Meio Ambiente

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Entrevistas sobre todos os temas relacionados ao meio ambiente. Análises sobre os principais desafios no combate ao aquecimento global, à poluição. Iniciativas para proteção dos ecossistemas e reflexão sobre políticas de prevenção de catástrofes naturais e industriais.

Rfi - RFI


    • Jan 5, 2023 LATEST EPISODE
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    Falta de neve para esqui na Europa, compensada com neve artificial, é novo alerta da crise climática

    Play Episode Listen Later Jan 5, 2023 10:38


    Depois de dois anos marcados pela Covid-19, os europeus estavam ansiosos para retomar a frequentação normal das estações de esqui nas férias de fim de ano em dezembro – mas a desregulação do clima atrapalhou os planos. Sem neve, metade das pistas na França estiveram fechadas no fim do ano, e uma parte considerável das que puderam abrir só funcionaram graças ao uso de neve artificial. O país, assim como os vizinhos alemães ou austríacos, viveu uma rara onda de calor no período. “Nós ultrapassamos índices recordes em várias regiões da França e do leste da Europa, principalmente nos dias 31 de dezembro e 1° de janeiro, datas simbólicas. As temperaturas estavam de 1°C a 2°C acima do normal, e chegaram a passar de 22°C no sudoeste francês – mas também na região central, no norte, no leste, as temperaturas chegaram a números totalmente excepcionais para a estação”, explica o climatologista Robert Vautard, diretor do Instituto Pierre-Simon Laplace (IPSL), que reúne especialistas das ciências climáticas. As altas temperaturas, associadas à chuva também atípica, levaram ao derretimento da pouca neve que cobria as estações em baixa e média altitude, como em Mont Dore, no centro da França, onde a decoradora Amandine Pernelle tinha escolhido passar as férias com a família. No local, uma camada de neve de cultura (fabricada a partir da pulverização de água) havia sido aplicada em novembro, à espera dos primeiros flocos da temporada, no início de dezembro. Mas com os termômetros subindo a mais de 10°C, só as crianças puderam aproveitar. “Estou acostumada com a neve artificial. Sempre que eu fui esquiar, tinha na parte baixa das estações, então isso não me choca. E sem contar que, para o clima, é melhor ficar na França e esquiar na neve artificial que pegar avião em busca de calor nos trópicos”, comenta a francesa. Cada vez mais neve artificial O recurso à neve de cultura é recomendado para prorrogar a duração da neve natural que cairá nos meses frios – e que, segundo os especialistas, tende a se tornar mais rara. A prática é comum nos países europeus e se tornou indispensável a partir dos anos 2000, com a subida progressiva das temperaturas devido às mudanças climáticas. Entretanto, os ecologistas criticam o alto volume de água utilizada para ser transformada em neve: 1m³ de água resulta no dobro de neve artificial, num total de pelo menos 20 milhões de metros cúbicos de água usada por ano para este fim, na França. Hoje, mais de um terço das pistas francesas e a metade ou mais das suíças e austríacas usam essa solução, principalmente a menos de 1,5 mil metros de altitude. “A água é retirada do meio natural na primavera quando é abundante. Se ela não é recuperada após o derretimento da neve e estocada em lagos artificiais, ela seria perdida”, rebate Jean-Luc Boch, presidente da France Montagnes, que reúne os principais organismos de turismo nas montanhas da França. “Essa água correria pelos riachos, depois nos rios, afluentes e enfim no Mar Mediterrâneo. Estocá-la no momento em que ela é muito abundante significa poder devolvê-la para todo o nosso território, lembrando que ela também pode servir para consumo humano e animal, se necessário”, afirma. Incertezas sobre o futuro Boch ressalta que ainda “há muita variação” entre os anos e “não há certezas absolutas” sobre o futuro: o inverno com mais neve em décadas ocorreu há cinco anos, relembra. Mas outro ator importante do setor, o secretário-geral do Domaines Skiables de France, Laurent Reynaud, analisa a situação com mais cautela e diz que o tema “é levado muito a sério”. “Sabemos que, no futuro, deveremos enfrentar uma incerteza ainda maior sobre a ocorrência de neve e também sobre a cobertura de neve, principalmente nas estações de baixa altitude. Cada uma delas vai precisar elaborar um planejamento para os 15, 20, 50 ou 80 próximos anos. Essas projeções já existem e foram determinadas pelo IPCC [Painel da ONU de cientistas especialistas nas mudanças climáticas]”, indica Reynaud. As estações mais vulneráveis são estimuladas a diversificar as atividades, de modo a atrair turistas durante todo o ano, com foco não só no inverno, mas também no verão. Quanto ao uso da neve artificial, Reynaud destaca que a transição ecológica também está em curso no setor. “Hoje, em todos os processos industriais, teremos medidas de sobriedade energética e eco-concepção, para conseguirmos aproveitar ao máximo um litro de água ou 1kw/h. Dividimos por três o consumo elétrico necessário nos compressores de água, para a produção de um metro cúbico de neve, e conseguimos reduzir 10% do consumo de eletricidade dos teleféricos, responsáveis pela maior parte do consumo elétrico nas estações”, pondera o representante das pistas de esqui francesas. Falta de neve na primavera gera prejuízos agrícolas  O climatologista Robert Vautard observa ainda que a falta de neve prejudica a atividade econômica e o turismo nas montanhas, mas também atinge a natureza como um todo e, em especial, a agricultura. “Organismos que criam doenças nas árvores e plantas são eliminados no inverno, com o gelo. Sem frio, eles acabam se reforçando na primavera e isso altera a produção agrícola, em especial de frutas”, aponta o especialista em fenômenos meteorológicos extremos. “O fato de que a vegetação começa mais cedo do que o previsto faz com que os brotos fiquem expostos a eventuais geadas em abril. É um fenômeno em que todo ciclo da natureza começa mais cedo porque está quente demais.” Por essa razão, graves prejuízos agrícolas têm sido frequentes no país: aconteceram em 2022, 2021 ou 2017, relembra o pesquisador. Este mês de janeiro já se anuncia mais seco que os padrões, o que pode ser um indício de mais um ano marcado por temperaturas em alta. “De forma geral, se observarmos as variações das temperaturas em 2022 na França, em relação aos padrões, há muito poucos episódios – apenas três ou quatro, e muito curtos – em que as temperaturas estiveram abaixo do normal. Em todas os outros, elas estiveram acima”, destaca Vautard. “É claro que sempre teremos variações meteorológicas, mas nos próximos anos, devemos esperar a mesma tendência de alta verificada em 2022.” O pesquisador frisa ainda que seria um erro comparar este início de inverno ameno na Europa com as nevascas que atingiram os Estados Unidos no mesmo período. Na América do Norte, explica, as variações de temperaturas sempre foram “extremamente fortes” e mais intensas que no continente europeu, e não são uma consequência das mudanças climáticas, mas sim da geografia. Enquanto as massas de ar frio que descem do Midwest americano não encontram uma zona marítima que amenizaria a temperatura, este não é o caso em países como a França, onde os Alpes são influenciados pelo clima mediterrâneo.

    Em 2022, emergência climática se tornou mais ‘visível', mas países recuaram nas ações

    Play Episode Listen Later Dec 29, 2022 14:42


    Em um tema em que as más notícias se transformaram na regra nos últimos anos, 2022 trouxe uma série de alertas particularmente flagrantes sobre a emergência climática – mas também sobre as incoerências entre o discurso e as práticas para combater as mudanças do clima. Já em fevereiro, a guerra na Ucrânia levou a Europa para um cenário de incertezas sobre o futuro do abastecimento de gás natural russo, até então crucial para países como a Alemanha, a Hungria e a Eslováquia. Mas como a transição energética rumo ao fim dos combustíveis fósseis está mais lenta do que deveria, diversos países não viram outra alternativa a não ser ativar as usinas a carvão, as mais nocivas para o meio ambiente. Face ao risco de apagões e de ficar sem aquecimento nos meses de frio, os europeus deixaram de lado os compromissos ambientais e as promessas de acabar com as centrais a carvão até 2030. Estas usinas respondem por mais de 40% das emissões mundiais de gases de efeito estufa, que provocam o aquecimento global. Até os países menos dependentes do gás, como a França, dona da mais vasta rede de usinas nucleares da Europa, também não conseguiram evitar o retrocesso. Para Neil Makaroff, coordenador da seção Europa da Rede Ação pelo Clima, hub de organizações ambientais francesas, o contexto geopolítico deveria representar uma oportunidade para o bloco: "Diante da crise exacerbada pela guerra na Ucrânia, a energia nuclear pode parecer uma solução, ao não emitir CO2. Mas não podemos esquecer que para construir uma central nuclear, precisamos de 15 a 20 anos. Por demorar tanto, essa opção não atende aos nossos objetivos climáticos até 2030, de reduzir pelo menos 55% das nossas emissões até o fim da década”, explica. “A única solução facilmente aplicável e barata são as energias renováveis, eólica, solar e biogás. Elas precisam decolar para substituir o gás, o petróleo, mas também o carvão russos." Calorão mais cedo, intenso e persistente Na sequência, como um golpe de ironia do destino, o verão castigou os europeus com temperaturas historicamente elevadas, as segundas mais altas desde o início das medições, em 1900. Os termômetros começaram a subir já em maio, algo totalmente excepcional. Privada de gás, a Europa passou a conviver também com racionamento de água e com incêndios florestais fora de controle, levando a graves prejuízos agrícolas. Em dois meses, a França teve 33 dias de calor além dos padrões. O agricultor francês David Peschard, instalado em Loir-et-Cher, na região central do país, jamais tinha vivido uma situação parecida. “Algumas plantações não estão recebendo água suficiente. Podemos ser otimistas e achar que é apenas uma fase e que voltaremos a períodos mais úmidos. Mas, se enfrentarmos essa situação com frequência, será necessário nos adaptarmos rapidamente”, observa. “Infelizmente, temos uma lição a aprender, e estamos aprendendo muito lentamente. O milho, por exemplo, está condenado a nã ser mais cultivado na nossa região", lamenta. No continente africano, a seca prolongada nas regiões do Sahel e do Chifre da África, além de países como Quênia e Nigéria, acentuou a insegurança alimentar. O Unicef alerta que mais de 20 milhões de crianças africanas chegaram ao fim do ano sob a ameaça da fome e da sede devido às mudanças climáticas, à falta de cereais, aos conflitos e à inflação mundial. Paquistão sob a água A elevação das temperaturas globais também leva ao aumento dos fenômenos extremos como enchentes, que devastaram o Paquistão em agosto. O país teve um terço de seu território inundado, com 33 milhões de pessoas atingidas. As chuvas de 2022 foram quase três vezes mais fortes do que a média dos últimos 30 anos, segundo levantamento da ONU. Em seguida, veio o outono mais quente registrado em décadas na Europa – para mostrar, mais uma vez, que algo está errado com o clima do planeta. Em outubro, os termômetros marcaram de 3 a 7 graus acima do normal para a estação. Em entrevista ao Planeta Verde, o economista ambiental Matthieu Glachant avaliou que, em relação à tomada de consciência sobre o problema, haverá um antes e um depois de 2022. "Eu acho que foi importante o que aconteceu porque, do nada, a mudança climática se transformou em uma experiência pessoal. Há muito tempo, conhecemos os relatórios do IPCC que nos alertavam sobre tudo isso – até que chegamos no momento em que as previsões se realizaram diante dos nossos olhos”, constatou. "Acho que isso provocará um verdadeiro impacto nos cidadãos e, por consequência, nos políticos." No Brasil, foco no desmatamento Já no Brasil, na área ambiental, foram os recordes de desmatamento e queimadas, sempre atualizados para pior durante o governo de Jair Bolsonaro, que continuaram a ocupar as manchetes no país e internacionais. Meses como setembro e outubro foram os piores registrados em 12 e sete anos, respectivamente. No período de um ano, 11,6 mil km² da Amazônia foram desmatados, o segundo pior índice desde 2009, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “O desmatamento está crescente nos últimos quatro anos e está se propagando por lugares onde não ocorria antes. A gente não via fogo em grandes quantidades na região de Lábrea, por exemplo, ou no sul do Amazonas. Não era um tema naquela região”, apontou Tasso Azevedo, coordenador-geral do Mapbiomas, plataforma de referência no monitoramento de queimadas. “É um crescimento consistente que é resultado dos sinais que são dados no nível federal que, no fundo, diz que vai acabar com as punições e vai reinar a impunidade em relação aos crimes ambientais.” Esse quadro tem consequências não só para o clima, mas também para a economia. Em 2022 o Brasil deu um passo a mais rumo à perda de mercados para as suas exportações de matérias-primas, em represália à política ambiental destrutiva. Em dezembro, a União Europeia chegou a um acordo sobre uma nova lei para proibir a compra de produtos oriundos de áreas de florestas desmatadas ilegalmente. A medida atinge em cheio alguns dos carros-chefes do comércio internacional brasileiro, como a carne, a soja e a madeira. “É uma legislação muito bem-vinda e esperada por toda a comunidade de cientistas e socioambientalistas. De forma transversal, vejo que o grande impacto vai ser minar a pressão de especulação de terras no Brasil”, disse o cientista de uso da terra Tiago Reis, coordenador na América do Sul da Trase, uma iniciativa internacional especializada em rastrear a origem e o destino das matérias-primas no comércio mundial. “De 90 a 99% do desmatamento global de 2015 a 2019 foi para a agropecuária. Mas de 35 a 55% desse desmatamento foi improdutivo, ou seja, ele foi motivado pela perspectiva de lucro com a venda da terra, de olho nos preços futuros das commodities agropecuárias. Quando a UE define que não vai importar produtos de áreas desmatadas, ela está dizendo que essa terra não vai mais valer tanto assim, já que vai encontrar restrições de mercado”, salientou Reis. Neste contexto, a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em outubro, foi a melhor noticia ambiental do ano para o Brasil. Em sua primeira viagem internacional após o pleito, Lula foi à Conferência do Clima da ONU em Sharm el-Sheikh, no Egito (COP27), anunciar ao mundo o seu comprometimento com a preservação da maior floresta tropical do planeta. “Não há segurança climática para o mundo sem uma Amazônia protegida. Não mediremos esforços para zerar o desmatamento e a degradação de nossos biomas até 2030”, ressaltou. “Os crimes ambientais, que cresceram de forma assustadora durante o governo que está chegando ao fim, serão agora combatidos sem trégua.” Outra boa notícia para o país foi a eleição de duas deputadas indígenas, Sônia Guajajara e Célia Xacriabá, importantes defensoras das causas dos povos originários. “Estaremos juntas, comprometidas com a bancada do cocar, para fortalecer o futuro Ministério dos Povos Indígenas [a ser chefiado por Guajajara]. Se nós somos a solução número 1 para conter as mudanças climáticas, como afirma a própria ONU, nós queremos e precisamos marcar presença nos outros ministérios: no Meio Ambiente, na Cultura, na Educação”, afirmou Célia à RFI, em uma conversa em Sharm el Sheikh. “Nós chegamos para ‘mulherizar' e ‘indigenizar' a política, porque onde existe indígena, existe floresta.” COP27 tem avanço para países pobres, mas falha em responder à altura os desafios A conferência ambiental mais importante do ano ocorreu em novembro. O evento resultou na decisão de criar um financiamento específico para os países em desenvolvimento serem compensados, com recursos das nações desenvolvidas, pelas perdas e danos já sofridos devido às mudanças do clima – uma demanda história dos países pobres. Por outro lado, a conferência, abalada pelos efeitos da guerra na Ucrânia e realizada em um país que deixa a desejar na pasta ambiental, falhou ao paralisar os esforços por reduções de emissões de CO2 e encaminhar a diminuição do uso de combustíveis fosseis. Nos dois aspectos, essenciais para o cumprimento do Acordo de Paris, o texto final da COP27 apenas manteve o que já havia sido acordado na conferência anterior, em Glasgow.

