Trip FM

Follow Trip FM
Share on
Copy link to clipboard

Há 30 anos, Paulo Lima faz entrevistas com as personalidades mais interessantes do país

Trip FM


    • Dec 24, 2021 LATEST EPISODE
    • weekly NEW EPISODES
    • 746 EPISODES


    Search for episodes from Trip FM with a specific topic:

    Latest episodes from Trip FM

    Alice Braga: Não se julga o ator por suas redes sociais

    Play Episode Listen Later Dec 24, 2021

    A atriz que estreou dois blockbusters em 2021 fala sobre vida em Hollywood, política e streaming Há vinte anos Alice Braga saía a pé de seu colégio para encontrar o diretor Fernando Meirelles em sua produtora, a 02 Filmes, e conversar sobre um possível papel no filme Cidade de Deus, hoje considerado por muitos o melhor longa-metragem já feito no Brasil. De lá até aqui, a indústria mudou, com portas cada vez mais estreitas para a entrada de atores desconhecidos. "Começaram a pedir número de seguidores em teste de elenco. Isso é um absurdo; não deveria ser medida para nada. Como vamos empregar pessoas incríveis que são desconhecidas?", questiona a atriz. A chance que ela recebeu de Meirelles a fez conquistar muito rapidamente, como nenhuma atriz brasileira antes dela, um espaço cativo em Hollywood.  Somente em 2021 Alice estreou dois blockbusters – Novos Mutantes e Esquadrão Suicida –, além da última temporada da série Rainha do Sul. No dia 6 de janeiro, a todos esses trabalhos ela soma a estreia do nacional “Eduardo e Mônica", baseado na música do Legião Urbana. Mas nada, ela promete, a faz esquecer da menina hippie, meio envergonhada, que saiu de São Paulo. Em um bate-papo com o Trip FM, a atriz falou ainda sobre fama, política e streaming. Confira no play abaixo ou leia um trecho a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/12/61c0e0c1270a8/alice-braga-atriz-tripfm-mh.jpg; CREDITS=undefined; LEGEND=undefined; ALT_TEXT=undefined] Trip. Deve ser difícil hoje em dia estar no mundo do entretenimento ao mesmo tempo em que você quer ter uma vida. Parece que algo que você equilibra bem. Alice Braga. Eu sempre fui mais reservada. Era tímida, mas tinha um lado que era ativado para poder me comunicar com as pessoas. Ao passo em que fui ganhando mais reconhecimento, de uma forma natural, comecei a querer proteger meus personagens, porque quanto mais a gente sabe da vida do ator, do que ele faz, menos você compra aquela pessoa. Existe, sim, essa demanda da mídia social. É um problema para vários atores porque começaram a pedir número de seguidores em teste de elenco. Isso é um absurdo; não deveria ser medida para nada. Como vamos empregar atores incríveis que são desconhecidos? Você consegue imaginar onde vamos estar daqui a dez anos? Acha que vamos continuar a andar para trás como nos últimos três? Eu tenho um lado que acha o Brasil foda, mas meu lado realista sabe que as coisas que esse governo fez vão ter consequências por muito tempo. Em 2022 a gente não só precisa mudar quem está na presidência, mas precisamos avaliar quem está em nosso Congresso. Meu desejo é que a gente use esse tempo duro para gerar uma transformação potente na desigualdade social e que a gente proteja nossas florestas. Construir a sua carreira em cima de outras bases, fora da Globo, foi uma decisão consciente? Quando adolescente, cresci querendo fazer Globo, mas tive algumas oportunidades mágicas no cinema. Foi um caminho que as coisas tomaram que devo muito aos meus pais, que me mantiveram no colégio e fizeram questão que eu vivesse as fases da vida. Você vê que pessoas estão saindo de contratos com a Globo para ficarem mais livres. Essa pluralidade de meios de publicação é muito importante para dar força para a nossa indústria, principalmente nesse momento em que o governo ataca a cultura.

    Fabrício Carpinejar: Felicidade é pausa entre tristezas

    Play Episode Listen Later Dec 17, 2021

    Poeta explica razão dos óculos amarelos, sua marca registrada e fala sobre dinheiro, igualdade e morte Gaúcho de Caxias do Sul, filho de escritores e uma das referências culturais deste país, o poeta Fabrício Carpinejar, apenas em 2021, adicionou três lançamentos a uma lista que agora tem 48 livros publicados. A produção acelerada não é novidade – o que mudou foram os temas. Acostumado a tratar de relacionamentos, ele foi empurrado pela pandemia a enfrentar, como muitos de nós, a ideia da morte. "A felicidade é uma trégua entre duas tristezas. Se você força a permanência da felicidade, você já está ficando triste", conta. Carpinejar se formou em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente, é colunista dos jornais Zero Hora e O Tempo, além de ser comentarista do programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo. Na televisão, também comandou entre 2012 e 2016 o talkshow A Máquina, na TV Gazeta, e, no teatro, apresenta o stand-up O Amor não é para os Fracos. Na conversa com o Trip FM, o cronista ainda explicou a razão dos óculos amarelos, sua marca registrada, falou sobre dinheiro, igualdade de gênero e defendeu a escrita como uma forma de cura. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/12/61bcf7284717e/fabricio-carpinejar-escritor-poeta-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Vicente Carpinejar; LEGEND=Fabrício Carpinejar; ALT_TEXT=Fabrício Carpinejar entre 2 balanços vazios em movimento] Trip. Eu sei que para alguns motoristas, por exemplo, os óculos de lente amarela ajudam com os reflexos. Os seus são funcionais ou apenas um adereço que você gosta de usar?  Fabrício Carpinejar. Tem essa parada de ajudar nos reflexos, mas tem uma parada de funcionar como uma compensação. Eu não tenho sobrancelhas; é um tracinho, esqueceram de colocar. Quem não tem sobrancelhas não é confiável, ela é o marcador de página do rosto. O que eu fiz? Promovi meus óculos a sobrancelha. Entre outras coisas, nesse período em que a gente ficou sem se falar, você fez um curso de cura pela escrita. Qual era a intenção disso? O meu papel era trazer essa chama de volta, a faísca da democratização da escrita, da escrita como extensão terapêutica, fora do reduto intelectual. Existe uma elitização da escrita: parece que só o escritor deve usá-la. Escrever à mão é uma forma de se conectar profundamente consigo. É uma forma de combater a ansiedade, de revisar os seus pensamentos antes de tomar uma decisão. Todo mundo deveria ter um diário. Você já me falou que pega mal ser culto nesse país. A impressão é que isso piorou com esse governo. Houve uma legitimação da estupidez? Você sente essa piora? Pioramos. Hoje você xinga para depois conhecer. Há um entendimento de que o intelectual é um vadio; um mendigo no semáforo da Lei Rouanet. Há uma crença de que o intelectual vai enriquecer com o dinheiro público. Eu vejo o estado lamentável das nossas bibliotecas, elas têm uma defasagem de vinte anos para receber um livro. A cultura dá a cidade para o leitor. A vida cultural é também um acesso a vida política.

    Deborah Colker: Sempre haverá uma cura

    Play Episode Listen Later Dec 10, 2021

    Bailarina e coreógrafa fala de religião, grana, inclusão, ciência e mais "O vestuário do bailarino é a dor", conta a coreógrafa e diretora de espetáculos Deborah Colker. O esforço físico, os ensaios à exaustão, os calos causados pela sapatilha de ponta nunca foram estranhos ao universo da dançarina, mas nenhuma mácula física conseguiu preparar Deborah para o que ela enfrentaria com a nascimento de Theo. Diagnosticado com epidermólise bolhosa, uma doença genética sem cura, ele se tornou ao mesmo tempo uma felicidade enorme para a família, como o primeiro neto, e um meio para um crescimento espiritual. No início, os sentimentos dominantes foram de indignação e raiva, mas Deborah encontrou maneiras de remendar a alma. Buscou apoio tanto na fé quanto na ciência e hoje faz turnê com seu mais novo espetáculo, que reflete essa luta e não por acaso foi intitulado “Cura”. "A cura sempre existe. Se não é possível curar no plano físico, ela vem no plano intelectual, emocional ou espiritual", diz. A primeira mulher a dirigir o Cirque de Soleil no mundo e uma das peças mais importantes na criação da abertura dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em 2016, Deborah Colker bateu um papo com o Trip FM para falar ainda de religião, grana, inclusão, ciência e mais. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/12/61b3808baa9bd/deborah-colker-coreografa-bailarina-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Deborah Colker; ALT_TEXT=Deborah Colker] Trip. Seu novo espetáculo faz uma mistura de candomblé com judaísmo, uma fusão não vista comumente. Você também me falou um pouco da sua mãe, uma verdadeira yiddishe mama. Como é ser judia hoje em dia? Deborah Colker. Eu perguntei um dia para a minha mãe o que era ser judeu. Ela respondeu que ser judeu é gostar de ser judeu. A resposta me deu um alívio. Eu gosto muito e me reconheço judia em vários momentos. Eu tenho um compromisso com a vida que vem da educação judaica. Sempre fui muito estimulada a me aproximar das artes, meus pais acreditavam que a arte é transformadora. O meu lado judeu passa muito mais pela maneira de pensar do que pela religiosidade. Você tem uma conjunção de características muito especial, algo que talvez torne o seu trabalho o que ele é. E dentro desses atributos existe uma característica que, por si só, abriga outras milhares, que é ser carioca. O que é ser carioca? Ser carioca é gostar da rua. Eu adoro a rua. Eu sou uma artista internacional, mas é impressionante como sou carioca. Já tive todas as oportunidades de ficar fora, mas eu adoro a esquina da minha casa, eu adoro beber a uma cachacinha lá. Eu gosto desse leque que o Rio de Janeiro tem: essa cidade tão misturada, tão inspirada. Eu me conecto com o mundo através do Rio. Você é uma pessoa que trabalha muito em equipe. Mas você é brava no ambiente de trabalho ou é fofa? Fofa é uma palavra que não me cabe. Eu boto na mesa, se alguém vier com uma ideia melhor do que a minha eu logo falo que é legal. Mas se a ideia for ruim eu logo critico também. Quando eu estou fazendo algo é porque estou apaixonada: aquilo é a minha carne. Eu sou intensa, obsessiva. O espetáculo pode ser em Londres ou o de fim de ano da minha escola, é o mesmo compromisso. Sou explosiva: se precisar quebrar um prato eu quebro, mas não quebro na cabeça da pessoa, não.

    Roberto DaMatta: O Brasil precisa parar de se suicidar

    Play Episode Listen Later Dec 3, 2021

    O antropólogo que dedicou a maior parte de sua vida a entender o que é o Brasil fala sobre o fim da vida, fama e o momento político do país Roberto DaMatta sempre preferiu andar na contramão. No fim dos anos 60, quando muitos de seus companheiros protestavam contra a influência americana no país, o antropólogo de Niterói (RJ) rumou aos Estados Unidos para fazer mestrado e doutorado em Harvard. Por outro lado, enquanto outros tentavam entender o Brasil a partir de teses marxistas ou de estruturalistas franceses, ele resgatava o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, passava ao largo do conceito de classe social e tentava construir uma antropologia à brasileira, baseada na observação e compreensão de fenômenos locais como o Carnaval, o futebol, o jogo do bicho. De 1987 a 2004, o antropólogo foi professor da Universidade de Notre Dame, em Indiana – e se tornou a voz mais ouvida pelos americanos para tentar entender o Brasil. Mas nunca tirou os dois pés de seu país natal. Voltava três vezes por ano e se abastecia de novas ideias. Até que cansou dos EUA e decidiu retornar de vez para morar em Niterói. DaMatta voltou em 2004, entre outros motivos, para ficar perto dos filhos e netos. Mas teve de lidar com várias perdas na família desde então: o irmão mais novo morreu de câncer; o filho mais velho, comandante da Varig, sofreu um infarto fatal; a mulher chegou a um estágio avançado do Alzheimer. Em um papo com o Trip FM, o antropólogo fala sobre a morte, fama e discute o momento político do país. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/12/61aa4054357dc/roberto-da-matta-antropologo-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Marcelo Gomes / Acervo TRIP; LEGEND=Roberto Da Matta; ALT_TEXT=Roberto Da Matta de braços cruzados dentro de um carro em um ferro velho] Trip. Para imitar uma pergunta que o Antônio Abujamra fazia às vezes no programa dele: Roberto, o que é a morte? Roberto DaMatta. A morte é aquilo que faz, para algumas pessoas, a vida ser onipotente. As doenças totalitárias, sejam de direita ou de esquerda, assim como as crenças absolutas, as religiões e o racismo, fazem parte de uma tentativa de evitar a morte. Elas atraem as pessoas exatamente porque trazem a ideia de que se você morrer o grupo continua e você com continua com ele. A morte é, para alguns de nós, que tivemos uma educação mais aprimorada sobre seus sentimentos, o fim de uma trajetória bem-sucedida de uma vida que tem um início, um meio do qual você não se arrepende, com momentos mais positivos do que negativos, e no fim você vai para a terra do esquecimento, como disse Albert Camus, em "O Mito de Sísifo". Há quem diga que a experiência da morte é tão maravilhosa que Deus teria escondido isso porque se não todo mundo sairia se suicidando por aí. O que você acha? Legal. Não tenho como discutir sobre isso. O que eu sei é que a morte não é uma experiência social, você não é capaz de dividir isso com os outros. Ela é impossível de compreender. Se é que Deus existe, ele foi muito misericordioso conosco: você sabe que todos vamos morrer, mas não sabe o dia. Se soubéssemos, a absurdidade seria maior ainda. Uns comeriam muito, outros vão fazer muito sexo. Eu tenho uma ideia firme de como é, porque já fui anestesiado. Quando o cara colocou a máscara no meu nariz, eu fui sugado e a minha consciência sumiu. Por uma fração de segundo eu pensei: a morte é boa. Aos 85 anos, tendo passado boa parte da vida estudando a humanidade, o que está acontecendo agora com essa exacerbação do digital, em que as pessoas não conseguem acordar sem olhar no celular? É uma nova página que viramos. Só vai aumentar. É possível que daqui a vinte anos não falemos mais em intoxicação, mas hoje essa patologia é real, vejo isso com os meus netos. Por outro lado, o que está acontecendo? Nós estamos nos falando, estamos compartilhando experiências de uma forma muito concreta. O problema não é desintoxicar digitalmente, é o mundo que está doente no sentido de que estamos chegando a conclusão de que ele não é inesgotável. Tudo passa, todo filme tem seu fim, o que não pode passar é o cinema, o edifício. Se o meio acabar, a mensagem acaba. Se acabar a mensagem é o fim do homem. A humanidade se acaba no dia em que a gente não pode mais se comunicar, saber um do outro. O pior que pode acontece com uma comunidade é a falta de comunicação, mas o excesso dela, por outro lado, é o fuxico, é aquilo que ninguém aguenta. É o que acontece com o Brasil com essa pessoa que nos dirige.

    Érick Jacquin: Ninguém vai me derrubar

    Play Episode Listen Later Nov 26, 2021

    Sem papas na língua, o chef e estrela do Masterchef fala sobre a infância na França, a dificuldade em lidar com dinheiro e maconha Quando estreou como jurado no Masterchef, Érick Jacquin – já muito premiado e reconhecido por seu trabalho em algumas das cozinhas mais celebradas de São Paulo – andava em baixa. Não por suas receitas, mas porque sempre foi um péssimo administrador. Um gastador confesso, ele precisou trabalhar duro para sair de um buraco financeiro e chegou a declarar que nunca mais assinaria uma carteira de trabalho na vida. "Nunca vi pobre falar que dinheiro não dá felicidade. Eu gosto de gastar dinheiro, mas não sou um bom administrador. Sou da moda antiga, gosto de ter o papel na mão. Mas precisa ser generoso com o dinheiro, quando a gente tem, deve ajudar os outros", diz. Um fã de teatro e do circo, começar na televisão foi mais um sonho realizado do que um golpe de sorte. Como há muito já não acontecia na cozinha, Jacquin se colocou como aprendiz e contou muito, principalmente, com a ajuda da apresentadora Ana Paula Padrão. Não demorou para que o seu sotaque carregado apesar dos quase trinta anos no Brasil e seu jeito sem papas na língua lhe transformassem num sucesso. E não foi somente o bolso do chef que se beneficiou por essa volta por cima. A capital paulista voltou a ter os seus pratos figurando em – por enquanto – três estabelecimentos diferentes: o Ça-Va, o Président e o Buteco do Jacquin, sendo que uma casa com pratos italianos deve estrear em breve. Um menino de infância feliz, que voltava da escola de bicicleta para saborear os pratos da mãe, no interior da França, Érick Jacquin bateu um papo com o Trip FM sobre maconha, crítica gastronômica, dinheiro e mais. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/11/61a13b6bdcfa9/erick-jacquin-masterchef-restaurante-frances-tripfm-mh-2.jpg; CREDITS=Renan Foto Gastro; LEGEND=Erick Jacquin; ALT_TEXT=Erick Jacquin] Trip. A gente gosta de começar falando sobre o lugar de origem. Como era a sua família quando você era criança? Como foi a sua infância? Érick Jacquin. Eu nasci de uma família normal, no interior da França, em uma cidade pequena. Fui criado ao lado de três irmãos. Sou o caçula, então todos dizem que sou o preferido. Eu comi muito bem: minha mãe cozinhava e ainda cozinha muito bem. O meu pai reformava castelos no Vale do Loire. Era uma família que precisava trabalhar, mas que me deu uma infância maravilhosa. Nunca comi na escola, sempre voltava para almoçar em casa, de bicicleta. Eu até me arrependo de ser adulto. Quando a gente olha para a França, vê um ponto positivo: é o Estado que provê uma série de benefícios para o cidadão. Você consegue dizer, pensando por um outro ângulo, quais são os defeitos da França hoje? Eu acho que os franceses são preguiçosos, eles não querem mais trabalhar. É um outro tipo de França daquela que eu conheci em Paris quando tinha vinte anos. Ninguém quer ser mais o cozinheiro que eu fui, que trabalhava de sábado e domingo. Hoje é um momento diferente. Os impostos são mais caros e a França dá tudo, mas pode ser que ela dê demais. Os franceses hoje recebem mais do que dão. No Brasil é ao contrário, aqui falta receber mais. Existe uma tese que diz que amar o trabalho pode ser uma armadilha capitalista e que a alegria é geralmente encontrada fora do emprego. Você concorda? Cada trabalho é diferente. Eu nunca trabalhei na minha vida, não combina comigo essa tese. Eu só me diverti. Isso combina muito bem para alguém que passa o dia no computador, que talvez ganhe muito dinheiro, mas que passe o dia inteiro falando de número. Isso é escravidão moderna. Cozinhar é um trabalho? Não é. Hoje eu fui em todos os meus restaurantes, fui fazer teste de cardápio, conversei com gente diferente, fiz foto, gravei meu programa de televisão. Não é trabalho, é diversão.

    Sophia Bisilliat: Sempre me senti bem no presídio

    Play Episode Listen Later Nov 19, 2021

    Ativista social conta sobre o trabalho no presídio do Carandiru, na Cracolândia e fala da relação com o dinheiro Neta de um diplomata e filha de uma artista genial, Sophia Bisilliat tinha tudo para escolher uma vida diferente. Durante muito tempo, no entanto, ela sentiu culpa pela condição social em que nasceu. Ainda adolescente, passava de metrô em frente ao presídio do Carandiru e sentia uma vontade inexplicável de explorar um mundo que em quase nada tinha a ver com o seu. É verdade que o trabalho com povos indígenas e sertanejos de sua mãe, a celebrada fotógrafa Maureen Bisilliat, possa ter plantado a semente do ativismo social em Sophia, mas, por outro lado, Maureen viajava muito e foi pouco presente em sua criação. Hoje com 58 anos, Sophia pela primeira vez conseguiu alguma estabilidade financeira como professora de ioga. Antes disso, ela trabalhou muito, mas sempre de graça. Aos dezessete realizou o seu desejo de visitar o sistema carcerário por meio de um projeto que levava teatro aos detentos; foi a via que encontrou sendo uma atriz aspirante. Com o tempo, a iniciativa foi se dissolvendo, mas ela seguiu visitando o cárcere, onde finalmente criou o Talentos Aprisionados, um trabalho muito elogiado que visava encontrar artistas escondidos detrás das celas. Foi daí que surgiu o grupo de rap 509-E, de Dexter e Afro-X, e o escritor Luiz Alberto Mendes, finalista do Prêmio Jabuti de Literatura em 2006 e colunista da revista Trip até o seu falecimento, em 2020. "Quando comecei a trabalhar lá dentro, usava um jalecão que funcionava como uma espécie de escudo. Sempre me senti muito segura. Essa era a graça: ser uma mulher ao lado de 7.500 presos, andando sozinha, e com respeito total", conta.  Com a pandemia pelo novo coronavírus, os esforços de Sophia se voltaram a distribuir cestas básicas em favelas de São Paulo, onde também aos poucos retoma os treinos de ioga que oferece gratuitamente nas lajes. "É incrível o que estamos fazendo para a autoestima dessas mulheres”, conta sobre as participantes. Moradora de uma escola de circo, ela pouco fica em casa. Mesmo para o próximo Natal, já assumiu o compromisso de fazer uma ceia para os dependentes químicos na Cracolândia, outro pilar de suas ações. "Qualquer um pode cair na Cracolândia, ninguém está livre de uma depressão. Se você tem dinheiro, claro, pode evitar a prisão, mas se você se vicia, não há como sair dessa".  No Trip FM, Sophia conta mais sobre a sua infância e o dia a dia nas cadeias. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/11/6197c020511f9/tripfm-sophia-bisilliat-atriz-mh-2.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Sophia Bisilliat; ALT_TEXT=Sophia Bisilliat] Trip. Seu pai era francês e a sua mãe inglesa. Você é filha de expatriados. Me conta um pouco sobre a sua família. Sophia Bisilliat. Eles se conheceram aqui no Brasil. Meu pai lutou na guerra e foi preso, condenado à morte: tinha apenas 16 anos. Acabou fugindo, foi para a Argentina e terminou no Brasil. A vida dele foi complicada, amarrada. Minha mãe era filha de diplomata, viveu muito tempo viajando, então nunca teve raiz. Ela era do mundo. Ambos tiveram filhos de casamentos anteriores, mas se apaixonaram porque viviam no mesmo prédio. Minha mãe era uma borboleta, viajava muito. Aí eu nasci e tive uma infância conturbada pois existiam esses filhos que não tinham um destino muito certo. Vieram as consequências para todos nós. Filho você tem para cuidar e não para largar no mundo. Eles deixavam e a gente foi se virando. É razoável fazer uma ligação de uma infância de pais ausentes e essa sua vontade de dar uma mão para pessoas abandonadas? Eu acho que sim. Quando comecei a trabalhar no Carandiru, eu era muito nova, não ganhava nada e as pessoas ficavam me perguntando o porquê. Até hoje eu não ganho em tudo que faço socialmente, mas é algo muito mais forte do que eu. Não consigo explicar, mas com certeza a minha origem foi desembocar nesse meu trabalho. A fotografia da minha mãe é uma estética muito lapidada, mas vou mais no foco e não vejo muito a estética. Acompanhei ela em duas viagens; aquilo já me marcou muito. E também eu era cuidada por uma pessoa que morava com a gente. Convivi muito mais com a classe social dela do que com a dos meus pais. A sua biografia é muito atípica. Uma menina de dezessete anos entrar para atuar no Carandiru não acontecia. Como você foi parar dentro dessa cadeia gigantesca? Eu parava na estação Carandiru do metrô e ficava encantada com aquilo e dizia a mim mesmo que iria trabalhar lá dentro. A ferramenta que eu tinha era a minha formação como atriz. Entrei em um grupo que queria dar aulas de atuação no presídio. Isso durou oito meses, mas não quis parar. Continuei sozinha, aí já não era mais teatro, era o Talentos Aprisionados. Andava por lá para descobrir talentos na literatura, na pintura, na música. Queria levar o melhor. Fiz de tudo lá, consegui material para reformar as escolas. Mas era tudo um pretexto para continuar nesse ambiente, onde as pessoas acham que vive a escória da escória, mas que sempre me senti bem e segura. Usava um jalecão que funcionava como uma espécie de escudo. Essa era a graça: ser uma mulher ao lado de 7.500 presos, andando sozinha, e com respeito total.

    Mirian Goldenberg: Como fugir dos vampiros emocionais

    Play Episode Listen Later Nov 5, 2021

    Antropóloga explica como se livrar das pessoas que sugam energia vital e nada dão em troca Fonoaudióloga de formação, doutora em antropologia e caça-vampiros. Algum tempo após voltar sua pesquisa para o estudo do envelhecimento, Mirian Goldenberg descobriu que um dos caminhos para uma vida mais feliz é deletar gente sanguessuga, acabar com aqueles que pedem tudo e nada dão em troca; as chamadas pessoas-vampiro, segundo ela. "A primeira regra para lidar com eles é ter firme qual é o seu propósito na vida e o que você quer fazer com o seu tempo. É preciso entender que se você desperdiça parte do dia com vampiragem, está deixando de fazer o que realmente importa. Não dá para deletar vampiro se você não tem claro o que e quem é importante para você", comenta. Antes de se especializar no comportamento humano, Mirian pensou em estudar medicina em Santos, litoral sul paulista, cidade onde nasceu. De lá, saiu para morar em São Paulo, dos 16 aos 21 anos, antes de mudar para o Rio de Janeiro. Nessa época, década de 80, seu tempo era ocupado com a militância política, em atos que iam de passeatas em prol do Chile livre (o país viveu sob ditadura por 17 anos) a mobilizações pró-Constituinte (a nova Constituição brasileira foi aprovada em 1988), ao lado de líderes como Luís Carlos Prestes, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Gabeira. Mirian viu amigos serem presos e leu Marx, Engels, Trotsky. Sua primeira viagem ao exterior foi para Cuba, aos 26 anos. Seu primeiro livro, "Nicarágua Nicaraguita", sobre a revolução do país onde esteve por três vezes, foi lançado em 1987. Logo depois, pesquisando mulheres revolucionárias, se deparou com Leila Diniz, que lhe rendeu o livro "Toda Mulher é Meio Leila Diniz" (1995). Hoje, divide o tempo entre o trabalho em casam consultorias e, antes da pandemia, palestras e conferências pelo Brasil e pela Europa. Foi em uma dessas, na Alemanha, em 2007, que abandonou o hábito de fazer escova no cabeleireiro antes de se apresentar em público. Hoje, leva uma vida minimalista: até mesmo a biblioteca com cinco mil livros ela doou. “Me dói ainda, mas não me arrependo. Foi um processo de mostrar a mim mesma que poderia viver com pouco", diz. Criada entre três irmãos homens numa família judia em que álcool e violência eram presenças constantes, o jeito foi se isolar. Na biblioteca do pai (com quem, já mais velha, ficou sem falar por 16 anos), descobriu o prazer de ler – e escrever. Desde a adolescência, relata os acontecimentos mais importantes da vida em cadernos (são centenas deles empilhados num armário). Ao Trip FM, ela fala ainda da decisão de não ter filhos, de como envelhecer bem e se livrar dos tais vampiros. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/11/6184463a9bca0/mirian-goldenberg-antropologa-mh-2.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Mirian Goldenberg; ALT_TEXT=Retrato de Mirian Goldenberg sorrindo vestindo blusa verde e cabelo solto] Trip. Eu queria começar com um tema que amo, dos indivíduos-vampiro, aqueles que gostam de roubar a sua energia. Da onde vem a sua observação desse tipo de gente? Mirian Goldenberg. Estudo esse assunto faz dez anos. Sou uma pesquisadora, não falo coisas da minha cabeça: comecei a perceber que, para envelhecer bem, existem algumas escolhas necessárias. A primeira delas é deletar os vampiros-emocionais da sua vida, esses que sugam a sua energia e não dão nada em troca. Existem também os vampirinhos, são muito perigosos. Esses são mortais, fazem com que você faça o que não quer e ainda se sinta culpada. São aqueles que falam, quando você está de regime, por exemplo, para comer só um pouquinho, ou quando precisa dormir cedo, para ficar mais um tempinho. São os vampiros no diminutivo. Eu aprendei, pesquisando o envelhecimento, que é preciso deletar. Um segredo meu: não tenho nenhum grupo de WhatsApp, porque todos tem vampiro. Aqueles que não dá para deletar, porque fazem parte da família ou do trabalho, é preciso se proteger, dizer não e ligar o botão do foda-se. Foda-se o que eles querem de mim. Eu preciso saber qual é a minha prioridade. O que eles mais sugam é o nosso tempo, o nosso bem mais precioso. Eu não posso gastar minha vida com vampiros. Tem muito vampiro que envelhece também. Ficar mais velho não é garantia de atingir uma existência mais iluminada. Existe um mito de que você envelhece e vira outra pessoa. Você não vai viajar e pular de paraquedas quando fizer 90 anos se hoje já não faz isso. Quem chega bem na velhice não muda a essência, apenas aprende que é preciso deixar um monte de merda de lado e ter amigos mais bacanas. Quando você é jovem, são tantos compromissos e obrigações que a sua alma fica um pouco escondida. Ao envelhecer, ela pode florescer. Existe um preconceito muito grande com quem decide não ter filhos, como se fosse uma escolha por não ser feliz. Queria que você falasse sobre isso. Nunca quis ter filhos. Fui muito cobrada pelas amigas: quando eu fiz quarenta anos foi um bombardeio. Além de não ter vontade, nunca me senti capaz de ter filhos. Sempre fui tão sem estofo afetivo, de proteção, de cuidado, que sentia não ter força e coragem de fazer alguém sobreviver e ser feliz. Eu nunca fui feliz e como eu teria um filho tendo uma vida tão triste? Não foi algo intuitivo, foi uma certeza.

    Wagner Moura: Nossa história é misógina, elitista e golpista

    Play Episode Listen Later Oct 29, 2021

    Ator que estreia na direção com o polêmico "Marighella" fala sobre política, corpo, família e amizade Wagner Moura coleciona trabalhos de impacto na mesma medida em que angaria haters. Sempre muito claro em suas posições contra o governo de Jair Bolsonaro, o ator nunca deixou de olhar e criticar o Brasil. Sua estreia como diretor com o longa-metragem "Marighella" é, segundo ele, mais uma prova disso. "É uma obra profundamente brasileira”, afirma. Obra essa que poderia ter estreado em 2019, mas encontrou uma série de barreiras burocráticas, processo que o ator não teme em classificar como censura. Dois anos após ser aplaudido no festival de Berlim, o filme tem finalmente data para chegar aos cinemas, em 4 de novembro. Com isso, Wagner pousa, pelo menos por um tempo, no país em que é recebido ao mesmo tempo com amor e ódio. Durante os últimos anos, ele precisou morar com a família na Colômbia por conta das gravações de "Narcos" e mais tarde em Los Angeles, período em que fez, entre outras produções, "Sergio", em cartaz na Netflix. Apesar de comemorar a autonomia conquistada pelos três filhos durante esse hiato fora, o ator não se vê como um intérprete de traços internacionais. "Embora eu realmente more onde estou trabalhando, de fato sou muito conectado com a minha origem, sobretudo com a Bahia. Eu sou um ator especial para os EUA justamente porque vim de Salvador. O meu axé está aí", diz. Em entrevista para o Trip FM, Wagner Moura fala ainda de emagrecimento, da educação dos filhos, dos amigos Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, de jiu-jitsu e mais. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/10/617b327b55940/wagner-moura-marighella-ator-diretor-trip-fm-mh.jpg; CREDITS=Reprodução; LEGEND=Seu Jorge, protagonista do longa Marighella, ao lado de Wagner Moura, em sua estreia na direção; ALT_TEXT=Seu Jorge e Wagner Moura] LEIA TAMBÉM: Quais os caminhos para vencer a intolerância? Trip. Você me contou que mora onde estiver trabalhando. Isso deve ser muito legal, mas é também muito difícil para criar raízes. Ao mesmo tempo, a cidade de Rodelas, onde você cresceu, no sertão da Bahia, desapareceu com a represa de Itaparica. Me fala sobre a sua relação com a casa, com a cidade? Wagner Moura. Embora eu realmente more onde estou trabalhando e a experiência de ter passado esse tempo na Colômbia e em Los Angeles tenham sido muito boas, porque meus filhos ganharam muita autonomia, eu de fato sou muito conectado com a minha origem, sobretudo com a Bahia. Eu sou um ator especial para os EUA justamente porque vim de Salvador. O meu axé está aí. "Marighella" é um filme que sintetiza muito a minha relação artística com o cinema e com o país; é um filme profundamente brasileiro. Onde quer que eu esteja, estou absolutamente conectado com o que está acontecendo com Brasil, o que gera sentimentos díspares: quando Marielle [Franco] morreu, por exemplo, eu sofri muito por não estar no Rio de Janeiro para quebrar alguma coisa. Eu tenho uma tatuagem de uma árvore no braço que é uma árvore de Rodelas. Uma imagem muito forte: antes da represa, ela foi arrancada com raiz e tudo e replantada em Nova Rodelas, onde vivi um tempo também. Você é um dos artistas que mais tem se posicionado contra esse governo. Como é esse lado de ser uma voz ativa em um momento do país em que a gente retrocedeu demais? Se a eleição de Bolsonaro é trágica, é também pedagógica. Ele não é um alienígena, mas um personagem profundamente conectado com o que há de pior na história do Brasil. Nossa história é misógina, elitista, golpista, racista e violenta. Depois do fim da ditadura, os governos que vieram nos deram uma certa segurança democrática que nos fez camuflar esse esgoto subterrâneo do qual Bolsonaro emerge. O fato de ele ter sido eleito é muito pedagógico para que enfrentemos esse Brasil de frente. Se algo de terrível não acontecer, ele vai ser derrotado nas eleições. Esses atos de violência à cultura, ao meio-ambiente, ao STF, vão passar. LEIA TAMBÉM: Como a ditadura agravou a LGBTfobia Sobre o cuidado do corpo, especificamente com a alimentação, me conte o que você tem feito. Não sei se é a imagem do Pablo Escobar que ficou na minha cabeça, mas você parece mais magro. Eu me estraguei para fazer "Narcos", precisei engordar. Nunca cuidei muito da minha saúde, mas quando eu fiz o Escobar foi terrível porque fui comendo porcaria sem orientação alimentar nenhuma. Me prejudicou: tive um descolamento de retina, meus exames ficaram alterados. Depois disso precisei tomar uma atitude radical para reverter aquela situação. Fiquei um tempo muito grande sendo vegano, o que foi muito bom, mas não consegui sustentar. Hoje como peixe e ovo também.

    Dra. Albertina Duarte: Sexo por migalha de afeto não vale

    Play Episode Listen Later Oct 22, 2021

    A ginecologista fala a sexualidade dos adolescentes, pobreza menstrual e o atendimento médico durante a ditadura Com mais de vinte mil partos realizados e passados quarenta anos de formada, a Dra. Albertina Duarte Takiuti há muito tempo deixou uma infância pobre para se tornar uma das ginecologistas mais reconhecidas do país. Quando criança, essa portuguesa filha de um pai pedreiro e uma mãe analfabeta veio com a família ao Brasil com a esperança de abandonar o governo autoritário de António Salazar. A verdade é que aqui ela enfrentou uma nova ditadura, e em seu consultório passou a atender mulheres torturadas pelo regime militar: costurou mamilos arrancados e fez cirurgias sem poder contar sequer com o banco de sangue. A morte e a vida fizeram parte de sua história desde muito cedo: ainda em Portugal, ajudava a tia parteira e corria para atender qualquer pessoa que precisasse de um curativo. Com sete anos prometeu ao irmão mais novo que acabara de levar um coice que iria cuidar dele quando se tornasse médica. Ele não resistiu aos ferimentos e morreu, mas ela seguiu com o combinado. Estudou, ganhou uma bolsa em uma escola particular de São Paulo e provou que a mãe, que pregava "pobre não faz medicina”, estava errada. Mais tarde, como coordenadora do Programa de Saúde da Adolescente da Secretaria da Saúde de São Paulo, foi responsável por reduzir em 55% a gravidez de meninas com idade entre 10 e 19 anos. Além disso, passou a chefiar o Ambulatório de Ginecologia da Adolescência do Hospital das Clínicas, e também atende em consultório particular – seus dias geralmente terminam às duas da madrugada, isso quando não há alguma paciente em trabalho de parto. Nada, no entanto, a faz perder o bom humor, nem mesmo o recente veto do presidente Jair Bolsonaro à distribuição de absorventes a mulheres em situação de vulnerabilidade, projeto que ela sempre defendeu. Em entrevista para o Trip FM, sempre sorridente, Albertina ainda fala sobre pornografia e a sexualidade dos jovens. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/10/6171ada307dae/trip-fm-doutora-albertina-duarte-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Dra. Albertina Duarte; ALT_TEXT=Dra. Albertina Duarte] Trip. Eu queria que você contasse das dificuldades e também das belezas de vir de uma família humilde e de um país como Portugal. Como a senhora fez no início? Dra. Albertina Duarte. Eu sou uma imigrante e tenho muito orgulho de ter sido pobre. Minha mãe não sabia ler e hoje ela tem quatro filhos que escreveram livros. Em Portugal eu já sabia que seria médica. Acompanhava a minha tia que era parteira, não participava, porque era criança, mas carregava a água quente. E gostava muito de fazer curativos. Ela ia junto e eu fazia os curativos. Quando chego ao Brasil, o meu irmão tem um acidente com um cavalo, é operado muito tarde e morre. Enquanto ele esperava socorro eu dizia que seria médica e trataria ele. A minha relação com a vida e a morte sempre foi muito forte. Minha mãe dizia que pobre não fazia medicina, mas eu respondia que era inteligente. Ganhei uma bolsa e fui estudar em um dos colégios mais ricos da minha época. Conforme o ângulo que nós olhamos, o universo feminino melhorou muito: o movimento feminista ganhou espaço. Mas, por outro lado, uma mulher ser forçada a pegar jornal velho para usar como absorvente deixa a impressão que andamos para trás. Você, que todos os dias sente o pulso das mulheres, acha que estamos andando para trás ou para frente? Eu tenho medo de que estejamos andando para trás. Eu tive muito orgulho de ajudar a desenhar a saúde da mulher dentro do SUS, entendendo que a mulher deve ter saúde em todas as fases da vida. Eu venho lutando a muito tempo pela dignidade íntima. Uma mulher não pode sofrer bullying porque está escorrendo sangue pela perna ou porque molhou as suas roupas. Eu vejo dois mundos sempre, pois atendo no consultório e na rede pública. Já tirei pão, papelão e pedaço de cobertor da vagina das mulheres. Um absorvente não custa nada comparado ao que você pode dar de autoestima. Isso além de saber que uma a cada quatro meninas falta na escola porque está menstruada. É um problema de saúde pública. A gente sabe que mesmo as camadas menos favorecidas têm acesso a algum tipo de informação: são mais smartphones do que pessoas hoje no Brasil. Dá para falar ainda que gravidez entre jovens é falta de conhecimento? Eu adoro responder essa pergunta. Nós temos o nascimento de 52 crianças filhas de mães adolescentes por hora.  A cada 21 minutos uma criança de 14 anos é mãe. Nos anos de 1990 nós fizemos uma pesquisa que revelou que 90% dos adolescentes conheciam métodos anticoncepcionais, mas 70% não usavam na primeira relação. Qual foi a discussão: a menina tinha medo de não agradar e o menino medo de falhar. O problema não é informação, é negociação. Uma menina pode ter todas as informações, mas na hora de dizer que ela não terá relação sem preservativo, ela precisa ter autoestima e autoconfiança para gerar o autocuidado. Para o menino, de que adiante saber usar o preservativo se ele tem medo de falhar, de usar o preservativo e não ter o melhor desempenho? Isso em todas as classes sociais. A mulher tem uma questão comum ao gênero que é péssima: o medo de não agradar o parceiro. Olha que dor. Uma menina de 14 anos que se julga feia não vai dizer que não transa sem camisinha. A gente precisa sair desse lugar, não é informação. É habilidade de negociar com o parceiro e colocar limite. As mulheres foram tão reprimidas durante tanto tempo que isso pode ter gerado um movimento pendular. Está acontecendo mesmo isso, esse exagero de liberdade? Começamos a receber muitas meninas perguntando sobre teste de DNA. Isso assustou um pouco. Os adolescentes me contam muita coisa. Uma das situações é a tábua do sexo, no baile funk: as meninas ficam de costas, sem calcinha, e os meninos vão passando. É algo que extrapola para a classe média também – jovens experimentando com vários parceiros em uma noite. Já não é mais só beijar. Eles me contam e ficam me olhando, esperando aprovação. Eu pergunto assim: “Como você se sentiu, foi bom?". A resposta geralmente é negativa. Se os pais e as mães soubessem das coisas que eu escuto... Há dias em que preciso fazer terapia. Com toda a minha idade, tem coisas que eu não acredito que estou ouvindo. A minha fala é: "Todo o afeto, toda a relação sexual precisa colocar para cima, deixar mais forte. Se você precisa pagar pedágio, aceitar migalhas de afeto, aí não vale a pena". Quando eu falo migalha, tem gente que começa a chorar.

    Celso Athayde: Sempre quis fazer revolução

    Play Episode Listen Later Oct 15, 2021

    O cofundador da CUFA bate um papo com Leo Jaime sobre como as periferias podem virar referência de potência, e não de carência Aos dezesseis anos Celso Athayde já havia morado em três favelas do Rio de Janeiro. Quando criança, aos seis, viveu sob o viaduto de Madureira. Mas foi armado dessas duras experiências que ele se reconstruiu: foi camelô, descobriu o ativismo, fundou a Central Única das Favelas, a CUFA, e ainda neste mês de outubro levou o prêmio de Empreendedor Social do Ano pela Fundação Schwab. Homenageado também pelo prêmio Trip Transformadores 20/21, hoje ele está à frente da Favela Holding, conjunto de empresas que tem como objetivo impulsionar o desenvolvimento de negócios e de profissionais nas favelas. É sobre essa guinada vertiginosa – numa conversa não menos entusiasmada – que Celso e o ator e cantor Leo Jaime conversam e pensam juntos sobre o Brasil e como suas periferias podem virar referências de potência ao invés de carência. O encontro aconteceu no programa Prêmio Trip Transformadores 2021, que foi ao ar pela TV Cultura em junho, mas que agora você pode curtir também em áudio no Trip FM, disponível no player nesta página ou no Spotify. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/10/616991910a137/trip-fm-celso-athayde-mh.jpg; CREDITS=Reprodução; LEGEND=Celso Athayde fundou a Central Única das Favelas, a CUFA; ALT_TEXT=Celso Athayde] Leo Jaime. Não sei se você se lembra, mas a última vez que a gente se encontrou foi no palco do Theatro Municipal entregando o prêmio Anu pra mostrar e trazer visibilidade a projetos que atendem a CUFA. Foi muito legal porque estávamos levando para o palco pessoas que se destacaram, fizeram ensino superior e voltaram para a periferia criando projetos. Celso Athayde. Me lembro muito bem. Você apresentou um prêmio junto com a Fernanda Lima. E você foi brilhante, eu já era seu fã. Sou de Bangu, da Favela do Sapo. Tinha um cassino por lá e durante muitos anos eu dancei o teu som. Te encontrar no palco foi um momento muito bacana na minha vida e na vida da CUFA. Pra mim foi muito importante participar da premiação porque fico achando que no percurso da minha vida pode ter sido tudo em vão, que a gente não conseguiu mudar nada na realidade brasileira. Você falou da sua origem na Favela do Sapo, mas antes disso você chegou ao Viaduto de Madureira. Queria que você contasse isso. A gente sempre sonha e normalmente não vê um número significativo de pessoas que nos façam acreditar nessa mudança. Sou de um bairro chamado Olinda, na Baixada Fluminense, de uma cidade chamada Nilópolis, de uma favela chamada Cabral. Meus pais se separaram quando eu tinha 6 anos de idade e ambos eram alcoólatras. Eles brigavam todos os dias, eram brigas muito violentas e ali eles tiveram a última briga deles. Minha mãe resolveu ir embora de casa. Ela sempre voltava porque sabia que tinha dois filhos e pensava que na rua passaríamos necessidades muito maiores do que as que já tínhamos. Nesse dia, ela não voltou. Foi morar embaixo do viaduto Negrão de Lima em Madureira e ficou ali durante seis anos. Dos 6 aos 12 anos de idade era ali que a gente morava. Teve uma grande enchente no Rio uma vez e fomos remanejados para o abrigo Pavilhão de São Cristóvão, que hoje é a feira dos paraíbas. Aos 14, fui então para a Favela do Sapo. Meu irmão foi assassinado e a gente continuou nossa luta e eu voltei depois para Madureira, na condição de camelô, no mesmo viaduto onde tinha vivido. Ali, começo a juntar os camelôs todos e fazemos festas em datas comemorativas como Cosme e Damião, Natal, e é meu primeiro encontro com aquele espaço que tinha sido meu abrigo, vira uma grande festa. Sempre quis fazer uma revolução com aquela rapaziada. É curioso que você transformou o lugar em que passou seis anos da sua infância em espaço pra você se lançar e mostrar o seu sonho. Podia ser um lugar de lembranças ruins, mas você conseguiu não só ressignificar, mas transformar o espaço. Como é que você manteve o sonho vivo? A vantagem do período em que vivi na rua era que eu tinha minha mãe do meu lado. Apesar da relação com o álcool, ela era nossa grande referência, prezava muito pela honestidade. Um dos valores mais expressivos das periferias é justamente a moral, a ética e os códigos de lealdade. Obviamente, as notícias que mais circulam são de uma minoria que acaba se transformando numa anomalia moral por conta das anomalias sociais ali. Pior do que morar na rua é nascer na rua, eu tive essa vantagem. Mesmo morando na rua, eu tinha medo da rua. Tinha medo da disputa do lugar para dormir, e aquilo podia custar sua vida. Quem nasce na rua nem tem esse medo. Eu sempre sonhei em ser rico, achava que tinha nascido no lugar errado e precisava encontrar meu castelo. Eu sempre soube que seria rico, sem nenhuma habilidade ou objetivo. Um tempo depois, percebo que minha habilidade era aquela de juntar gente, fazer festa com elas e desejar uma revolução. Lembro que o Bagulhão, do Comando Vermelho, deu pra gente ler “Guerra e Paz”. Eu não sabia ler e ele deu um prazo de seis meses pra fazer uma arguição. Quem não tivesse lido tomaria tiro na mão, então obviamente tentei aprender a ler rápido, mas não consegui. O tempo passou, ele não deu tiro na mão de ninguém, mas comecei a fazer rap pra fazer a revolução. O rap teve protagonismo no mundo todo. Não vejo aqui tocando no rádio músicas que falem da nossa realidade. O rap sempre fez isso, mas virou nicho. É como ser negro. A gente tem que ter orgulho de ser negro, mas a gente não pode apenas ser negro, porque senão você vira nicho também. Quando um homem vai à Lua, ele vai à Lua. Quando um negro vai à Lua, é um negro indo à Lua. Então a gente precisa se colocar no lugar onde está todo mundo. A gente não pode aceitar que nos coloquem em uma caixinha, como fazem com os pretos em partidos políticos, racializando os votos. Celso, eu escrevi “ela não gosta de mim, mas é porque eu sou pobre”, ou “você vai de carro pra escola e eu só vou à pé”. São músicas que falam da dificuldade do jovem que não tem dinheiro em se sentir merecedor de amor. Eu acho que há uma relação grande entre a desvalia do indivíduo com sua incapacidade de ver o seu lugar no mundo. Como é que a gente pode fazer? Dando exemplo? A gente faz tudo na vida pensando na tal da mobilidade social. Quando sua mãe manda você estudar, ela tá pensando que você vai ser uma pessoa com mais poder aquisitivo a partir de um emprego melhor. Seja qual for o conselho que você receber, estão sempre pensando em como é que a sociedade vai abrir as portas pra você. Particularmente, não acredito numa sociedade em que todo mundo vá ser igual. Eu acredito que a gente pode lutar por uma sociedade em que o filho do dono do prédio e o filho do porteiro tenham a possibilidade de sonhar com melhores alternativas. Hoje eu tenho 25 empresas e eu falo favelês. Imagina se as pessoas que vêm de onde eu venho tivessem aulas de negócios na favela. Elas teriam muito mais oportunidades e alternativas. O fato é que a gente tá sempre estudando para ser motorista do filho do patrão do meu pai. Essa pirâmide não muda e ela está formatada para não mudar. Falta de dinheiro causa até fim de casamento. Ninguém quer ser pobre não, gente! Tem questões afetivas em ficar ou sair da favela, então você sai, como fazem os jogadores de futebol. E a falta de dinheiro faz com que você não consiga tratar dos seus dentes, da sua saúde, sua família não consiga se alimentar bem… Não dá para ser feliz assim. Ter dinheiro não significa que você vá ser feliz, mas que vai conseguir cuidar melhor das dores da vida.

    Dexter: Para cada Djamila existe um Fernando Holiday

    Play Episode Listen Later Oct 8, 2021

    "Ao mesmo tempo em que temos personalidades negras tentando fazer com que nosso povo marche para frente, outros andam na contramão" Dos 48 anos que o rapper Dexter tem de vida, treze foram vividos na prisão. De dentro do Carandiru, ele se reinventou, investiu na música e criou uma trajetória de sucesso. Mas isso são águas passadas: fica cada vez mais incoerente começar a contar a sua história pelo cárcere. Nem mesmo o rap é o suficiente para defini-lo. Hoje, o cantor é também ator e se arrisca como sambista – quem acompanha os shows do Péricles e do Salgadinho, por exemplo, sabe de suas participações. É até um discreto amante da moda, mas tem mantido o visual imutado para preservar as características do personagem CD, papel que interpreta na série Pico da Neblina, da HBO, que está em gravação da segunda temporada. Dexter é ainda uma potente arma na busca por uma sociedade mais justa e igualitária. Dos projetos sociais que participa, destaca-se o Trampo Justo, em parceria com o juiz Iberê Diase, voltado a jovens assistidos por casas de acolhimento que, aos 18 anos, precisam deixar as instituições onde moram para encarar o mundo sozinhos. Nada disso parece ser possível, no entanto, se o compositor, como ele mesmo conta, não tivesse decidido crescer intelectualmente. Na prisão, escolheu o caminho dos livros e hoje procura semear a informação. Quando perguntado o que acha do entretenimento que glamouriza a vida do crime, responde: "Glamour é ler". E embora reconheça que uma série de figuras importantes e conscientes tenham assumido a frente na luta contra o racismo, lamenta aqueles que parecem jogar contra. "Ao mesmo tempo em que temos Preto Zezé, Silvio de Almeida, Djamila e diversas personalidades negras tentando fazer com que o nosso povo marche para frente, temos também Fernando Holiday e Sergio Camargo andando na contramão, sendo contra tudo aquilo que acreditamos". Em um papo com o Trip FM, Dexter conta ainda sobre a mãe, uma gari que decidiu adotá-lo com um mês de idade. Confira no player, no Spotify ou leia um trecho da entrevista abaixo. LEIA TAMBÉM: Com o projeto Trampo Justo, Dexter e o juiz Iberê Dias ajudam jovens em casas de acolhimento [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/10/615f38a29a94d/dexter-rapper-cantor-trip-fm-mh.jpg; CREDITS=Mariana Pekin / TRIP Editora; LEGEND=Dexter no palco do Trip Transformadores, de 2019; ALT_TEXT=Dexter ] Trip FM. Deve fazer uns três anos que não nos falamos. De lá até aqui, na sua visão, existiu uma melhora na situação do povo preto ou ainda continua muito sofrido e baixo o nível de equidade? Dexter. Ao mesmo tempo em que temos Preto Zezé, Silvio de Almeida, Djamila Ribeiro e diversas personalidades negras tentando fazer com que o nosso povo marche para frente, temos também Fernando Holiday e Sergio Camargo andando na contramão, sendo contra tudo aquilo que acreditamos. O fato de termos pessoas capacitadas à frente, discutindo, já é uma melhora considerável. É um momento de uma briga muito dura. Estamos no front, a gente está batendo, mas continuamos apanhando para caralho. Existem negros que são contra as cotas, contra personalidades que são referência para nós. Por isso que a juventude precisa entender a importância dessa caminhada: muita coisa está nas mãos deles. Tem um monte de gente no ringue brigando pela melhora do nosso povo, pela melhora do Brasil. Quando a diversidade entra no eixo, todo mundo ganha, porque a gente consome, constrói. Me conta do planeta samba. Sei que não é de hoje que você tem essa conexão, mas agora parece que de fato você pousou nele. Eu gosto de MPB, do sertanejo raiz, da música que me faz bem. O rap é o meu carro-chefe, mas o samba sobretudo é uma música que me convence e me alegra muito. De uns anos para cá tenho feito muita participação. Com o Péricles, com o Salgadinho, por exemplo. E eles aparecem nos meus shows também, o que mostrou para alguns críticos que rap é música, sim. Por muito tempo o rap me fez ficar preso. Os próprios fãs acreditam com veemência que rapper não pode fazer outra coisa. Mas quando eu comecei a circular no samba e as pessoas começaram a ver, eles passaram a me compreender e a aceitar. Quando eu lancei o samba, graças a Deus só vieram elogios.  A gente que faz revista, rádio e propaganda carrega um pouco a culpa de criar desejo na cabeça das pessoas ao mesmo tempo que grande parte da população não tem dinheiro para comprar um bife. Como você lida com isso, com o moleque que de repente que vai querer comprar um tênis porque viu você usando? Eu fui uma criança privada de muita coisa, mas hoje meu sustento me garante algum consumo. Acho que devo ter essa liberdade para usufruir, pois foi o suor que me deu. O que tento fazer é dizer nas minhas letras e entrevistas que a juventude precisa conquistar. A gente sabe das dificuldades que o Brasil apresenta para eles, mas o que me resta é acreditar no que proponho, que é: leia, se informe e busque a sua liberdade. Martin Luther King já dizia que a liberdade jamais vai ser dada pelo opressor. A maneira de não me culpar é dizendo ao jovem que ele precisa conquistar. Nesse país, com honestidade, só se conquista batalhando. A minha música explica para eles que não é preciso passar pela etapa que eu passei, que é o crime.

