Trip FM

Follow Trip FM
Share on
Copy link to clipboard

Há 30 anos, Paulo Lima faz entrevistas com as personalidades mais interessantes do país

Trip FM


    • Aug 12, 2022 LATEST EPISODE
    • every other week NEW EPISODES
    • 768 EPISODES


    Search for episodes from Trip FM with a specific topic:

    Latest episodes from Trip FM

    Álvaro Machado Dias: A espécie humana será extinta?

    Play Episode Listen Later Aug 12, 2022

    Neurocientista e futurista dá sua visão sobre a evolução da espécie e prevê duas formas para o nosso fim Talvez o fim do ser humano venha permeado por dor após uma série de eventos catastróficos, sejam eles causados pelo efeito estufa ou por guerras bioquímicas que estejam por vir. Por outro lado, o nosso medo de morrer pode seguir trazendo avanços na ciência, com tanta protética, tantos caminhos de substituição de elementos biológicos por elementos sintéticos que chegaríamos ao ponto de criar uma subespécie que em pouco se assemelharia a forma como somos hoje. Dessa maneira, o fim da humanidade seria sem gritos. Frear a velhice, por mais paradoxal que pareça, poderia então gerar o fim da espécie humana. É assim que pensa sobre a finitude o futurista Álvaro Machado Dias, um pós-doutorado em neurociências que tem ganhado espaço na mídia com a forma clara e provocativa que pensa sobre a tecnologia. Filho de professores, Álvaro se formou em psicologia e durante muito tempo viveu em ambiente laboratorial, o que foi um peso para a sua natureza extrovertida. Acabou mudando de vida e iniciou um diálogo mais aberto com o mundo, pensando sobre assuntos que às vezes parecem saídos de um filme de ficção científica. A guinada ele atribui a uma depressão: “Tem sofrimentos na vida que são muito bons. A gente precisa passar por eles porque são como molas que vão nos levar para outro lugar. Não vamos esquecer que se a depressão não crônica fosse desadaptativa, teria sido eliminada pela seleção natural. Tem alguma coisa de base que faz ela ser prevalente na espécie”, diz. Em um bate papo com o Trip FM, o cientista ainda falou dos rumos das redes sociais, capitalismo, e drogas. Confira no play aqui em cima, no Spotify ou leia um trecho a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/08/62f67eba4708d/alvaro-machado-dias-neurologista-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Alvaro Machado Dias; ALT_TEXT=Alvaro Machado Dias] Trip. Você tem um estudo recente sobre velhice que vê uma felicidade entre os mais velhos, é isso? Álvaro Machado Dias. Alguns cientistas vêm colocando a velhice como uma espécie de doença, que seria essa alteração de dentro para fora que nos levaria a um estado de declínio físico indesejável. Meu entendimento é de que isto está errado. É uma visão míope que assume uma posição reducionista de que o envelhecimento é meramente a redução do escopo existencial, quando estudos mostram que a felicidade cresce em pessoas mais velhas. A minha tese é que a capacidade de metacognição, a habilidade de pensar sobre nós mesmo, melhora nas pessoas mais velhas. A gente ganha coisas na velhice que não se reduzem ao chavão da sabedoria. Isso não é conhecimento acumulado é uma habilidade que é desenvolvida. Como você vê o estudo de práticas ancestrais, como a ayahuasca? A gente está se aproximando dessas culturas antigas? Como instrumento de espiritualidade, eu seria contra o uso da ayahuasca na psiquiatria. O caráter espiritual cria um tipo de especificidade irreprodutível. Mas a ayahuasca também traz propriedades químicas ligas a sistemas neurotransmissores muito específicos. Ciência de verdade é pegar uma área em que tudo o que vem de novo reproduz o que já existe e propor algo diferente. A quetamina, esse anestésico usado como droga de balada, por exemplo, surge neste século como um dos remédios mais importantes contra a depressão. As drogas têm seus efeitos neuroquímicos independentes de qualquer ritual e por isso elas podem ser transformadas em nova terapêuticas para uma melhora holística do paciente. Como será o futuro das redes sociais? O modelo do vídeo curto imposto pelo TikTok se tornou hegemônico. Qual é a diferença com o Instagram? Do ponto de vista algorítmico, o Instagram parte da comunidade. Já no TikTok á ideia principal é a da exposição geral. É como no capitalismo chinês: o pequeno grupo não existe e todo mundo é exposto a tudo e vigiado o tempo inteiro. É o fortalecimento da lógica de que o mundo é uma grande planície chinesa e todo mundo é exposto a todos os conteúdos e mapeado em todos os seus comportamentos.

    O que a morte nos ensina sobre a vida?

    Play Episode Listen Later Aug 5, 2022

    Cientistas, religiosos, jornalistas e artistas contam como eles encaram um assunto ainda tão cercado de tabus Lidar com a morte e a fragilidade da vida faz parte da experiência de todos nós, mas esse ainda é um assunto delicado e cercado de tabus. Em uma semana em que perdemos personalidades como o humorista Jô Soares e o atleta e empresário João Paulo Diniz, o Trip FM reúne depoimentos de cientistas, religiosos, jornalistas e artistas contando como eles encaram a finitude. Wagner Moura, Marcos Mion, Alexandre Caldini e Júlia Rabello são alguns dos nomes que dividiram com a gente sua experiência com a morte no programa ao longo dos últimos anos. Confira alguns dos pensamentos abaixo eu escute o programa completo no Spotify.  Alexandre Caldini, autor do livro "A Morte na Visão do Espiritismo" A gente não sabe lidar com a morte porque ela sumiu. Antigamente a funerária ficava no centro da cidade, com os caixões expostos na calçada, e as pessoas eram veladas dentro de casa. Isso acabou, a morte foi terceirizada. É como uma prova de matemática: se você não estudou, vai chegar com medo. Por isso é preciso estar preparado Júlia Rabello, atriz Se você conversa com a sua morte, se pensa que a finitude existe, começa a dar significado para o agora. É importante olhar para o tempo. Senão a gente fica anestesiado, entra numa rede social e quando viu passou uma hora. Lembrar que existe morte faz com que façamos boas escolhas no período que temos, e que a gente nunca sabe qual é Wagner Moura, ator A vida é estar em profunda conexão consigo mesmo para que a partir daí você possa se conectar com os outros de maneira honesta. São essas conexões são que dão sentido à vida. Hoje, nesse momento de tantas diferenças, eu sinto falta de estar mais aberto a essas conexões Marcos Mion, apresentador Chegar perto da morte e voltar dá um certo desespero, porque a sensação é nula: não traz dor, não traz nada, simplesmente é. Num acidente, não estar sentindo nada acaba sendo relaxante, mas eu não quis entregar os pontos, não

    Barbara Gancia: A verdade está insuportável

    Play Episode Listen Later Jul 29, 2022

    Sem desviar de qualquer polêmica, a jornalista fala sobre a elite brasileira, maconha e o livro que relata seus 30 anos de alcoolismo Com uma carreira extensa como jornalista – foram 36 anos no jornal Folha de S. Paulo, sem contar o trabalho em outras publicações importantes –, Barbara Gancia talvez tenha dado uma de suas maiores contribuições para a sociedade com a lançamento em 2018 do livro “A Saideira”, uma descrição sincera de sua relação de 30 anos com o álcool e como conseguiu se livrar da dependência. “Quando eu parei de beber, comecei a viver uma vida tão prazerosa e frutífera que tudo começou a acontecer no trabalho, na minha vida amorosa e na relação com os amigos. As pessoas não param de beber porque acreditam que vai ser uma angústia, mas eu continuo dando risada pra caramba”, conta. Uma espécie de tanque desgovernado com as palavras, essa escritora fez história também como apresentadora do programa “Saia Justa”, da GNT. Mas hoje, aos 64 anos, ela se diz aposentada, ao menos até que a verdade volte a ter a sua importância: “A verdade está insuportável. A gente tem muito conforto, muito tudo, e os caras estão sem emprego. Tem muita gente com muito dinheiro, muita gente com pouco dinheiro e as coisas não estão mais se resolvendo. Virou mais conveniente ter a sua própria verdade”.  Em um bate papo com o Trip FM, Barbara não desviou de uma polêmica ao comentar assuntos como maconha e os rumos da elite no país. “É preciso uma disposição de alma e humildade para conhecer o Brasil. Eu tenho tanto amigo que dá aula de política para empregado porque acha que é burro. Se fosse burro, não vivia com mil reais por mês. Eu quero ver se eles conseguem viver com tão pouco”. Leia um trecho abaixo ou confira o programa completo no Spotify. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/07/62e3e97b01c98/barbara-gancia-jornalista-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Eduardo Knapp ; LEGEND=Barbara Gancia; ALT_TEXT=Barbara Gancia] Trip. Da sua observação como jornalista e tendo sofrido com dependência de álcool, acha que há solução para o problema das drogas no Brasil? Barbara Gancia. Eu sou especialista apenas na minha triste história. Tive uma dependência cruzada, mas somente porque a cocaína ajudava a baixar a minha bebedeira. A minha droga de escolha sempre foi o álcool. Gosto de maconha até hoje, em pequeníssimas doses. Mas acho que é uma droga que também precisa ser controlada, ao contrário do que muitas pessoas acham. É muito mais fácil causar um acidente de carro se você está sob o efeito de maconha, além de ser um gatilho muito grande para esquizofrenia. Mas é claro que não dá pra entender porque a maconha medicinal não foi liberada até hoje e como a gente ainda cultiva essa fábrica de criminosos em função dessa merda aí. A gente tinha que resolver isso de uma forma um pouco mais inteligente. E em relação especificamente à Cracolândia? Eu acho que não é aceitável a gente deixar um bando de gente se matando em praça pública: tem pessoas ali se prostituindo, grávidas, se degradando, roubando. Não é aceitável que uma sociedade deixe isso acontecer. Se você tira o cara daquele meio e cuida, ele vai sair da fissura e pode se recuperar. Ele é absolutamente tratável e de uma forma ambulatorial. É uma questão médica, não tem nada a ver com ideologia. É claro que não pode chegar, dar porrada e levar para cadeia. É outra questão, é preciso ter um sistema. Não é possível que a cidade de São Paulo não saiba lidar com isso e que quem cuide da região seja a polícia. Quem precisa tomar conta é a Unifesp, a Secretaria Municipal de Saúde. Mas é preciso ter coragem. E você acha que tem como educar a elite brasileira? Eles nem pegam ônibus. Mas quando vão para Holanda, pegam e se sentem o máximo. Aqui, acham que pobre é bandido, que não se esforçou. Todo mundo passando fome e você achando que é vagabundo. Eles não são maus de caráter, são apenas burros pra caramba. São tão alienados do que acontece que vão te falar com toda a propriedade que o Paulo Guedes é um cara legal. O Paulo Guedes não tem ideia do que é o Brasil. É preciso uma disposição de alma e humildade para conhecer o Brasil. Eu tenho tanto amigo que dá aula de política para empregado porque acha que é burro. Se fosse burro não vivia com mil reais por mês. Eu quero ver se eles conseguem viver com tão pouco.

    Paolla Oliveira: Sou muito mais do que imaginam

    Play Episode Listen Later Jul 14, 2022

    A atriz destrói rótulos, não tem medo de se posicionar e chega à nova novela das sete, “Cara e Coragem”, mais empoderada do que nunca “Eu venho tentando abrir gavetas que ninguém sabe sobre mim. Primeiro eu era só a bonitinha, depois só a mocinha da novela, depois do Carnaval e um monte de outras coisas em que foram me enquadrando. A gente é muito além do que as pessoas imaginam”, diz Paolla Oliveira. Após ser definida e enquadrada tantas vezes, a atriz quer transcender os lugares em que o público e a crítica a colocaram por tanto tempo. Emplacando um trabalho de sucesso atrás do outro, a atriz chega à “Cara e Coragem”, novela das sete em que dá vida à personagem Pat, mais empoderada do que nunca. Sobre a relação com Diogo Nogueira, ela conta: “É a primeira vez que eu me exponho assim. Acredito que não tem a ver com o casal, mas com amadurecimento. Acabei de fazer 40 anos e se você não cria um pouco de espaço para se mover com conforto na vida e para saber que tem coisas que quer mostrar, vai passar o tempo todo espremida pelo que as pessoas acham que você deve fazer”. Outro lado que Paolla tem feito questão de mostrar é o seu posicionamento político. “Estamos em um momento em que ficar calada está errado. Esse governo tem posturas que ultrapassam o plano da política: a falta de respeito, a falta de humanidade, de consideração. São coisas que dizem respeito ao ser humano. É um caos instalado. Não é escolher um ou outro. A gente vai escolher o que não tiver ele”, diz. Foi com esse espírito firme que Paolla Oliveira bateu um papo com o Trip FM. Durante o programa a atriz falou ainda sobre corpo, envelhecimento e a pressão por ser mãe. Leia um trecho abaixo ou confira o programa na íntegra no play aqui em cima, no Spotify ou no Deezer. Trip. Você tem compartilhado a sua relação com o Diogo Nogueira de uma forma muito legal, mas eu sei que deve existir um lado ruim dessa exposição. Houve um planejamento antes de vocês deixarem as pessoas participarem desse casal? Paolla Oliveira. É a primeira vez que eu me exponho assim. E, pelo o que eu conheço do Diogo, a primeira vez dele também. Eu acredito que não tem a ver com o casal, mas com amadurecimento. Eu acabei de fazer 40 anos; se você não cria um pouco de espaço para se mover com conforto na vida e saber que tem coisas que quer mostrar, vai passar o tempo todo espremida pelo que as pessoas acham que você deve fazer. O romance eu sempre guardei muito bem, achava que as pessoas podiam vuduzar, que era um lugar muito vulnerável. Mas aí me deparei com o Diogo Nogueira: como eu escondo ele? A vida pública tem um bônus e um ônus. A gente pensou em mostrar até onde achamos bacana. Tem algo que aprendi muito na pandemia: a gente precisa demonstrar afeto em momentos tão ásperos. Mas ainda acho que a discrição é uma arma muito importante na nossa profissão. Na sociedade brasileira há uma ignorância de achar o corpo uma ferramenta estética apenas. No debate feminista existe um debate sobre o poder da sedução e da beleza do corpo. Eu queria que você falasse sobre isso, sobre como é ser e ter esse corpo como uma ferramenta do seu projeto de vida. As pessoas me perguntavam sobre ser sensual, sobre cenas de nudez, se isso não iria marcar o meu trabalho. Era tudo sempre em cima de um lado tão ruim que nunca tive tempo de respirar aliviada para falar: 'Caramba, qual é o problema de ser sensual e de usar a nossa sensualidade de várias maneiras?' A sensualidade está na gente, o ser humano é assim. A gente seduz em uma conversa, seduz os nossos amigos. As pessoas enxergam isso de uma maneira muito simples e eu gosto de olhar com abrangência. A Anitta, por exemplo, tem falado disso de um lugar muito mais alto, que é assim: Façam o que vocês quiserem, a potência está em como vocês querem mostrar a sua sexualidade. Com pouca roupa, com muita roupa, com celulite, sem celulite. Eu costumo ver o meu corpo como um elemento efetivo para o meu trabalho. Eu também já fui adolescente e tive uma cabeça um pouco mais suscetível às duvidas, mas hoje em dia não voltaria para lá. Se conhecer e ser mais segura de quem você é pode ser muito bom. Recentemente você se abriu sobre uma questão importante que é o congelamento dos óvulos, suavizando essa pressão muito forte sofrida pelas mulheres de que é preciso ter filhos até uma certa altura da vida. É uma pena que o congelamento de óvulos não seja mais acessível: é uma libertação muito grande. Existem pressões de todos os lados e obviamente a gente precisa se posicionar e não aceitar essas pressões. Mas a pressão dos filhos tem tempo determinado e isso não tem muito a ver com os outros, mas sim com cada uma de nós. Quando eu falei disso, que é tão pessoal, falei que gostaria que fosse uma escolha e não uma impossibilidade. Seria muito legal se mais mulheres pudessem passar por isso, mas enquanto isso não acontece que possam valer os nossos desejos, que filho de maneira nenhuma seja uma pressão.

