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O Império da IA, com Karen HaoEm 2019 — tempos mais simples! — a jornalista Karen Hao foi fazer o primeiro “perfil” jornalístico da sua carreira, aquelas reportagens em que um jornalista passa dias acompanhando uma pessoa ou empresa, uma coisa meio biografia, meio retrato congelado no tempo.A tal empresa era uma startup do Vale do Silício, ainda pequena e desconhecida dos meros mortais como eu e você, mas que hoje é a mais valiosa da história: a OpenAI, também conhecida como “a criadora do ChatGPT”.A Karen Hao vendeu o projeto do perfil para o MIT Technology Review porque a OpenAI parecia, naquela época, uma startup diferente. O “open” no nome nasceu da visão de que inteligência artificial é um assunto tão importante para o futuro da humanidade que precisava ser explorado de um jeito aberto, compartilhando conhecimento com todo mundo, e mais preocupado em proteger esse tal futuro do que em só gerar lucro.Hoje, aqui direto de 2026, a gente já sabe que não foi exatamente isso que aconteceu. Com o tempo, a OpenAI se transformou numa empresa oficialmente voltada para o lucro como qualquer outra e chegou a ser processada por Elon Musk — um dos apoiadores iniciais do projeto — por quebrar essa promessa de ser ‘open'. Em maio, o Elno perdeu a causa, e a OpenAI agora se prepara para lançar as ações na bolsa e, pelos números atuais, já largar valendo mais de 1 trilhão de dólares.Mesmo em 2019, a Karen Hao sentiu que todo esse papo de “open” não era bem assim: segredos e competitividade em todas as conversas que ela ouvia na empresa. Publicou o tal perfil contando isso e o pessoal da OpenAI… não gostou muito. Achou que ela ia só falar bem deles, e a empresa cortou contato com ela por três anos.O Boa Noite Internet é uma publicação apoiada por pessoas como você, nosso público. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se um assinante gratuito ou pago.Até que, em maio do ano passado, ela lançou nos EUA o livro O império da IA: Por dentro da corrida irresponsável pela dominação total, que segue contando a história da OpenAI — e abre com a bizarra saída do Sam Altman, demitido do cargo de CEO por “nem sempre falar a verdade” ao conselho da empresa, para voltar quatro dias depois nos braços dos funcionários.Mas esse livro não é exatamente uma biografia da OpenAI. Para mim, é mais um retrato de todo o sistema empresarial em que vivemos hoje — inteligência artificial ou não. O importante é que ele acabou de sair no Brasil pela Editora Rocco, que me procurou para saber se eu queria entrevistá-la aqui no programa, aproveitando que ela veio participar do Esquenta do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. O congresso, aliás, acontece dia 30 de julho — vai lá no site da Abraji saber mais, quem sabe comprar seu ingresso.Mas enfim, claro que eu queria conversar com ela. Obrigado, Abraji, obrigado, pessoal da Rocco, pelo presente. Quem me conhece sabe que IA agora é um assunto muuuito importante no meu trabalho. Eu fico aqui tentando navegar o meio do caminho entre o fim do mundo exterminador do futuro e a utopia vendida por muita gente. Não acredito em nenhum dos dois cenários, falei disso com a Karen antes e durante a conversa. Mas no final da entrevista a gente volta para falar não só disso, como também de como o IA em Curso, minha comunidade de letramento contínuo em IA, se conecta com tudo. Com promoção? Pode ser. Quem ficar até o fim, verá.A entrevista foi gravada em inglês — a Karen também fala mandarim, mas não fala brazilian —, então vai funcionar assim. Se ouvir no áudio, vai ser a versão original, do mesmo jeito que foi com o Ted Chiang ano passado, para você botar o seu cursinho para trabalhar. Aqui no site boanoiteinternet.com.br você está acompanhando a transcrição completa traduzida, se quiser ler enquanto ouve. E no YouTube tem uma versão legendada. Assim, você entra na conversa do jeito que preferir.Combinado? Então, bora lá entender O Império da IA com Karen Hao, no Boa Noite Internet.Cris: Karen Hao, bem-vinda ao Boa Noite Internet.Karen Hao: Obrigada pelo convite.Cris: Que bom ter você aqui. Espero que o Brasil esteja te tratando bem durante a Copa do Mundo — a gente veio falar sobre isso. Hoje é dia de falar de futebol, de Copa do Mundo, quais são as chances de cada país. Mas a primeira coisa que você precisa saber sobre essa conversa é que eu não sou jornalista. Não sei fazer isso. Peço desculpas antecipadas à sua profissão e ao seu ofício.Além disso, você foi enganada. Eu não estou aqui pra te entrevistar. Isso aqui é uma sessão de terapia. Você vai me ajudar a superar meus traumas.Porque eu sou da… do que eu chamo de “geração esquecida” — sou geração X, nasci nos anos 70. Esquecida porque, nessa guerra de gerações, as pessoas esquecem que a gente existe, e isso é incrível, porque a gente causou muito estrago no planeta. O Elon Musk é geração X, então é só isso que você precisa saber sobre a minha turma. Gente como ele, ou como Marc Andreessen… eu cresci lendo e assistindo à ficção científica que dizia que tecnologia é a melhor coisa do mundo, que ciência e engenheiros são incríveis e vão nos levar pra um lugar incrível.Sou uma daquelas pessoas que, quando a internet surgiu, falou: a paz mundial está logo ali. O conhecimento a um clique de distância, o futuro vai ser incrível. E aqui estamos nós. Então, quando usei o GPT pela primeira vez, e depois o ChatGPT, fiquei super empolgado. Foi a primeira vez, desde a internet, que eu fiquei realmente empolgado.Tenho até uma certa fama de ser mal-humorado com tecnologia: Bitcoin é lavagem de dinheiro, Clubhouse não presta — e as pessoas, ah, Clubhouse é a próxima grande coisa. Mas quando a IA chegou, eu falei: isso é importante. Só que eu já não era mais aquela criança dos anos 70. Tinha crescido, tinha visto o que aconteceu com a internet, tinha trabalhado numa big tech. E estava em desespero com o sistema em que a IA estava sendo construída.Dito tudo isso, o seu livro, aqui, já nas livrarias, recebe provavelmente o melhor elogio que eu posso dar: é otimista. Não é uma lista de reclamações e gente má fazendo coisas más. Claro, você fala muito sobre a OpenAI — ela é o fio condutor da história, especialmente aqueles quatro dias em que o Sam Altman saiu e voltou. E é muito divertido de ler. Mas você toma o cuidado de ser otimista.E uma das coisas que você menciona é como as pessoas na OpenAI, e em todas essas empresas, dizem: “isso é inevitável, a gente tem que fazer”. Quero falar sobre isso. Mas a gente tem que começar pela pergunta que você provavelmente ouve em todo podcast, a do título — Império da IA. Por que império?E acho que essa pergunta é ainda mais relevante no Brasil, país do sul global, colonizado. Por que império da IA?Karen Hao: Antes de mais nada, obrigada por dizer que o livro é otimista. Muita gente não reconhece isso, mas é verdade. Eu escrevo com um profundo otimismo de que os danos que a gente vê podem mudar. Não faria o trabalho que faço se não achasse que as coisas vão mudar.Sobre por que eu uso a expressão império, ou império da IA: a forma como empresas como a OpenAI operam é impressionantemente parecida com a dos impérios antigos. Eu traço quatro paralelos no livro. O primeiro é que elas reivindicam recursos que não são delas — os dados das pessoas, a propriedade intelectual de artistas, criadores como você, jornalistas.Segundo, elas exploram uma quantidade extraordinária de mão de obra. Isso vale tanto para os trabalhadores da cadeia de produção de IA, mal pagos e maltratados, que ainda assim geram uma riqueza extraordinária para essas empresas, quanto para os trabalhadores cujos empregos são automatizados e cujos direitos são corroídos pela implantação dessas tecnologias em diferentes setores.A terceira característica é que impérios controlam os fluxos de informação na sociedade. Essas empresas censuram a pesquisa fundamental sobre essas tecnologias, o que limita nossa capacidade de entender as verdadeiras limitações e capacidades dos modelos que desenvolvem. E estão criando uma tecnologia de informação que tentam transformar no portal único pelo qual qualquer pessoa se relaciona com o mundo.Esse portal impregna as ideologias do Vale do Silício, seus sistemas de valores, sua língua, e projeta a hegemonia do inglês. Isso influencia boa parte do conhecimento que a gente vai produzir daqui pra frente, porque cientistas e educadores usam essas plataformas e acabam perpetuando essas mesmas ideologias e valores.E o quarto e último paralelo é que impérios sempre se agarram a uma narrativa existencial ou moral sobre por que precisam existir. Essas empresas fazem a mesma coisa. Dizem que são o “império do bem”, numa missão civilizatória de trazer progresso e modernidade pra toda a humanidade, competindo contra um “império do mal” que ameaça mandar a humanidade pro inferno.Quando você conversa com algumas pessoas dentro dessas empresas, ou que as lideram, elas dizem: se você nos deixar construir uma inteligência artificial geral, que elas de alguma forma moldam como um deus, a gente vai acabar numa espécie de utopia, um paraíso onde a mudança climática é resolvida, o câncer é curado, a pobreza é aliviada.Mas, se os caras maus conseguirem isso antes, a gente pode acabar com todos os humanos mortos — um risco de extinção pra todos nós.Cris: E eles vêm dizendo isso há quase dez anos, e ainda usam como ferramenta. A gente está num país que foi influenciado por três impérios ao longo da história: Portugal, Inglaterra e agora os Estados Unidos. Então a gente olha pra essas empresas de um jeito meio cínico: sim, sim, já conhecemos essa história.Mas, ao mesmo tempo, ano passado, o Pew Research Center fez uma pesquisa sobre como o mundo enxerga a IA, e o sul global é bem mais otimista do que o norte. Uma das razões é a ideia de democratizar — não só informação, mas: ah, finalmente eu posso montar uma startup, sair desse lugar de exploração e criar o unicórnio de um bilhão de dólares. Os números são grandes na China. Países em desenvolvimento veem muito mais benefício do que risco na IA.China, 83%. Tailândia, 77%. Holanda, 36%. Canadá, 40%. Será que a gente está deixando passar alguma coisa? A gente está certo? Isso está democratizando mesmo? Até que ponto?Karen Hao: Provavelmente tem duas razões. Uma é que muitos dos danos que a indústria de IA causa à maioria global são bem escondidos. Ela se esforça muito pra esconder como polui o ambiente dessas comunidades, como explora e devasta a mão de obra, deixando traumas psicológicos — como documento no livro.E, recentemente, li um artigo de opinião no New York Times que trazia um bom ponto: muitas economias desenvolvidas estão especialmente atentas ao potencial da IA de desmontar oportunidades de emprego de tempo integral. A gente começa a ver isso cada vez mais. Já na maioria global, muito mais gente vive em economias informais, e aí a ideia de que a IA vai tomar um emprego de tempo integral não pesa tanto.Então os danos mais visíveis — a erosão do emprego formal de tempo integral — pesam mais no norte global, ou pelo menos é lá que as pessoas se sentem mais ansiosas. E os danos invisíveis, que atingem o sul global, ninguém percebe tanto, justamente porque são invisíveis. É meio por isso que tanta gente sente essa divisão que aparece na pesquisa do Pew.Cris: Eu tenho acompanhado as notícias sobre IA no Brasil, e toda semana tem um novo data center sendo construído em alguma cidade. Isso é vendido como uma coisa boa: que ótimo investimento, gera emprego. E me fez pensar de novo — a gente passou por três impérios, mas algumas famílias no Brasil, e aposto que em outros lugares também, estão no poder há 500 anos ao longo da história do país.Então, ao mesmo tempo, a gente pensa: é, estamos sendo explorados, é a mesma coisa. Eu já não tenho emprego, então deixa eu usar essa tecnologia pra melhorar minha vida. Mas as pessoas que realmente tomam as decisões, de novo, nos últimos 500 anos, se perguntaram: como a gente ajuda esse pessoal a explorar nosso país de um jeito que nos mantenha no poder e nos dê muito dinheiro?Mas também foi verdade que, sei lá, a Volkswagen abre uma fábrica no Brasil e aquilo gera emprego, contrata gente pro chão de fábrica e pros escritórios. Como é que isso é diferente com a IA?Karen Hao: De certa forma, não é diferente. Existe um fenômeno parecido: a indústria de IA terceiriza muitos dos trabalhos que ela não quer dentro dos centros de poder, e joga isso pra comunidades empobrecidas, do mesmo jeito que outras multinacionais fizeram por décadas.Mas também é diferente, porque a escala dos impactos trabalhistas e ambientais da IA é completamente outra, muito maior que a da indústria automobilística ou da moda. E a velocidade é outra, porque são tecnologias digitais que atravessam fronteiras muito rápido.E é diferente porque a maioria das pessoas não percebe que a IA, mesmo sendo tecnologia digital, tem uma cadeia de suprimentos muito física e intensiva em mão de obra manual.Quando você compra roupa, café, um carro, é mais óbvio que existem materiais que precisam ser extraídos e depois manuseados por pessoas pra criar aquele produto. Já com a IA, a maioria aceita a narrativa que o Vale do Silício projeta: a de que isso vem da “nuvem”, desses espaços etéreos que parecem nem existir no planeta. E a verdade é exatamente o oposto.Ela depende de uma quantidade extraordinária de extração mineral. Depende da construção de infraestruturas enormes — data centers, instalações de supercomputação espalhadas pelo mundo. E depende de muita, muita mão de obra manual: trabalhadores de dados que limpam, preparam e moderam o conteúdo dos sistemas de IA que chegam até você quando usa o ChatGPT.É isso que a torna tão diferente. E há também uma ideologia completamente diferente sustentando a expansão da IA. Quando você conversa com executivos da moda, eles não vão dizer: se você não comprar nossa roupa, vai pro inferno.Já a indústria de IA diz: se você não nos deixar capturar cada vez mais terra, mais recursos e mais mão de obra pra produzir essas tecnologias, vamos ter uma destruição civilizacional. Isso é, ao mesmo tempo, retórica política usada como arma pra moldar o debate público e a cabeça de quem formula políticas, e também está enraizado num sistema de crenças — algumas pessoas dentro dessas empresas realmente acreditam que, se uma AGI fosse construída, e construída nas mãos erradas, isso levaria mesmo a esse tipo de destruição.E é isso que move a sede cada vez maior da indústria por mais capital, mais recursos e mais terra.Cris: Eu quero falar sobre AGI, mas antes: ano passado, a OpenAI estava sendo processada no Reino Unido por violação de direitos autorais, basicamente todos os livros do mundo digitalizados e usados pra treinar modelos. E um dos executivos disse ao júri: bem, se a gente não puder fazer isso, fecha as portas. Me chocou que muita gente reagiu com um “ah, tá, o que a gente pode fazer? Eles vão fechar as portas”.Em parte porque a gente já está acostumado com essa narrativa. Outro dia, numa conferência, um ex-CEO dizia: a gente teve que usar embalagem de plástico porque é mais barata que papel, senão prejudicaria nosso resultado. E a plateia reagia: ah, então é só fechar as portas — a sociedade não pode arcar com isso.Mas isso também, como você disse, se conecta à ideia de uma grande missão, uma missão de salvar o mundo, que a gente precisa cumprir antes que seja tarde, senão estamos condenados. OpenAI está literalmente no nome — só que em português não é tão direto: é “inteligência artificial aberta”.Foi criada a partir de um sonho, um projeto que era pra ser uma coisa pro bem comum. Em 2019, num tempo bem distante, antes da pandemia, você cobriu a OpenAI, foi até o escritório deles, ficou lá dentro. O que você viu? E, mais importante, como essa missão mudou? O Elon Musk os processou outro dia justamente por mudarem a missão. Isso alguma vez foi verdade? Em algum momento eles pensaram mesmo “ah, a gente vai salvar o mundo”?Como essa narrativa de ser aberta funciona com a OpenAI?Karen Hao: Quando comecei a cobrir a OpenAI, levei a sério o que eles diziam — que tinham sido recrutados com a missão de beneficiar toda a humanidade. E aí, quando me infiltrei na empresa, fui ficando bem mais cética, porque via como eles operavam de um jeito completamente diferente, portas adentro, do que diziam em público.Diziam que iam publicar todas as pesquisas e abrir o código de tudo, e na prática eram uma das organizações mais secretas que já cobri. Eram muitas discrepâncias, e, na época, presumi que tinha havido algum tipo de corrupção que os levou a abandonar a missão original. Depois de cobrir a empresa por mais alguns anos e de trabalhar neste livro, mudei de ideia até sobre a missão original.Não acho mais que ela era um esforço sincero e generoso de beneficiar a humanidade. A missão foi criada pra dar à empresa — na época, uma organização sem fins lucrativos — uma margem de manobra extraordinária pra depois levantar muito capital, acumular muito talento e perseguir a força motriz de verdade por trás de tudo aquilo: se tornar a força dominante no desenvolvimento de IA.E penso assim agora porque, quando você olha pras narrativas de cada nova empresa de IA no começo — a Anthropic, a xAI, a Safe Superintelligence do Ilya Sutskever, a Thinking Machines Lab da Mira Murati —, todas usam a mesma narrativa da OpenAI: nós somos os mocinhos, eles são os bandidos.