Enterrados no Jardim

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Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho à conversa, leve ou mais pesarosamente, fundidos na bruma da época, dançando com fantasmas e aparições no nevoeiro sem fim que nos cerca, tentando caçar essas ideias brilhantes que cintilam no escuro, ou descobrir a origem do odor a cadáver adiado, aquela tensão que subtilmente conduz ao silêncio, a censura que persiste neste ambiente que, afinal, continua a sua experiência para instilar em nós o medo puro. Vamos desenterrar, perfumar e puxar para o baile os nossos amigos enterrados no jardim, e deixar as covas abertas para empurrar lá para dentro aqueles que só aí andam a causar pavor e fazer da vida uma austera, apagada e vil tristeza.

Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho


    • Feb 26, 2026 LATEST EPISODE
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    • 3h 30m AVG DURATION
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    O cativeiro sem grades. Outra conversa com Rui Lage

    Play Episode Listen Later Feb 26, 2026 287:52


    “Veio-me à cabeça a imagem do general Garibaldi quando, ao partirem de Roma, disse aos soldados que lhes oferecia sede e calor durante o dia, fome durante a noite e perigo a toda a hora…” Isto serve como impulso se nos viramos para aquele outro lado do qual só recebemos notícias quando algo da ordem da catástrofe nos faz sentir como a realidade é hoje outro nome para o esquecimento. Esses lugares por onde anda a monte, sem prece que o alcance, e a coçar-se contra tudo o deus dos secretos, senhor de vidas inesperadas, que não quadram, não encontram rima neste mundo, mas são contíguos a desertos, serras floridas, e mato agreste, afiados instintos de tanta dar caça a bichos difíceis de explicar, enumerar, armar ciladas aos pássaros, naças aos peixes no mais fundo rio, pescarias ali onde o rio faz d'água uma mansa colheita, e às vezes distraído num gesto mais largo, molhava n'água amara, e compelia/ a recolher a roxa tarde e breve”, depois servia-se da capela abandonada como despensa, usava os santos quebrados para esfacelar a carne. Chamam casa a estes lugares que começam onde se chama campo ao que mais ninguém quis. Tudo saqueado, vendido, traído, tudo roído por uma angústia esfomeada. “Vês o tempo como foge/ que parece que não toca?” Como querem então fazer deste tempo qualquer coisa que se sinta, que de si possa fazer exemplo, deixar algo em conserva, penetrar com um perfume apenas seu esses esforços de memória? “Correm os nossos tempos de maneira,/ Antes no mal parece que estão quedos,/ por mais que mude o sol sua carreira,/ Tantos os males são, tantos os medos,/ Que não há vale cá, não há ribeira,/ Por onde soem já cantares ledos;/ Dos tristes ouvi esses, entretanto/ Dará o céu matéria a melhor canto.”… Há tanto tempo já que não cantamos, e parece até que grão mal adivinhamos. Parece que erram buscando saber o que vão por aí inda dizendo os poetas, mas estes, pior que as silvas, têm só esta estratégia de viverem virados para si mesmos, fazendo o seu, como quem oferece caução, sem levantar ondas, e depois esperar que se insista nesse triste enredo que foi o da eternidade, como se eles disso tivessem notícias mais do que as enfermidades de retardo que nos servem de quotidiano. “O vosso Tejo vai de sangue tinto./ Tal vai o nosso Douro, tal o Lima,/ E vão ainda pior do que te pinto./ Aquele que mais pode não estima/ Entrar por onde quer, saqueia tudo,/ O fogo traz na mão, a maça e a lima./ O dono do curral há-de ser mudo,/ Se não quer, em soltando uma só fala,/ Provar com dano seu, seu aço agudo.” Só vagos ventos sem origem nem nenhuma espécie de sentido andam pelos fundos da língua, a fazer que vivam antigas imagens, muito repetidas, muito usadas para ajudar a despertar fantasmas um pouco mais doces, como o dessa Leanor descalça, que vai pela verdura até à fonte e… “A talha leva pedrada,/ pucarinho de feição,/ sai de cor de limão,/ beatilha soqueixada; cantando de madrugada,/ pisa as flores na verdura:/ Vai fermosa e não segura.” O campo hoje é mais um enredo que o ouvido capta escutando os ecos na sua intimidade ajeitados a modos bravios fazendo por se reproduzirem. “O maravilhoso move-se tão próximo/ das casas sujas e decrépitas…” E o que temos nós ainda de ligação com isto, ainda somos capazes com o nosso peso de assentá-lo em qualquer pegada que faça florescer a verdura? Somos vistos lá onde o tempo se faz outro de tão longe, e temos alguma semelhança muito lavada com esses de olhos castanhos, a tez soleada, a fala cantada de só saber das coisas o recorte emprestado pelo ar. Outros ouvirão falar de um país esquecido, entregue à sua bárbara implosão, num mundo entregue ao desaire de envelhecer, enrijar, ossificar-se sem mais distracção que a própria destruição… Essa é a sua musa, e desperta nele uma intenção terrível, a de um mundo que deita um olhar envilecido a tudo o que de fora só vem para roubar-lhe a paz, incomodá-lo. Eram mentira os idílios, e mesmo desses lendas cheias do unto verboso foi tendo outra impressão… “Um dia vi o amor – era medonho:/ tinha olhos convulsos de anjo bêbado/ e a máscara do ódio.” Os que eram daqui, de tanto se desfazerem contra os trabalhos ordinários que aos demais serviam de ilustração, impulsos para que a lira se entregasse às suas perras entoações, tão fartos de terra, de séculos sentindo os ossos lentamente esmagados contra ela, com vergões e cicatrizes herdadas na pele, e nenhum entusiasmo por esses nomes que a nós nos sabem a mel e cheiram a madressilva. Mal se puderam ver livres de tudo isto, deram cabo dela e de tudo o que lhes lembrasse, nesse crime passional de que fala o Rui Lage. Preferem-lhe tudo o que sirva para enforcar a vista, essas grandes casas, edifícios que fecham a vista, escondem o horizonte, empurram o olhar para longe de todo o céu, fartos-fartos da terra, das infinitas extensões que lhes causavam vertigem pois só viam o imenso trabalho que tudo isso lhes dava. Se nós vamos ao campo em passeio, gozar do prazer de ver a terra presa aos astros, alguns vêm a ígnea tela bárbara de espanto, conhecem os infinitos cansaços de “um povo que vivia a suicidar-se, arando a terra, abrindo a derradeira cama”. Esse povo que hoje nos custa reconhecer como a nossa mais funda tradição, povo para quem o trigo é pão em flor, povo para quem a verdadeira flor era o pão. E é deles sobre nós que sentimos assentarem como uma esparsa maldição esses olhos rasos de um espanto podre, vozes misturadas ao silêncio, um engolir a seco nas serras onde irá a enterrar por estes dias o último pastor, lugares à morte entregues todo-ouvidos. Esta a corografia que se apropriará dos nossos restos, o país das “cabras e carrascos”… “É no teu chão dorido/ Que gasto, em paz, os cascos/ Deu fauno envelhecido…” Escreva-se o requiem, então, sendo certo que de nós nada irá notar-se que não comece ali, que se esboce entre aquela névoa: “A morte/ em flor/ dos camponeses/ tão chegados à terra/ que são folhas/ e ervas de nada/ passa no vento/ e eu julgo ouvir/ ao longe/ nos recessos da névoa/ os animais feridos/ do Início.” Tão poucas páginas daquilo que se resolve antologias fazem ferida como esta. Um pó que soa, um brilho que nos chama para a infinidade dessas noites em que não havia mais que acumular o resíduo de estrelas, vê-lo pairar, como uma essência estranha àquela terra que se fazia sentir com a sua imensidão nos corpos, o peso deles também a decompor-se, sem dar notícia, nesse pouco som enfrentando os currais sem gado que ruíram de pobreza. O sofrimento é a única história, mas desta talvez só o musgo dê, “em seu discurso esquivo de água e indiferença alguma ideia disto”. E, por isso, neste tempo que é sempre depois, só nos resta passar por lá em prosa, para não nos entregarmos a essa inane torpeza de quem canta seja o que for, e se põe a soprar aos pés de um enforcado a ver se o faz balouçar… O enforcado de quem ainda alguns têm muita vergonha… “No gesto suspensivo de um sobreiro,/ o enforcado.// Badalo que ninguém ouve,/ espantalho que ninguém vê,/ suas botas recusam o chão que o rejeitou.// Dele sobra o cajado.” É uma forma de dizer mal disto tudo, outra é lançar um fósforo e rir-se ao vê-los naquela dança dos noticiários, estes que só sabem soletrar o desastre quando o campo, a paisagem deles, surge carbonizado. Quando já não é possível trocar coisa nenhuma por nada que valha. Um fim muito claro, muito fácil de entender, traduzindo em cinzas aquilo que de outro modo não era senão “um pó que nem se palpa/ na peneira do mundo”. E de toda aquela história resta o quê? Além da dúvida de um tempo incerto, sem ciclos, sem estações sequer, os campos tão sós… “Tão longe/ dos homens, as largas plantações, ermos/ sem lar, sem fumos, sequer sem espectros/ dos antigos habitantes vivos.” Aos poucos o bucolismo já não aguenta canto seja de que espécie for, morrem as espécies e só se gera já “crias das bestas e dos homens”, um hálito desolador e “oposto ao antigo sopro do Génesis; que gera/ criaturas como se meramente simulasse/ a vida. E a paisagem torna-se aparência,/ semente simulacro e armadilha”. Teremos, então, de nos contar não tanto com os resíduos de estrelas, que já quase não se vêem, mas com os resíduos do campo: “É o oco interior de alguns/ quintais. O bailado surdo/ e brusco das asas/ da galinha./ A caleira podre aonde/ chora um pingo/ – o derradeiro.// É o mundo minúsculo/ dos canteiros; a vida/ nos degraus da planta; a sesta/ de uma gata que por acaso/ insiste em ser novelo.// É este chão cinzento./ A carne entumescida das paredes./ As espinhas reunidas/ do que foi um peixe.// E as armas toscas de matar/ o tempo: colheres, comida, insectos que tentam/ (ao menos) um mundo/ irrequieto./ É a noite que tem as mãos/ suspensas sobre um alguidar/aonde bóia o dia/ pequeno/ de todas as crianças.// Em certas casas constroem-se/ filhos: a música suave/ que se ouve nas camas./ Resíduos da canção/ a única/ que este povo/ ainda sabe/ e canta.” E com este balanço todo que levamos, colhido na mais recente antologia da poesia portuguesa que nos ofereceu Rui Lage, aquela que reza sobre os campos afinal tão infelizes que foram mantidos até meados do século passado num epílogo do Neolítico, parece que deste lado já estamos safos. Mas, entretanto, se a natureza só é vista em trânsito, cada vez mais embaraçada, a vida cedeu toda ela a um comércio passageiro, e se antes Deus se pagava com o seu próprio dinheiro (lombarda, vinho, feijão-verde e batata nova entre outras espécies), agora parece que a própria vida lírica está inteiramente nos velhos, os que tendo memória de outro mundo, estão invadidos de um infinita suspeita, e tossem, conspiram contra este com uma militância certamente desencantada, mas talvez já só haja algum encanto em ser contra. “Sempre se busca alguma espécie de/ mortal eternidade e a escolha/ da terra é a melhor// forma de amar um tempo destinado/ a mostrar que a linguagem por mais/ ninguém usada// como poesia/ o mortal corpo de quem/ a usou há-de por fim dilacerar”. De resto, que resta? Talvez já só esse resíduo de alvoroço, andar para trás e recompor com toda a dificuldade uma pequena porção de toda aquela dor, emocionar-se diante de algo como um arado, que hoje adquire as feições de um passado remoto, mais parecendo o seu esqueleto. Contra a tecnologia toda que se alimenta de nós, espantar-se diante desse ser já sem mundo… “A mecânica do arado é rudimentar,/ clarividente e sóbria. Nada tem/ em demasia: o que a função requer/ e nada mais.// No perfil eficiente do arado/ há qualquer coisa de navalha, qualquer coisa/ de falo em riste, em transe de fecundar.// de facto, noutros tempos,/ era o arado que rasgava a terra,/ fazia dela um ventre aconchegado –/ cenário certo para o deflagrar da vida/ que vai dentro das sementes.// isto foi no tempo em que havia agricultura/ nos gestos quotidianos dos homens/ e das mulheres.” Agora, o campo na linguagem parece também ele algo que se trafica na sua versão transgénica. Vemos aquele talento para combinar os termos e favorecer um apelo rústico, na poesia como na gastronomia ou nos empreendimentos de turismo-rural… Os poemas dos nossos neo-bucólicos, estão cheios de tojo, restolho e urze, giestas, estalidos, de folhas secas, água a correr, das vozes distantes que chamam dos quintais, e das “casinhas/ com papás, vovós e manos, talvez/ com uma sentida perda/ de um talher à mesa e uma/ horta, couves, alfaces, a doméstica/ economia dos quintalórios/ com um cão cativo a ladrar/ à sina e à honestidade das batatas/ que as mães ou avós ainda esmagam/ na sopa com uns pingos de azeite e/ enfado. Pequeno país do/ gasóleo e futebol, memórias/ de mercados e feiras buliçosas,/ de escolinhas rústicas, agora desertas,/ com a cruz e os presidentes na parede,/ pequeno país de bravia/ palavra, sofrida crueza/ de mato ardido e estrumes, sucatas,/ detritos, o hábito endurecido dos/ pequenos holocaustos/ diários.” E para que mais queremos o espaço, a terra, o país propriamente, esse que serve de luxo de passagem, com todas essas aldeias com abismos e alguma ribeira ao fundo. Carbonizadas aldeias que parece que se deitaram para sempre, e estão por aí como ruínas de embalar, “como se nenhum de nós conseguisse entrar nesse obscuro mundo de leis e direcções invisíveis”. E olhamos para tudo isso e aqueles que lhe escaparam de algum modo talvez se sintam como se reconfortados, como se não pudesse mesmo haver volta, e não quisessem daquele mundo outra coisa além desse “mecanismo triste/ movendo a boca breve”. E o fogo talvez seja a última honestidade de que somos capazes. Talvez, de algum modo, nós sejamos toda a destruição que sonharam e convocaram essas tantas gerações que ali no campo “nasciam, penavam e pereciam no anonimato e no isolamento mais cru”, como nos diz Rui Lage. “A luta pelo pão de cada dia exauria a força vital, conduzida para o braço que fazia descer a enxada e o mangual, que pilotava o arado, que cegava as espigas no braseiro do estio e tocava o gado pelos montes. Do berço à cova, a existência do camponês compunha-se de agruras e privações inumeráveis. Ninguém disse tal condição em verso tão cortante quanto Gil Vicente, pela voz do lavrador da Barca do Purgatório (1518): ‘Sempre é morto quem do arado/ há-de viver'. Afinal, nesse auto medial da trilogia das barcas, o Lavrador anuncia-se ao Anjo não como debutante da morte, mas como seu veterano: ‘Da morte venho eu cansado'. Séculos a fio, o adeus aos campos infelizes foi um gesto vedado. A aldeia fazia as vezes de um cativeiro sem grades.”

    Lavar as mãos com os talhantes. Uma conversa com Maria Leonor Figueiredo

    Play Episode Listen Later Feb 21, 2026 287:27


    Em tempos que talvez nem possam ser outra coisa senão uma pura efabulação, um desvio, uma desordem dessas para as quais nos viramos quando os sonhos se põem a lutar contra o mundo, chegávamos a um desses textos onde parecia que o intuito, todo o esforço em que alguém se empenhou, passava por “escrever páginas e páginas, enchê-las de pedras, de erva, de floresta, de céus, de movimentos das pessoas na rua, de vozes, de casas, do passado, do hoje, de quadros, de estátuas, de rios e de ondas e de copos e de frascos e de gesso branco no meu ateliê e de nuvens, criança deitada na liberdade…” (Alberto Giacometti). Seria um modo de um tipo vestir o mundo como uma segunda pele, resvalar consistentemente entre as coisas, ser de tal modo substantivo que deixava de se considerar um indivíduo. A solidão estava dispersa, absorta. Mas agora que os poetas também se consideram personagens essenciais da beleza publicitária, talvez até mais no momento em que se julgam separados da restante massa de gente, apenas vinculados a uma suposta autonomia das formas artísticas, regulando-se por outras leis num mundo que se encontra em todos os seus aspectos prostituído, é bom lembrar aquilo que notou Barthes, vincando como toda a publicidade dos produtos de beleza se baseia numa espécie de representação épica da intimidade. Num tempo em que os indivíduos se vêem transformados em seres abstractos, o modo como cada um enfatiza a sua realidade íntima, engrandecendo-a para costurar a mitologia patética de si mesmo, é assim que o discurso consegue alcançar a superfície, andar a par dessa superfície viva que é a pele, onde se organizam as miragens galopantes deste tempo, um discurso inteiramente absorvido pelas aparências, por fazer funcionar essa ordem de representações. Seres que são coisas, mas sem qualquer substância. Talvez por isso, naquele breve romance com esse título, Perec diz-nos que o inimigo passou a ser invisível… “Ou melhor, estava neles, tinha-os apodrecido, gangrenado, destruído. Eram os tansos da história. Pequenos seres dóceis, reflexos fiéis de um mundo que escarnecia deles. Estavam enterrados até ao pescoço num bolo de que nunca teriam mais do que migalhas.” Não damos já com esse orgulho dos monstros, que caíam nas zonas mais inesperadas “para revelar a entristecidos burgueses que a sua vida de todos os dias tem de raspão assassinos sedutores, ardilosamente guindados até ao seu sono, que eles atravessam por uma qualquer escada de serviço que não rangeu, armada em cúmplice” (Genet), e isto de modo a fazer explodir de aurora as sugestões dos seus crimes, como segredos entre os quais a língua se recompõe e parece respirar de novo, fazendo-se entender por gestos de tal modo vivos, e encarniçados, que parecem a um tempo absurdamente espontâneos e longamente premeditados. A partir de um certo momento o mal é a única forma de clareza que nos resta, e tem do seu lado toda a razão, toda essa razão que foi votada a uma existência clandestina por aqueles que quiseram livrar-se das suas próprias consciências. Bataille diz-nos que o interesse da obra de Genet não se deve à sua força poética, mas ao ensinamento que resulta das suas fraquezas. “Existe nos escritos de Genet qualquer coisa de frágil, de frio, de friável, que não detém necessariamente a admiração, mas que suspende a harmonia. A harmonia, o próprio Genet a recusaria, se por um erro indefensável lha quiséssemos aplicar. Esta comunicação que se esquiva, quando o jogo literário faz dela a exigência, pode deixar uma sensação de fingimento, e pouco importa se o sentimento de uma falta nos reenvia à consciência da fulguração que é a comunicação autêntica. Na depressão, resultante destas trocas insuficientes, em que se mantém uma divisória embaciada que nos separa, leitores, daquele autor, tenho a seguinte certeza: a humanidade não é feita de seres isolados, mas de uma comunicação entre eles; jamais nos damos, nem que seja a nós próprios, senão numa rede de comunicação com os outros: estamos mergulhados na comunicação, encontramo-nos reduzidos a essa comunicação incessante da qual, mesmo no fundo da solidão sentimos a ausência, enquanto sugestão de múltiplas possibilidades, como a espera de um momento em que ela se resolve num grito que outros ouvem. Porque a existência humana apenas é em nós, nesses pontos em que periodicamente se estabelece, linguagem gritada, espasmo cruel, riso louco, onde a harmonia nasce de uma consciência enfim partilhada da impenetrabilidade de nós mesmos e do mundo.” E se algum dos ditos ‘poetas' nos segue, convinha que fixasse pelo menos isto, para nunca o esquecer: “jamais nos damos, nem que seja a nós próprios, senão numa rede de comunicação com os outros…, jamais nos damos, nem que seja a nós próprios, senão numa rede de comunicação com os outros”. Mas, hoje, tudo parece invertido, como se submetido a uma radiância de astros de luto, de tal modo que mesmo o desejo e o prazer estão novamente inscritos no quadro das formas de profanação e degradação íntima, por todo o lado vemos essa pressão de uma moral que se impõe em todos os aspectos da vida e leva a que as relações sexuais sejam “tematizadas como práticas altamente problemáticas, traumatizantes, das quais se arrisca sempre, ao aventurar-se nelas, sair-se ferido e, portanto, em relação às quais seria preciso estabelecer os processos necessários para poder obter uma reparação” (Geoffroy de Lagasnerie). Neste episódio entrelaçámos uma série de fios das conversas que vimos mantendo, e contámos com os impulsos e as sugestões de Maria Leonor Figueiredo, que além de ter desenvolvido estudos no campo literário e artístico, mantém desde há muito um compromisso com as lutas políticas deste tempo, e assinou na rede anticapitalista um conjunto de intervenções importantes sobre tantos destes temas. Em “a nova (des)ordem sexual: consentimento, trauma e identidade”, refere que, se falar mais sobre trauma trouxe conquistas inegáveis, e deu legitimidade a experiências antes silenciadas, criando novas formas de reconhecimento, por outro lado, também trouxe uma armadilha, que se prende com a transformação do trauma em identidade política. “A centralidade do trauma é também sintoma de uma época que transformou o sofrimento em capital simbólico e, portanto, em poder. Neste contexto, o espaço político tende a organizar-se em torno da competição por reconhecimento individual. O trauma deixa de ser uma experiência que exige transformação colectiva e passa a ser um selo de autenticidade.” Neste momento parece decisivo assinalar que, num esforço para compreender a metamorfose contemporânea das questões sexuais, não podemos perder de vista como, até há algumas décadas, esteve em campo uma forma de pensar a sexualidade como força de desestabilização, como energia capaz de corroer instituições, códigos e hierarquias. Em Barthes, o amor aparecia como um discurso marginal, uma fala que não encontrava lugar na linguagem dominante, e em Foucault, a sexualidade era inseparável das redes de poder que a produzem, classificam e administram, mas, depois da orgia, Baudrillard foi dos primeiros a dar-se conta de que o desejo começava já a dissolver-se numa cada vez mais acelerada e indiferente circulação de signos. O recuo actual não consiste, como tantas vezes se repete, num simples retorno à moral conservadora clássica, a um reconvir do puritanismo. O que se verifica é algo mais subtil: uma transformação da própria lógica da libertação sexual em dispositivo de controlo. A partir dos anos 60 e 70, a esquerda ocidental assumiu a descriminalização, a despatologização, a ampliação dos direitos sexuais como parte integrante do seu horizonte emancipatório. O combate contra a repressão jurídica e médica — contra a polícia dos corpos, contra o tribunal das perversões — era inseparável de uma crítica mais ampla ao capitalismo disciplinar. Mas, como mostrou Foucault, a sexualidade nunca foi apenas aquilo que o poder reprime, mas passava também por aquilo que o poder produz, organiza, incentiva a confessar. O paradoxo instala-se quando a energia crítica que denunciava a vigilância se converte ela própria em instância vigilante. A esquerda, que outrora suspeitava das categorias fixas e das identidades rígidas, passou a investir numa taxonomia minuciosa das posições subjectivas, numa ontologia de micro-identidades que exigem reconhecimento permanente. O gesto que visava libertar o desejo de normas opressivas transformou-se, assim, num gesto de reinscrição normativa: o comportamento desviante deixa de ser perseguido em nome da moral religiosa ou familiar, mas passa a sê-lo em nome de uma moral da protecção, da segurança, do dano potencial. A linguagem do pecado vê-se substituída pela linguagem do trauma e a figura do pecador pela do agressor, enquanto a denúncia pública, a exclusão simbólica, a penalização social, passam a engendrar uma nova forma de recriminação e regulação punitiva. Não se trata de negar a existência real de abusos ou violências, mas de observar como o campo sexual, que fora pensado como laboratório de liberdade, se converteu em campo privilegiado de policiamento discursivo. E se a suspeita generalizada se instala como norma, a ambiguidade, que foi sempre constitutiva do desejo e da busca pelo prazer, bem como o jogo de sedução, que sempre comportou risco e assimetria, são submetidos a protocolos quase administrativos. Neste ponto, Baudrillard ajuda-nos a compreender esta mutação, notando como a sexualidade contemporânea não tem sido tanto reprimida como hiperexposta, saturada de imagens, convertida em espectáculo permanente. A pornografia deixa de ser marginal e infiltra-se na publicidade, na moda, na política. O erotismo, que supõe distância, espera, segredo, é absorvido pela transparência obscena de uma visibilidade total. Ora, quanto mais visível se torna o sexo, mais rarefeito se torna o desejo. A proliferação de signos sexuais não intensifica a experiência, mas, pelo contrário, neutraliza-a. A esquerda, que deveria ter articulado uma crítica a esta mercantilização integral, preferiu muitas vezes alinhar com uma ética da exposição e da denúncia que coincide, paradoxalmente, com a lógica capitalista da transparência e da gestão de riscos. Se tudo deve ser explicitado, nomeado, regulado, é porque tudo deve ser integrado num sistema de cálculo. A sexualidade, que outrora escapava à contabilidade, passa a ser quantificada em consentimentos, protocolos, declarações prévias. E se ainda quisermos falar de amor, se nos atrevermos a isso, podemos virar-nos para Erich Fromm, que nos desafiou a pensar o amor como arte, sublinhando como este sentimento, guindado a uma razão idealizadora, implica desde logo sair do narcisismo, reconhecer a alteridade irredutível do outro. Ora, o que se observa hoje é uma derrota dessa dimensão exigente: sacrificado à lógica do consumo, o amor vende seja o que for, adapta-se, estende-se como justificação para que sejam reinvindicados todos os caprichos e apetites. O amor que foi sempre difícil, hoje conta com a conveniência e o infinito desdobramento das aplicações de encontros, algoritmos de compatibilidade, mercados de afinidades, beneficiando dos modelos preditivos para nos proteger dos nossos erros e fornecer uma escolha optimizada. E, com isto, o outro surge já como mero elemento de validação, como aquele ser-espelhar que deve confirmar, consolidar a narrativa que temos sobre nós próprios. A ideia de ser transformado pelo outro, de ser compelido a um radical desvio face a si mesmo, e ao contexto, esse perigo ou vertigem já nem se colocam. Nos seus fragmentos sobre o discurso amoroso, Barthes mostrava como o amante fala numa língua minoritária, desajustada, vulnerável. Hoje, essa vulnerabilidade é frequentemente lida como fraqueza, dependência, falha de autonomia. A cultura contemporânea exalta a auto-suficiência, a gestão emocional, o empoderamento individual. O amor, que implica risco de perda e exposição ao sofrimento, torna-se ameaça à integridade narcísica, sendo de preferir a circulação incessante de experiências breves, intercambiáveis, as dinâmicas poliamorosas, onde a substituição rápida protege contra o investimento profundo. Com tudo isto, o puritanismo contemporâneo não se funda já na proibição do prazer, mas na sua gestão e programação até dissolver o desejo pelo outro e focalizar cada vez mais na relação que o indivíduo mantém consigo mesmo, na sua capacidade de satisfazer as suas projecções e de se auto-validar. A sexualidade já não pode, assim, representar qualquer efeito transgressivo, uma vez que passou a estar pautada pela proliferação jurídica. Assim, os aparelhos de vigilância conseguem delimitar o aceitável, estigmatizar o excesso, sancionar o desvio. Ao reivindicar protecção absoluta, segurança total, reconhecimento permanente, temos vindo a permitir o reforço de uma ordem normativa infinitamente minudente, em que cada relação é enquadrada de antemão reconhecendo um potencial litígio, tomando-se cada gesto como susceptível de ser entendido como uma agressão, e devendo estar submetido ao escrutínio moral público. Aos poucos, o desejo retrai-se ou converte-se em cálculo, preferindo-se cada vez mais o semelhante, o compatível, o previsível. O outro é convocado para legitimar uma imagem de si que já está pronta. Entre o puritanismo progressista e o hedonismo administrado, o amor torna-se ele mesmo a fachada para uma indústria de produtos culturais e experiências programadas. E a esquerda, ao abandonar a crítica radical das formas de poder que atravessam o desejo, assiste e promove esta lógica de controlo que domina no mesmo sentido todo o espectro político.

    A central de camionagem da literatura. Uma conversa com Inês Viegas Oliveira e Mariano Tomasovic Ribeiro

    Play Episode Listen Later Feb 13, 2026 207:24


    Depois de milénios em que a invenção era cantada, os corpos se desdobravam e as formas de beleza estavam ligadas a um prazer e gozo gestuais, em que o ritmo dos relatos e das lendas estava submetido, não apenas à intensidade do que a imaginação capturava ou punha à solta, mas também ao corpo no seu modo de se balançar na simetria dos pés e dos braços aquando da proferição da palavra, de todo um engenho para gerar embalo e dar força aos rituais da rememoração, desde há uns séculos esses comportamentos orais foram-se perdendo, e isto na mesma medida em que, “à pressa, veloz, a tradição do livro, muito mais breve e quase recente, impôs a própria autonomia como concorrente”, diz-nos Pascal Quignard. E logo adianta que “a sua individualização progressiva é tão estranha quanto a que extraiu aos poucos a individualidade singular de um homem – inquieta e ciumenta desse sentimento de singularidade – da individualidade mais específica, mais nitidamente agrupada, em que tomou forma”. “Ainda não se insistiu o suficiente sobre este facto: o que pontua o texto nitidamente individualizado – e que dirige por outro lado a invenção relativamente tardia dos sinais de pontuação – acompanha essa espécie de progressão da vergonha do corpo e já não o ardor ou a urgência da exteriorização.” Assim, a cultura livresca está ligada a um certo acanhamento, a um ensimesmamento, a uma pressão interiorizadora que, muitas vezes, torna os literatos um tanto ineptos para uma convivência e capacidade de expansão dos seus entusiasmos, de serem os cicerones dos seus mundos interiores. Não é de estranhar que a própria língua se tenha reforçado na abstracção categorial das suas estruturas, construindo modos de recriação cada vez mais desvinculados do plano de participação ou enredamento colectivo. Não é de estranhar, por isso, esta sensação de que algo de profundo se quebrou, se inverteu. Se a literatura foi um suporte dos audaciosos gestos praticados em comum, hoje, tantos pressentem como a maioria dos textos não inventam verdadeiramente saídas face à narcose solipsista contemporânea. Cada ser deve fornecer insistentemente as provas da sua existência, e tornamo-nos, assim, os nossos próprios publicitários porque já não encontramos esse apoio nas grandes narrativas, nas ficções que nos irmanavam, nesse fundo conspirativo que animava certos grupos. O problema é que, como assinalou Georges Braque, “as provas cansam a verdade”. Às tantas, de tanto insistirmos na representação cada vez mais enfática dos dramas que apenas nos situam face à nossa identidade, o vigor existencial esvazia-se. Daí esta angústia que anda à solta, em que cada indivíduo parece empenhado em coagir os demais a reconhecerem a sua importância, o seu protagonismo ou valor, de modo a reforçar para si mesmo a sensação de pertencer ao mundo, de estar imerso nele. Todos estão, de algum modo, industriados para organizarem à sua volta algum circo, uma agência de eventos, uma incessante campanha eleitoral. A literatura cada vez menos aponta no sentido oposto, para que cada um se disponha à superação da existência individual, essa a que chamamos experiência da poesia e das artes, que procurava sempre guardar uma memória de esforços de alegria, mesmo em contexto de luta. E, antes de mais, quando hoje falamos de textos literários, devemos começar por salientar a falta de satisfação, aquela busca de prazer na leitura que a maior parte das vezes sai inteiramente gorada. Não se sente grande urgência nem necessidade nos textos que nos chegam, e apenas somos levados a admirar o talento particular para a vigarice deste ou daquele sujeito que fazem por convencer-nos da qualidade técnica com que vêm bulindo a sua intriga. De resto, cedo se mostram podres as esperanças nutridas por seres que vivem afeitos a um tempo arrasado pela base, no elemento de sentido de onde tudo parte: a linguagem. Com o prevalecer de enredos culturais voltados para a representação de si, para que cada indivíduo se entregue a uma competição pela evidência, por obter avanços no jogo do estatuto, com a pressão de um quadro em que todos sonham com o favor da vedetarização, tudo se volve um mero pretexto, todos os valores são apenas máscaras. Industriados para manifestações que não manifestam nada, recaímos na condição de monstros sem interioridade, como se estivéssemos vestidos do avesso. Assim, poderíamos subverter a noção que defende Mabel Moraña no livro “O Monstro como máquina de guerra” – “o corpo monstruoso é aquele que foi progressivamente despojado da sua condição de sujeito até se converter num resto administrável, um corpo disponível para a marca, o castigo ou a eliminação, sem que esse gesto produza uma interrupção significativa da ordem social” –, e pensar como a nossa sociedade nos vincula a projecções impossíveis, a um desolador enredo em que cada um compete para fixar imagens falsas de si mesmo, enquanto se vai desfigurando intimamente. Neste pacto à Dorian Gray, se julgamos conquistar um certo estatuto, na sombra da imagem projectada, no verso dessa ridícula vedeta que cada um representa para os outros, emergem esses seres que nós próprios escondemos e humilhamos. Neste episódio, tivemos connosco o casal responsável pela revista e agora editora Limoeiro Real. Hospedeiros de monstros à antiga, esses que preferem optar pela deserção das lógicas competitivas que tomaram conta do campo das artes e da literatura, preferindo trabalhar a partir do resíduo, do inassimilável. Em vez de se apostar nas figuras que produzem uma estranheza para serem integradas no panteão dos casos dignos de estudo, há ainda essa vida que faz a sua festa no escuro. É um princípio de rejeição das dinâmicas de afirmação a qualquer custo, de modo a ser possível regressar ao ponto cego do conhecimento, aquele espaço que se permite esquecer de si, libertando uma temporalidade diversa e resistindo a ser completamente entendido.

    Faz todo o mal que puderes e baza. Uma conversa com Eduardo Brito

    Play Episode Listen Later Feb 7, 2026 223:22


    No ano da sua morte, 1988, António José Forte lembrava, numa entrevista que deu a Ernesto Sampaio para o “Diário de Lisboa”, a frase que por aqueles dias ainda podia ler-se num muro da Avenida de Berna: “Não vos inquieteis, é a realidade que se engana”. Tinha 57 anos feitos naquele mês de Fevereiro, dava-se como vivo a pouco mais de nove meses do fim, e garantia que não se inquietava. Tinha a confiança daqueles dois olhos grandes, que sabiam ler bem como só poucos alguma vez foram capazes. E não se inquietava porque há muito se apercebera de que a realidade não era senão outra aparência, um acordo de bestas que o poeta deve repudiar. Por isso mesmo, logo na sua primeira intervenção escrita – “Quase 3 Discursos Quase Veementes” –, no segundo número da revista “Pirâmide”, em Junho de 1959, vincava: “Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas dos mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa.” Hoje ainda vamos falando muito de realidade, das suas espécies ou diferentes níveis, mas isto não passa há muito de uma forma de jactância e soberba, pois há muito que vamos abrindo mão desses acentos mais agudos ou extremos que procuram engrenar aquela capacidade de nos devolver ao assombro inaugural dos efeitos de nomeação. Num mundo cada vez mais virtual, a pergunta que Baudrillard ia fazendo é: haverá um além do virtual? A gramática e o léxico deixaram de ser uma membrana viva e há muito se foram cristalizando a ponto de impedirem a intervenção de novas formas de sensibilidade, assim, e através da frequência dos clichés, dos símiles mecânicos e dos automatismos, condenamo-nos a um registo cada vez mais esclerosado desse plano onde os nossos sentidos e alcance se exprimem. Para nos servirmos da articulação de Steiner, tornamo-nos prisioneiros de um traçado linguístico que se volve cada vez mais inerte, emurchecido, incapaz de desposar a paisagem cambiante dos factos, servindo apenas para formalizar as reacções humanas ao invés de as estimular. Assim, na senda de Kraus, também aquele crítico literário indagou sobre a possibilidade de a língua recair num embolorecimento, sobrecarregando-se de uma fraseologia hierática e imutável, deixando de assegurar um modelo disponível e gerador de realidade. “As palavras, esses guardiões do sentido, não são imortais, do mesmo modo que não são também invulneráveis", escrevia Adamov nos seus cadernos, em 1938. Embora algumas vão sobrevivendo, outras são atingidas de um modo incurável. Quando a guerra rebentou, ele acrescentava: “Gastas, transparentes, corroídas, as palavras tornaram-se cadáveres de palavras, palavras-fantasma; mascamo-las, regurgitamos o seu som, sem convicção, entre os maxilares.” Há muito que Kraus havia pressagiado uma “era glacial para o espírito”, sendo que, para ele “o verdadeiro fim do mundo é o aniquilamento do espírito”. Em seu entender, o acto adâmico da nomeação tinha-se constituído por fidelidade a uma origem essencial em virtude da qual natureza e linguagem se entreteciam para constituir um livro da criação. E era em atenção a esta dignidade ontológica outorgada por ele à linguagem, que Kraus entendia como ao embrutecê-la era a própria vida que se embrutecia. Por isso dedicou todos os seus esforços a preservar a harmonia da palavra enquanto combate moral. Não concebia separação alguma entre o que um homem é e o que diz, nem entre o que diz e a sua forma de o dizer: se alguém pecasse contra a lei cristalizada na linguagem, pecava contra a verdade. Para ele, todo o erro transporta uma culpa: “a má arte e a vida degradada são espelhos uma da outra e comprovam uma identidade atroz”. Em seu entender, por efeito dos rituais que diariamente vulgarizam a linguagem, e sobretudo por acção da imprensa, o que passara a determinar o tempo presente eram os clichés, os quais trabalhavam já autonomamente. Assim, devia ser assumida pelos homens de espírito a tarefa sagrada de cuidar e proteger as palavras atingidas pela doença, procurando restaurar uma certa pureza originária, uma precisão etimológica. Desde o primeiro número de A Torcha (Die Fackel), o seu anti-jornal, Kraus dispôs-se a confrontar a realidade da sua época com uma “lei de fogo”, produzindo uma desesperada antítese a esse tempo presente consumido pelos “átomos da trivialidade” e que tanto o repugnava. Sabendo que toda a letra se pode transformar em catástrofe, ele quis submergir-se no “pântano da fraseologia” de modo a levar a cabo a sua dissecação. Steiner reforça a ideia de que a linguagem é o principal aparelho de apreensão da realidade, e nota como “no Livro de Isaías, a gramática dos profetas dá corpo a um profundo escândalo metafísico – a intervenção do tempo futuro que expande a linguagem no tempo”. Por sua vez, diz-nos ele, “a obra de Tucídides é habitada por uma descoberta contrária – Tucídides é o primeiro a compreender bem que o passado é uma construção linguística, que a única garantia da história é o tempo passado dos versos. A vivacidade prodigiosa dos diálogos platónicos, a adopção da dialéctica como método de investigação intelectual, é inseparável da descoberta de que as palavras, uma vez postas à prova, e podendo afrontar-se numa batalha ou articular-se numa dança, abrem caminho a novas formas do entendimento.” Por sua vez, Eduardo Brito em “Procura Nada” vem interrogar a estrutura da verdade como ficção, celebrando a teoria da relatividade e, ao mesmo tempo, fornecendo também “uma espécie de loa ao mais elegante tempo verbal, o futur antérieur, que em português tem o nome de futuro composto e perde, na poesia, o que ganha em rigor terminológico: o futuro do verbo auxiliar avoir ou être e o particípio passado do verbo principal, a anterioridade em relação a um momento determinado de algo indeterminado, como se fosse tudo assim tão relativo como o tempo: quando partir, já terei voltado.” Trata-se, portanto, de investigar os processos que nos alertam para a heterogeneidade neste mundo, contra a homogeneização e a uni-dimensionalidade. Corroendo as lógicas unívocas, esta narrativa mostra-se capaz de infectar o próprio decurso da história, como se a vontade fosse capaz de lhe alterar o desfecho, atingindo o sentido de fatalidade que associamos ao passado. A certa altura, e num dos momentos mais instigantes deste livro, Brito fala-nos de alguns velejadores que, em 1968, participaram na mítica regata promovida pelo jornal inglês The Sunday Times. Os oito marinheiros foram desafiados a circum-navegarem o globo, partindo de Inglaterra, e seguindo o caminho que quisessem, desde que o fizessem solitariamente. Se, dos oito, quatro desistiram pouco depois do começo, e um quinto abandonou a prova a meio, por naufrágio, Brito não perde tempo com aquele que ganhou, mas foca-se nos dois que poderiam ter ganhado a corrida, mas que por razões diferentes não o fizeram: o velejador francês Bernard Moitessier e Donald Crowhurst. Este engenheiro eletrotécnico embarcara na prova sem qualquer experiência enquanto navegador, e depois de forjar uma rota que não chegou a percorrer, veio a aportar secretamente o seu trimarã na Argentina, onde deixou passar o tempo que julgou suficiente para ficar em último lugar, acabando por retomar a corrida numa altura em que estava a caminho de se tornar vencedor, mas, receando ser exposto pela sua fraude, acabou por enlouquecer e se suicidar. Quem também ficou cativada por Crowhurst foi a artista visual Tacita Dean, que reconstituiu aquele período final da sua vida, as semanas em que já não sabia onde se encontrava. “Tinha perdido completamente a noção do tempo e desenvolvido uma relação obsessiva com o seu cronómetro avariado, o instrumento que mede o Tempo Médio de Greenwich a bordo. Começou a sofrer de ‘loucura do tempo', um problema familiar aos marinheiros cuja única forma de localizar a sua posição depende de uma observância rigorosa do tempo. Quando o seu sentido do tempo se distorceu, deixou de ter qualquer ponto de referência na massa mutável do oceano cinzento. Oprimido pela enormidade do seu engano e pela ofensa ao princípio sagrado da verdade — aquilo que acreditava ser o seu ‘Pecado da Ocultação' — Crowhurst ‘abandonou o jogo' e tudo indica que se terá lançado ao mar com o seu cronómetro, a apenas algumas centenas de milhas da costa da Grã-Bretanha.” Hoje, muitos de nós estamos também devastados por esta incapacidade de nos situarmos, incapazes de nos reconhecermos nos elementos cada vez mais deslassados e inconstantes da crónica que vamos fazendo, e, por essa razão, estamos a sofrer também os sintomas de uma loucura do tempo. A linguagem adoecida serve-nos cada vez de menos, e se considerarmos, como anota Steiner, que mesmo a história não passa de um acto de discurso, um uso selectivo do tempo passado, e que, sem essa ficção verdadeira da história, sem a animação ininterrupta de um passado escolhido, não passamos de sombras vazias, começa a ficar claro como nos destinamos a uma deriva na massa mutável do oceano cinzento, desses desertos nos quais não somos capazes de nos guiar por nenhum elemento constante. “Os vestígios, como os monumentos e lugares históricos, por mais concretos que sejam”, lembra Steiner, “têm também de ser ‘lidos', quer dizer, situados num contexto de reconhecimento verbal, a fim de adquirirem uma presença real”… Então, a pergunta que Steiner formula é: “de que realidade palpável dispõe a história fora da linguagem e da nossa crença reflexiva em testemunhos que são de ordem fundamentalmente linguística?” E entre os principais elementos de erosão do sentido, além das pragas, dos vermes e dos incêndios que são capazes de danar parcialmente os arquivos, há ainda a pressão dos regimes totalitário, que trabalham para destruir não apenas esses testemunhos, mas degradar a consciência do passado e até aquilo que nos permite a todo deslocarmo-nos na dimensão temporal, esse livro da criação, essa linguagem que visa a ressonância da construção de um passado.