    Benito di Paula: Música é minha alma, minha fé

    Play Episode Listen Later Jul 8, 2022

    Um dos grandes bambas do samba comemora 80 anos de carreira e relembra histórias do passado, fala de grana, família e a relação com a mídia Um dos grandes bambas do samba, Benito di Paula foi uma espécie de Zeca Pagodinho dos anos 1970 e 1980. Compôs centenas de músicas que se transformaram em sucessos nacionais e internacionais na sua voz e na de outras lendas como Roberto Carlos, Maria Bethânia, o guitarrista Charlie Byrd, Alcione e Orquestra de Paul Mauriat. Seu programa "Brasil Som 75", na TV Tupi, alcançou audiências monumentais. Benito sempre se apresentou com piano de cauda, e sua indumentária incluía smoking, casaca, bigodão, pulseiras, colares e anéis (continua o mesmo). Muitos o imitaram, mas era difícil ser original como ele. Foi cultuado, criticado, exorcizado e sofreu censura braba porque algumas de suas músicas incomodavam o regime militar. Foi rotulado de brega e cafona por críticos azedos devido ao sucesso da imortal “Charlie Brown”, em que cantava as maravilhas do Brasil. Aos 80 anos, Benito comemora a carreira com uma série de projetos especiais ao lado do filho Rodrigo Vellozo. Ao Trip FM, ele contou que perdeu 50 milhões de reais, avaliou o seu legado, falou dos tempos em que morou em uma favela do Rio de Janeiro e de quando chegou a fazer quatro shows por noite, entre outras histórias. Leia um trecho abaixo ou ouça o programa completo no play aqui em cima ou no Spotify e Deezer. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/07/62c8550b317e1/benito-di-paula-cantor-campositor-musico-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Murilo Alvesso / Divulgação; LEGEND=Benito Di Paula e Rodrigo Vellozo ; ALT_TEXT=Benito Di Paula e Rodrigo Vellozo ] Trip. Você foi um dos maiores vendedores de discos do Brasil. Qual foi a época em que você mais fez dinheiro? Benito di Paula. O dinheiro é o que menos importa. O que importou foi sempre a música. Benito, prega esse botão? Não sei. Benito, frita esse ovo? Não sei. Agora, música é a minha vida, a minha alma, meu espírito e minha fé. Mas eu ganhei muito dinheiro. Minha casa no Morumbi tinha 100 metros quadrados só de sala. Da noite pro dia eu perdi 50 milhões de reais não sei como. Perdi tudo, menos o meu amor pela minha família e, agora, pela minha neta. Vejo hoje que tenho tudo e antes não havia nada. Se alguém me roubou, não levou nada. Se levou, levou azar pra cacete porque roubar cigano da uma zebra danada. Outro dia você brincou que "era um cara feio que fazia umas musiquinhas mais ou menos". Deixando a piada de lado, qual você acha que foi o seu legado para a música? Deixar um legado é fazer um trabalho verdadeiro e além de muito popular, de coração. Trabalhar para a sua família. Trabalhe para a sua família que você não vai ter tempo de fazer nada errado. A vida é fé, amar a todos de verdade como irmãos. Você pode ser traído, mas ame. Maior do que o amor não existe.

    Karine Teles: A arte para mim é quase uma religião

    Play Episode Listen Later Jul 1, 2022

    Atriz de filmes sucesso de crítica experimenta o reconhecimento do grande público com a repercussão da novela "Pantanal" “Eu só fui entender tudo o que estava acontecendo, o tamanho da repercussão, quando a novela estreou”, conta a atriz Karine Teles sobre o sucesso da personagem Madeleine. Se foi somente com a sua aparição em “Pantanal” que Karine ganhou o reconhecimento do grande público, já faz muito tempo que ela goza do aval da crítica. Com atuações muito elogiadas em filmes como “Bacurau”e “Que Hora Ela Volta?”, a artista – que também é roteirista e diretora – se solidificou com uma das vozes femininas mais potentes do cinema nacional. Mas nem sempre foi assim. Nascida em Petrópolis e criada em Maceió, Karine escolheu a profissão já na adolescência. Hoje, como quase 30 anos de carreira, ela começa ter algum alívio financeiro, mas houve uma época em que fazia teatro para duas pessoas e precisava complementar a renda como professora de inglês e assistente pessoal. "Já fracassei muito. Quantas vezes cancelamos espetáculo por falta de plateia, com elenco maquiado, operador de luz e som, todo mundo pronto? Sou uma pessoa ferrada há tanto tempo que já neguei coisa que achava que não iria dar certo mesmo precisando de dinheiro. Mas no cinema eu dei muita sorte", conta. Maternidade A relação da atriz com a maternidade foi parar no cinema: Karine precisava dizer ao mundo que ser mãe não é nada romântico. A atriz decidiu então escrever uma história sobre uma mãe de quatro filhos que sonha em poder terminar os estudos, a ser interpretada por ela mesma. E assim surgiu Irene, de “Benzinho”. No longa atuam também os filhos gêmeos da atriz. "Veio um medo real de não dar conta. No primeiro ano eu tenho lapsos de memória gigantes porque de fato eu não dormia", diz sobre a maternidade.  Em um papo com o Trip FM, Karine Teles conta mais sobre a novela “Pantanal”, fala da infância, de cinema e das dificuldades de se tornar atriz. Leia um trecho abaixo ou confira o programa completo no Spotify e no Deezer. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/06/62bdca05519e2/karine-telles-pantanal-madeleine-atriz-novela-tripfm-mh.jpg; CREDITS=; LEGEND=Karine Telles, atriz que interpretou a personagem Madeleine da novela Pantanal; ALT_TEXT=Felipe Fittipaldi / The Guardian / Arquivo pessoal] Trip. Você acredita no poder transformador de um filme como “Que Horas Ela Volta?”, ou acha que já vai mais para o lado do sublime? Karine Teles. A arte para mim é o que existe de mais próximo com a religião. A potência transformadora da arte é milagrosa. O contato de uma pessoa com um filme pode transcender qualquer discurso: a gente sente fisicamente aquilo. Não há como explicar certas coisas se não for pela manifestação artística. Você fez filmes muito elogiados, mas nenhuma deles com essa abrangência de uma novela das nove. Como tem sido lidar com esse tipo de fama? Eu só fui entender o que estava acontecendo com Pantanal quando a novela estreou. Entender que estava fazendo uma personagem enorme. Pra minha sorte eu já tinha gravado 90%, porque aí eu fiquei nervosa: foi angustiante para a minha vida pessoal, mas não para o trabalho. O risco de dar errado era muito grande, porque é uma história de 30 anos que podia não ter mais apelo nenhum. Recentemente entrevistamos a Andreia Sadi, também mãe de gêmeos, que contou que é impossível dar conta de tudo. Como foi essa experiência para você? Eu tive uma gravidez incrível, fiquei com o cabelo bonito, com tesão, estava esplendorosa. Aí meus filhos nasceram e já descobri que a amamentação não é aquela coisa automática. Tem muita coisa que as pessoas não falam. Veio um medo real de não dar conta. No primeiro ano eu tenho lapsos de memória gigantes porque de fato eu não dormia.

    Douglas Silva: O BBB me trouxe poder de negociação

    Play Episode Listen Later Jun 24, 2022

    Ator e finalista do BBB relembra papeis emblemáticos, fala de racismo, família e dinheiro: “Já passei por poucas e boas e nada me abalou" “No Big Brother Brasil, falar um grão de areia pode pesar toneladas”, diz Douglas Silva. Um dos finalistas do programa, o DG, como ficou conhecido, quase não entrou na casa com medo das consequências que a fama poderia trazer para a sua família. Mas aceitar o convite do BBB acabou sendo um acerto na carreira do ator. Indicado ao Emmy Internacional por seu trabalho na série “Cidade dos Homens”, Douglas finalmente pode decidir os projetos em que vai embarcar e, principalmente, por qual tipo de remuneração. Aos 34 anos, o ator acumula vinte de carreira, já que começou carreira ainda criança vivendo inesquecível Dadinho, de “Cidade de Deus”. Sobre seu desempenho no filme que dividiu águas no cinema brasileiro, ele lembra: “A preparação de elenco foi fundamental, mas a minha vivência na favela ajudou muito também”. O artista nasceu na favela da Kelson's e, incentivado por uma professora, começou no teatro aos oito anos. Obstinado, DG mergulhou em toda oportunidade e, desde o seu primeiro teste, já para o célebre filme de Fernando Meirelles, nunca parou de trabalhar. “Precisei acreditar muito em mim para tirar a minha família do buraco de onde tirei”, diz. Em um papo alto-astral com o Trip FM, Douglas falou da infância, de racismo e paternidade: “Já passei por poucas e boas e nada me abalou.” Leia um trecho abaixo ou ouça a entrevista completa no play aqui em cima ou em nosso canal do Spotify. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/06/62b5ffffc065f/douglas-silva-dg-bbb-ator-tripfm-mh.jpg; CREDITS=@euthiagobruno; LEGEND=Douglas Silva; ALT_TEXT=Douglas Silva] Trip. A atriz Viola Davis tem um discurso famoso em que compara a carreira dela com grandes nomes do cinema e diz não estar nem perto de uma Mery Streep, por exemplo, em termos de grana. Como é esse aspecto da sua carreira? Douglas Silva. É só você comparar tempo e volume de trabalho de um preto e um branco: qual é o status de cada um? É ruim, mas a gente segue batalhando; eu não me esmoreço. Meu objetivo é deixar a minha família bem. Agora eu estou na crista da onda, só agora nesse lugar com poder de negociação. É ruim eu ter precisado de 22 anos de carreira, com filme indicado ao Oscar e indicação ao Emmy, para atingir uma remuneração que eu ache justa. Pessoas que não tem nem a metade dos anos de carreira que eu tenho estão deslanchando em grana.  O Babu já falou a seguinte frase em uma entrevista para a Trip: "Eu não consegui notoriedade com a minha arte, consegui com um show de entretenimento, onde todo meu conhecimento não foi usado, no sentido de construção de personagem. Às vezes é frustrante viver da arte no país". Você se sente da mesma forma? Ter ganhado fama no BBB não me incomoda. Eu sei me reinventar. Com 34 anos, ainda sou jovem, apesar de estar na pista desde os dez. Óbvio que é triste ter que estar 100 dias dentro de uma casa para o Brasil me conhecer. É triste por eles que não se alimentam de cultura. Dá pra consumir muitas outras coisas. Mas está sendo muito bom ter participado do Big Brother. Você é otimista em relação ao Brasil? Eu sou muito otimista: hoje a minha realidade é muito diferente de todos os meus amigos. Precisei acreditar muito em mim para tirar a minha família do buraco da onde eu tirei. Eu creio muito que a gente possa ter um país com mais igualdade. Racismo não é uma doença, racismo se ensina – você pode quebrar isso na base.

    Jaques Morelenbaum: O Brasil desperdiça música

    Play Episode Listen Later Jun 10, 2022

    Potência da MPB com mais de 800 discos gravados, o arranjador e violoncelista fala de Tom Jobim, Caetano e da cultura no país “A música é muito multifacetada e rica; sempre quis experimentar de tudo. Por isso que já trabalhei com tantas pessoas diferentes”, conta o instrumentista e arranjador Jaques Morelenbaum, potência da música brasileira que participou de mais de 800 discos em sua carreira. De Tom Jobim a Ira!, de Gilberto Gil a banda de rock progressivo A Barca do Sol, Jaques já fez de tudo, mas confessa que no sertanejo não se empolgou muito: “São arranjos muito bobinhos”. Beatlemaníaco quando jovem e filho de músicos eruditos, Jaques foi dissuadido pelo pai a seguir a linha profissional da família, mas após um ano cursando economia ele não pôde mais negar as suas raízes. No início, ainda pensava em ser famoso e vender milhões de discos, mas a realidade bateu rápido e os estudos se intensificaram. Como talvez o único violoncelista pop no Brasil dos anos de 1970, Jaquinho – como é conhecido – permeou a MPB, ficou ao lado de Tom Jobim por dez anos e trabalhou com Caetano por 14. Apesar da extensa carreira, confessa que viver de música no Brasil é difícil. “É uma vida cheia de ondas. Mês que vem vou fazer vinte shows e dar uma respirada, mas durante a pandemia eu precisei tirar dinheiro de debaixo do colchão para sobreviver.”  Em um papo com o Trip FM, Jaques Morelenbaum contou sobre o brilhantismo de Caetano Veloso, opinou sobre as críticas que Tom Jobim enfrentou no Brasil e ainda falou sobre fama e bebida. Confira um trecho abaixo, ou ainda escute o programa inteiro no play ou no Spotify. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/06/62a2669ce41e8/jaques-morelenbaum-musico-violoncelista-caetano-veloso-tripfm-mh.jpg; CREDITS=undefined; LEGEND=undefined; ALT_TEXT=undefined] Trip. Já ouvi o Caetano Veloso se definindo como um instrumentista menor. No estágio em que ele chegou é possível avaliar isso ou já estamos em um campo muito subjetivo? Jaques. É muito subjetivo. A criação, as composições, o canto, a luz que emana do Caetano é tão brilhante e toca tanto as pessoas que os detalhes não são importantes. Para todos, é claro, menos para ele. Eu sei que, como músico, o artista está sempre em evolução. E quanto mais genial é o músico, mais ele sabe o quanto falta para atingir o que quer atingir. A gente está sempre procurando melhorar. O Gilberto Gil tem uma facilidade para tocar o violão que é absurda, algo que o Caetano não tem tanto. Por outro lado, ele tem uma facilidade para construir paraísos artísticos que supera qualquer coisa. Ele tem um ouvido privilegiado, apesar de não ter tido uma educação formal. Você já fez muitos trabalhos, mas imagino que não seja reconhecido em um shopping, por exemplo. Você já procurou esse tipo de fama? Como beatlemaníaco, quando jovem, eu provavelmente procurei ser famoso. Havia um sonho de vender milhões de discos. Quando isso não aconteceu, eu caí na real e resolvi estudar. Como eu era violoncelista e arranjador, ou eu ficava famoso como parte de um grupo ou eu partia para estar muito bem preparado. Quando me lancei profissionalmente, acabei sendo chamado por todo tipo de músico porque naquela época eu deveria ser o único violoncelista pop do Brasil, mas sempre ao lado de um grande nome: Tom Jobim, Caetano, Gil, Gal... Dentro da cena pop ou você é cantor e compositor ou você aceita a condição de ser um coadjuvante. Eu me satisfiz com isso. Você já gravou todos os estilos musicais, inclusive sertanejo, o maior fenômeno do Brasil já há algum tempo. Como você vê isso? Eu sempre aceitei todo tipo de trabalho como forma de aprender música e aprender sobre a vida. Mas te confesso que nunca me senti atraído pelo sertanejo. Me desculpem aqueles que gostam, mas para mim é um pouco básico demais, bobinha. Não me empolga. Eu vejo esse Brasil do Villa-Lobos, do Tom Jobim, do Milton Nascimento, Caetano e Gil desperdiçado por uma elite que sempre se esforçou para não educar o povo. Vivi a ditadura e percebi como a deseducação sempre foi usada como forma de dominação. O Brasil é tão querido e admirado lá fora como fonte de energia criativa, algo que fica desperdiçado aqui.

    Breno Silveira, um dos grandes de sua geração (1964 - 2022)

    Play Episode Listen Later Jun 3, 2022

    Nome por trás de produções como "2 Filhos de Francisco" e "DOM", o cineasta, que morreu em maio deste ano, é homenageado por colegas Antes de começar na direção arrebentando as bilheterias nacionais com “2 Filhos de Francisco”, Breno Silveira comandou a fotografia de comerciais e videoclipes que marcaram época – foi um dos olhares, por exemplo, responsáveis pelo premiado “Segue o Seco”, de Marisa Monte. Desde 2005, Breno sentou na cadeira de diretor e voltou todos os seus esforços para os atores. Sob sua supervisão, Dira Paes, Angelo Antônio, Nanada Costa e João Miguel brilharam em filmes como “Entre Irmãs” e “À Beira do Caminho”. “Era um cara muito apaixonado pelas histórias e, acima de tudo, pela verdade das cenas. Enquanto ele não sentia a cena, não sossegava”, conta Gabriel Leone, ator que protagoniza a série “DOM”, dirigida por Breno e com segunda temporada já gravada e pronta para estrear. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/06/629a7c08017e5/breno-silveira-cinema-brasileiro-diretor-fotografia-tripfm-mh.jpg; CREDITS=undefined; LEGEND=undefined; ALT_TEXT=undefined] Quando foi entrevistado em 2008 pela Trip, Breno confirmou a sua paixão pela atuação: “Eu não quero saber de câmera ou de fotografia – isso a minha equipe se vira. Eu quero saber é de arte. Quando eu sentar lá na frente e dizer ‘roda', a minha atenção está com os atores. Eu não procuro atores talentosos, eu procuro almas afins aos papeis que estou dirigindo.” Um homem de histórias, grande parte do trabalho de Breno foi baseado em fatos reais. Sobre isso, a atriz Maria Ribeiro diz: “Ele tinha um amor pelo Brasil e pelas histórias do Brasil. Muito apaixonado e emocionado com a vida e fazia questão que seus filmes fossem desse jeito”. Homenageado pelo Trip FM, o cineasta – que morreu trabalhando no último dia 14 de maio – recebe o carinho ainda de Maria Ribeiro, João Barone, Andrucha Waddington e do sertanejo Luciano. Confira no play ou procure o programa completo no Spotify.

