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Reportagens de nossos correspondentes em várias partes do mundo sobre fatos políticos, sociais, econômicos, científicos ou culturais, ligados à realidade local ou às relações dos países com o Brasil.

Rfi - Adriana Moysés


    • Sep 21, 2022 LATEST EPISODE
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    Com fechamento de seções eleitorais, brasileiros na Itália fretam até ônibus para poder votar

    Play Episode Listen Later Sep 21, 2022 8:57


    Nestas eleições presidenciais de outubro, os eleitores brasileiros no exterior são mais numerosos e enfrentam mais dificuldades para poder votar. O Tribunal Superior Eleitoral revelou que houve um crescimento forte do eleitorado brasileiro no exterior, em comparação à 2018. Em 2022, serão 697.078 eleitores aptos a votar fora do país, 40% a mais que há quatro anos. No entanto, o Itamaraty reduziu a quantidade de seções eleitorais fora do Brasil. Gina Marques, correspondente da RFI em Roma Há eleitores brasileiros domiciliados nos cinco continentes, mas os países com maior número de votantes são: Estados Unidos (108.624), Japão (30.671), Portugal (30.431), Itália (20.972) e Alemanha (17.555). Nas eleições presidenciais há quatro anos, foram abertas 33 seções de votação em municípios diferentes das cidades onde estão sediadas as Embaixadas e Consulados brasileiros. Segundo o Itamaraty, isso serviu para “facilitar a cidadãos que residem em localidades distantes das sedes das repartições diplomáticas ou consulares o exercício de seus direitos cívicos”. Das 33 seções 'fora da sede' realizadas em 2018, 22 foram abertas pela primeira vez. Brasileiros na Itália Segundo o Instituto Nacional de Estatística Italiana (ISTAT), 50.666 brasileiros residem na Itália (dados de janeiro de 2021). A maioria (13.977) vive da região da Lombardia, no norte, onde está a cidade de Milão. Em segundo lugar está a região do Lácio, onde fica a capital Roma, que conta com 6.117 residentes brasileiros. Seguem o Vêneto (5.628), o Piemonte (4.896), Emilia Romagna (4.012) e a Toscana (3.852). A decisão do governo do Brasil de reduzir as seções eleitorais no exterior causa transtornos para muitos brasileiros que vivem na Itália. Este ano no país serão mantidas as sessões de votação nas duas sedes de jurisdições consulares, respectivamente em Milão, no norte, e em Roma, no centro do país. No entanto, foram suspensos outros dois locais de votação, um na cidade de Mestre/Veneza e o outro em Florença. Essas duas sessões fazem parte da daquelas que foram abertas pela primeira vez para as eleições presidenciais de 2018. Questionado pela RFI sobre o motivo que levou o governo brasileiro a reduzir os locais de votação no exterior, o Consulado do Brasil em Roma respondeu que “a decisão foi tomada pelo Cartório eleitoral do Exterior, em Brasília, e comunicada ao Ministério das Relações Exteriores”. A pergunta sobre quanto custa organizar seções eleitorais em Roma e Milão, o Consulado em Roma afirmou que “a informação está centralizada no Ministério das Relações Exteriores, em Brasília”. A resolução prejudica os brasileiros que vivem no Vêneto e na Toscana, regiões do nordeste e centro do país com grande concentração de eleitores que antes contavam com locais de votação mais próximos. O mineiro Edson Silvério Cruz, 51 anos, vive na Itália desde o ano 2000. Ele mora em Florença, na região central da Toscana, e trabalha em uma agência de viagens e turismo. No setor turístico, domingo é um intenso dia de trabalho. “Para a gente conseguir tirar neste dia uma licença de folga não é fácil, entendeu? E tentar justificar isso para nossos chefes, é bem constrangedor.” diz Edson. Despesa por conta do cidadão À RFI, o Consulado do Brasil em Roma informou que: “Durante as eleições presidenciais, as cidades de Milão e Roma terão cada uma um único local de votação com diversas urnas. A jurisdição de Milão cuida das oito regiões do norte e a de Roma é responsável pelas 12 regiões do centro e do sul do país”. Os brasileiros que vivem distantes de Milão ou Roma têm que viajar pagando as próprias despesas para poder votar. Nas redes sociais, muitos eleitores brasileiros na Itália protestam contra a falta de auxílio dos consulados para o transporte até a seção de votação. Alguns estão organizando grupos para fretar ônibus e reduzir o custo da viagem para poder votar. É o caso dos brasileiros que vivem na Toscana. No ônibus fretado de Florença para Roma, cada passagem de ida e volta custa € 26, cerca de R$ 150. O preço é bem mais barato, considerando que só a passagem de ida e volta de trem custa cerca de € 90, quase R$ 500. Edson vai viajar de Florença para capital italiana no ônibus fretado pelos brasileiros. A distância entre as duas cidades é de 275 km, portanto 550 km ida e volta. Ele faz as contas: “Se não fosse essa possibilidade de o grupo de brasileiros ter organizado os ônibus para Roma, não sei se eu poderia ir votar. Além do valor da passagem de trem, é preciso passar quase um dia em Roma. Portanto, você tem que almoçar e que lanchar. Isso significa que a despesa de ida e volta de trem custaria mais de € 100, uns R$ 600. Isso tudo do meu bolso. Sem contar que, se eu não obtiver a licença para me ausentar, não serei remunerado pelo dia de trabalho”. Segundo Edson, o governo deveria ter mantido a seção de votação em Florença para facilitar milhares de eleitores brasileiros. “Quando me comunicaram, me senti como se eu tivesse sido deixado de lado. É como se eu não fosse um cidadão brasileiro também. Eu não vejo nada de mais trazer a urna para Florença, como foi em 2018. Nas eleições passadas tivemos a oportunidade de votar aqui.” Abstenção por motivos financeiros A professora Nair Aparecida Pires, 56 anos, vive na Itália desde 1994 e mora na cidade de Treviso, na região Vêneto, no nordeste do país. Segundo ela, o que está acontecendo é um desrespeito com o eleitor que já tinha transferido o título para Veneza/Mestre. “Na verdade, o consulado tinha orientado e aconselhava que a gente fizesse a transferência do título para Veneza. Agora o que resulta é que as pessoas daqui transferiram o título a seção eleitoral de Veneza, mas vão ter que votar em Milão. Isso acarreta o desgaste físico e financeiro. Porque não é pertinho e é muita despesa” explica a professora. Segundo ela, muitos brasileiros não vão votar por motivos financeiros. “Tenho dois filhos que votariam, mas a viagem de três pessoas da mesma família do Vêneto para Milão só com o objetivo de votar é uma despesa alta demais. Portanto, sou a única da família que vai votar. Tenho amigas brasileiras na mesma situação.” Direito e dever do voto Nair lembra que no Brasil expressar a preferência por um candidato através do voto é um direito, mas votar é obrigatório, portanto um dever. “O Brasil é um país democrático, porém o voto no Brasil não é tão democrático. O voto não é só um direito, é um dever. Portanto, sendo dever, as autoridades competentes têm a obrigação e fazer com que o cidadão tenha facilidade para poder votar. Porque é um dever, é uma obrigação.” A professora ressalta que é possível justificar a ausência do voto, mas muitas pessoas querem votar e não têm condições. Segundo ela, pode ser uma supressão do direito. “Dificultar a votação significa impedir o direito do cidadão de expressar sua escolha por um candidato. Portanto, a supressão de um direito democrático. Essa é a minha opinião e também de tantos brasileiros com quem eu tenho conversado.” “Medo de represálias” Junto com um grupo de brasileiros indignados com a redução das seções de votação na Itália, Nair lançou uma campanha na internet pedindo que a situação seja repensada e que as instituições levem em conta, em nome da inclusão, as mais diversas situações familiares e as despesas de viagem.  “A petição foi feita com o objetivo de ajudar a comunidade brasileira. Não foi com o objetivo de favorecer nenhum e nem outro candidato. Porque não é questão de partido, é questão de direito, direito e dever de voto. É para poder ajudar a comunidade a resolver as dificuldades, para poder participar desse momento cívico”, insiste.  Segundo a professora, muitos brasileiros não participaram da iniciativa porque temem represálias. “Muitas vezes as pessoas ficam com medo de assinar a petição. Muitos brasileiros que vivem aqui dizem que temem que a assinatura possa comprometê-los pessoalmente e que seus familiares possam sofrer represálias. Eles dizem: 'sabe como é, a gente está vivendo um momento tão difícil no Brasil'". Nair lamenta profundamente o temor dos brasileiros de se manifestar. “É terrível porque se nós vivemos em democracia não temos que ter medo de manifestar a nossa opinião. Sobretudo quando a nossa opinião vai ao encontro de um exercício cívico. O primeiro muro que temos que abater é o medo de falar, o medo de assinar uma petição. Não podemos ter medo de se manifestar e de pretender dos nossos governantes, dos nossos representantes, o que é o direito do povo. E também para que eles escutem a voz do povo, que veja as dificuldades do povo. Porque eles estão trabalhando para nós, não o contrário”.

    EUA: Longas distâncias separam eleitores brasileiros das urnas no maior colégio eleitoral fora do Brasil

    Play Episode Listen Later Sep 18, 2022 5:00


    Na eleição do próximo dia 2 de outubro, 182.986 brasileiros que moram nos Estados Unidos estão aptos a votar. O número de eleitores do maior colégio eleitoral do exterior aumentou em cerca de 14% em relação às eleições de 2018, porém nem todos os votantes conseguem ir às urnas. Em todos os Estados Unidos apenas 14 locais terão seções eleitorais, isso significa que diversos moradores terão que viajar horas caso queiram exercer seu direito ao voto. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles Além de Atlanta, Boston (com seções em Framingham e Maiden), Chicago, Hartford, Houston, Los Angeles, Miami, Nova York, Orlando, San Francisco e Washington, que contam com repartições consulares do Brasil, também há seções em Dallas e em Salt Lake City. Horas de espera e abstenções O Consulado-Geral do Brasil em Miami tem jurisdição sobre o estado da Flórida e os territórios de Porto Rico e Ilhas Virgens Americanas e é o que tem o maior número de eleitores inscritos: 40.189. A votação para esses brasileiros acontecerá em dois locais, em Miami e Orlando. Já o Consulado de Boston, que abrange os estados de Massachusetts, Maine, New Hampshire e Vermont, é o segundo em número de votantes, 37.159. Nas eleições passadas eram quatro locais de votação, este ano as seções estarão distribuídas em Framingham e Maiden. Margareth Shepard atua há três décadas como líder comunitária da região e foi a primeira brasileira a conquistar um cargo eletivo nos Estados Unidos, é vereadora em Framingham, Massachusetts. Ela avalia como descaso do governo a redução de locais de votação. "Se com quatro locais de votação, há quatro anos, nós ainda tivemos filas de espera de até três horas, eu imagino que este ano vai ser ainda mais complicado o processo. A gente sabe que isso está acontecendo em vários países", diz a vereadora. Margareth lamenta essa redução e acredita que a medida vai impossibilitar que muitos brasileiros consigam participar do pleito. "Eu vejo como uma decisão política, eu a qualificaria como uma ineficiência do governo brasileiro. Na verdade, nós não tivemos uma resposta compreensível sobre a restrição dos locais de votação, a não ser relacionada a questões financeiras. Não foi dada nem a possibilidade para a comunidade de encontrar localidades sem custo para que pudéssemos ter esses quatro locais de votação garantidos", conta Margareth. A falta de infraestrutura explica a quantidade de pessoas que não conseguem ir às urnas. Em 2018, havia mais de 500 mil eleitores aptos a votar no exterior em todo o mundo, a abstenção foi de 59%. Em 2022, o Itamaraty excluiu em todo o mundo 16 locais de votação que haviam sido incluídos na eleição passada com a explicação de que a experiência de 2018 nessas localidades "foi considerada negativa pelos postos e, em consequência, sua repetição foi desencorajada”. Dallas, no Texas, foi uma das cidades que conseguiu manter o local para votação fora da sede consular (Houston), conquistado a partir da eleição de 2018. O cônsul-geral adjunto do Brasil em Houston, Felipe Santarosa, disse à RFI que o Consulado de Houston, do qual Dallas faz parte, conseguiu justificar junto ao Itamaraty a importância de continuar com votação na cidade já que fica a quase 400 quilômetros da sede consular e tem cerca de 4 mil eleitores. "No caso, (devido a consulta do Itamaraty, no ano passado) a gente optou por dizer que sim, que valeria a pena continuar fazendo em Dallas, que continua sendo uma comunidade importante e que apesar de gerar problemas logísticos para organizar, ter que pagar diárias, mandar urnas, a gente acha que justifica pelo número de pessoas e por desafogar as seções em Houston", conta Santarosa. O vice-Cônsul também relata que outras comunidades importantes têm reivindicado locais de votação, como em Denver, no Colorado, localizada a 1.200 quilômetros de Dallas. Mas, como o número é de poucas centenas de votantes, ainda não justificaria ter um local de votação próprio. "Além de que esse ano não houve esse movimento para criar novas sedes, foi o contrário, um movimento para manter as que haviam sido criadas e eventualmente fechar algumas. Vai ter que ser pensado para daqui quatro anos, não sei qual vai ser o approach da justiça eleitoral", diz Felipe Santarosa que explica ainda que a maior parte do processo eleitoral aqui nos Estados Unidos só acontece porque há a ajuda de voluntários que trabalham como mesários. Fora do Brasil a Justiça eleitoral não pode obrigar os brasileiros a prestar serviço como mesário. Em Nova Jersey e Pensilvânia, a mesma situação. Solange Paizante é diretora da associação Mantena Global Care, em Newark (NJ), cidade onde está uma das maiores comunidades de brasileiros nos Estados Unidos. Há três eleições ela trabalha como voluntária, porém, precisa se deslocar até Nova York, onde votam 27.937 brasileiros. "Há alguns anos nós apelamos, fizemos manifestações com abaixo-assinado, mas não foi possível ainda ter uma localização em Newark. Isso muitas vezes dificulta um pouco, nem todas as pessoas têm a facilidade de pegar um trem, ou mesmo ir de carro. Às vezes é a idade, às vezes é um cadeirante, com isso algumas pessoas não participam desse dia tão importante", contou Solange à RFI. Tanto a comunidade de Nova Jersey quanto a do estado vizinho, Pensilvânia, organizam, muitas vezes, caravanas para ir a Manhattan nos dias de votação, como conta Simone Salgado, empreendedora e líder comunitária que organiza o evento Conexão Brasil/USA. "Quando eu cheguei aqui, em 1999, eram cerca de 1.500 brasileiros nessa região, agora estima-se que mais de 30 mil brasileiros vivam no estado da Pensilvânia, mas ainda não temos um local para que as pessoas que desejam possam votar por aqui. As pessoas se juntam em alguns carros, entre amigos e seguem para Nova York para votar". Em resposta à RFI, o Itamaraty informou que em fevereiro do ano passado, no começo da preparação para o pleito de 2022, solicitou às repartições consulares que haviam organizado seções eleitorais em localidades fora de suas sedes em 2018 que avaliassem a experiência em fatores qualitativos e quantitativos e "nesse contexto, propôs-se repetir, no ciclo eleitoral de 2022, a experiência com 'seções fora da sede' somente nas localidades em que houve avaliação favorável." Nos Estados Unidos, o Itamaraty manteve 256 seções eleitorais, distribuídas em 14 locais de votação. Urnas a caminho A votação fora dos limites territoriais do Brasil é organizada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal em conjunto com consulados e embaixadas. Nesta última semana, o TRF-DF lacrou as urnas eletrônicas que serão usadas na eleição no exterior e o Ministério das Relações Exteriores, concluiu na última quarta-feira (14) o envio. Estima-se que todas devem estar nos Estados Unidos até o próximo dia 21. Nessa espécie de urna “internacional”, aberta no dia da votação, aparece apenas a opção de voto para presidente da República. Quem pode votar Só pode votar o eleitor que pediu a transferência do domicílio eleitoral do Brasil para o exterior. O prazo terminou em 4 de maio. O voto é facultativo para quem tem entre 16 e 18 anos, maiores de 70 e pessoas analfabetas. Sendo assim, brasileiros maiores de idade que residem no exterior devem cumprir as obrigações eleitorais e votar para escolher as candidaturas à Presidência e à Vice-Presidência. Quem optar por manter o domicílio eleitoral em município brasileiro continua obrigado a votar em todas as eleições. Nesse caso, será necessário justificar as ausências às urnas enquanto estiver fora do país. Vale lembrar que não é possível votar em outro país durante uma viagem a passeio. O voto em trânsito é permitido apenas em território nacional. A votação acontece de 8h às 17h no horário local e não no de Brasília. Locais de votação nos Estados UnidosConsulados / Número de eleitores inscritos (2022) Miami 40.189 Boston ​​ 37.159 Nova York 27.937 Washington 14.073 Houston 13.804 Washington 14.073 Atlanta 12.591 San Francisco 11.698 Los Angeles 11.205 Chicago 10.302 Hartford 4.028 Total - 182.986 eleitores (FONTE: TSE)

