal por 3 a 1. O terceiro gol foi da brasileira, que já tem três na atual temporada. Com a vitória, o time de Letícia assumiu a vice-liderança da liga. “A pretensão da gente é ficar no top 4. Claro, sempre a ideia é ser campeão, acho que nenhuma equipe entra num campeonato sem pensar em ser campeão. Porém, temos um time aqui que é muito forte, que é o Al-Nassr e está disparado na frente da tabela. Mas, de início, é ficar entre os três ou quatro primeiros colocados”, revelou a atacante brasileira. Antes de se destacar na Arábia Saudita, Letícia ganhou projeção no Brasil atuando no futebol mineiro. “Tive uma passagem pelo Ipatinga, que é um time do interior de Minas Gerais. Eu me destaquei lá e fui vista pelo América Mineiro", lembrou. "Na minha opinião, foi no América Mineiro que eu vivi o melhor momento da minha carreira, fazendo muitos gols e tendo muitas participações nos jogos. De lá eu fui para o Bahia, onde também tive uma experiência muito boa. Tanto que eu fui a primeira jogadora do departamento feminino do Bahia a ser vendida para um clube do exterior. De Salvador, eu vim direto para cá” No futebol árabe desde agosto de 2024, Letícia falou das dificuldades que enfrentou em sua primeira experiência fora do Brasil. “Para mim foi um pouco impactante, mas sempre fui corajosa e sem medo dos desafios. Quando cheguei aqui, a cultura e as vestimentas chamaram muito minha atenção. Na rua, todas as pessoas usam roupas semelhantes; as mulheres não mostram o rosto nem o corpo, algo bem diferente da nossa realidade no Brasil", comparou. "A vida social praticamente não existe para mim. Então, meu convívio é mais com as meninas do clube e as pessoas do trabalho. O lado positivo é que é um lugar muito tranquilo e seguro, onde você tem tempo para fazer suas coisas. E é nisso que eu tento me apegar” “Eu acho que foi algo muito bom para mim. Antes eu não tinha contato com a língua inglesa e hoje eu falo inglês e espanhol. Se por acaso no futuro eu tiver uma oportunidade de ir para algum clube da Europa ou dos Estados Unidos, eu acho que a escolha será muito mais fácil", afirmou Letícia. Experiência gratificante Atualmente, muitas jogadoras brasileiras atuam em gramados europeus. Na França, por exemplo, três jogadoras da seleção do Brasil são destaques em seus clubes: a lateral Isabela e a meia Yaya vestem a camisa do Paris Saint-Germain, enquanto que a zagueira Tarciane é titular no Lyon. "Vir para a Arábia Saudita me deu a chance de evoluir como pessoa. Então, para mim, toda essa experiência é gratificante”, disse a camisa 9 do Al-Ittihad Jeddah. A aventura no futebol da Arábia Saudita tem valido a pena para Letícia e considera que deu um salto financeiro na carreira. "Na minha opinião, a parte financeira daqui é muito melhor do que no Brasil. Isso me trouxe uma estabilidade financeira, que para mim era algo que me incomodava no Brasil em relação ao tempo que ainda tenho na minha carreira e ao que eu poderia conquistar. Aqui eu consegui uma boa estabilidade para eu ficar tranquila. Quando você sabe que está num clube estruturado, tudo isso conta. Hoje eu vejo que isso me ajudou muito”, afirmou. A atacante brasileira contou que as mulheres ainda buscam espaço nesse esporte no país, que só autorizou a entrada de torcedoras em estádios e arenas para assistir a jogos de futebol a partir de 2018. “A torcida comparece, sim, mas se fizermos uma comparação entre um jogo do masculino e outro do feminino, a diferença é grotesca. O futebol feminino aqui na Arábia Saudita ainda precisa evoluir muito. Por ser um país fechado, aqui as pessoas não têm a percepção de que a mulher pode jogar futebol. E eu acho que isso impacta ainda mais se compararmos com Portugal, Brasil ou França. A gente vê que isso é mais comum nesses países; é algo mais natural entre as pessoas”, contou a atacante brasileira. Leia tambémEm Paris, Formiga e Michael Jackson dizem o que falta para o futebol feminino decolar no Brasil A aceitação de mulheres no futebol é uma realidade no Brasil, que conta com jogadoras talentosas, como Bia Zaneratto, Gabi Zanotti e Duda Sampaio, entre outras, e clubes vitoriosos, como o Corinthians, atual vice-campeão intercontinental. Ainda assim, Letícia disse que as jogadoras ainda atravessam incertezas em suas carreiras. “Hoje, no Brasil, eu acredito que os campeonatos estão muito consolidados. Mas, por outro lado, há muita incerteza. Eu conheço muitas atletas que passam por dificuldades: estão em um clube e logo depois estão desempregadas. Querendo ou não, isso é algo complicado porque passa pela parte financeira e psicológica. Eu agradeço ter tido essa oportunidade ao clube Al-Ittihad Jeddah e também à treinadora brasileira Linsey Camila, porque foi ela quem abriu esse caminho para mim” Além de Letícia Nunes, a liga feminina da Arábia Saudita conta com as brasileiras Kathellen (lateral do Al-Nassr), Duda Francelino (meia do Al-Nassr), Rayanne (lateral do Al-Qadsiah), Adriana Maga (atacante do Al-Qadsiah), Aline Reis (goleira do Al-Ula), Tuani (zagueira do Al-Ula), Jaine Lemke (meia do Al-Ula), Priscila Hellen (lateral do Neom) e Keikei (goleira do Eastern Flames). Mesmo que lentamente, o futebol feminino ganha força na Arábia Saudita e, aos poucos, se consolida no cenário mundial. Esta é a quarta edição da Saudi Women's Premier League. O Al-Nassr, que conquistou todos os três títulos da liga feminina saudita disputados até hoje, é o líder da atual temporada com 30 pontos conquistados em 11 rodadas (10 vitórias e 1 derrota). O Al-Ittihad Jeddah da Letícia está na segunda colocação do campeonato, a oito pontos da liderança (7 vitórias, 1 empate e 3 derrotas).

Há mais de 20 anos Celso de Freitas Andrade propõe aos parisienses pratos típicos da cozinha brasileira. Chef autodidata, ele é o dono do Gabriela, atualmente o restaurante brasileiro mais antigo da capital francesa, inaugurado em 2002. Agora, ele decidiu compartilhar essa aventura gastronômica no livro “Brasileiro”, publicado em francês no final de 2025 pela editora Solar. “Brasileiro” tem um formato e visual como os livros de receita de antigamente. A obra é colorida e ricamente ilustrada com fotos que dão água na boca. O livro traz 150 receitas tradicionais, de todas as regiões do Brasil, de entradas e coquetéis, a pratos principais e sobremesas. Mas “Brasileiro” também é um livro de memórias e histórias. Celso conta a sua trajetória e contextualiza os ingredientes e receitas e preparos essenciais da culinária brasileira. A história de Celso com a cozinha começou muito antes de Paris. Ele chegou à cidade em 1998, aos 21 anos, e logo foi contratado como comissário de bordo da Air France, o que lhe permitiu viajar pelo mundo. Demitido após os atentados de 11 de setembro, decidiu não procurar outro emprego. Aos 23 anos, teve o impulso de abrir seu próprio restaurante, inspirado pela infância passada entre panelas, receitas da mãe e da avó. "Eu sempre fui o neto mais guloso. Eu estava sempre na cozinha. Então, na hora que fui despedido, me deu um insight. Eu tinha 23 anos e falei 'não vou trabalhar para ninguém, eu vou abrir um restaurante. Foi uma emoção que veio, uma memória gustativa", lembra Celso já viajou por 19 estados brasileiros e aprendeu vendo, ouvindo e experimentando as receitas locais. “Meus professores foram as pessoas”, resume. Ideia do livro nasceu na pandemia A ideia do livro nasceu durante a pandemia. Com o restaurante funcionando em ritmo reduzido, Celso decidiu registrar seu legado. o que o levou a deixar o comando da cozinha do Gabriela e formar dois sucessores. Foram quatro anos de trabalho, iniciados em 2021, com intensa pesquisa em livros antigos no Sebo do Messias, em São Paulo, e testes rigorosos de cada receita, repetidos até dez vezes. “Não é um copiar‑colar de receita nenhuma”, afirma. Fiel ao espírito tradicional da obra, Celso optou por fotografias e ilustrações feitas à mão, evitando o uso de inteligência artificial. As 60 imagens são da artista santista Eve Ferreira de Santos, responsável também pela capa coloridade em verde e amarelo. A intenção era transmitir a riqueza cultural da gastronomia brasileira. Bolinho de carne apimentado de Jorge Amado Além das receitas, há pequenas histórias que acompanham cada preparo. Entre elas, está a anedota sobre o bolinho de carne apimentado apreciado por Jorge Amado, que adorava o salgandinho até descobrir que era feito de carne de gato. O livro inclui ainda encartes temáticos sobre ingredientes emblemáticos como mandioca, milho, feijoada, pastel e sobre cozinhas regionais, como a baiana. Um do encartes é dedicado ao vegetarianismo e veganismo no Brasil, que vem ganhado cada dia mais adeptos. Celso considera a gastronomia vegana e vegetariana "fascinante porque, como cozinheiro, ele dá asas para a criação". Segundo ele, o Brasil, dono da maior biodiversidade alimentar do mundo, oferece possibilidades infinitas para criações vegetarianas sem perder o respeito às tradições. No restaurante Gabriela, que celebra 24 anos, o sucesso vem, segundo o chef, da busca por um “Brasil verdadeiro”, apresentado de forma autêntica. Celso conta que estuda uma parceria com a Embratur e a Embrapa para transformar o restaurante em uma espécie de “embaixada da Amazônia”. A ideia é valorizar preparos tradicionais da região, sem gourmetizar ingredientes. Entre as novidades, ele destaca o Quinhapira, prato do Alto Rio Negro que vem conquistando os clientes. Ingredientes brasileiro em Paris Encontrar ingredientes brasileiros em Paris já foi um grande desafio, mas Celso lembra que 2005, o Ano do Brasil na França, marcou uma virada, com a chegada de produtos como guaraná, farinha de mandioca e pimenta malagueta. Além disso, mercados africanos de Paris oferecem até jambu, vinagreira e jiló. "Com essa história terrível da escravidão entre o Brasil e a África, teve muita troca na gastronomia, cultura, artesanato. Uma troca riquíssima. Então, muitos ingredientes que a gente acha que são brasileiros, a vinagreira por exemplo, vem da África", contextualiza. Mesmo assim, ele ensina no livro como produzir alguns ingredientes em casa, como polvilho, farinha de mandioca e flocão de milho. Mas alerta, é necessário ter equipamentos adequados, como moedores de cereais. Com a cultura brasileira em alta na França, impulsionada pela recente temporada cultural França–Brasil, Celso percebe um interesse crescente pela gastronomia brasileira na França e por suas técnicas de origem indígena. E quando precisa escolher sua receita favorita, ele volta à infância e cita, com saudade, o simples beijinho de coco tradicional, feito sem leite condensado. “A cozinha tem isso: ela te leva para lugares onde você não tem controle”, diz. Ao lançar "Brasileiro", Celso oferece aos leitores uma viagem afetiva e saborosa pelo Brasil, guiada por histórias, ingredientes e memórias que moldaram sua carreira. E deixa um convite: “Boa leitura e bom apetite.”