    Renato Meirelles: Terceira via nesta eleição é uma ilusão

    Play Episode Listen Later May 20, 2022

    Fundador do Instituto Locomotiva, o especialista em pesquisa analisa o cenário político brasileiro e fala sobre eleições e o futuro do país Aos 16 anos, Renato Meirelles saiu de um colégio particular tradicional de São Paulo para se matricular em uma escola pública contra o desejo dos pais e apesar da condição financeira privilegiada da família. Publicitário de formação, ele levou a experiência mais afundo em diversos momentos de sua vida, tento se instalado na periferia em várias ocasiões. A intenção? Aprofundar seu conhecimento sobre pessoas. Hoje, ele está à frente de dois grandes órgãos de pesquisa: o Instituto Locomotiva e o Data Favela, onde se tornou referência nacional na pesquisa das classes sociais mais pobres ao mesmo tempo em que conseguiu a simpatia de ONGs ligadas à promoção da igualdade social. Especialista também em entender o comportamento do Brasil consumidor, que ele acredita ser muito mais diverso do que o empresariado imagina, Renato conversou com o Trip FM sobre a performance de João Dória nas pesquisas eleitorais, falou por que não acredita no surgimento de uma terceira via e deu seu prognóstico para o futuro do Brasil. Leia um trecho a seguir, confira a entrevista completa no play aqui em cima ou ouça o programa no Spotify. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/05/6286aa264a000/renato-meirelles-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Renato Meirelles; ALT_TEXT=Renato Meirelles] Trip FM. Além de agilizar as entregas da vacina da Covid-19, o governo João Dória tem alguns outros dados positivos. Ao que se dá a falta de popularidade desse candidato? Renato Meirelles. O João Dória ajudou na chegada da vacina através do confronto político direto. Essa lógica foi vista como um aparelhamento da vacina, o que afastou parte do eleitor. Essa maneira pouco empática de defender bandeiras somente por interesses próprios e não porque elas vão mudar a vida das pessoas aliada ao fato de que a política odeia traidores fez com que ele fosse odiado por petistas e bolsonaristas, as maiores forças políticas do Brasil. É por isso que ele tem esse índice de rejeição. Por que o Brasil não conseguiu encontrar a tal da terceira via? Nós temos duas figuras bastante conhecidas nas eleições. Bolsonaro construiu uma estratégia de consolidar a sua base eleitoral acreditando que o antipetismo será maior que o antibolsonarismo no segundo turno. Acho que tem um erro de avaliação nisso. O ex-presidente Lula está levando essa eleição na base da comparação, perguntando ao eleitor se a vida dele está melhor agora ou se estava antes, fugindo também das discussões. Para existir uma terceira via era necessário não ter essas figuras tão fortes. Essa não é uma eleição de mudança, como a passada. É uma eleição de avaliação. É uma ilusão achar que exista uma candidatura que vá unir aspectos da política tão diferentes. Quem quer uma figura nova é o mercado. Os líderes das corporações estão, em alguns casos, muito assustados e sem saber que posições tomar. O que você tem encontrado nas empresas? Na história, depois de todas as pandemias nós tivemos modelos de crescimento econômico e cultural: o Renascimento, o Iluminismo. Talvez o século XXI só esteja começando agora. Os empresários estão começando a entender que o que os trouxe até aqui não vai levá-los adiante. Eles não estão conseguindo lidar nem mesmo com a postura dos filhos, que serão herdeiros dessas empresas. Eles estão sentindo uma pressão enorme dos acionistas em relação às questões de diversidade e estão sendo, às vezes à fórceps, convencidos de que é necessário mudanças. É um processo que está no gerúndio.

    Angelita Gama, a primeira cirurgiã mulher do HC

    Play Episode Listen Later May 13, 2022

    Aos 90 anos, a médica que acumula pioneirismos fala sobre os muitos 'não' que ouviu na carreira, morte e a infância no Pará Quando entrou na faculdade de Medicina, em 1952, Angelita Gama já estava acostumada a receber nãos. O desejo dos pais era de que ela seguisse a profissão das irmãs, que eram professoras. Impulsionada pelas amigas que fez jogando vôlei, Angelita não acatou a vontade da família e encontrou a sua vocação na Universidade de São Paulo, a USP. Mais tarde, ao optar pela residência em cirurgia,  uma área absolutamente masculina, ela encontraria outra barreira: o chefe da cadeira na época pediu para que ela não fizesse a prova. Foram necessárias ligações para os diretores da faculdade para que liberassem ela a prestar o concurso. Passou em primeiro lugar e se tornou a primeira mulher cirurgiã do Hospital da Clínicas (HC). “Fui guerreira, fui vencendo. A medicina mudou a minha vida.” Aos noventa anos e ainda ativa na sala de cirurgia, a doutora foi recentemente laureada pela universidade de Stanford como uma das cientistas mais influentes no mundo por seu trabalho revolucionário no tratamento do câncer retal. “O primeiro passo da medicina no combate ao câncer é a prevenção. É claro que em um pais grande como o nosso e com dificuldades econômicas, onde se passa fome, a prevenção não é tão eficaz. Mas a medicina evoluiu muito, não só na prevenção como no tratamento”. Em um papo com o Trip FM, Angelita ainda falou de alimentação, de quando ficou entubada com Covid-19 por cinquenta dias, do SUS e da infância na Ilha do Marajó. Confira no play ou leia um trecho abaixo. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/05/627ec3724786a/angelita-gama-primeira-cirurgia-medica-hospital-clinicas-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Silvia Machado; LEGEND=Angelita Gama; ALT_TEXT=Angelita Gama em seu escritório usando um blaser azul e uma blusa branca] Trip. Câncer é uma palavra que muitas pessoas não gostam nem mesmo de falar, mas a ciência evoluiu muito. Em que fase estamos no tratamento desta doença? Angelita. O primeiro passo da medicina no combate ao câncer é a prevenção. No Brasil existem os meses: o do intestino, por exemplo, foi em março. É claro que em um pais grande como o nosso e com dificuldades econômicas, onde se passa fome, a prevenção não é tão eficaz. Mas a medicina evoluiu muito, não só na prevenção, como no tratamento. Progressivamente surgem drogas quimioterápicas mais potentes contra diferentes tipos de câncer. O câncer que era fatal no passado, hoje é curável. A medicina progrediu em várias modalidades de tratamento: medicamentosa, radioterápica e cirúrgica.     O que há de melhor ao se chegar aos noventa anos? Chegar aos 90 anos é acalentador. Mas já tive experiência de quase morte quando contraí a Covid-19 e o que pensei foi: gostaria de viver mais um pouco, a vida é tão gostosa. A vontade de viver ajuda muito na vida. Eu enxergo bem, minha coluna é boa, minhas mãos não tremem. Hoje quando eu entro em uma cirurgia, saio relaxada, porque eu conheço o abdômen. Na minha área tem gente igual, mas melhor é difícil. Além de estudar e trabalhar, eu tenho uma sorte extraordinária, Deus está no meu ombro direito. Comigo tudo dá certo. Qual é o maior medo ao se entrar em uma sala de cirurgia? O cirurgião precisa de tranquilidade, presença de espírito, segurança e conhecimento. Não há medo: você pode encontrar um sangramento, uma anatomia diferente, uma doença mais avançada, mas nós temos o preparo para isso. Você não opera o abdômen sem antes fazer uma sutura no pronto-socorro. A culpa de qualquer incidente na sala de operação é sempre minha, nunca da equipe.

    Lito Sousa: Desmistificando os mistérios da aviação

    Play Episode Listen Later May 6, 2022

    Dono do canal Aviões e Músicas, que soma mais de 2 milhões de inscritos, o mecânico fala sobre acidentes, medo de voar e o impacto O que realmente aconteceu no acidento com os Mamonas Assassinas? Qual é o aeroporto mais perigoso? Quantos litros um Boeing 777 faz por quilômetro? Todas essas perguntas são respondidas no canal do YouTube Aviões e Músicas, com mais de 2 milhões de inscritos. Lito Sousa, um mecânico de aviões com 36 anos de profissão transformado em influenciador digital, aproveita o conhecimento enciclopédico que adquiriu nas últimas décadas para desvendar de uma forma divertida mitos e acidentes que fascinam não só os aficionados por aviação, mas todos aqueles que gostam de uma boa história. Nascido de uma família pobre do sertão do Rio Grande do Norte, Joselito Geraldo de Sousa começou a carreira aos 14 anos em um curso técnico no Guarujá. Desde lá, foi funcionário da Varig, Transbrasil e United Airlines. Mas no fim do ano passado, ele precisou deixar a profissão para se dedicar exclusivamente aos seus vídeos. Recentemente, já aos 53 anos, realizou também o sonho de se tornar piloto. Em entrevista para o Trip FM, o especialista contou sobre a suas origens, falou do último acidente com a China Eastern, de medo de voar, discordou do documentário da Netflix “Queda Livre”, sobre o Boeing Max, e explicou a ejeção dos pilotos da esquadrilha da fumaça no último dia 28. Confira no play nesta matéria ou procure o Trip FM no Spotify. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/05/62753eda67c5a/lito-avioes-youtube-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Lito; ALT_TEXT=Lito] Trip. Uma questão delicada na aviação é a emissão de carbono. Pelo que eu consigo enxergar não existe uma solução próxima para isso, ou estou enganado? Lito Sousa. Com o peso das baterias, aviões elétricos não vão passar de duas horas de voo. Aeronaves movidas a hidrogênio são de fato a missão zero, já que o resultado da queima de combustível é a água. A partir do momento em que os aviões desses começarem a voar nós vamos ter um planeta muito mais úmido. Não é algo que só a aviação vai participar, é preciso mudar toda a estrutura do aeroporto. Como você vai abastecer um avião desse com um combustível muito mais volátil e perigoso? Essa já é uma tecnologia avançada. A indústria vai passar por uma transformação. Acho que nem mesmo durante as grandes guerras houve um impacto tão grande na aviação quanto durante a pandemia por Covid-19. Queria que você falasse sobre esse cenário. A aviação tem duas características: é resiliente e aprende com os erros. Antes da pandemia, houve o aprendizado com os ataques do 11 de setembro e com a epidemia de SARS. Foram dois baques que deixaram aviões no chão. O que aconteceu de importante com a Covid-19 foram os protocolos criados dentro do avião para diminuir a contaminação. Uma próxima pandemia já será muito diferente para a aviação. A minha impressão é que acidentes são, na maioria dos casos, causados por erros humanos. É verdade? O fator humano é preponderante nos acidentes de aviação. Cerca de 90% dos desastres são causados por erros de pessoas. Nem sempre é imperícia, mas existem diversos erros que vão se acumulando até se transformarem em um desastre. É por ser complexa a fisiologia de um acidente que eles não acontecem o tempo inteiro.

    Alexandre Nero: O Brasil não é o país do futuro

    Play Episode Listen Later Apr 29, 2022

    O ator e cantor, que acaba de lançar seu quarto disco, fala sobre o peso da fama, o preço de expor suas opiniões, reacionarismo e família Alexandre Nero, assustado com a normalização da violência e cansado de receber ameaças, tem segurado o ímpeto de participar do debate político. Vez ou outra, porém, acaba deixando escapar uma opinião a contragosto: “Já não tenho esperança de que o Brasil seja o país do futuro, mas se tirar o Jair já melhora.” A dificuldade de lidar com a fama não é algo que o ator esconde. Desde que interpretou o Comendador na novela "Império" e explodiu em popularidade, a questão tem sido um incomodo. Nero inclusive aponta o parceiro de atuação Chay Suede como alguém que lidou muito melhor com a superexposição, apesar de ser mais novo. Mas Alexandre Nero continua evoluindo e coloca a terapia como um pilar importante para isso. Pai mais velho, aos 45 anos, e muito presente, a psicanálise foi também um mecanismo para melhorar os ímpetos de raiva que a rotina estafante da criar uma criança podem trazer. Além da vontade de tratar a mente, a paternidade trouxe a vontade de cuidar do corpo. Com dificuldades de segurar o filho quando nasceu, Nero começou a malhar. Hoje, se sente saudável mas admite que – apesar de completamente moldado aos padrões de beleza – tem uma luta diária com a alimentação: “Esse papo de só é gordo quem quer é uma sacanagem. Existe uma questão também que se fala muito pouco que é a grana. O padrão de beleza tem a ver com grana: academia, personal trainer, plano de saúde, dentista, nutricionista, shampoo certo”.  Nascido em Curitiba, filho do meio entre duas irmãs, o ator foi morar em São Paulo quando mal andava, e cresceu em bairros como Paraíso e Pacaembu. O pai, engenheiro agrônomo, trabalhava como gerente de vendas numa empresa têxtil. A mãe, dona de casa, morreu, de câncer, quando Alexandre tinha 14 anos; o pai se foi dois anos e meio depois, vítima da mesma doença. Aos 17 anos, o órfão tímido que havia buscado na música uma forma de ser notado pelas garotas não tinha muito o que fazer em São Paulo com seu diploma de técnico em agronomia, obtido com três anos “muito felizes” em um colégio interno no interior de Minas Gerais. Foi morar em Curitiba com um tio e, dois anos depois, se jogou na vida de músico da noite, morando em pensão e se misturando à cena local de artistas e boêmios. “Eu como curitibano sou Tom Jobim, Vinícius de Moares, Milton Nascimento, Caetano, mas o resto do Brasil não é Paulo Leminski, Dalton Trevisan, Grupo Fato, Beijo AA Força. Eu tenho algumas armas que a maioria das pessoas não tem.”  É desse mistura de referências que saiu o mais novo disco do ator, com participação de Milton Nascimento e Elza Soares, e cordas de uma orquestra russa. “Quartos, Suítes, Alguns Cômodos e Outros Nem Tanto” é o quarto álbum de Nero e, como ele, o seu mais maduro até hoje. Em um papo com o Trip FM, Alexandre Nero ainda falou de Rio e Janeiro violência e política. Confira no play ou leia um trecho abaixo. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/04/626c3f2a5b858/alexandre-nero-ator-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Priscila Prade / Divulgação; LEGEND=Alexandre Nero; ALT_TEXT=Alexandre Nero] Como você enxerga o futuro do Brasil para os seus filhos? Alexandre Nero. Eu cansei de falar que não sou otimista. Infelizmente eu sou um otimista, eu tenho a fé de quem acorda e vai para mais um dia de trabalho. Lançar um disco é um ato de fé. Tirar esse cara já melhora, não tem como. Agora, essa esperança de que o Brasil é o pais do futuro eu já perdi. É muito fácil enganar o povo. Como alguém contratado da Globo, como você vê essa sacudida dos últimos anos no mundo da comunicação e do entretenimento, com os canais de streaming ganhando força? As plataformas de streaming não me assustam muito. Nunca me senti empregado de algum lugar. Sempre achei que a Globo não me aguentaria por muito tempo. Tá me aguentando, mas não será novidade o dia em que isso acabar. O que é assustador é o cenário geral. Com a pandemia, o teatro parou, com pessoas passando fome. Quanto tempo isso vai demorar para retomar? Profissionalmente, é sempre muito bom ter várias opções de plataforma e a Globo também esta antenada e muito forte neste mercado online. A Globo conhece o Brasil como ninguém. Tem um know-how ali que é impressionante. Você aparece em uma foto do disco novo sem camisa, com o corpo em forma. Mas também já ouvi você falar que tem dificuldade com a alimentação. Como é essa questão hoje? Esse papo de só é gordo quem quer é uma sacanagem. Eu sou compulsivo: tenho problemas psicológicos com a comida. Com o tempo aprendi os truques: não ficar sentado muito tempo à mesa, não comer o primeiro chocolate... Existe uma questão também que se fala muito pouco que é a grana. O padrão de beleza tem a ver com grana: academia, personal trainer, plano de saúde, dentista, nutricionista, shampoo certo.