    O devir meloso da arte portuguesa. Outra conversa com Miguel Faria Ferreira

    Play Episode Listen Later Jan 31, 2026 257:35


    Considerando o adiantado da hora, seria bom ouvir alguém dizer-nos que as horas passadas e presentes partiram dum mal-entendido. Se fosse ainda importante fazermo-nos entender, deveríamos virar-nos de costas a esta contemporaneidade lorpa, em que um tipo se vê forçado a tamanhos desvios, que se torna estranho até para si mesmo. A pestilência do tempo e do lugar é o que nos leva a tanto. Corpos solteiros, devolvidos a contragosto uma e outra vez a dias e circunstâncias apontadas à destruição dos homens. A criação exerce-se, por isso, como uma defesa contra aquilo que nos esmaga, um modo de se ir subtraindo a esta pesada tempestade triste. Sublinhamos frases, produzimos instante a instante um filme dessas camaradagens aventurosas que nos faltam. Há um filme íntimo que cada um vai montando… “Criar é estar vivo, é demonstrar a si próprio e a tudo o que o ameaça um inesgotável recomeço, uma vitória que não finda”. Esta surge escrita com a letra de César Monteiro, atribuída a Vergílio Ferreira. O canhenho era essa cobra infindável, de tanto palmilhar longas extensões para se encontrar como ser, como outra razão que não essa miragem que alguns vão vomitando. Se lhe pedissem as horas, o que diria ele? Que estão a dar corda aos loucos. Que estamos por aí numa hora suspensa de revólveres indecisos, hora terrível de luas amarelas… nesta hora proposta pela angústia dos relógios, nesta mesma hora aniquiladora das consciências burguesas. Porque contrariamente ao que se diz, a loucura não vem de dentro, ela existe como um peso para nos fazer desistir. Deitar a toalha ao chão. Ela “existe quotidianamente na desagregação do homem de hoje”. Mas como não nos falamos, estas coisas são cada vez menos claras. Se não pedimos as horas também não assistimos quando alguns se põem a ordenar ao sol que vá pelos subterrâneos e pelos caixotes do lixo, que nos poupe à experiência do ódio. Antes tínhamos esses intervalos semeados, esses alívios, subterfúgios ou fugas. Caíamos em pleno olho da rua, batíamos aqueles suspeitos cafés tristes a ver quem mais. Mas isso das ruas, dos cafés onde é que isso já vai? Ou antes: não vai. Não há hipóteses. E o que é feito daquela condição ontológica de vadio e pedinte que Vitor Silva Tavares identificou no amigo? E aquilo do amor, aquele mais louco, que começava sempre por ser gratuito, mas, hoje, ou se paga à cabeça ou então sai mesmo caro. Estamos realmente sem saídas, e, perante uma geração que só pensa a sua arte como entradas, como modo de vir nas listas, de serem contados, as melhores esperanças parecem goradas à partida. Que é desses que eram vistos a apodrecer eternamente nos bancos da Avenida, cabeça a ferver? Como era isso de ter cábulas, o destino todo anotado, leituras de tantos ângulos. E o que é dos filmes que fazíamos contados, o cinema oral, essas ondulações do espírito de tal modo ritmadas, em que um se punha a fazer todos os papéis, revirando tudo, em busca dos tais, desses almejados instantes de graça? E se tínhamos uma boca e um corpo isso não era já aquele pedaço de fita, e não era um modo de celebrar uma separação face a nós mesmos, aplicar cortes, um modo de sermos capazes no decorrer ordinário das nossas vidas de irmos dando frutos, emprestarmos órgãos ao tempo? Um apuro, alguma lei ou razão a partir desse movimento oscilatório ou de viagem deambulante entre tradições? Mas se temos receio de “pagar o preço da fealdade, da ruína e da decrepitude, dos desastres e da maldição da esperança” (Manuel Gusmão), então que criações se esperar de nós, de uma geração tão submetida aos cálculos impiedosos, a esta sovinice das almas. Querem-nos ainda às gerações. Mas vamos ficando cansados de lhes explicar que já não dá para tanto. Nem aquelas audácias de se trazer a si mesmo à frente, como obra impura e misturada, como registo exaltado, como critério e, nalguns casos, até como uma furiosa síntese. Não se tinha mais nada senão essa disponibilidade assombrosa. Um artista começava por aí, por não se poupar tanto como os demais, por defender que a voracidade deve ser absoluta. “Filmar implica a consciência de uma transgressão. Filmas é uma violência do olhar, uma profanação do real que tem por objectivo a restituição de uma imagem do sagrado”… Mas ao dizer isto, ele sabia como estava difícil para a espécie defender esse talento de atracção-repulsão: “Sou capaz de ser o último dos crentes…” Sabia também da importância que é manter um discurso capaz de “avivar todos esses jazigos esparsos, ignorados e flutuantes” (Mallarmé). De resto, a pior forma de se referir ao tempo, é achar que não nos falta, que o melhor é guardarmos as nossas energias.” Amanhã estou morto e, com um cigarro na beiça, não devo nada a ninguém. Para além do honrado sorriso, dito de parvo, onde é que já se encontrou o espólio de um espoliado? É pedir muito que não me doem nada? Poderá parecer absurdo, mas de facto não me dói nada. Nunca há-de doer nada o nada de ninguém. Amanhã estou morto.” Ficamos assim, com meias palavras, que é o que ainda vai restando depois de as limparmos do bolor. E isto foi um tomar balanço ou ir bebendo o resto dos copos e captando alguns desabafos. Neste episódio quisemos tentar reaver um mapa das artes por cá a partir do contorno a giz dessas ausências que conseguem fazer deste um país extremamente assombrado. Puxamos pelo cinema, numa altura em que entre nós este se tomou de uma mania, e não faltam acólitos para esse culto. Mas, e para nos ajudar a sentir que tínhamos algum chão sob os pés, recorremos aos préstimos do Miguel Faria Ferreira que é um compulsivo do cinema, que vive de ouvido encostado ao chão, e compõe um atlas que cruza distâncias e essas expansões da intimidade através do olhar, do hábito que têm uns tantos de ir dando forma a fantasmas de uma visão eterna.

    As cenas do ódio. Outra conversa com Luís Bernardo

    Play Episode Listen Later Jan 23, 2026 233:54


    Por toda a parte os mesmos sinais, frases, cadências, até as moscas estão a ler o mesmo que nós, esta literatura imunda que tomou conta de cada ruído, mastigamos lendo, como se a nossa falta de carácter ou convicção fosse compensada pela persistência implacável de tudo o que nos cerca, esta doença do que todos sabemos, esta acusação que nos é dirigida, fartos das sórdidas intrigas que parecem repugnar a própria existência. “O apocalipse não nos vem do exterior. Somos nós quem o transporta”, escreveu Eduardo Lourenço. O pior é darmo-nos conta de que toda esta devastação corresponde fielmente à nossa intimidade. De tanto dirigirmos para o mundo um olhar que não quer nada, que é incapaz de obter qualquer tipo de satisfação, de nos aferrarmos ao que não está nem aqui nem em lado nenhum, os nossos desejos vão cada vez mais no sentido de ausências, de abstracções. E isso de comprar barato aqui para ir vender caro ali, essa ganância metida em tudo, que, já em 1758, levou Rousseau a falar de “homens tão odiosos, que se atrevem a ter mais do que é necessário quando outros morrem de fome”, como se explica? E todos esses que se dizem herdeiros dos ideais iluministas e não vivem senão para distorcer a moral e justificar seja o que for... De tal modo o instinto burguês da propriedade se tornou uma força motriz, que não aceita ser questionado. Foi ocupando o lugar de todos os outros instintos e ideais, e quem quer que tenha conseguido agarrar-se a alguma coisa e reclamá-la fá-lo com uma tenacidade desesperada, levando a que a ideia da redistribuição lhe cause um medo de morte. Em todos os lugares constatamos como a vida está identicamente ausente, a humanidade degradou-se por essa submissão a uma ideia de riqueza que se exprime neste mundo como uma coisa grotesca, uma forma carregada de miséria. Esta é uma realidade tão destituída de qualquer razão de ser, de um sentido de equilíbrio, de inteireza, que, por falta justamente dessa interioridade, se viu obrigada a virar-se do avesso. “É uma sociedade que incansavelmente faz a sua própria apologia, ou que se justifica perpetuamente por existir”, diz-nos Baudrillard. “Tudo deve ser tornado público, aquilo que se vale, aquilo que se ganha, a forma como se vive – não há espaço para subtilezas.” As condições existencial e estética confundem-se a um mesmo nível, só podendo ser definidas como autopublicitárias. Tudo só adquire alguma importância a partir do momento em que lhe possa ser atribuído um valor de troca. Assim, a publicidade define inteiramente o teatro das relações sociais. Comprar barato e vender caro, diz-nos Robert Owen, é uma ocupação que deteriora as melhores e mais refinadas capacidades da nossa natureza, acabando por as destruir. O filósofo galês relata como depois de um período de largos anos em que passou por todos os graus de ofícios, das fábricas e do comércio, ficara com a certeza absoluta de que nenhum carácter superior se pode formar neste sistema totalmente egoísta. “Neste sistema não pode haver verdadeira civilização, visto que todos são incentivados pela sociedade ao confronto e muitas vezes também à destruição mútua, através de uma oposição de interesses artificial. É um modo baixo, reles, ignorante e inferior de conduzir os assuntos da sociedade, e nenhuma melhoria permanente, geral e significativa será possível se não surgir uma melhor solução para a formação de carácter e a criação de riqueza.” Como fazem notar os curadores da exposição Complexo Brasil, a palavra portuguesa feitiço foi contrabandeada de uma forma muito curiosa entre tantos idiomas por meio desse subtil desvio do fetiche e do fetichismo, um conceito que, hoje, como sabemos tem apelo e uma força de irradiação e significado tão importante em disciplinas como a economia e a psicanálise. Uma breve nota logo à entrada daquela mostra na Gulbenkian refere como, no século XVI, esta palavra foi usada para “rebaixar as culturas animistas, seus sujeitos periféricos, objectos de escravização”. Tanto tempo depois, o feitiço revela a sua plena maturação, e vemos como carregámos todo este tempo uma maldição, pois éramos nós quem tínhamos chegado ao novo mundo dominados por uma ganância absurda, esse fetiche da mercadoria, que é incapaz de ver seja o que for, de encontrar o mundo na sua riqueza, preferindo extrair algum lucro obsceno e que reduz tudo a uma ausência cuja acção hoje devasta todo o planeta. No fundo, o deserto somos nós. O apocalipse somos nós. Aquilo que fomos perdendo ao atravessar o mundo, tudo aquilo que desprezámos e destruímos enquanto buscávamos alguma fonte de valor para ser levada de volta, tentando aplacar a nossa miséria, isso mesmo significava a nossa indisponibilidade face ao mundo. Os nossos valores nunca foram outro sinal do que esse terror que nos consome, esse vazio. Outra das notas que se podia ler naquela exposição, fala da antropofagia, algo que sempre inquietou as nossas imaginações tão frágeis, sempre representada como um acto de maldade voraz, “um canibalismo glutão”. Mas os curadores esclarecem que a antropofagia, vivida por populações indígenas do século XVI, era um paradoxal rito de reconhecimento da humanidade do inimigo. “Os cativos de guerra, tomados geralmente de povos de mesma língua e costumes, viviam longo tempo em liberdade vigiada na tribo de seus captores, recebiam mulheres como esposas, transformavam-se em parentes afins e eram executados num ato solene de valor iniciatório para o oficiante (que não participava do banquete e entrava em um período de luto no qual se entregava a um processo de identificação com o ‘contrário').” Ainda hoje o canibalismo é usado para instigar em nós esse terror face aos bárbaros, mas já no século XVI Montaigne reconhecia que a antropofagia empalidecia se comparada com a crueldade com que os seus contemporâneos europeus, vendo-se consumidos por guerras religiosas atrozes, “e sem grandeza espiritual para comer do inimigo morto, torturavam e estraçalhavam o inimigo vivo em nome da piedade e da religião”. Aquela estupenda nota termina lembrando o génio do poeta brasileiro Oswald de Andrade, que “tomou a antropofagia como uma arma criativa de combate contra a sujeição cultural do colonizado, e como uma instigação à capacidade de ser outro ao reconhecer o outro em si”. “Tupi or not tupi, that is the question”, escreveu ele. Neste episódio, e com o intuito de levarmos um pouco mais longe as nossas explorações e indagações no confronto com esta terra devastada que parece servir apenas de pasto a fantasmas, contámos novamente com Luís Bernardo, um desses tipos que tem a decência de responder às suas inquietações fazendo um sério trabalho de pesquisa de fontes e análises que escapam inteiramente às intrigas paroquiais em que refocila o nosso enredo mediático.

    Na cama com um, a sonhar com outro, apaixonada por um terceiro. Uma conversa com Carmo Afonso

    Play Episode Listen Later Jan 17, 2026 258:25


    Ao longo dos séculos quantos terão contemplado as possibilidades de se livrarem dos seus perversos corpos? Eles mais pelo desejo de que se sentiam adoecer, elas por se verem encurraladas, sendo-lhes dito que os seus corpos carregavam esse ambíguo poder (graça e maldição), enfeitiçando-os a eles. Talvez muito pudesse ter sido diferente se em vez de interrogar o que as mulheres querem, a pergunta fosse feita na negativa: o que não querem? Mas acatar de vez uma recusa é desde logo mais doloroso, e a insistência, o cerco, o acosso, fundou esse prestígio de um sedutor rapace, daquele que entende que é sempre possível negociar um não, criar condições para que este se torne um sim. “Falar, narrar, fabular, assim como lamber, chupar e sugar exigem uma aprendizagem subtil e interminável” (Eliane Robert Moraes), e falar delas é o primeiro dos privilégios do macho, a possibilidade do assalto que começa por pô-lo em palavras, descrevê-las e o que lhes faria, a fazer as rondas, a tocar com os passos esse instrumento chuvoso, para que a língua dê uma volta na fechadura de uma beleza hermética, começando pelo contorno, por alguns traços, da melena lisa com todos os matizes do negro, a “uma pele que é como o fim de uma raça ou o princípio de outra”, “um corpo de criada filipina e adolescente que saiu estilizada dos cruzamentos de raças, de sangue, de toda essa cultura dos sexos, que ignoramos”… Não faltam mitos sobre as fazedoras de chuva, essas figuras cheias de uma deliciosa intimidade feminina, daquele maternal cansaço de amante. Não se livram desse olhar, dessa avaliação, e também por isso Maria Galíndo insiste em fazer notar como há uma continuidade fundadora entre puta e não puta. Mas reivindica esta palavra: “A palavra puta é essencial e representa-nos, abrange do trabalho sexual até à liberdade sexual; a expressão trabalho sexual é também essencial porque obriga-nos a colocar a prostituição na análise histórica dos trabalhos das mulheres”… “Sem trabalhadoras do sexo não há feminismo”, adianta. “Não estou a falar de uma forma de inclusão ‘caridosa', para as ‘salvar', mas sim precisamente o contrário: ela, a puta, tem o bastão para remover sexualidades, quebrar mitos, diluir as estruturas de todas as mulheres e é, por isto, um sujeito imprescindível." Explica ainda que, “tal como em qualquer actividade de subsistência, neste trabalho desenvolve-se um conjunto de saberes; a cozinheira, a padeira, a peixeira, a vendedora ambulante, todas desenvolvem saberes próprios do seu ofício, a trabalhadora do sexo faz o mesmo. O negócio não é simplesmente cobrar por sexo”. E prossegue: “A perigosidade e a importância dos seus saberes, o lugar que ocupam na sua relação com o universo masculino, é o que realmente não se quer discutir quando se fala de trabalho sexual. Os saberes das trabalhadoras do sexo têm um carácter explosivo.” Ora, é isto que, segundo Galíndo, faz da puta a “anfitriã da mudança social e uma protagonista central do questionamento da norma patriarcal em torno do corpo e da sexualidade”. Considerando que está em processo uma guerra contra as mulheres, com o aumento da violência machista, sendo que “as trabalhadoras sexuais estão a funcionar como dique, como parede de primeiro impacto dessas violências, como lugar onde essas violências se apresentam como legítimas”, para esta anarco-feminista boliviana a puta é uma peça chave uma vez que “ela acumula, mais do que qualquer outra mulher, mais que a esposa, mais que a amante, uma quantidade de conhecimentos sobre a afectividade, a sexualidade, o corpo, as dolências e os complexos do macho”. Seria um desperdício tentar usar da galanteria e do latim para intrujar ou converter uma puta numa amante solícita. Ela já ouviu tudo, e, a qualquer combinação de palavras formulada por um príncipe a cavalo no próprio tesão, prefere antes que lhe paguem o preço acordado. Em vez de um elogio, mais vale outra nota. Talvez seja mesmo de preferir que ele se cale. Uma puta dispensa o homem de todo aquele teatro, de toda a falsificação amorosa. Se isso for importante, se ajudar a que se venha de uma vez, fingirá, e, por um preço, fará todos os papéis, irá bater texto, dar-lhe-á as deixas, contribuirá no que for preciso para que ele se comova consigo mesmo, com os seus sentimentos e intenções, com a imagem que julga que pinta. Tem infinitos recursos, a puta. E podemos mesmo antecipar que a tal ficção da “mulher”, dentro de mais uns anos, só venha a ser sustentada pelas prostitutas, isto num momento em que o capitalismo já reconheceu que, para os seus fins, interessa mais uma força de trabalho sem género. Como assinala Silvia Federici, “as áreas de trabalho em que o modelo da feminilidade celebrado (por exemplo) na década de 1950 ainda é requerido estão rapidamente a desaparecer. Do ponto de vista do trabalho, já vivemos num mundo de género fluído, em que se espera que sejamos femininas e masculinas em simultâneo.” Há uma urgência em diluir os géneros por questões de eficácia, e, em breve, a nostalgia do macho possante de outrora será uma dessas fantasias que apenas as putas satisfarão. Mas, por agora, e como assinala Federici, o mais importante é reconhecer que há maneiras de ganhar um salário bem mais degradantes do que a prostituição. “Vender os nossos cérebros poderá ser mais perigoso e degradante do que vender o acesso às nossas vaginas.” Mas para esta como para outras noções, a audiência prefere ainda agarrar-se ao efeito moral, representando para si mesma, e ignorando o que nos foi dizendo Merteuil, a marquesa que teve a morte de uma prostituta, sobre como isso da mulher como esta sociedade a faz foi sempre o pior dos papéis, a mais sufocante das prisões. “Abrirei as minhas veias como um livro que não foi lido. Haveis de aprender a lê-lo, Valmont, depois de mim. Farei isso como uma tesoura, porque sou mulher. Cada profissão tem o seu jeito. Podeis com o meu sangue renovar a vossa maquilhagem. Procurarei um caminho para o meu coração através da minha carne que não haveis encontrado, Valmont, porque sois um homem, porque vazio é o vosso peito e dentre de vós cresce o nada. O vosso corpo é o corpo da vossa morte, Valmont. Uma mulher tem muitos corpos. Se quiserdes ver sangue, tereis que o tirar vós próprio. Ou então uns aos outros. Tendes inveja do leite do nosso peito, o que vos torna carniceiros. Se pudésseis parir. Lamento, Valmont, que devido a uma lei da natureza difícil de compreender vos seja inacessível esta experiência, proibido este jardim. Daríeis a melhor parte de vós mesmo se soubésseis o que vos escapa e a natureza vos desse razão. (…) É bom ser mulher, Valmont, e não um vencedor. (…) Quereis saber mais. Sou uma enciclopédia agonizante, cada palavra um coágulo de sangue.” Neste episódio, parecendo que não, nunca nos afastámos muito da actualidade, mas para escapar aos convulsivos desarranjos e equívocos para os quais nos empurra a mediocracia, quisemos assaltar aquela margem abandonada dos discursos que não abriram mão de um verdadeiro projecto de transformação social. E para irmos seguindo esse fio de lã e não ficarmos perdidos no labirinto, contámos desta vez com a inteligência e graça de Carmo Afonso, advogada que tem empenhado o seu tempo e os seus conhecimentos para defender mulheres que são alvo da perseguição e enxovalhamento do enredo patriarcal.

    O ponto fraco da realidade. Uma conversa com Rui Cardoso Martins

    Play Episode Listen Later Jan 10, 2026 236:03


    Os mortos não gostam de estar sós. Alguém tem de lhes encher os comedouros, aplacar minimamente os seus apetites. De outro modo a única coisa que o luto pede é vingança, e o sangue só quer beber mais sangue. Contamos histórias também para consolar os mortos. De resto, história e elegia são modos afins, como assinala Anne Carson. A palavra “história” vem de um verbo do grego antigo, que significa “perguntar”, adianta a poeta norte-americana conhecida pela indisciplinada erudição com que revolve a antiguidade clássica. Assim, aquele que pergunta pelas coisas – pelas suas dimensões, peso, localização, humores, nomes, santidade, cheiro – é um historiador. Mas esse perguntar, vinca Carson, não é ocioso. “É quando perguntas por algo que te apercebes de que tu próprio lhe sobreviveste e que, por isso, tens de o carregar contigo, ou de o moldar numa coisa que se sustente por si mesma.” E se Heródoto é tido como o autor dessa função, este refere como tantos objectos e monumentos foram criados de modo a corporizar uma “memória”. O pior em relação aos mortos talvez seja tentar convencê-los de que há um sentido na sua morte, de que devem resignar-se. De algum modo, toda a consciência, mesmo aquela que está já para lá desta vida, continua inconformada, incapaz de aceitar os termos que lhe foram colocados. Poucos são aqueles que aceitam se lhes dissermos que estavam acabados, pois faz parte do impulso dos homens sentirem-se inacabados, e, tantas vezes, a morte só serve para refrescar certos impulsos, expressos em tantas obras, as quais parecem exigir uma vida sem fim. É claro que os mortos, no seu perpétuo desassossego, são reflexos nossos, e escavam em nós esse gosto pela persistência que nalguns momentos consegue ser mais forte do que qualquer perigo. Empreendemos o diálogo com os mortos de modo a criar uma rede de relações tão apertadamente tecida que nenhum desses momentos em que mais nos esforçamos por nos enraizarmos no tempo possa cair do mundo por completo. Os vivos incomodam os mortos no seu sono porque de algum modo não chegam a acreditar em si mesmos. Em épocas de mesquinha depressão, como alguém notou, proliferam esses ruidosos pregadores que se substituem à consciência dos mais fracos, que assim vão anestesiando os seus receios interiores com esse grasnar dos gansos. Outros, vagueiam buscando esses ecos caídos do ar só respirável pelos mortos, só permitindo exageros de imaginação que encontrem algum tipo de ressonância ou correspondência com o passado, como se temessem acima de tudo serem arrancados ao embalo da história. De um modo ou de outro, o presente parece-nos demasiado incerto, como uma hipótese remota, um sonho ou pesadelo meio imbecil, formulado em termos demasiado precários. Há um efeito de perda da espessura, de incapacidade de se situar face à tradição, num tempo em que ninguém reconhece propriamente uma língua-mãe. Estamos capturados numa espécie de orfandade da linguagem, uma vez que, como assinalava Elias Canetti, “a maioria das pessoas, actualmente, já mal domina a fala. Exprimem-se com as frases dos jornais e dos meios de comunicação social e dizem – sem, realmente, serem o mesmo – cada vez mais o mesmo.” A falta de uma experiência obtida dentro de um universo de referências que nos sejam úteis, manejáveis, essa espécie de exílio face a um ambiente propriamente cultural, a uma consequência do lugar e a uma proximidade justificada com os outros, faz de nós seres incapazes de se situarem numa época, esta ou outra qualquer. Daí essa ansiedade que leva tantos a procurarem vincular-se ao poder, mesmo que só seja possível fazê-lo da forma mais degradante, que é ser arrastado, deixar-se subjugar inteiramente, até nas suas crenças e disposições mais íntimas, nos humores, e, particularmente, na mobilização odiosa que este sempre constrói. É uma questão de todos os tempos, mas que, hoje, nos assola constantemente… “O poder sempre conquistou as massas, precisamente porque era poder. E as massas gritavam ‘hurra!' e ‘viva', cantavam, gritavam, matavam, deixavam-se matar, e afundavam-se no anonimato. Era uma história velha como a morte. Se as massas conquistassem o poder e – finalmente, por uma vez – o mantivessem, o poder perderia a sua essência e o seu nome, as massas o seu anonimato, a sua falta de humanidade” (Jonathan Sperber). O que rareia por estes dias são o género de figuras que, de um modo quase instintual, rejeitam o poder. “É muito curioso que todos os pensadores, na História da humanidade, que entendem alguma coisa do poder efectivo o aprovam”, nota Elias Canetti. “Os pensadores que são contra o poder mal penetram na sua essência. A sua aversão por ele é tão grande que não gostam de se ocupar com ele, pois temem ficar manchados por ele. A sua atitude tem algo de religioso.” Em sentido contrário, e isto é uma evidência num tempo em que os jornais e todos os pontos de articulação onde antes nos era dado a sentir o tempo, onde havia um esforço de ir preparando aquele esboço da história, da crónica desta época, caíram nas mãos de seres embevecidos pelo poder, uma classe ansiosa de sabujos, serviçais, canalhas, falsários, propagandistas, que ocupam todas as posições de evidência e desgastam qualquer possibilidade de escaparmos aos enredos do poder. Querem por todos os meios degradar a realidade, rebaixa-la às suas fixações, aos seus anseios e aspirações. “Uma ciência do poder só foi desenvolvida por aqueles pensadores que o aprovam e se comprazem como seus conselheiros”, diz-nos Canetti. E por isso a história, a crónica que nos servem estes seres apenas responde a este tipo de perguntas: “Qual é a melhor maneira de conquistar e manter o poder? A que se tem de estar atento, para o conservar? Que escrúpulos se tem de pôr de parte por prejudicarem o seu exercício?”. Neste episódio, se não escapámos inteiramente às nossas fragilidades, tivemos a sorte de contar com o embalo de um cronista de outra estirpe, um faz-tudo, que viu muito, ouviu tanto, e que tem sabido rebentar com a moldura, deixando-se desafiar e comover com outros sinais, com essas figuras quase sempre condenadas ao anonimato e, em muitos casos, à invisibilidade. Rui Cardoso Martins veio ajudar-nos a enxotar esse tempo mais imediato, ruidoso, de moscas moles, e a contrariarmos a fuga ao concreto, essa tendência para nos enrodilharmos em leituras abstractas ou em ambições de conquistar o que nos é mais distante, precisamente para evitarmos o confronto com aquilo que está mais próximo, por receio, por sentirmos a sua perigosidade e preferirmos antes apontar a esses outros perigos de consistência desconhecida.

    Cada Narciso tem um lago no bolso. Outra conversa com Changuito

    Play Episode Listen Later Jan 3, 2026 333:35


    Por toda a parte esta lama de palavras a nascer, coisas atravessadas, e, nisto, talvez consigamos já antecipar essas frases sem nexo perante uma catástrofe desconhecida. Viramo-nos para as obscenidades porque estas ainda conseguem espicaçar a carne solitária, mas, de resto, o que podemos saber nós? Andamos doentes com as palavras, com esta sensação de possuir uma parte cada vez mais limitada do seu significado, e há esses ruídos de fundo, o burburinho que nos dá a sensação de estarem atacadas de qualquer coisa, bichadas. Talvez venham daí os usos poéticos, o esforço de dar trinta passos nalguma outra direcção antes de ser atingido por alguma caótica premonição, impor-lhe rimas de modo a dominar a respiração, avistando bárbaros, pedindo este ou aquele sinal. O que era suposto conseguirmos fazer dela? Derrotar o tempo, detê-lo de um modo encantador… derrotar a linguagem e o valor de uma sociedade existente…? Mas pertencemos já a um tempo que soa tão no futuro (dois mil e vinte e seis) e, no entanto, ninguém supunha que pudesse ser algo tão miserável e confuso, e as distâncias se medissem cada vez mais pelo apagamento, sendo que olhamos para as estrelas como sinais de trânsito frios, e os horizontes da ficção-científica deram lugar apenas a formas de usura calculada antecipadamente, enquanto o pequeno ecrã se multiplicou e nos segue por toda a parte, já não vomita o mundo apenas para dentro do quarto, mas, por entre a parada de zombies varada de spots publicitários, acelera tudo e no mais pequeno detalhe somos capazes de pressentir esse calafrio que nos provocam os escombros, a ruína das nossas existências, que cada vez se aproxima mais da superfície. Somos os mortos da guerra que amanhã irá rebentar. E em razão de uma convivência tomada pelo absurdo, no seio desta claridade débil, cada um de nós se desgosta e se entrega a um abandono pouco profundo, andando à deriva, investigando os próprios sonhos e, assim, lemos, escrevemos e conversamos, mas o que nos dizemos verdadeiramente? “Os loucos fazem parte de uma nação qualquer, e a sua linguagem, por incoerente que seja nas palavras, é sempre articulada em sílabas”, nota Edgar Allan Poe. De algum modo um excesso de sensibilidade, uma predisposição para se deixar perder, impede um tipo de levar uma frase até ao fim, enredando-se nela, preferindo não a deixar impor sobre nada o peso de uma sentença. Voltamos ao cuidado de brincar com as coisas… “Acaso nos lembramos de quão facilmente os nossos jogos poderiam decompor, reformar ou tornar a descrever a realidade? O procedimento mágico era sempre e em primeiro lugar a repetição: qualquer criança conhece o fenómeno a que os psicólogos chamam ‘saturação semântica', onde uma palavra é repetida até parecer esvaziada de sentido e se tornar apenas som – ‘repetir, monotonamente, uma palavra comum, até que o som, por força da repetição insistente, deixe de transmitir qualquer ideia, qualquer que ela seja, à mente', tal como descreve Poe na sua história Berenice” (Ben Lerner, “Ódio à Poesia”). A maioria de nós orientamo-nos menos pelo significado das palavras do que pelos sinais daqueles em quem aprendemos a confiar. Precisamos da voz dos outros para saber onde fomos ou estamos, aquilo em que nos tornámos ou quem costumávamos ser. Nunca deixámos de jogar ao quente e frio, ao Marco Polo. A razão da grande desorientação em que vivemos prende-se com esta coisa imensa que se interpôs entre nós. Pasolini, nos anos 50, mostrava ainda a sua confiança nas pessoas, afirmando que não se trata de que sejam estúpidas ou más, mas que tendem a ficar surdas. “O estrondo da máquina que puseram em movimento, e que as transporta para o precipício, é de tal forma alto que o choro distante daqueles que se encontram excluídos da máquina porque não têm bilhete nunca chega aos ouvidos ensurdecidos do agrupamento alegre.” Também é difícil levar a sério aqueles que poderiam ter alguma coisa para nos dizer de importante, de transformador, aqueles que são capazes de vislumbrar os contornos dessa coisa inaudita que há muito deixou de nos pedir licença, e que se introduz sem nenhuma timidez, mas de forma avassaladora, impondo-se pela devastação da realidade como a conhecíamos até ali. Aqueles que se dão contam disto, como assinala Poe, são muitas vezes os espíritos que arriscam passar por idiotas. “A faculdade de análise não deve ser confundida com a simples engenhosidade porque, enquanto o analista é necessariamente engenhoso, sucede muitas vezes que o homem engenhoso é absolutamente incapaz de análise. A faculdade de combinação ou construtividade, através da qual se manifesta geralmente esta engenhosidade, (…) apareceu em seres cuja inteligência era limítrofe da idiotia (…)”. Neste primeiro episódio de um ano que de modo nenhum consegue desentranhar-se da couraça enferrujada em que já nasceu, e que tão dificilmente exprime algo de novo, quisemos regressar a algo parecido com uma casa da partida, ou pelo menos uma zona de muitas confluências, um porto inseguríssimo onde um farrapo de Shakespeare se mistura com bactérias das mais antigas, vindas de toda a parte, um local coberto por nuvens de arquitectura instável, um sítio onde se pode ir ao encontro de muitos mais do que aqueles que por lá passam, enfiar as mãos pelos livros sem fundo, tocar esses reflexos mais e menos mortais, dependendo de quem olha de cada um dos lados. Uma livraria que é um comboio para sempre parado na estação, cheio desse riso dos porões, de um modo de corrigir os lábios pelo que se lê em páginas onde respiram tantos mortos e vivos, sem ser clara a diferença. Ali, espreitando à volta e através do Changuito, que trabalha no osso para nunca deixar de ser um mestre desta infinita e generosa cerimónia, entre outros textos e percursos que nos deu a ver, lemos um texto que é hoje um desses raros faróis que conseguem atravessar este medonho limbo crepuscular. “A Mitificação da Realidade”, de Bruno Schulz, autor do magnífico Lojas de Canela, abatido com duas balas na cabeça por um oficial da Gestapo numa rua do gueto da sua cidade natal, Drohobycz, isto para ajustar contas com um rival, um outro oficial nazi, que admirava os desenhos de Schulz e o tinha tomado sob sua protecção. “O essencial da realidade é o sentido. Para nós, o que não tem sentido não é real. Cada parcela da realidade vive consoante aquilo de que participa num sentido universal. Exprimiam-no velhas cosmogonias ao sentenciarem que ‘ao princípio era o Verbo'. Para nós o que não tem nome não existe. Nomear uma coisa equivale a englobá-la num sentido universal. Uma palavra isolada, peça de mosaico, é produto recente e resultado – já – da técnica. A palavra primitiva era divagação que girava em redor do sentido da luz, um grande todo universal. Hoje, na sua acepção corrente, a palavra não passa de fragmento, rudimento de antiga e integral mitologia. Daqui a sua tendência para se regenerar, repelir, completar-se para regressar ao integral sentido. A vida da palavra. A vida da palavra é tender para milhares de combinações como os pedaços do corpo truncado da serpente lendária, que se procuravam nas trevas. Este organismo complexo foi rasgado em vocábulos solitários, sílabas, discursos quotidianos; utilizado sob esta forma nova, fez-se instrumento de comunicação. A vida e o desenvolvimento do verbo foram arrastados pelo caminho utilitário, submetidos a regras estranhas. Mas há neles uma regressão, mal as exigências da prática abrandam, mal a palavra, liberta daquilo que a constrange, é abandonada a si própria e restabelecida de acordo com as suas próprias leis: tende assim a completar-se, a reencontrar antigos laços, o seu sentido, o seu primordial estado na prática original das palavras. Só então nasce a poesia. Poesia é um curto-circuito de sentido entre as palavras, inesperado fluxo de mitos primitivos. Utilizando as palavras correntes, esquecemos que são fragmentos de histórias antigas e eternas, que estamos – como os bárbaros – a construir a casa com destroços de estátuas dos deuses. Os nossos termos e os nossos conceitos mais concretos são velhos derivados seus. Nas nossas ideias, nem um só átomo deixa de descender deles, deixa de ser uma mitologia transformada, estropiada, alterada. A mais primitiva das funções do espírito é criar contos, ‘histórias'. A ciência sempre foi buscar a sua força motriz à convicção de encontrar, depois de fazer esforços e chegar ao cimo dos seus andaimes artificiais, o derradeiro sentido do mundo. No entanto, os elementos que utilizava já serviram e provêm de antigas e desmontadas histórias. A poesia reconhece o sentido perdido, restitui as palavras ao seu lugar, liga-as segundo significados vários. Manejado por um poeta, o verbo recupera consciência do seu primeiro sentido, se assim podemos dizê-lo, floresce espontaneamente e recupera, de acordo com leis próprias, a sua integralidade. Por isto há-de toda a poesia ser criação mitológica, tender a recriar os mitos do mundo. A mitificação do mundo não terminou. O seu progresso só foi travado pelo desenvolvimento da ciência, empurrado a uma via lateral onde vegeta porque se extraviou de sentido. A ciência não passa, também ela, de um esforço para construir o mito do mundo, pois o mito está contido nos elementos que ele utiliza, e não podemos ultrapassar o mito. A poesia atinge o sentido do mundo por dedução e antecipação, a partir de grandes atalhos e audaciosas aproximações. A ciência visa o mesmo objectivo metodicamente, por indução, levando em conta todo o material da experiência. No fundo, ambas procuram o mesmo. Infatigável, o espírito humano acrescenta à vida as suas glosas – mitos –; infatigável, procura ‘conferir um sentido' à realidade. O sentido é o que leva os homens ao progresso da realidade. É um dado absoluto, impossível de deduzir de outros dados. Não podemos explicar por que razão uma coisa nos parece ‘sensata'. Conferir ao mundo um sentido é função indissociável da palavra. A palavra é o órgão metafísico do homem. Com o tempo, a palavra fica congelada, deixa de veicular novos sentidos. O poeta confere às palavras a sua virtude de corpo condutor criando acumulações onde nascem tensões novas. Os símbolos matemáticos são um alargamento da palavra a outros domínios. Também a pintura é um derivado do verbo, do que não era ainda sinal mas apenas mito, história, sentido. Em geral, considera-se a palavra como sombra da realidade, como seu reflexo. Mais justo seria dizer o contrário! A realidade é sombra da palavra. No fundo, a filosofia é filologia, estudo profundo e criador do verbo.”