    Acordo da COP15 da Biodiversidade traz avanços, mas é considerado insuficiente por ONGs e países africanos

    Play Episode Listen Later Dec 22, 2022 8:05


    No começo desta semana, representantes de 196 países reunidos em Montreal para a conferência da ONU para a Biodiversidade, a COP15, chegaram a um acordo histórico sobre a proteção da vida na terra. Após 13 dias de negociações, o Marco Global de ação adotado prevê a proteção de um terço das terras e oceanos do planeta até 2030 e a restauração de 30% dos ecossistemas degradados pelo homem. Apesar de ter sido considerado histórico, ONGs e países africanos acreditam que o acordo é insuficiente.  Ana Carolina Peliz, da RFI Com dois anos de atraso, às 3 horas e 30 minutos de segunda-feira (19) o presidente da COP15, o ministro chinês do Meio Ambiente, Huang Runqiu, bateu o martelo para encerrar a Conferência e sinalizar que um acordo tinha sido concluído. A COP15 tinha o objetivo de discutir um novo marco global sobre a biodiversidade, após as metas fixadas em Nagoya, na COP10, terem fracassado. Além da proteção dos ecossistemas, o acordo também fixa um aumento do orçamento atual consagrado à biodiversidade de 10 bilhões de dólares, para 20 bilhões em 2025 e 30 bilhões depois de 2030. O texto também faz menção aos povos indígenas e tradicionais como “protetores da biodiversidade” e à agroecologia. Apesar dos avanços inquestionáveis do novo marco global, ONGs e países em desenvolvimento não saíram totalmente satisfeitos da Conferência. Naiara Bittencourt, que estava em Montreal, acredita que a meta de proteção de 30% do globo é muito significativa, mas lamenta que a implementação do objetivo não tenha sido definida. Ela salienta que outros temas importantes, além do Marco Global, foram discutidos, como o sequenciamento genético digital. As discussões giraram em torno de como essas informações serão acessadas pelos países e como os benefícios de uma exploração econômica desse sequenciamento genético vão ser repartidos com as comunidades tradicionais que desenvolveram esse patrimônio genético original. “Essa era toda uma discussão extremamente complexa que teve poucos avanços nessa COP”, lamenta Naiara. “Mas alguns avanços importantes foram alcançados, por exemplo, de que é necessário repartir benefícios, e que esse acesso deve ser monitorado, que não deve ser livre para todo mundo. Mas as dimensões mais objetivas de como essa repartição vai ser feita e esse acesso vai se dar ficaram para a próxima COP”, explica. “O debate sobre a regulação da biologia sintética também passou para a próxima Conferência. Muita coisa ficou ainda em aberto”, completa. Agroecologia Apesar de a agroecologia aparecer nas metas como uma das formas de agricultura sustentável a ser implementada e incentivada, Naiara acredita que o sistema de cultivo não teve grande destaque no texto. O documento também manifesta a intenção de diminuir em 50% os “riscos ligados aos agrotóxicos”, mas não fala sobre redução do uso.   Para a advogada, isso se deve, em grande parte, à posição que a delegação brasileira, ainda sob a gestão do presidente Jair Bolsonaro, assumiu durante as negociações da COP15. “O Brasil teve uma postura bastante ativa em tentar minimizar o papel da agroecologia no Marco Global, nas discussões do grupo de trabalho e também no grupo de contato. Também em retirar a palavra agrotóxico do texto. Claro, a palavra foi mantida, mas em relação à agroecologia, sua dimensão foi minimizada. Muito diferente do que queriam  Bolívia ou Colômbia em algumas negociações, tentando manter a palavra agroecologia, seus princípios, seu sentido original, mais forte. Agora ficou com uma dimensão enfraquecida, dentro do Marco e o Brasil tem um papel significativo nisso”, diz. Financiamento Durante toda a COP15 a questão do financiamento da proteção da biodiversidade foi fonte de grandes tensões. A quantia desembolsada atualmente pelos países ricos é de US$10 bilhões de anuais. Os países em desenvolvimento pediam que ela passasse a US$100 bilhões, mas a China conseguiu um meio termo de US$20 bilhões, que não contentou muitos países africanos. A questão dos meios para distribuir as ajudas também foi de difícil consenso. Os países em desenvolvimento pediam um fundo próprio para isso, mas a União Europeia não aceitou. Finalmente a proposta da Colômbia, de criar um setor dedicado ao tema dentro do já existente Fundo Mundial para o Meio Ambiente, foi aceita. Alguns países africanos ficaram decepcionados e lamentam não terem sido ouvidos em certos pontos. Negociadores africanos presentes na COP15 expressaram incredulidade sobre o acordo que, segundo eles, não é suficientemente ambicioso, principalmente sobre a criação do fundo específico para a Biodiversidade, como explicou à RFI Irène Wabiwa Betoko, diretora de campanha de Florestas para o Greenpeace África. "A maior parte dos países africanos pediu um fundo específico porque os fundos que existem têm muita burocracia, são lentos e para ter acesso a estes fundos é muito cansativo. Muitos países africanos não podem ter acesso a esse dinheiro visto as condições para conseguí-lo. Por isso pedimos um fundo específico, com condições mais flexíveis. Infelizmente, não fomos ouvidos”, lamenta Wabiwa Betoko. “A questão que fica é a de saber o que isso vai mudar na verdade? Se os países africanos não podem ter acesso rapidamente às ajudas e se as atividades destrutivas da biodiversidade não são reduzidas com este acordo, a situação corre o risco de continuar a mesma", diz. Naiara destaca outros limites da conferência que enfraqueceram os debates entre países ricos e em desenvolvimento, além da questão orçamentária. “Os debates nas negociações não tinham tradução. Alguns países reclamaram, falaram sobre a necessidade, inclusive para o diálogo, de você ter todas as discussões em inglês com tradução nos grupos de trabalho. Isso é bastante sério. Sem a possibilidade de intervenção das ONGs, das comunidades locais, de pesquisadores, o acordo fica enfraquecido”, diz. A participação dos povos indígenas na proteção da biodiversidade ganhou destaque no texto, mas, de acordo com Naira a reivindicação das comunidades tradicionais era ter uma dimensão mais objetiva em relação aos direitos territoriais e aos conhecimentos tradicionais, mas isso não foi contemplado. “Havia na discussão original várias possibilidades de garantias territoriais mais explícitas. Já no texto do marco global, após as negociações, elas não apareceram”, diz.   Aplicação das metas Em 2010, na COP10 de Nagoya, no Japão, a comunidade internacional fixou uma série de objetivos para evitar o fim da biodiversidade que ficaram conhecidas como Metas de Aichi. Mas em 2020, estes objetivos não tinham sido alcançados, sobretudo por falta de um sistema de vigilância. Mais uma vez, a criação desse mecanismo de monitoramento foi empurrada para reuniões futuras.   “Essa é uma preocupação generalizada. Eu espero definitivamente que essas metas não tenham o destino das de Aichi, mas as expectativas realmente são baixas”, lamenta Naiara. “Ainda há uma incerteza em relação aos recursos que serão aplicados para a efetivação dessas metas, inclusive nos países em desenvolvimento ou nos países com menos recursos econômicos, com menos poder econômico e político no globo. Isso também é uma preocupação”, diz. Outro ponto criticado é que empresas não serão obrigadas a prestar contas, apenas encorajadas a medir e publicar seu impacto sobre a biodiversidade. “Várias metas caem no voluntarismo e não numa obrigatoriedade. Tanto o voluntarismo dos Estados, quanto das próprias empresas. O voluntarismo nesse sistema funciona muito pouco. Com certeza depende de pressão social, da sociedade civil, das organizações internacionais, dos próprios movimentos sociais, mas de fato, a meu ver, isso enfraquece bastante o marco”, afirma. Contribuição Apesar dos pontos a serem melhorados, a principal contribuição da COP15 foi colocar no centro do debate político a questão da biodiversidade, de acordo com Philippe Grandcolas, pesquisador do CNRS e especialista da questão. “Um dos benefícios desta COP, ainda que pareça trivial, foi o de legitimar as problemáticas sobre a diversidade da vida. Agora sabemos que a biodiversidade é a alimentação, é nossas saúde, é nosso clima e não somente as imagens exóticas de meios naturais distantes ou de grandes animais, mas uma problemática absolutamente central da vida humana”, analisou. O especialista diz que agora é necessário ir mais longe. “Agora é importante estar alerta sobre a maneira como os países vão implementar as estratégias”, conclui.

    COP da biodiversidade reacende debate sobre financiamento de países ricos aos em desenvolvimento

    Play Episode Listen Later Dec 7, 2022 28:35


    Os países da ONU voltam a se reunir a partir desta quarta-feira (7) para negociar um acordo ambiental, desta vez sobre a preservação da biodiversidade mundial. Menos de um mês depois da COP27 no Egito, sobre as mudanças climáticas, a 15ª Conferência das Partes sobre Diversidade Biológica acontece em Montreal, no Canadá, e visa chegar a um consenso inédito para reverter a perda de espécies animais e vegetais sobre a Terra. A questão de financiamento também deve focalizar as atenções. Lúcia Müzell, da RFI Embora seja tão crucial quanto o clima, este aspecto do impacto dos seres humanos sobre o planeta costuma atrair menos atenção da comunidade internacional. A ausência de chefes de Estado e de Governo no evento simboliza essa negligência – as conferências sobre a biodiversidade recebem “apenas” ministros do Meio Ambiente. Nesta edição, eles estarão encarregados de concluir um texto que está sendo comparado ao Acordo de Paris sobre o Clima. "Nós temos muitas metas, em torno de 20, que são discutidas em torno de três objetivos principais: conservação da natureza, uso sustentável da biodiversidade e repartição dos benefícios desse uso sustentável. Nós temos uma perspectiva positiva: este poderá ser o acordo ambiental mais importante do ano”, aponta Michel Santos, gerente de Políticas Públicas da WWF Brasil, que está em Montreal. O tratado existente, firmado em 2010, no Japão, fixava 20 objetivos a serem cumpridos até 2020, mas nenhum foi totalmente respeitado. O próximo documento poderá estabelecer marcos históricos como transformar em áreas protegidas 30% do território terrestre e marinho do mundo até 2030, de modo a conter a erosão do número e a variedade de espécies vivas, em consequência à exploração excessiva e a degradação do meio ambiente. Apenas 17% da terra e cerca de 7% dos oceanos eram protegidos em 2020. O Brasil está próximo de atingir a meta da conferência, em seu território nacional – mas muitas vezes a proteção não é respeitada, ressalta Santos. “O que nós viemos observando, especialmente nos últimos quatro anos, foi um completo descumprimento das leis e das obrigações nessas áreas, que são legalmente protegidas. Temos territórios indígenas e unidades de conservação sendo invadidos, desmatados. Há uma perseguição às comunidades que moram no interior dessas áreas”, afirma. "O Brasil andou para trás nesse aspecto, apesar de ser considerado um país que praticamente alcançou a meta dos 30% de áreas protegidas. Mas isso não ocorre em todos os biomas brasileiros. A Amazônia é mais protegida que o Pantanal, o Cerrado, a Mata Atlântica e a Caatinga”, sublinha Santos. Consenso difícil Por enquanto, cerca de 100 países apoiam formalmente a ampliação das áreas protegidas e o entendimento da comunidade internacional não será fácil, assinala o brasileiro Oliver Hillel, executivo da Convenção sobre a Diversidade Biológica. A missão se torna ainda mais árdua enquanto os Estados Unidos sequer são signatários das Metas de Aichi, e atuam na COP15 como meros “observadores”. "É muito bom saber da expectativa de termos um acordo de Paris para a biodiversidade, mas é importante lembrar que as circunstâncias são muito diferentes. Nesse momento, depois de muitos anos de reuniões remotas, está muito difícil de conseguir um espírito de consenso, de conciliação, de compromisso, e nós não estamos vendo ainda avanço significativo na remoção das dúvidas quanto ao texto que está diante dos 195 países signatários”, diz. "Eu espero que sim, mas neste momento as nuvens ainda estão visíveis no horizonte." Sexta extinção em massa O relatório Planeta Vivo, divulgado a cada dois anos pela organização WWF, aponta que as populações de animais vertebrados despencou 69% desde os anos 1970, e o risco de extinção atinge nada menos do que 1 milhão de espécies animais e vegetais, conforme levantamento do IPBES (Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos), instituição de referência no assunto. O planeta pode já estar vivendo a sexta onda de extinções em massa de espécies – a primeira causada pela ação humana. Na mira da COP15, estão questões delicadas como fim dos subsídios para práticas e produtos nocivos ao meio ambiente, como certos agrotóxicos, a determinação de metas de redução da poluição e de uma pesca e agricultura compatíveis com os limites planetários. "Hoje, nós gastamos entre 30 e 40 vezes da nossa economia para usar o capital natural, para degradar a nossa natureza e transformá-la em dinheiro gratuito para nós. Nós estamos pagando as retiradas que estamos fazendo da natureza. O que está em jogo aqui é como virar estes investimentos”, salienta Hillel. "Como transformar os incentivos, que hoje são perversos para a natureza, em positivos. À medida em que a gente tem uma economia verde, azul, um bioeconomia – para a qual o Brasil está bem colocado –, nós temos uma economia que regenera a natureza. Isso diminui o custo da destruição e gera recursos para a conservação e uso sustentável." No caso brasileiro, a queda do desmatamento é apontada como a solução prioritária tanto para a redução de emissões de gases de efeito estufa, fundamental para o enfrentamento às mudanças climáticas, como para a preservação da natureza. O país é dono do maior patrimônio de biodiversidade do planeta. Cerca de 80% dessas riquezas naturais mundiais encontram-se em terras indígenas, razão pela qual os representantes dos povos originários participam cada vez mais em peso das conferências sobre a biodiversidade. Financiamento volta a causar embates O Brasil propôs, com apoio de países em desenvolvimento e emergentes, que os países desenvolvidos forneçam pelo menos US$ 100 bilhões por ano até 2030 para proteger a biodiversidade, a exemplo das cifras negociadas para o combate às mudanças climáticas. Os dois fundos são distintos, e num contexto em que a liberação dos recursos já prometidos se mostra problemática, a criação de novos mecanismos financeiros tende a ser delicada. "As famosas metas de Aichi, que venceram em 2020, já estabeleciam metas de financiamento dos países desenvolvidos para financiar a proteção da biodiversidade nos países em desenvolvimento, que é onde de fato ainda existe biodiversidade e natureza, especialmente nos do sul global. Então, essa promessa está na mesa há 10 anos”, aponta Santos. "É justo que todos os países busquem o desenvolvimento. O que não é justo é que ele seja em detrimento da natureza.” A COP15 deveria ter ocorrido há dois anos na China, mas foi adiada diversas vezes devido à pandemia de covid-19. Em uma primeira etapa da conferência, realizada à distância em outubro de 2021, a presidência chinesa anunciou a criação de um Fundo de Kunming para a Biodiversidade, de cerca de R$ 1,2 bilhão. Os recursos seriam destinados aos países em desenvolvimento e a expectativa é de que os contornos do mecanismos sejam melhor definidos durante o evento em Montreal, que se encerra em 19 de dezembro.    

    Crise energética impõe transição ecológica às feiras de Natal na França, que serão menos iluminadas

    Play Episode Listen Later Dec 1, 2022 9:58


    A crise energética impulsionada pela guerra na Ucrânia, que obriga os europeus a economizarem energia nestes meses de frio, não poupa as festas de Natal. Na França, cidades por todo o país são obrigadas a encontrar soluções para diminuir o consumo – em um exercício que tende a instalar práticas mais ecológicas daqui para a frente. Lúcia Müzell, da RFI A troca das lâmpadas incandescentes pelas de LED nas decorações já vinha se generalizando nos últimos anos, mas por razões financeiras. A mudança corta em pelo menos seis vezes o consumo energético, num período em que, em algumas localidades do país, começa a anoitecer por volta de 16h30 no inverno. Neste Natal, cidades grandes e pequenas são obrigadas a diminuir o tempo em que elas ficarão acesas, para cumprir o objetivo fixado pelo governo francês de reduzir 10% da energia consumida, em dois anos. Serão menos horas por dia, por um período mais curto, concentrado no mês de dezembro e não mais de meados de novembro até janeiro. O impacto econômico é baixo, mas o valor simbólico é importante, em um momento em que os franceses baixaram a temperatura das suas próprias casas para fazer a sua parte neste esforço coletivo pela redução do consumo, e que a inflação corrói o poder de compra das famílias. "Eu acho que é muito importante que a gente se preocupe de verdade com o nosso planeta, inclusive no Natal. Acho que foi uma boa ideia”, disse Pauline, turista alemã, enquanto apreciava a avenida Champs Elysées, em Paris, decorada para as festas. "Durante o dia, eu acho que nunca foi necessário ter as luzes. À noite, sim, mas durante o dia não deveria ter." A enfermeira brasileira Priscila Meira, de passagem pela Cidade Luz, concordava. "A gente veio à noite para poder curtir e é realmente muito linda. Em relação ao horário de funcionamento, acho que é justificável, mesmo diminuindo o tempo para o turista”, afirmou. "Acho que é muito válido porque desperta a consciência que nós temos de ter diante da crise que está tendo aqui na cidade e no país”, avalia. "Eu entendo, até porque não faz muita diferença. A gente não fica acordada até 1h da manhã aqui. Está tudo muito bonito e nem percebi que tem menos luz”, complementou a sobrinha de Priscila, Ana Luísa, de 14 anos. Estrasburgo se adapta à ‘sobriedade energética' O desafio foi de peso para a mais famosa feira de Natal da França, a de Estrasburgo, na fronteira com a Alemanha. Administrada por uma prefeita ecologista, a cidade quer dar o exemplo. O evento se repete há 450 anos e atrai mais de 2,5 milhões de visitantes a cada edição, ansiosos para viver o encanto do Natal sob os quilômetros de guirlandas que enfeitam a cidade. Desta vez, porém, eles terão menos tempo para admirar as decorações, que permanecerão montadas por uma semana a menos do que nos anos anteriores. Além disso, a partir de 23h os arranjos luminosos serão desligados, em vez de meia-noite, e o imenso pinheiro natalino será pela primeira vez desligado durante a madrugada. O ano de 2022 terá 20% menos luzes do que o habitual. “De fato, não é fácil. A gente busca um equilíbrio entre responsabilidade e magia. Mas tem soluções que são muito simples: podemos não só colocar menos luzes, como melhor distribuí-las, retirando daqueles lugares onde tem muitas e colocando onde tem poucas”, explicou o responsável pela organização da “Capital do Natal”, Guillaume Libsig. “Nós mantivemos a quantidade de pontos luminosos sobre o pinheiro, mas para compensar, reduzimos os horários em que estarão iluminados. Quando não tiver mais ninguém nas ruas, ele não precisa continuar aceso”, destaca. Libsig não dispõe de dados sobre o consumo – uma auditoria energética inédita da decoração de Natal está sendo realizada. Outra importante fonte de economias é o fim do aquecimento dos 300 estandes da feira, em cumprimento à Lei Clima e Resiliência, adotada pela França em 2021. A nova regra passou a proibir a calefação de espaços ao ar livre, como restaurantes e cafés. "O Natal é um exemplo muito interessante de como podemos fazer as coisas evoluírem. Nós estamos em um período que nos leva a picos de consumo excessivo, mas os verdadeiros valores desta data são a convivialidade, a solidariedade, o encontro em família e com os amigos. São momentos que podemos chamar de ‘naturais', que vêm de uma época muito anterior às telas, em que gostávamos de nos encontrar à luz de velas, como nos contam os nossos avós”, relembra. "Não tem nada a ver com esse excesso de tudo que temos hoje. Então, se vamos até as origens dessa lógica do Natal, é totalmente coerente com a noção de ecorresponsabilidade.” Cidades menores chegam a cancelar ‘luzinhas' Que o digam as pequenas cidades, que esperam pelo fim do ano para participar do tradicional concurso “vilarejos iluminados”. A cidadezinha Les Monts-d'Andaine, por exemplo, tem apenas 1,7 mil habitantes, mas também se adaptou ao contexto nacional. As iluminações não funcionarão mais pela manhã e serão desligadas integralmente às 23h. Mas outras, como Boussy-Saint-Antoine, de 8 mil habitantes, decidiram ser ainda mais drásticas e simplesmente abandonar as decorações que consomem energia neste ano. A escolha foi feita por cerca de 10% dos municípios franceses, segundo a Associação dos Prefeitos da França, diante da perspectiva de um aumento ainda maior nas contas de luz e do gás em 2023. A Agência Francesa para a Transição Ecológica (Adème) ressalta que “qualquer esforço conta”. A expectativa é que as medidas tomadas no contexto excepcional de 2022, que deverá se repetir no próximo ano, agora passem a ser a nova norma – não apenas para responder a uma crise, mas por responsabilidade climática. Os objetivos ambientais da França para 2050 implicam em uma queda de 40% do consumo energético no período, incluindo o fim do uso de fontes não renováveis. Hoje, cerca de 40% dos imóveis franceses ainda são aquecidos a gás.