Quatro anos depois da invasão russa, a guerra na Ucrânia continua em um impasse sangrento, e sem qualquer sinal de desfecho. Estimativas militares apontam entre 1,5 milhão e quase 2 milhões de soldados mortos desde 2022 — a maioria deles russos. Nesta terça-feira (24), data que marca mais um aniversário da guerra, a RFI ouviu militares e civis para traçar um resumo da situação atual no país. Com informações dos enviados especiais da RFI à Ucrânia, Murielle Paradon e Julien Boileau, e de Théo Renaudon. A Rússia mantém o controle de aproximadamente 20% do território da Ucrânia, consolidando ganhos obtidos sobretudo em 2024, ainda que sem grandes avanços desde então. A presença russa é forte ao leste, no Donbass, e ao sul, perto de Zaporíjia, Kherson e Crimeia. Porém, a proliferação de drones mudou a configuração da guerra. Na cidade portuária de Kherson, é preciso dirigir em alta velocidade para evitar ser perseguido por um drone russo. A estrada também é parcialmente protegida por redes artesanais projetadas para deter o que os moradores chamam de "máquinas mortais". “Usamos diferentes tipos de redes para deter os drones. Algumas têm buracos de vários tamanhos, que podem parar os drones e as cargas explosivas que eles lançam", explica Oleksander Tolokonnikov, vice-chefe da administração regional de Kherson. "E não são apenas as redes; temos sistemas de interferência contra drones e unidades móveis que podem abatê-los,” completa. O clima é sombrio na cidade. Cerca de 80% da população fugiu de Kherson. Os poucos que ficaram parecem resignados. Vika tomava um café ao ar livre, enfrentando o frio e a ameaça inimiga. Aos 16 anos, ela diz que se acostumou com a ideia de morrer a qualquer momento. “Quando você ouve o som de um drone, você não sabe o que vai acontecer, se você vai conseguir chegar ao seu destino ou se o drone vai lhe atingir. Então eu me escondo debaixo das árvores, sim, das árvores!” Apenas os idosos, funcionários públicos e suas famílias permaneceram em Kherson. Para eles, a vida está por um fio. Ludmila, de 71 anos, prefere depositar sua fé em Deus. “Antes de sair de casa, eu rezo a Deus para que Ele esteja comigo, para que nada aconteça comigo, com meus filhos, meus netos ou com a minha igreja”, diz. Combate robotizado Além da guerra com drones, os soldados ucranianos contam cada vez mais com a ajuda de robôs no combate. Equipamentos controlados remotamente são usados para reabastecer soldados e até mesmo resgatar os feridos, como os enviados especiais da RFI acompanharam em Pavlograd, no leste da Ucrânia. Na zona rural coberta de neve, Artem, um soldado de 24 anos, opera remotamente um robô equipado com uma plataforma e grandes esteiras — uma espécie de mini-tanque — que surgiu no campo de batalha há alguns meses para reabastecer os soldados ucranianos na linha de frente. “Usamos este robô conectado para transportar suprimentos, comida, geradores, munição — tudo o que os soldados precisam para sobreviver. Devido ao grande número de drones inimigos, não é possível reabastecer os soldados a pé ou em um veículo sem colocar em risco a vida de outros soldados.” Esses robôs também podem evacuar os feridos. Os dispositivos maiores podem transportar uma carga de até 500 kg. Artem relata que em uma operação recente conseguiram "evacuar dois soldados feridos que estavam cercados em território já ocupado pelo inimigo. A evacuação exigiu um longo planejamento", afirma. "Aguardamos condições climáticas favoráveis e então lançamos a operação. Ela durou 10 horas e foi um sucesso! Não consigo descrever a emoção que senti quando conseguimos retirar o robô com os dois soldados feridos da zona de perigo”, conclui. O próprio jovem Artem foi ferido na linha de frente em 2023. Tendo perdido uma perna, ele não luta mais com um fuzil, mas com um joystick, que é uma nova forma de fazer guerra. Conversas de paz estagnadas Enquanto isso, na arena diplomática, as mais recentes negociações de paz entre Rússia e Ucrânia, realizadas em Genebra em meados de fevereiro, terminaram sem avanços significativos. As duas delegações descreveram as conversas como “difíceis”. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que os resultados foram “insuficientes” e que questões políticas sensíveis seguem sem solução, apesar de algum progresso técnico nas discussões militares. Novas rodadas estão previstas, mas sem data anunciada. Os Estados Unidos continuam a mediar o processo e falam em “progresso significativo”. Combate à corrupção Ao mesmo tempo em que enfrenta negociações de paz marcadas por avanços limitados e grande pressão internacional, a Ucrânia também trava uma batalha interna contra a corrupção — um fator decisivo para sua credibilidade diante dos mediadores e aliados ocidentais. Kiev tenta demonstrar comprometimento institucional ao aprofundar investigações, sancionar envolvidos em escândalos e restaurar a independência de órgãos anticorrupção. Essas medidas são vistas como essenciais, tanto para fortalecer sua posição nas negociações quanto para avançar no caminho da integração europeia. Saudadas por ONGs anticorrupção, essas deliberações ainda são insuficientes, explica Maria Barabach, porta-voz da Sproto (“Resistência”, em português), que denuncia os subornos e acordos secretos na Ucrânia. “Antes da guerra, havia relatórios oficiais de que a corrupção custava mais de 30% do orçamento da Ucrânia", diz. "Mas acho que esse valor aumentou durante a guerra, porque existem muitos documentos confidenciais. E nós, como ativistas anticorrupção, não podemos verificá-los, controlá-los ou sequer vê-los”, lamenta. “A corrupção nos custa mais vidas do que o agressor durante a guerra. Porque a corrupção significa que os soldados não terão capacetes, não terão equipamentos de proteção e não terão armas suficientes. Não terão munição suficiente. E, obviamente, isso custa vidas, as mais preciosas, as de nossos civis e de nossos militares. É por isso que devemos lutar contra isso. Devemos impedir isso.” Apesar da exaustão do conflito, qualquer noção de “vencedor” é ilusória nesse momento, segundo especialistas: Moscou suporta perdas históricas e uma economia sob pressão, enquanto Kiev enfrenta desgaste humano, destruição de infraestrutura e dependência crescente do apoio ocidental. Ainda assim, pesquisas apontam que a sociedade ucraniana mantém um nível surpreendente de resiliência. Ao completar quatro anos de guerra, as expectativas de um acordo entre Rússia e Ucrânia seguem baixas. Moscou insiste em concessões territoriais amplas, enquanto Kiev exige garantias de segurança robustas e rejeita ceder partes de seu território.

O Fundo Regional de Arte Contemporânea de Marselha (Frac Sud), no sul da França, acolhe até 15 de novembro a exposição "Champ étoilé" (Campo estrelado), da dupla de artistas gaúchos Angela Detanico e Rafael Lain. A mostra é um mergulho na imensidão do universo, contemplando linguagem e instigando o público a refletir sobre os mistérios do cosmos. Daniella Franco, enviada especial da RFI a Marselha Composta por seis obras guiadas pela luz como elemento central, “Champ étoilé” articula peças que se entrelaçam para criar pontes entre beleza, poesia e ciência. O conjunto oferece um recorte emblemático da pesquisa de Detanico e Lain, marcada pela linguística e pela exploração da relação entre tempo e espaço. "É uma exposição que nos fala das nossas origens, dos seres vivos, desde o Big Bang. Mais de 13 bilhões de anos depois, essa luz que criou a vida na Terra, continua existindo. Então, essa reflexão nos convida a nos descentralizar e a compreender que, nesta cadeia ambiental e do universo, nós somos apenas um elo", diz a curadora da mostra e diretora do Frac Sud, Muriel Enjalran. Para ela, as obras de Angela e Rafael vão além da poesia do cosmos, abordando também o lugar dos seres humanos no mundo, algo que não é novo para os brasileiros. "O Brasil, com seus povos indígenas, reflete há muito tempo sobre essa intercorrelação dos astros, da natureza e da humanidade", ressalta. Angela Detanico explica que a ideia era colocar em diálogo diferentes momentos da história da luz e do universo. "As obras fazem um pouco esse passeio pelo tempo e pelo espaço, falando um pouquinho também de linguagem, que é um dos nossos temas de predileção. Então nós temos o sol, a lua, estrelas, galáxias muito distantes. A nossa ideia era realmente criar essas diferentes temporalidades", diz. "Para nós é importante a compreensão de que toda a matéria do universo estava, no passado, unida em um mesmo ponto. Então, tudo faz parte de um todo. Mesmo que a gente tenha a experiência e a consciência da individualidade, no fundo, nós somos todos parte de um sistema que se equilibra e que é interdependente", completa Rafael. Telescópios e campos de flores Entre as obras exibidas, está a monumental instalação "Floraison de la Lumière" (Florescimento da Luz), concebida no âmbito do Prêmio Marcel Duchamp 2024, a maior recompensa de artes plásticas e visuais da França, para o qual Angela e Rafael foram nomeados. A peça, exposta no ano passado no Centro Pompidou, em Paris, associa imagens de telescópios a fotografias de campos de flores feitas pelos artistas. Outro destaque da exposição é a instalação "Les Mers de lune" (Os Mares da Lua), projeções em um disco de pedras brancas, que reproduzem uma espécie de jardim zen. A instalação é acompanhada de uma etérea trilha sonora composta para uma peça de dança apresentada por Angela e Rafael em Marselha em 2013. Outras peças foram concebidas especialmente para a exposição "Champ étoilé" , como a luminosa tela "Souleu". A obra é uma representação do sol feita na língua provençal de Marselha. Já "Analema"é um trabalho em texto que evoca os 365 dias do ano. Angela e Rafael são naturais de Caxias do Sul (RS) e viveram mais de vinte anos na França, antes da recente decisão de retornar ao Brasil. Para eles, todo o trabalho desenvolvido se conecta com o país. "Tudo vem de lá e acaba lá, com essa natureza tão presente no Brasil, além desta conexão com os elementos que a gente carrega", observa Angela.

"O Mundo é o Meu Jardim" é o oitavo álbum solo do pianista, tecladista, compositor, arranjador e produtor Mu Carvalho. A ideia para esse novo disco, lançado no final de 2025 em todas as plataformas digitais, “nasceu em Paris”, cidade onde o músico carioca, integrante da banda “A Cor do Som”, vive boa parte do ano. Todas as nove músicas são inéditas e interpretadas exclusivamente por mulheres. “O Mundo é o Meu Jardim” traz nove composições, alternando diferentes estilos musicais, como bossa nova, samba, jazz e pop. Mu Carvalho mostra que tem talento musical e também talento para semear parceiros e amigos. Cada música do disco tem letra de parceiros diferentes e é interpretada por cantoras diferentes. “Eu sou essencialmente um melodista. Se eu escrevi três ou quatro letras na minha vida, foi muito. Então, eu tenho um orgulho gigante de ter na minha trajetória parceiros incríveis, como Paulinho Tapajós, Aldir Blanc e Moraes Moreira, que foi meu parceiro de muitas músicas desde a época do comecinho da Cor do Som”, lembra. Há mais de cinco anos, o músico divide sua vida entre o Rio e Paris, onde passa vários meses do ano em um “cantinho bem charmoso entre o Invalides e a Tour Eiffel” para ficar mais perto de parte da família, radicada na França. “O Mundo é o Meu Jardim” reflete essas andanças e a carreira de Mu Carvalho, iniciada nos anos 1970, quando participou ao lado do irmão e baixista Dadi Carvalho da fundação da banda “A Cor do Som”. Músicas em vários idiomas O oitavo álbum solo traz música em vários idiomas: português, inglês, italiano e francês. A primeira faixa, "Je t'aime tout simplement", é uma bossa nova interpretada pela francesa Gabi Hartmann. A nova parceira também assina a letra da música. “Foi uma felicidade imensa fazer essa música com a Gabi. Eu quis colocar essa música começando o disco porque esse disco, essa ideia toda, nasceu aqui nesse cantinho na França, em Paris”, conta. Mu Carvalho não interpreta nenhuma das faixas. “A bandeira importantíssima” de fazer um álbum só de vozes de mulheres veio à tona quando ele pensou em quem poderia interpretar “Aconteceu em Búzios”, música em parceria com Tavinho Paes, escrita nos anos 1980. A faixa mais pop de “O Mundo é Meu Jardim” é interpretada pela cantora e guitarista Ana Zingoni, mulher e parceira de vida de Mu Carvalho. “Eu me reconheci muito nessa poesia, porque é a história que a gente vivia naquela época. A melodia é linda. Eu fiquei muito honrada com o convite. Mais um trabalho junto com meu parceiro de vida e de música”, diz Ana Zingoni. Segundo ela, “foi muito especial (participar do álbum) porque realmente as cantoras que ele selecionou são pessoas que eu admiro muito”. Zizi Possi interpreta samba O samba "Promessas Mis", interpretado no álbum por Zizi Possi, foi uma das últimas parcerias de Mu Carvalho com Moraes Moreira. O músico baiano, com quem o tecladista carioca começou a trabalhar ainda na adolescência, foi uma espécie de mentor da banda A Cor do Som. “Moraes é um parceiro assim da vida. Para você ter uma ideia, a primeira música, a primeira obra litero-musical que eu compus foi com ele”, confirma. “O Mundo é o Meu Jardim” também traz uma linda homenagem a Gal Costa, na música "Domingo Novo", composta em Paris. A letra é de Fausto Nilo, marcando a primeira colaboração entre os dois. Show em Paris? Mu Carvalho, que também é autor de trilhas sonoras de novelas de sucesso, nunca se apresentou em Paris, nem com “A Cor do Som”. Ele espera poder em breve fazer um show na capital francesa. “Eu estou muito empolgado com esse disco. Eu estou produzindo o vinil dele. A gente vai voltar no meio do ano e vamos ver se a gente começa a trabalhar um pouco mais por aqui. Vai ser um prazer”, antecipa. Também está no radar planos para festejar os 50 anos de “A Cor do Som”, em 2027. O último álbum da banda, o “Álbum Rosa”, vencedor do Grammy Latino, foi lançado em 2020. No mundo-jardim de Mu Carvalho há sempre vários canteiros para semear, “que tem que regar todo dia com emoção e alegria, como dizia Moraes Moreira”, conclui o músico. Clique na foto principal para ouvir a entrevista completa.