    Tiago Abravanel: A aceitação do corpo é um processo eterno

    Play Episode Listen Later Apr 8, 2022

    Tiago Abravanel: Achei que coração aberto seria o suficiente "Eu achei que estar aberto de coração era o suficiente para levar o BBB numa boa. Mas esqueci que existia um jogo: não me preparei para tomar algumas atitudes em que eu precisava ser frio. Para que eu não enlouquecesse mais, resolvi apertar o botão e voltar para casa", conta Tiago Abravanel. Muito criticado por sua postura dentro do Big Brother Brasil, ele foi acusado de não se entregar ao programa. Por outro lado, sua curta estadia dentro da casa levantou uma série de questões importantes que cercam a vida do ator e apresentador. Tiago mostrou, sim, que gordo pode tirar a camiseta e ficar à vontade na piscina, apesar de admitir que a autoestima é sempre um processo em construção. "É óbvio que eu chegar no ponto de estar no BBB e tirar a camisa no primeiro dia foi um processo de muita reflexão. A primeira vez que eu usei sunga com tranquilidade social foi em novembro do ano passado", conta. Com a ajuda do BBB, onde admitiu uma relação distante com o avô Silvio Santos, ele começou também um processo de se libertar de uma imagem que, segundo ele, é irreal: "As pessoas imaginam que aquilo que sai no Instagram é exatamente o que acontece em casa. Durante muito tempo isso foi um incômodo porque era como se eu estivesse forçando algo. O Silvio Santos é uma pessoa que amo e tenho um carinho gigante, mas que infelizmente não tem uma relação próxima comigo." Em um bate-papo sincero e inteligente com o Trip FM, Tiago Abravanel falou ainda sobre sexualidade e até Will Smith.  [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/04/62505a1ea6d52/tiago-abravanel-ator-apresentador-bbb-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Tiago Abravanel; ALT_TEXT=Retrato de Tiago Abravanel em um fundo cinza, vestindo camiseta estampada colorida de rosa branco e amarelo e com a mão nos óculos] Trip. Uma das coisas legais do seu trabalho é a forma como você lida com a orientação sexual: falando abertamente de uma forma leve, às vezes incisiva, e às vezes até com humor, como foi no "Super Dança com Famosos". Como foi a percepção da sua orientação sexual? Tiago Abravanel. A questão sexual eu fui entender depois que tive uma paixão platônica aos 16 anos. Eu não conseguia entender que aquilo era uma atração afetiva. Mas a vida me deu a honra de ter nascido do ventre de uma mulher incrível, que me observando desde muito pequeno me disse que havia me apaixonado por esse garoto. Quando eu entendi que a pessoa que eu mais amo no mundo estava do meu lado para qualquer circunstância, me coloquei a disposição para entender esse universo que era muito novo para mim. Lidar com isso sem medo hoje é possível porque eu tive uma família que sempre me apoiou. Se todas as pessoas que passam por essa descoberta tivessem uma relação com a família mais livre, o muno seria diferente. A gente viu no BBB que você foi muito bem com a aceitação do corpo. Chegou logo tirando a roupa e curtindo, dando a impressão de uma total tranquilidade com a questão física. Me fala um pouco deste lado da sua vida. É óbvio que eu chegar no ponto de estar no BBB e tirar a camisa no primeiro dia foi um processo de muita reflexão. A primeira vez que eu usei sunga com tranquilidade social foi em novembro do ano passado. A aceitação do corpo é um processo contínuo e eterno: não é porque eu me olho no espelho hoje e me sinto bem que amanhã eu não vou pensar que não quero estar assim. A gordofobia é uma questão social: a pessoa magra não tem o constrangimento de ficar entalada em uma catraca. Muitas vezes a gente não está feliz com o nosso corpo porque as pessoas associam a gordura à preguiça e falta de saúde. Em um dado momento você se abriu com um dos participantes e falou com uma certa dor sobre o fato de ter um avô ausente. Como você se sentiu depois: foi uma libertação ou uma inconfidência que você preferia não ter feito? Falar sobre a minha relação com a minha família já foi uma questão, mas com 34 anos de idade eu já tenho a maturidade de entender qual é a real relação que tenho com eles. Mas o fato de eu ter uma família pública faz com que as pessoas imaginem que aquilo que sai no Instagram é exatamente o que acontece em casa. Durante muito tempo isso foi um incômodo porque era como se eu estivesse forçando algo que não é real. O Silvio Santos é uma pessoa que amo e tenho um carinho gigante, mas que infelizmente não tem uma relação próxima comigo. É importante que as pessoas entendam que todo mundo tem questões dentro de casa.

    Italo Ferreira: Sem medo de onda grande

    Play Episode Listen Later Apr 1, 2022

    Primeiro campeão olímpico de surf e o terceiro brasileiro a conquistar um título mundial, ele fala sobre treinamento, vaidade e Baía Formosa Os treinamentos físicos dos surfistas de elite começaram a ser cada vez mais focados na força e na potência por uma razão: os aéreos. Na última década, a manobra ganhou importância na avaliação dos juízes do circuito mundial. E, para voar alto, é preciso estar bem preparado. "Antigamente o surfista tinha um treino mais leve, voltado ao movimento. Eu segui um novo caminho, de pegar peso. Isso quebrou com o que todo mundo pensava", diz Italo Ferreira. O primeiro campeão olímpico de surf e o terceiro brasileiro a conquistar um título mundial, Italo contou ao Trip FM como mudar a forma de treinar e alterar a alimentação o fizeram conquistar o lugar mais alto da sua modalidade em apenas um ano. Extremamente criativo e espontâneo dentro e fora do mar, Italo agora se prepara para a etapa de Bells Beach, na Austrália. Mas antes disso ele fez questão de conversar com a gente sobre o medo de onda grande, reflexões sobre vaidade, sua relação com a Baía Formosa entre outros assuntos. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/04/6247667431e5a/italo-ferreira-surfista-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Divugação; LEGEND=Italo Ferreira; ALT_TEXT=Italo Ferreira] Trip. Existe uma imagem famosa de você gritando e comemorando fechado dentro de um banheiro químico quando ganhou a sua primeira etapa do circuito mundial de surf. O que aconteceu naquele momento? Italo Ferreira. As coisas estavam muito perfeitas naquele evento. Em todas as baterias que eu vencia, aquele era o meu momento de concentração, de fazer a minha oração e ficar sem tantas câmeras ao meu redor. Realmente depois que eu venci precisei colocar tudo para fora. Eu não poderia imaginar como foi construída essa história: de vencer o Mick Fanning na final – alguém que eu cresci admirando –, em sua última prova antes da aposentadoria. Seria impossível sonhar com o que aconteceu. Foi dali para frente que eu comecei a me destacar. Quais são os profissionais que te ajudam a chegar nesse estágio de afiação? Hoje você está muito forte, no sentido amplo da palavra. Depois de 2018 percebi que algo deveria mudar. O que estava faltando? Os treinos: eu estava me lesionando muito e era impossível manter um alto nível sem preparo físico. Quando percebi que precisava mudar isso na minha rotina, foi quando eu consegui ser campeão do mundo. Em 2020, depois da pandemia, acabei focando um pouco mais na alimentação. Precisei me manter forte e leve. Isso envolveu nutricionista, fisioterapeuta e treinador físico. Hoje eu consigo saber exatamente o que posso comer dependendo do campeonato que vou participar. Havaí, por exemplo, eu posso ter mais peso porque as ondas são mais fortes. Me conta um pouco sobre o medo das ondas grandes. Mudou a sua relação com esse tipo de campeonato ultimamente? Eu sempre consegui me desafiar, perder um pouco de medo de ondas grandes viajando e explorando outros lugares. Surfar Pipeline gigante quando ninguém entra pode fazer a diferença em um campeonato. É um processo em que ainda estou evoluindo. Não posso dizer que sou expert em todo o tipo de onda, mas hoje consigo me aventurar em ondas maiores.

    João Capobianco: É muito difícil que a gente tenha futuro

    Play Episode Listen Later Mar 25, 2022

    O ambientalista reflete sobre o futuro do planeta, analisa o governo Bolsonaro e discute as posturas ecológicas do mundo corporativo Quando criança, João Paulo Capobianco passava as férias na fazendo do avô, em Minas Gerais, e nada parece ter marcado mais sua juventude do que a imponência dos jequitibás-rosa que cresciam naquele terreno. Desta época, Capô, como é conhecido, herdou o amor pela natureza e um tino para o agronegócio. Produtor de café orgânico e biólogo de formação, ele já conta mais de quatro décadas trabalhando em favor da conservação do meio ambiente. Entre seus trabalhos mais importantes estão a fundação da Fundação SOS Mata Atlântica e o período em que passou no Ministério do Meio Ambiente, entre 2003 e 2008, quando foi responsável pela redução de 54% nas taxas de desmatamento da Amazônia. Apesar do trabalho incessante, o ambientalista encara a realidade com desânimo: “É muito difícil que a gente tenha futuro, mas já mudamos muito de cinquenta anos para cá. Nós estamos trabalhando para construir uma plataforma de onde vai sair uma solução. A dúvida que eu tenho é se vamos inventar isso a tempo”. Em um papo com o Trip FM, Capobianco ainda analisa o governo Bolsonaro e as tentativas do mundo corporativo de adotar posturas ecológicas. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/03/623de12784cf2/joao-paulo-capobianco-ambientalista-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=João Paulo Capobianco; ALT_TEXT=João Paulo Capobianco] Trip. O seu avô foi uma pessoa que tentou defender uma área de floresta em um tempo em que isso não era muito comum. Quem foi ele? João Capobianco. Ele não era um ambientalista. Foi um produtor de café muito dedicado, mas que tinha uma ligação fortíssima com a floresta. Cerca de 70% do seu terreno era preservado e entre várias espécies simbólicas, existiam ali os jequitibás-rosa. Era uma coisa inacreditável: treze homens não conseguiam abraçar algumas das árvores. Ninguém sabe explicar direito o motivo, mas com a crise de 1929 ele foi o único que não vendeu madeira para superar as dificuldades financeiras; a mata dele foi a única que sobrou. Quando ele morreu, veio a partilha entre os nove filhos e uma das primeiras providências de alguns deles foi derrubar as árvores. Ali nasceu meu veio de ambientalista, para defender aquilo que meu avô defendeu a vida toda. Na sua visão, de alguém que estuda o meio ambiente faz quatro décadas, qual é o estado do planeta neste momento? Nem nos mais radicais discursos alarmistas da questão ambiental poderíamos imaginar que chegaríamos em uma situação tão concreta quanto a atual. É comum que o ambientalista tenha um discurso exagerado, quase catastrofista, para poder mostrar a gravidade das coisas. A imprensa só cobre o que é grave. Mas o fato real é que hoje até nós nos surpreendemos.  Nenhum de nós imaginava que a aceleração das transformações fosse tão grande e tão disruptiva. Os estudos também foram ganhando muita densidade – hoje os relatórios são inquestionáveis e não há mais dúvida sobre o que está acontecendo, a não ser para meia dúzia de negacionistas. O ser humano sempre foi o ator principal no domínio da natureza, mas se não houver de fato uma ação, nós vamos ter o clima como o nosso principal inimigo, coisa que nunca aconteceu na história da humanidade. O quanto a gente como nação está se afundando com as ações tomadas por este governo? A partir da constituição de 1988, houve sempre um avanço – em alguns governos maior e em outros menor – na conservação do meio-ambiente. Com a eleição de Bolsonaro, acontece uma ruptura histórica. Mais do que reduzir a gestão ambiental a algo desimportante, houve retrocessos. Ao mesmo tempo em que o governo retirou o controle ele estimulou a ação predatória. Para retomar uma condição de governabilidade haverá muita reação.

    Tati Bernardi: O feminismo é um caminho sem volta

    Play Episode Listen Later Mar 18, 2022

    A escritora e roteirista fala sobre tudo – até as coisas mais íntimas –, mas também não tem medo de mudar de opinião Desde que deixou a profissão de publicitária para se tornar escritora, Tati Bernardi virou mestre na arte da auto-exposição. Como personagem de suas próprias crônicas, por algumas vezes ela não conseguiu escapar da fúria de seus leitores, mas quando foi preciso, soube ouvir e evoluiu. Nunca deixou, no entanto, de usar o seu dia a dia e os que estão a sua volta como material para escrever. "De criança eu percebi que esse era o meu talento e que talvez fosse o único. Já perdi namorado, fiquei um tempo sem falar com a minha mãe, mas a verdade é que estou nem aí. Escrever me dá muito prazer e me conecta com o mundo, porque escrevo coisas reais".  Quando não está evocando ternura e fúria com suas colunas, a ex-publicitária é roteirista de sucesso, com um currículo que inclui a franquia Meu Passado Me Condena (que rendeu dois filmes blockbuster com Fábio Porchat e Miá Mello, uma série de TV, uma peça e um livro), o programa Amor & Sexo e a novela Sangue Bom. Em um papo sincero com o Trip FM, Tati ainda falou de gravidez, dinheiro, publicidade e psicanálise. Trip. Quando você começou a entrar nesse lugar de olhar para dentro e se expor dessa forma? Tati Bernardi. Eu gosto demais de me expor ao ridículo. Engraçado, minha escolha artística é ficar olhando para os meus furos e meus defeitos. Claramente eu faço isso com tudo: a maior parte do tempo é comigo, mas a tendência é de fazer com qualquer pessoa que eu me relacione. Tomo todo o cuidado do mundo para não expor nome, idade, cidade, mas existe sempre um pouco de tenção. Pessoas que vivem muito de pose, geralmente são pessoas que não conseguem estabelecer um contato comigo, mesmo que superficial. Percebo que ou a pessoa se desmonta e me conta uma coisa ridícula dela ou senta longe de mim. Isso é o que eu dou, então parece que a pessoa que estabelece um contato comigo precisa dar um pouco do defeito também. Eu venho de uma família que ama através do bullying. Acho que sobrevivi a esse ambiente e isso me fortaleceu. Muita gente vai dizer que é mentira, mas gosto quando alguém me critica. Quando a destruída é bonita, tenho até um certo fetiche. O humor é uma demonstração de inteligência. Não tem um pouco disso, das pessoas ficarem incomodadas com a inteligência que você acaba demonstrando?Existe esse pavor de que riam da cara. Quando eu era uma estagiária de publicidade, lembro que fazia sucesso em encontros porque ficava batendo palma para a piada dos outros. A partir do momento em que fui tendo uma força, de rebater a piada, percebi que comecei a perder o jogo da conquista. É um tipo raro de homem o que aceita que uma mulher vá ficar a noite inteira fazendo piada porque o humor é um jogo de poder. Muito homem não aceita perder nesse jogo. É uma coisa sabida de que o humorista tem um lado depressivo. Existe algo disso na sua personalidade? Eu tenho uma tendência a depressão que só descobri na gravidez. Sempre fui ansiosa e eufórica. Existem dois tipos de bipolaridade: a grave e a que é mais próxima da neurose. Eu não vou querer comprar um shopping inteiro, mas tenho um pouco desse exagero, deslumbramento pela vida. Sempre achei que era o oposto da depressão. Há dez anos eu faço tratamento para a ansiedade. Nunca fui a louca do remédio, sempre tomei um antidepressivo, mas em dose baixa. Quando eu fiquei grávida e parei com isso a gravidez me tirou dessa empolgação, me tirou da coisa cerebral e me trouxe para o corpo, o que foi muito diferente para mim. Fiquei muito deprimida, com muito sono, anêmica, sem querer tomar banho, comer. Entendi que na verdade eu sou uma pessoa deprimida. O humor com certeza é uma proteção para o tamanho do medo que eu tenho da minha tristeza. Me separei, estou vendo meus pais envelhecerem. Tenho lidado com alguns problemas pesadas da vida adulta e o tamanho da dor que eu posso sentir é gigantesco. É por isso que trabalho com humor, porque tenho medo da profundidade dessa dor que eu posso chegar.