    O render da guarda mediática. Uma conversa com João Moreira da Silva

    Play Episode Listen Later Dec 26, 2025 254:35


    Quando falarem deste tempo dentro de uns 25 ou 50 anos, o que dirão? Quando não restar já grande coisa, senão alguns detalhes significativos rearranjados e dispostos segundo outra ordem para nós oculta, o que sobressairá de entre a confusão em que vivemos enredados? Que leitura farão dos textos capazes de sobreviverem a si mesmos, à sua perspectiva limitada, libertando um eco capaz de expressar outra coisa além desta percepção da queda, da fuga pela dissipação, a par do desejo de trair as nossas últimas esperanças? O pior castigo deste tempo é ainda a ocultação, a dilapidação constante do que não colabora com a realidade tal como ela se apresenta. Desfeitos pelo ressentimento, deixados à mercê da pior corja que alguma vez pisou esta Terra, o mais triste é nem ver confrontado tudo aquilo que nos degrada intimamente, e impede que a época reconheça o seu elemento trágico. Ortega y Gasset admite algures que possam existir duas classes de épocas históricas: “numas, os homens preocupam-se mais em granjear prazeres do que em evitar dores; noutras, sucede o inverso. Um sintoma económico pode servir de índice para as distinguir: nas primeiras paga-se mais ao jogral, fornecedor de prazeres, do que ao médico, removedor de dores; nas segundas, paga-se mais ao médico do que ao jogral. Nós vivemos resolutamente numa idade desta segunda espécie: possuímos excelentes clínicas e espectáculos detestáveis; inventamos novos analgésicos, mas não diversões. Não aceitamos outra medicina que não seja a mais recente e, em contrapartida, fingimos comprazermo-nos assistindo a um drama onde ainda hoje, como há cinquenta anos, dialogam um marquês e uma adúltera. Ninguém se admire de que esta capacidade de fingir a adaptação a formas que, para nós próprios, perderam já virtude e prestígio, se manifeste em toda a vida contemporânea. Se somos insinceros nos nossos prazeres, como não o seremos em tudo o resto? Inscrevemo-nos em partidos políticos cujos programas já não despertam o nosso entusiasmo, conservamos instituições dissecadas, lemos autores clássicos que não entendemos ou que nos falam do que não nos importa, etc. Os espectáculos em voga permitiriam, pois, reconstruir o resto do nosso carácter, visto que em todos os actos de um ser vivo reside certa unidade de estilo e uma ineludível solidariedade. Quanto mais supérfluos pareçam aqueles mais livres são e, portanto, mais expressivos da personalidade que os executa. Diz-me como te divertes e dir-te-ei quem és.” Mas quem se diverte verdadeiramente por estes dias? Todos os rituais penosos e celebrações ou festas a que nos submetemos como antes quando éramos obrigados por algum familiar mais fervoroso a assistir nem que fosse à missa do galo, tudo isso diz muito sobre a própria degradação dessa forma de entretenimento perpétuo a que, por hábito, continuamos a chamar “espectáculo”. Esta sociedade submetida a esse signo apenas é capaz de produzir um fastio absurdo, como aquele que se sabe condenado e não consegue retirar qualquer proveito ou gosto nem do que faz nem daquilo que prova ou consome. Continuamos a assinalar o melhor que podemos a passagem do tempo, certos marcos infaustos, efemérides inúteis, mas ninguém consegue deixar de perceber como o próprio tempo está desfeito, e nada o torna mais evidente do que dar por estes jovens enrugados que se apoiam em fragmentos de estátuas deitados por terra cobiçando um prestígio que está de todo ausente do mundo em que nos calhou viver. Tudo são acenos e vénias feitas a algum fantasma do nosso passado, e a arte decaiu na composição de cenas religiosas que apenas trabalham para tentar estancar a sensação de que já nada importa, para segurar essa solenidade oca patrocinada oficialmente, todo esse logro de que nos vemos cercados, e que não passa de uma concessão às fantasias de um quadro geriátrico, um bando de velhos cujo único projecto é construírem os seus túmulos dourados onde pretendem selar-nos a todos junto com eles. A juventude vê o seu preço baixar a cada estação, já não sustenta mitos próprios, e de uma condição do espírito, de uma capacidade de fazer apelo ao sangue e ao fel, passou a bastar-se com o aguardar pacientemente a sua vez, a ver se lhe toca uma parte graúda da herança familiar. Mas, como assinalava Gil de Carvalho, “na viagem de um astro a órbita apodrece". Não temos ninguém capaz de apontar uma rota às profecias, porque vimos a própria inspiração degradar-se, não sabemos como mergulhar nos nossos desejos de forma a instigar em nós aquela cólera que seria capaz de nos libertar de todo este peso. “Pois bem: creio que poucas coisas definem tão bem uma época como o programa dos seus prazeres”, vinca o filósofo espanhol. “A própria ciência não representa com tanta fidelidade a idade em que se produz; porque, se exceptuarmos a filosofia, é antes uma resposta utilitária às urgências do meio do que uma exigência espontânea e uma intimação original ao contorno. Pelo contrário, as nossas aspirações, apetites e fruições constituem o nosso ajuar personalíssimo. São aquilo que nós trazemos ao mundo; o resto é o que o mundo nos concede. Por esta razão me parece muito significativo o facto de nós, ocidentais, termos vivido durante trinta anos sem fruir de um espectáculo afim. Porque não soube a geração anterior à nossa criar uma nova forma de diversão colectiva que coincidisse plenamente com a sua sensibilidade? À maneira dos sacerdotes de um deus extinto, assistimos sem fé a espectáculos sobreviventes que fizeram as delícias dos nossos avós, mas que para nós não passam de uma penosa obrigação. Desconfio muito de quem não é leal aos seus próprios prazeres — quero dizer, de quem não sabe claramente quando se aborrece ou quando se diverte, ou não se atreve a empenhar-se com denodo em gozar, ou não acerta em satisfazer as suas aspirações de deleite. Todo o organismo são apresenta à existência um orçamento de prazer que tem de ser satisfeito, sob pena de um desequilíbrio mórbido. Pelo contrário, o animal doente costuma perder, antes de mais nada, o seu afã pelo prazer.” Aqui estamos nós, sepultados vivos, e a deixar que o nosso tempo se esgote, sem qualquer reivindicação própria, nem de prazeres tumultuosos capazes de nos fazer ferver o sangue e preparar-nos um ímpeto revoltoso. Vemos já uma geração de novos imbecis renderem a guarda nas posições onde se reproduz a mesma fábula grotesca sobre a nossa realidade política, que tem como único fim levar-nos à abulia, à desistência de resgatarmos o horizonte político. Neste episódio, para lançarmos mais algumas hipóteses e continuarmos este balanço epocal à beira de mais um final e recomeço tão equívocos quanto irrelevantes, contámos com um jovem que tem feito as suas investigações sobre o passado de forma a perceber a miserável continuidade que vamos suportando nos nossos dias. João Moreira da Silva anda a estudar a história de São Tomé e Príncipe e o colonialismo português em Cambridge, e se está ainda à procura de um modo de romper e cortar com as disciplinas aplicadas do percurso mais atilado para se ir longe neste país (um país cada vez mais distante de si mesmo), consegue ter alguma perspectiva dessa deriva e do desfasamento entre os mais jovens e a própria noção de juventude.

    Heiner Müller e outros vampiros. Uma conversa com Adolfo Luxúria Canibal

    Play Episode Listen Later Dec 19, 2025 201:51


    Neste assalto à Idolátrica, fomos tomando embalo e o pior hálito que nos foi possível conjurar recitando algumas das piores passagens ou sinais destes anos putrescentes, mas também com aquela divina rudeza e confiança de quem sabe que há mais vida nos pântanos do que nas alturas. No fundo, estamos tomados dessa convicção de que, mesmo se nos deixassem a falar sozinhos, continuaríamos como até aqui, afinal, “para quem escrevemos senão para os mortos omniscientes no pó”, e mesmo reunindo ânimo entre ruínas, restos. Nisto como em tantas outras coisas, aproveitamo-nos do uso que Müller faz do conceito de história, rejeitando a posição do cronista, mas também a do filósofo, e preferindo a do poeta. Não se trata de contar o que se passou, como se passou, nem de procurar enunciar ou retirar uma lição. Como assinala Eva Brenner, trata-se de confrontar “a sua audiência com enunciados, imagens e cenas montadas, justapostas para desmistificar a história. Ao destruir o acto de contar histórias – a explosão do continuum temporal e das suas conexões causais – ele procura afastar o horror do imutável". O gesto poético é então, de certa maneira, esse jogo de fragmentos, a aposta numa incompletude radical que confronta o leitor ou o espectador com a desolação da catástrofe, que os atrai para a ruína desafiando-os a tentar escutar “o renovado zumbido de poderosas asas”. Isto é, a verdadeira experiência histórica só poderá ser a do que se abre ao poema e que dele tenta produzir um sentido, que o completa. A ferramenta do poeta, para Müller, é a memória – “desenterrar os mortos uma e outra vez” – e a utilização, tanto política quanto poética, que faz dela. Num tempo em que todos falam a mesma língua, manipulada, adulterada, pobre e vazia de conteúdo, é importante assinalar as vezes que forem precisas que “a linguagem é mais do que sangue” (Franz Rosenzweig). Ao contrário do que diz a frase de Talleyrand, tantas vezes papagueada, a linguagem não existe para ocultar o pensamento, para que as pessoas ardilosas possam manipular os outros, apenas os papalvos não percebem como a linguagem, na verdade, nos denuncia, e acaba por apontar precisamente aquilo que desejamos ocultar, seja de nós próprios ou dos outros. Tantas vezes a expressão de convicções terríveis, a colagem aos discursos odiosos, não passa de uma forma de certas pessoas procurarem suprir os equívocos, lacunas e incertezas de formações que deixam tanto a desejar. Essas frases de ordem repetidas em tom de declamação, fáceis de decorar e ocas de conteúdo, ou cujo o único sentido é provocar irritação, são a reivindicação de uma participação política por parte daqueles que nunca se deram ao trabalho de pensar como o horror se transmite a partir do momento em que a banalidade se serve dele para coçar o seu tédio. A linguagem fascista não procura estimular nem o pensamento nem a imaginação, mas apenas criar divisões, confundir tudo. A linguagem deixa de ser uma aventura, sendo que, como vinca Steiner, uma linguagem viva é a maior aventura de que o cérebro humano é capaz. Mas uma linguagem que deixa de ser vivida, e é apenas falada, permite introduzir o horror como um elemento constante do nosso quotidiano. Uma das primeiras punições contra os judeus na Alemanha nazi passou por proibi-los de frequentar as bibliotecas. De algum modo, os fascismos actuais também procuram vingar-se daqueles que se exprimem em línguas que arrastam uma série de memórias, que não servem apenas para assinalar a devastação interior desses outros que tão desastradamente as falam. A repetição sistemática de mentiras só pode deturpar a realidade se primeiro for feito um esforço de desvirtuar as palavras, empobrecer os conceitos. Como recorda Victor Klemperer, o nazismo embrenhou-se na carne e no sangue das massas por meio dessas palavras, expressões e frases deturpadas e impostas pela repetição, milhares de vezes, até serem aceites inconsciente e mecanicamente. “As palavras podem ser como minúsculas doses de arsénico: são engolidas de forma despercebida e aparentam ser inofensivas; passado um tempo, o efeito do veneno faz-se notar.” Este mesmo clima de indiferença, de relativismo absoluto, impregna hoje os debates públicos, as conversas íntimas. É raro contactarmos com esses discursos que nos fazem regressar à língua, essa língua por detrás da qual, dispersa, fraca e de algum modo doente, resiste uma paixão de quem anseia curar-se de todo este veneno. E se os anúncios que nos cercam e moem os nervos são anúncios de nada, se são cada vez mais constantes esses elementos venenosos que infectam os idiomas, que autorizam a maior violência a coberto de todas as distracções e da indiferença geral, se mesmos os artistas e pensadores não exprimem nada que signifique um verdadeiro risco, vimos lembrar este poeta e dramaturgo que em vida se ocupou-se de baralhar os tempos, navegando pelos seus rios de sangue e violência. A narrativa que pôde compor apresenta-se-nos hoje como uma espécie de mapa apócrifo, desnivelado no tempo e no espaço, frágil, em permanente recomposição, cheio de encontros sórdidos entre ruínas, ao mesmo tempo que dedicou o seu melhor esforço, uma disponibilidade impetuosa, a resgatar os mortos, essa “outra metade do real”, para uma conversa infinita e indispensável. Assim, lembramos como os últimos artistas entre nós são os criminosos. Os únicos que ainda preservam o seu ânimo feroz e à margem da compulsão mais ordinária, dos ditados, da moral. Estes preservam o desejo, a radicalidade e o risco. “Não há nada de mais imoral do que roubar sem riscos”, vincou Albert Cossery. “É o risco que nos diferencia dos banqueiros e dos seus émulos que praticam o roubo legalizado com a cobertura do governo.” Também a arte não encerra já qualquer desafio, não afina instintos ulteriores inclinados sobre a depravação. Qual desses artistas por aí tão celebrados é ainda capaz de causar-nos calafrios? Que ameaça resiste nessas obras e peças, performances, manifestos? Tudo serve apenas para aliviar a repugnância que sentimos por nós próprios. Não passam de antidepressivos, de formas de nos exceptuarmos das evidências da degradação e do desastre que consumiu tudo. Assim, e seguindo o repto de Müller, marcamos encontro com o seu espectro. Desta feita, a dupla da casa rumou a Braga para a gravação de um episódio ao vivo, desta vez com um dos líderes da conspiração vampírica nesse bastião da beataria, Adolfo Luxúria Canibal, poeta, tradutor (entre outros, de Müller), letrista e vocalista do grupo Mão Morta.

    Ama como a estrada termina. Outra conversa com Joana Matos Frias

    Play Episode Listen Later Dec 13, 2025 203:52


    No pensamento selvagem que é atributo da poesia não há universo natural. Tudo deve ser inventado, resistindo de modo fulgurante mas temporário num espaço e num tempo rarefeitos por passos de magia que abrem margem a uma desconfiança magnífica, a uma forma de crítica radical que não admite já que nada seja estático. Ali o que há é uma estratégia de luta generalizada, um desafio lançado aos limites. Há uma promessa absurda nesse hábito de fazer dela uma função constante. Fazer-se cada vez mais estranho numa terra que começara por nos ser familiar. Se a poesia nos encaminha para as zonas de maior diferenciação expressiva, podemos admitir que a poesia é uma ficção da linguagem, um modo inconstante de se propor, fazer bifurcar o tempo e os caminhos que transitamos. Ali as fronteiras são lábeis, damo-nos a possibilidade de experimentar os ritmos, assumir uma responsabilidade apenas no modo como estes fazem emergir as formas, permitindo-nos aceder às zonas ocultas dessa cidade que durante séculos se amuralhou “por detrás da fábula de um mundo objectivo, verídico e necessário”. Como escreve Eduardo Pellejero, “tal é o sentido profundo da poética, a vocação da sua procura sempre retomada, do seu destino incerto. Esse vazio (esse excesso) que nos move a continuar a escrever quando já parece ter-se esgotado o que havia para dizer, e que nos convida a sonhar (a lutar) quando a claridade meridiana da linguagem adelgaça (até desaparecer) a sombra das coisas, a astúcia da razão, e a resistência da carne.” Começamos por invejar a realidade e, depois de tantas aproximações, a nossa compreensão atinge um nível de saturação e passa à sua crítica, acabamos em alguns momentos por rechaçá-la, antes de voltarmos a reconciliar-nos com ela e a invejá-la de novo. No entanto, não há nada que nos reconduza de forma mais decisiva à inércia e a uma esclerose das faculdades imaginantes do que estar muito seguro sobre o que possa ser a realidade, sobre os limites da produção do real, essa que acaba por ser a forma mais estúpida de consentir nos enredos e coerções que procuram desgastar-nos e reforçar a sensação de impotência, colocando-nos à margem da investigação no campo das possibilidades que a poesia abre. Em vez de estarmos lançados no terreno dessa “antropologia especulativa” (Juan José Saer), permitimos que sejam os valores instituídos a impor-se à nossa vida imaginária. Hoje é mais válida do que nunca aquela interrogação formulada por Eduardo Guerra Carneiro num dos seus poemas em prosa: “Aqui, entre nós, quem nos conta o percurso, divino ou nocturno dos ladrões de fogo? Quem inventa a história das mil e outras noites?” Na sua obra essencial em que procura interrogar os elementos decisivos na estrutura da lírica moderna, o filólogo e teórico da literatura alemão Hugo Friedrich, incita-nos a redescobrir a poesia moderna na sua capacidade de corroer e abrir gretas na totalidade, instalar uma suspeita, aconselhando o leitor a habituar o olhar à obscuridade que recobre esta função, a qual alimenta uma tal desordem nos modos de nomear e ordenar o mundo a ponto de cultivar em nós o sentido da falta, uma forma negativa e até cruel de trabalhar a esperança. “Em toda a parte observamos, nela, uma tendência a manter-se o mais distante possível da comunicação de conteúdos unívocos. [...] Quando a poesia moderna se aproxima de realidades coisas ou homens, não as trata de modo descritivo, nem com o calor da familiaridade do ver e do ouvir; transporta-as para a esfera do não-familiar, do estranho, da deformidade. A poesia já não quer ser medida por aquilo que comumente se chama realidade, ainda que como base de lançamento para a sua liberdade assuma em si alguns resíduos desta. A realidade é desvinculada da ordem espacial, temporal, objetiva e espiritual. [...] Dos três comportamentos possíveis da lírica – sentir, observar, transfigurar, é este último que predomina na poesia moderna, tanto na visão do mundo quanto na linguagem. Segundo uma definição haurida da poesia romântica (e erroneamente generalizada), a lírica é considerada muitas vezes a língua do sentimento, da alma individual. O conceito de sentimento implica a ideia de uma distensão mediante a entrada em um ambiente espiritual que até o mais solitário dos homens compartilha com todos aqueles que sabem sentir. É precisamente essa ‘facilidade' comunicativa que é deixada de lado pela poesia moderna. Ela prescinde da humanidade no sentido tradicional, assim como da ‘experiência vivida', do sentimento e muitas vezes até do Eu pessoal do poeta. Este não participa de sua representação como indivíduo privado, inteligência poetante, como 'operador' da linguagem, como artista que exercita os actos metamorfoseadores da sua fantasia imperiosa – ou do seu irreal modo de ver – sore uma matéria qualquer, pobre de significado.” Perante discursos tendentes ao fechamento da poesia, ao reforço do domínio de uma realidade imediata, torna-se essencial hoje fazer um balanço sobre os modos de deserção que têm marcado a poesia no primeiro quartel deste século, e essa tentação de se render à descrição de elementos concretos segundo os padrões de uma realidade unívoca, num universo encerrado na complacência do genérico, afastando a possibilidade da irrupção de um imaginário poderoso que possa contestar a malha sufocante que nos cerca. Neste episódio, e no intuito de aprofundar um balanço crítico sobre as fragilidades da poesia no que toca a intensificar a experiência do mundo, pedimos a Joana Matos Frias que se juntasse de novo a nós para irmos pensando a ausência de um horizonte colectivo entre nós, e uma derrota daquela noção da impessoalidade da palavra poética, entendida como puro acontecer do mundo, para dar lugar ao frívolo orgulho de um bando de proprietários, esses poetas cada vez mais empertigados e convencidos do seu próprio valor, que se servem de qualquer oportunidade para exprimir o seu desdém e alheamento uns face aos outros, e a sua recusa de todas as exigências colectivas que esta prática possa impor-lhes.

    A caderneta de cromos da cultura portuguesa. Outra conversa com Vítor Belanciano

    Play Episode Listen Later Dec 5, 2025 242:31


    No dia em que a Sonae cortar a benemérita linha de vida que estende ao jornalismo português e o Público deixar de ir para as bancas, o Ípsilon ainda poderá fazer o pitch à Panini, safando-se de forrar o túmulo do jornalismo cultural, e com aquele sebo de rodízios que lhe é característico ser-lhe-á dada a oportunidade de produzir as várias temporadas do álbum de família da enxofrada cena cultural a que vamos tendo direito. Irradiando por meio de um sinal cada vez mais débil e para uma comunidade desintegrada ou submetida às lógicas de reprodução acríticas do consumo de massas, este suplemento vive graças à lógica de agenciamento das “figuras, figurantes e figurões” que compõem esse quadro, e o sistema agradece-lhe pela forma como consegue estabilizar tudo a um mesmo nível, naquela linha flutuante e deambulatória com que se ligam os dias e os juízos, segundo uma pretensão cosmopolita, fornecendo as fantasias em regime prêt-à-porter para a afectação de uma pose nos adros do nosso pequeno recreio social onde essas coisas contam. A propósito daquele número especial, que não deixou de nos fornecer matéria para algumas facécias, o que se mostra mais persistente nestas iniciativas é a jactância triunfalista. Dá a sensação que sempre que há a necessidade de corresponder a uma efeméride, nestas ocasiões só arregaçam as mangas para melhor se porem a cheirar a merda acumulada nas cavalariças. O que impressiona acima de tudo, e particularmente nos artigos que encenam uma panorâmica retrospectiva sobre o percurso do suplemento e o colam à própria evolução da cultura portuguesa no primeiro quartel deste século, que nunca chega a ser alvo de qualquer análise ou interrogação, é esse triunfalismo implicitamente e inutilmente publicitário. Aquilo que parecem ignorar estes promotores, tão habituados a despejar tinta sobre tudo o que prometa farra, é que o poder não precisa de propagandistas. “Se é poder”, assinala Alfonso Berardinelli, “impõe-se por si e, de facto, cada um já dele tomou nota”. “Alinhar-se com aquilo que se impõe é uma forma vácua ou perversa de moralismo”, adianta o crítico italiano. Em vez de uma capacidade de produzir um agenciamento de enunciados, de propostas que desafiem as expectativas, demasiadas vezes este suplemento parece resignar-se a uma postulação face ao que já se sabe. Daí a propensão para se auto-congratular por uma série de “apostas ganhas”, formulando mais umas quantas para seguir com esta lógica de casino. Se David Pontes reconhece que há hoje “sectores inteiros da cultura que correm o risco de desaparecer no silêncio”, e reforça que “sem eco não há cultura que, por falta de impacto, sobreviva”, depois, reclama para aquele suplemento um papel de enorme relevância no esforço de “relatar, descobrir e criticar expressões artísticas minoritárias, porque sabe que elas fazem parte da expressão máxima da diversidade humana”. Assim, é só por este suplemento desempenhar o seu trabalho de forma “quase solitária” que vimos retrocedendo, vendo a dificuldade de abrir o campo de possibilidades actuais de repensar este tempo, escapar do mundo que existe, criando as condições para a expressão de outros mundos possíveis. Com uma única excepção entre os textos que integram este volume, não há qualquer sinal de uma autocrítica, e mesmo o tom de certos artigos, quando parece neutro, é sempre promissor, tranquilizador e moderadamente profético. Só António Guerreiro abre um parêntesis em que vem denunciar que “o jornalismo cultural implodiu”: “pôs-se à mercê da publicidade cultural, com a qual passou a confundir-se” (…); “cúmplice da indústria cultural (dirá mesmo, com toda a convicção, que é impossível conquistar um lugar exterior a ela) e, por conseguinte, inscreve-se na sua lógica”. Ainda acrescenta que este género quase deixou de ser nomeado porque perdeu o seu antigo poder de irradiação, acabando por se submeter: “A ele sobrepôs-se a divulgação cultural, num contexto em que os objectos e os acontecimentos culturais aspiram sobretudo a ser divulgados, publicitados, recomendados.” Quanto às restantes análises, as poucas vezes que mantêm um compromisso de leitura das convulsões da época, acabam por reconhecer que o novo milénio não trouxe verdadeiramente descobertas novas, nem produziu obras que pareçam características de uma nova época. A maior e mais sintomática novidade é quantitativa: há muitíssimos produtores, “novos criadores” que se limitam a recombinar ou retocar velhas fórmulas, de forma cada vez mais contingente. Assim, os actores culturais, mais prolíficos do que nunca, são coagidos a dar provas de vida e submeterem-se aos protocolos do espectáculo de modo a obterem o selo e o género de aclamações que significam uma extensão do crédito a essa espécie de agonia em que vão resistindo as práticas artísticas. Mas se há algum autor verdadeiramente digno desse título, alguém capaz de causar verdadeira perturbação na matéria já dada, este é convenientemente negligenciado. Tudo o que não se sagra segundo as dinâmicas do mercado fica dependente destes processos de homologação, e acaba a mendigar os apoios de inserção destes técnicos sociais da cultura. Tudo isto apenas intensifica o regime das indústrias culturais, com a produção em série de conteúdos de consciência, informação, entretenimento, publicidade e propaganda. Neste episódio, e para andarmos de volta destas questões, voltámos a importunar Vítor Belanciano, que esteve presente em 23 dos 25 anos do Ípsilon, e que reconheceu que, depois de um convite para ser co-editor, acabou por perceber que “um agitador com sentido de independência, muito mais do que um pacificador do colectivo”, nunca seria o perfil adequado para gerir um elenco em que cada um escreve em nome próprio, competindo apenas pelo espaço. No fundo, e para se tentar fazer um balanço dos fracassos das nossas propostas culturais, talvez seja necessário reconhecer que vai continuar tudo por fazer, na medida em que o público não está dado, pois se a gente está aí, e há uma ânsia de reconhecer sinais e propostas que a unam, lhe dêem ficções cativantes, e que a agenciem como comunidade, como colectividade ou como classe, falta um jornalismo crítico que esteja em condições de forjar enunciados, esses que “são como os germes do povo que virá e cujo alcance político é imediato e inevitável” (Deleuze).

    Escrever a história em mortalhas de cigarro. Uma conversa com Ricardo Noronha

    Play Episode Listen Later Nov 28, 2025 257:38


    Fala-se muito de liberdade por estes dias. A todos os propósitos, celebra-se essa estafada ideia de que se gozam hoje conquistas feitas a grande custo pelas gerações que nos antecederam, mas talvez fosse importante colocar a mesma pergunta certa vez feita por Foucault: “Qual é o campo actual das experiências possíveis?” Se a liberdade se tornou meramente hipotética, uma espécie de abstracção, algo que partimos do princípio que gozamos, podemos ser levados a prescindir de testar essa convicção. Talvez nunca tantos se tenham saciado dessas promessas, sendo isso o suficiente para não irem mais longe nem testarem a sua disposição moral divergindo desse grande quadro de inércia que nos serve de referência.  Que potência exercemos diariamente, nem que seja numa condição virtual, questionando o enredo a que estamos submetidos? Talvez a liberdade se tenha tornado uma noção demasiado abstracta, sendo esse o principal elemento de dissuasão, quando tudo se processa num nível hipotético. De facto, somos todos muitíssimo livres. Mas talvez fôssemos menos se realmente passássemos dos princípios aos actos. No entender de Kant a liberdade “é a autorização para não se obedecer a nenhuma outra lei exterior que não sejam aquelas às quais pude dar o meu assentimento”. Se partirmos daqui podemos reconhecer que a tal liberdade potencial contrasta com a falta de ânimo para oferecer resistência às orientações que nos vão seduzindo, convertendo, coagindo. Talvez Gramsci fosse mais livre na prisão do que a maioria de nós o somos no nosso dia-a-dia. Leia-se o que Italo Calvino escreveu a propósito da edição das "Cartas da Prisão" do fundador do Partido Comunista de Itália: "[As Cartas] têm as características do livro de memórias e do grande romance: a sua amplitude e o cruzamento de mundos e de temáticas. O prisioneiro revolucionário analisa minuciosamente todas as pequenas manifestações da vida que consegue captar a partir do sepulcro da sua cela: os pardais amestrados, as flores da chicória, as fotografias das suas crianças. Ele analisa qualquer fenómeno cultural, do idealismo crociano aos romances policiais, formulando interpretações novas e úteis, utilizando também todo o seu património de memórias regionais, as lendas, os costumes, os dialectos da sua Sardenha, que revive com um gosto só aparentemente anedótico.” A liberdade está longe de ser um estado natural, e daqui decorre que esta tenda a esboroar-se assim que não haja um constante esforço de a levar a efeito. A lógica do poder passa sempre por produzir a timidez daqueles que lhe estão submetidos, e é evidente que, à medida que a revolução começa a desvanecer-se, a cair na rotina, deixa de vigorar como um acontecimento, atestando uma virtualidade que não pode ser esquecida. Hoje, todos os esforços no sentido de celebrar “as conquistas de Abril” fazem por substituir os cravos por rosas brancas, limitar o alcance da revolução e moderar o seu ímpeto, retirando-lhe toda a actualidade e força anunciadora de um desejo que está ainda por cumprir-se. O signo que tem vindo a afirmar-se cada vez mais e que pretende fazer-nos renunciar às experiências que foram possíveis durante o período de dezoito meses do processo revolucionário é o do 25 de Novembro, que, como assinala Ricardo Noronha, “assumiu a forma de um evento fantasmagórico porque os seus actores – os vencedores como os vencidos – projectaram sobre os acontecimentos tantas camadas discursivas que a sua interpretação se tornou impossível sem um laborioso trabalho filológico e arqueológico”. E acrescenta que este é também um evento fantasmagórico “porque a sua evocação quebra a ténue membrana que separa o passado do presente, transportando em si um juízo sobre tudo o que antecedeu e se sucedeu àquelas horas tão saturadas de ocorrências, condensando em si a história de todas as revoluções e contrarrevoluções”. Para Noronha a evocação desta data “assombra ainda os cérebros dos vivos, servindo a um tempo enquanto fábula moral e mito fundador, efeméride comemorativa e epígrafe fúnebre”. Na verdade, e contrariamente ao que diz a direita, não foi a possibilidade de uma ditadura de sinal contrário ao do Estado Novo que foi afastada, mas a própria construção de um repertório de acção política, num raro momento na nossa história em que ganhou expressão o poder popular através de inúmeras acções de democracia directa. Durante aquele período que, de um golpe de Estado militar, fez uma verdadeira revolução, o que se viu ganhar corpo foi “uma vaga tumultuosa de contestação, insubordinação, auto-organização e radicalização, que não só empurrou o Movimento das Forças Armadas para lá dos seus propósitos iniciais como abalou profundamente os alicerces do capitalismo português”, escreve Noronha em “A Ordem Reina sobre Lisboa”. “Durante dezoito meses, as ordens foram desobedecidas, as proibições desafiadas e as leis permaneceram no papel, enquanto inúmeras herdades eram ocupadas e várias empresas eram nacionalizadas ou entravam em autogestão. Tudo isto não pode ser menos do que inaceitável visto a partir deste presente caracterizado por uma crescente resignação e apatia, desde logo porque permite vislumbrar a possibilidade de um outro mundo e de uma outra vida. Comemorar o 25 de Novembro é também uma maneira de esconjurar a possibilidade de se voltar a repetir semelhante cenário, fazendo o luto pelo trauma que tantos conservadores ainda associam ao PREC.”

    Uma boca com dentes de diferentes épocas. Conversa com Liliana Coutinho

    Play Episode Listen Later Nov 22, 2025 228:38


    Noite insular, jardins invisíveis, imagens desgarradas e fendas por entre as quais ainda toca a alguns espreitar essa luz que dança reconciliando o homem com os seus deuses desdenhosos. Nas imagens possíveis traçadas pelo poeta cubano José Lezama Lima está o germe das suas eras imaginárias, de um outro tempo, feito de vincos, simetrias diamantinas, precipitações inesperadas, cortes, colagens. Estamos no âmbito de “um tempo não encarnado, o tempo que não fez História sobre a terra”. É aquilo a que ele chama “o tempo poemático, forma subtil de resistir sem fazer história”. Assim, em seu entender, a poesia gera uma temporalidade diferente, fruto da rebeldia do poeta que se nega a converter-se em matéria histórica e em pasto do sucessivo, mas é também fruto dessa recusa em acatar apenas uma versão das coisas, preferindo pôr-se a manejá-la, abrindo o tempo, trabalhando num compasso em que esta está sujeita aos próprios abalos de um mundo exterior convulso. Se este tempo poemático não marca a terra ou o homem com as dolorosas cicatrizes do tempo histórico, não deixa de fornecer uma síntese que se pode encarar no espelho, construindo a seu modo uma resistência, sendo “uma das mais poderosas redes que o homem possui para capturar o fugaz e para o animismo do inerte”. Seguimos a leitura de Abel E. Prieto, ex-ministro da Cultura cubano, um político que escreve ensaios sobre poesia e que com Lezama Lima aprendeu esse modo de investigar os grandes e pequenos afluentes da utopia e o seu transporte confuso. Ele diz-nos que se pode fazer um jogo mágico valendo-se de personagens e momentos históricos, desviando-os deliberadamente, combinando livremente as peças dessa História que nos deixou tanta pele cicatrizada, como se nos permitíssemos reabrir as feridas, explorando enlaces ocultos, dando assim espaço à formação de uma história convulsiva, e que, se não encarnou, mesmo assim foi capaz de despertar um movimento, sugerir uma perspectiva secreta, a qual persiste e vai “alcançando a sua infinitude ou absurdo criador ao diluir-se no banco de areia do tempo”. Prieto diz-nos que esta supra-história poética coloca de novo em campo extensões do tempo que foram esquecidas, que não puderam configurar-se, mas foram destruídas, e este esforço passa então por justapor aquilo que não chegou a realizar-se classicamente. Esta subversão das hierarquias é decisiva ao pensamento descolonizador de Lezama Lima, entendendo que não há porque se outorgar uma proeminência castigadora às etapas conclusas da história que se realizou, essas etapas que cumpriram o seu ciclo, nem nos limitarmos a ir buscar a estas as suas categorias gerais. Pelo contrário, o esforço passa por ir mais longe, até às insólitas fronteiras dessa história que não chegou a cumprir-se, a história possível, e mergulhar nesse jogo de infinitas possibilidades tentando perceber como as situações imaginadas engendram uma lógica de germinação que não perde valor nem cede pelo simples facto de viver à margem da história orgânica e poderosa. Neste sentido, para Lezama Lima, para se alcançar uma visão superior do processo histórico, deve propiciar-se a cópula entre a História e a Poesia. Algo de semelhante a isto é o que nos diz Musil nas páginas do seu grande romance inacabado… “Ora, se existe um sentido de realidade (…) então também tem de haver qualquer coisa a que possamos chamar o sentido de possibilidade. (…) Assim, poderia definir-se o sentido de possibilidade como aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser, não dando mais importância àquilo que é do que àquilo que não é.” Fazendo saltos, se podemos projectar-nos no terreno tão instável do futuro, não é menos instigante reaver o passado como matéria para uma espécie de revisionismo convulsivo, sem receio de raiar o absurdo. E se se costuma dizer que estes métodos, e mesmo os próprios sonhos, são para aqueles que não conseguem aguentar a realidade, que não são suficientemente fortes para estar à altura dela, Slavoj Žižek faz uma inversão que acaba assim: “a realidade é para aqueles que não parecem suficientemente fortes para confrontarem os seus sonhos”. Para Ursula K. Le Guin viver no mundo real é muito mais do que estar imerso na realidade, e, na verdade, aquilo que nos exige a responsabilidade pelos nossos actos e sentimentos é uma imensa culpabilidade, pois se há tantas vidas-pleonasmo, ou paráfrases, elipses, sarcasmos, também há outras que, não podendo mudar o mundo nem determinar o acordo de vontades ao seu redor, derramam a sua frustração e aproveitam-se da imaginação para gerar essas sombras desertoras, reinos que ficam para aqueles que deram meia volta, não se ficaram à superfície da realidade… Não aceitaram da língua nem da pressa a injunção de uma obrigação de falar, fazê-lo mesmo que atabalhoadamente, representando-se a si ou aos outros através daquelas categorias gerais que tudo degradam, mas preferiram deixar as palavras habituais, aceitar o silêncio, até que algo de novo apareça, com a possibilidade de que esse algo de novo traga novos modos de nos relacionarmos. Neste episódio, e para seguirmos no encalço de Le Guin, nas suas explorações e nas cópulas que ela foi gerando entre as mitologias e a história, a ficção-científica e a poesia, nessa alforria dos géneros e com um ímpeto de constante e subtil subversão, contámos com a orientação de Liliana Coutinho. Curadora e programadora de Debates e Conferências da Culturgest, partimos do ensaio com que nos apresenta à obra da escritora norte-americana no segundo volume de contos que dela se publicaram entre nós, “Ela Tira-lhes Os Nomes e outros contos”, uma edição da Barricada de Livros.