A participação brasileira na Wine Paris 2026 ganhou destaque entre os expositores internacionais e deixou os produtores brasileiros otimistas. Oito vinícolas de quatro estados – Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco – marcaram presença no salão francês, encerrado na quarta-feira (11), que se consolidou como uma das maiores vitrines globais do setor. Adriana Moysés, da RFI em Paris Com apoio da ApexBrasil, as empresas exibiram a diversidade da viticultura brasileira e comemoraram a boa acolhida de compradores e especialistas europeus. Criada em 2019, a Wine Paris se transformou em um encontro obrigatório do calendário mundial do vinho, que reuniu, no ano passado, mais de 5.400 expositores de 154 países. É essa dimensão, somada ao dinamismo comercial, que tem atraído cada vez mais vinícolas brasileiras. Entre os produtores estreantes, a Salton disse estar impressionada com a magnitude do evento. O gerente de negócios internacionais da vinícola, com sede em Bento Gonçalves (RS), César Baldasso, reconheceu que a Wine Paris superou as expectativas. “A gente está totalmente surpreendido. É uma feira de altíssima qualidade, com um movimento muito grande – e um movimento de qualidade. As reuniões foram excelentes, compradores realmente interessados no Brasil. Saímos daqui certos de que voltaremos no próximo ano”, disse Baldasso. Ele também destacou o papel crescente dos espumantes brasileiros no mercado internacional. “O espumante brasileiro é um grande diferencial, o melhor espumante do hemisfério sul – e, por que não, entre os melhores quando consideramos o Velho Mundo?” Miolo reforça diversidade e aposta no futuro Também gaúcha, a Miolo participou pela segunda vez da Wine Paris. Para Lúcio Motta, líder da área de exportação, o interesse dos compradores segue forte, especialmente pelos espumantes, mas não só. “O espumante é o interesse inicial, mas os tintos e brancos têm procuras similares. Os importadores ficam impressionados com a quantidade de uvas que produzimos e com nossa capacidade de trabalhar em diferentes níveis de preço”, afirmou Motta. Durante a feira, houve um debate sobre as consequências do Acordo Comercial Mercosul–União Europeia, que, ao derrubar as tarifas de importação para zero no caso dos vinhos, pode impactar a competitividade das bebidas nacionais. Atualmente exportando para seis países europeus – França, Itália, Alemanha, República Tcheca, Suécia e Malta –, além de outros mercados pelo mundo, o representante da Miolo encara o futuro com confiança. “A preocupação existe, claro. Mas também vemos uma oportunidade. Quem ainda não exporta precisa começar a pensar nisso, porque o mercado brasileiro ficará mais competitivo. Vamos ter que buscar novos mercados e essa expansão já está no nosso horizonte há 30 anos”, disse Motta. Vinhos de Minas Gerais A Serra da Mantiqueira esteve representada pela Casa Almeida Barreto, que participou pela primeira vez de uma feira internacional. Para Jorge Almeida, a expectativa foi superada. “Muita gente está curiosa para explorar vinhos do Brasil. Trouxemos vinhos jovens, frescos, da safra 2024, sem passagem por barrica, para deixar a fruta falar mais. A altitude de 1.300 metros nos dá acidez alta e complexidade. A resposta tem sido muito positiva”, apontou Almeida. Na mesma região, a vinícola Barbara Heliodora iniciou sua produção há cerca de oito anos e chamou a atenção por ter conseguido desenvolver, em pouco tempo, vinhos complexos e longevos, segundo o sommelier Marcos Medeiros. “A Mantiqueira produz vinhos elegantes e frutados, graças à amplitude térmica. As uvas que melhor se adaptaram foram a sauvignon blanc e a syrah. Desde 2018, fazemos de um rosé delicado a uma Grande Reserva com até 24 meses em carvalho. Os franceses estão adorando – é um vinho diferente, vindo de um país tropical”, comentou o sommelier. Do Vale do São Francisco à capital francesa A pernambucana Verano Brasil mostrou na feira a singularidade da produção no Vale do Rio São Francisco, região do paralelo 8 onde é possível colher uvas o ano inteiro. O diretor comercial Evandro Giacobbo trouxe dois estilos nos rótulos apresentados. "O primeiro, mais despojado, tropical, jovem e refrescante – pensado para encantar um público iniciante. E a linha Garziera, mais tradicional, com varietais de malbec, cabernet sauvignon e chardonnay. É a jovialidade do Vale do São Francisco chegando a Paris”, celebrou. A Wine Paris 2026 ocupou nove pavilhões no Parque de Exposições da Porte de Versailles. Entre seus corredores movimentados, os produtores brasileiros encontraram não apenas compradores interessados, mas uma verdadeira oportunidade de reposicionar a imagem do Brasil no cenário internacional como um país de diversidade vitivinícola.

Ele é o novo orgulho brasileiro no esporte. Dessa vez, na neve. Mas sua fama não tem fronteiras. A RFI encontrou fãs de Lucas Pinheiro Braathen até na Eslováquia. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris Nascido em Oslo, de pai norueguês e mãe brasileira, o atleta de 25 anos é a esperança do Brasil para alcançar uma medalha olímpica inédita no esqui alpino, modalidade em que é o número dois do ranking mundial. “Esse é o maior sonho da minha vida. Eu sou muito grato por todo mundo torcendo por mim, torcendo pelo Brasil, nos acompanhando nessa jornada, e eu vou fazer tudo para trazer essa medalha para a nossa casa,” diz. O gosto pelo esporte, segundo o jovem, criado na Escandinávia, ele diz ter descoberto nas quadras de futebol do Brasil, onde costumava passar férias na infância. Torcedor do São Paulo, ele cresceu em um ambiente cercado de referências brasileiras. “O Brasil é um país que é uma mistura de várias culturas. Então, eu acho que, quando o Brasil entra no estádio, mesmo que você não seja brasileiro, você está torcendo um pouquinho pela gente,” acrescenta. Amante de música e de moda, Lucas Braathen foge dos padrões tradicionais do esqui alpino, fazendo questão de mostrar sua personalidade. Em 2023, ele surpreendeu a todos ao anunciar sua aposentadoria precoce, após entrar em desacordo com a Federação Norueguesa de Esqui sobre questões ligadas à sua imagem e liberdade de expressão. Depois disso, decidiu representar o Brasil. “Eu acho que a beleza desse momento dos Jogos Olímpicos é que é um palco universal, é um palco que todo mundo assiste. Então, para mim, é a maior plataforma que eu tenho para me expressar e trazer uma mensagem que é algo mais do que esporte. Eu só quero que as pessoas em casa, assistindo os Jogos de Inverno com as nossas cores, entendam que tudo é possível,” afirma o atleta. Lucas, que competia pela Noruega antes de defender as cores verde e amarelo, costuma comemorar suas vitórias com samba. Ele dançou e vibrou como porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina 2026. Sua imagem cativante, somada ao desempenho, atrai fãs e admiradores do mundo inteiro. Fã-Clube internacional O perfil fã-clube Lucas Brazil, no Instagram, reúne 6.500 admiradores de diversos países, de todas as idades e origens, com diferentes motivos para apoiá-lo — como explicou à RFI a eslovaca Darka Sefcik, criadora do grupo. “Ele é um esquiador brilhante, sempre foi. Mas essa história de como ele decidiu mudar e os valores que ele traz para o esporte e para a sociedade... Isso é simplesmente incrível,” disse em entrevista por telefone. “Há brasileiros em toda parte, mesmo na Europa. E toda hora chegava mais uma pessoa querendo torcer com a gente como loucos. Ou eles entram em contato pedindo informações, mesmo que entendam nada de esqui, mas se sentem, de alguma maneira, conectados. Nas competições, os brasileiros fazem perguntas sobre o esqui, é divertido. E há similaridades entre fãs eslovacos e brasileiros no esporte: uma mesma paixão”, completa. Na Eslováquia, eles chamam essa febre em torno do esquiador de “Efeito Pinheiro”. “Tem um monte de garotas que acham ele muito atraente. Ele é muito gentil, mesmo que não tenha câmeras filmando, ele é sempre amável com as pessoas. A família dele também é brilhante. Eu já os encontrei, e são pessoas muito legais,” observa. “Os fãs adoram a relação dele com a moda e a música. Para os europeus, isso é muito exótico. É uma nova era brasileira: estamos aprendendo sobre o Brasil; é algo novo, diferente, é legal”, acrescenta a torcedora. Para a juventude europeia, Lucas Braathen é fonte de inspiração. “Eu trabalho com educação, e desde a Covid temos tido momentos difíceis, com a guerra na Ucrânia, e a Europa vem passando por dificuldades, o que deixa muitos adolescentes desmotivados e sem direcionamento. E precisamos de modelos para essas crianças", aponta Darka Sefcik. "E o Lucas faz isso muito bem. Ele tem uma história fascinante, tem um propósito, ele inspira as pessoas a serem o que elas quiserem, a seguirem seus sonhos — não só jovens, mas adultos e mesmo idosos. Ver esse jovem falando sobre tolerância, inclusão, é muito importante hoje em dia”, afirma. Para Lucas, a conexão com o Brasil se reflete não apenas no patriotismo esportivo, mas na responsabilidade que ele assume de ser uma referência para novos amantes dos esportes de inverno no mundo inteiro. “Honestamente, a pressão é enorme. Represento mais de 200 milhões de brasileiros”, diz. “Para mim, esporte é uma forma de arte. É uma arte de performance. E, se você pergunta a qualquer artista qual é a coisa mais importante, é ser autêntico, ser quem eles são. Se você não é autêntico, não dá para as pessoas confiarem na sua mensagem. Então, para mim, para trazer uma mensagem e expressar o meu propósito verdadeiro, eu precisava dessa liberdade,” conclui. Lucas Pinheiro Braathen começa sua participação em Milão-Cortina na prova do slalom gigante do esqui alpino, no sábado, 14 de fevereiro. Torcida é o que não vai faltar. Leia tambémPromessa brasileira nos Jogos Olímpicos de Inverno, Lucas Pinheiro Braathen vê pressão como privilégio