    Felipe Neto: A internet é maior arma criada pela humanidade

    Play Episode Listen Later Oct 1, 2021

    O influenciador conversa com o historiador Leandro Karnal sobre ódio, educação, fama e política Escolhido pela revista Time uma das 100 personalidades mais influentes do mundo em 2020, Felipe Neto precisa conviver com agressões na internet e só sai de casa acompanhado por uma equipe de seguranças. Ainda assim, não se arrepende de defender o que acredita. No ano passado, ele fundou o Instituto Vero, dedicado à educação digital no Brasil. "A luta mais importante neste momento é contra as teorias conspiratórias no ambiente digital que disseminam as desinformações, as fake news e o assassinato de reputações", diz. "Temos uma população que não consegue diferenciar uma notícia que recebe no WhatsApp de uma publicação de um veículo tradicional de imprensa. A internet é a maior arma já criada pela humanidade. E entregamos para todas as pessoas sem manual de instruções".  O youtuber que soma mais de 43 milhões de seguidores bateu um papo com o historiador Leandro Karnal no programa Prêmio Trip Transformadores 20/21, que foi ao ar pela TV Cultura em junho, mas que agora você pode curtir também em áudio no Trip FM, disponível no player nesta matéria ou no Spotify. Na conversa, eles falam sobre ódio, educação, fama, luta e, é claro, política. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/10/6157703ea2e08/felipe-neto-trip-transformadores-tripfm-so.jpg; CREDITS=undefined; LEGEND=undefined; ALT_TEXT=undefined] Leandro Karnal. A minha primeira pergunta é geógrafo-psicológica. Qual é a distância sentimental, material, pessoal, entre o Buraco do Padre e a Barra da Tijuca? Felipe Neto. Essa distância é imensurável em termos emocionais. Eu tenho muito orgulho das origens que tive, da luta, da vida que vivi. A Barra da Tijuca é muito mais uma fuga do que necessariamente uma vitória. Na situação de violência que a gente vive no Rio de Janeiro, e a perseguição e as ameaças que eu sofro, acaba sendo um local onde consigo ter alguma segurança. Mas é claro que eu vim de um lugar humilde e hoje tenho uma estrutura muito boa. E agradeço a cada segundo por todos aqueles que tornaram isso possível. Você é um grande influenciador, tem milhões de seguidores. Ser também um personagem, ter uma persona pública, isso te prende? Sem dúvida. Quando a gente se comunica temos sempre traços de personalidades distintas e às vezes de personagens que criamos. Seja na frente de uma câmera ou numa conversa de bar, a gente sempre está manifestando alguma persona. Então quando a gente tem uma exposição muito grande, como é o meu caso, precisa, sim, refletir sobre o que eu estou dizendo, como eu estou dizendo e como as pessoas estão recebendo essa minha mensagem. Porque nós não somos apenas aquilo que dizemos, mas também como somos interpretados. E a gente não pode se eximir dessa responsabilidade. Se eu falo uma coisa e as pessoas interpretam diferente, isso não significa que as elas são burras, e sim que eu falei da maneira errada. Então é um aprendizado, uma luta constante pra não se tornar o vilão da história e tentar evoluir, tentar aprender, e ao mesmo tempo não soar chato. Então são muitos pratos para serem equilibrados e acho que venho fazendo um trabalho suficiente pra me manter estável com meu público.  Essa década que você atravessou mudou muito seu enfoque e o tipo de conteúdo que você produz. Isso é idade, a responsabilidade, a reflexão? Eu acho que os 30 anos me mudaram muito. Até ali eu ainda estava naquela corrida pra me estabelecer financeiramente, que é o grande desejo das pessoas no âmbito econômico capitalista. Hoje eu tenho 33 anos e, quando eu consegui atingir essa estabilidade, as prioridades também começam a mudar. Você começa pensar: de que forma posso usar esse dinheiro para outras causas, usar meu tempo pra ajudar pessoas, estudar mais, absorver mais conteúdo? Meu consumo de literatura aumentou consideravelmente depois dos meus 30 anos e minha quantidade de trabalho diminuiu um pouco. Hoje eu trabalho um pouco menos e leio um pouco mais. Os livros, o tempo inteiro, me transformam. E eu gostaria muito de levar isso pra mais gente, influenciar os jovens que me seguem a lerem mais. E pretendo criar projeto nesse sentido.

    Paulo Chapchap: Médico não precisa ser herói

    Play Episode Listen Later Sep 24, 2021

    Ex-diretor do hospital Sírio Libanês fala sobre Covid-19, transplante e empatia na profissão Antes de Paulo Chapchap ir à Universidade de Pittsburgh buscar técnicas para transplante de fígados em criança, no fim da década de 80, este tipo de cirurgia não existia no Brasil. Muitos pais eram então obrigados a procurar o procedimento fora do país. Hoje, sua equipe passa das oitenta cirurgias por ano – cerca da metade de todas as que são feitas por aqui –, a grande maioria bancada pelo SUS e com índices de sucesso que ultrapassam os 95%. Incrivelmente, não é somente por esses números que Paulo é celebrado em sua área. Durante os últimos cinco anos, o que inclui o período mais grave da pandemia por Covid-19, ele esteve a frente do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, de onde nunca deixou de defender a maior participação de instituições privadas no atendimento público e o acesso de todos à saúde. "Nós precisaríamos prover o médico com todas as ferramentas e equipe para que ele possa usufruir da sua atividade profissional, de todo o reconhecimento que ela gera, mas não por atos de heroísmo e sim por um cuidado com as pessoas", conta. Em abril deste ano, no entanto, Paulo deixou o setor de administração do hospital que o recebeu como estagiário de UTI, quando ainda cursava medicina pela Universidade de São Paulo (USP), nos anos de 1970. Pela mesma instituição de ensino, mais tarde, ele se tornaria Doutor em Clínica Cirúrgica. Atualmente, Paulo trabalha como conselheiro estratégico da Dasa, empresa de medicina diagnóstica. Em um papo com o Trip FM, o médico comentou a série Sob Pressão, falou sobre Covid-19, a importância da empatia entre médico e paciente e lembrou da luta por uma fila de transplantes mais justa. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. LEIA TAMBÉM: Desvendando nosso sistema imunológico [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/09/614dff3c06c1a/dr-paulo-chapchap-medico-covid-sirio-libanes-trip-fm-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Doutor Paulo Chapchap; ALT_TEXT=Doutor Paulo Chapchap] Trip. Eu tenho visto a série Sob Pressão, que é bastante elogiada, com aparentemente um alto nível de realidade, e na maior emissora do país. Você acha que isso é bom ou existe um perigo em criar essa ficção da figura do médico herói? Paulo Chapchap. De uma forma geral é bom. A série tem uma boa conexão com a realidade, mas existe uma certa romantização no sentido de que o médico precisa ser um herói, precisa ir para o sacrifício pessoal. Isso acontece, não vou dizer que não, mas atos de heroísmo não deveriam ser o dia a dia da atuação do médico. Nós precisaríamos prover esse profissional com condições de trabalho, com todas as ferramentas, toda a equipe para que ele possa usufruir da sua atividade profissional, de todo o reconhecimento que ela gera, mas não por atos de heroísmo, e sim por um cuidado com as pessoas. Eu acho que é bom que a população conheça a realidade do Sistema Único de Saúde, mas é bom saber que os médicos não deveriam ser heróis, mas profissionais com uma atuação adequada. Algum grau de sacrifício vai existir, mas não a ponto de comprometer a sua saúde.  Você ficou durante um grande tempo liderando uma das organizações de saúde mais famosas do Brasil. Existe hoje uma necessária pressão pela diversidade racial em qualquer organização, inclusive nos hospitais. Na posição de gestor de grandes instituições, como você vê o espaço de profissionais negros dentro dos hospitais hoje? Inclusão é muito importante, porque você traz uma diversidade que melhora muito a gestão das instituições. A gente fez uma curva forçada de inclusão nos cargos de liderança do Sírio Libanês. Você precisa de programas para possibilitar que isso aconteça. Normalmente quem vem de classes ricas acaba tendo acesso a uma educação superior mais privilegiada, mas você compensa isso amplamente com uma visão diferente de mundo e com dedicação. Você tem competências técnicas, mas também tem o comportamento e a atitude. A política de cotas, com a qual eu concordo, vai trazer mais possibilidades de inclusão nos cargos de liderança e vai favorecer muito a gestão dessas empresas. LEIA TAMBÉM: "Sou um realizador dos meus sonhos", diz Tito Rosemberg Há cerca de vinte anos a Trip foi chamada pela sociedade para apontar uma falha na fila de transplantes, que antigamente era organizada apenas pela ordem de chegada. Isso acabou sendo alterado. Mas e agora, funciona bem essa fila do transplante? Ficou muito bom. O que faltava na época era uma consciência de que ordenar apenas por tempo era uma injustiça e faltava também um indicador objetivo que comparasse gravidade entre diferentes pacientes e diferentes doenças. Se criou esse indicador, que não é perfeito, mas que leva em conta alguns resultados laboratoriais para prever o índice de mortalidade em seis meses se você não fizer transplante. Aqueles que indicam a maior probabilidade de morrer em seis meses entram na frente da fila. É uma escala contínua de pontuação e que estabelece algumas exceções, porque precisa: criança, por exemplo, ganha uma pontuação maior. Embora ele não seja um índice perfeito, ele é bastante bom. Essas listas são regionais, mas em casos extremos podem se tornar nacionais.

    Pedro de Figueiredo: O esforço é para deixar de ser idiota

    Play Episode Listen Later Sep 17, 2021

    Fundador do Memoh, que tem como principal plataforma fazer o homem refletir sobre modo de agir, discute masculinidades Pedro de Figueiredo foi um publicitário bem-sucedido, mas em certa altura decidiu largar tudo para assumir um papel importante na luta pela igualdade entre os gêneros. "Eu era o homem bárbaro, publicitário e branco que achava que estava abalando. Precisei gerar uma ruptura disso: deixar o emprego, porém, foi a maior loucura que já fiz. Aquela vida já não fazia mais sentido do ponto de vista político; da minha contribuição para a sociedade", conta. Foi então que Pedro criou o Memoh, um negócio social que tem como principal plataforma fazer o homem refletir sobre seu modo de agir. A iniciativa funciona em três frentes: promovendo encontros virtuais que debatem sobre masculinidades, produzindo conteúdos e também prestando consultorias corporativas. Quando começou, no entanto, ele assume que fez muita coisa errada. "Entrei no debate dizendo o que a mulher precisa fazer ou deixar de fazer sem me reconhecer idiota. O esforço é o de deixar de ser idiota", diz. Apesar de ter aprendido muito desde o início, Pedro tem aversão à imagem de homem iluminado. "A importância do debate sobre masculinidade existir é se for atrelado ao movimento de mulheres. Se virar um espaço para homem chorar e se encerrar nisso, vai virar mais um lifestyle; metrossexual 2021", reflete. No papo com o Trip FM, o ex-publicitário ainda fala sobre paternidade, cancelamento e dinheiro. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/09/6143bb1750c1b/pedro-de-figueiredo-memoh-trip-fm-mh.jpg; CREDITS=Alex Batista; LEGEND=Pedro de Figueiredo; ALT_TEXT=Pedro de Figueiredo] LEIA TAMBÉM: "Eu recuso a monogamia fatalista", diz Francisco Bosco Trip FM. Existe um movimento sobre o qual vale a pena discutir, que é o cancelamento do homem branco. Como você tem se dedicado a estudar o comportamento masculino, gostaria de saber sua opinião e se, às vezes, você se sente cancelado. Pedro de Figueiredo. É a pergunta do momento. Eu sou um homem branco, heterossexual, da zona sul do Rio de Janeiro. Estou no topo do privilégio. Sinceramente, esse cancelamento que nós homens temos medo é, na verdade, uma falta de ser questionado. O cancelamento na maioria das vezes só está chamando a pessoa a se manifestar. Atuando no debate masculinidades, preciso ter muito cuidado. É um debate sério, que envolve a vida das pessoas. Mas isso não me impede de falar. Esse conceito do lugar de fala estabelece de onde você fala. Eu, como homem cisgênero e tudo mais, entendo que estou em um lugar na sociedade e esse lugar traz uma série de preocupações que eu preciso me inteirar para manifestar alguma opinião. Você já se abriu sobre a falta de intimidade com o seu pai. Gostaria que você falasse disso para gente, já que é uma questão muito presente em seu trabalho também. Meu pai, como a grande maioria, foi ausente. Ele fazia coisas clássicas da relação distante pai e filho: me levava para dar uma volta de moto ou para ir no Maracanã, mesmo não gostando tanto de futebol, uma vez por mês. Ele se separou da minha mãe e ela foi a responsável por quase todo o meu desenvolvimento. O cuidado do homem é algo distante desde o momento em que a gente nasce. Em um debate sobre paternidade, tão importante quanto falar de afeto é falar de cuidado e responsabilidade. Eu amava muito o meu pai, apesar de nunca ter dito isso a ele, o que não impede de ele ter sido um grande babaca com a minha mãe. Vamos falar de outra influência que certamente foi grande na sua vida também, que é a de ter sido publicitário. Poucos meios são mais machistas do que esse. Fale um pouco desse planeta. O Memoh alcançou essa visibilidade muito por essa habilidade técnica adquirida nesse período. Quando eu vou fazer um evento em agência de publicidade que sei que tem gente que me conhece, sei também que terá gente que vai lembrar de mim nas festinhas de agência, sendo o heterotop clássico de agência de propaganda. Eu era o homem bárbaro, publicitário, branco, achando que estava abalando. Eu precisei gerar uma ruptura disso. Deixar o emprego foi a maior loucura que já fiz, mas aquela vida já não fazia mais sentido para mim do ponto de vista político, da minha contribuição.

    Emicida conversa com Ronaldo Fraga: Amar é essencial

    Play Episode Listen Later Sep 10, 2021

    O rapper bate um papo potente com o estilista sobre sua relação com a terra, a história do Brasil, amor, diálogo e resistência Um dos nomes mais importantes do rap nacional, o músico e empreendedor Emicida é uma referência de peso na cultura pop e uma das vozes mais importantes para promover a igualdade racial no país. Ele já lançou dois livros infantis e também é dono da Lab Fantasma, hub de entretenimento que funciona como gravadora, canal de TV, loja de roupas, entre outras tantas iniciativas. Em maio deste ano, Emicida lançou uma nova fase do projeto AmarElo, que nasceu como um disco e se transformou em uma ação multiplataforma que promove discussões sobre transformação pessoal, autocuidado e saúde mental. De sua casa em São Paulo, Emicida bateu um papo potente com o estilista e amigo Ronaldo Fraga no programa Prêmio Trip Transformadores, que foi ao ar pela TV Cultura em junho, mas que agora você pode curtir também em áudio no Trip FM, disponível no player abaixo ou no Spotify. Na conversa, o cantor fala sobre sua relação com a terra, a história do Brasil e a importância do diálogo na construção de um mundo justo e coletivo: "A pergunta que me acompanha em toda a vida é: onde a gente se encontra e constrói uma realidade que seja melhor para todo mundo?" LEIA TAMBÉM: Conheça os homenageados do prêmio Trip Transformadores 20/21 [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/9/Emicidapodcast_podcast.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/09/613baa8621b54/emicida-ronaldo-fraga-trip-transformadores-mh.jpg] Ronaldo Fraga. Em uma entrevista, você disse que a sua influência vinha de lugares diferentes. Da igreja evangélica, que você escutava em casa, ao candomblé; do universo do hip hop aos repentistas nordestinos. Quando vi isso, eu falei: esse cara é o brasileiro, mestiço em tudo. E agora, o rapper mais famoso do Brasil se revela um dono de casa, está fazendo yoga, fazendo seu próprio queijo, cuidando da horta. O menino de 15 anos atrás entenderia o homem que você é hoje? Emicida. Nesse momento em que estamos vivendo, não é só importante, mas urgente que a gente parta do básico. E o básico é entender que somos um animal como qualquer outro, e que a gente precisa se relacionar harmonicamente com a terra. Fazer a manutenção, cuidar dela, tirar meu alimento. Compartilhar sobre isso é minha maneira de dizer para as pessoas que há coisas muito simples que constituem nossa existência, e que a gente não pode se desconectar delas. Tem um poema do Mário Quintana em que ele fala que tem uma foto dele quando era criança. Às vezes, quando ele olha nos olhos daquele menino, ele vira o retrato de costas, porque tem medo do que o menino está pensando dele hoje. Eu acho que aquele menino que me olha do retrato teria muita alegria de ver essa possibilidade de ser humano.  Quando estourou, você descortinou para o Brasil a realidade de um lugar que todo mundo sabe que existe, mas todo mundo finge que não. Eu e você viemos de bairros pobres, perdemos os pais muito cedo, e o desenho era a nossa forma de nos colocar no mundo. Quando eu vi você falando sobre desenho, eu pensei: "Somos da mesma matilha". Mas teve um outro ponto, que aí você foi no fundo do coração, quando você diz que seu mentor intelectual era o mesmo que o meu, que é Mário de Andrade. Eu acho Mário de Andrade uma figura cara ao Brasil que estamos vivendo. Qual face do Mário que o coloca como um mentor intelectual para você? A característica que mais me fascina no Mário de Andrade é a busca. É até redundante dizer isso hoje, mas a história do Brasil que a gente entende como oficial é muito violenta, muito agressiva, ela soterrou várias histórias. Acho que o Mário se provocou a produzir, a tentar positivar um encontro, e esse encontro é uma realidade. Assim como é um completo equívoco tentar redefinir o Brasil, com toda sua riqueza, pela perspectiva do europeu, a gente também não pode tentar refazer essa história desconsiderando esse componente. O Mário não só sonhou, se arriscou a contar e conhecer o Brasil com as limitações e as liberdades da época, como também se aventurou em tentar construir o Brasil que ele sonhava.  LEIA TAMBÉM: Jacira Roque, mãe de Emicida, nunca se conformou com a máxima de que “preto e pobre não tem direito” [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/09/613baab905ea3/emicida-ronaldo-fraga-trip-transformadores-mh2.jpg; CREDITS=Reprodução; LEGEND=Emicida; ALT_TEXT=Emicida] Quintana, Mário de Andrade, vamos agora para Clarice Lispector. Ela disse em Descoberta do Mundo que "amar os outros é a única salvação que conheço. Ninguém estará perdido se der amor em troca". E você realizou um projeto que, no futuro, quando formos entender essa época, com certeza será citado. É um projeto que tem amar no próprio nome, o AmarElo. E ele foi desenvolvido justamente em um momento em que o ódio é o prato principal que está sendo servido na mesa dos brasileiros. A gente já sabe que só amar ou falar de amor já é um ato de transgressão, mas como é isso para você? Eu acho que, em outros tempos da nossa história, amar foi importante. Hoje, amar é essencial. A gente precisa partir disso se quisermos construir uma ponte. Há algum tempo temos sido sequestrados pelo ódio com frequência. Observando a natureza do Brasil, das decisões que acontecem aqui, não houve muito local para o amor florescer. E abrir espaço para que isso aconteça é abrir espaço para que nasça uma ponte entre eu e você.  Em geral, colocamos o amor nessa perspectiva individualista, romântica, afetivo-sexual. O amor é colocado nesse lugar onde parece que ele não tem força para construir coisas coletivas, do ponto de vista de uma sociedade. Mas a verdade é que o amor é a única coisa que me faz observar você e pensar: "O Ronaldo é um ser como eu". É o amor de um indivíduo para outro, de um ser humano para outro. Eu preciso produzir uma sociedade onde a gente vença coletivamente. E isso é fazer uma política que seja pautada no amor. Uma política pública de cuidado coletivo é uma fantasia que o amor veste quando ele quer ficar visível ao olho nu. É nisso que eu acredito.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/09/613baadb7f178/emicida-ronaldo-fraga-trip-transformadores-mh3.jpg; CREDITS=Reprodução; LEGEND=Ronaldo Fraga; ALT_TEXT=Ronaldo Fraga] Nunca estivemos tão expostos. Não tem mais como nos escondermos, ter uma imagem pública de um jeito e uma imagem privada de outro. Eu acho que está virando uma coisa só e isso é muito bom. Mas vivemos em bolhas, vivemos a cultura do cancelamento e, enquanto na bolha, falamos para os nossos. Como você vê isso, de furar as bolhas e estabelecer diálogo com outras frentes? Uma das características mais bacanas que a vida me deu, e isso não é uma característica com a qual eu nasci, eu fui aprendendo, é que eu sei com qual país eu sonho, mas eu sei em qual país eu vivo. É quase um super poder ser um sonhador e não confundir essas duas coisas. É urgente que a gente pare de trocar baldes e resolva a goteira que está no nosso telhado. Porque o que aconteceu é que o Brasil encenou conciliações que ele não produziu realmente nas ruas. A gente se orgulha do desenvolvimento de São Paulo, do desenvolvimento do Sudeste, do desenvolvimento do Brasil, só que o momento, meu mano, é de envolvimento. O Brasil não se relaciona com o lugar no qual ele existe. Não é o momento de a gente se desenvolver, é o momento de a gente se envolver com as causas. Porque as questões culturais, as questões políticas, embora pareçam intransponíveis nesse momento, nem são a pergunta de um milhão de dólares do nosso tempo. A pergunta de um milhão de dólares do nosso tempo é: o que a gente vai fazer com as questões climáticas quando a gente se entender entre nós?

    Sarah Oliveira e Roberta Martinelli: Música dá audiência sim

    Play Episode Listen Later Sep 3, 2021

    As apresentadoras do podcast "Nós" falam sobre as canções que contam histórias, o machismo no jornalismo e o espaço da música na mídia À primeira vista, Sarah Oliveira e Roberta Martinelli dificilmente ocupariam o mesmo espaço: além de concorrentes – ambas são apresentadoras especializadas em música – as amigas são muito diferentes. Sarah, apesar da voz acelerada, é um tiquinho esotérica e relaxada, enquanto Roberta, que tem a fala mais calma, é preocupada e bastante ansiosa. Fato é que ambas, em suas diferenças, encontraram uma maneira de viver e trabalhar juntas, tendo lançado em maio deste ano o podcast Nós, uma produção original Spotify sobre relacionamentos, não importa se entre marido e mulher, pai e mãe, filho, irmã ou professor. No programa, cada uma entrevista um lado de uma história e, ao final, oferecem uma reflexão sobre o caso. Já está no ar, por exemplo, a narrativa de um casal de ex-evangélicos que deixou tabus para trás e fundou um dos maiores clubes de swing do Brasil. Para cada episódio há também, como não poderia deixar de ser, uma playlist. Roberta, uma profunda pesquisadora da música nacional, apresentadora e curadora dos programas Cultura Livre, na TV Cultura, e Som a Pino, na Rádio Eldorado, geralmente se encarrega de adicionar as canções brasileiras. "Aí a Sarah vem e coloca um grunge no meio", ri. Para quem não sabe, apesar de ser muito lembrada pelo pop Disk MTV e por entrevistas que fez com artistas com Britney Spears, Sarah sempre se definiu como roqueira. No papo com o Trip FM, as radialistas contam os bastidores do podcast, falam do machismo no jornalismo musical e discutem se ainda há espaço de destaque para a música na mídia. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/09/61311fdcc4779/sarah-oliveira-roberta-martnelli-apresentadoras-jornalistas-trip-mh.jpg; CREDITS=Ali Karakas / André Ligeiro / Editora Trip; LEGEND=Sarah Oliveira e Roberta Martinelli; ALT_TEXT=Sarah Oliveira e Roberta Martinelli] Trip. Parece que as portas abriram cedo para vocês e houve a possibilidade de ganhar um espaço. Eu quero saber se isso é verdadeiro ou se vocês também viveram barreiras importantes. Sarah Oliveira. Eu tive a sorte de começar em um lugar muito aberto, que era a MTV, com muitas diretoras mulheres como referência. Comecei com vinte anos e na marra precisava colocar um programa no ar, ao vivo. A emissora tinha essa característica de colocar a gente na fogueira. Mas eu era muito nova, não conseguia sacar muita coisa. Sempre fui muito respeitada pelos VJs. Pode ser que seja ingenuidade da minha parte, mas é minha memória afetiva. A MTV me desafiou a não ser uma leitora de TP. Depois disso fui sentir realidades diferentes. O rádio, por exemplo, é um ambiente extremamente masculino em que eu precisei me defender muito. Roberta Martinelli. Eu comecei criando o Cultura Livre. Não sabia o que era televisão e, por não saber do jogo real, fui muito briguenta e firme para manter o programa que acreditava. O Cultura Livre servia para mostrar uma música brasileira que estava acontecendo e não era tocada em muitos lugares. Sempre tentaram tirar a curadoria de mim e dar para um cara qualquer, que fosse conhecido. Lá ia eu conversar com a diretoria. Eu fui fazendo coisas que, hoje conhecendo como é a televisão, fico impressionada. Mas por isso eu acho que o Cultura Livre virou um lugar importante; briguei muito para isso. Mesmo como jornalista musical, quando eu ia a festivais a van era cheia de homens que ficavam me testando o tempo inteiro. Com o tempo essa van foi enchendo de mulheres. A música está caída na mídia? Está perdendo espaço? Roberta. Eu escuto que música não dá audiência desde que comecei. O Cultura Livre já está há dez anos no ar. Eu acho que depende do tipo de audiência que estamos falando. Obviamente seria insano comparar com o Big Brother ou com novela, por exemplo. Dentro da cultura brasileira, dá muita audiência, sim. O Som a Pino, por exemplo, aumentou muito os índices. O que não dá audiência é tocar as mesmas coisas achando que existe um padrão a se seguir. Se você toca as músicas que todo mundo sabe cantar e mistura com outras que as pessoas não conhecem, claro que vai dar mais audiência. Sarah. Já na MTV a gente ouvia que música não dava audiência. Eu tenho um programa na Eldorado que é o Minha Canção, com as músicas que fizeram história. Quando a música leva para um lugar de afeto ela tem um grande poder de ficar com você para sempre. Quando a música conta uma história, ela vai dar audiência.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/09/61312052d8a82/sarah-oliveira-roberta-martnelli-apresentadoras-jornalistas-trip-mq.jpg; CREDITS= Nadja Koucki; LEGEND=Sarah Oliveira e Roberta Martinelli; ALT_TEXT=Sarah Oliveira e Roberta Martinelli]

    Francisco Bosco: Eu recuso a monogamia fatalista

    Play Episode Listen Later Aug 20, 2021

    Filósofo do programa "Papo de Segunda" conversa com a Trip sobre relacionamento, fama e igualdade Um dos pensadores mais populares da atualidade, o carioca Francisco Bosco começou muito jovem escrevendo poesia. Aos 19 anos ele já havia publicado o primeiro livro, ainda que isso desperte um arrependimento profundo – suas três primeiras publicações são "muito ruins", ele diz. “Meus amigos buscavam esses títulos nos sebos para distribuí-los como forma de brincadeira. Ainda bem que isso acabou”, conta. Sorte também que, com a maturidade, logo Francisco se encontrou como um ensaísta respeitado e de análises muito claras sobre o mundo. Após a publicação do polêmico A Vítima Sempre Tem Razão?, em que apresentou críticas aos movimentos identitários, ele ganhou ainda mais reconhecimento, a ponto de ser convidado para fazer parte do elenco do programa Papo de Segunda, no GNT. Doutor em teoria literária pela UFRJ, ex-presidente da Funarte, pai de três filhos e flamenguista roxo, Francisco ainda se aventura como letrista, uma forma de se aproximar do pai, o compositor João Bosco. Em um papo com o Trip FM, ele fala de monogamia, sexo, fama e igualdade de gênero. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir.  [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/8/Bosco_podcast.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/08/6120004a5ad03/francisco-bosco-apresentador-filosofo-papo-de-segunda-trip-mh2.jpg] Trip. Estou interessado em investigar esse cruzamento entre o intelectual e a pessoa. Você costumava falar muito do seu primeiro casamento antes da separação. Como você ficou depois do divórcio, do ponto de vista filosófico? Francisco Bosco. No tempo de Sócrates – e um pouco depois também – um filósofo só era considerado verdadeiro se a sua vida correspondesse às ideias que ele defendia. Naturalmente, quando a gente fala de vida privada existe uma ética de cuidado, pois as outras pessoas envolvidas não têm o mesmo direito de contar essa história. Eu considero que existem muitos modelos de relação: tradicional, aquele de monogamia acordada, mas poucas vezes cumprida, geralmente com algum nível de hipocrisia; e o casamento aberto, por exemplo. Nesse caso, as experiências sexuais devem ser respeitadas e eventualmente até compartilhadas. Há até quem se erotize dessa forma. Outra forma é um casamento que não é exatamente aberto, mas que considera que a monogamia não é um princípio incondicional que se quebrado revela um problema grave na relação amorosa. Eu já vivi todos esses modelos. Quando fui casado com a Antonia [Pellegrino] ninguém era obrigado a revelar dimensões irredutivelmente privadas da vida. Hoje eu tenho um casamento na prática monogâmico, que funciona assim por uma transformação inconsciente minha. Eu não tenho nem tempo de fazer diferente. Mas, internamente, a gente ainda recusa a monogamia fatalista, aquela que considera que, se não houver monogamia, o casamento é fatalmente comprometido. A Tpm deu um furo sobre o divórcio da Titi Müller, que tinha um casamento protótipo. Quando ela se separa, resolve falar sobre as sensações do que ela estava vivendo. Ela diz algo maravilhoso: que a conversa para terminar o relacionamento foi tão boa que o casal acabou até transando. Isso quebrou aquela lógica do Instagram de que você precisa estar com tudo. Sobre isso, considero que todo relacionamento termina em correspondência com aquilo que foi a nota dominante do casamento. Um casamento degradado vai terminar de forma degradada. Parabéns aos dois, porque o término revela a natureza do relacionamento, o que não significa que um bom casamento também não pode terminar. Sobre a questão de gênero, a situação da mulher é melhor do que décadas atrás, mas ainda muito aquém de um horizonte plenamente igualitário. É uma novidade histórica para o homem lidar com mulheres desejantes. Hoje, sentir-se ameaçado faz parte de uma verdadeira relação amorosa. E cada um que lide com isso. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/08/6120006255eb6/francisco-bosco-apresentador-filosofo-papo-de-segunda-trip-mh.jpg; CREDITS=Alex Batista; LEGEND=Francisco Bosco na capa da revista TRIP #273, em Abril de 2018; ALT_TEXT=Francisco Bosco na capa da revista TRIP #273, em Abril de 2018] Não deve ser fácil ser filho de famoso. Hoje, por exemplo, uma foto de um ultrassom de famoso já ganha vários likes. Como foi isso para a sua carreira? É de fato difícil por uma razão ampla: todo o filho precisa conquistar uma autonomia em algum momento. Quando você é filho de uma pessoa famosa, é mais difícil fazer isso. Sair da sombra de uma imagem muito forte é mais difícil. Tenho uma hipótese em relação ao Brasil, que tem um ranço enorme com o filho do famoso. Por que esse interesse enorme pelo filho? Existe um fascínio provincial que tem a contrapartida de uma punição: ao mesmo tempo em que se promove o filho do famoso, existe um mecanismo dialético que consiste em punir essas pessoas justamente por ter catapultado essas pessoas à fama injustamente.

    Renata Vanzetto: Nasce uma mãe, nasce uma culpa

    Play Episode Listen Later Aug 13, 2021

    A chef que construiu um império da gastronomia fala sobre a rotina frenética, praia, maternidade e negócios Houve uma época em que a cozinheira caiçara Renata Vanzetto, crescida em Ilhabela, tinha remorso de admitir que a vida da praia não lhe causava tanta saudade assim. Hoje ela usa o título de workaholic com certo orgulho e se tira mais de cinco dias de folga já admite que logo vem o "faniquito" e a vontade de voltar para a rotina. Com dez marcas para administrar, entre restaurantes e um buffet, são poucas coisas que sossegam seu espírito hiperativo. "A hora que o negócio acalma e sobra tempo para ir ao cabeleireiro, invento algum absurdo: faço um filho e paro de dormir à noite, abro um restaurante, ou troco os todos os meus cardápios. Hoje sei que sou feliz produzindo." A ascensão de Renata foi muito rápida: ela estourou aos 18 anos com o Marakuthai, seu primeiro restaurante, aberto em família, no litoral paulista. Foi lá que ganhou o título de Chef Revelação pelo extinto Guia Quatro Rodas. Movida pela fama repentina, já no ano seguinte subiu a serra e multiplicou o sucesso na cidade de São Paulo. Uma empresária de mão cheia, sempre cuidou de cada detalhe de todas as suas casas, do cardápio aos quadros, que ela mesma pinta. O Ema, seu estabelecimento assinatura, surgiu de alguma forma da paixão pelas pinceladas. Encorajada pela mãe a pintar para superar a perda do namorado Luigi Maria Ucelli Di Nemi, que morreu em um acidente de mergulho, ela começou a se arriscar na arte e como em muitos aspectos de sua vida, caiu na atividade sem restrições. "Comecei a desenhar emas compulsivamente. Um dia me vi num quarto com mais de cinquenta quadros de ema. Sei lá por que ema." O quarto acabou virando o restaurante onde ela expõe, além dos bichos, seu menu autoral. Mãe de duas crianças lindas, recentemente a chef foi autora de um gesto belíssimo ao compartilhar a história do seu filho de três anos, o Ziggy, e trazer à superfície, embora ele ainda não tenha um diagnóstico fechado, uma questão ainda pouco discutida, a dos transtornos do espectro autista. "Você detectar um atraso de desenvolvimento ou um desequilíbrio sensorial no seu filho é muito importante; só assim é possível dar o estímulo necessário." Extremamente franca, são poucos os assuntos que a cozinheira Renata Vanzetto trata sem um sorriso. No papo com o Trip FM, ela ainda falou do famoso sanduíche crazy crispy chicken, de kitesurf e dos motivos que a levaram a tirar o silicone. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. LEIA TAMBÉM: Helena Rizzo fala sobre os bastidores da gastronomia, amor e separação [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/08/61159942ac8bd/renata-vanzetto-chef-trip-mh1.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Renata Vanzetto; ALT_TEXT=Renata Vanzetto] Trip. Você, em um determinado momento, veio para São Paulo, mas hoje o que a gente vê, principalmente com a pandemia, é uma intensificação do movimento de pessoas saindo da cidade. Às vezes não dá a sensação de ter feito o movimento da contramão? Renata Vanzetto. Eu recebo muito esse tipo de pergunta, ainda mais nesse momento em que a Ilhabela está bombando. Vários amigos abandonando tudo e indo criar os filhos lá, que foi um pouco o que meus pais fizeram. Morei vinte anos lá, mas hoje virei uma paulista urbanóide. É engraçado de ver, porque eu era muito caiçara, vivia de pé no chão: praia e cachoeira era tudo. Muitas vezes me cobrei porque o certo era o querer estar na ilha pela qualidade de vida. Atualmente admito para mim mesma que não quero voltar para lá e tudo bem. Sou feliz aqui, workaholic assumida. Na ilha é outro ritmo. Quando vou para lá, no quinto dia eu já estou com um faniquito, procurando aquela loucura. Mas hoje tem uma questão muito forte que é a dos filhos. Eu mudaria para lá pelos meus filhos. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/08/61159959b3423/renata-vanzetto-chef-trip-mh2.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Renata Vanzetto; ALT_TEXT=Renata Vanzetto] LEIA TAMBÉM: "Ler é exercício de estar no lugar do outro", diz o escritor Itamar Vieira Junior Você já investigou essa sua obsessão por construir? Dá a impressão que você precisa estar fazendo muitas coisas ao mesmo tempo A minha mãe é hiperativa igual a mim e quando cai no marasmo ela inventa qualquer coisa. Existiu um momento em que eu fiquei louca com ela por causa disso, mas logo me imaginei na mesma situação. Eu sou igual a minha mãe. A hora que o negócio acalma e sobra tempo para ir no cabeleireiro, eu invento algum absurdo: ou eu faço um filho e paro de dormir à noite, ou eu abro um restaurante, ou eu troco todos os cardápios. Hoje sei que sou feliz só produzindo. Eu sou zero uma pessoa para baixo, mas quando a coisa fica morna, perde aquele ânimo. Eu preciso fazer quinhentas coisas ao mesmo tempo. Me conte sobre seu império? Tem o Ema, sanduíche de frango, buffet. O que é que está lhe dando entusiasmo hoje? Estou no auge da emoção porque acabei de abrir o Miado, que é o nosso novo restaurante que tem uma pegada asiática, como o Marakuthai tinha, mas é um asiático Renata tempos de hoje. Além disso, tenho dois filhos pequenos, o que me fez sossegar um pouco também, porque eu não durmo. O Max tem seis meses. Estou aproveitando bastante. O sanduíche de frango eu servia no menu degustação do Ema. No começo os clientes pediam para trocar antes de comer porque não queriam comer sanduíche, com a mão, em um menu degustação. Tinha um preconceito bizarro. Só por isso eu insisti no prato, que ficou muito famoso. É o crazy crispy chicken.

    Rodrigo Amarante: Viver de música virou coisa de rico

    Play Episode Listen Later Aug 6, 2021

    O ex-Los Hermanos, que acaba de lançar seu segundo disco solo, fala sobre arte, dinheiro e a vida perto da praia e do mar Muito tem se falado da demora para o lançamento do segundo disco solo do ex-Los Hermanos Rodrigo Amarante, mas a verdade é que o hiato de oito anos entre o álbum Cavalo e seu novo trabalho, Drama, lançado em julho, esteve recheado de serviço. No período, Amarante lançou Tuyo, faixa tema da série Narcos e um grande marco na carreira do multi-instrumentista. Após a canção, veio o reconhecimento internacional e toda uma nova série de turnês que tornaram o músico, morador de Los Angeles desde 2008, reconhecido em diversas partes do mundo. "Sou mais tocado em Paris do que no Rio de Janeiro", diz. Com faixas em inglês e português, Drama mostra que Amarante já não se intimida com a língua, um grande entrave quando se mudou para os Estados Unidos. "É uma experiência dolorosa, mas muito válida; você se entende marginal. Para o meu trabalho foi um presente, pude colocar minha música à prova: tocar para uma plateia sem risco não tem barato." Quando bateu um papo com o Trip FM, o compositor estava em sua casa, de onde faz boa parte de suas gravações. É de lá também que o carioca sai sempre que pode para surfar, um hábito que traz de criança e que parece o deixar ainda mais à vontade dentro do estilo de vida californiano: "Minha família tinha um bloco de Carnaval em Saquarema, íamos para lá sempre, passar o tempo inteiro na água. Praia e mar sempre foi um lance, desde que eu nasci". Rodrigo Amarante ainda dá dicas de música e lugares para comer e pegar onda em Los Angeles e no Rio de Janeiro, fala sobre dinheiro, a amizade com Wagner Moura e mais. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/08/610d581c07944/rodrigo-amarante-artista-musico-los-hermanos-trip-mh.jpg; CREDITS=Eliot Lee Hazel / Divulgação; LEGEND=Rodrigo Amarante; ALT_TEXT=Rodrigo Amarante sentado visto de cima foto preto e branca] Trip. Eu tenho a maior inveja de quem passa um período fora do Brasil, independente de onde seja. É uma oportunidade de ver o país de outra perspectiva. Como é morar nos Estados Unidos sendo músico? Fazer arte em Los Angeles deve ser uma briga de foice por cada milímetro  Rodrigo Amarante. Em determinado momento virou uma escolha, mas em princípio foi circunstancial. Eu vim para gravar com o Devendra Banhart. Nesse meio tempo, me ligou o Fabrício Moretti, baterista do Strokes, para compor e o que era para ser uma música, virou um disco, com turnê, imprensa, enfim, me apaixonei e fui ficando. Você ir para um lugar onde você não fala a língua muito bem é uma experiência dolorosa, mas muito válida; você se entende marginal. Existe uma riqueza espiritual de passar por isso. Para o meu trabalho foi um presente, pude colocar minha música à prova: tocar para uma plateia sem risco não tem barato. Existia o risco de escrever canções em inglês também, de cantar em português para os americanos, e ver se cola, se emociona. O que aconteceu com o Los Hermanos na década de 2000, e que a gente vê hoje olhando para trás, foi uma ascensão muito rápida. Isso tem um preço. Teve um pouco de fugir disso quando você se mudou? Eu não tive uma iniciativa de sair do Brasil por estar cansado de ser famoso. Isso nunca me incomodou. Mas algo cansativo, eu me lembro, foi que ficou cada vez mais difícil conhecer alguém que não tinha uma noção preconcebida de mim. A sensação era de que alguma coisa me foi roubada, eu não tinha a oportunidade de me apresentar do zero. Mas olhar para isso é ver a parte vazia do copo. Eu tive grande sorte e privilégio de escrever música para o Los Hermanos; pude ajudar a minha família. Mas acho válido também abrir o meu coração e expor esse outro lado. No Brasil, como o Tom Jobim falou, sucesso é ofensa pessoal. Tinha isso também. As pessoas acham que é preciso bater, de forma figurativa, porque eu tenho o aplauso. Era uma pena, uma bobagem. Mas eu tive sorte que todos da banda tinham cabeça boa. Ninguém se achava melhor do que ninguém e todos souberam navegar esses altos e baixos.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/08/610d585b7ae3d/rodrigo-amarante-artista-musico-los-hermanos-trip-mq.jpg; CREDITS=Caroline Bittencourt; LEGEND=Rodrigo Amarante na capa da revista TRIP #173 (2008); ALT_TEXT=Rodrigo Amarante na capa da revista] Pouca gente sabe, mas você é apaixonado pelo surfe. O que isso significa para você e desde quando você surfa? Minha família tinha um bloco de Carnaval em Saquarema, íamos para lá sempre, passar o tempo inteiro na água. Praia e mar sempre foi um lance, desde que eu nasci. Quando eu morava no Postino, na Barra da Tijuca, do lado da minha casa tinha um lugar onde se fazia prancha de surfe. Um dia eu fui, bati na porta, e perguntei se podia ver o que eles estavam fazendo. Virei mascote. No meu aniversário, me fizeram uma pranchinha miniatura, do meu tamanho. Comecei a pegar onda e virou um negócio assim: acordava todos os dias de madrugada para pegar onda, surfava duas vezes por dia, tive um treinador, participei de campeonato. O surfe me acompanha até hoje. A minha paixão pelos Smiths, por exemplo, tem a ver com surfe também. Em 2008, você contou em uma entrevista da Trip que tinha gastado todo o dinheiro que havia ganhado com o Los Hermanos. Como está esse lado hoje? Eu não me arrependo, porque comecei a ganhar dinheiro com vinte e poucos anos. Era uma grana boa, mas se você tem uma família que precisa de ajuda, você não vai ajudar? Eu não me arrependo, está tudo certo. Mas ao longo dos anos a minha música ganhou uma expressão mundial. É uma coisa louca, mas tem mais gente hoje que ouve a minha música em Paris do que no Rio de Janeiro, por exemplo. Isso ampliou as possibilidades. Vendo disco no mundo inteiro: aconteceu o que eu tinha esperança de acontecer, que é estabilizar uma carreira que me sustente. Nesse nosso tempo, o streaming vem elitizando ainda mais o meio em que eu trabalho: se não tem show pós-pandemia e não tem venda de disco, quem vive de música vai precisar arrumar outra coisa para ganhar dinheiro. Só vive de música quem não precisa viver de música, virou uma coisa de rico. Eu acho importante falar sobre isso porque tem gente que tem um trabalho lindo e ainda não consegue viver da arte. Eu quero expor esse lado para que essas pessoas não fiquem pensando que não são boas o suficiente.

    Itamar Vieira: Ler é exercício de estar no lugar do outro

    Play Episode Listen Later Jul 23, 2021

    Autor do hit "Torto Arado" fala de Salvador, onde nasceu e foi criado, e discute o racismo e o papel da arte na sua vida Um popstar da literatura, como há muitos anos o Brasil não via, Itamar Viera Junior virou um fenômeno quando viu seu romance de estreia, Torto Arado, bater todas as projeções de vendas, chegando a incrível marca de 165 mil exemplares lançados. O mais relevante autor do Brasil de hoje surpreendeu o mundo em 2018 quando lançou seu clássico instantâneo no prêmio Leya, em Portugal. Ali ele levou o primeiro de muitos outros troféus importantíssimos, como o Oceanos e o Jabuti. Baiano, de 41 anos, geógrafo, doutor em estudos étnicos e africanos e pessoalmente batizado por Jorge Amado – essa história você escuta no episódio dessa semana do Trip FM – Itamar leva uma vida dupla: é funcionário público nas horas vagas, mas escritor por vocação. “Esse é o malabarismo que o artista precisa fazer no Brasil para sobreviver em meio a tudo”. No programa, o autor ainda fala de Salvador, onde nasceu e foi criado, e discute o racismo e o papel da arte na sua vida. Ouça o episódio no Spotify ou leia um trecho da entrevista a seguir. [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/7/Itamar_podcast.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/07/60faf9c8dc072/itamar-vieira-junior-autor-escritor-torto-arado-trip-mh.jpg] Trip. Existe uma questão muito discutida que é a importância do título para o sucesso ou o fracasso de vendas de um livro. Eu queria que você falasse um pouquinho sobre Torto Arado. De que maneira você acha que o título pode ter ajudado?  Itamar Vieira Júnior. É engraçado, o mercado editorial leva em consideração inúmeras coisas para sugerir e escolher um título. Mas o autor vai sempre naquilo que lhe é afetivo e guarde algum significado para o livro. O pontapé inicial desse romance se deu quando eu li os autores da geração dos anos 30 e 45, que fazem essa abordagem interessante sobre o nordeste brasileiro. Ali nasceu a semente de Torto Arado, mas eu tinha 16 anos, não havia maturidade. De qualquer forma, eu vinha de muitas leituras e uma delas foi o poema "Marília de Dirceu", de Tomás Antônio Gonzaga. Eu buscava um título para o livro até que meus olhos pousaram no verso “O frio ferro do torto arado”. Esse arado é o arado da história. Esse título, então, surgiu faz vinte anos. Depois disso eu segui minha vida e quando comecei a escrever essa versão me veio o lampejo daquele título original. Mas foi uma escolha baseada apenas em afeto. Como você conseguiu o tal lugar de fala? De onde veio o conhecimento do planeta interior do Nordeste? Meu pai foi criado no campo até os quinze anos. Meus bisavôs trabalhavam em uma terra em regime de servidão, como aparece no livro. Mas isso foi aqui próximo, em uma região muito diferente do sertão, em um lugar que chove muito, muito verde. Anos depois, já adulto, comecei a trabalhar de servidor público, no Incra, e viajar para o interior e outras regiões do estado, para paisagens muito distintas, passando pelo serrado, no oeste, pelo sertão e o pelo litoral. Nesse percurso, fiquei mais detido na Chapada Daimantina, trabalhando naquele lugar de uma natureza muito forte. Confesso que aquela primeira história – que eu escrevi quando era adolescente – não se passava no sertão, mas a Chapada me conquistou dessa maneira, porque eu via na história personagens que me encantavam por sua força e faria todo o sentido que a paisagem emanasse essa força também. Mas essa paisagem quebra um pouco a visão que a gente tem de sertão, porque em Torto Arado esse sertão tem muita água. Eu queria que você falasse de ser criança em Salvador e sobre qual era a condição financeira da sua família. Salvador é uma cidade diferente. Em outros lugares, como São Paulo, quando a gente pensa em periferia, a gente pensa em lugares mais afastados, nas bordas da cidade. Salvador é uma cidade híbrida, a gente tem periferias coladas à bairros ricos. A minha infância eu passei no centro de Salvador, em uma avenida que se chama Vasco da Gama, entre engenhos antigos que viraram bairros de maioria negra. Era uma vida difícil. Meu pai e minha mãe tiveram quatro filhos e não possuíam educação superior; emprego era difícil. Meu pai fez muitos trabalhos improvisados. Não tinha livros em casa. Na verdade, tinha uma Enciclopédia do Estudante. Dez volumes que de tanto ler, aquilo foi sedimentando o gosto por descobrir coisas novas. Tinha um vizinho que estudava em uma escola muito melhor e que fazia empréstimos de livro para que eu pudesse ler. Eu fico pensando sobre o que era a cidade da minha infância e o que é a cidade de hoje. Era uma infância mais livre: a gente tinha a liberdade de brincar na rua, algo que também contribui para a imaginação e de alguma forma essa vivência volta na minha escrita.