    Pastor Henrique Vieira: Nem todo evangélico é conservador

    Play Episode Listen Later Mar 11, 2022

    O fundador da Igreja Batista do Caminho fala sobre intolerância religiosa, Bolsonaro, a experiência de atuar em Marighella, amor e até BBB O Pastor Henrique Vieira, fundador da Igreja Batista do Caminho, cimentou seu lugar como líder espiritual com muito estudo. Professor, poeta, palhaço, ator e ativista, são muitas as facetas que leva ao púlpito. De voz firme e uma tremenda simpatia, ele viu seu nome ficar ainda mais em evidência quando seu personagem no filme "Marighella", de Wagner Moura, defendeu a possibilidade de Jesus ser preto, algo que o religioso já afirmava muito antes do filme. “A discussão vai além de uma questão de cor da pele. Jesus foi torturado e executado, era um corpo descartável. Sua experiência está profundamente conectada com a experiência do povo negro nas Américas e no Brasil". Um humanista, antes de mais nada, Pastor Henrique já foi vereador em Niterói pelo PSOL, mas hoje opta por militar por direitos iguais a todos em outras frentes. Mesmo quando celebra casamentos, defende uma existência menos alienada: "De uma forma sensível e poética, tento dizer aos casais para que não vivam um amor burguês, centrado na própria casa. Gosto quando os casais vivem o afeto, mas também abrem a janela". Em um papo com o Trip FM o pastor ainda falou de palhaçaria, infância e até Big Brother Brasil. Confira no play ou leia um trecho abaixo. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/03/622a884f560ad/pastor-henrique-vieira-tripfm-mh2.jpg; CREDITS=undefined; LEGEND=undefined; ALT_TEXT=undefined] Trip. Me conta um pouco da sua gênese. Como você vem ao mundo? Pastor Henrique Vieira. Eu nasci em Niterói, vivi lá até 2016. Cresci em Fonseca, um bairro periférico e popular. Ali morei com minha mãe, pai e dois irmãos: sou o caçula. Foi uma infância, apesar das dificuldades materiais, muito rica em imaginação e brincadeira. O carinho da minha mãe e minha avó me marcou muito. Apesar das dificuldades, existiu muita alegria, jogando bola de pés descalços, no asfalto. Me diverti bastante. Você tem contato direto com toda a realidade no Brasil, com todos os seus preconceitos. Queria que você me falasse sobre o preconceito contra o evangélico. Isso precisa ser bem explicado. Primeiro, neste país muito marcado pela intolerância, as religiões que mais sofrem são as de matriz africana. Terreiros são destruídos, pais e mães de santo são ameaçados. É também verdade que existe um estigma sobre o campo evangélico, como se todo evangélico fosse conservador e ignorante. É uma forma de preconceito, sim. Isso é perigoso e precisa ser superado. O que mais marcou você no set do filme Marighella? Foi uma energia muito bonita. Todo mundo que participou estava engajado em contar uma história tão importante para o nosso país de hoje. Mas eu quero destacar o trecho em que o meu personagem aparece torturado. Essa cena seria gravada no fim da tarde, mas a maquiagem foi feita de manhã. Quando eu abri os olhos e vi aquilo fiquei muito impactado, mexeu muito comigo. Em mim era uma maquiagem, mas em muitas pessoas foi tortura mesmo. Tive uma crise de choro muito intensa. No meu caso tem ainda mais um elemento, porque eu sou pastor e de esquerda, dos direitos humanos, que estava interpretando um religioso lutando contra a ditadura. Então, de alguma forma, aquilo tinha a ver com as minhas opções de vida. Lembrei muito do Frei Tito, que foi torturado pela ditadura.

    Andréia Sadi: Ser mãe é uma desconstrução

    Play Episode Listen Later Feb 25, 2022

    A jornalista fala das mudanças depois da chegada dos gêmeos João e Pedro, os desafios da maternidade, música, corrida e política Uma das mais influentes repórteres do Brasil e mãe dos gêmeos João e Pedro, de dez meses, Andréia Sadi brinca: "Nunca mais vou poder dizer que está para nascer o homem que vai mandar em mim – a vida me deu logo dois". Com o nascimento dos bebês, veio também o que ela chama de caos organizado. Mas é com a mesma tranquilidade e bom-humor com que faz um boletim ao vivo, que Sadi garante não dar conta de tudo. No dia a dia, precisa priorizar, resolve o que é importante e deixa o resto de lado. Profissionalmente, sua missão é explicar o intricado cenário político brasileiro, o que faz em várias frentes, como o Jornal Hoje, da Globo, o programa Em Pauta e os noticiários da GloboNews, onde ficou conhecida pelo público, além do Em Foco, também exibido pelo canal. No programa, sua primeira empreitada solo, tem recebido alguns dos maiores protagonistas da política nacional, e contemplado os dois lados da polarização, do senador Flávio Bolsonaro ao deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ). Para construir todas essas relações, Andréia morou por dez anos em Brasília. Chegou à cidade aos 21 e trabalhou para iG, G1, Folha de S.Paulo, até começar na GloboNews, em 2015. Ferrenha defensora do jornalismo, diz citando o senador norte-americano Daniel Patrick Moynihan: "Todo mundo tem direito a ter opinião. O que você não tem é direito ao próprio fato". A repórter, que adora um hard news, ficou no ar por 24 horas em duas ocasiões, protagonizou algumas gafes e até virou vinheta da GloboNews. Também já deu furo do táxi, presa no congestionamento, via celular.  Em um papo com o TripFM, a apresentadora ainda falou de música, corrida e educação dos filhos. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/02/62193abc9a9d3/andreia-sadi-jornalista-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Alex Batista; LEGEND=Andréia Sadi, fotografada por Alex Batista para a capa da revista TPM, em 2019; ALT_TEXT=Andréia Sadi, sorrindo, fotografada por Alex Batista para a capa da revista TPM, em 2019] Trip. Você é uma pessoa muito solta e independente e de repente chegam duas âncoras maravilhosas. Me diz, existe vida após os gêmeos? Andréia Sadi. Brinco que nunca mais vou poder dizer que está para nascer o homem que vai mandar em mim: a vida me deu logo dois. Eu sabia que a vida iria mudar, mas não sabia como. Posso dizer que mudou para melhor. Na prática, mudou tudo, claro, estou mais cansada. Por outro lado, em casa eu tenho um caos com método. Sou caótica, mas consigo me organizar. O quanto essa espontaneidade de colocar um pouco do humano, do sorriso, foi uma alavanca importante para o seu sucesso? Desde pequena eu gosto de gente, de conversar com as pessoas. Lembro que resolvia logo as matérias da escola para ficar agitando. Com o jornalismo, passei a entender que aquilo que eu apurava em Brasília não traduzia para as pessoas com quem eu convivi tanto durante a minha vida pessoal. Quando comecei, ligava para os meus amigos para perguntar se eles tinham entendido alguma coisa e eles respondiam que não. Como eu já falei para a Tpm, percebi então que precisava ligar a tecla SAP. De maneira geral, a massa de modelar do Congresso é de doer. Não tem o perigo de você se desencantar e não ter mais o menor saco de ouvir nada da boca desses caras? Não, primeiro porque eu sou taurina, teimosa. Eu quero que as pessoas entendam que aquilo é da conta delas. Me incomoda quando alguém me fala que não gosta de discutir política. É preciso participar, é sobre a sua vida. Quando a pandemia começou e a gente viu que precisava de uma gestão pública para se proteger quando ainda não havia a vacina, lá no início, quando o governo fez tudo na contramão dos especialistas, aquilo sim me deu uma tristeza profunda. Fiquei muito assustada, mas ao mesmo tempo fiz questão de ser parte do processo jornalístico para que as pessoas entendessem que era preciso seguir a ciência. Nesse caso, ficamos mais fortes como portadores da informação, já que ela salvou muitas vidas. Claro, eu fico triste, tem dias que choro, mas não perco esse brilho: seguir faz parte de participar.

    Chay Suede: Nunca sonhei em ser ator

    Play Episode Listen Later Feb 18, 2022

    Protagonista do filme "A Jaula" fala do início da carreira, família, dinheiro e morte Chay Suede nunca sonhou em ser ator ou músico. Um adolescente preguiçoso, como lembra ser, ele começou a mudar quando em 2010 – incentivado pelo pai – angariou um respeitável quarto lugar no reality show “Ídolos”, da Rede Record. A partir daí, o hobby de tocar violão em rodas de família virou coisa séria, mas as dificuldades de fazer dinheiro como cantor eram muitas. Como desde muito cedo Chay ajudou financeiramente em casa, a oportunidade de entrar na TV Globo atuando na novela “Império”, de 2015, tornou-se irrecusável. Mas foi somente quando chegaram os ensaios, e viu grandes atores brincando e jogando, que ele se apaixonou pela profissão e entendeu que poderia colocar ali toda a sua vontade de criar.  Com 29 anos e casado com a atriz Laura Neiva, com que tem dois filhos, Chay pode ter readaptado o sonho de ser músico, mas há um desejo do qual o artista não abriu mão: “Eu não sonhava em ser ator, mas muitos sonhos foram se ressignificando durante a minha vida. Já o sonho de ser pai jovem foi um que nunca mudou e eu tive muita sorte de encontrar alguém para realizá-lo comigo”. Já solidificado como um dos grandes atores de sua geração, ele agora chega aos cinemas com aquele que talvez seja o seu maior papel até hoje, o do ladrão Djalma, que ocupa sozinho a tela durante boa parte do filme “A Jaula”, de João Wainer. Chay Suede bateu um papo com o Trip FM sobre o início da carreira, família, dinheiro e morte. Confira no play ou leia um trecho a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/02/620ffa7acd565/chay-suede-ator-jaula-cinema-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Fabio Audi; LEGEND=Chay Suede; ALT_TEXT=Chay Suede] Trip. Vamos falar da sua origem. Você vem de que família? Como era o ninho de onde você nasceu? Chay Suede. Sou de Vitória, nascido em Vila Velha. Sempre morei no subúrbio de Vitória, no bairro Santo Antônio. Um lar cristão, muito envolvido com a igreja. Meu avô trouxe para o Espirito Santo, como pastor, uma igreja evangélica nova, de origem holandesa. Pelos dois lados, vim de um ambiente muito cristão e, por isso, muito musical também. Meu pai e minha mãe tiveram uma banda e eu viajava com eles o Brasil inteiro. Você participou do "Ídolos”, começou com a música. Você sempre soube que tinha uma veia artística evidente? Foi um processo muito diferente. Era zero óbvio que seria artista na época, mas olhando hoje, de longe, vejo que dava sinais, sim. Antes de "Ídolos" eu nunca tinha cogitado viver de arte, sempre via as coisas que fazia com a minha banda como um hobby. A princípio pensava em ser roteirista. Foi algo que aconteceu de maneira improvável. Como você aprendeu a lidar com isso que a Fernanda Montenegro chama de ofício? Com é, para você, essa ourivesaria de construção do personagem? Isso foi gradativo até certo ponto e brusco depois de outro. Nunca me imaginei como ator. Fui convidado a ingressar para a novela teen “Rebeldes" única e exclusivamente por conta da musicalidade da série. Logo já fui avisando que não era ator e que não teria intenção de continuar depois. Quando acabou, me mudei para São Paulo para tentar viver de música, com certa dificuldade. Quando as coisas começaram a apertar financeiramente, fui convidado a fazer um teste para “Império". Resolvi agarrar. Quando passei, o que vinha sendo gradativo se tornou algo definitivo. Ver os maiores atores do Brasil brincando e jogando dentro de uma sala de ensaio é mágico. Na primeira vez que vi essa cena tive a certeza de que era aquilo que queria viver.

    Ana Michelle Soares: O que existe está no presente

    Play Episode Listen Later Feb 11, 2022

    Fundadora da Casa Paliativa, a jornalista acolhe pacientes com doenças graves para falar sobre dor, autoconhecimento e vida Ana Michelle Soares está viva agora. É neste espaço de tempo, no presente, em que ela escreve, ajuda outras pessoas e faz planos para o futuro. Diagnosticada com câncer de mama metastático há quase uma década, ela espera poder viver mais dez anos, mas aprendeu a não condicionar a sua felicidade ao que está por vir. Em vez disso, usa as horas que tem para se dedicar a Casa Paliativa, projeto criado junto com a médica Ana Claudia Quintana Arantes para acolher pacientes com doenças graves e falar sobre dor, autoconhecimento e vida. Luta também por uma medicina mais humana na qual médicos não minimizem a dor do doente. Recentemente, a jornalista lançou o livro "Vida Inteira", uma reflexão aberta e verdadeira sobre diversos momentos de sua vida, o que inclui o término de um casamento abusivo. "Me sentia muito mais morta vivendo uma relação abusiva do que me sinto tendo uma doença grave. Hoje, cada célula do meu corpo está viva e a fim desse rolê do jeito que ele se apresenta", diz. Ana bateu um papo com o Trip FM sobre sua infância, a experiência transformadora da ayahuasca, maconha, e – como não poderia deixar de ser – vida e morte. Confira no play ou leia um trecho a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/02/620546843ef40/ana-michelle-soares-cancer-cuidados-paliativos-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Ana Michelle Soares; ALT_TEXT=Ana Michelle Soares] Trip. Eu queria voltar lá para trás: como era a sua família de origem? Em que lugar você nasceu e de que jeito você veio para o mundo? Ana Michelle Soares. As pessoas acabam querendo contar a minha história a partir de um diagnóstico. É muito difícil entender como eu me conecto com a vida sem dizer que tive uma infância sofrida. Por isso gosto dessa pergunta. Nasci em uma cidade satélite de Brasília chamada Gama. A gente já cresceu precisando sobreviver às dores sociais. Ainda bebê, tive uma hérnia durante um período de greve dos hospitais. Minha mãe chorava e ninguém podia me atender. Meu pai precisou implorar por uma cirurgia em uma clínica particular. Eu venho deste contexto, de uma família que tentou melhorar a condição para os filhos. Meu pai assumiu esse compromisso. O que você aprendeu sobre dinheiro nesse percurso de entender a vida e a morte? Fui diagnosticada com 28 anos. De repente esse muro da finitude foi me apresentado em uma época em que se planeja tudo: casa, carro, filhos. Depois do adoecimento, comecei a olhar para as mídias sociais e observei o sofrimento das pessoas com o dia útil. E como é um paradoxo usar essa palavra, pois a gente transforma esse dia em inútil. Ninguém coloca na conta de vida esse espaço de tempo que para o nosso cotidiano é importante; todo mundo precisa de moeda, de dinheiro. Ninguém vive de luz e amor. O trabalhar virou um sofrimento para que se ganhe um pouco de felicidade no fim de semana. É preciso ressignificar isso ou procurar algo que deixe a sua alma mais em paz nesse dia útil. As pessoas têm medo de serem felizes. Você é muito generosa no seu livro em compartilhar experiências. Eu queria saber melhor de uma delas, com a ayahuasca, como foi isso? Ela veio durante uma busca espiritual, uma inquietação que sempre tive com a ideia de que a gente precisa temer a Deus. Pesquisando alternativas, cheguei nas praticas xamânicas e na ayahuasca. Foi realmente um antes e depois. O que mais me impactou foi a dimensão de tempo. Me pareceu óbvio que tudo que existe está neste momento: não vou me chicotear pelo que já foi. Mas isso também não significa que estou presa ao presente. Posso estar morta na semana que vem e mesmo assim faço planos. Só não dependo deles para ter um pouco de felicidade.

    Vladimir Brichta: Minha privacidade não está à venda

    Play Episode Listen Later Feb 4, 2022

    Ator fala sobre a decisão de não ter redes sociais, de surf, família e Rio de Janeiro Nascido em Minas Gerais, criado na Bahia e há mais de vinte anos morador do Rio de Janeiro, Vladimir Brichta conta ter sido uma criança agressiva que encontrou no teatro um pouco de equilíbrio. Foi nos palcos que ele achou também a primeira mulher, a cantora Gena Carla Ribeiro, com quem teve a primogênita Agnes, hoje parceira de atuação na novela "Quanto Mais Vida, Melhor!". Viúvo muito cedo, ainda aos 24 anos, nosso entrevistado começou a se destacar para o grande público depois de uma década de ralação com a peça "A Máquina", que também revelou os parceiros Wagner Moura e Lázaro Ramos. Seu primeiro papel na televisão veio um ano depois, em 2001, na novela "Porto dos Milagres". Depois ainda fez o inesquecível Armane, o vendedor de bugigangas de "Tapas e Beijos", além de uma série de outros papéis de destaque em novelas da Globo que lhe renderam a alcunha de galã-cômico. "O elogio ou a pecha de galã não me incomoda. Sabia que era um lugar que poderia ocupar e que faria isso da melhor forma possível", diz. Nos cinemas, interpretou brilhantemente o personagem principal de "Bingo", filme inspirado na vida de Arlindo Barreto, o palhaço Bozo. Casado atualmente com Adriana Esteves, ele ainda se prepara para estrear o mais novo filme de Júlio Bressane, "Capitu e o Capítulo". Em um papo com o TRIP FM, Vladimir falou da decisão de não ter rede social, de surf, família e Rio de Janeiro. Confira no play abaixo ou leia um trecho a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/02/61fd9595a0751/vladimir-brichta-ator-tripfm-mh.jpg; CREDITS=undefined; LEGEND=undefined; ALT_TEXT=undefined] Trip. Como você vê o fato de que as pessoas estão sendo contratadas, não só no mundo das artes, pela projeção que elas têm nesse mundo paralelo que é o mundo das redes sociais? Vladimir Brichta. Isso é terrível. Não tenho rede social, mas sei que perco até mesmo financeiramente com isso. E também deixo muitas vezes de participar do debate, apesar de achar que teria coisas para acrescentar como figura pública. Às vezes me pego pensando se não estou perdendo esse canal. Mas não quis pagar o preço de alimentar as redes sociais com uma das coisas que é mais valiosa para mim: a minha privacidade. Mas falo isso de um lugar privilegiado, de um ator pop que começou a carreira há trinta anos. O quanto o surf ainda tem importância na sua vida? Costumo brincar que todo mundo precisa de um elemento alienador. O meu é o surf, depois a gente salva o mundo, mas antes me deixa aqui vendo um pouco de onda. É como se fosse um pouco aquela cenoura que o coelho corre atrás e nunca alcança, fazendo a esteira girar. O surf está sempre em um lugar distante que eu quero alcançar e para isso eu preciso estar bem, saudável e realizado profissionalmente. Já mudei corpo em função de trabalho, mas o que geral eu falo para os médicos é que não importa o corpo, mas precisa ser um corpo possível para surfar. Neste mundo em que tudo é público como é para você, que trabalha com o corpo, envelhecer na frente de todo mundo? Quando você é uma figura pública, o envelhecimento é cobrado. Isso é pior quando você ocupa o lugar do galã. O elogio ou a pecha de galã não me incomoda.  Eu sabia que era um lugar que poderia ocupar e que faria isso da melhor forma possível. Mas eu sempre achei que envelhecer, e envelhecer bem, é a melhor das opções: até porque a outra é parar por aqui. Como eu não tenho rede social, aquele comentário mais baixo, do anonimato, eu não encontro. O julgamento não chega até mim. Envelhecer não me aflige. O que preocupa é o que estou fazendo com esse meu tempo; isso é o que importa.

