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Hoje, 'No Pé do Ouvido, com Yasmim Restum, você escuta essas e outras notícias: Gilmar, Zanin e Moraes intimam PF a entregar a íntegra do material extraído do aparelho, mas relator alega que isso “atrapalharia as investigações”. Fachin mantém para amanhã o julgamento relativo às relações entre Moraes e Daniel Vorcaro. CEO da Anthropic defende que empresas reduzam o ritmo de desenvolvimento da inteligência artificial. Começa hoje a cobrança de multa a passageiros que criem confusão em voos. “Woman Unknown”, da dinamarquesa May el-Toukhy, conquista o Leão de Ouro do Festival de Veneza 2026.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Nesta Bica Curta, o resumo semanal de cultura em português: as novas temporadas de teatro e artes performativas do Teatro Virgínia e do Centro Cultural de Belém, a 30.ª edição do Queer Lisboa e a abertura do Festival de Cinema de Veneza, música ao vivo no Picadeiro Fest, as novas exposições no MAAT e na Underdogs, e duas notas institucionais sobre o PRR e o programa Cheque-Livro.RecursosTeatro VirginiaCentro Cultural de BelémQueer LisboaFestival de Cinema de VenezaSão Luiz Teatro MunicipalMAATUnderdogsMr Bird (autor da música)Nicolás Fabian (autor do design)Subscreve no SpotifySubscreve na Apple Podcasts
Perspectivas vertiginosas, efeitos dramáticos de luz, pinceladas rápidas e uma liberdade criativa que desconcertava seus contemporâneos. Em cartaz a partir de 11 de setembro no Museu Jacquemart-André, em Paris, a exposição Tintoretto Eterno revisita a trajetória de Jacopo Robusti, um dos grandes nomes da Renascença. Com cerca de 40 obras, a mostra demonstra como o artista permaneceu uma referência para sucessivas gerações de pintores e por que sua obra continua surpreendentemente atual. Entre os gigantes da pintura italiana do século 16, Tintoretto ocupa uma posição singular. Admirado por alguns, criticado por outros, ele construiu uma obra marcada pela velocidade de execução, pela teatralidade das composições e por uma liberdade formal que frequentemente escapava às convenções de seu tempo. Mais de quatro séculos após sua morte, essa mesma capacidade de desconcertar continua no centro da exposição Éternel Tintoret (Tintoretto Eterno), que o Museu Jacquemart-André apresenta entre setembro de 2026 e janeiro de 2027. A mostra reúne cerca de 40 pinturas e obras gráficas provenientes de coleções francesas, italianas e internacionais e propõe um panorama amplo da carreira de Jacopo Robusti, nascido em Veneza em 1518 ou 1519. Conhecido pelo apelido Tintoretto, derivado da profissão de tintureiro exercida por seu pai, o artista se tornaria uma das figuras centrais da Renascença veneziana, autor de alguns dos mais ambiciosos ciclos decorativos do período e responsável por levar a pintura da cidade a um de seus momentos de maior intensidade criativa. Para Neville Rowley, curador da exposição, o principal mérito da iniciativa é justamente recolocar Tintoretto no centro da narrativa. “É a primeira exposição que volta a oferecer um panorama completo da arte de Tintoretto na França”, explica. Segundo ele, embora o artista tenha sido tema de mostras importantes em Veneza, Roma ou Madri, e embora uma exposição dedicada ao jovem Tintoretto tenha sido apresentada em Paris em 2018, o pintor veneziano frequentemente aparece diluído em exposições coletivas dedicadas aos grandes mestres da Sereníssima. “Durante muito tempo ele foi apresentado ao lado de seus rivais, Ticiano ou Veronese. Aqui, o objetivo é explicar ao público francês a arte de Tintoretto e mostrar aspectos de sua produção que nem sempre são conhecidos.” A escolha faz sentido em um país que mantém uma longa relação com sua obra. Como lembra Rowley, o pintor era apreciado na França desde o século 17. Luís XIV possuía obras suas na coleção real, e parte desse diálogo histórico reaparece ao longo do percurso expositivo. O artista que se recusava a obedecer Se há uma palavra capaz de resumir Tintoretto, talvez seja independência. A exposição recupera uma observação célebre de Giorgio Vasari, que definiu o veneziano como “o espírito mais terrível que a pintura jamais conheceu”. A frase pode soar exagerada, mas ajuda a entender a reputação construída pelo artista entre seus contemporâneos. Para Rowley, Tintoretto era alguém que se recusava a seguir modelos estabelecidos, mesmo quando os modelos eram os maiores artistas de seu século. “Ele tinha diante de si duas referências gigantescas. De um lado, Ticiano, que provavelmente foi seu mestre por um breve período. De outro, Michelangelo, que ele admirava profundamente. Mas, em vez de seguir qualquer um deles, decidiu fazer tudo à sua maneira.” O curador observa que a ruptura não era apenas estética. Tratava-se também de uma atitude diante da própria prática artística. “Ele queria pintar mais rápido, de maneira mais livre, em formatos maiores que os de Ticiano. E copiava Michelangelo do jeito dele, reinterpretando o mestre segundo sua própria lógica. Isso era algo que Vasari simplesmente não conseguia aceitar.” Essa independência se tornou uma marca de toda a sua trajetória. Enquanto outros artistas buscavam equilíbrio e acabamento, Tintoretto avançava em direção "ao excesso, à velocidade e à experimentação". A velocidade como assinatura Uma das características mais comentadas de sua produção era a chamada prestezza, termo italiano utilizado para descrever a rapidez de sua execução. Os críticos da época viam essa velocidade com desconfiança. Alguns interpretavam a pincelada livre como sinal de descuido. Tintoretto, porém, jamais alterou sua maneira de trabalhar. “Um amigo de Ticiano chegou a reconhecer que ele pintava muito bem, mas sugeriu que talvez devesse desacelerar um pouco”, conta Rowley. “Tintoretto nunca desacelerou”. O resultado foi uma produtividade rara, mesmo para os padrões da Renascença. “São aproximadamente 650 pinturas conhecidas, provavelmente mais. É uma produção excepcional.” Para o curador, essa energia quase inesgotável explica parte da reação provocada por sua obra. Quando surgia uma encomenda monumental, Tintoretto não demonstrava qualquer hesitação. “Havia projetos gigantescos, telas de mais de 20 metros de largura, e sua reação era simplesmente dizer: ‘Sem problema, eu faço'.” Essa audácia ajudou a construir uma imagem de artista indomável, incapaz de se enquadrar nos parâmetros valorizados pelos setores mais conservadores da pintura italiana. Um pintor teatral Vista hoje, a obra de Tintoretto impressiona pela sensação constante de movimento. Personagens parecem atravessar o espaço em diagonais abruptas, corpos se projetam em profundidade e a luz corta a cena como um refletor teatral. Não por acaso, Rowley identifica uma forte dimensão cenográfica em sua produção. “Suas pinturas estão profundamente ligadas à ideia de encenação”, afirma. Segundo o curador, Tintoretto elaborava pequenas maquetes, montava figuras em miniatura e construía composições tridimensionais antes de transferi-las para a tela. “Isso permitia refletir sobre a posição dos personagens e sobre a organização do espaço.” O resultado continua surpreendendo o espectador contemporâneo. Ao mesmo tempo, a modernidade de sua obra não reside apenas na composição, mas também na superfície da pintura. As pinceladas visíveis, os contornos por vezes imprecisos e a sensação de inacabamento chamaram a atenção de artistas séculos depois. “Essa maneira extremamente livre de pintar foi justamente o que encantou os artistas franceses do século 19”, observa Rowley. “Delacroix, Manet e Cézanne acabaram encontrando em Tintoretto uma liberdade que parecia muito mais próxima de suas preocupações do que de muitos pintores de sua própria época.” A segunda parte da exposição explora exatamente essa recepção francesa do artista, mostrando como seu legado atravessou gerações e influenciou alguns dos nomes centrais da modernidade. Um artista impossível de aprisionar A permanência de Tintoretto no imaginário contemporâneo talvez esteja ligada também à dificuldade de reduzi-lo a uma única interpretação. Diferentemente de muitos intelectuais da Renascença, ele não deixou tratados nem textos explicando sua visão da arte. “Tintoretto não deixou escritos. Ele pensava por imagens”, resume Rowley. Para o curador, essa ausência de teoria abre espaço para múltiplas leituras. Em suas cenas mitológicas e representações femininas, por exemplo, convivem erotismo, ironia e ambiguidades difíceis de resolver. “Podemos olhar essas obras como imagens eróticas, nas quais a mulher aparece como objeto de desejo. Mas há sempre alguma coisa que devolve o olhar ao espectador, que o coloca em questão. É o gênio de Tintoretto embaralhar as pistas.” Segundo Rowley, é justamente essa capacidade de desafiar interpretações definitivas que explica a permanência do artista ao longo dos séculos. “Ele fascina pessoas interessadas em coisas às vezes contraditórias. Seus quadros têm uma instabilidade que dá a impressão de que estamos descobrindo a pintura no exato momento em que a observamos.” Essa característica chamou a atenção até de Jean-Paul Sartre. O filósofo francês dedicou páginas importantes à obra do veneziano e chegou a identificar nela uma dimensão quase existencialista. “É uma leitura anacrônica, evidentemente, mas revela algo importante: Tintoretto continua falando ao olhar moderno.” A exposição fica em cartaz no Museu Jacquemart-André, em Paris, até 24 de janeiro de 2027.
A coprodução brasileira ‘Retorno a Buenos Aires' está na disputa pelo Leão de Ouro do importante Festival de Veneza de 2026, que começa nesta quarta-feira (2). O longa é dirigido pelo ítalo-chileno Marco Bechis, que viveu entre a Argentina, o Brasil e a Itália. “Retorno a Buenos Aires” acompanha a volta de Mariano Guerra à Argentina depois de 33 anos vivendo na Itália. Ele regressa ao país para depor no julgamento dos ex-militares que o sequestraram, torturaram e escravizaram durante a ditadura militar. O filme de Marco Bechis é uma coprodução da Itália e do Brasil. Pelo lado brasileiro, três produtores assinam o longa: Patrick de Jongh, da 34 Filmes, Cibele Amaral, da Neocórtex, e André Ristum. O filme é estrelado pelo italiano Adriano Giannini e conta, entre outros atores, com os brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy em papéis de destaque. O diretor de “Terra Vermelha” e “Garage Olimpo” retoma, com essa nova obra, “um pouco as suas origens, ao abordar essa temática tão significativa e tão importante em toda a vida e na formação dele”, destaca André Ristum, amigo de Marco Bechis, que deu o pontapé inicial para a realização do projeto. “A gente estava tendo a volta dos financiamentos no Brasil e, depois de ter lido o roteiro maravilhoso, eu apresentei para o Patrick e para a Cibele. Eles adoraram e nasceu essa relação, esse casamento em torno desse projeto que está sendo realmente muito feliz”, lembra. Tema importante para o Brasil Patrick de Jongh é o fundador e diretor da 34 Filmes. A produtora independente de Brasília venceu o edital de coprodução internacional de 2024 da Ancine para financiar o filme que trata, segundo ele, de um tema importante para o Brasil. “Os tribunais militares aconteceram na Argentina, mas acabaram não acontecendo no Brasil. Eu acho que é uma maneira de trazer esse assunto à tona de novo, justamente em vista de tudo o que tem acontecido após a polarização política dos últimos anos no Brasil”, diz. A seleção para Veneza consolida a atuação internacional da 34 Filmes e coloca Brasília pela primeira vez no mapa do cinema mundial. “Nosso objetivo não é só uma estratégia da produtora de abraçar essas coproduções internacionais, mas também sacramentar essa estratégia federal dos arranjos regionais. A gente ganhou o edital pela cota regional e ter conseguido, já de cara, colocar o filme num festival tão importante só mostra que esses programas precisam continuar. Investir nesses mercados fora do eixo Rio-São Paulo é importantíssimo. São novas narrativas, novas possibilidades, para trazer um outro Brasil também para o mundo”, ressalta Patrick de Jongh. Política pública de sucesso “Retorno a Buenos Aires” é o único representante brasileiro na competição principal de Veneza. Em Cannes, em maio, o Brasil também só esteve presente na disputa pela Palma de Ouro com coproduções internacionais. Cibele Amaral, da Neocórtex, acredita que essa política de coproduções internacionais é uma estratégia de sucesso. “Hoje em dia, você precisa fazer um pacote realmente poderoso para ter êxito de bilheteria e também nos festivais. Esse modelo de coprodução traz uma força grande para o projeto e, com certeza, traz o Brasil para um protagonismo. É uma política pública que está dando seus resultados”, avalia. O filme de Marco Bechis custou € 2,5 milhões, financiados majoritariamente por quatro produtoras italianas: Fandango, 39Films, Karta Film e Rai Cinema. O Brasil entrou com € 700 mil (R$ 4,2 milhões), cerca de 25% do total, e o retorno para a indústria cinematográfica do país já foi significativo. O longa se passa na Argentina, mas foi rodado durante quatro semanas em Porto Alegre, no Brasil, e mais três semanas em Turim, no norte da Itália, com participação destacada de técnicos, atores e atrizes brasileiros. Paula Cohen, filha de uruguaios, faz o papel da juíza no processo dos ex-militares argentinos. “Eu fui criada entre esses países e foi muito especial. O Marco foi sequestrado, foi torturado. Ele viveu essa história muito de perto. Ele é um diretor excepcional e trabalhar com ele, ouvi-lo, foi, para mim, realmente um aprendizado maravilhoso. Acho que me expandi como atriz nesse projeto”, revela a atriz. Paula Cohen participa pela primeira vez do Festival de Veneza. Ela está “felicíssima” por estar na disputa “contando essa história tão importante, tão necessária de ser contada”, salienta. Estreia mundial A coprodução brasileira “Retorno a Buenos Aires” integra uma lista de 21 filmes assinados por grandes nomes do cinema mundial que concorrem ao prestigioso Leão de Ouro do Festival de Veneza. Entre os concorrentes estão diretores como o britânico Danny Boyle, o alemão Werner Herzog, o japonês Kore-eda e o italiano Nanni Moretti. Esta 83ª edição do Festival de Veneza será dominada por temas políticos. A disputa será acirrada, mas a seleção já é festejada pela equipe. “Para nós é um sucesso, um enorme êxito poder estar nessa competição. Vamos para Veneza e vamos curtir esse momento dessa viagem de um filme do cinema brasileiro, por meio de um filme internacional, na disputa com grandes realizadores e equipes talentosíssimas do mundo inteiro. Realmente vai ser uma emoção muito grande estrear esse filme em Veneza”, antecipa André Ristum. “Retorno a Buenos Aires” estreia no Festival de Cinema de Veneza em 11 de setembro, com a presença dos três coprodutores brasileiros, da atriz Paula Cohen e do ator Eduardo Hoy. O filme de abertura na noite desta quarta-feira é “Ink”, de Danny Boyle.