    Brasileira vence reality americano sobre gastronomia francesa

    Play Episode Listen Later Aug 27, 2022 8:50


    De uma vila remota na Amazônia para a escola de gastronomia francesa mais famosa do mundo. A rondoniense Jaíne Mackievicz ensina – no país do fast-food – que inspiração, criatividade e autenticidade podem ser o melhor tempero. A brasileira ganhou o reality show “The Julia Child Challenge” (Food Network/Discovery +), em homenagem à autora de livros e apresentadora de programas de culinária mais lendária dos Estados Unidos. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles Como prêmio, Jaíne vai passar três meses estudando na Le Cordon Bleu, em Paris, mesma escola em que Julia Child estudou na década de 1950. Foi fazendo arroz com feijão, moqueca, caldo de peixe, e outras comidas bem brasileiras, que Jaíne – que mora nos Estados Unidos há cinco anos – desbancou os outros sete concorrentes do reality que aconteceu em Los Angeles e foi transmitido para todo o mundo. "Ser brasileira me ajudou muito nessa interpretação da comida. Como a comida me representa, muito mais do que é bonito ver na TV. Isso é que os chefes querem ver. Então, quando eu entendi isso, eu fiz frango com polenta, brigadeiro, muito bolo porque eu faço muito bolo em casa, crepe, porque a gente come muita panqueca enrolada na carne moída. Aí eu interpretei da maneira que eu achava que era um pouco mais francesa", conta Jaíne. O concurso de seis episódios foi uma celebração aos 110 anos do nascimento de Julia (1912–2004). A californiana foi uma celebridade nos Estados Unidos por ensinar na TV, durante quatro décadas, de forma bem humorada a alta gastronomia que aprendeu na escola da França. O estúdio do programa era uma réplica da lendária cozinha da apresentadora, que teve a história contada no filme "Julie e Julia" (2009), com Meryl Streep no papel principal. "Todos daqui cresceram sobre a influência da Julia, todo mundo entendia muito de comida francesa. Eu nunca comi um prato de um restaurante francês na minha vida, porque na Amazônia não tem restaurante francês, em Boston onde eu morava, não tinha dinheiro para ir em um restaurante francês. Então, eu não tinha ideia, era o que eu achava que era. Um dos competidores, por exemplo, está na França toda semana, ele trabalha na França. Os outros também já visitaram a França em algum momento da vida." Julia e Jaíne Jaíne nasceu em uma pequena vila na Amazônia, na cidade de Costa Marques, na fronteira com a Bolívia. Ela relembra um fato que aconteceu quando tinha seis anos de idade, e que além de marcá-la por toda vida, definiu essa trajetória. "Um dia eu vi um clipe da Julia Child em um programa infantil, era algum outro programa do Brasil mostrando o programa daqui dos Estados Unidos, que chamava Mister Rogers Neighborhood. Eu vi a Julia fazendo uma tigela de espaguete e ela comia com hashi (os palitos japoneses). Eu achei muito divertido e fiquei com aquilo na cabeça. Cresci cozinhando por conta, sem receita, tentando aprender. Quando eu era adolescente lançaram Julie e Julia, com Meryl Streep, aí vi a Julia pela segunda vez no cinema e me apaixonei de vez. Coloquei na minha cabeça que um dia iria aprender a cozinhar como ela e que iria para a França aprender a cozinhar como ela fez. E isso eu tinha 14, 15 anos no meio da floresta", diz a vencedora do reality. Mas, a vida e a família pediam caminhos mais objetivos. Jaíne se tornou advogada e arquivou os planos até a morte repentina do pai em um acidente. O momento de guinada para ela chegar à conclusão: "Eu não vou gastar nenhum segundo da minha vida para fazer algo que eu não ame muito". Jaíne embarcou com o namorado e com o desejo de estudar na escola de gastronomia fundada por Julia Child, em Massachusetts (EUA). Só na terra do Tio Sam descobriu que o curso era caro demais e, na época, tinha também inglês de menos. Mas, se entregou aos livros de culinária, através deles aprendeu e aperfeiçoou a língua de tal forma que começou a escrever sobre comida para publicações americanas especializadas. Em mais um momento decisivo, daqueles que emocionam, na cara e na coragem Jaíne mandou uma sugestão para a revista Cherry Bombe para escrever sobre a conexão da menina do meio da Amazônia com Julia Child. Sugestão aceita, a revista bateu recordes de vendas e por causa do artigo veio um telefonema para convidá-la a participar do reality show. Autenticidade Até ser a grande vencedora, Jaíne não sabia que o prêmio seria o curso completo na badalada escola francesa. Há onze anos, ela guardava dinheiro para um dia poder estudar no mesmo local onde Julia aperfeiçoou suas habilidades com as panelas, no forno e no fogão. "Para mim, a maior lição do programa todo é que você não precisa fazer diferente na vida do que você é. Parece clichê quando as pessoas falam que a autenticidade ganha. Mas se você se esforça demais, não é natural. Eu só cozinhei comida que eu gosto de comer e funciona. Aparentemente, mais gente gostou delas", brinca. Jaíne está escrevendo livros de receitas e negocia a publicação com uma grande editora americana especializada em gastronomia. Mas, um dos grandes desejos da rondoniense é poder levar suas receitas e adaptações das cozinhas francesa e americana, um dia, também ao público brasileiro.

    Coproduzido por Txai Suruí, "O Território" leva luta dos uru-eu-wau-wau aos cinemas americanos

    Play Episode Listen Later Aug 20, 2022 7:51


    Às vezes tão perto e outras tão longe: é assim que podemos sentir as dores da Amazônia. Mas quando as mazelas enfrentadas por um povo como o uru-eu-wau-wau são escancaradas no telão, é impossível não compartilhar a angústia das populações indígenas ameaçadas. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles. O documentário "O Território", que entrou em cartaz nos Estados Unidos na última sexta (19) e chega aos cinemas brasileiros no dia 8 de setembro, leva o espectador a esse pedacinho de terra onde o povo indígena agoniza – cercado de fazendas – e trava uma luta incansável contra queimadas, exploração e desmatamento feitos por posseiros, grileiros, garimpeiros, colonos e tantos outros invasores de terras protegidas na Amazônia brasileira. O filme ganhou o Prêmio do Público e o Prêmio Especial do Júri no Festival Sundance de Cinema de 2022. Dirigido pelo americano Alex Pritz, o filme foi coproduzido pelos uru-eu-wau-wau. São eles quem contam a própria história e assumem o controle da narrativa, em muitos momentos com o equipamento nas próprias mãos. Alex Pritz lembra que leu reportagens sobre Neidinha Bandeira, o que o inspirou a querer saber mais sobre a luta da ativista para preservar o que é da comunidade. O resultado foram três anos de filmagens. Alex foi oito vezes ao Brasil neste período para registrar de perto a luta de Neidinha e do povo, e ficou na Amazônia por meses a fio. "O tipo de documentário que eu gosto de fazer são os que revelam o que está acontecendo no momento, sem roteiro, simplesmente mostrando o que ocorre quando estamos lá. Um filme feito no presente, não para contar para a audiência o que houve na semana passada, mas mostrar o que estamos presenciando. Não dá para colocar isso em um roteiro; somente estando lá e captando o que está acontecendo", conta Pritz. O filme começa na primeira visita do diretor à Amazônia, em 2018, logo após as eleições presidenciais que elegeram Jair Bolsonaro, um momento que o cineasta sabia que poderia ser impactante para a comunidade em termos de falta de assistência ao povo e de apoio a invasores. A trama real O documentário mostra de perto as disputas e tensões entre indígenas e brancos: de um lado estão a ativista Neidinha Bandeira, o jovem líder Bitaté e os poucos indígenas que restaram na comunidade (hoje são cerca de 200); e, do outro, os invasores, que no filme também explicam seus pontos de vista. Gabriel Ushida, fotógrafo brasileiro vive na Amazônia há seis anos, foi um dos produtores locais. "A gente queria ouvir todos os lados possíveis. Mais do que um ou dois lados, a gente queria ouvir todos os envolvido na história para entender, para aprender. Estando perto da Neidinha e dos uru-eu-wau-wau, a cada momento, acontece uma coisa, toda semana uma guerra", relata conta Gabriel Ushida. "A gente lembra quando o Bolsonaro tomou posse, a gente estava numa aldeia e poucos dias depois já houve uma invasão imensa com centenas de pessoas em uma aldeia uru-eu-wau-wau. São várias urgências. Toda semana tem uma urgência." "O Território" é sobre a luta pela sobrevivência, mas acima de tudo sobre a coragem da comunidade – que vive diante de ameaças e mortes – e as maneiras encontradas para proteger a floresta tropical. "A gente só tinha que estar pronto para filmar e para correr de um lado para o outro. A gente queria respeitar esse momento, a vida, o processo de cada. Por isso, a gente usava uma equipe muito pequena: às vezes, eram apenas duas pessoas na equipe acompanhando, porque a gente queria interferir o mínimo possível e ser muito observacional", frisa.  O documentário revela que, na esperança de buscar justiça, a comunidade também se arrisca para montar sua própria equipe de mídia, capturando com drones e câmeras ações ilegais na floresta. Estreia na produção executiva O cineasta indicado ao Oscar Darren Aronofsky ("Cisne Negro") é um dos hollywoodianos de renome que assinam a produção. Mas quem conhece de perto a luta é Txai Suruí, filha de Neidinha e que ficou mundialmente conhecida quando participou da abertura da COP 26, em Glasgow. Ela é a produtora-executiva do documentário, esteve em Los Angeles para a estreia em circuito americano, e leva a voz da aldeia também para o mundo. "A gente quer que o filme seja um instrumento de transformação e de mudança, não só no Brasil mas no mundo inteiro. A gente está usando o filme para abrir diálogos com outros governos, por exemplo, sobre supply chain (cadeia de abastecimento), estamos falando sobre as leis que estão sendo discutidas aqui no Estados Unidos sobre as mudanças climáticas, leis que estão sendo discutidas na União Europeia sobre desmatamento zero", contextualiza a jovem, à RFI. "O filme é mais do que contar a nossa história: é um instrumento de movimentação, de ação. Qualquer um que a gente chega e pergunta: 'você sabe que a Amazônia está sendo desmatada?', a pessoa fala 'sim, eu sei'. Mas ela realmente não tem noção do que está acontecendo lá ou então ela não tem noção do papel dela, o que ela pode fazer em relação a isso", afirmou. "O filme para mim não acabou, está apenas começando", disse Txai. A produtora-executiva também compartilhou com a RFI como tem sido esses últimos quatro anos para o povo uru-eu-wau-wau. Ela ressalta que o Brasil "nunca foi um país bom" para os povos indígenas, mas os estragos chegaram a níveis inéditos sob o governo Bolsonaro.  "Ele não só se omite: ele incentiva a invasão dos nossos territórios. E Bolsonaro nunca mentiu. Antes mesmo de ser eleito, falou que não iria demarcar um centímetro de terra para indígena ou quilombola – isso está no filme também", aponta Txai. "O que a gente viu durante esses quatro anos foi o enfraquecimento das nossas leis ambientais, enfraquecimento dos nossos órgãos ambientais, de fiscalização, do Ibama, do ICMBio, da Funai. O que a gente viu foi mais do que a omissão, mas um incentivo à ilegalidade, um incentivo para destruir a Amazônia, um ataque inclusive por via do Legislativo para colocar a mineração dentro dos nossos territórios, para diminuir os nossos territórios. Ainda que esse governo mude, a gente vai ter um trabalho imenso, um caminho imenso a percorrer não para avançar, mas para retornar tudo aquilo que a gente já tinha conquistado e perdeu", sublinha. O filme é uma coprodução Brasil, Dinamarca e Estados Unidos e está sendo lançado pelo National Geographic Documentary Films e O2 Play.