    Alice Braga: Não se julga o ator por suas redes sociais

    Play Episode Listen Later Dec 24, 2021

    A atriz que estreou dois blockbusters em 2021 fala sobre vida em Hollywood, política e streaming Há vinte anos Alice Braga saía a pé de seu colégio para encontrar o diretor Fernando Meirelles em sua produtora, a 02 Filmes, e conversar sobre um possível papel no filme Cidade de Deus, hoje considerado por muitos o melhor longa-metragem já feito no Brasil. De lá até aqui, a indústria mudou, com portas cada vez mais estreitas para a entrada de atores desconhecidos. "Começaram a pedir número de seguidores em teste de elenco. Isso é um absurdo; não deveria ser medida para nada. Como vamos empregar pessoas incríveis que são desconhecidas?", questiona a atriz. A chance que ela recebeu de Meirelles a fez conquistar muito rapidamente, como nenhuma atriz brasileira antes dela, um espaço cativo em Hollywood.  Somente em 2021 Alice estreou dois blockbusters – Novos Mutantes e Esquadrão Suicida –, além da última temporada da série Rainha do Sul. No dia 6 de janeiro, a todos esses trabalhos ela soma a estreia do nacional “Eduardo e Mônica", baseado na música do Legião Urbana. Mas nada, ela promete, a faz esquecer da menina hippie, meio envergonhada, que saiu de São Paulo. Em um bate-papo com o Trip FM, a atriz falou ainda sobre fama, política e streaming. Confira no play abaixo ou leia um trecho a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/12/61c0e0c1270a8/alice-braga-atriz-tripfm-mh.jpg; CREDITS=undefined; LEGEND=undefined; ALT_TEXT=undefined] Trip. Deve ser difícil hoje em dia estar no mundo do entretenimento ao mesmo tempo em que você quer ter uma vida. Parece que algo que você equilibra bem. Alice Braga. Eu sempre fui mais reservada. Era tímida, mas tinha um lado que era ativado para poder me comunicar com as pessoas. Ao passo em que fui ganhando mais reconhecimento, de uma forma natural, comecei a querer proteger meus personagens, porque quanto mais a gente sabe da vida do ator, do que ele faz, menos você compra aquela pessoa. Existe, sim, essa demanda da mídia social. É um problema para vários atores porque começaram a pedir número de seguidores em teste de elenco. Isso é um absurdo; não deveria ser medida para nada. Como vamos empregar atores incríveis que são desconhecidos? Você consegue imaginar onde vamos estar daqui a dez anos? Acha que vamos continuar a andar para trás como nos últimos três? Eu tenho um lado que acha o Brasil foda, mas meu lado realista sabe que as coisas que esse governo fez vão ter consequências por muito tempo. Em 2022 a gente não só precisa mudar quem está na presidência, mas precisamos avaliar quem está em nosso Congresso. Meu desejo é que a gente use esse tempo duro para gerar uma transformação potente na desigualdade social e que a gente proteja nossas florestas. Construir a sua carreira em cima de outras bases, fora da Globo, foi uma decisão consciente? Quando adolescente, cresci querendo fazer Globo, mas tive algumas oportunidades mágicas no cinema. Foi um caminho que as coisas tomaram que devo muito aos meus pais, que me mantiveram no colégio e fizeram questão que eu vivesse as fases da vida. Você vê que pessoas estão saindo de contratos com a Globo para ficarem mais livres. Essa pluralidade de meios de publicação é muito importante para dar força para a nossa indústria, principalmente nesse momento em que o governo ataca a cultura.

    Fabrício Carpinejar: Felicidade é pausa entre tristezas

    Play Episode Listen Later Dec 17, 2021

    Poeta explica razão dos óculos amarelos, sua marca registrada e fala sobre dinheiro, igualdade e morte Gaúcho de Caxias do Sul, filho de escritores e uma das referências culturais deste país, o poeta Fabrício Carpinejar, apenas em 2021, adicionou três lançamentos a uma lista que agora tem 48 livros publicados. A produção acelerada não é novidade – o que mudou foram os temas. Acostumado a tratar de relacionamentos, ele foi empurrado pela pandemia a enfrentar, como muitos de nós, a ideia da morte. "A felicidade é uma trégua entre duas tristezas. Se você força a permanência da felicidade, você já está ficando triste", conta. Carpinejar se formou em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente, é colunista dos jornais Zero Hora e O Tempo, além de ser comentarista do programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo. Na televisão, também comandou entre 2012 e 2016 o talkshow A Máquina, na TV Gazeta, e, no teatro, apresenta o stand-up O Amor não é para os Fracos. Na conversa com o Trip FM, o cronista ainda explicou a razão dos óculos amarelos, sua marca registrada, falou sobre dinheiro, igualdade de gênero e defendeu a escrita como uma forma de cura. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/12/61bcf7284717e/fabricio-carpinejar-escritor-poeta-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Vicente Carpinejar; LEGEND=Fabrício Carpinejar; ALT_TEXT=Fabrício Carpinejar entre 2 balanços vazios em movimento] Trip. Eu sei que para alguns motoristas, por exemplo, os óculos de lente amarela ajudam com os reflexos. Os seus são funcionais ou apenas um adereço que você gosta de usar?  Fabrício Carpinejar. Tem essa parada de ajudar nos reflexos, mas tem uma parada de funcionar como uma compensação. Eu não tenho sobrancelhas; é um tracinho, esqueceram de colocar. Quem não tem sobrancelhas não é confiável, ela é o marcador de página do rosto. O que eu fiz? Promovi meus óculos a sobrancelha. Entre outras coisas, nesse período em que a gente ficou sem se falar, você fez um curso de cura pela escrita. Qual era a intenção disso? O meu papel era trazer essa chama de volta, a faísca da democratização da escrita, da escrita como extensão terapêutica, fora do reduto intelectual. Existe uma elitização da escrita: parece que só o escritor deve usá-la. Escrever à mão é uma forma de se conectar profundamente consigo. É uma forma de combater a ansiedade, de revisar os seus pensamentos antes de tomar uma decisão. Todo mundo deveria ter um diário. Você já me falou que pega mal ser culto nesse país. A impressão é que isso piorou com esse governo. Houve uma legitimação da estupidez? Você sente essa piora? Pioramos. Hoje você xinga para depois conhecer. Há um entendimento de que o intelectual é um vadio; um mendigo no semáforo da Lei Rouanet. Há uma crença de que o intelectual vai enriquecer com o dinheiro público. Eu vejo o estado lamentável das nossas bibliotecas, elas têm uma defasagem de vinte anos para receber um livro. A cultura dá a cidade para o leitor. A vida cultural é também um acesso a vida política.

    Deborah Colker: Sempre haverá uma cura

    Play Episode Listen Later Dec 10, 2021

    Bailarina e coreógrafa fala de religião, grana, inclusão, ciência e mais "O vestuário do bailarino é a dor", conta a coreógrafa e diretora de espetáculos Deborah Colker. O esforço físico, os ensaios à exaustão, os calos causados pela sapatilha de ponta nunca foram estranhos ao universo da dançarina, mas nenhuma mácula física conseguiu preparar Deborah para o que ela enfrentaria com a nascimento de Theo. Diagnosticado com epidermólise bolhosa, uma doença genética sem cura, ele se tornou ao mesmo tempo uma felicidade enorme para a família, como o primeiro neto, e um meio para um crescimento espiritual. No início, os sentimentos dominantes foram de indignação e raiva, mas Deborah encontrou maneiras de remendar a alma. Buscou apoio tanto na fé quanto na ciência e hoje faz turnê com seu mais novo espetáculo, que reflete essa luta e não por acaso foi intitulado “Cura”. "A cura sempre existe. Se não é possível curar no plano físico, ela vem no plano intelectual, emocional ou espiritual", diz. A primeira mulher a dirigir o Cirque de Soleil no mundo e uma das peças mais importantes na criação da abertura dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, em 2016, Deborah Colker bateu um papo com o Trip FM para falar ainda de religião, grana, inclusão, ciência e mais. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/12/61b3808baa9bd/deborah-colker-coreografa-bailarina-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Deborah Colker; ALT_TEXT=Deborah Colker] Trip. Seu novo espetáculo faz uma mistura de candomblé com judaísmo, uma fusão não vista comumente. Você também me falou um pouco da sua mãe, uma verdadeira yiddishe mama. Como é ser judia hoje em dia? Deborah Colker. Eu perguntei um dia para a minha mãe o que era ser judeu. Ela respondeu que ser judeu é gostar de ser judeu. A resposta me deu um alívio. Eu gosto muito e me reconheço judia em vários momentos. Eu tenho um compromisso com a vida que vem da educação judaica. Sempre fui muito estimulada a me aproximar das artes, meus pais acreditavam que a arte é transformadora. O meu lado judeu passa muito mais pela maneira de pensar do que pela religiosidade. Você tem uma conjunção de características muito especial, algo que talvez torne o seu trabalho o que ele é. E dentro desses atributos existe uma característica que, por si só, abriga outras milhares, que é ser carioca. O que é ser carioca? Ser carioca é gostar da rua. Eu adoro a rua. Eu sou uma artista internacional, mas é impressionante como sou carioca. Já tive todas as oportunidades de ficar fora, mas eu adoro a esquina da minha casa, eu adoro beber a uma cachacinha lá. Eu gosto desse leque que o Rio de Janeiro tem: essa cidade tão misturada, tão inspirada. Eu me conecto com o mundo através do Rio. Você é uma pessoa que trabalha muito em equipe. Mas você é brava no ambiente de trabalho ou é fofa? Fofa é uma palavra que não me cabe. Eu boto na mesa, se alguém vier com uma ideia melhor do que a minha eu logo falo que é legal. Mas se a ideia for ruim eu logo critico também. Quando eu estou fazendo algo é porque estou apaixonada: aquilo é a minha carne. Eu sou intensa, obsessiva. O espetáculo pode ser em Londres ou o de fim de ano da minha escola, é o mesmo compromisso. Sou explosiva: se precisar quebrar um prato eu quebro, mas não quebro na cabeça da pessoa, não.

    Roberto DaMatta: O Brasil precisa parar de se suicidar

    Play Episode Listen Later Dec 3, 2021

    O antropólogo que dedicou a maior parte de sua vida a entender o que é o Brasil fala sobre o fim da vida, fama e o momento político do país Roberto DaMatta sempre preferiu andar na contramão. No fim dos anos 60, quando muitos de seus companheiros protestavam contra a influência americana no país, o antropólogo de Niterói (RJ) rumou aos Estados Unidos para fazer mestrado e doutorado em Harvard. Por outro lado, enquanto outros tentavam entender o Brasil a partir de teses marxistas ou de estruturalistas franceses, ele resgatava o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, passava ao largo do conceito de classe social e tentava construir uma antropologia à brasileira, baseada na observação e compreensão de fenômenos locais como o Carnaval, o futebol, o jogo do bicho. De 1987 a 2004, o antropólogo foi professor da Universidade de Notre Dame, em Indiana – e se tornou a voz mais ouvida pelos americanos para tentar entender o Brasil. Mas nunca tirou os dois pés de seu país natal. Voltava três vezes por ano e se abastecia de novas ideias. Até que cansou dos EUA e decidiu retornar de vez para morar em Niterói. DaMatta voltou em 2004, entre outros motivos, para ficar perto dos filhos e netos. Mas teve de lidar com várias perdas na família desde então: o irmão mais novo morreu de câncer; o filho mais velho, comandante da Varig, sofreu um infarto fatal; a mulher chegou a um estágio avançado do Alzheimer. Em um papo com o Trip FM, o antropólogo fala sobre a morte, fama e discute o momento político do país. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/12/61aa4054357dc/roberto-da-matta-antropologo-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Marcelo Gomes / Acervo TRIP; LEGEND=Roberto Da Matta; ALT_TEXT=Roberto Da Matta de braços cruzados dentro de um carro em um ferro velho] Trip. Para imitar uma pergunta que o Antônio Abujamra fazia às vezes no programa dele: Roberto, o que é a morte? Roberto DaMatta. A morte é aquilo que faz, para algumas pessoas, a vida ser onipotente. As doenças totalitárias, sejam de direita ou de esquerda, assim como as crenças absolutas, as religiões e o racismo, fazem parte de uma tentativa de evitar a morte. Elas atraem as pessoas exatamente porque trazem a ideia de que se você morrer o grupo continua e você com continua com ele. A morte é, para alguns de nós, que tivemos uma educação mais aprimorada sobre seus sentimentos, o fim de uma trajetória bem-sucedida de uma vida que tem um início, um meio do qual você não se arrepende, com momentos mais positivos do que negativos, e no fim você vai para a terra do esquecimento, como disse Albert Camus, em "O Mito de Sísifo". Há quem diga que a experiência da morte é tão maravilhosa que Deus teria escondido isso porque se não todo mundo sairia se suicidando por aí. O que você acha? Legal. Não tenho como discutir sobre isso. O que eu sei é que a morte não é uma experiência social, você não é capaz de dividir isso com os outros. Ela é impossível de compreender. Se é que Deus existe, ele foi muito misericordioso conosco: você sabe que todos vamos morrer, mas não sabe o dia. Se soubéssemos, a absurdidade seria maior ainda. Uns comeriam muito, outros vão fazer muito sexo. Eu tenho uma ideia firme de como é, porque já fui anestesiado. Quando o cara colocou a máscara no meu nariz, eu fui sugado e a minha consciência sumiu. Por uma fração de segundo eu pensei: a morte é boa. Aos 85 anos, tendo passado boa parte da vida estudando a humanidade, o que está acontecendo agora com essa exacerbação do digital, em que as pessoas não conseguem acordar sem olhar no celular? É uma nova página que viramos. Só vai aumentar. É possível que daqui a vinte anos não falemos mais em intoxicação, mas hoje essa patologia é real, vejo isso com os meus netos. Por outro lado, o que está acontecendo? Nós estamos nos falando, estamos compartilhando experiências de uma forma muito concreta. O problema não é desintoxicar digitalmente, é o mundo que está doente no sentido de que estamos chegando a conclusão de que ele não é inesgotável. Tudo passa, todo filme tem seu fim, o que não pode passar é o cinema, o edifício. Se o meio acabar, a mensagem acaba. Se acabar a mensagem é o fim do homem. A humanidade se acaba no dia em que a gente não pode mais se comunicar, saber um do outro. O pior que pode acontece com uma comunidade é a falta de comunicação, mas o excesso dela, por outro lado, é o fuxico, é aquilo que ninguém aguenta. É o que acontece com o Brasil com essa pessoa que nos dirige.