    Vera Iaconelli: Somos egoístas, isso não se erradica

    Play Episode Listen Later Jul 16, 2021

    Uma das psicoterapeutas mais requisitadas pela mídia fala sobre família, feminismo e pandemia Uma fala assertiva e extremamente acessível sempre garantiu à Vera Iaconelli um lugar como analista para alguns dos principais veículos de comunicação do país. Colunista do jornal Folha de S. Paulo, a psicoterapeuta certamente viu seu nome ainda mais requisitado durante o período de quarentena. Para a CNN ela falou a respeito do sofrimento e ao Jornal Nacional deu uma entrevista sobre a saúde mental e a pandemia. Entre essas e outras incursões na mídia, a doutora pela USP mantém o mesmo perfil – tira o peso e traz ao chão temas que na voz de outros cientistas ganhariam ares muito mais opressivos. Sobre a condição humana, dispara: "Nós somos egoístas, isso não se erradica; a humanidade é um miserê mesmo e encarar isso é menos ruim”. Quando cita o presidente Jair Bolsonaro, ela também não exagera no diagnóstico. “É uma pessoa terrivelmente mediana que ganhou um poder enorme, alguém que qualquer um poderia ter dentro da família; um egoísta que só ama os seus, gosta de levar vantagem em tudo e tem uma relação limite com a lei."   Em um papo com o Trip FM, Vera ainda tratou sobre feminismo, família, a proeminência de pessoas brancas na psicologia e a possível dificuldade que alguns possam sentir com o fim das medidas de isolamento social. Ouça o programa no Spotify ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/07/60f1a8cd1d05f/vera-iaconelli-psicanalista-trip-fm-mh.jpg; CREDITS=; LEGEND=; ALT_TEXT=Vera Iaconelli] Trip. Queria que você falasse um pouco sobre o sofrimento. O que ele produz em termos de evolução para as pessoas? Vera Iaconelli. O sofrimento é importante para a psicanálise; as pessoas nos procuram porque estão sofrendo. Dentro de uma lógica judaico-cristã ele foi sendo posto como forma de redenção – se você sofre bastante, em uma outra vida virá a salvação. Em termos psíquicos, não funciona assim. O sofrimento pode embrutecer, criar uma pessoa que retransmite sofrimento. Isso acontece se o sentimento não for elaborado. A questão não é a forma como a gente vive, mas a forma como a gente transforma vivência em experiência. É um trabalho meritório. E do outro lado, essa ilusão de deixar as crianças blindadas de todo o sofrimento e das dores. Que tipo de pessoa cresce em um ambiente como esse? Alguém despreparado para várias coisas: não só para lidar com os acontecimentos, mas também com os próprios afetos. O mais perigoso é como as crianças tem demonstrado medo de ficarem tristes, de sentirem raiva e de sofrer. Como se cada afeto fosse extremamente perigoso. É uma geração que cada vez mais busca medicamentos para não entrar em contato com os afetos, para evitar questões comuns da vida como ficar com medo de uma prova, ficar triste porque rompeu um namoro e ficar inseguro na vida sexual. Esses são aqueles perrengues que a gente precisa para criar repertório e os pais têm impedido como se a criança fosse morrer, como se essas experiências fossem feri-las para sempre. Você fez uma série de lives com terapeutas negros no seu Instagram. Como é a vida desses profissionais no Brasil? No Instituto Gerar de Psicanálise, que eu coordeno, tem um grupo em que a gente discute como fazer uma psicanálise que seja a nossa cara, que não seja uma reprodução de algo que começou ali na Viena da virada do século XX. E como fazer mais negros se tornarem psicanalistas. É difícil, pois às vezes eu indico um colega e as pessoas não vão porque elas querem alguém branco, mesmo que ela não conheça. É revoltante, mas é um fato. É um processo importante. As lives mostraram como foi, para aqueles analistas, não ter ninguém confiando neles. Se for para fazer uma psicanálise elitista, como ela já é, cobrando uma fortuna pela consulta, eu prefiro fazer outra coisa. [VIDEO=https://www.youtube.com/embed/kCx-xs-PKbA; CREDITS=; LEGEND=; IMAGE=https://img.youtube.com/vi/kCx-xs-PKbA/sddefault.jpg]

    Gabriel Leone: Levei muito 'não' antes de começar na TV

    Play Episode Listen Later Jul 9, 2021

    O ator fala sobre a amizade com Domingos Montagner, a preparação para viver um dependente químico na série "Dom" e a tristeza na pandemia Gabriel Leone estava dentro de seu carro, no estacionamento do Projac (cidade cenográfica da TV Globo), onde havia acabado de gravar sua última participação em “Um Lugar ao Sol”, próxima novela inédita das nove, quando bateu um papo com a Trip. Não fosse a pandemia, ele teria emendado as filmagens de "DOM" – série da Amazon Prime – com o novo projeto da Globo, como tem feito desde que deu vida ao personagem Gui em "Verdades Secretas". Essa sucessão de trabalhos forma um já extenso currículo para o jovem ator, que faz 28 anos neste mês de junho, mas desde os 16 já dava sinais do talento ao interpretar Shakespeare com a Cia Teatral Notre Dame. Intensamente dedicado à construção de seus papeis, Leone cita viver Pedro Dom, da série "DOM", de Breno Silveira, como um trabalho exaustivo. "Fui buscar exercícios trabalhando os chacras para acessar essa energia – diferente da minha – da cocaína, presente em 90% das cenas." Gabriel tropeçou na profissão quando um professor de história do colégio passou a criação de uma peça de teatro como lição de casa. A experiência completamente amadora foi o suficiente para despertar nele um ímpeto gigante que mais tarde o lançou a todas as esferas da atuação. E quando os musicais eram a bola da vez, ele foi estudar canto e dança, habilidades que lhe renderam a participação no espetáculo "Chacrinha". Na televisão, vale lembrar ainda de seu papel marcante como Miguel, em "Velho Chico”, que não só fundamentou seu trabalho no casting principal da maior emissora do país como deixou uma saudade imensa pela amizade construída com o ator Domingos Montagner, que morreu afogado ao nadar no rio durante a produção da novela. "Nós éramos tão próximos que até meus pais ficaram destruídos naquele dia. Quando voltei para casa, meu pai havia colocado uma foto minha com o Domingos em um porta retrato na minha cabeceira”, conta. No Trip FM, Gabriel Leone ainda fala de seu papel como Pedro Dom, discute as ferramentas que utiliza para entrar e sair dos personagens e conta como combateu a tristeza durante a pandemia. Ouça o programa no Spotify ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/07/60e722372f10f/gabriel-leone-ator-dom-amazon-prime-mh.jpg; CREDITS=; LEGEND=; ALT_TEXT=Gabriel Leone] Trip. Você e a Carla Salle, sua namorada, fizeram um ensaio para a Trip. Na época ela contou que conheceu você vestido de Roberto Carlos em uma festa que não era à fantasia. Conta melhor essa história. Gabriel Leone. Tem uma explicação, eu não sou tão corajoso assim. Eu estava filmando a cinebiografia do Erasmo Carlos, “Minha Fama de Mau” e, no fim de um dia de gravação, tínhamos uma festa. Eu joguei a ideia para o Chay Suede, brincando, de ir com a roupa dos nossos personagens. Ele topou e conseguimos dar um jeito, com o diretor, de sair com o figurino. Eu fui da maneira que estava, com cabelo alisado, e passei a festa toda agindo como se fosse o Roberto. Em dado momento eu passei pela Carla e conversei dessa forma. Já estava de olho nela, mas foi a primeira vez que conversamos. Uma coisa que sempre me fascinou é a preparação de um ator para interpretar um dependente químico, por exemplo, como o Pedro Dom que você faz na série do Breno Silveira. Como é para você viver um drama tão pesado como esse? Como é a preparação? Uma coisa muito importante foi o fato de o pai do personagem principal, o Vítor, ter procurado o Breno há dez anos para contar essa história. Então para além de diretor, o Breno foi alguém que viveu – por meio do pai do protagonista – a história. Ele foi muito o nosso farol. Nossa história é baseada em fatos reais: as situações mais absurdas são reais. Outra ajuda foi ter filmado tudo em ordem cronológica, assim a gente pôde caminhar junto com o personagem. Você vive uma situação e pode usar a memória física e emocional para a próxima cena. Ter usado apenas locações trouxe um nível de realismo também. Especificamente sobre a minha preparação, percebi que 90% do tempo o personagem estaria sob o efeito da cocaína. Eu, sabendo que teria que achar essa energia, busquei exercícios para acessar esse estado que era muito diferente do meu. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/07/60e722e8c5a3c/gabriel-leone-carla-salle-atores-casal-mh2.jpg; CREDITS=; LEGEND=; ALT_TEXT=Gabriel Leone] Falando de um outro trabalho seu, estava lembrando do seu papel em "Velho Chico", uma novela muito bonita, mas que ficou marcada também pela morte do Domingos Montagner. Me conte um pouco sobre essa época. Como foi viver isso? Hoje, depois de mais de cinco anos, sempre que falo sobre o Domingos, falo com muito carinho e saudade. Ele foi um dos seres humanos que mais me transformou. Era um gigante não só de tamanho, mas de coração e generosidade também, um ator brilhante que tive o privilégio de conviver intensamente por mais de um ano. Dali nasceu uma amizade lindíssima. A gente se chamava de pai e filho por conta da relação dos personagens na novela. Foi um dos encontros mais especiais da minha vida. Foi uma dor para todos nós. Para você ter uma ideia, no dia, quando falei com meus pais, ambos estavam completamente destruídos porque já tinham a dimensão do que ele representava para mim. Quando voltei para casa, meu pai tinha revelado uma foto minha com o Domingos e colocado na cabeceira da minha cama. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/07/60e72252819b2/gabriel-leone-carla-salle-atores-casal-capa-tpm-mq.jpg; CREDITS=; LEGEND=; ALT_TEXT=Gabriel Leone]

    Daniel Kupermann: O criminoso é o herói às avessas

    Play Episode Listen Later Jul 2, 2021

    Por que grandes crimes despertam tanto interesse e se tornam espetáculos midiáticos? O psicanalista explica e comenta o caso Lázaro Barbosa Com a morte de Lázaro Barbosa nesta última segunda-feira, dia 28, acabou não só a caçada ao assassino que teria matado violentamente cinco pessoas de uma mesma família no Distrito Federal, mas veio ao fim também mais uma novela macabra à qual o Brasil se vê sugado sempre que um delito fora do comum ocupa o noticiário. Os casos Isabella Nardoni, Eliza Samudio e Suzane von Richthofen são apenas alguns exemplos. "O grande criminoso é aquele que faz o que, de alguma forma, no nosso íntimo, a gente também deseja fazer, ou seja, agir sem ligar para a lei, para ninguém. No fundo ele é um grande egoísta", analisa Daniel Kupermann, doutor em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Consultor da série sucesso do GNT, "Sessão de Terapia", Kupermann ajuda não só a desmistificar algumas questões que foram levantadas durante a megaoperação policial, como comenta alguns supostos distúrbios de personalidade de outro personagem muito discutido também por suas características peculiares de caráter: o presidente da nação. "Bolsonaro faz parte de um grupo que não tem empatia para qualquer um que seja diferente", diz. Em entrevista ao Trip FM, o psicanalista fala ainda sobre a importância do humor, brinca com a psique do paulistano e explica os fundamentos deixados por Freud. Ouça o programa no Spotify ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/07/60df5d905ed31/daniel-kuperman-psicanalista-trip-mh.jpg; CREDITS=; LEGEND="O grande criminoso é aquele que faz o que, de alguma forma, no nosso íntimo, a gente também deseja fazer, ou seja, agir sem ligar para a lei, para ninguém. No fundo ele é um grande egoísta", diz o psicanalista Daniel Kupermann; ALT_TEXT=Daniel Kupermann] Trip. Eu queria que você nos ajudasse a observar o fenômeno desse serial killer brasileiro, o Lázaro. Existe uma série de aspectos a serem vistos: desde a compulsão por matar até a forma maluca como a sociedade acompanhou isso. Queria que você me desse as suas impressões. Daniel Kupermann. O que me interessa é situar o interesse midiático e das pessoas por esse fato. Freud abordou a questão do grande criminoso. Neste caso, ele é alguém que matou muita gente e com frieza, que sabe se esconder, o criminoso mais procurado do Brasil até a sua morte, no começo da semana. Freud compara o grande criminoso a um ser inacessível, como um criança, os felinos ou as belas mulheres, por exemplo. Tem algo de inacessível aí. O grande criminoso nos fascina, Hollywood explorou muito essa figura. Lembra de "Silêncio dos Inocentes"? O grande criminoso é aquele que faz o que, de alguma forma, no nosso íntimo, a gente também deseja fazer, ou seja, agir sem ligar para a lei, para ninguém. No fundo ele é um grande egoísta. Dá para fazer uma ponte com esse momento, com a pandemia. Ela aumenta esse sentimento de desamparo; é diferente quando a morte está na esquina. É um momento de muita vulnerabilidade. As pessoas estão com medo. Aí de repente aparece uma figura que não tem medo de nada, uma figura de grande poder. Muitas vezes o congestionamento em São Paulo é causado por pessoas olhando para a desgraça do acidente. Me parece que esse reality show do Lázaro tem a ver com essa nossa vontade de ver um corpo estendido no asfalto. Existe um nome para isso, em alemão, Schadenfreude, a alegria com a desgraça alheia. É um fenômeno típico humano, é uma alegria velada que existe e está ligada ao fato de que aconteceu com o outro e não conosco. Ela tem uma dimensão de reasseguramento. O caso do serial killer eu pensaria que ocupa um lugar do herói às avessas. Tem algo do grande criminoso que caminha nessa direção até o momento em que ele é morto, aí sim entra esse aspecto do Schadenfreude: quantos tiros levou, onde estão as fotos... Vamos mudar o campo, mas falar ainda sobre pessoas que têm um comportamento difícil de entender. A Marta Suplicy, que é formada em psicologia, fez um comentário interessante em que tentou diagnosticar quais seriam as patologias do presidente Jair Bolsonaro. Como você lê a pessoa que ocupa a presidência nesse momento? A primeira leitura, não tanto de um psicanalista, é de que ele está no lugar errado. Uma pessoa de poder precisa ter um mínimo de decoro e postura, de respeito, pedagogia, uma vez que ele é um exemplo. Demora para você reverter o mau exemplo – quatro anos de mau exemplo. A empatia é um termo que voltou à moda, que a gente usa na psicanálise. É difícil dizer que o presidente não tem empatia porque existe um grupo de pessoas que o apoia. Ele provavelmente tem empatia com esse grupo, mas esse grupo é muito segregador, com muito pouca empatia para qualquer coisa que seja diferente. Essa é uma característica dele, de alguém avesso a toda e qualquer diferença: homossexuais, negros, nordestinos. Em todo comportamento segregador você encontra traços narcisistas muito acentuados. O que eu acho muito ruim, com linhas de perversão, é dizer uma coisa e fazer outra: você fala nas redes contra vacinação e para o público maior diz que está procurando vacinas, por exemplo. Existe uma tentativa de se desresponsabilizar daquilo que acontece com o povo brasileiro. O discurso negacionista contra a ciência é uma maneira de se desresponsabilizar.

    Preto Zezé: O ódio transforma

    Play Episode Listen Later Jun 25, 2021

    O presidente da Central Única das Favelas (CUFA) fala da influência do rap, desigualdade e impacto da pandemia na periferia Foi na favela das Quadras, no bairro de Aldeota, em Fortaleza, que Preto Zezé trilhou o caminho que o levaria a ser um dos mais importantes ativistas na luta contra a desigualdade social. Lá, aos 12 anos, ele tomou uma decisão muito comum aos jovens que ali moravam: largou os estudos e começou a trabalhar, lavando carros, para ajudar a melhorar a renda da família. Uma realidade dura, mas que também lhe trouxe munição para um dia se tornar presidente da Central Única das Favelas, a Cufa. Viver em meio à cultura de rua – da pichação, dos bailes funk e, principalmente, do rap – abriu seus olhos para uma questão até então nebulosa em seu pensamento: o que significa ser preto no Brasil. “A música ajudou a transformar o ódio em indignação", diz. E se o ódio paralisa, como conta, foi a indignação que o fez lutar pelo próximo. Com um discurso claro e calmo pelo qual é conhecido, Preto Zezé contou ao Trip FM sobre o papel de sua mãe em mantê-lo fora do crime, o impacto da pandemia nas favelas e o que o dinheiro significa para ele. Ouça o programa no Spotify ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/06/60d5073deb000/preto-zeze-produtor-cufa-gol-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Raquel Espírito Santo; LEGEND=; ALT_TEXT=Preto Zezé Retrato Preto e Branco] Trip. Eu vou começar falando da dona Fátima. Eu sei que a história dela vai além do orgulho que ela tem hoje por você. Quando você era moleque, ela teve um papel importante em segurar a sua onda. O que ela fez? Preto Zezé. Naquela época a gente tinha ânsia pela rua, um lugar sempre muito atraente, onde ficavam os caras mais comentados, que tinham os olhares das meninas mais bonitas, os melhore panos – as roupas, como diz a gíria. Tudo era símbolo, maneira de sair da invisibilidade. Os indivíduos da favela nunca são percebidos. A busca por visibilidade é muito insana. O que foi interessante foi que a minha mãe soube orientar como navegar esse labirinto. Você deu uma entrevista emblemática para o Roda Viva. É um jeito de olhar para as coisas que você não vê geralmente na televisão. Você diz que no Brasil não se nasce preto, se descobre preto. Quando você se descobriu preto? Descobri entre 15 e 16 anos de idade. Hoje eu tenho 45. O rap ajudou muito. Foi uma época de adrenalina e revolta incontida. O rap ajudou a controlar e até politizar essa revolta. Hoje você já tem um avanço maior, mas naquela época existia uma falta de referências positivas para a constituição saudável de uma identidade negra. Você tinha apenas o rap: um veículo de informação, lazer e denúncia e que ajuda também nessa história da identidade do negro, da releitura da história a partir de uma perspectiva racial. Aí é difícil ficar ileso porque você descobre todo o processo do racismo à brasileira, que muita gente assume que existe, mas ninguém assume que pratica. Fale um pouco sobre essa história da música organizar o ódio na sua cabeça. O que é isso exatamente? O que surge quando você descobre que é negro, quando compreende as origens da desigualdade, compreende o que causou tantas privações, como a de esperar comida de lixo de supermercado, de brigar pelo produto que venceu há menos tempo, é uma erupção de revolta, de ódio, e o rap ajuda a segurar a onda. O rap ajuda a construir o discurso, a fazer dessa revolta uma agenda para que isso se desdobre em ações práticas para reverter essa realidade. À medida que você entende isso tudo, surge um elemento do ódio que é importante porque ele se transforma em indignação. A indignação é um processo permanente de mobilização contra as injustiças. O ódio, na verdade, se você não tomar cuidado, ele vai imobilizar.

    Aretha Duarte: primeira brasileira preta no topo do Evereste

    Play Episode Listen Later Jun 18, 2021

    A escaladora da periferia de Campinas juntou dinheiro catando material reciclável para subir a montanha mais alta do mundo Um princípio de edema pulmonar e queimaduras na retina foram os menores desafios de Aretha Duarte em sua jornada ao cume do Monte Evereste. Esses problemas surgiram apenas durante a escalada, que terminou no dia 23 de maio, a transformando na primeira mulher preta latino-americana a conquistar a montanha mais alta do mundo (8.849 metros de altura). Obstáculos muito mais severos vieram antes, como os 400 mil reais necessários para a viagem. Nascida na periferia de Campinas, Aretha se voltou a uma atividade que conhece desde criança e a qual sempre recorreu quando precisou de dinheiro: a catação de resíduos recicláveis. À medida que pessoas e empresas se solidarizavam com a campanha que recebeu o nome de Aretha no Evereste, mais aumentava a rota da atleta em busca de latinhas, plásticos, papelões e outros materiais. Com uma caminhonete usada, tudo era recolhido e vendido em até oito rotas ao ferro velho por dia. E em pouco mais de um ano o esforço rendeu 35% do valor necessário para a aventura. O restante veio das economias no trabalho como guia em uma agência de aventuras, a Grade 6, também de Campinas, e de patrocinadores que aos poucos foram surgindo, sugados pela determinação da montanhista. "O Evereste é só uma parte do meu objetivo, que é socioambiental", diz já sonhando em levar paredes de escalada à bairros pobres como o seu. Outra barreira foi a da representatividade. O primeiro homem a chegar ao cume do Evereste foi o neozelandês Edmund Percival Hillary, em 1953. Foram precisos outros 22 anos para a japonesa Junko Tabei se tornar a primeira mulher a realizar o feito, em 1975. A primeira mulher negra, Sophia Danenberg, chegaria apenas em 2006. E a primeira mulher negra latino-americana foi Aretha, naquele domingo de maio. Em entrevista ao Trip FM, ela conta detalhes da escalada, fala sobre a dura rotina de treinos e revela o que almeja para o futuro. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir. [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/6/Aretha_podcast.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/06/60ccbd44326a1/aretha-duarte-montanhista-everest-trip-mh2.jpg] Trip. Aretha, vi que sua mãe conta uma história sobre como você comprou seus patins, quando criança, vendendo latinhas para reciclagem. Conta mais um pouco da sua origem, da sua família. Aretha Duarte. Minha mãe é referência de garra e determinação. A mulher que mais amo. A minha mãe e seus irmãos vieram de Pernambuco buscando melhores oportunidades profissionais. Eu sempre fui à escola, escola pública, mas tive acesso à educação. E tinha sociabilização também: na periferia onde moro a gente tem muito contato, muita relação acontecendo na rua. Eu não senti falta de nada, a minha infância foi maravilhosa. Isso foi garantido pelo meu pai e minha mãe. Sou caçula de três irmãos e nós todos sentimos isso. Como foi essa história de catar reciclável? É difícil até imaginar, porque pelo que a gente sabe, o material reciclável gera muito pouco dinheiro para conseguir levantar esse orçamento de 400 mil reais. Trabalhar com reciclável me pareceu uma escolha muito simples, ainda mais no momento de pandemia, no qual as opções eram poucas. Se a gente pensa em um volume pequeno, realmente é difícil imaginar conseguir juntar esse dinheiro todo. Mas foi juntando reciclável que eu consegui aproximadamente 110 mil reais do orçamento total. Foram 130 toneladas ao final. Assim que eu estabeleci que iria escalar o Evereste comecei a espalhar o projeto. As pessoas foram se engajando. As empresas entraram também; nelas o volume era bem maior. Todos os dias depois de decidir fazer a escalada eu trabalhei. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/06/60ccbd5c2996c/aretha-duarte-montanhista-everest-trip-mq.jpg; CREDITS=Gabriel Tarso; LEGEND=Aretha Duarte em sua jornada ao cume do Monte Evereste; ALT_TEXT=Aretha Duarte em sua jornada ao cume do Monte Evereste] O que é que dava força a você durante os maiores perrengues da escalada? O que você mais ficava com saudade da sua vida cotidiana, das pequenas coisas? Por ser uma expedição muito longa, a probabilidade de surgirem adversidades é muito grande. Eu pedi a minha mãe para me levar uma marmita no dia da chegada com o arroz da minha avó, chuchu refogado e bacon – era o que mais sentia falta. A gente come o mesmo cardápio todos os dias na montanha. Quando tive início de edema pulmonar ou queimadura de retina, pensava que talvez não desse para terminar a escalada, mas logo lembrava que a conquista já não era mais minha. Eu lembrava de uma legião de pessoas pretas querendo que eu chegasse. Minha família de pernambucanos desejando o meu sucesso. Lembrava dos doze meses carregando quinhentos quilos de material reciclável todos os dias para tornar isso realidade. Foi essa minha crença que me fez, no dia de ataque ao cume, sentir-me como a pessoa mais forte do mundo, ao ponto de convencer o meu guia a continuar, no momento em que ele sentiu frio e pediu para voltar. Naquele momento senti que a minha tentativa estava frustrada e chorei. Aos prantos, pedi para subir, mas que se ele tivesse que ficar doente, a gente voltava. Ele enxugou minhas lágrimas, colocou minha viseira, minha máscara de respiração e fomos em frente, mais oito horas de caminhada.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/06/60ccbde8662b1/aretha-duarte-montanhista-everest-trip-mh1.jpg; CREDITS=Jennifer Amaral; LEGEND="O Evereste é só uma parte do meu objetivo, que é socioambiental", diz já sonhando em levar paredes de escalada à bairros pobres como o seu; ALT_TEXT=Aretha Duarte]

    Marcello Airoldi: O Brasil pode afundar ainda mais

    Play Episode Listen Later Jun 11, 2021

    Dramaturgo fala sobre chegada tardia à televisão, política e o momento do teatro brasileiro Quando estreou na televisão no papel do cafajeste Gustavo, na novela da Globo "Viver a Vida", Marcello Airoldi tinha 39 anos. “As pessoas perguntavam onde é que eu estava antes." A resposta é fácil: fazendo teatro já há vinte anos. Difícil mesmo é encontrar Airoldi fora dos palcos; o normal é vê-lo equilibrar duas ou três peças simultaneamente. Mesmo na pandemia o dramaturgo correu atrás e lançou espetáculo on-line, além de um canal no YouTube que já teve Cacá Carvalho, Renato Borghi e Eriberto Leão em leitura de textos clássicos. "O teatro online está em desenvolvimento e nós vamos ficar com ele ainda muito tempo", afirma. Um estudioso das artes, formado na Escola de Arte Dramática da USP, o ator não se furta a pensar a realidade, que invariavelmente acaba retratada com olhar crítico em suas obras. Sobre o que o Brasil passa hoje, ele dispara: "Eu acho que ainda tem como piorar; mas vai existir um limite, um ponto máximo que possa gerar uma revolução social".   Em entrevista ao Trip FM, Marcello Airoldi ainda falou sobre envelhecimento e lembrou um teste de elenco desastroso. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir.  [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/6/Airoldi_podcast.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/06/60c3a95094b48/marcello-airoldi-ator-trip-mh.jpg] Trip. Você estourou do dia para noite. Veio de uma longa jornada no teatro, mas de repente, aos 39 anos, chega na maior vitrine do país, com a novela "Viver a Vida". Vamos começar com esse momento. Foi um grande marco para você? Marcello Airoldi. Eu costumo dizer que cheguei na televisão velho. Tem muitos atores que começam a carreira cedo nas novelas. Tinha muita gente que me perguntava onde eu estava. Como assim? Eu estava fazendo teatro, tocando o departamento de cultura da minha cidade Natal, Barueri. Escrevendo. Muita gente, inclusive da própria família, passa a considerar você como artista só depois que você faz uma novela. É engraçado. Eu não procurei televisão na minha formação. Meu objetivo sempre foi o teatro: queria dirigir, escrever. Tudo isso não é tão fácil na televisão. Por esse motivo eu cheguei muito tarde, mas cheguei pela porta da frente. Talvez até por ser coroa. Eu comecei algumas coisas muito tarde, meu primeiro filho nasceu quando eu tinha 43 anos. Na época da novela, em entrevista, você fala uma coisa que naquele tempo era normal, mas talvez hoje não caísse bem. Se referindo ao seu personagem, diz que mulher gosta mesmo é de homem cafajeste. Como você vê isso hoje? A gente não pode falar tudo o que quer, do jeito que quer. Corremos o risco de invadir uma seara que você não conhece e aí se torna apenas um palpiteiro. Hoje eu jamais falaria essa frase do cafajeste. A nossa relação com a formação social do machismo ficou mais clara, mudou a medida em que a gente tem mais acesso a informação e que começa a discutir com pessoas que conhecem. O meu personagem era muito ruim: traía a mulher, era de fato um cafajeste, mas o núcleo cômico que ele fazia parte acabava aliviando essas características. Olhando qualquer indicador, estamos em um momento muito ruim. Piorando índices que já eram péssimos. Você acha que a gente dá uma virada nesse jogo ou ainda afunda mais nesse poço? Eu acho que nós temos o risco de afundar mais. Nós precisamos enxergar que uma geração pode ir mudando outra. Nós tínhamos conseguido, de alguma forma, dialogar um pouco melhor com racismo e homofobia, em algum momento do Brasil. Começou a gerar um incômodo aquela voz preconceituosa no caminho que o mundo começou a tomar. Agora temos pessoas vociferando esses absurdos novamente, dando apoio ao que já vinha se extinguindo. Meus filhos precisam estar em uma escola legal, com pensamento progressista. São coisas que levam tempo. Esse buraco que a gente entrou vai dar condições para que a gente consiga sair dessa situação: as pessoas vão ter que mudar, caso contrário vão morrer. Tem um limite que virá com uma possível revolução social [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/06/60c3a96b79a43/marcello-airoldi-ator-trip-mq.jpg; CREDITS=; LEGEND=; ALT_TEXT=]

    Kondzilla: Me motiva atuar onde ninguém mais quer

    Play Episode Listen Later Jun 4, 2021

    Gigante da audiência, produtor fala sobre desigualdade, novos projetos e empreendedorismo Konrad Dantas, o Kondzilla, nasceu no Guarujá, cidade como tantas outras no Brasil onde a disparidade social se faz notar à primeira vista. Criado em um conjunto habitacional anexo ao mangue, ele lembra de comentar com o irmão, ainda criança, que um dia moraria em um dos condomínios de luxo à beira-mar. “Sempre soube que viveria da música", fala como quem nunca duvidou de um futuro melhor. A escolha do apelido – uma mistura de seu nome de batismo com Godzilla, o personagem do imaginário japonês – serve como prova da ambição: Kond, como é tratado pelos amigos, de fato se tornou um gigante. Seu canal do YouTube, um dos grandes estopins para a explosão do funk no Brasil, conta visualizações aos bilhões e sua empresa não para de expandir, somando agência, licenciamento de marca e portal de conteúdo à já consagrada produtora de videoclipes. De lá, saíram séries como "Sintonia", exibida pela Netflix, com segunda temporada prometida para este ano, além do documentário "Lexa: Mostra Esse Poder", sobre a cantora, que também sai em 2021, mas dessa vez no catálogo da GloboPlay. "O que mais me motiva é atuar onde ninguém quer trabalhar", conta. Em entrevista ao Trip FM, comenta outros projetos, lembra do apoio da mãe, que morreu quando ele tinha dezoito anos, e exibe seu lado empresário.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/06/60b7db3710ca6/kondzilla-produtor-diretor-funk-trip-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Kondzilla; ALT_TEXT=Kondzilla] Trip. Eu sei que ali no Guarujá tem de tudo um pouco: de condomínios com praias particulares até situações de miséria absoluta. De onde você é exatamente? Me conta um pouco qual é a sua origem e como era conviver com essas diferenças? Kondzilla. Eu cresci em um conjunto habitacional chamado CDHU que ficava fora da zona urbana, próximo ao mangue do bairro de Santo Antônio. Depois que ouvi banqueiro falando que passou por uma vida difícil, fica até complicado comentar o que é ter uma vida difícil. Cada um tem as suas dificuldades. Naturalmente, também tive as minhas. Gosto de citar uma situação que aconteceu com meu irmão. Minha mãe foi fazer um bico em um condomínio de luxo e nós fomos juntos. Lembro de falar para ele que um dia, com toda certeza, iríamos morar ali. Hoje eu moro neste mesmo condomínio. Tem pessoas que parecem que já tem uma rota traçada desde cedo. Você tinha essa clareza de que iria dar certo, que se daria bem na vida? É difícil falar sobre isso neste momento, mas eu sempre tive certeza de que viveria de música. Tentei trilhar esse caminho por estradas diferentes: achava que seria como cantor, depois produtor musical e acabou acontecendo como diretor de videoclipe. E, sim, graças a Deus hoje eu vivo de música. O meu core business é a música. Eu sei que talvez esteja cansado de falar sobre isso, mas você é um dos grandes estopins da popularização do funk no Brasil. Como isso aconteceu? Eu falo sobre isso com muito orgulho. O contrário seria como se os Rolling Stones fizessem um show e não tocassem Satisfaction. Faz parte da minha história. Eu experimentei fazer diversos conteúdos. Comecei com esportes radicais porque achei que seria difícil entrar no mercado da música, mas o que aconteceu foi que eu era pago com produtos, em permuta. Não fazia sentido. Eu já estava desanimado, depois de fazer vídeo de surf, de skate e outros esportes, pensei em aplicar o mesmo modelo para música, testando vários gêneros – pagode, rock, sertanejo, funk e rap. O segundo clipe de funk que eu fiz bombou e o terceiro deu um milhão em duas semanas. Foi isso, decidi que era ali que tinha que investir. Você tinha algum curso ou foi totalmente na raça? Quando a minha mãe faleceu, ela deixou um seguro de vida. Nós investimos esse valor em educação. As companhias de seguro chamam de prêmio, mas eu não acho que seja: perdi a minha mãe. A minha posição hoje está muito baseada nesta visão dela, de deixar esse dinheiro. Eu não sei por qual motivo, mas ela fez três seguros de vida. Diariamente eu faço esse exercício de ficar imaginando o motivo pelo qual ela fez isso. Desde criança ela me preparou muito para esse momento. A gente ainda vai se encontrar e vou agradecer por tudo isso.

    Sérgio Mamberti: Doutor Victor formou gerações

    Play Episode Listen Later May 28, 2021

    O ator, que acaba de lançar biografia, fala sobre infância, relembra trabalhos e promete volta de personagem de Castelo Rá-Tim-Bum Com Sérgio Mamberti ao lado, não se pode citar seu papel em Castelo Rá-Tim-Bum sem receber em troca um sonoro "Raios e trovões", bordão do Doutor Victor na série infantil. Mamberti adora ser lembrado pelo personagem, pois é um daqueles pelo qual é parado na rua para conversar e dar autógrafos. Mas a verdade é que o ator – com mais de sessenta anos de carreira – coleciona trabalhos memoráveis. Eugênio, o mordomo da novela Vale Tudo, é outro exemplo, mesmo não tendo sido confirmado como o assassino de Odete Roitman. São todas essas inserções na dramaturgia brasileira que compõem a biografia Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc), recém-lançada em parceria com o jornalista Dirceu Alves Júnior. "É um livro feito de encontros”, define o biografado, ao lembrar de sua temporada com Fernanda Montenegro durante as apresentações da peça Alta Sociedade, em 2001. Fernanda, inclusive, assina o prólogo, no qual define seu colega de ofício como "ator absoluto". Em entrevista ao Trip Fm, Sérgio Mamberti relembra outros momentos de sua trajetória, a começar pela vida em Santos, fala sobre a finitude da vida e promete a volta do Tio Victor à grade da TV Cultura. Sobre trabalhar com atores mais jovens, relata: "Nunca me coloco na posição de mestre". Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir. [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/5/Mamberti_podcast.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/60b13b2954609/sergio-mamberti-ator-produtor-diretor-trip-mh.jpg] LEIA TAMBÉM: Fernanda Torres só e bem acompanhada Trip. O conteúdo do livro é uma das coisas mais legais do mundo, que é a sua vida. Eu descobri, por exemplo, que você é de uma das cidades que eu mais gosto, Santos. Fale um pouco sobre o que é ser santista. Sérgio Mamberti. Isso foi, certamente, uma coisa marcante na minha vida, porque a minha família – por lado de pai e também de mãe – tinha uma vida marítima. Meu avô paterno viajou o mundo, falava onze línguas. No fim da vida, resolveu vir para Santos. A minha avó, uma jovem santista, o conheceu quando passou a ajudá-lo a cuidar da primeira esposa. Quando ela morre, ele então pede minha avó em casamento. Ele tinha quase sessenta e ela vinte e poucos. Era um lobo do mar, um homem ilustríssimo. Minha mãe é natural de São Sebastião. Esse universo extenso, de portas abertas para o mundo, enriqueceu muito a minha infância. Eu costumava ir com meu avô ver os navios no cais. É uma coisa impressionante como a gente estabelece uma relação sonhadora com esse mar vasto.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/60b13b6373f54/sergio-mamberti-ator-produtor-diretor-trip-mh2.jpg; CREDITS=Reprodução; LEGEND=Sergio Mamberti contracena com Nathalia Timberg na novela Vale Tudo; ALT_TEXT=Sergio Mamberti contracena com Nathalia Timberg na novela Vale Tudo] Uma das vantagens de ter mais de sessenta anos de carreira é que quase todo mundo que está vivo hoje conhece e lembra de algum personagem seu. Como foi escolher essa profissão na época em que você começou? Minha mãe era professora, incentivou muito a leitura. Papai era diretor social do Clube Internacional de Regatas: fazia toda a parte de animação social. Uma vez por mês a gente assistia a um concerto e todos os anos, nas férias, viajávamos para São Paulo para ir ao teatro e ao cinema. As salas ali da Cinelândia eram deslumbrantes. Eu e meu irmão fomos criados dentro desse ambiente de incentivo à cultura. No fim, ambos fomos fazer teatro. A minha mãe conhecia a mãe do Plínio Marcos. As duas estavam conversando quando ela disse: Você acredita que meus dois filhos resolveram fazer teatro? Você coloque as mãos para o céu, a mãe do Plínio respondeu. O meu foi fazer circo. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/60b13bd8b5311/sergio-mamberti-ator-produtor-diretor-dirceu-alves-trip-mq.jpg; CREDITS=Matheus José Maria; LEGEND=A biografia de Sérgio Mamberti, Senhor do Meu Tempo (Edições Sesc), recém-lançada em parceria com o jornalista Dirceu Alves Júnior; ALT_TEXT=Dirceu Alves Júnior e Sérgio Mamberti sentados livro na mão ] O impacto nas pessoas do personagem de Castelo Rá-Tim-Bum eu consigo entender, mas fiquei surpreso ao ver que ele é também o seu personagem preferido. Você já contracenou com Paulo Autran, com Raul Cortez. É surpreendente que você tenha esse como o seu personagem favorito. Por quê? Porque esse esse personagem cumpriu uma missão. A missão de formação. O Castelo Rá-Tim-Bum foi feito para ser uma obra de formação de gerações e realmente está cumprindo isso. De repente eu vou com o [Gilberto] Gil conhecer uma etnia indígena do Xingu e quando termina o ritual as criancinhas, todos com as pinturas corporais, começam a gritar: Tio Victor, Tio Victor. São momentos muito especiais. Agora eu estava no hospital para fazer exames e os enfermeiros disputavam para ver quem iria cuidar de mim. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/60b13c56e1208/sergio-mamberti-ator-produtor-diretor-trip-mh4.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Sérgio Mamberti em sua temporada com Fernanda Montenegro durante as apresentações da peça Alta Sociedade, em 2001; ALT_TEXT=Sérgio Mamberti e Fernanda Montenegro no palco do teatro]

    Otaviano Costa: A internet transformou o entretenimento

    Play Episode Listen Later May 21, 2021

    Dois anos após deixar maior emissora do país, o apresentador avalia carreira na internet e fala sobre bastidores da TV Um verdadeiro canivete suíço da televisão, Otaviano Costa pavimentou seu caminho como apresentador ao topar tudo o que foi jogado em sua direção: começou com VJ na MTV – quando a profissão era sonho de qualquer jovem dos anos de 1990 –, mas foi também ator de novela, fez personagem na reedição da Escolinha do Professor Raimundo e dublou desenho da Disney. Quando esteve na Rede Globo, foi paciente, permeou os programas de emissora por dez anos, de Amor & Sexo ao Vídeo Show, até finalmente ganhar o próprio, Tá Brincando, que estreou em 2019. A vitória, no entanto, teve gosto agridoce: "A Globo era cada vez mais uma só Globo, enquanto eu queria ser muitos Otavianos". A falta de liberdade para tocar o quadro e a incerteza com a estreia da segunda temporada foram o estopim para romper o contrato de trabalho, que ainda tinha um ano de validade, e se atirar na internet. No início utilizou o YouTube para dar vazão ao que saia de um estúdio novinho que ele construiu no Rio de Janeiro. Depois entrou o Uol e o programa Otalab, transmitido ao vivo todas as quintas-feiras pelo portal de notícias. Hoje, com os influencers Whindersonn Nunes e Felipe Neto como exemplo, o apresentador diz controlar o próprio destino. Em entrevista ao Trip FM, Otaviano fala em detalhes da mudança na carreira e conta sobre os bastidores da televisão, a família e comenta o momento atual do Brasil. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir.  [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/5/otavianocostapodcast.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/60a7d274e2806/997x997x960x540x18x228/otaviano-costa-ator-trip-mo.jpg] Trip. Você traçou uma estratégia e um plano de carreira e acabou chegando no lugar que para muita gente é o topo, apresentar um programa na Rede Globo. Aí, por uma iniciativa sua, decidiu sair. Como foi isso?  Otaviano Costa. Foram dez anos muito legais na Globo. Fui muito feliz lá em todos os projetos, do Amor & Sexo ao Vídeo Show. As novelas também: escolas de dramaturgia ao lado de professores enormes. A emissora estava num momento de transformação e eu também estava inquieto. Brinco que a Globo estava se tornando uma só Globo e eu estava me tornando muitos Otavianos. Quando pedi um novo desafio, porque estava há cinco anos na bancada do Vídeo Show, esperava ganhar um programa em que pudesse mostrar essa multiplicidade: cantar, dançar, brincar, interpretar e chorar. Mas o Tá Brincando me embalava. Eu tenho muita energia, sou movido muito pelo que faço. Foi quando decidi sair e planejei a construção de um estúdio. Entendi que a minha felicidade era uma balança muito maior, independentemente da questão do dinheiro. Essa foi a decisão mais movida pela felicidade da minha vida. Em menos de dois anos realizei coisas incríveis que nem nos meus melhores sonhos poderia imaginar que alcançaria dessa maneira. É engraçado porque talvez uma das suas principais qualidades foi também algo que atrapalhou, que é o fato de você ser bastante eclético, talvez não se encaixando em gaveta nenhuma. Faz algum sentido isso? Faz, mas o mundo se transformou. Eu tenho minha banda, atuo na novela, faço dublagem para a Disney, trabalho como locutor na rádio.... Lá atrás isso virou um problema porque realmente teve um momento que falei: tenho que ser comunicador. Quando eu estava atuando em Salve Jorge, tive vontade de sair da Globo para poder me dedicar como comunicador. Foi quando comecei no Amor & Sexo. A escola da multiplicidade de talentos é muito melhor explorada nos Estados Unidos. Acho que esse estilo se cruza com o Brasil na internet. Olha o que o Whindersson Nunes está fazendo: filme, cantando músicas sérias e lindas, faz o digital, faz chorar e faz rir. Ele pode ser ele. Essa galera reinventou o modelo do entretenimento.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/60a7d4d93fe0a/otaviano-costa-flavia-alessandra-atores-trip-mh2.jpg; CREDITS=Reprodução Instagram; LEGEND=Um verdadeiro canivete suíço da televisão, Otaviano Costa pavimentou seu caminho como apresentador ao topar tudo o que foi jogado em sua direção; ALT_TEXT=Otaviano Costa Flavia Alessandra Família] É inevitável perguntar. Você consegue manter o salário que tinha dentro de uma instituição como a Globo? Consigo ganhar mais porque tenho todo um modelo de negócio sob o meu guarda-chuva. Quando eu tinha um programa como apresentador, com um baita salário, eu ficava suscetível aos outros. Hoje eu tenho uma agência que administra minha carreira e a da Flávia [Alessandra]. É incrível porque o dinheiro também mudou de lugar, de prateleira. Tem um dinheiro que não está indo mais para a TV aberta. E eu entendi que aqui fora posso gerar muito mais negócios, livre de um contrato. A gente está falando de um lugar de privilégios. Há muita gente morrendo, milhões de desempregados, um desgoverno maluco. Como que isso o afeta, você que é um cara de natureza positiva? Sinto muita tristeza. Acho que o debate político se esvaziou, a bipolaridade ganhou tons de agressividade. Muita gente que ainda morre e muita gente que eu vi morrendo perto de mim. Muita gente quebrada, muita gente sem futuro e perspectiva e a politicagem feita em cima da ciência. Tem dia que a gente acorda sem energia, mesmo nesse local absolutamente abençoado, privilegiado, com tudo do bom e do melhor. Você vê as barbaridades que são ditas por todos deste desgoverno, o silêncio do Congresso durante o pior momento da pandemia. Sabe que eu fico imaginando como será isso em outros países que têm pelo menos uma ética cidadã. Tão triste ver a ciência sendo combatida com brutalidade. A discussão perdeu a graça. Eu, que sempre gostei de falar de política, não me vejo representado pelo Bolsonaro. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/60a7d49ed7a7b/otaviano-costa-flavia-alessandra-atores-trip-mh1.jpg; CREDITS=Reprodução; LEGEND=No início utilizou o YouTube para dar vazão ao que saia de um estúdio novinho que ele construiu no Rio de Janeiro. Depois entrou o Uol e o programa Otalab, transmitido ao vivo todas as quintas-feiras pelo portal de notícias.; ALT_TEXT=Otaviano Costa]

    Guga Chacra: Esse não é o pior momento da nossa história

    Play Episode Listen Later May 14, 2021

    Correspondente da GloboNews em Nova York, o jornalista fala sobre o amor pelo esporte, pandemia, Donald Trump e Jair Bolsonaro Já se falou muito do visual despenteado e do jeito moleque de Guga Chacra. Mas a dicotomia entre o terno e a pitada de desleixo tem raízes muito claras na história do jornalista. Com a mãe, nadadora, ele pegou a paixão pelo esporte. Cai na água regularmente, deixa o cabelo secar de qualquer forma, e corre para fazer sua análise diária de política internacional, pela GloboNews. Já o interesse pelos assuntos do mundo veio do pai. Com ele, antes de escolher a profissão, fez uma viagem marcante que passou por Líbano, Síria, Jordânia, Israel, Palestina e Egito. Guga nega a imagem do intelectual sisudo porque a notícia sempre se encaixou na sua vida de forma leve e natural entre outras paixões, desde muito jovem. "Na subida da praia, enquanto os amigos escutavam música, eu gostava de ligar o rádio no noticiário”, conta. Em outro momento, lembra de correr para a mãe empolgado para contar sobre o congelamento de preços do Plano Cruzado. E é esse jeito de menino encantado que o comentarista político mostra quando está ao vivo. Embora às vezes se emocione durante uma fala – como quando Nova York, onde mora, entrou em quarentena no início da pandemia pelo novo coronavírus –, sabe se posicionar com calma e firmeza. Sobre o atual cenário, dispara: “As pessoas sempre acreditam no contrário, mas esse não é o pior momento da nossa história”. Fora do país há dezesseis anos, Guga Chacra conversou com o Trip FM sobre Donald Trump, Jair Bolsonaro, o amor pelo esporte, a infância entre outros assuntos. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir. [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/5/Guga_podcast.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/609ecbdc2ed0d/guga-chacra-jornalista-globonews-trip-fm-mh.jpg] LEIA TAMBÉM: Malu Gaspar dá a cara a tapa Trip. Você já disse ser uma pessoa que faz o possível para mostrar que o mundo não está de cabeça para baixo, que tudo é apenas uma questão de perspectiva. O mundo está de cabeça para baixo ou não? Guga Chacra. Não. As pessoas sempre acham que está no pior momento, mas ao longo da história existiram outros muito piores. Quando você olha de longe, os anos de 1990 foram mais estáveis, com o fim da União Soviética e a democratização de vários países do leste europeu. Mesmo assim, aconteceu o genocídio em Ruanda naquele período. Quer dizer, sempre depende de onde você está. A pandemia não era um fato inesperado. Bush, Obama e Bill Gates foram alguns dos que já haviam citado essa possibilidade no passado. O que impressionou foi que poucos países estavam preparados. Alguns conseguiram se preparar rapidamente. A própria China seria um exemplo disso. A grande decepção, e que chocou muita gente, foi o mundo ocidental. Estados Unidos, Reino Unido e Canadá com um desempenho medíocre. A gente viveu uma época em que os Estados Unidos era o país do futuro. Eu acho que essa pandemia mostrou esse cenário de mudanças. A China emerge hoje como grande potência. É complicado porque é uma ditadura que viola os direitos humanos, mas que começou a rivalizar com os Estados Unidos não tem como negar mais. Eu queria que você falasse sobre essa certa idolatria atrelada ao seu nome. Ao que você atribui o sucesso nas redes sociais, até com pessoas mais jovens, que não seriam exatamente o seu público? Acho que é preciso saber usar as redes sociais para brincar, não se levar muito a sério. Sou palmeirense e cresci no período em que o Palmeiras ficou muito tempo sem ser campeão. O Palmeiras até chegar a Parmalat era motivo de gozação. O futebol me ajudou muito nesse aspecto. O polo aquático, o esporte de clube, também. Assim como o fato de ter crescido indo para praia, no litoral norte paulista. Não me encaixo nesse perfil intelectual. Eu sou muito mais uma pessoa que cresceu no meio do esporte ou na praia. Quando precisa, eu falo sério, mas quando é uma coisa alegre não tem porque não deixar tirarem sarro. Se ficar bravo, aí é que vai se dar mal. Você já disse que enquanto seus colegas de faculdade estavam mais ligados em escrever, você tinha interesse na notícia. Explica qual é essa diferença? Tem muita gente que vai para o jornalismo porque escreve muito bem. Eu sempre fui viciado em notícia; não era daquelas pessoas com um texto fantástico. Longe disso. Eu lembro do congelamento de preços no Plano Cruzado, quando eu corri em casa para contar para minha mãe. Tem aquela adrenalina. Lembro de ver a CNN americana, isso novinho, de voltar da praia querendo escutar notícia, literalmente. Estar no ar, em um momento importante, com a cara no telão, isso dá uma adrenalina que você não quer ir para casa. É vício. LEIA TAMBÉM: Na CNN Brasil, Luciana Barreto não quer ser a "âncora negra" [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/609ecc21f3756/993x993x960x960x16x16/guga-chacra-jornalista-globonews-trip-fm-mq.jpg; CREDITS=Marcelo Gomes; LEGEND=Com a mãe, nadadora, ele pegou a paixão pelo esporte. Cai na água regularmente, deixa o cabelo secar de qualquer forma, e corre para fazer sua análise diária de política internacional, pela GloboNews.; ALT_TEXT=Guga Chacra Toca de Polo Aquático na Cabeça] Acho muito interessante essa desconstrução da figura do intelectual. Você fala bastante sobre a natação, sobre o polo aquático. Mas até hoje no Brasil existe o entendimento de que praticar esporte não seria uma demonstração de inteligência, mas um habito de jovem vagabundo. Em 2021 ainda há essa percepção. Faz sentido isso? É interessante pensar que nos Estados Unidos são as universidades que valorizam o esporte. Aqui [nos EUA], eles não fazem essa diferenciação. Eu acho o esporte uma das coisas mais importantes para a formação de caráter. Você pode acabar na reserva, que é algo que pode acontecer no futuro da sua vida, é preciso conviver com a questão do chefe, que é o técnico. Aprende a perder e quando perde, perde todo mundo junto. É muito legal, na adolescência, eu sempre falo, poder morar um ano fora do Brasil e praticar um esporte coletivo. Marta Suplicy fez um diagnóstico da patologia que o presidente Jair Bolsonaro estaria apresentando. Ela fala em um quadro psicótico que tem como um dos principais sintomas aparentes a falta de empatia. Qual a sua análise sobre o nosso Bolsonaro? Falam isso do Donald Trump também. Mas eles são diferentes. Trump se acha a pessoa mais inteligente do mundo, a mais bonita do mundo. Não tem empatia nenhuma com as pessoas. Agora, ele tem uma questão que o Bolsonaro não tem: é impossível negar que ele é um grande comunicador. O Bolsonaro até tenta imitar, mas não consegue. Ele é uma figura que representa um Estados Unidos enquanto o Bolsonaro talvez seja uma coisa um pouco mais acidental. Mas a falta de empatia dos dois me chama a atenção. Não teria motivo para culpar o Bolsonaro pela economia se ele pelo menos tentasse. E é natural que vá mal durante a pandemia.

    Pedro Sirotsky: Doei todas as minhas gravatas

    Play Episode Listen Later May 7, 2021

    Depois de quarenta anos preso à vida de escritório, o ex-executivo persegue sonhos perdidos, se volta para música e lança documentário Uma vida com grana, mas incompleta. Foi assim que Pedro Sirotsky passou seus dias desde que foi persuadido pelo pai a largar, aos 22 anos, o cargo de apresentador e a condição de popstar. Na época, ele tocava o programa Transasom, exibido no rádio e TV do Grupo RBS, afiliada da Globo no sul do país. Com Rolling Stones e Beatles na playlist, o então garoto estourou, chegando a receber três mil cartas por semana. Não faltaram festas da turma do “sexo, drogas e rock and roll”, como define. Mas a cobrança de um vida mais regrada veio, Sirotsky trocou a farra pelas gravatas (chegou a colecionar 200 modelos) e mergulhou no mundo empresarial: “Levantava do quarto de hotel à noite e batia a cabeça na parede porque esquecia onde estava.” E assim passaram mais de quarenta até finalmente voltar às artes com Mr. Dreamer, um docudrama que leva Pedro até Dublin, onde divide experiências de vida com uma nova geração de músicos, em cartaz na Globoplay a partir de 14 de maio. Pedro Sirotsky conversou com a Trip FM e explicou por que decidiu largar tudo aos 64 anos, falou sobre a relação com o pai, que o tirou da trajetória que havia escolhido, e lembrou histórias do mundo corporativo. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir. [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/5/TripFM_pedro_Siro_podcast_02.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/60955df67a946/trip-pedro-sirotsky-mh3.jpg] LEIA TAMBÉM: "A sorte não moral ou ética", diz Nelson Motta Trip. Quem não é da região sul não conhece tanto, mas qualquer pessoa com mais de 45 anos que seja de lá vai lembrar do programa Transassom. Na época era um grande privilégio ter acesso ao rádio e à televisão. Como é que foi participar disso numa idade tão jovem? Eu era um moleque de dezessete anos que tinha começado a trabalhar aos dezesseis na rádio. Foi quando veio a possibilidade de apresentar um programa, o Transassom, na Rádio Gaúcha. Pouco tempo depois fui convidado para fazer uma versão do Sábado Som, da TV Globo, apresentado por Nelson Motta. Aí eu peguei o acervo que já existia e resolvi dar a minha pitada. Eu era um roqueiro ascendente, digamos assim. Nunca fui músico, nunca toquei, nunca cantei, mas sempre amei a música. Comecei a fazer do meu jeito. E o patrocinador do programa Transassom sugeriu que unificássemos a marca. E aí então surgiu o Transassom na televisão, aos sábados, às duas da tarde. Imaginem isso na sociedade conservadora do Rio Grande do Sul, na década de 70. Chega lá um menino, com vínculos familiares, porque eu pertenço à família fundadora do Grupo RBS, e dá um choque anafilático em uma programação muito conservadora, com os Rolling Stones e Beatles. Comecei a sentir a repercussão através de cartas. Recebia três mil cartas por semana. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/60955e51aa0a1/trip-pedro-sirotsky-mh2.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=O documentário Mr Dreamer fala sobre como uma trajetória perdida pode doer; ALT_TEXT=Pedro Sai do Carro Deixa a Porta Aberta Caminha na Areia Praia Mar] Como foi o momento em que seu pai falou para parar com a brincadeira? Você está em uma trajetória e de repente vem o chefe e dá uma trancada na história. Como é que foi esse momento? Quando você estava me perguntando isso, me veio uma imagem na cabeça que é mais ou menos assim: é como se estivesse ali, de copiloto, dentro de um grande avião com meu pai. Então ele desliga o motor e me passa o comando. Foi muito difícil. Eu não tinha maturidade. É meio paradoxal porque eu já estava há cinco anos no ar. Eu tenho filhos e a gente tem um vício natural, que não é mal-intencionado, de querer colocar os nossos sonhos na cabeça dos filhos. Cada um tem o direito de seguir o seu caminho. Foi uma interferência natural de um pai poderoso, de um pai forte. Eu tive que concordar com ele. E quero deixar bem claro que foi uma outra etapa da minha vida que não foi ruim, não foi difícil, não foi triste e não foi infeliz. Ela foi cheia de novas descobertas e de aprendizado. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/60955eb8485fb/trip-pedro-sirotsky-mh4.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Mr Dreamer; ALT_TEXT=Pedro Caminhando Areia Praia Cachorro] LEIA TAMBÉM: "Sou um realizador dos meus sonhos", diz Tito Rosemberg Existe um conceito da psicanálise de que não se pode comparar sofrimento. Na minha experiência, pelo menos alguns dos relatos mais dramáticos, são de herdeiros que se sentem aprisionados nas histórias de seus pais. O documentário Mr. Dreamer fala sobre como uma trajetória perdida pode doer. Queria que você falasse um pouco mais desse sentimento de não estar fazendo a sua história, mas continuando a de alguém. É um motivo de muito orgulho fazer parte da história da empresa. Foram anos de muito sucesso. Isso deu muito conforto em relação aquele sonho que estava interrompido. Por outro lado, de repente eu me senti no piloto automático – eu digo isso no filme. O mundo corporativo tem essa característica. Eu tinha uma rotina sem liberdade, de pegar avião todas as semanas. Minha agenda estava lotada com oito meses de antecedência de compromissos quase que políticos. Quantas vezes eu acordei em um hotel, levantando para ir ao banheiro, e bati a cabeça em uma parede porque não lembrava onde estava. E agora eu me pergunto: será que essa forma de viver não é uma das causadoras dessa lamentável pandemia? Não é só uma questão sanitária, é sociológica. Eu desejo que o novo mundo não tenha nenhuma característica do ambiente corporativo atual. As pessoas precisam mudar, precisam entender que aquilo ali tem um lado de resultados, mas também tem um lado tóxico invisível. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/05/60955ee6556d7/trip-pedro-sirotsky-mh1.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Pedro Sirotsky e Lica Melzer; ALT_TEXT=Pedro e sua esposa Lica] A impressão que dá é de que você estava de alguma maneira antecipando certas visões que estão acontecendo hoje. Você era uma espécie de ovelha negra, um bicho meio estranho tentando se adequar ao sistema e ao mesmo tempo usando isso para inovar e para criar. Imagino que deva ter também produzido algum grau de rejeição. Era isso mesmo? Era isso mesmo. Não que eu me considerasse uma ovelha negra, mas inconscientemente me sentia assim. Tenho essa clareza nos dias de hoje, por conta de quase cinquenta anos trabalhando. Várias vezes eu devo ter sido percebido como esse rebelde, embora eu não quisesse ser visto assim. Eu tinha uma coleção de duzentas gravatas. Uma diferente todos os dias – isso era parte daquele mundo. Mas tentei várias vezes não usar e era visto como alguém que queria ser diferente. Dei todas as minhas gravatas. Não tenho mais nenhuma. Onde está escrito que é preciso usar uma gravata? Eu não chegava a fazer provocações, precisava respeitar o sistema, mas passava as minhas posições com clareza.