Há 500 anos nascia o maior poeta da língua portuguesa, Luís Vaz de Camões e os versos que compôs criaram uma obra extraordinária, com destaque para Os Lusíadas, grande clássico da literatura portuguesa. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa No poema épico, que narra a viagem de Portugal à Índia comandada por Vasco da Gama, Camões celebra a pátria, mas também critica o poder. Na epopeia, o poeta usou uma linguagem nova considerada fundadora do português moderno. Para comemorar o 5° Centenário do nascimento de Camões, o governo de Portugal organizou exposições, ciclos de debates, palestras, congressos internacionais, publicações, prêmios, espetáculos, oficinas e concursos, entre outros, que acontecem até junho deste ano. “Celebrar o nascimento de Luís de Camões significa, antes de mais nada, reconhecer a sua atualidade. Tratando-se de alguém que nasceu há 500 anos, o mais natural é que o seu rastro tivesse já desvanecido no pó dos séculos”. Por isso, “celebrar Camões é muito mais do que homenagear um nome maior da literatura portuguesa e da literatura universal: é reconhecer a força duradoura da sua obra, cuja presença atravessa séculos, fronteiras e gerações”, ressalta José Augusto Cardoso Bernardes, catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, especialista em literatura camoniana e comissário-geral da Estrutura de Missão para as Comemorações dos 500 anos de Camões. Em sua entrevista para a RFI, o professor Cardoso Bernardes afirma que “a atualidade de Camões é impressionante, a voz do poeta vem do século 16 e chega ao século 21. Nela, encontramos o conflito entre a injustiça e a justiça. Encontramos um tema impressionantemente moderno, que é a insuficiência das palavras para exprimir a realidade, que pode ser subjetiva ou objetiva. Mas talvez a componente mais atual que existe em Camões é o apelo que ele nos faz para não nos resignarmos, para não aceitarmos aquilo que parece uma fatalidade. Lembro que Camões termina Os Lusíadas exultando os portugueses a partirem; a partirem para algum lugar, mas sobretudo a saírem de si próprios. A vocação universalista que sempre nos caracterizou está nos Lusíadas em forma de retrato profundo”, analisa. A intenção do enorme mosaico de eventos nas comemorações dos 500 anos do poeta é contribuir para a valorização do legado camoniano, promover o seu estudo e divulgação através da pesquisa, criação artística, ação pedagógica e reflexão crítica. Embora o centro da programação - que iniciou em 2024 - aconteça em Portugal, as comunidades portuguesas no mundo e os países de língua portuguesa também participam da celebração. Entre as principais iniciativas deste ano em Lisboa, destaque para a exposição No Rastro de Luís de Camões e o congresso internacional O tempo de Camões, Camões no nosso tempo, ambos na Biblioteca Nacional de Portugal, o ciclo de conferências Camões Hoje no Palácio Galveias, o prêmio Conhecer Camões, a ópera Relicário Perpétuo com libreto de Luísa Costa Gomes, no Teatro São Carlos, e a mesa-redonda As Mulheres no Tempo de Camões, na Biblioteca Nacional de Portugal. O Real Gabinete de Leitura, no Rio de Janeiro, que abrigou um ciclo de conferências sobre o poeta, recebeu do governo de Portugal a Ordem de Camões, no último dia 16. A instituição tem o maior espólio de Camões no Brasil, incluindo um dos exemplares da primeira edição de Os Lusíadas, de 1572. Língua portuguesa e Camões Teria sido a partir dos versos de Os Lusíadas que a língua portuguesa se consolidou. A obra não criou o idioma, mas elevou o português a uma das línguas mais importantes da Europa durante o Renascimento. Camões ao escrever em oitavas rimas, estruturou o português com elegância clássica e o transformou em uma língua literária de prestígio. “Os especialistas na língua de Camões reconhecem a capacidade que ele teve senão de reinventar a língua portuguesa, pelo menos lhe conferir um cunho de modernidade, de musicalidade e até de plasticidade que não existia antes dele. E faz com que os versos de Camões nos toquem de uma forma quase sensorial, para além de uma forma também emocional, e isso é uma característica que começa realmente com ele e que os poetas que vieram a seguir procuram imitar. Nós somos todos devedores desta novidade, desta frescura e modernidade que Camões trouxe para a língua que nós falamos”, contextualiza a escritora Isabel Rio Novo, autora de Fortuna, Caso, Tempo e Sorte: biografia de Luís Vaz de Camões. Como uma das figuras mais agregadoras da cultura portuguesa, Camões se transformou em símbolo da identidade nacional, tanto que o dia da morte do poeta, 10 de junho, é quando se celebra o dia de Portugal e das comunidades portuguesas. Especialista em literatura camoniana, o professor da Universidade de Coimbra, José Augusto Cardoso Bernardes comenta o legado de Luís Vaz de Camões. “Distingo dois aspectos no legado de Camões. Um deles tem a ver com nossa língua, por ventura o nosso maior tesouro. Camões não inventou a nossa língua, mas prestigiou-a, mobilitou-a, converteu-a numa das línguas mais importantes da Europa do seu tempo e assim se mantém até hoje. O segundo legado tem a ver com o fato dele nos ter reunido, de nos ter agregado, é um legado precioso. As comunidades necessitam ter uma referência comum e Camões é a referência comum para os portugueses, e eu diria mais, para os falantes de língua portuguesa”. Influência da lírica e da épica camoniana na literatura brasileira Em uma entrevista para a RTP, Radio e Televisão Portuguesa, o professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, Eucanaã Ferraz, lembra que é possível perceber a influência de Camões na poesia de Gregório de Matos – um dos maiores poetas brasileiros no período do Barroco, no século 17. “O Gregório tem construções e imagens que são claramente camonianas. Já no século 18, há mais presença de Camões na sintaxe, certos esquemas de rima, tempos verbais. No século 19, o romantismo brasileiro está diretamente ligado aos movimentos de Independência, portanto, há uma espécie de anti lusitanismo e isso evita uma presença de Camões, que é como um sinônimo de literatura portuguesa. Curiosamente é no modernismo, nos anos 20, que a presença camoniana aparece mais livre. Talvez Carlos Drummond de Andrade seja o poeta que melhor compreendeu e incorporou Camões”, explica. Teses e estudos de alguns linguistas portugueses afirmam que o português do Brasil tem uma fonética muito mais parecida com os Quinhentos – ou seja, o século 16, época que Camões viveu, do que o português contemporâneo de Portugal, que parece ter “fome de comer sílabas”. Visto sob este prisma, é possível que Camões falasse com todas as vogais presentes, assim como os brasileiros se expressam. Além do mais, a métrica dos versos decassílabos dos Lusíadas só fecha quando lida com sotaque brasileiro, com todas as vogais átonas bem pronunciadas. Nos anos 80, o cantor e compositor Caetano Veloso celebrou Camões e o idioma que une o Brasil a Portugal na música Língua “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões. Gosto de ser e de estar e quero me dedicar a criar confusões de prosódias e uma profusão de paródias que encurtem dores e furtem cores como camaleão. A língua é minha pátria, e eu não tenho pátria, tenho mátria e quero fátria”. Os séculos passam, Camões fica “Camões é uma personalidade interessantíssima com uma vida que parece ter saído das páginas de um romance e teve uma particularidade de ter sido tudo aquilo que um homem podia ser no século 16”, conta para a RFI a escritora Isabel Rio Novo. “Foi um humanista, um estudioso, também um soldado, porque toda a sua vida ganhou como um homem de armas, foi um viajante que conheceu praticamente todos os lugares daquilo que então se chamava o império português, e com toda essa riqueza, com todo esse conhecimento e um talento inexplicável do domínio do gênio conseguiu produzir uma obra poética tão notável que ainda hoje nos interpela e nos emociona”, reflete. “Estamos a falar de um homem que desde os vinte e poucos anos teve sempre envolvido em grandes aventuras e desventuras. Longas viagens, experiências de prisão, expedições militares, portanto, estamos a falar de uma vida muito dura, nos intervalos da qual, Camões inexplicavelmente conseguiu produzir uma obra notável; e note-se que aquilo que nós conhecemos, nomeadamente Os Lusíadas e a poesia lírica que lhe é atribuída pode ser apenas uma parte daquilo que ele foi escrevendo ao longo da sua vida. Isto, como eu digo, é do domínio do inexplicável, estamos a falar realmente daqueles gênios da literatura, dos quais provavelmente na literatura universal existe uma mão cheia”, enfatiza Isabel Rio Novo. A lírica de Camões é frequentemente interpretada por biógrafos como o reflexo de uma vida marcada por amores impossíveis, intensos e frustrados. Como mostra um dos mais famosos sonetos do poeta, publicado em 1598, na obra Rimas, “Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um descontentamento descontente, é dor que desatina sem doer”. Percurso camoniano Muitos mistérios rodeiam a vida de Luís Vaz de Camões. Não se sabe ao certo onde nasceu, onde morou e por onde andou o autor de Os Lusíadas, que viveu no século 16 e se tornou um dos maiores nomes da literatura lusófona. Ao longo dos tempos, Camões se tornou símbolo nacional, mártir literário e a sua consagração como poeta da pátria no imaginário português se mantêm até hoje. Luís Vaz de Camões nasceu provavelmente em Lisboa ou na cidade do Porto, mas a origem de sua família seria da região da Galícia, na Espanha. Reza a lenda que o jovem Camões teria frequentado aulas de Humanidades no Mosteiro de São Cruz, em Coimbra. Na época, a cidade era uma das mais importantes da Península Ibérica e D. Bento de Camões, tio do poeta, era prior do mosteiro e reitor da prestigiosa Universidade de Coimbra. Ainda jovem teria iniciado sua carreira literária como poeta lírico na corte de D. João III. Acredita-se que após uma desilusão amorosa tenha se alistado no Exército da Coroa Portuguesa embarcando para o norte da África em 1547. Foi em Ceuta, no Marrocos, lutando contra os mouros que Camões perdeu o olho direito. Depois deste episódio trágico, o autor quinhentista volta para Lisboa. Intempestivo, ele se envolve em uma briga, desembainha a espada contra um fidalgo e é preso. “Naquela época era preciso bajular o poder, ser humilde, e Camões não era nada disso. Ele era um homem orgulhoso, tinha muita consciência do seu talento, do seu gênio extraordinário e não tinha perfil psicológico para se dar bem com o poder”, explica Vitalina Leal de Matos, professora da Faculdade de Letras de Lisboa. No entanto, o poeta consegue o perdão real em troca de uma espécie de exílio forçado no Oriente, e parte em direção à Goa, na Índia. Luís de Camões navega então os mares que Vasco da Gama havia percorrido meio século antes. Camões viveu cerca de dezessete anos na Ásia, e Goa, chamada de “capital” do império português no Oriente, foi o seu porto seguro. Lá, escreveu sua obra-prima Os Lusíadas. Não há prova de que o poeta viveu na China, mas há relatos de que ele naufragou na costa chinesa e conseguiu salvar o manuscrito de Os Lusíadas, levando-o preso nos dentes até chegar à terra firme. Da Ásia rumou em direção à África; morou em Moçambique e sobrevivia graças a caridade dos amigos. Em 1570 Camões retornou à Lisboa e o rei D. Sebastião autorizou a publicação de Os Lusíadas, poemas sobre as grandezas de Portugal, mas também um prenúncio da decadência do país. Durante os seus últimos anos Camões viveu na miséria, morreu provavelmente vítima da peste no dia 10 de junho de 1580 e foi enterrado como indigente. Um fim triste e solitário. Por proposta da Academia das Ciências de Lisboa, os presumíveis restos mortais de Camões foram transladados e enterrados em um túmulo na Igreja do Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa.

Lucas Pinheiro Braathen foi um dos porta-bandeiras da delegação brasileira na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, na sexta-feira (6). A escolha pelo esquiador não foi à toa: ele é a principal aposta do Brasil para conquistar a medalha inédita em Olimpíadas de Inverno. O esquiador é o atual número dois do ranking mundial de esqui alpino. Nascido na Noruega, ele defende o Brasil, país natal da mãe, desde 2024, e diz que a escolha pela federação brasileira lhe trouxe mais liberdade. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão Lucas tem consciência de que a pressão é enorme. “Essa é uma responsabilidade que eu carrego todos os dias, até o dia da competição mesmo. Agora, essa pressão é um privilégio. Então eu abraço essa pressão, tento canalizar toda essa energia de alta frequência para minha performance”, afirmou em coletiva de imprensa neste sábado (7), na Casa Brasil, espaço montado pelo Comitê Olímpico Brasileiro em Milão para receber a torcida verde e amarela durante as competições. Filho de mãe brasileira e pai norueguês, Lucas cresceu entre diferentes culturas. Nasceu em Oslo, capital da Noruega, e na infância chegou a morar no Brasil. Curiosamente, esquiar passou longe de ser um sonho de criança, já que seu primeiro amor foi o futebol. Aos oito anos, de volta à Noruega, Lucas se rendeu ao esqui alpino, esporte que faz parte da identidade do país. Para o atleta, mais do que competição, é uma forma de expressão: “Para mim, o esporte é uma forma de arte, é uma arte de performance. E se você pergunta a qualquer artista o que é mais importante, [eles respondem que] é ser autêntico, ser quem eles são”. Foi justamente por sentir falta de liberdade para se exprimir que, em 2023, Lucas tomou uma decisão difícil. Até então, competia representando a Noruega e disputou os Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, em 2022, pelo país nórdico. Após conquistar o título da disciplina de slalom em 2023 e ficar em quarto lugar no ranking geral de esqui alpino, anunciou sua aposentadoria devido a desentendimentos com a federação norueguesa. Meses depois, em 2024, voltou às pistas defendendo o Brasil. “Foi uma transição gigantesca. E me deixa meio emocionado olhar para trás, para essa jornada até chegar aqui em Milão vestindo nossas cores. Realmente, a sensação é de um segundo capítulo na vida. Essa parte da minha vida é uma parte com liberdade de ser quem eu sou, representar meus valores e meus sonhos verdadeiros. Não os sonhos dos outros, não os sonhos da mídia, da indústria, da minha equipe, mas os meus sonhos”, disse o esquiador. Em declaração à RFI, Lucas afirma que se sente completo nas pistas de esqui e compara a profissão de esquiador à de artista: “Eu achei nas pistas, na neve, na montanha, o meu palco, onde me sinto mais autêntico. No fim das contas, eu poderia virar um músico ou dançar, mas, para mim, o propósito que a gente tem é bem igual”. Aos 25 anos, Lucas já tem uma carreira cheia de conquistas no esqui alpino com mais de 20 pódios, oito deles representando o Brasil. Ele é o atual número dois do ranking geral da modalidade. Até o início das provas dos Jogos Olímpicos de Inverno, segue treinando na Áustria, onde mora. A estreia nas Olimpíadas será no próximo sábado (14), na cidade de Bormio. Lucas explica que a pista tem características bem específicas: “É uma pista um pouco mais fácil do que as que a gente está competindo na Copa do Mundo, mas são nas pistas mais fáceis que fica ainda mais difícil esquiar rápido. Então, essa é a arte dentro do nosso esporte: conseguir achar essa velocidade. É uma pista em que você precisa criar a força, a velocidade e a frequência sozinho”. Além de buscar a medalha inédita para o Brasil, Lucas carrega um desejo que vai além do pódio: “Eu quero sair desses Jogos como fonte de inspiração para o povo que liga para esportes, para quem não está nem aí para esportes. E, para mim, quero que as pessoas assistindo, vendo nossas cores nos Jogos Olímpicos de Inverno, entendam que tudo é possível. Não importa de onde vocês são, suas roupas, seu sotaque. O que importa é o que está por dentro. O que acontece para fora é um resultado disso”, aprofunda Lucas. Leia tambémJogos de Inverno de 2030 serão organizados nos Alpes franceses, mas COI pede "garantia financeira"

