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Oxigênio
#220 – Paul Singer, uma utopia militante 

Oxigênio

Play Episode Listen Later Jun 12, 2026 23:09


Um dos mais importantes economistas brasileiros. Marxista, que teve uma carreira brilhante na academia, como professor da USP e da PUC em São Paulo. Houve um período em que teve que ficar afastado, por conta da ditadura militar no Brasil. Ele sempre teve uma militância política junto com a carreira acadêmica, e também como intelectual. Uma figura muito inquieta, no sentido de que ele não se acomodava a um determinado tema. Este foi Paul Singer, personagem do documentário que faz parte de uma série de documentários de não ficção realizados pelo diretor Ugo Giorgetti. Este terceiro episódio sobre a série teve a colaboração por meio de entrevistas com o ex-aluno de Singer, Marcos Barreto, a jornalista e pesquisadora Paula Quental, autora de uma dissertação de mestrado sobre a trajetória política e intelectual de Singer, e Marcelo Justo, diretor executivo do Instituto Paul Singer.  Roteiro Liniane Brum: Paul Singer, uma utopia militante: esse episódio é o terceiro de uma série sobre os documentários e as peças de não ficção do diretor de cinema Ugo Giorgetti.  Meu nome é Liniane Brum, sou doutora em teoria e crítica literária pela Unicamp e realizei a pesquisa de pós-doutorado “Contra o apagamento – o cinema de não ficção de Ugo Giorgetti” também na Unicamp, no Labjor, com o apoio da Fapesp. [Trilha musical] Liniane: A partir do ano de 2020, Ugo Giorgetti assina três documentários biográficos. São produções realizadas sob encomenda, que têm em comum a apresentação de homens que se destacaram em suas áreas de atuação e como pessoas também. São filmes que não partem de uma inquietação artística ou de uma necessidade intelectual. Ainda assim, são autorais.  Estou falando dos filmes Paul Singer, uma utopia militante, produção de 2021, A invenção de Conrado Wessel, de 2024, e Alberto Dines – vínculos de liberdade, que saiu em 2026. Neste episódio vamos tratar de Paul Singer, uma utopia militante. Eu conversei com três pessoas sobre esse documentário. O economista, produtor do filme e ex-aluno de Singer, Marcos Barreto, que me ajudou a entender os bastidores da produção. A jornalista e pesquisadora Paula Quental, autora de uma dissertação de mestrado sobre a trajetória política e intelectual de Singer, e Marcelo Justo, diretor executivo do Instituto Paul Singer. [Vinheta Oxigênio] Liniane: Antes de mais nada, pedi a eles que apresentassem quem foi Paul Singer.   Paula Quental: Ele era de uma família judia, assimilada, como se diz, não era religiosa. Ele vinha da Áustria, a mãe percebeu para onde caminhava a coisa do nazismo. Ele conta, inclusive tá na dissertação, que ele descobriu que era judeu, aos seis anos de idade, quando a Áustria foi anexada por Hitler. Aí, chegaram os amiguinhos dele do colégio, com aquelas bandeirinhas nazistas, com a suástica, e ele queria sair junto (com os meninos) com aquela bandeirinha. Aí, a mãe dele vira para ele e diz: “mas, Paul, você é judeu”. Marcos Barreto: É um dos mais importantes economistas brasileiros, marxista e veio com sete anos fugindo do nazismo, com a mãe, o pai já havia falecido, ele veio com a mãe para São Paulo, e ele faz um curso técnico primeiro, ele começa a trabalhar como metalúrgico, só depois ele vai fazer faculdade. E vai fazer faculdade por conta de uma militância política dele, porque o sindicato, o movimento, achava, o mesmo movimento operário, que eles deveriam se qualificar as lideranças, e sugerem que ele vai fazer economia, e ele faz economia, ele se forma já com quase 30 anos, e ele depois tem uma carreira brilhante na academia, professor da USP, foi professor da PUC em São Paulo também, no período que teve que ficar afastado por conta da ditadura militar no Brasil. Ele sempre teve uma militância política junto com a carreira acadêmica, e também como intelectual, uma figura muito inquieta, no sentido de que ele não se acomodava a um determinado tema. Paula Quental: Quando ele entrou na USP, ele já tinha lido o Capital, Trotsky, Lenin, Rosa Luxemburgo, que é muito da tradição dele, ele se considerava um luxemburguista. Então, é uma história de alguém que foi mergulhando nos clássicos e foi desenvolvendo um trabalho muito original, porque ele acabou indo para uma vertente, digamos, herética do marxismo, não convencional, heterodoxa, porque ele criticava, por exemplo, a União Soviética, ele criticava o centralismo da economia, ele defendia que deveria vir da base, da economia solidária, das cooperativas. Então, ele era um crítico da Revolução de 17 de outubro, da Revolução Bolchevique. Marcos Barreto: Depois, já mais nos últimos 20 anos da vida dele, ele se dedica a um tema muito importante, que é a economia solidária, então ali ele encontra talvez o assunto dos quais ele estudou, que mais ele pôde misturar uma militância política com um saber acadêmico, e colocou em prática, ele foi secretário de economia solidária no governo Lula e Dilma, até o impeachment da Dilma, praticamente ele ficou em Brasília coordenando essa Secretaria.  Liniane: Esta apresentação foi feita pela Paula e pelo Marcos. E por aí a gente já consegue ver uma trajetória bem particular, que mistura prática militante e teoria, o que já o difere de muitos intelectuais. Faltou o destaque que o Marcelo Justo fez do nosso protagonista, que trago agora. Marcelo Justo: Tem um marco na vida do Singer, tanto pessoal quanto como militante, que é trabalhar em grupo. Ele se destaca como intelectual e parece que o intelectual é uma figura sozinha, isolada, mas ele só tem essa força que ele tem pela capacidade de estar em grupo e de se conectar o Singer é o que a gente chama mais contemporaneamente de um articulador de redes, ele está sempre mantendo redes de amigos e de militantes juntos, que caminham juntos. Liniane: Marcos, como surge a ideia de um filme sobre ele, ou seja, quem fala: “olha, agora tem que ser feito um documentário sobre o Paul Singer”. Marcos Barreto: Quando ele falece, um grupo de amigos, de pessoas que gostavam muito do professor, dizem, bom, a gente precisa fazer alguma coisa pra contar essa história dele, precisamos registrar isso de alguma forma, fazemos um livro, fazemos o que? Não, vamos fazer um filme e aí a gente faz então uma campanha de crowdfunding, pra conseguir o recurso pra fazer o filme. O primeiro passo foi esse: nós não tínhamos diretor, nós não sabíamos exatamente que filme seria, mas a gente resolve fazer algo que tem muito a ver com a economia solidária, uma grande vaquinha, em todos os 27 estados do Brasil, no Distrito Federal, há pessoas que contribuíram pra que o filme fosse feito. E aí ficamos, então, pensando que diretor pode fazer esse filme, ou diretora? Quebramos a cabeça até que eu sugeri que fosse o Ugo Giorgetti.  Liniane: Por que Ugo Giorgetti?  Marcos Barreto: Porque, entre várias coisas, o Paul Singer escolheu a cidade de São Paulo, quer dizer, ele veio criança, ele não escolheu propriamente, foi a mãe dele que veio, porque já haviam familiares em São Paulo. Mas ele acaba vindo pra São Paulo e adota a cidade como a cidade dele. Ele era um apaixonado por São Paulo, falava isso várias vezes, ele voltava às vezes pra Europa, ia fazer palestra, dizendo que não tem nada como São Paulo.  Liniane: Assistindo o documentário, a gente percebe que Ugo Giorgetti traduz o Singer múltiplo. Os entrevistados comentam o olhar do diretor sobre suas conexões com figuras importantes da política, do campo da educação e mesmo e seu papel na difusão de O Capital, de Marx no Brasil. Foi ele quem primeiro traduziu o livro para o português.  Paula Quental: Teve uma passagem no documentário do Ugo Giorgetti, em que ele entrevista o Paul Singer, porque ele fez ainda várias entrevistas com o Paul Singer, em que o Singer lembra da época que ele dividiu o secretariado da Erundina com Paulo Freire. E ele fala que aprendeu muito com o Freire, que se sente extremamente influenciado pelo Freire. E isso até me estimulou a escrever uma sessão na minha dissertação, chamada Dois Paulos, em que eu analiso justamente o aspecto pedagógico da obra do Paul Singer, que ele próprio se coloca como muito influenciado pelo Freire. Marcos Barreto: Com essa amplitude que tem a vida do professor, as pessoas podiam conhecer um lado, mas pouca gente conhecia o todo, e o filme permite esse registro. E do ponto de vista acadêmico, é um registro interessante também, mais uma vez, sem ser algo cansativo, extenuante, chato, ou mais maçante, vamos dizer assim, porque ele está ali, o registro da vida intelectual, de uma forma leve, de uma forma que você compreende e fala nossa, ele fez tudo isso, nossa, foi ele então que traduziu o Capital.  Liniane: No final dos anos 1950, professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, dentre os quais José Arthur Gianotti, Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso, organizaram um grupo para fazer a leitura de O Capital. Paul Singer integra esse grupo com a missão de traduzir o livro diretamente do alemão. Não custa lembrar que se trata de uma obra canônica no campo das ciências humanas. E que naquele momento Paul Singer ainda não era o economista, intelectual destacado e homem público da alta burocracia governamental. Aqui, as falas de Marcelo, Marcos e depois a Paula. Marcelo Justo: Isso é um marco né? é um marco, acho que para o Singer, é um marco na esquerda brasileira também, porque é um primeiro momento falando pelos relatos deles, que vão se debruçar sobre a obra do Marx de uma forma sistemática, durante muitos anos, – que é interrompido com o golpe de 64, mas começa, se eu não me engano, em 58, 59 e aí vão para outros autores, não só Karl Marx, que aí vão pegar o Singer como um leitor, desde criança, do alemão. Então ele integra o grupo como quem vai ler, trazer a versão original do alemão, mas é que eles vão comparando também a tradução. Então tem a leitura em alemão, tem a leitura em francês, a leitura do que existia em português. Isso depois vai servir também como base para o Singer depois fazer a tradução, a primeira tradução original em alemão do Capital, aí já nos anos 80. A partir desse grupo sai a tese de doutorado do Fernando Henrique Cardoso, então acho que tem todos esses marcos. O professor Roberto Schwarz até hoje também se refere a esse momento, o professor Michael Löwy, que é conselheiro do nosso instituto, que foi muito amigo do Singer, também se refere até hoje como um marco na vida dele, esse momento de leitura do Capital. Marcos Barreto: E depois tem um segundo momento, que é muito rico também, quando ele é convidado por um grupo de jovens que diz assim: “poxa, a gente queria fazer uma leitura do Capital”. E aí veio a ideia de fazer uma leitura no Teatro de Arena. Então já pensou o que era isso? Você reunia no Teatro de Arena, já na ditadura militar – aí nós estamos falando de um Brasil já fechado do ponto de vista político – e esse grupo se reunia sábado de manhã para fazer a leitura do Capital com a coordenação do professor Paul Singer. Então isso é um marco também, e desta leitura ele também aproveitou, como bom acadêmico, e fez um livro sobre essa experiência. Paula Quental: Eu ouvi do Lincoln Seco, professor de História da USP, que ouviu do Florestan Fernandes, que ele é a pessoa que mais conheceu O Capital no Brasil. Ele editou uma edição da Abril Cultural do Capital, uma edição famosa do início dos anos 1980, que a editora Ubu agora reeditou. E ele lia no original, ele mergulhou, e desde uma externa idade. Liniane: Eu selecionei um trecho do documentário em que o próprio Paul  Singer fala sobre Marx. Ele integra o segmento intitulado por Ugo Giorgetti “Um autodidata na USP”. Ouve só: [Trecho do documentário] Paul Singer: Marx, em primeiro lugar, deu uma visão do capitalismo que ninguém havia dado antes, e que agora se mostra inteiramente verdadeira. Marx está sendo ressuscitado por não marxistas, exatamente como coincide, eu diria, de uma forma ultra surpreendente com este capitalismo extremamente em crises, crises que se repetem etc. porque ele entendeu, uma das coisas que tem Marx, a contribuição dele, é só dele, não é de outros, é que os economistas clássicos, tipo Ricardo, Adam Smith e tantos outros, que não eram reacionários, não, eles não eram de direita, mas eles jamais lembrariam em analisar a economia através de lutas de classes, isso é Marx.  [Efeito Sonoro] (Voz de Paul Singer bem baixinha) [Silêncio prolongado] [Trilha incidental] Liniane: Marcelo, o Instituto Paul Singer e o documentário nascem praticamente ao mesmo tempo e se dedicam à difusão do legado do professor. Em que medida essa coincidência influencia o trabalho da entidade? Marcelo Justo: O Instituto, ele começa em 2021, a organização dele. No final do ano é que ele se formaliza com o CNPJ, e em 2022 é lançado, tornado público o Instituto. Ele é uma iniciativa dos familiares do Paul Singer, basicamente eu e a Helena Singer, que é a minha esposa, filha dele. É uma associação sem fins lucrativos que tem como missão preservar e reinventar esse legado. Um legado que tem esse histórico de uma luta pela democracia, pela solidariedade, a luta contra todas as formas de injustiça e desigualdade. Marcelo Justo: O nosso principal desafio é a difusão, é a divulgação das ideias e obras do Singer. Então, um documentário como esse é muito importante, ajuda muito nisso em 50, 40 e poucos minutos, assim, você tem a trajetória inteira dele, da história de vida, as principais ideias e algumas das polêmicas enfrentadas na trajetória, na vida dele. Então, para a gente, é um material muito importante, muito rico para divulgar.  Liniane: É fato: documentário e Instituto convergem em objetivo e se fortalecem mutuamente. Porém, Marcos Barreto me explicou que o filme foi feito a partir de entrevistas realizadas em momentos diferentes. Na primeira, de 2015, Paul Singer é entrevistado pelo grupo que viria a produzir o documentário. A segunda é feita por Giorgetti, em 2018, antes do falecimento do professor. Já o Instituto, como Marcelo me contou, e formalizado em 2022. Marcos Barreto: O professor, no final da vida, já nos últimos anos, tinha alguns fatores de memória, algumas coisas que estavam começando a falhar. E a gente identificou isso, e a família, e a gente falou, bom, vamos gravar, vamos colocar o Paul Singer falando sobre a vida dele, sobre coisas que ele fez na vida que são marcantes, sobre passagens importantes, vamos quase que fazer uma entrevista com ele. E a gente fez duas sessões grandes com o professor, foi o Fernando Kleyman quem organizou isso, em Brasília. E ele então, por duas sessões de quase três, quatro horas, falou um monte, o que foi ótimo, porque quando a gente conseguiu resolver o dinheiro para fazer o filme, escolher o Ugo, etc, o professor havia já avançado na doença, já tinha dificuldade, o Ugo chegou a conversar com ele ainda em vida, o filme é lançado depois que o professor já faleceu. Liniane: O documentário foi divulgado na imprensa como uma produção que praticou a Economia Solidária. O que significaria essa afirmação, Marcelo? Marcelo Justo: Então, na economia solidária, democracia e autogestão são sinônimos, praticamente, nos escritos dele. Então, o que é isso? As pessoas se organizarem para produzir juntos, sem patrão e sem empregado. Todo mundo é cooperado.  Não é à toa que o documentário tem o nome da utopia militante, que esse é o título do livro dele, que ele se coloca a isso, né? A questão da utopia como uma militância. A militância dele é por essa utopia, que é uma utopia de construir um socialismo que seja democrático, que não seja a experiência do chamado socialismo real, que é uma ditadura de esquerda.  Liniane: Marcos também comentou sobre o termo utopia que está no título do documentário. E destacou, mais uma vez, a multiplicidade de papeis de Singer nos vários espaços em que atuou. Marcos Barreto: Esse título é tão forte e também resume tanto do que é o professor, porque justamente reúne essas duas facetas, que é uma pessoa que é um intelectual brilhante, professor titular da USP, com um militante que nunca deixou de ser militante. Ele foi estudar economia porque ele era um militante, e ele termina a vida como alguém que está pensando a economia solidária, que é algo prático, então ele não tava sendo um teórico da economia solidária, só que aí no meio desse percurso, já nessa última década da vida, nas últimas duas décadas, ele escreve esse livro, que é uma utopia militante, então ele assume ali o quê? Que ao mesmo tempo que ele está defendendo algo que é utópico, que é um desejo do que ele gostaria de ver acontecer, ele assume que aquilo só vai acontecer se tiver militância, ou seja, talvez aí, diferente do socialismo científico, que parte da ideia de que há uma evolução natural da história que vai ligar o socialismo, e que é algo que aliás o Singer não acreditava. Então o título, na verdade, quem escolheu foi o professor Paulo Singer, para o livro, e a gente quando viu, quando foi pensar no título do filme, a gente falou, putz, difícil achar um nome melhor do que Utopia Militante. Liniane: O documentário estreou no Festival Internacional É Tudo Verdade, em 2021, em um momento em que a letalidade do coronavírus alcançava um dos seus picos. Ele foi exibido de modo on-line, mediante a distribuição de duas mil senhas, que se esgotaram em poucos minutos. [Efeito sonoro] Liniane: “A trajetória política e intelectual de Paul Singer: da crítica marxista à Economia Solidária” é o título da dissertação de mestrado defendida por Paula Quental no Instituto de Estudos Brasileiros, o IEB, da USP, a Universidade de São Paulo, em 2024.  Marcelo Justo, que é doutor em geografia pela mesma universidade, organizou o livro “Urbanização e Desenvolvimento”, uma coletânea de textos de Paul Singer. O volume foi editado pela Autêntica em parceria com a Fundação Perseu Abramo.  Marcos Barreto é hoje Diretor Geral do Instituto Equipe Educação, Cultura e Cidadania e Vice-Diretor Geral da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), e segue engajado com a divulgação do legado de Singer.  [Vinheta de encerramento Oxigênio] Esse trabalho de divulgação sobre a obra de não ficção do cineasta Ugo Giorgetti é realizado no âmbito do Programa Mídia Ciência, do Labjor, com supervisão da Simone Pallone.  As entrevistas, o roteiro e a narração desse episódio foram feitos por mim, Liniane Brum. A revisão do roteiro é da Simone Pallone. A edição é do Guilherme Lopes, estagiário da Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares da Unicamp, a Cocen. A vinheta do Oxigênio é do Elias Mendez.  As trilhas usadas no podcast são de  Blue Dot Sessions, tiradas do Free Music Archive. A gente vai deixar a ficha técnica do filme na descrição do episódio.  As reportagens referentes à divulgação da obra de não ficção de Ugo Giorgetti foram publicadas no dossiê “Ugo Giorgetti” da Revista ComCiência.  Este episódio conta com o suporte da Diretoria Executiva de Apoio e Permanência, da Unicamp e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, por meio de bolsas, e também da Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp. Você encontra a gente no site oxigenio.comciencia.br, no Instagram e no Facebook, basta procurar por Oxigênio Podcast.  Se você gostou do conteúdo, deixe seu like e compartilhe com seus amigos.