    Filme sobre Copa do Mundo de 2014 no Brasil é sucesso em Israel

    Play Episode Listen Later Aug 14, 2022 4:08


    O Brasil e o futebol são personagens do filme “De volta ao Maracanã”, do cineasta argentino-israelense Jorge Gurvich, 64 anos, que entra em sua quarta semana de exibição nos cinemas israelenses. A película é uma coprodução Israel-Brasil-Alemanha e conta a história de três gerações – avô, filho e neto – que fazem uma viagem inesquecível ao Brasil durante a Copa do Mundo de 2014 para ver a Seleção Brasileira jogar. Daniela Kresch, correspondente da RFI em Tel Aviv Aos poucos, a complexidade da relação entre os três e os obstáculos para o sonho de ver o Brasil vencer no Maracanã se misturam. O diretor, que nasceu na Argentina, mas imigrou para Israel aos 20 anos para estudar cinema, é um apaixonado por futebol e, dessa paixão, surgiu a ideia do roteiro. Gurvich realizou mais de uma centena de filmes, documentários e longas-metragens, mas este reúne suas suas maiores paixões: futebol e América Latina. Aliás, Jorge Gurvich diz que o futebol “salvou sua vida”, porque, quando menino, ele se interessava mais por jogar em peladas em seu bairro do que se envolver em política, ao contrário de muitos de seus amigos, que sofreram com a ditadura militar em seu país natal. “Durante a ditadura militar na Argentina, nos anos 70, muitos amigos judeus se envolveram na resistência e muitos deles desapareceram ou foram jogados no rio ‘dormindo'”, contra Gurvich. “Eu era o idiota que jogava futebol quatro horas por dia. Então, eu sempre digo que minha paixão pelo futebol me salvou”. O diretor conta que, quando jovem, ouviu seu pai falar sobre o famoso “Maracanaço”, quando torcedores brasileiros cometeram suicídio depois da derrota da Seleção para o Uruguai na final da Copa de 1950. Então, o Mundial de 2014 foi a oportunidade de falar de três gerações envolvidas com as duas maiores tragédias do futebol brasileiro: o “Maracanaço” e o “7 a 1”, a derrota do Brasil para a Alemanha. Jorge Gurvich afirma que o filme tem uma mensagem universal: é uma declaração de amor ao futebol latino-americano e, especialmente, ao Brasil. Tanto que o título da película em hebraico é “Brasil, meu amor”. “O filme tem alma brasileira: a ideia de que a vida é um carnaval, que não existe o amanhã, só o hoje”, diz Gurvich. “Mas não é um filme sobre futebol. O futebol é a desculpa para a narrar uma história sobre segredos de família, sobre relações familiares de três gerações". Ator israelense teve de aprender português “De volta ao Maracanã” tem, no elenco, atores israelenses e brasileiros. O ator israelense Asaf Goldstien teve que aprender português para o filme, bem como o veterano ator brasileiro Antônio Petrin, que aprendeu frases inteiras em hebraico. A atriz brasileira Camila Amado também está no elenco, assim como os israelenses Rom Barnea e Hadas Kalderon. O filme está no circuito international há três anos e participou de festivais nos Estados Unidos, na Europa, em Israel e na América Latina. No Brasil, passou apenas uma vez na 23ª edição do Festival de Cinema Judaico de São Paulo, em 2019.  Ainda não há data para lançamento comercial no Brasil, mas, em Israel, a película foi lançada no final de julho deste ano em 26 salas de cinema por todo o país. Os espectadores, segundo o diretor, se emocionam muito. “Depois da pandemia, as pessoas mudaram seus hábitos e vão menos ao cinema. Apesar disso, o filme entra na quarta semana de projeções nos cinemas, e as pessoas têm ido ver o filme e se emocionado. Este filme foi feito com o coração para o coração do público”, relata Gurvich. 

    Pianista brasileiro pede mais apoio do governo para revelar novos talentos no país

    Play Episode Listen Later Aug 13, 2022 9:53


    A primeira vez que subiu ao palco, o pianista brasileiro Pablo Rossi tinha apenas sete anos. Era o início de uma carreira virtuosa. Ele foi o mais jovem solista a tocar com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e o mais novo a receber o prêmio Nelson Freire. Não por acaso, Pablo foi um dos seis pianistas convidados para se apresentarem no Festival La Roque d'Anthéron, no sul da França, um dos mais importantes do mundo, na homenagem ao pianista brasileiro morto em novembro de 2021. Por Vivian Oswald, correspondente da RFI em Londres Pablo conheceu Nelson Freire com apenas 12 anos. Desde então, encontraram-se muitas vezes. O grande mestre da música viu-se naquele jovem talento e o alertou sobre as glórias e as agruras de quem começa tão cedo uma carreira concorrida e que exige tanta dedicação. Eles se conheceram na casa de um amigo em comum em Curitiba, onde Pablo tinha aulas com a professora Olga Kiun, russa que se estabeleceu no Brasil no começo da década de 1990. Ali, Pablo tocou pela primeira vez para que Nelson o ouvisse. Foi um encontro especial, o começo de um contato que durou anos e ajudou o então jovem pianista a bater o martelo sobre a decisão de partir para Moscou, onde se formou no Conservatório Tchaikovsky. Desde que se conheceram, Pablo não perdeu uma oportunidade de tocar para Nelson, que, por sua vez, o escutava com atenção e tinha sempre uma palavra precisa para contribuir para seu aprimoramento. “Tive o privilégio de estar na plateia do seu último concerto no Carnegie Hall em Nova York, quando solou o grandioso concerto no. 2 de Brahms com a Orquestra Sinfônica do Teatro Marinsky. Como sempre foi uma performance memorável, ele estava no auge! Depois fomos jantar e ele, sempre muito espirituoso, adorava falar de cinema, que também era uma paixão dele. Os encontros com Nelson sempre eram muito agradáveis, porque ele transmitia sua erudição e conhecimento não de maneira catedrática, mas sempre muito descontraidamente, ele era um verdadeiro "pândego" fora dos palcos”, brinca. "Nelson, era um tipo raro de pianista, daquela "velha geração" dos grandes. Em que você precisava ser um artista completo, que tivesse conhecimento de teatro, literatura, cinema, artes em geral. O tocar piano ia muito além de acertar as notas com eficiência, era uma arte de transmitir algo único à plateia”, descreve Pablo. Mais Nelsons Freires Para o pianista, o Brasil precisa de mais Nelsons Freires. Para isso, defende que as instituições de ensino de ponta tenham apoio do governo. Mas destaca exemplos de sucesso, de professores que conseguiram criar um legado de formação pedagógica no país. Um deles é o pianista Eduardo Monteiro, da Universidade de São Paulo, que participou da homenagem a Nelson na França. Ele ainda cita a professora Olga Kiun, que já formou gerações de pianistas, hoje espalhados pelo mundo. “Festivais de música como este de La Roque d'Anthéron são instrumentos indispensáveis para a descoberta, formação e divulgação das novas gerações de pianistas e [outros] músicos. Eles têm apenas a possibilidade de trazer entretenimento e cultura para as plateias, mas também são essenciais para incentivar os jovens artistas. Iniciativas assim não nascem e crescem da noite para o dia, são gestadas por anos de contínuo serviço e trabalho de qualidade, com planejamento e estratégia, fruto da dedicação de gestores que acreditam no poder modificador da música e da arte. Que tenhamos mais Nelsons Freires, mas também Renés Martins [diretor artístico do festival de La Roque D'Anthéron], para que a nossa música e os nossos talentosos músicos possam continuar se desenvolvendo e levando o nome do nosso país e do nosso povo para o mundo!", defende Pablo. O pianista afirma que Nelson Freire se preocupava com o futuro da novas gerações de pianistas brasileiros. "Com o Nelson acabou uma era em que o artista se preocupava, antes de mais nada, com a essência da música. Ele não entendia as novas gerações que querem inventar personalidades, que não eram verdadeiras, que achavam que era preciso ser diferente, exótico. Essa é uma visão que está se perdendo hoje. Ele tinha isso da velha guarda, que ganhei em Moscou, de que você tem que se distanciar o máximo possível, não tem que atrapalhar. Ele representava um pianismo que não existe mais. Isso fica para as novas gerações de maneira implícita. Ele tocando era muito discreto, não fazia gestos desnecessários. Estava sempre muito envolvido com a música dele. E ele tinha essa preocupação, alertava para que a gente não se deixasse cair nessa armadilha”, afirma. Agenda Após três anos de pandemia, a agenda de Pablo está mais agitada do que nunca. Pouco antes do Festival de La Roque D'Anthéron, o pianista se apresentou em Londres, em um concerto em comemoração aos 200 anos da Independência do Brasil, organizado pela Embaixada do Brasil na capital britânica. Ele agora toca no Brasil com a Orquestra Experimental de Repertório (OER), no Teatro Municipal. De lá, volta a Londres para o recital de 30 anos do Key Board Trust. Ele ainda se apresenta em recital no Zagreb, na Croácia, e em Basileia, na Suíça, no festival de música "Stars in the Rheim”. Em outubro, o músico volta a Curitiba para um recital solo e outro com orquestra, e vai para São Paulo, onde toca no Teatro Hebraica com a Orquestra Sinfônica de Heliópolis, com o maestro Isaac Karabtchevesky. Em novembro, estará em Genebra para o concerto "Música pela Mudança", na ONU, quando se apresenta com convidados. O programa de Pablo no festival francês foi uma escolha conjunta com o diretor artístico, René Martin. "A ideia era ter uma performance curta, de 15 minutos, mas que pudesse transmitir nossa essência como músico. Eu, não à toa, escolhi Schubert, que é um compositor com o qual me identifico muito, em que o lirismo e a poesia estão encrustados nas notas musicais", destaca o pianista.