No Mercado do Filme do Festival de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, a sessão dedicada ao cinema brasileiro é sempre um dos momentos mais aguardados pelos realizadores que chegam à França para apresentar seus trabalhos. Para muitos, é a primeira vez em que seus filmes encontram uma plateia estrangeira. Adriana Moysés, enviada especial a Clermont-Ferrand Quatro curtas paulistas selecionados pela associação Kinoforum, em parceria com a Spcine, foram exibidos na confortável sala George Conchon, um dos espaços mobilizados durante o festival. O programa abriu com "Xicas", de Asaph Luccas, que recebeu os aplausos mais calorosos da manhã. Na sequência vieram "Madrugada no Edifício Terezinha", de Cesar Cabral e Renato José Duque; "Sandra", estreia na direção da atriz Camila Márdila; e, encerrando o bloco, "Replikka", de Heloisa Passos e Piratá Waurá. Como é tradição do festival, a sessão não se limitou à exibição dos filmes. Depois das projeções, o público participou de uma conversa aberta com os realizadores, que detalharam processos de criação e escolhas estéticas. O destaque inicial ficou com "Xicas", curta que marcou a segunda participação de Asaph Luccas no festival francês e seu quarto trabalho na direção. A recepção calorosa refletiu o interesse do público pelo modo como o filme aborda identidades travestis sob uma perspectiva afetiva e política. A narrativa se desenvolve durante os preparativos do carnaval, e a realizadora, que até agora só havia assinado ficções, explicou o que exigiu o registro documental. “O nosso filme é costurado através da história de Chica Manicongo, que foi a primeira travesti não indígena do Brasil, trazida escravizada do Congo. Essa história se mescla muito com a nossa história de Brasil, com a nossa história de identidade de gênero. (...) Temos mulheres trans na política, mulheres trans médicas, mulheres trans que trabalham com prostituição. Foi muito importante mostrar como nós somos múltiplas.” Asaph Luccas espera que "Xicas" represente um voto de futuro para as identidades trans, para que elas estejam presentes em todas as esferas, no Brasil e no mundo, num momento em que disputam espaços políticos. “É um filme muito querido para mim e muito importante para todas as travestis que participam dele. Eu realmente acredito que o cinema serve como essa ferramenta para transformação social e para trazer luz para histórias marginalizadas e muitas vezes invisíveis.” Entre estética e experimentação O segundo filme da sessão foi "Madrugada no Edifício Terezinha", dirigido por Cesar Cabral em parceria com Renato José Duque. O curta chamou a atenção do público pela mistura entre animação stop motion e elementos filmados, criando uma estética híbrida incomum para o gênero terror. O diretor explicou como essa abordagem nasceu e como buscou provocar tensão visual combinando o real e o animado. “A ideia foi misturar imagens reais com animação. (...) O filme tem um boneco caminhando, mas o olho dele foi filmado com um ator e o encaixe desse olho feito em pós-produção. O olho transmite uma emoção muito forte. Trazer esses elementos do real num boneco foi o que eu busquei para criar essa tensão.” A animação despertou curiosidade no público presente, e Cesar Cabral falou sobre as expectativas de circulação do curta, que chegou a Clermont-Ferrand recém-finalizado. “O filme está estreando aqui no mercado. Sempre existe um interesse muito grande, até porque o gênero terror cresce no mundo. Trazer algo que tem um diferencial, que é a animação junto com esse universo, está sendo bem positivo. Ele acabou de ficar pronto, a gente terminou há duas semanas para apresentar aqui em Clermont, que era uma oportunidade muito importante. Agora seguimos na carreira dos festivais.” O terceiro filme da sessão brasileira de curtas foi "Sandra", estreia de Camila Márdila como diretora e roteirista. Conhecida pelo trabalho como atriz, ela conta que a vontade de estar atrás das câmeras vinha de muito antes, influenciada tanto pelo teatro quanto pela experiência em diferentes áreas do audiovisual. Ela explica como decidiu dar esse passo e o que significou dirigir seu primeiro filme. “Eu sempre tive esse desejo. Pela minha formação no teatro, onde trabalho há muitos anos coletivamente, e também pela faculdade de comunicação social, onde transitei por várias áreas do audiovisual. Eu já estava há um tempo querendo elaborar um roteiro para exercitar essa direção, estar por trás das câmeras. Não tinha vontade de atuar no meu primeiro filme. Queria participar de todos os processos e entender desafios, especialmente na pós-produção, que era novidade para mim. Foi um processo muito prazeroso.” Sem se deter nos bastidores da produção, Camila volta o olhar para a continuidade do trabalho: ela já prepara um novo curta, concebido para ser realizado com equipe reduzida e um ritmo de filmagem compatível com o formato, dando sequência ao impulso criativo que nasceu com “Sandra”. Memória, identidade e resistência O último filme apresentado na sessão brasileira foi “Replikka”, dirigido por Heloisa Passos e Piratá Waurá. O curta acompanha a jornada do povo Wauja pela preservação de seu principal patrimônio cultural: a gruta sagrada do Kamukuwaká, que ficou fora da área de demarcação do território indígena do Xingu e foi vandalizada em 2018. Considerada o “livro do conhecimento” para os povos do Alto Xingu, a parede da gruta era talhada com inscrições ancestrais que há séculos transmitiam ensinamentos fundamentais às novas gerações. Fotógrafa, cineasta e documentarista com 35 anos de carreira, Heloisa contou à RFI como surgiu o convite para realizar o documentário em parceria com Piratá Waurá. “Nós dois fomos convidados a formar um coletivo de pessoas indígenas e não indígenas para realizar a filmagem da chegada da réplica [da gruta] na aldeia Ulupuwene. Com essas imagens, a gente decidiu transformá-las em um curta-metragem e, aí, convidamos novos parceiros: o Oswaldo Santana, o ‘Oswaldinho', que se tornou roteirista junto comigo e com o Piratá. Também tivemos o apoio de dois produtores importantes: o produtor americano Mark Slagle e a Yula Rocha, da People's Palace Projects.” Apresentar o documentário na língua Wauja foi uma escolha central, tanto artística quanto política, e parte da própria luta do povo retratado. “Eu acho que a língua é uma luta, é também uma forma de resistência. Nós estamos falando do Aruaki, a língua do povo Wauja. […] Então, preservar a língua deles – esse filme é deles para o mundo, eu sou só uma ponte – era fundamental. Para nós, para mim e para o Piratá, era essencial que o filme fosse falado na língua Wauja, porque isso também é uma luta de resistência.” A sessão terminou reafirmando, na sala Conchon, a força da cultura brasileira, sua diversidade e a criatividade de seus cineastas.

Quase 5 milhões de brasileiros vivem no exterior (4.996.951), segundo a estimativa mais recente do Ministério das Relações Exteriores, de 2023. Quase metade (45%) está nos Estados Unidos, cerca de 34% na Europa e 13% na América do Sul, mas menos de menos de 1% escolheu a África. Pesquisador da diáspora brasileira, o PhD da Unigranrio Roberto Falcão desvenda o que aprendeu sobre o empreendedorismo brasileiro no exterior. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris A maioria desses brasileiros saiu em busca de melhores condições de vida, para fugir da violência e da decepção política. Normalmente, as pessoas que emigram têm disponibilidade para viajar, boa adaptação a línguas, maior autonomia e não temem tarefas altamente desafiadoras. Alguns dos ramos mais escolhidos pelos brasileiros para empreender em outros países são culinária, estética e construção. Há oportunidades de mercado no chamado nicho étnico e também na venda para o consumidor local. A capoeira, por exemplo, está presente em 180 países. Churrascarias de rodízio, venda de produtos como açaí e pão de queijo e serviços como alisamento ou depilação à brasileira são outros exemplos recorrentes. Um dos atrativos é a saudade de casa. Do ponto de vista do financiamento, a maioria dos pequenos e médios negócios fundados por brasileiros no exterior depende de capital próprio ou de linhas de crédito disponíveis, quando o empreendedor já está integrado ao país escolhido. Esse é um retrato de quem são os brasileiros e onde eles formaram suas bases para empreender ao redor do mundo, segundo pesquisa da Unigranrio e da UFF (Universidade Federal Fluminense), apoiada pela FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Ao longo de uma década, o professor e sua equipe entrevistaram mais de 400 empreendedores de diversos perfis. Falcão esteve em Paris na terça-feira (3), onde deu uma palestra a convite da Câmara de Comércio do Brasil na França (CCBF) sobre o que leva esses brasileiros a vencer em outro país. “O primeiro passo para não fracassar é entender a legislação, as regras locais, a regulamentação, conhecer o público, os hábitos do consumidor local e, sobretudo, falar bem a língua para o atendimento. Se você tem uma loja, um negócio, e não falar bem o idioma local, será um entrave para empreender”, aponta Falcão. Em seu projeto de pesquisa, ele analisa o empreendedor, seu nível de educação e de informação, se ele fala línguas, o ambiente institucional e a regulamentação do país. No caso da empresa, a equipe busca entender possíveis diferenciais para conseguir se posicionar bem no mercado. Além disso, é preciso ter uma boa gestão, investir em marketing e divulgação do produto ou serviço, como em qualquer negócio. “O brasileiro é caracterizado como um povo que se comunica muito bem, tanto que ele tem muita habilidade, em geral, na parte de redes sociais e de marketing digital”, aponta. “Ele também é caracterizado como uma pessoa muito versátil, que se adapta a diversos tipos de trabalho, em diversas condições, e é multitarefa. Além disso, a cordialidade: o brasileiro sorri”, completa. Mas há um lado que dá menos orgulho. “Talvez nós tenhamos características negativas também. Emergiu na nossa pesquisa algo relacionado à sabotagem entre negócios, um jogando areia no negócio do outro ou criando denúncias falsas.” O sucesso no novo ambiente pode ser medido pelo grau de produtividade, mas também pela saúde e pela felicidade. Esse é o tripé da sustentabilidade de carreira, explica Falcão, antes mesmo do dinheiro. Conhecer a legislação e vencer a burocracia O mineiro Rodrigo Pinho Aragão sonha em abrir uma empresa de consultoria e contou à RFI sobre a dificuldade com a burocracia. “Eu vim para a França com visto de trabalho, pelo fato de ter diploma francês. Mas o visto não permite a criação de uma empresa ou abertura de uma conta empresarial”, lamenta. “Para poder criar a empresa, tenho que fazer a transição de visto e justificar a viabilidade econômica do projeto que desejo criar”, continua. Na França, há diferentes tipos de vistos de empreendedorismo: o mais focado em profissões liberais, comerciais e artesanais, e outro para empresas de maior porte, que visam contratar pessoas e ter escala. “Mas, nesse caso, tem que justificar um investimento de € 30 mil com disponibilidade imediata para investir na empresa. É um pouco a situação do ovo ou da galinha: você precisa justificar investimento em uma empresa que não existe e, para a empresa existir, você precisa do visto”, afirma. “Ao mesmo tempo, você precisa fazer com que a empresa exista: imaginar como ela vai ser, pensar nos clientes, no seu plano de negócios. Criar uma empresa já é uma trajetória desafiadora e, além disso, você precisa encontrar os caminhos, institucionalmente falando, para fazer essa transição de visto”, conclui. A validade ou não de diplomas, habilidades e experiências prévias também é fonte de preocupação. Outro desafio comum, além de documentos e moradia, são encontrar um limite entre ambiente profissional e familiar – os contornos são fluidos para o pequeno e médio empreendedor que têm sonho de crescer. Na França, mulheres são maioria entre imigrantes brasileiros Na Europa, Portugal encabeça a lista de países com mais imigrantes brasileiros: 500 mil, um número que Falcão acredita estar subnotificado. Na França, há entre 120 e 130 mil brasileiros residentes. Uma curiosidade apontada na pesquisa é que, entre os que vivem no território francês, 75% são mulheres e maioria está na faixa dos 30 anos. Cerca de 45% têm graduação e aproximadamente um terço é pós-graduada. Apaixonada por moda e vivendo na Europa há 22 anos, Patrícia Cordeiro já lançou sua marca, Madame Dumont, e sonha ainda mais alto. “Agora eu quero fazer um curso de chapéu, que é um nicho muito bom e é algo que foi sonhado no meu coração”, disse, à RFI. Ela afirma não estar encontrando muitas dificuldades no caminho. “Muito sinceramente, as portas têm se aberto e tudo tem fluído naturalmente, sem grande procura, sem forçar. Estou no lugar certo, no momento certo e com as pessoas certas”, comemora. “Estou investindo primeiramente no conhecer, no aprender e amadurecer; e depois vem essa segunda fase do dinheiro para expandir o negócio”, completa cheia de esperança.