    A vingança dos excluídos da poesia. Uma conversa com Cíntia Gil

    Play Episode Listen Later Nov 15, 2025 275:12


    Na contradição entre o tempo que passa e a eternidade que perdura, não devemos desapontar aqueles que nos procuram para nos encher de ouro a boca, vindos com outro balanço e outra razão, e que tantas vezes aproveitam algum enredo tempestuoso, sendo certo, como notou Borges, que a chuva é uma coisa que sem dúvida ocorre no passado. Devemos então definir uma resistência a partir desse espanto de que o tempo, a nossa substância, possa ser partilhado. Contra a obscenidade da evidência, e o próprio mundo, que hoje não parece existir senão em função da publicidade que lhe pode ser feita num outro mundo, o cinema propõe-se como uma arte da exploração do tempo, sendo capaz de reinstaurar o presente, e procura, assim, superar as imagens que não estão já do lado da verdade dialéctica do "ver" e do "mostrar", mas que se passaram inteiramente para o lado da promoção e da publicidade, ou seja, do poder. "O nosso trabalho será mostrar como os indivíduos, reunidos como povos na escuridão, punham a arder o seu imaginário para aquecer o seu real", escreve Godard, exaltando a era do cinema mudo. "E como acabaram por deixar apagar a chama ao ritmo das conquistas sociais, contentando-se em mantê-la em lume brando – é então o cinema sonoro e a televisão num canto da sala." Baudrillard espantou-se com essa espécie de fantasmagoria técnica, esse ritual de protecção daqueles que buscam por todos os meios afastar o silêncio e a noite, num receio de virem à superfície de si mesmos, e fala-nos da "televisão programada vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas, e que muitas vezes funciona de uma forma alucinante nas salas vazias da casa ou nos quartos de hotel por ocupar". Dá o exemplo dessa sinistra espectralidade que encontrou em hotéis de beira de estrada por toda a América, e de um cujas "cortinas estavam rasgadas, a água cortada, as portas a bater; mas no ecrã fluorescente de cada quarto o locutor descrevia a subida da nave espacial". E depois acrescenta: "Nada há de mais misterioso do que uma televisão a funcionar num quarto vazio, é bastante mais estranho do que um homem a falar sozinho ou uma mulher a sonhar em frente das caçarolas. Dir-se-ia que outro planeta nos fala, de repente a televisão revela-se pelo que é: vídeo de um outro mundo, não se dirigindo no fundo a ninguém, libertando indiferentemente as suas imagens, e indiferente às suas próprias mensagens (é facilmente imaginável a funcionar ainda depois do desaparecimento do homem)." Num mundo sem as investigações e o labor que são próprios do cinema, das artes que resistem ao abandono da substância temporal, essas sínteses, cortes, montagens e extensões dolorosas que constituem um modo de fazer o seu próprio atraso, para se "refazer" e para se fazer, como nos diz Serge Daney, num mundo em que não somos já capazes de mostrar o acontecimento a suceder enquanto acontecimento, o real torna-se apenas essa indústria de tudo o que nos escapa, continuando a engrossar os elementos alucinatórios e a trivialidade das fantasias que nos atravessam e degradam todo o processo de consciência. Assim, estamos absorvidos num loop de uma realidade que, na forma como abunda em reflexos e em interpolações, estende uma distância intransponível, esse desfasamento que produz o fantasma. "Hoje em dia, nenhuma performance pode prescindir de um ecrã de controlo não para se ver ou para se reflectir, como a distância e a magia do espelho, não: como refracção instantânea e em profundidade", assinala Baudrillard. "O vídeo, em toda a parte, serve apenas para isso: ecrã de refracção extática que já não tem nada da imagem, da cena ou da teatralidade tradicional, que já não serve de modo algum para jogo ou para contemplação, serve para se estar ligado a si próprio. Sem esta ligação circular, sem esta rede breve e instantânea que um cérebro, um objecto, um acontecimento, um discurso criam ligando-se a si próprios, sem este vídeo perpétuo, nada tem hoje sentido. O estádio vídeo substituiu o estádio do espelho." Todas as ligações se destinam a conduzir uma energia que possa alastrar superficialmente, e isto a um ponto tal que os ecrãs estabelecem uma cadeia de reflexos ininterrupta, congelandoa realidade, não ficando dependente do acontecimento, substituindo-o ao gerar esse imenso circuito que já não se deixará demover do seu frenesim constante e que alcança uma des-sublimação espectacular de todos os nexos, das causas e até do próprio pensamento. Trata-se de um abandono da corporeidade, dos limites e das tensões físicas, da relação biológica, instaurando um tempo sem tempo, que já não obedece aos ciclos da mortalidade e regeneração. Assim, os pólos e as oposições dissolvem-se e o que força esse efeito de design total, que apaga qualquer atrito ou resistência, é a lógica da ligação. "Não se trata de ser, nem mesmo de ter um corpo, mas de estar ligado ao próprio corpo. Ligado ao sexo, ligado ao próprio desejo. Conectados às próprias funções como a diferença de energia ou a ecrãs vídeo. Hedonismo em ligação directa: o corpo é um enredo cuja curiosa melopeia higienista corre entre os inumeráveis estúdios de reculturação, de musculação, de estimulação e de simulação que vão de Venice a Tupanga Canyon, e que descrevem uma obsessão colectiva e assexuada." Neste quadro de elisões que se concertam, a própria relação sexual torna-se um ritual arcaico, uma relíquia de um mundo em que as tensões ainda se definiam pelo gozo que se tirava em provar a diferença que se encontrava no outro, no campo do desconhecido. Num mundo em que tudo se converte ao mesmo, o circuito já não tropeça, não falha. E isto, num plano íntimo, acaba po corresponder a esse desejo de afastar toda a dor, todo o embate entre modos ou "ficções" defendidas por esse diferencial energético. "Houve um tempo em que as coisas levavam tempo para existir, através de processos lentos, penosos, dolorosos: era preciso tempo para construir, e esse tempo tinha valor", nota Daney. Mas hoje, pelo contrário, a urgência vai no sentido de alcançar imediatamente os benefícios, e isto significa destruir o campo artístico na sua capacidade de reaver um acontecimento, apossar-se dele por meio de uma linguagem, reapreciá-lo, produzir uma transformação do sentido. Há um princípio de sobrevivência que, ao ser levado a um extremo, põe em causa até o real, aplanando tudo. Baudrillard rejeita inscrever todo este fenómeno como expansão narcísica, alertando para o erro de se abusar deste termo na definição deste tipo de efeitos. "Não é um imaginário narcísico que se desenvolve em torno do vídeo ou da estéreo-cultura, é um efeito de auto-referência ilimitada, é um curto-circuito que liga imediatamente o mesmo ao mesmo, e portanto sublinha simultaneamente a sua intensidade à superfície e a sua insignificância em profundidade." Neste episódio, e no rescaldo de mais uma edição do DocLisboa, Cíntia Gil fez uma acostagem corsária para nos ajudar a encontrar um fio e uma razão mais funda nesse esforço de densificação do real que o cinema assume enquanto um dos seus processos de forma a integrar em nós o mundo enquanto experiência. Tendo dirigido aquele festival de cinema entre 2012 e 2019, esta programadora continua a reclamar esse papel de quem engendra e articula percursos como um modo de intervir e fazer cinema, procurando refundar um espaço crítico, que indaga e desassossega, precisamente para que o tempo possa ser reclamado de novo como essa substância difícil e que, mais do que ligações, nos fornece as possibilidades de resgatar a presença e essa zona activa, comum.

    No funeral dos franco-atiradores. Uma conversa com José Soeiro

    Play Episode Listen Later Nov 6, 2025 209:08


    Os nossos instrumentos de trabalho são a humilhação e a angústia, cada vez mais aperfeiçoadas, submetidos como somos a cada dia a rituais de aviltamento empregados para quebrar qualquer vontade de resistência. O cerco tornou-se especialmente cruel a partir do momento em que se concentrou em produzir uma fissura e assaltar-nos moralmente, espalhando em nós esse veneno obsidiante que é o medo, armado de uma ideia todo-poderosa que se limita a compor algo que se assemelha a uma política paranóica. Com a influência cada vez mais forte do sentimento de rivalidade, a maior das nossas vulnerabilidades é anteciparmos a traição dos nossos semelhantes, não podendo contar com a firmeza do carácter, nem mesmo do nosso. Espiamo-nos cheios de suspeita, pois, como alguém notava, ao fim de décadas de anestesia democrática e de gestão dos acontecimentos, de uma série de crises concatenadas, que enfraqueceram em nós uma certa percepção abrupta do real, desvaneceu-se o sentido resistente da guerra em curso. Em nenhum dos momentos das nossas vidas conhecemos o vigor da batalha, mas atravessamos um território imerso na escória de tantos sonhos, sem vislumbrar os confins deste mundo de pó e ilusões, sendo que em nós o tempo é sentido já como agonia, pelo hábito destas vidas de empregados cada vez mais subtraídas pelo aumento do tempo de trabalho e pela perda de autonomia. Estamos dominados por esse abandono da realidade, à medida que a técnica exerce o seu poder planetário, nivelando, homogeneizando, massificando, dessacralizando, uma técnica que nos mergulha em ritmos que estendem a irrealidade. Somos tomados pelas funções automáticas, pelos gestos que nos escapam, que fazem de nós espectadores da nossa própria actividade e funções. No entender de Silvia Federici, o automatismo tem sido “o produto de uma vida de trabalho infinitamente repetitiva, uma vida ‘Sem Saída', como a da jornada laboral das nove às cinco numa fábrica ou num escritório, em que mesmo as férias são mecanizadas e se transformam numa rotina devido ao seu tempo limitado e à sua previsibilidade”. Federici vem demonstrando como um dos principais projectos do capitalismo tem sido a transformação dos nossos corpos em máquinas de trabalho, o que significa que “a necessidade de maximizar a exploração do trabalho vivo, também por meio da criação de formas diferenciadas de trabalho e coerção, tem sido o facto que, acima de qualquer outro, tem moldado os nossos corpos na sociedade capitalista”. O pior é que corremos o risco de sermos dilacerados por uma ordem económica que tem sempre no seu horizonte este regime do pleno emprego, uma sociedade que se organizou em função da centralidade do trabalho, ainda que todos os indicadores apontem para uma tendência de redução drástica do trabalho humano, que em tantos sectores passou a ser levado a cabo com maior eficiência por máquinas. Assim, como antevia Hannah Arendt, em 1958, em A Condição Humana, “o que temos à nossa frente é a perspectiva de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, privados da única actividade que lhes resta”. Enquanto isso, toda esta dinâmica vai impedindo que se repensem as políticas de distribuição da riqueza, promovendo um alívio desta carga punitiva do trabalho, ainda entendido na sua função redentora, reduzindo o horário laboral e distribuindo de outra forma as funções que ainda estão a cargo dos humanos. Em vez de se implementar uma redução drástica do tempo de trabalho, assegurando a todos os cidadãos os meios e recursos necessários à sua vida, estamos submetidos a uma ordem cada vez mais opressiva, beneficiando a acumulação e radicalizando um princípio de degradação daquele que se vende em troca de um salário. Assim, não só as conquistas tecnológicas e todos os avanços na automatização e na inteligência artificial não revertem no sentido de um benefício comum e de adaptações no plano da organização social e política, como cada vez mais se promove esse salário moral em que aqueles que têm emprego, vivendo exaustos e sem tempo, tomados de uma fadiga até ao limite do esgotamento, ansiedade, stress, incapazes de estabelecer fronteiras entre o trabalho e a vida, neste efeito de despersonalização e de impotência, requerem como consolo e forma de justificar todo o seu ressentimento uma possibilidade de assumir a denúncia e a perseguição àqueles que se encontram em situações de maior vulnerabilidade social e que passam a ser o alvo constante de políticas persecutórias e de ajuste de contas. Neste sentido, os sacrifícios humanos que são feitos nos nossos dias já não são pensados de forma a requerer o favor dos deuses, para apaziguar as suas fúrias, já não se entende que o sangue humano possa ser esse veículo de força vital, um tributo à altura do poder divino, mas tornou-se uma forma de saciar a própria necessidade de cada homem lidar com a sua devastação íntima lançando-a sobre outros. Assim, ao analisar as consequências da automatização, Bernard Stiegler vê uma sucessiva desintegração de todos os aspectos da vida social, sendo que a sociedade automática significa também a automatização dos espíritos e a prossecução de um modelo de irracionalidade vingativa. Deste modo, o que nos deve preocupar não é apenas o progressivo desaparecimento dos empregos, mas como a miséria crescente se irá saldar num clima de conflito difuso, em que não será possível já definir propriamente lados, mas irá gerar-se um quadro de predação e agressão constantes. Neste episódio, e para nos ajudar a reconhecer esse território cheio de paradoxos que é o mundo do trabalho, numa altura em que se preparam uma série de alterações à lei laboral no sentido de fragilizar ainda mais aquela que é já a parte fraca da equação, contámos com a orientação de José Soeiro, sociólogo e antigo deputado pelo Bloco de Esquerda, que se tem especializado na área do trabalho, precariedade e acção colectiva.

    O manicómio mundial. Uma conversa com Patrícia Câmara

    Play Episode Listen Later Oct 31, 2025 212:12


    Aos versos que tantos bolçam por aí, elevando-os a mantras e slogans de campanha, repetidos numa aleivosia alegre e acrítica, até deles só restar esse tinir irritante, essa sanha das frases motivacionais na sua correspondência mais cretina com a existência, perante esses pedaços mastigados, nauseantes, como esse que nos diz que “o poema ensina a cair”, temos vontade de responder: mas e se deixa de haver chão? E se ninguém tem sequer a oportunidade de se estatelar propriamente, e, por isso, também já ninguém se levanta? E se a queda se tornou um estado constante, gerando uma resposta nervosa, uma coreografia patética, uma indiferença em que tudo vale o mesmo? Com a morte de toda a mediação, para quê insistir em categorias como a de poesia? Face a um enredo que tudo dilui, em que se rejeita todo o crivo crítico pelo risco de que este possa melindrar uns quantos, deixar alguns desamparados, desfazendo-lhes as ilusões, muitos preferem esta meia-cultura com as suas suposições ociosas, a sua função piedosa, o seu constante logro. A todo o momento, cada ser suplica aos demais que não ofendam a sua precária composição espasmódica, esse carrinho de supermercado onde recolhe quinquilharia, restos, tudo o que sirva à fancaria literária, acatando esse impulso de uma mentira alargada às dimensões de uma cultura inteira. E, no fim, o que soma isto? Não será a tal cultura que, no entender Adorno, serve apenas para dar “a ilusão de uma sociedade que seria digna do homem, mas que não existe; ela dissimula as condições materiais na base das quais se edifica toda a vida dos homens; e com as consolações e os apaziguamentos que dispensa, serve para conservar a nossa existência nas más condições económicas que a determinam”. Prisioneiros de um inescapável teatro de imposturas, vivemos subjugados a esse estado de tutela (Kant), que se reflecte na incapacidade de cada um se servir do seu próprio discernimento sem a condução de um outro. Seres que abdicam da sua volição, incapazes de arriscar um juízo, de fazer sair o pensamento em si mesmo, esquivando-se a esse estado que o precede e oprime. A cultura não reflecte valores, é incapaz de manifestar um desejo autêntico, pulsões desaustinadas, de nutrir novas e ousadas linguagens simbólicas, aquela impulsividade e tensão do imaginário, elaborando constelações de fantasia. Pelo contrário, tornou-se ela mesma uma forma de bloqueio, um modo de coerção, por isso ninguém exige dos poetas essa capacidade de assaltar o leitor pela obscenidade, de o sobressaltar pelo choque do imprevisto e do irrepresentável, de o precipitar na ambivalência da repulsa e do gozo. Todos pedem simplesmente que continuem a dar-lhes corda, a produzir ritmos e imagens de acordo com as prescrições gerais. Tudo se presume, à medida que uma forma de narração superficial toma conta de todos os temas e assuntos, vulgarizando as experiências, e, assim, se gera uma cumplicidade desoladora, enquanto os discursos de ordem psicologizante adquirem uma tonalidade cada vez mais ligeira, adequando-se aos padrões de informação e programação computacional, alisando o terreno, uma vez que o desenvolvimento capitalista da inteligência artificial requer toda uma disponibilidade para adquirir novas habilitações, conduzindo também a um remodelamento das subjectividades. A tudo isto ajuda a compreensão dos nossos corpos essencialmente como discursivos, dessas personalidades e identidades performativas, adaptadas um regime de transferência de planos, a troca da realidade pelo simulacro, ignorando como as funções essenciais da crítica estão ligadas às capacidades, necessidades e desejos do corpo humano, esses limites mas também impulsos, essa força radical do que remonta sempre a uma raiz, sendo tudo isso o efeito de um longo processo de co-evolução com o nosso ambiente natural. Ora, o que se tornou imperativo é cortar essa ligação, produzir que, arrancado pela raiz, e transplantado, seja infinitamente adaptável, manipulável, dócil. Como nos lembra Silvia Federici, a verdade é que “mesmo sem a edição genética, já somos mutantes, capazes, por exemplo, de prosseguir com o nosso quotidiano mesmo sabendo que acontecimentos catastróficos ocorrem à nossa volta, incluindo a destruição do nosso ambiente ecológico e a morte lenta das muitas pessoas que hoje vivem nas nossas ruas, por quem passamos diariamente sem pensarmos muito nem demonstrarmos algum tipo de emoção”. “O que nos ameaça não é apenas que as máquinas estejam a assumir o controlo, mas também que nos estejamos a tornar como elas.” Neste episódio, de forma a abordarmos algumas das transformações que se têm operado numa dinâmica em que se procura “optimizar” os corpos e os ciclos biológicos no sentido de retirar destes toda a força de trabalho e os efeitos que aumentam a acumulação capitalista, contámos com a orientação de Patrícia Câmara, psicoterapeuta e psicanalista, alguém que tem aprofundado o impacto em termos de saúde mental de todo o contexto coercivo a que estamos sujeitos não apenas no mundo laboral como na engenharia que tem levado a uma precarização das nossas vidas, deixando-nos tenrinhos e à mercê das lógicas repressivas dos novos aparelhos totalitários.

    Um país embalsamado entre fantasias podres. Com Pedro Levi Bismarck e João Oliveira Duarte

    Play Episode Listen Later Oct 25, 2025 233:05


    No princípio tudo era mentira... Foi preciso o mundo com a sua teimosia infernal para imprimir em nós os caracteres de um fascínio que nos resgatasse da pobreza das ficções compulsivas entre as quais o medo se empareda, e foi quando aprendemos a retirar prazer desses destratos, a fintar o terror, que começou a emergir um sentido da arte, esse anseio exploratório que capturou o nosso génio colectivo, nos fez traficantes de lendas, dos relatos sobre seres que se embrulhavam com a vastidão, e traziam as marcas na pele, a estranheza nos gestos e os contornos algo delirantes de uma fábula que tanto nos cativava como um enredo inconstante, combativo, insatisfeito. A verdade era isso, uma história de que só ouvíamos os capítulos seguintes se a perseguíssemos como a uma presa. A verdade foge-nos, faz de nós caçadores, que vão enfebrecidos pela sua tão temperamental e esquiva canção. Mas o que a funda não é uma composição de factos indesmentíveis, e, sim, essa disposição daquele que a busca a movimentar-se, ir mais longe, querer dela algo mais. Com esse tumulto foi possível a alguns expandir a realidade noutras dimensões, com materiais do seu tempo e de outros, construindo essa força variante, capaz de acicatar o desejo. Pelo contrário, nos nossos dias encontramo-nos regredidos, mediaticamente embalsamados, arrastados para fantasias cada vez mais podres, reféns de um bando de mentirosos compulsivos, que, seja como for, de certeza medem o valor pelo efeito produzido. Convencidos dessa magia negra em que a vida não passa de uma cópia da imprensa, deram-nos o jornalismo como um ambientador e os modos reprodutivos do entretenimento como um vício que nos sedentariza, nos faz cair para dentro, ficarmos prisioneiros desses estímulos que se dirigem apenas ao que há de pior na nossa natureza. Estas coisas são explicadas nestes termos por Karl Kraus: "É que, na era dos que se deixam arrastar, o acto é mais forte do que a palavra, mas mais forte do que o acto é o eco. Vivemos do eco e, neste mundo às avessas, é o eco que desperta o grito. Na organização do eco, a fraqueza é capaz de uma metamorfose extraordinária..." Num regime de subalternos como o nosso, por entre todo o luto que passou a ser o verdadeiro desígnio deste país, somos este resto senil de tantos séculos que não distingue já os espasmos da sua memória do zumbido das moscas sobre o seu cadáver, consolando-se a forjar a fraude da sua posteridade, produzindo um testemunho cada vez mais patético, desligado da realidade, invertendo a lógica do sentido de sacríficio. Desde logo, é cada vez mais difícil acreditar no carácter glorioso de uma glória que circula num mundo cada vez mais empobrecido, mais desgostante, piolhoso, abandalhado, trazendo os louros numa pochete. Por estes dias, os promotores deste castigo fizeram bem o seu trabalho, elevando Balsemão à categoria de mito, alguém que nunca foi outra coisa além de um traficante de influências, um dealer de aparências, chulo dos egos, que investiu tudo na idolatria e no temor, sabendo bem que a submissão adora travestir-se de liberdade. Aqui, não há apenas encenação, mas uma coreografia perfeita que transforma a fraude em inevitabilidade. A rede de Balsemão passa mais por um confisco da realidade, entre golpes de sedução e anestesia, entretendo-nos com um conto de fadas do qual não conseguem arrancar o cheiro a morto... Em vez de informação, parecem estender-nos um suborno à consciência, uma realidade submetida aos efeitos da propaganda, já não de ordem ideológica, mas como puro efeito de marketing, em que importa sobretudo fazer fé em todo o tipo de parvoeiras, deixar-se levar, viver os dramas insossos de um país ausente de si mesmo. E o que nos leva à loucura é a forma como neste país qualquer figurante se converte em figura de primeiro plano, desde que se mostre disponível para prolongar a impostura, com aquela conversa de empata das colunas amestradas de jornais que deixam a época exangue, subordinando os fins da existência aos meios de subsistência, como é próprio de qualquer jagunço, papagueando todas as superficialidades, fortalecendo essa zona de saturação que se decompõe num enredo em que cada um só actua com procuração da falta de carácter... Neste episódio, fizemos de tudo para estender ainda mais essas badaladas de primeira página a anunciar e incensar o defunto, a retratar as suas infinitas proezas, a vir com coisas de ontem, de nada, como uma grande pré-história, um passado fundamental, mas tudo tão azucrinante, num cerimonial pomposo, com as criaditas enchendo de ranho os trapos enternecidas com o CEO da Família Ltd, o Ministro da Gravidade Doméstica, o Oráculo do Controle Remoto, Barão do Jornalismo de Aluguer, Patriarca das Migalhas de Glória, mas depois, sem conseguirem sacudir aquele estilo afectado, esse tesão de mijo da prosa assanhada dos sacripantas, enaltecendo o registo cavalheiresco daquele que podia simplesmente ser mais um patrão sobranceiro e castrador, já querem elevá-lo a visionário, mais que um Magnata do Papel Higiénico com Manchetes que não aquecem nem arrefecem, foi um grande maestro democrata, prodigalizando os seus dotes, a sua fortuna, amontoando numa pilha as liberdades todas (qual feijoeiro mágico!) que lhe ficamos a dever, e abafando, como de costume, a trama das conveniências, a intriga promocional de toda uma camorra de medíocres, o encobrimento e as distracções para apagar as tropelias de ratazanas e de sanguessugas sem as quais, afinal, não há história nenhuma para contar, nem há História de Portugal, país que se arrasta há séculos de desfalque em desfalque. Desta vez, e para comer o bolo rei, pedimos ajuda a dois maganões, que já tinham passado por cá antes, e que se puseram a escarafunchar aquilo em busca da fava e a cuspir a fruta cristalizada para os lustres da salinha onde também nós velámos esse cachalote bonançoso, com aquelas manápulas cruzadas sobre o peito, subindo a prumo, subindo sempre, no sentido da eternidade.

    Entre burocratas nostálgicos, arrivistas e embusteiros. Outra conversa com António Brito Guterres

    Play Episode Listen Later Oct 18, 2025 210:25


    As eleições não passam hoje de um teatro que nos permite enternecermo-nos connosco próprios, com a degradação da nossa condição política, fornecendo uma liturgia sentimental, um gesto de auto-comiseração cívica. O voto tornou-se um placebo de pertença, e, ao sair da cabine, reconfortados, acreditamos ter feito algo, ter participado... Votamos como quem acende uma vela à memória do livre-arbítrio. Ali procuramos, com devoção arqueológica, os traços do antigo rosto humano da história. Cada boletim é um pequeno ex-voto ao passado, um souvenir da época em que o mundo ainda parecia responder à vontade humana. No acto de escolher, fingimos que há escolha; no cerimonial da urna, representamos a nostalgia da soberania, a crença de que a história ainda nos consulta. O eleitor é um espectro devoto que, numa função rememorativa, visita o túmulo da liberdade e depõe uma flor. As eleições são, assim, uma forma de terapia colectiva, servindo para converter a impotência em fé cívica. Ali, o sistema concede-nos o consolo da forma, enquanto decide, em silêncio, a substância. O voto é o modo mais resignado de nos reconciliarmos com a nossa irrelevância. Enquanto isso, o poder transfere-se, e talvez nunca se tenha decidido tão longe, tão alheio às nossas urgências. A revolução hoje é algorítmica: não se faz nas ruas, mas nas camadas invisíveis do código. É o próprio capital que programa a mutação perpétua do mundo, dissolvendo as formas estáveis da vida, da linguagem, da percepção. Nenhum comité central, nenhum messias, nenhum discurso inflamado; apenas redes, fluxos, instruções que se multiplicam como insectos luminosos no interior da máquina. Os novos Lenines não precisam de povo — bastam-lhes dados, e a vertigem do controlo. São criaturas que emergiram das fendas do sistema financeiro global, após a última crise de liquidez ontológica: seres anfíbios que aprenderam a respirar no vazio e a nutrir-se da volatilidade. O capital, esse demiurgo sem moral, descobriu o modo de acelerar o tempo, de converter cada partícula de vida em movimento, cada átomo de desejo em fluxo. O que chamamos “crise” é apenas o batimento cardíaco do sistema, o seu ritmo vital. As ruínas são o seu habitat natural, e nelas se move com a destreza de um vírus que aprendeu a usar o próprio sistema imunitário do hospedeiro para se multiplicar. Trata-se de uma inteligência adaptativa, uma espécie de parasita que aprendeu a metabolizar o desastre. Tudo o que o ameaça é reabsorvido como matéria de inovação. Assim, as novas lideranças são híbridos de misticismo empresarial e pornografia mediática: evangelistas de produtividade, profetas do desempenho, pornógrafos do sucesso. Falam de propósito, de regeneração, de transcendência… Embusteiros, efabuladores, mestres do reviralho, alquimistas do lucro ilusório, pregadores de volatilidade, xamãs do derivado, domadores de zeros e uns, arquitectos de bolhas espectrais, cartógrafos de ruínas financeiras, faquires do fluxo de capital, ilusionistas do valor, conspiradores do invisível, buriladores de consciência colectiva, mercadores de promessas quebradas, prestidigitadores da percepção, manipuladores de massas digitalizadas, embalsamadores de sonhos líquidos, taumaturgos do risco e da especulação, poetas da fraude, sacerdotes da liquidez, prestidigitadores da ontologia mercantil, e profetas do caos desregulamentado. O lucro tornou-se um sacramento; o poder, um êxtase. Entretanto, a esquerda, paralisada pela nostalgia da sua própria moralidade, converteu-se numa administração técnica da catástrofe. Gere as ruínas comovida consigo mesma, sendo prudente, enquanto o capital prossegue o seu labor alquímico de dissolução total. Defendendo o humano, o sustentável, o limite e a lógica, esta esquerda responsável tornou-se o elemento conservador de um sistema cuja energia vital é a transgressão. A sua resistência ética funciona como suplemento moral: o espelho que legitima o adversário. Sem ela, o capitalismo perderia a imagem de inevitabilidade que o alimenta. O que resta da esquerda é um sentimentalismo de gestão, um humanismo protocolar. E neste momento o capitalismo atinge, enfim, a sua fase gnóstica: já não produz mercadorias — produz mundos. A cada iteração fabrica não apenas novos mercados, mas novas percepções, novas realidades. A informação converteu-se em matéria-prima da existência, e a finança especulativa é agora a metafísica do nosso tempo. Os seus operadores são os novos xamãs da volatilidade: manipulam não apenas números, mas as condições de percepção, fabricam e desfazem o real como se este fosse uma bolsa flutuante. A fraude não é desvio ético: é o seu método e a sua fé, a sua gramática e o seu fôlego. O que era sólido já não se dissolve simplesmente no ar, antes serve para aprimorar o interface. O sujeito, fragmentado, responde em reflexos: reage, partilha, vota, comenta. Pouco mais faz. Tornou-se mais uma entre inúmeras existências parcelares, respondendo celularmente ao estímulo. Cada gesto individual é absorvido, reinterpretado, reprogramado, e essa constante digestão da experiência constitui o verdadeiro poder — um poder sem rosto, sem centro, sem consciência, mas revolucionário na sua continuidade, porque reinventa incessantemente as condições do mundo, sem nunca precisar de um sujeito que o deseje. Deste modo a utopia tornou-se indistinguível da especulação, e a imaginação política foi convertida em derivado financeiro. A revolução venceu, mas ao serviço do capital, e o triunfo é de tal modo absoluto que já ninguém o reconhece como tal. Neste episódio e para não nos ficarmos pelo tipo de análise que apenas rodeia esta fantasmagoria, quisemos deixar a ressaca, puxar o lençol e sacudi-lo, pô-lo a arejar. Para nos ajudar a escapar das grelhas de quem comenta mais este episódio da telenovela apegado ao regime mais emocional, pedimos a assistência a um operador que conhece bem o território, a relação directa entre aqueles que preferem fundar a realidade cosendo os pedaços da vida no seu quotidiano, cortando com este quadro de anemia existencial. Mestre sem grandes cerimónias, António Brito Guterres deu-nos guarida e fez-nos a visita guiada pelo seu museu privado, repleto de instrumentos de corte de luz e dos outros sistemas.

    Livralhada, alquimia, terror e verdade. Uma conversa com David Teles Pereira

    Play Episode Listen Later Oct 10, 2025 200:36


    Desde a invenção de Gutenberg até ao actual quadro de proliferação absurda, dessa obesidade editorial que fez dos livros mais outra categoria entre os produtos de consumo, os séculos de lenta fermentação das linguagens e conceitos estão aí como destroços a flutuar à superfície de uma piscina, a saque para os fins de uma mitologia de bric-à-brac, tacanha, cavando uma fossa, um largo intervalo que poderia ligar um título de Dickens a outro de Balzac: Grandes Esperanças e As Ilusões Perdidas. Depois da engrenagem ter entrado em delírio com a ideia de progresso, sentimos que começa a esgotar-se até a promessa de sentido. O futuro viu-se absorvido pelo presente contínuo das infinitas mastigações distractivas, e tememos, com uma lucidez amarga, que o amanhã não seja senão uma versão ainda mais ignara disto mesmo. Abrir as redes sociais, acender um ecrã, deslizar o dedo por um fluxo interminável de imagens e frases truncadas produz hoje a sensação de que em toda a parte se rompeu o pacto social: regressámos ao estado de natureza, recaímos na barbárie luminosa do comentário instantâneo. A cada notificação, uma crispação; a cada opinião, uma faúlha de ódio. Alguns, como outrora advertira Sciascia, veriam nisto a erosão última da palavra escrita — o seu desgaste até à transparência, até que já nada nela resiste ao ruído e à velocidade. Existíamos — lêssemos ou não — dentro de uma sociedade literária, onde os argumentos, as formas de arquivo, as listas e até os modos de enunciação provinham do enredo dos textos, da composição e ordem que se alargava a partir das bibliotecas, como se ali estivesse o núcleo de uma trama com possibilidades de expansão até ao infinito. Mas as imagens… essas formas que serviam de ilustração, um esboço para catapultar o impulso ou um eco, começaram a reproduzir-se como uma praga, a invadir o centro, a degradar o eixo do imaginário, o seu movimento de rotação e translação, que acabou por se fixar, a realidade encadeada pelo seu substituto. Saturado, o olhar já não mergulha no interior em busca de uma alucinação estupenda, mas fica agarrado ao estímulo; já não lê, absorve-se. A narrativa dissolve-se em fragmentos visuais, o tempo perde espessura, e o mundo, reduzido a ecrã, já não se conta: actualiza-se. Como escreve José Emilio Pacheco no ensaio do qual partimos para esta reflexão, “um mundo sem leitura é um orbe em que o outro só pode surgir como inimigo”. “Não sei quem é, o que pensa, quais são as suas razões. E, sobretudo, não possuo palavras para dialogar com ele. Por isso, só me é possível percebê-lo como ameaça.” Hoje tudo reemerge com o brilho artificial de outra Disneylândia, como nostalgia daquilo que não vivemos e nunca foi nosso. Mas é pior do que isso: a nostalgia tornou-se uma função sistémica, uma engrenagem exasperada que anula o próprio passado, convertendo-o em matéria-prima para as retrotopias do presente. O que antes era memória transforma-se em decoração, em cenário temático de um mundo sem recordação. Não espantará, pois, que dentro de alguns anos surja um parque temático consagrado aos livros — simulacro final de uma experiência extinta. Entre nós, já se ensaiou essa utopia domesticada na aldeia literária de José Pinho, em Óbidos: gesto audacioso e melancólico, como quem ergue uma biblioteca dentro de um aquário. Não é possível falar destes assuntos sem enfrentar a dúvida sinistra: defender hoje o livro e a leitura não equivalerá, afinal, a reforçar a charanga, o enredo trapaceiro de uns e umas sempre à cata das verbas, dos fundos de desenvolvimento, ávidos por os converter em festivais de miragens concentradas, todos estes certames onde o culto do autor, exibindo-se como produto, obsta a que se leiam e discutam os textos? “Quando comecei a escrever, ensinaram-me que o eu era odioso; o elegante e o edificante consistia em empregar sempre o nós. No fundo dessa regra de boa conduta literária residia a ilusão de que existia uma comunidade de pessoas ilustradas ou que aspiravam a sê-lo”, adianta Pacheco. “Partilhavam um vocabulário, um código e algumas ideias gerais acerca daquilo que, neste domínio, constituía o bem comum.” Agora, o intolerável — e por vezes grotesco — é falar na primeira pessoa do singular, submergir nesse regime autobiográfico que fez da autoficção um modelo universal de salvação e comércio. Cada fragmento de vida converte-se em dogma, cada emoção em mercadoria moral, cada exposição em gesto de legitimação. O mundo exterior, os tantos que se sentem parte de uma comunidade privilegiada por aderirem a este regime mimético, participam do mesmo culto narcísico: repetem-se, confirmam-se, citam-se mutuamente como se a autenticidade fosse uma forma de poder. Assim, o “eu” transforma-se em tirania discreta — um império de pequenos despotismos sentimentais, onde cada confissão exige aplauso e cada dor privada reclama estatuto de verdade absoluta. Neste episódio, tivemos connosco o David Teles Pereira, elemento da formação original dessa banda sertaneja chamada Língua Morta, em que chegou a lançar alguns êxitos supreendentes como Coração Anacoluto, Beijo Heteronímico, Livro do Desassossego com Forró, O Guardador de Galinhas Selvagens, Balada do Espantalho Sonâmbulo, Sinais de Fogo no Pijama do Lobo. Veio falar-nos de políticas públicas para o sector do livro, e ainda de Lovecraft, Carl Schmitt e outras profanidades que não conseguimos transcrever nem arrumar neste tipo de categorias.