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Radio Bilbao

Play Episode Listen Later Jun 10, 2026 1:16


Oxigênio
#219 – Sinais de vida (passada) em Marte?

Oxigênio

Play Episode Listen Later May 14, 2026 38:08


O jipe Perseverance encontra possíveis bioassinaturas na superfície de uma rocha e dá mais um motivo para que a missão de retorno de amostras de Marte não seja cancelada. As análises sobre a habitabilidade marciana é uma vertente dos estudos na área, que buscam responder: quais são as condições encontradas no planeta hoje e como ele já deve ter sido no passado? O episódio faz parte de um conjunto de reportagens sobre A busca por vida extraterrestre e se essa estaria esquentando. A série é desenvolvida por Danilo Albergaria, bolsista do Programa Mídia Ciência, da FAPESP. Este episódio contou com a participação de Gabriel Gonçalves Silva (pós-doutorando na UNISINOS), Fernanda Jamel (doutoranda – USP e MIT), Roberta Vincenzi (pós-doutoranda no IO-USP) e Isabella Gaião (doutoranda – USP). [Introdução] Danilo: No primeiro episódio da série que trata da astrobiologia, aqui no podcast Oxigênio, a gente falou da alegação de detecção de uma possível bioassinatura num planeta fora do sistema solar. Uma bioassinatura é um sinal produzido por seres vivos – um possível vestígio de atividade biológica. Mas essa notícia de um potencial sinal de vida num exoplaneta não foi a única ocasião em que uma possível bioassinatura em um ambiente extraterrestre gerou manchetes no ano passado. Em setembro de 2025, a NASA anunciou um resultado que foi descrito pela agência aeroespacial americana como: “pode bem ser o sinal mais claro de vida que já encontramos em Marte”. A novidade foi um estudo publicado na revista Nature que apontou a existência de uma “potencial bioassinatura” numa rocha marciana – sim, uma pedra em Marte, coletada e analisada pelo jipe Perseverance, da NASA. A rocha marciana tem algumas características que aqui na Terra são encontradas em rochas que exibem rastros deixados por micróbios. Mas ainda não dá para saber se essas características encontradas na pedra marciana tiveram origem em atividade biológica ou se foram formadas por processos naturais sem o envolvimento de seres vivos. Os equipamentos do jipe, por melhores que sejam, não conseguem produzir resultados claros o suficiente para que os cientistas tirem essa dúvida. Para distinguir se os sinais encontrados são biogênicos (ou seja, foram originados por atividade biológica) ou se são abióticos (ou seja, sem o envolvimento de seres vivos), é preciso trazer as amostras para a Terra.  Eu sou Danilo Albergaria, jornalista e historiador pesquisando a comunicação da astrobiologia, essa área que estuda a origem, a evolução e a distribuição da vida no universo. Neste episódio, vou conversar com quatro cientistas associados ao Laboratório de Astrobiologia da Universidade de São Paulo para entender um pouco melhor de quê se trata essa possível bioassinatura e o que sabemos sobre se Marte pode ou não pode oferecer condições para a existência de vida, ou se já pode em algum momento do passado distante.  [Vinheta] Danilo: Vamos começar pelo que a gente sabe sobre esses resultados anunciados com grande entusiasmo pela NASA no ano passado. O jipe Perseverance está em Marte desde 2021 explorando a região de uma cratera chamada Jezero. A gente sabe que Marte teve água líquida em sua superfície há mais de 3,5 bilhões de anos, e essa cratera já foi um lago nesse passado remoto. Só para vocês terem uma ideia dessa região marciana, para atravessar essa cratera, de borda a borda, é preciso percorrer 45 quilômetros, pouco mais do que a distância entre Campinas e Jundiaí ou de Jundiaí a São Paulo. Em uma parte da borda da cratera existem marcas características de um delta de um rio que desaguava ali. Foi nas margens do leito desse rio, medindo 400 metros de margem a margem, que o jipe encontrou algumas rochas interessantes em julho de 2024. Em uma delas, o Perseverance identificou compostos orgânicos, moléculas compostas de carbono, e o mais importante: marcas que foram apelidadas de “pintas de leopardo”, que são manchas mais claras do que o restante da rocha, circundadas por linhas bem mais escuras. A rocha é formada principalmente de argila e lodo, materiais que costumam preservar rastros de vida microbiana, e fazem da rocha algo tipicamente encontrado no fundo de rios. Essas marcas, as “pintas de leopardo”, são compostas de fosfato de ferro e sulfeto de ferro. Aqui na Terra, esses compostos são associados a rastros químicos causados por reações produzidas por microrganismos em rochas. Essas foram as pistas analisadas para ver se as manchas poderiam ter sido geradas por micróbios há bilhões de anos. O Gabriel Gonçalves Silva é pós-doutorando na UNISINOS, químico associado ao Laboratório de Astrobiologia da USP, e estuda geobiologia. Eu pedi para ele me explicar por que esses sinais foram considerados possíveis vestígios de vida microbiana passada em Marte neste último estudo feito pelos pesquisadores da NASA. Gabriel: Eles analisaram uma amostra que se chama de mudstone, que seria algo como uma rocha formada de uma antiga lama. Marte é muito rico em ferro e foi observado principalmente nessa rocha pequenos pontinhos que eles observaram com mais detalhes e nele foi encontrado o ferro que a gente chama de ferro mais reduzido, que é o ferro 2+, que é interessante porque contrapõe ao ferro que a gente encontra mais em Marte, que é o ferro 3+, que é aquele que tem a cor de ferrugem. E não só essas manchinhas apresentavam principalmente um mineral, que é a vivianita, que é um fosfato de ferro II e a greigita, que é um sulfeto de ferro II. O ferro II na Terra, por exemplo, pode ser formado por processos na ausência de vida ou na presença de microrganismos. Eles conseguiram observar que não havia nessas rochas nenhum indício de grandes mudanças de pH nem de temperatura, mas junto da vivianita e da greigita tinha matéria orgânica. Na Terra, a gente sabe que a matéria orgânica pode acoplar reações onde a oxidação da matéria orgânica resulta na redução do ferro e aí, pela presença de sulfeto e do fosfato, a formação desses minerais. Porém, eles observaram que, por mais que a vivianita possa se formar em condições de temperatura, pressão e pH próximos do que nós consideramos normais, geralmente a formação de sulfeto de ferro dependeria de uma temperatura mais alta, então não só a oxidação da matéria orgânica, levando à redução do ferro, necessitaria de outros elementos para a formação desse mineral, desse sulfeto de ferro II. E graças a observações da composição ali da rocha, ausência de fosfato de alumínio, ausência de outros componentes, eles perceberam que não houve nem aquecimento, nem uma mudança drástica de pH durante esse processo de formação desses minerais. Isso faz com que a causa mais provável para a formação desses minerais, pelo menos se a gente pensasse na Terra, seria a ação da vida como nós conhecemos. Danilo: Vamos entender um pouco mais da química envolvida na produção das “pintas de leopardo”. Algumas bactérias formam minerais usando e transformando compostos químicos, como diferentes tipos de óxidos de ferro, formados por ligações entre ferro e oxigênio. O chamado ferro II (um íon de ferro) é muito importante para atividade biológica porque se liga facilmente ao oxigênio – por exemplo, ele é fundamental para o transporte do oxigênio no nosso sangue por meio da hemoglobina. A Fernanda Jamel, doutoranda no AstroLab da USP e que fez parte de suas pesquisas atuais no MIT (o Massachusetts Institute of Technology, nos EUA), explica a química da formação dos minerais encontrados na rocha marciana como possível explicação biológica, comparando com o que acontece na Terra. Fernanda: Aqui a gente tem formação de vivianita com bactérias que usam o ferro III, o óxido de ferro III, e transforma em ferro II. Por isso que a gente fala que é a redução de ferro. Então, quando as bactérias fazem isso, ela libera o ferro II no ambiente ao redor e aquilo ali vai formando camadas, vai se ligando com o que tem ali, e vai formando camadas que vão se mineralizando. A greigita também, da mesma forma, só que seria bactérias redutoras de sulfato, elas usam o sulfato como receptor de elétrons, o SO4, e elas produzem H2S, que é sulfeto de hidrogênio. E aí esse sulfeto reage com o ferro II disponível no sedimento. Depois vão formando essa combinação de sulfeto de ferro que vai se formando em greigita também dessa mesma forma, no sentido de que isso vai se expandindo: vem de um núcleo e vai se expandindo ao redor.” “É difícil dizer que existe um padrão exatamente igual a esse que a gente encontrou em Marte, mas esses nódulos que se formaram são condizentes com formações que a gente encontra aqui.” Danilo: Além dos compostos orgânicos, os instrumentos do Perseverance também identificaram, na região em que a rocha foi encontrada, alguns compostos químicos ricos em enxofre, ferro oxidado ou ferrugem, e fósforo. Se micróbios existiram ali, esses compostos podem ter fornecido fontes de energia para o metabolismo desses microrganismos, reforçando a hipótese de origem biológica para os vestígios. Porém, o fato de que esses vestígios podem ter sido formados por vida microbiana não quer dizer que dê para descartar outros processos que não envolvam seres vivos – também chamados de processos abióticos. Os próprios autores do artigo que avalia a possível origem biológica das “pintas de leopardo” propõem alguns processos abióticos como explicações alternativas. Até agora, as alternativas abióticas, sem o envolvimento da vida, não parecem muito promissoras para explicar as marcas nas rochas, mas ainda não dá para descartá-las. Talvez estejam faltando algumas peças do quebra-cabeças para uma explicação abiótica convincente. O Gabriel de novo vai nos ajudar a entender isso. Gabriel:  Eles tentaram investigar o máximo possível de reações na ausência de vida, e nenhuma que nós conhecemos hoje poderia sustentar esse tipo de reação. Isso não quer dizer que a vida é sempre necessária para que essas reações aconteçam. A gente pode estar ignorando alguma coisa. Pode não estar percebendo alguma coisa. Podem existir reações que a gente não estudou hoje e que poderia estar fomentando essa formação desses minerais na ausência de vida, ou até mesmo as grandes escalas – a gente está falando aí de bilhões de anos – poderiam permitir que houvesse a formação desses minerais na ausência de vida. Mas de tudo que a gente conhece hoje, essa condição de formação de fosfato de ferro II, formação de sulfeto de ferro II acoplado à presença de matéria orgânica, como nós conhecemos, seria mais bem explicado pela ação da vida. Então eles fizeram um estudo muito minucioso de várias hipóteses. E a que melhor responde hoje é a ação da vida, em contrapartida a reações abióticas, sem a presença de vida.  Danilo: É justamente pela possibilidade de que as “pintas de leopardo” tenham sido formadas por mecanismos abióticos, sem o envolvimento de seres vivos, que os sinais são classificados de “potenciais bioassinaturas”. Ou seja, podem ter sido, como podem não ter sido causados por seres vivos. Para que uma potencial bioassinatura seja considerada um sinal de vida inequívoco, é preciso estabelecer com segurança a sua origem biológica e descartar os mecanismos plausíveis que não envolvam processos biológicos em sua formação – ou seja, é preciso eliminar essas hipóteses abióticas alternativas. É uma barra bem alta, difícil de ser alcançada. Para complicar, os instrumentos a bordo do Perseverance são versões miniaturizadas, simplificadas, de ferramentas que se usa em laboratórios terrestres para buscar bioassinaturas de vida do passado remoto da Terra, como o espectroscópio Raman. Gabriel: Para quem tem um olho um pouco mais treinado nessas questões científicas, quando a gente observa, por exemplo, no próprio artigo, os espectros Raman que foram publicados, a gente leva um pouco de susto, porque a gente vê que são dados muito ruidosos, que isso tem a ver com a forma com que a amostra é tratada lá no espaço. O laser não é tão preciso. O aumento não é tão grande. Você tem a grande influência da iluminação natural. Isso faz com que o espectro fique extremamente ruidoso e dificulta a análise daquilo que se espera estar sendo estudado. Se esse material pudesse ser trazido para a Terra num ambiente muito mais controlado, a gente poderia trabalhar com lasers com focos muito menores, ou seja, na escala de micrômetros, com uma precisão muito grande do que está sendo selecionado para ser estudado. E aí a gente tem alternativas: trocar lasers, trocar aparatos para garantir que o ruído seja minimizado e outros efeitos que atrapalham possam ser minimizados. [música]  Danilo: Da forma como eu e o Gabriel falamos, pode parecer que o Perseverance é um aparelho meio limitado, mas a verdade é que o jipe é uma grande realização da engenharia. O Gabriel me explicou que os engenheiros e cientistas da NASA bolaram soluções muito criativas para poder, por exemplo, em um único espectro separar a fluorescência de raio-X, que permite saber a composição elementar do material analisado, da difração de raio-X, que dá uma informação da estrutura cristalográfica dos minerais – ou seja, permite ver a organização interna dos átomos nas amostras. Apesar da criatividade, esses mini-aparelhos que o jipe carrega nem de longe se comparam com os dos laboratórios aqui na Terra. Por exemplo, o espectroscópio Raman que o Gabriel mencionou e que tem lá no AstroLab, ocupa boa parte de uma sala ao lado do laboratório, enquanto que as dimensões do SHERLOC, o instrumento que inclui o Raman no Perseverance, tem 26cm de comprimento por 20cm de largura (isso porque o SHERLOC carrega ainda outros instrumentos, como a câmera WATSON… sim, os cientistas são bons em dar nomes para os aparelhos… Elementar). Se der para trazer essas amostras para o nosso planeta, daria para trabalhar com radiação síncrotron, por exemplo, que consegue focar e fazer esse tipo de análise em escalas nanométricas. E também fazer a observação de microscopia eletrônica, onde a gente vai ver a estrutura daquela amostra com aumentos entre mil e dez mil vezes. Por isso, o jipe vem colhendo amostras que poderão, no futuro, ser trazidas para cá e analisadas em laboratório. É a única maneira de eliminar algumas incertezas e filtrar as hipóteses da origem das possíveis bioassinaturas. A missão de retorno dessas amostras estava em desenvolvimento pela NASA, mas extrapolou as estimativas de custo iniciais, chegando a 11 bilhões de dólares, e agora está cancelada devido aos cortes profundos no orçamento da NASA propostos pelo governo de Donald Trump. Mas um detalhe mostra que o caro, em ciência, é quase sempre barato quando comparado com gastos militares. Os 11 bilhões previstos para o desenvolvimento de toda a missão de retorno de amostra são os mesmos 11 bilhões que os Estados Unidos gastaram só nos primeiros seis dias de ataques ao Irã entre fevereiro e março deste ano.  [música] Danilo: Com os cortes no orçamento, a situação atual da NASA é complicada, para dizer o mínimo, por isso ainda não dá para saber quando e se vamos um dia analisar as tais “pintas de leopardo” em laboratório e distinguir se elas são biogênicas ou se foram formadas por processos abióticos. Mas dá para saber muita coisa sobre as condições que Marte oferece – e não oferece – para a existência da vida, além das condições que o planeta enferrujado já deve ter oferecido a possíveis seres vivos num passado muito distante. A Isabella Gaião e a Roberta Vincenzi, pesquisadoras associadas ao Laboratório de Astrobiologia da USP, vão me ajudar a entender melhor se Marte é ou já foi habitável um dia. Elas estudam um mesmo microrganismo, a bactéria Staphylococcus nepalensis. O micróbio é adaptado a ambientes hipersalinos, repletos de sal, como as lagoas de Araruama, no estado do Rio de Janeiro, onde elas encontraram essa espécie de bactéria em meio a outros microrganismos que sobrevivem a concentrações de sal nocivas à maior parte dos seres vivos. A superfície de Marte está cheia de sais que são nocivos à vida, como sulfato de magnésio e o perclorato de magnésio. Esses sais são muito mais nocivos do que o cloreto de sódio que predomina nos oceanos terrestres. A Roberta explicou porque esses sais são tão prejudiciais à vida. Roberta: Os principais danos dos percloratos, na verdade, são dois. Eles são muito oxidantes, mas hoje, e essa era uma das principais preocupações na época da descoberta desses sais lá, mas hoje, do que a gente entende, aparentemente, se você pega a parte termodinâmica do negócio, não é tão relevante o fato de eles serem oxidantes, mas eles são extremamente caotrópicos. E esse vai ser um conceito bastante importante para a gente entender os problemas da vida nessas soluções, porque um agente caotrópico é aquele agente que tem o potencial de desestabilizar macromoléculas. Macromoléculas são basicamente tudo que a vida precisa para existir, como proteínas, lipídios, material genético. Então, se você tem agentes caotrópicos em uma solução, essas moléculas que precisam se manter em determinada forma vão ter dificuldade de permanecer assim. E a gente sabe que a forma dessas macromoléculas hoje estão intimamente ligadas à função que elas exercem. Então, quando a gente tem esses agentes caotrópicos, é basicamente uma função de desestabilizar a vida como a gente conhece ali. E esses sais são extremamente caotrópicos. Danilo: A Isabella também me ajudou a entender como a caotropicidade desses sais pode desestruturar o arranjo de grandes moléculas orgânicas, como as proteínas. Isabella: Basicamente um agente caotrópico é qualquer coisa química que desestruture macromoléculas. Aí o que seriam macromoléculas? Qualquer molécula importante para a vida. Então a vida é baseada em células. Células têm principalmente proteínas, que é o arranjado de várias moléculas orgânicas ali e que elas se rearranjam de uma forma 3D. Então, a forma 3D de uma proteína é muito importante para ela executar a função. E função de proteína é tudo. Tudo que envolve uma célula funcionar, você precisa de uma proteína ali trabalhando para ela funcionar. E para essa proteína funcionar, ela tem que estar na forminha dela 3D, ela não pode ser uma linha, ela tem que ter três dimensões. E agentes caotrópicos vão quebrar esse 3D. E se você quebra esse 3D e ela fica, por exemplo, linear, uma proteína, aí ela não tem mais função. Se ela não tem função, a célula não funciona. Se uma célula não funciona, a vida por si não funciona.  Danilo: Como a Roberta já tinha mencionado, os percloratos da superfície marciana desestruturam a química da vida não só por serem caotrópicos, mas também por serem oxidantes. Roberta: Porque quando a gente fala que um composto ele é muito oxidante ou muito oxidativo, significa que ele reage muito fácil com outras coisas ao redor. Então, aquela estrutura que a Isabela falou, que precisa ser mantida, dessas proteínas, para que elas funcionem, quando você tem algo que é muito reativo ao redor… Isso também, ela vai reagir com esse agente oxidativo, que no caso é esse sal, e quando ela reage assim, todas as outras ligações que ela tem para manter essa estrutura específica, para ela funcionar, podem se desorganizar também, e isso vai prejudicar a função, seja das proteínas, como também dos lipídios, por exemplo, que são aquelas gorduras que constroem a membrana biológica das células, que é muito importante para manter um ambiente interno, mas também os próprios materiais genéticos, o DNA e o RNA, que são essenciais pra manter e passar a informação da vida como a gente a conhece. Danilo: a bactéria que a Roberta e a Isabella estudam gosta de alta concentração de sal. É, por isso, considerada um extremófilo, uma espécie adaptada a condições extremas em que a maioria dos seres vivos terrestres não teria condição de sobreviver. Extremófilos que se dão bem com alta concentração de sal são chamados de halófilos. Os halófilos são importantes para entender a possibilidade da existência de vida hoje em Marte. Caso a vida tenha um dia existido no planeta vermelho, ela poderia, talvez, ter se adaptado para sobreviver em bolsões de água debaixo da superfície, algo que provavelmente existe segundo os modelos mais aceitos da estrutura de Marte. Isabella: Mas existem locais na Terra em que de alguma forma a água evaporou demais e concentrou muito sal, então a gente tem um aumento dessa concentração comparado com o mar. E existem principalmente microrganismos nesses ambientes que se adaptaram e desenvolveram para esse tipo de ambiente. Então eles têm uma resposta ao sal, NaCl, cloreto de sódio, diferente dos que vivem no mar, por exemplo. Então eles resistem a concentrações maiores. Roberta: E isso seria interessante porque, como a gente falou, qualquer tipo de água líquida presente em Marte seria o que a gente chamaria de uma salmoura. Então, teria uma concentração alta de sal dissolvida nesses ambientes. Portanto, qualquer tipo de vida presente ali deveria ser capaz de lidar com isso, ou seja, a gente poderia chamar de halófilo. Danilo: esses bolsões subterrâneos de água têm a vantagem de estarem protegidos da alta radiação ultravioleta que castiga a superfície marciana. O nó é que deve haver outras barreiras para a sobrevivência de microrganismos nesses bolsões. A Roberta começa explicando isso e a Isabella depois completa a explicação. Roberta: Porque é possível. Se a gente tem água líquida, as reações são possíveis. Mas a gente vai ter diversas outras características. …desses ambientes que continuam sendo problemáticos. Um deles é, por exemplo, a própria disponibilidade de água que você vai ter numa solução aquosa com muita concentração de sal. Quando você tem uma solução com muita concentração de sal, as moléculas de água estão ligadas ao íon. Então, ela não está disponível para reação. Apesar da água estar líquida, você tem muito mais dificuldade de a reação acontecer. E a gente precisa de reação para que a vida aconteça. Isabella: Ela acabou de introduzir um termo extremamente importante, que ela só não deu o nome, mas é extremamente importante para esse tipo de pesquisa, que é a atividade da água. É o quanto de água está disponível para a vida reagir, para as reações acontecerem e a vida conseguir acontecer. Hoje, é meio arbitrário, esse número vai de zero a um, é um número, enfim, mas a gente sabe que a vida consegue sobreviver até 0,6 de atividade da água. Abaixo disso, não. E aí, quanto maior a atividade da água, ou seja, mais próximo de um, mais água disponível tem. Quanto menor, mais água está retida. Ela está ali, mas ela está se fazendo ligação com outro grupo químico, no caso, o que ela falou, são os sais. Então, os sais estão ligando com aquela água, ela não está disponível para a reação. Então, quanto mais sal, mais você tem a diminuição da atividade da água e menor chance de ter água disponível ali para a vida poder fazer reações químicas. Danilo: Então, no índice de 0 a 1 de atividade da água, a vida consegue existir se este índice estiver acima de 0.6, aproximadamente. O índice estimado de atividade da água nos aquíferos subterrâneos em Marte é 0.57 – ou seja, a bola bate na trave, mas não entra. [música de transição] Danilo: A atividade da água no passado remoto de Marte era, provavelmente, muito acima do mínimo requerido para a existência de vida. Se a superfície de Marte parece hoje inabitável, há mais de 3,5 bilhões de anos o planeta pode ter oferecido condições mais amenas à vida, especialmente a microbiana. O Gabriel publicou recentemente, como primeiro autor e junto com outra pesquisadora do AstroLab – a Ana Paula Schiavo, uma especialista em microrganismos halófilos – um estudo na conceituada revista internacional Astrobiology. Eles exploraram como o lago que existia na cratera Jezero há mais de 3,5 bilhões de anos pode ter sido habitável, pois deve ter sido rico em um íon de ferro capaz de proteger microrganismos da radiação ultravioleta. Ele mesmo explicou esse trabalho interessantíssimo para este podcast. Gabriel: Cada vez mais a gente descobre que Marte é muito mais heterogêneo do que a gente pensa como uma coisa uniforme. Existiam lagos onde você tinha pH muito baixo, que a gente tem uma ideia disso, principalmente por esses depósitos, como sulfatos de magnésio ou sulfatos de ferro, como mineral jarosita, detectado por satélites que orbitam Marte. A presença de jarosita demonstra que essa água, em algum momento, era extremamente abundante de ferro III e extremamente ácida, condições onde a gente possui vida aqui na Terra. Então a gente queria demonstrar que Marte tinha semelhanças com a Terra mas tinha algumas características também que eram um pouco diferentes. E poxa, Marte também estava recebendo uma grande quantidade de radiação do Sol, e eu falo principalmente da radiação ultravioleta, que é aquela que a camada de ozônio protege hoje em dia. Mas ainda assim, a gente tem um pouco de ultravioleta que chega por isso que a gente precisa passar protetor solar. E a gente pensou no ferro como também um protetor solar. Já havia estudos que demonstravam que o próprio solo marciano, por ser muito rico em ferro (por isso, aquela cor de ferrugem) ele já é capaz de proteger fisicamente organismos que eventualmente poderiam estar presentes ali no planeta. A gente queria poder quantificar essa proteção, principalmente nesses lagos.  Danilo: Usando algumas leis químicas que já são bem conhecidas, os pesquisadores do AstroLab desenvolveram um modelo matemático para tentar estimar qual seria o efeito protetivo do ferro em solução nos lagos que existiam no passado remoto de Marte. Pela composição das rochas encontradas no que era o fundo, o assoalho desses lagos, já sabia que eles poderiam ser ricos em ferro. Os pesquisadores do AstroLab fizeram experimentos em laboratório testando o quanto microrganismos poderiam sobreviver com diferentes taxas de radiação ultravioleta e soluções com mais e menos íons de ferro. Eles compararam os resultados dos experimentos com o modelo matemático e viram que o modelo era capaz de prever com uma boa precisão qual seria o efeito protetivo do ferro contra o ultravioleta.  Gabriel: E aí, com isso, a gente pôde modelar como esses lagos poderiam proteger a vida, pelo menos a vida como nós a conhecemos. Aí, claro, a gente tem que assumir várias questões. Por exemplo, a gente não sabe quais eram as concentrações de ferro nesse ambiente. Se existia vida ou não, qual seria a resistência dessa vida naturalmente ao ultravioleta, mas usando exemplos da Terra, a gente conseguiu demonstrar que lagos com pouco ferro, em algumas profundidades relativamente rasas na casa de alguns centímetros, até alguns poucos metros, esse ferro já seria capaz de proteger a vida como nós conhecemos. Então esses lagos marcianos poderiam estar protegidos dessa ação do ultravioleta do Sol. Mesmo não tendo uma camada de proteção de camada de ozônio, ainda assim a vida como nós conhecemos poderia se desenvolver nesse tipo de ambiente que a gente sabe que existiu no passado marciano. Danilo: Se o ouvinte quiser saber um pouco mais sobre esse estudo, pode dar uma olhada na matéria que eu publiquei na Folha de S. Paulo no final do ano passado, com o título “Novo modelo simula condições de habitabilidade de antigos lagos de Marte”. Vamos deixar o link da matéria e do artigo do Gabriel na descrição do episódio. [música de transição] Danilo: A gente viu que a superfície de Marte é inóspita para a vida como a gente a conhece, mas resta alguma esperança de que os aquíferos subterrâneos marcianos sejam habitáveis. Agora, para encontrar água embaixo da superfície, em grande quantidade e com potencial para ser habitável, a gente vai ter que ir para bem mais longe, lá na vizinhança dos planetas gigantes gasosos. No próximo episódio o assunto vai ser as luas de Júpiter e Saturno que têm grandes oceanos debaixo de uma espessa camada de gelo. Essas luas geladas têm se tornado o assunto mais quente da astrobiologia quando se trata da procura por condições e ingredientes para a vida no sistema solar. O roteiro, pesquisa, produção e narração foram feitos por mim, Danilo Albergaria; a revisão do roteiro foi feita pela Simone Pallone. Os entrevistados foram o Gabriel Gonçalves Silva, a Fernanda Jamel, a Roberta Vincenzi e a Isabella Gaião. A edição do episódio foi da Carolaine Cabral. As músicas são do Blue Dot Sessions,  são Creative Commons. E esse podcast foi produzido com o apoio da Fapesp, por meio da bolsa Mídia Ciência, com o projeto Pontes interdisciplinares para a compreensão da vida no universo, o Núcleo de Apoio à Pesquisa e Inovação em Astrobiologia e o Laboratório de Astrobiologia da USP.