Em 2026, celebram-se os 800 anos da morte de São Francisco de Assis, um dos santos mais populares da Igreja Católica, com enorme devoção mundial e no Brasil. A partir deste ano, o dia 4 de outubro volta a ser feriado nacional na Itália em homenagem ao padroeiro. Assis, sua cidade natal, se prepara para as comemorações que envolvem iniciativas culturais e turísticas em toda região da Úmbria, no centro da Itália. Gina Marques, correspondente da RFI em Roma Pela primeira vez, os restos mortais do santo serão expostos à veneração pública entre 22 de fevereiro e 22 de março, na Basílica de São Francisco em Assis. O cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), é sobretudo franciscano. Segundo ele, São Francisco permanece vivo não só na cristandade, como pertence a toda humanidade. “São Francisco é hoje 'um arquétipo do ser humano', porque através da sua vida, do seu testemunho, ele expressou aquilo que o ser humano tem de mais genuíno. Ele trouxe de uma forma toda especial esta humanidade genuína", disse ele à RFI no Colégio Pio Brasileiro, em Roma. "É isso que faz dele esta figura extraordinária que continua sendo inspiradora para tantos.” A Úmbria de Francisco A Úmbria, conhecida com o bordão de “o coração verde da Itália”, é uma região com paisagem serena, marcada por colinas suaves, campos cultivados, oliveiras e cidadezinhas medievais. Nesse cenário está Assis, onde nasceu Francisco no ano 1182, filho de Pietro di Bernardone e de Pica de Bourlemont, uma família burguesa enriquecida pelo comércio. Batizado como Giovanni, teve o nome mudado para Francisco por seu pai. Após participar de guerras e adoecer, viveu uma experiência espiritual que o levou a abandonar a vida militar. Por volta de 1205, iniciou sua conversão marcada pelo encontro com leprosos, a renúncia aos bens, passando a dedicar-se à caridade e à renovação espiritual. Existem muitas narrativas sobre quem foi o homem Francisco antes da canonização. Ao longo dos séculos, perpetuou-se a ideia que ele foi um revolucionário social, precursor do ambientalismo, protetor dos animais, defensor dos direitos das mulheres e até pacifista visionário. Recentemente, duas obras sobre São Francisco foram lançadas na Itália. San Francesco, de Alessandro Barbero, reúne diferentes fontes históricas para revelar o homem por trás do santo, seus dilemas e as lendas que surgiram após sua canonização. Já Francesco. Il primo italiano, de Aldo Cazzullo, apresenta Francisco como figura central da identidade italiana, destacando seu papel cultural, religioso e humano, como autor do primeiro poema em italiano, o Cântico das Criaturas, além de ser o inventor do presépio. Dom Jaime Spengler destaca que o legado franciscano continua inspirando pessoas em tempos de crise ambiental e espiritual, conectando fiéis e leigos. “São Francisco de Assis deixou um legado extraordinário, tanto para o mundo da espiritualidade, como da filosofia, da teologia, da ecologia. Hoje, no contexto histórico que vivemos, certamente os elementos que mais chamam a atenção tem a ver com a causa da ecologia, de um lado, mas também com a causa da paz, de outro lado. No mundo que se esfacela, quando vivemos uma crise não só das democracias em vários espaços, a figura de Francisco continua inspiradora.” Segundo o cardeal, São Francisco inspira cada pessoa a ser um instrumento de paz e reconciliação. “Cá entre nós, como estamos necessitados hoje dessas figuras, capazes de nos inspirar não só em nível intelectual, mas sobretudo através da práxis do cotidiano. E Francisco é para nós uma figura desta magnitude”, salienta. Franciscanos na origem do Brasil Diversas cidades em vários estados do Brasil têm o nome de São Francisco: Minas Gerais, São Paulo, Pernambuco, Sergipe, Santa Catarina e Maranhão, além do icônico Rio São Francisco, o "Velho Chico". “Na origem do Brasil, está presente a família franciscana. Com a chegada dos portugueses, chegaram os primeiros frades, e os primeiros religiosos que aportaram em terras brasileiras eram franciscanos", relembra o cardeal. Dom Spengler afirma que na época do império e na passagem para a República, figuras do mundo franciscano também foram importantes na história do país. Na história recente, durante a ditadura, frades franciscanos "colaboraram de uma forma toda própria para que hoje pudéssemos ter espaços democráticos na sociedade”, ressalta, dando os exemplos de Dom Paulo Evaristo Arms, arcebispo de São Paulo, e Dom Aloísio Lorscheider, presidente da Conferência (CNBB), arcebispo de Fortaleza e em Aparecida, junto ao Santuário Nacional, "só para citar algumas expressões da nossa vida social, política e também eclesial”. Papa Francisco O jesuíta argentino Jorge Mario Bergoglio foi o primeiro papa a escolher o nome de Francisco. Logo após a sua eleição, em março de 2013, o pontífice declarou que sua escolha foi inspirada também no cardeal brasileiro Cláudio Hummes, franciscano. “Ele tinha uma amizade, uma proximidade com o então cardeal Hummes. Ele mesmo contou isso, em mais de uma situação, que logo após a escolha na Capela Sistina, o próprio cardeal Hummes teria pedido a ele para não se esquecer dos pobres.” Papa Leão XIV é um agostiniano, que promove a unidade em torno a Cristo. O pontífice americano foi eleito para unir a Igreja Católica, e aplacar algumas divisões internas. Segundo o cardeal Spengler, há grande proximidade entre franciscanos e agostinianos. “Eu creio que é o Espírito de Deus que escolhe a pessoa certa para o momento justo da história. Em segundo lugar, existe uma proximidade, por assim dizer, bastante grande entre aquilo que nós denominamos a espiritualidade agostiniana, a teologia agostiniana ou a filosofia agostiniana, e a franciscana. A espiritualidade, a teologia, a filosofia franciscana muito colheu da inspiração de Agostinho”, explica. Eventos comemorativos Além da exposição dos restos mortais em Assis, o oitavo centenário da morte de São Francisco será marcado por diversas iniciativas comemorativas. Estão previstas a publicação e catalogação de fontes franciscanas, a digitalização das antigas coleções do Sacro Convento de Assis, além de celebrações culturais e religiosas. Em Assis, os peregrinos também poderão visitar o Santuário da Spogliazione, onde São Francisco renunciou publicamente aos seus bens diante do pai. Neste local, é possível venerar o corpo de São Carlo Acutis, o santo “millennial”, canonizado pelo papa Leão XIV em 7 de setembro de 2025. A região da Úmbria programou uma série de eventos em várias cidades, propondo itinerários que o santo percorreu e que homenageiam sua identidade histórica. “O Tempo de Francisco” é o tema da XII edição do Festival Medieval de Gubbio, que acontecerá de 23 a 27 de setembro de 2026. O evento destaca a profunda ligação de Francisco com a cidade, a 50 quilômetros de Assis, onde ele encontrou acolhimento em 1206 e protagonizou o célebre episódio do lobo, símbolo da transformação do medo e da violência em diálogo, paz e fraternidade. Inspirado no lema “Homo homini lupus” (“O homem é o lobo do homem”), aforismo de Plauto imortalizado pelo filósofo do século 17 Thomas Hobbes, o festival propõe uma reflexão que conecta a Idade Média aos desafios do mundo contemporâneo, marcado por conflitos, egoísmo, desigualdades e pelo poder excessivo do dinheiro. O festival abordará a vida e a espiritualidade de São Francisco e o contexto do século 13, discutindo temas como pobreza, poder, fé, arte, política e legado espiritual. Considerado o maior evento italiano dedicado à Idade Média, o encontro reunirá cerca de 100 especialistas de diversas áreas e oferecerá ao público exposições, mercados, espetáculos, reconstituições históricas, feira do livro, encontros com autores, oficinas de caligrafia e miniatura, além de atividades educativas e culturais.

Começa nesta sexta-feira (30) a 48ª edição do Festival Internacional de Curtas‑Metragens de Clermont‑Ferrand. Até 7 de fevereiro, a cidade francesa cercada por vulcões extintos e marcada pela arquitetura de pedra negra volta a receber milhares de profissionais do audiovisual para aquele que é considerado o maior festival de curtas do mundo. Adriana Moysés, enviada especial a Clermont-Ferrand À medida que as salas ganham filas e as ruas se enchem de credenciais coloridas, Clermont-Ferrand assume outra identidade: a de ponto de encontro global de cineastas, programadores e curiosos pelo formato do curta-metragem. Neste ano, a presença brasileira se espalha pela programação. Quatro curtas competem nas seleções oficiais, enquanto outros dez integram duas sessões no Mercado de Filmes. A participação é fruto de uma articulação entre a Associação Cultural Kinoforum, a Spcine, a Embratur – que estreia na mostra – e o Instituto Guimarães Rosa, representado pela embaixada do Brasil em Paris. O Brasil nas telas de Clermont-Ferrand Anne Fryszman, coordenadora de promoção da Kinoforum, descreve o entusiasmo com a recepção internacional às produções brasileiras e antecipa a presença dos realizadores nas sessões: “Esse ano temos quatro filmes brasileiros em competição, sendo um em competição internacional, 'Frutafizz', outro na competição Labo, 'O Rio de Janeiro Continua Lindo', e dois filmes brasileiros na competição nacional, porque são coproduções França-Brasil, mas são bem brasileiros, com histórias brasileiras, de diretores brasileiros e acontecem no Brasil. É o 'Samba Infinito' e 'Mira'. Já pela programação oficial, estamos muito empolgados, muito felizes, sendo que os quatro diretores vão estar presentes.” Na competição nacional francesa (51 filmes), Leonardo Martinelli apresenta “Samba Infinito”, ficção em que um gari, apesar do luto pela perda da irmã, trabalha durante o carnaval carioca; depois da estreia na Semana da Crítica de Cannes em 2025, o curta conquistou três Kikitos em Gramado. Daniella Saba concorre na mesma mostra com “Mira”, ficção sobre uma adolescente que sonha em ser caminhoneira. Na competição internacional (64 filmes), Kauan Okuma Bueno exibe “Frutafizz”, que acompanha dois colegas de trabalho em viagem pelo interior paulista e desembarca em Clermont‑Ferrand após vencer o prêmio de melhor curta em Gramado. Já na seleção Labo, dedicada às obras mais ousadas e inovadoras (24 curtas em disputa, metade deles documentários), Felipe Casanova apresenta “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, híbrido de documentário e carta fílmica construído a partir da voz de uma mãe que perdeu o filho durante o carnaval. Presença ampliada no Mercado de Filmes Além das competições, o Brasil terá duas sessões dedicadas aos seus filmes no Mercado de Filmes. Anne destaca essa ampliação: “São filmes que a gente selecionou, a gente abriu as inscrições em outubro para filmes muito recentes ou em curso de finalização, filmes paulistanos, e fizemos uma seleção. E essa sessão Brazil Shorts from São Paulo é uma sessão com o apoio da Spcine. Mas temos também uma sessão com o apoio da Embratur. São filmes que foram realizados dentro do projeto do edital Brasil com S. São cinco filmes sobre a Amazônia”, conta. O edital da agência brasileira do turismo é uma maneira de incentivar a produção de filmes que mostrem o Brasil. “Eu sou de Clermont e sei que o público daqui espera essas histórias, esses filmes com muita ansiedade. Eles gostam mesmo”, diz a coordenadora de promoção da Kinoforum. A morte de Zita Carvalhosa, em julho de 2025, comoveu o audiovisual brasileiro e também a organização do festival francês. Diretora do Kinoforum e figura fundamental na defesa e difusão do curta-metragem no Brasil e no exterior, Zita foi lembrada como “catalisadora de talentos” por colegas e instituições do setor. Agora, quem assume a coordenação-geral da Kinoforum no festival é Vânia Silva, que chega à Clermont pela primeira vez nesta função. “Embora essa seja a primeira vez que eu vá ao Festival de Clermont, eu estou na Kinoforum há 20 anos. Então, o bacana é ver que cada vez mais os curtas têm ganhado espaço no festival, que é uma iniciativa que a Zita Carvalhosa, alguns anos atrás, vislumbrou de abertura desse espaço para as produções brasileiras. E isso vem crescendo ainda mais. Acho isso muito rico neste momento que o cinema brasileiro está em pauta”, destaca Vânia. Segundo maior festival de cinema da França, atrás apenas de Cannes, Clermont‑Ferrand recebe em média cerca de nove mil inscrições de curtas por ano. Em 2025, atraiu 173 mil visitantes e mais de quatro mil profissionais – números que os organizadores esperam ultrapassar em 2026.