    Apesar de promessas de Lula na COP27, Brasil já tem “desmatamento contratado” para 2023

    Play Episode Listen Later Nov 24, 2022 10:49


    A presença do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva na COP27 (Conferência do Clima na ONU), no Egito, animou ambientalistas e a comunidade internacional, ao levar uma mensagem de forte comprometimento com os objetivos ambientais do Brasil, a começar pelo desmatamento zero nos biomas no país. Entretanto, os resultados das promessas não devem começar a aparecer tão cedo – a herança deixada pelo atual governo inclui cofres vazios e índices alarmantes de “desmatamento contratado”, que entrarão no balanço do primeiro ano do governo Lula 3. Lúcia Müzell, da RFI Na plenária da conferência, em Sharm el-Sheikh, o petista prometeu retomar as ações de monitoramento e controle da devastação das florestas, principais formas de combate a ilegalidades como grilagem, ocupação irregular de terras pelo agronegócio, garimpo e exploração ilegal da madeira na Amazônia. “Não precisamos desmatar sequer um metro de floresta para continuarmos a ser um dos maiores produtores de alimentos do mundo”, defendeu. A diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade, Ana Toni, celebra a mudança de postura do Brasil na COP, mas pondera que o futuro governo levará tempo para consertar o estrago deixado por Jair Bolsonaro na pasta ambiental. “A gente está vendo que não são só os brasileiros que estão vendo para o futuro, mas é a comunidade internacional inteira olhando para o Brasil com o olhar do futuro. A expectativa é muito grande, mas as pessoas têm que entender, dentro e fora do Brasil, que o desmatamento da Amazônia para o ano que vem já foi contratado pelo governo Bolsonaro, além de que ele e todos os grileiros têm ainda dois meses para continuar desmatando”, salienta. “O desmatamento da Amazônia vai continuar muito alto no ano que vem por ser um legado de Bolsonaro, que o Lula não conseguirá impedir. A gente vai começar a ver as mudanças no outro ano.” Tasso Azevedo, coordenador da plataforma MapBiomas, explica que o desmatamento do período de um ano é medido entre agosto e julho do ano seguinte. “O sistema de detecção mensal está indicando que o desmatamento em agosto, setembro e outubro foram recordes históricos, e novembro será recorde histórico porque o que tivemos nos 10 primeiros dias de novembro já é maior do que qualquer outro mês de novembro inteiro. Ou seja, teria que ter um esforço muito grande nos próximos seis meses de Lula para se poder empatar ou diminuir o desmatamento”, afirma. Orçamento apertado O problema é que a retomada da fiscalização de uma área vasta como a Amazônia vai esbarrar na falta de recursos. O Projeto da Lei Orçamentária Anual enviado pelo atual Executivo ao Congresso prevê que o Ministério do Meio Ambiente terá R$ 2,96 bilhões disponíveis no próximo ano, o que significa 6,4% a menos que em 2022, num contexto em que a pasta só perdeu verbas ao longo do mandato de Bolsonaro. “Tem uma série de coisas possíveis de se fazer, que acontecem no âmbito infralegal, com decretos. Se a gente fizer desocupação de terras indígenas, com ações que demonstrem claramente que é isso que vai acontecer daqui para a frente, e se fizermos o embargo remoto de todas as áreas desmatadas ilegalmente, a gente começa a trocar o sinal da expectativa de impunidade”, pontua Azevedo, lembrando que 98% do desmatamento no país é ilegal. “O maior problema que a gente tem agora é que, literalmente, o orçamento foi desmontado. Não existe, basicamente orçamento para nada na parte ambiental, no próximo ano”, lamenta. Retomada do Fundo Amazônia O texto da PEC (Projeto de Emenda Constitucional) da Transição sobre o Orçamento, enviado ao Congresso na semana passada, prevê que as despesas com projetos socioambientais ou relativos às mudanças climáticas custeadas por recursos de doações poderão romper a regra do teto de gastos, em vigor no país. Na mira, estão os R$ 3,6 bilhões do Fundo Amazônia, bloqueados pelos seus dois maiores financiadores internacionais, Noruega e Alemanha, depois que o desmatamento voltou a subir em 2019. Esse dinheiro poderá ser a solução para o futuro governo Lula começar a combater, já em janeiro, as ilegalidades na maior floresta tropical do mundo. “Infelizmente, os últimos quatro anos foram de chantagem, de o Brasil dizer que só vai fazer o dever de casa se nos pagassem para isso. Agora, o Brasil vai fazer o dever de casa, quer cooperação, mas não condiciona proteger as suas florestas a que nos paguem”, ressaltou a ex-ministra Marina Silva, que tem colaborado na transição de governo e desempenhou um verdadeiro papel de líder da pasta do Meio Ambiente durante a COP27. A deputada federal eleita teve encontros com delegações dos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Canadá, Noruega, Banco Mundial, Banco Interamericano e instituições de filantropia voltada para o meio ambiente “que querem colaborar com o Brasil”. “Obviamente que muitos países estão mobilizados par anos ajudar. Nós estamos indicando o Fundo Amazônia como o desaguador inicial dessa cooperação, para que a gente possa mobilizar muito rapidamente os recursos em várias direções, inclusive o combate ao desmatamento”, salientou.   Lula havia prometido anunciar durante a COP27 o nome de quem assumirá o Ministério do Meio Ambiente, mas acabou adiando a decisão. Marina Silva ressalta que o foco agora está do trabalho da equipe de transição e na composição de um ministério composto por especialistas e técnicos reconhecidos, “para apresentar resultados já nos primeiros 100 dias de governo”.

    Fundo de perdas e danos não deve sair na COP27, indica diplomata brasileiro na conferência

    Play Episode Listen Later Nov 17, 2022 16:33


    Na reta final da COP27, no Egito, a delicada questão da criação de um fundo especifico para compensar as perdas e danos já sofridos pelos países mais vulneráveis devido às mudanças do clima se encaminha para um resultado decepcionante para os países em desenvolvimento, que seriam beneficiados pelo mecanismo. O embaixador Paulino Franco de Carvalho Neto, à frente dos diplomatas que defendem as posições do Brasil da conferência –representando, portanto, o governo Bolsonaro –, avalia com “otimismo” as possibilidades de as nações reunidas na conferência darem o pontapé inicial para desenhar este mecanismo. Mas o diplomata considera que a conclusão do tema levará mais “duas ou três COPs”. “Esse fundo poderá eventualmente ser criado. Não sei se agora”, disse, em entrevista à RFI. “Acho difícil, para ser muito franco e objetivo.” O G77+China, grupo de 130 economias em desenvolvimento e emergentes do qual o Brasil faz parte, apresentou uma proposta semelhante ao já existente Fundo Verde do Clima. O mecanismo teria um comitê formado por países desenvolvidos e em desenvolvimento, que avaliaria os objetivos e o modo de funcionamento deste fundo já a partir da próxima COP, em Dubai (Emirados Árabes). Entretanto, os Estados Unidos, maiores emissores históricos dos gases de efeito estufa que causam o aquecimento do planeta, rejeitam a criação de um instrumento específico para perdas e danos – que eles veem como uma porta aberta para futuras ações judiciais para cobrar mais reparações financeiras. Na entrevista, o diplomata indica que a transição de governo em Brasília também já se opera no âmbito das negociações climáticas. No evento em Sharm el-Sheikh, a presença do ministro do Meio Ambiente, chefe da delegação brasileira, foi completamente ofuscada pela chegada do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Em seus discursos, o petista advertiu que o "Lula cobrador" das nações industrializadas está de volta.  "Não se trata simplesmente de um de um jogo de negociação. Nós estamos tratando da vida de pessoas, da sobrevivência de pessoas e das condições mínimas de existência que dependem hoje, em boa parte, de nós termos um ambiente minimamente melhor do ponto de vista ambiental satisfatório para todos nós", defendeu Carvalho Neto. Confira os principais trechos da conversa, nesta quinta-feira (17): RFI: A respeito dessa proposta de criação de um fundo internacional para compensações de perdas e danos, feita pelo G77+China, qual é a visão do Brasil?   O fundo para perdas e danos é um dos aspectos do chamado financiamento climático. O G77+China está muito unido em relação a esses temas e nós entendemos que perdas e danos é um aspecto essencial da equação de financiamento climático. Nós precisamos, evidentemente, de financiamento para combater o aumento das emissões (mitigação). Nós precisamos de financiamento para adaptação, ou seja, para fazer frente às consequências negativas que já ocorreram por conta da mudança do clima, seja na agricultura, nos ambientes urbanos, enfim, nas economias, serviços, no setor industrial também. E temos a questão de perdas e danos, que é muito relevante e muito importante para os países, as pequenas ilhas, os países insulares e o continente africano, mas também para outros países em desenvolvimento, inclusive o Brasil. Nós, como se sabe, já sofremos intensamente as consequências da mudança do clima. Tivemos recentemente uma seca muito intensa no Brasil, uma seca que não se via há décadas. O regime de chuvas no Brasil tem sido alterado. E tudo isso é consequência, de modo geral, da mudança do clima, do aumento médio da temperatura. Então é natural que se queira atender a essas demandas. Segundo o próprio texto da Convenção das Nações da Convenção-Quadro das Nações Unidas para Mudança do Clima, essa responsabilidade de mitigar, reduzir, diminuir esses efeitos é dos países de industrialização antiga, ou seja, dos países desenvolvidos. E isso também está no texto do Acordo de Paris: o princípio chamado princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas. Então, nós entendemos que é uma demanda justa que esses países fazem, inclusive o Brasil. De que maneira o Brasil contribuiu para a formalização dessa proposta? É uma negociação sempre complexa, complicada, longa, intensa e extensa, inclusive porque tudo depende de consenso. Todos os países têm que chegar no entendimento para um acordo. Não se trata de uma votação. E isso, evidentemente, não é algo simples, mas é o único processo cabível do ponto de vista multilateral. O Brasil tem contribuído desde sempre, desde 92, no início dessas negociações em torno de mudanças do clima e desenvolvimento sustentável. Nós fomos, somos e seremos sempre atores relevantes nesse processo. Portanto, sim, nós temos dado contribuições. Não há propriamente um texto fechado, digamos. Há propostas de diferentes grupos regionais e caberá agora, se for o caso, sair do nível técnico e elevar essa discussão, para que, no nível político mais alto, se possa eventualmente chegar a uma decisão. Isso também depende muito, como é sempre o caso, da presidência da COP – no caso, a presidência egípcia, que tem que liderar esse processo com o apoio dos demais países. Mas temos a expectativa de que encontremos alguns caminhos, pelo menos para conseguirmos atender essas demandas de lato sensu de financiamento para fazer frente à mitigação, adaptação e perdas e danos provocadas pela mudança do clima.   Como está a reação dos Estados Unidos – que têm sido, como sempre foram, um ponto importante no avanço ou não das negociações nessa questão financeira?   Não só Estados Unidos, mas a União Europeia lato sensu, os países que formam a União Europeia, eles resistem. E é legítimo que isso ocorra. Resistem a pagar mais. Mas como eu disse antes, é um compromisso assumido por todos nós, inclusive por esses países, de fazer chegar meios de implementação, recursos para fazer frente a esse desafio que todos nós temos. Aqueles que têm mais condições devem aportar mais recursos. Mas pelas conversas que nós temos tido com diferentes delegações, eu estou otimista. Eu entendo que nós chegaremos a resultados minimamente concretos. Claro que o dinheiro não vai aparecer do nada e de repente, mas é um processo que tem que continuar, que tem que ter um caminho olhando para a frente. O objetivo concreto é que, no final das contas, o Acordo de Paris poderá ser implementado. Em última instância, qual é o objetivo do Acordo de Paris? Reduzir as emissões de gases de efeito estufa, controlar a temperatura, o aumento da temperatura média global do planeta até idealmente 1,5°C até o final deste século. E esse é o grande desafio que todos nós temos. Há uma emergência climática que é evidente e, portanto, tem que se dar resposta a ela, sob pena de criarmos um planeta em que viver nele será muito complicado.   Quando o senhor fala que está otimista de que será possível chegar a algum entendimento, a gente sabe que os países mais vulneráveis estão insistindo muito para que seja criado um fundo específico para perdas e danos, já nesta COP27. Quando o senhor fala que tem esperança, é nesse sentido?  Esse fundo poderá eventualmente ser criado. Não sei se agora. Acho difícil, para ser muito franco e objetivo. Mas o que se pode pensar, como eu disse, é acelerar esse processo até que nas próximas duas ou três COPs, nós tenhamos efetivamente um fundo específico para esses países que mais precisam. Não é simples, mas é uma uma obrigação, talvez também moral, que todos nós temos, em especial os países desenvolvidos.   De um lado temos os Estados Unidos liderando o bloco dos países desenvolvidos e ricos, e outro lado, os menos desenvolvidos. E temos um grupo dentro destes: os mais vulneráveis e os mais expostos. Eles estão fazendo uma pressão nessa última etapa, mobilizando a imprensa, inclusive, afirmando que não vão assinar nada se não tiver um caminho mais detalhado quanto às compensações por perdas e danos. Que força o senhor está vendo nessa pressão? Eles efetivamente têm feito pressão, e é do jogo. Isso é natural, como as contrapressões também, por parte dos países envolvidos. Eles fazem ver os seus pontos de vista. Agora, a pressão maior que nós vemos é a pressão moral, que é real e verdadeira, é legítima e não pode ser deixada de lado. Não se trata simplesmente de um de um jogo de negociação. Nós estamos tratando da vida de pessoas, da sobrevivência de pessoas e das condições mínimas de existência que dependem hoje, em boa parte, de nós termos um ambiente minimamente melhor do ponto de vista ambiental satisfatório para todos nós.   Que outros aspectos do senhor salientaria como sendo importantes para o Brasil conquistar, mesmo que seja junto a grupos de países, durante essa COP 27? Que avanços serão possíveis?   Os temas centrais são esse financiamento climático, que inclui ainda o chamado financiamento coletivo, meta de financiamento coletivo de quantificada, que deverá substituir os já famosos e não cumpridos US$ 100 bilhões ao ano que os países desenvolvidos se comprometeram lá em 2009, na COP de Copenhague, e que deveria entrar em vigor já em 2020. O que nós sabemos – e isso vem de fontes dos próprios países desenvolvidos – é que esses objetivos não foram alcançados. Então, a primeiríssima coisa a fazer é cumprir esses objetivos, ainda que não necessariamente retroativamente, em 22, 23 e 24, e a partir de 25 nós já termos estabelecido uma nova meta global quantitativa de financiamento climático, que deverá ser evidentemente superior a esses US$ 100 bilhões, por uma necessidade absoluta de financiamento climático e de fazer frente a esse desafio que todos nós temos pela frente.   Ouvindo o senhor falar, eu faço referência a muito do que o presidente eleito Lula falou nos seus discursos até agora, aqui na COP. A presença dele aqui já está sendo considerada no âmbito das negociações também, ou seja, no âmbito diplomático – lembrando que o Itamaraty serve ao Estado brasileiro?   Sem dúvida. Nós, diplomatas, negociadores, nós representamos o Brasil, o Estado brasileiro, mas também o governo de turno. Nós sabemos quais são as prioridades gerais do Brasil. E há uma tradição da diplomacia brasileira desde pelo menos 1992. Nós temos o próprio conceito de desenvolvimento sustentável, em que o Brasil tem um papel razoavelmente importante e relevante na conformação desse conceito. Ele envolve três pilares: o social, o econômico e o ambiental. Então, temos que tratar conjuntamente desses três elementos, e é o que nós temos procurado fazer sempre nas nossas negociações, evidentemente, com a expectativa de um novo governo na frente do país. É do nosso interesse também que esse aspecto de fazer e reforçar os conceitos de desenvolvimento sustentável possa ser levado adiante por quem estiver negociando em nome do Brasil no futuro.   No âmbito da transição de governo, que está a pleno vapor aqui na COP. O Itamaraty já está participando dessa transição aqui também, de certa forma? Esse processo de transição, que é previsto em lei, tem ocorrido nas diferentes áreas. Nós temos todos acompanhado o noticiário. O Itamaraty tem prestado as informações que cabe a ele para fornecer elementos de informação ao governo que assumirá as suas funções em 1º janeiro. E nós procuramos fazer da maneira mais correta, profissional e institucional. E esse é o nosso papel.  