Voces de Ferrol - RadioVoz
COGAMI impulsa en Ferrol el programa Más Empleo con formación adaptada para favorecer la inserción laboral inclusiva

Voces de Ferrol - RadioVoz

Play Episode Listen Later Feb 12, 2026 12:33


La Confederación Gallega de Personas con Discapacidad (COGAMI) pone en marcha en Ferrol una nueva edición del programa Más Empleo, una iniciativa dirigida a personas con discapacidad o en riesgo de exclusión social para mejorar su inserción sociolaboral. El programa, que también se desarrolla en Lugo, Ourense, Pontevedra y Vigo, ofrece formación adaptada a las demandas reales de las empresas del entorno. Durante este primer semestre se impartirán cursos de operario/a de limpieza, conserjería con tareas administrativas, caja y reposición y manejo de carretilla elevadora, diseñados para facilitar el acceso directo al mercado laboral. Financiado por Fundación “la Caixa” y el Fondo Social Europeo Plus, el proyecto promueve igualdad de oportunidades, participación activa y mejora de la empleabilidad. Desde 2024 ha formado a 131 personas, logrando 55 inserciones laborales. Técnicas de orientación acompañan a cada participante con itinerarios personalizados hasta su incorporación al empleo.

Oxigênio
#212 – Ugo Giorgetti em 4 documentários – 2º Episódio

Oxigênio

Play Episode Listen Later Jan 29, 2026 25:12


Este é o segundo episódio da série de podcasts Ugo Giorgetti em 4 documentários e trata de dois médias-metragens: “Variações Sobre Um Quarteto de Cordas” e “Santana em Santana”, documentários produzidos pelo diretor e produtor, que também são muito diferentes entre si, mas que têm um ponto crucial em comum. No episódio, Liniane Brum e Mayra Trinca revelam como eles entrelaçam as trajetórias de vida de dois artistas, em meio ao desenvolvimento da cidade de São Paulo.  _____________________________ Roteiro [Som de tráfego em cidade: buzinas, carros, ruídos de fundo.]  Mantém em BG até entrada da música de transição. LINI: Esse é o segundo episódio da série de podcasts Ugo Giorgetti em 4 documentários. Meu nome é Liniane Haag Brum, sou doutora em teoria e crítica literária pela Unicamp e realizei a pesquisa de pós-doutorado “Contra o apagamento – o cinema de não ficção de Ugo Giorgetti” também na Unicamp, no Labjor, com o apoio da Fapesp. Essa pesquisa surgiu da descoberta de uma lacuna. Percebi que não havia nenhum estudo sobre a obra de não ficção de Giorgetti. Apesar de ela ser tão expressiva quanto a sua ficção, e mais extensa. MAYRA: E eu sou a Mayra Trinca, bióloga e mestra em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor. Você já deve me conhecer aqui do Oxigênio. Eu tô aqui pra apresentar esse episódio junto com a Liniane. Nele, vamos abordar os médias-metragens “Variações sobre um Quarteto de Cordas” e “Santana em Santana”. [Música de transição – tirar da abertura de “Variações Sobre um Quarteto de Cordas”] LINI: No primeiro episódio, apresentamos os documentários “Pizza” e “Em Busca da Pátria Perdida”, destacando os procedimentos e recursos de linguagem empregados pelo cineasta para retratar a complexidade da capital paulista. MAYRA: Em “Pizza”, as contradições de São Paulo surgem na investigação de pizzarias de diversas regiões, por meio de depoimentos de seus donos, funcionários, clientes e pizzaiolos. Já “Em Busca da Pátria Perdida” se concentra no bairro do Glicério, e registra a experiência de migrantes e imigrantes que encontram acolhida e fé na Igreja Nossa Senhora da Paz. Se você ainda não ouviu, é só procurar por “Ugo Giorgetti” no nosso site ou no seu agregador de podcasts.  LINI: Nesse segundo episódio, vamos falar sobre dois médias-metragens: “Variações Sobre Um Quarteto de Cordas” e “Santana em Santana”, documentários que também são muito diferentes entre si, mas que tem um ponto crucial em comum. Vamos revelar como eles entrelaçam as trajetórias de vida de dois artistas, ao desenvolvimento da cidade de São Paulo.  (pausa) Vinheta Oxigênio LINI: Se você não tem muita ligação com a música de câmara, seja tocando, estudando ou pesquisando o tema, é provável que nunca tenha ouvido falar em Johannes Olsner.  “Variações Sobre Um Quarteto de Cordas” retrata a trajetória profissional desse violista que chegou no Brasil em 1939, vindo da Alemanha para uma turnê musical, e nunca mais voltou pra casa.  MAYRA: Sobre esse documentário o crítico literário e musical Arthur Nestrovski escreveu o seguinte na Folha de São Paulo, em setembro de 2004: “O filme é muito simples. O que, no caso, é uma virtude: (…) a vida de Johannes Oelsner se confunde com a arte que praticou ao longo de quase 70 anos de carreira.” LINI: O violista alemão fez parte da formação inicial de músicos do que é hoje o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo. [Música de transição – escolher excerto de “Variações Sobre um Quarteto de Cordas”] MAYRA: Talvez você esteja se perguntando o que é um quarteto de cordas… Vamos por partes:  Um quarteto de cordas é uma das formações mais emblemáticas da música de câmara e reúne quatro instrumentistas em dois pares: dois violinos, uma viola e um violoncelo. [Entra música de fundo: escolher excerto de “Variações Sobre um Quarteto de Cordas”] [Sugestão – time code do Youtube – 09:32 até 10:42] A expressão “música de câmara” tem sua origem na “musica da câmera”, termo italiano que significa “música para a sala”. É originalmente um gênero de música erudita para ser tocada em ambientes privados e íntimos, como nos aposentos palacianos e gabinetes da aristocracia, – e não nas grandes salas de concerto. LINI: A música de câmara pode ter diferentes formações, como por exemplo um dueto ou um quinteto. Mas – sim! – o quarteto é a sua forma mais clássica. [Música de transição] Embora os quartetos de cordas se dediquem a um repertório de alto refinamento artístico, sua presença no Brasil é pouco comum. Foi pensando nisso que perguntei pra Ugo Giorgetti por que motivo ele decidiu fazer um documentário sobre um tema tão específico. Ouve só como foi a nossa conversa: LINI: Sobre o quarteto de cordas eu queria perguntar o seguinte: é um tema restrito? Fica um documentário mais assim, restrito, você acha?  GIORGETTI: O Quarteto de Cordas é só um lado do documentário. Ele fala também de São Paulo, ele fala do Mário Andrade, ele fala do Prestes Maia, ele fala um monte de coisa. Ele fala da durabilidade do tempo, esse negócio se transformou em uma coisa que durou 37 anos tocando juntos. Esses caras envelheceram juntos.  [Música de transição – trecho de “Variações Sobre um Quarteto de Cordas”] GIORGETTI: Quando eu fiz o documentário, esse quarteto já não existia mais naquela forma original. Já passou por outras formas, mas é sempre o Quarteto de Cordas do município de São Paulo. Então, nenhuma coisa é tão fechada assim. MAYRA: Retomando a trajetória de Johannes Olsner: sua formação como músico erudito começou cedo e se deu por meio do aprendizado do violino. Foi só mais tarde, quando já tocava profissionalmente, que ele chegou à viola que lhe acompanhou ao longo da vida. Escuta o próprio Johannes falando um pouco sobre isso: [trecho do documentário] – Johannes Olsner: Estudei primeiro violino, comecei com 9 anos o violino, então eu me apresentei no Conservatório Real de Dresden. Aí quem me ouviu foi o grande professor Henri Marteau, francês. Depois, com 13 anos, me deram uma bolsa de estudo integral. Eu me formei, depois ganhei o meu diploma, etc, etc. Isso foi em 1935, até 1937. [trecho de MOZART em violino] LINI:  O violista já tocava no prestigioso Quarteto Fritzsche de Dresden, ainda na Alemanha, quando recebeu a notícia que iria sair em turnê para as Américas. No dia 9 de março de 1939, aos 24 anos, ele e seus parceiros musicais pegaram um navio, em Bremen, também na Alemanha.   [Efeito de som do mar]  Primeira parada: Panamá, por três dias. Depois Argentina, onde tocaram na escola alemã e permaneceram por semanas a fio. Em seguida Montevidéu, onde fizeram quatro concertos. E, finalmente, aportaram no Rio de Janeiro. [Efeito de som do mar] [trecho do documentário] – Johannes Olsner: Chegamos dia 26 de julho de 1939, com bastante atraso, mas aqui no Brasil.  LINI: Veio a Segunda Guerra, ele e os colegas permaneceram em terras brasileiras.   [trecho do documentário] – Johannes Olsner: A gente pode dizer mesmo o Deus é brasileiro, né? Eu tive sorte lá, com entrar no Quarteto e tudo assim, mas aqui, olha que, eu sempre digo para todos vocês que são brasileiros natos: pode ficar contente, porque é a melhor terra que tem. Fora de tudo que tem, olha que, é a melhor terra que tem. LINI: Olsner criou raízes em São Paulo. Em 1944, mesmo ano em que se casou, entrou para o Quarteto Haydn.  MAYRA: O Quarteto Haydn do Departamento de Cultura de São Paulo representa a fase inicial e histórica do que hoje é o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo. Sua origem remonta a 1935, quando foi fundado por iniciativa de Mário de Andrade, que na época era o diretor do Departamento. A formação respondia a um antigo anseio do escritor, crítico musical, ensaísta e professor de música. Entre outras tantas lutas culturais, Mário de Andrade acabou se tornando um verdadeiro paladino da construção de uma cultura musical consciente e autônoma para o Brasil. A rememoração de Oelsner dá indícios dessa efervescência: EXCERTO MÁRIO DE ANDRADE: Oelsner: Um dos primeiros concertos, me lembro, era em frente do Teatro Municipal, a velas. E então, aí o Mário, como disse, como assistiu todos os concertos, um dia ele chegou também. Ele dizia, seria possível tocar uma vez com o nosso quarteto aqui do teatro, do departamento. Então, como eu já falei para o senhor, fizemos o quarteto de Mendelssohn  [trecho do quarteto de Mendelssohn do documentário Variações(continuação do texto acima) ]  LINI: Pausa para um esclarecimento. Você lembra que no primeiro episódio a gente falou da presença da literatura na obra de não ficção de Giorgetti? Pois é, “Variações sobre um quarteto de cordas” também revela essa face do diretor paulista. Na entrevista com Oeslner, ele não disfarça o interesse pelo escritor brasileiro Mário de Andrade. [trecho do documentário] Ugo Giorgetti: O senhor lembra do bem do Mário de Andrade? Oelsner: Sim, nós éramos amigos, que infelizmente eu tinha mais contato com ele de 44, quando eu entrei no departamento, até 45, e pobre Mário morreu em 45.  Ugo Giorgetti Como ele era?  