É por isso que precisamos criar uma nova empresa que avance a IA do nosso jeito, não do deles. E você começa a perceber, por esse padrão, que eles repetem a mesma coisa em parte porque acreditam nela até certo ponto, mas também porque ela funciona muito bem com a imprensa, com o público, com quem formula políticas.No livro, eu reproduzo os e-mails internos que Elon Musk, Sam Altman e Greg Brockman trocavam nos primeiros dias da OpenAI. Eles tinham plena consciência de que estavam criando uma missão que soasse bem para o público. E o propósito de verdade, que também deixaram registrado nesses e-mails, era vencer o Google. Viam o Google como a força dominante em IA e queriam ser eles essa força.Não gostavam de ver o Google na frente, então inventaram justificativas: o Google é uma empresa com fins lucrativos, então nós vamos ser sem fins lucrativos. Mas, no fundo, acho que era puro ego: tem que ser a gente, não eles, a gente quer ser quem lidera isso.E aí passaram um tempão moldando essa missão pública, que acabou sendo super útil pra recrutar o primeiro grupo de pesquisadores e turbinar o avanço deles.Cris: Então agora é um bom momento pra falar de AGI, a inteligência artificial geral. Muita gente pergunta: o que é AGI? O que “geral” quer dizer? E a impressão que peguei lendo seu livro é que, por design, isso nunca fica claro de verdade, porque é um alvo móvel. Essas empresas um dia vão dizer “chegamos, alcançamos a AGI”? Ou o plano é sempre “não, não, ainda não chegamos, me dá mais dinheiro, me dá mais poder”?Qual é o papel da AGI na narrativa dessas empresas?Karen Hao: Já que a gente está falando de ficção científica, eu costumo usar a analogia de que o mundo da IA é meio como Duna. Em Duna, o personagem principal, Paul Atreides, entende, ao chegar no planeta Arrakis, que o povo de lá foi semeado com um mito: o de que um dia viria um Messias pra libertá-los. Ele sabe que é um mito, mas decide entrar nele e agir como se fosse o Messias pra controlar melhor aquele povo.E, vivendo, respirando e encarnando esse mito dia após dia, ele começa a perder a noção de que é um mito. Passa a se perguntar se o mito era mesmo verdadeiro ou se foi ele quem o tornou verdadeiro. É essa confusão entre mito e realidade — ele vive num espaço intermediário, sem ter mais certeza do que é verdade e do que é ficção.E trago isso pra responder sobre a AGI porque a AGI é, ao mesmo tempo, um mito e algo que os líderes e os trabalhadores dessas empresas vivem, respiram e encarnam dia após dia, a ponto de perderem a noção do que é mito e do que é realidade. É a ideia de um sistema de IA teórico que um dia igualaria as capacidades humanas. Só que a gente nem tem consenso científico sobre o que é inteligência humana.Por isso, de certa forma, por design, é um termo bem maleável, que deixa essas empresas fazerem o que quiserem. Elas definem e redefinem a AGI conforme a necessidade, movem a trave pra onde quiserem. E, ao mesmo tempo, isso é sustentado por uma crença genuína de certas pessoas lá dentro, por causa dessa confusão entre mito e realidade. Pelas minhas contas, a OpenAI já usou pelo menos quatro definições diferentes de AGI.A primeira está no site deles: “sistemas altamente autônomos que superam humanos na maioria dos trabalhos economicamente valiosos”. É uma definição de automação do trabalho — eles dizem, de forma explícita, que estão atrás dos empregos mais bem pagos. A segunda apareceu no contrato com a Microsoft, por um tempo a maior investidora deles: ali, a AGI virou um sistema que geraria 100 bilhões de dólares em receita.Ou seja, uma definição feita pra incentivar a Microsoft a investir. Já o Sam Altman disse ao Congresso que AGI é um sistema que cura o câncer e resolve a mudança climática — uma definição de benefício social, muito útil quando você quer que os reguladores não te regulem.E, por fim, quando falam com o consumidor, dizem que vai ser o melhor assistente digital que você já teve — porque, claro, estão tentando vender o produto.E aí você percebe duas coisas. Primeiro, que é um conjunto de definições completamente incoerente. Segundo, que eles trocam de definição conforme o público que querem convencer. Mas também tem gente nessas empresas que acredita de verdade que está construindo uma tecnologia capaz de dar conta das quatro coisas.Então é uma realidade bem confusa e complicada: o que a AGI de fato é, e pra que ela serve, para essas empresas, para a agenda delas e também para as crenças delas.Cris: Como ex-funcionário da Meta — entrei em 2013 —, a missão era unir o mundo e torná-lo mais aberto e conectado. É uma missão incrível. E tem uma coisa que eu sempre digo, porque muito amigo meu vem falar comigo, “ah, esse cara da OpenAI, ou a própria Meta, são maus”. Eu conheci muita gente na empresa. Nunca conheci uma pessoa mal-intencionada.Todo mundo, independente da missão, era gente boa tentando entregar o melhor produto possível, pra dar poder a quem tem um pequeno negócio, por exemplo. Tenho amigos pessoais que construíram a empresa deles em cima da publicidade do Facebook e do Instagram. E esse é justamente o problema, porque ainda assim é uma corporação muito má, pelo que ela causa ao mundo pra bater as metas de negócio.Ou seja, você não precisa de um vilão tipo Lex Luthor pra causar um estrago desse tamanho no mundo. E adorei a referência a Duna. Duna é engraçado: é o livro que eu mais reli na vida que não foi escrito pelo Tolkien. Li o primeiro Duna umas três vezes, e toda vez é como se fosse um livro diferente. Na primeira, eu era adolescente, e era só o Paul Atreides, o cara durão.Na segunda, eu morava no Canadá e li com olhos de estrangeiro, pensando em colonização. E na terceira vez foi quando os filmes do Denis Villeneuve saíram, e aí era: ah, o Bene Gesserit criou esse mito, isso é meio pós-moderno. Narrativamente, fico me perguntando o que vai significar pra mim se eu ler uma quarta vez.Karen Hao: Eu ia te perguntar isso. Quando você disse que cresceu numa época cheia de ficção científica falando das maravilhas da tecnologia, fiquei curiosa: que histórias você estava lendo? Porque muita coisa que saiu nos anos 70 e 80 dizia exatamente o oposto. E muita gente já apontou que os executivos de tecnologia de hoje, que vivem citando essas histórias, interpretam elas justamente ao contrário da intenção original.Cris: Concordo plenamente. Mas, respondendo: foi basicamente Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. E é por isso mesmo — os executivos de tecnologia, e o Elon Musk mais que todos, leem esses livros como receita, não como aviso. O livro de que eu mais me lembro, nem lembro o título, era um do Asimov em que ele descreve o elevador espacial que aparece na série da Apple TV, Fundação.E o enredo é: eu sou esse engenheiro brilhante, quero construir essa coisa no Sri Lanka, mas o governo trava tudo com regulação — eu sou um gênio e a regulação é a vilã. Hoje eu leio e penso: ah, sei. Mas, quando garoto, era só “olha, um elevador espacial, que genial, a gente nem precisa de foguete”. E aí você começa a entender. E aí eu parei de ler esses caras.E passei a ler gente com uma visão completamente diferente: o Ted Chiang, que entrevistei ano passado, a N.K. Jemisin, o Cory Doctorow, de quem sou muito fã. E talvez eles sejam mais explícitos, pra gente burra como eu entender: “não, bobo, a analogia é essa”. Mas Duna era incrível — vermes gigantes de areia, o tal garoto durão, e aquela coisa do “eu não aceito o meu destino”.Tenho esse grande destino, mas não quero ele. Do resto da série eu já não gosto tanto. Mas o mais importante de tudo: Duna gerou o melhor GIF de filme de todos os tempos, o “Lisan al Gaib” do Javier Bardem — que eu devia ter colocado durante a sua explicação, aquele “uau, ele está cumprindo a profecia, agindo como o profeta”.Mas, de novo, falando de vilões: você mencionou que essas empresas se colocam como o bem contra o mal, feito impérios antigos. Só que elas também jogam a carta da China, né? “Se a gente não fizer, a Rússia faz primeiro.” Só que a Rússia começou uma guerra e está ocupada demais. “Mas a China chega lá, e é por isso que a gente tem que ser fechado.” É por isso que Mythos e Fable e agora o GPT-5.6 foram proibidos pelo governo. Isso tem fundamento?Quero saber se é possível a China competir — quero mesmo essa resposta — mas também porque, desde toda essa conversa do Fable-Mythos, países como Índia e Brasil vêm dizendo que precisam de um modelo soberano. Dá pra fazer, ou a OpenAI, a Anthropic e o Google estão tão à frente que já não dá?Karen Hao: Sobre a China: você está certíssimo, o Vale do Silício usou por anos a carta do “e a China?” pra escapar de qualquer responsabilização de verdade. Fizeram muito isso na era das redes sociais.A Meta fez muito isso, com o Mark Zuckerberg dizendo ao governo dos EUA: vocês não podem nos regular, senão a gente perde. Mas, se a gente ganhar, vai ter um efeito liberalizante no mundo e nas democracias em todo lugar. E, infelizmente, o que a gente viu foi que jogar essa carta repetidamente produziu exatamente o efeito contrário do que o Vale do Silício prometeu.Uma das empresas de rede social dominantes dessa era é a ByteDance. Ou seja, mesmo sem regulação das redes sociais nos EUA, existe uma empresa chinesa de rede social bem dominante. E as redes sociais estadunidenses acabaram tendo um efeito antiliberal no mundo — é bastante consensual que enfraqueceram democracias em todo lugar. E aí, na era da IA, elas seguiram jogando a mesma carta.Mas o que eu sempre aponto é que a gente definitivamente não devia acreditar nelas. Já existe evidência significativa de que tudo o que elas dizem está, de novo, se provando o oposto. Elas disseram: não regulem a gente como empresas de IA, regulem a China, via controles de exportação — um mecanismo do governo dos EUA com alcance extraterritorial.Só que as empresas chinesas agora estão produzindo modelos de IA de código aberto extremamente eficientes, que viraram super populares no próprio Vale do Silício. Existe um monte de startup de lá que prefere usar modelo chinês a OpenAI, Anthropic ou Google.Então, nesse sentido, é um conjunto de evidências bem decisivo, acho, pra mostrar que a gente devia simplesmente responsabilizar essas empresas, não importa o que digam sobre “ah, vamos perder pra China”. No fim das contas, é só retórica política. Não é um argumento real que elas consigam sustentar pra escapar da responsabilização.Responsabilizá-las vai fortalecer a democracia pelo mundo, vai trazer mais direitos humanos, trabalhistas e de privacidade de dados pras pessoas — é sempre o contrário do que elas dizem que aconteceria. E, sobre a sua pergunta em torno da IA soberana: acho a ideia realmente importante, mas acho também que muitos países estão meio confusos sobre o que querem dizer com isso.Muitos governos, hoje, pensam a IA soberana pela pergunta: a gente consegue construir o nosso próprio ChatGPT? O nosso próprio grande modelo de linguagem, o nosso sistema de IA generativa? Estão olhando só pro modelo que o Vale do Silício já definiu e tentando descobrir como recriar aquilo.E o que eu digo pra quem formula políticas é: defina pra que a IA serve no seu país, no seu contexto. Quais são, no fim das contas, os objetivos do seu país? Os objetivos do seu povo? E também os nossos objetivos coletivos, entre países?Porque a gente tem, por exemplo, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Já definimos coletivamente que há coisas que precisamos resolver juntos: superar a crise climática, reduzir a pobreza, melhorar a educação.E, enquanto o Vale do Silício adora dizer que está fazendo tudo isso, na prática não está. Mas a gente poderia — poderia desenvolver, de forma colaborativa, sistemas de IA que realmente avançassem em cada um desses objetivos coletivos que já acordamos.E cada país também devia fazer o exercício: quais objetivos você quer alcançar, e que tipos de sistema de IA você poderia desenhar pra chegar lá — sistemas que talvez não se pareçam em nada com um grande modelo de linguagem. Se os países fizessem isso, acho que descobririam que a maioria dos sistemas de que precisam exigiria muito menos recursos.Ou seja, contextos como o Brasil, a Índia e outros, quando não precisam competir construindo essas infraestruturas de computação gigantescas e gastando centenas de bilhões de dólares, na verdade já têm, localmente, todos os recursos necessários pra desenvolver um sistema de IA soberano.Cris: Quando ouvi falar do seu livro pela primeira vez, uma amiga me disse que você não poupa ninguém — fala mal do Sam Altman, mas também do Dario Amodei. E as pessoas costumam escolher um lado. Eu sou time Claude, odeio o ChatGPT, essas coisas. Então cheguei no livro pensando: ah, é mais um livro dizendo que a IA é terrível, que a gente não devia usar IA.Mas, conforme fui lendo, e ouvindo outras entrevistas suas, me pareceu que o seu problema é justamente o que você acabou de descrever: a forma como essa tecnologia é feita. E, em especial, a palavra escala — a ideia de que a solução é a escala. O que você quer dizer com isso?Karen Hao: Eu costumo usar a analogia de que “IA” é como a palavra “transporte”: na verdade se refere a uma coleção de tecnologias que vão da bicicleta ao foguete. São tipos bem, bem diferentes de tecnologia, que exigem insumos diferentes pra se desenvolver e depois têm impactos diferentes na sociedade.E você está certo: sou especificamente crítica ao que chamo de “foguetes da IA”, os sistemas que os impérios da IA estão desenvolvendo, aqueles que exigem uma quantidade enorme de exploração de mão de obra e extração ambiental.E sou bem otimista com o que chamo de “bicicletas da IA”: sistemas especializados, eficientes, com bom custo-benefício, governáveis pelas pessoas, cujo desenvolvimento pode ser participativo. Países como o Brasil, o Chile, a Índia, qualquer contexto, têm recursos pra desenvolver e se autodefinir, em vez de simplesmente herdar um sistema criado pelos dois únicos centros do mundo capazes de gastar uma quantidade extraordinária de capital: o Vale do Silício e o ecossistema tecnológico chinês.E o motivo pelo qual eu acho tão corrosivo o que os impérios da IA estão desenvolvendo é exatamente o que você disse: a forma como eles fazem isso, por um mecanismo de força bruta pra avançar as capacidades da IA em escala. Eles vão simplesmente empurrando cada vez mais dados de treinamento nesses modelos, e isso exige corroer a privacidade das pessoas, tomar a propriedade intelectual delas e, ainda por cima, baixa a qualidade dos dados que entram nos modelos — o que leva aos danos de exploração de mão de obra, porque aí você tem que dar conta da moderação de conteúdo.E aí você tem pessoas psicologicamente traumatizadas por serem expostas a todo aquele conteúdo horrível que se tenta “lavar” através desses modelos.E aí vem o problema dessas infraestruturas de computação enormes, com impactos ambientais que aumentam a conta de luz das comunidades que as hospedam e agravam a crise de custo de vida. Elas precisam ser alimentadas por fontes fósseis, que jogam mais carbono na