O Gustavo foi ver um concerto de punk-rock no Gasoline (Barreiro), organizado pela Infected Records e Zerowork Records, em que tocaram as bandas Ervas Daninhas, Albert Fish, Atlantes e The Anxiety Disorders. Para falar sobre o concerto, juntou-se com os seus 2 irmãos Ricardo e Paulo (que tocou no concerto) e conversaram na cozinha enquanto almoçavam. Ainda se falou um pouco do concerto de Atlantes em Veneza.Com o apoio da Hellsmith.Disponível nas plataformas de podcasts (Spotify, Apple Podcasts, etc.)#laughbangingpodcast #podcast #portugal #heavymetal #hellsmithmetalmerch #punk #concertoPatreon - https://www.patreon.com/laughbangingFacebook - https://facebook.com/laughbanging
No segundo episódio desta temporada, os três caras viajam por Veneza com a obra de Thomas Mann
Entre uma amiga que acabou dentro de um canal, dúvidas sobre a casa onde iam ficar, máscaras venezianas e tempestades de relâmpagos inesquecíveis, a Carolina e a Rita descobriram o encanto de Veneza. Um episódio cheio de peripécias, descobertas e histórias para mais tarde recordar.
O Vice-presidente da Associação Portuguesa de Cinematografia, Frederico Corado reage à distinção em Veneza de Pedro Costa com o Prémio Robert Bresson. Realça um realizador com um caminho singular.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Hoje, 'No Pé do Ouvido, com Yasmim Restum, você escuta essa e outras notícias: Estados Unidos impuseram sobretaxa de 12,5% a produtos brasileiros, elevando para 37,5% a tarifa total sobre parte das exportações nacionais. Enquanto isso, Flávio e Michelle Bolsonaro fizeram uma reconciliação pública. Anuário da Segurança Pública registrou queda nas mortes violentas em 2025, mas alta de 4% nos feminicídios. E Brasil voltou à disputa do Leão de Ouro em Veneza, enquanto Amazon e Google anunciaram novos serviços de inteligência artificial e segurança digital.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Guimarães Rosa inspira dois novos lançamentos da Editora Autêntica.See omnystudio.com/listener for privacy information.
O município de Nova Veneza deu mais um passo na ampliação do programa de monitoramento contínuo de glicose para pacientes com diabetes tipo 1. Inicialmente voltada para crianças e adolescentes de até 18 anos, a iniciativa passa agora a contemplar pessoas de até 25 anos e gestantes diagnosticadas com a doença. Em entrevista à Rádio Cruz de Malta FM, o secretário municipal de Saúde, Kristian Mazzucco, explicou que a ampliação ocorre de forma planejada para garantir a sustentabilidade do programa. "A gente está tendo esse cuidado de ir gradativamente ampliando, porque uma vez ofertado para a população, é um serviço que precisa ser mantido constantemente", afirmou. Segundo o secretário, o programa foi implantado no ano passado e, após um período de seis a oito meses de avaliação da adesão dos beneficiários, a administração municipal decidiu ampliar o público atendido. Atualmente, cinco crianças e adolescentes participam do programa. Com a nova etapa, a expectativa é que o número de beneficiados chegue a 13 pessoas. No entanto, a Secretaria de Saúde acompanha com cautela a demanda devido à possibilidade de subnotificação dos casos de diabetes tipo 1 no município. "A gente não quer ampliar demais a faixa etária e depois vir uma demanda que o município não consiga absorver. Estamos dando um passo de cada vez", destacou. Embora a expansão ocorra gradualmente, o objetivo da administração municipal é disponibilizar o monitoramento para todos os pacientes com diabetes tipo 1. "O objetivo da gestão é atingir 100% da população, desde que isso caiba no orçamento e que a gente consiga manter esse serviço de forma contínua." Com base em indicadores nacionais, a Secretaria de Saúde estima que Nova Veneza tenha entre 40 e 50 moradores com necessidade do monitoramento contínuo de glicose. O equipamento utilizado faz o monitoramento contínuo da glicemia e envia informações em tempo real para um aplicativo no celular. Pais, familiares e até professores podem receber alertas quando há alterações importantes nos níveis de glicose do paciente. Além disso, a Secretaria de Saúde também acompanha os dados por meio de um portal, permitindo uma análise detalhada do comportamento glicêmico dos pacientes e facilitando o encaminhamento para nutricionistas ou especialistas quando necessário. Para o secretário, a tecnologia representa um ganho significativo, principalmente para crianças. "É um pecado uma criança de dois ou três anos precisar furar o dedo várias vezes por dia para medir a glicose. Hoje os pais têm muito mais tranquilidade sabendo que qualquer alteração será comunicada imediatamente." Segundo Mazzucco, o retorno das famílias atendidas tem sido extremamente positivo. "Foi uma repercussão muito positiva. Os pais relatam mais segurança e tranquilidade no dia a dia." Investimento é de cerca de R$ 600 por paciente O secretário informou que o custo atual do programa é de aproximadamente R$ 600 por mês para cada paciente atendido, valor que inclui o fornecimento do equipamento e dos insumos necessários para o monitoramento. A expectativa da Secretaria de Saúde é que, com o surgimento de novos equipamentos no mercado, os custos diminuam, permitindo novas ampliações do programa. "Nossa expectativa é que esse custo venha a baixar. Isso acontecendo, teremos condições de ampliar ainda mais o atendimento." O programa foi criado por iniciativa do Poder Executivo Municipal e deverá ser transformado em projeto de lei para consolidar a política pública de monitoramento contínuo de glicose em Nova Veneza.
O Festival de Avignon arrancou a 4 de Julho, e junta, durante três semanas, milhares de pessoas, para esta 80ª edição. Este é o epicentro da história contemporânea do teatro, dirigido pelo encenador, dramaturgo e actor português Tiago Rodrigues. Este ano, há 47 espectáculos, dois de encenadoras lusófonas e a língua convidada é o coreano. Há uma maioria inédita de criadoras mulheres e a linha de força é um enorme ponto de interrogação estampado um pouco por todo o lado nas ruelas da cidade francesa. O teatro anda à solta, sem rédeas, pela cidade de Avignon. Bem-vindos ao “país do teatro, à república independente das artes performativas”, nas palavras e na companhia de Tiago Rodrigues, um dos fazedores desta “fábrica de memórias inesquecíveis para o público”. Uma dessas “memórias” é a primeira maratona teatral em português, de dez horas, com a apresentação, a 12 e 13 de Julho, da Trilogia Cadela Força de Carolina Bianchi. Outra é o espectáculo de cinco horas do francês Julien Gosselin, “Maldoror”, que Tiago Rodrigues acredita que “vai marcar as próximas décadas do teatro francês, europeu e mundial”. E outra, ainda, é a peça “Um julgamento - Depois do inimigo do povo” que descreve como “uma interpretação magistral de uma história do repertório agora reescrita, repensada por Christiane Jatahy e Wagner Moura e com um elenco magistral à volta de Wagner Moura que tem uma prestação absolutamente sublime”. Nesta 80ª edição, “os questionamentos” são a bandeira de um festival que sempre foi sintoma e espelho dos tempos que correm. Este é também “um espaço de liberdade onde os artistas e o público se podem exprimir com toda a liberdade”, reitera o artista, destacando que “em França, como noutros países da Europa e do mundo, a liberdade de expressão e de criação estão a ser ameaçadas”. Mais ainda, em França – diz – “já não se trata apenas de uma ameaça, mas de ataques repetidos em vários territórios”. E, assim, a menos de um ano das próximas eleições presidenciais em França, onde a extrema-direita cresce, Tiago Rodrigues, enquanto director desta instituição e não apenas como cidadão e autor de “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, toma já posição e pede às pessoas para não deixarem a extrema-direita chegar ao Palácio do Eliseu. Tiago Rodrigues, português, emigrante, inscreve-se numa longa linhagem histórica de emigração portuguesa para França, mas esta é também uma história familiar e é a história que inspira o seu próximo espectáculo, revelou à RFI em primeira mão. O pai, Rogério Rodrigues, exilou-se em França durante o Estado Novo, o filho é agora o director do maior festival francês de artes cénicas e serve com a sua arte o que chama de “dívida de gratidão” que tem com a sociedade francesa por ter acolhido o pai quando este precisava. RFI: Queria começar com uma expressão que o Tiago Rodrigues gosta muito de usar, que é “o país do teatro”. O festival está na 80ª edição. Até que ponto Avignon continua a ser a capital mundial do teatro? Tiago Rodrigues, Director do Festival de Avignon: “Eu acho que cada vez mais, com o passar do tempo, aquilo que era uma utopia imaginada por Jean Vilar, o encenador que em 1947 funda este festival logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, numa sociedade muito dividida e pensa que talvez um festival durante as férias das pessoas - e é preciso relembrar que as férias pagas eram uma novidade na época - durante as férias pagas das pessoas, podia ser um festival que permitisse ao público viver experiências que eles não teriam oportunidade, nem tempo para viver durante o ano, portanto, grandes aventuras teatrais em lugares monumentais que obrigariam a viajar. E é assim que nasce esta ideia, esta utopia de um país do teatro. Um lugar onde viajamos como quem viaja para fazer turismo, como quem viaja para se repousar. E aqui viajamos, sim, pelo turismo, pelo repouso, mas sobretudo pela descoberta dos espectáculos, pela descoberta de uma grande quantidade de estéticas e de visões de um mundo muito diferentes entre si. O tempo fez com que, ao fim de 80 edições, possamos dizer que este é o país do teatro, a república independente das artes performativas. O público vem precisamente com essa sede de ver espectáculos que talvez não tivesse tempo de ver durante o ano. Por exemplo, 'Maldoror', o espectáculo de Julian Gosselin, um grande encenador que dirige o teatro do Odéon, um dos teatros nacionais franceses, e que faz um espectáculo de cinco horas, poderíamos dizer que cinco horas é ambicioso, mas é um espectáculo magistral. O que nós vemos é que ao fim das cinco horas, por volta das duas e meia, três da manhã, todo o público está lá, aplaudiu de pé e viveu essa aventura colectiva que é singular, que só se vive em Avignon, estar num palácio sob as estrelas e ver uma obra de arte que, no meu entender, este ‘Maldoror' vai marcar as próximas décadas do teatro francês, europeu e mundial.” É português, é o primeiro director estrangeiro a dirigir o festival. Esta é a sua quarta edição como director. Conhece os talentos e as dificuldades das artes performativas portuguesas, brasileiras, de dança contemporânea moçambicana e cabo-verdiana, por exemplo, mas este ano só há duas peças lusófonas no cartaz… “Eu permito-me corrigir o “só”, “só há”. O Festival de Avignon é um festival de nomes de expressão mundial e, portanto, é um festival que tem que estar atento a tudo o que se passa no mundo. Saber que, por exemplo, este ano há duas artistas brasileiras e saber que estas duas artistas brasileiras lusófonas, Christiane Jatahy e Carolina Bianchi, que são duas das grandes artistas desta edição, são duas artistas que vêm de um só país lusófono, numa possibilidade de mais ou menos - é discutível a quantidade de países que existe no mundo, mas digamos que são duas centenas, porque depois há questões de legitimidade de algumas fronteiras, etc - mas digamos que em 200 países haver dois espectáculos, ambos vindos do Brasil ou de criadores brasileiros, criadoras neste caso, é, de qualquer das formas, um foco muito importante, uma atenção muito importante. Há muitos países que não estão representados no festival. Este ano, há uma representação de 14 países e, portanto, digamos que a maioria dos países do mundo não estão presentes no ano. A criação lusófona tem duas presenças e, portanto, acho que estamos numa quantidade, numa proporção muito benéfica para a criação lusófona.” Mas o que eu queria mesmo saber - e já percebeu onde quero chegar - é quando é que Avignon vai convidar a língua portuguesa? “Bom, o que eu posso dizer é que recentemente fui reconduzido para um segundo mandato, portanto, serei director do Festival até 2030. E estou muito feliz, muito vaidoso mesmo dessa possibilidade, mas também é um grande privilégio e uma grande responsabilidade também. E sem dúvidas que a língua portuguesa, eu digo desde o início, tem todo o mérito, toda a riqueza, toda a diversidade contemporânea e, sobretudo, toda a grande qualidade das criadoras e dos criadores, sejam portugueses, brasileiros, moçambicanos, angolanos, cabo-verdianos para estar presente no festival. Eu recordo que a lusofonia tem estado muito presente nos últimos anos no festival. No ano passado, a abertura do festival fez-se com uma artista cabo-verdiana, Marlene Monteiro Freitas, foi a primeira vez que Cabo Verde esteve na Cour d'Honneur du Palais des Papes e abriu este festival, ainda por cima no ano em que se celebrava os 50 anos da independência desse país-irmão do meu país-natal, Portugal. E, portanto, temos feito um trabalho de abertura, de aproximação do público de Avignon à criação lusófona ou em língua portuguesa. Sem dúvida que até 2030 a língua portuguesa será certamente uma das línguas convidadas no festival.” A Carolina Bianchi vem ao Festival de Avignon pela segunda vez para apresentar não só o terceiro capítulo da sua Trilogia Cadela Força aqui iniciada, como a trilogia completa, o que perfaz dez horas seguidas de maratona teatral. Isto também é histórico. Já houve maratonas teatrais em Avignon, mas em língua portuguesa, se calhar não… “Em língua portuguesa nunca houve uma aventura destas e estamos muito felizes de poder acompanhar a Carolina e toda a sua equipa da Companhia Cara de Cavalo nisto, que é uma aventura inédita. É o tipo de aventuras que só se pode viver em Avignon, dez horas de teatro. Antes que Carolina Bianchi fosse conhecida do público francês ou europeu, apresentámo-la pela primeira vez em 2023 e logo na altura sabíamos que estávamos comprometidos com continuar a acompanhar a sua trilogia. Entretanto, Carolina Bianchi ganhou o Leão de Prata da Bienal de Veneza, tornou-se numa artista absolutamente reconhecida a nível não apenas europeu, mas mundial. Queríamos estar no lugar do término desta trilogia, a acompanhar a aventura até ao fim e, sobretudo, permitir ao público de descobrir pela primeira vez a trilogia completa inédita. É uma grande aventura para a companhia, que exige enormemente. Também exige do público e das equipas técnicas e de acolhimento. Estamos muito felizes aqui em Avignon de poder propor ao público estas aventuras, porque, como nós costumamos dizer, nós queremos ser uma fábrica de memórias inesquecíveis. E é isso que queremos propor: uma memória inesquecível ao público.” A encenadora brasileira Christiane Jatahy também traz uma peça com um forte teor político. Qual é este alerta também em língua portuguesa que esta peça traz para os dias de hoje? “Christiane Jatahy, acompanhada de Wagner Moura, grande actor que foi este ano nomeado para os Óscares, que ganhou o Globo de Ouro, que ganhou o prémio de interpretação masculina em Cannes no ano passado e, portanto, de alguma forma, é um dos grandes protagonistas deste festival, juntaram-se para - ele actor, ela encenadora, mas ambos como autores do texto deste espectáculo - nos apresentarem um espectáculo que não é uma adaptação de ‘Um Inimigo do Povo' de Henrik Ibsen, mas que se inspira dessa história do dramaturgo norueguês para inventar um processo em tribunal onde se pergunta se alguém que denunciou a contaminação das águas de uma cidade é um herói que tentou ajudar as pessoas, salvar a saúde das pessoas, ou se é um inimigo do povo, alguém que