Oelsner: Sempre alegre, sempre disposto, e qualquer coisa que o senhor disse, uma novidade, o senhor dizia, vamos ver. Sim, sim, sim. E marcava quanto se podia fazer. O Mário era formidável. LINI: Eu perguntei ao diretor se ele de fato – abre aspas “perseguiu” – a presença e a figura de Mário de Andrade, na entrevista com o Oelsner. Ele respondeu que sim. E fez o seguinte relato: [trecho do documentário] Ugo Giorgetti: Eu considero o Mário de Andrade o maior intelectual de São Paulo, de todos os tempos, porque ele era um grande poeta. Tem poemas que são fantásticos, citei um num artigo que escrevi sobre Abujamra, um poema dele, que dizia, “eu sou 300, sou 350, mas um dia eu toparei comigo.” Ele era um músico, ele dava aula no Instituto de Arte Dramática, professor, ele era um etnógrafo, ele saia pelo Brasil cantando folclore, ele era um professor, claro, político, na boa fase, na boa forma de político. Ele foi o primeiro secretário de Cultura de São Paulo. Eu procuro o Mário de Andrade, onde é possível achar. Eu tenho contos dele, o que ele escreveu para jornais, ele escreveu para jornais também, era um cronista, um cara fantástico. MAYRA:  Johannes Olsner cultivou laços com Mário de Andrade e também com personalidades  como  os compositores e regentes Heitor Villa-Lobos e Camargo Guarnieri. Além disso, executou peças com as pianistas Guiomar Novaes e Magdalena Tagliaferro. Durante a formação mais longeva do Quarteto, de 1944 a 1979, ele tocou com Gino Alfonsi no primeiro violino, Alexandre Schaffman no segundo e Calixto Corazza no violoncelo. LINI: A gente pode dizer que Johannes Olsner é o biografado do documentário. Mas também podemos afirmar que essa peça audiovisual é um testemunho. Por meio de um único depoimento, o média-metragem: flagra o nascimento do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, – que é também um registro do florescimento da vida cultural e do desenvolvimento da capital paulista. MAYRA: Vislumbra uma linhagem de músicos alemães surgida em Dresden, berço musical em um dos momentos mais ricos, inovadores e contraditórios do Ocidente. LINI: Testemunha os efeitos da Segunda Guerra Mundial, quando centenas de cidadãos alemães se viram obrigados a imigrar para sobreviver. Esse ponto não está explícito no relato de Olsner, mas as imagens do documentário fazem referência ao fato. MAYRA: Revela a devoção de Johannes Olsner à música. LINI: Mesmo depois de aposentado, Johannes Olsner seguiu trabalhando como músico. Na época da gravação do documentário, em 2003, lecionava no Conservatório Villa Lobos, em Osasco, e tocava em eventos e festas de casamento. Ele jamais considerou parar com suas atividades musicais. Faleceu aos 94 anos, em São Paulo, no ano de 2010. [Bloco 2: documentário “Santana em Santana”] LINI: Santana em Santana, de 2007, foi realizado a partir de um edital da Secretaria Municipal de Cultura que visava a realização do projeto “História dos bairros de São Paulo”. A ideia por trás da chamada pública era fomentar o mapeamento audiovisual da capital paulista, por meio de documentários sobre os bairros que a compõem. MAYRA: Ugo Giorgetti, com sua produtora, a SP Filmes de São Paulo, foi selecionado com o projeto de documentário que propunha explorar a história do seu bairro de origem: Santana, localizado na zona norte da capital paulista.   [Ruído de passagem de cena] LINI: Santana em Santana: de cara dá pra perceber que o título escolhido pelo cineasta é tanto uma provocação existencial e poética, quanto um convite à interpretação.  MAYRA: A gente se pergunta: como assim Santana EM Santana? Existe um bairro dentro do bairro original? Isso seria um erro de grafia ou uma pista? Ou apenas um jogo linguístico para atrair a atenção do espectador? [Ruído de passagem de cena] LINI: Pois é, eu questionei o Ugo Giorgetti sobre o que o título do filme pretende revelar. Sua resposta acabou mostrando as motivações por trás do projeto original. Além, é claro, de elucidar esse “mistério”… Ele disse: UGO GIORGETTI: Bom, eu fiz pelo seguinte, também eu quis fazer. Se Santana realmente correspondia à minha concepção que eu tinha dela. Por quê? Porque eu ia na casa do meu irmão… Eu vou sempre na casa do meu irmão. Toda a vez que eu ia na casa dele, às vezes eu ia à noite, às vezes de dia, eu tinha a impressão que não tinha sobrado pedra sobre pedra do meu bairro. Era uma coisa sórdida, vulgar, ridícula, todas as construções iguais, uma coisa cafajeste, não sobrou nada do cinema, nada de nada. Eu não falava com ele sobre isso porque ele morava lá, ele também não falava. Então ficou essa ideia que estava cimentada na minha cabeça. E, para a minha surpresa, quando eu fiz o documentário, eu vi que não só restavam coisas, mas que restava muita coisa. Uma pessoa como eu, que conhecia muito bem o bairro, eu andava para aquele bairro o tempo todo, você procurando os lugares que você ia, em geral, eu achava o lugar. Não só achava o lugar, como alguns lugares intactos. [Ruído de passagem de cena: um carro passando] MAYRA: A escolha da linguagem cinematográfica mostra também esse interesse pessoal pelo tema.  O principal recurso usado em Variações sobre Um Quarteto de Cordas se repete em Santana em Santana: o depoimento de um único artista, nesse caso, o próprio Giorgetti.  Em Santana em Santana Ugo não é apenas o cineasta, mas assume também a posição de narrador-apresentador. Na cena que abre a narrativa, você vê um ambiente despojado, o diretor atrás de uma escrivaninha olhando para a câmera e falando o seguinte texto: [trecho do documentário Santana em Santana] Ugo Giorgetti: Santana sob o ponto de vista da história, do fato histórico, não é relevante, não há nada na história de Santana, que eu saiba, que mereça um registro significativo. Santana é uma região que fica ao norte da cidade, dividida pelo Tietê. Isto é, o Tietê é a primeira fronteira dela, que separa Santana da cidade. E o início dela, é o início mais ou menos costumeiro dos bairros de São Paulo. Quer dizer, é uma grande quantidade de terra, ocupada por uma associação entre o Estado, a Igreja e ricos proprietários. . Evidentemente essas proporções foram se desfazendo depois, principalmente os ricos proprietários, e se tornou um bairro, conforme ele se configurou, a partir de 1942”. LINI: A fala do cineasta sugere que o documentário vai investigar a história do bairro Santana. No entanto, à medida que a narrativa avança, o que se vê na tela é um percurso afetivo que pouco tem a ver com acontecimentos verificáveis, dados e informações precisas. Santana em Santana revela o cineasta à procura de sua própria história… MAYRA: Em cena, a escola que frequentou na primeira juventude, o Mirante de Santana, o cinema de bairro que hoje é shopping center. LINI: Ouve só como também é revelador esse trecho da conversa que tive com ele: GIORGETTI – O filme que mais me impactou que eu vi lá em Santa Ana foi um filme de 1960. Eu tinha 18 anos. É um filme maravilhoso não pelo, digamos assim, valor cinematográfico, é pequeno o valor cinematográfico, mas porque era um filme chamado O Julgamento de Nuremberg; o casting era inacreditável: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Montgomery Clift. Lini: É um bom filme. Ugo: Pô!  MAYRA: Em entrevista, o diretor também expôs a importância do processo de produção do documentário, para o tema de que ele trata: GIORGETTI: Tem alguns planos nesse filme que eu gosto muito. Tem um plano que eu acho que é muito bom, que é um plano numa tempestade. Eu falei, se prepara que vai chover, se prepara que vai ter uma puta tempestade que ocorre nesse bairro. E, de repente, o que eu acho curioso é que, no meio da tempestade, o bairro ficou um bairro. Tudo ficou um pouco impreciso, como se o tempo tivesse passado, porém deixou como um quadro impressionista, contornos no meio daquela névoa da tempestade. Daí eu reconheci o bairro.  Daí eu falei, esse é Santana. Casas meio aparecendo, outras não. Uma coisa mais na sombra, outra coisa mais evidente. Ficou muito legal aquilo. Mas tem outras coisas. Tem o meu irmão voltando da feira.  Não sei se você viu. Ele está identificado como… Lini: Não, não. Ah, então eu não identifiquei. Acho que foi uma cena muito de passagem. É, o cara voltando da feira. O maestro Mauro Giorgetti com uma puta de uma cesta. Ele nem viu que ele estava lá.  MAYRA: Essa atitude artística de Giorgetti em Santana em Santana, de individualizar a narrativa, ao invés de elucidar fatos e discursar sobre eles, faz parte de um – digamos – estilo. Segundo o diretor, ele nunca trata realmente do tema que se anuncia; ele afirma que o seu mote é, abre aspas, “ter sempre uma coisa que vista a cidade (…) você pensa que tá vendo uma coisa, mas é outra”. LINI: Ou seja, de acordo com o diretor, no fundo ele está sempre tratando de São Paulo. [Pausa.] OK, como você ouviu lá no primeiro episódio, é preciso considerar a visão do artista sobre seu próprio trabalho. Mas sem tirar de foco aquilo que a obra, ela mesma, mostra.  No caso, o documentário – sobretudo – ativa a memória do diretor e a projeta no presente. Essa projeção oferece ao espectador uma realidade construída por um discurso que é uma espécie de auto-perscrutação dos primeiros anos de vida do artista em contato com a cidade. [Efeito sonoro de tráfego em cidade: buzinas, carros, ruídos de fundo]  LINI: Uma investigação a partir do subjetivo…que é também um documento…. [trecho do documentário Santana em Santana] Ugo Giorgetti: Por isso que eu tento fazer uma coisa que deixe, pelo menos, uma impressão do mundo que eu vivi. Eu não estou fazendo poesia, não estou fazendo filmes fora, cabeça, mensagem. Isso não é comigo. [Efeito sonoro de tráfego em cidade: buzinas, carros, ruídos de fundo.]  MAYRA: O roteiro desse episódio foi escrito pela Liniane Haag Brum, que também realizou as entrevistas. A revisão do roteiro foi feita por mim, Mayra Trinca, que também apresento o episódio. LINI: A pesquisa de pós-doutorado teve orientação do professor Carlos Vogt, e seu resultado é objeto de meu trabalho no âmbito do Programa Mídia Ciência, do Labjor, com supervisão da Simone Pallone. As reportagens referentes à divulgação de “Contra o apagamento, o cinema de não ficção de Ugo Giorgetti”, foram publicadas no dossiê “Ugo Giorgetti” da Revista ComCiência. A gente vai deixar o link e a ficha técnica dos documentários na descrição do episódio. LINI: A edição de áudio foi feita pela Carolaine Cabral e a vinheta do Oxigênio é do Elias Mendez.  MAYRA: Este episódio tem o apoio da Diretoria Executiva de Apoio e Permanência, da Unicamp e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, por meio de bolsas e também da Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp. MAYRA: Você encontra a gente no site oxigenio.comciencia.br, no Instagram e no Facebook, basta procurar por Oxigênio Podcast.  LINI: Se você gostou do conteúdo, compartilhe com seus amigos.