atmosfera e mais poluição no ar dessas comunidades.Então todos os problemas que eu identifico, no que têm de corrosivo, derivam inteiramente da abordagem deles pro desenvolvimento de IA. Por que não descartar a abordagem, em vez de descartar a tecnologia? Redefinir e redesenhar de que tipos de sistema de IA a gente precisa de verdade, com uma cadeia de suprimentos fundamentalmente diferente. E isso não é exclusivo da IA.A gente já viu muitas outras indústrias que começaram com uma cadeia de suprimentos bem ruim. A moda, por exemplo: muita degradação ambiental, muita exploração de mão de obra.Com muita organização, protesto, ação de consumidores, regulação governamental e cooperação entre governos, a gente conseguiu criar mercados novos pra moda sustentável e ética, cadeias de suprimentos novas e inovações pra fazer roupa mais saudável pras pessoas e pro planeta.E é basicamente isso que eu defendo: transformar a indústria de IA do mesmo jeito que transformamos a moda, e as cadeias de suprimento de alimentos. Assim a gente fica com os benefícios da tecnologia, ajuda ela a avançar os objetivos que importam pra gente, sem jogar uma fração enorme da população mundial numa condição atrasada e numa qualidade de vida pior.Cris: O Brasil está agora, no Congresso, discutindo a escala de seis dias por semana. A regra atual é: você trabalha seis dias e descansa um. E muitas empresas, o comércio principalmente, dizem “vamos fechar as portas”, e os trabalhadores respondem “isso é problema seu, não meu”. É mais ou menos a mesma narrativa dessas empresas de IA: se eu não usar a sua água, a Idade das Trevas está chegando.Falando em Idade das Trevas, e falando em bicicleta: a sua analogia me lembrou uma coisa. Eu gosto de jogo de zumbi, de mundo aberto, e em nenhum deles tem bicicleta. Num desses jogos, instalei um plugin que deixava andar de bicicleta — você acha uma e sai pedalando. E aí entendi por que não tem bicicleta: desbalanceia tudo. Parte da graça do jogo é você precisar achar um carro, e daí pneu, gasolina, comida pra carregar. De bicicleta, você vai a qualquer lugar.E eu pensei: ah, é. Meio que estraguei o jogo pra mim, porque agora tenho uma bicicleta, é incrível. Enfim, em termos práticos: no fim do ano passado, uns meses atrás, a revista Wired publicou um artigo pedindo pra jornalistas de tecnologia contarem como usam IA no trabalho. E cada um usava de um jeito. Você usa IA no seu trabalho? Como?Karen Hao: Eu não uso nenhum sistema de IA generativa no trabalho — nem ChatGPT, nem Gemini, nem Claude. Por três motivos. O primeiro é uma postura ética, depois de tanto investigar essas empresas. O segundo é privacidade de dados: eu investigo essas empresas.Não quero que elas conheçam todo o meu raciocínio enquanto eu apuro o livro, literalmente investigando elas. E o terceiro é que, no meu caso específico, a força do meu trabalho está na capacidade de construir relações fortes com as fontes, pela empatia, e de contar histórias envolventes, pela narrativa. E os grandes modelos de linguagem simplesmente não são a ferramenta certa pra nenhuma das duas coisas.Não vão melhorar a minha empatia nem a minha escrita. Então eu não perco nada com essa postura ética: simplesmente corto essas ferramentas e sigo fazendo o meu trabalho muito bem. Pra outros jornalistas pode ser diferente, e pra quem está em outras áreas o cálculo pode ser outro.Mas eu incentivo as pessoas a pensarem primeiro: quais são as suas forças no trabalho? Quais são os seus objetivos? E aí ir de trás pra frente pra descobrir se a IA é a ferramenta certa, qual tipo de IA é a ferramenta certa, e qual fornecedor você quer de fato usar, apoiar, votar com os pés. Agora, eu uso, sim, IA preditiva.Aquelas ferramentas de IA especializadas, as “bicicletas da IA”, digamos. No livro, tinha um detalhe que eu queria muito ilustrar: como a OpenAI deu um salto quando passou de organização sem fins lucrativos a um empreendimento bancado pela Microsoft. Percebi que as cadeiras do escritório ficaram bem mais caras. Então fotografei as cadeiras de um escritório e as do outro.E joguei tudo na busca reversa de imagens do Google, que é um sistema de IA especializado — não é baseado em grandes modelos de linguagem, não é IA generativa. Assim descobri quanto essas cadeiras costumam custar. No primeiro escritório, cerca de 2 mil dólares por cadeira. No segundo, eram cadeiras de um designer brasileiro famoso, uns 10 mil dólares cada.Coloquei esse detalhe no livro pra ilustrar o tipo de riqueza e de concentração de recursos de que a gente está falando. Esses são alguns dos jeitos como eu uso IA, ainda que de forma bem limitada, sempre pontual, quando acho que vai ajudar. E, claro, uso ferramentas de transcrição por IA — outra IA especializada — em todas as minhas entrevistas.Cris: Essa foi uma das partes em que a minha cabeça explodiu, eu nunca tinha percebido: a OpenAI criou o Whisper. Deixa eu dizer de outro jeito, do meu ponto de vista. A OpenAI liberou abertamente essa ferramenta incrível de transcrição, o Whisper, em que eu jogo o áudio e ela me devolve as palavras que as pessoas disseram. E eu pensei: ah, que generoso da parte deles.Mas o motivo real de terem criado a ferramenta foi pegar todos os vídeos do YouTube, transcrever e alimentar a máquina. E aí é: ah, claro. Enfim, falando de ferramentas e de otimismo — a gente está chegando ao fim da conversa. Eu tenho uma regra desde o episódio dois deste programa, há oito anos: de novo, como eu disse do seu livro, não pode ser só uma lista de reclamações e coisa ruim. E a gente tem se saído bem até aqui.Você falou de caminhos e de bicicletas, mas eu quero ser mais específico. Se isso aqui fosse uma reunião de negócios: qual é o plano de ação, quais são os próximos passos? Só que uma das coisas que eu repito bastante, na vida e neste programa, é que problema sistêmico não se resolve com ação individual. Se eu tomar banhos mais curtos, isso nunca vai salvar o planeta do aquecimento global.E muitos amigos meus simplesmente: não quero falar de IA, não quero usar IA. Voltando aos videogames: leram que tal jogo usa IA e pronto, não vão jogar. E a minha primeira pergunta pra você é: como a gente ocupa esses espaços da IA generativa — ChatGPT, Gemini e por aí vai? Porque o que a gente viu com as redes sociais foi: ah, o Facebook é do mal, vou sair do Facebook. Ah, vou sair do Twitter.E, na esperança de quê, sei lá, talvez alguém diga: ah, sinto falta do Cris, cadê ele? Ah, está no Bluesky. Mas isso deixa o espaço aberto pra os radicais entrarem e postarem o que quiserem, sem ninguém contrapor ou tornar aquilo um lugar melhor. Então como a gente ocupa o espaço da IA — seja qual for a definição de “espaço da IA” que você preferir — com todos esses problemas que a gente vem discutindo?Karen Hao: Acho que tem duas categorias de ação pra gente pensar. Uma é desmantelar o império. A outra é investir e construir novos tipos de sistema de IA, que se tornem alternativas às tecnologias do império. Quando eu digo desmantelar o império, não estou dizendo que quero que a OpenAI, o Google, a Anthropic, seja quem for, simplesmente deixem de existir.É que eu não quero que elas sejam imperiais. Não quero que fiquem extraindo uma quantidade extraordinária de valor sem redistribuir nada em troca. Se elas voltassem a ser negócios que praticam uma troca justa de valor com o mundo, eu ficaria perfeitamente feliz com qualquer tecnologia que estivessem desenvolvendo.E a forma de desmantelar o império, acho, se resume a muita organização de base, que vai pressionar os governos a regular e responsabilizar essa indústria. No último ano, a gente viu uma quantidade incrível dessa organização de base florescendo pelo mundo.Recentemente, lancei com um grupo de jornalistas, pesquisadores de IA e acadêmicos críticos um projeto chamado AI Resist List, que busca documentar parte dessa organização de base pelo mundo. A gente encontrou cerca de 30 exemplos, de todas as regiões, de ações individuais, institucionais e movidas pela comunidade.Tinha ação artística, ação política. E isso mostra bem o seu ponto: não dá pra contar só com a ação individual, mas o indivíduo pode, sim, ter impacto. Até uma ação pequena pode gerar um grande efeito cascata. Claro que se juntar com os vizinhos pra protestar contra o data center é ainda mais eficaz. Se juntar dentro da sua escola ou universidade pra protestar contra a parceria dela com uma empresa de IA também é mais eficaz.Se juntar com os colegas de trabalho de um setor pra barrar a adoção de uma IA que corrói os direitos trabalhistas é mais um jeito eficaz. A gente tem um monte desses exemplos. Um dos meus favoritos é o de uma comunidade sobre a qual escrevi no livro, Quilicura, no Chile, na periferia de Santiago. É uma comunidade da classe trabalhadora, bem pobre, que vem sendo alvo incessante da expansão de data centers.E por isso protestaram de forma bem aguerrida contra essa expansão, porque não acharam bom negócio hospedar essas instalações sem tirar nenhum benefício, enquanto elas consomem uma parte significativa dos recursos naturais da região.E, logo depois que escrevi sobre eles, foram além na resistência e criaram uma plataforma chamada Quili.ai. É um site em que você entra e que parece um chatbot, parece o ChatGPT: tem uma interface de chat pra você digitar. Só que, quando você faz uma pergunta, em vez de um modelo de IA responder, a mensagem é encaminhada pra alguém que mora em Quilicura, no Chile. Aí, se você pede “quero a imagem de um cachorro”, aquilo vai pro artista local deles, o Benji. Ele pega um pedaço de papel, desenha um cachorro, tira uma foto e te manda de volta.Eles fizeram isso essencialmente como um projeto de arte performática, pra fazer as pessoas pensarem duas vezes antes de usar IA generativa pra bobagem. A mensagem era: ei, quando você fica brincando com essas ferramentas em pedido besta, isso afeta comunidades como a nossa, drena os recursos de que a gente precisa pra viver bem.E também queriam levar as pessoas a pensar: por que não perguntar pra alguém da sua própria comunidade aquela receita que você procurava, ou pedir aquela imagem? Porque aí você reconstrói as conexões que estão tão em falta na sociedade — a falta delas é o que nos deixa mais vulneráveis a esse tipo de colonização do império.Eles deixaram o projeto aberto por 24 horas, e qualquer pessoa no mundo podia mandar um pedido. Receberam uma quantidade extraordinária deles. Viralizou de vez. E essa cidadezinha conseguiu uma virada enorme de narrativa sobre a suposta inevitabilidade e necessidade dessa tecnologia, sobre tudo o que o Vale do Silício diz — que, se você não usar, vai ficar pra trás de quem usa.E esse é só um exemplo, entre muitos, de como pessoas comuns, não importa a sua posição na sociedade, podem ter impacto real no debate, na consciência pública e até na regulação. A gente está vendo isso agora com os protestos contra data centers. Nos EUA, em 2025, cerca de 150 bilhões de dólares em projetos de data center foram travados.Isso virou uma das questões políticas mais quentes nos EUA para as próximas eleições de meio de mandato. Tem gente eleita sendo literalmente tirada do cargo por ter aprovado data centers, contrariando a vontade do povo. E isso já está tendo efeito real sobre as empresas e sobre a trajetória do desenvolvimento de IA.A OpenAI teve que encerrar recentemente a sua ferramenta de geração de vídeo, o Sora. Quando lançaram, apresentaram como o segundo produto mais importante desde o ChatGPT. O que aconteceu entre o lançamento e o fim? Uma reportagem do Wall Street Journal apontou três motivos, todos moldados por ação de base. Um: um gargalo enorme de capacidade de computação.Muitos dos data centers travados ou parados eram da OpenAI. Dois: um cenário financeiro bem mais incerto. A OpenAI está se preparando pro IPO, o que significa ficar mais exposta a Wall Street — e Wall Street está cada vez mais nervoso com a capacidade dessas empresas de cumprir o que prometem.E aí a OpenAI teve que reforçar alguns projetos paralelos pra fazer o balanço parecer um pouco melhor aos olhos de Wall Street. E, terceiro: os consumidores simplesmente não estavam usando o produto — o que também é ação coletiva de consumidores. Então, por todo esse tipo de resistência, de várias formas, de baixo pra cima, as pessoas estão de fato tendo impacto real na indústria e responsabilizando ela.Essa é a primeira categoria de ação. A segunda é: ok, que tecnologias de IA a gente usaria como alternativa? E aí a gente precisa investir mais nelas. Muitas vezes, quando converso sobre o livro, a pessoa diz: ok, me convenci de que não quero usar ChatGPT, não quero usar Claude — mas então uso o quê no lugar?E o problema é que eu não tenho muitas respostas pra essa lista de alternativas. Tem umas poucas aqui e ali, uma plataforma, uma empresa.Cris: Dá pra rodar o modelo no seu próprio computador, como o Cory Doctorow faz, mas aí é limitado e…Karen Hao: Exatamente, exige mais habilidade técnica. Mas, pra quem consegue instalar modelos de código aberto no próprio computador, eu incentivo 100%. Só que a gente também precisa de mais gente desenvolvendo interfaces bem fáceis pra esses modelos de código aberto, pra que qualquer pessoa consiga usar.A gente também precisa de mais gente desenvolvendo “bicicletas da IA”, de investidores e governos investindo mais nesse tipo de solução, e de talento — pesquisadores de IA, desenvolvedores e outras pessoas dispostas a sacrificar um pouco e abrir mão dos pacotes de remuneração enormes.Cris: Eu estava começando a achar que agora as empresas precisam ter menos lucro — e isso nunca vai acontecer.Karen Hao: Não, não é a empresa ter menos lucro. É o trabalhador topar abrir mão do pacote de milhões de dólares pra levar o talento dele pra outro lugar. Mais fácil, bem mais fácil. Eu converso com muito pesquisador de IA cansado da abordagem da indústria, porque ela é completamente sem criatividade intelectual.Eu conversei com pesquisadores que não passaram seis anos num doutorado em IA só pra ficar empurrando mais dados na máquina — pra eles, é o trabalho mais chato do mundo. E depois automatizar a programação, que era justamente o que eles gostavam de fazer. Converso com tanta gente que já não acha graça nenhuma nisso. Estão meio presos por “algemas de ouro”.E estão tentando descobrir, dentro de si, que carreira alternativa poderiam ter. Eu costumo incentivar esses pesquisadores a gastar o talento deles construindo um tipo diferente de empresa, que trabalhe com “bicicletas da IA”. E a gente já começa a ver cada vez mais desse talento indo por aí.E a gente precisa que todas as facetas da sociedade invistam num ecossistema muito mais robusto e rico de tecnologias de IA, capaz de substituir as que hoje dominam. Eu ainda tenho as cicatrizes das minhas próprias “algemas de ouro”, mas concordo plenamente.Cris: E as redes sociais são o exemplo — veja o que aconteceu com elas. Tem aquela frase famosa: as mentes mais brilhantes da minha geração passam o tempo fazendo as pessoas clicarem em anúncios. E ainda dizem: ah, isso pode ser o futuro. Pois é.Você contou a história do Quili.ai e isso me lembrou um dos primeiros criadores de conteúdo do Brasil, o Cid Não Salvo. Uns 10, 15 anos atrás, ele tuitou o seguinte: “Gente, eu disse pro meu pai que, sempre que ele precisar pesquisar alguma coisa na internet, é pra ir no Twitter.com e digitar a pergunta na caixa”. E olha que ele tinha milhões de seguidores.E, por uns bons dias, quase um mês, você entrava no Twitter do pai dele e via perguntas tipo “onde eu compro pizza?”. Era engraçadíssimo. No fim, ele contou pro pai — ou talvez não. Mas eu adoro essa ideia. Antes de a gente terminar: você já deve ter respondido isso mil vezes, mas vai continuar cobrindo IA? O que está na sua cabeça, o que vem por aí? Turnê mundial? O que vem pela frente?Karen Hao: Com certeza estou pensando em como continuar responsabilizando essas empresas. Estou envolvida em várias colaborações, com gente incrível, em diferentes projetos ligados a isso. O AI Resist List foi um deles. Também co-criei um programa chamado AI Spotlight Series, com o Pulitzer Center, uma organização jornalística sem fins lucrativos que financia jornalismo investigativo pelo mundo.