    Mariana Lima: Não dá pra ficar calada

    Play Episode Listen Later Apr 30, 2021

    A atriz e produtora fala sobre política, casamento, drogas e a importância da televisão para enfrentar preconceitos Mariana Lima está acostumada a fazer mergulhos profundos em suas personagens, que já exigiram de aulas no Carandiru a encontros no narcóticos anônimos durante a preparação. Os papéis polêmicos nunca lhe escapam e a atriz se prepara para estrear em duas produções da Rede Globo que envolvem debates ainda cercados por tabus, como drogas e homoafetividade. Ela está escalada para a novela das 9 "Um Lugar ao Sol", em que interpreta uma mulher que revê seu casamento ao se apaixonar por outra mulher, e protagoniza a série "Onde está meu Coração" ao lado de Fábio Assunção e Letícia Colin. A atriz e produtora não se cala diante de nada. Fala sobre drogas, sexo, casamento e não se arrepende de expor seus posicionamentos políticos. No começo do ano, publicou um vídeo pedindo que o então presidente da Câmara, Rodrigo Maia, abrisse os pedidos de impeachment de Bolsonaro. "A gente está vivendo uma aberração política, não dá pra ficar calada", diz. "Se eu perco um seguidor por me posicionar, não me interessa. Não vou ficar conversando com uma pessoa que me manda à merda dizendo que eu sou comunista". Casada há mais de 20 anos com o ator Enrique Diaz e mãe de duas filhas adolescentes, Mariana bateu um papo com o Trip FM sobre seu modelo ideal de casamento – ela e o companheiro escolheram viver em casas separadas –, a hipocrisia que cercam as drogas e a importância da televisão para escancarar os preconceitos. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir. LEIA TAMBÉM: Mariana Lima bateu um papo com a Tpm em 2011 nas Páginas Vermelhas [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/04/608b36044040d/mariana-lima-atris-trip-mh.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Mariana Lima com seu pai e sua mãe; ALT_TEXT=Mariana Lima Bebê Pais Adolescente] Trip. Eu me lembro de ter ouvido você dizer que nunca pensou em casar, mas você está com o Enrique há mais de 20 anos e tem duas filhas. Eu vi aqui que vocês resolveram oficializar a relação, casar. Qual foi o clique que deu? Mariana Lima. A gente nem casou oficialmente, fez uma comunhão de bens num cartório de Copacabana porque o Kike estava comprando um sítio com a irmã e os nossos bens tinham que ser separados. Mas a gente teve um casamento 20 anos atrás feito no quintal da casa dos pais do Kike, aqui no Rio de Janeiro. Nesse tempo enorme juntos foram vários tipos de acordos e de contratos de casamento. Agora a gente é casado, mas em duas casas. As meninas ficam um pouco aqui, por lá, eu fico lá e cá, ele fica lá e cá também. Na verdade eu sempre achei esse o modelo ideal de casamento. Eu dizia que eu não queria casar porque eu gosto muito de ficar sozinha, moro sozinha desde os 16 anos. Mas, depois que você tem filhos, não consegue estar sozinha. Então eu dizia isso nessa época, inclusive dei uma entrevista para a Trip falando isso, mas aí foi acontecendo e a gente foi virando um pouco aquele casal com dois filhos num apartamento em Laranjeiras. Nesse último ano a gente resolveu fazer de uma maneira em que cada um tem sua casa, que, pra mim, sempre foi o ideal de um casamento. Numa entrevista para a Tpm em 2011, você disse que usou "todas as drogas imagináveis" e que pretendia conversar naturalmente com as suas filhas caso elas resolvessem experimentar drogas no futuro. Você fala com elas sobre tudo? Que tipo de papo você acha legal ter com adolescentes sobre drogas? Eu falo sempre que elas demandam essa conversa, não imponho essa conversa. Eu falo abertamente com as minhas filhas sobre isso, acho drogas um dos grandes assuntos que a gente não pode deixar de falar. A humanidade nunca deixou de consumir, produzir e se alimentar espiritualmente de drogas. Desde os primórdios dos primórdios, isso faz parte da nossa constituição. A gente quer isso. O açúcar é uma droga, o álcool é uma droga, remédios são drogas, assim como a maconha, a cocaína, o crack, existem diferentes tipos de drogas. Então, é preciso falar sobre o remédio que vem da planta, remédio que vem da maconha. É preciso dizer que a maconha serve pra alteração da consciência, mas ela também serve para uma série de outras coisas que hoje estão descobrindo e que nós estamos atrasadíssimos aqui no Brasil. Isso tudo eu falo. E digo sempre que existem drogas que são muito perigosas e que a maconha pode ser perigosa também. Então, sempre que elas quiserem falar comigo ou perguntar que tipo de reação você tem, que tipo de coisa acontece, e do que é que é feito isso, eu vou estar aqui, não só com a minha experiência, mas com tudo o que eu leio, pesquiso. Eu me interesso muito sobre esse assunto. Eu escrevi uma peça, Cérebrocoração, que é muito sobre isso, sobre o uso da droga que vem da planta, que provoca iluminação, do xamanismo até os remédios. Em janeiro você fez um vídeo de apelo ao Rodrigo Maia, na época presidente da Câmara, para que ele atendesse aos pedidos de impeachment do Bolsonaro. Do jeito que o Brasil está polarizado, como foi essa experiência de expressar sua opinião? Você se arrepende? Não me arrependo. Pelo contrário, acho que a gente tem que fazer isso cada vez mais. A gente está vivendo uma aberração política, não existe ficar calada sobre isso. Eu fui pra rua pra tentar virar voto antes da eleição do Bolsonaro, para conversar com as pessoas, porque a gente já sabia que ia ser isso. O Bolsonaro nunca nos enganou. Ele estava prometendo fazer o que ele está fazendo. Não só ele, como Guedes, como o Salles. A gente sabe de onde vem essas pessoas e o que elas querem. E eu sou radicalmente contra o que elas querem e o que elas fazem. Então, se eu perco um seguidor, não me interessa. Eu comecei a bloquear pessoas. Com algumas eu discutia um pouquinho, mas outras eu bloqueava. Não vou ficar conversando com uma pessoa que me manda à merda dizendo que eu sou uma comunista. Não sou uma comunista. Mas eu tive que fazer um acordo comigo mesma em relação ao que eu boto pra fora no mundo porque não quero promover mais a imagem dessas pessoas no Brasil. Eu falo contra, mas eu não discuto diretamente com eles, exceto neste momento em que eu comecei a falar diretamente com o Rodrigo Maia, porque é uma função que a gente deveria fazer mais, falar diretamente com essas pessoas que estão no poder nos representando e que devem a nós uma explicação. Naquela época existiam 45 pedidos de impeachment, hoje são mais de 100. E eles continuam. Então a gente tem que cobrar. Eu não acho que essa CPI da Covid aconteça só porque a gente chegou no limite social e político. Ela é feita também dessa pressão social e eu não vou parar de fazer isso. Não tem como não se posicionar politicamente quando vem uma Regina Duarte ou um Mário Frias como secretários da Cultura, falando atrocidades, atrocidades sobre o que a gente está vivendo, sobre a ditadura. Assim não dá, não dá para ficar quieto. Na próxima novela que você vai fazer, sua personagem é casada com um homem e acaba se relacionando com uma mulher. Até pouco tempo atrás se estava discutindo se podia ter um beijo gay na novela. Ao mesmo tempo tivemos no Big Brother aquele beijo gay – que gerou uma loucura e um dos participantes acabou pedindo pra sair – e agora existe um projeto para proibir publicidade com casais gay. Você acha que esse casal na novela tem uma função de distensão desses tabus ou não tem jeito, a nossa sociedade vai ser tosca pra sempre? Não, acho que não. A sociedade pode segurar essa hipocrisia durante muito tempo, mas o mundo é gay, sempre foi. Você vê um casal se beijando e fica muito chocado? Por quê? Isso é reflexo de uma sociedade que se reprime, que é extremamente repressiva. Então sim, é claro que a televisão vai responder essa repressão. O que eu estou dizendo é que isto faz parte do nosso padrão de comportamento. Você pode olhar e falar: “Eu não quero mais ver isso”. Você pode não querer ver, mas isso está acontecendo. Então como é que a gente faz pra falar disso sem impor uma coisa que a pessoa não está querendo ver? No caso da novela, minha personagem é casada com um homem maravilhoso, interpretado pelo Marco Ricca, vão acontecer uma série de coisas na nossa vida como casal e, pela primeira vez, essa mulher vai se interessar por uma outra mulher, que vai ser a Natália Lage. Nenhuma delas é assumidamente gay. Isso vai ser uma questão para minha personagem assumir. Acho que com isso, por esses nossos argumentos, vamos ajudar as pessoas que se sentem dilaceradas porque seu filho ou sua filha é gay ou ajudar quem está sentindo uma atração por uma pessoa do mesmo sexo a trabalhar essa essa repressão – porque é uma repressão. Como disse nosso maravilhoso Drauzio Varella em um vídeo há muito tempo atrás: “Por que te afeta tanto que o seu vizinho namora um outro cara? Onde é que isso te deixa tão nervoso que você não consegue viver porque o seu vizinho ou o seu filho tem um envolvimento com uma pessoa do mesmo sexo?”. Temos que olhar para isso, é uma questão de saúde mental pública, assim como a droga.

    Maria Flor: É difícil abandonar o papel de boa moça

    Play Episode Listen Later Apr 16, 2021

    A atriz, diretora e escritora fala sobre cultura, relacionamento, feminismo e o processo para ser dona de seu próprio discurso Maria Flor fez papéis em novelas da Rede Globo, séries e no cinema – chegou até a contracenar com Anthony Hopkins no filme 360, de Fernando Meirelles –, mas, nos últimos anos, ganhou reconhecimento também na internet. Em, 2019, ao lado de seu companheiro, o ator Emanuel Aragão, lançou no YouTube o canal Flor e Manu, um espaço para falar sobre assuntos como relacionamento e sexualidade que já conquistou mais de 200 mil seguidores. Durante a pandemia, ela usou seu Instagram para dar vida à personagem Flor Pistola, que verbaliza as indignações de todo brasileiro que acompanha as notícias. Há quem confunda a personagem, que não usa peruca nem qualquer disfarce, com a própria atriz. E os comentários ácidos sobre o presidente Jair Bolsonaro renderam à Maria Flor um tsunami de ódio, fake news e até ameaças de morte. No papo com a Trip, a atriz, roteirista, diretora e escritora – seu livro, "Já não me sinto só", está em pré-venda pela Editora Planeta – fala sobre o desmonte da cultura, relacionamento, feminismo e a dificuldade de se livrar das cobranças. “Não sei se eu consegui abandonar totalmente o papel de boa moça", diz. "Eu tinha 14 anos quando fiz meu primeiro comercial e, como modelo ou atriz, você é colocada como objeto. Sua opinião, aquilo que você acredita, aquilo que você pensa, não é levada em conta. Então ser dona de um discurso é um processo de libertação, e um processo que eu trabalho até hoje” LEIA TAMBÉM: Na cena com Mr. Hopkins [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/04/60799c52e231f/maria-flor-atriz-trip-fm-mh3.jpg; CREDITS=Reprodução; LEGEND=Maria Flor na capa da revista TPM #56/ Capa da revista TPM #86/ Capa da revista TRIP #276; ALT_TEXT=Capas de Revista Trip e TPM com Maria Flor] Trip. Flor, me conta um pouquinho sobre esse seu mergulho na literatura. O que te levou a resolver se expor? Porque a literatura é uma maneira de a gente rasgar o peito e colocar pra fora coisas que estão lá dentro. Como foi o processo de chegar nesse lugar?  Maria Flor. Eu escrevo desde adolescente, foi uma coisa que eu sempre gostei de fazer. Escrevi muito como terapia, pra conseguir tirar um pouco as minhas angústias de mim e colocar ali no papel. Isso serviu muito pra mim na adolescência, mas continuou na minha vida adulta. E o livro veio dessa vontade de escrever que já tinha começado com um roteiro. Eu escrevi uma série chamada “Só Garotas”, que dirigi para o Multishow com mais três amigos. E aí me deu vontade de fazer esse livro sobre uma personagem que acaba de se separar, sai da primeira grande relação da vida dela e se encontra totalmente perdida. Ela passou seis anos com essa pessoa e de repente se vê sozinha e não sabe muito bem quem ela é. Eu acho que tem muito a ver com coisas que eu vivi e que eu acabei escrevendo. Roubei um pouco desse "diário", de textos que eu tinha escrito tentando me libertar, me curar dessa que foi minha primeira separação. Está sendo muito legal lançar o livro agora, mas estou nervosa para saber o que as pessoas vão achar, insegura também, porque, como você falou, escrever é muito mais exposição. A escrita está muito ligada ao jeito que você pensa, à forma que você vê o mundo, então, apesar de ser ficção – e, no caso, é um romance –, tem coisas que são pessoais.  Falando em coisas pessoas, você tem um canal no YouTube com seu companheiro, Emanuel. Tem uma coisa de se expor de verdade e as pessoas adoram, né? Como é que nasceu esse projeto? O canal começou na verdade com o Emanuel fazendo vídeos que não tem nada a ver com o que a gente faz agora. E eu fiquei entusiasmada com essa ideia, de ter um lugar pra colocar a opinião. Eu não era uma usuária do YouTube e hoje em dia eu não vivo sem. Eu quis experimentar também e a gente resolveu fazer vídeos juntos falando sobre relacionamentos. E fazer sem nenhum corte, a gente não corta nossos vídeos. Então, às vezes a vida não permite que a gente tenha tanta troca, tanta conversa no dia a dia, mas as pautas do canal possibilitam que a gente fique ali duas horas conversando.  Vocês já se arrependeram de ter publicado algum vídeo? Alguma vez você sentiu que se expôs um pouco demais? Não. Eu acho que é legal, que é importante a gente falar sobre relacionamento e não tem nada no canal que seja um grande tabu. Nem sei se posso dizer "me arrependo", mas no ano passado deixei vazar a minha grande revolta contra o atual presidente e isso me causou muitas dores de cabeça. Fui muito agredida pelos apoiadores do presidente e isso me fez muito mal num primeiro momento. Depois eu entendi que fazia parte do jogo. Mas me arrependo de ter colocado aquilo no nosso canal, que não tem nada a ver com política. Porque ali é um espaço sobre relacionamento e um canal muito amoroso. Então me arrependo porque o canal foi muito bombardeado, agredido, e isso me deixou chateada.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/04/607a0447e5350/maria-flor-atriz-trip-fm-mh.jpg; CREDITS=Bispo; LEGEND=Maria Flor em ensaio sensual da revista Trip #276, em 2018; ALT_TEXT=Maria Flor Ensaio Sensual] Numa conversa com a Trip, você disse que o avanço do feminismo ajudou você se expressar sexualmente e abandonar o papel de “boa moça”. Fala um pouco desse processo pra gente. Não sei se eu consegui abandonar totalmente o papel de boa moça. De vez em quando eu boto meu pezinho nele e, quando eu percebo, falo: “Não, peraí, por que é que eu tô agindo assim, fazendo isso? Porque o outro vai aceitar mais se eu fizer isso?”. É muito difícil. Minha mãe e meu pai nunca me proibiram de nada, mas, ao mesmo tempo, fui criada na classe média carioca, em escolas tradicionais. Isso está muito enraizado na nossa cultura, naquilo que a gente consome, naquilo que a gente lê, vê no cinema. Mesmo tendo uma criação livre eu não consegui fugir desse lugar de me adequar àquilo que os outros esperavam de mim e àquilo que a minha própria imagem deveria ser. Esse foi um processo muito longo. Antes de ser casada com o Emanuel, eu tive dois outros relacionamentos que foram muito importantes para mim, mas onde eu fiquei muito dentro de uma caixinha. “Eu preciso ser essa mulher, preciso ser fofa, preciso ser adequada, preciso falar baixo, não posso ficar bêbada, não posso usar uma saia tão curta”. Isso tudo pra mim era muito normal. E olha que eu sou uma mulher branca privilegiada, então poderia romper com isso, mas eu não rompia  porque ela achava que era isso mesmo. [QUOTE=1185] Todo o movimento feminista que surgiu no Brasil me modificou e me fez pensar muito sobre a minha colocação no mundo e sobre a minha colocação como atriz também. Eu tinha 14 anos quando fiz meu primeiro comercial e, como modelo ou atriz, você é colocada como objeto. Sua opinião, aquilo que você acredita, aquilo que você pensa, não é levado em conta. Você é um objeto do outro, que é o dono do discurso. Então ser dona de um discurso é um processo de libertação. É um processo que eu trabalho até hoje. Aos 37 anos, eu ainda tenho inseguranças de ser dona do meu próprio discurso. Me deixa nervosa, me deixa ansiosa, eu falo: “Caramba! Eu quero ser aceita, ser amada pelas pessoas”. Eu acho que isso faz parte de todos nós, mas para nós, mulheres, é muito mais complicado, porque a gente naturalmente vai ser vista como objeto no primeiro momento. Foi muito difícil me libertar, também como atriz, de me colocar mais no set, me colocar mais com os diretores ou diretoras com quem eu trabalhei. Eu fui entendendo que eu precisava me colocar para me respeitar, para não me sentir oprimida e me sentir dona da minha própria ação, daquilo que estava colocando no mundo. Eu acho que isso é difícil para qualquer pessoa: se autorizar a ser dono do seu discurso ou daquilo que você escolhe. [QUOTE=1186] Sexualmente para mim também foi uma grande libertação. O amor romântico é muito cruel, você vê aquelas cenas dos filmes hollywoodianos e de repente você está querendo o príncipe encantado. Você às vezes se apega a isso e não consegue se relacionar, não sabe que não existe o príncipe encantado, que não vai encontrar o parceiro perfeito, o homem perfeito, e também imagina o sexo daquele jeito que você vê em “Um Lugar Chamado Nothing Hill”. E aí quando você se depara com a realidade do que é o gozo feminino, de como é que é uma mulher gozar, como é que uma mulher se autoriza a gozar, como é para uma mulher estar no sexo de forma plena. Eu acho que continuo pensando e atenta sobre essas coisas para não me deixar cair nesse lugar de submissão ou de aprovação. E também atenta ao meu redor, com as minhas amigas, com as pessoas à minha volta. Isso é um trabalho que a gente precisa fazer. Os profissionais das artes cênicas são uma das categorias aniquiladas e que estão sofrendo demais com a interrupção da produção, das novelas e dos filmes. Sob o ponto de vista da grana, o que acontece com um ator ou atriz, como você, nesse período de freio, de arrumação planetária? Eu tive muita sorte e muito privilégio de estar fazendo uma novela quando a pandemia aconteceu. Então quando a pandemia aconteceu eu estava contratada pela TV Globo, – eu não sou uma atriz contratada eternamente. Se eu não tivesse, não teria como viver. O que eu posso dizer é que o audiovisual parou, o teatro parou. Os atores que dependem disso ficaram totalmente sem nada, sem nenhum recurso! E a ajuda que o governo federal deu foi muito pequena. Eu tenho amigos que estão sem grana e tiveram que mudar totalmente de vida, largar os apartamentos para morar com os pais, e isso é muito grave. Isso foi uma coisa que o presidente conseguiu fazer com a classe artística. [QUOTE=1187] Falam que a gente vivia da mamata da Lei Rouanet. Não entendem como funciona a lei e não entendem que o trabalho artístico envolve muito mais do que atores, mas uma cadeia gigantesca de pessoas para que uma série chegue na televisão ou uma peça chegue no teatro. Fora isso, sem a peça, sem o filme, sem a série, as pessoas vão consumir o quê? As pessoas esquecem que aquilo que elas estão consumindo diariamente é a cultura. É muito estranho que tenham criado essa ideia de que os artistas são pessoas que não trabalham, que mamam nas tetas do governo. Eu fico realmente decepcionada com os rumos que a gente tomou, como país, como sociedade. Eu acho muito triste esse buraco que jogaram os artistas. Eu não sei como o cinema vai continuar, como o teatro vai continuar. Me preocupo muito com todos os atores e artistas desse país. E comigo. Porque quando acabar minha novela, o que é que eu vou fazer? Como eu vou conseguir produzir ? Eu não sei, é tudo muito incerto.

    Veronica Oliveira: Nossas conquistas ofendem a elite

    Play Episode Listen Later Apr 9, 2021

    Faxineira e palestrante, ela fala sobre os preconceitos da profissão no canal Faxina Boa: "Eu não sou burra porque estou lavando privada" Veronica Oliveira não cresceu com uma vida difícil, mas, em 2015, a empresa de telemarketing onde trabalhava fechou e ela se viu desempregada com dois filhos dividindo espaço com outras 40 pessoas num cortiço. Foi aí que ela descobriu sua vocação na faxina e conquistou os clientes na internet com montagens cheias de referências pop, parodiando cartazes de filmes como Kill Bill. Mas não demorou para que ela entendesse que a faxina não era vista como um trabalho como qualquer outro. "As pessoas olham com pena e, quando percebem que eu tenho conhecimento, que falo inglês, um pouco de japonês, dizem: 'Se você é inteligente por que trabalha com faxina?', conta. Para falar sobre os preconceitos e estereótipos que cercam a profissão – a sua e de outros prestadores de serviço –, ela criou o canal no Instagram Faxina Boa. “O cara não é burro porque está dirigindo o carro por aplicativo, eu não sou burra porque estou lavando privada. A pessoa que está fazendo qualquer trampo, se você precisa dele, não é inferior nem não tem capacidade de fazer outra coisa”, diz. Hoje ela tem mais de 300 mil seguidores, é palestrante, criadora de conteúdo, comentarista na televisão e autora do livro "Minha vida passada a limpo: Eu não terminei como faxineira, eu comecei". "À medida que eu fui conquistando coisas, percebi que as pessoas mais privilegiadas se sentiam ofendidas. Eu escutava muito: 'Eu gostava de você antes'. Antes do quê? Quando eu estava muito ferrada, é isso? Qual é o problema da elite que não consegue ver uma pessoa progredir?” No papo com o Trip FM, Veronica fala sobre a sua trajetória, como é ser mãe de uma criança com espectro autista e a necessidade de reformular a visão da elite brasileira sobre os trabalhadores essenciais. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir. [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/4/TripFM_VeronicaFaxinaBoa_Podcast.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/04/6070a638bb365/veronica-oliveira-facina-boa-trip-fm-mh2.jpg] LEIA TAMBÉM: A influência do sono na saúde mental  Trip. Eu fiquei intrigado com a sua biografia. Me conta um pouco da sua origem, sua infância? Você era pobre, era rica, era remediada? Como era sua vida? Veronica Oliveira. Até o começo da vida adulta, se eu paro para pensar, falar que em remediado é até maldade com meus pais. Nós éramos cinco e morávamos na região da Vila Buarque [em São Paulo], eu estudei em um colégio tradicional de Higienópolis. Agora que eu sou mãe e sei o que é bancar as criaturinhas, eu fico imaginando que sustentar cinco filhos e dar as oportunidades que a gente teve não é para qualquer um. Então não dá nem pra falar remediado. Nunca faltou nada, era uma uma vida de classe média muito tranquila. Quando eu engravidei, aos 17 anos, no final da minha da minha adolescência, foi o mesmo período em que os meus pais se divorciaram e cada um foi para seu canto. A gente acabou indo morar na periferia e fui conhecer uma outra realidade. Ao mesmo tempo a gente não estava, de jeito nenhum, passando nenhum tipo de perrengue, ficamos até surpresos com tanta coisa que dava para fazer porque o custo de vida era bem menor. Quando eu resolvi morar sozinha, e as coisas foram dependendo só de mim, já estava velha e não tinha estudado. E eu comecei a ver que era muito mais complicado. Então eu comecei a trabalhar já tinha 28 anos de idade. Aí a pessoa já tá quase com 30 anos, não tem faculdade, não sabe nada, nunca trabalhou, então fui para o call center e telemarketing. Ainda assim eu consegui crescer dentro das empresas em que eu trabalhei, ganhava super bem. Eu já estava com dois filhos, pagando aluguel, tinha as minhas responsabilidades, e a empresa declarou falência. Foi uma loucura. A gente não sabia quando ia receber, não tinha nenhum direito trabalhista, foram três anos na justiça até conseguir isso.  Eu gosto muito quando tenho a oportunidade de contar minha história para as pessoas, de frisar que às vezes a gente acha que está com a vida garantida – porque nasceu numa família de classe média, porque estudou na escola tal, porque teve isso, teve aquilo –, mas a gente não tem garantia de nada. A vida pode passar rasteira na gente. A gente não sabe o que vai acontecer e tem que estar super preparado para aguentar a porrada no futuro. Eu descobri que a vida adulta era muito mais difícil. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/04/6070a69476c9f/veronica-oliveira-facina-boa-trip-fm-mq.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Veronica trabalhava com telemarketing, mas em 2015 a empresa fechou e ela ficou desempregada, com dois filhos, dividindo espaço com 40 pessoas num cortiço; ALT_TEXT=Veronica Oliveira Filho Sorrindo Deitados Rede] Logo você começou a ganhar uma grana boa com a história da faxina. Deu para melhorar de grana mais rápido que no telemarketing? Eu entrei em outro call center, onde eu ganhava um salário mínimo, pagava de plano de saúde e no final do mês recebia 680 reais. O aluguel do quartinho onde a gente morava era 500 reais. Então que passar o mês com uma média de 80 reais, para remédio, para produto de limpeza, para comida, para tudo. A gente não tinha certeza do dia que ia comer e do dia que não ia. Era uma coisa muito absurda. Na hora em que eu vi que fazendo faxina eu recebia o dinheiro na hora todos os dias… Primeiro que eu cometi todos os erros possíveis porque eu não sabia administrar. Mas com o tempo fui aprendendo e fui lidando com isso. Eu até brinco que a primeira coisa que eu comprei com a grana da faxina foi um celular bom, o que gerou também uma baita discussão quando eu chegava para trabalhar. Porque aí as pessoas falavam: “Nossa, você é faxineira e tem esse celular?”. Era insuportável. Eu sou neta de empregada doméstica, a minha avó foi empregada na região dos Jardins por 33 anos, de uma família que tem seis sobrenomes, aquela coisa toda. E eu ouvia dizerem que ela era uma parte importante da família, mas ela comia na área de serviço, a comida dela era outra. Qual a parte importante da família que ela é? Nem a mesma comida ela come. Eu só fui me dar conta disso quando eu já estava grande, porque eu frequentava a casa e visitava minha avó. Quando eu passei a trabalhar como faxineira, eu pensei: "Bom, isso ficou para trás, coisa dos anos 90". E eu vi que as pessoas não entravam no mesmo elevador que eu, me davam comida velha, pegavam coisas que literalmente eram lixo e falavam: “Olha, separei umas coisinhas para você”. Gente, é a mesma coisa, não mudou nada! As pessoas olham com pena e, quando percebem que eu tenho conhecimento, que falo inglês, um pouco de japonês, dizem: “Se você é inteligente por que trabalha com faxina?”. Aí eu resolvi usar a internet para falar sobre isso, porque as pessoas não precisam julgar nem colocar esses estereótipos ridículos. Eu não falo só da limpeza, qualquer prestação de serviço! O cara que está dirigindo o carro por aplicativo não é burro porque ele está fazendo isso, eu não sou burra porque estou lavando privada, e a pessoa que está fazendo qualquer trampo, se você precisa dele, não é inferior nem não tem capacidade de fazer outra coisa. Se todo mundo quiser ser presidente da empresa, quem vai trabalhar nela? Não dá para todo mundo ser o top do top. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/04/6070a6d32d7d7/veronica-oliveira-facina-boa-trip-fm-mq2.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Em 2020 lançou o livro "Minha vida passada a limpo: Eu não terminei como faxineira, eu comecei", no qual reúne histórias e conselhos sobre sua vida de faxineira; ALT_TEXT=] LEIA TAMBÉM: "A elite brasileira precisa de uma faxina", diz Veronica Oliveira No ano passado, o nosso digníssimo ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o dólar alto era bom para todo mundo porque “a empregada doméstica estava indo para a Disney fazendo uma festa danada”. Obviamente há esse preconceito, uma coisa de "tem gente que pode", "tem gente que não pode", que nega a possibilidade de ascensão, de mobilidade social. Você, que frequenta as quebradas dos apartamentos de Higienópolis, do Jardim Europa, acha que esse povo está piorando ou melhorando? A pandemia está ajudando a perceberem a existência do outro ou os caras só estão aumentando o tamanho do muro e dando uma reblindada no carro? O Paulo Guedes conseguiu fazer eu ter uma vontade doida de ir para a Disney. Sempre tive vontade de conhecer todos os lugares, nunca a Disney, mas agora eu quero, só por causa dele. E a sua fala me lembra duas notícias recentes: uma sobre a questão da insegurança alimentar da população brasileira, que agora voltou a atingir milhões de pessoas, um patamar que não alcançávamos há 17 anos; e a notícia de que entraram não me lembro quantos bilionários brasileiros da lista da Forbes. E aí eu fico pensando, olha como as coisas são! Levando isso pra dentro da minha realidade, eu fui atender uma cliente em um condomínio de luxo no Itaim Bibi e ouvi uma conversa entre dois moradores no elevador dizendo que o filho do zelador tinha comprado um carro igual ao de um deles. Aí ele falou assim: “Como é que eu vou andar com o mesmo carro?”. Eu me segurei muito pra não falar: "Você no seu e ele no dele". À medida que eu fui conquistando coisas, percebi que as pessoas mais privilegiadas se sentiam ofendidas. Eu escutava muito: “Eu gostava de você antes”. Antes do quê? Antes, quando eu estava muito ferrada, é isso? Você não pode trabalhar e progredir, conquistar coisas. Quando eu comprei um carro, cheguei para fazer uma faxina, a moça me recebeu e falou: “Eu não quero você na minha casa porque seu carro é melhor que o meu, você não precisa trabalhar”. Acho que se eu estivesse na periferia, reclamando que eu estou com fome, as pessoas se sentiriam confortáveis. Isso é muito horrível. Eu penso: qual é o problema da gente? Qual é o problema da elite, que não consegue ver uma pessoa progredir? E eu odeio o papo de meritocracia. Eu frequento um bocado de eventos e sempre converso com quem está limpando os lugares. Eu vou arrotar um discurso meritocrático na frente de uma pessoa que está trabalhando das 8 da manhã às 10 da noite para ganhar 45 reais? Não dá! O que eu estou vivendo não é a regra, não vai ser a regra. Então o que eu posso fazer é mostrar para essas pessoas que isso está errado, que ela está sendo explorada, que o trabalho dela tem um baita de um valor! Porque se ela não tivesse limpado aquele evento, ele não estava acontecendo, ia ser uma zona, com milhares de pessoas num pavilhão e sem ninguém pra limpar. Quando as pessoas começam a ter essa noção, eu entendo a importância do meu trabalho nas redes sociais, mas é difícil para caramba!  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/04/6070a714e76ce/veronica-oliveira-facina-boa-trip-fm-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Veronica Oliveira, Stevens Rehen e a neurocientista Nátalia Mota discutem como o sono nos ajuda a lidar com eventos traumáticos como a pandemia e seus efeitos em nossa saúde mental; ALT_TEXT=Veronica Oliveira Stevens Rehen Nátalia Mota ]

    Contardo Calligaris (1948-2021)

    Play Episode Listen Later Apr 2, 2021

    No programa em homenagem ao psicanalista, o Trip FM conversou com Lilia Schwarcz, Vera Iaconelli, Christian Dunker e Emílio de Mello O psicanalista Contardo Calligaris, que morreu nesta semana vítima de um câncer, aos 72 anos, é uma das principais referências nacionais na espinhosa tarefa de interpretar as relações humanas. Amigo antigo da Trip, ele já esteve nas páginas da revista e no programa Trip FM diversas vezes, bem antes da psicanálise ganhar o destaque que tem hoje.  Contardo nasceu em Milão, em 1948, e, aos 17 anos, fez sua primeira grande viagem, fugindo de casa para morar em Londres. De lá passou pela Suíça, onde estudou filosofia, e pela França, onde estudou psicanálise. Trilhou os caminhos lisérgicos da Índia e do Nepal na década de 60; conheceu de perto o sexo livre e a militância na Paris de 1968 e a contra-cultura na Nova Iorque dos anos 70. Até chegar ao Brasil no fim dos anos 80 e se apaixonar de vez por esse nosso país cada vez mais atrapalhado.  Nos últimos anos, escreveu diversos livros, atendeu centenas de pacientes, foi colunista do jornal Folha de S. Paulo, em uma das colunas semanais mais lidas do país e roteirizou e produziu a série Psi, para o Canal HBO, indicada ao Emmy.  Para nossa despedida no Trip FM desta semana, convidamos amigos e admiradores, como Emílio de Mello, Lee Taylor, Alexandre Coimbra Amaral, Vera Iaconelli, Christian Dunker e Lilia Schwarcz, para falar sobre essa figura brilhante, além de relembrar uma das boas conversas que tivemos com Contardo no programa, em outubro de 2015. Você pode ouvir essa homenagem no Spotify ou no play desta página.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/04/6065e8b9c8d0e/contardo-calligaris-trip-fm-mq.jpg; CREDITS=Divulgação/Gabriel Boieras/Editora Campus-Elsevier; LEGEND=Contardo Calligaris, uma das vozes mais sensatas e reveladoras sobre a natureza humana e suas transformações; ALT_TEXT=]

    Tadeu Jungle e o futuro híbrido

    Play Episode Listen Later Mar 26, 2021

    O cineasta fala sobre a importância de contar boas histórias e a possibilidade de um futuro em que realidade física e virtual se misturam Tadeu Jungle é um dos artistas mais multitask do audiovisual brasileiro. Ele atua como cineasta, fotógrafo, poeta, roteirista, diretor de cinema, TV e realidade virtual, além de ser um dos colaboradores do projeto Trip Transformadores. Ex-sócio e fundador da Academia de Filmes, ele criou em 2018 a Jungle Bee, produtora focada em realidade virtual e aumentada para empresas e ONGs. Foi lá que ele produziu "Rio de Lama”, documentário sobre a tragédia de Mariana, em Minas Gerais, premiado pela ONU. No papo com o Trip FM, Tadeu fala sobre sua carreira, como envelhecer como um profissional de mídia, a necessidade humana de ouvir histórias e o possível futuro híbrido entre a realidade física e virtual. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir. [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/3/TripFM_TadeuJungle_Podcast.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/605e48e899802/tadeu-jungle-trip-fm-mh1.jpg] Trip. Tadeu, como é que se lida com o tempo? É normal hoje, dependendo do campo e da indústria, que a gente fale que as pessoas são postas de lado aos 40 e poucos anos. Como é pra você? Você lembra que você tem 65 anos? Tadeu Jungle. Esse é um tema muito interessante, porque não só tenho 65 como existe uma coisa chamada idadismo, que é justamente o preconceito contra a idade. Eu acho que eu continuo ativo e com antena absolutamente ligada porque essa é uma característica minha desde sempre. Sempre fui ligado no novo, na transformação, na vanguarda, no risco. Eu não tenho uma carreira. “E o Tadeu, faz o quê?” Na verdade, o que eu faço é criar histórias e ser um cara bom de ideias, mas isso só foi possível porque eu trabalhei e estive na televisão, no cinema, na internet, no jornal, na poesia visual dentro do teatro com o Zé Celso. Então tenho um conhecimento de linguagens de muitos lugares. O Décio Pignatari uma vez me fez o que eu imaginei que tivesse sido uma crítica, mas hoje acho que foi um elogio. Ele falou: “Você é um especialista do não-específico”. E eu acho que isso é uma medalha que eu ganho, porque eu articulo muito e em vários locais, tenho vários pontos de vista. São as mulheres que me ensinam a cada nova empreitada e a ideia, que se fala muito hoje, tem que continuar aprendendo. Tem que continuar estudando! Você tem que estar fuçando todo dia coisas novas, ouvindo coisas novas, porque tudo de transformador está aí, na internet, nos podcasts, nos TEDs, nos festivais internacionais e nacionais, na Trip… Você tem que ir atrás, porque se você fica esperando não vai transformar o mundo. E ele mostra, através da pandemia inclusive, que nós estamos à beira de um lugar muito crítico, que são as mudanças climáticas. Estamos vendo um horizonte de término, mas esse horizonte também vai ser o nascimento de uma outra grande preocupação, que são as causas ambientais. E se você não estiver ligado no futuro, na transformação, você vai se afogar, literalmente. Então eu tenho muito prazer em fazer essas novas ligações, por isso que eu entrei também na realidade virtual e na realidade aumentada. Tive que aprender tudo para poder fazer uma narrativa de realidade virtual. Ou seja, respondendo a sua pergunta, profissionalmente eu sou reconhecido como o cara de inovação porque eu sou um cara de inovação. Eu estou todo dia nessa busca para conhecer o novo e o diferente, para poder transformar o mundo num lugar melhor para todo mundo. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/605e491d27adc/tadeu-jungle-trip-fm-mq1.jpg; CREDITS=Fernando Lazlo / Divulgação; LEGEND=Tadeu Jungle; ALT_TEXT=Tadeu Jungle Retrato Camisa Preta] O que a publicidade te ensinou e onde ela foi parar? A publicidade, para você ter ideia, me ensinou a fazer cinema. Eu entrei no primeiro set de filmagem no dia em que fui fazer minha primeira publicidade. Aí eu entrei e pensei: “Como é que eu falo agora? Será que é 'luzes, câmera e ação'?”. Te juro que foi isso. Então na publicidade passei 15 anos filmando e teve meses que eu fiz oito filmes. Eu tinha duas assistentes, quase cheguei a ir de helicóptero de um set para o outro. Eu fiz dois filmes no mesmo dia, na mesma praia. A publicidade é um lugar muito bacana para quem tem criatividade e confiança porque você tem a melhor assistente de direção, a melhor fotógrafa, a melhor diretora de arte, o melhor montador, você tem tudo que você quer. Então se você sabe o que quer e é bom numa reunião, sabe colocar as ideias, e tem aquela equipe toda, é muito fácil fazer.  Mas o que eu gosto são dos desafios em que eu tenho um horizonte quase físico. Eu não conseguia apagar isso em mim: essa questão de fazer: eu mesmo fazer, eu mesmo pintar, eu mesmo bordar. Então a publicidade me deu muito aprendizado e muita força. Foi onde eu consegui sobreviver, era onde estava o dinheiro. Mas hoje acabou. Ou é uma peça de humor onde o cara tem uma puta de uma sacada, trabalhou com grande artista conhecido dele ou de uma produção absolutamente incrível e o cara fala “Nossa, que obra! Que brilho! Que viço! Que luz!” ou então você ficar fazendo o filme para dizer que a marca é isso ou aquilo e não cola mais. A verdade passou na frente da publicidade, então as coisas que são reais, as causas, estão na frente da imagem que eu tento fazer parecer como sendo da minha empresa. Só que tem muito dinheiro e tem preguiça, medo do risco. As empresas têm medo do risco.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/605e49982c4e2/tadeu-jungle-trip-fm-mh2.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Stevens Rehen, Tadeu Jungle e o engenheiro e pesquisador Fabio Cozman discutem a relação complexa entre as máquinas e seus algoritmos e a nossa sociedade ; ALT_TEXT=Tadeu Jungle Stevens Rehen Fabio Cozman Trip Com Ciência Podcast] Não queria terminar sem te perguntar sobre uma coisa que está mais uma vez pegando o Brasil de jeito: o Big Brother. Até um tempo atrás, os intelectuais torciam o nariz e ninguém falava que via. Agora os canais de cultura, os cadernos de cultura dos jornais, estão assim: disputas entre as visões, leituras semióticas, as leituras filosóficas, psicanalíticas e tal. O que você acha do Big Brother? Eu acho que é um grande fenômeno de 2020, no mínimo. É um programa longevo e você poderia pensar que estaria em declínio – está todo mundo confinado mesmo, por que eu vou assistir outros confinados? O que aconteceu foi que eles fizeram um grande elenco, grandes personagens, para compor uma grande história. Pensa bem, se você colocasse 20 chuchus ali dentro não ia dar certo, né? Mesmo sendo o Big Brother, a Globo, não dava nem uma salada. Mas o elenco misturou tudo o que foi possível, contemporâneo, sushi com churrasco, pimenta e colocou aquilo de tal forma que deu essa liga. Não acredito que seja assim o próximo.  O Boni, numa entrevista que eu fiz com ele há dez anos, ou mais, falou assim: “Se você colocar o Antônio Fagundes num close, na frente de uma tela, e ele ler uma obra de Dias Gomes, eu garanto para você que as pessoas não desligam. E que a audiência vai ser maior do que o pico próprio”. Tem muita razão porque o que ele apontava ali era a importância da história e a gente vai continuar querendo ouvir histórias para sempre. E não são histórias interativas, histórias no game… Histórias! Uma boa história! O livro vai continuar fazendo sucesso daqui a cem anos. Por mais que a gente viva numa realidade totalmente virtual e interativa, vivendo em Marte, nós ainda vamos querer ouvir a nossa mamãe, em algum lugar, contar para nós uma história. Então acho que a importância da história não deve ser esquecida em todas as narrativas. E o Big Brother colocou isso de uma maneira muito visceral com esse grande casting. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/605e49f7167fa/tadeu-jungle-trip-fm-mq2.jpg; CREDITS=Tadeu Jungle; LEGEND=A instalação e intervenção urbana "Você Está Aqui", do cineasta, fotógrafo, poeta e artista visual, Tadeu Jungle, no Mac Usp, de São Paulo; ALT_TEXT=Instalação Mac Usp Fachada ]

    Carol Paiffer: A felicidade não é financeira

    Play Episode Listen Later Mar 19, 2021

    Fundadora da Atom S/A e jurada do Shark Tank Brasil, a empresária quer transformar seu dinheiro em oportunidade para mais empreendedores Uma das poucas mulheres à frente de uma empresa listada na Bolsa de Valores, Carol Paiffer, 33 anos, é sócia-fundadora da Atom S/A, a maior empresa de traders da América Latina. Nascida em Porto Feliz, no interior de São Paulo, ainda criança ela já mostrava seu talento para o empreendedorismo vendendo pés de alface. Na adolescência se apaixonou pela moda, mas resolveu estudar administração de empresas para ajudar a profissionalizar a pequena confecção de sua mãe. Após mais de uma década trabalhando no mercado financeiro, em 2020 entrou para o time de jurados do Shark Tank Brasil, reality do Sony Channel que recebe empreendedores com ideias inovadoras em busca de investimento. "Eu quero que minha empresa ganhe dinheiro para poder financiar mais traders, investir em mais empresas, em mais startups, porque sei que quanto mais dinheiro tiver mais pessoas eu posso ajudar", diz. No papo com o Trip FM, Carol fala sobre suas origens, como é ser mulher em um mercado de trabalho majoritariamente masculino e o significado de felicidade. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir. [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/3/TripFMCarolPaiffer_podcast2.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/60550f7e08e79/tripfm-carol-paiffer-mh.jpg]  Trip. Se você tivesse só o necessário para sua saúde ficar legal, para sua alimentação estar gostosa, pra você correr e viver e pra ter sua vidinha só nesse nível, você seria menos feliz? Carol Paiffer. Na faculdade eu era conhecida por ser insuportavelmente feliz e, com certeza, eu era uma das que menos tinha grana ali. A felicidade para mim nunca esteve atrelada ao dinheiro e eu sempre fui uma pessoa muito realizada e muito grata a tudo que eu tenho. Não dá para ignorar que dinheiro traz, sim, algumas realizações, mas a felicidade está atrelada diretamente a isso? Eu sou feliz correndo e correr só me custa um tênis; eu sou feliz escutando uma música. Pra ser feliz, primeiro você tem que estar aberto à felicidade. Ela não é financeira. O dinheiro é consequência do seu potencial bem aplicado. Ou seja, se você já conquistou dinheiro na sua vida, mesmo que você tenha perdido, você sabe que você é capaz. Eu já corri três maratonas e, mesmo que hoje eu não corra mais 42 quilômetros, sei que sou capaz de fazer isso de novo a qualquer momento que eu queira treinar e me dedicar. E é a mesma coisa em relação ao dinheiro. A felicidade está atrelada a quando você vê que você está realizando o que gostaria. Então, no final do dia, eu tenho certeza em afirmar que, dando certo ou dando errado, eu estaria feliz com o resultado financeiro que eu tenho. Faz alguns anos que o meu estilo de vida não muda em relação ao dinheiro. Não que eu não precise de dinheiro, mesmo porque a minha empresa é uma empresa de capital aberto e quero que ela fature cada vez mais, mas será que a Carol quer que fature para ter mais dinheiro na conta bancária para gastar? Não. Eu quero mais dinheiro para minha empresa porque quero financiar mais traders, quero investir em mais empresas no Shark Tank, em mais startups, porque eu sei que quanto mais dinheiro tiver, mais pessoas eu posso ajudar. Então meu dinheiro está trabalhando também.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/60550fb48e762/tripfm-carol-paiffer-mq.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Uma das poucas mulheres à frente de uma empresa listada na Bolsa de Valores, Carol Paiffer, 33 anos, é sócia-fundadora da Atom S/A, a maior empresa de traders da América Latina; ALT_TEXT=Carol Paiffer Empresária Retrato Vestido Vermelho] Vamos falar do Shark Tank. Você entrou no programa já na quinta temporada, no lugar de Cristiana Arcangeli. Você se sentiu meio caloura lá? Teve uma certa dificuldade ou todo mundo foi fofo e te abraçou? Lógico, me senti uma estagiária, estou aprendendo, né? Quando cheguei lá, no início da quinta temporada, estava com 32 anos. Fui uma das mulheres mais novas que passou pelo programa. E isso, obviamente, traz um peso, ainda mais por estar substituindo a Cris. A preocupação de todo mundo era: “Como vai ser a Carol? Ela vai ser brava?". Eu falei: tenho que ser a Carol, porque se fui convidada as pessoas esperam que eu seja eu, e não que eu vista o personagem de outra pessoa. Também entendi que precisava aprender com os outros Sharks. No primeiro dia eu estava tremendo. Já dei palestra para 7 mil pessoas, falo com 44 mil alunos, tenho 2 milhões de alunos inscritos. Mas estava nervosa justamente porque eles estavam ali. Os quatro já se conheciam muito bem, estavam entrosados. Foram vários dias intensos de gravação, então você acaba ficando muito mais íntimo das pessoas. A gravação foi atípica, cheia de acrílico na cara de todo mundo, máscara, camarins isolados, mas o time me acolheu muito bem.  E queria que você não fugisse dessa resposta: quem é o mais ranzinza do time de Sharks e quem é o mais vaidoso? Às vezes o vaidoso é aquele que fala mais. Nessa quinta temporada eu achei que eles mudaram. O [José Carlos] Semenzato estava diferente, falando mais e até sendo mais agressivo em suas propostas. O Caito [Maia] gosta bastante de falar, gosta de ressaltar a história da Chilli Beans. Acho isso muito legal e, se você for ver, o que é mais quietinho nessa quinta temporada é o [João] Appolinário. O Semenzato parece rabugento, mas ele não é. E eu digo: uma pessoa numa sala de reunião, negociando algo que é importante – que são os números, o dinheiro dela –, é diferente do que ela é de fato. Ali no programa acho que ele estava um pouquinho mais bravo, mais incisivo, e acho que é essa leitura que parece dele.  Carol, devo fazer como o Elon Musk e torrar todas as minhas economias em bitcoins ou mantenho-me longe disso? Me dá essa dica aí. Em primeiro lugar, temos que lembrar que o mercado de criptomoeda não é legalizado no Brasil, ou seja, não é fiscalizado. Eu sou bem conservadora e só invisto em coisas que existe uma segurança. O mercado de cripto no Brasil, infelizmente, ainda é nebuloso, a gente ainda não sabe para onde vai. “Ah, mas bitcoin eu posso investir lá fora e pode dar muito certo e tudo mais…”. Quando você vai fazer investimento, entenda: você tem que estar bem posicionado. O que significa isso? Significa comprar bem, comprar barato, e vender mais caro, e não o contrário. Vou dar um exemplo bem simples: imagine você dentro de uma sala. Pode vir de uma pessoa por trás e te dar uma voadora, pode vir uma pessoa pelo lado e te dar um tapa. Você não sabe o que pode acontecer porque está mal posicionado. Quando você compra algo que já valorizou você acaba ficando numa situação muito vulnerável. Vem uma notícia, vem outra crise, outra pandemia, qualquer coisa que aconteça pode prejudicar muito os seus investimentos. Quando você está bem posicionado, dificilmente alguém vai aparecer nas suas costas e te dar um tapinha na orelha. Então, pessoal, não fiquem com a “dor de corno”: “Ah, eu vi dando certo! Subiu para caramba e eu não ganhei! O Elon Musk está cada vez mais rico com ela e eu não fiquei! A Carol ganhou dinheiro com a Petrobrás e eu não ganhei!”. Esqueça. Não se compare com o que aconteceu com os outros. Olhe para o seu dinheiro com muito amor para colocar ele só em oportunidade. Seu vizinho quebrou e ele está vendendo terreno barato? Essa é uma oportunidade maior do que bitcoin.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/60551018ad545/tripfm-carol-paiffer-mq3.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Após mais de uma década trabalhando no mercado financeiro, em 2020 Carol Paiffer entrou para o time de jurados do Shark Tank Brasil; ALT_TEXT=Carol Paiffer Empresária Retrato Camisa Branca]

    Sidarta Ribeiro: sonho, memória e maconha

    Play Episode Listen Later Mar 12, 2021

    O neurocientista fala sobre o uso de canabinoides no tratamento de doenças como o câncer e como o excesso de telas está nos deixando burros Uma breve apresentação mal dá conta de enumerar todos os títulos de Sidarta Ribeiro. Fundador e vice-diretor do Instituto Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde cuida do laboratório Sonho, Sono e Memória, o neurocientista é mestre em biofísica, doutor em comportamento animal, pós-doutor em neurofisiologia e, bem, pra longe da ciência, contramestre de capoeira, discípulo de Mestre Caxias e Paulinho Sabiá. LEIA TAMBÉM: Dormir para aprender Ele já publicou mais de uma centenas de artigos, mas foi seu livro, O Oráculo da Noite, que levou a história e a ciência dos sonhos para a cabeceira de milhares de pessoas que nunca folhearam um periódico científico. Para além de sua extensa pesquisa sobre nosso sono, Sidarta também é um dos maiores nomes do país quando se fala em substâncias psicoativas, em especial a maconha. O neurocientista defende que a cannabis é a grande revolução da medicina do século 21, assim como os antibióticos foram no século passado. "O Brasil ainda não conseguiu regulamentar coisas básicas como o direito ao cultivo em casa ou em associações e cooperativas, a disponibilidade de canabinoides para pesquisa, e continua agredindo a população por comercializar remédios", diz. "É preciso regulamentar o uso medicinal da maconha imediatamente, porque a população sofre muito". No papo com o Trip FM, Sidarta fala sobre o avanço dos estudos que mostram os efeitos de canabinoides no tratamento de doenças como Alzheimer, Parkinson e até mesmo no controle de tumores de câncer, as consequências do uso excessivo de telas em crianças e adolescentes e a importância do sono de qualidade em nossa vida. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir. [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/3/TripFM_SidartaRibeiro_Podcast01.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/604bbff6223d6/sidarta-ribeiro-cientista-sono-trip-fm-mh2.jpg] Trip. Quais são as novidades sobre os efeitos terapêuticos das substâncias que vêm da planta cannabis? Sidarta Ribeiro. A cannabis não é uma planta que é um só remédio, ela é muitos remédios diferentes, porque ela tem diversas genéticas. Existem também diferentes maneiras de prepará-la, de curá-la, de fazer extratos e aquecimentos a diferentes temperaturas que vão permitir a utilização de mais de 400 compostos de interesse terapêutico, que a gente chama de canabinoides, terpernos, flavonoides. Então a cannabis veio para ficar. É importante que as pessoas entendam: a medicina do século 21 é uma medicina canábica. A cannabis é muito importante na neurologia, por exemplo, no controle de epilepsias, para mitigar e potencialmente reverter os danos cognitivos no Mal de Alzheimer ou para diminuir tremores no Mal de Parkinson. Também para controle de dores neuropáticas e crônicas, e, na clínica do câncer, não só pela mitigação dos efeitos colaterais de radioterapia e quimioterapia, mas também porque existem combinações de canabinoides que são antitumorais, em particular para gliobastoma. Mas é muito importante que a intervenção seja feita cedo, bem no início, e essa evidência da capacidade antitumoral dos canabinoides está crescendo muito rápido. [QUOTE=1172] Eu tenho falado que a maconha está para a medicina do século 21 assim como os antibióticos para o século 20. Não dá para tapar o sol com a peneira. Existem muitos negacionistas da maconha medicinal no Brasil, mas isso está mudando porque os pacientes e seus familiares estão exigindo serem tratados com o que tem de melhor. Muitas vezes o que tem de melhor não é o canabinoide puro, que é caro, mas um extrato de amplo espectro de uma planta que é muito mais barata e que tem potencialidades terapêuticas do que a gente chama de efeito comitiva, que é um efeito sinérgico, de cooperação química entre diferentes canabinoides. Por exemplo, a combinação de THC com CBD é extremamente terapêutica. O CBD reduz alguns dos efeitos adversos do THC e permite que os efeitos benignos estejam presentes. E é muito interessante porque são duas moléculas praticamente idênticas, a diferença é uma ligação. Essa uma ligação faz com que ela se torne fisiologicamente quase que opostas, então uma equilibra a outra. Então existe uma química fina sendo feita hoje em países como Israel, Alemanha, Estados Unidos, mas o Brasil está muito atrasado nessa história toda. O país ainda não conseguiu regulamentar coisas básicas como o direito ao cultivo em casa ou em associações e cooperativas, a disponibilidade de canabinoides para pesquisa, e continua agredindo a população por comercializar remédios. Então é preciso realmente legalizar, regulamentar o uso medicinal da maconha imediatamente porque a população sofre muito. Inclusive em relação à Covid houve um aumento muito grande do consumo de maconha – não só aqui, mas em diferentes países do mundo –, só que em um ambiente de proibição, então com muitos danos farmatológicos e sociais aos usuários. Isso precisa mudar.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/604bc02e8e0e7/sidarta-ribeiro-cientista-sono-trip-fm-mh1.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Sidarta Ribeiro, na formatura da Rockefeller University, em 2001; ALT_TEXT=Sidarta Ribeiro formatura beca sorrindo] LEIA TAMBÉM: Chapado na Chapada: a viagem lisérgica de Sidarta Ribeiro O uso de dispositivos eletrônicos também aumentou significativamente. 65% das crianças e adolescentes estão viciados em dispositivos e são incapazes de manter distância deles mesmo que por 30 minutos. As crianças estão completamente dependentes e os adultos também. Me fale um pouco dessa desgraça. Eu concordo contigo, é uma desgraça. Tenho um filho de 10 e outro de 3. Os dois são superdependentes de tela e eu limitei em duas horas, no máximo, para o mais velho, e o menor estou tentando que seja menos ou nada. Mas é uma guerra, uma dependência gigantesca, uma grande irresponsabilidade que a gente já cometeu com nossos filhos, netos e conosco também. Estamos também afetados por isso. É uma grande pandemia de celulares, de tablets, de laptops, de estarmos todos online o tempo todo, muita ansiedade. Tem um livro importante feito por um neurocientista francês, Michel Desmurget, que se chama A Fábrica de Cretinos. Ele argumenta que o uso excessivo de telas é a explicação para o fato de que essa geração mais jovem, com 15 anos ou menos, tem um QI menor do que seus pais. Isso nunca tinha acontecido desde que o QI foi inventado. A cada geração o QI aumentava, e agora caiu. Isso tem a ver com um achatamento de uma experiência que era muito rica: você brincava, conversava, estudava mais, lia mais. As crianças e adolescentes do passado faziam uma diversidade de estimulações sensoriais e motoras que tinham pouca tela, no máximo uma televisão com dois ou três canais. Agora não, é uma coisa infinita. As crianças estão completamente dependentes e os pais, não conseguindo lidar com os filhos dentro de casa, entregam eles para as telas e, muitas vezes, também se entregam para as telas. Então você tem situações em que há quatro, cinco, seis pessoas na casa, cada um com uma tela diferente, às vezes com volume alto ao mesmo tempo, uma cacofonia. É uma fábrica de doidos, provavelmente uma fábrica de cretinos. Eu estou tentando convencer meu filho mais velho a entender a necessidade de regrar, de moderar e buscar um caminho do meio. A tela não é ruim. O excesso de tela, sim. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/604bc06ba1bd7/sidarta-ribeiro-cientista-sono-trip-fm-mq1.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Sidarta Ribeiro, neurocientista e professor, vencedor da categoria "Sono" do premio TRIP Transformadores de 2007; ALT_TEXT=Sidarta Ribeiro neurocientista sorrindo foto preto e branca] Há 15 anos a Trip fez uma espécie de statement, uma declaração das coisas que ela achava mais importante na vida, e uma delas é o sono. Desde lá a gente sabia que havia muito significado na ideia de dormir com qualidade, com tempo, com profundidade. Sidarta, o que é o sono e o que é o sonho? Ambos são extremamente importantes. O sono é fundamental. Sem ele, a vida humana não é possível. Um animal privado completamente do sono não sobrevive. O sono é superimportante para a formação de proteínas, então tanto para a pessoa que está querendo aprender muito quanto para a pessoa que está querendo fazer muito músculo. Aí se aproximam o intelectual do marombeiro, entendeu? O sono é fundamental para regulação hormonal, para a desintoxicação do cérebro, para limpar uma série de toxinas produzidas pelo próprio cérebro. Então são vários níveis de funções diferentes e, no topo do bolo, tem uma cereja que é o sonho. O sonho já é um processamento de mais alta ordem, mais complexo que diz respeito à simulação de situações, de comportamentos, de cenas, de imagens, de dilemas, de problemas. Eles dizem respeito à navegação do mundo complexo das cascatas de símbolos que a gente gera todos os dias. Todos esses níveis dizem respeito à saúde física e mental das pessoas. A pessoa que consegue ter um sono de boa qualidade – que começa não muito tarde, termina não muito cedo, não é fragmentado e que, ainda por cima, permite a lembrança do sonho – está muito bem na fita, está muito bem posicionada para ter saúde persistente do corpo e da mente.