BBVA Aprendemos Juntos
Sandra Ferrer: "La pareja es la escuela de crecimiento personal por excelencia"

BBVA Aprendemos Juntos

Play Episode Listen Later Jan 7, 2026 68:37


Sandra Ferrer, psicóloga especializada en trauma y apego, creadora del Programa Mía, nos ayuda a sanar heridas tempranas y construir vínculos más sanos.

Noticentro
Programa médico especializado para personas de la diversidad sexual

Noticentro

Play Episode Listen Later Nov 9, 2025 1:45 Transcription Available


Dan de alta a dos menores heridos por explosión de pipa en IztapalapaDecomisan 11 kg de posible metanfetamina en Tlaxcala  Más información en nuestro Podcast

Noticentro
IMSS continuará con el programa “México te Abraza”

Noticentro

Play Episode Listen Later Nov 4, 2025 1:32 Transcription Available


Asilo a Betssy Chávez no es un acto inamistoso hacia Perú: SRE  Remesas cayeron 2.7%, ligan seis meses a la baja: Banxico  Seis millones de personas fueron afectadas por el huracán Melissa: ONU  Más información en nuestro podcas

Ràdio Balaguer
PROGRAMA Més enllà del nas 18-09-2025

Ràdio Balaguer

Play Episode Listen Later Sep 18, 2025 43:07


En l’apartat “ENTITAT DEL MES” parlarem amb ASPID”, que ens explicaran els projectes de l’entitat per aquest tercer trimestre de l’any. I en l’espai “INFOENTITATS” parlarem amb Mufanitawa i l’Associació Africana de la Noguera, que ens facilitaran tota la informació sobre la Firaentitats’25 organitzada per la Taula d’Entitats de Balaguer Com sempre amb la direcció i presentació a càrrec de l’Anna Solà, tècnica del Pla d’Acció Comunitària dels Serveis Socials de la Noguera, i la col•laboració de Miquel Aige.Descarregar àudio (43:07 min / 20 MB)

acci mb pla africana comunit noguera balaguer associaci taula programa m serveis socials religion & spirituality descarregar news & politics society & culture
Governo do Estado de São Paulo
Boletim: Programa móvel de mamografia cresce e atinge 49 cidades - 04.08.25

Governo do Estado de São Paulo

Play Episode Listen Later Aug 4, 2025 1:25


As Carretas da Mamografia do Programa Mulheres de Peito, iniciativa do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Estado da Saúde (SES), realizaram 28.745 exames de mamografia durante o primeiro semestre de 2025. O número representa um crescimento de 13 mil exames a mais em relação ao mesmo período de 2024, ou cerca de 83% de aumento.

Atareao con Linux
705 - Así se programa más rápido, Zed, el editor ultra veloz

Atareao con Linux

Play Episode Listen Later Jun 23, 2025 27:31


#zed es el editor ultra rápido con el que programar es una auténtica delicia, veloz, minimalista, configurable y extenibleLlevo algunos meses siguiendo la evolución de Zed. Lo instalé en su momento, lo probé, pero no me terminaba. Por algún tipo de razón no me terminaba de cuadrar. ¿Puede ser que tenga el síndrome de Estocolmo con Neovim?. Ni idea. Sea como fuere, el pasado miércoles, en el tópico de Editores del grupo de Telegram de atareao con Linux, Paco, se adelantó al propio correo de Zed, que me llegaría unos minutos mas tarde, y puso un enlace al blog de Zed donde decían que habían añadido una característica realmente interesante como es la depuración. Como te puedes imaginar, me falto tiempo para actualizar mi versión de Zed, y comenzar a darle una oportunidad mas a fondo a este fantástico editor de código, que está disponible para Linux y MacOS.Más información y enlaces en las notas del episodio

Sospechosos Habituales
705 - Así se programa más rápido, Zed, el editor ultra veloz

Sospechosos Habituales

Play Episode Listen Later Jun 23, 2025 27:31


#zed es el editor ultra rápido con el que programar es una auténtica delicia, veloz, minimalista, configurable y extenibleLlevo algunos meses siguiendo la evolución de Zed. Lo instalé en su momento, lo probé, pero no me terminaba. Por algún tipo de razón no me terminaba de cuadrar. ¿Puede ser que tenga el síndrome de Estocolmo con Neovim?. Ni idea. Sea como fuere, el pasado miércoles, en el tópico de Editores del grupo de Telegram de atareao con Linux, Paco, se adelantó al propio correo de Zed, que me llegaría unos minutos mas tarde, y puso un enlace al blog de Zed donde decían que habían añadido una característica realmente interesante como es la depuración. Como te puedes imaginar, me falto tiempo para actualizar mi versión de Zed, y comenzar a darle una oportunidad mas a fondo a este fantástico editor de código, que está disponible para Linux y MacOS.Más información y enlaces en las notas del episodio

Noticentro
Programa “México te abraza” oferta más de 70 mil vacantes

Noticentro

Play Episode Listen Later Jun 16, 2025 1:30


Inician investigaciones por el homicidio de la presidenta municipal de San Mateo PiñasInicia la jornada de reforestación “Verde Verde Coahuila”Trump asegura que conseguirá "pronto" que Irán e Israel firmen la paz gracias a su "intervención"Más información en nuestro Podcast

Los Valores del Deporte - The SPORTi SHOW - por Miguel Portillo
#100 ESPECIAL PROGRAMA 100, TODA LA VERDAD FORMULA1 EL PROGRAMA MÁS PERSONAL PARA VOSOTROS 100 DIRECTOS Y ÚLTIMA HORA MADRID 2026

Los Valores del Deporte - The SPORTi SHOW - por Miguel Portillo

Play Episode Listen Later Apr 29, 2025 52:38


100 DIRECTOS CON TODOS VOSOTROS Y AQUÍ VA UNO ESPECIAL POR TODOS LOS QUE HEMOS VIVIDO, EL MÁS PERSONAL Y EL MÁS DIRECTO. ANÉCDOTAS, RECOMENDACIONES Y VIVENCIAS, POR 100 MÁS! AH Y CÓMO ESTÁ EL MUNDIAL DE F1 ANTES DE MIAMI! NOS VEMOS ESTA SEMANA!