    Mecanismos financeiros negociados na COP27 podem beneficiar o Brasil? Entenda

    Play Episode Listen Later Nov 8, 2022 20:26


    Perdas e danos, fundos de adaptação e mitigação, mercado de carbono. O maior foco da 27ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP27), apelidada de COP da implementação, é desenhar ou colocar em prática diferentes mecanismos financeiros para que os países menos desenvolvidos possam enfrentar as mudanças do clima. Lúcia Müzell, da RFI O primeiro dia do evento já marcou um pontapé inicial importante para as duas semanas de negociações entre os 197 países representados na cúpula, sediada no balneário de Sharm el-Sheik, no Egito. A presidência egípcia do evento anunciou a inclusão, nos debates, do financiamento sobre as “perdas e danos” sofridos pelos países mais vulneráveis às catástrofes climáticas. Sébastien Treyer, diretor-geral do Instituto do Desenvolvimento Sustentável e as Relações Internacionais (Iddri), em Paris, destaca que essa concessão dos países desenvolvidos se tornou imprescindível para o avanço do diálogo. “É uma questão que os países do sul levantavam há mais de uma década, e a novidade é que os países do norte aceitaram que é uma questão inevitável. Os estragos catastróficos causados pelas mudanças climáticas do ponto de vista econômico, mas também social, são enormes”, salienta. “Os países pobres não podem enfrentá-los sozinhos.” O problema agora será definir as modalidades para a entrega dos recursos: quanto, para quem, para quê. Os países ricos, liderados pelos americanos, defendem que a questão deveria ser gerenciada por outros órgãos já existentes, como o Banco Mundial e o FMI. Essas instituições atenderiam às necessidades dos países quando eles são vítimas de eventos extremos – a exemplo das enchentes no Paquistão, que destruíram um terço do país e atingiram mais de 30 milhões de pessoas. “Estamos numa COP em que a confiança está em jogo. Os países do sul estão dizendo que não confiam mais nos do norte. Agora, qual será o resultado dessas discussões na COP, é uma incógnita, afinal uns preferem usar o termo ‘compensação', mas outros, ‘reparação'. Esse é um limite que os países ricos não querem atingir: determinar reparações pelas dívidas ecológicas”, afirma Treyer. “O Acordo de Paris é muito claro neste ponto, graças às precisões exigidas pelos Estados Unidos: as perdas e danos não poderão resultar em ações judiciais por reparação.” Conta do clima Além do mecanismo de perdas e danos, a cada COP, a questão do financiamento das ações de adaptação e redução de emissões de gases de efeito estufa nos países em desenvolvimento volta à mesa. Os US$ 100 bilhões por ano a partir de 2020, prometidos há 13 anos pelos países desenvolvidos, só chegaram a US$ 83 bilhões. Enquanto isso, a conta já aumentou e vai continuar a crescer – pode quintuplicar até 2030 e passar para a casa do trilhão de dólares no horizonte de 2050. Até 2024 os países deverão definir um novo valor anual, que entrará em vigor no ano seguinte. “Esse fundo é para que esses países possam continuar produzindo e se desenvolvendo, porém com baixo carbono. Mas é uma conta que nunca fechou nas negociações e atrapalha o andamento de todos os acordos nas COPs”, observa Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. O aumento da transparência é o ponto-chave para desbloquear essas ajudas. Por um lado, os países ricos ainda têm muita desconfiança em relação aos pobres sobre o destino dos recursos. Por outro, os pobres alegam que só poderão desenvolver projetos robustos quando receberem o financiamento. Como o Brasil pode se beneficiar? Nem todos os países em desenvolvimento terão acesso aos mecanismos que estão sendo negociados na COP27. O Brasil, grande economia emergente responsável por 5% das emissões globais, tende a cada vez mais ter de contribuir para os fundos internacionais do que a recebê-los. Em tese, na posição de país em desenvolvimento, o Brasil pode receber recursos para conservação da biodiversidade e transição energética. Mas com o atual passivo na área ambiental, o país dificilmente terá acesso a mais verbas internacionais. “O Brasil já recebe auxílio de outros países há muito tempo, o Fundo Amazônia, para cuidar do nosso maior problema de emissão que é o desmatamento. O Brasil praticamente não entra nesses dois principais mecanismos que estão sendo debatidos aqui – não que ele não possa pleitear nada, mas a gente já recebe recursos e têm condições de lidar com os nossos problemas”, ressalta Astrini. Num exemplo concreto, o desmatamento e outras atividades ilegais ameaçam a maior área protegida do mundo, no norte do Pará. O Estado lidera o ranking da devastação da Amazônia desde 2006. Na linha de frente da destruição das florestas, estão os povos indígenas – em setembro, seis dos 10 territórios indígenas mais desmatados no país ficavam no Pará. Eles sofrem não só com a invasão das suas terras, como também os impactos do garimpo ilegal, que polui os rios e prejudica a agricultura de subsistência das populações locais. A líder Puyr Tembé, presidente da Federação Estadual dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa), frisa que os Estados amazônicos estarão na COP27 para pedir apoio internacional, inclusive com recursos financeiros, mas não cumprem a sua parte na fiscalização e regularização de terras. “Cabe a nós voltar para os nossos Estados e cobrar para fazer parte desses processos e aportes de recursos. Estaremos lá defendendo, brigando para que esses recursos cheguem de fato onde precisam chegar: nas populações indígenas. É pela proteção e monitoramento territorial, na vigilância, na defesa da nossa cultura e educação”, disse à RFI, em entrevista realiza em Belém do Pará, no fim de outubro. Os Estados podem, por exemplo, verificar os Cadastros Ambientais Rurais (CARs) das propriedades e cancelar os que estejam sobrepostos a áreas protegidas por lei, o que possibilita a ocorrência de crimes ambientais. No âmbito federal, as responsabilidades de fiscalização e proteção das áreas protegidas são ainda maiores – mas o direcionamento do governo de Jair Bolsonaro foi no sentido oposto. Fazer o dever de casa Para citar apenas um exemplo, em 2020 o Executivo apresentou ao Congresso um projeto de lei (PL191) para legalizar a mineração em terras indígenas. “Quem deve ser cobrado em primeiro lugar é o governo brasileiro, porque a grande maioria dessas atividades que ocorrem nas terras indígenas são ilegais. Não é uma consequência das mudanças climáticas. É uma questão responsabilidade do governo federal, que precisa garantir que essas áreas não sejam invadidas e que situações predatórias, de exploração dessas áreas, não ocorram”, afirma o secretário-executivo do Observatório do Clima. “O que vale é muito mais cumprir a lei do que alguma compensação que venha das negociações na COP.” No âmbito da Conferência do Clima, o maior interesse financeiro do Brasil é por avanços na definição de mercado internacional de créditos de carbono. A expectativa é por mais precisões sobre como ele vai funcionar – o dispositivo de compensação de emissões está previsto no artigo 6º do Acordo de Paris sobre o Clima, e começou a sair do papel na COP26, em Glasgow, no ano passado. “Esse mercado abre uma janela de oportunidades muito grande para o Brasil. O Brasil talvez seja uma das únicas grandes economias que pode não apenas ser neutro em emissões em 2050, como se tornar um país que capta carbono. As florestas são sumidouras de carbono: elas sequestram CO2 da atmosfera”, explica Astrini. Em linhas gerais, o mecanismo visa permitir a venda de créditos de carbono por países que conseguem cumprir as suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa para nações com dificuldades de atingir os seus objetivos. Esses países em “dívida” poderão financiar projetos que promovam a queda de emissões ou capturem carbono, como reflorestamento ou transição energética – geradores de “créditos” de CO2. “Mas não adianta a gente pensar que poderá desenvolver esse potencial desmatando florestas, como a gente faz hoje. Com um avanço de 73% do desmatamento, como vimos nos últimos três anos, nós não vamos ter crédito para vender, mas sim teremos dívidas para explicar”, sublinha o ambientalista.

    Com Lula, Brasil pode retomar protagonismo no combate ao desmatamento, dizem ambientalistas

    Play Episode Listen Later Nov 3, 2022 5:05


    Cientistas do clima e ambientalistas reiteram a importância dos resultados das eleições no Brasil, país que guarda 60% da floresta amazônica. Os temas ambientais ganharam destaque no discurso da vitória do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, que vai herdar instituições enfraquecidas e um orçamento debilitado para a tarefa gigantesca de combate às queimadas que impactam diretamente nos planos climáticos de todo o planeta. Maria Paula Carvalho, da RFI  “Ele se comprometeu a retomar o protagonismo do Brasil frente à crise climática, lutar pelo desmatamento zero na floresta amazônica, combater os crimes ambientais, criar um ministério para tratar dos direitos dos povos indígenas e retomar a cooperação internacional para proteger a Amazônia e ajudar o Brasil nessa tarefa que não vai ser fácil”, analisa Carlos Rittll, especialista em política internacional da Rain Forest Foundation, da Noruega.   “É uma mudança de 180 graus em relação ao que o governo Bolsonaro apresentou, entregou e implementou”, completa. “O presidente Bolsonaro declarou guerra contra as florestas, os povos indígenas e as leis ambientais. Ele permitiu que a Amazônia fosse dominada pelo crime organizado ambiental, que agiu com impunidade durante quatro anos, desmantelou políticas ambientais e os planos de desmatamento”, acrescenta Rittll. Para a consultora ambiental internacional, advogada e professora universitária baseada na Espanha Laura Magalhães, o Brasil precisa voltar à liderança da luta contra a crise climática. “Lula recebeu o convite da organização da COP27, a conferência para o clima que será realizada a partir de 6 de novembro, o que demonstra o interesse internacional de que ele esteja presente nessas discussões”, destaca. “Falando sobre dados do governo Lula, tivemos uma redução considerável em termos de desmatamento, de fome, das questões relacionadas à violência, que, infelizmente, no governo Bolsonaro, houve o inverso em termos estatísticos”, ela completa. Lula, que já confirmou presença na COP do Egito, vai assumir a presidência num momento em que a taxa de desmatamento na Amazônia está em alta. “Nos primeiros períodos de [o governo] Lula, houve uma redução acumulada de 70% do desmatamento, entre 2003 e 2010. Depois, continuou caindo no governo Dilma e, no governo Temer, começou a subir discretamente. Mas no governo de Bolsonaro, o desmatamento cresce 70%”, explica Tasso Azevedo, coordenador geral do MapBiomas. “O que temos hoje é um não-governo na área ambiental, que, além de não fazer nada, ainda opera contra”, sublinha Azevedo. “[Um próximo governo] Deve mudar a forma de tratar os indígenas, os maiores protetores das florestas, que estiveram abandonados durante quatro anos. Temos expectativa de um novo tempo”, ele declara. O papel do Brasil na Cúpula do Clima Lula deverá aproveitar a COP27 em Sharm El-Sheikh para reforçar ao mundo seu compromisso com a agenda ambiental. O petista foi chamado para integrar a comitiva do governador do Pará, Helder Barbalho, em nome do Consórcio de Governadores da Amazônia Legal. O convite para ir ao evento foi reforçado pelo presidente do Egito, Abdel Fatah al-Sissi. De acordo com o porta-voz da presidência egípcia, Al-Sissi espera que o Brasil desempenhe um papel "positivo e construtivo" na cúpula. Aliada de Lula, a ex-ministra do Meio Ambiente e deputada federal eleita Marina Silva (Rede-SP) já havia afirmado que a equipe de Lula pretendia levar para a COP27 uma proposta de revisar os objetivos nacionais de emissão de gases do efeito estufa, com a intenção de tornar mais ambiciosa a meta brasileira. Até o momento, não está prevista a ida do presidente Jair Bolsonaro para a COP27, o que demonstra uma transição acentuada nos planos ambientais do Brasil. “A expectativa está indo no sentido inverso, com compromisso com o desmatamento zero e a volta de uma agenda de clima, como se estivéssemos dando um cavalo de pau para ir para outro lado, o lado em que o Brasil já esteve”, analisa Tasso Azevedo. “O Brasil vinha construindo uma posição e uma estruturação de política ambiental desde a Constituição de 1988, passando por todos os governos”, observa. “Esses quatros anos serviram para mostrar que essa agenda da sustentabilidade, do clima e da Amazônia seja, talvez, o principal softpower do Brasil, junto com o combate à fome. É um tema que é transversal, que está em todo o lugar. Quando o Brasil cuida bem da Amazônia, é percebido com seriedade”, avalia. Fortalecer as instituições de monitoramento e controle do desmatamento deveria ser uma prioridade, na opinião de Laura Magalhães. “Quando falamos em instituições democráticas, eficazes e em transparência, o que tivemos no governo Bolsonaro foi um fechamento dessas relações internacionais, que culminou com uma desconfiança em termos gerais desse governo”, diz. “Já com o governo Lula, que historicamente sempre foi aberto ao diálogo, a expectativa é positiva", ela estima. "Um exemplo prático vem da Noruega, que no dia 31 de outubro declarou que voltará a contribuir para o Fundo da Amazônia, que estava paralisado desde 2019 dentro do governo Bolsonaro, por causa da extinção de colegiados de gestão”, explica a especialista em sustentabilidade. Órgãos de monitoramento denunciam que a extração de madeira e os incêndios florestais cresceram no Brasil nos últimos anos e alertam que a Amazônia começou a liberar mais carbono do que absorve. Ninguém esquece, tampouco, a atuação do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que ocupou o posto entre janeiro de 2019 e junho de 2021 e agora foi eleito deputado federal por São Paulo, e que ficou marcado por propor "passar a boiada" durante uma reunião ministerial. Em contraponto ao que vem sendo feito, o plano de governo da chapa formada por Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB) trouxe propostas para combater o "uso predatório dos recursos naturais" e o estímulo às "atividades econômicas com menor impacto ecológico". O documento também promete que o novo governo pretende frear "o crime ambiental promovido por milícias, grileiros, madeireiros e qualquer organização econômica" e "cumprir as metas assumidas na Conferência de 2015 em Paris". Belo Monte sofreu críticas Um olhar para o passado, no entanto, mostra que Lula também foi bastante criticado por ambientalistas em diversos momentos do seu mandato, por supostamente priorizar grandes obras de infraestrutura, em vez da preservação ambiental. Entre os projetos questionados estão as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia, onde ambientalistas alertavam, à época, para os impactos na fauna, na flora e nas comunidades indígenas. “Ao longo da campanha eleitoral, Lula esteve com indígenas que foram impactados por grandes obras de infraestrutura, e espera-se que essas contradições sejam enfrentadas de início, e não quando os projetos estiverem já na mesa, perto de receber recursos”, acredita Carlos Rittll. A Usina Hidrelétrica de Belo Monte, construção autorizada no governo Lula e concluída na gestão da presidente Dilma Rousseff, foi outro ponto que gerou discórdia. “Em Belo Monte, eu tive oportunidade de participar de processos de auditoria ambiental, e a questão é a manutenção e o nosso olhar crítico sobre esses órgãos de fiscalização e controle”, explica Laura Magalhães. “O professor [e economista] Sérgio Besserman Vianna é categórico em dizer que sem sustentabilidade não há economia”, enfatiza. “A degradação ambiental e o agravamento das questões climáticas interferem diretamente na vida das pessoas. Se não há saúde e acesso a serviços públicos básicos, como a garantia da segurança alimentar ou acesso a saneamento básico, a gente não consegue ter uma força de trabalho produtiva que gere riqueza para o país”, analisa a professora de direito ambiental. Nascida em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e doutora em direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Laura trouxe sua experiência prática para oferecer soluções inovadoras de gestão, aprendizagem e métodos organizacionais para a sustentabilidade a empresas espanholas que atuam no Parque Tecnológico da Galícia. Ela também critica a polarização política existente atualmente em nível mundial. “Em resumo, o que temos no mundo é uma polarização entre um bloco progressista e uma ala mais conservadora que pensa em desenvolvimento, em estado mínimo, em um desenvolvimento que paga um preço alto que são as questões sociais e ambientais importantes”, analisa. Para um terceiro mandato como presidente, Lula prometeu levar desenvolvimento sustentável às comunidades que vivem na região amazônica. E aposta nas boas experiências do passado. Foi durante a gestão do petista que nasceu a política nacional sobre a mudança do clima, e que o Brasil assumiu, pela primeira vez, metas de redução de emissões de gases do efeito estufa e do desmatamento. Lula, entretanto, não vai encontrar a mesma situação de quando chegou ao poder em 2003, e o Ministério do Meio Ambiente já era atuante e havia modificado leis, aumentando as regras de proteção de florestas dentro de propriedades privadas, o novo Código Florestal. “Agora ele vai encontrar um pós-terremoto na agenda ambiental do Brasil, instituições muito enfraquecidas ocupadas por pessoas que não têm compromisso com o combate ao crime ambiental e com a proteção de povos indígenas”, alerta Rittll. “A cooperação internacional pode ter um papel muito forte, em especial em 2023. Que vai ser um ano de arrumar a casa e livrar a agenda ambiental dos escombros deixados por uma gestão devastadora que foi o governo Bolsonaro”, conclui.

    Coletivo francês de atletas de parkour apaga letreiros em Paris e alerta para questões climáticas

    Play Episode Listen Later Oct 27, 2022 4:59


    A "cidade luz" planeja apagar as luzes mais cedo e diminuir as decorações de Natal para reduzir o consumo de energia elétrica. Impactados pela crise no setor, governos europeus discutem medidas para economizar eletricidade, mas, enquanto muitas dessas ações não entram em vigor, um grupo decidiu, por conta própria, desligar os letreiros que ficam acesos durante toda a madrugada. Criado há dois anos, o coletivo On The Spot assumiu a missão de apagar os paineis de Paris usando técnicas do esporte conhecido como parkour, uma modalidade que mistura movimentos acrobáticos e de equilíbrio para escalar obstáculos urbanos ou naturais. Dali tem 21 anos, começou a praticar o parkour há cinco e está no coletivo há um ano. Ele conta que, quando o On the Spot surgiu, outros praticantes já tinham o hábito de se encontrar pelas ruas de Île de France, região onde está situada a capital. Juntos, treinavam e praticavam o esporte, além de apagar as luzes consideradas desnecessárias. Hoje o grupo, que reúne cerca de 10 pessoas, ficou conhecido pelo alerta, sempre feito de forma, digamos, acrobática. A intenção é desligar os letreiros sem danificar as lojas e sem interferir na iluminação pública. “Eu não sei exatamente o momento ou quem teve a ideia originalmente, mas a prática se tornou meio que evidente para pessoas que amam escalar prédios e outras estruturas, e adoram chegar a novos lugares. E como esses letreiros não têm nenhuma razão para estarem ligados e que ninguém mais vai poder desligá-los, nós desligamos”, disse.     Esporte e consciência Dali explica que o esporte é o principal ponto de convergência do grupo. Quando perguntado se o objetivo do coletivo é praticar o parkour ou alertar para as mudanças climáticas, ele afirma que a prática esportiva sempre fez parte do propósito principal, mas que diante do cenário atual e da preocupação da geração mais jovem com as questões ambientais, o grupo acabou cedendo espaço para ações mais direcionadas. “O esporte é o DNA do coletivo. No início era esse o objetivo e o esporte será sempre um componente primordial. Mas eu diria também que é a forma como podemos praticar uma intenção mais pessoal. Cada um tem a sua motivação, mas a questão climática para as pessoas que têm mais ou menos a nossa idade é evidente. É um problema com o qual nós crescemos. Não podemos nos permitir de fechar os olhos e nem necessariamente nos sentir em uma missão", conta. "Nós sabemos que ações desse tipo não irão necessariamente mudar o mundo, especialmente porque apagar os letreiros de uma ou 60 lojas em uma noite, entre as milhares que existem na França, não vai reduzir de forma tão significativa o consumo de energia. Mas nós utilizamos essas ações para passar uma mensagem de forma não oficial", explica. "É uma forma de treinar, de praticar o esporte, de progredir, mas destacando também que a nossa capacidade permite ter um impacto no que está a nossa volta e direcionar este impacto para algo que nos interesse. Nós crescemos nesse mundo, é onde vamos viver toda nossa vida, e que a gente não quer vê-lo destruído e com seus recursos esgotados”, alerta.  As ações do coletivo On the Spot fazem parte do movimento Lights Off, que se espalha por diversas cidades da França e que viralizou após postagens nas redes sociais. Entretanto, os integrantes têm a consciência de que as ações têm mais impacto como alerta do que propriamente na redução do consumo. A mudança efetiva precisa partir das autoridades e das empresas, que, ao que tudo indicam, agora estão de acordo com as medidas de economia. Vale lembrar que as lojas são obrigadas a desligar os seus letreiros entre uma e seis horas da manhã, mas a lei é muito pouco respeitada. Luzes apagadas na Champs Élysées Na Champs Élysées, uma das avenidas mais famosas do mundo, as mudanças já serão sentidas a partir de dezembro, quando todas as luzes serão apagadas às 23h45. As populares decorações de Natal, que atraem milhares de turistas e visitantes à avenida, também serão desmontadas uma semana mais cedo. Marc-Antoine Jamet, que preside o Comitê Champs Élysées, reunindo 180 empresas, explica que a ideia é servir de exemplo. “Às 22h o comércio apaga as luzes, às 23h45 as iluminações da Champs Élysées se apagam e 15 minutos após o fechamento das lojas, todos que trabalham nestes estabelecimentos também deverão parar. A Champs Élysées é um espelho. É um espelho da sociedade e da nação francesa. Este espelho reflete uma verdadeira imagem da França, uma imagem da França que faz esforços coletivos. E a Champs Élysées também faz esforços coletivos”, afirmou.