    Érick Jacquin: Ninguém vai me derrubar

    Play Episode Listen Later Nov 26, 2021

    Sem papas na língua, o chef e estrela do Masterchef fala sobre a infância na França, a dificuldade em lidar com dinheiro e maconha Quando estreou como jurado no Masterchef, Érick Jacquin – já muito premiado e reconhecido por seu trabalho em algumas das cozinhas mais celebradas de São Paulo – andava em baixa. Não por suas receitas, mas porque sempre foi um péssimo administrador. Um gastador confesso, ele precisou trabalhar duro para sair de um buraco financeiro e chegou a declarar que nunca mais assinaria uma carteira de trabalho na vida. "Nunca vi pobre falar que dinheiro não dá felicidade. Eu gosto de gastar dinheiro, mas não sou um bom administrador. Sou da moda antiga, gosto de ter o papel na mão. Mas precisa ser generoso com o dinheiro, quando a gente tem, deve ajudar os outros", diz. Um fã de teatro e do circo, começar na televisão foi mais um sonho realizado do que um golpe de sorte. Como há muito já não acontecia na cozinha, Jacquin se colocou como aprendiz e contou muito, principalmente, com a ajuda da apresentadora Ana Paula Padrão. Não demorou para que o seu sotaque carregado apesar dos quase trinta anos no Brasil e seu jeito sem papas na língua lhe transformassem num sucesso. E não foi somente o bolso do chef que se beneficiou por essa volta por cima. A capital paulista voltou a ter os seus pratos figurando em – por enquanto – três estabelecimentos diferentes: o Ça-Va, o Président e o Buteco do Jacquin, sendo que uma casa com pratos italianos deve estrear em breve. Um menino de infância feliz, que voltava da escola de bicicleta para saborear os pratos da mãe, no interior da França, Érick Jacquin bateu um papo com o Trip FM sobre maconha, crítica gastronômica, dinheiro e mais. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/11/61a13b6bdcfa9/erick-jacquin-masterchef-restaurante-frances-tripfm-mh-2.jpg; CREDITS=Renan Foto Gastro; LEGEND=Erick Jacquin; ALT_TEXT=Erick Jacquin] Trip. A gente gosta de começar falando sobre o lugar de origem. Como era a sua família quando você era criança? Como foi a sua infância? Érick Jacquin. Eu nasci de uma família normal, no interior da França, em uma cidade pequena. Fui criado ao lado de três irmãos. Sou o caçula, então todos dizem que sou o preferido. Eu comi muito bem: minha mãe cozinhava e ainda cozinha muito bem. O meu pai reformava castelos no Vale do Loire. Era uma família que precisava trabalhar, mas que me deu uma infância maravilhosa. Nunca comi na escola, sempre voltava para almoçar em casa, de bicicleta. Eu até me arrependo de ser adulto. Quando a gente olha para a França, vê um ponto positivo: é o Estado que provê uma série de benefícios para o cidadão. Você consegue dizer, pensando por um outro ângulo, quais são os defeitos da França hoje? Eu acho que os franceses são preguiçosos, eles não querem mais trabalhar. É um outro tipo de França daquela que eu conheci em Paris quando tinha vinte anos. Ninguém quer ser mais o cozinheiro que eu fui, que trabalhava de sábado e domingo. Hoje é um momento diferente. Os impostos são mais caros e a França dá tudo, mas pode ser que ela dê demais. Os franceses hoje recebem mais do que dão. No Brasil é ao contrário, aqui falta receber mais. Existe uma tese que diz que amar o trabalho pode ser uma armadilha capitalista e que a alegria é geralmente encontrada fora do emprego. Você concorda? Cada trabalho é diferente. Eu nunca trabalhei na minha vida, não combina comigo essa tese. Eu só me diverti. Isso combina muito bem para alguém que passa o dia no computador, que talvez ganhe muito dinheiro, mas que passe o dia inteiro falando de número. Isso é escravidão moderna. Cozinhar é um trabalho? Não é. Hoje eu fui em todos os meus restaurantes, fui fazer teste de cardápio, conversei com gente diferente, fiz foto, gravei meu programa de televisão. Não é trabalho, é diversão.

    Sophia Bisilliat: Sempre me senti bem no presídio

    Play Episode Listen Later Nov 19, 2021

    Ativista social conta sobre o trabalho no presídio do Carandiru, na Cracolândia e fala da relação com o dinheiro Neta de um diplomata e filha de uma artista genial, Sophia Bisilliat tinha tudo para escolher uma vida diferente. Durante muito tempo, no entanto, ela sentiu culpa pela condição social em que nasceu. Ainda adolescente, passava de metrô em frente ao presídio do Carandiru e sentia uma vontade inexplicável de explorar um mundo que em quase nada tinha a ver com o seu. É verdade que o trabalho com povos indígenas e sertanejos de sua mãe, a celebrada fotógrafa Maureen Bisilliat, possa ter plantado a semente do ativismo social em Sophia, mas, por outro lado, Maureen viajava muito e foi pouco presente em sua criação. Hoje com 58 anos, Sophia pela primeira vez conseguiu alguma estabilidade financeira como professora de ioga. Antes disso, ela trabalhou muito, mas sempre de graça. Aos dezessete realizou o seu desejo de visitar o sistema carcerário por meio de um projeto que levava teatro aos detentos; foi a via que encontrou sendo uma atriz aspirante. Com o tempo, a iniciativa foi se dissolvendo, mas ela seguiu visitando o cárcere, onde finalmente criou o Talentos Aprisionados, um trabalho muito elogiado que visava encontrar artistas escondidos detrás das celas. Foi daí que surgiu o grupo de rap 509-E, de Dexter e Afro-X, e o escritor Luiz Alberto Mendes, finalista do Prêmio Jabuti de Literatura em 2006 e colunista da revista Trip até o seu falecimento, em 2020. "Quando comecei a trabalhar lá dentro, usava um jalecão que funcionava como uma espécie de escudo. Sempre me senti muito segura. Essa era a graça: ser uma mulher ao lado de 7.500 presos, andando sozinha, e com respeito total", conta.  Com a pandemia pelo novo coronavírus, os esforços de Sophia se voltaram a distribuir cestas básicas em favelas de São Paulo, onde também aos poucos retoma os treinos de ioga que oferece gratuitamente nas lajes. "É incrível o que estamos fazendo para a autoestima dessas mulheres”, conta sobre as participantes. Moradora de uma escola de circo, ela pouco fica em casa. Mesmo para o próximo Natal, já assumiu o compromisso de fazer uma ceia para os dependentes químicos na Cracolândia, outro pilar de suas ações. "Qualquer um pode cair na Cracolândia, ninguém está livre de uma depressão. Se você tem dinheiro, claro, pode evitar a prisão, mas se você se vicia, não há como sair dessa".  No Trip FM, Sophia conta mais sobre a sua infância e o dia a dia nas cadeias. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/11/6197c020511f9/tripfm-sophia-bisilliat-atriz-mh-2.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Sophia Bisilliat; ALT_TEXT=Sophia Bisilliat] Trip. Seu pai era francês e a sua mãe inglesa. Você é filha de expatriados. Me conta um pouco sobre a sua família. Sophia Bisilliat. Eles se conheceram aqui no Brasil. Meu pai lutou na guerra e foi preso, condenado à morte: tinha apenas 16 anos. Acabou fugindo, foi para a Argentina e terminou no Brasil. A vida dele foi complicada, amarrada. Minha mãe era filha de diplomata, viveu muito tempo viajando, então nunca teve raiz. Ela era do mundo. Ambos tiveram filhos de casamentos anteriores, mas se apaixonaram porque viviam no mesmo prédio. Minha mãe era uma borboleta, viajava muito. Aí eu nasci e tive uma infância conturbada pois existiam esses filhos que não tinham um destino muito certo. Vieram as consequências para todos nós. Filho você tem para cuidar e não para largar no mundo. Eles deixavam e a gente foi se virando. É razoável fazer uma ligação de uma infância de pais ausentes e essa sua vontade de dar uma mão para pessoas abandonadas? Eu acho que sim. Quando comecei a trabalhar no Carandiru, eu era muito nova, não ganhava nada e as pessoas ficavam me perguntando o porquê. Até hoje eu não ganho em tudo que faço socialmente, mas é algo muito mais forte do que eu. Não consigo explicar, mas com certeza a minha origem foi desembocar nesse meu trabalho. A fotografia da minha mãe é uma estética muito lapidada, mas vou mais no foco e não vejo muito a estética. Acompanhei ela em duas viagens; aquilo já me marcou muito. E também eu era cuidada por uma pessoa que morava com a gente. Convivi muito mais com a classe social dela do que com a dos meus pais. A sua biografia é muito atípica. Uma menina de dezessete anos entrar para atuar no Carandiru não acontecia. Como você foi parar dentro dessa cadeia gigantesca? Eu parava na estação Carandiru do metrô e ficava encantada com aquilo e dizia a mim mesmo que iria trabalhar lá dentro. A ferramenta que eu tinha era a minha formação como atriz. Entrei em um grupo que queria dar aulas de atuação no presídio. Isso durou oito meses, mas não quis parar. Continuei sozinha, aí já não era mais teatro, era o Talentos Aprisionados. Andava por lá para descobrir talentos na literatura, na pintura, na música. Queria levar o melhor. Fiz de tudo lá, consegui material para reformar as escolas. Mas era tudo um pretexto para continuar nesse ambiente, onde as pessoas acham que vive a escória da escória, mas que sempre me senti bem e segura. Usava um jalecão que funcionava como uma espécie de escudo. Essa era a graça: ser uma mulher ao lado de 7.500 presos, andando sozinha, e com respeito total.

    Mirian Goldenberg: Como fugir dos vampiros emocionais

    Play Episode Listen Later Nov 5, 2021

    Antropóloga explica como se livrar das pessoas que sugam energia vital e nada dão em troca Fonoaudióloga de formação, doutora em antropologia e caça-vampiros. Algum tempo após voltar sua pesquisa para o estudo do envelhecimento, Mirian Goldenberg descobriu que um dos caminhos para uma vida mais feliz é deletar gente sanguessuga, acabar com aqueles que pedem tudo e nada dão em troca; as chamadas pessoas-vampiro, segundo ela. "A primeira regra para lidar com eles é ter firme qual é o seu propósito na vida e o que você quer fazer com o seu tempo. É preciso entender que se você desperdiça parte do dia com vampiragem, está deixando de fazer o que realmente importa. Não dá para deletar vampiro se você não tem claro o que e quem é importante para você", comenta. Antes de se especializar no comportamento humano, Mirian pensou em estudar medicina em Santos, litoral sul paulista, cidade onde nasceu. De lá, saiu para morar em São Paulo, dos 16 aos 21 anos, antes de mudar para o Rio de Janeiro. Nessa época, década de 80, seu tempo era ocupado com a militância política, em atos que iam de passeatas em prol do Chile livre (o país viveu sob ditadura por 17 anos) a mobilizações pró-Constituinte (a nova Constituição brasileira foi aprovada em 1988), ao lado de líderes como Luís Carlos Prestes, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Gabeira. Mirian viu amigos serem presos e leu Marx, Engels, Trotsky. Sua primeira viagem ao exterior foi para Cuba, aos 26 anos. Seu primeiro livro, "Nicarágua Nicaraguita", sobre a revolução do país onde esteve por três vezes, foi lançado em 1987. Logo depois, pesquisando mulheres revolucionárias, se deparou com Leila Diniz, que lhe rendeu o livro "Toda Mulher é Meio Leila Diniz" (1995). Hoje, divide o tempo entre o trabalho em casam consultorias e, antes da pandemia, palestras e conferências pelo Brasil e pela Europa. Foi em uma dessas, na Alemanha, em 2007, que abandonou o hábito de fazer escova no cabeleireiro antes de se apresentar em público. Hoje, leva uma vida minimalista: até mesmo a biblioteca com cinco mil livros ela doou. “Me dói ainda, mas não me arrependo. Foi um processo de mostrar a mim mesma que poderia viver com pouco", diz. Criada entre três irmãos homens numa família judia em que álcool e violência eram presenças constantes, o jeito foi se isolar. Na biblioteca do pai (com quem, já mais velha, ficou sem falar por 16 anos), descobriu o prazer de ler – e escrever. Desde a adolescência, relata os acontecimentos mais importantes da vida em cadernos (são centenas deles empilhados num armário). Ao Trip FM, ela fala ainda da decisão de não ter filhos, de como envelhecer bem e se livrar dos tais vampiros. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/11/6184463a9bca0/mirian-goldenberg-antropologa-mh-2.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Mirian Goldenberg; ALT_TEXT=Retrato de Mirian Goldenberg sorrindo vestindo blusa verde e cabelo solto] Trip. Eu queria começar com um tema que amo, dos indivíduos-vampiro, aqueles que gostam de roubar a sua energia. Da onde vem a sua observação desse tipo de gente? Mirian Goldenberg. Estudo esse assunto faz dez anos. Sou uma pesquisadora, não falo coisas da minha cabeça: comecei a perceber que, para envelhecer bem, existem algumas escolhas necessárias. A primeira delas é deletar os vampiros-emocionais da sua vida, esses que sugam a sua energia e não dão nada em troca. Existem também os vampirinhos, são muito perigosos. Esses são mortais, fazem com que você faça o que não quer e ainda se sinta culpada. São aqueles que falam, quando você está de regime, por exemplo, para comer só um pouquinho, ou quando precisa dormir cedo, para ficar mais um tempinho. São os vampiros no diminutivo. Eu aprendei, pesquisando o envelhecimento, que é preciso deletar. Um segredo meu: não tenho nenhum grupo de WhatsApp, porque todos tem vampiro. Aqueles que não dá para deletar, porque fazem parte da família ou do trabalho, é preciso se proteger, dizer não e ligar o botão do foda-se. Foda-se o que eles querem de mim. Eu preciso saber qual é a minha prioridade. O que eles mais sugam é o nosso tempo, o nosso bem mais precioso. Eu não posso gastar minha vida com vampiros. Tem muito vampiro que envelhece também. Ficar mais velho não é garantia de atingir uma existência mais iluminada. Existe um mito de que você envelhece e vira outra pessoa. Você não vai viajar e pular de paraquedas quando fizer 90 anos se hoje já não faz isso. Quem chega bem na velhice não muda a essência, apenas aprende que é preciso deixar um monte de merda de lado e ter amigos mais bacanas. Quando você é jovem, são tantos compromissos e obrigações que a sua alma fica um pouco escondida. Ao envelhecer, ela pode florescer. Existe um preconceito muito grande com quem decide não ter filhos, como se fosse uma escolha por não ser feliz. Queria que você falasse sobre isso. Nunca quis ter filhos. Fui muito cobrada pelas amigas: quando eu fiz quarenta anos foi um bombardeio. Além de não ter vontade, nunca me senti capaz de ter filhos. Sempre fui tão sem estofo afetivo, de proteção, de cuidado, que sentia não ter força e coragem de fazer alguém sobreviver e ser feliz. Eu nunca fui feliz e como eu teria um filho tendo uma vida tão triste? Não foi algo intuitivo, foi uma certeza.

    Wagner Moura: Nossa história é misógina, elitista e golpista

    Play Episode Listen Later Oct 29, 2021

    Ator que estreia na direção com o polêmico "Marighella" fala sobre política, corpo, família e amizade Wagner Moura coleciona trabalhos de impacto na mesma medida em que angaria haters. Sempre muito claro em suas posições contra o governo de Jair Bolsonaro, o ator nunca deixou de olhar e criticar o Brasil. Sua estreia como diretor com o longa-metragem "Marighella" é, segundo ele, mais uma prova disso. "É uma obra profundamente brasileira”, afirma. Obra essa que poderia ter estreado em 2019, mas encontrou uma série de barreiras burocráticas, processo que o ator não teme em classificar como censura. Dois anos após ser aplaudido no festival de Berlim, o filme tem finalmente data para chegar aos cinemas, em 4 de novembro. Com isso, Wagner pousa, pelo menos por um tempo, no país em que é recebido ao mesmo tempo com amor e ódio. Durante os últimos anos, ele precisou morar com a família na Colômbia por conta das gravações de "Narcos" e mais tarde em Los Angeles, período em que fez, entre outras produções, "Sergio", em cartaz na Netflix. Apesar de comemorar a autonomia conquistada pelos três filhos durante esse hiato fora, o ator não se vê como um intérprete de traços internacionais. "Embora eu realmente more onde estou trabalhando, de fato sou muito conectado com a minha origem, sobretudo com a Bahia. Eu sou um ator especial para os EUA justamente porque vim de Salvador. O meu axé está aí", diz. Em entrevista para o Trip FM, Wagner Moura fala ainda de emagrecimento, da educação dos filhos, dos amigos Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, de jiu-jitsu e mais. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/10/617b327b55940/wagner-moura-marighella-ator-diretor-trip-fm-mh.jpg; CREDITS=Reprodução; LEGEND=Seu Jorge, protagonista do longa Marighella, ao lado de Wagner Moura, em sua estreia na direção; ALT_TEXT=Seu Jorge e Wagner Moura] LEIA TAMBÉM: Quais os caminhos para vencer a intolerância? Trip. Você me contou que mora onde estiver trabalhando. Isso deve ser muito legal, mas é também muito difícil para criar raízes. Ao mesmo tempo, a cidade de Rodelas, onde você cresceu, no sertão da Bahia, desapareceu com a represa de Itaparica. Me fala sobre a sua relação com a casa, com a cidade? Wagner Moura. Embora eu realmente more onde estou trabalhando e a experiência de ter passado esse tempo na Colômbia e em Los Angeles tenham sido muito boas, porque meus filhos ganharam muita autonomia, eu de fato sou muito conectado com a minha origem, sobretudo com a Bahia. Eu sou um ator especial para os EUA justamente porque vim de Salvador. O meu axé está aí. "Marighella" é um filme que sintetiza muito a minha relação artística com o cinema e com o país; é um filme profundamente brasileiro. Onde quer que eu esteja, estou absolutamente conectado com o que está acontecendo com Brasil, o que gera sentimentos díspares: quando Marielle [Franco] morreu, por exemplo, eu sofri muito por não estar no Rio de Janeiro para quebrar alguma coisa. Eu tenho uma tatuagem de uma árvore no braço que é uma árvore de Rodelas. Uma imagem muito forte: antes da represa, ela foi arrancada com raiz e tudo e replantada em Nova Rodelas, onde vivi um tempo também. Você é um dos artistas que mais tem se posicionado contra esse governo. Como é esse lado de ser uma voz ativa em um momento do país em que a gente retrocedeu demais? Se a eleição de Bolsonaro é trágica, é também pedagógica. Ele não é um alienígena, mas um personagem profundamente conectado com o que há de pior na história do Brasil. Nossa história é misógina, elitista, golpista, racista e violenta. Depois do fim da ditadura, os governos que vieram nos deram uma certa segurança democrática que nos fez camuflar esse esgoto subterrâneo do qual Bolsonaro emerge. O fato de ele ter sido eleito é muito pedagógico para que enfrentemos esse Brasil de frente. Se algo de terrível não acontecer, ele vai ser derrotado nas eleições. Esses atos de violência à cultura, ao meio-ambiente, ao STF, vão passar. LEIA TAMBÉM: Como a ditadura agravou a LGBTfobia Sobre o cuidado do corpo, especificamente com a alimentação, me conte o que você tem feito. Não sei se é a imagem do Pablo Escobar que ficou na minha cabeça, mas você parece mais magro. Eu me estraguei para fazer "Narcos", precisei engordar. Nunca cuidei muito da minha saúde, mas quando eu fiz o Escobar foi terrível porque fui comendo porcaria sem orientação alimentar nenhuma. Me prejudicou: tive um descolamento de retina, meus exames ficaram alterados. Depois disso precisei tomar uma atitude radical para reverter aquela situação. Fiquei um tempo muito grande sendo vegano, o que foi muito bom, mas não consegui sustentar. Hoje como peixe e ovo também.