Estación GNG - Guillermo Nieto
Disfruta con el programa más loco y podcast musical más loco del panorama español .... Estación GNG podcast musical

Estación GNG - Guillermo Nieto

Play Episode Listen Later Apr 10, 2025 79:49


Disfruta con el programa más loco y podcast musical más loco del panorama español .... Estación GNG podcast musical . GUILLERMO NIETO Me gusta la música. Aunque hago muchas otras cosas en mi día a día para poder vivir, la música es una de las partes fundamentales de mi vida. La música me traslada a ese mundo donde vivir es algo más que respirar. Me lleva a un planeta en donde no existen las guerras, el odio, la envidia, el dolor, la enfermedad, el menosprecio y la desigualdad. Aunque en realidad sé que no todo es así... La música es una ilusión que me lleva y me trae. Me vuelve niño antes de envejecer y cada mañana me pongo ante el micrófono sabiendo que vuelvo a ser niño por unos minutos Cada dia creo en menos certezas, sólo mi Dios, mi fe, el amor a mis semejantes y a quienes no lo son. No soy maestro de nada ni me creo más que nadie. Maestro sólo hay uno y nos mira desde el cielo. No soy dueño de nada; toma y deja ir; coge y suelta, recibe y dona, ama y perdona. Este programa de radio lo hago pensando en los buenos seres humanos que viven amando, pero especialmente lo hago pensando en aquéllos menos amados por los demás. Los que sufren la incomprensión, los refugiados de guerra, los que viven rodeados de violencia, los que padecen enfermedades, los que tienen el alma herida, los que han perdido la esperanza, los que sufren por desamor, los que han perdido algún ser querido, los que han perdido la alegría de vivir. Sentir que aunque sea por un instante puedo llevar una sonrisa a una persona me reconforta. Y más si es a través del instrumento más maravilloso: la música Este programa de radio lo hago pensando en los que aman la paz y los que aman la música. Y por ello grito junto a todos vosotros: ¡Paz y música! Guillermo

LaBerrea89
10x31 - El programa más gracioso de la temporada (09/04/2025)

LaBerrea89

Play Episode Listen Later Apr 9, 2025


Hoy, miércoles, nos hemos reído muchísimo. De verdad, hacedme caso, poned el programa: hablamos de caca de forma recurrente, de dinosaurios, del tirón que le ha dado a Jorge, de los famosos de Hollywood, de la resurrección del lobo terrible y de poco más porque nos hemos reído todo el rato.

Ràdio Balaguer
Més enllà del nas 20-03-2025

Ràdio Balaguer

Play Episode Listen Later Mar 19, 2025 56:27


Al programa “Més enllà del nas” presentarem l’entitat Ziga-Zaga. Parlarem també amb l’Associació d’amics del CFA Balaguer i amb TEA Ponent.Descarregar àudio (56:27 min / 26 MB)

mb associaci programa m parlarem religion & spirituality descarregar news & politics society & culture
Central de Jornalismo Liberdade
Nova fase de confirmações para o Programa Mães de Pernambuco segue aberta até 24 de março

Central de Jornalismo Liberdade

Play Episode Listen Later Mar 8, 2025 1:27


Arte, Cultura e Sociedade
Raça Odiada (Parte 1) Entrevista à Rádio Comunitária 97,3 FM

Arte, Cultura e Sociedade

Play Episode Listen Later Mar 8, 2025 30:58


Entrevista da banda Raça Odiada ao Programa Máquina Total e a Invasão MP3 no dia 27 de outubro de 2003Parte 1

Arte, Cultura e Sociedade
Raça Odiada (Parte 2) Entrevista à Radio Comunitária 97,3 FM

Arte, Cultura e Sociedade

Play Episode Listen Later Mar 8, 2025 31:00


Entrevista da banda Raça Odiada ao Programa Máquina Total e Invasão MP3, no dia 27 de outubro de 2003.Parte 2

Voces de Ferrol - RadioVoz
El programa Más Empleo de COGAMI cerró 2024 atendiendo a 84 persoas en Ferrol,con 25 inserciones en el mercado laboral

Voces de Ferrol - RadioVoz

Play Episode Listen Later Jan 13, 2025 15:40


La Confederación Galega de Personas con Discapacidad (COGAMI) finalizó con éxito a primera fase del programa Más Empleo, que este año atendió a 84 personas en Ferrol, alcanzando 25 inserciones en el comprado laboral. Este proyecto está financiado por la Fundación "lana Caja" y el Fondo Social Europeo Plus y ofrece formación personalizada y apoyo a la empleabilidad.

Central de Jornalismo Liberdade
PROGRAMA MÃES DE PERNAMBUCO OFERECE MAIS DE OITO MIL VAGAS ATÉ DIA 19 DE JANEIRO

Central de Jornalismo Liberdade

Play Episode Listen Later Jan 8, 2025 1:34


Podcast Caminos de Consciencia
Especial Fin de Año 2024

Podcast Caminos de Consciencia

Play Episode Listen Later Dec 31, 2024 20:57


Especial Fin de año 2024 ¡Feliz año! Música: Frozen Silence: -"Joyful Piano" José Manuel González Núñez: -"Argentum Lacrimae" Maryna: -"Uplifting Emotion Background" http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0/ Sezen Aksu & Sertab Erener: "Yavrucanım İyilikle Büyüsün" Películas y Documentales: "2001: Una odisea del espacio" (Stanley Kubrick, 1968) "Don Quijote de la Mancha" (1979, Cruz Delgado) Dr. Jiménez del Oso, Programa "Más allá" Sakuhachi -Naruto https://www.youtube.com/watch?v=4pSJ8DDwS38 Emilio Carrillo: https://www.youtube.com/watch?v=a4FcQoLgkn4&ab_channel=Hispanoslibresyunidos

Central de Jornalismo Liberdade
Programa Mães de Pernambuco recebe confirmação para novo ciclo até quinta-feira

Central de Jornalismo Liberdade

Play Episode Listen Later Dec 16, 2024 1:29


Noticentro
CDMX tendrá el programa más grande de vivienda popular

Noticentro

Play Episode Listen Later Dec 5, 2024 1:37


Ejecutan a un hombre en restaurante de Polanco Caravana migrante se detiene en Escuintla Demanda Washington a Amazon Más información en nuestro Podcast

Central de Jornalismo Liberdade
Programa Mães de Pernambuco completa seis meses e abre inscrições para novas vagas

Central de Jornalismo Liberdade

Play Episode Listen Later Nov 26, 2024 1:42


AMOR ES LEONES
El programa más difícil

AMOR ES LEONES

Play Episode Listen Later Nov 21, 2024 39:19


El equipo de la Universidad de Guadalajara fue eliminado en las semifinales del Apertura 2024 de la Liga de Expansión MX y en este episodio analizamos los matices de la eliminatoria en la que terminaron empatando en el marcador global, pero que la posición en la Tabla General terminó dándole el pase a la Final al Tapatío

Central de Jornalismo Liberdade
Programa Mães de Pernambuco realiza até o dia 18 de novembro inscrições para mais de 7 mil vagas

Central de Jornalismo Liberdade

Play Episode Listen Later Nov 5, 2024 1:50


Noticentro
Arranca programa Médicas y Médicos del Bienestar en BCS

Noticentro

Play Episode Listen Later Oct 26, 2024 1:20


Autoridades piden no hacer actividades al aire libre ante caída de ceniza del Popocatépetl Sábado 26 de octubre cierra la consulta pública del Proyecto del Tren México-Toluca “El Insurgente”Israel presentó a los equipos de mediación propuesta de tregua en la Franja de GazaMás información en nuestro podcast

Paquetes
Paquetes 5x06 |Nuestro programa más difícil

Paquetes

Play Episode Listen Later Sep 27, 2024 71:08


Nuestro programa más difícil. Y si queréis haceros con Viejas Promesas: https://amzn.eu/d/hIflfuj Penalti Pop: Un recorrido divertido y nostálgico por aquellos temazos que mantienen viva nuestra memoria futbolera: https://amzn.eu/d/iLxLZTJ SUSCRÍBETE AL BALÓN DE ORO DE RAÚL: https://youtube.com/@ElBalondeOrodeRaul

Paquetes
Paquetes 5x06 |Nuestro programa más difícil

Paquetes

Play Episode Listen Later Sep 27, 2024 71:08


Nuestro programa más difícil. Y si queréis haceros con Viejas Promesas: https://amzn.eu/d/hIflfuj Penalti Pop: Un recorrido divertido y nostálgico por aquellos temazos que mantienen viva nuestra memoria futbolera: https://amzn.eu/d/iLxLZTJ SUSCRÍBETE AL BALÓN DE ORO DE RAÚL: https://youtube.com/@ElBalondeOrodeRaul

GAFE423
TUVE el PROGRAMA MÁS VISTO de TELEVISA en el MUNDIAL y me CORRIERON | LALO VILLAR ep. #161

GAFE423

Play Episode Listen Later Sep 9, 2024 71:58


¡Bienvenido a la cara oculta! Hoy, Lalo Villar, el famoso catador de comida de todo México, nos deleita con una plataforma muy interesante de la comida favorita y cómo es que varía la comida dependiendo el estado de México en que te encuentres. Además de hablarnos de sus comienzos como creador de contenido, enfatiza en la forma que empezó a acercarse a restaurantes, puestos y fondas para poder hacer una review del lugar y de su comida, y aunque no siempre fue lo que esperaba por parte de los dueños de los lugares. En el 2022, Lalo Villar fue invitado especial en Televisa para realizar contenido en Qatar referente a la cultura gastronómica del país anfitrión del mundial de fútbol. Después de haber sido el programa con más respuesta en televisión nacional, no obtuvo seguimiento para los juegos olímpicos y el mundial a raíz de que el nuevo productor no quería ideas del anterior productor del proyecto. _________________________¡Recarga y ahorra un 50%! Haz clic aquí y obtén tu código de descuento para enviar recargas y tarjetas de regalo al extranjero con Ding. ¡Aprovecha esta oferta exclusiva!_________________________Distribuido por Genuina Media

EL PASQUÍN
El Pasquín 345. El Pasquín el programa más escuchado de México, según Massive caller.

EL PASQUÍN

Play Episode Listen Later May 3, 2024 296:11


EN VIVO!!! EL PASQUÍN 345. El obispo no estaba muerto, andaba de pervertido, el calor no parará, el informe sobre la pandemia, el hermano del mencho, el postdebate del postdebate y mucho más en el único noticiero con el santo padrecito. Únete al Patreon del pasquín: https://patreon.com/elpasquin EL SR. SANTO: https://twitter.com/elsrsanto EL SR. BÚHO: https://twitter.com/mr_buho - https://www.facebook.com/mrbuho.pasquin/ iVoox https://go.ivoox.com/sq/2019850

Podcast de La Hora de Walter
01 24-04-24 LHDW Nunca nos ha ido mejor en el programa, más oyentes cada día. Mi anécdota con una monja de las Clarisas

Podcast de La Hora de Walter

Play Episode Listen Later Apr 24, 2024 18:30


01 24-04-24 LHDW Nunca nos ha ido mejor en el programa, más oyentes cada día. Mi anécdota con una monja de las Clarisas. Las diferentes vías de comunicación

Noticentro
Ponen en marcha el programa "Médico en tu Casa" en Neza

Noticentro

Play Episode Listen Later Jan 16, 2024 1:15


-Se mantendrá hasta el 31 de enero la donación de prótesis de mama en Veracruz -Alcaldía Xochimilco suspenderá la venta de alcohol-Centros de votación abren sus puertas en Iowa-Más información en nuestro podcast

Medicina em Debate
O que fazer com o Médicos pelo Brasil?

Medicina em Debate

Play Episode Listen Later Feb 2, 2023 77:44


Desta vez, fizemos um bate papo sobre os rumos do Programa Médicos pelo Brasil. Considerando que o Ministério da Saúde tem afirmado que uma de suas prioridades é a retomada do Programa Mais Médicos, a pergunta que fica é: o que fazer com este programa? Iniciado efetivamente no início de 2022 com o objetivo de substituir o Mais Médicos, o programa vem patinando em todos os seus objetivos. Apesar disso, conta atualmente com alguns milhares de médicos atuando por todo o Brasil.Participaram deste episódio Aristóteles Cardona Júnior e Marco Túlio Pereira, membros do podcast, além dos seguintes convidados:Marjorie Lobo, Médica de Família e Comunidade e tutora Clínica do Programa Médicos pelo Brasil em Salvador-BAArthur Alves, Médico de Família e Comunidade e tutor clínico do Programa Médicos pelo Brasil em Senhor do Bonfim-BARodrigo Alves Rodrigues, Médico de Família e Comunidade e Apoiador Pedagógico da Residência de MFC da SMS em Salvador-BAVinhetas: Rubens CavalcantiSiga o Medicina em Debate nas redes sociais: Twitter, Instagram e Facebook.