A Fundação Cartier para a Arte Contemporânea abriu suas portas em um novo endereço em Paris, dessa vez em frente ao Louvre, com projeto do renomado arquiteto Jean Nouvel. A mostra inaugural, intitulada “Exposição Geral”, reúne cerca de cem artistas e celebra 40 anos de programação, conectando diversidade, história e cidade. O espaço transparente, com plataformas ajustáveis, cria uma experiência inédita, onde arquitetura e arte dialogam com o dinamismo cultural e artístico da capital francesa. A Fundação Cartier para a Arte Contemporânea abriu em outubro de 2025 um novo capítulo de sua história na capital francesa, dessa vez em frente ao Louvre, em um edifício reinventado pelo arquiteto Jean Nouvel. A mostra inaugural percorre quatro décadas de criação contemporânea a partir do acervo da instituição. Concebida como um diálogo entre arquitetura, cidade e memória artística, a mostra revisita o papel da Fundação na trajetória de inúmeros criadores, entre eles o francês Jean-Michel Othoniel, para quem a exposição representa “um pouco da própria juventude” e o início de um vínculo decisivo com o mundo da arte. “Essa exposição é muito emocionante para mim. Ela representa um pouco da minha juventude, da minha formação, é quem eu sou", relatou à RFI. "Tive a sorte de iniciar um diálogo com a fundação em 1988, com Marie-Claude Beaud, que me ofereceu minha primeira residência artística. Depois disso, a instituição continuou me acompanhando, adquiriu obras de diferentes períodos do meu trabalho, inclusive da época em que participei da Documenta. Em 2004, realizamos uma grande exposição, minha primeira individual em Paris, que me tornou conhecido pelo público dos museus parisienses.” O espaço projetado por Jean Nouvel aposta na transparência e na circulação livre. Cinco plataformas ajustáveis permitem acomodar obras monumentais ou intimistas, enquanto volumes tridimensionais e pontos de vista de 360 graus oferecem uma experiência inédita de observação e circulação. “Jean Nouvel desconstruiu a linearidade da história da arte”, explica Béatrice Grenier, diretora de programação da instituição. “Isso nos permite trabalhar com artistas e propor uma nova narrativa da história da arte, conectando o interior da Fundação à cidade e ao patrimônio histórico que nos rodeia.” Entre os artistas presentes estão nomes internacionais como Olga de Amaral (Colômbia), Sally Gabori (Austrália), Chéri Samba (República Democrática do Congo), Damien Hirst (Reino Unido) e Joan Mitchell (Estados Unidos). “O objetivo era traçar um retrato da Fundação Cartier para a Arte Contemporânea em seu novo endereço, nas duas praças do Palais-Royal, em pleno coração de Paris, em frente ao Louvre e também diante de uma das mais antigas praças públicas da cidade, a Praça do Palais-Royal", destaca Garnier, que é co-curadora da exposição inaugural da nova Fundação Cartier. "A questão era justamente esta: como fazer isso? Como apresentar, ao mesmo tempo, as linhas estruturantes de uma coleção construída ao longo da programação da Fundação nos últimos 40 anos e, ao mesmo tempo, sugerir os temas que a Fundação Cartier pretende continuar defendendo no futuro de sua programação?”, sinalizou à RFI. Desconstruir a linearidade da história da arte Grenier detalha a opção estética no design do novo espaço. “O arquiteto Jean Nouvel refletiu profundamente sobre essa questão. Ele é o autor do Instituto do Mundo Árabe, [do antigo prédio] da Fundação Cartier no boulevard Raspail, inaugurado em 1994, e também concebeu o Museu do Quai Branly, além do Louvre de Abu Dhabi. Este último se insere, de certa forma, em um percurso de reflexão sobre a evolução da museografia", afirmou. "O percurso da mostra é fundamental porque Nouvel propôs um plano circular, no qual diferentes objetos, de distintas civilizações, são organizados em uma mesma linha do tempo. O que ele faz com esse edifício é justamente desconstruir a linearidade da história da arte", sublinhou Grenier. "Esse princípio aparece claramente no novo prédio da Fundação Cartier. Em vez de um espaço bidimensional, organizado por uma sucessão linear de paredes expositivas, temos volumes. Isso permite conceber exposições em espaços que oferecem pontos de vista de 360 graus sobre as obras e sobre a própria exposição.” A mudança para um endereço central permite à Fundação Cartier aproveitar o fluxo de visitantes do Louvre e se integrar a um eixo cultural estratégico da cidade, que inclui também a Comédie-Française, o Museu de Artes Decorativas e a Bourse de Commerce, onde fica a coleção privada de François Pinault. A Fundação possui hoje cerca de 4.500 obras, e a exposição rotativa apresenta aproximadamente 600 trabalhos. A "Exposição Geral" fica em cartaz na nova sede da Fundação Cartier até 23 de agosto de 2026.

É como se fossem os Jogos Olímpicos do circo. Durante quatro dias, os melhores artistas de 18 países se apresentam no Festival Mondial du Cirque de Demain, ou Festival Mundial do Circo do Amanhã, em Paris. Diante de um júri especializado, eles disputam medalhas, prêmios e contratos com companhias renomadas. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris Entre os candidatos desta 45ª edição, está o brasileiro Vitor Martinez Silva, de 21 anos. Natural de São José do Rio Preto, ele se mudou para o Canadá aos 13 anos, para estudar na Escola Nacional de Circo de Montreal. Era o começo de um sonho de infância. "Eu me lembro de já estar consumindo espetáculos de circo em DVD ou na minha cidade e uma vez, com 6 anos, eu encontrei um brinquedo no supermercado que parecia um número de um espetáculo de circo que eu assistia. Eu comecei a treinar, a decodificar os truques do diabolo", lembra ele, em entrevista à RFI. "Assisti ao espetáculo em câmera lenta com meu pai e daí surgiram os meus treinos, que me levaram a me mudar para Montreal, na capital do circo, para terminar meus estudos de ensino médio e colegial e começar minha carreira como artista circense", diz. Vitor explica que além do aspecto físico, ele precisa trabalhar as emoções. "A gente quer passar uma mensagem, então tem a parte teatral, que vem da alma. Porém, tem um aspecto físico que tem que respeitar, de mobilidade do corpo, força, flexibilidade, dança. Circo é um conjunto de várias artes." O brasileiro se apresenta no diabolo, modalidade muito comum na Ásia, que ele diz praticar com um tempero brasileiro. O seu ato se chama Bird Dust, criado por Silva há dois anos. "Foi o meu número de formatura da minha escola de circo em Montreal, e tem vários elementos muitos pessoais para mim. Fala sobre falta de liberdade e vários outros temas", afirma. "Eu quero tentar mostrar para o mundo uma maneira diferente de executar esse aparelho", desafia. Catalisador de carreiras O treinador de Vitor deixou o picadeiro para se dedicar à formação de novos artistas. Nicolas Boivin-Gravel contou a RFI os requisitos para se tornar uma estrela e elogiou o brasileiro. "O Vitor tem uma presença de cena muito forte, uma conexão com o público. Ele se movimenta muito bem com o diabolo, faz movimentos acrobáticos únicos", avalia. "É um número muito antigo de circo, há muitos taiwaneses e japoneses que o praticam. E agora as pessoas o adaptam de forma mais esportiva e artística", completa. Atualmente, Nicolas Boivin-Gravel é diretor acrobático do famoso Cirque du Soleil, onde muitos dos concorrentes sonham trabalhar um dia. "Aqui é um lugar excepcional para vermos muitos talentos. Muitos nós já vimos em vídeos, os conhecemos, mas é o momento de verificar se são bons de verdade, se têm uma presença, uma aura no palco. E aí vamos falar com eles. Paris é um dos maiores momentos de encontro para o mundo do circo", observa. Em plena era digital, o circo continua fascinando plateias no mundo inteiro. "Este é um festival que nasceu em 1977, direcionado aos novos talentos. É um dos mais antigos do mundo", explica Pascal Jacob, diretor artístico do festival e do Cirque Phênix, onde acontecem as apresentações. "Nós sempre procuramos dar destaque e valorizar os jovens artistas que vêm de escolas, de famílias ou são autodidatas", salienta, definindo o encontro como "um catalisador de carreiras". Para Jacob, se o circo ainda atrai público é porque se trata de uma atividade verdadeira. "Nós não trapaceamos. O público sabe por que veio, os artistas sabem por que estão lá, e há realmente uma troca", define. "Eu penso que a força do circo, diferentemente da dança e do teatro, é que ele tem algo particular, que é uma relação com o risco e com a vida, e o público vem ver algo que não verá em outro lugar. A força do circo é agora, nesse instante, nesse momento", conclui. Para o brasileiro Vitor, é esse encontro com a plateia que faz todo esforço valer a pena. "Esse contato, essa troca de energia, eu dou ao público e recebo essa troca vital", completa. "É muito bom poder fazer parte de espetáculos em que a gente pode fazer o público esquecer o que acontece no mundo por alguns minutos, algumas horas. Esse é o nosso trabalho: dar uma pausa na realidade e nas coisas ruins que acontecem hoje em dia e viver um mundo alternativo", afirma. "Olimpíadas do Circo" Como os demais participantes, Vitor Martinez Silva sonha sair de Paris empregado – mas já se sente um vencedor de estar entre os selecionados. "Esse festival é muito conhecido por começar carreiras, longas carreiras. Eu tenho vários amigos que tiveram sucesso de dez anos após o festival, com contratos em diversas companhias circenses. Todo mundo acaba ganhando só de estar aqui, porque é um festival muito conhecido, de muito prestígio, como se fosse nível de Olimpíadas no circo", compara. Por causa da carreira, ele conta que vai pouco ao Brasil, mas não reclama da falta de tempo. "A minha relação com o Brasil é distante. Eu não consigo ver minha família, é minha família que tem que seguir as minhas viagens", relata. "Mas tem muito do Brasil dentro de mim. É a forma de ser, de conversar, de falar, de ver o mundo. A gente tem uma alegria. São poucos lugares onde a gente encontra pessoas assim", observa.

A RFI ouviu especialistas que divergem quanto à participação do Brasil no Conselho de Paz de Gaza, criado pelo presidente dos Estados Unidos. Ambos apontam cenário bastante tenso nas relações internacionais, mas nenhum acredita em novo tarifaço contra o Brasil diante da recusa ao convite. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília O governo brasileiro, em especial assessores de Lula e do Itamaraty, têm avaliado em detalhes o tenso cenário internacional a fim de evitar que o convite de Donald Trump para que o Brasil integre o Conselho de Paz se transforme numa casca de banana diplomática. O fórum anunciado por Trump não tem objetivos voltados apenas para a Faixa de Gaza, mas segundo ele próprio, pode vir a substituir as Nações Unidas na pretensão de dirimir conflitos mundo afora. Diante das inúmeras dúvidas acerca do conselho, inclusive de que seja menos democrático do que o próprio Conselho de Segurança da ONU, com poderes concentrados nos Estados Unidos, o Brasil tende a recusar o convite, mas a complexidade das relações internacionais no momento torna a elaboração da resposta um desafio. Lula conversou com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, sobre a situação na Faixa de Gaza e pretende falar com outros líderes, como o presidente francês, Emmanuel Macron. Dois analistas ouvidos pela RFI têm opiniões bem diferentes sobre o tema. O pesquisador William Gonçalves, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), avalia que dizer sim ao convite significaria dizer sim à política externa de Trump. “A participação do Brasil nesse Conselho de Paz proposto por Trump é inteiramente inconveniente, porque ele está subtraindo uma tarefa que devia competir à Organização das Nações Unidas. Trump tem trabalhado contra o multilateralismo, já retirou os Estados Unidos de mais de 60 entidades internacionais, comprometendo o trabalho delas”, diz Gonçalves. Para o especialista, “Trump faz o convite com má intenção, porque o alvo principal dele é o BRICS. O Brasil não pode participar de forma alguma desse Conselho. Seria uma forma de apoiar a política externa de Trump, com todas as ameaças e afrontas ao direito internacional que estamos vendo.” Por outro lado, o analista José Luiz Niemeyer, professor de Relações Internacionais do Ibmec/RJ, defende o ingresso do Brasil no Conselho de paz: “A recusa do Brasil pode ser considerada, neste momento, um erro estratégico. A diplomacia brasileira tem que ficar equidistante dos três centros imperiais de poder hoje, Estados Unidos, China e Rússia. E participar deste Conselho de Paz seria uma maneira de deixar claro para os Estados Unidos que por mais que o Brasil critique esta ordem internacional, o país quer participar de uma maneira propositiva”, defende Niemeyer. Para o especialista do Ibmec, “até para o Brasil manter suas opiniões sobre Gaza de maneira autônoma, não participar é meio que não combater esse mundo de três impérios”. Ameaça tarifária Os dois analistas convergem num ponto. Não acreditam em retaliações comerciais ao Brasil, como um novo tarifaço, diante da recusa de Lula ao convite de Trump. “Não acho que haverá uma revanche dos Estados Unidos com relação a tarifas. Eles estão atuando de maneira muito agressiva no sistema internacional, tendo outras preocupações, com Brasil em segundo ou terceiro foco. Mas, ao mesmo tempo, os Estados Unidos veem o Brasil como um país importante da América do Sul, ainda mais dentro de sua nova doutrina de segurança nacional”, afirmou Niemeyer. “O Brasil teve um problema grave com os Estados Unidos com relação ao tarifaço, que foi muito bem resolvido pelo governo Lula e pela chancelaria brasileira, e que abriu as portas, no bom sentido, para que Washington e Brasília possam, por exemplo, explorar, não só os minerais de terras raras, mas aumentar a linha de investimento direto e comercial entre os dois países. Por isso que seria relevante o Brasil aceitar o convite”, afirmou o professor do Ibmec/RJ. Para William Gonçalves, interesses internos dos Estados Unidos com relação aos produtos brasileiros reduzem o risco de uma nova taxação extra. Mas ele destaca que isso não significa facilidades nas negociações com Trump. “O Brasil deve agir com muita cautela, sem decisões precipitadas, porque Donald Trump já manifestou a sua ideia a respeito da América Latina. Nós estamos, portanto, em área geográfica bastante sensível à política dos Estados Unidos. Qualquer gesto precipitado que possa ser interpretado como uma provocação pode receber em troca uma resposta imprevisível desse senhor, que é um sujeito abusado, que não se detém diante de nada e dispõe de um aparato militar nuclear formidável”, alerta Gonçalves. “Seria bom estar coligado com vários outros Estados e não agir isoladamente para confrontar uma decisão de Trump”, conclui o pesquisador do INCT-INEU.