destruiu a economia dessa cidade que dependia das termas, de um spa e dos turistas que vinham. Há um julgamento dessa pessoa e é um julgamento muito também sobre o risco dos julgamentos populares em opinião pública na época das redes sociais, na época em que toda a gente pode exprimir uma opinião, caluniar, difamar e destruir uma reputação publicamente muito facilmente. É uma questão de debate sobre a legitimidade de um gesto político de denúncia, sobre o diálogo entre saúde pública e a economia, essa tensão, também sobre a ecologia muito presente no espectáculo e é, sobretudo, uma interpretação magistral de uma história do repertório agora reescrita e repensada por Christiane Jatahy e Wagner Moura, com um elenco magistral à volta de Wagner Moura, que tem uma prestação absolutamente sublime. Uma peça que nos chega agora de Lisboa, esteve mesmo agora em Portugal em digressão e que é o resultado de uma encomenda que o Festival de Avignon fez com o Holland Festival de Amsterdão e com o Festival de Edimburgo, que são os três festivais europeus fundados no mesmo verão de 1947. Juntos queremos colaborar, continuar a colaborar também para o ano, quando fizermos 80 anos os três festivais e, para este início de colaboração, lançámos o desafio a Christiane Jatahy e a Wagner Moura de criar esta peça e estamos muito felizes. É uma das peças pilar da programação do festival este ano. E muito feliz também que seja a segunda peça falada em português.” Desde a sua primeira edição como director artístico do festival, apresentou “Na Medida do Impossível” e “By Heart” em 2023, “Hécuba, não Hécuba”, em 2024, “A Distância”, em 2025. Antes de ser director, já tinha apresentado “António e Cleópatra”, “Sopro” e “O Cerejal”. Este ano não apresenta peça sua. Posso perguntar porquê? “Porque acho que é importante que o meu trabalho artístico esteja sempre ao serviço do festival e nunca o contrário. E isso exige equilíbrio. Exige, no meu entender - e é a escolha responsável que eu tento fazer - que o meu trabalho não esteja necessariamente sistematicamente presente enquanto artista na programação do festival para deixar espaço a outros, para permitir precisamente que o festival não trabalhe a meu favor, mas o contrário, que quando eu apresento um trabalho, uma peça, um espectáculo no Festival de Avignon, seja para contribuir à programação e também contribuir, de certa maneira, à economia do festival. As digressões dos meus espectáculos produzem receitas que favorecem o festival e que nos permitem convidar outros artistas do festival. E, portanto, eu acredito que o director do Festival de Avignon ou a directora, se forem artistas, devem fazer o seu trabalho no festival, mas devem fazer com a medida que permite que seja o seu trabalho a estar ao serviço do festival e nunca o contrário, como disse. O Tiago Rodrigues é imigrante em França. Não vai poder votar nas presidenciais francesas do próximo ano porque é preciso nacionalidade francesa para isso. Como é que o autor de “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” olha para estas eleições, nomeadamente depois de Marine Le Pen ter confirmado que se vai candidatar? “Não é apenas o autor de ‘Catarina e a Beleza de Matar Fascistas' ou o cidadão Tiago Rodrigues, mas é também o director do Festival de Avignon que toma posição e a posição é muito clara. O Festival de Avignon já pôde fazê-lo no passado, nas legislativas de 2024, que aconteceram ao mesmo tempo que o festival. O Festival de Avignon fez apelo a uma barragem à extrema-direita e, portanto, à União Nacional de Marine Le Pen, e fez um apelo ao voto no campo democrático. Eu não considero, o Festival de Avignon institucionalmente não considera, que a extrema-direita pertence ao campo democrático. A nossa posição é muito clara. Fazemos um apelo à participação nas eleições e é uma barragem clara, sem ambiguidades, à extrema-direita. Será também o caso para as presidenciais, como foi, aliás, para as municipais de Avignon, onde a extrema-direita perdeu uma derrota forte depois também de o festival ter tomado posição e ter anunciado que não trabalharia com a extrema-direita se esta tomasse o poder na cidade de Avignon. Felizmente não foi o caso e não será o caso, eu creio, também nas presidenciais. Sinto muita confiança na lucidez democrática das francesas e dos franceses.” Avignon é, historicamente, a cidade-teatro aberta à contestação, o festival sempre foi politicamente atravessado pelo seu tempo, como acaba de dizer, assim como em Maio de 68, os debates pós-coloniais, as crises migratórias. Este ano, qual é a causa a atravessar esta edição? “Cada Festival de Avignon é, por um lado, um sintoma de implicação com a actualidade, com os grandes fenómenos da actualidade e, portanto, a cada festival vemos novas questões, novas causas, novos debates a surgirem. E é também por isso que este ano quisemos celebrar esta 80ª edição, pondo as questões e os questionamentos no centro do discurso. Este é um festival que desde 1947, por 80 ocasiões, colocou questões ao mundo, as questões dos artistas, acompanhando os artistas a criar espectáculos que traduzem os seus questionamentos e permitindo ao público de se apropriar destas questões para ter os seus debates. O Festival é muito conhecido pelos seus debates, apaixonantes e apaixonados, por vezes bem intensos, e nós gostamos que seja assim. Gostamos que seja assim, aqui no Café das Ideias, onde estamos e onde acontecem todas as manhãs grandes debates, mas também nas ruas, nas praças, espontaneamente. Discutindo espectáculos, nós discutimos o mundo e questionamos o mundo. Este ano, como todos os anos, julgo que a questões que atravessam a actualidade, seja questões ligadas, por exemplo, às eleições presidenciais, questões ligadas à crise climática, às vagas de calor e à aceleração de medidas que os governos têm que tomar para combater a crise climática, defender a biodiversidade, mas também a vida e o bem-estar das pessoas e questões que são intemporais. Este ano temos, por exemplo, dois Hamlet, portanto, a questão de ‘ser ou não ser', que já existe há 400 anos, aqui está de novo. É esta mistura de questão política e questão íntima, de questão pública e questão individual, que anima a cada ano o festival que quer continuar a ser um festival de liberdade de expressão, de implicação com o mundo, mas com uma grande pluralidade de pontos de vista. Não é um festival de pensamento único que está aqui para convencer as pessoas seja do que for. É um espaço de liberdade onde os artistas e o público se podem exprimir com toda a liberdade, e deve dizer-se isto várias vezes, numa França onde, infelizmente vemos, como noutros países da Europa e do mundo, a liberdade de expressão e de criação a ser ameaçada. A França não é imune a isso. Já não se trata apenas de uma ameaça, mas de ataques repetidos em vários territórios de França. Aqui em Avignon, a primeira coisa que podemos fazer para responder a essa ameaça é praticar toda a liberdade de criação, toda a liberdade de expressão.” É essa a sua assinatura mais pessoal nesta edição? Reafirmar a liberdade de criação junto dos artistas, dar-lhes um espaço seguro aqui no festival? “Eu não acredito em assinaturas pessoais. Isto é o trabalho de mais de 700 pessoas que organizam este festival. O pensamento do festival não emana apenas de mim, é de dezenas de pessoas, de centenas de discussões, ele emana dos artistas e emana do público. E eu convido sempre quem me coloca essa questão de ‘Qual é a marca que tu, enquanto director, queres imprimir? Qual é o teu cunho pessoal?' O meu cunho pessoal é: Perguntem às pessoas na rua o que sentem em relação a este festival, como estão a vivê-lo. É permitir colocar-me ao serviço desta história, desta aventura colectiva que atravessa gerações. São os filhos que transmitiram aos netos, que transmitem aos vindouros este amor do teatro e este amor de poder juntar-se sem ser à volta de uma mesma ideia, juntar-se à volta do debate, à volta do facto de podermos estar juntos, felizes, a desfrutar das artes do teatro em desacordo. Este desacordo é o princípio do diálogo e o diálogo é o fundamento da democracia.” Falou da questão da filiação, da transmissão intergeracional. Está em França há quatro anos. Emigrou como o seu pai e como tantos milhares de portugueses o fizeram no século XX, durante a ditadura portuguesa. O seu pai foi acolhido pela França e o Tiago é convidado pela França para dirigir o maior festival de teatro francês, quando justamente há esta ameaça de a extrema-direita chegar ao poder. Isto é uma história que poderia dar uma peça de teatro. Qual é o poder simbólico desta história no contexto político actual? “Devo dizer que, enquanto director do Festival de Avignon, português, saber que estou ao serviço desta aventura, dos valores democráticos, republicanos, progressistas deste festival que é um festival também ecologista, feminista, anti-racista porque defende esses valores da democracia, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, saber-me ao serviço destes valores, através deste festival, é para mim, de alguma forma, tentar também pagar a dívida de gratidão que tenho em relação à sociedade francesa que acolheu o meu pai quando o meu pai precisava de ser acolhido.” Obrigada por continuar a transmitir esta história e obrigada por também transmitir a história da emigração. “Vou dizê-lo para a RFI, é a primeira vez que falo disto publicamente: acho que será o tema do meu próximo espectáculo.”
Hoje, 'No Pé do Ouvido, com Yasmim Restum, você escuta essa e outras notícias: Aliados avaliam que documento que pedia suspensão do tarifaço repercutiu mal e senador precisa se posicionar contrário à taxação. Entidades brasileiras e americanas se manifestaram no primeiro dia de audiência defendendo fim das tarifas. Espanha vence Portugal e Bélgica goleia EUA na Copa. iPhone dobrável pode esgotar antes do lançamento. E Festival de Veneza vai homenagear George Clooney com Leão de Ouro.See omnystudio.com/listener for privacy information.
A encenadora, actriz e escritora brasileira Carolina Bianchi regressou ao Festival de Avignon para estrear “Uma Luz Cordial”, o último capítulo da "Trilogia Cadela Força" aqui iniciada em 2023. Esta é “uma luz atrelada à expressão da violência”, mas também à "expressão do prazer", conta-nos a artista que neste espectáculo confronta o público com “o enigma” que atravessa a peça e que envolve teatro, literatura e sexualidade. Carolina Bianchi e a sua companhia Cara de Cavalo vão também fazer dois dias de maratona teatral de 10 horas com as três peças seguidas da trilogia, um gesto movido pelo desejo de “aventura total”. Carolina Bianchi encerrou a trilogia iniciada em Avignon com “Uma Luz Cordial”, um espectáculo que leva para o palco a violência do acto de escrever e o mistério da sua própria sexualidade. Esta é “uma luz atrelada à expressão da violência”, mas também “à expressão do prazer”, conta-nos a artista que foi buscar o título da peça a um poema que lhe é fundamental: “My Life Had Stood a Loaded Gun”, de Emily Dickinson, em que a imagem de uma arma carregada lhe evoca o potencial explosivo de uma poeta a escrever. Além do novo espectáculo, Carolina Bianchi e a sua companhia Cara de Cavalo retomam toda a trilogia nesta 80ª edição do Festival de Avignon e o público poderá ver, no mesmo dia, “A Noiva e o Boa Noite Cinderela” [que a revelou aos palcos europeus e com o qual conquistou o Leão de Prata da Bienal de Veneza em 2025], “The Brotherhood” e “Uma Luz Cordial”. A maratona teatral de 12 e 13 de Julho, na Opéra Grand Avignon, dura diariamente cerca de dez horas, um gesto movido pelo desejo de “aventura total”, em referência à "obra de arte como aventura total” do artista Alberto Greco, de quem também fala em palco. “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”, o primeiro capítulo, arrasta o público para o inferno das violações e dos feminicídios. “The Brotherhood”, o segundo capítulo, mergulha-nos nas alianças masculinas que têm dominado a história da arte e do teatro e verbaliza o fascínio por esses mestres da arte e da violência. Agora, “Uma Luz Cordial”, o terceiro capítulo, tenta fintar a brutalidade da criação artística e faz a literatura irromper em todo o espaço cénico. Diluem-se novamente fronteiras entre teatro e poesia, entre ficção e real, entre autor e alter ego. Carolina Bianchi vai desaparecendo de cena para reaparecer “nas vozes” de autoras como Hilda Hilst e Emily Dickinson. Não se pense que este último capítulo vem curar alguma dor porque, ela avisa em palco, “a dor não passa” e “não há salvação”. Há, no entanto, uma luz ao fundo do túnel, a tal “luz cordial”, ainda que corresponda ao disparo de uma arma no poema “My Life Had Stood a Loaded Gun”. O teatro radical de Carolina Bianchi, que deixa enigmas e não dá respostas, que leva para o palco a complexidade e a perplexidade do mundo, que leva à tona tanto a parte maldita quanto a parte poética da criação, está no Festival de Avignon até 12 de Julho. RFI: Como é que nos pode apresentar este terceiro capítulo que fecha a trilogia “Cadela Força”? Carolina Bianchi, Autora e encenadora da trilogia teatral “Cadela Força”: “Uma Luz Cordial é um trabalho que vai na direcção da escrita, sobre o acto de escrever. Então, ele é, na verdade, eu me colocando ali também, nesta travessia deste espectáculo, como a escrita em si, o meu corpo está muito mais fora de cena do que nos outros trabalhos da trilogia. Acho que também tem essa questão: a de uma escritora que está desaparecendo, que está se tornando pura escrita. Por tocar nesse assunto da escrita, acho que forma um triângulo muito importante com outras duas coisas, que é a imaginação e a sexualidade. Aí, para mim, surge uma equação do enigma desta terceira parte, que é o que atravessa este último capítulo, estas três palavras que não se conseguem mais dissociar, a escrita também como uma possível expressão da sexualidade e é não só falar sobre a sexualidade, mas a escrita como expressão de uma sexualidade. Acho que, sobretudo, é também muito importante dizer: a literatura como forma de prazer.” Há uma poesia de Emily Dickinson essencial na peça, que fala em "uma luz cordial" em que "a arma tem o poder de matar, mas não de morrer". Por que chamou ”Uma Luz Cordial” ao terceiro capítulo? “Esse é o meu poema preferido da vida. Emily Dickinson traz uma possibilidade de ler esse poema - porque é o que eu digo também no trabalho: é difícil chegar a uma conclusão sobre como analisar um poema de Emily Dickinson. E essa é a coisa mais bonita sobre essa autora, que trabalha com enigmas, com espaços de puro mistério na sua escrita, na sua poesia. Acho que essa imagem de uma arma carregada que, para mim, pode ser a imagem da poeta a escrever, é uma das imagens mais bonitas que a poesia já trouxe para o meu imaginário. Aí vem essa frase ‘Uma luz cordial' que está no poema e ela essa sentença para descrever o momento do disparo da arma. Então, o tempo todo ela está trazendo nesse poema esses dois lados de uma arma que também é uma arma que é uma expressão de violência e, ao mesmo tempo, quando o disparo é descrito como uma luz cordial isso também traz outra imagem sobre essa arma, que é uma imagem de vida, uma imagem de sorriso, uma imagem de prazer, uma imagem de iluminação que é muito forte.” Em “A Noiva e o Boa Noite Cinderela” a principal inspiração era a artista italiana Pippa Bacca, violada e assassinada em trabalho. Em “The Brotherhood”, inspirava-se também na dramaturga Sarah Kane que dizia que “não há amor sem violência” e que explorava os temas do amor e da violência. Agora, as suas musas são Hilda Hilst e Emily Dickinson. Porquê falar através da voz destas artistas mulheres e porquê levar de forma tão franca a literatura para o teatro? “Tem uma coisa