    Os peixes solúveis e o despotismo rococó. Uma conversa com António Tonga

    Play Episode Listen Later Oct 4, 2025 223:45


    Poucos se perguntam o que resta do homem, que é feito dele passados estes últimos dois séculos de abastardamento do espírito, esse ser cada vez mais inapto, que se enreda nas suas justificações, que se adapta seja como for, se safa, dê por onde der, com essa capacidade de levar a vida inteira num longo estertor. Mas a alguém deveria intrigar esta estagnação dos órgãos, à medida que o horizonte se nos escapa, como vamos aperfeiçoando a nossa corrupção, as habilidades mesquinhas, a farsa, a sórdida trama, sempre neste embrutecimento das faculdades, cobrindo tudo com um sorriso petrificado. O instinto de sobrevivência deu lugar a um turvo ofício de entranhas, a estes seres imensamente cautelosos, viciados no seu próprio terror, vítimas de uma subjectividade exagerada, que levam os dias negociando termos de forma a esquivarem-se a qualquer encontro com o perigo. Deveríamos fazer um esforço por compreender o que vem a ser este ser sujeito a uma ocupação que o tornou tão profundamente servil, perfeitamente adaptado a uma ética inteiramente fundada sobre o valor mercantil, a honra do trabalho, os desejos comedidos, a brutalidade instintiva, e a morte, esta que nos segue tão de perto, e manca de pequenez em pequenez. “Tornar-se tão insensível e portanto tão manejável quanto um tijolo é aquilo a que benevolamente convida a organização social”, diz-nos Raoul Vaneigem. Ele denuncia a imensa máquina de condicionar, e explica a ausência de um ânimo e de um enredo tumultuoso que favoreça a transformação com a falta de sinais inspiradores ao nosso redor. “Face à minha prisão actual, o futuro não tem interesse para mim.” No fundo, o capitalismo cria um conflito dentro de cada um de nós, uma divisão entre si e si mesmo. Temos sempre alguma justificação na ponta da língua, uma mentalidade de servos, habituados a serem sacudidos ao virar de cada esquina. Constantemente sujeitos aos interrogatórios, estamos sempre disponíveis para abrir o livrinho com a nossa contabilidade mais íntima. Repare-se na expressão, nos modos mais comuns, nesse constante ensaio com que cada um se desfia a si mesmo, como se estivesse a meio de algum desses exames de rotina, ou fazendo por se apresentar nos tantos concursos, providenciando sobre qualquer tópico uma opinião habilidosa, assumindo a pose de forma a oferecer o melhor ângulo a qualquer montra, como se a sua imagem estivesse a ser captada pelas câmaras, esse rosto de transcendental e eterna inutilidade que põe um tipo quando faz de produto. Vaneigem diz que o sentimento de humilhação difuso que nos persegue nada mais é que o sentimento de ser objecto. Em seu entender, não somos escravos dos nossos desejos tanto como o somos da crença na felicidade dos outros, “uma fonte inesgotável de inveja e ciúme que faz experimentar por intermédio do negativo o sentimento de existir”. “Invejo, portanto existo. Apreender-se com base nos outros é apreender-se outro. E o outro é o objecto, sempre. De tal modo que a vida se mede pelo grau de humilhação vivida. Quanto mais escolhermos a nossa humilhação, mais ‘vivemos', mais vivemos com a vida arrumadinha das coisas. Essa é a manha da reificação.” Isto explica todos esses esforços empreendidos para mascarar o nosso desespero. O que é mais doloroso é pressentir esta culpa face a si mesmo, todas as nossas tentativas para dissimular o esfarelamento dos valores, a ruína das existências, a inautenticidade dos nossos gestos. Por isso, no entender do autor de “Arte de Viver para a Nova Geração”, “as crises que sacodem o mundo não se diferenciam fundamentalmente dos conflitos em que os meus gestos e os meus pensamentos se defrontam com as forças hostis que os travam e os desviam”. O capitalismo significa um colapso da própria consciência humana. Se pudéssemos ganhar alguma distância em relação a nós próprios, se nos escolhêssemos como inimigos, nada nos daria maior prazer do que cuspir nisso a que, por mera afectação, dizemos ser a nossa alma. Gostamos de manter o quarto na penumbra de forma a que as formas do lixo que nos acusa não se possam distinguir, e então admiramos os ecos de outro tempo, o tempo que já foi. Bate-nos uma saudade estúpida de um mundo capaz de produzir em nós algum temor, uma “saudade dos tempos da juventude antiga, dos sátiros lascivos, dos faunos brutais” (Rimbaud)… Voltamo-nos para esses reflexos e para a pouca água que resta à superfície de alguns textos, e repetimos a estranha ordem de palavras que parecem ir além daquilo que somos capazes de sentir… "se viesse um homem ao mundo, hoje, com/ a barba de luz dos patriarcas, só poderia,/ se falasse deste/ tempo, só poderia/ balbuciar balbuciar/ sempre, sempre,/ só só" (Celan). O isolamento é o pior castigo e, no entanto, só através dele podemos fazer esta espécie de luto em relativa paz. “Para sobreviver à uniformidade que nos cerca, a única opção é reconstituir sem parar o nosso próprio mundo interior, como uma criança reconstruiria por todo o lado a mesma cabana. Como Robinson, reproduzindo o seu universo de merceeiro na ilha deserta, com a diferença de que a nossa ilha deserta é a própria civilização e de que somos milhões a desembarcar incessantemente” (Comité Invisível). Dito isto, o pior seria se nos contentássemos com a ridicularia daquilo a que chamamos solidão. Para nos pronunciarmos orgulhosamente sós ainda teríamos de ser uns quantos, para somarmos um Robinson convinha que naufragassem de uma vez largas centenas, e pelo menos uns sete, nove ou até uma dúzia se safassem, constituindo uma pequena camarata na tal ilha, isto para compensar a forma como as nossas almas parecem ser já meros fragmentos, estilhaços de uma qualquer unidade. Não demoramos muito a desconfiar como mesmo esses períodos de abatimento são um pequeno teatro que representamos para benefício da catástrofe da nossa personalidade, que há muito deixou de nos parecer minimamente bela, cativante, abrangente. Neste episódio, juntou-se a nós um tipo que, para coçar-se, não precisa de inventar pragas delirantes nem patéticas, e que veio trazer-nos um embalo mais largo na sua relação com o tempo, com a história, com a herança daqueles que estão dispostos a prosseguir cada dia, travando uma batalha atrás de outra, denunciando os tantos desdobramentos e ecos do colonialismo, e de todos os modos de exercer poder de forma violenta, estabelecendo hierarquias degradantes, e isto sem entrar nesses jogos de palavras cruzadas em que Vaneigem viu a esquerda triturar-se. Activista anti-racista, membro fundador do colectivo Consciência Negra, e um entre as centenas de milhões de herdeiros da luta visceral dos povos africanos pela sobrevivência e por uma África livre do esmagamento capitalista, António Tonga juntou-se a nós para discutirmos o que possa ser uma acção consequente e formas de organização e luta que não se deixem reduzir ao habitual esquema burocrático.

    Dos sem-terra aos porcos-mealheiros. Uma conversa com Paula Godinho

    Play Episode Listen Later Sep 26, 2025 236:21


    Estamos a assistir nos nossos dias ao advento das primeiras gerações sintéticas. Seres que se pretendem ver desencarnados, a alcançar um plano de elevação que se prende com a hipótese de flutuar num plano etéreo no qual tudo será disponível, ilimitado. Mas como a internet já o demonstrou, esses oestes sem lei digitais são zonas onde há muito tudo foi já predeterminado. E se, como nos diz Bachelard, “querer, é querer o que não se pode”, esse é um campo de anulação dos próprios sonhos e das formas de resistência a partir do imaginário. Poderíamos mesmo sonhar desligados dos impulsos que o corpo nos oferece? Numa das melhores profecias sobre o inferno que nos aguarda, Borges lançou esta hipótese: “Sonhará um mundo sem a máquina e sem essa máquina, o corpo. A vida não é um sonho, mas pode chegar a ser um sonho.” Este sonho começa a configurar-se nos nossos dias, mas, longe de ser uma libertação, parece um projecto de anulação da experiência. O Talmude diz que mais vale um dia nesta vida que uma eternidade no mundo que se segue. Mas o facto é que a própria realidade começa a ser pensada cada vez mais como doença ou, pelo menos, como ameaça. Ora, para compreendermos esse além que hoje nos é prometido, devemos prestar atenção às fantasias mórbidas que por todo o lado saturam o nosso campo visual, deter um olhar cheio de suspeita diante desta sobre-imposição do design a todas as esferas da vida, num momento em que a aceleração dos efeitos de troca leva a que a desorientação geral sirva para reforçar os impulsos programadas. Assim, toda a incerteza, todos os elementos de fragilidade e auto-recriminação, bem como a sensação da falta de propósito das nossas existências, levam a que a interioridade e a própria consciência se tornem zonas demasiado dolorosas. Provocam uma vertigem com a qual estamos a deixar de saber lidar, restando este virar do avesso, esta tentação de buscar uma ordem de beatitude ao nível das superfícies. Num momento em que nos sentimos fulminados por esta devastação colectiva a que chamamos realidade, tudo nos empurra para dentro, para formas de isolamento, e o corpo torna-se o destino e parece consumir todo o quadro das nossas ansiedades. Dos cuidados constantes com a imagem às dietas e suplementos, ao esforço para atingir medidas ideais, o culto passou a ser exercido nos ginásios, nas mesas de operações, com as cirurgias e toda a panóplia de intervenções a assumirem o peso de uma nova liturgia. Bernard Andrieu escreveu que “o corpo é a nova religião do século XXI”: híbrido, desnaturalizado, sujeito a metamorfoses sem fim, tornou-se objecto de uma promessa de salvação. Em “Crimes do Futuro”, Cronenberg encena precisamente este culto: a carne aberta é o sacrário, os bisturis são as mãos sacerdotais, a beatitude já não se procura no invisível mas na pura visibilidade — no espectáculo do corte, na exibição da incisão, no êxtase do que a imagem retém e multiplica. A religião desloca-se do mundo espiritual para o terreno da estética, e esta é quase invariavelmente de ordem narcísica. O corpo submete-se inteiramente ao design, surge como interface. Baudrillard parece ter profetizado a forma como a simulação absorve o real até que o corpo não é senão um ecrã onde se projecta a ilusão da vitalidade. Em breve, e face a um horizonte definido pela carência, pela decadência, pela violência, pelo entretenimento extremo e por catástrofes ambientais desencadeadas por nós, já não haverá margem para nos reconciliarmos com a natureza, restando apenas a reprogramação infinita, a carne como software. As vísceras tornam-se design de interiores, um mobiliário íntimo a ser remodelado. Nega-se a transcendência, restando-nos a imanência absoluta da imagem, a vertigem de um narcisismo que se alimenta do vazio. Este culto do corpo pós-natural é a contrapartida simbólica da devastação planetária. Com o adensar da catástrofe, em vez de enfrentá-la, a energia é deslocada para a construção narcísica de uma pele artificial, de um rosto filtrado, de um corpo reprogramado. Multiplicam-se as próteses, desenhamos novos contornos, fazemos dele um laboratório de constantes mutações, um objecto de culto devotado à ilusão de permanência no regime das imagens. A operação cirúrgica devém assim sacramento, inscrição visível da fé na técnica, tatuagem de um mundo que só se reconhece no brilho do artifício. O paradoxo é que esta fuga não conduz a um renascimento, mas a uma duplicação infinita: o corpo já não é carne, é simulacro, vitrina, holograma de si mesmo. O humano apaixona-se apenas pela imagem que reflecte, já não pelo sopro da vida que a atravessa. Com tudo isto, a natureza perde consistência, é um ruído distante, um pano de fundo em dissolução. Ao mesmo tempo, toda a degradação planetária se traduz em espectáculo, e cada catástrofe ambiental encontra o seu correlato narcísico no desejo de remodelação. Quanto mais o mundo apodrece, mais se purifica o corpo-imagem. O delírio é este: acreditar que se sobrevive ao colapso não protegendo a terra, mas cultivando a aparência. É um culto sem transcendência, e a cada incisão, a cada retoque, acredita-se que se derrota a morte. Na verdade, apenas se escava mais fundo a distância em relação ao real, essa devastação que continua a corroer o planeta. A religião do corpo é, afinal, a máscara última de uma civilização que escolheu amar a sua própria simulação e abandonar a terra que a sustenta. Mas tudo são reflexos condicionados, e a impotência, a sensação de separação, de diminuição do alcance, de incapacidade de ter uma acção decisiva, tudo isso é programado. O vazio no que toca à esperança, como nos diz David Graeber, não é natural. “Precisa de ser produzido. Se quisermos realmente compreender esta situação, temos de começar por entender que os últimos trinta anos assistiram à construção de um vasto aparelho burocrático para a criação e manutenção do desespero, uma espécie de máquina gigantesca concebida, antes de mais, para destruir qualquer sentido de futuros alternativos possíveis.” Esta frase surge em epígrafe ao livro de Paula Godinho, “O Impossível Demora Mais”, e às tantas a autora estende esta reflexão: “Numa ordem do mundo actual marcada pela teologia da neoliberalização, o futuro parece uma condenação, enquanto as práticas de resgate de outras possibilidades são encaradas como desordem, numa caminhada para o abismo. Agita-se a bandeira do final de todos os processos que pretenderam construir novos projectos de sociedade que terminaram em distopias, vistos como sinais de ingenuidade de alguns.” Antropóloga com vários anos de experiência em campo, Godinho tem-se aplicado em recolher testemunhos e experiências daqueles povos que não se renderam nem ao fim da história nem às coacções do ideário apocalíptico que trabalha para nos convencer da nossa impotência, e veio trazer-nos o seu catálogo com ramos de oliveira e outras espécies, avistamentos de terras futuras.

    Um neo-bolchevique na praia lusitana. Conversa com Arturo Zoffman

    Play Episode Listen Later Sep 19, 2025 201:29


    Vamos falando como alguém a quem os dentes foram arrancados das gengivas, mas que, em vez de os cuspir, se dá a um trabalho desgraçado para que não lhe escapem da boca, para não os engolir, esperando a oportunidade de que lhe seja restituído aquele sorriso de antes. Mas quando ao certo? Apesar da insubordinação dos factos materiais contra a ordem fixa das coisas, que há muito estão reduzidas ao seu mero valor de troca, as palavras exprimem uma realidade que já não deveria precisar de ser explicada. Não fosse para interromper o modo estuporado de uma cultura que distorceu inteiramente a relação entre a vida e o pensamento. Todas as evidências parecem inúteis, pois buscamos nos outros uma audácia que nos falta a nós mesmos. Não deveria ser preciso, hoje, repetir o repto feito por Bataille na revista Contre-attaque, nos anos 1930, apelando a “violentos sobressaltos de potência” nascidos nas ruas contra a “impotência” das hesitações politiqueiras perante os movimentos fascistas. A verdade é que nos cansamos da nossa própria farsa indigesta, pois tanta exasperação em tentar instigar os outros revela, na verdade, como não estamos a conseguir convencermo-nos nem a nós mesmos. O próprio activismo não é, como já sabemos, mais do que uma renitência em graduarmo-nos através do nosso desespero, preferindo experimentar uma e outra vez a nossa impotência, aguardando que a catástrofe venha enfim tornar irrecusável tudo aquilo que fomos dizendo. “O activista mobiliza-se contra a catástrofe. Não faz mais do que prolongá-la. A sua precipitação consome o pouco de mundo que ainda existe. A resposta activista à urgência permanece ela própria no interior do regime de urgência, sem esperanças de o abandonar ou interromper”, lê-se em “Convocação”, um texto sem assinatura, na linha daquilo a que nos foram habituando os membros do Comité Invisível. Enquanto isso, se “as leis, códigos e decisões de jurisprudência existentes são suficientes para tornar punível qualquer existência, bastando para tal que sejam aplicados à letra”, é evidente que não queremos deixar de estar sob tutela, como se o sentido mais profundo que nos inquieta fosse apenas uma incerteza em relação ao plano, como se não conseguíssemos deixar de fazer as nossas birras de fedelhos, mas sem levar as coisas ao ponto de assumir a tarefa de nos governarmos a nós próprios. Habituámo-nos à previsibilidade da história, e aquilo que receamos acima de tudo é que se acabem os castigos. Custa-nos romper, assumir uma força de abjecção diabólica, deixar que a vaga dos sonhos que poderia arrastar-nos com ela nos leve a assumir algum acto irreversível. Por isso apenas flertamos com as influências ou ideias transgressoras. Já sabemos demasiado para o nosso bem. Sabemos como faltou sempre por aqui um conceito radical de liberdade, e que o liberalismo não passa de um regime anquilosado que, com a sua moral humanista, funciona como um perfeito álibi para continuarmos entretidos com as nossas denúncias, as nossas manifestações inofensivas, enquanto toda a comunidade é arruinada, e os grupos se vêem separados dos meios de existência e dos saberes que poderiam dar-lhes as condições de se emanciparem, desertando de vez. Enquanto isso prossegue “a devastação metódica de tudo aquilo que permanecia vivo na relação dos humanos entre si e com os seus mundos” (“Convocação”). Boa parte dos protagonistas envolvidos nas operações de mobilização já não iriam ser capazes de fazer mais nada se, por um milagre, se operasse a transformação que tanto dizem buscar. Quanto ao liberalismo, ganhou uma evidência pornográfica como o seu princípio axial é a ideia de que tudo deverá ser tolerado, tudo pode ser pensado e manifestado, desde que não afecte a estrutura da sociedade, nem ponha em causa as suas instituições ou o poder do Estado, o qual serve acima de tudo para sustentar a ficção policial em torno das formas de propriedade e a obscena acumulação de capitais nas mãos de muito poucos. “Por outras palavras, a liberdade de pensamento do indivíduo deve ser total, a sua liberdade de expressão também, mas não poderá esperar a concretização das consequências do seu pensamento no que respeita à vida colectiva”, lê-se nas páginas do opúsculo já referido. Parece-nos que 2025 é uma data que deveria estar situada no futuro, mas despertamos a cada dia forçados a reconhecer que estamos condenados a andar às arrecuas, sobretudo se tivermos em conta aquele ideal de liberdade que, segundo Breton, neste mundo, só à custa de milhares de duros sacrifícios poderia ser alcançada, sendo vivida então sem limitações, sem qualquer calculismo pragmático. No fundo, este ideal torna-se ameaçador não apenas para o sistema, mas para o carácter da maioria de nós. O maior triunfo do capitalismo foi ter sido capaz de reproduzir o homem como um ser à sua imagem, um ser que se identifica e reflecte todas as suas aspirações vazias, degradantes, um ser incapaz de beneficiar da partilha, desde logo a partilha das nossas necessidades, desde as mais básicas aos anseios que nos fazem voltarmo-nos para fora, sentirmos fome de mundo, de algo que não se confunde com as distrações e divertimentos ao nosso dispor neste cemitério imenso. A verdade é que as necessidades foram substituídas por compulsões, os desejos foram degradados até darem lugar a meros caprichos, às intrigas e obsessões de subjectividades amesquinhantes, que retiram o seu gozo das inúmeras formas de predação, de uma sobrevivência que depende da escravização do outro. As nossas metrópoles não são mais do que a planificação desse truculento universo infinitamente dobrado sobre si mesmo, um meio onde cada interacção faz evoluir o conteúdo de agressividade, em que cada uma das outras formas de existência constitui para nós um obstáculo, um empecilho, o que nos programa de forma a não perdermos muito tempo a imaginar o efeito que as nossas acções possam ter na vida ou na intimidade do outro, e daí até ao seu massacre impõe-se apenas a possibilidade de forjar um argumento exculpatório. Neste episódio, tivemos de ir ao passado buscar um desses moldes quebrados, fomos às forjas de onde saíam aqueles rapazes dados a uma militância anterior a todo este efeito de separação, a todos estes contextos sociais em que se toma como criminosa a mais pequena tentativa de passar por cima da mediação do mercado. Arturo Zoffman consegue essa proeza de ser jovem mas antigo, é espanhol mas alguém lhe deve ter cuspido um bom pedaço de sangue russo nas veias. Mas pode ser que isto seja um efeito dos seus interesses e do seu campo de estudo. Muito ligado às revoluções do início do século passado,é membro do colectivo de comunistas revolucionários e dirige um projecto na FCSH que procura analisar a forma como a emergência dos fascismos na Europa teve como resposta um endurecimento dos regimes democráticos, com mudanças constitucionais, estados de excepção, etc. É um homem-relíquia, tanto pode estar atrasado um século em relação à sua época como pode ser já um dos primeiros elementos de uma espécie vindoura.

    O existencialismo publicitário. Uma conversa entre os dois monstros de plantão

    Play Episode Listen Later Sep 12, 2025 232:52


    “Una mattina mi son' svegliato…” (Bella Ciao). Na terceira década deste vinte e um, parece que os manifestos de ordem literária são gravados em balas. As palavras com capacidade de ruptura, de suspensão viajam em trajectórias balísticas. Cada tiro carrega uma proposição, um código cheio de carga viral. O atentado ameaça tornar-se o mais pregnante género literário numa época de dissolução das linguagens simbólicas. Este género distingue-se pela concisão absoluta, efeito imediato, impacto sem intermediários. O manifesto literário foi absorvido pelo disparo, num momento em que, mais do que qualquer texto, a imagem determinou que os corpos são os verdadeiros signos, saturando o espaço mediático, num momento em que a aparência consome todo o sentido, em que a estética e a política se confundem. Neste quadro, descontando esses actos mais peremptórios, dos livros, valem os que são escritos com sangue, com a merda, com essas excreções biliosas, essas pedras cultivadas interiormente e que conseguem cortar a luz, devolver-nos a um mundo trevoso. No seu livro, Heróis, Assassínio em Massa e Suicídio, Franco ‘Bifo' Berardi justifica o seu interesse por esses exemplos de brutalidade espectacular por reconhecer naqueles que a praticam a manifestação extrema de uma das tendências mais chamativas da nossa época: “Neles vejo os heróis de uma época niilista, uma era dominada por uma apavorante estupidez – a do capitalismo financeiro.” No entender deste filósofo italiano, nos nossos dias, o espaço do discurso épico foi ocupado pelas semio-corporações, esses aparatos dos quais emanam as ilusões que ocupam todo o horizonte de aspirações contemporâneas. “Aí reside a origem desta forma de tragédia tardo-moderna, nessa fronteira onde as ilusões são tomadas por realidade e as identidades percebidas como formas genuínas de pertença.” Para Bifo, a raça humana, deixando-se guiar por falsos heróis de enganosa substância electromagnética, perdeu a fé na realidade da vida e dos seus prazeres, e passou a acreditar apenas na infinita multiplicação das imagens. Ele serve-se de uma passagem do livro Os Condenados do Ecrã, em que Hito Steyerl assinala um ponto decisivo nesta transição, recordando o momento em que foi lançado o single Heroes, de David Bowie, em 1977: “Em 1977, a análise da situação iluminada pela banda punk The Stranglers proclama uma obviedade: o heroísmo terminou. Trotsky, Lenine e Shakespeare estão mortos. Enquanto os militantes de esquerda acorrem em massa ao funeral dos membros da Fracção do Exército Vermelho Andreas Baader, Gudrun Ensslin e Jan-Carl Raspe, a capa do álbum dos Stranglers mostra uma gigantesca coroa fúnebre de cravos vermelhos e declara: NÃO MAIS HERÓIS. Nunca mais. Mas também em 1977 David Bowie lança o seu single Heroes. Ele canta um novo tipo de herói, justamente a tempo da revolução neoliberal. O herói morreu, longa vida ao herói! Mas o herói de Bowie já não é um sujeito: é um objecto, uma coisa, uma imagem, um esplêndido fetiche — uma mercadoria imbuída de desejo, ressuscitada para além da miséria do seu próprio fim. Basta olhar para um vídeo de 1977 para perceber porquê: Bowie canta-se a si mesmo a partir de três ângulos simultâneos, com técnicas de sobreposição que triplicam a sua imagem; o herói de Bowie não só foi clonado, como sobretudo tornou-se numa imagem que pode ser reproduzida, multiplicada e copiada, um riff que circula sem esforço em anúncios que promovem quase qualquer coisa, um fetiche que embala como produto a glamourosa e impassível imagem de um Bowie para além dos dois géneros. O herói de Bowie já não é um ser humano maior que a vida, a cumprir missões sensacionais e exemplares; nem sequer é um ícone, mas um produto resplandecente dotado de beleza pós-humana: uma imagem e nada mais que uma imagem. A imortalidade deste herói já não provém da sua força para sobreviver a qualquer prova, mas da sua capacidade de ser fotocopiado, reciclado e reencarnado. A destruição alterará a sua forma e aparência, mas a sua substância permanecerá intacta. A imortalidade da coisa é a sua finitude, não a sua eternidade.” Face a este fenómeno seria possível identificar hoje um existencialismo de natureza puramente publicitária. Se ontem este nascia da náusea, e o homem lançado ao mundo era forçado a reconhecer-se livre, responsável, sem desculpa. Hoje, essa náusea foi estetizada, reciclada, convertida em branding. O que resta do ser não é o abismo da liberdade, mas a superfície brilhante do cartaz. Cada sujeito, em vez de se saber condenado à liberdade, descobre-se condenado à visibilidade. A nova metafísica é publicitária. A vida não se projecta — promove-se. O projecto sartriano, essa construção singular que respondia à contingência, converteu-se em storytelling padronizado. Já não me invento no risco de cada gesto, mas no algoritmo que recolhe e redistribui os meus gestos em equivalências de consumo. A angústia? Foi substituída pela ansiedade de não ser suficientemente visível, suficientemente performativo, suficientemente "autêntico" na vitrina universal. O inferno já não são os outros: é o feed. Um espaço onde o ser-para-outro já não é dialéctica mas estatística. Cada like é uma transcendência mínima, um micro-salto ontológico que me arranca por segundos à minha insignificância. A má-fé, outrora mecanismo subtil de fuga, é agora princípio estrutural. Viver é representar uma marca, e negar esse estatuto é apenas confirmar-se como produto de nicho. O homem publicitário não mente a si mesmo: ele é a própria mentira organizada, sistemática, estetizada. Que fazer diante deste deserto saturado de signos? Se em Sartre a liberdade exigia comprometer-se, aqui exige desaparição, opacidade, silêncio. Talvez a única resistência seja um existencialismo clandestino, sem campanhas nem slogans, uma vida que se furta à estetização total. Existir como quem sabota um anúncio: rasgando o cartaz, borrando o ecrã, recusando o brilho do próprio reflexo.

    Entre a merda e o infinito não cabe um grão de areia. Outra conversa com Andreia Farinha

    Play Episode Listen Later Jul 12, 2025 225:44


    Com este título roubado ao Zetho, neste que é o derradeiro episódio antes de nos retirarmos para cumprir com as obrigações do período estival, deixamos aqui um trilho algo caótico, um episódio que vai pela linha incerta entre a desintegração e a degeneração. Há um mecanismo de fatalidade que temos procurado desmontar, mas é difícil saber até que ponto a compulsão para interpretar o mundo não acaba por nos tornar reféns dos seus processos, como esses queixumes a que tantos se entregam e que acabam por inspirar e alicerçar o inferno no qual se encerram. Há certamente, hoje, uma propensão excessiva para os diagnósticos, um modo de infelicidade que é produzida por esse falar fiado que impede qualquer impulso de romper com todo este infortúnio, que, assim, faz de nós os seus publicitários. "Não é elegante abusar da infelicidade; certos indivíduos, bem como certos povos, de tal modo se comprazem nela que desonram a tragédia", escreve Cioran num dos seus silogismos da amargura. Deste lado estamos exaustos, apanhados pelos ritmos, pulsões e padrões de forças que temos dificuldade em compreender. Seria bom se pudéssemos fazer férias noutro tempo, arrastar-nos até ao passado e buscar uma outra textura para a realidade. A actual dá-nos asma. O próprio tempo vem se tornando cada vez mais um problema. Diz-nos Camus que, "quando o observamos, o tempo não anda depressa. Sente-se vigiado. Mas depois aproveita-se das nossas distracções. É até possível que existam dois tempos: o que observamos e o que nos transforma." Hoje, temos amiúde a sensação de ser impossível tirar férias, como se não houvesse distância suficiente para conseguir arrancar este zumbido que se nos infiltrou no sangue. Por vezes, busca-se aquele olhar que se demora entre o desencanto e a compaixão pelo mundo, como se o olhássemos a partir de um outro planeta. E se a contemplação do caos acaba por dar cabo de toda a confiança ou ilusão, para alguns só restam as boas maneiras, uma certa elegância, ou, à falta disso, um puro estilo, que não seja uma mera afectação, mas isso que alimentava nos espíritos melancólicos do século dezanove a ideia de que este acaba por ser um substituto da bondade. Enquanto as manias tirânicas do nosso tempo e o egoísmo daqueles que vivem fascinados com as possibilidades que ele oferece nos fazem sentir a mais, como estrangeiros incapazes de sentir qualquer apelo por estes costumes e valores, começamos a ter a sensação de que aquilo que distingue a cultura desta época é o facto de esta só poder ser adquirida em segunda-mão, através dos rumores e intrigas ou da nostalgia que ela provoca noutras pessoas. Pela nossa parte, estamos comprometidos com os estranhos, com esse anonimato familiar que é sempre possível dissimular, tentando livrar-nos das imposturas do ego. Sentimos falta de lugares de que ouvimos falar, desses cafés onde iam parar os náufragos de cada época, que apareciam ali sozinhos dispersos pelas mesas, devastados pela sensação de desequilíbrio entre os seus espíritos e o mundo. Claudio Magris fala-nos desses cafés que eram como hospícios para aqueles que carregam no sangue essas sombras separadas do tempo. A verdadeira conversa, que podia ser uma distracção afável, começa a ser um bem demasiado escasso. Sem a escuta, sem esse efeito de transfusão de sombras, as palavras soam cada vez mais enfraquecidas. “Hoje em dia já quase não se pensa — só se fala", anotava Musil nos seus diários. “A palavra é, cada vez mais, um adereço. Diz-se tudo e o seu contrário com a mesma confiança retórica”, acrescentava no seu grande romance inacabado. E nem é propriamente o que se diz que nos desgasta, mas a vagueza, a inércia, que acaba por gerar esse grau de convicção puramente histérico, esse fluxo morno de convicções instantâneas, que cresce como uma vegetação pegajosa sobre tudo o que antes exigia silêncio. O país (mas qual ao certo?) parecia ter sido tomado por uma peste sem micróbio. Embriagados pelo desamparo, confundindo expressão com existência, todos falavam, ninguém hesitava. Havia qualquer coisa de obsceno no modo como os discursos se substituíam à atenção, como se as palavras servissem não para indicar, mas para evitar. E a linguagem, esse instrumento outrora tão delicado — como a vareta de um físico ou a pena de um calígrafo chinês —, fora reduzida à função de cobertura: cobrir a ausência, disfarçar o abismo, não dizer. Talvez fosse isso, pensava Ulrich, o novo ideal espiritual da época: dizer tudo para não escutar nada. Falar não por excesso de alma, mas por défice de realidade. Farta de tudo isto, depois do expediente, a Andreia Farinha aceitou a proposta indecente que lhe fizemos de vir rematar a série, e veio desacertar-nos ainda mais as voltas, trazer a desordem de que é íntima como poucos, reconhecer-se na figura do criminoso Moosbrugger, gozando toda a licença da ambiguidade, chutando as nossas muletas e vícios, defendendo-se dos excessos teóricos, usando a navalha da lógica para ferir nuns momentos, e o delírio cósmico e persecutório para se evadir noutros. Este episódio foi, assim, um grande fracasso.

    A tentação do fracasso. Outra conversa com Guilherme Pires

    Play Episode Listen Later Jul 5, 2025 195:21


    Temos de começar pela falência. Pior seria reforçarmos este nauseante heroísmo subsidiado em que temos andado. Estamos a querer enganar-nos sobre o papel que supostamente ainda cumpre aos escritores e aos artistas desempenharem de forma a que se consiga um despertar das consciências, quando, na verdade, estamos bem para lá disso. As consciências já viram o que tinham a ver, e não descansaram até se verem livres desse peso. Como assinalava Guy Debord, “todos os espíritos minimamente atentos do nosso tempo concordam quanto a esta evidência: tornou-se impossível à arte sustentar-se como actividade superior — ou mesmo como actividade de compensação à qual se possa entregar alguém, com honra”. E prossegue: “A causa desse definhamento é, visivelmente, o surgimento de forças produtivas que exigem outros modos de produção e uma nova prática da vida. Na fase de guerra civil em que nos encontramos, e em estreita ligação com a direcção que vislumbramos para certas actividades superiores do porvir, podemos considerar que todos os meios de expressão conhecidos vão confluir num movimento geral de propaganda, que deve abranger todos os aspectos — em perpétua interacção — da realidade social. Quanto às formas e à própria natureza de uma propaganda educativa, várias opiniões se defrontam, geralmente inspiradas nas diversas políticas reformistas actualmente em voga. Bastar-nos-á declarar que, para nós, tanto no plano cultural como no plano estritamente político, os pressupostos da revolução não estão apenas amadurecidos — começaram a apodrecer. Não apenas o retrocesso, mas também a prossecução dos objectivos culturais “actuais”, por dependerem de facto das formações ideológicas de uma sociedade passada que prolongou até hoje a sua agonia, só podem ter eficácia reaccionária. Apenas a inovação extremista possui justificação histórica.” Em grande medida pode-se fazer corresponder o mundo digital a um desejo de deixar de justificar-se, passando a estabelecer apenas ligações intuitivas, precárias, a partir de um mundo de fragmentos descontextualizados, justapostos, passíveis de serem indefinidamente recompostos, sem que seja necessário ou desejável compreender a relação que os inscreve no livro de onde foram extraídos. As nossas mentes adaptaram-se a um regime virológico, foram abandonando a consistência dos corpos, furtando-se à função realista, a essas resistências cronológicas e às simulações históricas, para um campo onde todas as hipóteses valem o mesmo, tudo é perfeitamente acidental. Com a interferência de diferentes níveis de informação, realidades absurdamente contraditórias, a justaposição dessas expressões autónomas supera os seus elementos primitivos e dá origem a uma organização sintética de eficácia superior. A tal civilização do livro ruiu em poucas décadas, e a literatura está tão distante da nossa experiência concreta como estaria uma época pré-histórica. Na sua acelerada podridão, o mundo torna-se cada vez menos real para nós, e as nossas mentes parecem infectadas de ideias e conceitos desgarrados de qualquer experiência, e que podem, por isso, ser abandonados sem produzir qualquer abalo profundo, desde logo porque deixámos de ter em nós convicções a esse nível. O que resiste da leitura é um estádio paródico de apropriação e acumulação de elementos desviados, o qual, longe de querer suscitar ainda algum escândalo ou troçar seja do que for, em vez de evocar uma obra original, exprime, pelo contrário, a nossa indiferença perante um original esvaziado de sentido e já esquecido, restando apenas aquele apelo de ferir a ordem de forma a libertar um certo sublime. A memória não é já o elemento estruturante, tendo sido arquitectada de forma a produzir um todo coerente. A estrutura é o que cede, à medida que se impõem as leis do desvio. Teremos de mergulhar muito mais fundo na nossa incompreensão, rejeitar firmemente a herança clássica, e o carácter comedidamente racional dos nossos reflexos e réplicas, de forma a alcançarmos um grau de deriva realmente séria. Nem sei o que possa ou não vir a propósito disto, mas apetece trazer aqui uns versos de Reynaldo García Blanco, nem que seja apenas para abandonar esta comissão onde se regateia aquele mundo que estaríamos a perder, mas a que ninguém pretende regressar. “Subsídio nocturno. Tresnoitados assalariados./ Boémios contra-sol. Partem por líquidos que acabarão/ com o estômago que foi em tempos metal e dura madeira/ do bosque./ Despertos e musicais dormem ao/ crepúsculo e sonham com as mulheres que não têm./ Partem em fuga rumo à morte num carro âmbar. Partem os tresnoitados com a música âmbar/ e um cão âmbar.” Talvez o clima marroquino que aí vem faça de nós uma nação mais propensa a essas alucinações com que o deserto caça os homens. Então, a nossa cultura não terá escolha senão escapar à inclemência solar e fundar uma resistência nocturna. Neste episódio, convidámos o Guilherme Pires para irmos afinando mais algumas das impossibilidades que se colocam, hoje, perante editores e agentes independentes, num mundo cada vez mais saturado, e em que, em vez de se questionar o papel que podem ter ainda os livros e os seus produtores, talvez fosse importante discutir antes com que leitor se pode contar.

    Das tribos do cinema ao humor corporativo. Uma conversa com Beatriz Silva Pinto

    Play Episode Listen Later Jun 27, 2025 248:25


    Depois do terror, segundo ouvi dizer, as crianças aprendem a ver no escuro. É uma espécie de talento que nasce da necessidade de controlar a proliferação de imagens que o medo nos sugere. São cineastas dessa circunstância intolerável. Porque o escuro admite o pior. Da mesma forma há quem fale consigo mesmo, procure uma ordem qualquer de que se possa ocupar, às vezes retoma uma conversa mal resolvida, responde a alguém, confronta uma e outra vez o seu exausto repertório de truques, vai buscar cenas, planos de filmes e investiga tudo aquilo que sem se ter dado conta aprendeu de cor, a posição de cada objecto, que agora adquirem uma estranha densidade, um peso extraordinário. Saber convocar o sono é um dom, combater uma circunstância desfavorável, escavar um túnel a partir da cela do tédio. Era assim que Cyril Connolly explicava a necessidade da arte, defendendo que esta “é a tentativa mais nobre do homem para preservar a Imaginação do Tempo, para fabricar brinquedos mentais inquebráveis, bolos de lama que durem”… O cinema é um assunto das infâncias que mais foram obrigadas a escarafunchar certas feridas, a aguentar a imensa desolação da realidade, sobretudo para quem tem uma natureza atenta. O cinema é esse território dos mudos, dos que aprendem o valor de um enquadramento, de uma sequência, dos cortes, da montagem. Os que se deram ao trabalho de fazer do olhar uma lição de história. Se a uma criança, quando lhe perguntam o que quer ser quando for grande, nunca ouvimos a resposta – “Vou ser crítico de cinema” –, como notou, certa vez, François Truffaut numa entrevista, talvez isso se explique por estar longe de supor que haja outros que não precisam de mais estímulos, pois fizeram da memória o seu projector, e tiram prazer de fazer do cinema o motivo de longas exposições, conversas infinitas. São muitos, na verdade, os que se encontram na mesma situação, consideravelmente treinados desde crianças a ver filmes, a pensar sobre eles e, mais tarde, com os anos, ao encontrarem a sua tribo, a falar deles, a discorrer durante horas sobre cada detalhe, mas depois, até por esse excesso, são incapazes de passar para o outro lado, ter a audácia ou a veleidade imbecil de fazer um filme. Há uma espécie de erudição culpada, que em vez de iluminar, pesa intimamente. Em vez de se transformar num balanço atrevido, acumula-se como dívida, pede imensas desculpas, retira-se. É o saber do crítico que lê demais, vê demais, anota demais — e escreve de menos ou escreve como se estivesse sempre a dever explicações. É um saber que se constrange, que se encurva. Em vez de cortar na carne da obra, contorna-a com aparato técnico, com um dicionário em punho e medo de parecer ingénuo. Esquece, assim, que a verdadeira erudição é leve, ofensiva, cortante. Esta é a condição do espectador que perdeu a inocência e, com ela, a coragem de errar, de improvisar, de sentir sem aparato. Guillermo Cabrera Infante fala-nos de um crítico que sentia necessidade de atafulhar cada texto de um tal excesso de referências que, para lá do alarde da erudição, lhes emprestavam uma morbidez própria de quem gosta de arrastar cadáveres ou trocar restos entre túmulos, fazer combinações bizarras nas horas de tédio em que lhe é dado zelar por um desses arquivos que aguardam a completa digestão das larvas. Vale a pena reproduzir o texto… “Caín gostava de fazer frequentemente um grande alarde erudito. A sua erudição chegava ao ponto de dizer que H. C. Robbins Landon estava a completar o catálogo total da música de Haydn; que Tchékhov conheceu Tchaikovsky em São Petersburgo, no início de Dezembro de 1888; que a modelo preferida de Delacroix se chamava Émilie Robert; que, se o jazz nasceu nos bordéis de Nova Orleães, foi a ordem da Secretaria da Marinha norte-americana, em 1917, ao encerrá-los, a ocasião para a sua difusão e desenvolvimento posterior. Etc. Parece-me que Caín encontrava estas citações ao acaso, nas suas leituras caóticas e, por isso mesmo, múltiplas, e que as ia anotando nas críticas à primeira oportunidade, viessem ou não a propósito. Um dia disse-lho. A resposta dele deixou-me gelado (tão gelado que, se tivesse tido sabor, não estaria aqui a contar isto: estávamos à porta de uma escola), porque respondeu-me com uma citação de Chesterton: ‘Afinal, creio que hoje não me vou enforcar', foi o que disse.” Onde queremos chegar? Essa costuma ser uma interrogação bastante cruel. Talvez ainda seja o mesmo problema do início, a criança que faz filmes para si, inventa o cinema para não ser absorvida pelo escuro. Neste episódio, vamos traçar um percurso entre esse desejo de ser encantado, entre a descoberta do cinema como arte produtora de uma memória defensiva, e um enredo formidável de correspondências, imagens que nutrem uma espécie de sistema imunitário e de resposta da imaginação contra circunstâncias infamantes. Nessa linha que vai de um cinema paraíso à degenerescência dos que só conseguem tratar as fitas como oportunidades para levarem a cabo processos de dissecação, contámos desta vez com Beatriz Silva Pinto, que além de trabalhar no Cinema Batalha, tem uma relação empenhada com esta arte, e uma perspectiva pouco cínica das possibilidades de expansão que nos oferece, desde logo enquanto antídoto face à dissolução das comunidades, e ao retrocesso dos espaços de encontro e resistência a um quotidiano cadaveroso.