O fotógrafo espanhol Juan Carlos Vega transforma a junção entre arquitetura e balé, duas de suas grandes paixões, em uma verdadeira ode à obra de Oscar Niemeyer. O resultado é a mostra em cartaz em Madri até o dia 30 de janeiro. Ana Beatriz Farias, correspondente da RFI na Espanha Ao entrar na sala de exposições da fundação madrilenha Ortega-Marañón, onde está em cartaz a mostra “Niemeyer Legado”, é fácil perceber que tudo ali indica movimento. As obras fotográficas expostas unem arquitetura e balé, como se os edifícios fossem linhas de uma partitura e os corpos dos bailarinos as notas que dão vida à música. É assim que o fotógrafo Juan Carlos Vega interpreta a interação entre dança e cidade, retratada de diferentes formas na exposição. A disposição dos quadros é única em cada uma das seções. As instalações de videoarte mostram, em movimento, o olhar de Vega sobre a produção de Oscar Niemeyer. As mesas centrais têm formato de “S”, dialogando diretamente com a geometria refletida em todo o salão. Elas reúnem revistas, fotografias e textos que contam como a história do fotógrafo e a obra do arquiteto se encontram. A obra de Niemeyer A proposta da exposição é apresentar o legado de Niemeyer como um processo aberto, em permanente construção, à medida que é redescoberto e ressignificado. É a partir dessa base que Juan Carlos Vega interpreta os projetos do carioca, considerado um dos maiores nomes da arquitetura mundial e primeiro arquiteto vivo a ver uma de suas obras se converter em Patrimônio Mundial da Humanidade, com o reconhecimento de Brasília pela Unesco, em 1987. Depois, também receberam a honraria o conjunto arquitetônico da Pampulha – que fica em Belo Horizonte e foi inscrito em 2016 – e a Feira Internacional de Rachid Karami, em Trípoli, no Líbano. Esta última passou a fazer parte da lista da Unesco em 2023. As imagens reunidas em “Niemeyer Legado” retratam espaços como a Igreja de São Francisco, em Belo Horizonte; o Congresso Nacional, em Brasília; o Memorial da América Latina, em São Paulo; o Memorial Teotônio Vilela, em Maceió, e o Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Nas fotos, os ângulos e curvas projetados por Niemeyer se fundem com as formas desenhadas pelo corpo de baile, disposto sempre em interação com a paisagem arquitetônica. Brasília, única no mundo Enquanto cada um dos recantos brasileiros visitados para dar origem à mostra recebe o seu devido destaque na exposição, a capital federal ocupa lugar privilegiado na vida do espanhol Juan Carlos Vega. Faz cinco anos, completados neste mês de janeiro, que Vega conheceu Brasília. A primeira impressão foi a de encarar algo único. “Em Brasília aconteceu algo especial comigo. Há algo que não há em nenhuma parte do mundo. É que os edifícios estão sozinhos. Não estão colados uns aos outros, têm muito espaço. E isso faz com que você tenha um enquadramento, uma visão diferente de outras cidades”, comenta o fotógrafo. Desde a primeira aterrissagem, Vega já esteve na capital brasileira dez vezes. Essas visitas, registradas em imagens, se somaram a trabalhos feitos em outras cidades e deram origem a diversas exposições. Em 2022, o espanhol inaugurou a mostra “Niemeyer – Dança por Vega” – que passou pelo Instituto Cervantes de Brasília; pela Casa de Chá, na Praça dos Três Poderes, e pela Casa Thomas Jefferson. Em 2024, realizou o projeto “Niemeyer – Utopia do movimento, legado internacional”, com exibição dupla no Senado Federal do Brasil e no Instituto Cervantes de Brasília. Já em 2025, apresentou a exposição “Brasília 65, Visões em um Sonho Geométrico”, na Fundação Pons, em Madri. Hoje, cinco anos depois do primeiro encontro com a capital brasileira, a cidade segue inspirando novos passos, olhares e enfoques. “Sempre que vou a Brasília, algo novo me inspira. É incrível. O relevo [presente na impressão de algumas fotos] foi um trabalho [feito] aqui, mas era com uma fotografia de Brasília. E tudo o que vou investigando e vou fazendo... Muito vem de quando vou a Brasília e tenho a inspiração”, reflete Vega. Formatos e acessibilidade Como o fotógrafo explica, a inspiração que a cidade traz não afeta apenas o momento do clique: ela o leva a querer transformar os resultados de suas obras, brincar com formatos, cores, modelos e desconstruções. Tudo isso também se reflete na exposição “Niemeyer Legado”, onde as fotografias ganham aspectos multidimensionais. Relevos e recortes adicionam ainda mais movimento às criações. Há quadros adaptados ao toque que, além de vistos, podem ser sentidos. O formato permite que pessoas cegas tenham contato com as fotografias feitas por Vega. A primeira foto confeccionada dessa maneira foi dedicada e entregue pelo autor à Infanta Margarita, tia do Rei Felipe VI, que tem deficiência visual. Legado Internacional Além das criações de Niemeyer em solo brasileiro, é possível apreciar, na exposição, parte do legado internacional do arquiteto. Estão representados o Palácio Mondadori, em Milão, e o Centro Niemeyer, em Avilés – uma cidade pertencente ao Principado de Astúrias, região onde Juan Carlos Vega nasceu. As fotografias feitas na Itália e na Espanha são de 2024 e, segundo Vega, abriram portas para que ele explorasse o trabalho de Niemeyer em mais cidades, como Niterói, São Paulo e Belo Horizonte – clicadas em 2025. E a busca por explorar novos ângulos da obra de Niemeyer não está finalizada. O fotógrafo diz que está se tornando especialista no arquiteto brasileiro e mantém uma lista de outras cidades, dentro e fora do Brasil, que pretende agregar a essa jornada de ressignificação de seu legado. Descobrir-se artista A exposição “Niemeyer Legado” inaugura oportunidades. Por um lado, permite que o público que está em Madri se encante pelo Brasil e, potencialmente, visite o país para conhecer sua “cultura maravilhosa”, como define Vega. Por outro lado, o trabalho é uma celebração dos 25 anos de carreira do fotógrafo que, a partir desse projeto, tem solidificado conceitos internos sobre sua arte e sobre si mesmo. “Demorei muito tempo para dizer que eu era fotógrafo, porque me parecia uma palavra muito importante de dizer. Como para mim é muito importante dizer a palavra ‘artista'. Então, poder dizê-la é como se realizar, não? Eu acredito que esse projeto também me deu isso. O avançar em mais um ponto. Não só profissionalmente, mas também internamente e emocionalmente”, conclui, comovido. A exposição “Niemeyer Legado” está em cartaz na Fundação Ortega–Marañón até o dia 30 de janeiro. A visita é gratuita, de segunda a sexta-feira, de 10h às 20h30.

A Venezuela entrou em uma nova etapa de sua história após a invasão dos Estados Unidos. Agora, sem Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, o país é comandado interinamente pela chavista Delcy Rodríguez, autoridade sancionada no exterior e que não conta com apoio popular em seu país. Venezuelanos radicados no Brasil contam à RFI a percepção dos acontecimentos em sua terra natal. Elianah Jorge, correspondente da RFI no Rio de Janeiro O Brasil é o quarto destino escolhido pela diáspora venezuelana. Ano passado, foram mais de 19 mil pedidos de refúgio de venezuelanos em território brasileiro. Em 2016 William Clavijo foi de férias ao Rio de Janeiro. Antes de voltar, soube que colegas e membros da força política da qual participava foram presos por ordens do regime de Nicolás Maduro. Ele é uma das vozes ativas da comunidade venezuelana no Brasil. “Os anúncios de Delcy Rodríguez e Jorge Rodríguez [presidente da Assembleia Nacional] não respondem a um ato de vontade própria. Nós conhecemos muito bem quem são essas duas pessoas e a proximidade que tinham com Nicolás Maduro, e a relação que têm com a Comissão de Crimes da Lesa Humanidade, a violação dos direitos políticos dos venezuelanos e a violação dos direitos civis em geral”, observa. A advogada Delcy Rodríguez, de 56 anos, assumiu a presidência interina da Venezuela apesar de estar sancionada pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Em sua gestão como ministra de Hidrocarbonetos, conseguiu driblar as sanções internacionais à venda de petróleo venezuelano. Segundo Donald Trump, ela é a pessoa mais indicada para conduzir o país neste período de transição. Após anos de impasse, de tentativas de negociações e até uma eleição que careceu de transparência, a gestão interina de Rodríguez faz parte de uma manobra internacional para que haja uma transição viável do país, segundo o venezuelano G.H, que prefere não ser identificado. “Delcy e companhia são uma jogada geopolítica. María Corina Machado e Edmundo González não poderiam voltar para governar. Toda essa situação na Venezuela é um barril de pólvora. Não é possível negociar com os que estão ali para ver que tipo de transição podemos fazer", afirma. "Apesar de não gostar dos irmãos Rodríguez, eu acho que eles são um mal necessário e vamos ver o que será possível fazer", comentou. 'Comemorei, mas Trump é um louco' Gil Hernández tem a dupla nacionalidade, brasileira e venezuelana. Ele mora no Rio de Janeiro, mas sua família paterna está em Coro, região petroleira na costa oeste da Venezuela. “Eu também comemorei, óbvio. Mas, por outro lado, é insano: [Donald Trump] é um louco para invadir outro país, sequestrar um presidente, levar para Nova York, julgar, e querer se apossar das reservas de petróleo, porque investiu no parque petrolífero e nunca foi pago. Que negócio é esse, gente?", disse. Donald Trump afirmou que a indústria petroleira da Venezuela foi construída pelos Estados Unidos – o que, segundo ele, daria ao país teria direito ao petróleo venezuelano. Moradora do Rio de Janeiro, a apoiadora do regime venezuelano Z.Y. acompanha com indignação o que acontece nem seu país. Ela percebe que, aos poucos, os venezuelanos começam a sentir as consequencias da ingerência norte-americana. “Há efeitos colaterais. Já há escassez, filas para comprar. O país já estava muito estabilizado", afirma. "A Venezuela, com todo o bloqueio e tudo o que aconteceu, já estava estabilizada, mesmo com todos o problemas que tinha. Mas estava limpa, bonita”, defendeu. Desde a invasão, a população vem fazendo compras nervosas. Os preços dos alimentos dispararam e o poder de compra do bolívar foi pulverizado. Um quilo de carne, que antes custava cerca de US$ 8, agora pode sair por U$25, afetando o bolso sobretudo das camadas mais pobres da população. Após dias de silêncio e incertezas, na última quinta-feira (8), Jorge Rodríguez, que também é irmão da presidente interina, anunciou a decisão “unilateral” de liberar presos políticos no país. Donald Trump afirmou que já preparava um segundo ataque à Venezuela, mas que a iniciativa de Rodríguez o demoveu da ideia. Reativação da economia O governo americano alega que os Estados Unidos irão modernizar o parque petroleiro da Venezuela – a força econômica do empobrecido país. Embora não esteja de acordo com a invasão, outro venezuelano morador do Brasil acredita que a recuperação da economia de seu país vai ser lançada. “Antes desse governo entrar, a Venezuela trabalhava com os Estados Unidos e sempre era metade e metade. Eles construíram uma planta e levavam petróleo por 20, 30 anos. Era normal", disse. "Sempre foi assim. Agora, haverá bastante emprego. Todas as petroleiras, todas as refinarias serão ativadas. E cada refinaria precisa mais de 5 mil pessoas. É bom!” O presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou os ataques à Venezuela. Ainda assim, durante o anúncio da liberação dos presos políticos, Jorge Rodríguez agradeceu ao governo do presidente brasileiro, afirmando que ele “sempre esteve ao nosso lado”. Entretanto, membros da comunidade venezuelana no Brasil acreditam que a gestão de Lula poderia ter feito mais pela Venezuela. “Gostaria que tomasse uma posição para apoiar os cidadãos [venezuelanos], tendo em conta que Nicolás Maduro é um ditador. E um ditador, não importa se é de direita ou de esquerda, é um ditador”, afirmou uma venezuelana que também pediu anonimato. De acordo com a ONG Justiça, Encontro e Perdão, até esta quinta-feira, havia 1.011 presos políticos na Venezuela.