    "Não há florestas sem cogumelos", diz micologista francês em livro

    Play Episode Listen Later Oct 20, 2022 7:02


    O outono no hemisfério norte é a estação dos cogumelos, fungos importantes para a biodiversidade ao longo de todo o ano e aliados essenciais de árvores e plantas. Hubert Voiry é micologista do Museu Nacional de História Natural e acaba de lançar o livro “Pas de forêt sans champignon” (Edições Actes Sud), em tradução livre “Não há florestas sem cogumelo”. O especialista chama atenção para o fato de que os cogumelos estão por toda a parte. Nem todos são comestíveis e muitos são venenosos, mas eles são muito úteis para as árvores. “É o funcionamento natural da floresta desde tempos imemoriais. As árvores, é claro, têm raízes grandes, mas também são equipadas com raízes pequenas, modificadas e estendidas pela presença de fungos que podem ir muito mais longe do que uma pequena raiz”, afirma. O especialista explica que, sem essa simbiose, as árvores e os cogumelos não poderiam viver. “É por meio dessas pequenas raízes das árvores, modificadas pela presença de fungos associados, que ocorrem as trocas entre as árvores e os fungos. A árvore fornece açúcares e o fungo fornece água e sais minerais”, diz. Para não interferir nesse equilíbrio, ele destaca a importância de não arrancar um cogumelo. Na hora da colheita, o ideal é cortá-lo na base do pé. A relação entre árvores e fungos, contudo, vai ainda mais longe. Voiry explica que os cogumelos também são agentes de limpeza. “De limpeza e de reciclagem, pois uma vez que a madeira, as folhas e pequenos galhos se decompõem, tudo isso é disponibilizado ao ecossistema. Há toda uma gama de insetos especializados que se alimentam de madeira decomposta. Eles têm uma ação mecânica e uma ação digestiva, e continuam, de certa forma, a decomposição da madeira”, acrescenta. Essenciais para o ciclo da vida, os cogumelos são cada vez mais ameaçados pela seca e o esgotamento do solo vinculado ao uso massivo de produtos fitossanitários. Este ano, devido ao verão muito seco, a estação dos cogumelos será mais curta, tendo começado em setembro. Os biologistas alertam que existem fungos parasitas, patogênicos e tóxicos, que podem causar intoxicação alimentar. Em média, existem seis espécies de champignons para cada espécie vegetal em ambientes naturais. Cuidado com as intoxicações Desde 1° de setembro, mais de 60 casos de intoxicação foram identificados na França. No ano passado, entre 1º de julho e 31 de dezembro, 1.269 intoxicações foram relatadas aos centros de controle de saúde e quatro casos resultaram em morte. Por isso, é preciso observar e conhecer as espécies. O cogumelo comestível (champignon) é livre de colesterol e contêm pequenas quantidades de aminoácidos essenciais e vitaminas do complexo B. No entanto, seu principal valor é como um alimento especial, de sabor delicado, sutil e textura agradável. Com a sua forma redonda, sua cor branca e polpa macia, os famosos cogumelos de Paris estão entre os favoritos na cozinha. Alguns, entretanto, são altamente tóxicos e semelhantes a espécies comestíveis. Na França, farmacêuticos ou a Associação de Micologia ajudam a identificar cogumelos por meio de aplicativos de reconhecimento em celulares, mas há chances de erro. De acordo com os especialistas, o chapéu do cogumelo, a parte superior do fungo, é na verdade o fruto do cogumelo. Mas ele não é uma planta, um vegetal, como se acreditava até meados do século XX. O fungo cresce sem luz, não faz fotossíntese. Pertence, portanto, ao reino dos cogumelos, ao mundo dos fungos. Seu desenvolvimento subterrâneo, na forma de filamentos, o micélio, pode atingir recordes de tamanho. Nos Estados Unidos, apenas uma espécie conhecida com o nome científico de Armillaria foi medida em 10 quilômetros quadrados. Peso total: mais de 400 toneladas. Nada mal para um organismo microscópico.

    Bruno Latour, as ‘mutações' do clima e a armadilha do ser humano para si mesmo

    Play Episode Listen Later Oct 13, 2022 20:39


    Um dos principais pensadores da ecologia, Bruno Latour, morreu no último domingo (9). O sociólogo, antropólogo e filósofo era um dos pesquisadores franceses mais influentes do mundo. Ele deixa uma vasta obra que será lembrada como pioneira na compreensão das transformações pelas quais passa o planeta – ele teorizou o que chamou de novo regime climático que a humanidade atravessa, uma vez que o homem “mudou o mundo”. Um dos seus discípulos, o professor de sociologia Dominique Cardon, diretor científico do laboratório criado por Latour na respeitada Sciences Po de Paris, explicou que antes de ser um pensador sobre a ecologia, Bruno Latour refletiu sobre as relações entre as nossas sociedades e as ciências e a tecnologia. O seu projeto intelectual foi compreender que não há separação entre a política e a natureza ou entre a ciência e a sociedade: estamos constantemente nas articulações entre o que chamávamos de política e o que chamávamos de natureza. "Isso o levou a uma reflexão profunda sobre os desafios da ecologia, afinal as nossas sociedades só existem porque estão articuladas ao solo, ao ar, à terra– e hoje sabemos disso da forma mais cruel. Nós transformamos o nosso meio ambiente, e Latour veio nos lembrar disso com força”, disse Cardon em entrevista à RFI. Incansável na busca pela “verdade" na ciência, na política ou na natureza, Latour era um filósofo transdisciplinar. O francês foi homenageado com alguns dos prêmios mais prestigiosos da ciência, como Holberg, considerado o Nobel das "ciências humanas”, em 2013. "O que é novo é que nos tornamos responsáveis por uma tal transformação industrial que o efeito do que você fez recai em cima de você. A Terra em si, no sentido geológico, reage às suas ações e isso muda tudo. Esse é o fenômeno, e não é um fenômeno ecológico, mas sim uma transformação existencial”, afirmou Latour em uma das entrevistas que concedeu à emissora France Culture, em 2020. "Isso nos situa diferentemente. Antes, estávamos no universo, ou na natureza, onde estávamos num espaço infinito. E agora, estamos neste espaço. Então, a amplitude das suas atividades e as precauções que você toma para mantê-lo, mudam. Se você não compreende que isso muda alguma coisa, é porque você está, politicamente, nos declarando guerra – a nós, os terrestres". Covid-19 e as 'mutações' do clima O filósofo também ficará conhecido pela irreverência e as conferências surpreendentes. Não era raro que ele convidasse o mundo das artes para tornar a sua mensagem mais acessível ao grande público e provocar reações. Em outra entrevista recente, em janeiro deste ano, ao programa La Terre au Carré, da France Inter, ele falou sobre a pandemia de Covid-19, associada ao que preferia chamar de “mutações" do clima. "Se você acrescenta micróbios na sociedade, você tem uma outra sociedade. Você acrescenta um vírus, como o que temos agora, ou você acrescenta o CO2, você tem uma outra sociedade. A grande ilusão é acreditar que vamos manter a mesma sociedade se não temos as mesmas associações”, analisou. "É interessante ver que o Estado é perfeitamente capaz de nos impor regulamentações bem restritivas na questão sanitária, mas sobre outras questões, que são bem mais importantes a longo prazo, como a climática, o Estado não tem essa capacidade de nos proibir de fazer isso ou aquilo, como utilizar combustíveis ou energia nuclear. Faço essa comparação com a Covid-19 para mostrar a enorme diferença política que há entre os dois.” Legado humanista Latour era reconhecido no meio intelectual francês, mas era sobretudo celebrado no exterior, em especial nos Estados Unidos, onde foi conferencista em Harvard. No Brasil também, ele teve diversos livros publicados, como os paradigmáticos Jamais fomos modernos, Onde Aterrar? e  Diante de Gaia: Oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. Este último inspirado nas conclusões de outro brilhante cientista das transformações da Terra, o fisiologista e químico britânico James Lovelock, que em A Terra é um Ser Vivo – A hipótese Gaia afirmou que os seres vivos fabricam as suas próprias condições de existência. "Bruno Latour foi um grande sociólogo e antropólogo da ciência, mas para além disso, eu costumo dizer que ele faz parte de uma tradição de humanistas, de pensadores que, sem comprometer a especificidade da ciência, tentam expandir o campo da ciência o máximo possível”, comenta o filósofo e escritor Rodrigo Petronio, professor da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), em São Paulo. “O mais importante em Latour é a chamada teoria do ator rede: nenhum problema social, político, econômico, ecológico, natural pode ser separado dos seus problemas congêneres. Quando nós separamos os elementos, os fenômenos, e tentamos compreendê-los isoladamente, nós geramos respostas parciais”, completa. É por isso, para além da sua morte, a obra do intelectual francês vai ser cada vez mais evocada nas reflexões sobre os desafios no século 21, na visão de Petronio. "Para ele, vivemos uma mutação antropológica, que diz respeito ao ser humano, o sapiens. Estamos entrando no Antropoceno, uma nova época da Terra. Estamos saindo do Holoceno, que tem 12 mil anos, e é o momento em que todas as formas de vida da Terra se estabeleceram e nós vivemos uma espécie de grande paz da vida na Terra, sem cataclismos, extinção de dinossauros ou movimento de placas tectônicas. Essa saída decorre do impacto negativo que o humano está exercendo sobre a Terra”, explica o professor da FAAP. "Latour dizia que os seres humanos foram sendo superanimados, ou seja, foram se colocando cada vez mais no centro, e a natureza foi sendo desanimada – pela extração dos recursos. E agora, como se houvesse uma gangorra, a natureza está se superanimando e os seres humanos estão acuados, como se estivéssemos diante da iminência de um ataque, de um monstro. Só que é um monstro que nós mesmos ajudamos a criar”, salienta Petronio. Bruno Latour faleceu aos 75 anos, após uma longa batalha contra um câncer. 

    Indígenas aumentam participação no Congresso, em meio a avalanche conservadora

    Play Episode Listen Later Oct 6, 2022 14:57


    As eleições para o Congresso marcaram um passo histórico para os povos indígenas, que passaram a ter três deputadas federais eleitas, além de dois descendentes de indígenas. As vitórias também refletem a polarização política que impera no país: uma das eleitas é aliada do presidente Jair Bolsonaro e defende pautas “antiambientais” como a ampliação da mineração. Duas das novas deputadas – Sônia Guajajara e Célia Xacriabá, do Psol de São Paulo e Minas Gerais – encabeçaram a campanha pela criação de uma “bancada do cocar”, para aumentar a representatividade dos povos originários e contrabalançar a poderosa bancada do boi, ligada ao agronegócio. Por outro lado, perderão o apoio de Joênia Wapichana, eleita em 2018 mas que não conseguiu se reeleger. Até hoje, apenas dois indígenas haviam conseguido uma vaga na Câmara dos Deputados: antes de Joênia, o pioneiro foi Mario Juruna, em 1983. A eleição de 2022 teve o maior número já registrado de candidaturas indígenas, num total de 60. “Isso é um feito em termos de política indígena no Brasil. Tratam-se de duas lideranças importantes, de dois grandes Estados da federação. Acho que demonstra uma tendência, que na verdade é mundial, do protagonismo das mulheres indígenas na política e isso acontece não só no Brasil, como em diversos outros países do mundo”, celebra o professor da Universidade Federal de Viçosa Leonardo Barros Soares, especialista no assunto. “A população indígena é bastante pequena no Brasil, em termos proporcionais, e o fato de ter duas representantes lá, tão aguerridas e articuladas politicamente, mostra uma grande evolução do ponto de vista da articulação política dos povos indígenas e uma maior receptividade da população brasileira com relação à candidatura dessas lideranças.” Indígenas bolsonaristas A terceira deputada eleita é Silvia Waiãpi, do PL no Amapá e defensora do atual governo. Correligionária do presidente, ela representa uma corrente minoritária entre os indígenas: os que apoiam o desmonte ambiental promovido por Bolsonaro. “O fenômeno dos indígenas bolsonaristas ainda é pouco estudado e pouco compreendido. Todos os grupos humanos são diversos politicamente e não é diferente com os povos indígenas. Quando olhamos para eles como um grupo homogêneo, é um traço racista que vem da nossa formação colonial”, ressalta o pesquisador. “Acho que temos que prestar atenção no grupo de agricultores indígenas, no Mato Grosso, um grupo muito próximo do presidente, nos indígenas que contam com uma forte presença de missões evangélicas nos seus territórios, e também os que têm relações com as Forças Armadas, que é o caso da própria Silvia Waiãpi”, explica. Em um de seus vídeos de campanha, ela apontava as leis ambientais “severas demais” como entrave para o desenvolvimento do seu Estado. Pauta ambiental sob pressão A nova configuração do Congresso, amplamente conservador, tende a favorecer a agenda de liberalização ambiental adotada pelo atual governo – independentemente de quem será o presidente eleito em 30 de outubro. No Senado, que costuma impor freios aos projetos mais agressivos que vêm da Câmara, o partido do presidente abocanhou 9 das 27 cadeiras disputadas. Assim, a direita terá 66 do total de 81 assentos na Casa. O petista Luiz Inácio Lula da Silva se comprometeu a promover um “revogaço” de medidas de Bolsonaro, inclusive na pasta de Meio Ambiente. Mas, neste contexto, a promessa se anuncia difícil de cumprir, na visão de Leonardo Soares. “No meu ponto de vista, o desmatamento e outras atividades ilícitas foram, de certa forma, chanceladas pelas urnas. Isso tem que ser uma matéria de reflexão nossa, como sociedade, e do campo da esquerda como um todo”, sublinha o docente, integrante do Observatório das Eleições, ligado à UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). “Temos o caso do ex-ministro Ricardo Salles que teve uma votação expressiva em São Paulo. A Marina Silva também teve, mas de um modo geral, a balança pendeu mais para uma pauta que, no limite, é antiambiental”, antecipa.  