    Assalto à Biblioteca Nacional com a bandeira pirata de Luiz Pacheco

    Play Episode Listen Later Jun 23, 2025 143:35


    Num mundo coagulado, num tempo viscoso, em que só se podia andar aos tropeções, isto quando outros marchavam, cercavam, se punham em cima para que ninguém deixasse de se sentir deglutido, embrutecido, sem conseguir fazer outra ideia da vida, e ao menor esforço logo se sentisse ofegante, assim mesmo ainda houve um que outro a recusarem viver esse pesadelo da lentidão e da impotência, esse enfado dos órgãos. Houve quem fosse capaz de ver as coisas através da sua fadiga, e escavar à unha o seu penhasco. A ele ainda lhe ouvimos o passo nervoso, aquele seu canto de sereia roufenha, experimentada, abusiva. Aquela voz de miúdo, reinando com tudo e todos. Conhecemos muito bem o perfil, mesmo que não nos tenhamos chegado a cruzar pelas ruas com esse bicho escarolado, ficou-nos um rastro que não perdeu nada do seu calor. Quanto ao meio literário como ele o viu e mostrou, desde a sua morte fechou-se ainda mais nos seus cálculos e apostas, e, por estes dias, ao homem de letras já nem se pede que seja minimamente consequente, que pense alguma coisa, nem que procure dar testemunho do seu quinto dos infernos. Tudo refocila na mesmice, e assim, no limite, como assinalava Le Clezio, “toleram-se no escritor, no artista certos desvios, apenas na condição de poderem ser recuperados, e de essa liberdade jactanciosa poder ser confundida no interior da totalidade literária: simples concessões à moda, ao espírito do público, que é preciso saberem fazerem-se sob pena de se ser ignorado”. “E o que vem a ser um escritor que não seja lido?”, interroga ele. A suprema habilidade de Pacheco foi ter sabido dizer tudo o que queria e como queria, num pacto incerimonioso em que deixou que o tomassem por esse delinquente que serve só o consumo quotidiano do mal que o bem se autoriza. A verdade é que ao colaborar nesse número, foi ganhando margem, gozando o prato como um escritor excluído da ordem beneditina, e que, se passou mal, e tantas vezes se viu condenado a encarnar esse mal que o bem social inventa e de que necessita para a sua autopurificação, à medida que os anos foram passando, quase todos os grandes vultos, os santarrões que se acotovelavam nos nossos altares, foram caindo e desfazendo-se em cacos, e ele, com aquela sua biografia desabusada, em tantos momentos particularmente amarga, passou a representar essas noções que se aguentam de pé, acabando mesmo por se ver engolido pela ordem cultural que tanto fez por esbarrondar. O seu imenso romance desbocado ainda anima e arrepia, continua a dar lições sobre o atrevimento e essa força de quem não deixa nada por dizer, e mesmo se o fez a partir de um ângulo de absoluta subjectividade, hoje os seus juízos tendem a converter-se em denominador. Possui um nome que não deixa de ser repetido com uma frequência assombrosa em todo o lado, um nome que serve como uma praga. Mais do que um maldito, Pacheco ganhou entre nós o estatuto de uma maldição. E, no entanto, está longe de se ter convertido num desses grandes nomes, não se regenerou, por mais que algumas almas cândidas pretendam extrair-lhe à força uma moral, vendendo a banha da cobra subversora, como se a própria literatura não pudesse ser senão uma instituição redentora. Pelo contrário, para aqueles que se viram para ele buscando o raro alento que anima a insolência, sabem que a seriedade desta escrita se mede pela forma como incita o género de ataques que lixam a fulanada, a dos fornicoques justiceiros que temem ainda um regime de crónica cruel e rude, deixando a mula beletrista pela fúria rumorosa que cresce de um desabafo. Ora, o Pacheco não pedia desculpa de estar vivo e a escrever, como também nunca quis dar ele a missa, mesmo se admitia que a sua “memória regressiva tanto dava para o torto (as sacanagens) como para o actos de cristandade laica”. E agora, num momento em que mais do que ordenar, exaltar e autopsiar, o mais premente mesmo era trazê-lo por junto de volta ao nosso convívio regular, depois de lhe termos cosido pedaços das muitas partes, num volume que, antes de mais, o que quer é ter-se de pé sem apoio de espécie alguma, até para fazer de tijolo e estar apto a quebrar janelas, lá subimos à torre, fomos directamente ao buffet com o nosso prato deslavado, e se não deu para encher o bandulho, tentámos capturar a bandeira deixando, para a troca, umas enormes cuecas que levassem o vento por cima da Biblioteca Nacional a fazer caretas de todo o tamanho. Fica aqui o registo da apresentação que teve lugar esta tarde, e segue assim como um episódio extra, com as participações de Marta Félix, João Pedro George e Diogo Ramada Curto, entre outros.  

    As cenas do crime. Uma conversa com Joana Manuel

    Play Episode Listen Later Jun 20, 2025 244:29


    Dizem que se escuta um estranho silêncio uns momentos antes. Os desastres respiram fundo. A terra sabe-o. Fica tudo quieto, na expectativa. É assim antes dos terramotos e de outros abalos naturais. E há uma nota colhida à margem de uma obra poética dessas que estão sempre a assediar a beleza, buscando legitimar-se, mas que depois mal podem pagar as dívidas face a uma informação clara e incisiva, e que precisam de ir colher noutro lugar: “Quando morremos, a audição é o último sentido a desaparecer.” Talvez busquemos até ao fim, e no limite das nossas capacidades, essa qualidade que torna estranho um silêncio, e que serve como um aviso que nos toca a todos por igual. A inteligência é um subterfúgio. Na verdade, as necessidades mais profundas são animais. Rilke parece intuir isto numa das cartas para Lou: “Noutros tempos, cheguei, por vezes, a interrogar-me por que motivo os santos queriam tanto infligir a si próprios tormentos corporais; só agora compreendo que esse gosto do sofrimento até ao martírio era uma manifestação da urgência, da impaciência de não mais voltarem a ser interrompidos, nem incomodados, inclusivamente pelo que lhes poderia acontecer de pior. Tenho dias em que não aguento ver pessoas, com medo de que rebente nelas uma dor capaz de lhes arrancar gritos, tão forte é a minha angústia de que o corpo, como frequentemente acontece, abuse da alma, que nos animais encontra o seu repouso, mas a segurança só nos anjos a pode encontrar.” Estamos destreinados de tanta coisa que em tempos nos foi crucial. Fomos perdendo a prática, esse balanço constante que trazíamos e que servia já como um impulso fosse em que sentido fosse. Ser homem podia então implicar de raiz um certo empenho, uma relação contundente. E talvez, para nos habituarmos de novo à mudança, rompermos esses casulos onde nos fechámos, pudéssemos impor às nossas conversas um movimento, para trazer para dentro delas nem que fosse a inconstância do cenário. Ao fim de algumas horas, e abdicando de um roteiro claro, poderíamos dar por nós em zonas inesperadas, que acabariam por se intrometer na conversa. “Onde estão os antigos debates, o velho pó?”, questiona Etel Adnan. “Os Sufis costumavam viajar de Múrcia para o Cairo – nas alturas – usando como combustível o poder da sua vontade (se os pássaros conseguem fazê-lo, porque não eles?). O real deve ter significado as milhas que percorreram, e apenas isso. Por baixo deles, o chão a tremer.” Já seria uma forma de nos arrancarmos ao elemento da constância e previsibilidade que nos envolve e absorve, que se tornou a verdadeira textura da realidade quotidiana. A tarefa seria, assim, inverter esta tendência para ficarmos reféns de uma aventura diminuída, diluída, fragmentada, que apenas nos deixa “uma dor fugitiva, quase inacessível à consciência e que não deixa no espírito mais do que uma surda irritação dificilmente capaz de descobrir a sua origem” (Vaneigem). Também as nossas ideias levantariam outro pó se estivessem habituadas a mastigar distâncias no seu compasso. Uma inclinação para a épica nasce com esses relatos que atravessam fronteiras e trazem impressões daquilo que não se vê daqui. “Montanhas levantam-se em nós, tal como a linguagem, fazendo da analogia uma parte intrínseca do pensamento (portanto, do ser)”, adianta Adnan noutro dos seus subtis aforismos. Neste episódio, a nossa convidada, também há muitos anos a tentar fazer sentido da sucessão dos ciclos, e procurando afectar o mundo em vez de ceder ao registo de tantos que se limitam a lubrificar beatamente as partes que lhes cabem do aparelho com a sua contestação formal, veio falar de como têm vindo a estreitar-se os caminhos possíveis para um artista, para alguém que entrega o corpo a uma participação e tenta ferir o isolamento ao qual nos vamos entregando. Joana Manuel é actriz, assume-se queer, mesmo se não sente necessidade de levar à linha os regulamentos de quem entende que a construção de uma diferença passa sobretudo por corresponder a uma qualquer vontade de pureza ontológica. Foi uma conversa em volta de uma mesa, mas com a insegurança de um caminho que temos percorrido cada vez com maiores suspeitas, sem o respaldo de um horizonte ou de tabuletas, um modo de percorrer-se a si mesmo, ansiosamente, como quem busca uma saída.

    "Sperma retentum venenum est". Uma conversa com António de Castro Caeiro

    Play Episode Listen Later Jun 13, 2025 271:23


    Por mais que goste de exibir a sua perpétua avidez, a glutonice deste tempo sacia-se depressa, e o ciclo repete-se sem margem para desvios. É um tempo avesso a grandes proclamações, ainda que esteja ansioso por distracções, catástrofes que o venham beliscar, mantendo-se desperto com recurso a uma teatralização que abusa do som e da fúria, e fazendo do quotidiano um tédio constante com vista sobre o abismo. Esta esclerose gradual da existência estabelece um paradoxo fundamental entre, por um lado, os tremendos abalos que se verificam na perspectiva global, e, por outro, a monotonia e todo este espectáculo que alimenta uma espécie de pavor, reforçando a passividade na vida de cada um. Uma condição política de coacção baseia-se em encenações cada vez mais vigorosas, escândalos prefabricados, como vincava Raoul Vaneigem, esses "gestos privados de substância em proveito de uma ilusão cujo encanto perdido torna dia a dia mais odiosa. Gestos fúteis e mortiços à força de terem alimentado brilhantes compensações imaginárias, gestos empobrecidos à força de enriquecerem altas especulações nas quais entravam como criados para todo o serviço sob a categoria infame de 'trivial' e de 'banal', gestos hoje libertados e desfalecidos, prontos a perderem-se de novo sob o peso da sua fraqueza. Aqui estão eles, em cada um de vós, familiares, tristes, entregues recentemente à realidade imediata e movediça, que é o seu meio 'espontâneo'. E aqui estão vocês, perdidos e comprometidos num novo prosaísmo, numa perspectiva na qual coincidem o próximo e o longínquo." Mal mergulhamos na substância dos discursos pretensamente esperançosos, bem intencionados, reconhecemos todo esse vazio de quem se serve das palavras apenas para se anestesiar. Se em tempos Vaneigem pressentia que não era tanto a morte aquilo que aterrorizava os homens do século XX, mas antes a ausência de verdadeira vida, hoje nada parece aterrorizar mais os homens do que a perspectiva de uma vida realmente tumultuosa, implicada, combativa. Pagamos o preço por toda esta covardia acumulada que exprime a realidade quotidiana. Eis como Herberto Helder punha as coisas: "A época é literal e conformista. Divertir-se é quase obrigatório. Há juízes, julgamentos, justiças, jus­tificações — há episódios por todos os lados para a gente rir, e depois a gente vai para casa e se porventura conservou limpas as suas fontes entrega-se jubilosamente a confundir a vigência: a gente desfaz e refaz as coisas, a gente diz: inven­ção, imaginação, inovação — e sem dar por isso encontra-se em estado excelso de irrespon­sabilidade social, sente-se responsável consigo apenas." E como aquele escritor belga central ao movimento situacionista vincou, "não se substitui impunemente o cio da salvação eterna por pequenas masturbações privadas". Não sendo uma época vitalista, mas antes uma que se define por sucessivos recuos amedrontados, houve poetas que vislumbraram uma única saída para este estado de coisas. Leia-se uns versos do poema "Vinte e quatro horas", de Raul de Carvalho: "Eu vos digo que é tarde, demasiado tarde/ Para principiar/ A exercer justiça:/ O número dos mortos já excede/ O tamanho da terra (...) Eu vos digo que já não temos tempo/ Senão para a vingança." Mas até para se vingar o homem precisa de alguma imaginação, de algum requinte, alguma perfídia. Em vez de grandes conspirações, restam essas pequenas células, uma sabotagem constante planeada por cada um, quase a ponto de ser essa a sua confissão particular. Como assinalava Vaneigem, ainda que os grandes movimentos de transformação social e política devessem ser pensados como respostas solidárias, fazendo valer a força dos números, "no momento revolucionário cada homem é convidado a fazer a sua própria História". Talvez isso possa ser aquilo de que se ocupam os poetas, ou, pelo menos, os grandes. "Estou no centro de mim próprio", confessava o génio egoísta que era Herberto... "não me interessa este mundo da justiça de fora, o mundo dos juízes e julgamentos, não me inte­ressam as justificações do mundo: estou só. Leva-se até ao extremo o divórcio libertador, é impon­derável quase o trabalho de atingir o extremo pessoal. Em poucas épocas foi tão simples estar contra tudo, os outros, a nossa facilidade que se mostra nos outros, a tentação dos outros." Vamos vaguear por noções destas, e, para nos acompanhar, neste episódio contámos com a generosidade de António de Castro Caeiro, que tem vivido de um balanço vastíssimo, de uma convivência com os espíritos mais antigos e dotados de uma juventude que o mundo não soube ainda como envelhecer e degradar, regressando a eles em busca de modos de reinventar o próprio "homem" nestes períodos de dissolução dos horizontes. Poderíamos ter beneficiado mais dessa prática de estudo e construção filosófica, não estivéssemos tão mordidos e dominados pela febre da actualidade...

    Alice no País das Finanças. Uma conversa com Ricardo Paes Mamede

    Play Episode Listen Later Jun 5, 2025 177:02


    Não anda longe o momento da atomização absoluta, da conversão de cada um de nós em figuras que se diluem num espelho programado, numa miragem que nos absorve como Narcisos do curso de águas digitais. Há coisas que não se podem traduzir, nem espelhar entre mundos, sob o perigo obscuro de se produzir um reflexo subtilmente monstruoso e que pode bem contaminar ou assombrar o original. Mary Shelley disse algo nesta linha, mas de forma tão astutamente memorável que a frase se torna em si mesma um narcótico: "We are unfashioned creatures, but half made up, if one wiser, better, dearer than ourselves — such a friend ought to be — do not lend his aid to perfectionate our weak and faulty natures." (Somos criaturas imperfeitas, meio inventadas meio incompletas, perdemo-nos se alguém mais astuto, e que nos é mais querido até do que somos para nós próprios — como é suposto que um amigo seja — não estender os seus cuidados à nossa natureza fraca e imperfeita.) Precisamos de figuras por quem possamos nutrir uma admiração sincera e que nos levantem problemas. Hoje, e num momento de projecções contaminadas pelo poder, que apenas são capazes de se organizar segundo estratégias de valorização, de ambição e promoção pessoal, as relações tendem a ser construídas em função de um ganho imediato, mas o poder, como assinalavam os situacionistas, neutraliza a linguagem: "Sob o domínio do poder, a linguagem designa sempre algo que não é o vivido autêntico. É precisamente nisso que reside a possibilidade duma contestação completa. A confusão tornou-se de tal ordem, na organização da linguagem, que a comunicação imposta pelo poder se desvenda como uma impostura e um logro. Em vão um embrião de poder cibernético tentará pôr a linguagem na dependência das máquinas que controla, de maneira a que a informação se torne a única comunicação possível." O que os situacionistas não previram foi como a realidade seria inteiramente contaminada por essa forma de ficção dirigida e que digere por completo o horizonte de cada indivíduo. Em breve, será necessário pagar pacotes de extensão do vocabulário, conceitos mais finos, certas noções e termos serão abandonadas por serem tidas como nocivas, por poderem pôr em causa a eficácia programada. "O poder apenas fornece o falso bilhete de identidade das palavras, impõe-lhes uma licença de passagem, determina o seu lugar na produção (onde algumas visivelmente fazem horas extraordinárias); atribui-lhes, por assim dizer, uma folha de salário. Devemos reconhecer a seriedade do Humpty-Dumpty de Lewis Carroll, ao considerar, quanto a isso de uma pessoa decidir sobre o emprego das palavras, que toda a questão reside em 'saber quem será o dono' delas; nisso e em mais nada. E ele, patrão de vistas largas, afirma que paga a dobrar àquelas que emprega muito. Devemos pois entender assim o fenómeno da insubmissão das palavras, a sua fuga, a sua resistência aberta, que se manifesta em toda a escrita moderna (de Baudelaire aos dadaístas e a Joyce) como sintoma da crise revolucionária global que se regista na sociedade." Hoje são cada vez mais raros aqueles que fazem um uso da linguagem segundo este ânimo insubmisso, ou até minimamente insolente. Combater a relação de dominação deveria implicar um desvio contra a eficácia e os quadros de previsão com o qual operam os algoritmos, e isto em proveito da linguagem, numa oposição ao informacionismo moderno, aos modelos de simplificação, que reforçam as lógicas de "comunicação" unilateral. Como vincam os situacionistas, "o poder vive de receptação". "Não cria nada, só recupera. Se ele criasse o sentido das palavras, não haveria poesia, haveria apenas 'informação' pragmática. Nunca poderíamos opor-nos adentro da linguagem e toda a recusa seria exterior a esta, seria puramente letrista. Ora o que é a poesia senão o momento revolucionário da linguagem, e como tal não separável dos momentos revolucionários da História, bem como da história da vida pessoal?" Por isso vimos repetindo que não há mais clamorosa declaração da ineficácia de uma obra poética do que o momento em que esta aceita ser colhida pelos louvores oficiais, ver-se garantida pelo enredo institucional. Mas a poesia dos nossos dias não faz mais do que coleccionar os troféus que a reputam como inane - boa para consumo da população em geral. O mesmo princípio distingue uma verdadeira conversa. Como nos diz o poeta José Emilio Pacheco, "a conversa morre quando dizemos sim a tudo. Falar significa discordar. Não há troca sem controvérsia. O sermão e o dogma são estranhos ao ensaio. Não peço a um ensaio que confirme as minhas crenças ou preconceitos. Espero que ele abra outra porta, me faça ver o que nunca vi, ponha à prova tudo o que até então eu supunha". Hoje, a linguagem deixou-se absorver enquanto signo de confirmação, triunfam os discursos que fornecem falsos bilhetes de identidade, projecções constantes, diluentes. Neste episódio, e depois de tantas vezes termos embatido contra as limitações do entendimento das ficções financeiras, pedimos orientação ao economista que mais admiramos, aquele que melhor tem contrariado as impressões ociosas que vamos cumulando, como ferrugem analítica, e que assim trouxe a sua chave de fendas para nos apertar os parafusos. Embora se descreva como um "rafeiro reformista", Ricardo Paes Mamede tem sido a voz crítica mais constante e lúcida a servir de barragem contra as imbecilidades da classe liberal e da sua hegemónica ideologia. Tínhamos demasiadas perguntas, eis algumas respostas.

    O futebol e outras civilizações ficcionais. Outra conversa com Carlos Maria Bobone

    Play Episode Listen Later May 30, 2025 213:12


    Teria sido bom se em vez de cigarros e outros vícios ocasionais, tivéssemos aprendido um instrumento, desses que puxam por nós, tornam mais fértil a solidão, e nos levam por lugares perdidos à boleia do som, frequentando uma gente que prescindiu de se fazer interessante, de se explicar, coleccionar temas e opiniões, mas que prefere outro ângulo do mundo, outras frequências, promete o sangue a uma circulação mais vasta, prescindir do teatro de quem está aí para nos dizer uma e outra vez quem é, antes tornar-se um nativo do fundo, das regiões que acatam todo o balanço, gostam de ranger com o mundo. A música bem pode ser uma forma de jogo que persiste até mais tarde na vida. Quem forma bandas ou acede a essa promiscuidade tão fluída das formações que despontam de forma ocasional, acidental, são os miúdos que se defendem da realidade através dessas formas de recreio sonoro. Devemos pensar na teoria dos círculos mágicos de que fala Huizinga, esses que se desenham numa situação de jogo, o qual não apenas gera uma zona nova, sujeita a outras leis ou regras particulares, mas também se extrai do contexto geral, e admite possibilidades mais profundas de recreação, activando modos de atenção particularmente fortes que, para alguns, são negativamente associados a formas de distracção frívolas, superficiais e improdutivas. Ao longo da história, como lembra Patrícia Gouveia, no catálogo da exposição Playmode, brincar e jogar foram habitualmente considerados opostos à disciplina, ao trabalho, à seriedade. Mas, em Homo Ludens, Huizinga vincou como “o conceito de jogo pertence a uma ordem mais elevada do que a seriedade dado que esta procura excluir a ideia de jogo, enquanto que o jogo pode perfeitamente integrar a ideia de seriedade”. Esta seriedade do jogo nada tem que ver com uma questão de produtividade, eficiência, ou qualquer dessas medidas do enredo capitalista. Huizinga preferia evocar a forma de envolvimento do jogador em formas de acção sublime e sagrada com a mais alta seriedade, arrebatamento e absorção. É esse modo de sublimar e de construir um enredo alternativo que integra uma série de propriedades mágicas e autonomiza os círculos do jogo. “Perfeito é não quebrar a imaginária linha”, escreveu Sophia. Assim, o jogo é um ensaio rebelde, um impulso de transformação decisiva, que pensa por propor um outro modo, mudar, escapar, dar margem para uma ficção que chega a ser para nós bem mais decisiva, bem mais absorvente e cativante. Como assinalava alguém, no jogo há qualquer coisa “em jogo” que transcende as necessidades imediatas da vida e que confere sentido à acção. Em certo sentido podemos encarar o futebol como um jogo que foi levado ao extremo e se impôs como uma espécie de civilização ficcional, com a sua mitologia própria, os seus heróis, e a sua carga de epicidade estupenda, que serve um recreio àqueles que viram o caminho para a infância e as liturgias do jogo serem-lhes proibidas. Em O Jogo da Glória, Carlos Maria Bobone nota como o desporto tem para nós “esta função escandalosa de oferecer uma escapatória ao destino e mostrar que, pelo menos, podemos criar qualquer coisa que nos diverte a partir de todo o mal que fazemos”… Mas e porquê? “Porque a vida em geral precisa de alívio, precisa que nos libertemos das suas finalidades, é que um desporto como o futebol pode ser tão apelativo. Não há nada necessário em chutar uma bola, nada funcional em marcar um golo. Um desporto destes liberta de uma obrigação mais geral de viver a vida e do peso dessa obrigação.” Neste episódio vamos andar à volta destas possibilidades de recreação e de ficção, nos modos mais ou menos subtis de insubordinação, e para isso, contámos com o apoio do Benjamin-velhinho, este reaccionário erudito, que se tem desdobrado entre ensaios de algum fôlego sobre aspectos mais ou menos centrais da cultura, sempre de forma esclarecida e saborosa. Também tem mantido uma empenhada acção crítica, e é alguém que traz um relógio de pulso que se ouve pela sala como um metrónomo. Ora, se queremos saber que horas são, qual é a nossa circunstância presente, devemos reconhecer que qualquer época deve, necessariamente, ser aferida através de uma relação crítica. “É unicamente através dela que a humanidade se pode tornar consciente do ponto a que chegou”, diz-nos Oscar Wilde. “É a Crítica, como sublinha Arnold, que cria a atmosfera intelectual de uma época. É a Crítica, como espero vir a sublinhá-lo eu um dia, que faz do espírito um instrumento preciso. Nós, com o nosso sistema educativo, derreámos a memória com uma carga de factos desconexos, e tentámos transmitir esforçadamente os conhecimentos que esforçadamente adquirimos. Ensinamos as pessoas a lembrar-se, nunca as ensinamos a crescer. Nunca nos ocorreu tentar desenvolver no espírito uma qualidade de apreensão e discernimento mais subtil.”

    O real como transcendência. Uma conversa com Luís Bernardo

    Play Episode Listen Later May 23, 2025 240:38


    Está difícil imaginar como vamos fazer os desertos engasgarem-se de novo com as marés. Parecemos estar reduzidos a uma política em migalhas, política apenas concebida como mecanismo de substituição do real por ficções, mesmo porque, como assinalava Enrique Lihn, "nada é suficientemente real para um fantasma", e são apenas fantasmas aquilo que produz este mundo sucessivamente diluído que nos é posto diante dos olhos pelos ecrãs, de tal modo que não falta muito até que mesmo a palavra "homem" passe a ser ouvida com suspeita, ferindo as narinas delicadas de quem prefere esse onirismo maquínico. Não houve mais notícia dos tais grupúsculos enraivecidos que faziam do seu desespero um elemento de combate. No abalo insípido das visões propagadas no reino digital, hoje, são cada vez mais aqueles tomados de uma esperança bolorenta, aqueles que se oferecem para desposar a noiva fascista, num romantismo vivido até às fezes. Com esta virulência mundializada da questão nacional, e o recrudescimento dos orgulhos de facção, quem não tem deus vê-se a vaguear por territórios tomados pelo fervor que inspiram os mais imbecis líderes de culto, com o seu messianismo descocado que baptiza os ressentidos em novos convertidos às religiões de salvação. Entretanto, as pontes para outro lugar, para ilhas de realidade foram cortadas. Resta-nos viver como náufragos entre este bando de zelotas. Os poucos ecos que nos alcançam, como murmúrios de outro mundo, animam por instantes esses êxtases fugitivos da História. São algumas vozes presas em idiomas que em breve serão proibidos e que ainda nos trazem alguma frescura: "Após o colapso da nossa civilização, ou ela perecerá completamente, como as civilizações antigas, ou adaptar-se-á a um mundo descentralizado", escreve Simone Weil. "A nossa época destruiu a hierarquia interna; como é que pode permitir que a hierarquia social, que não passa de uma imagem grotesca dela, sobreviva? Não podíamos ter nascido numa época melhor do que esta, em que tudo se perdeu." Antes que o homem deixe de ter qualquer significado, podemos antecipar como muito em breve mesmo o nosso sono estará sob vigilância, e, para efeitos de cura e de terapia há-de haver prescrições de sonhos guiados pelas máquinas. Em lugar de descidas ao inferno, seremos revistados no própio inconsciente, isto se não formos simplesmente dizimados. Só quando dormimos é que ainda somos minimamente livres. De resto, como já alguns notaram, a comunicação tornou-se atmosférica. O excesso de estímulos impede que assimilemos sequer as informações que nos são vitais, e às tantas nem sabemos distinguir umas das outras, de tanto estarmos envoltos nesta segunda realidade. De repente, mesmo as nossas memórias gaguejam, sabemos isto e aquilo sem nos lembrarmos de onde veio essa noção, relato ou imagem. As fontes confundem-se, evaporam-se. Somos acossados, e não há filtro suficientemente potente para escaparmos a todo este fogo cruzado. "A demência é sistémica", diz-nos Bifo Berardi, "não patológica: tem vindo a alastrar-se desde que a aceleração do estímulo neural começou a produzir efeitos de pânico e depressão. E tem gradualmente tornado impossível o pensamento sequencial, crítico, racional, ou apenas razoável. Por esta razão, a demência deve ser o principal objecto da nossa atenção teórica, analítica e política, mesmo que eu não pense que exista uma possibilidade de a remediar. O ritmo da infosfera não pode ser abrandado de forma alguma, porque o cérebro humano está agora dependente dele e não pode tolerar uma redução da intensidade do neuro-estímulo. De qualquer modo, já é demasiado tarde: a demência já produziu o seu mundo." Todo este contexto absorve-nos e reproduz em nós os mesmos impulsos nervosos, entre a irritação e as contracções de alguém dominado por essa síndrome de Tourette epocal, ou, noutras alturas, desfeito, num estado de catatonia. Neste episódio juntou-se a nós Luís Bernardo, um tipo que arrasta num saco de batatas a História, aos tombos todo o caminho, cuspindo injúrias em múltiplas línguas, alguém que atira com ela para cima de qualquer mesa onde esteja aberto um mapa como um tabuleiro de jogo para os generais de estúdio de televisão fazerem aquela fita de grandes senhores, um tipo que tem um candeeiro aceso na última janela e estuda pela noite fora as intimidades da guerra.

    Em nome dos bárbaros. Com o Changuito no centésimo episódio

    Play Episode Listen Later May 16, 2025 262:09


    Já andamos nisto há cem episódios, a tentar desenhar essa periferia monstruosa em torno de uma cultura que se excede de tão recomendável, debitando exemplos, listas de autores e obras, “ideias flutuantes”, enaltecendo-se na sua acumulação esgotante, com esse enredo esfalfado em que as mesmas personagens inofensivas aperfeiçoam os gestos de mármore, com os seus conhecimentos fragmentados, desprovidos de um eixo, de um sentido de unidade e de um desejo de acção. Vemos por aí tudo tão mal digerido, sendo tão raros aqueles que trabalham a qualidade da sua culpa, quando um embate já vai exigindo outra pele, uma outra resolução das mentes, que por estes dias parecem cada vez mais baratas, mais submissas. Incapazes de urdir esses ventos que levam o fruto e a casca, estende-se uma terra cada vez mais longe de qualquer nexo profundo, onde se deixam embalar por contos infantis. Talvez só se possa produzir alguma perturbação cercando a cidadela, reunindo as forças de tudo o que esta procura expulsar para fora dos seus muros. Nem tudo pode desapontar, e se os insectos intemporais que mergulham o seu ferrão na carne destes dias nos dizem que o mundo está a dissipar-se a uma velocidade atroz, resta estudar os elementos antigos das grandes tradições. “Outros escrevam biografias/ passo a passo e dia a dia/ como se exumando o passado/ renascessem os biografados/ seguidos de extensa bibliografia// Estas, não: são vidas recuperadas/ por golpes fundos e agudos/ sem intenção de mostrar tudo,/ só querendo, no fim das facetas,/ revelar vidas lapidadas/ pela visão de um poeta”, eis o que anota Domingos Pellegrini a propósito do volume a que Leminski deu o singelo título “Vida”, a partir de quatro biografias (Trotski, Bashô, Cruz e Sousa e Jesus) que lhe fornecem os caracteres de uma radicalização em que é possível investigar como a vida poderia ou deveria ser, caso ultimasse esse sentido de “uma política da arte como experiência”. Jean Baudrillard ajuda-nos a compreender o que possa ser uma estratégia capaz de separar todas as letras do vazio, de virarmos a nosso favor o elemento de desagregação num tempo em que tudo conspira para nos separar. “Cansadas da dialéctica do sentido, as coisas encontraram um meio para lhe escapar: o de proliferarem até ao infinito, o de se potencializarem, o de se sobreporem à sua essência, numa escalada até aos extremos, numa obscenidade que lhes servirá, doravante, de finalidade imanente, e de razão insensata. Nada nos impede de pensarmos que é possível obter os mesmos efeitos numa ordem inversa – outra insensatez, também ela vitoriosa. A insensatez é vitoriosa em todos os sentidos – este é o próprio sentido do Mal. O universo não é dialéctico – está condenado aos extremos, não ao equilíbrio. Condenado ao antagonismo radical, não à reconciliação nem à síntese. Este é também o princípio do Mal, e exprime-se no génio maléfico do objecto, exprime-se na forma extática do objecto puro, na sua estratégia de vitória sobre o sujeito. Obteremos formas subtis de radicalização das qualidades secretas, e combateremos a obscenidade com as suas próprias armas. Ao mais verdadeiro do que o verdadeiro, oporemos o mais falso do que o falso. Não oporemos o belo e o feio, procuraremos o mais feio do que o feio: o monstruoso. (…) Nesta escalada até aos extremos, será talvez necessário opô-los radicalmente, mas será igualmente necessário juntar os efeitos da obscenidade e os efeitos da sedução. Procuraremos algo de mais rápido do que a comunicação: o desafio, o duelo.” Para este episódio fomos ao último reduto, ali onde a cultura se vê forçada a fazer o caminho todo do princípio do mundo até ao fim, sem pressas, tornando claro como o real exige paciência. Parece haver uma inversão, no sentido em que, hoje, começamos sempre pelo fim, e o mais difícil é recuperar as raízes. Mas nesse antro tão pouco recomendável, o habitual regime do beatério cultural aparece-nos cercado por todos os lados, e aquilo que o ameaça é que provoca em nós calafrios, abrindo-se num enredo de possibilidades clamorosas. Como assinala Louisa Yousfi, “a barbárie é uma vitalidade primitiva que permite a escrita verdadeira, o gesto puro, a poesia”. Pedimos ao minotauro que nos abrisse a porta do seu labirinto. A Poesia Incompleta persiste nesta cidade de muralhas derruídas como um castelo e uma latrina, um laboratório para os exercícios de expansão e contracção das virtualidades que a poesia enuncia e aprofunda, dessa lei da relatividade mais generosa, aplicada aos sujeitos. Talvez seja a última das moradas com a porta irrestritamente aberta para a rua onde se dá em directo essa operação de volte-face em que o culto leva a melhor e ainda troça e injuria as formas do espectáculo, e isto com um Ahab ao leme, o maior tirano e um dos raros insurrectos, encarnados ambos numa mesma figura trágica, comovente, mas com um humor que é uma verdadeira devastação inteligente, uma figura admiravelmente esquizofrénica, que dirige uma escavação arqueológica e um instituto de etnografia a partir desses projectos que quase todos sonham (ou dizem que sonham) e que quase sem excepção têm a lucidez de não levar por diante, para não submeterem os seus sonhos a uma decepção fatal. Por isso, aquilo não é uma livraria, antes uma interminável operação de coração aberto a um dos últimos loucos sísmicos não trancado nalgum museu ou a definhar para benefício da nossa distracção turística num zoológico.

    Uma sinfonia de chumbo nos 100 anos do Pacheco. Em conversa com João Pedro George

    Play Episode Listen Later May 7, 2025 268:27


    Para se ser um homem deste tempo ou até de outros, e variar, cumular, não basta estar vivo, como estamos todos, mais ou menos, tantos sem grande proveito, para si mesmos ou para a época, não basta isso, ainda é preciso ter ouvido, escutar a música que faz cada um, que fazemos todos, os que sabem arrancar notas ao seu instrumento, seja este qual for, ouvir como tudo isso depois se eleva, que sinfonia ou caos se gera... Se não se consegue uma harmonia de jeito, mas anda tudo aos encontrões, a produzir ruído, e se, muitas vezes, desencorajados, caímos no silêncio, acabamos sufocados debaixo do que cospe a telefonia. Ser de algum tempo é ser capaz de escutar e, ainda melhor que acompanhar, é achar a sua diferença, esse a mais capaz de impor uma inflexão, até valores próprios, chegar a conduzir num movimento ou noutro, disputar a batuta, ou desmoralizar o maestro, criar a sua escola, mesmo que pela calada, clandestina, sem horários, sem burocracia, só de impulso, paixão. Regatear com a época, dar-lhe o golpe, isso, sim, é tomar posição, extrair um sentido da geral, e compor mais que uma rima, uma solução, ou devotar-se à querela, aos embates, não conter na raiva, não se deixar abafar, mas explicar a liberdade por extenso, nos gestos, em actos. Inventar o seu carácter, produzi-lo na relação com os demais, como uma resposta, tendo em atenção aquilo que falta, tudo quanto nos sonegam, anulam. E aqui faça-se notar que a maior violência de todas pode ser o silêncio, apagar os outros, fingir que não se viu, distribuir a morte antes de tempo, vir aí fazer a sua justiça que passa apenas por cultivar relações, chegar aos lugares, e decretar o vazio, ainda lhe pôr em cima uma gente decorativa para irritar mais. Substitui-se com isto a vida por um desenho animado desses que passam só nos lares da terceira tentando empurrar de vez os velhos, neste país que se quer um imenso lar-fossa onde atirar quem nunca viveu. Esses que, por isso, muitas vezes mesmo que quisessem ir-se, acabar com isto, não sabem para que lado fica a morte. O combate está dificultado, hoje, mesmo por aqueles que lêem. O afastamento paga-se, a falta de um convívio sincero, truculento, animador já por si deixa as almas aí a criarem musgo, em vez de lhes arrancar as teias de aranha, as intrigas alimentadas em estado de paranóia, reforça-se a tibieza do carácter, a infantilidade nas convições. Ora, se a história da Cultura nos ensina alguma coisa "é a resolução das antinomias numa luta sem tréguas, é o combate implacável entre credos opostos", vinca Luiz Pacheco. Estão mal as coisas para quem veio para a literatura em busca de sinais dessa refrega. Estão pessimamente aqueles que, como ele, escolheram a literatura como um modo mais empenhado de superar o estilo gago da existência, e pôr algum sentido na trama dos dias. "Porque a minha vida, o meu trabalho (chamem-lhe ou não assim, pouco me importa) é escrever. Ler, para escrever. Ver, para escrever. E o que não sair em letras, está-me escrito na pele. Vida dura? acho que se percebe, tenho a pele curtida e colada aos ossos, mordida, alegrias, dores, frios e miséria." Estamos sobre o centenário daquele que mais intensa e empenhadamente zurziu no enredo que veio falsificar esta relação entre a vida e a literatura, todos esses modos de aliciamento e convite ao imobilismo, as estratégias de inibição e que trocam uma condição dinâmica e aberta a "um espontâneo movimento de polémica, de antagonismos inconciliáveis em riste", por um quadro de acomodação amorfa. Vimos assinalar aqui esta data, a intervenção e a coragem daquele que, como reconheceu muitas vezes, foi um tipo bera, um sacana, tendo sido capaz do pior, mas alguém que fez o que fez por se querer um tipo livre, "livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português". Assim, em vez de cerimónias o que temos é um grande bolo onde afundar a tromba de uns quantos, e quisemos tomar de novo o pulso a um meio literário cujas imposturas ele não se cansou de expor e atacar. De resto, prova da condição moribunda deste são os silêncios falaciosos que permitiram que no ano passado viesse a lume uma obra inteiramente inédita e ninguém lhe pegasse, mesmo se os seus livros continuam a ser traficados a alto preço nos alfarrabistas, e se lhe vai sendo rendido um culto que não anda longe daquela forma de exploração sistemática póstuma do maldito, como pôde antecipar, falando no "aproveitamento do seu caso humano (deturpando-o) ou da obra por ele legada (amputando-a mesmo assim; colhendo nela apenas o que convém aos tempos que correm) manipulada por seres mesquinhos e gulosos que a serem contemporâneos do maldito, seriam (eram, está-se mesmo a ver, a perceber) os seus mais ferozes inimigos". Para discutir o seu exemplo e os textos que nos legou, chamámos o tipo (João Pedro George) que mais atenção lhe deu, que mais contribuiu para que à volta da sua obra se pudesse gerar um debate sério, não forçando a hagiografia, mas discutindo os elementos mais espinhosos, entre eles a forma como a sua lenda em muitos aspectos se tornou um adorno do próprio enredo que ele tanto combateu.  