que eu acho que é importante dizer. A Pippa Bacca, para mim, ela não foi tanto uma inspiração como a minha relação com a Sarah Kane, talvez com outras dessas autoras. Acho que a Pipa Baca tinha uma coisa ali de um mistério do qual eu precisava, era quase a atracção de um detective que eu acho que é um pouco diferente. Nestes dois outros trabalhos, quando Sarah Kane aparece, quando vem a Emily, a Hilda e outras vozes também, para mim tem um aspecto de um encontro que é um encontro onde você se sente pertencente a um lugar ou onde você tenta pertencer a um lugar onde encontra essas outras autoras, onde você se sente menos sozinha, onde você tem um lugar onde se reconhece numa história. Acho que isso acontece muito com a Sarah Kane na ‘Brotherhood', alguém que fez espectáculos extremamente violentos, que sofreu também muitas consequências, boas e ruins, dessa dramaturgia sem concessões que ela fazia. Agora, nesta terceira, o ponto onde a coisa ainda fica mais profunda é a questão de elas serem alter egos. Quando eu falo dessa escritora que morreu e que agora aguarda nesse outro espaço essa hora de voltar, para mim, esse virar escrita também significa dissolver-se em alter egos. A minha voz já não é essa voz central, a voz está espalhada, está tudo espalhado, estilhaçado. Tudo ali é duplo. Também vem essa ideia da fantasmagoria em si, que eu também falo nos outros capítulos. Para mim, essa fantasmagoria chega no seu ápice na trilogia, que é a ideia de que nem sequer essa voz é a voz que agora é a mais ouvida. Essa voz precisa de se dissolver em alter egos e o da Emily Dickinson - que ocupa um lugar muito importante na minha vida, na minha história, com a literatura, com a escrita - aparecem também nesse chamado para seguir escrevendo.” Também interroga o próprio sacrifício da escrita e a violência que é escrever? “Sim, interroga, mas também é um lugar de prazer. Para mim, é muito importante afirmar essa palavra neste último capítulo, que eu acho que também é uma palavra que pouca gente esperava que fosse aparecer aqui. Há uma questão de associação entre a literatura e o prazer e, por isso, também a gente está associando com a questão da sexualidade, porque eu estou trazendo uma sexualidade que também se está colocando como uma grande desorganização, como um grande enigma o tempo todo. Aqui, isso está mais endereçado do que nunca. Então, é um corpo que está ali fervendo, que é o corpo da escritora, que é o corpo da escrita, que é um corpo que também está revelando uma expressão sexual muito forte.” Por isso é que traz esse corpo colectivo da sexualidade para o palco, com os actores da sua companhia Cara de Cavalo? “Sim, sim, porque eu acho que tem ali mesmo uma pergunta sobre como se manifesta essa sexualidade no espectáculo, sem ser a sexualidade de estar atrelada ao real ou o sexo real no palco ou a representação. Não me interessa essa pergunta. Nesta peça, para mim, interessa-me falar como manifestar essa sexualidade que está atrelada ao acto de escrever. É uma sexualidade que vem da palavra e uma sexualidade que está atrelada à leitura. Ela é uma sexualidade que é o tabu da leitura, que limites são esses também que a literatura explode o tempo todo e que para o teatro é mais complicado. Então, acho que tem uma tensão aí entre teatro e literatura, entre o acto de ler e de você também não poder escapar dessa literatura. Acho que tem muitas coisas aí onde esse fio vai dando um nó mesmo.” Nessa “dramaturgia sem concessões”, em que leva também a sexualidade para o palco, recorre a uma obra que a escritora Hilda Hilst escreveu para fintar o pedido do editor que queria uma obra que vendesse muito. A Carolina coloca em cena uma marioneta a representar uma criança manipulada por dois adultos e durante 20 minutos ela fala da sua prostituição infantil. É uma das cenas mais fortes desta peça. Porquê esta cena? “Porque o meu desejo era colocar um livro dentro da peça. Ali a gente tem um livro que é ‘O Caderno Rosa de Lori Lamby' e acho que tem uma questão que ainda traz neste livro particular que é uma resposta a uma determinada maneira que o mercado editorial trabalha, que eu acho muito forte, porque ele é um livro sobre escrita. É uma menina que escreve o tempo todo e é o que a marioneta faz também em cena, ela escreve o tempo todo. Então, uma menina que escreve o tempo todo, inspirada pelo pai, que é um escritor que tem problemas também para vender os seus próprios livros. Inspirada pelo que ela ouve das conversas ao redor, das coisas que lê, ela começa a escrever esse relato. Acho que tem uma coisa que eu acho muito bonita que é, primeiro, uma questão do tabu, um tabu enorme que é a imaginação sexual de uma criança, porque não é só uma questão de abuso, acho que tem ali uma questão ou outra que é o que uma criança imagina quando escreve e isso é uma coisa que toca todo o mundo. Todos nós já fomos crianças. Todos nós sabemos que é uma imaginação que ainda não está tão moldada pelos limites, pelos tabus. Ela narra uma questão extrema nesse contacto dessa imaginação, tem um caminho extremo que a Hilda percorre, porque ela sabe que isso vai provocar algo ali, nesse tabu, com o jeito que a gente percebe essas situações. Ao mesmo tempo, tem uma coisa da escrita dela que é extremamente poética, que tem humor, que é uma coisa que você vê nos outros livros dela que eu acho muito importante. Acho que tem uma coisa desse choque também que isso provoca, que eu acho que é curioso também, que vem na cena seguinte mais explicitamente, que é uma cena que é “O Caderno do Cu do Sapo Liu Liu”, onde a gente tem o inverso, que é o grande escritor que escreve coisas terríveis, violentíssimas e é considerado um génio. Ele é considerado um Rimbaud. A gente está aqui na França, a terra de Georges Bataille, de Marquês de Sade, e é interessante como Hilda Hilst é tão chocante.” É por ser mulher? “Eu acho que o facto de ser mulher também faz ser mais chocante. O facto de ela ser mulher, o facto de ela ter escrito esse livro quando ela tinha 60 anos, mas eu acho que não vem a ser uma questão para mim pessoalmente. Eu não sei se isso é uma questão para quem lê isso e fica completamente perturbado, mas para mim, as questões dela ali, em relação à literatura, aos não limites que a literatura pode operar, são muito interessantes para mim.” Apesar da violência relatada por si e pelas mulheres de que fala, apesar de toda a vulnerabilidade, a trilogia chama-se Cadela Força. Agora que temos a trilogia completa em palco, por que é que a chamou assim? “Essas duas palavras não têm um significado específico quando colocadas em par. Elas não estão nem se dando adjectivo no português brasileiro, elas são palavras que não se estão completando, elas são realmente duas palavras jogadas ali. Acho que tem uma coisa sobre essa sonoridade que elas produzem, sobre as milhares de imagens que essas duas palavras podem produzir em contacto com os materiais da peça. E elas também têm um enigma delas, um segredo.” Na peça diz que “não há salvação”, que “não passa a dor”. Lemos que “o teatro é uma armadilha, que a literatura é uma armadilha e que talvez ainda esteja na mala do carro”, em referência à violação que sofreu e que conta no primeiro capítulo da trilogia. Quem viu os capítulos um e dois poderia esperar uma espécie de salvação no capítulo três ou, pelo menos, que o teatro fosse uma forma de reconstrução para si e, através de si, para outras mulheres. Não foi? “Não. E acho que quem esperava isso de mim assim estava muito equivocado. Para mim, é impossível pensar no teatro como salvação. Eu acho que já estou anunciando isso desde o princípio. Esse lugar de que o artista é alguém que precisa conceder esperança à sociedade, respostas à sociedade, conclusões de perguntas que são impossíveis, é um delírio e uma alucinação porque os artistas não têm essa responsabilidade. O que me interessa é justamente esse mistério do teatro. O teatro começa como um ritual dionisíaco, os rituais dionisíacos eram cheios de violência, cheios dessa violência poética que opera no fundamento da história do teatro. Então, eu acho que o teatro é um lugar onde ele precisa operar na chave do mistério, da instabilidade, não como salvação de nada.” Nas entrevistas que fizemos, em 2023 e em 2025, sobre os capítulos anteriores da trilogia, dizia-nos que “A Noiva e o Boa Noite Cinderela” falava da “antecâmara do inferno já com um pé no inferno”, que “Brotherhood” era “acordar no purgatório” e tentar perceber o que significa “situar-se no teatro depois de voltar do inferno”. E neste terceiro capítulo? “Esse capítulo, a gente chega na citação do 'Paraíso' de Dante Alighieri, esse momento onde tem uma imagem do paraíso que é muito linda, em que ele começa a ver esses espíritos, essas imagens de luz. Quase como chega um ponto ali onde, depois de ele se entender incapaz de seguir escrevendo, ele já se perdeu ali do Virgílio que encontrou uma outra musa que é a Beatriz que agora tem a palavra. Acho que tem alguma coisa nessa transformação onde a luz aparece, para mim, atrelada a uma expressão de violência que está no poema da Emily Dickinson, que também abre esse lugar de onde também há esse prazer da literatura que aparece. Esse lugar onde a literatura vai dominando tudo, onde essa ficção vai dominando tudo. É essa conexão que eu faço com o paraíso, com esse lugar onde a violência não pára, onde a violência não se resolve, mas ela chega a outras formas.” Não há salvação, mas há uma luz cordial? “Mas lembre-se que à luz cordial é o disparo da arma.” Fecha a trilogia no sítio onde a começou, no Festival de Avignon. Mostra o terceiro capítulo, mas também os dois anteriores. Já alguma vez representou dez horas seguidas e por que é que decidiu fazer algo quase sobre-humano? “Nunca representei por dez horas seguidas. Sobretudo, acho que nada me teria preparado, mesmo se tivesse feito. Não, nada me teria preparado para fazer isso, porque acho que essas dez horas são dez horas muito específicas, muito desse universo onde há aí uma consequência de se fazer algo depois do primeiro capítulo e eu acho que é isso que a gente vai estudar juntos. O que é que isso muda na nossa leitura de espectáculos que as pessoas já viram? Como eles vão ler esses espectáculos agora com esse efeito presente e contínuo? O que acontece? O que acontece com o teatro? O que acontece com a performance? O que acontece com a literatura quando se leva isso, essa experiência, que é uma experiência extrema? Tem uma frase num dos textos de ‘Uma Luz Cordial', onde eu estou-me referindo a um outro artista que é o Alberto Greco, um artista argentino, e ele diz que acredita na obra de arte como aventura total. Para mim, isso resume muito bem este gesto. Então, para si, é uma obra de arte total? “Não, aventura total. Não sei se é uma obra de arte total o que nós fazemos, mas eu acredito que o desejo de fazer essa obra tem a ver com esse desejo pela aventura total.” A trilogia ajuda a pensar o impensável. Verbaliza a violência, apropria-se da linguagem da violência para desconstruir o sistema em que ela se baseia. Ao fazê-lo, também não alimenta o sistema em que “Somos todos brotherhood”? Não há maneira de quebrar o ciclo? “Acho que não. Eu não saberia dizer. Acho que não. Acho que esse ciclo talvez vai ser um ciclo que vai demorar muito para ser quebrado. Onde estamos agora no mundo, o que a gente está vendo acontecendo ao redor do mundo, esse conservadorismo extremo, esse fascismo extremo que está em toda parte, que está no mundo das artes também, eu não vejo ainda uma saída desse ciclo. Sinto muito., mas espero que exista um dia. Não sei se eu vou estar aqui para assistir isso, mas…” Foram vários anos a escrever, a interpretar, a representar, a sofrer também com esta trilogia que agora fecha. Olhando para trás, o que é que representou para si e o que gostaria que ela deixasse junto de quem a viu? “Eu acho que é uma coisa enorme. Mesmo assim, eu nunca vou conseguir, talvez nem nesta encarnação, ter distanciamento suficiente para ver tudo o que isso representou na minha vida, na vida das pessoas que trabalham comigo ou ainda de quem acompanhou o trabalho. Agora eu estou muito próxima, ainda estou muito aqui para entender qualquer coisa sobre isso. Eu sei que as mudanças que isso faz na minha vida são imensas. A minha vida foi completamente transformada e transtornada por esse trabalho, mas eu sinto isso assim, eu sinto que eu estou aqui, eu estou dentro dele ainda. Talvez no ano que vem eu consiga já ter um pouco mais de distanciamento para entender, porque agora eu só consigo dizer que isso mexeu em tudo. E eu estou ainda no meio desse furacão.” O furacão que também afectou o público e, se calhar, a história do teatro contemporâneo? “Tomara que sim. Eu nunca consigo afirmar muito esse tipo de coisas. Não sei. Tomara que sim. Tomara que tenha afectado muita gente. Eu acho fez algo, com certeza, com este contexto, mas eu preciso de distanciamento mesmo para entender o que foi feito, o que mexeu.”
Escolhido para representar Portugal na Bienal de Veneza, Alexandre Estrela apresenta uma instalação - RedSkyFalls - onde criaturas reagem a atividade sísmica em tempo real.See omnystudio.com/listener for privacy information.
A Bienal de Veneza 2026 abre-se ao áudio, às imagens poderosas, às palavras, aos pensamentos, à poesia – num programa estético e político que nos traz em novidade vozes e rostos de regiões habitualmente ausentes do nosso quotidiano. É uma das grandes atrações europeias a quem visitar o Velho Continente até novembro.
O que fez o homem deixar de se enxergar apenas como parte de um coletivo e passar a se compreender como um indivíduo singular? Neste programa da Brasil Paralelo, mergulhamos na tese monumental de "A Cultura do Renascimento na Itália", do historiador suíço Jacob Burckhardt. Publicado em 1860, o clássico transformou permanentemente a nossa compreensão sobre a transição da Idade Média para a era moderna. Viaje pelas cidades-estado da Itália entre os séculos XIV e XVI, como Florença, Veneza, Milão e Roma, e descubra como a intensa ambição política, a genialidade de figuras como Leon Battista Alberti e Leonardo da Vinci, e a ascensão ao poder de homens que se fizeram por conta própria criaram o "laboratório da modernidade".
A arte das geografias mais longe da vista mostra-se na Bienal, em Veneza. Uma crónica de Francisco Sena Santos.See omnystudio.com/listener for privacy information.
O Autores e Livros desta semana apresenta uma edição dedicada à literatura brasileira, reunindo biografia, romance, crítica social e poesia. O destaque do programa é a entrevista com o jornalista e historiador Leonencio Nossa sobre o livro “João Guimarães Rosa: biografia”, considerada a primeira grande biografia do autor de “Grande sertão: veredas”. A obra revela aspectos pouco conhecidos da trajetória de um dos maiores escritores brasileiros. A edição também celebra os 70 anos de “Grande sertão: veredas” com um projeto especial da Autêntica Editora, que reúne os livros “Para ler Grande Sertão: veredas”, de Italo Moriconi, “Diário do Grande Sertão”, de Bruna Lombardi, e “Sertão-Veneza: retornos e travessias roseanas”, de Jacques Fux. Entre as dicas de leitura, destaque para “O peso da inexistência”, de Amélia Greier, romance sobre a invisibilidade social das mulheres; “Cor de defunto”, estreia da escritora cearense Cami di Malta; “Quando o Coração Sangra”, coletânea de contos de Eliete Fátima Guarnieri; e o lançamento do “Dicionário Crítico das Vozes Femininas da Literatura em Goiás”, organizado por Elizabeth Abreu Caldeira Brito. No quadro Entrelinhas, a poesia ganha espaço com “Caderno-goiabada”, de Nina Rizzi, obra que mistura memórias, receitas, diário e prosa poética para refletir sobre afeto, maternidade e reinvenção feminina.