    Ricardo Galvão: meio ambiente, ciência e censura

    Play Episode Listen Later Mar 5, 2021

    O ex-diretor do INPE que se tornou um símbolo da luta contra o negacionismo fala sobre os ataques do governo, agronegócio e Elon Musk O físico e engenheiro Ricardo Galvão era um professor universitário respeitado, mas que nunca tivera grande projeção fora do universo científico. Tudo mudou em julho de 2019, quando o presidente Jair Bolsonaro colocou em xeque a veracidade dos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais sobre o desmatamento da Amazônia e acusou o "cara à frente do INPE" de estar "a serviço de alguma ONG". Esse cara era Ricardo Galvão, então diretor da instituição. Mesmo sabendo que seria exonerado, ele reagiu e rebateu veemente as críticas do governo, atraindo atenção da mídia brasileira e internacional, que passou a ficar de olho na forma como o país lidava com as questões ambientais. Com a repercussão do caso, Galvão deu palestras no mundo todo e foi eleito um dos dez cientistas do ano em 2019 pela revista Nature, uma das mais prestigiadas na área da ciência. Em 2021, ele recebeu da Associação Americana para o Avanço da Ciência o Prêmio da Liberdade e Responsabilidade Científica. Homenageado pelo prêmio Trip Transformadores 20/21, o professor do Instituto de Física da USP - IFUSP bateu um papo com o Trip FM sobre Bolsonaro, os incentivos à ciência no Brasil, o futuro do agronegócio e os planos de Elon Musk para conquistar o espaço. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir.  LEIA TAMBÉM: Conheça os homenageados do prêmio Trip Transformadores 20/21 [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/3/TRIPFM_RICARDOGALVAO_POD05_mixagem.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/03/60429d289c401/ricardo-galvao-fisico-engenheiro-trip-fm-transformadores-mat.jpg] Trip. Quando o senhor reagiu aos ataques de Jair Bolsonaro, as pessoas tomaram conhecimento do tema e abriu-se espaço para falar com clareza sobre ciência ligada à natureza. Como alguém que se dedicou 50 anos a estudar e compartilhar conhecimento fica ao ser questionado pela supostamente maior autoridade do país?  Ricardo Galvão. A minha reação ao presidente Bolsonaro foi porque ele usou palavras muito mais contundentes, disse que os dados do INPE eram mentirosos porque eu estaria a serviço de uma ONG internacional contrária aos interesses do Brasil. Naquela época eu tinha 48 – agora tenho 50 – anos de serviço público fazendo pesquisa sem ter me aposentado. Aquilo foi um soco direto na minha alma de cientista. Porque ele não só estava atacando a mim, mas os dados que o INPE produz, onde cientistas de altíssimo nível há mais de 30 anos se dedicam a desenvolver o sistema de monitoramento da Amazônia, respeitadíssimo no mundo todo. O que mais me perturbou foi que, desde que o governo Bolsonaro assumiu, começaram ataques ao INPE que não apareceram na imprensa. O ministro Ricardo Soares sempre atacou a maneira com que o instituto produzia os dados, com o interesse de comprar outro sistema de uma empresa americana, e todos os ataques dele foram respondidos da forma correta, que se faz de acordo com a metodologia científica. Eu tinha que trazer o problema à tona. Se eu ficasse quieto, seria exonerado da mesma forma, não tenha dúvida, e viriam consequências bem mais fortes sobre o INPE.  E custou o meu cargo, custou muito sofrimento, mas o INPE foi salvo. O problema da Amazônia, a posição do INPE, foram colocados a nível internacional, isso não tenho a menor dúvida. Dá vontade de ir embora como centenas – talvez milhares – de intelectuais e cientistas brasileiros fizeram nos últimos anos para procurar um ambiente um pouco menos hostil para estudar e para pesquisar? Eu me doutorei no MIT, uma das melhores escolas do mundo, em 1976. Naquela época eu pesquisava fontes de energia com fusão nuclear, uma área que tinha uma importância enorme no cenário internacional, então todos os dias vinha alguém de alguma empresa ou de outra universidade oferecendo emprego. O mais difícil de recusar foi um convite para a posição de professor assistente Doutor na Universidade Columbia, em Nova York, nos Estados Unidos. Mas essa foi uma decisão que tomei porque eu sentia o meu dever de voltar para o Brasil para ajudar a ciência brasileira a crescer. Eu recebi uma bolsa do MIT como assistente de pesquisa, mas o Brasil pagou as taxas escolares. Se eu tivesse ficado lá fora, talvez minha carreira científica teria sido mais brilhante, mas eu não teria formado outros pesquisadores, como eu formei, no meu país. Eu tive a mesma oportunidade em 1988, quando eu trabalhei por um ano no Laboratório em Oxford, na Inglaterra, e na volta recebi uma carta me oferecendo um cargo permanente. Eu também recusei, porque eu senti que tinha uma obrigação com o país. Então não seria o ataque de um presidente tosco e completamente ignorante que iria me fazer desistir de uma decisão de vida que eu tomei há tantos anos. Existe um grande embate entre ambientalistas e representantes do agronegócio, mas, ultimamente, temos começado a ver algum nível de convergência de interesses, pelo menos algum diálogo. O senhor acredita que esses dois planetas tendem à convergência ou esse embate ainda vai durar muito tempo, sem muito acerto?Ambientalistas e produtores rurais vão se acertar? É preciso discernir bem os dois cenários. Primeiro, não podemos colocar os produtores rurais numa bacia única. Nós temos um agronegócio muito desenvolvido, profissional, que utiliza fortemente o desenvolvimento científico. Mas existe, sim, uma parcela que são o que eu chamo de ruralistas predatórios, principalmente na Amazônia. Não sei se todos sabem, mas a Amazônia começou a ser explorada no governo militar, quando se teve a ideia, em 1970, de construir a Transamazônica. Eu me lembro que um general disse que a Amazônia seria conquistada seguindo a pata do boi, ia-se botar o boi entrando e explorando. Então a Amazônia foi explorada com uma mentalidade ruralista bastante predatória, e que nós sabemos que existe também na Mata Atlântica, no Cerrado. E é esse pessoal, que eu chamo de má bancada ruralista do Congresso, que vai contra os ambientalistas. Mas hoje em dia nós temos várias publicações e modelos claros de exploração da Amazônia de forma sustentável e bastante viável do ponto de vista econômico. Um exemplo é o presidente da Associação do Agronegócio brasileiro (ABAG), Marcelo Brito, CEO da Abrapalma, que produz óleo de palma, óleo de dendê, na Amazônia, explorando só áreas já desmatadas ou pastagens. Ele não corta mais. E eles ganham dinheiro. É importante esse pessoal do agronegócio ter consciência que, se continuarem com essa mentalidade de explorar de uma forma predatória, desmatando, eles estão com seus dias contados. Existe uma certa celebrização dessa figura, o Elon Musk, que é um cara relativamente jovem e que tem feito coisas muito impressionantes. A gente fica batendo palma pro cara que está dizendo que vai para Marte e que quer fazer uma nova civilização lá. Só que a gente não conseguiu arrumar, aliás, destruímos o nosso planeta. Como é que você vê uma evolução da ciência desse nível e ao mesmo tempo a ignorância tosca? Esse contraste da habilidade do ser humano de fazer coisas inacreditáveis e, ao mesmo tempo, não consegue se organizar de uma forma razoável e vai se matando. Esse contraste sempre existiu no espírito humano. Essa atração pela exploração, pelo desconhecido, para grandes viagens, grandes conquistas, sempre existiu no espírito humano, mesmo em condições muito toscas, como você disse, muito atrasadas. Pensa nas viagens portuguesas, por exemplo. Eles tinham problemas mais sérios para resolver em Portugal, é claro – a população portuguesa era ignorante, anti-democrática, passava fome sob domínio de homens poderosos. Mas esse espírito desbravador, de procurar novos horizontes, sempre existiu. Isso às vezes vai para a ciência, às vezes vai para outros desbravamentos. Então essa questão de explorar Marte, a Lua, vai sempre existir. Na primeira vez que o homem olhou para o espaço ele já pensou em conquistá-lo. Mas o Musk precisa tomar um pouquinho de cuidado, ele usa também isso como propaganda. É óbvio que ele tem aí um investimento muito grande, é extremamente inteligente e muito empreendedor, não tem medo de desafios. Mas muito disso vem da propaganda. Não dá para nós resolvermos todos os problemas para fazer alguma coisa. A humanidade avança aos saltos. É difícil nós pensarmos que vamos organizar tudo antes de progredir. Tem um cientista belga que ganhou o Prêmio Nobel, Ilya Prigogine, que fala como que do caos às vezes nós temos um pico de desenvolvimento. No caso da Lua, o interesse não é só a questão de mandar turista. Nós temos possibilidade de explorar muita coisa na Lua que está acabando na Terra, por exemplo o gás hélio, importantíssimo em aplicações médicas, industriais. Existem até projetos de espaçonaves para transportar gás hélio. Então, é claro que as pessoas estão vendo a longo prazo, mas esse espírito exploratório vai sempre haver, infelizmente, concorrendo com a solução dos nossos problemas terrenos mais básicos. 

    Christian Dunker: BBB, Bolsonaro e saúde mental

    Play Episode Listen Later Feb 26, 2021

    Dono de um canal no YouTube com mais de 250 mil inscritos, Christian Dunker usa a psicanálise para falar de televisão à política brasileira Quando Christian Dunker voltou do seu pós-doutorado na Inglaterra, em 2001, tinha clara a ideia de que se entendia muito de psicanálise, mas pouco sobre Brasil. Esse retorno foi marcado pela vontade de interpretar o Brasil através da cultura do condomínio, um conceito que ele criou e escreveu em seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros, finalista do prêmio Jabuti em 2016. O termo cunhado pelo autor diz sobre como a privatização do espaço público transforma a própria vida em formas de condomínio, com seus regulamentos, síndicos, gestores e muros, criando uma desordem que será objeto de ação clínica, mas também biopolítica. No canal do YouTube “Falando nisso”, Christian aborda temas que fazem ligação direta com a psicanálise, como filmes, livros, situações do cotidiano, política e história. A intenção é democratizar o acesso à psicanálise aos mais de 250 mil inscritos, sair dos muros acadêmicos e cativar leigos.   Em entrevista ao Trip FM, Dunker fala sobre a saúde mental pública, a postura do presidente Jair Bolsonaro e a polêmica rejeição da cantora Karol Conká no Big Brother Brasil. Ouça o programa no Spotify, no play abaixo ou leia um trecho da entrevista a seguir.  [AUDIO=https://p.audio.uol.com.br/trip/2021/2/ChristianDunkerPODCAST.mp3; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/02/603959356aa18/christian-dunker-bbb21-bolsonaro-psicanalise-violencia.jpg] Trip. Eu queria que você explicasse para quem tem menos intimidade com o tema o que é a psicanálise, para que ela serve e de onde ela vem.  Christian Dunker.  A psicanálise é uma forma de tratamento do sofrimento humano pela palavra. Ela foi inventada por Freud no começo do século 19 e envolve entender de onde vieram os nossos sintomas, as nossas inibições, os nossos pensamentos recorrentes e aquilo que nos gera inquietude. É uma forma de tratamento psicológico, de psicoterapia, pois envolve abordar tudo isso a partir do processo de lembrança, mas também do processo de relação entre o analista e o paciente. Então é como se fosse uma pesquisa, uma viagem, na qual coisas vão sendo descobertas, novas perguntas vão sendo feitas. A gente poderia dizer que a psicanálise tem uma orientação dupla: por um lado ela procura reduzir o sofrimento das pessoas – o sofrimento mental, psíquico – e curar os sintomas, mas por outro ela também é uma forma de tornar a vida mais interessante, tornar nossa presença com os outros mais intensa e fazer valer uma certa excelência no viver.   LEIA TAMBÉM: Dá pra manter a saúde mental durante a pandemia? Não tem como a gente não falar de Big Brother Brasil e da eliminação de Karol Conká, que teve a maior rejeição da história do programa, palavra que por si só já carrega um peso. Queria ouvir a sua opinião sobre esse processo que tomou conta dessa artista. O que aconteceu exatamente com essa menina exposta àquelas condições? O Big Brother é um experimento, é uma brincadeira, mas uma brincadeira em torno de algo que organiza a lógica nas nossas relações, que é a exclusão. Você não está lá para ser bacana, você está lá para resistir a ser expulso e rejeitado. Isso está na empresa, está na educação, está no que a gente chama de universo da competição. Então você está ali vendo e rindo de algo que te afeta e que te faz muito mal. O que acontece é que no caso de Karol Conká isso exagerou, então o princípio da coisa ficou tão nítido que eu repudio. E repudio o fato de antes estar gostando. Mas agora que aparece de uma forma tão cristalina eu tenho que me afastar, colocando em marcha o processo do cancelamento. [QUOTE=1165] Você só cancela quem você amou antes. Você cancela porque criou uma imagem a partir de um sistema de ilusões e identificações. Você acha que é o dono daquela imagem, mas não é. Então o cancelamento é muito mais a descoberta de um dado das suas ilusões, da sua incoerência, do que o cara que te traiu. Porque você acha que as pessoas são unidimensionais e, se você colocar uma câmera de um certo ângulo, vai encontrar o pior de qualquer um. Você vê essa contradição, ela é eliminada pelo nosso funcionamento imaginário. Aí existe um outro capítulo, que entra nessa disputa com um certo conhecimento de como funcionam grupos desse tipo e fazendo uma função que a gente conhece, que é o bully, o valentão, aquele cara que deixa todo mundo com medo. E uma vez que a pessoa tá com medo, ela vê ele fazendo uma coisa errada e não fala nada, e acaba empoderando esta figura. A realidade de quarentena nos aproximou do programa porque estamos todos vivendo o nosso Big Brother particular. E quando a gente vê ela agindo dessa maneira, acaba reconhecendo a agressividade de intimidação, de violência que estão associados com a vida em estado de confinamento. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/02/603959418bf85/christian-dunker-bbb21-psicanalise-violencia.jpg; CREDITS=; LEGEND=; ALT_TEXT=] [QUOTE=1166] A Karol Conká representa uma espécie de colapso de um conjunto de narrativas sobre identidades. Porque se a gente olha de um certo ponto de vista, ela é uma mulher, Lucas um homem. Um homem contra uma mulher, o que neste país significa uma prerrogativa para mulher. Mas ela é uma mulher rica, famosa e poderosa, então muda a chave, é alguém rico contra o Lucas, que é periférico, alguém que não tem os códigos, que não consegue se ligar muito bem. Ele está tentando jogar, mas deixa muito claro as regras que ele quer pôr em curso. Você vai variando, né? Uma mulher negra exercendo violência sobre um homem negro. Isso é racismo? Será que aí estamos falando de racismo estrutural, aquele que toca a todos de forma transversal? Veja o curto circuito em que, na verdade, ela aparece numa forma que a gente não está acostumado. Essa conversa precisa de uma reformulação, a pensar a guerra das identidades a partir de personagens unidimensionais. A causa gay contra a causa queer, contra a causa feminista, contra o feminismo negro, contra o feminismo periférico. Como é que a gente junta tudo isso? O que está em jogo nessa trama é muito mais complexo do que esse alguém que está num lugar privilegiado e o outro está como vítima sofrendo nas mãos dos outros. A gente precisa mudar essa gramática da vítima e do carrasco, porque ela é parte do cancelamento, da lacração, é parte do negacionismo científico. Formamos, assim, um conjunto onde as oposições se desfazem, onde as polarizações mais simples ficaram suspensas. Esse é o lado legal do episódio da Karol Conká. Eu quero virar a lente para outra situação que parece ter todas as características de uma patologia grave, que é o ocupante da cadeira máxima da República, nosso presidente, Jair Bolsonaro. Qual é a patologia ali, Christian? Se é que você entende que há algo. Olha, existem algumas hipóteses sobre o funcionamento do personagem, mas eu diria que isso é menos importante do ponto de vista dos efeitos que ele acaba criando do que o que a gente chama de discurso Bolsonarista. O personagem, que administra esse discurso, cria o que eu chamaria de uma patologia social. Não é porque ele seja excepcionalmente louco, excepcionalmente perverso, que ele sofra de uma histeria grave, que ele é insalubre, é pela forma como ele consegue aliciar nas pessoas o que elas têm de pior. É a forma como ele consegue montar uma coisa que Freud chamava de uma patologia artificial, que é ir lá e dizer assim: “Você não tem ódio por algum tipo de estrangeiro? Estranho? Diferente de você? Vamos amplificar esse ódio? Vamos dirigir ele para a figura? Vamos criar uma figura comunista? Vamos criar o petista?”. Uma característica desse personagem é a sua autenticidade e ele realmente é um caso muito interessante, porque ele não está mentindo. Ele está um pouco como Big Brother, nos mostrando como a gente se ilude, como a gente acha que não é ele. “Ele vai manter a economia porque ele está falando do Ipiranga. Olha só o Guedes. Você está se enganando, você sabe que não é isso”. Assim como: “Esse negócio de armas, violência, é só para campanha, quando ele ganhar vai ser diferente”. Veja, no que ele está se baseando? Em ilusões que ele cria? Não, nas suas ilusões. Ele está jogando com o seu sistema de ilusões e isso é extremamente devastador, porque ele vai até o nosso sistema de afetos dentro da família, dentro das nossas referências simbólicas. Tanto faz se o que ele disse é verdadeiro ou não, se é bom ou não. Os argumentos que ele levanta têm a ver com a patologia específica, é dividir a nossa referência simbólica. Então é um discurso que, por exemplo, vai dar poder e legitimação indireta para a violência sobre quem tem menos poder. Essa história de atacar os quilombolas, de ser misógino, “mas é o jeito tio do churrasco e tal”. Essa é a mensagem daquele inconsequente, aquela que só acredita na palavra dele e acha que as palavras são feitas, assim, de fumaça. Mas o que vai acontecer lá no Brasil profundo vai ser o homem que vai pegar isso e se autorizar para bater em uma mulher. Vai ser o rico que, através disso, vai se autorizar para excluir o pobre. Essa capilarização da violência está acontecendo e ela está acontecendo segundo uma aprovação gozosa do personagem. [QUOTE=1167] Então, do ponto de vista clínico, parece ser alguém que o Lacan faria duas afirmações curiosas: “O pior diagnóstico que há é anormalidade, porque esse não tem cura”; e “a gente deve recusar a psicanálise aos canalhas”. Porque o canalha, quando vem para análise, começa a descobrir do que é feita a canalhice dele e ele vira um bobo. Ele vira uma pessoa débil, uma pessoa sem personalidade. No fundo, se eu tivesse que recorrer a um diagnóstico, ele é um canalha, mas não no sentido do grande maléfico, e sim da pessoa limitada, que não consegue se pôr em dúvida, que não consegue entender o que é um lugar simbólico, não consegue entender o que é representar. É alguém assim, limitado. Uma pessoa muito, muito simplificada do ponto de vista psíquico.  O SUS tem sido muito elogiado por ser uma rede pública única no mundo, mas, por outro lado, parece que no âmbito da saúde mental há muitas falhas e questões a serem abordadas. Como está a saúde mental pública? A gente vive uma crise de saúde mental que é anterior à pandemia e ela se aprofunda vigorosamente, tanto pela dificuldade de fazer atendimento por telas e da preparação do setor público para isso, quanto pelo fato de que nessa administração a saúde mental vem enfrentando desmontes, desaparelhamentos, parasitagens. Havia uma debilitação do sistema pra enfrentar aquilo que já estava ruim. Hoje se fala na volta do eletrochoque, no retorno de internações em escala patrocinadas por certas associações entre Estado e Igreja, ou seja, o tratamento moral do sofrimento psíquico, que é uma coisa pré-Freud, de achar que seu sofrimento psíquico é falta de Deus, de fé, de Cristo no coração. Isso é uma regressão que só piora o problema, que introduz a culpa individualizada como a gênese do problema, que legitima a prática de violência com internações compulsórias. Está tudo errado no momento em que a gente mais precisava disso. O que se salvou foi a organização dos psicólogos e psicanalistas, que começaram a fazer movimentos para tornar a saúde mental mais acessível para as pessoas, mas em nítido confronto com a política de estado.

    Maestro Júlio Medaglia: A música é a matemática das artes

    Play Episode Listen Later Feb 19, 2021

    Um dos artistas mais versáteis da música brasileira, ele fala sobre sua vida nômade, a profissão de maestro e a falta de incentivo à cultura "A música é a mais racional das artes", diz o maestro Júlio Medaglia. “Na pintura existe mais subjetividade. O cara tira ou põe um pouco de amarelo, apaga ali, e pode ficar bonito e dar prazer. Mas na música, não. Se você colocar um oitavo de segundo depois já desarma com o esquema”. Fundador da Amazonas Filarmônica, o maestro regeu as orquestras mais importantes do Brasil e da Alemanha e foi aluno de Pierre Boulez, Karlheinz Stockhausen, John Barbirolli e Hans-Joachim Koellreutter Surfando com versatilidade na música, além do seu lado erudito, colaborou para uma das obras-primas da música popular brasileira, assinando os arranjos de Tropicália, canção de Caetano Veloso que marcou o início do movimento tropicalista. Eram tempos, lembra o maestro, em que as rádios reproduziam músicas que não pertenciam ao circuito comercial e a televisão abria espaço para a música erudita. Fora do universo musical, o maestro Júlio Medaglia escreveu mais de 500 artigos e 5 livros, o que o levou a ocupar a cadeira número três na Academia Paulista de Letras, que já pertenceu a Mário de Andrade. “Eu me encantei muito com o poder semântico da palavra. A palavra é feiticeira, é uma bomba”, conta.  Aos 82 anos, ele é responsável pelo programa Prelúdio, concurso musical para instrumentalistas da TV Cultura que recebeu o prêmio de melhor projeto cultural da TV brasileira. O maestro bateu um papo com a Trip sobre música erudita e popular, a solidão dos artistas e a falta de incentivo à cultura no Brasil. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/02/602fe67515e55/maestro-julio-medaglia-cultura.jpg; CREDITS=Creative Commons; LEGEND=] Trip. A gente admira muito as pessoas que surfam, que conseguem obter prazer e ao mesmo tempo influenciar as mais diferentes praias. Você se mudou para Salvador muito jovem, depois foi para a Alemanha, para a Amazônia, para Brasília, navegando em mundos musicais muito distintos. Um dia você está fazendo trilha de cinema, preparando um especial da Globo, no outro está escrevendo um livro ou regendo uma orquestra para milhares de pessoas no meio da rua. Essa mobilidade intelectual é fascinante. De onde vem essa inquietude? Maestro Júlio Medaglia. A minha aliança com a música foi acidental. Na minha família ninguém é músico. Meu pai vendia peças de automóvel importadas, minha mãe era costureira da alta sociedade de São Paulo e minha irmã trabalhava numa empresa química. Mas um dia apareceu uma empregada lá em casa, que morava no interior de Minas, e na mochila ela trouxe um pequeno violino, para criança. Eu passei a brincar com aquele instrumento e, certo dia, numa corda só, eu consegui tocar Noite Feliz e comecei a me encantar com aquela sonoridade. A minha mãe se deu conta que tinha uma prima de segundo grau que tocara violino e ela começou a me dar aulas. E comecei a tocar com orquestras amadoras, até que me encontrei com professor alemão Koellreutter, que morava em São Paulo. Ele iluminava nossa mente com ideias, filosofias, exposições, provocações culturais, e eu comecei a me encantar não só com a música, mas com todo aquele arcabouço cultural gigantesco. Na realidade a música é fruto de um monte de coisas sociais, políticas, étnicas e éticas e, com isso, eu fui me interessando por outros campos dentro do universo sonoro e cultural. Consegui uma boa bolsa de estudos do governo alemão e me formei na Universidade de Friburgo como regente sinfônico, mas o Brasil me chamava. Naquela segunda metade da década de 60 tinha a bossa nova, os festivais na TV Record, que eram verdadeiras loucuras em termos de geração de uma nova turma para a música brasileira de primeira qualidade. Nessa época comecei a estudar e a escrever também as trilhas sonoras para peças de teatro. E aí quando eu fiz uma para Cacilda Becker e Walmor Chagas, uma peça de teatro chamada “Isso devia ser proibido”, tinha lá um baiano que tinha chegado de Salvador e me pediu para fazer um arranjo da música dele, que “talvez vá se chamar Tropicália”. Aí nascia a minha relação com o Caetano [Veloso]. O arranjo acabou propondo uma série de novas soluções, de falas no meio, ruídos de pássaros e assim foi. Eu fui ampliando o meu universo de relacionamentos e de atividades também. Comecei a escrever no jornal O Estado de S. Paulo, escrevi uma história da bossa nova e a história da música do século XX. Eu me encantei muito com o poder semântico da palavra. A palavra é feiticeira, é uma bomba. Abrindo meu leque de opções culturais e fui parar nos Estados Unidos a convite do Conservatório de Boston, criei uma orquestra no teatro maravilhoso que existe em Manaus, fui convidado para dirigir o Theatro Municipal em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Teatro Nacional, em Brasília. Fui me deslocando de uma cidade para outra, de um universo para outro, mas sempre mantendo esse espírito de não só fazer música, mas ser o animador cultural, porque no Brasil precisa ter essa função educativa. Eu espero ter cumprido alguma coisa nesse sentido. Essa vida nômade que você acaba de relatar, riquíssima do ponto de vista profissional e cultural, muitas vezes gera certas disfunções na vida pessoal. Ela foi atrapalhada por essa riqueza profissional? No fundo o artista é um grande solitário. Você está regendo um grande concerto, na grande sala, com uma grande orquestra e, quando acaba, você vai para o hotel e fica sozinho, quietinho lá assistindo televisão. Aí o táxi te leva, você está outra vez sozinho, em outro hotel do mundo. Existe esse conflito entre a solidão e a coletividade, mas isso faz parte da coisa. Minha mulher é alemã, eu casei na Alemanha e ela veio para o Brasil. Eu tive a sorte de ter uma pessoa que compreendesse essa vida nômade e isso nunca atrapalhou, felizmente, nosso relacionamento. Eu estou o tempo todo viajando, mas isso faz parte da vida do artista. O artista que tem que estar onde o povo está, como diz o velho Milton Nascimento. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/02/602fe683a65d6/trip-fm-podcast-radio-maestro-julio-medaglia.jpg; CREDITS=Creative Commons; LEGEND=] Quem é leigo tem uma noção, vê a figura do maestro cuidando da harmonia ali, daquele grupo de música. Mas como é que uma pessoa resolve ser maestro? O que é ser maestro? O maestro, com os dedos e sua energia pessoal, transfere a técnica e a emoção que ele tem na mente. A dificuldade maior é passar suas ideias, a sua emoção e sua concepção artística para 80 pessoas. Exige um bom tempo de estudo, de trabalho e amadurecimento para você se relacionar com essa comunidade, essa grande empresa chamada orquestra. Você está à frente de um time de primeira, se você vacilar está perdido. A regência é aquela que exige o maior número de matérias, harmonia, contraponto, fuga. E conhecer muito bem todos os instrumentos, senão você não pode chegar para um flautista e dizer: “Faça isso”. Depois do domínio deste gigantesco arcabouço técnico, aí começa um relacionamento com a parte artística, cultural da música. Depois o seu relacionamento como o líder de uma comunidade, porque você tem que passar através de um gesto de mão, às vezes muito simples, toda a concepção de uma grande sinfonia. Então de fato é uma profissão complicada, exige muito esforço, conhecimento e talento.  O que a gente mais ouve são queixas da falta de reconhecimento, da falta de estrutura, da falta de condição para trabalhar nessa área. Nesse momento então, nem se fala. Maestro ganha dinheiro ou são só dois ou três e o resto fica na pindaíba? A seleção é mesmo muito rigorosa, mesmos nos países do mundo que têm muita atividade orquestral. Existem maestros que são muito bons, mas falta um pouco de talento para determinadas coisas e não chegam a ocupar cargos importantes. Mas aí ele presta serviço de outra maneira: cria orquestras jovens, prepara novas gerações ou então vai dar aula de regência. Na Alemanha tem 80 casas de ópera e cada uma delas troca a ópera toda noite, como o projecionista do cinema troca a bobina do filme. No Brasil existem muito poucas orquestras, as excelentes são só três ou quatro. Então de fato é muito complicado profissionalmente sobreviver com essa profissão. Tive a sorte de encontrar um caminho e poder dirigir algumas boas orquestras do país. Não posso me queixar. Tem uma entrevista sua ao saudoso Abujamra em que você fala que a música é uma ciência exata. Tem até uma frase que é: “A música é alma da geometria”, alguém disse isso. E você descreve uma partitura como sendo equações, aquelas que tem milhões de sinais, números e algarismos. Me explica um pouco esse aspecto da sua visão sobre a música. A música é a mais matemática das artes. Quando você imagina uma orquestra tocando, eu faço ‘pá’ e nesse acorde, que durou um oitavo de segundo, vinte músicos fizeram juntos. Como é que eles fizeram juntos? Eles têm uma sensibilidade para aquela geometria musical montada que faz com que, quando o maestro faz um sinal, eles saibam onde entrar. Mas no ‘pá’ teve um trompete que tocava um 'Lá', este 'Lá' tinha 444 vibrações, porque se tiver 400 vibrações já desafina. A própria formação da orquestra, como os músicos se entrelaçam, cada um jogando com seu código matemático na frente, quer dizer, ela é a mais racional das artes. Se você ver as obras de Bach, tem todo um relacionamento acústico, melódico, harmônico e rítmico, que é um projeto de uma arquitetura, uma arquitetura sonora complicadíssima. Na pintura existe mais subjetividade. O cara tira ou põe um pouco mais de amarelo ali, um vermelhinho ali, apaga aquilo ali e pode ficar bonito e dar prazer. Mas na música, não. Se você colocar um oitavo de segundo depois já desarma com o esquema. Então toda a orquestra funcionando é um grande computador que provoca emoções.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/02/602fe691a8454/julio-medaglia-maestro.jpg; CREDITS=Creative Commons; LEGEND=] Você trabalhou com Caetano Veloso, Jards Macalé e outros artistas populares de alta qualidade. Existem pessoas como você, que têm o privilégio, o talento e a condição de estudar com os melhores do mundo, mas tem também gente que de repente sai tocando ali e tem um outro tipo de talento, faz coisas que também mudam o mundo. Onde é que está a linha que separa o artista popular que não estudou, mas que é capaz de produzir emoção, e o pessoal que produz porcaria enlatada e que hoje tem facilidade para espalhar isso pelo planeta? Na realidade o talento musical é uma coisa espontânea e vem das profundezas da alma. O Cartola não estudou em nenhuma universidade, ele limpava automóvel, morava numa favela, mas desenvolveu essa musicalidade, espontaneamente, sem estudar teoricamente a música. Então existe a música extremamente elaborada, aquela que você faz com orquestra sinfônica, em sinfonias, concertos, óperas, e existe a música espontânea, que tem poucos elementos, mas pode ser extremamente rica. O Jobim não fez uma música com uma nota só? Se repete 50 vezes a mesma coisa e, quando ouve, o mundo inteiro cai de joelhos. "Águas de Março", repete duas notas 50 vezes e o Leonard Feather, que é o maior crítico de jazz dos EUA, diz que é uma das 15 maiores melodias do século. Existe essa sensibilidade, esse talento feiticeiro que alguns tem – o Jobim tem, que Mozart tem, que o Cartola tem. Ser popular não quer dizer ser inferior à música erudita. Agora, evidentemente, tanto na área da música sinfônica, super elaborada, como na da música espontânea, tem muita porcaria. Tem muita gente que tem conhecimento técnico que faz porcaria. Tem gente que não tem conhecimento técnico nenhum e faz jóias como essas. Eu já vi você falando que a televisão não põe mais música e que a rádio está a serviço dessa indústria que você qualifica como "essas porcarias enlatadas". Por outro lado, você vê a distribuição da música facilitada hoje por plataformas digitais. Quer dizer, o artista que tem alguma coisa para mostrar não precisa bater na porta de uma gravadora ou da rádio. Por que é que a televisão se divorciou da música? A gente está melhor ou pior na nossa capacidade de dar acesso ao talento? Infelizmente a boa música saiu da televisão. Nos áureos tempos, a música era mais da metade da programação. Grandes nomes da música brasileira que nós temos até hoje em nossos corações vieram do rádio e da televisão. Dos anos 70 ou 80 em diante o artista ia bater na porta das gravadoras e, depois de algum tempo, as gravadoras começaram a pagar para pôr no ar a música. E as televisões aceitavam isso, davam nota fiscal, assim como põe uma garrafa de Coca-Cola no ar numa novela. Pode ser uma música maravilhosa, pode ser uma porcaria, você paga vai para o ar. Então a boa música desapareceu do rádio e da televisão, e perdeu esse aspecto de revelação da musicalidade espontânea do povo brasileiro, que é riquíssima. Nós fizemos a melhor música popular do mundo durante muito tempo. Essa música ainda existe. O próprio Macalé, que você citou, mas você não vê esse pessoal no rádio. O próprio Caetano, o Gil, que são os mais famosos compositores da atualidade, eu não vejo esse pessoal na TV Globo, na Record. A indústria da comunicação transformou a música popular num objeto mercadológico muito rápido, muito ágil e muito veloz – para vender logo e o cara comprar, gostar, depois jogar fora e comprar outro. Nesse sentido, a música popular brasileira está submersa num mar de mediocridade, infelizmente. A Osesp, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, tem a Sala São Paulo como uma espécie de templo, e os assinantes, uma espécie de sócios, pagam para ter acesso àqueles concertos semanais. E também há iniciativas como a Orquestra de Heliópolis, numa comunidade de periferia. Essa música, da qual o senhor é um dos grandes pilares aqui do Brasil, está a serviço da democratização? Ela vive ainda desses feudos de marajás que se reúnem em salas exclusivas? Qual é a da música erudita? O que tem acontecido de muito bom no Brasil ultimamente é que várias empresas estão se dando conta que elas têm que ter um relacionamento com a sociedade. Há inclusive leis que facilitam isso no Brasil, além da Lei Rouanet. Agora o governo está querendo acabar com ela, e é uma sacanagem. A Lei Rouanet recebe 0,4% dos bilhões que o governo dá para companhias de automóveis, para empresas que fazem outros produtos, e estão querendo acabar com esse mínimo, como se artista fosse bandido ou não soubesse como usar o dinheiro. Nos Estados Unidos não precisa de incentivo fiscal, porque o norte-americano se deu conta que investir em projetos culturais valoriza a sua marca ou empresa. Então a coisa virou ao contrário: hoje, o cara que não se relaciona com a comunidade em projetos dessa natureza está por fora e é discriminado na sociedade. Esse caso você citou de Heliópolis é maravilhoso. Começou com o padre Bacacheri ensinando crianças, a Votorantim colocou dinheiro, a Petrobrás também, e criou-se uma orquestra sinfônica maravilhosa, feita pelos filhos dos meninos da favela, que foram para a Alemanha tocar na cidade onde nasceu o Beethoven e povo aplaudiu de pé. Ou seja, a música salvou a criançada da droga que existia na região. Então existe esse poderio feiticeiro, positivo da música, pelo qual algumas empresas agora estão interessadas em financiar projetos desse tipo, que usam a música como elemento de inserção social para jovens de periferia. Isso a música consegue fazer e as empresas que investiram nesses projetos não se arrependerão.

    Leo Jaime: Fui cancelado por minha forma física

    Play Episode Listen Later Feb 12, 2021

    O cantor, ator e jornalista viu as portas se fecharem por causa da gordofobia, mas aprendeu na porrada: "Soube me levantar" Leo Jaime foi cancelado antes mesmo do cancelamento ter nome. "Nunca quis ser galã, mas me colocaram lá e em seguida fecharam as portas para mim porque eu estava engordando e com ar decadente com trinta e poucos anos", conta o músico, ator e jornalista, que aos 20 anos já tinha sucessos tocando nas rádios de todo o Brasil, mas viu tudo desaparecer quando começou a ganhar peso. “Minha personalidade deve ser maravilhosa, porque as pessoas só falam da minha forma física. Eu não conseguia marcar uma reunião, ninguém me convidava para nada, nenhum empresário aceitava me empresariar. Que a situação é essa? Completamente cancelado”. [VIDEO=https://www.youtube.com/embed/NJsRiFPhAbA; CREDITS=; LEGEND=; IMAGE=https://img.youtube.com/vi/NJsRiFPhAbA/sddefault.jpg] Foi só quando surgiram os blogs e as primeiras redes sociais – lembra do Orkut? – que Leo restabeleceu contato com seu público e conseguiu recuperar espaço na mídia e no showbiz. "Foi o que me salvou", conta. Mas ele aprendeu, na porrada, que respeito e tolerância não são negociáveis. "Nenhuma razão te dá o direito de ser cruel, escroto ou mesquinho sem razão nenhuma", diz. "O Big Brother espelha isso porque o que você vê são as pessoas linchando os linchadores".   No papo com a Trip, Leo Jaime fala sobre gordofobia, sucesso, zona de conforto – "o que é isso? é de passar no cabelo?" – e a falta de grana que enfrentou no começo da carreira. "Eu batia na porta do Cazuza quando estava sem comer", conta. "Foi muito duro". [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/02/60254344d0e24/946x946x960x960x-6x-6/leo-jaime-cantor-ator-compositor-trip-fm-pod.jpg; CREDITS=; LEGEND=] Trip. A gente está vendo esse Big Brother exacerbando esse negócio de fama, de influenciadores e cancelamentos. O que é essa fama? Por que as pessoas perseguem esse bicho?   Leo Jaime. Pois é, parece uma tara. Eu entendo que há uma coisa, e aí é bom a gente falar dos nossos próprios demônios. Em algum momento eu percebi que a aprovação alheia era, para mim, mais do que um reconhecimento do meu próprio valor, uma necessidade de aceitação, de endosso, como se a aprovação do outro me legitimasse. Eu acho que em parte, especialmente quando você está querendo despontar, sair do anonimato e criar uma voz, criar um público, ser admirado pelo seu trabalho, tem toda uma coisa de vaidade que fica mexida nisso. Você de certa forma pode ficar refém. Hoje a gente percebe que as pessoas que vão se propor a uma carreira diante do público fazem mídia training, se preparam para isso. A gente não tinha a menor noção de como se fazia. Eu lembro que no auge do sucesso a meta era comprar um XR3. Não é que ficava rico, se saía da merda, só. Hoje é diferente, os caras compram um avião no primeiro ano e aí tem que lidar com fortuna, com popularidade, com o julgamento do outro, etc. Eu me lembro que, depois de ter lançado um disco que fez muito sucesso, no seguinte eu sentia que as músicas que eu escrevia eram como se tivessem 100 mil pessoas olhando por cima do meu ombro para ver cada frase que eu falei. Aí virou uma coisa de autoconsciência, de se levar muito a sério, que é muito desagradável. Acreditar no personagem também é muito bobo. Respondendo à sua primeira pergunta, eu faço muita coisa. Usando a frase do meu amigo Xico Sá, “o sapo não pula por boniteza, ele pula por necessidade”. Eu tive momentos de altos e baixos, tanto na minha carreira de jornalista quanto a minha carreira de músico e na minha carreira de ator. Nunca foi muito fácil, nunca foi muito simples, nunca foi contínuo, a não ser durante alguns anos que eu trabalhei no GNT. Eu vejo que a vida me deu boas oportunidades. Eu acho que devo ter acertado mais do que errei, mas errei muito. Soube me levantar e tive resiliência, e sobretudo não levei o personagem para cama. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/02/602541f351eb9/1040x1040x960x960x38x16/leo-jaime-cantor-ator-compositor-trip-fm-mo.jpg; CREDITS=; LEGEND=] Revendo um pouco a sua história eu vi uma passagem que eu não tinha no meu radar, que numa época você não tinha grana para comer. Que época foi essa? Eu comecei a dar certo muito cedo, porque eu tinha 20 anos e tinha música tocando no rádio. Mas o que isso rendia de dinheiro não pagava as minhas contas e eu estava num momento em que eu já achava que não devia mais trabalhar como vendedor de loja de roupa ou ser barman. Eu achava que iria ficar numa coisa artística, mas tinha que dar aula de violão para ver se fazia o dinheiro que pagava as contas. Da hora em que eu cheguei no Rio até quando eu pude comprar minha primeira guitarra foram oito anos.  E nesses oito anos a coisa foi complicada porque nem sempre eu tinha o que precisava. E ao mesmo tempo eu tinha quebrado o pau com a família, perdi o suporte familiar porque eu tinha largado de estudar para seguir a carreira artística sem plano B. Uma coisa que eu não gostaria que meu filho fizesse. Eu lembro do Ney Matogrosso, que conheci nessa época, falar: "Tem algumas pessoas que pagam o ingresso antes de ver o filme e é o que está acontecendo com você. Você tá pagando ingresso caro, provavelmente o show vai ser muito bom". De certa forma isso me serviu como guia durante esse processo todo. Eu acho que eu paguei para assistir, foi muito duro. Eu batia na porta do Cazuza quando estava sem comer. É curioso que ele ficava puto por ter alguém das relações dele passando por esse tipo de situação. Foi uma época. Você mencionou essa sua ruptura com a família. Como é a sua família? Quem são? Onde estão? De que se alimentam? O meu nascimento marca a separação dos meus pais, então foram dois mundos muito separados.  Na minha primeira infância morei na casa da minha mãe. Hoje quando eu vejo jogos do Atlético Goianiense, em Goiânia, o estádio do time se chama Antônio Accioly, que é o nome do meu avô, pai da minha mãe. Então ela vinha de uma família boa, família de meios, vamos dizer assim. E o meu pai veio de uma outra origem, do interior de Goiânia. Eles casaram-se muitos jovens, mas o casamento foi curto. Eu era o terceiro filho, eles tinham 21 anos. Meu pai foi logo em seguida para São Paulo. Uma certa altura ele me levou para morar com ele, e aí uma parte da infância morei em Goiânia com minha mãe e outra parte em São Paulo com  meu pai.  Na adolescência eu voltei a Goiânia e fui para Brasília e de lá para o Rio de Janeiro. Saí de casa cedo, com 16 anos, porque era uma estrutura familiar de pessoas que estavam amadurecendo, arrumando seu lugar no mundo e tiveram filhos muito cedo. Eu acho que foi um momento difícil para todos nós. Mas meu pai era um cara muito estudioso, bacana, uma figura que foi emblemática para mim. Apesar de termos tido essas rusgas na hora de decidir os caminhos, também ganhei a admiração dele por acreditar em mim, apostar no meu sonho e vingar. Dá pra ver que você tem uma base muito sólida. Não é qualquer um que consegue fazer poesia, escrever música, ser colunista de jornal, fazer roteiro de filme. Tudo isso exige um preparo, uma dedicação ao mundo intelectual, digamos assim. Como é que você fez para reunir esse repertório? Eu lia muito quando era adolescente. O fato de ler muito, de estudar muito também, de partir do princípio que eu não sabia o suficiente, sempre me fez querer aprender. Então eu estudei teatro, música, depois eu fui estudar jornalismo porque queria escrever. Eu lembro, por exemplo, as conversas com o Renato Russo. Ele planejava ser diretor de cinema e a gente tinha um grupo chamado Amantes da Sétima Arte. A gente se encontrava para ver filmes e debater os filmes. A ideia de ser cineasta me interessava porque me agradava contar histórias. Em algum momento a música parecia ser o melhor instrumento para a gente contar histórias, música pop, porque era o que estava acontecendo. Eu achava que o Cazuza seria escritor porque, no início, quando a gente se reunia eu mostrava as músicas, ele mostrava coisas que ele escrevia. O meu primeiro flerte com as artes aconteceu no primeiro filme com atores que eu assisti, foi Help, dos Beatles. Eu queria fazer isso, era cinema, era música, era uma coisa que incluía tudo. Eu fui estudar tudo: estudei dança na adolescência, fiz Conservatório de Música. Eu aprendi a ler partitura numa escola pública em São Paulo, no Brooklin, que tinha uma banda marcial e eu fui tocar na banda. Primeiro trompete, depois passei para bateria. É um caminho todo de experimentações. De certa forma também por não contar com as coisas garantidas. Eu ouço muitas pessoas falando em zona de conforto, mas eu não faço a menor ideia do que é isso. Onde fica? É de passar no cabelo?   Tem um outro tema que eu acho que é bem interessante a gente abordar. Eu acho que você talvez tenha sido uma das primeiras pessoas famosas, de visibilidade pública, a encarar gordofobia. Por mais que já tenha falado desse tema, acho que ele é extremamente educativo. Como você lidou com essa violência? Boa parte da população não tem o corpo que a sociedade dita como sendo o corpo padrão. A gente tem que ter esse debate. Ter o abdômen de tanquinho não existe, a natureza não oferece isso a ninguém, isso é uma construção, que depende de gastos, de tempo de dedicação e de química no corpo. Ninguém precisa disso, não há necessidade, não há uma lei, Darwin não estabeleceu que o ser humano ter tanquinho é melhor. Os preconceitos e as estruturas de julgamento existem, inclusive para fazer com que as pessoas sofram com seus próprios corpos e queiram gastar mais, consumindo produtos, suplementos, ginástica, ao invés vez de buscar ser feliz com o próprio corpo. Foi algo que eu tive que aprender na porrada. Eu diria para você com toda certeza que foi por isso eu me afastei da indústria de disco. Nunca quis ser galã, mas me colocaram lá e em seguida fecharam as portas para mim porque eu estava engordando e com ar decadente com trinta e poucos anos. Eu não sou modelo, nem que fosse, hoje a gente sabe que para ser modelo não precisa ter o corpo de atleta olímpico. Eu era cantor e queria que a minha música fosse ouvida. Ninguém ouvia uma fita demo, não queriam saber. E a explicação era: "você tem que emagrecer, é pro seu bem" ou "você não está se cuidando". E o subtexto é: "é muita falta de força de vontade", "a pessoa é muito desleixada". As pessoas queriam me humilhar para o meu bem. Me paravam na rua, me chamavam de chupeta de baleia, falavam "toma vergonha na sua cara", "vai fazer exercício". E eu entendia que isso era muito mais valioso do que ter sido parceiro da Marília Pêra em um ano de temporada no teatro, ter feito a maior entrevista do Roberto Carlos até então, ser chamado para cantar com o Chico Buarque no especial de fim de ano dele... Então eu fui colecionando algumas vitórias pessoais e pensando: engraçado, elas são tão pouco importantes pra essas pessoas, tão menos importantes do que meu shape. Resolvi então que não devia prestar atenção nessas pessoas. Está rolando a edição 2021 do Big Brother Brasil e teve até panelaço pedindo a expulsão da Karol Conká. Você acabou de falar sobre um tipo de cancelamento, o precursor do cancelamento. Essa forma odiosa de suspender a pessoa, tirar a pessoa de circulação. Algo que eu acho que vale a gente comentar é essa coisa pendular da sociedade: ou ela é muito racista ou ela problematiza demais. Sempre uma coisa de extremos, que é um pouco do que está acontecendo no BBB nesse momento. Eu acho muito interessante porque tem uma coisa que está por trás disso tudo que está acontecendo que é o linchamento. A barbárie não é negociável, é linchamento. Em nenhuma circunstância é aceitável que sejamos absolutamente intolerantes com os outros. Só que aí todo mundo quer linchar. E aí vamos ver gente  falando da Karol Conká, que ela tem atitudes deploráveis. Então cancele as atitudes, e não autora da atitude, ela não é uma coisa só. Ela não é só um ato, só uma fala, ela é uma miríade de atitudes e por isso ela chegou onde ela chegou. Mas aí volto pra mim. Ah, eu fiz isso, fiz aquilo, mas eu era barrigudo. E aí eu não conseguia marcar uma reunião, nenhuma gravadora, não tinha nenhum contrato na televisão, ninguém me convidava para nada, nenhum empresário aceitava me empresariar. Que a situação é essa? Completamente cancelado. Eu fiz alguma cagada? Eu traí alguém? Eu fui violento? Era uma coisa curiosa. Minha personalidade deve ser maravilhosa porque as pessoas só falam da minha forma física. Só me cancelam por causa da minha forma física. Fato é que eu consegui dar a volta por cima, criando um blog, o primeiro do Brasil. E comecei a ter uma comunicação direta com o público, e horizontal. Fui primeira pessoa do Orkut a ter mais de mil amigos. Comecei a ser chamado por empresas de comunicação para ser o piloto de novas ferramentas. Eu também fui um dos primeiros a ter 5 mil pessoas no perfil do Facebook. Então esse estabelecimento de uma comunicação direta com o público, de igual para igual, foi o que me salvou. Aí a mídia percebeu. Comecei a tocar em outros bares, comecei a ser chamado para tocar na televisão. Voltei para a mídia e para o showbiz, mas depois de alguns anos sem portas abertas. Então sei o que é o cancelamento. É uma coisa horrorosa. Porque há um julgamento, não tem que ouvir o outro lado. Essa história de linchamento é o que está em questão. Você pode ser intolerante com determinadas coisas, mas tem limites. A tolerância só serve para quem você de fato detesta, ser tolerante com a pessoa que você gosta não existe. Com quem você gosta tem que ser afetuoso. A tolerância se dá. As pessoas acreditam naquilo que é a verdade delas e a sua verdade não é maior, desde que elas não queiram cancelar, linchar, te impedir de ser quem você é, ter a sua sexualidade, sua religião, sua crença, sua ideologia. E aí vem o que eu acho que é fundamental: respeito e tolerância. O respeito é a única forma que a gente tem para conviver no mundo que tem 7 bilhões de pessoas. E a gente não pode estabelecer que violência, brutalidade e linchamento sejam o melhor meio de negociar as coisas. Eu acho que a educação, diplomacia e respeito são questões fundamentais para debater hoje em dia. O Big Brother espelha isso porque o que você vê são as pessoas linchando os linchadores. Os canceladores se achando o último biscoito do pacote e metendo o pau em todo mundo. E aí como eu estou cheio de razão eu tenho direito de ser cruel, escroto, tenho direito de ser mesquinho sem razão nenhuma. Nenhuma razão te dá esse direito, mas acho que só as pessoas tomando muita porrada elas vão aprender.