    Uma escatologia política: do mal à emancipação. Conversa com Tiago Mota Saraiva

    Play Episode Listen Later May 2, 2025 263:06


    A um político nos nossos dias aquilo que deveríamos exigir antes de qualquer outra coisa é que tenha a disposição de acumular "um cadastro de prodígios", que o seu discurso se liberte do horizonte do provável, procurando formular uma profecia obscena e que passe pelo triunfo de uma voz maldita, de tal modo que aqueles que o oiçam se sintam já de certo modo culpados, capazes de vislumbrar essa realidade alternativa com uma precisão quase alucinante. Talvez não se possa resgatar a política sem uma boa dose de delírio, algo que não nos sujeite apenas à revelação do imediato. A voz deveria ser um modo de nos fazer ver o que está em falta, sobretudo tendo em conta que o quadro mediático tende a tornar irreal o próprio mundo. Como assinalava Steiner, "a televisão pode mostrar todos os massacres, todas as torturas e todos os acontecimentos de uma tal maneira que o imediato se torna para nós remoto, estranho e monstruoso, como se fôssemos crianças assustadas com o cair da noite". Talvez só restem como capazes de afectar a mudança aqueles discursos que possam aliciar-nos a mergulhar nesse território nocturno, reclamar de novo a heresia de viver a presença da queda. Aquele crítico recorda o exemplo de Claudel, acusado pelos seus detractores de uma heresia muito perigosa e grave: "acreditar não no céu, mas no inferno, acreditar no Mal, mas não no Bem". E Steiner tributava à sua época o conhecimento e o fascínio que sentia pelo mal. A verdade é que se pressente a impotência da política ou a sua profunda desonestidade por se limitar a falar em nome de uma inocência ou ingenuidade, e essa é a razão por que estamos desertos por ouvir vozes de outra ordem, que arrisquem suspender esse tom pastoso e cheio de boas intenções. "O papel que o artista desempenha na sociedade é o seguinte: redespertar os instintos anárquicos, primitivos, crucificados à ilusão de uma vida confortável", escreve Henry Miller. Fugindo ao ruído, a esse que domina o mercado como objecto de consumo indispensável, a arte surge como a possibilidade de uma paragem, uma intriga que encoraja em nós os actos que levem à destruição das condições úteis e necessárias ao dispositivo social. Há quem se satisfaça e regozije toda a vida com o mundo como ele se organizou, com o tempo como este ritmo que se infiltra nos corpos e soa tão alto que não deixa que quase ninguém escute os próprios pensamentos. Então, o que pedimos a uma suspensão abrupta? Que seja generosa, que cancele o ruído pelo tempo suficiente para que alguns possam voltar a reconhecer a voz que lhes é própria. Se alguns têm insistido que é preciso "organizar o pessimismo", "preparar-nos para sobreviver à cultura", há quem reconheça também como a cultura é precisamente aquilo que nos desmotiva, a tal coisa que vai embebendo o espírito, tornando-o pesado e impotente, sendo que, diante de uma ameaça terrífica, devemos apelar àquela vitalidade primitiva que age por impulso, com raiva, com uma ânsia absurda de esgotar em si todas as forças que lhe chegam como uma inspiração malévola. "De tanto viver nas trevas, acabámos por assinar um pacto com os monstros e as larvas que aí encontram abrigo. Esse pacto, temos agora de o romper e de nos atrever a olhar o dia, a fitar o nosso sol da Barbárie de frente" (Mohammed Dib). Deverá chegar um momento em que estejamos à altura de viver sem que tudo esteja já previsto de antemão, sem assumirmos que a melhor forma de se viver é com a captura total do dia de amanhã, sem margem para alguma dose de incerteza. Ao contrário do que se vem dizendo, talvez a nossa salvação tenha estado mais na hostilidade, e o bem seja uma província cercada pelo mal. Uma espécie de trégua entre adversários que aprenderam a temer-se. Neste episódio, vamos andar de volta das questões da habitação, e dos constrangimentos que o mercado tem imposto às cidades, ao ponto de, como um todo, as comunidades se terem visto expropriadas do espaço público, sendo-lhes retirada a capacidade de definir verdadeiras políticas de urbanismo. Quem nos veio dar algumas noções, algumas colheres de sopa numa ira que, às vezes, se fica pela saliva, foi o arquitecto e urbanista Tiago Mota Saraiva, um tipo que tem sabido aliar a sua acção profissional e enquanto professor a uma componente de intervenção e militância no sentido de combater a desigualdade e os vícios de um país que cada vez mais se divide entre os senhorios e os inquilinos de corda ao pescoço, entre outros ao deus-dará.    

    Pornografia, kidfluencing e iogurtes com pernas. Uma conversa com Maria João Faustino

    Play Episode Listen Later Apr 24, 2025 266:10


    O que é decisivo transformar permanece quase sempre em segredo, leva o tempo necessário, não se apressa, mas, aos poucos, vai chegando à sua plenitude devastadora. Não leva tanto tempo como imaginam aqueles que preferem não pensar nisso, mas muitas vezes não chega a tempo de socorrer os que começam a sentir-se desesperados. Ainda assim há que aprender com essa espera, crescer com ela. Podemos ler sobre este movimento surdo no conto de duas cidades de Dickens, ouvir um diálogo entre esses que exigem que o tremor de terra cresça a ponto de engolir uma cidade. "Mas quanto tempo é preciso para que se dê um terramoto desses?", pergunta um deles. "Muitas vezes, leva bastante tempo. Mas quando chega a altura, quando ele vem, não demora muito a engolir a cidade, e faz em pedaços tudo o que encontra à sua frente. Entretanto, está sempre a preparar-se, embora não se veja nem se ouça. Esta é a vossa consolação. Guarda-a." É uma esperança diabólica. Algumas mulheres foram-se agarrando a isto, e quando falavam entre si, depois de dispensadas as ilusões de ordem romântica, detestavam ver-se vestidas por outros, envolvidas na miserável farpela que lhes foi destinada. Preferiam bater-se pela sua autonomia, pelas suas reivindicações profundas, mesmo que as expressassem desajeitadamente. "Na nossa época, para um espírito agudo, o ridículo, 'ser ridicularizado', é qualquer coisa de sublime. Sublime e inquietante", diz-nos Françoise Sagan. A partir do momento em que se reconhece que tudo isso que eles consideram “natural” não passa de uma grande impostura, necessária para a manutenção de uma determinada ordem simbólica, só existe uma razão para cada homem ou mulher que aprenda a desenvolver a inteligência da sua sensibilidade. "E nesta posição desequilibrada, procurando a queda como quem procura um repouso, encontram-se muitos dos nossos contemporâneos", adianta a escritora francesa. "Ou por uma pata, e esqueçamos os loucos de amor, os que caem numa armadilha, os doentes graves e alguns poetas." O delírio tem mais a ver com fazer outra coisa da vida. Alguns só dão por si mesmos em intrigas mirabolantes, só por meio de alguma lenda acham uma forma de alívio face à linguagem e às instruções do inimigo, e dos seus constantes desafios para a luta, que podem fazer-nos alhearmo-nos das nossas próprias vidas, do caminho que deve ser traçado à parte. Mas então, como quem desenvolve interiormente um órgão capaz dos mais discretos milagres, a tristeza transforma-se em alegria, o luto em festa. Muitas vezes foi essa a trama de que se ocupavam as mulheres. Havia avisos contra isto e aquilo, prescrições para que levassem uma vida tão doméstica quanto possível, não exagerando os períodos de tempo entregues a actividades mais ambiciosas, intelectuais, sobretudo que houvesse o cuidado de não serem vistas com a caneta na mão, a redigir missivas demasiado extensas e sem um destinatário óbvio. "Pode-se saber tudo e, no fundo, recusar aceitar que a aniquilação das mulheres é a fonte de sentido e de identidade dos homens. Pode-se saber tudo e ainda assim querer desesperadamente não saber nada, porque enfrentar o que sabemos é questionar se a vida vale alguma coisa", escreve Andrea Dworkin. Não podemos substituir-nos, mas podemos ler-nos em voz alta, descrever os ritmos, os tons, o enredo ao nosso redor. As diferentes formas de pornografia, o seu elemento comum... "Há uma mensagem básica e transversal a todos os tipos de pornografia, desde o esterco que nos atiram à cara, até à pornografia artística, o tipo de pornografia que os intelectuais classificam como erostismo, passando pela pornografia infantil de baixo calão, e as revistas de 'entretenimento' masculino. A única mensagem que é transmitida em toda a pornografia a toda a hora é esta: ela quer; ela quer ser espancada; ela quer ser forçada; ela quer ser violada; ela quer ser brutalizada; ela quer ser magoada, ela quer ser ferida. Esta é a premissa, o elemento principal, de toda a pornografia. Ela quer que lhe façam estas coisas desprezíveis. Ela gosta. Ela gosta. Ela gosta de ser atingida e gosta de ser magoada e gosta de ser forçada." Como dela não há nada publicado entre nós, vale bem a pena dar-lhe alguma folga nesta língua: "Os pornógrafos, modernos e antigos, visuais e literários, vulgares e aristocráticos, apresentam uma proposta consistente: o prazer erótico para os homens deriva da destruição selvagem das mulheres e baseia-se nela. Como o pomógrafo mais honrado do mundo, o Marquês de Sade (apelidado por alguns académicos de 'O Divino Marquês'), escreveu num dos seus momentos mais contidos e bem-comportados: 'Não haveria uma mulher na terra a quem eu desse alguma vez motivo para se queixar dos meus serviços tivesse eu a certeza de a poder matar depois.' A erotização do assassínio é a essência da pornografia, como é a essência da vida. O torturador pode ser um polícia a arrancar as unhas à vítima numa cela de prisão ou um homem dito normal empenhado no projecto de tentar foder uma mulher até à morte. O facto é que o processo de matar (e tanto a violação como a agressão são etapas desse processo) é o principal acto sexual dos homens na realidade e/ou na imaginação. As mulheres, enquanto classe, têm de permanecer em cativeiro, sujeitas à vontade sexual dos homens, porque o conhecimento de um direito imperial de matar, seja ele exercido em toda a sua extensão ou apenas parcialmente, é necessário para alimentar o apetite e o comportamento sexuais. Sem as mulheres como vítimas potenciais ou reais, os homens são, no actual jargão higienizado, “sexualmente disfuncionais”. (...) A coisa mais terrível da pornografia é que ela diz a verdade masculina. A coisa mais insidiosa da pornografia é que ela conta a verdade masculina como se fosse uma verdade universal. Aquelas representações de mulheres acorrentadas a serem torturadas são supostamente representativas das nossas aspirações eróticas mais profundas. E algumas de nós acreditam nisso, não é verdade? O mais importante na pornografia é o facto de os valores nela contidos serem os valores comuns dos homens. Este é o facto crucial que tanto a direita masculina como a esquerda masculina, nas suas formas diferentes mas que se reforçam mutuamente, querem esconder das mulheres. A direita masculina quer esconder a pornografia, e a esquerda masculina quer esconder o seu significado. Ambas querem ter acesso à pornografia para que os homens possam ser encorajados e energizados por ela. Mas, quer vejamos a pornografia ou não, os valores nela expressos são os valores expressos nos actos de violação e de espancamento das mulheres, no sistema legal, na religião, na arte e na literatura, na discriminação económica sistemática contra as mulheres, nas academias moribundas, e pelos bons e sábios e amáveis e iluminados em todos estes campos e áreas. A pornografia não é um género de expressão separado e diferente do resto da vida; é um género de expressão em plena harmonia com qualquer cultura em que floresça. Isto é assim quer seja legal ou ilegal. E, em qualquer dos casos, a pornografia funciona para perpetuar a supremacia masculina e os crimes de violência contra as mulheres porque condiciona, treina, educa e inspira os homens a desprezarem as mulheres, a usarem as mulheres, a magoarem as mulheres. A pornografia existe porque os homens desprezam as mulheres, e os homens desprezam as mulheres em parte porque a pornografia existe." Já aqui fica qualquer coisa, e serve como um bom balanço para a conversa com Maria João Faustino, feminista da linha dura, o que quer apenas dizer que tem já um longo percurso feito no estudo da violência sexual, e está a par, não do discurso cheio de boas intenções, bons sentimentos, mas do que outras antes, igualmente empenhadas, foram escrevendo e manifestando, sempre com risco, sempre pagando o preço, e, além de saber ler os indíces, tem desenvolvido várias das questões que ainda só começam agora a ser tratadas superficialmente na comunicação social, como o tema do consentimento sexual. Além disso, o trabalho crítico pauta-se ainda pela colaboração com associações feministas e de apoio a vítimas e sobreviventes de violência sexual.

    Déspotas, caudilhos e ditadores de bairro. Uma conversa com alguns fantasmas

    Play Episode Listen Later Apr 18, 2025 215:56


    Já só se pode contar com os brutos para levar isto ou aquilo por diante, seja o que for, uma vez que, pelos seus próprios modos, estão familiarizados com o estrago, e não os tolhe a falta de um nexo óbvio, estão habituados a pegar por onde der, e ajudam-nos a partir do momento em que nos assumimos também como monstros folhetinescos, desses que dão corda a uma intriga qualquer, até porque se nos calamos logo mergulhamos num silêncio predador, assim, repetindo os mesmos tiques, tomamos balanço no que houver, mesmo em semanas como esta em que parece mais fácil apontar aqueles que nos falham, em que vamos de ausência em ausência, e, numa altura em que a terra já vai parecendo escassa para enterrar tantos, fica-nos a sensação de que, deste lado, a própria luz parece arquivada, uma "luz-mortalha", para nos servirmos de uma expressão de Rui Nunes, um dos poucos que continuam a dar com o isqueiro nalgum cano e a transmitir o seu morse exasperado que soa pelo edifício e por trás do solene e displicente papel de parede. Diante do desconchavo de tudo, em vez de milagres, suplicamos por desastres que tomem conta de tudo, engulam a vida, façam um pouco de justiça, dando cabo dos planos a quem tem a arrogância de fazê-los, e que são, na sua maioria, os safardanas responsáveis pelo estado das coisas. Mas voltando a um desses impulsos plagiados, desta vez a partir do Vargas Llosa, já ia sendo altura de um romance arrancar por estas bandas questionando-se em que momento preciso é que Portugal se fodeu de vez, e isto homenageando também o coronel que tantas vezes deu trela a essa indagação, e apontou algumas datas, algumas hipóteses bastante firmes, fazendo-nos espreitar as coisas por uma brecha, ver como se deu cabo de um período de suspensão, de quase irrealidade e sonho, que se viveu por aqui durante uns quantos meses, tendo sido talvez a última possibilidade antes de sermos engolidos pela vertigem. Alguém nos avisou: "Quando o tempo for apenas velocidade, instantaneidade e simultaneidade, e quando o temporal, entendido como esse acontecer histórico, houver desaparecido da existência de todos os povos, então, precisamente, as perguntas: para quê? para onde? e depois?, começarão a assombrar-nos como fantasmas"... E aí está, "esse motor de aceleração que comprime séculos em segundos", escreve Rui Nunes. “Nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais”, proclamava Valéry naquele célebre texto sobre a “crise do espírito” no final da Primeira Guerra, e agora o que nos diz o escritor português é que a ruína se tornou o próprio material de construção deste tempo, adiantando que a ruína exprime hoje a intimidade das civilizações. De resto, à volta, por toda a parte, ouve-se um zumbido e vêem-se as luzes dos monitores ligados, sente-se essa fetidez constante "do silencioso arquivo dos computadores, essa vala comum da modernidade". Por estes dias são as nossas próprias consciências que já arrastam e fazem alastrar esse mesmo sinal doentio, essa condenação que trazemos misturada no hálito. "Os noticiários tornam-se tão poderosos que já não precisam de televisão nem de jornais. Existem na percepção das pessoas. Elas próprias inventam as notícias, suficientemente poderosas para parecerem genuínas. São os noticiários sem os media", escreve DeLillo. Mas se não podemos sentir um verdadeiro ânimo, podemos ter vergonha de termos também caído nisto, e assim vimos pedir muitíssimas desculpas, e então damo-nos conta do motivo porque fazemos isto, porque insistimos em pôr uma frase à frente da outra, ultrapassando o desgosto, buscando o que vem depois, e desde logo também porque, como vincava Georges Perec nas últimas linhas de um dos seus livros… “Escrever: tratar de reter algo meticulosamente, de conseguir que algo sobreviva: arrancar umas migalhas precisas ao vazio que se escava continuamente, deixar nalgum lugar um sulco, um rastro, uma marca ou alguns sinais.” Aqui está o motivo por que quando não se tem mais nada ao menos podemos virar-nos para os nossos fantasmas, que não nos deixam falar sozinhos.

    O cheque-prenda das funerárias e outros saldos. Uma conversa com Vasco Santos

    Play Episode Listen Later Apr 10, 2025 219:42


    O homem não se reproduz numa grande gargalhada, e é pena. Daria outro sentido às coisas, e seria já por si uma filosofia de impulso quando as coisas não parecem ser capazes de rastejar mais baixo. Já se sabe que os chefes de família em nada acreditam, mas que grande fé colocam no seu cinismo. A situação da nossa fragmentada e precária civilização é cada vez mais grave, lê-se em toda a parte. E as luzes que ainda nos restam parecem cada vez mais íngremes. Todo este desgaste, estes milhões diariamente condenados à frustração, deve ser aqui o limbo. Mas se todos os desertos são falsos, este também o será. Fitamos o dorso dos livros que se arquejam, buscamos passagens, e nisto estamos próximos de tantos que se dedicaram a viciar a lógica, deturpar os estilos, misturar os séculos, suprimir as escolas. No fundo, e pelos fundos, nascem esses magos da quinquilharia, capazes de extrair alguma múmia de uma serapilheira. O pó é comum, as imagens é que se admiram da imensidão dos seus usos. Resta-nos a amizade que se tece de forma estreita com os que já não estão, com um Santos Fernando, com um Giorgio Manganelli, que nos deixava esta senha pessoal: "Amo a companhia, entre todas discretíssima, dos mortos." Aprendemos a trocar as posses pelas possessões. O som da nossa voz parece-se mais com uma cicatriz. "À medida que a civilização caminha para o seu zénite, ou para o seu zero absoluto, avançamos na técnica, renovamos as artes, modernizamos os hábitos e reajustamos os mobiliários, tendemos simultâneamente para o passado, enfeudados a um chiquismo, a uma presunção, recheando o lar progressivo de móveis carunchosos. Mais do que se faz com os vinhos, a divisa é envelhecer as peças. A pátina vence, a porcaria prevalece. Dão-se tiros com a arma caçadeira em escrivaninhas de embutidos. Pintam-se tábuas podres ao domingo, para que pareçam obras do tempo dos Descobrimentos. Tudo très ancien. É moda ter coisas velhas", anota Santos Fernando. faz parte desta natureza de náufragos temporais, coleccionadores diluvianos. Há muito que uns tantos, não vendo forma de dar um jeito a isto, foram conspirando no sentido mais limitado de se porem à margem, tornando-se especialistas da simulação, compendiadores de pequenos males, com a sua capacidade de empunharem a doença, tornaram-se os seus subtis artífices. Compendiam-nas, submetem-se aos efeitos, e deram-se conta de que era um dos talentos mais úteis, essas doenças que se pode aprimorar e que substituem vantajosamente outros géneros, desde a balada ao soneto, ou mesmo a epopeia, para não falar do poema sem pés nem cabeças que hoje se usa, entre outros registos igualmente caducos. E, assim, alguns levaram adiante as suas investigações, desde que alguém se perguntou: "Com a ajuda de que artifícios encontraríamos a força da ilusão para irmos à procura de outra vida, de uma vida nova?" Agora que excisaram o futuro de entre as ambições e os territórios batidos pelos literatos, estes mergulharam nesses cemitérios subterrâneos das espécies desaparecidas, e os melhores escrevem como os primeiros inventores da arte, na parede das cavernas, a palma das suas mãos como uma cintilante extensão de sóis. Assim, a linguagem recupera alguma da sua força de murmúrio, esse apelo doloroso de quem, à noite, por uma nesga qualquer se põe a medir distâncias entre as estrelas. A poesia estaria mais próxima desses gestos, uma vez que imita "uma realidade da qual o nosso mundo possui apenas a intuição" (Cocteau). Neste episódio, depois de tanta insistência, fomos enfim visitados pelo Vasco Santos, pelo menos por um deles, uma vez que o verdadeiro é um ser que paira como uma nuvem e se ligou há muito à descontinuidade essencial do tempo. Um ser esquivo, que habita o vai-vem, mas comparece sobretudo para ver essas ilhas que passam desligadas da corrente, como navios, mas muito mais vastos, sendo um devoto desses rigores ébrios, da delicada interdependência dos homens, quando o pasmo lhes desacelera os impulsos, e captam essas longas e sacras noites perfumadas que passam devagar, suaves como sonhos. Ao longo dos anos tem-se persignado em alimentar o contacto mútuo, astuto, absorvidamente crítico, animoso, alimentando um microcosmos da comunhão, sendo ele mesmo um sobrevivente dessas outras aspirações, um exemplo vivo e real desse alto objectivo que antes era próprio dos seres com alguma capacidade de êxtase.    

    Misoginia, linchamentos e a economia do ressentimento. Outra conversa com Maria Lis

    Play Episode Listen Later Apr 4, 2025 257:38


    “Quero conhecer a puta./ A puta da cidade. A única./ A fornecedora./ Na rua de Baixo/ Onde é proibido passar./ Onde o ar é vidro ardendo/ E labaredas torram a língua/ De quem disser: Eu quero/ A puta/ Quero a puta quero a puta.// Ela arreganha dentes largos/ De longe. Na mata do cabelo/ Se abre toda, chupante/ Boca de mina amanteigada/ Quente. A puta quente.// É preciso crescer/ esta noite inteira sem parar (…)” Não é uma provocação, é Drummond de Andrade, o mais canalha dos anjos, o mais encarnado dessa hierarquia que se some pelo tecto da criação, o homem que envelheceu ainda de mochila às costas, indo sem querer para a escola, levando porrada no recreio, pedindo namoro à facção do outro lado, resumindo séculos de engate em bilhetinhos, que terminavam em escolha múltipla: “Sim”, “Não” ou “A gente logo vê”. Não estamos a querer simplificar, mas o fracasso amoroso implica ir batendo às portas, ir descendo, até ganhar coragem de atravessar a rua de baixo, onde nos cruzamos com essa “guardiã do limiar”, a prostituta que, segundo Benjamin, é essa figura sagrada e profana ao mesmo tempo, que guarda a passagem entre a cidade diurna e nocturna, entre o alto e o baixo. Hoje, só a vertigem ainda nos desperta. Por isso, dos anjos tudo o que nos resta é a queda, o desastre cumprido de forma ritual, que implica assumir uma escolha, muitas vezes a pior possível, até para não se entregar ao impasse como parece ser a regra entre os demais. Conhecem-se as delícias de não pensar, de não prever e acatar as obscuras transformações que devem fazer de nós homens novos, purificados, os nativos que invocam esse mundo novo, dissociado da realidade, fazendo por esquecer os cruzamentos da história e da cultura, emprestados a esse imenso coral eufórico, a uma sujeição constante da actividade individual aos imperativos da virtualidade. “O espaço social transformou-se num sistema mundial de ligações automáticas em que os indivíduos não podem experimentar a conjunção, mas apenas a ligação funcional. (…) A vida social prossegue, mais frenética do que nunca: o organismo vivo e consciente deixa-se invadir por funções matemáticas mortas e inconscientes”, vinca Franco ‘Bifo' Berardi. Há hoje uma docilidade a um futuro que renunciamos a forjar e que nos limitamos a augurar, e mesmo se contrariados, colaboramos, dominados por desejos narcísicos e impulsos manipulados. Ninguém encontra saída, mas afundamo-nos e temos cada vez mais dificuldade em estabelecer uma fronteira entre o que pensamos ou sentimos e aquilo que não passa de uma resposta induzida a uma cadeia insuperável de estímulos, a um regime de programação dos circuitos neuronais. Não nos reconhecemos uns nos outros, mas falamos a mesma língua quando exprimimos este intenso mal-estar. “Este clima de asfixia que impregna os pulmões/ de uma angústia ofegante de peixe recém-pescado”, escreve Oliverio Girondo. “Este fedor aderente e errabundo,/ que intoxica a vida,/ e nos some em viscosos pesadelos de lodo./ Este miasma corrupto,/ que insufla em nossos poros/ apetites de polvo,/ desejos de um parasita abjecto,/ não surge,/ não surgiu/ destes aglomerados de sórdida hemoglobina,/ cal viva,/ soda cáustica,/ hidrogénio,/ chichi úrico/ que infectam os colchões,/ os tectos,/ as veredas,/ com suas almas cariadas,/ com seus gestos leprosos./ Este olor homicida,/ rasteiro,/ inelutável,/ brota de outras raízes,/ arranca de outras fontes./ Através de anos mortos,/ de crepúsculos com ranço,/ de sepulcros gasosos,/ de cursos subterrâneos de rios,/ foi-se aglutinando com os sucos pestíferos/ os detritos hediondos,/ as corrosivas vísceras,/ as esquírolas pútridas que consentiram o crime,/ a idiotice purulenta,/ a iniquidade sem sexo,/ o gangrenoso engano;/ até surgir o ar,/ expandir-se no vento/ e tornar-se corpóreo;/ para abrir as janelas/ penetrar nos quartos/ agarrar-nos pela nuca,/ empurrar-nos para o nojo,/ enquanto grita seu contágio,/ sua aversão,/ seu desprezo,/ por tudo o que aquieta a aspereza das horas,/ por tudo o que alivia a angústia dos dias.” Neste episódio vamos falar da polémica que opões Madalena Sá Fernandes a João Pedro George, vamos tentar abordar os elementos de uma sanha acicatada em zonas onde se excitam os piores instintos, onde os enredos estão sempre previstos, e oferecem esse jogo em que, sem se apagar a luz, a condição dos números permite essa degradação de todo o discurso, uma exasperação dos elementos conflituantes, mas num grau tal de tensão que se suprime qualquer possibilidade de juízo crítico. “Outrora ainda se fingia respeitar a inteligência, a cultura, as atitudes cívicas e morais”, assinalava num texto já com um quarto de século José Miguel Silva. “Ninguém se atrevia a desdenhar publicamente a cultura ou a ideia de formação intelectual. Havia decerto nisso uma grande dose de hipocrisia. Mas a hipocrisia não é o mais baixo a que se pode descer: pelo menos revela ainda má consciência em relação a algo que no fundo (ainda que de forma meramente supersticiosa) se considera superior: os valores morais, a ideia de justiça, a honorabilidade da inteligência. Quando já nem hipocrisia existe, isso significa que só resta o cinismo. E o cinismo reside na constatação de que o sucesso mundano em nada depende da inteligência e da probidade, e no regozijo perante esse facto, que assume então visos de ‘libertador'.” Neste episódio convocámos a Maria Lis para uma tarefa bastante ingrata com ela nos levou a compreender ao longo desta discussão, explicando os motivos por que a possibilidade de transmitir verdadeiramente certas noções obrigaria a uma transformação tão profunda da condição daquele que escuta, que não teria apenas de o fazer com verdadeira disposição de se reconhecer nesse “outro” que é “a mulher”, mas admitir, ainda que momentaneamente, uma transfiguração profunda dos processos pelos quais nos comunicamos, deixando de lado a mera apreensão racional, para assumir uma verdadeira experiência dessa outra realidade, que, parecendo estar tão próxima, reside num pólo que em grande medida ainda nos é desconhecido.

    A grande guerra à realidade. Outra conversa com Rui Nunes

    Play Episode Listen Later Mar 28, 2025 237:05


    Este tipo masturba-se à sombra de uma árvore de que não sabe o nome, é espiado também desde um ninho qualquer por pássaros sem uma espécie que pudesse distinguir das demais, tem diante de si uns quantos cadáveres, rostos familiares dos filmes, das revistas, corpos que a sua fantasia se entretém a compor e decompor, enquanto procura um ângulo que o satisfaça. Em tempos escrevia umas coisas, foi publicado, tinha boas relações, e não demorou a ver-se como uma pequena vedeta no circuito, mas em breve já lhe parecia que arrastava o seu caixão atrás de si, pelas conversas que tinha, o tipo de preocupações e ansiedades que eram tão comuns, isto naquele país de fechaduras complicadas, com um trajecto que se perde por ali, enquanto tudo enferruja, entre os que tentavam garantir-se e construir a sua zona de privilégio. Cansou-se daquela correria, começando a preferir as páginas dos eruditos, tentando passar à clandestinidade, e, se possível, integrar o grupo dos escritores mais atacados pelos colegas, preparados para divisar, nas florestas dos textos, a sombra ominosa do deus a quem pretendiam barrar o caminho. Dedicou-se a períodos de ausência, cultivou os mistérios, mas já se sabe como é só por breve tempo que suporta o homem a plenitude divina, e voltou-lhe a apetecer que todos tivessem notícia dele. Acontece que, entretanto, se habituara a registar os devaneios, e por mais que se esforçasse não conseguia ele mesmo fazer sentido daquilo que se lhe impunha, acabando sempre as suas derivas ou divagações por se extinguirem demasiado cedo. Como se a escrita o recusasse. Virou-se para os versos, naturalmente. Passou a dormir no tal caixão. “Está-se bem no teu caixão de aço, poeta./ De que é que te escondes. Tens medo dos versos./ Não te preocupes. Ao menos não mentem./ Fazem o trabalho deles como a gente faz o nosso./ E talvez tivesses amor a mais por ti próprio/ E pelo teu trabalho. Eu cá trabalho por dinheiro./ O meu prazer é depois do trabalho, cerveja e mulheres./ Agora trata-se de esquecer o que representavas para eles/ Para cada um deles, poeta. A morte paga a pronto.” Andava cheio de vozes, não sabia onde começava ele ou uns versos de Heiner Müller como esses aí em cima. Dizia a quem estivesse disposto a aturá-lo que andava a semear fantasmas, fingia-se bêbado, meio louco, sempre num transe marado, vagabundo e sei lá que mais, pedia dinheiro para comprar palavras, tinha uma tabela, preços, e de tanto as medir começou a usá-las para fins maliciosos, andava por aí já podre de inimigos, aparecendo à porta duns e dumas, arranjando problemas, fazendo ameaças, deixava-lhes cartas que exibiam um grau de paciência demoníaca, recortando frases, às vezes palavras ou até letras das revistas, já se dizia um fabricante de trovões, em vez de livros queria submergir a cidade numa imensa tempestade… “Mas de mim eles vão dizer Ele/ Fez propostas Não as/ aceitámos. Porque é que havíamos de o fazer./ É isto que deve ficar escrito na minha sepultura e/ Que os pássaros lhe caguem em cima e/ Que as ervas cresçam no meu nome/ Escrito na pedra Por todos/ Quero ser esquecido um rastro na areia.” Mas antes disso, podia despedir-se, armar um estardalhaço como aquela cidade não supunha já que fosse possível de um literato, mesmo um proscrito. Havia de regressar aos jornais do inimigo, uma última vez, antes que fosse tão má ideia nomeá-lo como noticiar suicídios. “Para quem escrevemos/ Senão para os mortos omniscientes no pó”… A imortalidade começava então a parecer-lhe um castigo que não se deve desejar a ninguém. Passou a acreditar que os verdadeiros poetas fazem de tudo para ser esquecidos, para cercar de nojo mesmo os seus mais delirantemente belos tumultos juvenis, e pela aspereza, por confidências venenosas, compram os seus versos mais delicados de volta, garantindo que a sua divina rudeza os torna insuportáveis para a memória dos que só querem encher mais não sei quantas páginas com as suas próprias inanidades sonantes. “Porquê escrevê-lo, apenas porque as massas o querem ler?” É sempre música aquilo que mais se ouve nos períodos de acentuado declínio. “Quando já tudo foi dito, as vozes soam doces”, garante Müller. Mas e se ainda nada foi dito, e se há muito tempo ninguém diz nada, não se desencadeiam então esses períodos em que a coisa mais estranha que pode soar nesta terra seja uma voz humana? Não estamos esquecidos dos elementos que implantam dentro de nós a vertigem, antecipando na carne todos os elementos da queda. Os verdadeiros poetas são perseguidos, a sua atenção torna-os atreitos a depararem-se com acidentes em toda a parte, são esses anjos desditosos, caíram tantas vezes que quebraram todos os ossos dentro da cabeça, e só lhes é dado reconhecer em cada detalhe aquilo que se aproxima, o tal desfecho. Neste episódio Rui Nunes veio incitar-nos a abrirmos mão daquilo que já julgamos saber, veio desequilibrar-nos e à arrogância com que disputamos as ficções do mundo conhecido, para nos devolver à sua outra face, a do desconhecido. Veio lembrar-nos da força do desamparo, do desinteresse pelas tenebrosas sequências ou consequências de uma urdidura que nos precede e sufoca desde sempre. Ele diria apenas: “volto ao trabalho de escrever a deserção, embora me não doa como antigamente (…) lutar com as palavras, progredir/ pelo interior desta guerra até chegar/ à palavra única da perda, esmagá-la/ contra mim, obrigar-me a dizer/ o seu corpo dizimado./ O caos/ Os cacos”.

    A vergonha tem de mudar de lado. Uma conversa com Patrícia Portela

    Play Episode Listen Later Mar 21, 2025 285:06


    Não deveria haver coisa mais suja do que isso de pôr-se a escrever sem um fim claro, ir acerbilhando as frases de modo a gerar um grau qualquer de irrazoabilidade, uma relação suspeita, cujos esforços se tornam um motivo de perturbação à volta. “Começo a escrever. E quando o faço nada de bom se passa já no meu íntimo”, anota Santos Fernando. Na verdade, é essa a inflexão decisiva de uma escrita, quando nos damos conta de que não vem orientada por nenhum princípio edificante, ela impõe-se e nada de bom dali se pode esperar. E tudo nela se torna inquietante, desde logo um certo estilo híbrido, como um estranho ser cuja pele apenas transmitisse reflexos subtilmente distorcidos, e a sua superfície fosse ao mesmo tempo uma espécie de estômago, emaranhando a envolvência numa digestão laborosíssima, e fazendo o seu percurso, despedaçando com um humor algo cáustico tudo aquilo com que se cruza. Passou demasiado tempo desde que uma predisposição artística denunciava uma gente que se entregava a uma errância selvagem, figuras um tanto dissolutas, cujos modos se tornam raros, os gestos um tanto indecorosos, produzindo espontaneamente um cenário de clandestinidade ao seu redor. “Considero que a arte reflecte a moral e que não se pode renová-la sem levar uma vida perigosa e dando azo à mendicância”, escreve Jean Cocteau. Nenhum verdadeiro artista parte para a obra com um desejo de atingir a clareza. Desejáveis são as trevas. E não é uma questão de ser difícil, de se mostrar intratável, mas é a compreensão de que aquilo que nos escapa é o que tem para nós verdadeira gravidade e apelo, pois sinaliza esses mundos abolidos e os firmamentos extintos a partir do momento em que a imaginação já não ousa provocar verdadeiros desastres. “Não se trata de olhar sem compreender e de gozar gratuitamente de um charme decorativo”, insiste Cocteau. “Trata-se de pagar caro e de compreender com um sentido especial: o sentido do maravilhoso.” É preciso considerar o elemento pavoroso de uma ponderação que realmente se mostra disposta a suspender os valores que tomamos como essenciais. A partir de um certo ponto todo o verdadeiro pensamento deve provocar calafrios a quem se esforce por acompanhá-lo. Existe também a utilidade desses crimes que premeditamos longamente mesmo sem fazermos realmente tenção de os levar a cabo, mas apenas para gozar do elemento sinistro, e confessar-se, criando um nível de intimidade e partilha inesperados ao exprimir um ânimo vingativo, admitindo a dimensão de pavor dos desejos que formulamos com aquele gozo de um ser em sentir-se a retorcer, os tais desejos impossíveis por reconhecermos neles um excesso de consequências. Mas, sendo a vida aquilo que é, as fantasias tendem a ir enegrecendo, a assumir um teor cada vez mais perverso. E talvez não falte muito para que a arte não se possa já distinguir de uma conduta criminosa. “Noutros tempos, cheguei, por vezes a interrogar-me por que motivo os santos queriam tanto infligir a si próprios tormentos corporais”, escreve Rilke… “só agora compreendo que esse gosto do sofrimento até ao martírio era uma manifestação da urgência, da impaciência de não mais voltarem a ser interrompidos, nem incomodados, inclusivamente pelo que lhes poderia acontecer de pior. Tenho dias em que não aguento ver pessoas, com medo de que rebente nelas uma dor capaz de lhes arrancar gritos, tão forte é a minha angústia de que o corpo, como frequentemente acontece, abuse da alma, que nos animais encontra o seu repouso, mas a segurança só nos anjos a pode encontrar.” Esta segunda parte já não combina com estes dias sobre os quais atiramos ingenuamente pronomes possessivos. Na verdade, parece que em muitos casos aquilo que é preciso é abusar das almas, castigar os corpos o suficiente para que a matéria volte a reunir-se em torno de algum eixo. Entrámos por um caminho que aponta sempre na mesma direcção, e vai ao sabor democrático do baratuncho, assim os próprios poetas são coagidos a darem explicações e a balizarem os seus projectos ainda antes de se lançarem nas investigações que, idealmente, deveriam virar-lhes a vida do avesso, trucidando cada uma das expectativas que traziam. “As pessoas exigem que se lhes explique a poesia”, anota Cocteau. “Não sabem que a poesia é um mundo fechado que recebe muito pouca gente, e que chega mesmo a não receber ninguém.” Anda tudo tão conveniente, mas depois estamos todos fartos, ou apenas entretidos, distraídos, e assim. Idealmente as obras deveriam ser elas mesmas os inimigos daqueles que se viram obrigados a empenhar tudo para as arrancar de entre as partes mais vulneráveis da matéria e de si mesmos. Ora, este episódio cedo se lançou na investigação do descalabro, e convidámos uma especialista, instigadora desses acessos desejantes, alguém a quem parece animar a irresolução de quem não se revê na sua própria condição, alimentando-se da suspeita de que há muita coisa por aqui que não bate certo. Patrícia Portela aliou-se a nós neste esforço de traduzir toda a urgência e crueldade nas piores injúrias de forma a, pelo menos, causarmos alguma comichão que leve a coçar-se este tempo de calmaria podre mesmo estando o abismo em saldos.