Foi apresentado em finais de Maio em Paris, o terceiro e último volume do livro "Memórias em tempo de amnésia" de Álvaro Vasconcelos, especialista de relações internacionais e voz bem conhecida das nossas antenas. Nesta obra em três partes, o autor relata as épocas que atravessou, o salazarismo, o colonialismo português em África, nomeadamente em Moçambique onde viveu, os anos de militância política na África do Sul, em França e em seguida em Portugal, onde regressou na altura do 25 de Abril. No terceiro volume das suas memórias intitulado "O futuro para além do apocalipse", Álvaro Vasconcelos recorda a conquista da independência das ex-colónias, assim como os primórdios da democratização de Portugal e a sua adesão à União Europeia. O antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia e fundador em Portugal do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais também evoca a viragem autoritária a que se assiste actualmente em várias partes do mundo, a que ele chama de «brutalismo» e que tem a ver com a corrente 'tecno-totalitarista', encabeçada nomeadamente por alguns magnatas da Silicon Valley. Álvaro Vasconcelos fala também da urgência ambiental, da urgência de não nos esquecermos que somos humanos, numa época em que tendemos a colocar tudo nas mãos da Inteligência Artificial. No fundo, ele fala da urgência de pensarmos. Neste livro denso que é uma chamada de atenção, ele começa cada capítulo com uma espécie de guião de filme e fala com um gosto não dissimulado de todas as fitas que o fizeram reflectir de outra forma sobre o mundo, porque este texto, ainda mais do que os anteriores, é uma declaração de amor à sétima arte. E evidentemente não podíamos deixar de falar -antes de mais- da importância que o cinema tem para Álvaro Vasconcelos. "O cinema é algo que me formou porque eu vivia na África colonial, na Beira, em Moçambique. E como era lá no fundo do Império, a ditadura era certamente muito mais suave para os brancos, para os negros era mais brutal do que em Portugal era para os portugueses. E os brancos da cidade da Beira, onde eu vivia, tinham acesso ao Cineclube da Beira, às grandes obras do cinema mundial, por exemplo, nós vimos o ‘Couraçado Potemkin', que em Portugal era absolutamente proibido. (…) E como o cinema, começamos a vê-lo mesmo muito, desde muitos miúdos, não só nos cineclubes, os cinemas eram a maravilha da época, era aquilo que nos educava, nos abria novos horizontes, que nos fazia rir com Charlot, com os irmãos Marx, que nos ensinava os problemas graves do mundo, como ‘Hiroshima mon amour', o neo-realismo italiano, ‘Os ladrões de bicicletas', etc. Evidentemente que o cinema teve para a minha geração e em particular para aquela que viveu no Império, mas não só, também também em Portugal, um impacto enorme, portanto, foi formativo. E ao escrever o último livro da minha trilogia, senti a necessidade de fazer um livro que fosse mais de reflexão que apenas descritivo da minha vida e de reflexão. Não sou filósofo, portanto, não podia ser uma reflexão filosófica. Mas era uma reflexão à volta das ideias que são veiculadas pelo cinema, que foram veiculadas pela grande literatura que eu li desde miúdo, que sempre me apaixonou e continuo a ler e que me ensinou imenso sobre o mundo. Eu descobri muitas coisas no cinema e na literatura que não era capaz de descobrir com o mesmo grau de profundidade dos ensaios", explica o autor. Nas suas memórias, Álvaro Vasconcelos fala da época colonial e também de uma descolonização das mentes que ainda não foi totalmente feita. "Em África, descobri a violência colonial e que a palmatória é um símbolo absoluto dessa violência. Palmatória com que iam castigar os empregados negros por coisas, não importa o quê. Mas mesmo que fossem coisas graves, era a mesma palmatória que era usada contra os escravos, como eu vi no Museu Afro-Brasileiro, em São Paulo. Infelizmente não temos em Portugal, nenhum museu sobre a escravatura. Temos um pequeno museu em Lagos, mas não temos um grande museu, como têm os brasileiros. E essa palmatória era usada também pelo professor primário para nos manter. Identifico a violência brutal de que era vítima pelo professor primário, que tinha um poder absoluto sobre mim, com a violência, de que eram vítimas os negros, que não tinham direitos nenhuns, nem direito à vida. E para que isso pudesse ter acontecido, foi preciso criar uma narrativa de que eles não eram gente civilizada. E essa narrativa perdurou no pós 25 de Abril, porque nunca se fez um trabalho verdadeiro de descolonização das mentalidades. E hoje, quando os imigrantes são tratados como são tratados com desumanidade, é porque não são considerados humanos iguais a nós. E como não são considerados humanos iguais a nós, podem ser vítimas da arbitrariedade. Não têm os direitos iguais. Isso é uma questão fundamental", considera o estudioso. "Quando se deu o 25 de Abril, podia-se ter feito uma coisa extraordinária e teria ficado para a história. Era considerar que toda a gente que reside em Portugal tem os mesmos direitos. Há um país no mundo em que isso, pelo menos já acontece, que é na Nova Zelândia. E, portanto, se os imigrantes tivessem o direito do voto, seriam tratados de forma completamente diferente ", diz ao referir que, em vez disso, "são vítimas da desigualdade mais absurda da escravatura às vezes da violência da morte no Mediterrâneo. Em vez de irem socorrer, acham que é uma forma dissuasiva que eles morram no Mediterrâneo. Isso, evidentemente, é feito posto em prática por políticos democráticos, mas evidentemente que estão a abrir o caminho à extrema-direita que fará disso uma doutrina de poder." No capítulo que reserva a estes aspectos, o autor escreve que “o silêncio sobre a verdadeira natureza do colonialismo é um dos grandes fracassos da democracia portuguesa” e que “a Europa assumir que o colonialismo foi um crime contra a humanidade tornaria o seu discurso sobre a democracia muito mais legítimo.” "O 25 de Abril foi uma revolução extraordinária. Libertou os portugueses da ditadura e criou um sistema de liberdades públicas, de Estado de Direito. Isso deve ser sublinhado e eu sublinho no livro, porque é único no século XX, uma revolução que não foi só uma libertação, mas trouxe a liberdade. Podemos pensar, por exemplo, que a Revolução de Outubro libertou os russos do Czarismo, que era um regime terrível. Mas não construiu um regime de liberdade. Isso aconteceu em Portugal. Simplesmente, Portugal era ao mesmo tempo uma ditadura e um império. E quando se construiu a democracia, fez-se um trabalho mais ou menos profundo sobre o que era a ditadura, o que é que era o fascismo. Existem vários museus, o Museu do Aljube, um museu em Peniche, existe um trabalho de memória. Existem nos livros de História. Conta-se o 25 de Abril, todo esse passado ditatorial. As pessoas sabem que houve a tortura, que havia a PIDE, que as pessoas não tinham direito à palavra. Tudo isso faz parte da memória colectiva dos portugueses", constata Álvaro Vasconcelos. "O que não se fez nenhum trabalho. O que é que era o colonialismo? Não se explicou o que é que era a tortura em África, o que era o trabalho forçado. Qual era a origem que isso tinha na escravatura? Manteve-se um mito do lusotropicalismo, ou seja, que Portugal tinha contribuído para criar um mundo diferente, um mundo não racista, um mundo multiétnico. Até se dizia isso : ‘Deus criou os homens e os portugueses criaram as mulatas' escondendo que as mulatas nasciam muitas vezes de actos de violação absoluta, porque as mulheres negras não tinham direitos e, portanto, o senhor tinha um direito de pernada sobre a mulher negra. Isso acontecia frequentemente. Eu, aliás, entrevistei para um dos meus livros uma senhora africana que conta exactamente a história de uma mulher que, depois do 25 de Abril, andava à procura do homem branco, que tinha sido o pai dos seus filhos e que o homem branco tinha desaparecido. Tinha regressado a Portugal e que nunca mais soube dele. E as crianças queriam conhecer o pai. Mas isto é um caso de uma pessoa que se movimentou. A maior parte das vezes ficaram e são vítimas de toda a discriminação. Isso é o aspecto em que o 25 de Abril não fez esse trabalho", diz o politólogo. "Quando em Portugal surge um movimento de sociedade civil poderoso, hoje formado por intelectuais afro-descendentes que defendem o direito à igualdade, que tem voz no espaço público, quando nos lembramos, por exemplo, da Joacine Katar Moreira que foi deputada na Assembleia da República, a campanha racista contra ela. No Parlamento, a extrema-direita dizia ‘Volta para o teu país'. Estou a falar numa deputada, membro do Parlamento. Mas depois as intelectuais todas que são superactivas na sociedade portuguesa, que é aquilo que há hoje de mais vibrante na sociedade portuguesa, mais criativo. Publicam, fazem filmes como a Pocas Pascoal e outros. Ainda recentemente a Kitty Furtado organizou na Gulbenkian um ciclo sobre o cinema africano produzido em Portugal, com numerosos filmes, numerosos realizadores. Portanto, na Bienal de Veneza, há dois anos, a representação de Portugal foram artistas negros. Portanto, temos um movimento extraordinário. Esse movimento choca com esta mentalidade dominante. E então são acusados de serem ‘wokistas'. ‘Wokistas, quer dizer que são pessoas com consciência", sublinha o universitário. Relativamente às lições que se podem tirar do pós 25 de Abril, Álvaro Vasconcelos faz um balanço agridoce : apesar de considerar que “os seus objectivos essenciais foram atingidos: liberdade, fim do colonialismo e um estado inspirado nos modelos sociais europeus”, ele constara que “o que triunfou não foram os mecanismos que permitiriam compatibilizar a democracia liberal com o desejo de participação dos cidadãos (...) com o tempo, os partidos tornaram-se organizações fechadas (...) foram-se impondo como actores únicos do sistema politico”. "Portugal fez uma revolução que permitiu a existência de partidos políticos que não existiam antes. Mas a revolução, no momento em que ela aconteceu, despertou uma vontade de participação enorme na sociedade portuguesa. Todos os portugueses queriam participar na vida política pública. Eu próprio participei na criação de um jornal que era a voz do trabalhador e aquilo vendia-se como pãezinhos quentes. Quer dizer, toda a gente cria jornais. Toda a gente queria ler. Toda a gente fazia um pequeno comício. Enchiam-se de pessoas. Criaram-se cooperativas, associações de bairro, associações, moradores, associações agrícolas, movimentos cooperativos por todo o lado. Ao mesmo tempo, os partidos políticos foram-se consolidando como forças dominantes da sociedade portuguesa. E esses movimentos participativos foram vistos pelos partidos que acabaram por triunfar como movimentos que eram contrários à consolidação da democracia representativa liberal, como havia no resto da Europa. E foram desaparecendo. E o sistema político português ficou concentrado nos partidos políticos. Esses anos todos passaram e as pessoas hoje, como têm acesso às redes sociais, já têm outra forma de expressão, sem passar pelos partidos políticos. Exprimem-se nas redes sociais. Muitas vezes, o que dizem alguns? Nós não gostamos nada. Mas outras coisas dizem coisas correctas. Estes movimentos que eu referi, ecológicos, anti-racistas, de solidariedade social, também usam as redes sociais. Mas há muita gente que usa as redes sociais e que diz coisas horríveis. Mas não interessa, diz. Acha que tem direito à palavra. E acha que os partidos não dão direito à palavra. Então vão atrás de um demagogo que diz ‘Eu dou vos a palavra. Eles não vos dão a palavra'. Os partidos políticos são organizações fechadas. Em Portugal nunca se fez a regionalização, porque os partidos acharam que aquilo era fugir ao controlo central dos partidos de Lisboa. Era abrir o controlo da sociedade a nível regional. E tudo isso foi enfraquecendo a democracia portuguesa", comenta. “Foi nas redes sociais, espaço sem regras, que descobri que estávamos perante um brutalismo neofascista. O significado das palavras e a verdade deixaram de ser facilmente reconhecíveis. O algoritmo privilegia a violência verbal, exponencia o número de visões e partilhas. Acreditei – e escrevi –, depois das revoluções árabes de 2011, que as redes sociais tinham potencial de empoderamento dos cidadãos e poderiam ser um factor de emancipação democrática, mas hoje sou obrigado a constatar que não tive em conta a capacidade de manipulação, seja pelos algoritmos ou ainda mais pela IA, dos Estados e grupos que controlam as empresas da indústria do mundo virtual", escreve Álvaro Vasconcelos no capítulo que dedica ao regresso do que chama de 'brutalismo'. "A nível europeu, nós não podemos separar de um fenómeno mundial, que é aquilo que atravessa bastante o meu livro, que é a ideia do colapso do pensamento. E esse colapso do pensamento. O que significa que quando os homens deixam de pensar, diz Hannah Arendt, são capazes dos piores crimes. E esses homens são capazes dos piores crimes. E o homem banal, o homem comum que pode seguir um líder que vai destruir as suas liberdades e a liberdade dos outros. E isso pode se chamar ‘tecno-totalitarismo'. Porquê tecno-totalitarismo? Porque grande parte da economia mundial hoje está a ser dominada pelas grandes empresas tecnológicas. Estamos numa nova revolução tecnológica. E as grandes empresas tecnológicas que dominam a inteligência artificial, que dominam as redes sociais, como o Musk, é o exemplo mais claro, defendem aquilo que eu chamei de ‘tecno-totalitarismo'», explica o autor das "Memórias em tempo de amnésia". "Há uma politóloga francesa, Asma Mhalla que diz que ‘este século não vos proíbe de pensar. Ele ocupa-vos até que já não se saiba como fazer. Isto vem, como eu digo aqui no livro, do desenvolvimento da Inteligência artificial. O desenvolvimento da inteligência artificial cria um mundo onde os humanos deixam de pensar. A banalidade do mal passa a ser a norma. Isso acontece em muitos actos quotidianos. Quando recorremos à inteligência artificial para tomarmos decisões. Quando manipulados por algoritmos, ficamos de tal forma hipnotizados que somos levados a acreditar nos líderes populistas como Trump, como Bardella em França como em Portugal, o André Ventura, como Bolsonaro no Brasil", diz Álvaro Vasconcelos. "Há um aspecto deste ‘tecno-totalitarismo' que também nos deve inquietar, que é menos presente em França, mas está presente em muitos países, que é a relação dele com uma determinada corrente religiosa. Ele é religioso na sua essência, porque ao mesmo tempo, fala de Apocalipse, destruição do mundo pelo aquecimento global, pela guerra nuclear e está a propor uma solução tecnológica para estes problemas. Ora, isto é típico da crença religiosa. A ideia do Apocalipse, se pensarmos no apoio dos evangélicos americanos a Trump e em cenas em que Trump se reúne com os evangélicos e os evangélicos rezam na Casa Branca a volta do Trump ou quando o Bolsonaro tomou posse rodeado pelos evangélicos, a primeira coisa que fizeram, foi um ato religioso. (…) Vemos que o ‘tecno-totalitarismo' muitas vezes é também uma ‘tecno-teocracia'. E, portanto, esse problema, que é um problema mundial, que é da criação do mundo em que os homens deixam de pensar, a inteligência artificial substitui o pensamento humano. É um mundo em que o brutalismo, que é o tema do meu livro, se torna possível. É possível que o Trump decida destruir o Irão, que o Netanyahu faça o genocídio de Gaza e agora esteja a fazer no Líbano o que fez em Gaza, no sul do Líbano. É exactamente a mesma coisa. Vai destruir o sul do Líbano completamente", diz o especialista em relações internacionais. No capítulo em que aborda o que chama de dever de hospitalidade, Álvaro Vasconcelos considera que é neste aspecto que a Europa pode fazer a diferença "para superar o brutalismo contemporâneo, porque, por um lado, é uma das regiões do mundo onde as democracias ainda resistem ao assalto da extrema‑direita neofascista, e por outro porque a hospitalidade é a essência da sua sobrevivência". "Estamos a falar da União Europeia, a que se podem juntar alguns Estados, como a Noruega, como hoje o Brasil do Lula. Têm a mesma ambição de escapar ao brutalismo de Putin, Trump, Netanyahu, ao ‘tecno-totalitarismo' que domina a China. Verdadeiramente o único sítio do mundo em que ainda há um grupo de Estados que pode e quer resistir é na União Europeia, mas que tem estes aliados muito importantes que tem que procurar no Canadá, já procura no Brasil. Por isso, o acordo com o Mercosul é tão importante, apesar de a Argentina do Milei estar completamente na mesma linha de brutalismo. Mas o Brasil é um país importantíssimo. Na Ásia, o Japão, a Coreia do Sul. (…) Portanto, a Europa é a nossa esperança. Mas para que essa esperança não passe de uma utopia não realizada, para ser uma utopia realizada, é preciso que a Europa integre toda a sua vitalidade num projecto comum, (…) é preciso uma mudança radical de política. Ou seja, é preciso uma política que seja alternativa à política da extrema-direita. Claramente. E o que é que se deve fazer? Os imigrantes que são grande parte da população europeia ou originários na imigração devem ser cidadãos plenos, activos, integrados nas nossas sociedades, dando-lhes o voto. Aqueles que ainda não têm, damos-lhe a palavra, ouvindo-os e tornando as nossas democracias muito mais participativas", preconiza o autor. No seu livro, Álvaro Vasconcelos estabelece um elo directo entre o ‘tecno-totalitarismo', a negação dos direitos de boa parte da humanidade e a destruição do meio ambiente. "Um dos temas que eu acho que é muito importante é a questão do ambiente. Eu, aliás, começo o meu livro com uma citação do Camus que diz ‘A minha geração quis mudar o mundo. Não o mudou, mas pelo menos lutou para preservar o que de melhor tinha sido conquistado'. (…) O aquecimento global está a ser um problema gravíssimo que pode pôr em causa a vida na terra. E aí é lembrarmo-nos de Edgar Morin, um grande pensador. Eu cito Edgar Morin dez ou 15 vezes no meu livro. Ele diz que nós não estamos só perante um mundo que destrói a vida humana. Estamos num mundo em que a globalização foi extremamente destrutiva do ponto de vista económico e social. Criou também a consciência de um destino comum da humanidade a consciência de que estamos todos no mesmo barco. Ou seja, no barco da vida. Nós sabemos que a vida não é eterna. Mas enquanto estamos no barco da vida, não vamos cair no niilismo. Nem vamos cair na melancolia de esquerda. Isto é uma conclusão que alguém tirou do meu livro que eu sou contra a melancolia de esquerda. A melancolia de esquerda é nós pensarmos em tudo aquilo por que a gente lutou está a desaparecer e já não podemos fazer nada. Vai tudo acabar. Vai acabar a democracia, a liberdade. Vai voltar o racismo como política de Estado. Vai desaparecer a ordem internacional. Vai desaparecer o multilateralismo", diz o universitário. "Estamos perante uma guerra cultural. É um tema central, porque a guerra cultural é algo que acompanha a civilização europeia desde o Iluminismo e desde a Revolução Francesa. Houve sempre uma corrente que se opôs às conquistas de liberdade, igualdade, fraternidade da Revolução Francesa. Considerou sempre que a compaixão pelo outro não fazia nenhum sentido, que o homem era um animal fundamentalmente egoísta e violento E que tinha que ser treinado desde criancinha para a competição. E por isso, a cooperação não é uma questão fundamental da aprendizagem. As pessoas não aprendem a cooperar, aprendem a competir. Já vimos no sistema escolar como é terrível a competição. A infância nas grandes escolas. O que é que é difícil chegar lá acima. Portanto, formam-se elites que foram treinadas para a competição e não foram treinadas para a cooperação. E se nós não cooperarmos neste barco da vida, se não percebermos que o clima não tem fronteiras, que o aquecimento é global, que os calores do Norte de África chegam à Europa, que as transformações da Amazónia transformam as correntes do Atlântico e nos atingem também como europeus. Então não perceberemos que estamos todos no mesmo mundo. Mundo, terra, pátria, como diz o Edgar Morin. E que neste mundo, terra pátria, nós somos todos cidadãos, mesmo quando não somos considerados cidadãos", conclui Álvaro Vasconcelos.