    Best-seller Maytê Carvalho lança livro sobre o poder da persuasão nos Estados Unidos

    Play Episode Listen Later Aug 6, 2022 8:15


    O maior mercado editorial do mundo também é conhecido por ser um dos mais fechados aos escritores estrangeiros. Uma estimativa otimista aponta que apenas 3% dos livros publicados nos Estados Unidos são traduções, isso já adicionando os mangás e obras de idiomas que são a maior fatia desse percentual. Por isso acaba sendo uma uma odisseia para quem quer publicar um best-seller de outro país em solo americano. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles Muitas portas fechadas, diversos "nãos" e e-mails sem respostas só fizeram a escritora brasileira Maytê Carvalho persistir ainda mais em publicar sua obra no país onde mora desde 2019. A edição em inglês de “Persuasão – como usar a retórica e a comunicação persuasiva na sua vida pessoal e profissional" ("Persuasion: How to Pitch your Ideas and Own the Room") vai ser lançada, oficialmente, em 19 de agosto em Los Angeles, em uma das maiores e mais antigas cadeias de livraria dos Estados Unidos. Maytê escreveu a obra em português quando já morava nos Estados Unidos em 2020, e a lançou durante a pandemia de Covid-19. Já vendeu mais de 25 mil exemplares no Brasil. Mas, para entrar no mercado americano, a escritora não fez apenas uma tradução do livro: teve que adaptá-lo à realidade local. "Eu fiz uma pesquisa com leitores dentro do meu recorte demográfico e psicográfico. Tenho um público-alvo muito claro, minhas leitoras são mulheres com 25 anos ou mais que buscam não somente um conteúdo para ajudá-las na vida profissional, mas principalmente na vida pessoal. Depois desses grupos-teste, a gente entendeu que as nuances culturais e o ethos da cultura americana é muito diferente da brasileira, então eu praticamente reescrevi o primeiro livro. Mas eles têm os mesmos tópicos e sumário, porém com abordagens diferentes", explica a escritora. A edição americana adaptou, por exemplo, o tópico sobre retórica aristotélica, que está muito mais difundido no país. No Brasil, normalmente, o conteúdo não faz parte do currículo escolar, porém nos Estados Unidos os conceitos de argumentação são estudados no Ensino Médio e foram popularizados com os campeonatos de debates promovidos pelas próprias escolas. Com conteúdo, mas informal A autora classifica o livro com um guia utilitário, uma ferramenta com exercícios para colocar em prática a capacidade de influenciar e persuadir os outros, já com uma teoria mais mastigada, com linguagem coloquial, e que atualiza o milenar conceito de persuadir para a nossa realidade do agora. "É uma abordagem da persuasão, mais empática e humana. A gente vem de um histórico na literatura de negócio, na qual essa abordagem é masculina, predatória e 'ganha-perde'. O que eu proponho é que ela seja 'ganha-ganha', horizontal e empática. Eu acredito que esses são os maiores ensinamentos que a minha abordagem do tema oferece", conta Maytê. Dificuldades x oportunidades Desde que lançou o livro no Brasil a intenção era republicar a obra nos Estados Unidos, mas a escritora sentiu resistência do mercado local. Diferentemente do Brasil, aqui é necessário ter um agente literário para então conseguir entrar em uma editora, e o mercado dá pouquíssima abertura para escritores estrangeiros. "Era porta fechada atrás de porta fechada. Eu mandei mais 50 e-mails para agentes literários e foram mais de 50 'nãos'. Alguns nem me responderam, só ignoraram. Também fui atrás de muitos representantes de autores latinos, que também passaram a oportunidade", relembra. Quando Maytê estava quase se entregando à autopublicação, encontrou outra brasileira, Ana Silvani, que tem a editora Webook, com foco em dar visibilidade e amplificar as vozes latinas. Em poucos meses, a publicação virou realidade e vai ter lançamento em 19 de agosto, justamente no Dia Nacional das Latinas, na livraria Barnes & Noble, em Los Angeles. A versão em e-book já está disponível online. Ouse Argumentar Ao mesmo tempo em que a escritora lança nos Estados Unidos esta versão em inglês do primeiro livro, no Brasil, acaba de chegar às livrarias a segunda obra da autora: "Ouse Argumentar – comunicação assertiva para sua voz ser ouvida" (editora Planeta), com o prefácio de Leandro Karnal. De acordo com Maytê, o livro revisita os conceitos da retórica, criados na Grécia há mais de 2.300 anos em uma sociedade puramente de vozes masculinas, onde a mulher não era vista como agente político. "A proposta do livro não é de maneira alguma desqualificar a obra de Aristóteles, porque ela é uma obra atemporal e clássica e a gente não pode julgar o autor pelo seu tempo. Mas, ao revisitar do ponto de vista feminino, e eu escrevo deste lugar e para mulheres, esse é o grande diferencial da minha segunda obra. Nos primeiros capítulos falo muito sobre silenciamento, com se apropriar da sua voz, como a nossa socialização interfere na docilização da nossa fala e muitas vezes somos chamadas de agressivas, quando somos apenas assertivas. A grande mensagem que eu trago é: a sua voz importa e ela será ouvida", explica. Além de escritora, Maytê é pesquisadora no Instituto de Tecnologia e Inovação de Berkeley Global Society e Diretora de Crescimento e Estratégia da CUBO NYC. Atua também como professora de Persuasão e Retórica na ESPM e na Casa do Saber. Foi vencedora do reality O Aprendiz, em 2008, e em 2016 conquistou investimento no programa Shark Tank. Nos planos da autora, está também publicar esse segundo livro nos Estados Unidos e em Portugal.

    Dupla catalã que fez viagem de bicicleta pelo Brasil carrega a identidade musical do país em suas canções

    Play Episode Listen Later Jul 31, 2022 7:09


    Marcel e Júlia, que hoje vivem em Manlleu, na Espanha, têm dupla nacionalidade e acreditam que sempre levarão o Brasil junto com eles. Filha de mãe brasileira e pai catalão, a artista Jùlia Arrey carrega, além da dupla nacionalidade, uma bagagem repleta de Brasil e Espanha. Ela, que nasceu num município espanhol chamado Vic, na região da Catalunha, tinha três anos de idade quando foi viver em Juazeiro da Bahia,  lugar de “calor brabo”, como define com um sorriso no rosto.  Por Ana Beatriz Farias de Oliveira A estada ali durou quatro anos e, aos sete, a menina já estava fazendo as malas para mudar de cenário pela segunda vez. Era hora de voltar à Espanha.  Tempos depois, em 2016, a artista fez o caminho de volta ao sertão brasileiro. Desta vez, foi junto seu companheiro, o músico Marcel Lázara. A expedição feita pelo casal foi à base de muita improvisação. Primeiro, foram ao Juazeiro de Júlia, no interior da Bahia. Logo, de bicicleta e na companhia dos seus dois cachorros, Anouk e Rua, estiveram por vários outros lugares até chegar à foz do Rio São Francisco. Enquanto isso, passavam uns dias aqui, outros ali. Amizades e histórias iam se acumulando ao longo do percurso. “Nós nos deixávamos guiar pelas pessoas que diziam ‘não vai embora, fique aqui' e ficávamos uma semana na casa de alguém. Eles nos viam, dois europeus, no meio do sertão, de bicicleta, com dois cachorros e um carrinho atrás e todo mundo pensava: ‘o que eles estão fazendo aqui?'”, conta Júlia. Mudança de planos Antes de ser acolhida e abraçada pela natureza afetuosa do Brasil profundo, a dupla, que acabou se deixando levar pelo ritmo das trocas que fazia com as comunidades das cidades nordestinas que visitava, tinha um objetivo definido. Os dois, a princípio, queriam montar um Centro Cultural à beira do Rio São Francisco. Chegando à região, Júlia e Marcel perceberam que a teoria não se aplicava à prática e que as necessidades locais não eram exatamente as imaginadas por eles. Foi então que recalcularam a rota do caminho em direção a um destino musical. A vida itinerante durou cerca de 2 anos e proporcionou a Júlia, que até então não vivia de música, um encontro cara a cara com a arte, a partir do toque da zabumba. “Quando chegamos lá, que Marcel tava todo dia com o violão embaixo do umbuzeiro, e eu tinha a necessidade de acompanhá-lo nesse caminho. E ao longo do caminho, eu comecei a introduzir o instrumento, porque conhecemos uma galera que utilizava o instrumento e foi quando eu vi que fazia melhor do que eu pensava”, explica. Neste momento, Marcel a interrompe carinhosamente para dizer: “Ela pegou a zabumba e era como se tivesse tocado…” e Júlia completa dizendo “a vida inteira”. Ele concorda. “A vida inteira. Isso mesmo”. Sons vividos Para Marcel, o som que o Brasil faz se tornou marcante. A identidade musical encontrada por ele e por Júlia no país virou pano de fundo para um ponto de inflexão importante da história dos dois.“Eu fiquei enamorado do nordeste, do sertão, do forró, do xaxado, do maracatu, de tudo isso. Da zabumba… Acontece que nos encontramos também musicalmente, que era um aspecto da nossa vida que não tínhamos explorado (juntos) ainda. Foi tudo”, comenta o músico. Durante a viagem, a proposta do casal não era somente observar e absorver o que se via e escutava. A interação com a população local permitia o nascimento de criações artísticas produzidas a várias mãos. Um dos momentos mais intensos de troca entre os dois e os moradores dos locais visitados durou meses. Aconteceu em Piaçabuçu, quando Marcel e Júlia conheceram uma associação que atua na preservação do Rio São Francisco, a “Olha o Chico”. Marcel lembra com bastante carinho deste momento. “É uma associação que trabalha com a música para conscientizar. Com eles, moramos três meses, que foi quando fizemos uma música juntos, gravamos com eles. Lá foi o lugar mais especial, eu acho”. Todas as vivências e percepções renderam ao casal um disco, “Pedalant Endins”, que é o retrato sonoro do que experimentaram pelo caminho de incertezas e descobertas feito no nordeste brasileiro. Além disso, Marcel e Júlia, que oficializaram seu projeto musical quando retornaram do Brasil para a Espanha, fizeram um documentário seriado sobre o que viveram na viagem. Uma porção do Brasil na Espanha De acordo com eles, a recepção do álbum, gravado de forma simples - para transmitir a pureza da experiência, segundo os artistas - foi muito boa e aproximou a dupla da comunidade brasileira que vive na Catalunha. Ainda mais porque, nos shows feitos para divulgar o trabalho, o clima era de intimismo e proximidade com o público. Hoje, o projeto “Marcel e Júlia” cresceu e os artistas sobem ao palco acompanhados de uma banda, com uma sonoridade mais potente, que vem como um grito de reivindicação relacionado aos efeitos das mudanças climáticas, tema que tem sido recorrente na obra do casal, que, no ano passado, lançou o disco “En òrbita” e que, há pouco tempo, deu à luz a faixa musical “Que no s'acabi mai”. Apesar de os trabalhos atuais não levarem diretamente consigo referências brasileiras, os músicos, que têm dupla nacionalidade e carregam o Brasil “pra sempre”, enxergam no que fazem atualmente os rastros do que viveram lá atrás. Para exemplificar, falam da zabumba, que acompanha Júlia nos palcos até hoje, e das mesclas presentes no seu som. “Tem muitas músicas com sonoridade daqui, europeia, mas que têm um ritmo, um maracatu… Os ritmos ficam pra sempre, eu acho”, pontua Marcel. E Júlia completa: “o que você aprende você não esquece”.