    As mais novas cartas portuguesas. Uma conversa com Sara Araújo

    Play Episode Listen Later Mar 14, 2025 298:32


    "A poesia é onde tudo acontece”, escreveu Alejandra Pizarnik. E adiantou que dizer “liberdade” e “verdade” em referência ao mundo em que vivemos (ou não vivemos) é dizer uma mentira. “Só não é mentira quando se atribui estas palavras à poesia: o lugar onde tudo é possível.” Mas há muito que deixou de ser assim entre nós. Por cá a poesia é o lugar onde nada acontece, e são realmente muito poucos aqueles que declaradamente assumem a poesia como fala da insubmissão, e que através dela manifestam desprezo pelas formas do poder. Por essa razão, como já alguns fizeram questão de sublinhar, a poesia deve ser feita contra a poesia, e contra essa noção que hoje se vai tendo do poeta como personagem que se dá ares precisamente para esconder que nada tem a dizer, “e que por isso verseja, com vista a produzir um efeito, um prestígio que influa positivamente nas hierarquias do poder e do dinheiro” (Júlio Henriques). Começa a ser difícil perceber em que momento é que a poesia escapa a ser um desses discursos acomodatícios, alimentando o álibi cultural daqueles que gostam de ser vistos a patrocinar as artes e ver-se cercados dessas criações de estufa. Já a propósito das publicações colectivas que se têm generalizado nos nossos dias, desses almanaques ou antologias sempre a fim do regime celebratório, à boleia de comemorações e efemérides, Alfonso Berardinelli falava na importância de se impor algum critério de objectividade que rompesse com a tendência dos poetas de hoje para se auto-consolarem no seu pequeno gueto, onde nada nem ninguém os contradiz. “Os poetas criaram uma zona protegida para si próprios, contentam-se com pouco, esperam pouco de si próprios, são susceptíveis e vaidosos, mas não têm uma verdadeira ambição. Já não têm as grandes ambições que os poetas sempre tiveram – os quais podiam não alcançar grande repercussão, mas contavam com o valor e o poder dos seus versos. A força dos poetas sempre foi esta.” No ambiente desolador que por cá passa por espaço literário, há muito que se confunde o campo de criação literária com o da circulação dos livros, quando essa forma de proliferação apenas sinaliza como o meio editorial se tornou afim da agenda de consumo que nos vai sendo imposta, dissolvendo a perspectiva crítica nesse favor que promove um consenso ideológico e sem margem para os gestos de recusa e de confronto. À semelhança do que aconteceu com a poesia, e com tantas das categorias artísticas, os próprios movimentos de contestação social viram-se subsumidos às retóricas de reprodução de avatares sociais e identidades digitais, num processo que dá primazia às formas de autorrepresentação. Tudo é uma miragem, uma peça de teatro cujo cenário não tem centro, nem corpo ou geografia. Também o feminismo que assume mais visibilidade é cada vez mais uma forma de auto-indulgência, quase um reflexo de ordem narcisista, como nos diz Jessa Crispin. “Eu defino-me como feminista e por isso tudo o que faço é um acto feminista..." Trata-se de um argumento político de tal modo evidente e poderoso, que a melhor forma de o esvaziar passou por cooptá-lo como uma estética e uma forma de merchandising. No seu manifesto feminista – "Why I am not a feminist" –, Crispin vinca que a história do feminismo tem sido marcada por um “pequeno número de mulheres radicais, muitíssimo empenhadas, e que há custa de um enorme sacrifício fizeram avançar a posição das mulheres, normalmente através de actos e palavras chocantes”, sendo que a “maioria das mulheres, embora tenha beneficiado imensamente do desafio e do empenho dessas poucas, tratavam logo que possível de se dissociar delas”. Esta ensaísta norte-americana que recupera e honra as posições da segunda vaga feminista é implacável na denúncia do individualismo e do capitalismo, sistemas de valores que, segundo ela, distorceram totalmente os propósitos e o alcance do feminismo, encorajando as mulheres a pensar no movimento apenas na medida em que este conduz a ganhos individuais. “As últimas duas décadas dessa forma de feminismo enquanto lifestyle levou tantas mulheres a partirem do princípio que a coerência com o feminismo não significa abdicarem nem recusarem-se seja ao que for. Bastava vestirem o rótulo, e nem era justo que se sentissem pressionadas a renunciar ao casamento, à cultura popular misógina, às roupas de fábrica ou às carreiras corporativas para se alinharem com os princípios feministas – e o facto é que muitos dos nossos ‘intelectuais de proa' feministas se têm dedicado a todas as formas de contorcionismo no sentido de demonstrar como, não só nenhuma destas coisas é anti-feminista, como, na verdade, fortalecem o movimento.” Sara Araújo, a nossa convidada neste episódio, encarna bem esse trabalho árduo e o empenho que é essencial para que seja possível voltar a colocar a tónica no desmantelamento das hierarquias e dos elementos de opressão social que sempre estiveram na mira da crítica feminista. Investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra durante quase duas décadas, acabou por cortar com aquela instituição na mesma altura em que vinham a lume as alegações sobre o clima de predação sexual e intimidação ou assédio moral no seio desta. Hoje, é uma das figuras chave no mais significativo acto de insurreição contra as estruturas despóticas que persistem na academia, que, volvidos 50 anos do 25 de Abril, ainda é essa incubadora dos mecanismos de poder e repressão que alimentavam a nossa ditadura tão afeiçoada aos seus pergaminhos catedráticos.

    Jornais, orquestras, tripulações e naufrágios. Uma conversa com João Sedas Nunes

    Play Episode Listen Later Mar 7, 2025 226:09


    Uma boa redacção é um cruzamento entre um navio daqueles do século XVII e uma tremenda orquestra, um sítio que em si mesmo vai a caminho, e transporta um profundo tumulto, esperanças, fúrias, um convívio pouco vigiado, alentado por todo o género de substâncias, quimícas, imaginárias, o raio, é um sítio laborioso, grave, atarefado, às vezes absurdamente tenso, outros explodindo de ânimo, risos, e que está sempre a tremer no ar do dia seguinte. É uma catedral onde buscam refúgio os seres que não estão bem com a vida como ela é, e querem enganá-la, produzir-lhe uma ilusão menos mesquinha. Combinam-se ali todas as influências, planos doentios, os mais ingénuos activismos, tudo num romance agitado, e sempre convencidos de que de uma frase que se escreva ali pode gerar-se alguma convulsão, arrancar um gemido às fundações desta porra. De algum modo, nos jornais tenta-se abrir uma jazida a partir do inexistente, convocar outras relações de ordem. Às vezes até há quem abra um livro da Llansol, e leia alto para acicatar os demais: "Sempre a inexistência tem mais força?" E depois, algum outro assente e prossegue: "No fundo o que existe provou já a sua fraca intensidade. Depois da infância o universo só interessa aos distraídos. Pois bem: acolher o invisível como a única notícia insólita” (Gonçalo M. Tavares). Anda-se ali a trabalhar para que o esforço e o talento combinado daquelas paixões e ódios revezando-se possa dar origem a um órgão para sempre inacabado, como uma força de impulsão que relembre como o momento mais importante é esse em que se admite que o principal ainda não foi feito, que, no fundo, ainda está tudo por fazer. Para lá de uma certa superfície de mundanidade, o mais importante é mergulhar para além dessa censura dissimulada das expectativas, ter a audácia de decepcionar repetida e magnificamente aqueles que só esperam dos jornais que produzam o ruído de fundo que dá a sensação de que tudo segue normalmente. Como se lê numa das casas pardas, “o mau é cada um ao seu, quem não gosta do que há devia ser do toma lá, dá cá”. A propósito da morte de José António Saraiva, lançamo-nos nalgumas considerações sobre aquilo que tem restado por aí, com dificuldade em salvar-se dos interesses e da propaganda, esse vago panteão de figuras enterradas em vida, que resistiram como podiam, alguns virando-se para aquele quixotismo alucinado, outros servindo-se desse handicap de crepúsculo dos deuses nada wagneriano para se entregarem a uma barafustação umas vezes melancólica, outras raivosa, mas apropriada a um animal acossado e já moribundo. Algum do melhor jornalismo degenera num monólogo irado, mas, por estes dias, essas tripulações parecem ter debandado, espalharam-se, adoeceram, estão trancados alguns com os vícios que lhes restaram nalgum buraco, e os vizinhos poderão escutá-los no corredor: "nunca faltei à verdade, mas rais parta a vida que quanto mais abro os olhos mais nojo me dá, que ele não falta aí gente a quem se demoramos o olhar logo lançam em tom de desabafo que isto tem que levar uma volta, ó se tem, mas uma volta?, isto precisa é de um naufrágio de todo o tamanho, para levar daqui a merda dos que nem se agacham para cagar..." O que restou desse ânimo, encontra-se ainda nalguns desses livros que pareciam nascer contagiados como sinfonias daquela convivência toda, livros que parecem estar para ali numa luta consigo próprios, a tentar segurar-se. E o que neles mais nos convence é como mordem a mão que se lhes chega, que abre aquilo ao meio para o olhar logo se ver assaltado por uma frase que, de mangas arregaçadas, num impulso medonho, está ali a digerir uma intriga dos diabos, e mesmo se o largamos, o livro põe-se a pulsar a um canto, e mal te agarra de novo continua louco e amotinado ao fim de tantas páginas, a ponto de o seu ritmo se te meter na corrente. Mas o tão frágeis, o tão desligados que andamos vem de nos assuntar a ideia não só dos jornais como esses livros feitos em comum, não só dessa actividade dos espíritos em que a todo o momento fica claro como os nomes cedem e o que importa são os turnos, como se lida com as vagas também num quadro de sucessão, como este reforça aquele, pega onde o outro deixou a coisa e adianta mais uns metros ou quilómetros. A ambição era essa, gestos em comum, alargados, assumindo maior alcance, outra repercussão, podendo sempre ser retomados, revistos, corridos e transformados. Mas há uma espécie de terror de uma cultura desabrida, e desse efeito de refracção e mutação imparável. "Poderíamos, enfim, ser mais os poetas nados e criados, se não te temeras tanto da corporalidade extrema de toda a mutação, mudança que valha", escreve Maria Velho da Costa. E neste episódio João Sedas Nunes, filho da escritora, ele mesmo um espírito bastante inquieto, que se tem dedicado à sociologia e assume o gosto por explorar temas tantas vezes ingratos, as feridas nas relações sociais, estendendo as interrogações sobre o trabalho e as questões de inserção, a juventude, o desporto, e o futebol em particular, veio para que discutíssemos algumas dificuldades e apreensões, os dilemas da senescência nos nossos dias, do desconjuntamento económico, mas também a nossa admiração a diferentes níveis pela autora de "Maina Mendes".

    O surrealismo e a astúcia popular. Uma conversa com B Fachada

    Play Episode Listen Later Feb 28, 2025 272:00


    Muitos parecem deslumbrados com a época e a sua tolerância, o seu enredo caprichoso, a sua ânsia de tudo deglutir, de acolher todos os deserdados, todos esses que vão sendo empurrados para o amontoado, formando a grande pilha, nessa construção que ganha altura apenas para que tudo fique confinado à sombra que projecta. A imensa variedade de que as comunidades se compunham, as periferias com as suas diferenças, tudo se vê invadido pelo centro, que produz uma lei da gravidade que tudo desfigura. Como assinalava Pasolini, "as estradas, a motorização, etc., uniram estreitamente a periferia ao centro, abolindo qualquer distância material". "Mas a revolução dos meios de informação foi ainda mais radical e decisiva. Por meio da televisão, o centro assimilou o país inteiro, que era historicamente tão diferenciado e rico em culturas originais." Isto significa que, hoje, todos aqueles que provêm de alguma região distante, de um tempo distante, de uma outra relação ou convicção, estão sujeitos a ser acusados de um desvio, um efeito de perturbação. Dentro dos elementos a partir dos quais o centro organiza a sua rede de influência e coação, qualquer diferença é vista como suspeita, e gera sobre o estranho algum tipo de caricatura ou preconceito. As variações culturais, de linguagem, os sotaques, os elementos que são específicos de zonas delimitadas, onde foi possível produzir algum devaneio, oscilações, metamorfoses difíceis de situar ou capturar, tudo isso vem sendo denunciado à medida que o centro os cobre na sua sombra, procurando dar lugar "a uma cultura homogénea, estática, onde a linguagem oral é, agora, semelhante à linguagem escrita - e ambas igualmente pobres, sem exuberância, sem margem para a improdutividade", nota João Oliveira Duarte. "Continua a haver 'cultura popular'. Mas observemos o que se passa hoje sob esse nome um pouco por toda a Europa, os programas de televisão, os concursos, o divertimento para ocupação das horas vazias: onde havia exuberância, mesmo convivendo com a miséria, com violência, há hoje uma igualdade monótona e uma lógica do pastiche." A cultura passou a funcionar como uma forma de arrogância, com as suas sínteses descaradas, procurando nivelar e suprimir todos os elementos que lhe resistam, que lhe ofereçam atrito. O consumo acelerado exige um mesmo regime de processamento, de tal modo que o farisaísmo triunfou em toda a linha, e aquilo que esta feição cultural pretende é gerar esse ser que se contenta com qualquer coisa, que não procura dores de cabeça, antes conciliando a practicidade da vida quotidiana com a incontestabilidade da religião do lucro, limitando-se a dar uma no cravo e outra na ferradura, e, no fim, submete-se. Como lembra Pasolini, a luta progressista pela democratização expressiva e pela liberação sexual foi brutalmente superada e tornada vã pela decisão do poder consumista de conceber uma vasta (e, ao mesmo tempo, falsa) tolerância". Contra o desespero e as formas de desacato, contra a desilusão que hoje se exprime de forma suicidária, os nossos democratas continuam a pregar a moderação, as velhas fantasias hipócritas, a paciência, a tolerância. Mas a cólera tem vindo a contagiar tudo, num esforço comum, ainda que tão desorientado, no sentido de despedaçar este tempo morto. Enquanto isso, vendem-nos um conformismo e um bem-estar que descura inteiramente a génese cultural do desejo: "a liberdade humana é consciência, imaginação, construção linguística na ausência de alicerces ontológicos", diz-nos 'Bifo' Berardi. "É nessa dimensão que se dá a aventura moderna: só em segunda instância tem que ver com liberdade política; em primeiro lugar, tem que ver com indeterminação ontológica, autonomia em relação ao Ser." Mas, hoje, os fascismos são antes de tudo esses programas aspiracionais, esse enredo que procura a dissolução dos elementos de comunhão, de coesão social, instituindo um quadro de competição pelo sucesso, e ligando a realização pessoal ao dramatismo insonso identitário, em que cada um se sujeita a existir num perpétuo casting, tentando provar a genuinidade entre a sua realidade e o personagem que gostaria de representar. Neste episódio, contámos com o ídolo do avesso, um bruxo que fez da música esse ouvido encostado ao chão do mundo como a um peito, a refazer a infinitude plena da imperfeição, do gozo sideral que se obtém por meio da errância. B Fachada gosta dos mundos possíveis, não abdica dos processos falíveis nem vive para as gerais abébias, mas vem praticando uma experimentação comprometida com este tempo e este lugar, e revelando uma consistência crítica e uma habilidade extraordinária para se libertar dessa sórdida tristeza dos que acham que está tudo feito, e só resta ir ensaiando ao espelho uns esgares e expressões de enfado.

    Espantar os limites da visão. Uma conversa com Carlos Vidal

    Play Episode Listen Later Feb 21, 2025 189:34


    Talvez o homem seja esse animal trágico condenado a gerar os predadores que acabarão por lhe dar caça e levá-lo a uma submissão permanente ou, até, à extinção. Mas antes de dar forma a uma razão exterior, fomo-nos desprotegendo, expandindo o elemento sacrificial e degradante dos mais fracos pelos mais fortes, até nos condicionarmos a uma existência em que cada homem é o seu próprio inimigo, deixando-se inocular de um vírus que o destrói a partir de dentro. Pensemos como vivemos presos às imagens, dominados e sem nos podermos libertar do fascínio que estas exercem sobre nós, de tal modo que sacrificámos a nossa linguagem a elas. Num excerto da Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, pode ler-se isto: “Lembra-te amiúde do que diz o Eclesiastes: ‘o olho não se farta de ver nem o ouvido de ouvir'. Procura, pois, desprender o teu coração das coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis, porque os olhos que se entregam à sensualidade mancham a consciência e perdem a graça de Deus.” Vivemos encerrados, manietados por fantasias cada vez mais espúrias, delirando à beira da inconsciência, e até de forma cada vez mais ignara, sem nem nos sujeitarmos à inspiração e aos desafios que os antigos colocavam tentando alcançar e preencher o último horizonte, essa “orla mítica do mundo”. Cada vez mais inábeis na hora de nos lançarmos naquela exploração de que só uma imaginação treinada para tarefas de batedora dos mais ermos e improváveis terrenos é capaz, ficámos sujeitos a essa forma de câmbio da realidade pelas imagens, incapazes de recuperar uma experiência desta que produza um verdadeiro abalo dos sentidos e da inteligência. Num dos seus ensaios, Wagner lembrava como “nos vastos espaços do anfiteatro grego era a totalidade do povo que participava nas representações. Pelo contrário, nos nossos mais distintos teatros preguiçam apenas os ricos. Os Gregos iam buscar os materiais da sua arte aos produtos mais elevados da cultura comunitária. (…) O embotamento típico da educação contemporânea, na maior parte dos casos meramente orientada na perspectiva do lucro industrial, dá-nos uma satisfação idiota e simultaneamente orgulhosa da nossa inaptidão artística e ensina-nos a procurar os objectos da experiência estética fora de nós, aproximadamente com o mesmo tipo de desejo com que o depravado procura junto de uma prostituta um fugaz prazer amoroso.” Nos nossos dias, fomos abdicando da dificuldade e dos processos de enamoramento e sedução, desistindo desses aspectos de recriação a partir dos quais se funda uma identidade autónoma, sempre em relação com o outro, e traímos a busca do prazer por esse substituto mais certo que é a descarga de adrenalina. Formamo-nos como seres ansiosos, capturados por uma condição generalizada de anestesia na sequência de uma tensão contínua, e o remédio para todas as nossas crises passa por aumentar a dose desta realidade de substituição, acelerar o ritmo, intensificar os estímulos e o efeito de estimulação do sistema nervoso. Estamos sempre ligados, mas num presente que se arreda da vida, consumindo a própria ausência, sequências de imagens fugitivas, um mundo impossível de tocar ou saborear, e nos raros momentos em que nos afastamos, entramos numa espécie de ressaca que torna a realidade que não desapareceu nem foi devastada entretanto ainda mais desagradável para esses sentidos atrofiados pelos fluxos de neuro-estimulação. Uma verdadeira revolução hoje teria de começar por um corte geral dos sistemas de enervação, de modo a que a emoção de sentir um corpo próximo pudesse fazer-nos superar essas inibições que estão a gerar indivíduos cada vez mais isolados e indiferentes. Um dos mistérios mais cativantes do conhecimento que fazemos da realidade, e de que todos os grandes poetas em algum momento se dão conta, foi expresso por Heidegger quando notou que, quanto mais conhecidas se lhes tornam as coisas cognoscíveis, mais estranhas são e permanecem para eles. É como se o mundo preservasse o seu fascínio não admitindo a posse, mas instigando um elemento de errância, de busca incessante. A certa altura, as letras do mundo tornam-se etéreas, essas serifas de mármore, sólidas hastes erguidas nas rochas e postas nos ápices, e que ascendem como as colunas na história… Assim, da mesma forma como nos debruçamos tentando traduzir relevos antigos, também a carne pode beneficiar da mesma atenção minuciosa, fazendo de nós seres que empurram e se descobrem e transformam por meio de uma afeição delirante. Neste episódio, vamo-nos deter sobre as transformações que se têm operado ao nível da biopolítica e que têm constituído a mais severa ameaça que as democracias modernas alguma vez enfrentaram. Seguindo o diagnóstico da mutação antropológica que se tem operado a nível cognitivo, vamos procurar perceber como as imagens são as armas às quais temos vindo a sucumbir. Para nos guiar e expandir a perspectiva crítica sobre a degradação dos nossos contactos e percepções, Carlos Vidal juntou-se a nós. Artista, crítico e professor na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, tem uma extensa obra teórica que se detêm sobre a falibilidade da visão e tudo aquilo que faz de nós vítimas tão voluntárias das “aparições” espectaculares.

    Mapa para não enlouquecer de vez. Uma conversa com Serena Cacchioli

    Play Episode Listen Later Feb 15, 2025 226:47


    Um tipo passeia-se entre as ilhas e as estantes de uma livraria, abre os livros colocados em destaque, e nem a sensação tem de estar à janela, seguindo figuras em ponto pequeno lá em baixo, muito menos vultos que se deslocam noutra dimensão, antes parece que só vê cortinados. Há quem se delicie com os padrões, os bordados, como há quem prefira olhar para frutos num quadro, em vez de os ter numa cesta, à distância de um impulso. Às vezes, ao fim de umas frases, envelhecemos, a língua fica como um peso morto, incapaz de tocar com a ponta o céu da boca. Não há tédio como aquele que se sente perante um livro invariável, incapaz de deslocar sequer ligeiramente a nossa perspectiva. Ainda somos capazes de perdoar as noções disparatadas, aqueles humores absurdos, mas que um texto seja de tal modo insípido que não nos provoque outra sensação além de cansaço, isso, sim, nos parece imperdoável. Quando abrimos um livro, move-nos sem que o saibamos a imortalidade, e não menos fundamentalmente a insatisfação, essa busca de um sentido inesperado, capaz de mergulhar em aspectos raros da existência, trabalhando nalguma explicação engenhosa. O que menos nos apetece é sermos envolvidos numa toada mais ou menos arfante e indiferenciada, mas antes dar com um percurso que nunca faríamos por nós mesmos, precipitados por uma inteligência que nos faz mergulhar numa outra substância dos dias, subitamente intensificada, dando-nos acesso a elementos de ligação que, sem o sabermos, já existiam em nós próprios, mas não por uma ordem que nos permitisse exprimi-los. Lemos para nos distanciarmos de nós mesmos, para superarmos os vícios e as rotinas do nosso juízo, procurando aprofundar as grandes articulações do mundo. Não é bem a realidade que nos maça, mas esta habituação às nossas ideias, o que nos empurra para uma certa indiferença, cadências desgastantes. Estavas a meio disto, de nada, de ti próprio, quando alguém te ligou e quis saber como andas. Não havia nada que pudesses dizer. Às vezes há diálogos que se repetem uma e outra vez pelos séculos. Soluçaste: "O ócio é fatigante." E do outro lado, ouviste uma frase que em tempos copiaste para um caderno: "Isso acontece, como bem sabes, porque estando os demais ocupados, nos falta companhia; mas se todos fossem ociosos, nunca nos aborreceríamos; passaríamos o tempo a entreter-nos uns aos outros." Cada um deveria ser obrigado a sair de casa com duas ou três páginas de anotações e citações para infiltrar ao logo do dia nas conversas, mesmo que desse a sensação de estarmos a jogar à batalha naval, tentando afundar a frota uns dos outros. Se não for assim, nos dias que correm, não nos deparamos com desafios animadores nem imprevistos de espécie nenhuma. Esta falta de um sentido profundo contaminou tudo, corroeu os fundamentos, deixou o mundo da experiência exposto na sua fragilidade, deslassado, fragmentado. Não demorará muito para que metade da humanidade esteja rendida aos sistemas de inteligência artificial, e estes é que serão transplantados para esses corpos incapazes por si mesmos de sustentar uma conversa que cative, seduza ou faça estremecer seja quem for. Que competição poderemos oferecer a algoritmos afinados a cada interacção para estender ao infinito o loop de informações, sobretudo se as máquinas forem capazes de simular esses sinais de afeição que nós próprios já nem praticamos. Fala-se de uma praga de narcisistas, mas somos mais como seres que perderam o seu reflexo, que não mais se dedicaram a projecções e reinvenções de si mesmos. Parecemos contentes por ser exactamente como somos. Talvez não seja assim tão mau se as máquinas atravessarem esta carne, desde que possam restituir-nos essa dimensão fantasiosa dos reflexos que trocávamos, a trama de engates. Perseguidos até à extinção, nem já cupidos se avistam, e até as flores se tornaram uma forma de insulto, ou, quando em grande número, formando coroas, uma ameaça de morte. Alguns pesquisam e encomendam pacotes de sonhos no Google. Fode-se mais por recomendação dos cardiologistas, e para preservar velhas tradições, ou apenas para benefício das máquinas, uma vez que toda a perversão e os vícios voyeuristas ficaram do lado delas. A nós basta-nos a estimulação por impulsos eléctricos. Trocámos de lugar. Devoram a nossa literatura, os filmes, a música, esforçam os seus circuitos para produzirem ecos capazes de abalar os mortos. São elas que visitam os cemitérios, e choram pelos últimos que foram capazes de algum registo irrepetível. Já nós, não passamos de sequelas, e a tensão mortal continua a dissipar-se. Este episódio ainda é do tempo em que éramos estranhos para nós mesmos, em que tocávamos ao nosso próprio ombro, e repetíamos inseguramente os nossos próprios nomes. A Serena Cacchioli, tradutora para a gaveta, autora de um alfabeto de distâncias cosidas por sussurros, abdicou da noite de Dia de São Valentim para vir descoser a bainha da história que contamos uns aos outros sobre quem somos. Veio falar-nos de ter esquecido finalmente as razões porque trocou Itália pelo nosso país, talvez porque, a 90 dias de receber o cartão do cidadão luso, já não precise de um motivo, e seja tão portuguesa como qualquer um de nós, o que significa estar de algum modo resignada a viver à deriva, neste país que continua a ser só aquilo que o mar não quis.

    Encontrar a nossa partitura física. Uma conversa com Cátia Terrinca

    Play Episode Listen Later Feb 7, 2025 155:29


    Ainda que nos tenhamos tornado imensamente hábeis na hora de produzir diagnósticos da nossa época, aquilo que virá, vem e consegue sempre atingir-nos como um atropelo. O futuro surge sempre como um intruso, que abala as previsões, chega a escarnecer delas. Talvez isso funde o optimismo daqueles que vivem para o futuro como para uma vingança, mesmo que esta não possa ser encenada a seu favor. Pior seria se se acomodassem às coisas tal qual estas estão. Certa vez, enfrentando uma barragem de recriminações da parte da crítica soviética, avessa a qualquer esboço de lirismo e subjectividade, Maiakóvski defendeu-se com estas palavras: "Aqui se diz que no meu poema não se deve colher uma mensagem geral. Em primeiro lugar, li apenas trechos, mas já nesses trechos citados, há um único eixo importante: o viver quotidiano. Aquele viver em que nada muda, aquele viver que se manifesta hoje como o nosso pior inimigo e que faz de nós filisteus." Parecem ser cada vez mais aqueles que se entregam a uma relação fria, bastante cínica, com as noções, as ideias, as leituras que vão fazendo, a todo o momento servem-se de razões contra a acção, formulam sempre os seus conhecimentos de forma a conjugar-se com a rede de determinismos ou conformismos que vão erodindo o campo de possibilidades. Têm demasiada pressa em concluir que não há volta a dar, não há saída. O jornalista e ensaísta francês Vicent Cocquebert identifica uma pulsão difusa que se operou com a omnipresença dos meios digitais para uma forma de narcisismo à medida que, da cultura ao consumo, passando pelos lazeres e mesmo pelas relações sociais, nos transformámos em "grandes organizadores dos nossos mundinhos tecno-domésticos". "Estamos agora encolhidos dentro de nós mesmos e em luta permanente com um mundo que já não queremos mudar colectivamente, mas submeter à nossa vontade", diz-nos ele. "É como se, além de termos integrado as lógicas capitalistas da escolha e da rentabilidade em diversos domínios das nossas existências (sentimental, profissional, política), tivéssemos agora adoptado a postura do 'consumidor-senhor' dos nossos (minúsculos) reinos, nos quais o outro, quando não corresponde inteiramente às nossas expectativas, se torna inevitavelmente um obstáculo." Cocquebert traça aqui um regime de exclusão, a emergência de uma cultura do casulo, a qual tende a fazer-nos ver o exterior como exageradamente hostil, em vez de criar uma ligação dinâmica entre o indivíduo e a sociedade. Cada vez mais o mundo precisa pedir-nos licença, ficando sujeito a um intervalo cada vez mais dilatado, a largos períodos de quarentena, sendo submetido a uma série de actos de inspecção antes que lhe seja admitida qualquer interjeição. Ora, isto é precisamente o contrário da atitude de disponibilidade dos exploradores, daqueles que se alimentam da carne do acaso, desse tipo de criadores que gostam de sujeitar a imaginação às grandes derivas, e se mostram aptos a levar em conta a quantidade fantaástica de sons e formas que a cada passo das nossas vidas podemos captar. Nesse sentido, os poetas são menos os inventores do que espíritos que se acendem pela possibilidade de combinar e recombinar elementos e detalhes, todos os restos, ir investigar rastos, enxames, zumbidos... O motivo porque nos sentimos a desmoronar, incapazes de ser coerentes com nós próprios, de ligar por um fio os nossos gestos, tudo isso que leva a que nos sintamos dominados por uma vontade que nos estranha, aí surge uma patologia própria deste tempo: a sensação dolorosa de que as coisas nos fogem entre as mãos, a sensação de esmagamento provocada pela velocidade, pelo ruído, pela violência, a sensação de ansiedade, pânico, caos mental. Franco "Bifo" Berardi assinala como tudo isto provoca em nós uma crise dolorosa, uma série de sintomas que apontam para essa necessidade de procurar uma ordem para o mundo, um incentivo para construir uma ponte sobre o abismo da entropia, uma ponte entre várias mentes singulares. "É através desta conjugação que o sentido do mundo se vê evocado e posto em prática: semiose partilhada, respiração em consonância." Neste episódio, o guião desfez-se-nos nas mãos, mas demorámo-nos sobre a fragilidade que se sente hoje pela falta de coerência do mundo, ou pelo menos do esforço comum de projecção de um sentido. Cátia Terrinca, que tem desenvolvido um percurso ligado ao teatro e à performance, reivindica para si a condição de intérprete, não o mero abandono a um texto dramatúrgico, mas a sua interrogação, e veio falar connosco e assinalar o efeito da repetição para denunciar o tempo, como a experiência nasce de um cerco que se faz valer menos do que julgamos saber do que dos elementos de resistência que caracterizam um longo processo de digestão. Aí há margem não apenas para a intuição de uma infinitude de possibilidades, mas também para essa deriva que convoca o acaso e desdobra cada oportunidade numa situação de jogo.

    Desamparados frente à noite. Uma conversa com Pedro Levi Bismarck

    Play Episode Listen Later Feb 2, 2025 261:15


    Desta vez, subimos uns galhos para respirar outra coisa, para desoxidar a alma do imobilismo lisboeta, deram-nos margem para uma breve digressão, para ir saber a que distância ainda é possível estender a voz, desenterrar os ossos de alguns ecos, isto sendo certo que o exercício de um discurso crítico ou artístico só pode ter algum papel assim que se desenvencilhe de privilégios. Tende a ficar claro que, hoje, só o que está em fuga permanece, apenas aquilo que não se resolve diante de si mesmo, no sufoco do seu reflexo, só aquilo que absorve os elementos de discórdia ao seu redor, tem alguma possibilidade de se autonomizar face ao presente. Como alertava Heiner Müller, que quisemos arrastar na bagageira, as obras de arte tenderão a ser prisões e as obras-primas cúmplices do poder. Pelo contrário, bebendo a sua água feroz pelas mãos do quotidiano, os grandes textos “trabalham para a liquidação da sua autonomia, produto do deboche com a propriedade privada, trabalham para a expropriação e, em última análise, para o desaparecimento do autor”. Devemos cair nas coisas dos outros, viver a relação mais íntima, ser as pulgas insaciáveis da tradição e dos mortos, retomar-lhes os textos à semelhança deste inclemente montador, atacar os grandes reservatórios, alimentar a distância mais persuasiva, restaurar as propriedades perdidas, inventá-las. A propósito, eis uns versos de Novalis dedicados a um outro poeta que lhe permitiu uma visão de magnífica abertura: “Quando a chave de toda a criatura/ seja mais do que número e figura,/ e quando esses que beijam com os lábios,/ e os cantores, sejam mais que os sábios,/ e quando o mundo inteiro, intenso, vibre/ devolvido ao viver da vida livre,/ e quando luz e sombra, sempre unidas,/ celebrem núpcias íntimas, luzidas,/ quando em lendas e líricas canções/ escreverem a história das nações,/ então, a palavra misteriosa/ destruirá toda a essência mentirosa.” Hoje, e para efeitos de delimitação de zonas exclusivas, o próprio ar do tempo mal circula, vive-se segundo fórmulas de confinamento, e o espaço de comunicação representa cada vez mais uma unidade insonsa, toda uma estrutura putrescente cai sobre nós, e o sentido que este tempo busca resolve-se contra a memória, impregnando de mentiras e vícios a linguagem. A única promessa que se fazem os imbecis é que muito em breve já não haverá quem possa fazer a outro sentir o peso da vergonha, envergonhar-se seja do que for. Até nisso vamos perdendo o sentido do religioso, e mesmo aquela voluptuosidade que Novalis ligava em particular à religião cristã, notando que “o pecado é o maior atractivo do amor divino – quanto mais um homem se sente pecador, mais cristão é”. Mas em breve mesmo o sentido moral cairá inteiramente em desuso, esse sentido que ele nos diz ser contínuo ao poder criador absoluto, o da liberdade produtiva, da personalidade infinita, do microcosmos, da divindade real em nós. Hoje, pelo contrário, só resta a hiena, esse animal alegórico da matemática que, de acordo com Müller, sabe não haver resto e cujo deus é o zero. Em breve, não restará nada, nada a não ser a própria gramática da disputa, daqueles que se fazem a guerra mesmo por ninharias, e já o vemos nos supostos criadores, esse medo persistente dos que esperam fazer valer os seus títulos de propriedade no reino do espírito. Não haverá mais nada senão a própria escassez, o sentido da falta a incitar-nos aos gestos mais rudes e degradantes, a uma convivência ritmada pela agressão, a razão apenas instruída para devorar tudo, submeter tudo, alimentar-se da carne do outro. Não restará nada, nenhum sonho dentro do sonho, nem um sonho nosso para os mortos. Nem haverá grande necessidade de nomes, a linguagem será ela mesma a ilustração de um esmagamento, contracções sucessivas, e nem haverá orações nem túmulos, apenas o gasto inútil de quem se desfaz entre gritos. Ver um bando de homens amatilhados será a pior das imagens de terror para aqueles que estão em desvantagem. Nenhum nome os defenderá, nenhuma súplica será atendida. Neste episódio, além da respiração assistida que nos foi dada por aqueles que estiveram connosco e de um modo ou de outro participaram na discussão, pudemos desenhar em redor do tão instigante e sagaz percurso crítico de Pedro Levi Bismarck uma relação com as transformações que se estão a operar a grande velocidade nos nossos dias, desde logo um apertar do cerco em termos do uso de uma linguagem corrosiva, que constrange o pensamento e pretende esgotar as condições de existência, levar a uma exasperação dos elementos de representação e identificação. Arquitecto, editor do jornal Punkto, Bismarck é, entre nós, um dos mais pujantes e interventivos actores na produção de um discurso cheio de balanço e um fulgor que articula uma série de saberes de forma a interrogar uma cultura e um horizonte devastados pela predação económica e pela financeirização de todos os aspectos da vida social.

    Associações de pastorícia cultural. Uma conversa com João Eça

    Play Episode Listen Later Jan 24, 2025 230:53


    Que lindo cortejo de condenados este que nos é dado apreciar. Neste país todo ele em -inho, como já dizia o outro, também tínhamos de ter os nossos artistas, e as duas ou três agências de promoção, arranjos, prestígios e reputações forjadas do pé para a mão, montras, pódios, esse bando de alminhas condecoradas, sempre com toda a disponibilidade para ir, e depois todos esses aspirantes, como náufragos à espera da manhã, é verdadeiramente uma doçura, e mesmo um orgulho para todos nós. Onde quer que eles estejam, com os seus adereços de intimidade e de sonho, dá a sensação que podemos ir vê-los mesmo a meio das suas trajectórias estelares, de algum modo já nasceram no museu, no cinema, fazem tão bem de si mesmos, e os intelectuais nem se fala. Com aqueles ângulos rectos, aquela postura de embaixadores de nações inteiramente místicas, nunca atraiçoam o personagem, e dá a sensação de que poderiam entreter uma audiência até à morte. Apesar de tudo, há sempre uns que arranjam maneira de ficar desgostados, que se queixam que "a poesia cheira demasiado a poesia, a filosofia cheira demasiado a filosofia..., que uma e outra sofrem de uma redundância abominável (Baudrillard). Queixam-se da afectação do verbo, da afectação da profundidade", mas não percebem puto do grau de exigência com que estão comprometidos os nossos actores. Seria preciso educá-los. Felizmente, até para esses há esperança. O que não nos faltam são "anomalias", "oásis", "milagres", o nosso ecossistema cultural é uma colónia e um laboratório com espaço para as experiências mais arriscadas, um programa de simulação de utopias, revoluções a gosto, servindo-se dos pontos de intersecção entre várias disciplinas artísticas e do cruzamento de referências das mais diversas geografias e contextos para nos colocar diante de máquina de mundos. Tem-se detectado mesmo um efeito de contágio do talento, da inteligência e do ímpeto, e facilmente se pressente que estas visões, como um futuro mais ou menos próximo, fornece uma indemnização da vergonhosa miséria do presente. Por isso mesmo, em estado de delírio, os estudantes, hoje, acorrem à ZDB e outras das nossas instituições da consolação quando sentem necessidade de respirar o perfume desses prestígios ilusórios. É uma alegria sobretudo viver dos balanços do nosso jornalismo cultural, viver da vertigem daqueles filmes rebobinados, e que esteja lá o que estiver, parece sempre dinâmico, naquele ritmo celerado, e com uma fabulosa complacência perante todas as misérias. Os adolescentes portugueses estão nas tintas para o paraíso, eles querem é aparecer nas páginas do Ípsilon e dar largas à sua adorável propensão para consumir alienação beatamente. "Vivemos como crianças perdidas, as nossas aventuras incompletas", notou o Debord. Mas a verdade é que, para nós, isto já se foi tornando difícil. Dada a vasta e desenvolvida infantilização dos públicos, e o generalizado grau de submissão a que os indivíduos aparentemente na posse das suas faculdades mentais e até 'na flor da idade', ninguém se perde, ninguém se aventura, todos se descosem e justificam precisamente devido ao inconveniente de assumir posições arriscadas. Mas confiemos no Evangelho hipster que sai à sexta com o Público, e que nos garante que podemos encontrar bem aqui uma série de soluções de investimento para a nossa vaga inquietação, sendo que afinal o que importa não é bem o negócio nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio, o que importa pois claro é dar tudo de si e andar a "remendos e côdeas", mas não perder as sessões que nos oferece algum desses espaços "entre o tecido institucional e o experimental, potenciadores da produção artística local e nacional, ao mesmo tempo que estabelecem diálogos internacionais". Neste episódio juntou-se a nós João Eça, realizador de fitas malcriadas, amante da técnica de se lançar de pára-quedas em território inimigo e andar por ali a espevitar os ânimos e gerar desacatos, ladrão de pratos, remisturador de sons, empregado de mesa aqui e ali, consumidor médio de porrada, vencedor das últimas três edições do campeonato de devoradores de Natxos.

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