    Dra. Albertina Duarte: Sexo por migalha de afeto não vale

    Play Episode Listen Later Oct 22, 2021

    A ginecologista fala a sexualidade dos adolescentes, pobreza menstrual e o atendimento médico durante a ditadura Com mais de vinte mil partos realizados e passados quarenta anos de formada, a Dra. Albertina Duarte Takiuti há muito tempo deixou uma infância pobre para se tornar uma das ginecologistas mais reconhecidas do país. Quando criança, essa portuguesa filha de um pai pedreiro e uma mãe analfabeta veio com a família ao Brasil com a esperança de abandonar o governo autoritário de António Salazar. A verdade é que aqui ela enfrentou uma nova ditadura, e em seu consultório passou a atender mulheres torturadas pelo regime militar: costurou mamilos arrancados e fez cirurgias sem poder contar sequer com o banco de sangue. A morte e a vida fizeram parte de sua história desde muito cedo: ainda em Portugal, ajudava a tia parteira e corria para atender qualquer pessoa que precisasse de um curativo. Com sete anos prometeu ao irmão mais novo que acabara de levar um coice que iria cuidar dele quando se tornasse médica. Ele não resistiu aos ferimentos e morreu, mas ela seguiu com o combinado. Estudou, ganhou uma bolsa em uma escola particular de São Paulo e provou que a mãe, que pregava "pobre não faz medicina”, estava errada. Mais tarde, como coordenadora do Programa de Saúde da Adolescente da Secretaria da Saúde de São Paulo, foi responsável por reduzir em 55% a gravidez de meninas com idade entre 10 e 19 anos. Além disso, passou a chefiar o Ambulatório de Ginecologia da Adolescência do Hospital das Clínicas, e também atende em consultório particular – seus dias geralmente terminam às duas da madrugada, isso quando não há alguma paciente em trabalho de parto. Nada, no entanto, a faz perder o bom humor, nem mesmo o recente veto do presidente Jair Bolsonaro à distribuição de absorventes a mulheres em situação de vulnerabilidade, projeto que ela sempre defendeu. Em entrevista para o Trip FM, sempre sorridente, Albertina ainda fala sobre pornografia e a sexualidade dos jovens. Ouça o programa no Spotify, no play nesta reportagem ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/10/6171ada307dae/trip-fm-doutora-albertina-duarte-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Dra. Albertina Duarte; ALT_TEXT=Dra. Albertina Duarte] Trip. Eu queria que você contasse das dificuldades e também das belezas de vir de uma família humilde e de um país como Portugal. Como a senhora fez no início? Dra. Albertina Duarte. Eu sou uma imigrante e tenho muito orgulho de ter sido pobre. Minha mãe não sabia ler e hoje ela tem quatro filhos que escreveram livros. Em Portugal eu já sabia que seria médica. Acompanhava a minha tia que era parteira, não participava, porque era criança, mas carregava a água quente. E gostava muito de fazer curativos. Ela ia junto e eu fazia os curativos. Quando chego ao Brasil, o meu irmão tem um acidente com um cavalo, é operado muito tarde e morre. Enquanto ele esperava socorro eu dizia que seria médica e trataria ele. A minha relação com a vida e a morte sempre foi muito forte. Minha mãe dizia que pobre não fazia medicina, mas eu respondia que era inteligente. Ganhei uma bolsa e fui estudar em um dos colégios mais ricos da minha época. Conforme o ângulo que nós olhamos, o universo feminino melhorou muito: o movimento feminista ganhou espaço. Mas, por outro lado, uma mulher ser forçada a pegar jornal velho para usar como absorvente deixa a impressão que andamos para trás. Você, que todos os dias sente o pulso das mulheres, acha que estamos andando para trás ou para frente? Eu tenho medo de que estejamos andando para trás. Eu tive muito orgulho de ajudar a desenhar a saúde da mulher dentro do SUS, entendendo que a mulher deve ter saúde em todas as fases da vida. Eu venho lutando a muito tempo pela dignidade íntima. Uma mulher não pode sofrer bullying porque está escorrendo sangue pela perna ou porque molhou as suas roupas. Eu vejo dois mundos sempre, pois atendo no consultório e na rede pública. Já tirei pão, papelão e pedaço de cobertor da vagina das mulheres. Um absorvente não custa nada comparado ao que você pode dar de autoestima. Isso além de saber que uma a cada quatro meninas falta na escola porque está menstruada. É um problema de saúde pública. A gente sabe que mesmo as camadas menos favorecidas têm acesso a algum tipo de informação: são mais smartphones do que pessoas hoje no Brasil. Dá para falar ainda que gravidez entre jovens é falta de conhecimento? Eu adoro responder essa pergunta. Nós temos o nascimento de 52 crianças filhas de mães adolescentes por hora.  A cada 21 minutos uma criança de 14 anos é mãe. Nos anos de 1990 nós fizemos uma pesquisa que revelou que 90% dos adolescentes conheciam métodos anticoncepcionais, mas 70% não usavam na primeira relação. Qual foi a discussão: a menina tinha medo de não agradar e o menino medo de falhar. O problema não é informação, é negociação. Uma menina pode ter todas as informações, mas na hora de dizer que ela não terá relação sem preservativo, ela precisa ter autoestima e autoconfiança para gerar o autocuidado. Para o menino, de que adiante saber usar o preservativo se ele tem medo de falhar, de usar o preservativo e não ter o melhor desempenho? Isso em todas as classes sociais. A mulher tem uma questão comum ao gênero que é péssima: o medo de não agradar o parceiro. Olha que dor. Uma menina de 14 anos que se julga feia não vai dizer que não transa sem camisinha. A gente precisa sair desse lugar, não é informação. É habilidade de negociar com o parceiro e colocar limite. As mulheres foram tão reprimidas durante tanto tempo que isso pode ter gerado um movimento pendular. Está acontecendo mesmo isso, esse exagero de liberdade? Começamos a receber muitas meninas perguntando sobre teste de DNA. Isso assustou um pouco. Os adolescentes me contam muita coisa. Uma das situações é a tábua do sexo, no baile funk: as meninas ficam de costas, sem calcinha, e os meninos vão passando. É algo que extrapola para a classe média também – jovens experimentando com vários parceiros em uma noite. Já não é mais só beijar. Eles me contam e ficam me olhando, esperando aprovação. Eu pergunto assim: “Como você se sentiu, foi bom?". A resposta geralmente é negativa. Se os pais e as mães soubessem das coisas que eu escuto... Há dias em que preciso fazer terapia. Com toda a minha idade, tem coisas que eu não acredito que estou ouvindo. A minha fala é: "Todo o afeto, toda a relação sexual precisa colocar para cima, deixar mais forte. Se você precisa pagar pedágio, aceitar migalhas de afeto, aí não vale a pena". Quando eu falo migalha, tem gente que começa a chorar.

    Celso Athayde: Sempre quis fazer revolução

    Play Episode Listen Later Oct 15, 2021

    O cofundador da CUFA bate um papo com Leo Jaime sobre como as periferias podem virar referência de potência, e não de carência Aos dezesseis anos Celso Athayde já havia morado em três favelas do Rio de Janeiro. Quando criança, aos seis, viveu sob o viaduto de Madureira. Mas foi armado dessas duras experiências que ele se reconstruiu: foi camelô, descobriu o ativismo, fundou a Central Única das Favelas, a CUFA, e ainda neste mês de outubro levou o prêmio de Empreendedor Social do Ano pela Fundação Schwab. Homenageado também pelo prêmio Trip Transformadores 20/21, hoje ele está à frente da Favela Holding, conjunto de empresas que tem como objetivo impulsionar o desenvolvimento de negócios e de profissionais nas favelas. É sobre essa guinada vertiginosa – numa conversa não menos entusiasmada – que Celso e o ator e cantor Leo Jaime conversam e pensam juntos sobre o Brasil e como suas periferias podem virar referências de potência ao invés de carência. O encontro aconteceu no programa Prêmio Trip Transformadores 2021, que foi ao ar pela TV Cultura em junho, mas que agora você pode curtir também em áudio no Trip FM, disponível no player nesta página ou no Spotify. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/10/616991910a137/trip-fm-celso-athayde-mh.jpg; CREDITS=Reprodução; LEGEND=Celso Athayde fundou a Central Única das Favelas, a CUFA; ALT_TEXT=Celso Athayde] Leo Jaime. Não sei se você se lembra, mas a última vez que a gente se encontrou foi no palco do Theatro Municipal entregando o prêmio Anu pra mostrar e trazer visibilidade a projetos que atendem a CUFA. Foi muito legal porque estávamos levando para o palco pessoas que se destacaram, fizeram ensino superior e voltaram para a periferia criando projetos. Celso Athayde. Me lembro muito bem. Você apresentou um prêmio junto com a Fernanda Lima. E você foi brilhante, eu já era seu fã. Sou de Bangu, da Favela do Sapo. Tinha um cassino por lá e durante muitos anos eu dancei o teu som. Te encontrar no palco foi um momento muito bacana na minha vida e na vida da CUFA. Pra mim foi muito importante participar da premiação porque fico achando que no percurso da minha vida pode ter sido tudo em vão, que a gente não conseguiu mudar nada na realidade brasileira. Você falou da sua origem na Favela do Sapo, mas antes disso você chegou ao Viaduto de Madureira. Queria que você contasse isso. A gente sempre sonha e normalmente não vê um número significativo de pessoas que nos façam acreditar nessa mudança. Sou de um bairro chamado Olinda, na Baixada Fluminense, de uma cidade chamada Nilópolis, de uma favela chamada Cabral. Meus pais se separaram quando eu tinha 6 anos de idade e ambos eram alcoólatras. Eles brigavam todos os dias, eram brigas muito violentas e ali eles tiveram a última briga deles. Minha mãe resolveu ir embora de casa. Ela sempre voltava porque sabia que tinha dois filhos e pensava que na rua passaríamos necessidades muito maiores do que as que já tínhamos. Nesse dia, ela não voltou. Foi morar embaixo do viaduto Negrão de Lima em Madureira e ficou ali durante seis anos. Dos 6 aos 12 anos de idade era ali que a gente morava. Teve uma grande enchente no Rio uma vez e fomos remanejados para o abrigo Pavilhão de São Cristóvão, que hoje é a feira dos paraíbas. Aos 14, fui então para a Favela do Sapo. Meu irmão foi assassinado e a gente continuou nossa luta e eu voltei depois para Madureira, na condição de camelô, no mesmo viaduto onde tinha vivido. Ali, começo a juntar os camelôs todos e fazemos festas em datas comemorativas como Cosme e Damião, Natal, e é meu primeiro encontro com aquele espaço que tinha sido meu abrigo, vira uma grande festa. Sempre quis fazer uma revolução com aquela rapaziada. É curioso que você transformou o lugar em que passou seis anos da sua infância em espaço pra você se lançar e mostrar o seu sonho. Podia ser um lugar de lembranças ruins, mas você conseguiu não só ressignificar, mas transformar o espaço. Como é que você manteve o sonho vivo? A vantagem do período em que vivi na rua era que eu tinha minha mãe do meu lado. Apesar da relação com o álcool, ela era nossa grande referência, prezava muito pela honestidade. Um dos valores mais expressivos das periferias é justamente a moral, a ética e os códigos de lealdade. Obviamente, as notícias que mais circulam são de uma minoria que acaba se transformando numa anomalia moral por conta das anomalias sociais ali. Pior do que morar na rua é nascer na rua, eu tive essa vantagem. Mesmo morando na rua, eu tinha medo da rua. Tinha medo da disputa do lugar para dormir, e aquilo podia custar sua vida. Quem nasce na rua nem tem esse medo. Eu sempre sonhei em ser rico, achava que tinha nascido no lugar errado e precisava encontrar meu castelo. Eu sempre soube que seria rico, sem nenhuma habilidade ou objetivo. Um tempo depois, percebo que minha habilidade era aquela de juntar gente, fazer festa com elas e desejar uma revolução. Lembro que o Bagulhão, do Comando Vermelho, deu pra gente ler “Guerra e Paz”. Eu não sabia ler e ele deu um prazo de seis meses pra fazer uma arguição. Quem não tivesse lido tomaria tiro na mão, então obviamente tentei aprender a ler rápido, mas não consegui. O tempo passou, ele não deu tiro na mão de ninguém, mas comecei a fazer rap pra fazer a revolução. O rap teve protagonismo no mundo todo. Não vejo aqui tocando no rádio músicas que falem da nossa realidade. O rap sempre fez isso, mas virou nicho. É como ser negro. A gente tem que ter orgulho de ser negro, mas a gente não pode apenas ser negro, porque senão você vira nicho também. Quando um homem vai à Lua, ele vai à Lua. Quando um negro vai à Lua, é um negro indo à Lua. Então a gente precisa se colocar no lugar onde está todo mundo. A gente não pode aceitar que nos coloquem em uma caixinha, como fazem com os pretos em partidos políticos, racializando os votos. Celso, eu escrevi “ela não gosta de mim, mas é porque eu sou pobre”, ou “você vai de carro pra escola e eu só vou à pé”. São músicas que falam da dificuldade do jovem que não tem dinheiro em se sentir merecedor de amor. Eu acho que há uma relação grande entre a desvalia do indivíduo com sua incapacidade de ver o seu lugar no mundo. Como é que a gente pode fazer? Dando exemplo? A gente faz tudo na vida pensando na tal da mobilidade social. Quando sua mãe manda você estudar, ela tá pensando que você vai ser uma pessoa com mais poder aquisitivo a partir de um emprego melhor. Seja qual for o conselho que você receber, estão sempre pensando em como é que a sociedade vai abrir as portas pra você. Particularmente, não acredito numa sociedade em que todo mundo vá ser igual. Eu acredito que a gente pode lutar por uma sociedade em que o filho do dono do prédio e o filho do porteiro tenham a possibilidade de sonhar com melhores alternativas. Hoje eu tenho 25 empresas e eu falo favelês. Imagina se as pessoas que vêm de onde eu venho tivessem aulas de negócios na favela. Elas teriam muito mais oportunidades e alternativas. O fato é que a gente tá sempre estudando para ser motorista do filho do patrão do meu pai. Essa pirâmide não muda e ela está formatada para não mudar. Falta de dinheiro causa até fim de casamento. Ninguém quer ser pobre não, gente! Tem questões afetivas em ficar ou sair da favela, então você sai, como fazem os jogadores de futebol. E a falta de dinheiro faz com que você não consiga tratar dos seus dentes, da sua saúde, sua família não consiga se alimentar bem… Não dá para ser feliz assim. Ter dinheiro não significa que você vá ser feliz, mas que vai conseguir cuidar melhor das dores da vida.