    Produtora cinematográfica brasileira dirige festival internacional na Itália

    Play Episode Listen Later Jul 23, 2022 5:18


    A Isola del Cinema, o maior festival cinematográfico de verão em Roma é dirigido por uma brasileira: Joana de Freitas Ginori. Ela nasceu em Brasília, em 1985, e no mesmo ano veio morar em Roma. Na capital italiana graduou-se em artes e espetáculo na Università degli Studi Roma Tre. Cursou cinema também na França pelo programa Erasmus (European Region Action Scheme for the Mobility of University Students) para estudantes europeus. Joana encontrou a RFI em Roma. Gina Marques, correspondente da RFI em Roma. “Em Roma, eu abri a minha produtora que se chama Ulalà Film & Co. Eu produzo documentários curtas e também o objetivo é produzir longas para festivais de cinema. Também faço publicidade, e tudo que for bom para trabalhar, mas meu objetivo é cinematográfico”, disse. O Festival Isola del Cinema é uma mostra de cinema a céu aberto no centro histórico da capital, que acontece há 28 anos na Ilha Tiberina, as margens do rio Tibre. Joana explicou o que faz como diretora artística deste grande evento. “Eu escolho toda a programação, convido os hóspedes, seleciono os filmes. O Festival dura 80 dias, de junho até 3 de setembro. Então, vocês podem imaginar a quantidade de artistas e de filmes que a gente convida e oferece para o público.” Ilha Mundo O Festival exibe filmes italianos e internacionais. Muitas obras não fazem parte da grande distribuição cinematográfica mundial. Para que o público possa conhecer estes longas-metragens foi criada a seção Isola Mondo. “Uma das coisas mais interessantes que eu cuido com maior atenção é a Isola Mondo. Nesta seção, trabalhamos em colaboração com embaixadas e institutos culturais, hospedando filmes internacionais que aqui não têm distribuição. Em 2022, temos alguns países convidados, entre eles Cuba, Japão e o Brasil. Não é a primeira vez que o Brasil participa. Este ano, tivemos a honra de convidar o diretor pernambucano Camilo Cavalcante. Ele veio estrear aqui em Roma, na Isola del Cinema, o último filme dele, King Kong en Assunciòn”. Sobre o cinema brasileiro, Joana lamenta que poucos filmes são distribuídos na Europa. “Eu sempre tive uma grande atenção com o cinema sul-americano e brasileiro, só que meu ponto de vista é europeu, italiano. O que chega aqui do cinema brasileiro é muito pouco. A verdade é essa: nós não temos muitas ocasiões aqui para conhecer o cinema brasileiro novo. Tem interesse, mas não é muito alimentado. Por isso que a gente faz essas projeções. O que eu acho do cinema brasileiro? Eu acho que tem uma grande cultura do cinema, muitos jovens e muita energia. Só que esse não é um bom momento, eles são limitados”. Candanga romana com pé em Paris Joana pode ser definida como uma candanga romana com um pé em Paris. Na Itália, somente em junho deste ano foi aprovado o uso do sobrenome materno. Até então era admitido apenas o sobrenome paterno. No entanto, ela faz questão de manter o sobrenome da mãe, a brasileira Daniela de Freitas e o do pai, Giorgio Ginori. “Devo muito aos meus pais. Minha mãe, uma mulher apaixonada pelas artes, estudou em escolas francesas e suíças, mas nunca perdeu a identidade brasileira. Na nossa casa era assim, música, filmes e livros sempre foram franceses e brasileiros. Ela sempre nos educou falando em português com orgulho de ser brasileira”. Giorgio Ginori é produtor cinematográfico e fundador do Festival Isola del Cinema em 1995. Ele trabalhou como programador e diretor da Rai, a emissora pública italiana de televisão, durante os anos 1980 e 1990. “Meu pai me transmitiu a paixão pelo cinema. Ele foi ator de teatro e desde criança tínhamos contato com o mundo artístico internacional. A sétima arte abre as janelas do mundo. Você viaja com a mente com o corpo permanecendo no mesmo lugar, por exemplo, aqui na Ilha Tiberina”. Joana também sente uma forte ligação com a França. Sua irmã por parte de pai, a ítalo-francesa Anais Ginori, é escritora e jornalista correspondente em Paris do jornal italiano La Repubblica. “Tenho três sobrinhos franceses, portanto a língua francesa é familiar para mim” contou sorrindo. Em 1956 Roma e Paris assinaram um acordo de cidades-irmãs exclusivas. Este tratado representa uma exceção, pois as grandes metrópoles podem ter acordos, chamados de geminação, com outras cidades com as quais mantém políticas distintas e laços especiais de cooperação. O acordo estabelece que Roma tem e sempre terá só uma cidade-irmã, Paris. Da mesma maneira, a única irmã de Paris é Roma. O pacto resume-se em “Apenas Paris é digna de Roma, apenas Roma é digna de Paris”. Para ressaltar esta irmandade, este ano Isola del Cinema e Paris Plage fizeram uma parceria. De 9 a 13 de julho o festival romano organizou a Nouvelle Vague nel Tevere, dedicando sua programação ao cinema francês. Ao mesmo tempo, Paris hospedou o evento Dolcevita- Sur-Seine, com filmes e mostras italianas nas margens do Sena. “Foi maravilhoso. A nossa ideia é ampliar o evento criando parcerias com outras cidades europeias que se encontram a margem de rios. Quem sabe poderemos amplificar a outras cidades no mundo” afirmou a diretora artística. Sobre os planos futuros, Joana ressaltou: “Eu gostaria de poder continuar fazendo esse trabalho. Crescer com a minha produtora e poder investir em projetos culturalmente interessantes. Não quero ter que me vender para o comércio. Esse é meu objetivo. Não sei se eu vou conseguir”, conclui. 

    Cacique brasileiro e artista francesa levam luta por indígenas do Brasil ao sudeste da França

    Play Episode Listen Later Jul 9, 2022 8:03


    Eles atravessaram o oceano Atlântico e levaram a batalha pelos povos indígenas brasileiros para o pé dos Alpes franceses. O cacique Darci Tupã Nunes de Oliveira e a artista e ativista francesa Delphine Fabbri Lawson se conheceram por meio de um trabalho de luta e resistência no Brasil que atualmente realizam no sudeste da França. Daniella Franco, da redação da RFI No Brasil, Tupã e Delphine fundaram o Instituto Nhandereko, que foi vinculado à organização de pesquisa e criação Anahata, que ambos também criaram e gerenciam em Grenoble, onde estão baseados atualmente. Em entrevista à RFI, Delphine contou como o casal atua. "O Instituto Nhandereko foi criado na cidade natal de Tupã, Paranaguá, uma cidade Guarani Mbya, com o objetivo de fazer trocas culturais para cuidar da natureza, valorizando a cultura ancestral Guarani Mbya, mas também outras culturas indígenas através da agricultura, a espiritualidade, a medicina. Essas diferentes ações que desenvolvemos com o Instituto Nhandereko quisemos conectar aqui com a Anahata, uma outra estrutura baseada na França. Colocamos as duas em relação para fazer aqui o mesmo que propomos no Brasil, em locais de natureza, como a região da Chartreuse e do Vercors, para reconectar diferentes públicos", diz. O trabalho que Delphine Fabbri Lawson realiza junto aos povos indígenas não é recente e se tornou célebre na França. Recentemente, ela expôs algumas de suas fotos em uma imensa mostra sobre a Amazônia no Museu Dauphinois, em Grenoble. Ela se emociona ao relembrar o momento em que essas imagens foram produzidas. "Esses retratos foram feitos durante a Marcha de Mulheres Indígenas, em 2019, em Brasília, para defender o direito delas às terras demarcadas, em perigo devido ao governo Bolsonaro. Foi um momento muito forte de manifestação dessas mulheres, que fizeram rituais durante horas, diante da sede do governo brasileiro", afirma. Uma conversa, durante a manifestação, marcou particularmente a experiência da artista francesa em Brasília. "A uma das mulheres na marcha, que carregava um bebê, eu perguntei: 'você não tem medo de trazer o seu filho aqui, diante de todos esses militares armados?', e ela me respondeu: 'ele nasce com esse espírito de resistência porque ele não tem escolha, então, ele precisa correr esse risco e vir protestar comigo. Isso faz parte de sua história e sua existência'", relembra.   Uma marca permanente na vida A artista trabalha junto aos povos nativos da América Latina e da Ásia há mais de duas décadas e começou a se dedicar ao povo tupi-guarani há cerca de 15 anos. Ela relata que o início deste percurso não foi simples e marcou sua vida de forma permanente.  "Alguns antropólogos estavam procurando um fotógrafo para arquivar as pesquisas deles na Amazônia. E eu era muito jovem e não sabia exatamente o que era a Amazônia. Queria ser repórter de guerra e ir em busca da verdade para transmiti-la. Mas disse sim a esse trabalho e descobri o Brasil por acaso, através da Amazônia, onde os primeiros dias e semanas foram traumatizantes. Eu saí de uma periferia urbana para chegar nesse mundo maravilhoso, uma experiência que eu chamo de traumatismo positivo." Para ela, essa vivência foi primordial não apenas à sua carreira, mas à sua evolução pessoal. A artista define esse trabalho como "um engajamento para a vida inteira".  "Isso abriu uma parte do meu espírito e desde então eu soube que minha vida estaria para sempre conectada aos povos nativos. Passei alguns meses no Acre, foi transformador. Voltei para a França quando essa missão terminou, com um outro olhar sobre o mundo. Depois, a cada ano, quando eu podia, organizava meu trabalho e projetos voltados ao Brasil", relembra. "Continuei a investir na defesa dos direitos dos indígenas e a ajudá-los a desenvolver projetos que eles desejassem. Anos depois, fui batizada como 'Padju' pelo povo Guarani Mbya e hoje é como estar em família. Essa imersão para mim é importante no meu trabalho como artista, mas também como membro desta família por quem fui adotada", reitera. Uma luta em família O engajamento de Delphine resultou na união com o cacique Darci Tupã Nunes de Oliveira, da etnia Guarani Mbya, e na chegada do bebê Vera Xunu, hoje com sete meses. Tupã contou à RFI sobre como ocorreu sua vinda à França.  "Acredito que na nossa vida haja encontros sagrados e foi o que ocorreu com a 'Padju', a Delphine, há três anos. Ano passado, a convite dela, resolvi embarcar nessa aventura muito mágica. Vim para cá com esperança de fortalecer a luta pelo meu povo guarani, já que no Brasil nossos governantes não são a favor dos povos indígenas. Por isso, nossa batalha hoje é pela demarcação de nossas terras", salienta.  O cacique também descreveu como foi sua adaptação em Grenoble, onde chegou a ser recebido pelo prefeito da cidade, o ecologista Éric Piolle. Tupã afirma que foi acolhido com respeito e carinho na França, um comportamento que raramente percebeu junto aos brasileiros.  "No Brasil há muitos preconceitos não só em relação às nossas lutas, mas quando as pessoas veem o índio pintado, com seu cocar, ele não é valorizado. Quando eu cheguei aqui na França com os meus cocares, com os meus colares sagrados, em busca de um apoio melhor para o meu povo, fui recebido como um rei. O olhar dos franceses sobre a nossa cultura é magnífico. O índio, para eles, é o ser mais incrível da terra", afirma.  No segundo semestre deste ano, Delphine e Darci Tupã organizam um ciclo de conferências entre a França, a Itália e a Espanha, participam de um projeto de canto guarani nas escolas de Grenoble, e lideram um trabalho de colaboração para os futuros jogos indígenas dos povos das Américas, em dezembro, no Brasil. No ano que vem, o casal pretende realizar uma caminhada durante meses, saindo do Brasil em direção à América Central, passando por várias aldeias latino-americanas, em homenagem aos caminhos nômades realizados pelos povos indígenas.  O casal também promove uma série de videoconferências sobre a defesa do povo Guarani Mbya. O próximo encontro está previsto para ser realizado em 15 de julho, sob a mediação de Leslie Cloud, responsável pelo escritório dos povos nativos da ONG Normandy Chair For Peace. O evento pode ser acessado através da página da organização no Facebook.

    Passagem de autor de "O Pequeno Príncipe" pelo Brasil inspirou filme premiado em festivais

    Play Episode Listen Later Jul 3, 2022 5:55


    Quem vai à praia do Campeche, no sul da Ilha de Santa Catarina, passa pela avenida principal: a Pequeno Príncipe. A referência a um dos livros mais vendidos no mundo e que vai completar 80 anos em 2023 não é à toa. A avenida era a pista onde o então piloto Antoine de Saint-Exupéry pousava o avião do correio aéreo francês, nas décadas de 1920 e 1930. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles Por anos, a história foi contada na comunidade de pescadores da região e sempre ativou a imaginação sobre como a passagem pode ter influenciado o francês ao escrever, em 1943, um dos maiores clássicos da literatura. O filme "Dás um Banho, Zé Perri!” passeia pelos cenários onde pousava e passeava Exupéry e brinca com as possibilidades de os traços do livro – que já foi traduzido para mais de 250 idiomas – terem sido rabiscados nas visitas ao sul do Brasil. O curta-metragem percorre o circuito de festivais há seis meses, já levou 11 premiações e teve no mês de junho a primeira estreia mundial em um cinema, em Richmond, no estado da Virgínia (EUA). No Festival Independente de Curtas, de Los Angeles (Independent Shorts Awards), levou medalha de bronze nas categorias de fantasia e diretor estreante, para Zé Dassilva. História recontada Inspirado em toda memória afetiva que a cidade tem pela passagem do escritor de "O Pequeno Príncipe", o catarinense Zé Dassilva escreveu o roteiro há mais de 20 anos e agora estreia na direção com o curta-metragem. "É uma ficção ambientada em Florianópolis naquela época, onde um desenhista quer conquistar uma garota que diz que só vai ficar com ele se o sujeito levá-la para dar uma volta de avião. Para isso, ele manda uma carta para os aviadores franceses – mas, uma carta desenhada, porque ele não conhece o idioma deles”, explica. “Só um outro desenhista seria capaz de entender aquela carta e ir ao Brasil ajudá-lo. E o aviador desenhista que faz isso é justamente Saint-Exupéry", conta o diretor. Zé Dassilva é roteirista de novelas da TV Globo e é daqueles desenhistas que, por onde passam, colocam releituras no papel. E daí vem a conexão de artista para artista: será que assim como o catarinense dos dias de hoje, o francês do século passado também vivia com caderninho e lápis na mão desenhando tudo? Poderia ser aquele planeta distante de "O Pequeno Príncipe" uma ilha da América do Sul perdida no mar? A inspiração, para quem vive rodeado por essa história, nunca termina. No curta, os famosos desenhos de Saint-Exupéry ganham vida na tela e se misturam com a paisagem local. "Os personagens que Saint-Exupéry e o desenhista Celestino encontram ao longo da história fazem alusão ao livro. Até alguns desenhos do livro (feitos também por Exupéry) inspiraram cenas do filme. Construímos até um muro igual ao que Exupéry desenhou no livro, por exemplo." Filmagens em avião especialmente concebido O roteiro que levou duas décadas para sair do papel teve cinco dias de filmagem. O elenco uniu talentos locais com nomes conhecidos nacionalmente: Rodrigo Fagundes, Marcos Veras, Alana Ferri, Isis Pessino, Chico Caprario, Marcelo Perna, Gringo Starr, Severo Cruz, Renato Turnes, Paulo Vasilescu, Sandro Maquel, Arnaldo Braga, Arnaldo Batata e Chico Santos. E em um filme sobre aviador, o avião é essencial. "A gente construiu o primeiro avião cenográfico da história do cinema brasileiro. É um Breguet 14 – que era o avião que Exupéry usava –, feito em tamanho natural pelo escultor Michel Martins, a partir do projeto original”, afirma Dassilva. “Esse é um curta que teve dificuldades de longa. Cada cena era com atores diferentes, em uma locação diferente, a maioria delas externas e teve até cena em mar aberto." Para entender o título: Dás um banho, Zé Perri! Quem nasce em Florianópolis é carinhosamente chamado de “manezinho da Ilha” e, no vocabulário manezês local, com sotaque herdado da Ilha dos Açores, "Dás um banho" é uma expressão usada quando uma pessoa faz algo extraordinário – mas pode ser dita com tom irônico também. Já Zé Perri era como os pescadores chamavam o aviador. Claro, eles não falavam francês, assim como Exupéry não falava português, mas todos se entendiam e cultivaram uma bela amizade. E quem sabe foi lá que o escritor aprendeu também que o essencial só pode ser visto com o coração? Nas histórias dos pescadores, ficou provado que o aviador cativou a comunidade e será eternamente responsável por isso, permitindo todos os trocadilhos. O filme ainda não estreou no cinema no Brasil – teve apenas uma sessão especial no aeroporto de Florianópolis.