Paula MelâneoÉ arquiteta (FA/UTL 1999) e MSc. Multimédia-Hipermédia (ENSBA/ENST Paris 2003). Dedica- se à edição, projetos culturais e exposições. Colabora com a imprensa internacional especializada em arquitetura. Integra a produtora cultural Space Collectors, onde é uma das responsáveis pela programação do seu espaço de galeria SPACE ZERO. Faz parte da redação do J—A Jornal Arquitectos, do qual foi co-autora e coordenadora do projeto editorial (2015- 2019). É membro da AICA – Associação Internacional de Críticos de Arte. Foi a curadora do projeto Artificialis: A Natureza das Imagens Latentes apresentado em Guimarães (DGArtes e Universidade do Minho, 2024-2025). Foi co curadora dos projetos: Paraíso, hoje. (Pavilhão de Portugal na Bienal de Arquitetura de Veneza 2025); Colecção Arquitectura Portuguesa na Democracia 2000-2024 (Casa da Arquitectura); investigação e exposição Almada: um Território em Seis Ecologias (Museu de Almada, 2020); Geração Z: práticas arquitectónicas portuguesas emergente, exposições e conferências (2009-2011). Em 2001 integrou a redação da arqa revista de arquitectura e arte, que coordenou entre 2010-2016. Integrou a Experimentadesign para quatro edições da Bienal de Design e Arquitetura (2011-2017) enquanto coordenadora editorial e editora, sendo a responsável pela edição de diversos livros e publicações. Luca MartinucciNasceu em Bérgamo na Itália, é arquiteto formado pelo Politécnico de Milão e frequentou a Universidade Lusíada de Lisboa em 2002/2003 ao abrigo do programa Erasmus. Colaborou com diferentes arquitetos e ateliers de arquitetura, em Itália e Portugal. O seu percurso multidisciplinar e interesse na História da Arquitetura e da Arte, bem como na produção de imagem analógica e digital, levaram-no a fundar o 18—25 Research Studio em 2010, que hoje partilha com o arquiteto Filipe Alves e Paula Melâneo. Tem apresentado o trabalho do estúdio em diversas exposições, em Portugal e no estrangeiro, e em conferências em universidades portuguesas. Para além do trabalho desenvolvido no estúdio, Luca Martinucci foi co-curador de Paraíso, hoje. (Pavilhão de Portugal na Bienal de Arquitetura de Veneza 2025) e dirige a produtora cultural Space Collectors, onde é um dos responsáveis pela programação do seu espaço de galeria SPACE ZERO. Links: https://www.1825.pt/ https://space-collectors.com/ https://paraisohoje.pt/ https://tigrepapel.pt/loja/ensaio/artificialis-a-natureza-das-imagens-latentes/ https://lab2pt.net/exhibitions/exposicao-artificialis-a-natureza-das-imagens-latentes-duplicate-1 Episódio gravado a 18.05.2026 Créditos introdução e final: David Maranha http://www.appleton.pt Mecenas Appleton:HCI / A2P / MyStory Hotels / JD Collection Apoio:Câmara Municipal de Lisboa Financiamento:República Portuguesa – Cultura / DGArtes – Direcção Geral das Artes © Appleton, todos os direitos reservados
Davi Ramos faz história como o primeiro brasileiro e homem negro a se tornar bailarino principal do The Australian Ballet; o professor Benno Torgler explica a pressão psicológica dos pênaltis na Copa do Mundo; a Bienal de Veneza aposta no diálogo em meio às tensões globais; e o Brasil reduz pela metade as taxas de emissão de passaportes emitidos na Austrália.
A lenda da menina Veneza sendo contada pela professora Mercilene Torres.
Desacelerar, escutar e criar espaço para reflexão num momento de guerras, polarização e excesso de ruído político e mediático. A curadoria da Bienal de Veneza 2026 propõe uma arte menos baseada no choque e mais na contemplação, no diálogo e na convivência.
Durante os próximos seis meses, a Bienal de Veneza entrega aos visitantes de todo o mundo promessas reconciliadoras em forma de arte.See omnystudio.com/listener for privacy information.
No Ensaio Geral desta semana mergulhamos na Bienal de Veneza, onde este ano as águas têm sido agitadas pela política, mas onde no Pavilhão de Portugal o artista Alexandre Estrela mostra que a Terra treme por outras razões. Olhamos o cartaz do FIMFA – o festival que este mês leva as marionetas a Lisboa. No Porto, temos uma exposição do artista João Alexandrino e uma peça para crianças com assinatura da Capicua. Mas há mais, além das sugestões de Guilherme d'Oliveira Martins, do Centro Nacional de Cultura (CNC) temos um livro sobre apaixonados pela leitura e o novo disco dos Rolling Stones.
A edição de 2026 da Bienal de Arte de Veneza, que abre ao público neste sábado (9) na cidade italiana, marca um momento inédito para a arte brasileira. Pela primeira vez, três mulheres lideram o projeto do Pavilhão do Brasil. A participação nacional também é marcada pela estreia de uma curadora negra, a baiana Diane Lima, que reúne as artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão. Ana Carolina Peliz, da RFI, em Paris A temática da Bienal de Veneza deste ano é In Minor Keys (Em tons menores), concebida pela curadora camaronesa Koyo Kouoh, primeira mulher negra a assumir o posto. A proposta aposta em gestos sutis, afetos, ritmos lentos e atenção ao sensível, inspirando-se na ideia musical dos “tons menores” como espaços de nuance, vulnerabilidade e resistência silenciosa. Nesse sentido, a 61ª edição da Bienal privilegia improvisação, intimidade, memória, cuidado e reparação, abrindo espaço para vozes, histórias e formas de existência que frequentemente permanecem à margem das narrativas hegemônicas. A exposição do Pavilhão do Brasil tem como título Comigo Ninguém Pode, que também é o nome de uma planta tropical conhecida na cultura popular por suas propriedades protetoras contra energias negativas. “O título veio muito de uma intenção minha de propor não um título temático, mas que trouxesse uma energia — não só no sentido do que a planta é e carrega, na sua dimensão espiritual, mas também do ponto de vista discursivo de ‘comigo ninguém pode'”, explicou Diane Lima à RFI. “O que significa ter um pavilhão do Brasil, uma representação nacional em um momento como o que vivemos, em que temos uma formação inédita, com o encontro entre duas artistas — algo inesperado — e também entre três mulheres? É a primeira vez que temos uma curadora negra e uma artista negra. Havia muito essa ideia de pensar uma união de forças que, de fato, só a coletividade e a disposição para o diálogo poderiam propor”, acrescenta. As artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão têm trajetórias consolidadas, mas repertórios e abordagens distintas, e nunca trabalharam juntas em um projeto. A exposição coloca em diálogo obras históricas de suas produções, nas quais ambas se dedicam a refletir sobre feridas e traumas coloniais, reunindo pinturas, esculturas e desenhos. “O meu maior desafio nesse projeto foi ter coragem para propor um diálogo arriscado, porque nós três nunca havíamos trabalhado juntas. Eu já havia trabalhado com a Adriana e com a Rosana, conheço bem suas pesquisas e práticas, mas, em um projeto dessa envergadura, com essa responsabilidade e visibilidade, é preciso ter ainda mais convicção sobre o que se propõe”, afirma a curadora. “Foi muito interessante entender como conseguiríamos construir esse processo de criação. Acredito que isso só foi possível graças à extrema maturidade das duas artistas — muita experiência e domínio técnico, o que traz segurança — além da vontade de dialogar e trocar.” Adaptação A edição deste ano da Exposição Internacional de Arte de Veneza vai até 22 de novembro e ocorre em diversos espaços pela cidade italiana. Entre os destaques do Pavilhão do Brasil estão 12 telas inéditas de Adriana Varejão, produzidas especialmente para a Bienal, além da instalação Tecelãs, de Rosana Paulino, criada em 2003 e agora adaptada para o espaço expositivo em Veneza. A montagem, que contou com expografia desenvolvida por Daniela Thomas, também exigiu soluções técnicas, principalmente devido à umidade da cidade italiana, que pode comprometer parte dos materiais utilizados nas obras. Segundo a curadora, o projeto dialoga diretamente com o tema da Bienal ao evidenciar o compromisso da arte brasileira com questões ligadas às minorias. “Eu acho que o Brasil tem uma responsabilidade muito grande, uma dívida impagável em relação às comunidades indígenas e negras. Essa combinação de trabalhos novos e históricos das duas artistas mostra como a nossa arte sempre esteve comprometida com esse tema. Apesar das tentativas de apagamento e invisibilização, a arte esteve à frente do seu tempo, tentando apresentar à sociedade essas reflexões e possíveis caminhos de transformação”, afirma. “É uma oportunidade única, sobretudo considerando que o Brasil vive um momento importante no cenário artístico global, não só nas artes visuais, mas também no cinema e na música. É uma chance para o público que passou a se interessar — ou que já se interessa — pela cultura brasileira conhecer melhor a nossa história e entender o quanto esses temas nos inserem, desde sempre, em um contexto global”, conclui.
Confira no Morning Show desta terça-feira (05): O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai se reunir com o líder dos Estados Unidos, Donald Trump, em meio a um impasse diplomático entre os países devido ao conflito no Oriente Médio. O crime organizado e terras raras são alguns dos assuntos que devem ser pautados no encontro. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) lançou oficialmente, nesta terça-feira (05), o mascote "Pilili" para as eleições gerais de 2026. A figura tem como objetivo aproximar a Justiça Eleitoral dos cidadãos, especialmente do público jovem, promovendo a conscientização sobre a importância do voto. O prazo para regularização do título de eleitor termina nesta quarta-feira (05). A irregularidade do documento pode gerar multas e impedir o cidadão de obter passaporte, tomar posse em concursos públicos ou realizar matrículas em universidades. Reportagem: Danúbia Braga. A ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (REDE), descartou concorrer a uma vaga no Senado como suplente. Segundo ela, o debate sobre sua suplência não condiz com o tamanho e qualidade de sua contribuição para o partido para a vida política. A PEC que prevê o fim da escala 6x1 deve ser votada no dia 27 de maio após a conclusão do relatório na comissão especial. Nesta terça-feira (05), a comissão se reúne com centrais sindicais na Câmara dos Deputados. As primeiras discussões acontecem nesta semana. Repórter: Raphaela Almeida. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou um novo conjunto de regras que redefine a elegibilidade para o Oscar 2027. A principal mudança atinge a categoria de Melhor Filme Internacional: a partir de agora, o prêmio será entregue aos cineastas e não mais ao país de origem, e filmes premiados em grandes festivais (como Cannes e Veneza) poderão concorrer mesmo sem a indicação oficial de seus governos. Além disso, a Academia estabeleceu uma barreira rigorosa contra a Inteligência Artificial, exigindo que o roteiro e a atuação tenham autoria humana para serem elegíveis. O governo federal lançou, nesta segunda-feira (04), o Novo Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas para brasileiros. Durante sua fala, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que “o povo tenha capacidade de se endividar”. No entanto, o presidente reforçou para que as pessoas não percam de vista as suas condições de pagamento. Essas e outras notícias você confere no Morning Show.
A histórica cidade italiana está a afundar mas também está a inundar cada vez mais, devido à subida do nivel das águas. Estudo publicado na Scientific Reports avança com medidas que incluem deslocalizaçãoSee omnystudio.com/listener for privacy information.
Hoje, na sala de imprensa da Santa Sé, vai ser apresentado o projeto do Pavilhão da Santa Sé para a 61.ª Bienal de Arte de Veneza.