    Carol Solberg: É muito difícil ser atleta no Brasil

    Play Episode Listen Later Dec 18, 2020

    A jogadora fala sobre a censura que sofreu, a sexualização do corpo das jogadoras e os dilemas da maternidade para as atletas Não dá pra cravar que foi destino, mas dá pra dizer que não foi uma surpresa que Carol Solberg escolhesse fazer carreira no esporte. Filha da jogadora de vôlei de quadra Isabel Salgado e irmã de dois jogares, ela passou a infância viajando para acompanhar a mãe em torneios, e na adolescência já estava trilhando seu próprio caminho no vôlei de praia. O que não era esperado nessa trajetória é que, logo após uma vitória que lhe rendeu um lugar no pódio em um campeonato em outubro, duas palavrinhas causariam um rebuliço muito maior do que qualquer medalha: "Fora Bolsonaro". A manifestação espontânea de Carol Solberg lhe rendeu uma denúncia pelo Comitê Disciplinar do Supremo Tribunal de Justiça Desportiva, com sanções e uma advertência, da qual a atleta recorreu e foi absolvida em novembro: "A advertência veio como uma censura. Eu sabia que não tinha feito nada errado".  Mas se o processo no Tribunal foi resolvido, a discussão que essa manifestação e sua represália despertaram está só no começo. O processo no STJD virou assunto em todo o Brasil e tem estimulado o debate sobre liberdade de expressão e desafiado a máxima de que esporte e política não se misturam. "Se você pode dar voz a movimentos tão importantes, você tem que ser estimulado a falar", diz. Em conversa com a Trip, ela fala sobre os aprendizados que vieram com esse episódio e revela os bastidores do que é ser uma atleta no Brasil. Spoiler: questões como a sexualização do corpo das jogadoras e a falta de segurança financeira na maternidade deixam a certeza de que viver do esporte não tem nada a ver com o glamour dos pódios. Carol questiona, ainda, o conflito entre educação e carreira,  que acaba refletido na falta de posicionamento político dentro do esporte. "A realidade do atleta brasileiro é muito dura, a grande maioria está pensando no seu prato de comida. Querer e exigir desse atleta que ele também seja engajado politicamente é um pouco injusto às vezes", afirma. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fdbd4bf05ca0/fm-carol-solberg-jogadora-volei-praia-trip-m2.jpg; CREDITS=Fernando Young/ Divulgação; LEGEND=Carol Solberg] Trip. Você começou a sua carreira de atleta profissional bem jovem, com 11 anos. Como é tomar a decisão de escolher o esporte como profissão num país como o Brasil, onde faltam investimentos nessa área? Carol Solberg. Tomar essa decisão é muito difícil. Ainda mais porque normalmente ela é tomada muito jovem. Aos 15 anos, 16 anos você está escolhendo o que você vai fazer da sua vida, e normalmente você tem que abrir mão de estudar. Eu, por exemplo, que sou privilegiada e tive acesso a tudo, tive dificuldade para terminar o segundo grau. Terminei o último ano nas coxas porque eu já estava correndo o Circuito Mundial. Escolher entre tentar entrar na faculdade ou  ser atleta profissional é sempre um risco muito grande. E você toma essa decisão no momento em que você não tem apoio, não tem patrocínio, e não tem a menor ideia se conseguirá seguir com aquela profissão. Então tem muitas inseguranças por trás disso. O que acontece nos Estados Unidos é exatamente o oposto, uma atleta jovem, que está em alto nível, imediatamente ganha uma bolsa em uma universidade e pode estudar em uma faculdade bacana mantendo o seu treinamento e continuando em super alto nível. No Brasil é muito difícil ser atleta. Um outro aspecto cruel da vida de atleta é o curto período em que você consegue exercer a profissão. Para um profissional como um psicanalista, por exemplo, a tendência é ficar melhor com o passar dos anos. Mas para o atleta o ápice da carreira é na juventude. Com certeza, a nossa carreira é muito curta. No vôlei de praia, aos 38, 39 anos é mais ou menos quando uma mulher está parando de jogar, isso se não tiver nenhuma lesão no meio do caminho. Aos 40 anos você tem que descobrir uma nova profissão e o que vai fazer na maior parte da sua vida. Eu já tenho 33, e quando penso sobre isso, confesso que ainda quero jogar, mas me dá uma insegurança e eu falo "caramba, o que é que eu vou fazer?" Não tenho a menor ideia, porque eu amo jogar vôlei, sou apaixonada pelo meu esporte, e eu não me preparei para outras coisas, não consegui conciliar uma faculdade junto com isso. Depende muito do que você construiu ao longo da sua carreira, com o que você vai trabalhar posteriormente. Eu acho que a vida de atleta no Brasil é repleta de inseguranças. [QUOTE=1156] E tem o risco das lesões. Você se machuca e ninguém vai te bancar. Não tem um tipo de seguro, um tipo de assistência, você está por sua conta. Eu tive dois filhos, engravidei duas vezes. Os anos seguintes às minhas gravidezes foram muito difíceis. Eu só investi no vôlei, não ganhei um centavo, só botei dinheiro para poder voltar a estar entre as melhores. Você engravida e não tem nenhum benefício. Volta com 80% dos seus pontos, eles tiram 20% dos seus pontos sei lá o porquê. É muito complicado, mas é isso. A maternidade com frequência é adiada ou se torna um dilema para mulheres de diversas áreas profissionais, mas para as atletas, que como falamos tem a duração da carreira profissional mais estreita, imagino que escolher parar por alguns meses para ter um filho seja uma decisão difícil. Eu sempre tive a certeza de que eu queria ser mãe antes de parar de jogar. Nunca passou pela minha cabeça a ideia de esperar terminar a minha carreira para ser mãe. Esse desejo sempre esteve em mim, e quando eu senti essa vontade, que era uma coisa muito maior, eu não tive dúvida. Não me assustava a ideia de não poder ser uma mãe que estaria o tempo inteiro ao lado dos filhos, porque eu vivenciei muito isso. A minha mãe teve quatro filhos ao longo da carreira e ela sempre carregou a gente para tudo que é lado, mas também perdeu muitas coisas. Claro que ela não estava em todos os aniversários e reuniões de escola, e eu nunca achei que isso era importante, porque o amor, que era o que mais importava, estava sempre ali. Ela curtia muito estar com a gente, isso era evidente. Então eu sempre achei que era totalmente possível conciliar a maternidade com o esporte, e me atraía inclusive a ideia de viajar o mundo com meu filho e ele torcer por mim. Nunca me assustou essa coisa da gravidez. Acho que eu sou privilegiada fisicamente, consegui ter uma gravidez saudável e consegui treinar durante a gestação. Já estava competindo de novo quando meu filho tinha três meses. E me animei até para ter o segundo porque, para mim, apesar de ter sido difícil o ano seguinte, eu curti tanto ser mãe, me realizei tanto e foi tão incrível que eu queria vivenciar aquilo de novo. Eu tenho muito desejo de ter outro filho e muita vontade, mas eu não tenho mais a mesma disposição. Quando eu penso numa gravidez, em voltar fisicamente, agora um pouco mais velha, e viajar com três crianças, eu já não me animo. Vai muito do que a mulher está sentindo. Quando eu decidi engravidar do Salvador e do José eu tinha certeza que era aquilo que eu queria e que, o que viesse pela frente, eu estava pronta para encarar. Agora eu estou com desejo de engravidar de novo, mas não tô afim de encarar o que vem pela frente, que eu já sei o que é. A minha próxima gravidez, porque eu espero ter mais um filho, quero que seja mais para frente, quando eu estiver desacelerando no esporte, parando de jogar. Porque eu quero poder ter uma gravidez diferente, em que eu possa curtir um pouco mais, amamentar até quando eu quiser. José e Salvador eu parei de amamentar quando eu fui para a China, eles tinham dez meses. Os dois, coincidentemente, eu parei de amamentar aos dez meses e coincidiu com esses torneios na Ásia. Eu não quis levá-los por ser uma viagem muito pesada, não queria levar o bebê para uma viagem dessas. Mas eu tenho o desejo de ter uma gravidez em que eu possa fazer as coisas num outro ritmo. LEIA TAMBÉM: Como é estar grávida no congresso nacional? No ano passado corredoras de elite nos Estados Unidos foram a público expor que perdiam patrocínio quando engravidavam, com bases em cláusulas de contrato que exigiam um determinado desempenho. Uma delas, a Alysa Montaña, chegou a competir até os 8 meses de gestação para poder manter o patrocínio. Esse cenário também acontece aqui no Brasil? Com certeza se a gente tivesse algum tipo de ajuda, se pudéssemos contar com algum tipo de benefício, as mulheres não teriam pressa em voltar a treinar, poderiam esperar um pouquinho mais. No meu caso, eu também quis voltar muito rápido. Óbvio que por conta do ranking, e pensando que eu tinha que voltar logo e fazer grana, estar competindo, mas tinha o desejo também. Eu amo jogar vôlei, adoro estar em quadra, estava morrendo de saudades da adrenalina. Agora, é um absurdo você pensar que uma atleta tenha que voltar por conta de patrocínio. Vamos pensar em como ajudar, uma forma bacana dessas mulheres poderem ter uma gravidez legal e que saibam que podem contar com os patrocínios. Na minha primeira gravidez o meu patrocinador continuou, eu falei que eu queria engravidar e ele foi muito legal. Agora, tem muita a marca que não. Eu vi tudo isso que rolou com a Alysa, vi o vídeo que ela fez falando sobre isso, é revoltante. Não dá mais para ter esse tipo de posicionamento diante de uma gravidez. LEIA TAMBÉM: Quanto custa o gol de uma mulher? O vôlei de praia não é o esporte mais popular do Brasil, mas está longe de estar entre os menos. De uma maneira geral é um esporte que atrai muito a atenção das pessoas e a audiência na televisão, embora ultimamente não esteja sendo muito televisionado. Como é o aspecto financeiro de uma jogadora profissional? Na verdade não está sendo televisionado mesmo. Os jogos não tem passado, ou passam muito pouco. Muitas vezes está rolando uma final de um Grand Slam, que é um campeonato de alto nível, em lugares lindos, jogos muito legais, finais e semifinais, e não são televisionados. No Brasil só é televisionado a semifinal e a final. Se você ganhar um torneio, por exemplo, não sai uma nota no jornal, não sai nada. O vôlei de praia, apesar de ser o esporte que mais bomba nas Olimpíadas, o esporte que está sempre esgotado de ingressos, no meio tempo não tem essa mídia toda. E é difícil até você vender esse produto ou procurar patrocínio, porque não tem esse feedback, passa pouco. Nesta pandemia eu tive que bancar a minha equipe durante o ano todo sem nenhum patrocínio. Eu tinha um só apoio, de uma marca de isotônico, a Jungle, que me patrocina, mas que não fecha as contas da minha equipe. Uma equipe de vôlei de praia é muito cara. Você tem preparador físico, técnico, auxiliar, fisioterapeuta, tem as pessoas que montam a nossa estrutura na praia, a gente está falando de uma equipe grande. São pessoas que se dedicam diariamente àquilo ali, e no vôlei de praia os atletas são os donos do time, sou eu que monto a minha equipe, eu que faço esses pagamentos, eu que decido os torneios para os quais eu quero viajar, que vou olhar as passagens e ficar em site de pesquisa procurando hotel mais barato. É um esporte que tem uma independência dos atletas, o que para mim é muito importante, eu valorizo muito isso. No vôlei de quadra você vive num formato muito mais exigente de horários. No vôlei de praia, se eu durmo mal, ou se eu to com o bebê, por exemplo, eu falo "Galera vamos atrasar um pouco o treino, botar um pouquinho mais tarde. Rola? Quem pode?". É uma equipe menor, só tem duas atletas envolvidas. Tem uma independência que é muito legal, mas tem um lado ruim disso também, que é complicado você ter que jogar, treinar, administrar uma equipe e essas coisas burocráticas. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fdbd4d54a82b/fm-carol-solberg-jogadora-volei-praia-trip-m1.jpg; CREDITS=Fernando Young/ Divulgação; LEGEND=Carol Solberg] Como é a relação com essa dupla na quadra? Tem uma atleta que é a líder, meio a capitã assim?Tem muitos times que têm esse formato, e eu acho que funciona pra caramba. No vôlei de praia, só no Brasil é permitido ter o técnico sentado no banco, no Mundial não pode. Então é importante ter uma pessoa que dá o rumo dentro da quadra, acho que isso facilita. Muitas vezes o time tem uma química tão grande e sei lá, as duas estão abertas a esse tipo de comando. Tem dia que você está um pouco mais forte, e tem dia que você está pior e embarca na da sua parceira. Eu me considero um pouco assim, quando eu vejo que eu preciso ser a líder naquele jogo eu tomo as rédeas, e quando eu acho que a minha parceira está com o feeling melhor que o meu e que aquele dia ela tá sacando melhor, eu vou na dela. Muitas vezes eu olho para a cara da minha parceira e falo "Cara, o que você está sentindo? Vamos na tua". É de cada time. No meu caso, diante das parcerias que eu tive até hoje, eu tento jogar nesse ritmo do dia, falando e pensando junto. O público se encanta com o corpo dos atletas de alto nível, por ser muito bonito, muito saudável e capaz de coisas que as demais pessoas, não atletas, não são capazes. Existe essa admiração e essa projeção no corpo do atleta. Mas a realidade é que esse corpo é submetido a um desgaste intenso e, por mais que ele se prepare, sofre muita dor e muita lesão. Como é a sua relação com o corpo, nesse aspecto dele como sua ferramenta de trabalho também? É totalmente isso. É engraçado porque eu também acho que não é nada saudável o que a gente faz, a gente passa do ponto do que seria saudável para um ser humano. Eu estou sempre economizando o meu corpo quando eu não estou em quadra, quando não estou treinando. Meu marido vive me sacaneando, ele fala "vamos de bicicleta até sei lá onde", e eu falo "não vou fazer isso com a minha perna, tô com a perna queimando aqui". A gente mora no alto de uma ladeira, e eu nunca subo a ladeira pedalando, eu sempre vou empurrando e me arrastando, e ele fala "cara, não é possível, você é atleta!" Exatamente porque eu sou atleta que eu não vou subir a ladeira pedalando, não posso fazer isso com o meu joelho. Tem várias coisas que eu não faço. Agora estou de férias, e o meu punho está arrebentado, eu machuquei no último campeonato, então não consigo fazer várias coisas. Aí eu tenho que pedir "pega isso aqui pra mim". Estou sempre com alguma lesão. O meu ombro é ferrado, então para pegar meus filhos no colo, quando eles dormem no sofá e precisam ser carregados para a cama, não rola, porque acaba com o meu ombro mais ainda. Eu tenho que estar sempre me preservando, ter sempre esse cuidado a mais com o corpo porque está sempre tudo doendo. LEIA TAMBÉM: Atletas que continuam competindo em alto nível com idade avançada Te preocupa a possibilidade de você estar com 50 e poucos anos e com problemas ou consequências desse uso exagerado do corpo? Eu confesso que ainda não me preocupa não. Eu me vejo fazendo exercício para sempre, porque eu adoro suar, meu corpo funciona muito melhor quando eu faço atividade física. Mas eu vejo a minha mãe, que é uma pessoa muito dependente também desse exercício físico, ela tem um joelho ferrado por conta do vôlei. Uma coisa que ela adora fazer é caminhar na praia todos os dias, é a terapia dela, e ela não está conseguindo fazer agora porque está com o joelho doendo para caramba, o tornozelo ruim. Eu não penso nisso agora porque eu considero que ainda está um pouco longe, mas vendo a minha mãe às vezes me dá esse estalo "Caramba, não é saudável mesmo o que a gente faz". Quando eu parar de jogar, eu vou saber quais foram os danos. E cada um funciona de um jeito, a história da minha mãe é uma e a minha é outra, pode ser que eu tenha outros tipos de lesões. Mas acho que, por eu ser uma pessoa muito dependente do exercício físico, que para mim é fundamental, eu pretendo fazer exercício pra sempre. Espero muito que eu chegue nos meus 50, 60 anos, podendo nadar, surfar e andar na praia. O corpo das mulheres está sempre sendo assunto. E no caso do vôlei de praia, o corpo das jogadoras está exposto pelo próprio traje da prática, e acaba atraindo olhares e comentários que não se limitam ao esporte, sendo erotizado. Nas Olimpíadas de Londres rolou uma discussão sobre se o mau tempo impediria que as atletas jogassem de biquíni, deixando implícito que, se elas estivessem mais cobertas, o jogo perdia parte do seu atrativo. Como isso te afeta? Eu vivencio isso o tempo inteiro. Quando a gente tá na quadra de biquíni, sendo mulher, a gente está muito exposta e muitas vezes a gente joga em arenas que são bem pequenas. Você chega num torneio e tem a arena principal e arenas laterais, pequenininhas. Às vezes você está ali para sacar e fica com a bunda literalmente na cara de uma pessoa com uma câmera, sabe? É muito desagradável. Eu já vivi vários episódios, inclusive o meu irmão uma vez partiu pra cima de um cara que estava fazendo fotos com uma conotação totalmente sexual ali. Isso é muito chato. Tem zilhões de sites com bunda de jogadora de vôlei, em posições que você está ali de biquíni para pegar a bola de manchete, bota a perna pro alto... E essa questão das roupas rola muito no Circuito Mundial. Muitas vezes a gente joga em lugares tipo a Noruega, e às vezes entra uma frente fria que é um gelo, e rola esse assunto até hoje "Mas vai jogar de roupa? É ruim para a televisão!" Porque? Se estou morrendo de frio não tenho a menor condição de jogar sem roupa, de jogar de biquíni numa temperatura dessa. É triste pensar que um esporte está ligado à pessoa ligar a televisão e ver um monte de mulher de biquíni, não é isso o jogo, de jeito nenhum. Claro, é bonito ver corpos bonitos. Legal ver atletas, corpo de atleta é bonito, tudo bem. Mas acho que tem que ter um respeito, o que muitas vezes não rola, como em várias áreas. Tem uma mulher ali exposta dentro de uma quadra fazendo o trabalho dela. [QUOTE=1157] Você acha que seria melhor mudar um pouco o uniforme? Não acho não. Eu me sinto bem de biquíni. É um traje ótimo para jogar vôlei de praia. Normalmente faz o maior calor, a gente joga em praias no Brasil todo, tá tudo certo. O que tem que mudar são essas pessoas que têm esse olhar. A gente não. A gente tem que ter o direito de usar o que quiser. Estar com frio e não poder botar uma calça porque vai tirar a audiência do jogo, pelo amor de Deus, não existe. LEIA TAMBÉM: A ex ginasta Lais Souza fala sobre sua recuperação Me fala um pouco desse episódio que gerou tanta chateação para você, quando, numa entrevista no final de uma partida você exclamou um "Fora Bolsonaro". Isso gerou uma grande repercussão e uma punição para você, que foi advertida pela Comissão Disciplinar do Supremo Tribunal de Justiça Desportiva. O que estava passando pela sua cabeça na hora, e que te levou a se manifestar nesse momento? Você imaginava que isso pudesse ter consequências tão agudas? Foi um episódio que acabou tomando proporções muito maiores do que eu esperava. Eu estava indo para esse campeonato em Saquarema, que era o primeiro campeonato depois de tanto tempo sem jogar por conta da pandemia, e eu estava muito muito feliz de estar voltando às quadras. Estava disputando uma medalha de bronze e tinha acabado de ganhar esse jogo, tava pura alegria por ter ganhado aquela medalha, por estar de volta no pódio. E aí na hora de dar entrevista, apesar de toda a minha alegria, eu não podia não pensar em tudo que estava rolando, de estarmos vivenciando esta pandemia do jeito que estamos. Pensar em todas as mortes pela Covid-19 que eu acredito que poderiam ter sido evitadas se tivesse um mínimo de respeito à ciência. Durante o campeonato acho que era o pior momento do Pantanal, estavam rolando as queimadas e sem nenhum plano emergencial do governo. Então eu não posso dizer que foi por uma coisa, foram tantas coisas, sabe? Se a gente pensar nesse desmonte da cultura, nossos maiores artistas sendo totalmente menosprezados, a Educação indo para o ralo, nenhum investimento, só tirando o orçamento da Educação. O ministro do Meio Ambiente falando em "passar a boiada" naquela emblemática reunião ministerial e nada ter acontecido. Foi um misto, e eu estava ali dando aquela entrevista, muito feliz por ter ganhado uma medalha, e ao mesmo tempo eu pensei "eu tô aqui feliz por causa de um jogo de vôlei e o país nesse lugar". Me pareceu tão esquisito, e aquele sentimento brotou, veio um grito espontâneo de indignação, de raiva de estar vivendo isso. Eu, como cidadã, me sinto totalmente no direito de manifestar minha opinião ali. Mas foi isso, uma coisa totalmente espontânea que saiu por tudo que está acontecendo nesse governo. Você acha que você acha que a reação desproporcional teve a ver com o fato de você ser mulher? Eu acho que, em primeiro lugar, qualquer pessoa que se manifeste contra esse governo está sujeita a vivenciar isso que eu vivi, as ameaças e tudo mais. Quando se trata de uma mulher, muito mais, porque esse é um governo extremamente machista. Eu acho que para eles, ter uma mulher, uma atleta, falando de política ali é tipo "Quem é você garota? O que você tá pensando?" Acho que o fato de eu ser mulher fez com que isso tomasse essas proporções, que a coisa virasse o que virou mesmo. Qual foi o momento que você se sentiu mais ofendida nessa história? Eu me senti muito ofendida durante o primeiro julgamento, quando o presidente do STJD falou para mim que eu não estava ali numa entrevista para falar o que eu pensava, que eu só estava ali para dizer o que tinha acontecido nas quatro linhas, e me tratou de uma forma muito desrespeitosa e machista. Ele deu o último voto dessa forma, o último voto do julgamento e eu não podia falar nada. Eu fiquei muito engasgada, fui dormir com raiva daquele sujeito. Mas ao mesmo tempo foi bom, porque ali eu tive certeza de que eu ia recorrer. Muita gente falou: "você recorreu a uma advertência, não estava bom tomar só uma advertência?" Não estava, porque a advertência veio como uma censura. Para mim aquele momento foi decisivo, quando aquele homem me tratou daquela forma eu tive certeza de que eu queria recorrer. Eu sabia que eu não tinha feito nada de errado e não ia aceitar nenhum tipo de advertência, muito menos dele. LEIA TAMBÉM: "Com a luta política, perdi mais do que ganhei", diz Felipe Neto Acho que a reação desmedida à sua fala se deve, ao menos em parte, ao fato de que sejam raros os atletas se colocando politicamente, falando com clareza aquilo que eles pensam sobre sobre o país de uma forma geral. Porque você acha isso acontece? Eu pensei pra caramba sobre tudo isso, essa máxima de política e esporte não se misturarem que tanta gente prega, e eu acho que são várias coisas. Primeiro, claro que essas regras todas que existem em cada modalidade fazem com que os atletas fiquem com medo, porque muita gente não está disposta a passar pelo que eu passei, a sofrer sanções. A gente sabe que muitos atletas que se manifestaram foram punidos. Muitos ficaram sem time durante muito tempo mesmo. Eu acho que a primeira coisa é que essas regras precisam ser revistas, porque não dá para a gente estar em 2020 com regras que foram foram feitas no início do século passado. O esporte tem que evoluir com o mundo, com as demandas da sociedade, do que está acontecendo. E o atleta, na minha opinião, tem um papel muito grande. Se você influencia crianças e jovens você tem que falar o que pensa, tem que sair um pouco do seu mundinho e ter um olhar maior. Se você pode dar voz a movimentos tão importantes, você tem que ser estimulado a falar, a se engajar em causas em defesa dos direitos humanos, do meio ambiente, da luta anti racista. Eu acho que todos os atletas deveriam se colocar. Os que quiserem, obviamente, porque eu respeito também os que os que não querem, que não querem se meter com política, que gostam deste lugar de neutralidade. Tudo bem, eu não estou aqui dizendo que todo mundo tem que falar, de jeito nenhum. Só acho que, quem quer falar, tem que poder falar. Mas tem outros aspectos também, tem gente que realmente só pensa no seu próprio umbigo e não está nem aí para o que está acontecendo no resto do mundo. A gente também não pode deixar de falar que muitos atletas pararam de estudar muito cedo, vivenciam pouco um ambiente de troca, de estímulo que tem esse tipo de debate, e muitas vezes acabam ficando por fora mesmo do que está rolando e não são instigados. Quando você está numa faculdade, por exemplo, é um ambiente que naturalmente te estimula a ter esse tipo de troca. O esporte é um ambiente muito pouco enriquecedor nesse aspecto. São poucos os ambientes esportivos que estimulam essa troca. Se você não tem uma família, ou amigos com os quais você tenha esse papo, que saia ali do mundo do esporte, você acaba ficando um pouco alienado a tudo. Não dá para comparar um atleta americano, que está lá nos Estados Unidos podendo fazer uma faculdade, e o do Brasil, que com 16 anos está tendo que pensar em como vai manter a sua estrutura de treinamento. A realidade do atleta brasileiro é muito dura, a grande maioria está pensando no seu prato de comida. Querer e exigir também desse atleta que ele seja engajado politicamente é um pouco injusto às vezes. Agora, temos grandes atletas que não têm medo e não precisam ter medo de nada, que sabem da força que eles teriam se se manifestassem por causas bacanas e não falam nada. E também tem os que apoiam esse tipo de governo. São várias coisas, não dá para falar uma coisa só. [QUOTE=1158] Você foi muito atacada e até ameaçada por causa da sua manifestação. Mas teve um lado positivo de toda essa reviravolta que você viveu? Eu fui muito acolhida e abraçada, muito mais do que atacada. Eu recebi muito apoio de todos, inclusive de pessoas que admiro. Tudo isso que eu vivi, claro que teve um lado chato de ver a vida exposta e receber ataques, mas a onda de coisa boa foi muito maior. Todo mundo bacana estava do meu lado. Foi uma experiência muito legal para ter certeza de quanto é importante a gente se colocar, usar a nossa voz no que a gente acredita e poder ampliar esse debate. Essa história pra mim é só o começo, de falar "é tão bom poder falar sobre isso". Acho que o esporte e política tem que andar juntos, como tudo. A política tá em tudo na nossa vida. Está sendo muito legal vivenciar tudo isso e poder debater com tanta gente inteligente, tenho aprendido pra caramba. Assim como eu estou aqui com você, eu estive com vários jornalistas legais. E eu pude aprender e pesquisar mais sobre a história do esporte, muita coisa que eu não sabia, que eu aprendi e isso também está sendo muito importante para mim.

    Padre Júlio Lancellotti: Existe uma desumanização acelerada

    Play Episode Listen Later Dec 11, 2020

    Importante figura na luta pelos direitos das populações mais vulneráveis, ele fala sobre as ameaças que recebeu e a violência na Cracolândia Embora seja do grupo de risco da Covid-19, Padre Júlio Lancellotti, prestes a completar 72 anos, tem enfrentado a pandemia na linha de frente. Atuando diariamente no socorro da população mais vulnerável, ele leva alimentos, roupas, itens de higiene e luta por acomodação para as pessoas em situação de rua. Pároco na Igreja de São Miguel Arcanjo, na Mooca, e à frente da Pastoral da Rua em São Paulo, ele é também um dos fundadores da Casa Vida, que acolhe crianças soropositivas, e já atuou dentro de penitenciárias e da antiga Febem (hoje Fundação Casa). "O sistema neoliberal tem uma lógica, e a lógica é do descarte", diz o padre, teólogo e pedagogo que luta pelos direitos e por dignidade para esses excluídos, ou "descartados", como prefere chamar. Essa batalha chegou a transformá-lo em alvo de difamações e ataques nas redes sociais e nas ruas, e em setembro ele registrou um boletim de ocorrência após ser ameaçado. Mas a violência não o intimida. Padre Júlio já resistiu em reintegrações de posse, levou bomba de gás em manifestações de rua e denuncia com frequência a violência policial. "Esse medo das ameaças não pode me acovardar. Eu seria falso se assumisse o silêncio ou me calasse diante da homofobia, da transfobia, do racismo, do ódio aos pobres, de tortura a presos e a moradores de rua."  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fd3af559e105/padre-julio-lancelloti-trip-fm-mh2.jpg; CREDITS=Mario Ladeira; LEGEND=Embora seja do grupo de risco da COVID-19, Padre Júlio Lancellotti, prestes a completar 72 anos, tem enfrentado a pandemia na linha de frente] Com 35 anos de experiência lidando com a carência e com as desigualdades, ele compartilha a Trip sua visão sobre os caminhos para amparar a população de rua, os egressos do sistema carcerário e a Cracolândia. "Vemos a Cracolândia não pela dependência química, mas pela questão da classe social da qual eles são. Se tivessem um lugar para morar, não seria problema. O problema é que eles estão expostos e são visíveis."  Trip. Padre, o senhor desenvolve um trabalho há mais de 30 anos com a população de rua da cidade de São Paulo. Queria que você, que conhece de perto, falasse de onde vêm e quem são as pessoas em situação de rua em São Paulo. Padre Júlio Lancelotti. A população de rua é muito heterogênea, não dá para dizer que tem um perfil só. Agora durante a pandemia, e desde do golpe que derrubou a ex-presidente Dilma, a crise fez aumentar muito o número de pessoas na rua. Nenhuma causa é única, não é dizer "é só o desemprego" porque no Brasil tem 13 milhões de desempregados e não estão todos na rua. É um arranjo, uma questão pessoal de perdas sucessivas que não são trabalhadas de maneira que sustentem essa pessoa. Tem muitos jovens na rua, muitos idosos. Aumenta o número de mulheres com crianças. Gosto muito da expressão que o Papa Francisco usa, desde a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, dos "descartados". O sistema neoliberal tem uma lógica, e é a lógica do descarte. Quando você fala "excluído", você vai descobrir que existem políticas de inclusão, mas, quando se fala "descartado", não existe política de "encarte". O que se faz com o copo descartável? O que se faz com um prato descartável? É lixo. Então essas pessoas são completamente insignificantes, indesejáveis e de certa forma o sistema não as quer. Elas fazem parte de uma lógica perversa que as joga no lixo. A política pública é o que sobra para os descartados. Acho que seria muito escandaloso eles morrerem todos de uma vez, então tem política pública para mantê-los com um resto de vida. Nos últimos anos houve uma evolução nos movimentos feministas, antirracistas, das questões de gênero e LGBTQ+. Mas tem um universo que parece esquecido, que é o dos egressos do sistema carcerário. Essa população é gigantesca, só cresce, e, quando um sujeito sai da cadeia, ele sai sem nada. Como é para esse cidadão que paga sua pena voltar para a rua sem saber o que fazer e para onde ir? Eu convivi muito com os presos e as presas. Guardo muito na minha memória a convivência com as mulheres presas. Fiquei muitos anos acompanhando, desde que elas começaram a entrar naquela penitenciária feminina do Tatuapé, até quando a penitenciária foi extinta. Sempre no dia de Natal eu estava com elas, na Páscoa, na Semana Santa, o ano inteiro eu celebrava a missa com essas mulheres presas. Esse dado que você levanta é um dado muito importante, porque nenhum desses grupos se preocupa com as mulheres presas, com as mulheres trans presas, com os gays presos, com o grupo LGBT que está preso, com os negros, que são a maioria dos presos. Essas bandeiras desfraldam dos espaços de liberdade. O movimento que tem dentro dos presídios são os chamados de PCC, dos comandos, que dominam o sistema carcerário. Tanto que você vê o pouco que o Estado ou os governos mexem no sistema carcerário, porque é complicado e porque vai desnudar uma face bárbara da corrupção e do crime organizado. Agora, um dos últimos Censo apontou – e até é um dado delicado de dizer porque pode aumentar o preconceito – que 42% da população de rua passou pelo sistema carcerário. E eles trazem para a rua esse mundo. Às vezes eu vejo alguns desses irmãos com quem eu convivo e que estão em situação de rua, e a impressão que eu tenho é que eles ainda estão dentro da prisão, só que o pátio agora ficou maior. Todos eles têm experiência de tortura, de violência, de maus tratos, do exercício do poder. Essa estrutura da rua é muito marcada pela estrutura carcerária, e, por incrível que pareça, os espaços de acolhida e de convivência para a população de rua lembram muito essa estrutura para eles. [QUOTE=1154] Porque eles não têm autonomia, têm horário para entrar, para sair, para comer, para dormir, horário da televisão. Alguns dizem que certos centros de acolhida parecem "semiliberdade''. E uma das questões sérias com a população de rua é que ela é tutelada: sempre as chamadas políticas públicas são de tutela, elas não são geradoras de autonomia. Mesmo porque a autonomia, no mundo em que a gente vive, é muito perigosa. Autonomia de pensamento, autonomia de sentimento, autonomia de movimento. Então a população em situação de rua é uma população extremamente tutelada, e essa tutela infantiliza, embrutece e desumaniza. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fd3afa79968e/padre-julio-lancelloti-trip-fm-mh1.jpg; CREDITS=Mario Ladeira; LEGEND=Pároco na Igreja de São Miguel Arcanjo, na Mooca, e à frente da Pastoral da Rua em São Paulo ele é também um dos fundadores da Casa Vida, que acolhe crianças soropositivas, e já atuou dentro de penitenciárias e da antiga Febem (hoje Fundação Casa).] LEIA TAMBÉM: O amor-próprio entre mulheres na Cracolândia A dependência química, em especial do crack, é um problema muito marcante e que atinge muitas pessoas nas ruas. Para você, qual seria o caminho para resolver essa questão, para além do trabalho que você já faz de acolhimento e escuta dessas pessoas? Eu acho que nós não sabemos lidar com o dependente químico em geral, porque não existem dependentes químicos só na rua. Seguramente no condomínio de todos que estão nos lendo tem dependentes químicos, e tem os dependentes de drogas lícitas e de drogas ilícitas. A questão não é a dependência química, é a questão social dessa pessoa. Quem tem uma dependência química e mora numa cobertura não tem problema nenhum. Ele pode ter problemas com os condôminos, com o síndico, alguma coisa assim. Mas você acha que em São Paulo só se usa crack na Cracolândia? Será que são só eles? Quem é que usa cocaína em São Paulo, são só os moradores de rua? Quem usa heroína? E quem usa Diazepam e todos esses remédios que muita gente usa para poder dormir? Isso sem falar do consumo de álcool. Eu digo: tem a Cracolândia, mas tem a Pingolândia, e a Cervejolândia, a Whiskilândia. Só que a única que todo mundo vê é a Cracolândia. Ali se vê, não pela questão da dependência química, mas pela questão da classe social a qual eles pertencem. Se eles não fossem pobres e miseráveis, se tivessem um lugar para morar, não seria problema. O problema é que eles estão expostos e são visíveis. De certa forma todos nós temos alguma dependência química. LEIA TAMBÉM: O rapper Dexter divide o que aprendeu com seu público e com outros ex-presidiários Você defendeu muito a estratégia de se utilizar hotéis que ficaram ociosos durante a pandemia para alojar a população de rua neste momento, uma medida que foi tomada em algumas cidades na Europa. Com a sua experiência, depois do afeto, de acolher e ouvir essas pessoas, por onde começar a resolução desse problema da população em situação de rua? Seria por providenciar uma habitação decente para essas pessoas? Eu acredito que sim. Mas veja, nós precisamos ter claro que nós temos que superar a desigualdade. Começa por uma superação da desigualdade, da opressão, da tirania, da corrupção, do crime organizado. São várias as questões que se interrelacionam para que a vida seja humanizada. [QUOTE=1155] Porque a reversão histórica não é feita num episódio. Nós chegamos onde chegamos porque nós fomos acumulando uma forma de ser, uma forma de agir, uma forma de descartar, e aí é uma coisa que me chama muito a atenção: a pessoa que é tratada com desumanidade continuamente e repetidamente, ela vai acabar se desumanizando também. Isso também entra nela. Por exemplo, a imprensa me cobrou muito sobre o arrastão que aconteceu lá na Cracolândia na terça-feira, dia 8 de dezembro. Só que toda a mídia mostrou o último capítulo da novela, sem mostrar como é que aquilo começou e por que chegou naquilo. A gente convive com essas pessoas, e é muito doloroso ver isso. Eu disse, e foi difícil as pessoas compreenderem, que a violência gera violência. Isso a minha tataravó já dizia. As pessoas que são tratadas com violência, o repertório delas é responder com violência. Se eu te maltratar, você está programado mentalmente para me responder agressivamente. Se você me maltratar, eu estou programado emocionalmente pra te responder duro também. Dificilmente uma pessoa que é maltratada responde para o agressor de uma maneira suave: "Calma, não é bem assim", "veja bem". Então se um morador de rua me trata mal, eu imediatamente o trato mal também. Agora, quando eu o trato mal e ele me trata mal de volta, eu o criminalizo. Mas ele está me respondendo no diapasão, na pauta que eu dei para ele. O povo que está na rua sofre diariamente humilhação, escracho, falta de acesso à água potável, à alimentação, à um lugar adequado para urinar, não tem um lugar para defecar, a roupa pode estar fedendo, ele não tem outra roupa pra trocar. Ele mesmo em alguns momentos se sente desagradável, a boca não sente mais o sabor, não consegue dormir, é uma perturbação contínua. Como é que essa pessoa vai responder positivamente? Eu falo muito isso: eles não são nem anjos nem demônios, são pessoas. Imagina você ou eu vivermos uma semana nessas condições? Uma semana esperando alguém te trazer comida, sem saber se vão trazer ou não? Uma semana comendo só aquilo que te dão, sem poder escolher? Tendo que dormir na calçada? Eu acredito que, com tanta repressão, eles reagem pouco. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fd3afdda6321/padre-julio-lancelloti-trip-fm-mh4.jpg; CREDITS=Mariana Pekin; LEGEND=Mediados por Milly Lacombe, Sebastião Oliveira, da Associaçao Miratus de Badminton, o padre e militante dos direitos humanos Júlio Lancellotti, e a cientista política Ilona Szabó conversaram sobre segurança pública] Eu entrevistei aqui o Celso Athayde, uma liderança importante das periferias, criador da CUFA, e ele disse: "Por alguma razão o povo pobre ainda recebe passivamente a situação que lhe é imposta. Imagine se esse povo começa a se organizar para atacar e para retribuir". Por que você acha que isso não acontece? Porque o povo pobre também é ideologizado pela ideologia dominante. Eles assistem aos meios de comunicação dominantes, eles recebem a estrutura dominante. Eu gosto muito de um pensamento da Simone de Beauvoir que diz: "Os opressores não teriam tanto poder se não tivessem tantos cúmplices entre os oprimidos". É aquilo que o nosso Paulo Freire, tão maltratado no Brasil dessa atual política, diz: "A cabeça do oprimido é o quarto de hóspedes do opressor". Então a nossa sociedade funciona ideologicamente para que o negro pense com a cabeça do branco, a mulher pense com a cabeça do homem, a criança com a cabeça do adulto, o índio com a cabeça do chamado civilizado. E o pobre, muitas vezes, ele pensa com a cabeça do rico. Por isso que a educação no Brasil não é libertadora, ela é uma educação bancária, como dizia o Paulo Freire, onde se coloca na cabeça das pessoas a ideologia dominante. Você vê, os pobres votam no Bolsonaro. Aqui em São Paulo, votam em quem? O que viram no Boulos? "Esse é um cara perigoso. Ele vai invadir meu domicílio". Isso o povo todo pensa. Se você perguntar a um motorista de táxi, ou perguntar na feira, para o povão que está lá: "A cor do menino qual é?". Todos vão dizer: "É azul". E a cor da menina? Cor-de-rosa. O que é o vermelho? Comunista. O que é o comunista? Perigoso. A nossa maneira de pensar hoje é muito empobrecida. Nós nunca vivemos um momento de tanto empobrecimento do pensamento como nós estamos vivendo agora. Quando foi homenageado pelo Trip Transformadores em 2018, você disse que se sente sempre um fracassado, e quando não for um fracassado, é porque aderiu ao sistema. E disse ainda: "Eu não vou ver a mudança pela qual eu luto, porque essa luta é uma luta histórica". Depois de 35 anos batalhando no dia a dia, você fala numa reversão histórica. Você acha que nós estamos piorando como sociedade? Andamos para trás de uma maneira geral? Eu acredito que nada é monolítico, nós temos luz e trevas. Talvez estejamos vivendo um momento em que as trevas, ou o que nós chamamos de trevas, porque eles também nos acham trevas, esteja muito forte. A gente também seria muito pretensioso de achar "eu sou a luz". Mas nós temos que ter instrumentos de análise. Uma objetividade é a qualidade de vida: o nosso povo se alimenta adequadamente? Se alimenta o necessário? O nosso povo tem um lugar decente para dormir? O trabalho que o nosso povo faz é remunerado adequadamente? As desigualdades entre o nosso povo são em que nível, de um para trinta, de um para três mil, ou de um para trezentos mil? Existem dados objetivos, a própria ONU tem os indicadores de desenvolvimento humano. Por exemplo, se temos acesso à água potável, ao esgoto, à alimentação, à informação verdadeira e não manipulada, acesso a processos civilizatórios e de humanização. O que nós temos neste momento no Brasil é uma perda desses indicadores. Estamos com 13 milhões de desempregados. Aumentamos o número de pessoas abaixo da linha da miséria, que são menos de 2 dólares por dia. Esses parâmetros mostram, objetivamente, que nós estamos num processo de desumanização acelerada. O presidente colocou em xeque todos os programas de saúde mental, suspendeu até janeiro todos os exames de HIV e de hepatite C. O número de feminicídio dispara no Brasil. Tem muito mais gente na rua, muito mais gente desempregada, muita gente dormindo na calçada e temos excesso de bens para alguns. Esses dados são os indicadores de desumanização que nós temos. Você viu que na Argentina começou a taxação das grandes fortunas? Agora, a ideologia dominante fez a cabeça do nosso povo e o desempregado é contra a taxação de grandes fortuna. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fd3b008e79c8/padre-julio-lancelloti-trip-fm-mh5.jpg; CREDITS=Mario Ladeira; LEGEND=Padre Júlio já resistiu em reintegrações de posse, levou bomba de gás em manifestações de rua e denuncia com frequência a violência policial, e manteve seu trabalho humanitário cotidiano. ] LEIA TAMBÉM: Os objetos mais preciosos dos moradores de rua Qual foi a última vez que você chorou? Hoje me emocionou muito uma notícia que eu vi: o Canadá comprou em vacinas a quantia de cinco doses para cada cidadão canadense, quando são necessárias duas doses. Para quê? Os países ricos vão comprar toda a vacina, e o que vai sobrar para a Etiópia, o que vai sobrar para a Somália? Esse é o mundo que nós não podemos aceitar. Seria bonito que o Canadá usasse as duas doses da vacina em cada canadenses e em todos os imigrantes que moram lá, e as outras três que sobrarem fossem doadas aos países pobres. Porque nesse momento a vacina virou um negócio político. A discussão no Brasil sobre a vacina é política, é ideológica. Estamos vivendo uma emergência sanitária que precisa de respostas solidárias, humanizadoras. Muita gente falou: "Nós vamos sair dessa pandemia melhores". Você olha a 25 de março nesses dias e você diz: "Como é que ainda não entrou na cabeça desse povo?". Daqui 15 dias é Natal, todos os que se contaminaram lá vão aparecer no Natal. Então a gente não pode ser nem alarmista, nem pessimista, mas a gente tem que ser realista. Talvez quando eu diga seja um pouco incompreensível, mas eu luto não pra ganhar, mas para ser fiel. Durante a sua luta você tem recebido ameaças, algumas concretas. Você chegou a fazer boletim de ocorrência após dois homens gritarem ameaças para você na rua. Mas dá a impressão às vezes que você não tem medo de morrer. Você tem medo de morrer ou não? Acho que medo de morrer todos temos, porque é um desconhecido. Eu tenho que aprender o que é morrer. Outro dia uma jornalista me perguntou se eu tenho alguma pretensão política e eu falei que eu tenho três pretensões: o hospital, o asilo ou o cemitério. Na idade em que eu estou são essas as três possibilidades no meu horizonte. Eu não sei como é morrer, eu ainda não morri. Eu vou aprender a morrer na hora que eu morrer, como você. É uma aprendizagem tão nossa que a gente não vai poder contar para os outros como é que foi. Esse medo eu acho que todos nós temos. Agora, o medo das ameaças não pode me acovardar. Eu não tenho condições, até de identidade e psicológicas, de voltar atrás naquilo que eu acredito e naquilo que eu faço. Eu não posso ver maltratarem os moradores de rua e ficar calado, não estaria em mim. Eu seria falso se eu assumisse o silêncio ou me calasse diante de uma homofobia, diante de transfobia, diante de racismo, diante de ódio aos pobres, de tortura a presos e a moradores de rua. Eu formei a minha identidade e eu me reconheço assim. Vou fazer nesse mês 72 anos. Nesses anos todos de vida quatro pessoas que iam me matar vieram pedir perdão e dizer que iam me matar e não conseguiram. Eu confio na proteção de Deus. Confio na força e na coragem, porque se eu for ficar com medo... Eu gosto de um canto das comunidades de base que diz "quem tem medo sofre mais". A gente tem medo. Eu tenho medo. Eu choro. E eu ainda não sei como é morrer, embora a minha vida seja marcada pela morte de muitas pessoas queridas. Eu tenho marcado em mim a morte do meu pai, a morte muito dolorosa da minha mãe, dos meus dois irmãos, da minha cunhada, de todas as crianças que eu cuidei na Casa Vida e que morreram de Aids. Todas muito pequeninas, jovens, a mais velha morreu com 16 anos. Os outros todos com menos idade. Eu carrego a marca das dores de todas essas pessoas queridas. Me marcou muito a morte de Dom Luciano Mendes de Almeida, a morte de Dom Paulo Evaristo Arns, a morte de Dom Pedro Casaldáliga. Todas as pessoas que me marcaram na vida. Eu tenho muitos nomes. O que nos humaniza é termos muitos nomes gravados na nossa memória. LEIA TAMBÉM: Black Alien conta como superou as drogas e a morte do melhor amigo Sobre o Natal, parece que é uma data que se transformou numa campanha gigantesca de publicidade, shoppings, presentes e Papai Noel com as renas. Se a gente já tinha perdido conexão com o seu significado, agora ele ainda vai acontecer em meio a uma pandemia que impossibilita os encontros nas famílias. O que é o Natal para você? O Natal é pra mim é forte e importante na simplicidade de um Deus que se faz humano, fraco e pequeno. De um Deus que não é poderoso e é amoroso, que não é adulto e é criança, que não é rico mas é pobre, que não está no palácio mas está na rua. É de novo chamar a nossa atenção de crer no impossível, e de crer no inacreditável, e esperar aquilo que vai chegar, não sabemos quando, mas que é o despojamento do amor. Para mim o Natal é essa simplicidade amorosa de dar a vida, de estar com os fracos e nunca querer ser forte. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fd3b061ac2b0/padre-julio-lancelloti-trip-fm-mh6.jpg; CREDITS=Mario Ladeira; LEGEND=Padre Júlio Lancelloti]