    Brasileiros enfrentam dificuldades para pedir a autorização eletrônica que permite entrada no México

    Play Episode Listen Later Jun 20, 2022 4:29


    Centenas de turistas brasileiros com viagens marcadas para o México estão sendo prejudicados por falhas no site do Instituto Nacional de Imigração. Larissa Werneck, correspondente da RFI no México Adriana Maia, esteticista de Natal, no Rio Grande do Norte, está com passagens compradas para Cancun, para o próximo dia 23 de junho. O objetivo da viagem é levar os filhos Ana Vitória, de 15 anos, e Adrián, de 5, para reencontrar o pai, que é mexicano. Por causa da pandemia da Covid-19 eles estão há um ano e três meses sem se ver. “Minha filha escolheu essa viagem para comemorar os 15 anos dela. E meu filho mais novo não conhece os avós. A expectativa está muito grande”, conta ela. No entanto, a ansiedade para o encontro está ainda maior por causa da dificuldade que Adriana, e outras centenas de brasileiros, estão encontrando para retirar a autorização eletrônica que permite a entrada no país. “Faz uma semana que estamos tentando. Eu estou dormindo só três horas por dia, minha filha já está chorando. Eu cancelei dez dias de atendimento aqui na minha clínica, comprei roupa para as crianças, a gente gasta muito com viagem. E eu estou muito abalada, não por mim, mas pelas minhas crianças”, diz Adriana.  Autorização eletrônica é uma exigência desde dezembro de 2021. Desde 2013, o México não solicitava vistos para os brasileiros que chegam ao país por via aérea, assim como o Brasil não solicita vistos para os mexicanos. Mas, esse acordo entre os dois países mudou no dia 11 de dezembro do ano passado, quando as autoridades migratórias do México passaram a exigir uma autorização eletrônica para brasileiros entrarem no país, o que permite que os turistas permaneçam em território mexicano por até 180 dias. O documento é necessário para todos os brasileiros que queriam visitar o México, exceto para os que têm visto válido ou residência permanente no Canadá, Estados Unidos, Japão, Reino Unido ou países que pertencem ao espaço Schengen (Áustria, Bélgica, República Checa, Dinamarca, Estônia, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Islândia, Itália, Letônia, Luxemburgo, Malta, Holanda, Noruega, Polônia, Portugal, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Suécia e Suíça). Na época, o governo mexicano informou que o novo protocolo foi criado para  “responder ao aumento substancial de brasileiros que entram no país para outra finalidade que não o turismo”, numa referência às pessoas que chegaram ao México para tentar atravessar a fronteira com os Estados Unidos de maneira irregular. Problemas no site e nos consulados. A autorização é gratuita e deve ser solicitada no site do Instituto Nacional de Imigração. Mas, há cerca de dez dias o sistema está apresentando problemas técnicos, e turistas com passagens compradas para os próximos dias não estão conseguindo processar o pedido, que deve ser feito com o máximo de trinta dias antes da data da viagem. Por causa do problema, a orientação é que os turistas procurem os consulados do México no Brasil para pedir o visto impresso no passaporte, que custa 48 dólares, o que equivale a cerca de 235 reais, e tem validade de seis meses. No entanto, pelo aumento da demanda, os brasileiros não estão conseguindo agendar as entrevistas para solicitar o documento. Silvia Ferreira Lima, de São Paulo, foi uma das que não conseguiu horário de atendimento no consulado. Com viagem marcada com a família para Cancun para o próximo dia 23 de junho, ela precisou fazer uma verdadeira força tarefa para conseguir a autorização eletrônica. “É um sonho de família. A minha irmã já conhece e se encantou, e quando teve a oportunidade de a família inteira tirar férias nós compramos a passagem. Mas foi lá no início da Pandemia e já adiamos duas vezes. Estamos tentando o visto eletrónico há quinze dias e fomos no consulado e não conseguimos. Nós estamos em uma maratona de sete computadores. A gente começa às duas da tarde e vai até às duas horas da manhã.”, explica Sílvia que, felizmente, conseguiu, nesta sexta-feira, emitir a autorização para todos os familiares. Governo brasileiro está acompanhando a situação. Em nota oficial publicada no site do Ministério das Relações Exteriores e também nas redes sociais, o governo brasileiro informou que o Itamaraty está “acompanhado com preocupação os relatos de centenas de brasileiros impossibilitados de tramitar a autorização eletrônica para ingressar no México” e que está em diálogo com as autoridades migratórias do país, além da Secretaria de Relações Exteriores e da Secretaria de Turismo, para resolver o problema.

    Especialista em organização de casas, brasileira conquista espaço na TV pública portuguesa

    Play Episode Listen Later May 28, 2022 5:00


    Quando Márcia Cunha chegou a Portugal, 17 anos atrás, nem imaginava que o gosto por deixar tudo no seu lugar a transformaria numa bem-sucedida especialista em organização. Há cinco anos, a maranhense de Imperatriz mostra o que faz num programa da TV pública portuguesa. Fábia Belém, de Lisboa Ela conta que, desde criança, tinha “mania” de organização. “Alguns me diziam que eu era antipática, que ninguém podia mexer em nada. Os meus irmãos diziam que eu tinha um TOC [Transtorno Obsessivo-Compulsivo].” Casada e mãe de dois filhos, Márcia dedicou-se exclusivamente à família, mas, há cinco anos, descobriu que o gosto por organizar tudo poderia abrir as portas do mercado de trabalho. “Eu vi que havia cursos e formações pra ser uma profissional de organização, que existia essa profissão”, relata. Quando decidiu trabalhar com o que tanto gostava, Márcia saia da cidade do Porto, onde mora, e ía para Lisboa, onde fazia os cursos. Aprendeu técnicas de organização profissional e também como construir o seu próprio negócio. Tornou-se especialista em organizar todos os cantos de uma casa e ajudar pessoas a colocarem o lar em ordem, de uma maneira funcional. Consultoria online e workshops Márcia destaca que cerca de 90% dos clientes “têm excessos de coisas”. “Têm coisas que compraram e ainda estão com etiqueta há anos, que nunca usaram, que nem se lembravam e voltaram a comprar. Muitos medicamentos fora do prazo de validade, que não são usados, mas que ainda continuam lá. Na zona de cozinha, quanta coisa já foi desperdiçada porque as pessoas foram comprando, comprando, e não sabiam que tinham, e aquilo foi se perdendo”, afirma. Márcia Cunha passou a oferecer consultoria online. As sessões, que geralmente duram uma hora, já chegaram a clientes que moram nos Açores, na Madeira, Espanha e Suíça. “Por videochamada, eu digo: ‘Olha, você coloca essa caixa ali, você usa esse cesto aqui, você põe esses pratos no outro lado do armário”, exemplifica. A organizadora profissional também apostou na promoção de diversos workshops: organização de closet, de cozinha, de quarto de crianças. "Às vezes, eu faço workshop só de dobras”, ressalta. "Eu acho que é importante as pessoas perceberem que a organização não é um bicho de sete cabeças.” Televisão O talento para pôr ordem nas casas levou a brasileira para a TV. Durante um workshop, foi descoberta pela produção do “Praça da Alegria”, programa da RTP1, o principal canal da TV pública portuguesa. “Para mim, foi um desafio muito grande. Eu tive muito receio, fiquei com medo, e disse: 'eu não sei se vou conseguir. Será que é uma boa ideia?'. Mas eu fui. Eu fui muito com a cara e a coragem”, lembra. Inicialmente, Márcia foi convidada para dar dicas de organização de residências. Só que a maranhense fez tanto sucesso que acabou sendo chamada para ter uma participação regular no “Praça da Alegria". Era o primeiro ano dela como especialista em organização, e demonstrar na TV o que fazia impulsionou a carreira: mais pessoas a procuraram para abrir as portas das suas casas. “Quando eu entro na casa de uma pessoa, eu tenho acesso à intimidade da pessoa, ganho confiança das pessoas. O “Praça da Alegria” é um programa que tem um nome, uma estabilidade muito grande. É um programa que está no ar há muitos anos”, salienta. “De repente, o meu Instagram começou a 'chover' de gente pedindo informação. Eu diria que 70%, 80% dos meus clientes vieram através do Instagram.” A maranhense explica que o trabalho que realiza vai muito além de pendurar roupas por cores e dobrar peças respeitando medidas. “O meu trabalho é também fazer as pessoas perceberem que o excesso de coisas causa ruído na vida e na rotina delas. Gosto sempre de dizer que as pessoas precisam olhar a organização como um estado de saúde", comenta. 'A nossa casa tem um poder extraordinário de mudar o nosso sentimento de alegria ou de tristeza. O estado da nossa casa reflete muito na nossa vida”, afirma a especialista.

    Brasileira na Suécia acolhe família ucraniana e relata aprendizados da experiência

    Play Episode Listen Later May 21, 2022 5:19


    Os caminhos da escritora brasileira Ilana Eleá e da jornalista ucraniana Olena Galaguza se uniram há cerca de dois meses. Baseada na Suécia há 11 anos com a família - e com filhos nascidos no país nórdico - Ilana sofria ao ler notícias da guerra, que começara havia pouco, e se perguntava como ajudar ativamente o povo ucraniano. Até que um dia seu marido, Johan, viu um anúncio que mudaria o destino de sua família.  Por Paloma Varón, para a RFI  "No início da guerra, eu fiquei mal, lia obsessivamente as notícias desta guerra absurda que acontece aqui 'do lado e cheguei a chorar por semanas. A gente tem uma casinha idílica no jardim que costumava alugar. Assim que o estudante que a ocupava deixou a casa, meu marido leu no LinkedIn que uma empresa tinha acabado de contratar uma jornalista ucraniana e que ela precisava de um lugar para morar, para ela, sua mãe e sua filha, de seis anos. Foi aí que a gente pensou: 'Aqui a gente pode ajudar'", conta Ilana, que também tem uma filha de seis anos, além de um menino de dez.  Ilana relata o inesquecível primeiro contato com a família que acolheu: "Eu nuca vou esquecer quando a van, com placa da Polônia, aqui chega, com refugiadas da guerra, e na hora em que a porta abre, Lina, maravilhosa nos seus seis anos, com um bichinho de pelúcia na mão, começa a correr com um sorriso incrível, começa a querer explorar já aqui na rua, os montes verdes, e me diz: 'Hello'. Quando eu olho, muito emocionada; eu vejo que cada uma vem com apenas uma bagagem de mão, mas com uma dignidade e um sorriso que eu nunca vou esquecer." Olena sabe que tirou a sorte grande: "Nós somos muitos sortudas de tê-los como anfitriões e de sentir a ajuda sincera deles. Ilana sempre pergunta como ela pode ajudar com esta guerra em meu país. Ela faz questão de estar ali, de fazer amizade com a gente, e é tão maravilhoso que a minha filha que não fala sueco nem inglês possa se comunicar com a filha de Ilana, elas são amigas, parecem irmãs". Assim como a maioria dos refugiados de guerra, o caminho de Olena e sua família foi longo e tortuoso até chegar a Estocolmo, em 29 de março. Elas deixaram a cidade de Zhytomyr e passaram por várias localidades na Ucrânia até chegar na Polônia, primeiro país que as acolheu. Mas ela tinha um objetivo: voltar a ter um trabalho, uma rotina. "Eu vim para a Suécia por uma única razão: eu achei um trabalho aqui. Quando eu estava na Polônia, eu mandei meu currículo para diferentes empresas e a primeira que concordou em cooperar com a minha situação de refugiada foi a Megadeals. E foi realmente um bom negócio para mim vir para a Suécia. Eu sou muito grata a Ilana e seu marido Johann, que me ajudaram muito com a casa, porque eu sei que é muito difícil achar um lugar para morar em Estocolmo", conta Olena.  Mesmo chegando com emprego e tendo uma casa para morar, Olena tem de lidar com outras questões ligadas à imigração, mas, quando se trata de refugiados, elas são ainda mais específicas.  "Quando eu vim para a Suécia, e já tem quase dois meses, eu me dei conta de como é tremendamente difícil lidar com a burocracia quando se é refugiado. Eu ainda não tenho um número de identidade pessoal – e refugiados têm o chamado número de coordenação. O escritório de imigração perdeu minha foto e impressões digitais, que são obrigatórios para a biometria. Nós estamos bem, mas essa espera para ter direito a um número de identidade, uma vaga na escola é desgastante e estressante", diz.  Seu ex-marido e pai de sua filha ficou na Ucrânia, onde luta contra a invasão russa, mas se comunica com elas por vídeochamada. Nas ligações, Lina mostra a sua nova casa, o jardim e sua amiga Liv.  Ao falar sobre seus planos daqui para a frente, Olena se emociona: "Quando você vive em paz, você faz planos para a sua vida. Mas quando a guerra chega ao seu país, é muito difícil de prever o dia de amanhã. No meu primeiro dia na Suécia, ainda estava no escritório de imigração, eu recebi uma chamada para avisar que o meu melhor amigo tinha sido morto. Foi um choque enorme para mim".   Mas a jornalista disse que pretende aprender sueco e se desenvolver no país de asilo, pois não sabe quando poderá voltar à Ucrânia. O próximo desafio é adaptar sua filha, que acaba de conseguir uma vaga na escola. "Eu respeito a Suécia e sua cultura, e o respeito é mútuo, diferentemente da Rússia; que odeia os outros", declarou.  Para Ilana, as crianças - as suas, a Lina e as do bairro - ajudaram na integração da família."Desde os primeiros dias tem um laço muito forte sendo trançado pelas nossas famílias e uma das chaves são as crianças". Ela contou à RFI histórias interessantes, como a alegria do filho Dante, de dez anos, quando conseguiu a carta da Ucrânia - muito disputada na Suécia - num álbum que ele coleciona e, a primeira coisa que fez foi corer para oferecer à sua amiga Lina; ou que seus filhos paravam de jogar videogames de guerra quando Lina entrava na sala.  "Um dia, a Lina chega para mim e me diz 'telefone' - ela pede para usar o Google Translate quando não consegue se comunicar por gestos. Eu dou o meu telefone para ela, que grava uma mensagem e abraça a minha filha, Liv. Quando eu vejo a tradução, ela tinha dito: 'A Liv é como uma irmã para mim", conta Ilana, emocionada.  Além disso, Ilana diz que ter aberto as portas de sua casa para uma família ucraniana lhe traz aprendizados diários. "A convivência com elas traz aprendizados em muitos níveis. Penso que seja possível recomeçar mesmo com esses estilhaços na alma, que as crianças são dínamos de paz, que democracias estão sob ameaça, que fake news são pragas indomáveis, que linhagens de mulheres não querem e não fazem a guerra, essa linguagem do horror não nos pertence. E que redes de afeto são formas de luta e de resistência, mesmo que singelas", completa a escritora, que teve a sua história de acolhimento de refugiadas contada no jornal sueco Söderort. 