Entre 4 e 25 de julho, o sul da França volta a se transformar em um dos principais epicentros das artes cênicas do mundo com a 80ª edição do Festival de Avignon, sob a direção do português Tiago Rodrigues. À frente do evento desde 2023, ele propõe um método: "fazer perguntas", "sustentar dúvidas" e "recusar respostas fáceis" num tempo de "discursos violentos". É também o retorno de Wagner Moura aos palcos, um reencontro com o teatro que acontece no maior festival do gênero no mundo. A imagem escolhida para o cartaz oficial desta edição do Festival de Avignon sintetiza a intenção de Tiago Rodrigues: um enorme ponto de interrogação. Tiago Rodrigues explica que “o questionamento foi uma forma bastante livre de nós darmos um tema a este festival, de relembrarmos o público que este festival faz muito trabalho sobre a sua história, sobre o seu arquivo, ao chegar à 80ª edição, queria estar muito concentrado também no presente e no futuro, e perguntar, agora, o que é que vamos fazer nos próximos 80 anos de festival? Essa é uma das perguntas que nos interessa”. A proposta, segundo ele, não é retrospectiva, mas prospectiva, um deslocamento do olhar para o que ainda pode ser construído. Esse gesto se desdobra na própria definição do papel do festival. Para Rodrigues, trata-se de “fazer perguntas juntos, mas fazer perguntas através da arte”, lembrando que “é isso que o festival faz há 80 edições e queríamos relembrar-nos nós, os artistas, mas também o público, que é isso que nós fazemos aqui num mundo onde estamos cheios de más respostas, poucas respostas, mas más na maioria dos casos, respostas violentas, respostas simplistas, respostas pouco informadas”. Leia tambémDezenas de igrejas se convertem em teatros na 'Cidade dos Papas' durante o Festival de Avignon Nesse contexto, o festival se coloca como espaço de fricção e elaboração coletiva, onde “queremos colocar as boas perguntas, perguntas às vezes complexas, perguntas também com prazer, perguntas com dúvida, perguntas que permitam o debate em vez de respostas que criam a violência”, já que, segundo ele, “as artes podem ter esta função e certamente um festival onde vêm pessoas do mundo inteiro e se reúnem numa cidade que dobra a sua população no momento do festival para acolher o mundo inteiro que a visita. Esse é o momento em que podemos fazer perguntas juntos”. Leia tambémWagner Moura estreia em maior encontro de artes cênicas do mundo ao lado de destaques da cena brasileira A dimensão política dessa proposta se articula também a uma reflexão sobre o acesso à cultura. Rodrigues afirma que “o acesso democrático às artes não é um exercício populista, uma flor que se põe na lapela nos dias de festa. É um trabalho quotidiano que deve permitir o acesso fácil à criação exigente, criação de grande qualidade, feita em liberdade e à qual todas e todos devem ter acesso”. E conclui: “se fosse fácil, não era um serviço público, é um serviço público, a cultura, porque não é fácil de fazer. É preciso tempo, é preciso investimento e é preciso sonhar”. É nesse cenário que a presença brasileira ganha centralidade nesta edição histórica. Entre os destaques está a diretora e dramaturga Christiane Jatahy, que retorna ao festival com um novo trabalho - Um Julgamento - Depois de O Inimigo do Povo - ao lado do ator Wagner Moura, com texto de Jatahy, Moura e Lucas Paraizo, marcando também o retorno do ator ao teatro, após 16 anos dedicados ao cinema e à televisão, período em que se tornou uma das figuras brasileiras de maior projeção internacional. Ao comentar o retorno de Jatahy ao festival, Rodrigues sublinhou a relação de longa data entre a artista e Avignon, bem como a força do novo projeto que ela apresenta ao lado de Wagner Moura. Segundo ele, “Christiane Jatahy é já uma artista muito amada pelo público do festival, muito conhecida em França, uma encenadora que também é muito conhecida do público lusófono, seja no Brasil, seja em Portugal, e que tem marcado as cenas europeias nos últimos anos com as suas adaptações do repertório”. Rodrigues destaca ainda o caráter inédito da parceria artística apresentada nesta edição: “desta vez, pela primeira vez, trabalha com Wagner Moura, que decide voltar ao teatro 16 anos depois. Ele tem vivido a sua aventura cinematográfica e televisiva e neste momento é talvez o ator brasileiro mais conhecido no mundo”. Para o diretor, o reencontro de Moura com o palco tem um peso simbólico particular, sobretudo pela forma como se articula com o trabalho da encenadora brasileira. Sobre o projeto, Rodrigues reforça a dimensão de retorno ao essencial do ofício do ator: “é muito comovente ver Wagner Moura a regressar ao teatro com essa vontade de quem regressa à essência do trabalho de ator”. De volta ao festival Jatahy descreve esse retorno a Avignon como profundamente significativo, especialmente por ocorrer sob a direção de Rodrigues. Ela afirma que “é muito importante, muito legal pra mim e muito significativo estar voltando para Avignon agora sob a direção do Tiago Rodrigues, que é um artista que eu tenho muita relação, um amigo e alguém que eu respeito muito, e eu fico muito feliz de estar dentro da programação criada por ele e pela Magda [Bizarro, mulher do diretor e co-fundadora, a seu lado, da Cia Mundo Perfeito]”. Para a diretora, o contexto atual amplia ainda mais o alcance simbólico de sua participação, já que “essa volta está conectada também à união de três festivais, o Festival de Avignon, o Festival de Edimburgo e o Holland Festival, que escolheram este ano uma artista, um trabalho para apoiar e para juntar forças para que esse trabalho possa ter sido realizado”. Leia tambémTeatro: Christiane Jatahy revisita fantasmagorias de 'Hamlet' em Paris com seu maquinário de revolução e desejo No centro da criação está o reencontro artístico com Wagner Moura, que, segundo ela, carrega uma longa expectativa compartilhada: “vem também com uma outra parceria muito significativa com ele, que é um ator com quem eu tenho uma relação de muito tempo e é muito tempo que a gente deseja fazer um trabalho juntos”. O projeto nasce dessa convergência, como ela define, “é um trabalho muito sobre o nosso encontro e sobre as coisas que a gente tem vontade de falar”. A peça, que se estrutura em torno da ideia de julgamento e da "crise contemporânea da verdade", parte de uma inquietação contemporânea sobre verdade e política. Jatahy explica que “a gente entra na questão do julgamento, a gente leu muitas coisas, a gente pensou muitas coisas, e para mim sempre é muito importante que o trabalho esteja numa reflexão, numa conexão, lançando perguntas sobre o que a gente está vivendo hoje”. Ela acrescenta que “claro que é sempre um aspecto íntimo e pessoal, mas também é político, porque não tem como separar uma coisa da outra”, situando o trabalho num campo em que a criação artística se confunde com a leitura crítica do presente. Essa dimensão se radicaliza na própria estrutura dramatúrgica da peça, que se relaciona diretamente com a obra “O Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen. Jatahy descreve o projeto como “um desdobramento de O Inimigo do Povo, uma possibilidade de continuidade dessa peça”, como se o personagem Thomas Stockmann “fosse à cena, fosse ao teatro, pedir a possibilidade de ter a sua defesa e de ter a sua reparação, e essa decisão vai caber ao público”. Nesse movimento, a obra transforma o espectador em instância de julgamento, deslocando o eixo tradicional da representação teatral. Leia tambémFestival de Avignon: 'A Noiva e o Boa Noite Cinderela', ou como explodir no próprio corpo as fronteiras do teatro A outra grande presença brasileira no festival é a artista e encenadora Carolina Bianchi, que retorna a Avignon após sua revelação em 2023. Agora, ela apresenta o terceiro capítulo de sua trilogia “Cadela Força”, intitulado “Uma Luz Cordial”, além de propor uma maratona que reúne os três trabalhos em sequência. Diretora brasileira lançada pelo festival volta a Avignon Ao lado desse reencontro, o diretor Tiago Rodrigues também destacou o percurso de Carolina Bianchi, que regressa a Avignon após o impacto de sua participação em 2023. Rodrigues relembra a presença e o desdobramento internacional da artista: “o que aconteceu a seguir é do conhecimento geral, Carolina Bianchi depois desse espetáculo ganha o Leão de Prata da Bienal de Veneza, torna-se uma artista que faz todas as cenas europeias e mundiais, é revelada por esse festival”. Sobre o novo projeto apresentado no festival, o diretor destaca a ambição dramatúrgica da artista brasileira: “ela sonhava fazer uma trilogia com três espetáculos consagrados à questão da violência, sobretudo da violência contra as mulheres”. Bianchi define esse retorno como o fechamento de um ciclo longo de investigação: “é muito, muito emocionante estar voltando para Avignon, sobretudo encerrando a trilogia, chegando em julho para estrear o último capítulo desse grande ciclo, que tomou muitos anos de trabalho, de estudos e de investigação”. Ela descreve a estrutura do projeto como algo em constante expansão, no qual “são três peças independentes, mas que são atravessadas por perguntas que vão se acumulando, que vão se borrando, que vão se confundindo, voltando, gerando novas questões”, configurando um campo de criação em que as fronteiras entre obras se tornam porosas. O novo capítulo, explica ela, desloca o foco para o próprio ato de escrever. “Uma Luz Cordial é uma peça sobretudo sobre a escrita, sobre esse lugar de onde a gente escreve”, afirma, acrescentando que se trata de um trabalho que poderia inclusive anteceder os demais, pois “é uma peça que fala sobre essa escritura, esse escrever que vem com toda essa carga, com o peso de todos esses assuntos, tentando dar forma a todos esses enigmas”. Nesse ponto, emerge o núcleo mais radical de sua proposta: a escrita como zona de violência e desorganização. Bianchi afirma que “essa violência da última peça é uma violência da escritura, da literatura, um encontro dessa violência da literatura que não tem os mesmos limites da violência do teatro”. Nesse processo, entram em cena as vozes de outras autoras como forma de desestabilização do próprio eu criador: “aparecem essas escrituras de outras autoras, como Hilda Hilst e Emily Dickinson, como alter egos dentro da minha escritura”, num movimento em que "o sujeito que escreve se fragmenta e se multiplica para seguir criando". Leia tambémTeatro: Destaque brasileiro no Festival de Avignon, Carolina Bianchi traz estupro e feminicídio em cena marcada por 'combate' A trilogia culmina ainda numa experiência de apresentação integral de 10 horas seguidas na Ópera de Avignon, pensada como uma espécie de teste final do próprio projeto. A artista explica que “a ideia é apresentar os três capítulos em sequência, como uma grande maratona”, algo que transforma a obra em uma experiência contínua, na qual “é como se a gente estreasse uma quarta coisa, porque a trilogia não é só assistir aos trabalhos separadamente, mas ver como eles se contaminam entre si”. Leia tambémAvignon: maior festival cênico do mundo abre suas portas com homenagem ao Brasil em mostra paralela O Festival de Avignon 2026 se estrutura como um espaço de cruzamento entre artistas, linguagens e geografias, reunindo 47 espetáculos no programa oficial, o chamado IN, com 300 apresentações ao todo e 30 criações inéditas, o que representa 64% da programação. A edição inclui ainda 80 debates e encontros com 49 artistas de dez países, e pela primeira vez na história do festival a maioria dos artistas do IN é feminina, enquanto 67% dos participantes estreiam no evento. Mais de 136 mil ingressos estão disponíveis. Entre julgamento e escrita, entre democracia e linguagem, entre teatro e performance, Avignon 2026 se desenha como um território de fricção contínua, onde, como sugere sua direção artística, "o essencial não é responder, mas sustentar perguntas". Leia também'Impossível fazer um teatro que não seja humanista': Olivier Py se despede do Festival de Avignon História de encontros e criações Fundado em 1947 por Jean Vilar, o Festival de Avignon, tornou-se, ao longo das décadas, um espaço emblemático para o teatro e as artes cênicas. Desde sua primeira edição, ele é um ponto de encontro artístico que recebe artistas do mundo inteiro e apresenta uma programação ousada e inovadora. Sob a direção de Tiago Rodrigues, o festival reforçou sua abertura internacional, valorizando artistas de diversas culturas e estimulando o intercâmbio cultural. Essa orientação se materializa na valorização de línguas convidadas, como o inglês em 2023, o espanhol em 2024 e o árabe em 2025, além do Brasil como país convidado de honra no ano passado. Ingressos A bilheteria do Festival de Avignon 2026 começa em etapas para acomodar o grande volume de procura e garantir uma experiência de compra mais fluida: a inscrição para reservar um intervalo de compra online abriu em 24 de março, e a venda por faixas de horário acontece de 13 a 18 de abril, com cada comprador recebendo um link e duas horas para efetuar a compra dentro de sua janela específica — esse sistema ajuda a evitar a saturação do site oficial. A partir de 18 de abril, a bilheteria online do Festival de Avignon será aberta sem horário específico e dentro do limite de lugares disponíveis, a partir das 10h no endereço fnacspectacles.com e, em seguida, a partir das 13h no festival-avignon.com. Novos ingressos serão disponibilizados toda quarta-feira, às 10h. Os preços dos ingressos variam conforme o espetáculo, mas tradicionalmente a programação oficial do festival cobra valores entre cerca de €10 e €45 (entre R$ 60 e R$ 270) por apresentação, com categorias distintas de acordo com o tamanho do espetáculo e a localização das poltronas; há também ofertas de tarifas reduzidas, geralmente entre €7 e €25 (entre R$ 41 e R$ 150), para públicos jovens, estudantes, pessoas com menos de 26 anos ou em situação de desemprego, mediante apresentação dos comprovantes exigidos pela organização.
LEITURA BÍBLICA DO DIA: ÊXODO 4:1-5 PLANO DE LEITURA ANUAL: DEUTERONÔMIO 5–7; MARCOS 11:1-18 Já fez seu devocional hoje? Aproveite e marque um amigo para fazer junto com você! Confira: Em 1920, construiu-se um prédio público na Austrália com um projeto incrível. Escadas ostentavam mármore da mesma pedreira que Michelangelo usou para esculpir Davi. A torre replicava a da Basílica de São Marcos de Veneza, e sua cúpula era a maior do hemisfério sul. Os construtores queriam um grande Anjo da Paz adornando o pináculo, mas esgotaram-se os recursos. O encanador Fred Johnson os socorreu usando uma cisterna, um antigo poste de luz e sucatas para criar o orbe icônico que coroa a torre há mais de 100 anos. Assim como se usou o que havia disponível, podemos realizar a obra do Senhor com o que temos. Quando Ele pediu a Moisés que libertasse o povo de Israel, Moisés recusou: “E se não […] quiserem me ouvir?" (ÊXODO 4:1). Deus o respondeu com a pergunta: “O que você tem na mão?” (v.2). Moisés segurava uma vara. O Senhor disse a ele para jogá-la no chão, “e ela se transformou numa serpente” (v.3). Então Deus instruiu Moisés a pegar a cobra, e ela voltou a ser uma vara. Moisés apenas precisava carregar aquele cajado e confiar que Deus faria o resto. De fato, o Senhor usou aquele instrumento para resgatar Israel dos egípcios (7:10-12;17:5-7). O que temos pode parecer pouco para nós, mas, com Deus, será o suficiente. Ele pega nossos simples recursos e os usa para Sua obra. Por: WINN COLLIER
A Bienal de Veneza propõe-se a ser, já este ano, a ONU da Arte ou Internacional da Beleza. Uma crónica de Francisco Sena Santos.