    Alta da destruição da Amazônia reflete “liquidação” ante o possível fim de governo Bolsonaro

    Play Episode Listen Later Sep 29, 2022 21:53


    A destruição da Amazônia se acelera neste segundo semestre, com um mês de setembro que já tem as piores queimadas da floresta em 12 anos, conforme novos dados revelados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Também a área ocupada ilegalmente pelo garimpo nunca foi tão grande, quase dobrando entre 2010 e 2021, apontou o Mapbiomas na semana passada. Lúcia Müzell, da RFI Esses e outros números refletem o que pode ser o apagar das luzes do governo que “passou a boiada” da regulamentação e fiscalização ambientais. Para ficar na analogia feita pelo ex-ministro do Meio Ambiente em plena pandemia, agora, a porteira pode estar prestes a se fechar – e os atores que protagonizam a ilegalidade nos biomas brasileiros aceleram para conquistar novas terras. “A gente não via fogo em grandes quantidades na região de Lábrea, por exemplo, ou no sul do Amazonas. Não era um tema naquela região, e a gente está vendo um fogo que as pessoas nunca viram antes. Tem uma nova frente de desmatamento muito grande por ali, especialmente no entorno da estrada que liga Porto Velho a Manaus, a BR-319”, explica Tasso Azevedo, coordenador-geral do Mapbiomas, plataforma de referência no monitoramento de queimadas em tempo real. “Nesse ano, particularmente, como o desmatamento está crescente, tem bastante material combustível. Nesses lugares, a gente está vendo muito fogo.” Recorde atrás de recorde Os recordes de queimadas se sucedem a registros igualmente alarmantes de desmatamento em agosto – um processo é a sequência do outro, no ciclo da ocupação ilegal de terras da Amazônia. O sistema Deter do Inpe mostrou que, em um ano, a devastação aumentou 81%. No acumulado de janeiro a meados de setembro, os incêndios já superam o total registrado em 2021. O ambientalista João Paulo Capobianco, presidente do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), lembra que, historicamente, o desmatamento tende a crescer em época eleitoral, em consequência ao relaxamento da atenção aos crimes ambientais no período. “Os únicos anos em que isso não aconteceu foram nos anos de atuação reforçada do PPCDAM (Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia), em 2005, 2009 e 2013. Em geral, existe uma correlação, mas o que nós estamos vendo neste ano é uma explosão”, ressalta. “Há uma perspectiva de que não haverá punição, portanto ocorre uma espécie de liquidação, ou seja, os agentes grileiros, principalmente, correndo para tentar obter a maior área possível de grilagem.” ‘Revogaço' à vista Existe a expectativa de que a direção poderá mudar 180° em um eventual governo com Lula, que assumiu um conjunto de propostas de Marina Silva para a pauta ambiental. O candidato já antecipou a intenção de promover um “revogaço” de medidas do governo Bolsonaro, que deve incluir instruções normativas, decretos e portarias ambientais. “Isso está levando a uma verdadeira correria por lá, uma espécie de Black Friday do desmatamento. É uma coisa inacreditável, mas infelizmente, nós estamos verificando isso mesmo”, salienta Capobianco. Anulação do cancelamento de multas ambientais, reforço do Ibama e o ICMBio, aceleração das verificações dos Cadastros Ambientais Rurais, embargo comercial das áreas suspeitas de desmatamento ilegal, desobstrução de áreas indígenas invadidas por garimpo e de exploração ilegal. O rol de medidas que podem estar na mira do revogaço é amplo. “É um pouco o fim de festa. Se o presidente Bolsonaro for reeleito, temos a tranquilidade de que qualquer coisa que a gente faça agora não será penalizada. Mas se há uma alternância de poder, então é a nossa última chance de criar o fato consumado e depois contar com algum tipo de anistia que vai acontecer mais à frente", observa Azevedo. Entretanto, em caso de mudança de presidente, o clima não vai mais ser tão favorável para a redução do desmatamento quanto foi nos primeiros anos do governo Lula, salienta Capobianco. “Na época, houve um certo efeito surpresa, com uma ação muito incisiva e rápida do governo, integrada, com vários ministérios. Hoje, espera-se que haverá muita reação, por parte de lideranças que tiveram muitas vantagens nesses últimos três anos e vão querer mantê-las”, frisa o presidente do IDS, que coordenou a criação do PPCDAM em 2003. “Há também a questão da liberação do acesso a armas, que permitiu que as armas se espalhassem de forma descontrolada no Brasil inteiro e na Amazônia em particular. E a criminalidade, de forma geral, aumentou muito na Amazônia”, lamenta. Para saber mais, ouça o podcast

    Parlamento Europeu aprova lei contra o “desmatamento importado” que atinge o Brasil

    Play Episode Listen Later Sep 13, 2022 30:57


    A pressão internacional contra a devastação das florestas aumentou nesta terça-feira (13), depois de o Parlamento Europeu adotar uma versão ainda mais rigorosa de um projeto de lei para combater o chamado “desmatamento importado”. A proposta prevê a proibição da compra de 14 produtos se eles forem originários de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2019. Lúcia Müzell, da RFI O projeto de lei foi aprovado em julho pela Comissão Europeia. Apesar do contexto de crise mundial de abastecimento de alimentos, devido à crise na Ucrânia, 453 eurodeputados acataram o texto, 57 se opuseram e 123 se abstiveram da votação em Estrasbugo. “O Parlamento Europeu pede às empresas garantirem que os produtos vendidos na União Europeia não são originados em terras desmatadas ou degradadas”, diz o documento. Agora, o projeto ainda deve ser analisado pelos líderes dos 27 países que compõem o bloco, no Conselho Europeu. A expectativa é de que o texto seja definitivamente adotado em 2023. “É uma legislação muito bem-vinda e esperada por toda a comunidade de cientistas e socioambientalistas. De forma transversal, vejo que o grande impacto vai ser minar a pressão de especulação de terras no Brasil. Essa é a grande contribuição da legislação europeia e o grande impulso para o Brasil reordenar o uso da terra e a sua produção agropecuária”, avalia o cientista de uso da terra Tiago Reis, coordenador na América do Sul da Trase, iniciativa internacional especializada em rastrear a origem e o destino das matérias-primas no comércio mundial. “De 90 a 99% do desmatamento global de 2015 a 2019 foi para a agropecuária. Mas de 35 a 55% desse desmatamento foi improdutivo, ou seja, ele foi motivado pela perspectiva de lucro com a venda da terra, de olhos nos preços futuros das commodities agropecuárias. Quando a UE define que não vai importar produtos de áreas desmatadas, ela está dizendo que essa terra não vai mais valer tanto assim, já que vai encontrar restrições de mercado”, explica. Produtos atingidos O projeto original mirava seis produtos agrícolas: soja, carne bovina, óleo de palma, madeira, cacau e café. Nesta terça, os parlamentares acrescentaram à lista carne de porco, ovina ou caprina, aves, milho e borracha, além de carvão vegetal e papel impresso. Também anteciparam em um ano a data a partir da qual o desmatamento será considerado – inicialmente prevista para dezembro de 2020. As importações feitas pela UE representam cerca de 10% da devastação de florestas em todo o mundo – o que coloca o bloco em segundo lugar na lista dos maiores desmatadores do mundo, atrás apenas da China. Além disso, os eurodeputados também acrescentaram o respeito às populações originárias e aos direitos humanos entre as exigências para as importações. O projeto se inspira em uma lei inédita adotada pela França em 2017, relativa ao “dever de vigilância” das empresas sobre toda a cadeia produtiva dos produtos que oferecem. O eurodeputado ecologista francês Claude Gruffat esteve recentemente em uma missão do Parlamento Europeu no Brasil e comemora o avanço. “Quando estamos na Europa, nós ouvimos falar disso, mas quando vamos lá, o que vemos na prática nos leva a uma outra dimensão. Na última década, o desmatamento aumentou 75% em relação à década anterior, ou seja, estamos diante de um fenômeno de forte aceleração, que vai muito rápido. Isso tem um impacto sobre os povos amazônicos, que moram lá, sobre a Amazônia em si e sobre a economia ilegal do Brasil. Há uma criminalidade assustadora, não punida pelo governo Bolsonaro”, constata o parlamentar, em entrevista à RFI. “A partir do momento em que nós, europeus, compramos produtos que vêm de superfícies desmatadas, nós estamos participando disso concretamente. Teremos agora uma ferramenta a mais que começa a ser elaborada e a Comissão precisará adotá-la, implementá-la. Mas já temos um texto que nos permite dar um passo à frente”, celebra.   Na prática, as empresas importadoras serão responsáveis ​​pela sua cadeia de abastecimento e terão de ampliar os mecanismos de rastreabilidade – via ferramentas como geolocalização das produções e fotos de satélite. Os dados deverão ser integrados a uma base de dados acessível às autoridades. O grau de verificação exigido será baseado no risco “alto, padrão ou baixo” da região de origem, conforme critérios estabelecidos pela UE e que serão adotados seis meses após a entrada em vigor da regulamentação. Os produtos de países considerados de “baixo risco” estarão sujeitos a menos “obrigações”. Outro avanço no projeto é incluir as instituições financeiras entre as que deverão aumentar os mecanismos de controle, de modo a garantir que “as suas atividades não contribuem para o desmatamento”. 'Quem está morrendo para isso chegar na tua casa?' De passagem por Paris para uma conferência, a líder indígena Shirley Krenak, de Minas Gerais, soube pela RFI da aprovação do projeto de lei. “Acredito que a semente foi plantada. Muitas pessoas usam e comem produtos que vêm do nosso país, dos nossos biomas, e chegam a até elas de forma totalmente ilegal. Quem está morrendo para isso chegar na tua casa?”, questionou. “Entendo que a essa ação da Europa é muito positiva e a gente tem que levá-la para outros países, outros continentes também. É uma forma de frear essa destruição", afirma. Tiago Reis, da Trase, lamenta apenas que outros ecossistemas ameaçados, como as savanas, tenham ficado de fora do texto. “O Cerrado não é todo coberto pela definição de florestas da FAO. 74% dele está desprotegido, de acordo com essa definição”, observa o especialista. “E a União Europeia acaba comprando muito mais produtos que vêm de outras formações de vegetação nativa que são desmatadas. Quase metade do que é produzido no Cerrado, principalmente soja, é exportado para a União Europeia – e isso não está entrando na conta desta nova lei”, aponta.   Na quinta-feira (8), dados atualizados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostraram que, na primeira semana de setembro, a Amazônia brasileira, que responde por quase dois terços da maior floresta tropical do mundo, já registrou mais incêndios do que em todo o mesmo mês de 2021. De 1º a 7 de setembro, 18.374 focos de incêndios foram identificados via satélite, 9,74% a mais do que em todo o mesmo mês de 2021. 

    Por que a rastreabilidade da pecuária brasileira ainda deixa tanto a desejar?

    Play Episode Listen Later Sep 8, 2022 32:07


    Nada menos do que 75% do desmatamento da Amazônia ocorre para abrir espaço para pasto para a pecuária – mas, mesmo assim, o Brasil ainda patina para melhorar a rastreabilidade dos rebanhos, uma ferramenta crucial para combater a ilegalidade e manter a floresta em pé. Na ausência de um monitoramento federal e estadual eficientes, os frigoríficos brasileiros e os varejistas se mobilizam para encontrar soluções e enfrentarem o aumento da pressão internacional contra o chamado “desmatamento importado”. Os resultados, porém, ainda estão distantes do ideal.  Os recordes de devastação e queimadas na Amazônia acentuaram a sensibilização dos consumidores europeus quanto à origem dos produtos que levam à mesa. Em junho, a União Europeia deu um primeiro passo para proibir a importação de carne bovina, soja e outros produtos originados em áreas desmatadas. Já faz mais de 20 anos que o bloco aplica a rastreabilidade da cadeia animal, com a obrigação de conter, na etiqueta das bandejas, informações quanto ao local de nascimento, de engorda e de abate dos bovinos, acessíveis por meio de um código QR. Alta tecnologia para monitorar dimensões gigantescas Desde 2009, o Brasil possui um sistema oficial semelhante, graças a um acordo entre os principais atores do setor e o Ministério Público Federal. Entretanto, o desafio é bem mais complexo – a começar pelo peso da agropecuária para a economia do país (26,6% do PIB, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, dos quais cerca de um terço vem da pecuária) e o tamanho das áreas a serem controladas. São 50 milhões de hectares em jogo, que necessitam investimentos altos em tecnologia de monitoramento de rebanhos. O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina – são 200 milhões de animais. Pressionados pelos clientes estrangeiros, os maiores frigoríficos e seus clientes, os supermercados, colocam em prática planos voluntários cada vez mais ambiciosos para controlar toda a cadeia. Diversas iniciativas aliando geomonitoramento e referenciamento e, cada vez mais, block chain, estão em curso para identificar não só o avanço do gado em áreas desmatadas, como invasões de terras indígenas, unidades de conservação ambiental e violações dos direitos humanos, além de aumentar a transparência. As ferramentas, portanto, existem – mas, em geral, se limitam à etapa final do processo produtivo. É por isso que os grandes grupos continuam a ser alvo de denúncias no Brasil e no exterior – o grupo Casino, dono do Pão de Açúcar, está sendo processado na França por não cumprir o seu “dever de vigilância” sobre toda a cadeia de produtos que põe à venda. Porta aberta para irregularidades O maior problema é que, no Brasil, o número de etapas intermediárias entre a fazenda e as prateleiras pode ser extenso, o que abre a porta para irregularidades. Raramente um bezerro nasce, cresce e é abatido num mesmo lugar. Monitorar os fornecedores indiretos é o principal gargalo da rastreabilidade.  “O grande gap está no primeiro segmento, o produtivo – desde o nascimento do animal até o engorde completo. Ele pode mudar muitas vezes de fazenda na sua fase de criação, engorda e crescimento. Ali, temos uma diversidade enorme de elos, que trazem a complexidade da cadeia”, explica Lisandro Inakake, engenheiro agrônomo e coordenador de cadeias agropecuárias responsáveis do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola). “Muitas vezes, produtores de menor porte sequer sabem que existe esse tipo de exigência na cadeia, e comercializam com negociadores que gado que acabam fazendo a ‘lavagem de gado'”, observa.   O Código Florestal instaurou um mecanismo importante para garantir mais transparência para a cadeia, o Cadastro Ambiental Rural (CAR). Entretanto, cabe aos próprios proprietários declararem, ou não, as informações sobre as suas fazendas. Para ser efetivo, o CAR deveria ser checado e validado por órgãos ambientais em cada estado, de modo a conferir um selo de sustentabilidade à produção brasileira. Depois de uma década, embora praticamente todos imóveis rurais tenham sido registrados, apenas 0,4% dos 6,5 milhões de cadastros foram regularizados, aponta o último relatório do Serviço Florestal Brasileiro. Conforme dados do Ipam, 65% do desmatamento em florestas públicas da Amazônia ocorreu em áreas cujo CAR era fraudado.  Exigências para o mercado externo – não para o consumidor brasileiro Tudo isso coloca a credibilidade da rastreabilidade brasileira em xeque. “Ainda estamos distantes de ter uma identificação individual do animal. Uma parte menor da produção é rastreada, mas é principalmente a destinada a mercados exigentes, em especial o europeu”, lamenta Inakake. A carne destinada à exportação corresponde a uma minoria de 26% da produção. “Quando a gente olha para o mercado interno, podemos dizer que temos quase nada de informação sobre a origem do gado. Você encontra em produtos de nicho, como as informações sobre a raça bovina.” A sociedade civil brasileira tem tido um papel importante não só de alerta, como de formuladora de soluções. Recentemente, o Imaflora conseguiu, pela primeira vez, associar os principais frigoríficos e as redes de varejo em um protocolo de rastreabilidade, com participação da Abras (Associação Brasileira de Supermercados). O programa está conseguindo, por enquanto no papel, unificar os sistemas de monitoramento do gado. Entretanto, este trabalho ainda se restringe a um número limitado de participantes. “Nós estimamos que existam, na Amazônia, em torno de 250 unidades de negócio de bovinos, incluindo abate e frigoríficos. Um pouco mais de 100 deles possui compromissos de eliminar o desmatamento da cadeia – e eles representam mais ou menos 70% da estimativa de produção de carne na Amazônia”, salienta Inakake. “É relevante. Mas as outras cerca de 150 unidades de produção não têm compromisso nenhum.” Para saber mais, ouça o podcast com a entrevista completa

    Seca, incêndios, tempestades: depois de ‘ver para crer', consciência ambiental cresce na França