    Fábio Porchat e Crocas: por trás do Porta dos Fundos

    Play Episode Listen Later Dec 4, 2020

    O ator e fundador do Porta dos Fundos se junta a Christian Rôças, CEO da produtora, para falar sobre polêmicas, ameaças e sucesso O que começou com um grupo de amigos querendo fazer humor na internet se transformou, oito anos depois, em uma produtora destacada e parte da Viacom, um dos mais importantes conglomerados de mídia do mundo. O Porta dos Fundos, além do canal no YouTube com mais de 16 milhões de inscritos, hoje produz programas para TV, como o Que História é essa Porchat?, da Globo, e o Greg News, da HBO, trabalha fazendo conteúdo para marcas e já fez filmes em parceria com a Netflix, como o especial de Natal A última tentação de Cristo, que no ano passado levou a sede da produtora a ser alvo de ataques com explosivos e chegou a ser censurado pela Justiça do Rio de Janeiro. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fcaa1f2083d5/porta-dos-fundos-crocas-porchat-trip-fm-mq9.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Christian Rôças, o Crocas, que se juntou ao Porta dos Fundos em 2019] Para orquestrar as ideias e maluquices de seus criadores com os negócios de um empresa – que só em 2020 cresceu 65% e está expandindo internacionalmente –, é que Christian Rôças, o Crocas, se juntou ao Porta em 2019. No Trip FM, ele se junta ao ator e roteirista Fábio Porchat, um dos fundadores do grupo, para falar sobre os bastidores da empresa, as crises e o próximo especial de Natal, "Teocracia em Vertigem", que será lançado no dia 10 de dezembro: "Se jogaram bomba achando que iam nos calar, então é a hora de a gente pegar o dinheiro que a gente tem e investir em divulgação, para mostrar que não só a gente não vai se calar como a gente vai gritar o mais alto possível", afirma Fábio. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fcaa0924858d/porta-dos-fundos-crocas-porchat-trip-fm-mq8.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Especial de Natal Porta dos Fundos] Trip. Crocas, você se tornou em dezembro do ano passado o CEO do Porta do Fundos. 2020 foi o seu primeiro ano nessa posição e logo em março entramos nesta pandemia que impactou o mundo todo. Me conta um pouco qual é o seu papel dentro do Porta e como foi esse primeiro ano de atuação numa conjuntura tão atípica e imprevista. Crocas. Estou comemorando um ano exato no Porta. Já passei por outros ângulos da comunicação e faltava um deles que era a posição do publisher, do creator, como está sendo chamado no mercado. Eu queria conhecer esse ângulo de comunicação para poder me sentir mais completo profissionalmente, que é um cuidado que eu tenho com a minha carreira, de pensar nela, cuidar dela. É algo que faz parte de mim e eu gosto muito do que eu faço. Quando eu cheguei no Porta eu peguei um lugar onde tem muita gente talentosa, que amam o que elas fazem, amam a empresa muito fortemente, e, ao mesmo tempo, sabem que a empresa está num crescimento absurdo. É muito grande o crescimento dentro e fora do Brasil, e precisa ser organizado, ter mais processo. O meu trabalho aqui é liberar o caminho para que as pessoas possam brilhar. Acho que quanto menos eu apareço, melhor, porque significa que alguém que está desempenhando seu trabalho está conseguindo fazê-lo bem feito, está conseguindo brilhar. Quando aconteceram os episódios da bomba e da censura eu tinha 18 dias aqui, um pouco menos. E eu me lembro de ter pensado: "Qual seria o lugar em que eu teria oportunidade de experimentar liderar uma empresa que passou por um ataque terrorista?". E depois dessa pergunta eu pensei: "Como eu gostaria que me liderassem nesse momento? O que eu gostaria que fizessem comigo se eu estivesse numa posição de aguardar que alguém resolva algo pela minha vida?". Porque têm os empregados, têm as suas famílias, têm os seus empregos. Então como a gente mantém essa empresa viva, mais viva do que nunca? E foi isso o que aconteceu. Acho que as pessoas se agarraram ao ocorrido e ficaram com vontade de fazer o negócio virar mais ainda. É um trabalho diário, não é fácil motivar as pessoas. Se eu quisesse contratar alguém pelo lado ruim delas eu iria no psicólogo. A gente contrata as pessoas pelo lado bom delas, pelo que ela tem de melhor a oferecer, é onde eu prefiro focar. LEIA TAMBÉM: Fábio Porchat defende que nada fique ileso: religião, sexualidade, casamento e política podem – e devem – virar piada [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fcaa0d4d8ffa/porta-dos-fundos-crocas-porchat-trip-fm-mq1.jpg; CREDITS=Bob Wolfenson ; LEGEND=Capa da revista Trip #282] O Porta surgiu como uma reunião de amigos – Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Ian SBF, João Vicente de Castro e Antônio Tabet – fazendo humor na internet. De lá pra cá, o Porta cresceu e se tornou e parte da Viacom, um dos mais importantes conglomerados de mídia do mundo. Como é conciliar essa dinâmica mais solta, criativa, do começo do grupo, com a estrutura empresarial mais rígida?  Crocas. É um desafio, realmente. O que eu tento fazer é com que eles não se preocupem com a parte administrativa, burocrática, ou se preocupem o menos possível, para fazer o que eles têm que fazer de melhor, que é o criativo, rodar perfeitamente. Tem rituais que tem que seguir. Não digo nem rotina, porque eu acho que a rotina é o primeiro tiro que a gente dá no pé de um criativo. Eu também sou criativo e sei bem disso. O ritual faz com que você agregue a equipe, junte as pessoas, que elas também se divirtam. Um dos rituais muito importantes que acontecem são as reuniões de roteiro às sextas-feiras. Toda sexta-feira, religiosamente, a gente se encontra com todos os sócios-fundadores, mais os roteiristas, algumas pessoas da produção e da direção, e a gente aprova os roteiros. É o momento que tem o lado chato – quando você entrega um roteiro que não rolou, não pegou –, mas é um MBA o que acontece toda sexta. E tem a parte engraçada, porque tem uns roteiros hilários que fazem a gente morrer de rir. Existe um balanço natural que o próprio ritmo da companhia impõe. Tem momentos que são muito sérios e que a gente tem que lidar com uma empresa dentro da seriedade que ela exige, e tem muitos outros momentos que são muito divertidos e que a gente consegue passar por essas situações de um jeito melhor. A agenda deles é uma loucura, de todos eles. Eu digo para o Fábio Porchat, por exemplo, que eu não consigo dar conta nem de metade do dia dele. É impressionante a quantidade de coisas que todos eles fazem o tempo inteiro. E sempre com o mesmo empenho, sempre com a mesma intensidade, para que seja muito bem feito, para que tenha qualidade. Então o meu melhor trabalho é tirá-los da burocracia o máximo que eu consigo, fazer com que as pessoas que precisam cuidar das burocracias cuidem cada vez melhor, para que eles fiquem soltos para criar. Você libera os criativos para serem criativos e assume a parte burocrática. Isso não te deixa um pouco frustrado? Crocas. Eu acho que existe uma tendência de as pessoas acharem que alguém criativo não gosta de business, de falar de processos para organizar as coisas. E eu sou contrário, eu gosto das duas coisas. A criatividade é percebida não como um talento seu, mas faz parte da sua função. Eu acho que como CEO, como financeiro, como advogado, todo mundo teria que ser criativo. As pessoas que são criativas em qualquer área sem ser só a da criatividade vão se destacar mais. Eu consigo sentar para criar, para ter ideia, e ao mesmo tempo pensar em como fazer aquilo acontecer. Senão muitas vezes fica no campo só da ideia, e eu gosto das coisas feitas. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fcaa160cec1a/porta-dos-fundos-crocas-porchat-trip-fm-mq3.jpg; CREDITS=Bob Wolfenson ; LEGEND=Capa da revista Trip #282] Me conta um pouco da tua trajetória, de onde você veio, a sua formação. Crocas. Eu sou jornalista, me formei na UFRJ. Bem no comecinho, quando a internet estava virando comercial no Brasil, em 95, 96, eu estava cursando jornalismo e dei a sorte de ter um tio professor universitário, cientista de redes neurais, neurônios artificiais. Então eu convivi, nas visitas à casa dele, com uns computadores gigantes, com fita ainda. Peguei os primeiros computadores chegando no Brasil na época que só mesmo a universidade tinha computador. E aquilo me encantou desde o começo. Quando eu comecei a estudar, um dos meus primeiros estágios foi numa revista que chamava Internet.br. Não existia nem um buscador ainda, não tinha Google, o Cadê surgiu depois disso. O meu trabalho era navegar e escrever dicas de sites para as pessoas navegarem. Eu fazia isso para a revista e, como eram muito poucos os jornalistas que trabalhavam nessa área, antes de me formar fui trabalhar em São Paulo. Passei por outras redações, como a da Computerworld, sempre na área de como a tecnologia interfere na vida e no comportamento humano e vice-versa. E aí eu dei uma sorte – ou merecimento, enfim, cada um pensa do jeito que quiser –, de ser indicado para trabalhar com o Gilberto Gil. O Gil era ministro da Cultura na época, em 2007, e ele queria discutir direitos autorais, visto que o artista estava virando veículo, produzindo o seu próprio conteúdo sem intermediários. E foi um trabalho que me proporcionou muitas coisas. Eu digo que Flora Gil e Gilberto Gil são meus padrinhos profissionais. Sou muito grato à família, viajei mais de dois anos com eles em países que eu nunca imaginei que fosse conhecer, justamente produzindo conteúdo. Eu produzia tudo com um celular, para mostrar que o conteúdo poderia ser feito democraticamente por qualquer pessoa. E aí acabou que eu montei uma empresa. Eu não esperava fazer isso. Os meus amigos publicitários diziam que tinha que ser curto o nome, mas como a empresa era não-convencional eu falei: "Beleza, vou colocar bem curtinho: Gruda em mim que o boi não te lambe". Era um nome enorme e aquilo de novo movimentou, as pessoas ficaram curiosas sobre o assunto. Quando eu vi eu estava trabalhando com Marisa Monte, Capital Inicial, Nando Reis, Bebel Gilberto, César Menotti e Fabiano, Rock in Rio, Juliana Paes, um monte de talentos. A empresa cresceu muito e acabou sendo comprada pelo Grupo Artplan, que é dono do Rock in Rio. Eu ajudei eles a implementarem o digital de multiplataformas dentro da Artplan. O Instagram estava chegando no Brasil e, em outubro de 2013, me fizeram uma proposta para trabalhar montando uma unidade nova na América Latina, que chamava media partnerships. Era para lidar com os criadores e com os veículos de mídia, atletas, eventos. Eu fiquei lá por 6 anos. Mudei de área internamente, fui para o creative shop, onde lançaram a primeira novela no celular feita para a vertical, a gente fez o primeiro vídeo em 360° da América Latina com a Ivete Sangalo. E ali eu senti que, dentro desse meu movimento de aprender outras áreas, eu precisava ver o que era viver na artéria do creator com o qual eu lidava tanto dentro do Instagram e do Facebook. Surgiu a proposta no Porta dos Fundos para imaginar formatos, reimaginar a marca, fazer a marca crescer mais. Eu não digo reinventar porque não precisa nada ser reinventado, a empresa tá ótima. Ela precisa ser reimaginada: o que mais dá para fazer para expandir esse universo desse lugar incrível?  LEIA TAMBÉM: Yuri Marçal: o youtuber e comediante carioca comenta as polêmicas envolvendo seu trampo e confessa: ”A ironia está em tudo que eu faço” [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fcaa21cd19e6/porta-dos-fundos-crocas-porchat-trip-fm-mq5.jpg; CREDITS=Mariana Pekin; LEGEND=Fabio Porchat no prêmio Trip Transformadores 2019, com a homenageada Simone Mozzilli] É quase um paradoxo o quanto vocês estão crescendo como empresa – a associação com a Viacom, produzindo para HBO, Globo e distribuidores digitais – enquanto as organizações mais convencionais estão enfrentando um período difícil. Qual tem sido a ferramenta mais importante para conseguir ter esse crescimento exponencial numa conjuntura de crise que tem abalado outras empresas do setor? Fábio Porchat. Eu acho que é uma somatória: a gente está no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas. O material humano do Porta dos Fundos ainda tem um frescor, uma luta pelo novo, pelo diferente, pelo ousado. E tem uma ousadia difícil de manter quando você vira establishment. Eu estava assistindo novamente vídeos do do primeiro mês de existência do Porta dos Fundos e falei: "A gente era muito doido mesmo!". A gente era maluco. Tem coisas muito legais, muito boas, e tem um desprendimento e um 'foda-se' implícito ali na gente muito bom, gostoso de ver. Olhando, eu penso: "Realmente, é por isso que chamou atenção". Tem uma doideira fresca, nova, maluca, que é muito muito positiva. Oito anos depois o Porta já se estabeleceu, já entrou para a cultura popular, não é novidade para ninguém, os atores que estão lá já são conhecidos. Diferente de 2012, quando a gente começou, é mais difícil ser ousado. O Porta tem mais telhado de vidro, tem mais olhar para ele, os tempos mudaram. Mas eu acho que o fato de a gente ter começado lá em 2012, antes dos períodos de cancelamento, nos permitiu fazer um monte de coisas que talvez a gente não fizesse hoje. Sobre o fato de a gente estar estabelecido num momento como esse, está todo mundo indo para o digital e a gente já está sólido no digital há oito anos, isso é ótimo. A gente está colhendo esse plantio de 2012, que sem querer querendo a gente mirou no que viu e acertou no que viu e no que não viu também. E esse material humano, que é esse criativo do Porta dos Fundos e que a gente luta muito para cada vez trazer mais roteiristas, mais atores, localizar nomes e talentos, faz com que o Porta esteja sempre dando um refresh. Por um lado, a gente pode falar: "Poxa, saiu gente muito boa e muito importante". Tipo Luís Lobianco, Clarice Falcão, Júlia Rabello. Mas ao mesmo tempo entrou gente muito boa! Entrou o Rafael Portugal, a Evelyn Castro, a Tathi Lopes! Então assim, essa reciclagem do Porta dos Fundos funciona muito porque tem novidade a todo momento, e a gente prima por gente engraçada, gente boa, gente que tenha também um frescor. O que poderia ser uma coisa do tipo "a gente quer aquelas caras conhecidas do passado", uma coisa meio televisiva de ser, na internet a gente se renova. E tem um compromisso com o que nós achamos que é qualidade. "A gente acha isso engraçado? A gente acha isso bom? A gente acha que isso é um material bom de colocar no ar?". Se acha, a gente põe. O Porta tem essa essência. A gente toda semana faz reunião de roteiro: eu, o Greg, o João e o Kibe, agora de nossas casas, mas com todos os roteiristas, e aprova todos os textos. Os textos vão para a produção e depois eles voltam para as nossas mãos. A gente vê o vídeo, não gostou, joga fora. Embora tenha virado já uma indústria, porque cresceu muito – e ainda bem que cresceu –, a gente tenta com todas as forças segurar o artesanal. Se o conteúdo não está bom, não lança. "Ih, mas vai perder dinheiro". Não importa. A gente tem um compromisso com o nosso conteúdo. Isso explica muito do que move vocês, mas no campo dos negócios não deve ser fácil. Queria ouvir a sua visão, Crocas. Crocas. Esse ano, mesmo com a pandemia, com a bomba do especial de Natal, com tudo o que teve, a gente vai crescer 65%. É um crescimento muito forte. Ele acontece muito por uma resiliência da equipe. É incrível ver o que ela entrega. Tem hora que é inacreditável ver a qualidade do capital humano do lugar. Mas eu argumento bastante, às vezes eu falo: "Fábio, posso te ligar?", "Olha, pensa nisso, tem aquilo..."  Fábio. O Crocas é o esquadrão anti-sequestro. Sabe aquele cara que negocia, que vai sem colete à prova de balas e entra na parada, o Marcelo Freixo com a CPI das Milícias? É isso, ele negocia com todos os lados, negocia com o pessoal do dinheiro, negocia com os sócios, e fala: "Jamais faremos isso''. Ele fica nesse lobby, é o nosso lobista. É um sonho, porque agora a gente pode só ter ideia. Eu não quero ficar discutindo para saber se a gente tem que vender para a Polônia, eu quero que se dane, quero escrever meu roteiro. E o Crocas agiliza muito a vida nesse sentido, ele vai fazendo acontecer. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fcaa2ac8862e/porta-dos-fundos-crocas-porchat-trip-fm-mq4.jpg; CREDITS=Gabriel Rinaldi ; LEGEND=Fábio Porchat, capa da revista Trip #240] LEIA TAMBÉM: Sem medo de mudanças, o ator e humorista Rafael Infante fala sobre o retorno ao Porta dos Fundos, sucesso e o trabalho artístico em meio à pandemia Recentemente um vídeo do Porta gerou polêmica.  Nele, a personagem é uma vereadora do partido Novo que teria sido a mais votada de Curitiba, e esse desempenho nas urnas está relacionado à sua vida sexual. A verdadeira vereadora mais eleita de Curitiba, Indiara Barbosa, se sentiu atacada, e muita gente na internet criticou o grupo pelo machismo da esquete. A atitude de vocês foi tirar o vídeo do ar e se desculpar. Como é que se dá a gestão de uma situação desse tipo?  Fábio. A gente tem que ficar 24 horas atento e olhando nas redes tudo o que está acontecendo. Tudo pode gerar alguma questão a qualquer momento. Nunca imaginamos que o Jesus gay do especial de Natal pudesse gerar o que gerou. Até de lugares que a gente menos imagina pode surgir alguma coisa. O humor é para fazer rir, é para ser engraçado, e tudo pode desviar da piada, qualquer detalhezinho pode fazer com que a linha reta para o humor transforme a piada numa outra coisa que não é o que a gente queria originalmente. Nesse caso do vídeo da vereadora, foi uma coincidência, porque esse personagem que o Joel faz tem 11 anos. Não tinha nada a ver com a candidata a vereadora que ganhou em Curitiba. Era uma brincadeira para sacanear o Partido Novo. Só que, por acaso, a vereadora mais votada em Curitiba era do Novo, e aí pareceu que aquele personagem era uma caricatura dela, e é zero isso. Era uma brincadeira com uma mulher que é uma personagem sem noção, que pula a janela para fumar, que estava indo nessa trilha, mas, por um infeliz coincidência – e a gente bobeou, lógico –, a trilha foi para o outro lado. Como se a nossa esquete fosse sobre uma mulher da qual a gente nem sabia. E o Porta levanta a bandeira de mais mulheres na política, lógico. Só que é isso, na comédia uma vírgula pode transformar piada. E foi o que aconteceu. Esse fato, do qual a gente ignorantemente não se atentou, desviou a piada. E aí a piada perde. Perdeu a graça, tira do ar e reconfigura isso. Crocas. Eu gosto de crise. Acho que o momento da crise é a hora de você botar a bola no chão, sem emoção, ou com menos emoção possível, e identificar: o que está sendo apontado faz sentido? A gente tem a oportunidade de melhorar dentro disso? Se tiver, tem que vestir a carapuça mesmo e dizer: "Estamos errados. Obrigado por avisar e vamos melhorar". Eu acho que quando a gente mete a cabeça no buraco que nem avestruz é o pior caminho, porque você está ouvindo ali um feedback para você melhorar e está fingindo que não acontece. Quando começam a acontecer situações assim eu fico acompanhando muito de perto e tento acomodar. O Fábio falou que eu sou um lobista. Na verdade eu acho que eu consigo, com algum tipo de gentileza, dizer: "Eu já entendi esse ponto, mas tem esse outro aqui, você já prestou atenção nele?". Por mais chato que seja, é uma função que alguém tem que fazer. Conforme isso é conversado, trabalhado, exercitado, a gente tem a opção de melhorar. Eu posso escolher melhorar e piorar, prefiro melhorar. O especial de Natal do Porta dos Fundos já virou tradição no grupo, sendo produzido desde 2013. Na semana que vem será lançado o deste ano. Conta um pouco como vai ser esse especial. Fábio. Chama-se Teocracia em Vertigem e vai ser lançado no nosso canal do YouTube. É um documentário sobre o golpe que levou à crucificação de Jesus Cristo. São 25 depoimentos fazendo um paralelo muito próximo e real com a nossa política, com o que tem acontecido de 2013 pra cá, com referências explícitas e claras. Foi uma ideia brilhante do Gabriel Esteves, nosso redator. A gente ficou pensando: "Como é que vamos gravar na pandemia? Não pode nem contracenar". E ele falou: "Por que não fazer um documentário? O ator vai estar sozinho, vai dar o depoimento para a câmera". Ele mesmo falou Teocracia em Vertigem, e eu achei brilhante, peguei essa ideia e escrevi o roteiro, como sempre faço. Todos os especiais de Natal eu sempre escrevi, alguns sozinho como esse, alguns em parceria. Eu quero ver todo mundo assistindo e identificando quem são as referências, do que a gente está falando, é quase um jogo dos mil erros. Tem os bolsominions falando ali, tem os terraplanistas falando: "É isso mesmo, se Jesus voltar eu mato ele de novo". O cidadão de bem vai estar muito representado, e a gente tem os depoimentos de gente próxima, de apóstolos, da mãe, de Madalena, dando um olhar olhar de dentro, de quem era realmente Jesus. E então culmina no depoimento final de Jesus, que inclusive é este que vos fala, e Jesus prefere não falar porque ele já falou e não deu certo, e escrever não surtiu efeito. Jesus prefere cantar e a gente termina o nosso especial, para já dar um spoilerzinho, com o maior clipe de rap que você vai ver na sua vida. Crocas. O convite é para que não assistam, a gente acha que não devem assistir.  Fábio. Essa é a primeira vez que o Porta dos Fundos divulga o especial de Natal. A gente tem aviõezinhos na praia com um cartaz sendo puxado "Jesus está voltando". Temos outdoors em Atibaia na frente de casas de advogados. Nós temos anúncios na TV, anúncios no jornal. Se jogaram bomba achando que iam nos calar, então é a hora de a gente pegar o dinheiro que tem e investir em divulgação, para mostrar que não só a gente não vai se calar como a gente vai gritar o mais alto possível. LEIA TAMBÉM: Paulo Vieira fala sobre racismo, televisão, e o lado amargo da comédia [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/12/5fcaa2f490ad9/porta-dos-fundos-crocas-porchat-trip-fm-mq7.jpg; CREDITS=Acervo Trip; LEGEND=Fábio Porchat em gravação do Trip FM em agosto de 2019] Esse especial deve ser uma coisa relativamente cara em termos de produção, envolve um elenco grande. Pela visão dos negócios, é algo que gera um retorno ou tem mais a ver com fixar o discurso da marca? O que pesa mais na hora de decidir por fazer uma produção cara para o YouTube? Crocas. O especial do Porta virou o Super Bowl brasileiro, as pessoas o estão esperando cada vez mais. A analogia é que quanto mais forte a marca do Porta estiver, melhor o resultado. Então é um projeto que a gente acredita e se provou que quanto mais ele for incrível, quanto mais a gente se dedicar a ele e for muito autêntico no que a gente acredita, melhor ressoa na nossa marca e ao longo do ano a gente vai colhendo os frutos. Apesar de parecer que vai mais para o lado negativo, muito pelo contrário. Como falei, a nossa empresa cresceu 65% esse ano. É um projeto de marca que mostra cada vez mais que o Porta dos Fundos é o Brasil que deu certo, que está exportando conteúdo, que mostra a sua diversidade e a sua inovação, o seu frescor, a sua não-caretice, o não-arcaico, não-atrasado. A intenção do especial de Natal é justamente essa: reforçar a nossa marca, o DNA do Porta. Não tem mais Natal no Brasil sem ter um especial do Porta dos Fundos. Isso vai ficar cada vez mais presente. E, de novo, não assistam. Todo mundo tem um direito democrático de não assistir. Não quer ver, não veja. Para fechar, o que vocês gostariam de perguntar um para o outro que ainda não tiveram a oportunidade? Fábio. Eu queria saber do Crocas qual era o maior medo dele, olhando de fora, antes de estar dentro do Porta, de dar errado quando ele se juntasse a nós? Crocas. O maior medo era que vocês não se dessem bem. Eu acho que esse é o pior dos cenários.  Fábio. Que fosse tudo fachada? Crocas. Que fosse uma fachada, que na verdade vocês não fossem amigos e que as pessoas da empresa não não tivessem bem umas com as outras. Trabalhar num lugar criativo quando você não admira o outro é muito preocupante. Fábio. E quando você descobriu que isso era verdade? (risos) Crocas. Eu acho que vocês são amigos-irmãos. Irmão é aquele com quem se pode brigar e depois já está amigo de novo. Isso faz uma diferença em manter uma qualidade alta. Quando você não se importa em dar a sua real verdade sobre alguma opinião, aí é um problema, porque você virou fake, virou uma falsiane na história. E você, Fábio, quando você viu que eu ia entrar, qual era seu principal medo?  Fábio. Ah, com qualquer um que fosse entrar o nosso maior medo era de que a pessoa quisesse de alguma forma se envolver muito no criativo, se apegasse muito a isso. A gente sabia que esse não era nosso problema, não era o criativo que a gente estava precisando. Se uma pessoa entrasse querendo dar ideia, querendo entrar no mundo ali, poderia causar uma certa estranheza. E também lidar com a equipe, com as pessoas, ao chegar de fora e já encontrar uma empresa funcionando. O nosso medo era: "Como esse cara vai lidar com todo mundo, potencializar o que a gente quer e entender a nossa maluquice?". Porque somos cinco artistas, bem diferentes um do outro, era muito importante que ele entendesse a cabeça dos cinco. O que esses cinco "irmãos'' fazem, acham, acreditam e discordam um do outro. Como lidar com esses cinco que são cada um de um jeito. Tem que saber lidar, tem um jeitinho para cada um. Mãe não é aquela que fala: "Eu criei meus filhos igual". Isso é péssimo, porque eles não são iguais, não adianta criar igual. O negócio é quando fala "eu criei um diferente outro", porque um gosta de sair para a piscina, o outro não gosta, outro gosta de subir no teto, outro gosta de ficar quieto. Era um pouco isso, de conseguir lidar com a gente e entender a cabeça de cada um.

    Maria Homem: O que a pandemia nos revela

    Play Episode Listen Later Nov 27, 2020

    A psicanalista avalia o impacto do momento que estamos vivendo em nossa saúde mental, na vida sexual e na compreensão da morte "Maior laboratório subjetivo de nossa história". É assim que a psicanalista Maria Homem descreve o momento que estamos vivendo. Inesperada, imprevisível e fora do nosso controle, a pandemia da Covid-19 desencadeou um turbilhão de mudanças e sentimentos e impôs a adaptação a uma nova vida que abarca medos e angústias. O medo do vírus,  medo pela própria vida, pela família, as incertezas quanto ao futuro, quanto ao trabalho e quanto ao planeta emergiram acompanhadas de descobertas dentro de casa, das relações íntimas e até dentro de si. São essas descobertas e experiências que ainda estão em curso que Maria tenta entender. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5fc175433d5ca/maria-homem-psicanalista-trip-fm-m1.jpg; CREDITS=Victor Affaro / Editora TRIP; LEGEND=A psicanalista Maria Homem] Uma das profissionais mais destacadas do país em sua área, Maria Homem é pesquisadora do Núcleo Diversitas da FFLCH/USP, professora da Faap e autora de alguns livros, entre eles o recém-lançado Lupa da Alma, no qual ela mergulha nos impactos que a quarentena trouxe para as nossas vidas e para a nossa mente. Em conversa com a Trip, a psicanalista fala sobre como esse momento está mudando a nossa relação com o corpo, com o sexo, com a morte e com a natureza, e destaca que esse período pode trazer também aprendizados positivos para a nossa forma de lidar com os outros e com a Terra: "É uma oportunidade, sem dúvida. São pulsões destrutivas para eventualmente quebrar formas de pensar, para se criar o novo. Se a gente estava fingindo que não estava vendo, agora a gente está vendo muito bem." LEIA TAMBÉM: Dá para manter a sanidade mental durante uma pandemia? Sabemos que por causa da pandemia muitos encontros passaram para o ambiente virtual e isso inclui os encontros entre os psicanalistas e seus pacientes. Eu fiz terapia por décadas, mas sempre presencial, ali com a pessoa olhando no olho. Para você, que exerce esse trabalho, como essa nova distância afeta na relação entre o profissional e o paciente? Maria Homem. Eu atendo muita gente de fora de São Paulo ou mesmo do Brasil e sempre usei um método que é assim: eu uso Skype, mas não uso o vídeo, só áudio. A análise não tem a ver com esse face a face, ela tem a ver justamente com a fala e com o inconsciente. A psicanálise stricto sensu é justamente deixar fluir e o mais próximo que a gente tem do divã é você simplesmente falar. Então eu acho que funciona. O meu depoimento é que às vezes até funciona mais, justamente porque você não tem "o constrangimento" da presença, da materialidade, do olhar. "O que será que o outro está achando? Como é que eu estou nessa poltrona, será que eu estou bem?" O Freud queria a associação livre, e aí a gente consegue chegar nesse libertário de um jeito curiosamente mais interessante. Eu costumo fazer uma comparação que não é muito elegante, mas eu vou mandar bala aqui: sabe essa chats? Esses jogos sexuais? Que às vezes a figura se sente até mais próxima das suas fantasias mais secretas e ela vai contá-las para um desconhecido, ou para alguém que ela não está vendo? Ali se tem a coragem de se abrir. Eu diria que tem algo que é dessa ordem, sabe? [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5fc17578f0cf2/maria-homem-psicanalista-trip-fm-m3.jpg; CREDITS=Jõao Kehl / Revista Gol; LEGEND=Maria Homem] Como é que esse momento da pandemia está afetando a saúde mental das pessoas? Eu acabei de fazer um livrinho sobre isso chamado Lupa da Alma, com um subtítulo que já revela o jogo – Quarentena revelação –, que parte da hipótese que esse momento histórico peculiar tem uma dupla característica: primeiro que ele coloca gente sob ameaça porque é um vírus, é um adoecimento, é um risco de sequela e eventualmente de morte, então você lida com o medo e com qualquer tipo de fobia real e imaginária; e segundo, o que a gente tem para lutar contra isso agora? O isolamento social, a quarentena, o confinamento. Você está confinado fora do grupo, da teia social mais ampla, longe de todos os outros e muito perto de alguns, normalmente poucos, com quem você convive ou calhou de conviver. Essa dupla situação revela muita coisa. Desvela. Tudo o que a gente jogou pra debaixo do tapete, tudo o que a gente foi acumulando, agora veio à tona. A gente está agudo, num pico de intensidade, porque tudo o que era morno, tudo o que você deixava ali de lado, agora incomoda. Há muito esforço pra deixar sob controle até a mediocridade cotidiana, sabe? Da qual a gente se distrai ali no bar, no boteco, no restaurante, nessa sociabilidade, levemente numa lógica de entretenimento, que é da vida. Quando você tira essas anestesias, aí dói. LEIA TAMBÉM: Viviane Mosé fala sobre felicidade e solidão na pandemia Nesse período eu conversei com o Ailton Krenak, e ele fala que tem horror à expressão "precisamos voltar ao normal". O normal, na visão dele, era o que estava nos levando a uma situação insustentável, e ele reza para que a gente não volte ao normal e entenda que aquele normal era uma doença, uma patologia. Para além desses aspectos difíceis que você acabou de descrever deste período, dá para ver um lado positivo dessa experiência e das descobertas que ela traz? Eu mesma citei o Krenak no livro. É um cara de quem eu gosto e que eu acompanho o pensamento, e eu acho que essa é uma reflexão necessária. Estou agora dando aula para os alunos na FAAP e, sobretudo para essas novas gerações, os alunos de graduação de 20 anos, a gente tem a sensibilidade de ler uma angústia que é assim: "Nossa, que mundo é esse que eu estou sendo convidado a entrar? Ideias para adiar o fim do mundo, por favor". "Como assim estão rifando o meu futuro? O amanhã não está a venda". A presença do mercado, um totalitarismo de relações de compra e venda, de extração, esse paradigma extrativista e uma lógica hiper mercadológica que vai objetificando todos e todas, eu acho que já estão muito claros para essas novas gerações, e está nascendo esse paradigma de uma outra sensibilidade. Existe o outro, e pode ser interessante, e existe o tempo, existe a água, existe a natureza e existem pesquisas de posições menos bélicas com o outro, com a alteridade radical, que seja do ouro, da pedra, da mata, do conflito, do desejo ou da cor da pele. O livro vai do eu, do mais íntimo, até a morte. Vai em espirais ascendentes que se amplificam, então o eu, o elo, o amor, o desamor, a família, o trabalho e chega no planeta. É uma oportunidade, sem dúvida. São pulsões destrutivas para eventualmente quebrar formas de pensar, para se criar o novo. Se a gente estava fingindo que não estava vendo, agora a gente está vendo muito bem. A própria Trip está aí há décadas tentando modular, desenhar um pouco isso. Propor de alguma maneira uma reflexão, com o desafio de fazer isso dentro de um mercado real. Você também tem que sobreviver, não deixa de ser uma empresa. É um pouco o desafio de todos nós no início do século 21: como viver, como poder existir de outra maneira, mas ao mesmo tempo questionando o jogo, que é muito pesado para muita gente. A consciência é o primeiro passo para construir uma outra realidade que se queira para você. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5fc175ac19216/maria-homem-psicanalista-trip-fm-m2.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Maria Homem]  Qual o impacto que essa experiência da pandemia tem na nossa vida no aspecto sexual? O que está acontecendo nesse lugar da vida das pessoas sob o efeito do vírus? Você percebe movimentações diferentes, reações diferentes, emoções diferentes no campo sexual? Eu diria que está mais pra menos do que pra mais. Se fosse dar uma síntese do que se escuta aqui, eu tenho algumas hipóteses sobre isso. Vou pegar três pontos só pra amansar e bater um papo. O primeiro é que acho que a gente não faz muito mais erotização do encontro com o outro. A gente faz mais um sexo protocolar, quase um exercício aeróbico, catártico, uma pequena descarga. Sabe aquela briga que dá uma aliviada com aquela trepada? A gente tem muito uso comum, um ato desimplicado. Então quando chega na hora de uma hiper convivência, o encontro mais olho no olho onde se esbarra e onde se está nessa tensão, aí a coisa complica. Como é que você vai fazer essa pesquisa que é o erotismo? Eu estou usando esse termo, que talvez seja um nome apropriado para essa antiga ciência milenar mesmo. Tem tratados de arte erótica japonesa, arte erótica hindu, deve ter também indígena. Não sei se tem norte-americana, que é só a base protestante radical e sua necessidade de repressão ao sexo. Não sei se na Europa tão cristã também. A gente começa a perceber o quanto a nossa cultura reprime o erótico, reprime Eros. Simples assim. O quanto é tabu e o quanto a gente faz um sexo protocolar, assim, com perdão da palavra, vagabundo. Muito raso. Então o primeiro ponto é que a gente está vendo e está vivendo isso. Quem sabe alguns poucos aproveitaram também esse momento pra se divertir com isso. Netflix ganhou dinheiro, Amazon ganhou dinheiro, agora, acho que algumas poucas almas iluminadas deixaram seus corpos fazerem suas descobertas. E falando em corpo, o segundo ponto é: o corpo está sub judice. O corpo está ameaçado, porque a gente está falando de uma doença. Tanto em termos micro, de cada encontro, quanto macro, é o corpo do outro que eu vou temer, porque ele é a fonte da contaminação. Eu tenho medo, eu passo de ladinho, eu vou usar máscara, vou lavar a mão, passar álcool. Isso não é sem consequência sobre a nossa maneira de se relacionar, não só com o estranho, mas mesmo com o próximo, ainda que inconscientemente. Fomos atingidos na carne. O milênio dos vírus entendeu que somos corpóreos. O que é normal, como é que a gente vai repensar a norma? Sem dúvida, não sou nada simpática à palavra normal como contraposto ao patológico, ao que seria a padronização do bem, desconfio profundamente disso. Eu diria que a norma é só uma curva, a curva normal, que mostra padrões. Acho que a gente pode explodir um pouco a curva, deixar ela ser um pouco mais instável. Suportar essa instabilidade até tirar as normas que a gente coloca sobre o corpo. O que seria o corpo bonito, sarado, limpinho, durinho e todas essas sinalizações muito autoritárias sobre o corpo. Isso também está em jogo quando a gente fala de sexualidade ou de erotismo. A gente pode construir pensamentos do tipo "mas eu engordei agora na quarentena", "deixa eu abrir uma outra garrafa de vinho". O encontro com o outro é "ai, que preguiça, deixa eu ficar aqui na minha casinha, deixa eu ficar aqui no meu Instagram". Esse é o terceiro ponto que eu colocaria aqui: o sexo é também encontro com o outro, é também alteridade, é também um jogo, é uma dança, é palavra. Sexo não é só corpo, ele é essa coisa estranhíssima que é o entrelaçamento entre o corpo e a alma. Como diria Freud, a pulsão está no limiar entre somático e o psíquico. Será que a gente sabe fazer isso bem? Será que a gente pesquisa isso bem? A psicanálise tem só cem anos, é muito pouquinho. Qual é a proporção da população humana que está um pouco advertida disso e que tem o privilégio de fazer essa pesquisa com menos defesa, com menos projeção, com menos agressão? [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5fc175d64c383/maria-homem-psicanalista-trip-fm-m4.jpg; CREDITS=Jõao Kehl / Revista Gol; LEGEND=Maria Homem] LEIA TAMBÉM: Amor e sexo em tempos de pandemia Me parece que um efeito colateral desse vírus foi obrigar as pessoas a pensarem mais na morte, a terem mais clareza sobre a finitude. De repente a morte, que era uma coisa que acontecia só com o vizinho, chega bem perto de você, nos seus familiares. É positivo que, ainda que no tranco, a gente comece a querer pesquisar mais sobre a nossa existência. Você sente isso nas pessoas que te procuram pela primeira vez? Eu acho essa a coisa mais não só interessante como talvez necessária, né? Se eu acho positivo? Sem sombra de dúvida. Por isso que eu mesma usei essa expressão "maior laboratório subjetivo da espécie humana". Tem um dado muito importante que é o tempo, diferentemente das outras pestes – a peste negra, a Gripe Espanhola, 1300 e 1900 –, onde a velocidade de transmissão era muito menor porque a nossa velocidade de locomoção era infinitamente menor. Demorou anos, eventualmente décadas, para a peste bubônica tomar conta de muitos vilarejos e países da Europa e chegar na Eurásia, e outros tantos anos para isso refluir. É algo que vai se espalhando. Agora, demorou semanas. E gente começou a ouvir "já chegou aqui" porque foi no casamento tal, foi na comemoração xyz, a gente tá vendo isso e vivendo. Como é que a gente pode subjetivar essa experiência que é também coletiva? Como é que a gente pode elaborar isso juntos? Inclusive a coisa muito peculiar que é elaborar a perda, o medo, a angústia e a morte. Essa consciência de que chega um dia e o seu coração para de bater. É a única coisa não imprevisível da sua vida, ela é certa. Você não sabe quando. Você tem alguns dados: se você tratar muito mal o seu corpo, o coração vai aguentar menos – é matemática isso, tem estudos. E como é que a gente faz para poder falar sobre a perda, falar sobre o medo, saber da morte? Será que a gente vai conseguir, como cultura, deixar a morte menos tabu? Eu diria que assim como a gente tirou um pouco o corpo de um tabu  – mas não tanto quanto a gente diz, não sei se sexo e corpo são tão menos tabus do que antes –, agora talvez a gente possa pôr a morte no centro da roda e naturalizar um pouco mais uma das coisas mais comuns da vida. LEIA TAMBÉM: O celular não é a cura para a solidão da quarentena Ambos temos filhos de 10 anos de idade e eu não sei como é o seu, mas eu vejo claramente uma questão que preocupa que é esse encantamento pela tela, pra não dizer vício. A criança fica completamente abduzida por aquelas cores, emoções e explosões de informação que aparecem na tela. Como você faz para lidar com isso? Esse é um bom debate. Você vê como a gente é um bichinho que foge, né? Como a estrutura do humano é profundamente fóbica. A gente tem medo, tem muito medo, e, bobeou, a gente cria territórios, ilhas de escape. Às vezes um escape tão bem feito que é uma realidade perfeita – a gente até chama de second life uma realidade virtual. O mundo vai nessa direção, não tem dúvida. Eu fui há muitos anos para o Egito e eu lembro que eu era fascinada pelo Império Egípcio, o Rio Nilo, Luxor, capital do antigo império. Para visitar esses lugares eu tinha que acordar às cinco da manhã para ir com um guia e voltava umas nove, quando já estava 50 graus. Aí ficava trancada talvez das 10h às 15h no ar-condicionado, que era quase um luxo que tinha no hotel. As pessoas vão falar: "Meu Deus, que preguiça. Você fica ali sete, dez dias, e vai conhecer as coisas e ver aquelas pedras. Já vi tanta foto. Já vi obelisco em Paris, pra que eu quero ver aquele outro lá na frente do templo? E que é isso de Nefertiti?". Então acho que a realidade ela custa e ela dói. Como é que a gente vai ensinar para as crianças, como a gente vai transmitir para os nossos filhos e para toda a infância o maravilhamento do real? Eu tenho essa pergunta, você tem razão, eu estou nessa missão. Pessoalmente estou imbuída disso. Não sei se eu tive sorte, mas eu acho que aqui eu não tenho muita angústia quanto a isso porque está dando para negociar. A vida pode ser um pouco trabalhosa, né? A gente tem um corpo pra cuidar, tem que alimentar, tem que lavar, tem que escovar os dentes, porque o corpo é mortal e perecível. Mas olha só que bom: só com ele você consegue ter o prazer de pular, de correr, de tomar sorvete, de outras delícias que nossos filhos que vão para sua segunda década vão descobrir logo mais, estão descobrindo. O corpo sempre foi esse fio da navalha, né? É o que a gente mais ama e mais odeia, fonte de prazer e desprazer. Se cada pai, mãe, com o seu próprio corpo, com seu próprio ser e com o outro, está tranquilo quanto a isso, você vai saber transmitir isso. Você vai ter criatividade, vai instigar de sair, de viajar, de fazer trilha, jogar bola. A viagem real é multifacetada, tem várias camadas. A tela não deixa de ser 2D. Por mais que a gente tenha a tecnologia e óculos pra nos enganar, a realidade dura e crua é que é só 2D.

    A ousadia e a liberdade de Claudia Raia

    Play Episode Listen Later Nov 20, 2020

    Aos 53 anos, a atriz lança biografia e abre o jogo sobre sexo, amor, política e envelhecimento Jô Soares disse uma vez que de dez em dez anos nasce uma estrela, mas só a cada vinte é que nasce uma mulher como Claudia Raia. O apresentador, que ela diz ter sido seu "primeiro grande amor", estava certo. Aos 53 anos, a atriz acaba de lançar sua biografia, Sempre Raia um Novo Dia, que narra episódios de sua vida – do casamento com Alexandre Frota ao apoio ao ex-presidente Fernando Collor em 1989 – e dos 35 anos de carreira. Claudia já cantou, dançou, produziu espetáculos no teatro, viveu personagens marcantes no cinema e na TV, tanto no drama quanto na comédia, e estampou mais de 600 capas de revista. Em entrevista à Trip, ela fala da morte do pai, da pressão que sofreu seu relacionamento com Jô Soares – "até hoje as pessoas ficam muito impressionadas que eu tenha namorado com o Jô, como se ele ser um homem gordo fosse a única coisa que ele tem", conta – e da invisibilidade que sofrem as mulheres depois dos 40. "A mulher tem data de validade e expira quando ela para de ovular, como se ela não servisse para mais nada", diz. "Você vai parar de transar? Você vai parar de gozar?". Dá o play! [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5fb695861bca5/claudia-raia-atriz-trip-fm-m4.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Claudia Raia com o apresentador Chacrinha e a modelo Monique Evans] LEIA TAMBÉM: Zezé Motta fala sobre racismo, aborto, militância e idade Trip. Você acaba de lançar sua biografia, Sempre Raia um Novo Dia, na qual você conta diversas histórias. Dentre elas, me chamou a atenção a circunstância da morte do seu pai, quando você tinha 4 anos. Conta um pouquinho desse episódio? Claudia Raia. A minha passagem com o meu pai é muito breve, mas me lembro dele perfeitamente. Ele era um alto executivo de uma multinacional e um funcionário, braço direito dele, acabou fazendo um desfalque na empresa. Ele descobriu e teve que mandar ele embora. Depois desse episódio, a esposa desse funcionário, que era uma banqueteira de mão cheia, deu um pato com laranja para o meu pai, se desculpando pelo ocorrido e se dizendo muito envergonhada. E meu pai, que era um admirador da gastronomia, recebeu aquele prato. Minha mãe conta que o jeito que ele comeu o pato é que foi mais impressionante. Meu pai era um cara muito de boas maneiras, sofisticado, comia asa de frango com garfo e faca. E aí ele se atracou naquele pato, comeu com a mão, devorou. Não ofereceu o pato para ninguém, comeu inteiro. E ele bebia socialmente. Passados uns dois meses, ele começou a beber todos os dias. Em três, quatro meses ele bebia de tudo: whisky, cachaça, tudo o que tivesse. Dali seis meses, ele chegava com garrafa de bebida dentro do terno, foi pego bebendo perfume, se tornou um alcoólatra. Em um ano, ele faleceu de cirrose hepática aos 50 anos de idade. Foi um choque. Minha mãe ficou de um jeito que eu espero nunca mais ver ninguém daquela maneira. Depois de uns três anos a minha mãe foi a uma cartomante e eu fui com ela. Eu tinha seis, sete anos. E a cartomante falou pra minha mãe: "O seu marido foi envenenado espiritualmente. Tinha um trabalho feito no que ele comeu". A mulher não sabia de nada, nunca tinha visto a minha mãe na vida. Ela disse: "Esse trabalho está enterrado numa figueira perto da sua casa. A senhora cave que vai achar o trabalho feito para o seu marido." Minha mãe quase desmaiou. Ela foi, cavou e encontrou uma caixa com o nome do meu pai, com foto do meu pai, com linha vermelha, preta, caveira, cruz, enfim, todas as coisas. É uma história bizarra porque a gente acha que isso não existe, né? Mas na verdade, mais do que encontrar um trabalho, é impressionante o que o pensamento pode fazer. Uma energia negativa pode destruir uma pessoa.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5fb695b306b2c/claudia-raia-atriz-trip-fm-m1.jpg; CREDITS=Tato Belline; LEGEND=Claudia Raia] A sua precocidade impressiona na sua trajetória. Aos 13 anos você foi para Nova York com uma bolsa de estudos de balé. E lá acabou sofrendo dois episódios de assédio sexual, um ataque na rua, e, depois, do dono da casa onde você estava hospedada. São situações difíceis para uma mulher de qualquer idade, mas principalmente para uma adolescente. Por outro lado, essa precocidade também fez com que você aos 18, 19 anos já tivesse papeis importantes em novelas. Você acha que foi uma boa ter feito tudo isso tão jovem? Se você voltasse no tempo, faria diferente? Eu não faria diferente. Acho que não teve nenhum nenhum descuido da minha mãe, ao contrário, ela foi completamente coagida por mim. Eu disse para ela: "Se você não me deixar cumprir essa bolsa de estudos dificílima que eu consegui, que foram apenas duas brasileiras admitidas e mais duas pessoas de outros países da América Latina, eu fujo. Eu vou de qualquer jeito, porque eu quero isso!" E a minha mãe sempre foi uma mulher vanguardista, eu venho de uma família de quatro mulheres feministas. Ela era muito moderna. No [musical] Raia 30 ela deu uma entrevista na qual perguntaram: "Como é que a senhora conseguiu conter a Claudia?". Ela disse: "A Claudia sempre foi uma louca, um passarinho enlouquecido dentro da gaiola. Se eu não abrisse a portinha ela estraçalhava a gaiola". Então ela teve a sensibilidade de sacar onde essa filha queria chegar. Eu não mudaria absolutamente nada porque se eu não tivesse vivido tudo isso não teria chegado onde eu cheguei e não teria feito a história que eu fiz tão precocemente. Eu só consigo escrever um livro de memórias aos 53 anos porque eu tenho tudo isso para contar. Foi chato? Foi. Algumas coisas foram muito esquisitas? Foram. Mas muitas coisas foram muito maravilhosas. Eu também tive muitas mãos que foram estendidas para mim. Nessa tentativa de assédio dentro da casa da família americana que me hospedava eu tive uma mão de uma pessoa no meio do Harlem que me acolheu e me levou para um apartamento. Eu estava com a mala e mais nada. Não tinha um celular. Eu tinha que ir para uma telefônica no Harlem nos anos 70. Como é que eu ia sair dali? Eu não tinha dinheiro. E aí eu tive Deus agindo e uma professora de balé moderno que me deu aula no Ballet Stagium passou naquele momento e me deu a mão. Então assim, muitas coisas maravilhosas. E eu pude estudar dança no American Ballet Theater com 13 anos de idade. Fui uma menina e voltei uma mulher. A minha filha Sophia está indo estudar em Nova York na NYU, vai fazer faculdade lá. Se ela quisesse ter ido aos 13 anos eu teria deixado. LEIA TAMBÉM: Fernanda Paes Leme abre o jogo: amo a minha companhia [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5fb695c9cbc9e/claudia-raia-atriz-trip-fm-m2.jpg; CREDITS=Tato Belline; LEGEND=Claudia Raia] Você conta sobre o seu término com o Jô Soares e o que mais me chamou a atenção foi ele ter terminado com você por não saber lidar com o fato de você ser muito mais nova. Você fala que foi seu primeiro grande amor e que tinha uma pressão social gigantesca por ele ser gordo, mais velho, e você gostosa, alta, jovem. Se fala pouco de preconceito quando o homem é o mais velho da relação. Como foi viver isso? Até hoje as pessoas ficam muito impressionadas que eu tenha namorado com o Jô, como se ele ser um homem gordo fosse a única coisa que ele tem. E ele é uma das mentes mais brilhantes do país, um homem espetacular, de uma inteligência única. Com um carisma, com um humor, com uma facilidade de se relacionar. É uma delícia de pessoa. E eu me encantei com esse ser humano. Me surpreendi de estar apaixonada por esse homem aos 17 anos de idade? Sim. Me amedrontou na hora que eu olhei e falei: "É completamente diferente dos namorados que eu tive ou das pessoas pelas quais eu me apaixonei". Mas o fato é que eu me apaixonei por ele e me orgulho muito disso porque isso significa que é muito mais do que um corpo, né? É muito mais do que um padrão de beleza. Agora se fala de corpo livre, de preconceito, de gordofobia. Não se falava disso na época. Era tabu mesmo, real. E a mulher ser mais nova não era tabu porque isso era muito comum, como é até hoje. O que o Jô enxergou, e eu acho que com uma maturidade excepcional, foi o quanto que ele iria sofrer caso eu olhasse para o lado e enxergasse um Alexandre Frota e quisesse me casar com ele, que foi exatamente o que aconteceu. Claro, eu não sei se eu teria olhos para o Alexandre Frota se tivesse ficado com o Jô , talvez não. Mas um pouco mais pra frente, talvez as diferenças de idade, principalmente, começassem a bater. Porque eu era muito jovem, muito espevitada, muito sociável, muito alegre. Não que ele não fosse, mas ele era um cara de 53 anos e eu tinha 17. É diferente, né? Eu era mais nova que o filho dele. Então esse peso caiu sobre as costas dele. Ele disse: "Você vai ser uma das maiores estrelas desse país. Eu não sei se eu dou conta de ter você com esse sucesso todo". Quando eu comecei a fazer a novela Roque Santeiro eu ainda estava namorando ele e nada mudou. Só mudou quando ele terminou comigo. Eu sofri feito uma desesperada porque ele efetivamente era o homem da minha vida. E foi sem dúvida nenhuma o meu primeiro grande amor. Digo para você hoje que ele tomou a decisão errada? Acho que não, acho que ele tomou a decisão certa. LEIA TAMBÉM:Fernanda Paes Leme abre o jogo: amo a minha companhia [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5fb695f898cb8/claudia-raia-atriz-trip-fm-m3.jpg; CREDITS=Tato Belline; LEGEND=Claudia Raia] É muito conhecido nos consultórios de psicanálise o medo que as mulheres bonitas provocam nos homens. Eu já entrevistei várias mulheres e elas falam abertamente que os caras não chegam perto, não abordam, ficam intimidados mesmo. Você já foi homenageada com muitas broxadas, quer dizer, muitos homens chegaram na hora do sexo com você e amarelaram? Fui homenageada com muitas broxadas, mas eu sempre tive muito carinho com os homens. Porque o nosso brinquedinho é de abrir e o de vocês é de armar. É muito puxado, não é fácil um brinquedinho de armar. Então eu tenho um respeito pelo órgão masculino, é bravo essa ereção. Nós, mulheres, pelo menos nesse aspecto, temos uma vida muito mais calma, é muito menos demanda. Em todo o resto vocês estão maravilhosos e a gente está lá na ralação: é menstruação, menopausa, parto, amamentação, tudo muito puxado. Mas a ereção tem a ver fundamentalmente com o estado emocional, a cabeça do cara, o dia que ele passou, e não necessariamente com o tesão que ele tem na mulher e o que ele está sentindo naquele momento. Eu já presenciei o cara morrendo de tesão e não conseguir uma ereção. Isso tem que ser entendido pela mulher mesmo. Como eu acho também, sexualmente falando, que ela tem que dar o caminho das pedras para o homem, porque o órgão masculino é meio tudo bem parecido. A mulher não, o órgão feminino é interno e é único. Cada mulher sente de um jeito único. Não é parecido, é único. Então se você, mulher, não se investigou, não sabe do jeito que você gosta, você não sabe pedir. Você não sabe dizer para o seu homem como é que você gosta, e aí fica muito difícil o homem acertar. Ele vai como? Com o seu comando. O comando delícia, o comando fofo, não o comando tipo guarda de trânsito. Mas é claro que essa é a relação, esse é o conhecimento de um para o outro. Fundamentalmente da mulher para o homem, porque o homem só vai chegar no lugar certo se a gente encaminhá-lo. Você concorda com isso?  LEIA TAMBÉM: Masturbação feminina: descobrindo o prazer na quarentena Sem dúvida. Falando sobre sexualidade, eu estava conversando outro dia com duas mulheres de 50 e poucos anos e elas falaram sobre as descobertas que estavam tendo de medicamentos, suplementação hormonal e coisas do tipo para lidar com a sexualidade durante e após a menopausa, e parecia que elas tinham descoberto um outro planeta que elas achavam que não existia. Como tem sido essa experiência para você, da sexualidade conforme o tempo vai passando? Eu fui sentindo na pele que a gente ainda vive num país extremamente machista, estruturalmente machista, e que se nega ou tem dificuldade de falar da mulher ageless, da mulher sem idade. A mulher que passou dos 40 anos não existe. Ela tem data de validade e expira quando para de ovular, como se não servisse para mais nada. E essa mulher está passando por uma bomba hormonal, é a mesma bomba de quando ela menstrua. Só que quando ela menstrua tem um monte de gente falando como é que vai ser, e quando ela vai entrar na menopausa ninguém fala porra nenhuma. Nem os médicos falam. Tenho ouvido mulheres que ficam absolutamente sem lubrificação, secas, e que não conseguem transar mais; mulheres que ficam com incontinência urinária; mulheres que ficam com a pele completamente ressecada, craquelada e que se sentem feias, horrorosas e os maridos não conseguem transar uma, duas vezes, e não querem nem saber o porquê, largam essa e pegam uma novinha. Essa mulher que é achincalhada o tempo todo: "não pode usar mais roupa curta", "você não tem mais idade para usar cabelo comprido", "não tem mais idade para ter um novo namorado", "não tem mais idade para abrir um novo negócio ou para mudar de profissão". Ela é jogada num buraco negro do qual só vai retornar quando chegar aos 80 e virar a vovó fofa. É uma loucura, quase que um medo do poder dessa mulher porque, fundamentalmente, ela não precisa mais de homem. Na maioria das vezes essa mulher está estabelecida, com os filhos criados, ela tem o poder de compra, tem o poder de decisão – porque quem manda na família é a mulher, vamos trabalhar com a verdade. É como se o homem não quisesse entender e aceitar o poder dessa mulher, então ele achincalha ela. Ele derruba essa mulher para vir com uma novinha que é ainda inexperiente, é ainda com pouca opinião, insegura, que a gente é mesmo quando é mais jovem. Aquilo ali ele domina, a outra mulher ele não domina. E aí eu começo a pensar: essa mulher chega no ginecologista e fala: "Estou fazendo xixi na calça, tô seca, etc". E ouve que "é a menopausa, é assim mesmo". Quer dizer que você está fadada ao fracasso, a passar a sua vida sofrendo de calores, de se sentir mal, de se sentir tonta, de estar seca, se sentindo a pior mulher do mundo. É assim a menopausa. Bom, então melhor a morte, né? Então eu resolvi falar sobre isso. Levantar essa bandeira. Acredito no ageless. Acredito que a mulher é linda em qualquer idade, com qualquer corpo, com o cabelo que você quer ter, com a roupa que você quer vestir. É esse o discurso e o sexo está dentro disso. Você vai parar de transar? Você vai parar de gozar? Aí você parou de viver, né? O homem goza até sei lá quando. Por que tem o Viagra para o homem, e não tem um apoio para mulher? Tem que ter. LEIA TAMBÉM: Como rolam amor, sexo, dates e app de paquera para quem tem mais de 60 anos Você apoiou a candidatura à presidência do Collor em 89. No seu livro você conta que se sentiu enganada por ele, se arrependeu, e que esse apoio te custou um preço alto. Nós estamos vivendo de novo num momento muito difícil no país. Queria que você dissesse, como cidadã e artista, quais perspectivas você vê para a gente nesses próximos anos. A gente está indo realmente para uma vala sem fundo? Eu primeiro queria deixar claro que não sou petista. Eu jamais votei no PT, jamais. É só para deixar claro porque todo mundo no Brasil inteiro acha que os artistas todos são do PT. Eu não sou. Aliás, eu não tenho partido. Se eu fosse me colocar, eu diria que eu sou centro-esquerda? Talvez. Mas prefiro nem dizer porque eu olho para o meu país com carinho. E olho para o meu povo com tristeza, na verdade, porque é um povo maravilhoso, um povo guerreiro. Mas é um povo que não aprendeu a votar ainda, nenhum de nós sabe votar porque ninguém ensinou. Nós não temos uma educação política, principalmente as pessoas que não têm o acesso que nós temos. Em relação à cultura, eu não sei nem o que te dizer. A cultura está morta, esfaqueada. Enterrada, não, porque a gente vai desenterrar isso e conseguir se levantar, vai ficar de pé em algum momento. Até porque nos momentos de crise a nossa criatividade fica mais aguçada e a arte é um ato político. Vide essa pandemia, que todo mundo falou tão mal da arte, este governo falou tão mal, e foi a arte que nos salvou. Se nós não tivéssemos os filmes, as séries, os livros, as lives, a música, nós estaríamos todos perdidos no mundo inteiro. Eu sou uma pessoa positiva, acho que quem vai tirar a gente do buraco é a consciência do povo. Essa pandemia veio para abrir os olhos da gente não só para o governo, ou para os líderes mundiais, mas para uma coisa espiritual muito maior: a humanidade vem destruindo o pulmão do universo e veio então um vírus que destrói o pulmão da humanidade. Isso é muito significativo. A gente tem que prestar atenção nisso, está nas nossas mãos, não está nas mãos de fulano ou sicrano.