É um programa que treina jornalistas do mundo inteiro a cobrir IA por uma lente de responsabilização. Até agora, já treinamos mais de 3 mil. E eu sigo pensando em como construir mais capacidade dentro do jornalismo, da sociedade civil, de outros contextos, pra mobilizar ainda mais essa organização de base — pra conter de verdade os impérios da IA e ajudar a desmantelá-los.Cris: Adorei o seu exemplo da moda. É possível, já foi feito. Ou até a indústria automotiva. Ou o grande exemplo que a gente não mencionou, e que o pessoal da OpenAI vive citando: o Projeto Manhattan, a energia nuclear.O mundo não acabou. Quando eu era criança lendo Asimov, achava que ia tudo acabar num fogo nuclear. Enfim — alguma última palavra, alguma mensagem, algum palpite pros jogos do Brasil na Copa, alguma coisa que você queira dizer antes da gente encerrar?Karen Hao: No fim das contas, o que eu espero que fique desta conversa e do livro é o seguinte: neste momento, o Vale do Silício está concebendo a IA como um projeto político. E a característica central desse projeto é tirar a autonomia de todo mundo — a autonomia de moldar de verdade o próprio futuro e o nosso futuro coletivo. Mas, no instante em que você reconhece que já tem uma autonomia significativa pra resistir, o império começa a desmoronar.Então espero que as pessoas encontrem a própria voz, a afirmem, conquistem o seu lugar à mesa e se conectem com os vizinhos, com a comunidade, com os colegas de trabalho, pra criar mais movimentos juntos.Cris: Que ótimo. Karen Hao, o seu livro é O Império da IA: Por dentro da corrida irresponsável pela dominação total. Obrigado por vir ao Brasil conversar com a gente. Foi um prazer.Karen Hao: Muito obrigada.Uma das primeiras perguntas que anotei quando comecei a pensar nessa conversa foi justamente a do final, a da ocupação de espaços. Porque, como eu disse, quando as redes sociais chegaram para ficar, muita gente falou “ah, não vou usar, é do mal” — e aí as pessoas ruins, vamos chamar assim, acabam ocupando esse espaço e falando o que bem entendem. A gente precisa aprender essa lição agora, no mundo da IA.Fora que vejo muita gente falando de IA sem nunca ter usado — ou que usou, sei lá, dois anos atrás, acha que continua tudo igual e já diz que não quer chegar perto.E por quê? Porque essa abordagem de ocupar espaços é o que eu e a Ana Freitas buscamos fazer no IA em Curso, nossa comunidade de letramento contínuo em IA. Foi, aliás, uma conversa que tive com a Karen antes da entrevista: ao mesmo tempo que a gente fala do impacto da IA no mundo, também precisa focar no que é prático, no que dá para fazer hoje com IA, sem vender sonho nem desastre. A analogia que usei foi a de que é que nem quando a gente fazia curso de Word e Excel — é o que eu faço agora que vai facilitar minha vida, me fazer ganhar tempo, botar a IA para me ajudar. Quem viu minha conversa com a Ana aqui no Boa Noite Internet, no fim de 2025, sabe do que estou falando. Se não viu, volta lá e confere.Desde que a gente lançou este episódio, o IA em Curso já passou de 400 pessoas. Tem muita gente colocando projetos pessoais incríveis na rua, tirando do papel aquela ideia que rondava a cabeça há um tempão. E a comunidade tem mentoria ao vivo, aula gravada, newsletter, banco de agentes, grupo de Telegram… que mais? O que não falta é jeito de passar para você o conhecimento sobre IA de que você precisa hoje, agora. Quero te dar a bússola para navegar nesse universo.Se esse é o tipo de abordagem que você quer ter com a IA, passa lá no iaemcurso.com.br e usa o cupom BNI2026 para ganhar 20% de desconto no plano anual. Mas corre, porque daqui a duas semanas vou apagar esse cupom — não é todo dia que a gente dá um desconto desses.É isso. Boa Noite Internet, temporada 2026 começando — como todo ano, com mudança, ideia, projeto. Ou, como diz minha citação preferida de todos os tempos: “vivemos uma fase de transição, como sempre”. Espero ver você por aqui e lá no IA em Curso.Obrigado pelo seu tempo e pela sua atenção. Até o próximo episódio. This is a public episode. If you'd like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit boanoiteinternet.com.br/subscribe
NESTA EDIÇÃO. Aprovação da mistura de 32% de etanol sinaliza que o governo brasileiro ainda vê impactos da alta internacional do petróleo nos preços dos combustíveis. MME abre consulta pública para projetos de transmissão prioritários. Ceará aprova projeto de lei para flexibilizar licenciamento de data centers. *Locução gerada por IA
No início dos seus manuscritos, de 1844, Marx escreve qualquer coisa como «o meu próximo é o dinheiro», e o poeta francês Christophe Hanna admite que esta declaração pode ser entendida como uma indiciação de que o dinheiro determina as nossas vidas num tal grau que não nos livramos de qualificar os outros e a relação que com eles estabelecemos a partir da fortuna que lhes atribuímos. No fundo o dinheiro actua como um «capcioso parasita» (António Vieira) capaz de conduzir o hospedeiro a seu bel-prazer. Este parasita que se apropriou inteiramente dos destinos das sociedades pós-históricas, alcançou esse efeito prodigioso, diz-nos Vieira, ao infiltrar-se em todas as esferas do espaço humano, desenvolvendo um parasitismo de alta virulência: «fazendo-se desejar sem limite, inverte os papéis e põe a sociedade ao seu serviço até fazer perigar a sobrevivência do hospedeiro.» A narcose que este gera é tão profunda, que tudo se submete às suas leis, e ele deforma a própria realidade física através do homem, que se torna o agente dessa força viral. Como um astro negro, este irradia subtilmente a sua promessa que acaba por dominar o curso do mundo. Borges notou que «nada há de menos material do que o dinheiro, pois qualquer moeda (uma moeda de vinte cêntimos, digamos) é, em rigor, um repertório de futuros possíveis». Mas esse tempo futuro não nos pertence, na verdade os homens não são ricos, tanto como se tornam seres possuídos pelo dinheiro. O dinheiro é uma função que transtorna inteiramente a razão moral de um ser ao ver-se capturado pela sua influência, por essa excepção que nos desintegra sucessivamente até levar a um desinvestimento de todos os afectos e ligações, e desse desejo de autonomia, de liberdade, a qual não existe a não ser enquanto luta com o seu contrário. A adesão significa uma perda de si, uma diluição, enquanto o homem se cinge aos fins do próprio dinheiro, que visa a multiplicação, e que determina que toda a coisa, todo o bem, todos os seres, no esforço de se realizarem no mercado, passem a definir-se apenas segundo essa necessidade de competir com todas as outras mercadorias. Como nos diz Huysmans, «o dinheiro atrai-se a si próprio, procura aglomerar-se nos mesmos locais, vai de preferência parar aos celerados e aos medíocres; e depois, quando uma inescrutável excepção o leva a acumular-se num rico de alma não criminosa nem abjecta, permanece estéril, incapaz de se converter num bem inteligente, e entre mãos caridosas nem mesmo é apto a alcançar um fim elevado. Dir-se-ia que vinga assim o seu destino falso, se paralisa voluntariamente quando não pertence ao último dos trapaceiros nem ao mais repelente dos malandros.» A forma como o dinheiro se impõe passa desde logo por submeter a si o tempo e todas as funções cronológicas, de modo a neutralizar o Kairós, essa capacidade de ler no inesperado, de se aproveitar do acaso na forma como este procura corroer os enredos coercivos que visam tornar-nos meros espectadores passivos das nossas próprias vidas, existências paralisadas. O triunfo do capital significa essa redundância absoluta, num encadeamento que conduz ao fenómeno do presentismo, esse tempo que se define pela eterna hipnose do presente. Isto faz de nós seres dominados por uma compulsão para refazer o mundo segundo a lógica carcerária que exponencia as dinâmicas preditivas. A nossa época define-se, assim, como um nó temporal, uma sobreposição de tempos assombrados, em que o passado se dissolve nesses ecos ou reflexos comprometidos com o efémero e a contingência, dificultando a capacidade de recuperar as referências e, mergulhando na tradição, reactivar as sobrevivências de outras eras. Nem o futuro aquilo que nos ocupa, mas uma sua projecção que acaba por gerar a impotência, vivendo-se por antecipação apenas na correspondência com um desejo mórbido que se devasta a si mesmo, sendo que as promessas se concatenam e se tornam imediatamente perecíveis. O dinheiro não é, por isso, tão-só um equivalente absoluto, mas ele actua no espírito dos homens produzindo uma metamorfose que os tranca fora dessas cogitações inebriadas pelo tempo longo da história, sendo que em todos os domínios da vida, as obsessões presentistas levam ao colapso temporal, um tempo liso que não permite que nada se sedimente. Daí a tendência desde há algumas décadas para o deperecimento das formas artísticas, uma vez que esta lógica carcerária, mais do que nos confinar no espaço, vulnera-nos ao estarmos mergulhados num ritmo em constante aceleração que impede aquela maturação lenta que sempre esteve na base das principais realizações do espírito, e especificamente na arte que se fez até à modernidade. Hoje, devemos reconhecer como a arte contemporânea mais do que definir um conjunto de práticas que já não correspondem a critérios ou formas estáveis, numa relação tensa com a tradição, mas ao cooptar e misturar processos e linguagens com uma crescente indiferença pelas suas funções originárias, coloca-se como uma estação situada no ponto extremo da aceleração. Como nos diz o filósofo francês Yves Michaud, esta «indiferenciação dos géneros artísticos e coexistência de critérios estéticos provindos de tradições artísticas diferentes – uma paisagem chinesa, um rosto de manga japonês, um graffiti urbano, uma abstracção geométrica cientista, uma pintura abstracta expressionista ou monocromática, etc. – neutralizaram todos os critérios em favor daquilo que pode chamar-se ‘pluralismo indiferentista'». No fundo, o paradigma da arte contemporânea que infectou e contagiou tantas outras esferas da realização artística determinou que fosse o próprio conceito de arte que se dissolveu. Hoje, tudo é arte, porque a própria arte foi dominada pelo dinheiro, e está hoje inteiramente capturado pelos enredos da valorização e especulação das mercadorias, conferindo glamour, aura, brilho, confundindo-se nos seus fins com a própria ideia de luxo, de definição das tendências, sendo que ao artista não restou outra escolha senão tornar-se produtor, fabricando em série a partir de um modelo genérico, oferecendo ao mercado objectos produzidos que dizem sempre o mesmo, tornando-se idênticos, porque não servem para outra coisa senão para corresponder a uma marca, não se distinguindo nos fins do da publicidade. Voltando a Huysmans, este vinca como o dinheiro «torna lúbrico o indigente mais casto, actua de uma só pancada no corpo e na alma, e a quem o possui sugere um egoísmo baixo, um orgulho ignóbil, aconselha a gastá-lo apenas consigo próprio, do mais humilde faz um lacaio insolente, do mais generoso um larápio. Num segundo altera todos os hábitos, transtorna todas as ideias, num abrir e fechar de olhos transforma as paixões mais teimosas.» Aquilo que subsiste são apenas as paixões tristes de que falava Espinoza, desde logo a do dinheiro. Por isso mesmo, esta conjunção de todos os destinos, não deixa já margem a esses processos artísticos que se definiam pela resistência, pela «negação contínua daquilo que ameaça suprimir a própria liberdade» (Hegel). Bolaño, que nunca foi outra coisa senão um espírito que se alimentava das formas que, contrariando o monoteísmo do mercado, procuravam resgatar aquele politeísmo da imaginação, lamentava-se da perda da função social da literatura… «Que podem fazer Sergio Pitol, Fernando Vallejo e Ricardo Piglia perante a avalanche de glamour? Pouca coisa. Literatura. Mas a literatura não vale nada se não vier acompanhada de algo mais refulgente do que o mero acto de sobreviver. A literatura, sobretudo na América Latina, e suspeito que também em Espanha, é sucesso, sucesso social, claro, isto é, grandes tiragens, traduções para mais de trinta línguas. Os escritores actuais já não são, como bem fez notar Pere Gimferrer, senhoritos dispostos a fulminar a respeitabilidade social, nem muito menos um bando de inadaptados, mas gente saída da classe média e do proletariado, disposta a escalar o Evereste da respeitabilidade, desejosa de respeitabilidade. São louros e morenos, filhos do povo de Madrid; são gente da pequena burguesia que espera terminar os seus dias na alta burguesia. Não rejeitam a respeitabilidade. Procuram-na desesperadamente. Para a alcançar têm de transpirar muito. Assinar livros, sorrir, viajar para lugares desconhecidos, sorrir, fazer de palhaço nos programas cor-de-rosa, sorrir muito, sobretudo não morder a mão que lhes dá de comer, assistir a feiras do livro e responder com boa disposição às perguntas mais cretinas, sorrir nas piores situações, fazer cara de inteligentes, controlar o crescimento demográfico, agradecer sempre.» Que outra coisa vemos por estes dias tomar conta de todos os programas e «eventos» culturais senão isto? O que se andou a tramar por estes dias ali no Porto? Espécie de assalto sem se mexer muito, procurando excitar um tão bacoco fervor regionalista, propor os valores locais, poetas alinhados como artigos numa feira de produtos de uma cidade que há muito, tal e qual como Lisboa, não está em condições de lutar contra nada, nem contra a erosão de qualquer ordem de valores face à sua conversão em manta de retalhos, de atracções turísticas e activos financeiros, e assim, vimos Arnaldo Saraiva, num artiguelho encomendado, render-se à impostura de um reles promotor de valores regionais, fornecendo uma "selecção" de entre alguns perfis seguros, aspirantes e os habituais basbaques que ajudam a engrossar o lote, e, logo ele que tanto gosta dos brasileiros, parecia esquecer essa sóbria lição de «política literária» que nos deu Drummond de Andrade: «O poeta municipal/ discute com o poeta estadual/ qual deles é capaz de bater o poeta federal.// Enquanto isso o poeta federal/ tira ouro do nariz.» É só mais um entre uma série de promotores que, logo que foi posto algum dinheiro à disposição para a campanha, com o fim de reclamar que a cidade ainda mexe, provando que esta direita não quer fazer como a do último autarca social-democrata, que limpou o cu à cultura, e veja-se como se engendrou logo o patético golpe, como se encheram de presságios estes coronalecos, que luzes, e que maneiras agora, com a entoação favorecida por aquele lance de escadas da pronúncia, mas, desta feita, em vez do vernáculo, da bojarda que nos fazia sentir o gosto às tripas, temos uns assanhados prontos para fazerem da cultura o partido geral, nesse modo prático de ir com quem tiver o maço delas, esbanjando a esmola, multiplicando o pão abstracto, e olhó blazer que ali vem, Couceiro-argonauta-da-volta-à-terra-na-treta, lá vem, e garantem-nos que é tempo do rapaz, este que sofre daquela ternura publicitária pelos livros, vai morrer de letriose, uma cirrose de tanto ir ao fundo do tinteiro, das mil maneiras como se enrola com as sílabas numa tal felação, industrioso chouriceiro, cheio dessa bibliogarrulice, messias que irá salvar os canhenhos da glutonice da bicharia da prata, e aí vem o parque temático para os que tanto gostam de comer a erva das passadeiras em vez de a pisar, e se qualquer palco serve a quem vai partir prò infinito, que imortal salsada, vamos pôr a invicta a ler até desmaiar de inanição, vai fundar-se uma disneylândia das bovarinhas, com lendas que as levem para a cama e as aturem, enquanto põem ovos e os cornos ao pobre Charles, umas com as outras a desfiar delírios pelos festivais em vez de engolirem duma vez a merda do arsénico. Ora, neste episódio, e para pôr alguma ordem nisto, tivemos a companhia de António Pinto Ribeiro, alguém que tem pensado e exercido um papel enquanto programador cultural, buscando construir enredos de ordem excepcional que permitam ainda resistir à moral do lucro, a estas engrenagens submetidas de mil maneiras aos mecanismos do poder, nomeadamente neste quadro que serve para promover os artistas dóceis e inócuos, atrapalhando os potencialmente ameaçadores.