    Play Episode Listen Later Sep 1, 2022 14:20


    Picos de calor mais intensos e próximos, incêndios florestais descontrolados, tempestades devastadoras, prejuízos agrícolas, racionamento de água. A França chega ao fim de um verão histórico, em que vários recordes meteorológicos foram batidos e as consequências das mudanças do clima se tornaram mais visíveis. A sequência de fenômenos extremos levou a conscientização ambiental a aumentar no país – mas isso não significa que todos estejam mais dispostos a mudar de hábitos para proteger o planeta. Lúcia Müzell, da RFI As paisagens amarronzadas pela seca tomaram conta de boa parte do país: em dois meses, a França teve 33 dias de calor além dos padrões. Foi o segundo verão mais quente já registrado. Regiões como a Bretanha, acostumada a uma estação amena e chuvosa, registraram as temperaturas mais altas da história. Trinta mil hectares de florestas viraram fumaça, inclusive em partes do país onde os incêndios florestais não ocorriam. O verão ainda não terminou, mas diferentes pesquisas já mostram um efeito “ver para crer” no país – a consciência ambiental dos franceses cresceu nesses últimos dois meses. Uma delas, do instituto BVA, indica que 21% da população disse ter entendido que as mudanças climáticas já atingem o país – que se somam a outros 66% que já haviam entendido isso antes. Em outra sondagem, da Odoxa, 71% das pessoas declararam que, depois deste verão, temem ser pessoalmente atingidas pelas alterações do clima. O economista ambiental Matthieu Glachant avalia que haverá um antes e um depois do verão de 2022. "Eu acho que foi importante o que aconteceu porque, do nada, a mudança climática se transformou em uma experiência pessoal. Há muito tempo, conhecemos os relatórios do IPCC que nos alertavam sobre tudo isso – até que chegamos no momento em que as previsões se realizaram diante dos nossos olhos”, observa. "Acho que isso provocará um verdadeiro impacto nos cidadãos e, por consequência, nos políticos." “Não conseguia pensar em outra coisa" E foi em plenas férias que os franceses se depararam com essa nova realidade que, segundo os climatologistas, tende a se instalar nos próximos anos. O aumento do calor já transforma o Mediterrâneo em um mar tropical. “É muito preocupante. Já faz tempo que eu tenho uma consciência sobre o clima. Mas esse verão, com essas grandes secas e incêndios, foi horrível. Foi muito pesado para mim”, conta o desenvolvedor Antoine B., 38 anos, que dividiu as férias entre um período no norte e outro no sul do país. "Falo sinceramente: eu só pensava nisso. Com aquele calor o tempo todo, a gente percebe que precisa realmente mudar as coisas.” A preocupação com o planeta leva Antoine a recusar, cada vez mais, confortos como pegar avião ou ligar o ar condicionado, para não “piorar ainda mais as coisas". "Na empresa, eu não consigo cortar o ar condicionado, mas no carro eu só ando de vidros abertos, por mais quente que esteja la fora”, aponta. “Acho que me tornei exagerado, aquela pessoa chata que vai dizer para o outro não andar de avião porque polui. Mas eu acho que chegamos num ponto em que é preciso ser exagerado, porque a mudança do clima está exagerada.” Reações como a dele, entretanto, ainda não são a regra. Entre estar mais consciente e começar a agir, ainda existe um fosso: apenas 41% dos entrevistados pela BVA têm a intenção de aumentar as ações em favor do planeta. Isso pode significar hábitos como usar menos carro, comer menos carne ou aumentar a reciclagem do lixo. "O que vemos muito claramente nos estudos, e há muito tempo, é que apenas o fato de ‘ver' um risco não é suficiente para causar esse efeito de ação. Visualizar chama a atenção, mas para gerar ação é preciso não só estar informado sobre o que é possível fazer, como o que cada categoria de indivíduos pode fazer”, explica o psicólogo social especialista em riscos ambientais Oscar Navarro, da Universidade de Nimes. "Algumas ações são evocadas de maneira muito global. Para que cada um passe para o que chamamos em psicologia de ‘intenção de agir', é preciso que elas correspondam ao que o indivíduo considera que ele pode fazer. São mecanismos complexos dos humanos: passar da intenção para a ação envolve muitas coisas."  Macron de jet ski O vácuo entre o discurso e os atos também inclui as mais altas autoridades de um país. Dias depois de os últimos incêndios florestais serem finalmente controlados no sudoeste da França, o presidente Emmanuel Macron pousou para fotos em um jet ski, durante as férias – uma diversão que consome combustível e simboliza a desconexão, cada vez mais criticada, entre as elites e medidas necessárias para diminuir o impacto humano sobre a Terra. "O exemplo do presidente Macron é muito emblemático sobre o que acontece com a maioria dos cidadãos. Nós todos temos as nossas contradições. Até as pessoas mais sensibilizadas com o meio ambiente terão, em alguns momentos, comportamentos que serão totalmente contrários às suas opiniões”, comenta a professora de desenvolvimento sustentável Mireille Chiroleu Assouline, da Universidade Paris 1 – Sorbonne. "Macron foi um exemplo de comportamento contraditório, paradoxal, tanto em relação aos compromissos dele e da França, como aos esforços que ele está pedindo dos franceses." O psicólogo Oscar Navarro esclarece que, mesmo aqueles que têm plena consciência sobre a realidade das mudanças climáticas pode acabar optando por não fazer a sua parte – ou por não fazer mais do que já faz. “É preciso retirar a ideia de que a ‘negação' é decorrente de uma má vontade. Não: ela é simplesmente um mecanismo psicológico bastante básico que temos, que nos permite nos proteger de todo o sentimento negativo gerado por uma determinada problemática, mas também pelas dificuldades de enfrentá-la e que, tipicamente, nos causa um sentimento de culpa”, afirma. “A psicologia humana tem a particularidade de termos a tendência de nos compararmos uns aos outros o tempo todo. Isso torna as coisas mais difíceis quando, por exemplo, a gente tenta fazer as coisas direito, assumir a nossa parte de responsabilidade, mas percebemos que há tantas outras pessoas, inclusive próximas, que não fazem nada. E aí nos sentimos sempre perdedores, já que os outros continuam aproveitando enquanto eu estou me esforçando”, esclarece. Desigualdade face à crise climática O economista Matthieu Glachant, professor da Mines ParisTech e da London School of Economics, chama atenção para um ponto fundamental: as diferenças entre os pobres e ricos nesta conta do clima. "Tem uma palavra muito importante em mudança climática que é desigualdade. Desigualdade na contribuição à mudança climática, pelo nível de emissões. As pessoas modestas não andam de jet ski nas férias, nem pegam avião para ir para a Tunísia. E tem também a desigualdade em relação à adaptação às mudanças climáticas. Quando somos pobres, não vamos instalar ar condicionado em casa para enfrentar o calor”, frisou. As temperaturas extremas levaram ao racionamento de água em algumas partes do país, algo bastante raro na França. Agora, em meio à crise energética que atravessa a Europa desde a guerra na Ucrânia, as empresas são incitadas a diminuir o consumo de luz. Na volta das férias, Macron advertiu que o tempo da “abundância e da despreocupação” acabou. Essa confluência de fatores tende a levar à adoção de medidas favoráveis ao meio ambiente, como o aumento das energias renováveis. "Economizar energia e reduzir as emissões de gases de efeito estufa são dois objetivos concomitantes. Podemos, então, esperar que medidas poderão ser tomadas já nos próximos meses”, diz Chiroleu-Assouline, que também é economista. "De qualquer forma, os preços altos da energia levam a maioria dos franceses a economizar – por isso, eu lamento que o governo esteja subvencionando a queda dos preços dos combustíveis nos postos. Isso é contraprodutivo, já que naturalmente os motoristas teriam tendência a economizar combustíveis.” A professora também chama a atenção para a importância de melhorar a eficiência das infraestruturas que já existem na França – um país rico que, até agora, não se preocupava muito com para os pequenos ou grandes desperdícios do dia a dia.  "Percebemos só agora que há vazamentos enormes em diversas redes de abastecimento pela França. Em alguns lugares, chega a ter desperdício de 30% da água”, destaca. "Ou seja, sabíamos que elas existiam, mas como não faltava água, não tomávamos nenhuma medida pra poder consertar esses vazamentos. Como essa, há muitas medidas que podem ser tomadas: quando o sistema é tão ineficaz, fica fácil de agir.” Adaptação na agricultura O verão escaldante levou a prejuízos elevados na agricultura, em especial nas culturas que precisam de muita água, como frutas e legumes. Por trás dos produtores, as seguradoras estão cada vez mais preocupadas com a instabilidade do clima. O verão de 2022 também teve este efeito: alertar sobre as perdas econômicas que estão em jogo para diversos setores. “Vamos começar a construir reservatórios de água para termos quando tivermos anos muito secos? Vamos mudar o tipo de cultura, como a do milho, que rende bastante, à condição de ter bastante água? Há muitas questões colocadas e que precisaremos resolver nos próximos anos, de adaptação”, afirma Glachant. O psicólogo Oscar Navarro sublinha que essa sensação de já estarmos correndo contra o tempo pode acabar dificultando a aceitação, pela população, de tantas mudanças e projetos que estão por vir – não só na França. "O que eu temo é que a gente poderia ter feito projetos com uma escala aceitável no tempo, pelas populações, a exemplo das instalações de energias renováveis. Mas agora, em plena crise, deveremos andar bem mais rápido, instalar novas infraestruras gigantescas, que serão fonte de conflitos, de tensões ou até mesmo de novos problemas ecológicos”, lamenta. "Esse é um risco que eu vejo surgir agora”, adverte.

    Polêmica sobre emissões de jatinhos de celebridades pode levar a mais regulação do setor na Europa

    Play Episode Listen Later Aug 24, 2022 9:19


    Enquanto cada vez mais pessoas comuns se preocupam com o impacto climático do uso dos transportes no dia a dia, bilionários continuam a pegar jatinhos privados para viajar – e o que é pior, não se constrangem em se deslocar a bordo de um avião particular para fazer distâncias curtas, de dezenas de quilômetros. A polêmica gerada na esteira da divulgação dos hábitos de viagens de celebridades e ricos empresários leva países como a França a colocar o tema na mira de uma regulação mais rigorosa.  Lúcia Müzell, da RFI Nas últimas semanas, as revelações na internet causaram constrangimento a nomes como a cantora Taylor Swift ou o francês Bernard Arnault, dono do grupo de luxo LVMH, por trás de marcas como Louis Vuitton. Um voo de jatinho emite no mínimo 10 vezes mais gases de efeito estufa do que um avião comercial, conforme o número de passageiros a bordo. A comparação com um carro é ainda mais estarrecedora: uma hora de voo de jatinho equivale, em média, ao uso anual de um veículo convencional em um país desenvolvido. É por isso que algumas organizações ambientais consideram que chegou o momento de proibir os voos curtos de jatinho. Em março, a França baniu os voos nacionais que podem ser feitos de trem em até 2h30 – mas os jatinhos ficaram de fora da nova lei.  “Sim, devemos proibir desde já as linhas curtas. Isso já aconteceu na França para os voos comerciais e deve se estender aos jatinhos, para trajetos inclusive maiores, de até quatro horas. Fizemos um estudo que mostrou que a rede ferroviária francesa pode absorver esses passageiros”, afirma Pierre Leflaive, especialista em transportes da Réseau Action Climat, hub de 26 associações ambientais francesas. “Precisamos regular a frequência e a utilização dos voos em geral. É claro que podemos ter exceções, como os voos por razões médicas ou militares. Mas a verdade é quando estamos falando de jatos privados, falamos de bilionários. A fortuna média dos usuários é de € 1,3 bilhão”, aponta. Relatório  Baseado em dados públicos sobre a aviação, um relatório do grupo Yard revelou no início de agosto que as celebridades que mais usam jatos privados emitiram em média 3,37 toneladas de CO2 em voos apenas em 2022 – 482,3 vezes mais do que as emissões anuais de uma pessoa sem acesso a este privilégio. O estudo mostrou ainda que a duração média de voo é de 71,7 minutos e a distância, de 107,7 quilômetros.  Para se ter uma ideia o que isso representa, viajar em um jato privado comum é 50 vezes mais poluente do que em um trem, conforme apontou a organização Transport & Environnement, presente em vários países da Europa. “Todo o setor da aviação polui muito, pela combustão de querosene, principalmente no momento da decolagem e da aterrissagem. Nos jatos privados é mais problemático porque há um número limitadíssimo de passageiros dentro, que fazem principalmente trajetos curtos. Ou seja, são mais decolagens e aterrissagens para levar pouca gente”, critica Leflaive. Apesar do balanço ambiental catastrófico, e em meio a uma grave crise energética que obriga a população a economizar, o setor de jatos privados comemora uma expansão recorde na Europa desde a pandemia de coronavírus, com alta de até 20% da demanda, segundo a principal operadora francesa, Aeroaffaires.  “Difícil pensar em algo pior” Mesmo sem proibição dos voos, é possível limitar a pegada de carbono da aviação particular. As alternativas vão desde a adoção de impostos de compensação à obrigação de as aeronaves voarem com motores mais sustentáveis, inclusive elétricos ou movidos a biocombustíveis. A título de comparação, um Beechcraft Hawker 400XP chega a emitir quase quatro vezes menos CO2 do que um potente Dassault Falcon 7X. Melhores práticas também podem ser introduzidas, como banir os voos vazios – quando um jatinho voa apenas para buscar um passageiro. “Não consigo pensar num hábito que seja pior para o planeta do que o uso frequente de jatinho”, brinca o economista Samuel Sauvage, especialista em economia sustentável. “Num voo normal, se você faz um trajeto ida e volta de Paris a Nova York, você vai emitir cerca de 2 toneladas de CO2, que é o que nós deveríamos emitir por ano se quisermos cumprir o Acordo de Paris. Mas se você faz essa viagem de jato privado, vai gerar no mínimo cinco vezes mais emissões. Ou seja, é difícil pensar em algo pior.” O ministro francês dos Transportes, Clément Beaune, disse que o assunto será tratado pelo governo nas próximas semanas, no quadro do "Plano da Sobriedade Energética" elaborado pelo país. Também na Bélgica, o tema despertou a atenção dos deputados ecologistas neste retorno das atividades parlamentares, após as férias de verão na Europa.  Enquanto os “reles mortais” sofrem com secas extremas e enchentes devastadoras, para citar apenas algumas das consequências das mudanças climáticas, os hábitos extravagantes dos ricos geram indignação. Além disso, atrapalham na responsabilização coletiva sobre a crise ambiental, ao provocarem a sensação de que os maiores poluidores mantêm seus privilégios e continuam a emitir gases prejudiciais ao planeta, sem qualquer consequência. “Ao mesmo tempo em que pedem esforços para toda a população gastar menos, se comportar melhor, e que ela toma consciência sobre a crise climática e os seus impactos, uma pequena parte da população, superpoluidores e responsáveis pela maior parcela das emissões, proporcionalmente, não paga as consequências. Isso gera muitas questões de aceitação, por parte das pessoas”, critica Pierre Leflaive, da Réseau Action Climat. “50% dos franceses emitem em média 5 toneladas de CO2 por ano, mas os 10% mais ricos emitem em média 25 toneladas”, frisa.   Impacto simbólico da proibição Samuel Sauvage segue na mesma linha: o economista considera que regular o setor teria um importante efeito simbólico para o conjunto da sociedade. “A fração de pessoas mais ricas da sociedade se autoriza a poluir muito mais que a média dos habitantes e ainda se exibe assim nas redes sociais. Elas são um exemplo para muita gente. Em porcentagem, as emissões dos jatinhos são baixas, mas o impacto simbólico desse comportamento é considerável”, nota o economista. “Por isso, poderíamos começar com impostos específicos, como o que foi adotado para os iates, e idealmente transferir os recursos para viabilizar a queda do preço dos transportes menos poluentes, como o trem.” Mesmo assim, o especialista não se engana: uma taxa não seria suficiente para os ricos abandonarem de vez os jatinhos, e medidas mais drásticas serão necessárias no futuro. “É preciso planejar a transição para o fim destes jatos privados, com a participações das cidades, que deverão fechar, progressivamente, os aeroportos de negócios que atendem a essa clientela, afinal consideramos que os jatinhos são incompatíveis com uma sociedade sustentável”, diz o economista.

    Brasil: Meio ambiente ganha protagonismo na eleição, mas é ofuscado por crise econômica

    Play Episode Listen Later Aug 18, 2022 17:35


    Após um primeiro mandato de Jair Bolsonaro marcado por inúmeras polêmicas nos temas ambientais, o assunto terá destaque inédito na campanha eleitoral que acaba de começar, para as eleições de outubro. Pesquisas apontam que a preocupação com o planeta sensibiliza cada vez mais os eleitores – mas num contexto de aumento da pobreza e inflação alta, a questão não deve ser determinante na escolha do voto. Os programas de governo dos dois principais candidatos ao Planalto ainda estão em elaboração, porém já apontam que a polarização política em torno da questão ambiental permanece. Enfrentam-se nas urnas duas visões opostas sobre a crise climática e o que deve, ou não, ser feito para combatê-la. Líder nas pesquisas de intenções de voto, o petista Luiz Inácio Lula da Silva traz a sustentabilidade como um pilar do desenvolvimento do Brasil, vetor da transição energética e ecológica. “A questão ambiental hoje, a questão do clima, tem que ser vista como um modelo de desenvolvimento do país. Não é você olhar para uma floresta e dizer: ‘vamos derrubá-la para crescer'. Não. É ‘como vamos crescer com ela em pé'”, afirmou o ex-presidente, em um encontro com cientistas em junho, no qual prometeu transformar o  enfrentamento das mudanças climáticas em política de Estado. Jair Bolsonaro, por sua vez, mantém o foco na preservação dos interesses do agronegócio – para o qual, com frequência, a proteção ambiental é vista como uma barreira a ser derrubada. Nesta eleição, o presidente não ignora a importância do assunto, como em 2018. Mas encara o tema como uma mera oportunidade econômica – ele defende a comercialização de créditos de carbono pelo país e a expansão de energias renováveis como eólica e solar. “O que tem de gente para atrapalhar, não está no gibi. Por questões ambientais, alguns preferem morrer de fome do que derrubar uma árvore”, disse Bolsonaro em um recente evento do agronegócio em São Paulo, ao lado dos ministros da Economia e do Meio Ambiente. Crise econômica abafa crise climática Resta saber até que ponto a preservação do planeta será um fator importante para a escolha do voto dos brasileiros. A comunidade científica já demonstrou que a crise climática atinge a todos e a população pobre, portanto mais vulnerável, será mais afetada. Entretanto, em meio ao aumento em disparada dos preços de produtos básicos, da energia e dos combustíveis, a preocupação ambiental acaba em segundo plano para este eleitorado – que terá poder decisivo no pleito. “Que as questões ambientais são importantes, não há a menor dúvida. A nossa questão é se o nosso eleitor tem a consciência dessa importância. Me parece que não”, avalia o cientista político Carlos Alberto de Melo, do Insper, em São Paulo. “A crise econômica no Brasil tomou a centralidade do debate, enquanto que o tema fundamental para o nosso futuro e a nossa sobrevivência, o do meio ambiente, está na cabeça das pessoas como sendo algo de longo prazo, que pode ser discutido mais à frente.” Os interesses econômicos de produtores rurais e a apreensão da população com outros problemas de curto prazo ajudam a explicar o apoio que o atual presidente desfruta, ironicamente, na região amazônica. Na última eleição, em 2018, os eleitores da maioria dos Estados do Norte do país votaram em massa em Jair Bolsonaro. E apesar da série de recordes de alta do desmatamento na maior floresta tropical do mundo nos últimos quatro anos, o líder mantém a preferência nas pesquisas espontâneas de intenções de voto em Estados como o Acre. Congresso voltado ao agronegócio A relação com o Congresso também pode ser desafiadora para o próximo presidente, sobretudo se Lula vencer a eleição. A Câmara e o Senado, que também serão renovados em outubro, têm forte influência ruralista – um peso que se acentuou na atual legislatura. “Quando falamos em uma bancada ruralista, estamos falando de muita coisa: tanto de setores que são social e ambientalmente responsáveis, que exploram a economia ambiental de uma forma moderna, e setores que não. Há contradições dentro dela”, pondera Melo. “Uma mudança de mentalidade no Executivo tende a ter o apoio dos setores modernos. Já estamos vendo isso na campanha eleitoral: uma pequena parcela do agronegócio já tem sinalizado apoio ao ex-presidente Lula. Com a outra parte, vai requerer, sim, muita negociação política”, sublinha. O professor do Insper ressalta ainda que, independentemente da atuação do Congresso, o funcionamento das instituições ambientais federais, como o Ibama, tende a voltar ao normal com a saída de Bolsonaro. Durante o primeiro mandato do presidente, o governo desmantelou os órgãos responsáveis pela fiscalização e o monitoramento de crimes ambientais, o que abriu caminho para as altas históricas do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

    Seca recorde na França e racionamento de água obrigam produtores rurais a se adaptarem a condições extremas