    Nelson Motta: paixão, generosidade e sorte

    Play Episode Listen Later Nov 13, 2020

    Ele mede tudo pela intensidade, responde ao ódio com humor e tomou como receita de vida a lição do pai: "Quem recebeu mais tem que dar mais" Nelson Motta viu nascer a bossa nova, teve João Gilberto como mestre e amigo e circulou com Nelson Rodrigues, Vinicius de Moraes e Elis Regina, entre outros grandes nomes da música e da literatura brasileira. Jornalista, produtor musical, escritor e compositor, criou canções de sucesso com Lulu Santos, Guilherme Arantes e Rita Lee, revelou a cantora Marisa Monte e produziu trabalhos de Daniela Mercury, Gal Costa e Tim Maia, de quem também foi amigo e biógrafo. Aos 76 anos, Nelson acaba de lançar sua biografia, De Cu Pra Lua, que narra uma jornada que se mistura à história da cultura brasileira dos últimos 50 anos. "A sorte não tem moral ou ética, não respeita mérito, é totalmente aleatória. O que você faz com ela é o que justifica, é uma retribuição por tê-la recebido", diz. Em conversa com a Trip, ele fala dos privilégios que o ajudaram a construir uma trajetória brilhante e o desejo de, antes de ser rico ou poderoso, ser livre e de alguma forma compartilhar com o mundo o que a sorte lhe trouxe. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5faeb938e0101/nelson-motta-bossa-nova-cultura-musica-jornalista-trip-fm-m6.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Nelson Motta, jornalista, compositor e escritor, com os músicos Dory Caymmi e Marcos Valle] Trip. Estive uma vez almoçando na casa dos seus pais num sábado ou num domingo. Foi um privilégio enorme conhecer o Doutor Nelson e a Dona Xixa e, principalmente, ver o clima que tinha naquela casa. Confesso, fiquei encantado. Uma mistura de afeto familiar com cultura de todas as gerações, era quase uma jam session de talentos. Nelson Motta. Eles eram muito agregadores, meu pai e minha mãe. Gostavam daquilo, e as pessoas iam se agregando na família. Eu quase casei com a Helena Gastal, hoje figurinista famosa da Globo, e ia com a Heleninha lá. Depois acabamos não casando, ela se casou com outra pessoa, e passou a levar ele lá para casa. Quando se separaram ele se casou com uma outra, que passou a estar na casa então. Não se sabia quem tinha sido casado com quem, era um clima de grande harmonia, e minha mãe ficava louca, né? Tinha dias que eram dez pessoas e tinha dias que eram vinte, de repente. Meu pai era pra mim o exemplo da generosidade, da tolerância. Ele que me educou nas horas que eu ficava enlouquecido, querendo chupar o sangue do mundo, e sempre me acalmava e me recomendava a não brigar, a fazer um acordo. Era um advogado humanista, essa era a sua combinação vitoriosa. Meu livro está cheio máximas do meu pai, coisas fantásticas. Ele falava: "Quem recebeu mais tem que dar mais". Ele falava isso para mim e para minhas irmãs, que nós tínhamos recebido essa sorte, casa bonita, comida gostosa, maior moleza, e tínhamos que dar mais. E acabou sendo uma ótima receita de vida. Outra máxima dele era: "Quem dá ganha mais do que quem recebe". Posso dar meu testemunho oficial: sempre agi assim na minha vida e sempre sempre me dei bem. Não pode ser uma coisa demagógica, uma coisa para uso externo. É uma coisa de você para você mesmo, que de uma forma ou de outra te fortalece, te anima, te alegra no fundo.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5faeb96b52ec5/nelson-motta-bossa-nova-cultura-musica-jornalista-trip-fm-m5.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Nelson Motta, jornalista, compositor e escritor, com a cantora Clara Nunes] Em dado momento seu pai largou o que seria a vocação dele, que era o jornalismo, e foi para a advocacia. Meu pai também precisou largar a medicina porque o pai dele o chamou para ajudar na fábrica, e ele foi se formar em Direito. Essa coisa da pessoa ir atrás do dinheiro e deixar a vocação é um negócio que me pegou muito. Em algum momento você acha que o seu pai foi infeliz por ter feito essa escolha? Não. No jornalismo naquela época, anos 40, a vida era muito dura. Ele ainda me sustentou como jornalista pelo menos durante meus dois primeiros anos. E ele escrevia maravilhosamente bem, o que acabou o ajudando muito como advogado. Isso já veio para mim de fábrica. O jornalismo tinha mais emoção para ele porque a família era de políticos, e ele foi editor de política com 22, 23 anos. Aquela paixão, aquela sensação de estar interferindo na história. Mas eu sempre o vi muito feliz com a advocacia, sem reclamar. O meu, com o perdão da palavra, sucesso como jornalista, foi dele. Ele desfrutou muito disso, tanto quanto se fosse ele mesmo, talvez até mais, de me ver realizando o sonho dele. E do lado da minha mãe também, ela sempre adorou a música, era compositora e recebia músicas do além. Eu cheguei a concorrer em festivais com ela. E de novo, com o perdão da palavra, o meu sucesso como compositor vingou as frustrações dela como compositora. Ela era quem mais vibrava com o sucesso das minhas músicas. E ela era uma figuraça, amiga íntima de gente tipo Cazuza, Neusinha Brizola, Ezequiel Neves. Ela era tarja preta, e eles adoravam ela. Ficavam tocando piano ali a tarde inteira. Cazuza foi até mais próximo dela do que de mim. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5faeba6b98400/nelson-motta-bossa-nova-cultura-musica-jornalista-trip-fm-m8.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Nelson Motta, jornalista, compositor e escritor, com a cantora Elis Regina] É como se a sua vida fosse a vida que seria legal que todo mundo pudesse ter, né? Uma família estruturada, que tem uma certa grana, um conforto. Você conseguiu fazer viagens internacionais, uma coisa que na época era pouco comum, ainda garotinho embarcou num navio para ir para a Europa. E você narra essa experiência de chegar lá com um guia te mostrando cidades européias, te mostrando Roma. Foi a minha universidade, que meu pai nos deu de presente. Foram quase dois meses viajando pela Europa e, cada lugar que íamos, às oito da manhã estava todo mundo com o guia. Tinha que ir nos monumentos todos. A gente aprendeu de história e arte nessa viagem, realmente o melhor presente que o dinheiro podia comprar. Tem uma frase, acho que do Warren Buffett, que alguém teria perguntado para ele se ele se considerava um cara de sorte, e ele respondeu: "Quanto mais eu trabalho, mais sorte eu tenho". Tenho a impressão de que você trabalhou loucamente, mesmo que em alguns momentos você nem estivesse percebendo aquilo como trabalho. Porque se fechar num lugar para produzir Elis Regina, por exemplo, não dá para imaginar que isso seja exatamente um sofrimento. Eu pagaria para fazer isso. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5faeba99ce96d/nelson-motta-bossa-nova-cultura-musica-jornalista-trip-fm-m7.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Nelson Motta, jornalista, compositor e escritor, na juventude com seu professor Zuenir Ventura] [QUOTE=1136] É muito interessante ver o que você fez com esse privilégio. Você deu um jeito de espalhar ele por aí em forma de músicas, de peças de teatro, de textos, de reportagens, de colunas em jornais. Como é que se converte privilégios em coisas que são socialmente úteis? O ponto de partida desse livro foi um estudo sobre a sorte. Por que há sorte para uns e para outros não? Por que tem num momento e não tem no outro? E a sorte não tem moral ou ética, não respeita mérito, é totalmente aleatória e vai para bandidos, torturadores, como vai para gente boa. Eu pensei tanto nisso que imaginei uma espécie de uma ética da sorte: a sorte que você recebeu, que caiu do céu e você nem sabe o porquê, o que você faz com isso? O que você faz com a sorte é o que justifica, é uma retribuição por tê-la recebido. Por outro lado, desde o meu início no jornalismo, no Última Hora, meu rumo era "curtir e compartilhar". Era o que eu fazia. E dizia: "Eu jamais vou perder um amigo por causa de uma notícia". Me dei bem, ninguém teve notícias melhores do que eu desses personagens da música brasileira porque eu respeitava a privacidade deles, sabia até onde podia ir, e isso facilitou muito a minha vida. LEIA TAMBÉM: "Antes da música não me sentia parte do mundo", diz Marcelo D2 Dá a impressão que você viveu umas oito vidas. Viu o aflorar da bossa nova, trabalhou com o Samuel Wainer, produziu a Elis Regina, foi uma espécie de confidente, parceiro e depois biógrafo do Tim Maia. E não é que você bateu um papo com eles um dia, você teve uma relação com essas pessoas. Eu aprendi muito com eles, muitos deles foram meus mestres. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5faebac1636ec/1023x1023x960x960x30x29/nelson-motta-bossa-nova-cultura-musica-jornalista-trip-fm-m1.jpg; CREDITS=Reprodução; LEGEND=Nelson Motta na capa da revista Trip #213 em 2012] [QUOTE=1135] É muito difícil ver alguém conseguir navegar bem por praias tão diferentes. Ao que você atribui essa sua habilidade? Eu acho que o meu temperamento é cordial naturalmente, e isso ajudou bastante. Eu também não julgo meus amigos, nem as pessoas, por isso ou aquilo. Ou aceito as pessoas pelo que elas são ou não aceito, não sou obrigado. Assim como meu pai, eu gosto de calor humano, de amizades. Tive vários casamentos e romances na minha vida, tenho essa coisa emocional muito forte, e a emoção sempre une as pessoas. Eu escrevo e faço peças de teatro para emocionar as pessoas. Ou para fazer rir também. Eu amo e sou gratíssimo a todos os comediantes, mesmo os mais vagabundos, porque eles fazem rir. E, especialmente no tempo que a gente está vivendo, alguém que faz você rir merece tudo. O maior inimigo do ódio não é o ódio, é o humor, o ridículo, a desmoralização. Se você ficar xingando de volta, não vai a lugar nenhum. Mas se você revela o ridículo daquela pessoa ou daquela situação, é uma arma poderosíssima. LEIA TAMBÉM: Pelé: racismo e esquecimento marcam os 80 anos do jogador Uma das coisas legais da sua história é que, apesar de você estar sempre pensando "como é que vou fazer para arrumar uma grana?", a grana não é o seu motivador nunca. Não é atrás dela que você corre, embora ela acabe correndo atrás de você em algumas situações. Como foi a sua relação com o dinheiro ao longo da vida? Eu adoro uma frase do Nizan [Guanaes, empresário]. Ele falou que dinheiro não traz felicidade, felicidade é que traz dinheiro. Eu achei perfeito. Como dizia meu pai: "Dinheiro não se ganha, se arranca". Então eu arranquei dinheiro para criar minhas filhas, para sustentar a minha vida toda, mas eu nunca lutei por dinheiro e por poder. Nunca tive a ambição de ser um milionário ou poderoso, eu sempre lutei por independência e liberdade. Você falou que parece que eu vivi oito vidas, e é verdade. Eu aprendi com o meu analista, que foi analisado pelo próprio Lacan, o conceito do tempo lógico em oposição ao tempo cronológico. O tempo cronológico é o relógio, o calendário, não é nada, é uma convenção. O tempo lógico é medido pela intensidade – tanto que tem sessões de psicanalistas lacanianos que podem levar 10 minutos e outras que podem levar 30 ou 40. Se em 10 minutos você já disse tudo o que era importante, o cara tem que cortar. Eu estendi esse conceito do tempo lógico para toda a minha vida. Eu meço as coisas pela intensidade. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5faebc0c5c534/nelson-motta-bossa-nova-cultura-musica-jornalista-trip-fm-mh3.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Nelson Motta, o músico João Gilberto, a cantora Elba Ramalho e o apresentador Amaury Jr.] Me lembrei de uma passagem do seu livro em que você conversa com o seu pai e ele, meio doente, teria dito: "Chegar à velhice é uma merda". E você respondeu: "Mas não chegar é pior". Foi meu último diálogo com ele. [QUOTE=1137] Você acaba de completar 76 anos. Como é que está sendo essa fase da sua vida? O que tem de legal é essa experiência, que não tem preço. Ainda mais uma pessoa que teve as experiências que eu tive. Eu tenho dentro de mim um tesouro incalculável de memória, de aprendizado, de experiências. Tudo isso eu preservo e, mesmo sendo um maconheiro histórico, tenho uma memória espetacular. Eu vivo da minha memória, na verdade. Então eu vejo uma certa serenidade na velhice. Eu brinco que a minha geração foi privilegiada porque, na juventude, teve a pílula anticoncepcional, que foi o estouro da boiada. Depois, na maturidade, o Viagra: a salvação da lavoura. E, na velhice, o Google, que lembra tudo o que a sua memória não lembra. Como dizia João Gilberto, o meu swing é todo daqui pra cima. LEIA TAMBÉM: Tito Rosemberg, um aventureiro incansável Em 36 anos de Trip FM, você já esteve no programa 4 vezes. Em uma delas, há uns 25 anos, eu te falei: "Porra, Nelsinho, todo mundo só fala bem de você e suas histórias sempre dão certo. Você produz o disco que vende, escreve livro que é best-seller, tudo dá certo. Eu quero saber de fracasso". E você me contou de uma broxada, nem isso, uma fuga de uma mulher que queria te engolir. Como não dá pra você relembrar suas milhares de histórias, poderia relembrar essa aí? Foi uma mancada com uma famosa promoter? Exatamente! A mulher era muito grande, muito forte. Ainda bem que nós éramos amigos ali, não havia nenhuma intenção outra. E foi também num péssimo tempo da cocaína. Como dizia o Júlio Barroso, da Gang 90: "Tem que escolher: ou pó ou pau". É mais uma advertência a vocês. Mas tem uma outra história bem engraçada com a minha amiga Darlene Glória. Ela era um colosso de mulher, uma deusa, tinha feito "Toda Nudez Será Castigada". E eu já estava ficando conhecido na televisão, conhecendo artistas. Ela começou a mexer no meu pé, na minha mão, com aquela voz, aquele olhão azul. Com 30 anos eu fiquei completamente transtornado. Mas tinha um porém: ela namorava o Mariel Mariscot, do esquadrão da morte. Ela falou: "Vamos na minha casa, que é aqui perto no Leme?". E a única pergunta que interessava não foi feita: "E o Mariel?". Então eu fui lá na casa da Darlene correndo, e não foi uma broxada, mas foi uma ejaculação precocíssima. O medo venceu o tesão. Foi ótimo. LEIA TAMBÉM: Meu nome é ébano: a vida e a obra de Luiz Melodia [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/11/5faebb1cd5f62/930x930x960x960x-14x-14/nelson-motta-bossa-nova-cultura-musica-jornalista-trip-fm-m4.jpg; CREDITS=Hugo Cecatto; LEGEND=Nelson Motta] [QUOTE=1138] Uma coisa que poucos artistas conseguem é, através de um trabalho que não tem a pretensão de ser popular, virar popular. Isso é bem difícil e você parece que conseguiu. Quando a canção está pronta ela não te pertence mais, entendeu? Ela está na boca do povo. Cada um usa a canção do seu jeito. O cara tá triste, ouve ali Como uma onda, "tudo passa, tudo sempre passará", dá uma animada. O cara tá numa felicidade total, vem como advertência: cuidado, "tudo passa, tudo sempre...". A durabilidade de algumas letras minhas é porque elas servem para várias situações. Uma das maiores emoções que eu tive com a música foi em 78, quando estourou com As Frenéticas um mega hit no fim do ano, "Perigosa, bonita e gostosa", parceria com a Rita Lee e o Roberto de Carvalho. "Vou fazer você ficar louco, muito louco, dentro de mim". Era genial isso. Invenção da Rita. A música estourou no Brasil inteiro e eu fui passar o Carnaval na Bahia. Ver aquela Praça Castro Alves, aquela multidão, o trio elétrico e aquelas pessoas cantando "eu sei que eu sou bonita e gostosa". Todo mundo foi bonita e gostosa naquele carnaval, eu quase chorei de emoção. As pessoas se apossando da música e usando a música para exprimir os seus sentimentos: essa é a maior alegria do compositor.

    Tainá Müller: coragem, sucesso e insônia

    Play Episode Listen Later Oct 30, 2020

    A atriz fala sobre casamento, ansiedade na pandemia e a personagem em "Bom dia, Verônica" que lhe tirou o sono Uma policial obstinada em capturar dois criminosos em série que atacam mulheres – essa é Verônica, personagem que está tirando o fôlego de muitos espectadores e também tirou o sono da atriz que a interpreta, a gaúcha Tainá Müller. Lançada neste mês pela Netflix, a série Bom dia, Verônica é um suspense que levanta um debate importante sobre a violência a qual as mulheres estão expostas no Brasil. A questão já sensibilizava Tainá muito antes da série: “O machismo nada mais é do que ver a mulher como um objeto. Os homens se sentem à vontade para avançar sobre esses corpos sem autorização porque não é um sujeito, é um pedaço de carne”. Antes de entrar na pele de Verônica, Tainá encarou o cotidiano de uma Delegacia de Homicídios no Rio de Janeiro e pôde ver de perto a rotina de mulheres comprometidas em solucionar crimes apesar das situações adversas no ambiente de trabalho. No papo com a Trip, ela fala sobre machismo – dentro e fora das delegacias – e os efeitos da pandemia em sua ansiedade e no casamento. "A pessoa com quem você quarentenou é com quem você tem coisas profundas para resgatar ou resolver: ou vai ou racha", diz. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f9b2baacfe2c/983x983x960x960x11x11/taina-muller-atriz-netflix-trip-fm-mq4.jpg; CREDITS=Gustavo Zylbersztajn; LEGEND=Tainá Müller] Trip. Bom Dia, Verônica é uma série que tem sido muito elogiada. Além de uma história legal e papéis bem trabalhados, o que é necessário para um trabalho rolar bem como está sendo com esta série? Tainá Müller. É um encontro ou uma sincronicidade incrível quando um trabalho acontece como Bom dia, Verônica. O Zé Henrique Fonseca [diretor] tem um bom gosto e me deu uma confiança. Quando você confia no gosto da pessoa, quando você vê que tem uma sintonia e afinidade estética, você se sente mais à vontade. E ele inventava umas coisas na hora. Por exemplo, a cena do banho de sangue, que foi uma coisa que ele teve a ideia dois dias antes, não estava no roteiro, mas eu me senti tão à vontade para me jogar ali, confiei tanto nele, no seu olhar, que fui. Acho que intuitivamente todo mundo sabia que estava falando de algo muito importante, que merecia muita seriedade, muita entrega e muito axé para a gente fazer aquilo, para fazer aquela energia girar mesmo. E foi o que aconteceu. A série trata de assuntos pesadíssimos, se a gente entrasse total naquele dark a gente não sobreviveria a um set de quatro meses. Porque a gente não está falando de um longa-metragem que se encerra em seis semanas, é uma série de oito episódios. Era muito engraçado que fazíamos uma cena muito pesada, mas imediatamente depois do "corta" se instaurava uma certa leveza. Eu acho que o Zé Henrique tem isso, é um excelente piadista, muito inteligente, rápido no raciocínio, engraçado. Eu fazia a cena e depois eu estava rindo. Acho que foi esse o segredo da nossa sobrevivência para conseguir ter o punch de correr essa maratona. LEIA TAMBÉM: Ilana Casoy, a caçadora de mentes criminosas Para interpretar a Verônica você fez uma preparação em uma Delegacia de Polícia no Rio de Janeiro. Como foi essa experiência? Eu fui guiada por um preparador zero autoritário – pelo contrário, um doce –, que é o Sérgio Pena. A proposta dele foi muito legal porque foi bem dinâmica. Ele levava às vezes um dançarino no ensaio e a gente tinha um dia inteiro só de improvisação, uma coisa mais física. Ele levou uma cantora e a gente cantou uma música que tinha a ver com o espírito da Verônica. A gente ia para a beira da praia e eu escrevia como se eu fosse a Verônica, ele me filmava, e eu ficava ali tentando entender a psique dessa personagem. E ele também me acompanhou nessa Delegacia de Homicídios no Rio. Não preciso nem dizer que Delegacia de Homicídios de cidades como o Rio de Janeiro são barra pesadíssima. Foram momentos perturbadores, eu não conseguia dormir à noite nesse período, entrei em contato com crimes verdadeiros. Eu queria saber como é que se analisa uma cena de crime, como é que você interroga uma pessoa e tira uma informação que ela não quer dar, as coisas bem básicas. Acho que eu tinha que ter essa vivência pra fazer uma policial. Ali eu encontrei peritas, escrivãs, investigadoras. É importante dizer que tem a coisa da corrupção sistêmica, mas a gente não pode também generalizar. Eu conheci pessoas muito vocacionadas ali, porque a situação delas é precaríssima. Teve um dia que a escrivã cujo trabalho eu estava acompanhando disse: "Hoje eu não estou bem, estou com cólica". É muito difícil trabalhar com cólica, seja fazendo cena, no escritório ou ali na polícia. E entra o chefe dela e fala: "Amanhã tem operação às seis da manhã". Caramba, uma cólica e você pegar num fuzil, ir pra guerra... Quanto você tem que ganhar em troca disso? E elas não ganham, a viatura não tem ar condicionado, na delegacia falta tudo. É uma situação precária e tem muita gente ali que está afim de trabalhar, porque tem um certo idealismo, assim como a Verônica tem. Eu colei muito nas mulheres lá e elas cortam dobrado, porque é um ambiente ainda muito masculino. LEIA TAMBÉM: Denice Santiago, a major a frente da Ronda Maria da Penha [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f9b2bc9114ff/1007x1007x960x960x23x23/taina-muller-atriz-netflix-trip-fm-mq1.jpg; CREDITS=Victor Affaro / Editora TRIP; LEGEND=Tainá Müller na capa da revista TPM #106 (2011)] Em 2013 você participou de uma edição da Revista Tpm sobre violência sexual. Nessa matéria você dizia: "Quanto mais exaltada a mulher é na sua beleza, na sua sensualidade, menos respeitada ela parece ser". Você já sentiu isso na pele? Sim. Não gosto de usar a palavra preconceito. Preconceito é uma coisa muito mais barra pesada do que isso. Mas acho que existe uma ideia de que a mulher não pode ocupar tanto os espaços de poder. Tendo em vista que a beleza é um poder nessa sociedade, ela não pode ser bonita e inteligente ao mesmo tempo, sabe? Vejo muito isso com Gabriela Prioli, por exemplo, porque ela é linda, se veste bem, é vaidosa, e aí ela não pode ser mestra em Direito? Eu vejo um certo desdém com uma mulher que agrega tantos valores assim. O machismo nada mais é do que ver a mulher como um objeto e não como sujeito, ver um pedaço de carne. Tanto é que os homens se sentem à vontade para avançar sobre os corpos dessas mulheres sem autorização. Porque não é um sujeito, não é a Maria, a Carolina, a Fernanda, é um pedaço de carne. A sociedade patriarcal fez isso com a mulher durante a história. Se você estudar, as mulheres sempre foram editadas para fora da história, é como se não interessassem. E aí a gente tem a ideia de que só os homens pensaram, só os homens que criaram os grandes feitos científicos, matemáticos e filosóficos da humanidade. Existiram muitas mulheres pensantes nessa história toda, mas que foram editadas para fora dela. Por exemplo a Safo, que é considerada uma poeta, mais do que uma filósofa, e que pensou a condição de gênero lá na Antiguidade. Mas quando a gente pensa em filósofos, pensamos em Platão, Sócrates e Aristóteles. A Safo nunca entra. Eu acho que quando a mulher tem esse atributo da beleza existe um certo olhar: "Ela já é um objeto de atração, e ela ainda pensa. Que estranho isso, né?" Em 2018 você esteve com o seu marido, Henrique, na Casa Tpm falando sobre relacionamentos. Durante o isolamento social na pandemia certas dimensões dos relacionamentos afloraram. Como é que tem sido pra você lidar com o casamento e a vida em família na quarentena? Foram altos e baixos emocionais. Nos cinco primeiros meses da pandemia a gente não foi nem ao supermercado, ficamos só os três isoladaços. Eu tive muito pânico pelo Henrique porque ele é muito asmático, então eu tinha uma coisa assim: "Eu não posso pegar esse negócio de jeito nenhum". Uma hora a gente começou a flexibilizar mais a vida, com cuidados. Tiveram momentos de ansiedade, a gente ter que se encarar assim, a família. Mas ao mesmo tempo eu vi como uma oportunidade também. Eu acho que a gente está vivendo uma purga planetária de verdade e com quem você quarentenou é com quem você tem coisas profundas para resgatar ou resolver: ou vai ou racha. Eu encarei isso assim. E agora a gente deu uma amadurecida como casal muito legal, estamos numa super conexão. Eu estou há oito anos com ele. Todo mundo que é casado há bastante tempo sabe que são fases e fases, e a gente está numa fase boa agora. Mas é uma construção diária, é você escolher todos os dias aquela pessoa, você se questionar: "É isso eu quero? então vamos lá." LEIA TAMBÉM: Sexo e quarentena [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f9b2c39911a2/1007x1007x960x960x23x38/taina-muller-atriz-netflix-trip-fm-mq2.jpg; CREDITS=Pablo Saborido / TRIP Editora; LEGEND=Tainá Müller, atriz, participou do debate "O futuro dos relacionamentos", que rolou na Casa Tpm, em 2018] Em 2010 você escreveu na TPM sobre a sua prática de meditação. Foi antes de existirem coisas tipo aplicativos de mindfulness, que você liga no meio da rua e te ajudam a meditar. Eu já vi médicos respeitados dizerem no passado que meditação era uma bobagem e hoje existem estudos que comprovam seus efeitos terapêuticos. Mas eu queria que você contasse um pouco da sua relação com essa ferramenta. O que tenho a dizer sobre meditação é que essa noite, especificamente, eu perdi o sono às três da manhã. Eu não dormia mais e sentei, tentei meditar e não consegui. Falhei miseravelmente na minha tentativa de meditar. Sou muito esponja do mundo e o lançamento da Verônica, muitas demandas, ter uma criança em casa sem escola: estou numa fase um pouco ansiosa da minha vida. Mas eu acho que meditação é a academia do cérebro. Tenho certeza de que eu não consegui meditar porque faz tempo que eu não medito. É que nem você passar cinco meses sedentário e ir se jogar na academia achando que vai performar como um atleta. Não vai. É um exercício. Realmente você tem que se colocar diariamente naquela frequência para cada vez meditar melhor. E no momento que você para, você perde.  E da época que você escreveu essa experiência para cá você deixou de praticar? Eu fiquei dois anos meditando disciplinadamente duas vezes por dia. Isso mudou a minha vida de verdade. Acho que foi a primeira abertura de consciência que eu tive, seja lá o que isso quer dizer. Mas depois eu paro, esse que é o problema. É tipo academia, tem que ficar para sempre. Eu sou meio indisciplinada, geminiana. Vem um trabalho, já não medito. E depois que eu tive filho ficou muito difícil de meditar. O Martim é quem me acorda de manhã, e eu gostava de meditar quando acordava. Ontem eu pensei: "Cara, eu preciso voltar, e voltar seriamente, para quando eu precisar eu ter essa ferramenta". LEIA TAMBÉM: Meditação para tempos brutos [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f9b2c8dbb92e/1007x1007x960x960x23x23/taina-muller-atriz-netflix-trip-fm-mq3.jpg; CREDITS=Ludovic Carème / Acervo TRIP; LEGEND=Tainá Müller na capa da revista TPM #67 (2007)] Tem uma história que você sai do Rio Grande do Sul, mas o Rio Grande do Sul não sai de você, né? Como é para você voltar para lá hoje? O que você sente? É engraçado porque essa sempre vai ser a minha casa. Uma vez gaúcho, gaúcho para sempre. A nossa cultura é muito forte em todos os sentidos. Eu morei na China e lá eu frequentava uma churrascaria onde os chineses estavam vestidos de gaúchos. Eu fiz até uma matéria para o Zero Hora sobre essa churrascaria. O gaúcho meio que se encontra em comunidades no mundo inteiro, é muito engraçado. Mas no Rio de Janeiro eu não tinha uma comunidade de gaúchos, e isso me fez muita falta. O gaúcho que vai para o Rio de Janeiro gosta do surfe, e eu não sou uma pessoa do surfe. Eu sabia que tinha a galera do chimarrão na praia, mas eu também não gosto muito de praia urbana. E aí São Paulo tem uma super comunidade, e há anos eu me sinto em casa aqui. A gauchada se acolhe, se recebe, volta e meia tem um churrasco na casa de alguém. Eu acho que a gente tem uma coisa do povo guerreiro, a galera que não se entrega, está na nossa alma. Meu pai é um gauchão típico, gesticula muito para falar e conta seus feitos, suas vitórias e fala: "Vocês são netas de Maragato". Ele teve três meninas, mas ele sempre nos criou para a pelea [luta], "morrer peleando". É um pouco esse o ímpeto do gaúcho, de realmente desbravar, de ter coragem. A coragem é uma virtude muito valorizada no Rio Grande do Sul e eu me identifico. Na hora de fazer a Verônica por exemplo, vem a gaúcha para mim. Eu posso não falar com sotaque na série, mas acho a Verônica bem mulher dos pampas.

    Tito Rosemberg: Sou um realizador dos meus sonhos

    Play Episode Listen Later Oct 23, 2020

    Aos 74 anos, o surfista e fotógrafo que rodou o mundo e chegou a morar dentro de uma canoa na Amazônia conta como encara a velhice Tito já esteve em mais de 100 países, espalhados pelos 5 continentes. Atravessou desertos, florestas, montanhas e morou dentro de alguns veículos, de Kombis a barcos. Ao 74 anos, ele viveu várias vidas em uma, tendo assumido as mais diversas profissões para possibilitar o estilo de vida itinerante: foi jornalista, fotógrafo, shaper, lavador de pratos e carpinteiro. Quando se instalou na Amazônia, morou em uma canoa e produziu reportagens para o programa Globo Ecologia, mas, mais do que ambições profissionais, a vontade de Tito sempre foi desfrutar e contemplar a natureza: "Trabalho para justificar estar tendo tanto prazer em ver". Responsável por registros fotográficos únicos do começo da cena do surf nacional, reunidos no livro Arpoador Surf Club, Tito mantém o espírito aventureiro que o levou a pegar ondas ao redor do mundo, mas lamenta que o corpo não sustente o mesmo pique. "A gente vai ficando decrépito, é natural da vida", diz. Em conversa com a Trip ele fala sobre a sua trajetória múltipla, trabalho, envelhecimento e o amor dentro de seu estilo de vida peculiar. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f933fe8d9efa/tito-rosemberg-tripfm-m1.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Tito Rosemberg no Arpoador, no Rio de Janeiro, em 1968] Trip. Carlos Probst, que foi seu companheiro no rali Camel Trophy, certa vez disse sobre você: "Para muita gente a vida é um arco-íris com um pote de ouro no final, e as pessoas ficam na correria para chegar nesse pote. O Tito é o cara que fica curtindo o arco-íris". Você se vê assim, como alguém que entendeu que a jornada é muito mais interessante do que o destino?  Tito Rosemberg. Isso é meio clichê, mas é verdade. É um clichê que incorporei talvez de tanto ter lido Sidarta [livro de Hermann Hesse] quando garoto, que é um livro sobre a vida, sobre partir, viajar, viver o presente e diversas coisas. Sidarta foi barqueiro, foi contador, foi amante da rainha. Ele teve uma vida enorme e variada. Eu soube logo, desde garoto, que a minha vida seria diferente. Eu pegava onda no Arpoador com aquela classe média, burguesa, da zona sul, mas, ao contrário da maioria, eu era politicamente engajado. O mesmo jipe que de manhã levava a prancha para o Arpoador para pegar onda, à tarde levou o corpo do Edson Luís, aquele estudante que foi assassinado, do velório na Câmara dos Deputados até o Cemitério São João Batista, pois o pessoal da área política da UNE tinha me pedido para carregar o caixão dele. Eu sempre transitei, pegava onda e fazia teatro com um grupo bem progressista da época. Gostava dessa vida eclética, dessa troca de coisas. Quando você pensa que eu sou surfista, eu sou ator. Quando você pensa que eu sou ator, eu sou ativista político. Quando você pensa que eu sou ativista político, eu sou um alienado de mochila viajando. Eu gosto de estar em todos os mundos, sempre fui muito antenado e isso só me trouxe prazer. Dalai Lama diz que o homem trabalha a vida inteira para conseguir o dinheiro para pagar pela medicina que vai curar ele quando estiver velho. Eu nunca tinha lido o Dalai Lama, mas eu já pensava isso. É uma coisa existencialista. Quando eu era garoto tentava entender o Sartre, o Camus, era metido a Beatnik no Arpoador, ficava nas pedras usando um correntão grandão no pescoço. Gostava dessa vida natural, na praia, mas ao mesmo tempo meio deprê, meio intelectual, e cresci nesse meio de campo. Nunca fui intelectual e também nunca fui deslumbrado. Uma das grandes tristezas que eu tenho é de ter sido parte do movimento hippie sem ter sido hippie, porque eu não consigo me enquadrar em nenhum time, nenhum clube, nenhuma tribo ou nenhuma seita. Eu sou ateu, não tenho religião, mas eu tenho todas as religiões. E não tenho também nenhuma profissão, mas me orgulho de ter tido tantas profissões, de um dia ter sido a pessoa de comunicações sociais e relações internacionais da Funai, e no outro morar numa Kombi na Califórnia pegando onda. Para mim, tudo igual. Não consegui nunca descobrir quem eu era e, felizmente, continuo ainda buscando. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f93401ce3e38/tito-rosemberg-tripfm-m2.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Em 1970, Tito Rosemberg posa em Serra Nevada, cordilheira da Califórnia, nos Estados Unidos] LEIA TAMBÉM: Como um grupo de amigos transformou a Prainha no maior santuário para o surf no RJ A sua ligação com o mar parece ter um peso na sua história, seja como banhista, como surfista ou como fotógrafo. E hoje você vê o mar da janela da sua casa, no Rio Grande do Norte. Você sente uma necessidade de estar perto do mar? Eu tenho essa fixação no mar desde criança. Nasci na Urca e meu irmão mais velho era muito doente quando garoto, minha mãe ia cuidar dele no hospital todo dia. De manhã cedo ela me deixava com um cacho de bananas junto com os salva-vidas da praia da Urca e eu ficava naquela praia maravilhosa – sem poluição naquela época – até ela voltar do hospital à tarde. Os salva-vidas me davam água e eu comia banana e ficava brincando na areia da praia com dois anos de idade. Isso é uma coisa que influencia muito o caráter, a personalidade, a alma de uma pessoa. Depois a minha família se mudou para Copacabana, a um quarteirão do mar, e eu vivia na praia. Com sete anos eu entrava dentro d'água ajudando os salva-vidas – porque eu ficava lá levando papo, metido a machão sentado com eles no posto, que era uma barraca na praia – e, quando tinha alguém se afogando, eles saiam correndo e eu ia atrás. Mais tarde na vida eu salvei muitas pessoas e é uma coisa estranha que eu poderia dizer: que o mar já tentou levar diversas pessoas e eu consegui tirar, talvez eu tenha essa dívida com ele. Minha mãe me falou várias vezes que eu ia morrer no mar. Espero que não seja, porque se afogar deve ser uma morte horrível, mas ela dizia que eu ia morrer no mar de tanto que eu me expunha às ondas. Quando garoto eu pegava onda grande. Depois eu fiquei mais inteligente, comecei a pegar ondas menores, e me diverti muito com isso. E velejei muito, levei um barco do Rio até Punta del Este, sem motor. Tive o meu próprio veleiro, um de 27 pés na Baía de Guanabara, e viajava dez vezes mais longe do que era permitido pela Marinha. Também tive um barco emprestado durante três anos na Baía da Ilha Grande, de 42 pés. Velejei muito na Europa com amigos. A vela também me seduz muito.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f93403d7d0b8/tito-rosemberg-tripfm-m3.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Tito Rosemberg em viagem ao Deserto do Saara, na Argélia, em 1988] LEIA TAMBÉM: Para Amyr Klink, a quarentena provocará uma mudança de valores Quando eu fui morar na Amazônia descobri que esse fascínio que eu tinha não era pelo mar, era pela água, pelos grandes corpos de água. Eu entrei num êxtase ao ver aquela quantidade de água, o Rio Amazonas gigantesco, o Rio Negro, você vê a outra margem tão longe, quando vê. Ali eu me senti muito integrado. Comprei uma canoa de seis metros, pequenininha, fiz um tetinho nela e passei quase dois anos viajando pelo Rio Negro, fazendo matérias para o Globo Ecologia, mas, para dizer o certo, bundando muito. O que eu mais gosto de fazer é bundar, ficar passeando, curtir, ver as coisas. Eu sou um voyer da natureza, adoro ficar olhando, então trabalho para justificar estar tendo tanto prazer em ver. E a natureza na Amazônia me seduziu, eu fiquei totalmente enlouquecido. Saía viajando na canoa e quando chegava à noite eu parava na margem, entrava no Igarapé, amarrava a canoa numa árvore e dormia tranquilamente. Eu botava o mosquiteiro, dormia a dez centímetros da água e os peixes boi vinham, chegavam bem perto, os botos. Tive a oportunidade de viver uma vida paradisíaca. Mas com sofrimentos. Não vamos dizer também que tudo é maravilha, porque as dificuldades estão lá. Quando cheguei na Califórnia em 1970 eu comprei uma Kombi e dormia nela, e eu não tinha dinheiro para comprar comida. Passei um inverno inteiro sem pegar onda porque eu não tinha força nem para remar. Aí eu consegui um emprego, consegui me alimentar melhor, voltei a pegar onda. São experiências mágicas e eu me orgulho de todas as merdas que eu fiz, os lugares horríveis que eu me meti, as coisas que eu imaginei que fossem ser maravilhosas e se tornaram a maior furada. Faz parte da vida. Mesmo que dê errado serve de lição para alguma coisa, né? [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f93409c308e7/tito-rosemberg-tripfm-m4.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Tito Rosemberg em visita ao Rio Futaleufú, em meio à cordilheira dos Andes, do Chile, em 2004] Em uma entrevista para a Trip em 1987 você declarou que estava meio decepcionado com as mulheres, meio desiludido. Naquela altura você já tinha vivido dois casamentos, com duas mulheres estrangeiras, uma americana e uma irlandesa. De lá para cá, o que você aprendeu com relação às mulheres? As pessoas, sem um gênero específico, são muito ligadas à imagem, à aparência, a como os outros as veem. Para mim é difícil até encontrar amigo, o que dirá uma companheira. Viajei de Kombi, de moto, de barco, sempre sozinho, e não é que eu não goste de gente. Pelo contrário, eu sou gregário, adoro contar histórias. É porque as pessoas têm dificuldade em me acompanhar. A minha trajetória é peculiar e eu entendo que seja difícil. Por exemplo, eu me apaixonei por uma pessoa que queria dar a volta no mundo. Aí a gente começou a viajar, viajar, viajar, e um dia ela falou: "Não dá para a gente parar um pouco?". Há um processo de amaciamento das pessoas com a idade e isso cria um distanciamento. As pessoas querem uma casa, "vamos ter um lugar", "vamos ter um quintal", "vamos ter um cachorro", sabe? Eu não quero bicho, eu quero viajar. Bicho dá trabalho, é âncora, filho é âncora. Eu nunca tive filho por causa disso. Eu tenho problema com responsabilidade, de ficar responsável por uma criança, ou por um cachorro, um gato. Foi difícil e devo dizer que demorou 69 anos para eu encontrar uma alma gêmea. E encontrei uma mulher de São Paulo, do Tatuapé, que me completou, porque ela chegou e falou: "Não tenho interesse nenhum em ter filho". Quando eu falei que eu adoraria morar num motorhome, ela disse que também adoraria. Uma mulher que não quer ter filhos, que quer casar e morar num motorhome, eu não deixo ir embora tão facilmente, né? Felizmente, depois de um processo de sedução longo e pedregoso, deu certo e nós estamos casados há quatro anos. E nós nos sentimos muito, muito, muito felizes mesmo quando a gente pega o nosso motorhome – finalmente conseguimos comprar um motorhome velhinho na França – e vamos passar três meses no Marrocos, acampando nas montanhas, nas dunas, longe das cidades, longe dos campings, no meio da natureza. E aí você vê que realmente dá certo. Aos 69 anos consegui encontrar uma parceria pela qual estou verdadeiramente apaixonado. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f9340cf5509d/tito-rosemberg-tripfm-m5.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Tito Rosemberg posa no meio do Salar de Uyuni, na Bolívia, na viagem que fez em 2011] LEIA TAMBÉM: Marcello Serpa: de Cannes ao Havaí Você está falando dos 69 anos como um momento importante com esse encontro e me dá vontade de saber mais como é que você está curtindo essa fase da vida. Você está com 74. Como estão sendo as dores e as delícias dessa fase? Olha, eu sei exatamente o que representa ter 74 anos porque, ao contrário de outras pessoas que ficaram velhas pegando onda, eu tive limitações. Com 71, 72 eu tive que botar uma prótese no fêmur. Vai limitando. Agora já estou precisando de uma outra prótese no outro fêmur, da perna direita. A gente vai ficando decrépito, é natural da vida, também não posso querer ter uma vida eterna. Para fazer tudo o que eu quero fazer certamente eu deveria viver até os 150, mas não vai dar. É maravilhosa pero curta. Eu quero morrer velho, mas o mais jovem possível. O meu corpo tem 74 anos mal vividos porque eu sou diabético, tenho hipertensão e insuficiência renal crônica, e eu causei todas estas doenças pela vida que eu tive. Uma pessoa que vive 15 anos dentro de carros e barcos, que tipo de comida pode comer? Pipoca, batata frita de pacote. Como é que você atravessa o Saara? Com uma caixa de salame, porque o salame aguenta calor, aguenta qualquer coisa. Eu digo que eu inventei a dieta microbiótica, só micróbio. E tudo isso que eu comi me fez um puta mal, estou pagando o preço pela vida que eu tive. Mas um dos meus médicos me falou: "Cara, não reclama, os meus outros pacientes estão muito piores do que você e ficaram a vida inteira num escritório". LEIA TAMBÉM: Luiz Mendes pensa sobre a ideia de a velhice ser a melhor idade Eu me lembro que quando garoto eu olhava os adultos, meus tios, parentes, pais dos meus amigos, e todos os homens tinham amantes. Eu dizia: "Eu quero ser diferente, ter amante é uma hipocrisia". Preferia morar sozinho, participar de qualquer tipo de loucura sexual, mas não ter amante, que é muito brega. Eu nunca queria ser brega, minha adolescência toda foi essa: "Não permitais, senhores dos céus, que eu seja brega". Consegui! Lá pelo 50, 60, eu disse: "Porra, estou adulto e não fiquei um canastrão". Agora o desafio é como chegar aos 70, 80, sem ser amargo, azedo, mal humorado, depressivo, como a maioria dos velhos que estão por aí. Porque perderam a vida. Eles abdicaram dos seus sonhos e envelheceram sabendo que vão morrer e não fizeram nada do que queriam. Eu me preocupei em sempre estar com a conta zerada. Se eu morrer hoje, conversando contigo, vou morrer em paz. Pelo menos eu fiz tudo o que eu tive vontade. Tenho muitos projetos, me preocupei em ser um realizador dos meus sonhos. Não consegui realizar uma grande revista, um grande jornal, um grande livro, um grande porra nenhuma, mais vivi a minha arte e a vida. Não consegui ser um grande artista, mas tento viver a vida de forma artística, criativa e talvez por isso eu não tenha me tornado um velho chato, estressado, sempre reclamando. Um dos maiores tesões que eu tenho hoje em dia é quando um cara mais jovem diz: "Dá para chegar com 74 nesse pique?". Eu quero estar quite com a vida todo dia. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f9341176544d/tito-rosemberg-tripfm-m6.jpg; CREDITS=Arquivo pessoal; LEGEND=Em 2019, Tito Rosemberg visitou Merzouga, uma aldeia no meio do Saara Marroquino] Eu recebi aqui no programa o pensador e líder indígena Ailton Krenak e ele comparou a pandemia que estamos vivendo com uma bronca que uma mãe dá nos seus filhos. É como se a Terra fosse a mãe, nós os filhos e a pandemia fosse um alerta, um puxão de orelha que nos faz repensar a forma que estamos vivendo no planeta. Agora muita gente tem perguntado quando é que tudo volta ao normal, mas é o normal que estava levando a gente pro buraco. Qual é a sua visão sobre esse momento? Olha, eu não tenho a menor dúvida de que isso é vingança da natureza. Já está evidenciado que, quanto maior o desmatamento, mais vírus e bactérias e coisas que estão absolutamente organizadas, em vida pacífica na natureza, entrarão em contato conosco. Vários cientistas brasileiros estão avisando que a destruição da Amazônia vai liberar uma quantidade enorme de vírus e bactérias que vivem lá e que estão quietinhos, numa boa, e que virão nos perseguir no futuro. Eu fiquei muito triste que quando começou a quarentena surgiu esta expressão "novo normal". Cara, 74 anos e eu continuo um idiota e inocente, porque eu acreditei em novo normal, em novos paradigmas, "vai mudar tudo", "as empresas todas vão se tocar". Nada disso, vai continuar tudo absolutamente igual! A criação de gado, o desmatamento. As pessoas fazem "segunda-feira sem carne", mas devia ser o oposto, a segunda-feira com carne, e todos os outros dias sem. Porque a pecuária é hoje um dos maiores criminosos do planeta. O Brasil tem mais boi do que gente, deveríamos controlar isso. Eu acho que a Covid-19 era inevitável be outras piores virão. Só não sei se eu ainda vou estar por aqui.

    Teresa Cristina: Eu me reencontrei

    Play Episode Listen Later Oct 16, 2020

    A cantora e sambista viu o alcance de sua voz se multiplicar na quarentena e conta como continua enfrentando o racismo que tanto a silenciou Quando subiu no palco pela primeira vez, Teresa Cristina sentiu muita vergonha. “Achava que em algum momento alguém ia chegar e falar: ‘sai daí, você não pertence a esse lugar’, conta. “O racismo foi me colocando num lugar de silêncio. Eu demorei muito a perceber isso”. Ela experimentou a mesma sensação quando ligou a câmera para fazer uma live no Instagram em meados de março, mas outra vez não desistiu. Sem muitas pretensões, cantando e contando histórias na madrugada, Teresa Cristina viu seus fãs e seu sucesso se multiplicarem. [VIDEO=https://www.youtube.com/embed/oRTe_31oKmY; CREDITS=; LEGEND=; IMAGE=https://img.youtube.com/vi/oRTe_31oKmY/sddefault.jpg] Apelidada de rainha das lives, a sambista já soma mais de 600 horas de transmissão desde o início da quarentena. Ao longo das horas que fica on-line todas as noites de sua casa, no Rio de Janeiro, ela divide a tela com convidados como Xuxa, Lula, Alcione, Caetano Veloso, Gal Costa e Chico Buarque. Aos 52 anos, com mais de duas décadas de carreira e uma dezena de discos gravados, entre eles tributos aos sambistas Cartola e Noel Rosa, Teresa nunca havia conquistado tamanho alcance e reconhecimento – seu primeiro patrocínio foi em uma das lives que transmitiu nos últimos meses. O que isso vai trazer no futuro, ela ainda não sabe. "Espero que, com o fim da pandemia, eu consiga realmente abrir os meus caminhos, aumentar o meu público", diz. "Por enquanto o aumento foi do número de pessoas que me seguem". Recentemente, a exposição a colocou no alvo de grupos de ódio na internet, que fizeram com que a carioca anunciasse uma pausa em suas lives depois de sucessivos ataques à sua conta. Mas ninguém pode parar Teresa Cristina. A seguir, a cantora conversa com a Trip sobre sucesso, música, racismo e pandemia. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f89f4fc9a354/trip-fm-teresa-cristina-retrato-andre-pokan.jpg; CREDITS=André Pokan/Divulgação; LEGEND=] Trip. Você vive na mesma casa que a sua mãe, Dona Hilda. O que ela está achando dessa atividade intensa que você está tendo com as lives, com sua casa virando palco noite após noite? Teresa Cristina. Eu comecei as lives pensando nela. Eu estava muito preocupada com sua saúde mental porque eu observava ela assistindo ao noticiário e ficando muito abalada, triste e calada. Fiquei preocupada mesmo, sabe? Aí eu falei: vou inventar alguma coisa para distrair minha mãe. Então a gente começou a fazer uma live no YouTube chamada "Jovens Lives de Domingo" para ela cantar as músicas que gosta, repertório da Jovem Guarda, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Nelson Golçalves. E aí ela começou a se animar, a separar músicas, a cantar comigo aos domingos. Infelizmente o Brasil é um dos piores lugares para se estar durante essa pandemia. Temos um presidente completamente inconsequente, com atitudes que vão contra a orientação da OMS. As mortes foram crescendo e eu fiquei muito preocupada com o que ia acontecer com a minha família, e aí eu comecei a fazer live também. Quando eu vi eu estava fazendo live todo dia. Para fazer a live eu preciso fazer uma pesquisa, me programar, e isso toma um certo tempo que me faz muito bem. É muito melhor, em vez de ler as atitudes criminosas do ministro do Meio Ambiente ou o que foi que o Bolsonaro fez para encobrir os crimes do filho dele, eu ficar aprendendo sobre a obra do Gilberto Gil, do Caetano Veloso, do Chico Buarque, do Cazuza, do Lulu Santos. Faço pesquisa sobre a negritude, sobre ancestralidade e esse tempo que eu gasto é um tempo que eu estou deixando de ficar triste, de ficar preocupada, de pensar em coisas que não me fazem bem. De algumas notícias eu não consigo escapar, mas a live pra mim tem sido um alento – e que bom que para muitas pessoas também. Um lugar de acolhimento, em que a gente se diverte e fala de coisas belas, da produção cultural do país que não para. Valorizar o trabalho desses artistas que já fizeram muito pelo Brasil, isso que tem ocupado o meu tempo. LEIA TAMBÉM: Fafá de Belém: onde tem holofote eu estou dançando Você acabou construindo uma plataforma de celebração num momento tão doído, tão bagunçado. Nesse período rolou uma empolgação geral com a coisa da live, mas a impressão é que ao longo do tempo o pessoal começou a ver que dava trabalho e que não é tão fácil assim. Mas você de certa forma descobriu um outro talento, uma outra habilidade, que é a de conversar, de criar um clima, de comunicar. Como é esse aspecto profissional, de descobrir a capacidade de ser uma comunicadora nesse nível, diferente de subir no palco e cantar? Eu acho que eu me reencontrei, de certa forma, porque desde a minha infância já tinha o ímpeto de ir à frente da turma e cantar, imitar a Fafá de Belém. Mas eu sempre sofri muito racismo no colégio e essas injúrias raciais foram aos poucos modificando o meu jeito, eu fui me tornando uma pessoa tímida, retraída, introspectiva. E eu não era assim criança. Sempre fui bem comunicativa, gostava de fazer graça, de contar piada. O racismo foi me colocando num lugar de silêncio. Eu demorei muito a perceber isso. Há pouco tempo que eu tive esse entendimento, que caiu a ficha de que essa timidez que eu me forcei não estava sendo eu, eu não estava feliz com isso. Quando eu subi no palco pela primeira vez eu tinha muita vergonha de mim, achava que em algum momento alguém ia chegar e falar: "Sai daí, você não pertence a esse lugar". E a live tem uma coisa interessante porque eu me vejo o tempo todo, o que aparece na tela do meu celular sou eu falando comigo mesma. E de uma certa forma eu fui jogando o meu conteúdo cultural, o que eu ouço desde que comecei a ouvir música. Fui tentando criar uma comunicação com as pessoas, tentando passar para elas o que eu aprendi, as músicas que eu sei cantar, as que me emocionam. Tem músicas que eu nem sei cantar direito, mas eu gosto de lembrar, de falar do artista. Às vezes a própria canção tem alguma história por trás, ou alguma ligação comigo, uma passagem da minha vida em que aquela canção foi importante. Tudo isso vira material, e as pessoas também vão trocando informação, sempre vão aparecendo assuntos. Eu tenho conhecido e encontrado muita gente talentosa no Brasil inteiro. Muitas mulheres talentosas, compositoras e pessoas que não têm espaço na mídia, mas que têm já um trabalho de 10, 20 anos de carreira e que estão aí invisíveis e precisam de um lugar para mostrar o seu trabalho ou de alguém que os ouça para ter algum juízo de valor sobre o que estão fazendo. Tudo isso eu fui aprendendo com a live. Eu não tinha um modelo estabelecido, fui fazendo e aprendendo. E uma coisa que eu descobri é que isso tem muito a ver comigo. Quando eu comecei a cantar na Lapa eu não era cantora, eu estava pesquisando a obra do Candeia e de repente me veio esse convite para cantar no Bar Semente. E eu fui meio que aprendendo ao vivo. Então a impressão que eu tenho é que já é a segunda vez que eu faço isso na minha vida. Eu chego no lugar que eu não sei se eu pertenço, não sei se eu sei fazer e posso não ter tanto talento, mas acho que tenho a coragem de encarar músicas que são importantes para mim, que talvez eu não saiba cantá-las da maneira correta, com todas as melodias no lugar, mas só de falar da canção eu acho que vale a pena. LEIA TAMBÉM:Meu nome é ébano: a vida e a obra de Luiz Melodia [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f89f4fc98f30/trip-fm-teresa-cristina-foto-andre-pokan.jpg; CREDITS=André Pokan/Divulgação; LEGEND=] Você já está com 20 anos de carreira e foi patrocinada pela primeira vez só agora, por uma marca de cerveja. Por que depois de tantos anos abrindo shows do Caetano, turnês internacionais, você não estava inserida de forma mais pesada nessa zona de mercado? São muitas cantoras negras que também não têm espaço ou patrocínio, isso é uma coisa recorrente no Brasil. Estou acompanhando no meu Instagram pessoas negras que estão colocando fotos de pessoas brancas em seus perfis e, quando elas fazem isso, o perfil delas tem mais acesso, mais pessoas curtindo, mais comentários, o perfil fica mais movimentado do que com a cara preta delas. As pessoas estão fazendo esse teste. Isso não é novidade, o racismo no Brasil não é discutido. A gente hoje tem o entendimento de que, além de não ser racista, precisamos ser antirracistas, combater esse veneno social que existe desde que o Brasil é Brasil. Desde que foi abolida a escravatura e as pessoas foram colocadas na rua sem nada, sem nenhum tipo de assistência, desde que você vê pessoas criticando a política de cotas, porque a corrida da vida é desigual, muito desigual. Me lembrei de duas figuras muito importantes na música brasileira: o Tim Maia e o Simonal, para lembrar de dois artistas negros que tiveram um êxito muito grande. Você acha que o preconceito racial piorou no Brasil dos anos 60 e 70, quando esses artistas conseguiram chegar no topo da carreira e fazer muito dinheiro, para cá? Eu não sei se piorou. Acho que talvez a gente passe a ter uma noção de que o racismo aumentou, mas será que ele aumentou ou ele só está sendo filmado, documentado? Porque nessa época do Tim Maia e do Wilson Simonal esse pensamento racista já existia, talvez até com muito mais força, mas não era documentado, não era denunciado, não era nem crime. Hoje eu vejo gente reclamando que não pode mais fazer piada com preto, como se fosse uma coisa muito agradável para quem é negro ouvir esse tipo de piada. E as pessoas usam isso como exemplo de que o mundo encaretou. O mundo está careta, reacionário e conservador não porque você deixou de fazer piada com gente preta, é por outros motivos que a gente está vendo aí. E eu percebo também que uma pessoa negra, quando faz muito sucesso, se por acaso ela comete algum tipo de deslize, a sociedade tem a memória mais forte para lembrar e cobrar aquele erro. Quando é o caso de uma pessoa branca, ela faz um vídeo pedindo desculpas e foi, é aceito. E como é uma coisa que a gente não discute, fica assim, meio dado à interpretação. A gente tem uma lei que diz que o racismo é crime, mas ao mesmo tempo a própria sociedade racista coloca o racismo numa conversa de interpretação, "não foi bem assim, você entendeu errado". Isso irrita muito, magoa muito. Isso mata muita gente. LEIA TAMBÉM: Pathy Dejesus: a mulher negra não pode errar No começo de maio você deu uma entrevista para nós e falou que o seu sonho era ver o Chico Buarque entrar na sua live. E você cravou: "Acho que se ele entra eu morro do coração". Um tempo depois ele fez uma participação na sua live. Como foi? Eu vou dizer que eu só não morri do coração porque já sabia que ele ia entrar. Era aniversário de 81 anos do Antônio Pitanga, que é um grande artista, uma pessoa muito importante para o Brasil. Eu sou amiga dele e da Camila, sua filha, e aí eu falei para ela: "Seu pai vai fazer aniversário no meio da pandemia e está aí lúcido, produzindo, sendo premiado, fazendo coisas. Vou fazer uma festa de aniversário para ele na minha live e convidar seus amigos para participarem e darem os parabéns". Os amigos eram: Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Elisa Lucinda. Então acabei criando coragem e liguei para a companheira do Chico, a Carol Proner. Ela me colocou em contato com ele e eu o convidei para estar ali para dar os parabéns. O Chico é um dos artistas que eu conheço desde muito nova, seis, sete anos de idade. Aquele álbum dele, Construção, eu ouvia inteiro, e é uma pessoa que eu tenho uma admiração sem tamanho, um brasileiro muito importante. Eu acho que vocês me deram sorte. LEIA TAMBÉM: Teresa Cristina prova que existe vida inteligente na madrugada [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/10/5f89f4fc9f5f4/trip-fm-teresa-cristina-theatro-net-rio.jpg; CREDITS=Marcos Hermes/Divulgação; LEGEND=] Em 2018 a gente fez uma matéria sobre a as dificuldades das mulheres no samba. Elas afirmavam que não tinham espaço para tocar nas rodas de samba, que era um negócio bem fechado para elas. É assim ainda? Para as mulheres instrumentistas sim. Só tem um pequeno detalhe: o samba é machista como o Brasil é, mas o samba não é hipócrita, o machismo do samba a gente vê, e por ver, por enxergar a gente consegue lutar contra. É muito pior quando a gente luta por uma coisa que as pessoas querem tornar invisível, como o racismo por exemplo. Então eu acho que o machismo do samba existe porque o samba é um reflexo da nossa realidade. E é bom que seja exibido assim, sabe, real? Porque a gente tem como combater. Seria pior se as mulheres continuassem invisíveis, porque a mulher dentro no samba foi apagada durante muitos anos. A gente tem um ritmo que foi trazido por uma mulher, a Tia Ciata, que veio de Santo Amaro até o Rio de Janeiro trazendo o samba. Ela improvisava, tocava pandeiro, tocava prato, ela cantava, e a gente não sabe quase nada da Tia Ciata. A gente sabe do Pixinguinha, do Donga, do João da Baiana e de todos que vieram depois deles. A gente tem a Dona Ivone Lara que foi a primeira mulher a fazer um samba enredo. Será que a Dona Ivone Lara não influenciou outras mulheres a compor samba enredo? Existe um espaço de tempo muito grande sem a mulher estar ali, depois da Dona Ivone Lara, eu fui a primeira mulher a ganhar um Estandarte de Ouro de samba enredo. O primeiro oficial, pois eu considero que fui a segunda, já que na época da Dona Ivone não existia o Estandarte de Ouro. E agora a gente já tem a Manu da Cuíca compondo samba na Mangueira, tem a Milena Vaine na Mocidade que também está compondo samba. Antes da pandemia eu estava com um show chamado Sorriso Negro, só com instrumentistas mulheres. Às vezes quando saiamos para as rodas a gente via a atitude dos caras tentando ensinar a tocar, ou fazendo cara feia. Mas eles fazem cara feia de lá eu faço de cá e tudo certo. LEIA TAMBÉM:A crise das companhias de teatro e dança na pandemia Você já tinha uma carreira importante na música, mas as lives te deram uma nova exposição, todo mundo começou a falar de você. A gente sabe que esse período da pandemia abalou financeiramente muita gente. No seu caso, esse sucesso veio com um impacto financeiro? Eu tive um aumento do número de seguidores, tinha 98 mil seguidores e hoje em dia tenho 350 mil. Isso mudou, o meu alcance. Eu tive patrocínio para fazer duas lives, não é um patrocínio da minha carreira. E eu tenho recebido algumas propostas de publicidade. Espero que, com o fim da pandemia, eu consiga realmente abrir os meus caminhos, aumentar o meu público. Por enquanto o aumento foi do número de pessoas que me seguem. Mas me preocupa muito os pequenos trabalhadores porque, quando uma roda de samba para, o primeiro que deixou de receber dinheiro é o músico, mas o ambulante que trabalha em volta vendendo bebida deixou de receber dinheiro, o técnico de som, o iluminador. Essas pessoas são invisíveis, mas são as que ajudam os negócios a acontecerem. O meu roadie, que trabalha comigo em show, ficou sem receber esse tempo todo. Eu fiz duas lives e pedi uma contribuição financeira, aí as pessoas depositaram e eu consegui um dinheiro para essas pessoas, para as mulheres que tocam comigo, para a minha equipe, produtor, roadie, técnico de som. Mas isso é o meu lugar, eu não sei como é para essa galera que vive de gig, principalmente essas mulheres que acabaram de entrar nesse mercado de trabalho, que tocam surdo, violão, participavam de várias rodas, e deixaram de trabalhar. Como é que se coloca comida dentro de casa? A situação é muito difícil e geralmente quem mais precisa não pede. Quem precisa mais está em silêncio, tentando resolver o problema dele de outros jeitos.

    Claim Trip FM

    In order to claim this podcast we'll send an email to with a verification link. Simply click the link and you will be able to edit tags, request a refresh, and other features to take control of your podcast page!

    Claim Cancel