Acompanhe o fechamento de mercado com as principais notícias sobre a Bolsa de Valores, Ibovespa e o cenário econômico global. Veja a análise macro sobre os juros nos Estados Unidos e Japão, além do impacto das commodities e do petróleo nos ativos brasileiros.
31/05/2026 - Culto Vespertino -Lucas 19
Lewis Hamilton viveu no Canadá seu melhor resultado até agora com a Ferrari, e isso reacende uma pergunta importante: finalmente começou a reação que muita gente esperava em Maranello?
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Voltando ao lugar de filho - Pra. Meire Peres by Igreja Missionária Evangélica Maranata de Caxias Para conhecer mais sobre a Maranata:Instagram: https://www.instagram.com/imemaranata/Facebook: https://www.facebook.com/imemaranataSite: https://www.igrejamaranata.com.br/Canal do youtube: https://www.youtube.com/channel/UCa1jcJx-DIDqu_gknjlWOrQDeus te abençoe
Eun Chong Kim e Rick Covil falam tudo sobre o confronto do Palmeiras contra a Jacuipense pela Copa do Brasil!#palmeiras #podporco
O que é isso, um Filme da semana?????????Voltando as origens e falando por 40 minutos de um mesmo filme, essa semana trouxe Carol, dirigido pelo Todd Haynes e protagonizado pela Cate Blanchett e pela Rooney Mara. Falei das minhas impressões e também falei do livro da Patricia Highsmith, que foi a base a história. Tudo sem grandes spoilers, com uma sessão pra discutir o final bem sinalizada nos minutos finais do programa.Me sigam no Instagram @filme.da.semana Bluesky @lalarilandFale comigo pelo email podcastfilmedasemana@gmail.com, que também é uma chave pix ;)
Olá ouvintes do Kokoro!! Trazemos a vocês mais um AnimeSphere. Venha viajar conosco na China antiga, aprender sobre curas, venenos e intrigas palacianas. Hoje falaremos de Kusuriya no Hitorigoto, ou The Apotecary Diaries, ou Diário de uma Apotecária. Citações do episódio Sobre o anime Tema de abertura #1: [Hana ni Natte, de Ryokuoushoku Shakai] Tema de abertura #2: [Ambivalent, de Uru] Tema de encerramento #1: [Aikotoba, de Aimer] Tema de encerramento #2: [Shiawase no Recipe, de Dai Hirai] Episódios [01 – Maomao – Maomao] [02 – Buaisō na Kusuriya – Apotecária antissocial] [03 – Yōkai Sōdō – O caso perturbador do espírito] [04 – Odoshi – A ameaça] [05 – Ura no Kao – Por debaixo dos panos] [06 – Niwa no Utage – A festa no jardim] [07 – Kikyō – Voltando para casa] [08 – Mugibō – Palitos de Trigo] [09 – Jisatsu ka Tasatsu ka – Suicídio ou assassinato?] [10 – Mitsu – Mel] [11 – Futari kara Hitori e – Reduzindo de dois a um] [12 – Kankan to Kijo – O eunuco e a cortesã] [13 – Gaitei no Shigoto – Trabalho no Pátio Externo] [14 – Atarashii Junhi – A nova Pura Concubina] [15 – Nanban-zuke – Namasu] [16 – Namari – Chumbo] [17 – Machiaruki – Passeio pela cidade] [18 – Rakan – Lakan] [19 – Gūzen ka Unmei ka – Coincidência ou coisa do destino?] [20 – Kisaki no Niwa – O jardim da concubina] [21 – Tsuki no Ōji – O príncipe da Lua] [22 – Sentaku – Escolha] [23 – Saigo no Ippuku – A última dose] [24 – Shinjitsu no Aji – O sabor da verdade] Referências | Trivias [Mesmo que o mundo seja fictício, ele tem fortes inspirações na China Imperial, especialmente na dinastia Tang, com uma estrutura das práticas de harém Imperial, conforme a realidade: consortes, eunucos, criados e médicos. Isso só prova o compromisso da mangaká com a autenticidade histórica]; [Os conhecimentos da Maomao são reais, baseados na medicina tradicional chinesa, como o uso de ingredientes descritos no compêndio de matéria médica chinês, o “Bancao Gangmu”, escrito por Li Shizhen no século XVI]; [Enfeites de cabelo como códigos sociais, que demonstram status, função ou até mesmo mensagens ocultas]; [O mistério a respeito de Jinshi ser ou não eunuco é histórica, alguns oficiais protegiam sua identidade se dizendo eunucos – mas não significa que ele o seja. Na China imperial, alguns eunucos detinham mais poder político que alguns ministros]; [Os fãs estão pressionando a mangaká para desenvolver melhor o romance entre a Maomao e o Jinshi – isso inclui até mesmo a família dela. Mas ela reforça que o foco continuará a ser mistérios e intrigas palacianas]; [Segundo o site “O Vício” no dia 27/06/25, a autora disse ter vários anúncios para a série, o que pode significar expansão da série como a conhecemos]. Nossos episódios citados 012: Shingeki no Kyojin Live Action 115: Code Geass – Parte 1 117: Violet Evergarden 124: Boku no Hero Academia – Parte 1 172: Boku no Hero Academia – Parte 2 179: Aggretsuko – 1ª Temporada 183: Shingeki no Kyojin – Primeira Temporada 194: Komi não consegue se comunicar 201: Aggretsuko – 2ª Temporada 206: Mairimashita! Iruma-kun – 1ª Temporada 211: Youjo Senki – Saga of Tanya the Evil 212: Shokugeki no Soma – 1ª Temporada 238: Sousou no Frieren – Parte 1 Soundtrack usada Trilha sonora sem copyright Contato E-mail: contato@animesphere.com.br Link Tree Seja nosso apoiador Apoia.se do AnimeSphere Compre as nossas Canecas Oficiais Por enquanto em suspenso, mas logo mais conseguiremos uma nova loja com as canecas para vocês!! Agregadores iTunes Deezer Spotify CastBox Podbean PodChaser Google Podcasts Podvine Páginas Amigas Anime See Três Quartos Cego, Canal YouTube Tokucast Participantes Jorge Twitter | X Facebook Instagram Blue Sky Firefalcon's World, meu blog pessoal MindStorm Productions NerdMaster Paranerdia Padrinhos Seja um você também!
No Falando de Nada desta semana, comentamos a reestruturação da Amazon MGM e a decisão de mexer em uma de suas áreas mais estratégicas de séries. O que está por trás dessa mudança e o que isso diz sobre o momento da indústria?Também voltamos ao assunto da compra da Warner para entender de onde veio o dinheiro da Paramount, além de uma discussão sobre o espaço (ou a falta dele) para atores “classe média” em Hollywood.Seja um membro da Guilda dos Tagarelers e participe das pautas semanais:https://www.youtube.com/channel/UCa8ekYf6l76ikQszoMYuHkw/join00:00 - O Falando de Nada está de volta da sua pausa!05:03 - Alinoca vai se mudar11:44 - De onde veio o dinheiro da Paramount?12:07 - Pera aí... O ator "classe média" não existe mais em Hollywood?18:00 - Voltando... De onde vem o dinheiro da Paramount21:13 - O Departamento de "criação de mundos" da Amazon MGM42:56 - Perguntinhas MarotasQuer enviar um Pix da Alegria? Entre em contato com nosso produtor @bclemente22 no Instagram!✉ Quer mandar sua sugestão de pauta ou dúvida? Envie um e-mail para
Nesta edição do "CBN e a Tecnologia", o comentarista Gilberto Sudré traz como destaque a seguinte reflexão: você já reparou como algumas tecnologias que pareciam ultrapassadas estão voltando com tudo? Esses sucessos do passado estão conquistando espaço novamente em um mundo dominado pelo digital. Mas o que está por trás desse movimento? Vamos explorar por que o passado está mais presente do que nunca — e como essas tecnologias estão ganhando uma nova vida nos dias atuais.
A frequência adequada para me alinhar com a Prosperidade
Os fones de ouvido com fio deveriam ter desaparecido junto com os novos celulares sem entradas específicas. Em vez disso, estão voltando com força! Nesta edição do "CBN e a Tecnologia", com o comentarista Gilberto Sudré, vamos entender porque acontece esse movimento. O
Voltando com o GIBITALK !!!!number 13!Finalmente os mitos de Cthulhu aqui no Gibifire, mas eu não manjo nada disso.... por isso chamei o grande Rafael do Pela Capa!Se você quiser acompanhar essas histórias, considere checar este link aqui
EBD PECC 1º TRIM 2026 Lição 12 Ezequiel 40 – 46 – A Glória do Senhor Voltando Para o Templo
EBD PECC IEADAM 1º TRIM 2026 | Lição 12: "A glória do SENHOR voltando para o templo. " | Pr Calebe
Sempre que se diz alguma profanidade com suficiente desarranjo para ferir a sensibilidade do leitor começa a contagem decrescente em que toda a gente se sente no direito de exigir a súbita torção redentora ou, pelo menos, um efeito de retratação, de forma a que se possa reforçar alguma noção moral entre a dejecção da época. Podemos descer o mais fundo que se possa imaginar à “latrina do coração” (Flaubert), mas de algum modo, em lugar do inferno, todos esperam escapar aos piores efeitos de degradação. No fim, todos querem saber-se a salvo da verdadeira infâmia, aquela em que alguém se acha quando apenas serve como exemplo aos demais para irem afinando as suas repressões, o seu falso moralismo puritano. A infâmia perdeu o carácter. Como assinala Claudio Magris, “muitos livros ostensivamente profanadores não chegam a ser na realidade desagradáveis – a irritar, a ofender, rejeitar, perturbar – porque a sua provocação é a máscara, demasiado transparente, de sentimentos nobremente humanos e os arroubos exibidos são apenas simpáticas e inofensivas licenciosidades imaturas”. Ficamos sempre felizes por saber que o traste, quando chega a hora da verdade, é capaz de um gesto de redenção. E o pior é todos estarmos muito seguros sobre o que isso possa significar. O que sejam os actos verdadeiramente bondosos. Como nos diz Eduardo Lizalde nuns versos: “A maior das purezas é a abjecção./ Não restam dúvidas./ Mas consolai-vos, oh puros:/ também os abjectos e os vis/ não o são totalmente./ Por vezes cheiram rosas/ e acariciam cordeiros com sinceridade/ ou beijam crianças/ e dão a sua vida pela Revolução.” Continuamos a encher a boca com palavras desvalidas, sem levar em conta quais são os órgãos que seria preciso desenvolver para mergulhar nessa zona esgotante capaz de exaurir as frivolidades com que nos chega esse leitor hipócrita, convencido da clareza dos seus juízos morais, esse burguezote apalhaçado que se furta por todos os meios ao emaranhado de paixões, brutalidades, aridez, vileza e negro sofrimento sem saída que a vida chega a ser. A maldade ou é uma instrução contra os nossos instintos e intuitos originais ou não é nada. Fazer parte do bando diabólicos, dos tais apóstolos da transgressão, significa lutar pela inversão dos grandes signos. A revolução começa por corroer os estratos da dimensão simbólica, pela derrogação de todas as certezas e conformismos. Os orgãos lutam para desembaraçar-se dos astros, daquela música que tão depressa faz de nós seres caducos. Daí que tantas vezes o pâncreas acabe calcinado, talvez por incapacidade de produzir a dose suficiente de bílis para se regular, pôr a ênfase necessária, lidar neste insistente deserto. As glândulas afinam por esse gotejar do que nos olha a partir das zonas mais escuras de nós próprios. Saímos do silêncio, cercados por ele, procurando destruí-lo sem o perder inteiramente. Também temos de criar um órgão para o trazer dentro. Estes vazios que guiam o sentimento. Vamos lendo outra coisa de costas para anúncios luminosos que propagam pela noite dentro esse resíduo ulceroso, e nem os insectos se lhe chegam, preferem ser engolidos pela resina, ou como certas flores e plantas encontrar o fogo, descobrirem pela chama aquela irisação do que depressa se cobre de negro. Temos algumas pedras, atiradas e recuperadas. Gostamos de como a terra as mastigou. Frases capazes de interceder enquanto ecos, esse detalhe dos nossos melhores erros. Ao longo do dia também nos pesa de diferentes modos. O vento quer lembrar-se de algo, ergue-se para uma demonstração, mas logo lhe falta a confiança e prefere adiar. Muitas vezes o mundo deixa de estar onde contávamos com ele. Há tantos nomes que de súbito deixam de responder. Pomos a mesma mesa, essa feroz mesa, mas as imagens parecem empurradas, as raízes apodrecidas, tudo contrariado. O crime é demasiado incerto. Não se sabe realmente como ferir fundo as leis principais. Por isso acabamos por nos virar para aqueles que têm o talento devastador do fracasso, dominados toda a vida por essas injúrias, e é assim que ouvimos contada de diferentes maneiras a fábula do fígado, a intensidade daqueles que foram levados a despedir-se dos dias. Os homens deixam de o ser rasgando o que de si mesmos conheciam. Por um ódio prometedor aceitam tomar para si mesmos expressões que noutras idades os teriam assustado. É preciso uma certa dimensão do inútil, o gosto por aprofundar as energias que não correspondem aos ciclos, aos bens ou às finalidades terrenas. A maldade é dar o ouvido àqueles deuses estragados, os que aprofundaram os seus defeitos, cultivaram-nos para extrair deles secreções que provocam tonturas e contorções a quem não se habituou a respirar esse ar capaz de gelar os pulmões e até a alma. O mal faz-se voltando atrás. É uma ferida na memória que não se deixa em paz. Voltando, voltando ao que ficou soterrado, escavando esses corpos, barcos, é uma forma de corroer o tempo. Com vagarosos gestos ocupamos os lugares, detemo-nos, contando, apostando, sempre através dessa desolada observação dos factos e dos feitos. Temos de estar dispostos a escutar até ao fim as nossas derrotas, a perfeição tortuosa do seu argumento, o elemento sinuoso de uma linguagem de sentido perdido. Com tudo isto, fica claro como o passado pode ser aberto, revisto, como é possível impor aos vermes um princípio de indústria. O tempo não precisa de ir todo no mesmo sentido. Podemos gravar certas intuições esperando outra atenção e inteligência de nós mesmos, ir marcando, dialogando com nós próprios em diferentes momentos, como se nos conduzíssemos, deixando espaço para aquela firmeza desesperada que, por agora, ainda nos falta. A memória deixa caminhos para mais tarde. Ainda voltaremos a esses cuidados, já sem a razão a ditar uma linha que seja, consumidos então pelo fogo, aquela vida que se propaga entre outros corpos, rasando o segredo, alimentando-se de estranhos reflexos. No fundo, a moral foi aquilo que nos fez conhecer a morte mais de perto, nos disse "não" vezes demais. Mas teríamos sido outros se tivéssemos escutado os elementos da sedução. Ficam-nos os cortes na pele, dessas silvas que roçamos até estarmos perdidos, a ânsia de crescer num odor oculto, deixar o sangue dar a volta mais larga, enegrecer sobre essas zonas onde o amor escolhe o outro lado da vida e nos transforma. Produzem-se imagens, restos futuros, fósseis que iluminam o que está por vir. Outros astros fazem as nossas sombras cambalear, e sonhos há muito esquecidos abrem enfim a boca, aproximam-se para nos dar sinais de um mundo que julgávamos conhecer. Quando deixas de falar sozinho, aí, sim, estás realmente perdido. Não tens quem te instigue o pior, e, naturalmente, também o melhor deixa de poder ser visto como uma escolha. Derivamos para o espaço, por falta de gravidade, ficamos dominados por essa insignificância comovedora. Como lembra Magris, as palavras “bondade” e “bom” não nos soam deslocadas na boca de Dostoiévski precisamente porque ele mergulhou sem qualquer reserva no lodo que corre nas nossas veias, como um messias que ressurge mas antes morre e desce verdadeiramente ao inferno. “A literatura explicitamente transgressora é também muitas vezes impulsionada, bem lá no fundo, por sentimentos tão bons que não podem ser confrontados com a crueldade tão frequente e triunfante da existência”, vinca o ensaísta triestino. Já antes Eduardo Lizalde havia notado como “Tudo o que é edificante é reaccionário/ (vejam-se os efeitos).” O mal permanece solteiro, é na verdade a única dimensão verdadeiramente heróica e solitária no meio de uma criação cabisbaixa, ferida por essa tentação de se submeter a algo de superior. Os intérpretes da verdadeira vontade devem ser os primeiros alvos a abater. Mesmo se surja com eles o primeiro sinal dessa presunção capaz de inventar um sentido e a razão de deuses que acabam por ser os verdadeiros triunfos da demonicidade humana. Mas somos vítimas demasiado voluntariosas dessa tendência para pôr a fé num borra-botas qualquer. Se, por outro lado, nos contássemos outras histórias, se tivéssemos órgãos, alguma apetência e educação para nos sabermos servir entre os melhores exemplos da danação… “Talvez um olhar impiedoso seja hoje mais necessário do que nunca, num momento em que se desmoronaram as ilusões das grandes filosofias da história, persuadidas de que as contradições da realidade trariam consigo a sua própria superação e conduziriam inevitavelmente a um progresso ulterior; o devir do mundo parece agora entregue a uma ebulição caótica e imprevisível, indiferente aos grandes projectos e perspectivas. Nesta capacidade de perscrutar verdades até intoleráveis reside uma bondade maior do que qualquer afabilidade conciliadora e temperada: a disponibilidade para descer, com uma piedade intrépida e desolada, até ao fundo da nossa obscuridade.” Neste episódio, vamos afastar-nos na direcção desse vazio que rejeita a medida e as disposições de ordem humana. João Vasco Lopes, uma dessas inteligências que tanto estimam o acaso, a adaptação, aquela evolução nervosa que exigem hoje os grandes sistemas, veio falar-nos das fronteiras que se viu a assediar timidamente, e estamos a falar do Espaço, dessas garatujas que desenhamos nos muros imensos de tudo aquilo que melhor exprime a nossa ridícula dimensão, o como não passamos de uma civilização que ainda nem saiu do berço. Vamos procurar tomar balanço para assaltar algumas zonas de recreio entretanto desactivadas do campo literário, agora que todos os exercícios com letrinhas nos fornecem toda essa consolação oferecida sem interrupções, de tal modo que a vida literária ocupou o lugar das ordens religiosas e dos conventos de freiras.