Ciro Gómez Leyva por la Mañana
México-Argentina fue el programa más visto en la historia de la TV mexicana: Javier Tejado

Ciro Gómez Leyva por la Mañana

Play Episode Listen Later Nov 28, 2022 7:58


El analista de SDP noticias, Javier Tejado, explica que el partido del pasado 26 de noviembre entre México y Argentina rompió récord y se convirtió en el programa más visto en la historia de la televisión mexicana. Más de 40.5 millones de personas vieron el partido, lo cual superó todas las expectativas de televisoras, plataformas de streaming y canales de pago. Tejado asegura que es difícil que se repitan estos números en el próximo partido contra Arabia Saudita.

Ministerios 710
261 - 7 Símbolos Antiguos de la Atlántida - Parte 2

Ministerios 710

Play Episode Listen Later Jun 23, 2022 51:14


7 Símbolos Antiguo de la Atlántida Parte 2 No tengo la verdad absoluta. Por favor verifica la información con tu investigación para que saques tus propias conclusiones. A ti te toca escoger qué pensar. LUNES en Vivo 7 pm - Centro México ID ZOOM: 858 5992 4727 Código de acceso: Amigos710 CONTACTO: http://bit.ly/3k0Srrk Entrenamiento Evolutivo para el Alma https://bit.ly/3z6VvMs DONATIVOS https://bit.ly/38DSPZp Telegram - GRUPO “Amigos 710” t.me/amigos710 Telegram - CANAL “Ernesto Rosas Coach” t.me/eard22 CURSOS BIBLICOS ESPECIALES https://bit.ly/2Zy1NCq BIBLIOTECA VIRTUAL https://bit.ly/2DEmB2y BIBLIOTECA VIRTUAL 2 https://bit.ly/3kaYPLR LA NUEVA ECONOMÍA https://bit.ly/3akRVzQ PODCAST (audios) Programa: La Biblia sin Censura https://bit.ly/30ns31D PODCAST (audios) Programa: Más presente más conectado https://mx.ivoox.com/es/s_p2_890047_1.html Ministerios710.blogspot.com Facebook.com/amorporlaverdad

Ministerios 710
260 - 7 símbolos de la Atlántida - I

Ministerios 710

Play Episode Listen Later Jun 15, 2022 29:25


7 símbolos de la Atlántida - I No tengo la verdad absoluta. Por favor verifica la información con tu investigación para que saques tus propias conclusiones. A ti te toca escoger qué pensar CONTACTO: http://bit.ly/3k0Srrk Entrenamiento Evolutivo para el Alma https://bit.ly/3z6VvMs DONATIVOS https://bit.ly/38DSPZp Telegram - GRUPO “Amigos 710” t.me/amigos710 Telegram - CANAL “Ernesto Rosas Coach” t.me/eard22 CURSOS BIBLICOS ESPECIALES https://bit.ly/2Zy1NCq BIBLIOTECA VIRTUAL https://bit.ly/2DEmB2y BIBLIOTECA VIRTUAL 2 https://bit.ly/3kaYPLR LA NUEVA ECONOMÍA https://bit.ly/3akRVzQ PODCAST (audios) Programa: La Biblia sin Censura https://bit.ly/30ns31D PODCAST (audios) Programa: Más presente más conectado https://mx.ivoox.com/es/s_p2_890047_1.html Ministerios710.blogspot.com Facebook.com/amorporlaverdad

Ministerios 710
259 - El significado de Yeshua es Elohim

Ministerios 710

Play Episode Listen Later May 27, 2022 22:51


El significado de Yeshua es Elohim No tengo la verdad absoluta. Ahora es tu turno, por favor verifica la información con tu investigación para que saques tus propias conclusiones. CONTACTO: http://bit.ly/3k0Srrk Entrenamiento Evolutivo http://bit.ly/3bzG3ec DONATIVOS https://bit.ly/38DSPZp Telegram - GRUPO “Amigos 710” t.me/amigos710 Telegram - CANAL “Ernesto Rosas Coach” t.me/eard22 CURSOS BIBLICOS ESPECIALES https://bit.ly/2Zy1NCq BIBLIOTECA VIRTUAL https://bit.ly/2DEmB2y BIBLIOTECA VIRTUAL 2 https://bit.ly/3kaYPLR LA NUEVA ECONOMÍA https://bit.ly/3akRVzQ PODCAST (audios) Programa: La Biblia sin Censura https://bit.ly/30ns31D PODCAST (audios) Programa: Más presente más conectado https://mx.ivoox.com/es/s_p2_890047_1.html Ministerios710.blogspot.com Facebook.com/amorporlaverdad

100 Yardas
Los Cuatro Jinetes | Predicciones locas: BIENVENIDOS al programa más divertido del año

100 Yardas

Play Episode Listen Later May 13, 2022 44:29


-Predicciones locas de la temporada 22/23: el programa más divertido del año- Top Ten NFC- Jornada 1 brutal en la NFL

100 Yardas
Los Cuatro Jinetes | Predicciones locas: BIENVENIDOS al programa más divertido del año

100 Yardas

Play Episode Listen Later May 13, 2022 44:29


-Predicciones locas de la temporada 22/23: el programa más divertido del año- Top Ten NFC- Jornada 1 brutal en la NFL

La Vida Moderna
La Vida Moderna | 8x95 | Programa más corto que el de ayer

La Vida Moderna

Play Episode Listen Later May 11, 2022 31:08


LVM 8x95 | Siempre (no) cumplimos con nuestra palabra.

Humor en la Cadena SER
La Vida Moderna | 8x95 | Programa más corto que el de ayer

Humor en la Cadena SER

Play Episode Listen Later May 11, 2022 31:08


LVM 8x95 | Siempre (no) cumplimos con nuestra palabra.

Humor en la Cadena SER
La Vida Moderna | 8x95 | Programa más corto que el de ayer

Humor en la Cadena SER

Play Episode Listen Later May 11, 2022 31:08


LVM 8x95 | Siempre (no) cumplimos con nuestra palabra.

Luis Palau Responde
Más sobre la viudez 2 / 2

Luis Palau Responde

Play Episode Listen Later Mar 3, 2022 4:31


Programa Más sobre la viudez 2 / 2 de Luis Palau Responde

El Emprendedor Espiritual
59 - INVITADO ESPECIAL: Dr. Alfonso Ruiz Soto - Creador del programa más completo en el mundo de desarrollo personal

El Emprendedor Espiritual

Play Episode Listen Later Jan 22, 2021 118:43


En este episodio tenemos a un invitado de LUJO. El Dr. Alfonso Ruiz Soto creador de uno de los mejores programas de desarrollo personal en el mundo. Tuvimos la enorme suerte de poder tenerlo en el podcast. Es el podcast más largo que hemos grabado pero vale la pena escuchar hasta el último minuto. ¡NO TE LO PUEDES PERDER! Te dejo los links donde puedes adquirir los cursos de Semiología de La Vida Cotidiana y sus links a redes sociales. https://semiologia.online/catalog https://semiologia.net/ https://www.facebook.com/semiologia https://www.instagram.com/semiologiavidacotidiana/ Te dejamos la liga para que agendes el diagnóstico de tu empresa con uno de nuestros asesores. Como lo comentamos en el Podcast este diagnóstico tiene un precio regular de $8,500 (USD 400 aprox.) pero por tiempo limitado vamos a ofrecer este diagnóstico GRATIS a los primeros que agenden. Tenemos espacios limitados por ser gratuito. A continuación, te damos la liga para que agendes: https://helpicoaching.com/forma-diagnostico-podcast-el-emprendedor-espiritual/ Si te está gustando el podcast te pido tu apoyo para suscribirte y dejar un buen review de (5 estrellitas), servirían mucho para que más emprendedores dueños de PYME como tú puedan tener acceso. Sígueme en redes sociales para que me hagas tus comentarios sobre los episodios ¿qué te gustó?, ¿qué no te gustó?, ¿qué te llamó la atención?, para seguir ayudándote y seguir mejorando el podcast. INSTAGRAM: https://www.instagram.com/elemprendedorespiritual/ FACEBOOK: https://www.facebook.com/elemprendedorespiritual/ TWITTER: https://twitter.com/elemprendedore1 Te comparto además el link que mencionamos en el episodio de nuestro patrocinador helpi COACHING para que puedas bajar la guía especializada en PYMEs donde citamos estos principios que platico y ¡mucho más!: www.helpicoaching.com/podcast/emprendedorespiritual Aprovecha toda la ayuda que podemos darte en helpi COACHING: a. Con nuestro programa helpi COACHING PREMIUM que incluye el acompañamiento de un Coach. Es el mejor momento para tener ayuda externa calificada, que te ayude a enfocarte y tener una visión de fuera y más objetiva sobre tu empresa. Si estas interesado mándanos un mail a ayuda@helpicoaching.com b. Con nuestro programa On-line. Si crees que no estas listo para nuestro programa PREMIUM con el acompañamiento con un Coach, tenemos nuestro programa On-line. Si estas interesado mándanos un mail a ayuda@helpicoaching.com c. Si crees que todavía no estas listo para tomar alguno de nuestros dos programas podemos ayudarte de muchas formas: i. Con nuestros Master Class virtuales gratis. Por este medio y en Facebook podrás enterarte de los temas, días y horas. Regularmente hacemos entre 2 y 3 Master Class al mes. ii. Con nuestros Facebook Live gratis. https://www.facebook.com/pg/helpicoaching iii. Bajando nuestra guía especializada gratuita de nuestra página de Internet que contiene principios de todas las metodologías que manejamos en nuestro programa. La puedes bajar aquí: www.helpicoaching.com iv. Con nuestro grupo de Facebook de acceso a nuestros Coaches gratis. Te dejamos la liga: https://www.facebook.com/groups/helpicoachingcoaches/ v. Con el podcast de El Emprendedor Espiritual que hay un episodio cada semana gratis. Búscalo en tu plataforma favorita: itunes, Spotify, etc. • iTunes: https://podcasts.apple.com/mx/podcast/el-emprendedor-espiritual/id1489045430 • Spotify: https://open.spotify.com/show/6CUsvx00Qmx5a0DpIQroUr vi. Con nuestro blog quincenal que enviamos por mail y publicamos en nuestra página de Internet: https://helpicoaching.com/blog/ En todos los formatos mencionados anteriormente compartimos herramientas exclusivas de nuestro programa que incluye muchas de las mejores herramientas y metodologías especializadas en PYMEs a nivel mundial como EMyth (de Michael E. Gerber), Pumpkin Plan (de Mike Michalowicz), Profit First de Mike Michalowicz), Duct Tape Marketing (de Jhon Hantsch), etc. de diferentes áreas (operaciones, finanzas, Capital Humano, Marketing, Ventas, etc.). Aprovecha estas herramientas. Mantente positivo y busca ayuda. Un abrazo.

Transforming Knowledge
Entrevista a la Dra. María Elena Gómez Parra: PETal y Programa Máster Erasmus Mundus

Transforming Knowledge

Play Episode Listen Later Sep 16, 2020 44:26


Desde Córdoba, España tuve el honor de entrevistar a la Dra. María Elena Gómez Parra. María Elena es Profesora Titular de Universidad y está adscrita al Departamento de Filologías Inglesa y Alemana de la Universidad de Córdoba. Su área de trabajo es la educación bilingüe e intercultural. Es la Directora del Máster Erasmus Mundus titulado ‘Play, Education, Toys and Languages (PETaL)'. En este episodio conversamos sobre PETaL, de dónde surge el Programa Erasmus Mundus, en que se basa su diseño, sobre los estudiantes, Profesores, entre otros. María Elena más que agradecida con esta gran oportunidad que me brindaste. Quedé encantada con este Máster y todo las oportunidades que ofrece. Fue un verdadero placer. Espero podamos compartir en Córdoba pronto. Mucho éxito y bendiciones en abundancia. Para contactar a María Elena su email es: elena.gomez@uco.es Te invito a que compartas este episodio con todos tus amigos y familiares. Espero puedas comentar, escribir un Review y suscribirte a Transforming Knowledge. ¡Sígueme en las redes sociales! Facebook, Instagram y Twitter @barbarafloresei, mi página web: www.barbaraflores.info, YouTube: Barbara FloresEI y en Linkedln Dr. Barbara Flores-Caballero.

La Vida Moderna
La Vida Moderna | Programa más gracioso que el de ayer

La Vida Moderna

Play Episode Listen Later Jan 16, 2020 39:39