    Casa do Brasil de Lisboa comemora 30 anos de existência

    Play Episode Listen Later May 15, 2022 5:48


    A Casa do Brasil chega a três décadas de atividades como a maior associação da comunidade brasileira em Portugal, onde residem, legalmente, cerca de 210 mil brasileiros, que representam a maior comunidade migrante no país. Para os próximos anos, um dos desafios da Casa do Brasil de Lisboa é ser um espaço de todas as nacionalidades.  Fábia Belém, correspondente da RFI em Lisboa Associação de imigrantes sem fins lucrativos, a Casa do Brasil de Lisboa foi criada em 1992 por um grupo de brasileiros e portugueses que discutiam a regularização dos profissionais que chegavam do Brasil. Eram “publicitários, dentistas, que tinham essa dificuldade de reconhecimento da profissão” em Portugal, conta Cyntia de Paula, presidente da Casa.  Desde então, a grande missão da Casa do Brasil é a garantia de direitos às pessoas migrantes de todas as nacionalidades. Além disso, a associação tem um trabalho muito forte na “luta contra todos os tipos de discriminação, contra o racismo, a xenofobia e outros sistemas opressores como o machismo, a LGBTfobia e tantos outros”, destaca de Paula. Orientação e encaminhamento A sede da Casa do Brasil fica no Bairro Alto, localizado na parte antiga e central da capital portuguesa. Tem quase 6 mil associados e atende cerca de 2 mil pessoas por ano. Para isso, conta com nove funcionários e quinze voluntários. Parte da equipe trabalha no Gabinete de Orientação e Encaminhamento (GOE), criado para ser fonte de informação segura para quem chega a Portugal. O gabinete "auxilia a pessoa migrante que chega e que precisa de informações mais variadas para desvendar o que é ser imigrante”, diz Cyntia. O GOE oferece, por exemplo, informações sobre regularização, legalização e direitos trabalhistas em Portugal, além de orientar migrantes a como ter acesso a serviços de saúde, educação, segurança social e muitos outros. Apoio ao emprego Para os migrantes que buscam trabalho, a Casa do Brasil também dispõe do Gabinete de Informação Profissional (GIP). “Além de ajudar a entender o mercado de trabalho português, [o GIP] auxilia na busca de vagas, na elaboração de currículos, na preparação de entrevistas de trabalho, faz esse match com as empresas, também com formações, diálogo com as ordens profissionais”, explica a presidente da associação. Ativismo Para garantir os direitos das pessoas migrantes, a Casa do Brasil de Lisboa organiza sessões informativas, promove campanhas e reuniões e cria muitos projetos que contribuem para a integração, como o que orienta brasileiros que estão no Brasil e que planejam migrar, e o que promove o combate ao discurso de ódio. Cyntia de Paula também chama a atenção para o que a associação tem feito no campo do ativismo. "Há toda uma participação em termos de reivindicações políticas, de melhoria para a vida das pessoas migrantes, desde que nos posicionarmos nas questões dos feminismos, do racismo e das múltiplas discriminações como um todo, desde o nosso diálogo muito constante com os diferentes governos que já passaram nesses 30 anos da Casa do Brasil”, resume a presidente da associação.  Cyntia lembra que, em 2003, a Casa teve um papel muito importante no que ficou conhecido como “Acordo Lula”. “Foi um ato de ativismo e de lobby. Foi um acordo que possibilitou que mais de 20 mil pessoas do Brasil se regularizassem porque, nessa época, ainda não tínhamos uma lei de migração, em Portugal, nos moldes em que temos hoje.” Vertente artística No campo das artes, a Casa tem procurado ser um espaço de acolhimento e convívio de pessoas que trabalham com diversas manifestações artísticas. Tem sido palco para sessões de filmes, exposições, trabalhos literários e aulas de dança. “Todas as semanas temos aulas de forró, de samba, de expressão corporal, de salsa”, completa Cyntia, que faz questão de esclarecer que a programação da Casa “não está focada na cultura brasileira; ela está focada na cultura como um todo. “ Mudanças Nos últimos anos, a Casa do Brasil de Lisboa tem passado por mudanças, inclusive com a presença mais forte de mulheres na equipe de trabalho, o que, segundo a presidente da associação, tem sido muito importante “porque temos trazido um olhar na perspectiva de gênero”. Cyntia de Paula é a terceira mulher a presidir a Casa desde a sua criação. Além de mais espaços ocupados por mulheres, a Casa do Brasil também ganhou um novo modelo de atendimento, que permite chegar aos migrantes que vivem longe de Lisboa. “Construímos um atendimento à distância, que antes não tínhamos. Ou seja, a pessoa já não precisa vir, necessariamente, à nossa sede. Já fazemos atendimento via e-mail, via telefone, via WhatsApp, via Zoom”, afirma de Paula, com entusiamo. Desafios Há quatro anos na presidência da Casa do Brasil de Lisboa, Cyntia reconhece que há desafios para o futuro. Um deles é reforçar o apoio para o surgimento de mais associações, para que haja mais coletivos. "Poderia ser muito mais, muito mais movimentos associativos pelo país afora", vislumbra.   De Paula também planeja tornar a Casa um espaço forte de presença de migrantes de todos os cantos. “Eu quero que a Casa seja um espaço de representação de todas as pessoas. Não só brasileiras. Que as pessoas possam ver a Casa como, também, um espaço do seu trabalho, da sua luta, e de todas as lutas. Que o movimento feminista, que o movimento LGTBQIA+, que o movimento antirracista e outros também encontrem dentro da Casa o seu lugar. Eu acho que esse também é um grande desafio para os próximos anos”, pontua.

    Livro revela dificuldades de brasileiras durante a pandemia da Covid-19 em Portugal

    Play Episode Listen Later May 8, 2022 5:47


    “Gênero e imigração: retrato das brasileiras em Portugal durante a pandemia da Covid-19” é lançado neste domingo (8), na Casa do Brasil de Lisboa. O livro foi escrito por 15 brasileiras que moram no país e relatam a experiência que tiveram como voluntárias na Rede Solidária da plataforma Geni, uma iniciativa sem fins lucrativos, que trabalha na promoção do empoderamento e na garantia dos direitos das mulheres.    Fábia Belém, correspondente da RFI em Lisboa Organizadora do livro e fundadora da plataforma, Ana Paula Costa conta que a publicação reúne temas que estiveram presentes nas vivências de muitas mulheres brasileiras durante os primeiros meses da pandemia em Portugal: saúde mental, racismo, acesso aos serviços, maternidade, sororidade e redes sociais.  De março a junho de 2020, a Rede Solidária deu assistência psicológica, ajuda financeira e apoio social a cerca de 200 brasileiras imigrantes. “Vimos que as mulheres brasileiras ficaram muito ansiosas e preocupadas com a situação, com o que iria acontecer com elas e com as suas famílias, tanto aqui, em Portugal, como no Brasil”, lembra Costa. Especialistas em marketing, estudantes de mestrado e doutorado, cientistas políticas e psicólogas - brasileiras que já residiam em Portugal há cinco ou dez anos integraram a rede de apoio. Elas se dividiram em três grupos: um de psicólogas, um de mulheres responsáveis por doações e um terceiro encarregado do apoio social. "Preciso trabalhar e não tenho com quem deixar a minha filha. Alguém pode me ajudar?", relata Ana Paula ao falar sobre os pedidos de ajuda que o grupo recebia por meio de formulários online. Entre elas, a maioria estava em situação irregular. “Havia mulheres que tinham chegado em Portugal há um ou dois meses”, recorda-se a organizadora do livro, publicado pela editora In-Finita. Também recorreram à Rede Solidária muitas mulheres que perderam o emprego ou cujo marido ou companheiro havia perdido a renda durante a pandemia. O fechamento de milhares de postos de trabalho no país, principalmente no setor de restaurantes e turismo, empurrou muitas brasileiras para o desemprego. “Com isso, não tinham como pagar o aluguel, nem como comprar comida”, relembra Costa.  Lições Neste contexto difícil, a demanda maior era por assistência psicológica. “Mas tem mulheres que dividiam casa ou quarto. Como se faz atendimento online, sem a menor privacidade? O livro vai contando essas nuances”, diz  a organizadora da obra.  As 15 escritoras do livro ouviram os mais variados relatos sobre os problemas financeiros enfrentados pelas compatriotas durante a pandemia. A Rede Solidária "não tinha como resolver a questão do trabalho, mas conseguia, por exemplo, pagar o aluguel ou o gás do mês", conta Costa. Quando o trabalho da Rede Solidária foi concluído, o grupo sentiu a necessidade de registrar essas memórias. “Nos demos conta do quanto esse momento foi único," revela a fundadora da plataforma Geni. “Nós podemos ser solidárias umas com as outras, e podemos, de fato, criar coisas muito bonitas mesmo a partir de experiências difíceis.”

    Para humoristas brasileiros, participar do festival "Netflix is a Joke" foi marco na carreira