O Celtics tem a 2ª campanha do Leste e a 4ª da Liga e o homem está voltando. Tatum, Mazzulla, Brown, Celtics e o que faz esse time se manter no topo são os temas da semana com a participação sempre especial do nosso amigo André Mori.
Fala-se muito que tempo é dinheiro, mas qual o valor que damos ao nosso tempo? Como que o nosso tempo é "vendido", e se temos como reservar um pouco desse tempo pra nós?Tempo é fonte de vida, é o que corre enquanto nós corremos atrás das coisas que queremos, é como o oxigênio de nossas ações, sem tempo a gente não consegue agir, a gente não consegue se desenvolver, a gente não consegue criar, a gente não consegue fazer a nossa vida seguir um curso ao qual nós queremos. E no mundo de hoje a gente vende o nosso tempo em troca de um salário, em troca de um compromisso que a gente tem com alguém, para fazer aquilo que nos é determinado seja pela lei, seja pelos nossos costumes, seja por moda, ou para consumir algo que nos é dado. E no fim a gente nota de que tanto que a gente entrega ao nosso tempo pras outras pessoas, para outras coisas que não são nossas, sobra pouco ou nenhum tempo pra gente, tempo pra gente descansar, tempo pra gente estudar, aprender coisas novas, tempo pra gente desenvolver coisas que a gente gosta como a música, arte e escrita, e até mesmo o tempo que a gente precisa nos preparar para os compromissos que a gente tem acaba pesando em nossas vidas. Quantas vezes a gente teve que nos arrumar, nos preparar, nos deslocar para ir ao trabalho ou para ir a algum compromisso? E diante disso a gente entende que tempo sendo vida, nós não podemos desperdiçar o nosso tempo com coisas que não nos agregam, assim como não devemos abusar do tempo alheio fazendo com que essas pessoas percam o tempo com coisas que poderiam estar fazendo elas melhores em algum aspecto. O fim da escala seis por um é um exemplo disso, lutar para reduzir o tempo laboral das pessoas não é apenas uma comodidade que se é oferecida a quem vai trabalhar menos, é dar a oportunidade dessas pessoas usarem esse tempo livre pra coisas que as engrandecem, que elas possam ter mais tempo pra descansar, que possam ter mais tempo pra estudar, que possam ter mais tempo pra fazer coisas que sejam de benefício delas. Escalas extenuantes de trabalho fazem com que empresas que impõem essa jornada, comprem das pessoas um tempo maior do que o justo, e como nós temos uma tecnologia muito grande a qual nós hoje temos tanta comodidade, não seria adequado se as pessoas deixassem de fazer uso dessa modernidade toda criada, pois são tratadas como máquinas ou têm que disputar trabalho com máquinas. Voltando pra questão do tempo, o tempo é vida porque é no tempo que a gente vive, e por isso cada segundo é importantíssimo que não seja desperdiçado, e que não seja entregue de qualquer jeito a quem não dá o devido valor ao seu tempo, valorize o tempo que você tem, e também valorize o tempo que as pessoas entregam pra você.Bem-vindo ao episódio número 113 de Domingo à Noite. Vamos começar a semana botando o tédio pra fora.Ouça o episódio nas principais plataformas de podcast, para ouvir e conferir os links nas mídias sociais acesse: https://linktr.ee/kazzttorpodcastSiga André Arruda, o apresentador e faz tudo nesse podcast nas mídias sociais. Acesse os perfis em: https://linktr.ee/kazzttorPodcast produzido por Kazzttor AMT: https://www.kazzttor.com.br
Bom dia! ☕Experimente Nescafé Pro-Energy aqui.As roupas com tecido tecnológico da Insider estão aqui.Para proteger seus dados com a tecnologia da Serasa Experian, clique aqui.Compre aqui sua canequinha do the news.No episódio de hoje:
Extra flow treinando no CT do Cariani.
Todas as nossas andanças pelos bloquinhos de SP
VOLTANDO AO PRÍNCIPIO DE HONRAR A PRESENÇA - Amanda Ramos
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Episódio gravado em 08/12/2025 - Prefere assistir este episódio? Ele está no YouTube: https://youtu.be/-VmQqNmqcdU ASSUNTO DO EPISÓDIO: Fed voltou a fazer QE; você sabe o que é isso e o que isso significa? SOBRE AS FONTES CITADAS: Investopedia: o que é Quantitative Easing - https://www.investopedia.com/articles/economics/10/quantitative-easing.asp Post no X de Barchart sobre a intenção do Fed sobre voltar a comprar US$45bi em títulos por mês a partir de janeiro/2026 - https://x.com/Barchart/status/1997857336921128991?s=20 Post no X de The Kobeissi Letter sobre a renda média necessária ao americano para comprar uma casa em 2025 - https://x.com/KobeissiLetter/status/1971242173782950048 Post no X de GoldSilver HQ sobre a quantidade de anos de salários (em média) para se comprar uma casa - https://x.com/GoldSilverHQ/status/1998011302502133893 Harvard Business Review: o mercado não consegue sozinho resolver a questão imobiliária nos EUA - https://hbr.org/2024/09/the-market-alone-cant-fix-the-u-s-housing-crisis?utm_medium=paidsearch&utm_source=google&utm_campaign=domcontent_bussoc&utm_term=Non-Brand&tpcc=domcontent_bussoc&gad_source=1&gad_campaignid=20702632551&gbraid=0AAAAAD9b3uTWCWivflHPWjdfzWSw8yhR9&gclid=Cj0KCQiAi9rJBhCYARIsALyPDtuZp-gXrYl2GKBko1WTma1nWPtXwTPevaMLcehBOV_llOYHS8m4J4kaAskcEALw_wcB Bloomberg: inflação ao consumidor e a possibilidade de novos cortes de juros - https://www.bloomberg.com/news/articles/2025-10-24/us-cpi-rises-less-than-expected-keeping-fed-on-track-for-cut Federal Reserve Board: balanço de ativos - https://www.federalreserve.gov/monetarypolicy/bst_recenttrends.htm Morning Star: a maior decisão do Fed nessa semana não tem nada a ver com juros - https://www.morningstar.com/news/marketwatch/20251207146/the-feds-biggest-decision-this-week-could-have-nothing-to-do-with-interest-rates
Nesse episódio, Bruno Carvalho, Edu Aurrai, Felipe Mesquita e Rodrigo Cunha falam sobre os rumores de um novo jogo da franquia Dead Rising, da Capcom; os movimentos da fundo saudita para a aquisição da EA (Electronic Arts); a recuperação de Cyberpunk 2077, e seus impressionantes números de vendas; a escolha do diretor de Velozes e Furiosos para o filme de Helldivers; e muito mais. Duração: 75 min Comentados: Imagem da estátua misteriosa do The Game Awards postada pelo Geoff Keighley COMPRE O MARS 2120, METROIDVANIA BRASILEIRO: PC (STEAM) PLAYSTATION 4, PLAYSTATION 5 XBOX ONE, XBOX SERIES S|X NINTENDO SWITCH Vídeos: RETURN TO SILENT HILL International trailer (2026)
Crônicas da Cidade - 03/12
Voltando no lugar da promessa - Pr. Alex by Igreja Missionária Evangélica Maranata de Jardim Primavera Para conhecer mais sobre a Maranata: Instagram: https://www.instagram.com/imemaranata/Facebook: https://www.facebook.com/imemaranataSite: https://www.igrejamaranata.com.br/Canal do youtube: https://www.youtube.com/channel/UCa1jcJx-DIDqu_gknjlWOrQDeus te abençoe
Nessa live, eu conversei com a empresária e atleta amadora de Mountain Bike Thamia Callou (@ketonebike)Thamia Começou a competir em 2009 e em 2013 sagrou-se campeã cearense e fez o primeiro Brasil Ride. Ela acabou dando uma pausa de 7 anos no Mountain Bike. Voltando a treinar há 3 anos quando conheceu a dieta carnívora. No estilo carnívoro em 2025 foi campeã do campeonato Mamute, campeã cearense de XCO e finalizando a edição mais difícil do Brasil Ride em 15 anos.Conheça o Clube de Leitura! A Rebelião não é só sobre comida.É sobre consciência. Sobre mergulhar fundo nas ideias que moldam nossa forma de viver, pensar e envelhecer.No Clube de Leitura, exploramos juntos obras que desafiam o senso comum — livros que unem ciência, filosofia e ancestralidade — sempre com uma visão crítica e prática para transformar o conhecimento em ação.
Confira o Fechamento de Mercado desta segunda- feira (17)
Movimento de pressão parece ter sido superado, mas China tem que seguir no radar, alerta analista
No episódio 88 de De Repente Cringe, Luisa e Nanna falam sobre a volta do cringe. Como as coisas são voláteis, o vai e vem das tendências e a volta da cultura pop dos anos 2000.Luisa e Nanna vestem Insider #insiderstoreAproveitem a Black Insider: com o nosso cupom CRINGE os descontos podem chegar em até 50% OFF por tempo limitado.https://creators.insiderstore.com.br/CRINGEKITAgradecimento especial ao nosso produtor de vídeo João (@goncalves.joao_) e à Caru Coelho (@carucoelho) que cuida da nossa beauty.Encomende aqui a sua caneca do Pod na Enlevo: https://www.enlevoatelie.com/produtos/xicara-de-repente-cringe/ Instagram: @derepentecringepod*Escute também nas plataformas Youtube e Apple Podcast.
O tanto que este acordo é positivo. Agradecendo Netanyahu, ou só Trump?
No Quadro HORA DO HARAS, Hermano Henning traz detalhes de uma região no interior de SP que se destaca pela criação de cavalos. No quadro PROTEÍNAS ANIMAIS, a discussão sobre regionalização dos embargos nas exportações em caso de problemas sanitários e o aprendizado com o recente foco de gripe aviária no RS.
Depois de um hiato por motivos de saúde mental e algumas perdas anuncio minha volta! Seja nosso apoiador!https://apoia.se/amandaramalhopodcastsagradeço demais a paciência de todos e desculpem as intercorrências.Paz nos estádios
Confira o Fechamento de Mercado desta quarta-feira (03)
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Jurandir Filho, Felipe Mesquita, João Pimenta, Evandro de Freitas e Bruno Carvalho batem um papo sobre a época da escola nos anos 80 e 90. Nesse tempo era uma experiência única, cheia de hábitos e costumes que hoje soam quase inimagináveis. Não havia celular, internet ou redes sociais. A vida acontecia no "olho no olho", nos bilhetes dobrados em formato de coração e nos cadernos cheios de adesivos, desenhos e recados dos amigos. Sobreviver ao bullying era um objetivo diário. Que período desgraçado hein?Nas escolas existiam disputas de mochilas, estojos, canetas, cadernos e tênis descolados. O recreio era o momento mais esperado do dia. As crianças se divertiam com elástico, pião, bolinha de gude, pega-pega, queimada e futebol com bola de meia. Nada de ficar olhando pra tela: era correr até suar. A hora do lanche muitas vezes virava momento de negociação. Tazos, figurinhas da Copa, adesivos e até os brindes de Guaraná caçulinha eram trocados ou disputados com entusiasmo. As aulas eram todas no quadro verde com giz, e os apagadores soltavam poeira por todo lado. Às vezes, o professor trazia um videocassete e rolava exibição de filmes ou programas.A escola dos anos 80 e 90 tinha seus desafios, mas transbordava autenticidade, criatividade e laços fortes de amizade. Para quem viveu essa época, as lembranças continuam vivas e deixam um sorriso no rosto só de lembrar.Esse é mais um episódio do Estilo 99Vidas!ALURA | Estude na Alura, a maior escola de tecnologia on-line do Brasil! Acesse o nosso link e ganhe 15% de desconto na matrícula! https://alura.com.br/99vidas
Ouça esta pregação da Pr. Lourenco na IPR Church no culto de Domingo.
Jurandir Filho, Felipe Mesquita, Edu Aurrai, João Pimenta, Evandro de Freitas e Bruno Carvalho batem um papo sobre as populares locadoras de videogames. Nos anos 80, 90 e início dos anos 2000, as locadoras foram verdadeiros templos para os gamers brasileiros. Em uma época em que comprar um console ou um jogo novo era um luxo para poucos, esses estabelecimentos permitiam que jogadores de todas as idades tivessem acesso a uma vasta biblioteca de títulos, pagando apenas pelo tempo de jogo ou pelo aluguel de cartuchos e CDs.Apesar de terem desaparecido em grande parte, algumas locadoras ainda sobrevivem em nichos específicos, focando em colecionadores e entusiastas do retrogaming. Além disso, eventos e espaços retrô têm resgatado a experiência de jogar em locadoras, trazendo de volta um pouco da magia dessa época dourada. Para quem viveu essa era, as locadoras de videogame não eram apenas lugares para jogar, mas pontos de encontro, onde amizades eram feitas, rivalidades eram criadas e a paixão pelos jogos era compartilhada. Foi um período único da cultura gamer no Brasil, que deixou saudade em muitos corações.- ALURA | Estude na Alura, a maior escola de tecnologia on-line do Brasil! Acesse o nosso link e ganhe 15% de desconto na matrícula! https://alura.com.br/99vidas - Gosta do 99Vidas? Quer escutar um podcast EXTRA toda semana? Venha fazer parte do nosso clube de assinatura! São mais de 300 edições EXCLUSIVAS! Sai uma edição nova toda sexta-feira!!! Assine clicando aqui!