Entre dezenas de produções independentes do mundo inteiro, um filme brasileiro marca presença na competição do Slamdance Film Festival, que começa no próximo dia 19, em Los Angeles. É com a estreia mundial de “Antônio Odisseia” que o Brasil desembarca no evento conhecido por revelar grandes nomes do cinema como Sean Baker, Christopher Nolan e o sul-coreano Bong Joon-ho. O longa, dirigido pelo paranaense Thales Banzai, leva à tela uma jornada intensa, caótica, visceral e bem brasileira. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles Na história, Tony e sua melhor amiga, Ivy, assaltam o bar onde ele trabalha e roubam drogas que os levam a uma odisseia surrealista rumo a um encontro com Deus. O que começa como um roubo impulsivo rapidamente se transforma em uma jornada existencial, atravessada por delírio, espiritualidade e encontros inesperados. O cineasta Thales Banzai mora em Los Angeles desde 2020 e depois de anos tentando viabilizar projetos por editais e plataformas, decidiu apostar em uma produção completamente independente.“A gente financiou por conta da nossa produtora, a Seiva, que é a nossa coprodutora no Brasil, e produtores, amigos, próximos passaram o chapéu, todo mundo botou uma grana no filme porque acreditava no projeto e a gente resolveu fazer", diz. Filmado no fim de 2024, em São Paulo, em 17 dias, o roteiro foi desenvolvido ao lado de Kelson Succi, artista vindo do teatro e que também interpreta Antônio. Uma mistura de universos que ajudou a definir o tom do filme em uma produção toda em preto e branco. “Eu adoro trabalhar em preto e branco, fotografo em preto e branco faz muito tempo. Então é algo que consigo trabalhar nessa linguagem com facilidade e de que gosto muito. Dentro da nossa situação de produção, ajuda muito num filme de baixo orçamento, para a gente conseguir fazer, trazer mais valor de produção com menos, conseguir filmar mais rápido com poucos recursos de luz, criar uma situação expressiva interessante”, reitera. Além da trilha sonora (assinada por Kiko Dinucci e arranjo de cordas de Arthur Verocai) também ser peça central da narrativa, costurando realidade e delírio, o filme reúne participações especiais de Antônio Pitanga, Teuda Bara (que faleceu em dezembro), Leci Brandão e Chico César (narração). “O mais difícil foi chegar o roteiro no Pitanga, mas quando chegou, ele leu e curtiu muito. Foi a parte que também deu energia, colocou ainda mais energia. Ele falou que [o roteiro] lembrava dos personagens que fazia nos anos 1960 e 1970 e que estava animado", relembra. Festival alternativo Criado há mais de 30 anos como uma alternativa independente, o Slamdance aconteceu durante décadas simultaneamente ao Festival de Sundance em Park City, aproveitando a concentração de profissionais da indústria que já estavam na cidade nessa época do ano. Mas, a partir de 2025, o festival saiu de Utah e se estabeleceu em Los Angeles, marcando uma nova fase na capital do cinema. “Eu sinto que pra todo mundo com quem eu falo, e que está mais ligado na indústria, esse é um festival que todo mundo curte muito e admira muito, porque é feito com uma curadoria real. É um processo super democrático de pessoas que fazem filmes mesmo e que assistem a todos os filmes e debatem extensivamente o que deve entrar", diz Banzai. Para ele, o momento é propício ao cinema brasileiro, principalmente diante do sucesso de "Ainda Estou Aqui" e "Agente Secreto". “Acho que é algo que a gente pode começar a dar esses passos no Brasil, também, de sair só dos grandes cinco festivais, Cannes, Berlim, Toronto, Oscar e Veneza, e conseguir olhar para outros lugares, que são também super catalisadores de carreiras no mundo todo não só aqui”, diz Thales. Uma coprodução Brasil–Estados Unidos, “Antônio Odisseia”, chega a Los Angeles com apresentações nos dias 23 e 24 de fevereiro dentro da programação do Slamdance Film Festival.
Oi gente! Estamos começando mais um ano de podcasts por aqui no Chá das Cinco com Literatura e no episódio de janeiro, conversamos sobre “Otelo, o mouro de Veneza”, peça de Shakespeare. A peça causa espanto pela atualidade dos temas e conversamos sobre questões de gênero, raça e classe. Por fim, falamos sobre as inúmeras adaptações da obra. Livros citados: Rei Lear (1606), de William Shakespeare Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis New Boy: William Shakespeare’s Othello Retold: A Novel (2017) , de Tracy Chevalier Música da nossa trilha sonora: Not My First Rodeo de Dyalla. Creative Commons Attribution 4.0. https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ Artista: https://soundcloud.com/dyallas/not-my-first-rodeo Deixe seus comentários aqui para gente. Sempre que acabamos de gravar, lembramos de algo mais que poderia ser dito, logo o tema sempre fica em aberto. Podcast: 00:00:06 Apresentação 00:012:00 Otelo e a atualidade dos temas 01:20:00 Indicações e encerramento Othello (1930) https://www.imdb.com/fr/title/tt0114057/ Othello (1943) https://www.imdb.com/fr/title/tt0038812/ Othello (1951) https://www.imdb.com/fr/title/tt0045251/ Othello (1965) https://www.imdb.com/fr/title/tt0059555/ Othello (1995) https://www.imdb.com/fr/title/tt0114057/ O post #92 – Otelo, o mouro de Veneza de Shakespeare apareceu primeiro em Chá das Cinco Com Literatura.
Neste CMO Playbook, Rapha Avellar fala com Renato Winnig, Head de Comunicação Integrada, Ecossistema de Marca, PR e Trade Marketing da VIVO.Com passagens por Natura e Aramis, ele explica por que o propósito deve ser o "farol" que guia a "energia" da comunicação, alertando para os riscos do over promise e a importância da verdade interna das marcas. Renato também descreve por que ele acredita que a criatividade é o que realmente otimiza a mídia e por que só é possível construir uma marca em diálogo constante com o que acontece na cultura - da Bienal de Veneza aos eventos esportivos.
Prepare-se, porque desta vez o terror vem do céu. Neste episódio Andreia D'Oliveira e Gabi Idealli mergulham no conto “Os Pássaros”, de Daphne du Maurier com um único intuito: falar pela primeira vez de uma obra de Alfred Hitchcock! Vem com a gente entender como Du Maurier constrói o medo na página, como Hitchcock traduz para o cinema, e por que essa história continua nos fazendo olhar pro céu com desconfiança. Então corre, fecha as janelas, afasta o parapeito e vem ouvir!
Marcelo Tas entrevista o ator, apresentador e diretor Dan Stulbach no Provoca . O programa aborda a carreira do artista e eles refletem sobre humor e televisão. Eles também citam a peça “O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare, em que Stulbach atua no papel do agiota judeu Shylock.
Com uma vasta e reconhecida carreira internacional, tanto na música, como na realização e no cinema, a artista regressa ao passado, a propósito da reposição restaurada do filme Três Irmãos, que lhe valeu o prémio de Melhor Atriz no Festival de Veneza, em 1994.
Cursos IED com desconto exclusivo para seguidores do Buongiorno San Paolo: https://bit.ly/ied-buongiornoJunte-se ao network de Buongiorno San Paolo com o aplicativo Bizzy Now: https://go.bizzynow.com/buongiornosanpaolo2025Planejar um itinerário de viagem hoje exige muito mais detalhes e atenção do que no passado. O turismo se tornou muito mais exigente, e os viajantes buscam unicidade, autenticidade e experiências memoráveis, e não apenas visitar uma cidade e seus principais monumentos ou museus.Muitas viagens, inclusive, são planejadas com um propósito cultural específico, como o famoso Chicago Architecture Tour, modelo que hoje é amplamente adotado também nas cidades de arte italianas.As agências, portanto, precisam se tornar verdadeiros alfaiates, verdadeiros designers de viagens, capazes de criar um roteiro sob medida, perfeito para as necessidades de cada cliente ou grupo. É exatamente isso que faz Andreza Marafon, com a sua agência Libet Iter.Falamos sobre isso no Podcast Show sobre Design, realizado em colaboração com o IED Brasil.Nosso podcast, L'ITALIA è QUI, 2ª edição, comemora 20 anos do IED no Brasil.Agradecimentos especiais a: IED São Paulo, Aignep - Grupo Bugatti, Libet Iter, Bizzy Now, Costa Cruzeiros. Quer participar do Podcast, realizar um evento corporativo, propor uma parceria ou apenas trocar uma ideia? A Buongiorno San Paolo é feita de encontros e estamos prontos para o próximo !Preencha o formulário ou entre em contato pelos nossos canais. Vamos adorar saber como podemos colaborar: https://buongiornosanpaolo.com.br/
Cursos IED com desconto exclusivo para seguidores do Buongiorno San Paolo: https://bit.ly/ied-buongiornoJunte-se ao network de Buongiorno San Paolo com o aplicativo Bizzy Now: https://go.bizzynow.com/buongiornosanpaolo2025 Um debate profundo sobre design, sustentabilidade, industria naval e história com diretor da Costa Américas Dario Rústico e o diretor do IED Brasil Gianfranco Pisaneschi.Os navios da Costa Cruzeiros são, de fato, verdadeiras cidades flutuantes, muitas vezes com mais habitantes do que uma cidade média do interior da Itália! E quando, como no caso da Costa, tudo é inspirado no conceito do Made in Italy, o resultado vocês já sabem qual bom pode ser. Mas afinal, como nasce e evolui o conceito de um cruzeiro desse tipo, já na Veneza antiga ?Falamos sobre isso no Podcast Show sobre Design, realizado em colaboração com o IED Brasil. Nosso podcast, L'ITALIA è QUI, 2ª edição, comemora 20 anos do IED no Brasil.Agradecimentos especiais a: IED São Paulo, Aignep - Grupo Bugatti, Libet Iter, Bizzy Now, Costa CruzeirosQuer participar do Podcast, realizar um evento corporativo, propor uma parceria ou apenas trocar uma ideia? A Buongiorno San Paolo é feita de encontros e estamos prontos para o próximo !Preencha o formulário ou entre em contato pelos nossos canais. Vamos adorar saber como podemos colaborar: https://buongiornosanpaolo.com.br/
A relação entre os habitantes e os turistas de Veneza não está fácil e cada vez há mais ódio envolvido. Talibãs voltam com as proibições, desta vez livros, disciplinas e até universidades. See omnystudio.com/listener for privacy information.
Lucrezia Borgia, filha do papa Alexandre VI, quase sempre era retratada publicamente de forma positiva, diferente do seu pai e do seu irmão.Inteligente, astuta e criativa, ela era, apesar de tudo, uma Bórgia de sangue e espírito. Amante de festas e bailes regados a vinho, ela teve tantos amantes — mesmo durante seus casamentos — que até hoje os historiadores têm dificuldade em identificar todos.Manipulando homens como peças em um tabuleiro, ela chegou a provocar, de forma indireta, a morte de alguns deles para satisfazer seus desejos pessoais e políticos. Mas, diferente dos homens da família Borgia, ela não fazia questão de estar no centro do poder político. Talvez por isso tenha sobrevivido para testemunhar a queda do império que eles construíram. Já o reino que ela própria ergueu, permaneceria de pé: Lucrezia foi a única filha do papa Rodrigo Bórgia a alcançar o título de duquesa, criando sua própria dinastia na Itália e promovendo as artes e a cultura renascentista em seu ducado — a ponto de rivalizar com os duques de Florença e Veneza.____________________________________Personagens, lugares e mapas no nosso site: https://geopizza.com.br/a-duquesa-papal-lucrezia-borgia-131/ ____________________________________Nos siga nas redes:Instagram TwitterTiktok Youtube _____________Confira nossa loja https://shopee.com.br/shop/482090101/ _____________Anuncie no Geopizza: https://buff.ly/b2BJ8Vy _____________Para escutar nossos episódios EXCLUSIVOS, apoie o Geo através do PIX: pix@geopizza.com.br Siga essas etapas:1: Programe o pix - R$ 5 valor mínimo - para todo dia 5 do mês2: Mande o comprovante de agendamento para o mesmo e-mail3: Aguarde!_____________Outras maneiras de apoio:Apoiase: https://apoia.se/geopizzaPatreon: https://www.patreon.com/geopizza
Arthur Marchetto e Cecilia Garcia Marcon falam sobre a evolução do monólogo na literatura. A dupla traça sua trajetória histórica, desde as origens no teatro clássico até as inovações modernas, destacando como essa forma expressiva se alterou ao longo dos séculos.Os participantes analisam diferentes vertentes do monólogo, incluindo o dramático, o lírico e as técnicas de fluxo de consciência, com autores como Dostoiévski, Virginia Woolf e Álvaro de Campos. Aperte o play para ouvir trechos emblemáticos recitados pela dupla e descubra como um único discurso pode revelar universos inteiros. Ao final, conte pra gente: qual monólogo literário você recitaria para o mundo?---LinksApoie o 30:MINSiga a gente nas redesJá apoia? Acesse suas recompensasConfira todos os títulos do clube!---Livros citados no episódioMoby Dick, de Herman MelvilleFrankenstein, ou o Prometeu Moderno, de Mary ShelleyHamlet, de William ShakespeareMacbeth, de William ShakespeareO Mercador de Veneza, de William ShakespeareUlysses, de James JoyceO Som e a Fúria, de William FaulknerA Tabacaria, de Álvaro de CamposA Vida é Sonho, de Calderón de la BarcaMemória do Subsolo, de Fiódor DostoiévskiIrmãos Karamazov, de Dostoiévski (trecho de O Grande Inquisidor)Jane Eyre, de Charlotte BrontëMrs. Dalloway, de Virginia WoolfSolenoide, de Mircea Cărtărescu
VENEZA e a REGIÃO do VENETO geografia, culinária, cultura e dialeto I Vou Aprender Italiano by Pierluigi Rizzo
Damos as boas-vindas a julho com gelado, galinhas à deriva e robôs.
O filme brasileiro dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres e Selton Mello chega à cerimônia do Oscar, no próximo domingo (3), na disputa por três estatuetas: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz. Uma produção original Globoplay, Ainda Estou Aqui é resultado de 7 anos de trabalho e 4 meses de filmagem, com 547 profissionais envolvidos. Neste episódio especial, às vésperas da maior premiação do cinema, Julia Duailibi conversa com quatro integrantes da equipe que, por trás das câmeras, ajudaram a contar a história de Eunice Paiva e de sua família. Roteiristas premiados em Veneza, Murilo Hauser e Heitor Lorega relatam como foi transpor para o longa metragem uma violência que parecia escondida e que vai “entrando aos poucos” na casa e na vida da família Paiva. Eles falam sobre como foi acompanhar todo o processo de produção e observar de perto a construção das complexidades de Eunice Paiva por Fernanda Torres. Direto de Los Angeles, a dupla fala também sobre a expectativa para o Oscar. Claudia Kopke, figurinista, detalha como foi a busca pelas roupas para o filme, que se passa no início dos anos 1970. "Muita coisa era de acervo, porque dá mais verdade, já vem envelhecido", conta. Adrian Teijido, diretor de fotografia, explica como as memórias de Walter Salles ajudaram a compor a atmosfera visual do longa. "Era um desejo do Walter de que a primeira fase do filme fosse bastante solar, que a casa fosse alegre e cheia de amigos”, diz. Ele fala ainda sobre a escolha de gravar de maneira analógica e como essa opção ajudou a construir a atmosfera de um filme que já recebeu mais de 30 prêmios ao redor do mundo.