    Play Episode Listen Later Aug 11, 2022 9:29


    Falta d'água potável em uma centena de municípios, lavouras perdidas, incêndios e biodiversidade ameaçada: a seca histórica que atinge a França neste verão exige adaptação da população, dos produtores rurais e ações urgentes do poder público. Com medidas de restrição do uso da água em mais da metade dos departamentos do país, agricultores se antecipam e pensam em mudar o modelo agroecológico e até abrir mão de certas espécies. Instalado há 15 anos no Loir-et-Cher, no sudoeste de Paris, David Peschard jamais viu uma situação parecida. Se por enquanto o agricultor escapou de um corte total de água nas torneiras, ele sabe que as restrições podem se tornar mais corriqueiras no futuro. “Estamos num período de restrição, e não podemos irrigar as culturas no fim de semana. O que nos obriga a trabalhar mais durante a semana para molhar tudo o que for preciso. Mas isso limitará, inevitavelmente, certas lavouras que não vão receber água suficiente”, lamenta. A União Nacional dos Produtores Rurais da França alertou que as más condições de pasto, com as altas temperaturas e a escassez hídrica, podem causar uma redução da produção de leite nos próximos meses.  Ao mesmo tempo, o Ministério da Agricultura anunciou que a colheita de milho deve ser 18,5% inferior este ano, em relação ao ano passado. “Infelizmente, sem ser pessimista, há um ensinamento a tirar, o que estamos aprendendo muito lentamente. Podemos ser otimistas e achar que é apenas uma fase e que voltaremos a períodos mais úmidos. Mas, se enfrentarmos essa situação com frequência, será necessário nos adaptarmos rapidamente”, acrescenta Peschard. “O milho, por exemplo, está condenado a não mais ser cultivado na nossa latitude. E como é uma cultura feita para a alimentação animal, poderíamos, num mundo perfeito, consumir menos carne e o substituir pelo sorgo, que precisa de menos água no verão”, conclui o agricultor.    Julho foi o segundo mês mais seco do ano, desde março de 1961. O déficit pluviométrico é de cerca de 84%, em relação ao normal para o período 1991-2020. Setores essenciais já são duramente atingidos, como a agricultura e a pecuária, seja pela dificuldade no plantio do milho destinado à ração animal, que consome muita água, ou pela falta de pastagens para o gado. O governo francês criou um comitê de crise para lidar com a seca e traçar um plano de abastecimento de água nas regiões onde for preciso. A primeira-ministra, Élisabeth Borne, ativou essa unidade interministerial na última sexta-feira (5), diante da "situação histórica pela qual muitos territórios estão passando", anunciou o Palácio de Matignon, sede do governo. Multas Com o nível máximo de alerta em mais de 60 departamentos, muitos franceses estão proibidos de regar gramados, lavar carros ou encher reservatórios. Os controles de restrições de uso da água se multiplicam. Em uma semana, passaram de 2.000 a 4.000 em todo o território. No mesmo período do ano passado eram 400. Uma operação organizada pela guarda ambiental do Escritório Francês da Biodiversidade (PFB) foca nos setores prioritários. Loic Obled é o encarregado das diligências numa estratégia entre as prefeituras e o procurador-geral da República. “A ideia é primeiro sensibilizar e fazer compreender a regulamentação, o que está em jogo e depois fazer controles, de maneira visual. Por exemplo, alguém que lava o seu carro, que irriga onde não é autorizado, seja uma lavoura ou um jardim público”, explica. “Não haverá fiscalização surpresa em propriedades privadas, mas quando há constatação de uma infração, pode haver uma simples advertência a até uma multa, que pode chegar a € 1.500 ou € 3.000, em caso de reincidência”, completa, valores que equivalem a até R$ 15.000.    “O primeiro uso que é privilegiado é água para o consumo humano. Há restrições em outros usos para permitir que a população possa ter água para beber e para o banho”, acrescenta Obled. “No setor agrícola, uma das prioridades é dar de beber aos animais, em relação a outros usos, e esse equilíbrio é feito caso a caso, de acordo com as características territoriais”, completa. Abelhas ameaçadas Enquanto moradores de cidades menores recorrem a caminhões-pipa para se abastecer, os apicultores de Landes, no sudoeste da França, também se adaptam ao calor extremo. Várias colmeias foram queimadas nos recentes incêndios. Além disso, a seca obriga as abelhas a percorrerem vários quilômetros para encontrar um ponto de água, enfraquecendo o metabolismo de toda a colônia. Menos água também significa menos flores, menos néctar e, portanto, menos mel. No jardim de Marc Reynol, apicultor de Chécy, perto de Orléans, as cerca de 30 colmeias foram colocadas à sombra de uma sequoia. “Antes, todas as caixas de abelhas ficavam no sol e hoje procurarmos lugares à sombra, para passar os meses de julho e agosto. Aqui elas estão bem, mas ainda faz 32, 33 graus à sombra”, relata. “Temos que prever tudo. Eu instalo um grande reservatório de 100 litros de água e reabasteço regularmente, duas vezes por semana”, acrescenta o apicultor. Após a vespa asiática em 2020 e a geada destrutiva do inverno de 2021, o clima e os eventos extremos estão, mais uma vez, atacando esses insetos polinizadores, como explica Michel Cambier. “Minhas abelhas têm morrido por causa do gelo. E eu não sou o único. Percebemos que há uma mortandade maior no fim do inverno”, afirma o apicultor. “É que como as estações estão começando mais cedo, a floração começou mais cedo do que no ano passado. Para poder fabricar o mel, as colmeias têm de sair fortalecidas do inverno”, explica. Recorde de produção de sal Mas se para alguns o calor de 40 graus tem sido fonte de preocupação, outros comemoram. É o caso dos produtores de Sal de Guérande, um produto do oceano, do sol, do vento e de práticas tradicionais de extração à mão nos pântanos salgados há milhares de anos.  “É excepcional. Chegam a duas toneladas de sal, o que não é nada mal, já que numa estação normal chegamos 1,3 ou 1,5 tonelada”, compara Jean-François Macé, produtor de sal.  “Eu parei de recolher o sal, na cooperativa muitos colegas também, porque eles têm cotas ou não têm mais lugar para armazenar. Não sei onde vamos colocar tanto sal”, diz. Como a França, muitos países europeus são afetados por essa onda de calor e seca. A escassez de água afeta atualmente 11% da população da União Europeia e 17% do território do bloco.  De acordo com os cientistas, a multiplicação das ondas de calor é uma consequência direta da crise climática. As emissões de gases de efeito estufa aumentam a intensidade, a duração e a frequência de eventos extremos.

    Suspenso pela Justiça, projeto de empresa turca ameaça área de botos e mangues no Rio

    Play Episode Listen Later Jul 28, 2022 11:40


    Aprovado a toque de caixa em 2021, um polêmico projeto de instalação de quatro termelétricas flutuantes na Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro, foi embargado pela Justiça estadual. O empreendimento, da companhia turca KPS (Karpowership), ameaça um ecossistema rico em fauna marinha e manguezais. A empresa foi a vencedora de um leilão emergencial da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em outubro passado, na esteira da crise energética no país provocada pela seca em 2021. Entretanto, apesar de planejar se instalar em uma área onde vive a maior população de botos-cinza do Estado, o projeto foi dispensado de um estudo de impactos ambientais pelo governo estadual, por se tratar de uma obra "estratégica". A decisão desagradou ambientalistas e levou a ONG Instituto Internacional Arayara a protocolar uma ação judicial para questionar o procedimento. Na sexta-feira (22), a Justiça determinou a imediata suspensão das obras e das instalações das usinas a gás, que funcionam sobre balsas que estavam prontas para serem posicionadas na baía. “É uma área de grande importância ecológica, com mangues bem preservados, criadouro de peixes e crustáceos, além do boto-cinza, uma espécie ameaçada de extinção. Ali, nós temos a maior de população do Estado: são de 500 a mil indivíduos”, explica a professora Helena de Godoy Bergallo, do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). “As linhas de transmissão serão instaladas em 14 quilômetros de extensão e já destruíram 7 hectares de mangue, que é um berçário de vida marinha e Mata Atlântica. Ou seja, o impacto é muito grande, não só na água, como na terra.” Impacto ambiental A KPS afirma que o projeto, inédito no país, tem capacidade de gerar 560 megawatts de energia e “atende aos mais rigorosos requisitos ambientais brasileiros e internacionais”. Mas uma instalação de tamanha magnitude exige estudos mais aprofundados, garante a professora da UERJ.  “Temos de ter também o princípio de precaução. É um empreendimento novo no mundo inteiro, não só no Brasil”, ressalta Bergallo. “A gente ainda não conhece todos os seus impactos, e não temos sequer respostas para muitas dúvidas que a gente têm, sobre os impactos que poderão vir, inclusive na sociedade que vive no entorno. São pescadores, marisqueiros e quilombolas que vivem na região”, frisa a especialista em ecologia.  A companhia turca tem buscado ampliar a atuação em países em desenvolvimento, em especial africanos. A empresa já teve um projeto semelhante cancelado na África do Sul e outro projeto, no Líbano, foi denunciado por envolvimento em corrupção. Para ouvir o podcast, clique acima.

    Seca e calor prolongados abalam uma das paisagens mais belas da França

    Play Episode Listen Later Jul 21, 2022 18:58


    Neste momento em que uma onda de calor sufocante coloca a Europa cara a cara com as mudanças climáticas, uma das paisagens mais impressionantes da França pede socorro contra as altas temperaturas. As Gorges du Verdon, lagos no sul da Provence que atraem milhares de turistas a cada verão, sofrem os efeitos da seca prolongada, mas também da neve mais escassa nos Alpes durante o inverno – num exemplo emblemático do efeito dominó da crise no clima. Lúcia Müzell, da RFI As águas turquesas aos pés dos cânions no Verdon, em meio a uma vegetação exuberante, são um spot privilegiado para a prática de esportes aquáticos, como rafting e caiaque. Mas, em 2022, os frequentadores terão de se contentar com apenas mergulhar no local. O nível da água está baixo demais e inviabiliza, pela primeira vez, a circulação das embarcações. Em alguns trechos, como no lago de Castillon, nem mesmo nadar será possível neste verão. O cenário paradisíaco deu lugar a vários metros de terra seca, que culminam em um lago raso, com menos de 40 centímetros de profundidade – cinco metros a menos do que o normal. Para completar, uma lama atípica que se formou no solo termina de desestimular os visitantes a se banhar, num quadro que entristece os franceses e preocupa os operadores de turismo da região. “Sempre tivemos períodos de seca e calor, mas o ritmo dos impactos acontece cada vez mais rapidamente. A cada ano, duram mais tempo, são mais intensos e mais repetidos”, lamenta o vice-presidente do Parque Natural Regional do Verdon, Jacques Espitalier, que vive na região há mais de 40 anos. “Percebemos que as dificuldades estão aumentando, essencialmente porque a camada de neve está diminuindo nos Alpes. Ela era densa e no momento em que ela derretia, entre maio e fim de junho, a água escorria e preenchia o Verdon pelo menos por todo o mês de julho. Neste ano, não somente tivemos pouca neve no inverno, como choveu pouco na primavera, o calor chegou mais cedo e fez a neve evaporar, em vez de virar água”, explica.  Fenômenos combinados, efeitos desastrosos O climatologista Christophe Chaix, da Agência Alpina dos Territórios, lembra que as temperaturas começaram a aumentar no fim dos anos 1980, no sul da França, e desde então não baixaram mais. Por volta de 2014, os termômetros se estabeleceram em novos padrões e os anos mais amenos ficaram definitivamente no passado. “Aqui, o sintoma de um clima doente são os fortes calores combinados com a falta prolongada de chuvas, algo que sempre tivemos. Mas a seca associada com temperaturas extremas provoca efeitos que não conhecíamos antes”, ressalta o geógrafo. “Estamos tendo já nos meses de março e abril temperaturas bem acima do normal histórico. Já na primavera, as correntes de água estão fracas e isso é totalmente novo.”  Nas Gorges du Verdon, hotéis, pousadas e operadores de turismo constatam que aquilo que até pouco tempo eram eventos excepcionais agora se transformou no novo padrão de clima na região. “Nós teremos que mudar os nossos parâmetros, o nosso modelo. Nós já sabemos que a camada de neve não voltará a ser a mesma de 50 anos atrás. Precisamos gerenciar a quantidade de água que a natureza nos fornece de outra maneira”, observa Espitalier. “Já faz mais de 10 anos que advertimos aos profissionais de turismo que eles vão precisar se adaptar a essa situação. Nós poderemos cada vez menos gastar a água com isso e eles precisarão encontrar outras atividades.” Pressão nas montanhas  Outro efeito é que as montanhas da região, que costumavam receber a maioria dos turistas no inverno, agora atraem também milhares de visitantes em busca de ar fresco no verão – o que provoca novos riscos de desequilíbrios ambientais. “Estamos vendo uma frequentação excessiva das zonas em altitude. Assim que começam as ondas de calor na planície, as pessoas começam a subir”, nota o climatologista Christophe Chaix. “O problema é que a montanha é frágil e as atividades nela dependem dos recursos naturais”, sublinha. O derretimento das geleiras e do permafrost, a camada que deveria estar permanentemente congelada nos Alpes, tem tornado a prática de atividades na neve mais arriscada no inverno – os desmoronamento e avalanches estão mais frequentes. A ironia é que essa situação levou muitos guias turísticos a decidirem descer das montanhas e ir trabalhar justamente nas Gorges du Verdon, como guias de rafting. “Vemos que tudo isso cria um desequilíbrio econômico. Estamos percebendo que a adaptação é complicada porque mesmo quando tentamos nos diversificar, trocando inclusive de estação do ano, não estamos mais ao abrigo de um outro efeito do aquecimento do clima, 5 ou 10 anos depois”, salienta o geógrafo. Pontos turísticos ameaçados pelo mundo A situação na França está longe de ser única no mundo. Famosos pontos turísticos espalhados pelo planeta também estão sendo abalados. As sequoias gigantes de 2 mil anos do parque americano Yosemite estão novamente ameaçadas pelos incêndios florestais na Califórnia. A excepcional Veneza sofre com inundações constantes devido à subida do nível do mar. No Brasil, em 2021, as imagens das Cataratas do Iguaçu secas impressionaram o mundo. “Não são só as Cataratas, mas também todos os destinos de praia no Brasil hoje estão ameaçados pela escassez hídrica e pela elevação do nível do mar. Rio de Janeiro, Florianópolis, Recife, Fortaleza já estão sendo afetadas pela falta de água e o avanço do nível do mar, o que reflete no turismo, e estão sendo obrigadas a buscar respostas, com ações de adaptação”, afirma a professora Isabel Jurema Grimm, do mestrado em Governança e Sustentabilidade do Instituto Superior de Administração e Economia (Isae).

    Novos relatórios sobre biodiversidade embasarão marco global de proteção da natureza

    Play Episode Listen Later Jul 19, 2022 12:42


    Os dois mais recentes relatórios produzidos pela Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (Ipbes), revelados em 8 e 11 de julho, estimulam reflexões sobre o valor que o homem dá à natureza, da qual depende para sobreviver. Os documentos, resultado na análise de mais de 13 mil estudos internacionais, servirão de base para um novo marco global para a proteção da biodiversidade do planeta, na conferência da ONU sobre o tema, no fim do ano. Assim como os relatórios do IPCC são os pilares científicos das negociações sobre o clima e levaram ao Acordo de Paris para controlar o aquecimento global, as conclusões do Ipbes são “a Bíblia” dos especialistas em biodiversidade. No documento anterior, em 2019, os cientistas alertaram sobre o declínio do número de espécies vivas “a um ritmo sem precedentes na história da humanidade”. Dos oito milhões de espécies animais e vegetais que, estima-se, vivem sobre a Terra, um milhão podem simplesmente desaparecer. “Tudo isso decorre das atividades humanas. Toda a capacidade da natureza de permitir a nossa existência na Terra está sendo ameaçada”, adverte a francesa Anne Laringauderie, secretária-executiva do órgão, em entrevista exclusiva à RFI. Qual o valor da natureza? Nestes dois novos relatórios, os cientistas esclarecem sobre todos os valores da natureza, além dos mercantis. Não são apenas os indicadores econômicos que devem prevalecer – por exemplo, o valor de rio vai além de quantas toneladas de peixes ele proporciona. Os especialistas observam que as espécies são levadas ao esgotamento num mundo que busca o incessante crescimento econômico, sem considerar outros aspectos menos lucrativos como qualidade de vida e a preservação do patrimônio natural do planeta. A maneira como a humanidade persegue o aumento do PIB, ano após ano, está no foco da crise da biodiversidade, alertou o coautor do texto final Unai Pascual, economista da ecologia. “Como o relatório deixa muito claro, o crescimento econômico é um dos imperativos e uma das principais razões das decisões-chave que estão levando a um impacto tremendo na natureza e nas pessoas”, disse Pascual, na coletiva de imprensa esta semana. “Mas também é um fato que, nestes dias, 139 países endossaram as informações e as evidências que esse relatório traz. Isso significa que precisamos saber de que maneira o crescimento deve acontecer, quando ele precisa acontecer, e onde.” Os especialistas do Ipbes propõem uma série de pistas para o uso mais sustentável dos recursos naturais, incluindo a flora e a fauna selvagens – 50 mil espécies são utilizadas cotidianamente para a alimentação humana, ressalta o documento. “Podemos melhorarmos a gestão dos rios, por exemplo, adotando um sistema de cogestão dos recursos de água, e estimular a justiça e a equidade entre os diferentes utilizadores dessa água”, frisa Anne Laringauderie. “Essa é uma das grandes conclusões do relatório: que é uma questão de justiça social, de compartilhamento dos recursos, e que devemos desenvolver soluções muito mais de longo prazo do que imediatas, em que ignoramos o conjunto de atores envolvidos. Isso não serve para resolver os conflitos que temos e ainda não será positivo para a própria biodiversidade”, comenta.   Marco global A secretária-executiva do Ipbes observa que a tomada de consciência da perda da biodiversidade está crescendo, na esteira da crise da Covid-19 e na medida em que as mudanças do clima se mostram inexoráveis. A expectativa cresce em torno da COP15 da biodiversidade, a cúpula internacional da ONU sobre o assunto, que poderá resultar num inédito marco global para a reversão da perda de espécies. O evento estava previsto para acontecer em 2020, na China, mas foi adiado diversas vezes por conta da pandemia. A reunião acabou transferida para Montreal, no Canadá, e deve ocorrer no início de dezembro. “Nó esperamos que esse marco mundial seja baseado na ciência, nas conclusões do Ipbes, com objetivos concretos, em números, e prevendo medidas bem claras, com os meios financeiros para atingi-las, em especial nos países em desenvolvimento. Vamos realmente precisar de avanços consistentes, para aumentarmos o nível de ambição de um grande enquadramento que teremos neste pós-2020”, explica. Se concluído com sucesso, este acordo deverá estabelecer objetivos que os países deverão perseguir até 2050 para combater a perda de biodiversidade.