A atriz e apresentadora fala sobre família, religião, casamento e conta pra qual de seus tantos amigos ligaria de uma ilha deserta Regina Casé bem que tentou não comemorar seu aniversário de 71 anos, celebrado no dia 25 de fevereiro. Mas o que seria um açaí com pôr do sol na varanda do Hotel Arpoador se transformou em um samba que só terminou às 11 horas da noite em respeito à lei do silêncio. "Eu não ia fazer nada, nada, nada mesmo. Mas é meio impossível, porque todo mundo fala: vou passar aí, vou te dar um beijo", contou em um papo com Paulo Lima. A atriz e apresentadora tem esse talento extraordinário pra reunir as pessoas mais interessantes à sua volta. E isso vale para seu círculo de amigos, que inclui personalidades ilustres como Caetano Veloso e Fernanda Torres, e também para os projetos que inventa na televisão, no teatro e no cinema. Inventar tanta coisa nova é uma vocação que ela herdou do pai e do avô, pioneiros no rádio e na televisão, mas também uma necessidade. “Nunca consegui pensar individualmente, e isso até hoje me atrapalha. Mas, ao mesmo tempo, eu tive que ser tão autoral. Eu não ia ser a mocinha na novela, então inventei um mundo para mim. Quase tudo que fiz fui eu que tive a ideia, juntei um grupo, a gente escreveu junto”, afirma. No teatro, ao lado de artistas como o diretor Hamilton Vaz Pereira e os atores Luiz Fernando Guimarães e Patrícia Travassos, ela inventou o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, que revolucionou a cena carioca nos anos 1970. Na televisão, fez programas como TV Pirata, Programa Legal e Brasil Legal. "Aquilo tudo não existia, mas eu tive que primeiro inventar para poder me jogar ali”, conta. LEIA TAMBÉM: Em 1999, Regina Casé estampou as Páginas Negras da Trip De volta aos cinemas brasileiros no fim de março com Dona Lurdes: O Filme, produção inspirada em sua personagem na novela Amor de Mãe (2019), Regina bateu um papo com Paulo Lima no Trip FM. Na conversa, ela fala do orgulho de ter vindo de uma família que, com poucos recursos e sem faculdade, foi pioneira em profissões que ainda nem tinham nome, do título de “brega” que recebeu quando sua originalidade ainda não era compreendida pelas colunas sociais, de sua relação com a religião, da dificuldade de ficar sozinha – afinal, “a sua maior qualidade é sempre o seu maior defeito” –, do casamento de 28 anos com o cineasta Estêvão Ciavatta, das intempéries e milagres que experimentou e de tudo o que leva consigo. “Eu acho que você tem que ir pegando da vida, que nem a Dona Darlene do Eu Tu Eles, que ficou com os três maridos”, afirma. “A vida vai passando e você vai guardando as coisas que foram boas e tentando se livrar das ruins”. Uma das figuras mais admiradas e admiráveis do país, ela ainda revela para quem ligaria de uma ilha deserta e mostra o presente de aniversário que ganhou da amiga Fernanda Montenegro. Você pode conferir esse papo a seguir ou ouvir no Spotify do Trip FM. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2025/03/67d446165a3ce/header-regina-interna.jpg; CREDITS=João Pedro Januário; LEGEND=; ALT_TEXT=] Trip. Além de atriz, você é apresentadora, humorista, escritora, pensadora, criadora, diretora… Acho que tem a ver com uma certa modernidade que você carrega, essa coisa de transitar por 57 planetas diferentes. Como é que você se apresentaria se tivesse que preencher aquelas fichas antigas de hotel? Regina Casé. Até hoje ponho atriz em qualquer coisa que tenho que preencher, porque acho a palavra bonita. E é como eu, vamos dizer, vim ao mundo. As outras coisas todas vieram depois. Mesmo quando eu estava há muito tempo sem atuar, eu era primeiramente uma atriz. E até hoje me sinto uma atriz que apresenta programas, uma atriz que dirige, uma atriz que escreve, mas uma atriz. Você falou numa entrevista que, se for ver, você continua fazendo o mesmo trabalho. De alguma maneira, o programa Brasil Legal, a Val de "Que Horas Ela Volta", o grupo de teatro "Asdrúbal Trouxe o Trombone" ou agora esse programa humorístico tem a mesma essência, um eixo que une tudo isso. Encontrei entrevistas e vídeos maravilhosos seus, um lá no Asdrúbal, todo mundo com cara de quem acabou de sair da praia, falando umas coisas muito descontraídas e até mais, digamos assim, sóbrias. E tem um Roda Viva seu incrível, de 1998. Eu morro de pena, porque também o teatro que a gente fazia, a linguagem que a gente usava no Asdrúbal, era tão nova que não conseguiu ser decodificada naquela época. Porque deveria estar sendo propagada pela internet, só que não havia internet. A gente não tem registros, não filmava, só fotografava. Comprava filme, máquina, pagava pro irmão do amigo fazer aquilo no quarto de serviço da casa dele, pequenininho, com uma luz vermelha. Só que ele não tinha grana, então comprava pouco fixador, pouco revelador, e dali a meses aquilo estava apagado. Então, os documentos que a gente tem no Asdrúbal são péssimos. Fico vendo as pouquíssimas coisas guardadas e que foram para o YouTube, como essa entrevista do Roda Viva. Acho que não passa quatro dias sem que alguém me mande um corte. "Ah, você viu isso? Adorei!". Ontem o DJ Zé Pedro me mandou um TED que eu fiz, talvez o primeiro. E eu pensei: "Puxa, eu falei isso, que ótimo, concordo com tudo". Quanta coisa já mudou no Brasil, isso é anterior a tudo, dois mil e pouquinho. E eu fiquei encantada com o Roda Viva, eu era tão novinha. Acho que não mudei nada. Quando penso em mim com cinco anos de idade, andando com a minha avó na rua, a maneira como eu olhava as pessoas, como eu olhava o mundo, é muito semelhante, se não igual, a hoje em dia. [VIDEO=https://www.youtube.com/embed/rLoqGPGmVdo; CREDITS=; LEGEND=Em 1998, aos 34 anos, Regina Casé foi entrevistada pelo programa Roda Viva, da TV Cultura; IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2025/03/67d49b0ede6d3/1057x749x960x540x52x40/screen-shot-2025-03-14-at-180926.png] O Boni, que foi entrevistado recentemente no Trip FM, fala sobre seu pai em seu último livro, “Lado B do Boni”, como uma das pessoas que compuseram o que ele é, uma figura que teve uma relevância muito grande, inclusive na TV Globo. Conta um pouco quem foi o seu pai, Regina. Acho que não há Wikipedia que possa resgatar o tamanho do meu pai e do meu avô. Meu avô é pioneiríssimo do rádio, teve um dos primeiros programas de rádio, se não o primeiro. Ele nasceu em Belo Jardim, uma cidadezinha do agreste pernambucano, do sertão mesmo. E era brabo, criativo demais, inteligente demais, e, talvez por isso tudo, impaciente demais, não aguentava esperar ninguém terminar uma frase. Ele veio daquele clássico, com uma mão na frente e outra atrás, sem nada, e trabalhou na estiva, dormiu na rua até começar a carregar rádios. Só que, nos anos 20, 30, rádios eram um armário de madeira bem grandão. Daí o cara viu que ele era esperto e botou ele para instalar os rádios na casa das pessoas. Quando meu avô descobriu que ninguém sabia sintonizar, que era difícil, ele aprendeu. E aí ele deixava os rádios em consignação, botava um paninho com um vasinho em cima, sintonizado, funcionando. Quando ele ia buscar uma semana depois, qualquer um comprava. Aí ele disparou como vendedor dos rádios desse cara que comprava na gringa e começou a ficar meio sócio do negócio. [QUOTE=1218] Mas a programação toda era gringa, em outras línguas. Ele ficava fascinado, mas não entendia nada do que estava rolando ali. Nessa ele descobriu que tinha que botar um conteúdo ali dentro, porque aquele da gringa não estava suprindo a necessidade. Olha como é parecido com a internet hoje em dia. E aí ele foi sozinho, aquele nordestino, bateu na Philips e falou que queria comprar ondas curtas, não sei que ondas, e comprou. Aí ele ia na farmácia Granado e falava: "Se eu fizer um reclame do seu sabão, você me dá um dinheiro para pagar o pianista?". Sabe quem foram os dois primeiros contratados dele? O contrarregra era o Noel Rosa, e a única cantora que ele botou de exclusividade era a Carmen Miranda. Foram os primeiros empregos de carteira assinada. E aí o programa cresceu. Começava de manhã, tipo programa do Silvio, e ia até de noite. Chamava Programa Casé. E o seu pai? Meu avô viveu aquela era de ouro do rádio. Quando sentiu que o negócio estava ficando estranho, ele, um cara com pouquíssimos recursos de educação formal, pegou meu pai e falou: "vai para os Estados Unidos porque o negócio agora vai ser televisão". Ele fez um curso, incipiente, para entender do que se tratava. Voltou e montou o primeiro programa de televisão feito aqui no Rio de Janeiro, Noite de Gala. Então, tem uma coisa de pioneirismo tanto no rádio quanto na televisão. E meu pai sempre teve um interesse gigante na educação, como eu. Esse interesse veio de onde? Uma das coisas que constituem o DNA de tudo o que fiz, dos meus programas, é a educação. Um Pé de Quê, no Futura, o Brasil Legal e o Programa Legal, na TV Globo… Eu sou uma professora, fico tentando viver as duas coisas juntas. O meu pai tinha isso porque esse meu avô Casé era casado com a Graziela Casé, uma professora muito, mas muito idealista, vocacionada e apaixonada. Ela trabalhou com Anísio Teixeira, Cecília Meireles, fizeram a primeira biblioteca infantil. Meu pai fez o Sítio do Picapau Amarelo acho que querendo honrar essa professora, a mãe dele. Quando eu era menina, as pessoas vinham de uma situação rural trabalhar como domésticas, e quase todas, se não todas, eram analfabetas. A minha avó as ensinava a ler e escrever. Ela dizia: "Se você conhece uma pessoa que não sabe ler e escrever e não ensina para ela, é um crime". Eu ficava até apavorada, porque ela falava muito duramente. Eu acho que sou feita desse pessoal. Tenho muito orgulho de ter vindo de uma família que, sem recursos, sem universidade, foi pioneira na cidade, no país e em suas respectivas... Não digo “profissões” porque ainda nem existiam suas profissões. Eu tento honrar. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2025/03/67d49d1e03df5/header-regina-interna6.jpg; CREDITS=Christian Gaul; LEGEND=Em 1999, a atriz e apresentadora estampou as Páginas Negras da Trip; ALT_TEXT=] Você tem uma postura de liderança muito forte. Além de ter preparo e talento, você tem uma vocação para aglutinar, juntar a galera, fazer time. Por outro lado, tem essa coisa da atriz, que é diferente, talvez um pouco mais para dentro. Você funciona melhor sozinha ou como uma espécie de capitã, técnica e jogadora do time? Eu nasci atriz dentro de um grupo. E o Asdrúbal trouxe o Trombone não era só um grupo. Apesar do Hamilton Vaz Pereira ter sido sempre um autor e um diretor, a gente criava coletivamente, escrevia coletivamente, improvisava. Nunca consegui pensar individualmente, e isso até hoje é uma coisa que me atrapalha. Todo mundo fala: "escreve um livro". Eu tenho vontade, mas falo que para escrever um livro preciso de umas 10 pessoas de público, todo mundo junto. Sou tão grupal que é difícil. Ao mesmo tempo, eu tive que ser muito autoral. Eu, Tu, Eles foi a primeira vez que alguém me tirou para dançar. Antes eu fiz participações em muitos filmes, mas foi a primeira protagonista. Quase tudo que fiz fui eu que tive a ideia, juntei um grupo, a gente escreveu junto. Então, eu sempre inventei um mundo para mim. No teatro eu não achava lugar para mim, então tive que inventar um, que era o Asdrúbal. Quando eu era novinha e fui para a televisão, eu não ia ser a mocinha na novela. Então fiz a TV Pirata, o Programa Legal, o Brasil Legal. Aquilo tudo não existia na televisão, mas eu tive que primeiro inventar para poder me jogar ali. Eu sempre me acostumei não a mandar, mas a ter total confiança de me jogar. E nos trabalhos de atriz, como é? No Asdrúbal eu me lembro que uma vez eu virei umas três noites fazendo roupa de foca, que era de pelúcia, e entupia o gabinete na máquina. Eu distribuía filipeta, colava cartaz, pregava cenário na parede. Tudo, todo mundo fazia tudo. É difícil quando eu vou para uma novela e não posso falar que aquele figurino não tem a ver com a minha personagem, que essa casa está muito chique para ela ou acho que aqui no texto, se eu falasse mais normalzão, ia ficar mais legal. Mas eu aprendi. Porque também tem autores e autores. Eu fiz três novelas com papéis de maior relevância. Cambalacho, em que fiz a Tina Pepper, um personagem coadjuvante que ganhou a novela. Foi ao ar em 1986 e até hoje tem gente botando a dancinha e a música no YouTube, cantando. Isso também, tá vendo? É pré-internet e recebo cortes toda hora, porque aquilo já tinha cara de internet. Depois a Dona Lurdes, de Amor de Mãe, e a Zoé, de Todas as Flores. Uma é uma menina preta da periferia de São Paulo. A outra uma mulher nordestina do sertão, com cinco filhos. A terceira é uma truqueira carioca rica que morava na Barra. São três universos, mas as três foram muito fortes. Tenho muito orgulho dessas novelas. Mas quando comecei, pensei: "Gente, como é que vai ser?". Não é o meu programa. Não posso falar que a edição está lenta, que devia apertar. O começo foi difícil, mas depois que peguei a manha de ser funcionária, fazer o meu e saber que não vou ligar para o cenário, para o figurino, para a comida e não sei o quê, falei: "Isso aqui, perto de fazer um programa como o Esquenta ou o Programa Legal, é como férias no Havaí". Você é do tipo que não aguenta ficar sozinha ou você gosta da sua companhia? Essa é uma coisa que venho perseguindo há alguns anos. Ainda estou assim: sozinha, sabendo que, se quiser, tem alguém ali. Mas ainda apanho muito para ficar sozinha porque, justamente, a sua maior qualidade é sempre o seu maior defeito. Fui criada assim, em uma família que eram três filhas, uma mãe e uma tia. Cinco mulheres num apartamento relativamente pequeno, um banheiro, então uma está escovando os dentes, outra está fazendo xixi, outra está tomando banho, todas no mesmo horário para ir para a escola. Então é muito difícil para mim ficar sozinha, mas tenho buscado muito. Quando falam "você pode fazer um pedido", eu peço para ter mais paciência e para aprender a ficar sozinha. Você contou agora há pouco que fazia figurinos lá no Asdrúbal e também já vi você falando que sempre aparecia na lista das mais mal vestidas do Brasil. Como é ser julgada permanentemente? Agora já melhorou, mas esse é um aspecto que aparece mais porque existe uma lista de “mais mal vestidas". Se existisse lista para outras transgressões, eu estaria em todas elas. Não só porque sou transgressora, mas porque há uma demanda que eu seja. Quando não sou, o pessoal até estranha. Eu sempre gostei muito de moda, mais que isso, de me expressar através das roupas. E isso saía muito do padrão, principalmente na televisão, do blazer salmão, do nude, da unha com misturinha, do cabelo com escova. Volta e meia vinha, nos primórdios das redes sociais: "Ela não tem dinheiro para fazer uma escova naquele cabelo?". "Não tem ninguém para botar uma roupa normal nela?". [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2025/03/67d49c62141c1/header-regina-interna4.jpg; CREDITS=Christian Gaul; LEGEND=Regina Casé falou à Trip em 1999, quando estampou as Páginas Negras; ALT_TEXT=] Antes da internet, existiam muitas colunas sociais em jornal. Tinha um jornalista no O Globo que me detonava uma semana sim e outra não. Eu nunca vou me esquecer. Ele falava de uma bolsa que eu tinha da Vivienne Westwood, que inclusive juntei muito para poder comprar. Eu era apaixonada por ela, que além de tudo era uma ativista, uma mulher importantíssima na gênese do Sex Pistols e do movimento punk. Ele falava o tempo todo: "Estava não sei onde e veio a Regina com aquela bolsa horrorosa que comprou no Saara". O Saara no Rio corresponde à 25 de março em São Paulo, e são lugares que sempre frequentei, que amo e que compro bolsas também. Eu usava muito torço no cabelo, e ele escrevia: "Lá vem a lavadeira do Abaeté". Mais uma vez, não só sendo preconceituoso, mas achando que estava me xingando de alguma coisa que eu acharia ruim. Eu pensava: nossa, que maravilha, estou parecendo uma lavadeira do Abaeté e não alguém com um blazer salmão, com uma blusa bege, uma bolsa arrumadinha de marca. Pra mim era elogio, mas era chato, porque cria um estigma. E aí um monte de gente, muito burra, vai no rodo e fala: "Ela é cafona, ela é horrorosa". Por isso que acho que fiquei muito tempo nessas listas. O filme “Ainda Estou Aqui” está sendo um alento para o Brasil, uma coisa bem gostosa de ver, uma obra iluminada. A Fernanda Torres virou uma espécie de embaixadora do Brasil, falando de uma forma muito legal sobre o país, sobre a cultura. Imagino que pra você, que vivenciou essa época no Rio de Janeiro, seja ainda mais especial. Eu vivi aquela época toda e o filme, mesmo sem mostrar a tortura e as barbaridades que aconteceram, reproduz a angústia. Na parte em que as coisas não estão explicitadas, você só percebe que algo está acontecendo, e a angústia que vem dali. Mesmo depois, quando alguma coisa concreta aconteceu, você não sabe exatamente do que está com medo, o que pode acontecer a qualquer momento, porque tudo era tão aleatório, sem justificativa, ninguém era processado, julgado e preso. O filme reproduz essa sensação, mesmo para quem não viveu. É maravilhoso, maravilhoso. [QUOTE=1219] Não vou dizer que por sorte porque ele tem todos os méritos, mas o filme caiu num momento em que a gente estava muito sofrido culturalmente. Nós, artistas, tínhamos virado bandidos, pessoas que se aproveitam. Eu nunca usei a lei Rouanet, ainda que ache ela muito boa, mas passou-se a usar isso quase como um xingamento, de uma maneira horrível. E todos os artistas muito desrespeitados, inclusive a própria Fernanda, Fernandona, a pessoa que a gente mais tem que respeitar na cultura do país. O filme veio não como uma revanche. Ele veio doce, suave e brilhantemente cuidar dessa ferida. Na equipe tenho muitos amigos, praticamente família, o Walter, a Nanda, a Fernanda. Sou tão amiga da Fernanda quanto da Nanda, sou meio mãe da Nanda, mas sou meio filha da Fernanda, sou meio irmã da Nanda e também da Fernanda. É bem misturado, e convivo muito com as duas. Por acaso, recebi ontem um presente e um cartão de aniversário da Fernandona que é muito impressionante. Tão bonitinho, acho que ela não vai ficar brava se eu mostrar para vocês. O que o cartão diz? Ela diz assim: "Regina, querida, primeiro: meu útero sabe que a Nanda já está com esse Oscar”. Adorei essa frase. "Segundo, estou trabalhando demais, está me esgotando. Teria uma leitura de 14 trechos magníficos, de acadêmicos, que estou preparando essa apresentação para a abertura da Academia [Brasileira de Letras], que está em recesso. O esgotamento acho que é por conta dos quase 100 anos que tenho". Imagina... Com esse trabalho todo. Aí ela faz um desenho lindo de flores com o coração: "Regina da nossa vida, feliz aniversário, feliz sempre da Fernanda". E me manda uma toalhinha bordada lindíssima com um PS: "Fernando [Torres] e eu compramos essa toalhinha de mão no Nordeste numa das temporadas de nossa vida pelo Brasil afora. Aliás, nós comprávamos muito lembranças como essa. Essa que eu lhe envio está até manchadinha, mas ela está feliz porque está indo para a pessoa certa. Está manchadinha porque está guardadinha faz muitos anos". Olha que coisa. Como é que essa mulher com quase 100 anos, com a filha indicada ao Oscar, trabalhando desse jeito, decorando 14 textos, tem tempo de ser tão amorosa, gentil, generosa e me fazer chorar? Não existe. Ela é maravilhosa demais. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2025/03/67d49b9f0f548/header-regina-interna3.jpg; CREDITS=João Pedro Januário; LEGEND=; ALT_TEXT=] Eu queria te ouvir sobre outro assunto. Há alguns anos a menopausa era um tema absolutamente proibido. As mulheres se sentiam mal, os homens, então, saíam correndo. Os médicos não falavam, as famílias não falavam. E é engraçado essa coisa do pêndulo. De repente vira uma onda, artistas falando, saem dezenas de livros sobre o assunto. Como foi para você? Você acha que estamos melhorando na maneira de lidar com as nossas questões enquanto humanidade? É bem complexo. Tem aspectos que acho que estão melhorando muito. Qualquer família que tinha uma pessoa com deficiência antigamente escondia essa pessoa, ela era quase trancada num quarto, onde nem as visitas da casa iam. E hoje em dia todas essas pessoas estão expostas, inclusive ao preconceito e ao sofrimento, mas estão na vida, na rua. Há um tempo não só não podia ter um casal gay casado como não existia nem a expressão "casal gay", porque as pessoas no máximo tinham um caso escondido com outra pessoa. Então em muitos aspectos a gente avançou bastante. Não sei se é porque agora estou ficando bem mais velha, mas acho que esse assunto do etarismo está chegando ainda de uma maneira muito nichada. Se você for assistir a esse meu primeiro TED, eu falo que a gente não pode pegar e repetir, macaquear as coisas dos Estados Unidos. Essa ideia de grupo de apoio. Sinto que essa coisa da menopausa, do etarismo, fica muito de mulher para mulher, um grupo de mulheres daquela idade. Mas não acho que isso faz um garoto de 16 anos entender que eu, uma mulher de 70 anos, posso gostar de basquete, de funk, de sambar, de namorar, de dançar. Isso tudo fica numa bolha bem impermeável. E não acho que a comunicação está indo para outros lados. É mais você, minha amiga, que também está sentindo calores. [QUOTE=1220] Tem uma coisa americana que inventaram que é muito chata. Por exemplo, a terceira idade. Aí vai ter um baile, um monte de velhinhos e velhinhas dançando todos juntos. Claro que é melhor do que ficar em casa deprimido, mas é chato. Acho que essa festa tem que ter todo mundo. Tem que ter os gays, as crianças, todo mundo nessa mesma pista com um DJ bom, com uma batucada boa. Senão você vai numa festa e todas as pessoas são idênticas. Você vai em um restaurante e tem um aquário onde põem as crianças dentro de um vidro enquanto você come. Mas a criança tem que estar na mesa ouvindo o que você está falando, comendo um troço que ela não come normalmente. O menu kids é uma aberração. Os meus filhos comem tudo, qualquer coisa que estiver na mesa, do jeito que for. Mas é tudo separado. Essa coisa de imitar americano, entendeu? Então, acho que essa coisa da menopausa está um pouco ali. Tem que abrir para a gente conversar, tem que falar sobre menopausa com o MC Cabelinho. Eu passei meio batida, porque, por sorte, não tive sintomas físicos mais fortes. Senti um pouco mais de calor, mas como aqui é tão calor e eu sou tão agitada, eu nunca soube que aquilo era específico da menopausa. Vou mudar um pouco de assunto porque não dá para deixar de falar sobre isso. Uma das melhores entrevistas do Trip FM no ano passado foi com seu marido, o cineasta Estêvão Ciavatta. Ele contou do acidente num passeio a cavalo que o deixou paralisado do pescoço para baixo e com chances de não voltar a andar. E fez uma declaração muito forte sobre o que você representou nessa recuperação surpreendente dele. A expressão "estamos juntos" virou meio banal, mas, de fato, você estava junto ali. Voltando a falar do etarismo, o Estêvão foi muito corajoso de casar com uma mulher que era quase 15 anos mais velha, totalmente estabelecida profissionalmente, conhecida em qualquer lugar, que tinha sido casada com um cara maravilhoso, o Luiz Zerbini, que tinha uma filha, uma roda de amigos muito grande, um símbolo muito sólido, tudo isso. Ele propôs casar comigo, na igreja, com 45 anos. Eu, hippie, do Asdrúbal e tudo, levei um susto, nunca pensei que eu casar. O que aconteceu? Eu levei esse compromisso muito a sério, e não é o compromisso de ficar com a pessoa na saúde, na doença, na alegria, na tristeza. É também, mas é o compromisso de, bom, vamos entrar nessa? Então eu vou aprender como faz isso, como é esse amor, como é essa pessoa, eu vou aprender a te amar do jeito que você é. Acho que o pessoal casa meio de brincadeira, mas eu casei a sério mesmo, e estamos casados há 28 anos. Então, quando aconteceu aquilo, eu falei: ué, a gente resolveu ficar junto e viver o que a vida trouxesse pra gente, então vamos embora. O que der disso, vamos arrumar um jeito, mas estamos juntos. E acho que teve uma coisa que me ajudou muito. O quê? Aqui em casa é tipo pátio dos milagres. Teve isso que aconteceu com o Estêvão, e também a gente ter encontrado o Roque no momento que encontrou [seu filho caçula, hoje com 11 anos, foi adotado pelo casal quando bebê]. A vida que a gente tem hoje é inacreditável. Parece realmente que levou oito anos, o tempo que demorou para encontrar o filho da gente, porque estava perdido em algum lugar, igual a Dona Lurdes, de Amor de Mãe. Essa é a sensação. E a Benedita, quando nasceu, quase morreu, e eu também. Ela teve Apgar [escala que avalia os recém-nascidos] zero, praticamente morreu e viveu. Nasceu superforte, ouvinte, gorda, forte, cabeluda, mas eu tive um descolamento de placenta, e com isso ela aspirou líquido. Ela ficou surda porque a entupiram de garamicina, um antibiótico autotóxico. Foi na melhor das intenções, pra evitar uma pneumonia pelo líquido que tinha aspirado, mas ninguém conhecia muito, eram os primórdios da UTI Neonatal. O que foi para a gente uma tragédia, porque ela nasceu bem. Só que ali aprendi um negócio que ajudou muito nessa história do Estêvão: a lidar com médico. E aprendi a não aceitar os "não". Então quando o cara dizia "você tem que reformar a sua casa, tira a banheira e bota só o chuveiro largo para poder entrar a cadeira de rodas", eu falava: "Como eu vou saber se ele vai ficar pra sempre na cadeira de rodas?". [QUOTE=1221] Quando a Benedita fala "oi, tudo bem?", ela tem um leve sotaque, anasalado e grave, porque ela só tem os graves, não tem nem médio, nem agudo. Mas ela fala, canta, já ganhou concurso de karaokê. Quando alguém vê a audiometria da Benedita, a perda dela é tão severa, tão profunda, que falam: "Esse exame não é dessa pessoa". É o caso do Estêvão. Quando olham a lesão medular dele e veem ele andando de bicicleta com o Roque, falam: "Não é possível". Por isso eu digo que aqui em casa é o pátio dos milagres. A gente desconfia de tudo que é “não”. É claro que existem coisas que são limitações estruturais, e não adianta a gente querer que seja de outro jeito, mas ajuda muito duvidar e ir avançando a cada "não" até que ele realmente seja intransponível. No caso do Estêvão, acho que ele ficou feliz porque teve perto por perto não só uma onça cuidando e amando, mas uma onça que já tinha entendido isso. Porque se a gente tivesse se acomodado a cada “não”, talvez ele não estivesse do jeito que está hoje. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2025/03/67d49af631476/header-regina-interna2.jpg; CREDITS=João Pedro Januário; LEGEND=; ALT_TEXT=] Eu já vi você falar que essa coisa da onça é um pouco fruto do machismo, que você teve que virar braba para se colocar no meio de grupos que eram majoritariamente de homens, numa época que esse papo do machismo era bem menos entendido. Isso acabou forjando o seu jeito de ser? Com certeza. Eu queria ser homem. Achava que tudo seria mais fácil, melhor. Achava maravilhoso até a minha filha ser mulher. Fiquei assustadíssima. Falei: "Não vou ser capaz, não vou acertar". Aí botei a Benedita no futebol, foi artilheira e tudo, e fui cercando com uma ideia nem feminista, nem machista, mas de que o masculino ia ser melhor pra ela, mais fácil. Mas aí aprendi com a Benedita não só a amar as mulheres, mas a me amar como mulher, grávida, dando de mamar, criando outra mulher, me relacionando com amigas, com outras mulheres. Isso tudo veio depois da Benedita. Mas se você falar "antigamente o machismo"... Vou te dizer uma coisa. Se eu estou no carro e falo para o motorista “é ali, eu já vim aqui, você pode dobrar à direita”, ele pergunta assim: “Seu Estêvão, você sabe onde é para dobrar?”. Aí eu falo: “Vem cá, você quer que compre um pau para dizer pra você para dobrar à direita? Vou ter que botar toda vez que eu sentar aqui? Porque não é possível, estou te dizendo que eu já vim ali”. É muito impressionante, porque não é em grandes discussões, é o tempo todo. É porque a gente não repara, sabe? Quer dizer, eu reparo, você que é homem talvez não repare. Nesses momentos mais difíceis, na hora de lidar com os problemas de saúde da Benedita ou com o acidente punk do Estêvão, o que você acha que te ajudou mais: os anos de terapia ou o Terreiro de Gantois, casa de Candomblé que você frequenta em Salvador? As duas coisas, porque a minha terapia também foi muito aberta. E não só o Gantois como o Sacré-Coeur de Marie. Eu tenho uma formação católica. Outro dia eu ri muito porque a Mãe Menininha se declarava católica em sua biografia, e perguntaram: "E o Candomblé"? Ela falava: “Candomblé é outra coisa”. E eu vejo mais ou menos assim. Não é que são duas religiões, eu não posso pegar e jogar a criança junto com a água da bacia. É claro que eu tenho todas as críticas que você quiser à Igreja Católica, mas eu fui criada por essa avó Graziela, que era professora, uma mulher genial, e tão católica que, te juro, ela conversava com Nossa Senhora como eu estou conversando com você. Quando ela recebia uma graça muito grande, ligava para mim e para minhas irmãs e falava: "Venham aqui, porque eu recebi uma graça tão grande que preciso de vocês para agradecer comigo, sozinha não vou dar conta." Estudei em colégio de freiras a minha vida inteira, zero trauma de me sentir reprimida, me dava bem, gosto do universo, da igreja. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2025/03/67d49cbe34551/header-regina-interna5.jpg; CREDITS=Christian Gaul; LEGEND=Em 1999, Regina Casé foi a entrevistada das Páginas Negras da Trip; ALT_TEXT=] Aí eu tenho um encontro com o Candomblé, lindíssimo, através da Mãe Menininha. Essa história é maravilhosa. O Caetano [Veloso] disse: "Mãe Menininha quer que você vá lá". Eu fiquei apavorada, porque achei que ela ia fazer uma revelação, tinha medo que fosse um vaticínio... Até que tomei coragem e fui. Cheguei lá com o olho arregalado, entrei no quarto, aquela coisa maravilhosa, aquela presença.. Aí eu pedi a benção e perguntei o que ela queria. Ela falou: "Nada não, queria conhecer a Tina Pepper". Então, não só o Gantuar, o Candomblé como um todo, só me trouxe coisas boas e acolhida. A minha relação com a Bahia vem desde os 12 anos de idade, depois eu acabei recebendo até a cidadania de tamanha paixão e dedicação. É incrível porque eu nunca procurei. No episódio da Benedita, no dia seguinte já recebi de várias pessoas orientações do que eu devia fazer. No episódio do Estêvão também, não só do Gantuar, mas da [Maria] Bethânia, e falavam: "Olha, você tem que fazer isso, você tem que cuidar daquilo". Então, como é que eu vou negar isso? Porque isso tudo está aqui dentro. Então, acho que você tem que ir pegando da vida, que nem a Dona Darlene do “Eu Tu Eles”, que ficou com os três maridos. A vida vai passando por você e você vai guardando as coisas que foram boas e tentando se livrar das ruins. A gente sabe que você tem uma rede de amizades absurda, é muito íntima de meio mundo. Eu queria brincar daquela história de te deixar sozinha numa ilha, sem internet, com todos os confortos, livros, música. Você pode ligar à vontade para os seus filhos, pro seu marido, mas só tem uma pessoa de fora do seu círculo familiar para quem você pode ligar duas vezes por semana. Quem seria o escolhido para você manter contato com a civilização? É curioso que meus grandes amigos não têm celular. Hermano [Vianna] não fala no celular, Caetano só fala por e-mail, é uma loucura, não é nem WhatsApp. Acho que escolheria o Caetano, porque numa ilha você precisa de um farol. Tenho outros faróis, mas o Caetano foi, durante toda a minha vida, o meu farol mais alto, meu norte. E acho que não suportaria ficar sem falar com ele.
Neste podcast: Clóvis de Barros fala sobre o início do retorno de Ulisses e como a coragem e o medo se entrelaçam nessa história.