    Play Episode Listen Later May 7, 2022 5:00


    Um dia após Dave Chappelle, um dos humoristas mais famosos da atualidade, ser agredido durante uma apresentação em Hollywood, em 3 de maio, uma dezena de comediantes brasileiros participaram do mesmo festival e lotaram duas sessões com piadas em português. Tanto o show dos brasileiros quanto o de Chappelle são parte do festival "Netflix is a Joke" (Netflix é uma piada, em tradução livre), que começou no dia 28 de abril e vai até este domingo (8). Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles A programação conta com mais de 280 eventos em 30 locais da cidade, que vão desde os maiores estádios, como Dodger Stadium, Forum, Arena Crypto.com e Hollywood Bowl, até os principais teatros de Los Angeles. Segundo a Netflix, "este é o maior festival de comédia do planeta – provavelmente". Dentre os dez brasileiros, cada um com seu estilo, estão alguns dos nomes mais cancelados e polêmicos da comédia (se é que isso não é redundante); além de uma mescla de artistas que moram no Brasil e nos Estados Unidos. Bruna Louise, Carol Zoccoli, Diogo Portugal, Fabiano Cambota, Léo Lins, Rafinha Bastos, Manu Maciel, Maurício Meirelles, Murilo Couto e Rodrigo Marques subiram ao palco do famoso Laugh Factory, uma tradicional casa de shows por onde já passaram artistas como Jerry Seinfeld, Chris Rock, Ellen DeGeneres, Eddie Murphy, Jay Leno, David Letterman, além de outras centenas de lendas da comédia. "Eu acho que é um marco da comédia brasileira poder entrar pela primeira vez em um festival desse tamanho, com esta importância", contou à RFI o goiano Fabiano Cambota. "Eu prefiro achar que é um marco porque estou participando", explicou. "Se fosse um outro, eu diria que não é tanto, mas, como sou eu, quero muito valorizar tudo o que está acontecendo, porque estou achando o máximo estar aqui", disse Cambota, em tom de piada. Profissão de risco Nesses tempos em que comediantes têm sido agredidos no exercício da profissão, os brasileiros não se sentem intimidados ao se expressar no palco. No show, tudo pode virar piada na boca deles, inclusive os processos judiciais que vários dos humoristas carregam nas costas. Aliás, eles citam as denúncias até como um tipo de certificação. Quem não quiser se expor a isso, como dizem os comediantes, melhor nem pagar o ingresso. "O processo para o humorista é uma espécie de OAB, se você não tem um processo, não é aceito no grupo de humoristas", brinca Cambota, que já foi denunciado. "A gente tem aprendido a tirar isso um pouco de letra, porque na grande maioria dos casos, a gente tem ganhado (os processos)", diz. "As pessoas entenderam que não é só uma questão de liberdade de expressão, (...) às vezes é uma brincadeira que é muito menos dolorosa do que um comentário sério, do que uma exposição da notícia", destaca o goiano. "Às vezes, um comentário bem-humorado quebra toda a gravidade de um problema, e a gente precisa aprender a lidar com isso." Mas, nem todos aceitam a ironia. Em pouco mais de um mês, dois casos estremeceram Hollywood. O soco de Will Smith em Chris Rock, no Oscar, levantou novamente a discussão de se há limite para a piada. Tanto Maurício Meirelles quanto Léo Lins – outros dois humoristas que colecionam processos – estavam no Hollywood Bowl, na última terça-feira (3) e presenciaram o momento em que um homem subiu ao palco e derrubou o astro do stand-up, Dave Chappelle. "Se não era uma profissão de risco, já virou, inclusive, talvez, pior do que no MMA, porque aí você sabe que alguém vai subir ali para te bater, e no show de humor não", diz Lins. "As pessoas criticam as piadas, falam que o humorista é um animal e acho que a gente terá de ser tratado igual a animal mesmo, vai ter que colocar uma grade na frente do palco para isolar o comediante", afirma. Para Meirelles, as agressões aos humoristas são uma consequência do que acontece hoje nas redes sociais. "É uma galera que não consegue aceitar o contraditório e precisa partir para cima", estima o brasileiro. "O pior para mim não é o cara que parte para cima, baseado no impulso errado", pondera. "O que me incomoda mais são as pessoas que estão em casa, conseguem refletir sobre o assunto e continuam corroborando isso", diz. "Depois vêm criticar político x e y, sendo que fazem a mesma coisa", constata. "Para mim, o problema é corroborar a violência", afirma Meirelles. Mulheres no palco e o público brasileiro As mulheres ainda são minoria nesse meio, mas estão conquistando os maiores palcos da comédia e fazendo bonito. Três brasileiras fazem parte do time de comediantes do "Netflix is a Joke": Bruna Louise, Manu Maciel e Carol Zoccoli. Manu e Carol moram nos Estados Unidos. "Parece que a gente tem que provar que a gente pode estar ali", conta Carol Zoccoli. Ela recorda que quando começou no Brasil, era uma das únicas mulheres em cena e teve que aprender a lidar com os hecklers, "o cara da plateia que grita". "Aconteceu de eu chegar no show e dizer 'boa noite', e o cara gritar: chata", recorda Zoccoli. Hoje, ela diz ter adquirido uma força interna para enfrentar essas situações desagradáveis.  Tanto a realidade brasileira quanto as comparações com a vida nos Estados Unidos estiveram nas piadas dos comediantes, que adaptaram seus shows para um público que mora fora do país, mas que tem as mesmas referências. Pessoas que podem ter perdido os laços com o Brasil, mas que reagem às piadas. É muito difícil ver um show americano tão animado. Com cerca de 300 espectadores em cada sessão, os aplausos se expandiram e eles deixaram, sem dúvida, a noite hollywoodiana mais leve. "Eu vi o Dave Chappelle, o Chris Rock também estava lá naquele fatídico momento, eram 18 mil pessoas", conta Meirelles, que considera Chappelle "o maior cara do mundo". "O nível de comédia do cara é mil vezes melhor, mas o público, a energia do brasileiro é uma outra parada", diz com admiração. "Você consegue entender aquela frase do roqueiro que vai ao Brasil e fala: 'cara, eu adoro fazer show no Brasil'. "A gente tem uma parada muito especial", conclui Meirelles. Estrelas internacionais Além de shows de comédia e stand-up, o festival trouxe ainda conversas, gravações de podcast, leituras de roteiros e outras performances. Dentre os astros do evento estão de Kevin Hart, Larry David, John Mulaney, Tina Fey e Amy Poehler, David Letterman, Pete Davidson, Amy Schumer, Jane Fonda e Lily Tomlin, Wanda Sykes, Patton Oswalt, Conan O'Brien, Margaret Cho, Bill Burr, entre outros. Alguns desses shows serão gravados para transmissão na Netflix, incluindo a apresentação de Gabriel “Fluffy” Iglesias fazendo história ao se tornar o primeiro comediante de stand-up a se apresentar no Dodger Stadium.

    "As pessoas querem consumir de forma responsável", diz carioca dona de brechó infantil em Marselha

    Play Episode Listen Later Apr 30, 2022 10:18


    A pandemia de coronavírus fez muita gente mudar de hábitos e imaginar o futuro de outra forma. A estilista brasileira Natalia Cordeiro tinha acabado de se instalar em Marselha, no sul da França, quando as restrições da Covid-19 alteraram seus planos. Em vez de desanimar, a carioca aproveitou a epidemia para amadurecer o projeto de abrir uma loja de roupas de segunda mão para crianças e adolescentes. Natalia participa do movimento para tornar a moda um setor sustentável. Com o "fim" da pandemia, Natalia Cordeiro sente que as pessoas estão mais abertas à procura de produtos locais e artesanais, para consumir de maneira responsável. "Eu acho que as pessoas utilizaram muito a pandemia para refletir, para uma tomada de consciência, e vi uma janela que se abriu para mim", conta. Em fevereiro deste ano, ela abriu a butique Le fabuleux destin (O fabuloso destino, em tradução livre) em uma charmosa rua comercial do centro de Marselha, em frente ao Palácio de Justiça. As roupas de segunda mão, os calçados e acessórios que já tiveram uma vida útil antes de chegar às araras e prateleiras do brechó vestem desde bebês até adolescentes de 16 anos. A loja fica em uma área que passa por um processo de reabilitação de edifícios antigos. Nas ruas adjacentes ao teatro da Ópera de Marselha, prédios de habitação, escritórios, cafés, restaurantes e butiques de marca atraem moradores e turistas. Desde que se mudou para Marselha, há três anos, Natalia acompanha uma outra transformação na cidade: a chegada de pessoas que deixaram a cinzenta região parisiense em busca do sol característico do Mediterrâneo. "No condomínio onde eu moro, o número de parisienses que desceram para o sul é muito grande", diz Natalia. "Eles largaram o emprego assalariado que tinham em Paris e vieram para cá montar um negócio", afirma. Planejamento para enfrentar burocracia Para abrir sua empresa na França, Natalia procurou ajuda especializada, planejou cada etapa e não desanimou diante das dificuldades. A brasileira confirma a fama que os franceses têm de adorar uma burocracia. "O Brasil tem muita burocracia, mas a França tem mais, muito, muito, muito mais; foi minha principal dificuldade, eles adoram um papel", conta a carioca. Ela venceu esse desafio fazendo pesquisa de mercado, lendo publicações para compreender a legislação e não hesitou em contratar um advogado especialista em direito comercial para orientá-la. O marido, que trabalha na área de finanças, também teve um papel fundamental ao ajudá-la na elaboração do business plan (plano estratégico de negócios). Muitos brasileiros que moram em Marselha dizem que a cidade mediterrânea é a que mais lembra a realidade brasileira, principalmente o Rio de Janeiro. A designer carioca confirma essa percepção. "Estar em Marselha me ajudou muito", recorda. "As pessoas são mais abertas, é mais quente, tem a praia, o mar e o trânsito é uma bagunça infernal como no Rio", diz Natalia, com um grande sorriso no rosto.  Marselha não tem o pôr-do-sol com vista do Arpoador, mas a cidade também tem seu cartão postal para esse horário especial do final do dia. O pôr-do-sol no Mediterrâneo pode ser visto do alto da colina da basílica Notre Dame de la Garde, que protege os pescadores do Vieux Port.

    “Estudar idiomas mudou minha vida”, diz brasileiro poliglota que virou notícia no Japão

    Play Episode Listen Later Apr 16, 2022 5:42


    Desde 1998 instalado na Ásia, Júlio César Pereira da Silva, se destacou na TV japonesa por falar mais de 14 idiomas e atualmente integra a Associação Internacional de Hiperpoliglotas. Juliana Sayuri, correspondente da RFI no Japão “Gengotaku” quer dizer aficionado por idiomas, em japonês. É assim que se define no YouTube o brasileiro Júlio César Pereira da Silva, 48, radicado desde 1998 no Japão. Nascido em Santos (SP), Júlio cresceu na baixada fluminense. Negro e de origem humilde, como ele diz, foi o estudo de idiomas que lhe abriu as portas para o mundo: interessou-se pela língua japonesa aos 12 anos, durante os primeiros passos no judô. Depois apaixonou-se pelo inglês, impactado por filmes e música, o que também lhe atraiu para aprender guitarra. Aos 16 mergulhou na literatura alemã, por influência de um amigo do colégio descendente de alemães. Assim, na adolescência, já tinha aprendido, por conta própria, noções básicas de três idiomas. “Aí não parei mais”, conta Júlio, que depois cursou letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Um idioma puxa o outro”, diz. Na faculdade, fez diversos cursos, inclusive um instrumental de hebraico e um intensivo de polonês. Especializou-se em japonês e, aos 21, conquistou uma bolsa disputada e fez a primeira viagem internacional ao Japão. Foi, em suas palavras, “a realização de um sonho”. “Primeiro, estudando inglês, tive acesso a outros idiomas, o mais forte deles é o japonês. E, graças ao estudo de japonês, ganhei uma bolsa e vim para o Japão – o que normalmente seria impossível para uma pessoa da minha classe social. Então, o estudo de idiomas literalmente mudou a minha vida.” Apple, táxi e TV Júlio estudou em Okinawa e Osaka, onde fez mestrado em sociolinguística e língua japonesa. Já trabalhou como tradutor, intérprete e atendente multilíngue da americana Apple no Japão, entre outras ocupações. Casou-se e teve dois filhos no arquipélago asiático, onde se tornou conhecido como “Pere-chan”, um apelido a partir de seu sobrenome, Pereira. Foi assim que ele ganhou destaque na mídia japonesa. Entre 2017 e 2018, trabalhando como taxista em Osaka, “Pere-chan” virou notícia no jornal Mainichi por suas habilidades linguísticas. Depois deu entrevistas para NHK, MBS e TV Yomiuri, entre outros veículos. Além de português, japonês e alemão, Júlio domina inglês e espanhol, consegue se comunicar em mandarim, coreano, francês, holandês e italiano, arranha cantonês, polonês, russo, hebraico e sueco e agora está estudando árabe, grego, irlandês, indonésio e tâmil, uma língua do sul da Índia. Em 2019, participou de uma conferência internacional de poliglotas realizada em Fukuoka. Aikidô e YouTube Em 2020, entretanto, após o início da pandemia de covid-19, enfrentou um período de desemprego apesar de suas qualificações profissionais, o que quase o fez desistir de continuar no Japão. Depois de um tempo, Júlio conseguiu um novo emprego e atualmente trabalha em uma companhia francesa instalada no Japão – no dia a dia do trabalho, precisa conversar em japonês, inglês e francês e, às vezes, realiza reuniões em espanhol. Além da paixão pelo estudo de idiomas, tem como hobbies o aikidô (arte marcial japonesa), a guitarra e o perfil “Gengotaku” no YouTube, com cerca de 65 mil seguidores. Lá, compartilha dicas de estudos, dicionários e livros, lives e aulas de kanji, os caracteres da língua japonesa derivados do chinês. Recentemente, Júlio se filiou à Associação Internacional de Hiperpoliglotas (Hypia) e lançou um curso online de japonês em uma plataforma para criadores de conteúdo. Ele não vê, por enquanto, possibilidade de voltar ao Brasil. Para o futuro, imagina continuar estudando e gostaria de conseguir se comunicar em 20 línguas, em diferentes níveis de fluência, até seu 50o aniversário, em 2024.

    “Estudar idiomas mudou minha vida”, diz brasileiro poliglota que virou notícia no Japão

    Play Episode Listen Later Apr 16, 2022 5:42


    Desde 1998 instalado na Ásia, Júlio César Pereira da Silva, se destacou na TV japonesa por falar mais de 14 idiomas e atualmente integra a Associação Internacional de Hiperpoliglotas. Juliana Sayuri, correspondente da RFI no Japão “Gengotaku” quer dizer aficionado por idiomas, em japonês. É assim que se define no YouTube o brasileiro Júlio César Pereira da Silva, 48, radicado desde 1998 no Japão. Nascido em Santos (SP), Júlio cresceu na baixada fluminense. Negro e de origem humilde, como ele diz, foi o estudo de idiomas que lhe abriu as portas para o mundo: interessou-se pela língua japonesa aos 12 anos, durante os primeiros passos no judô. Depois apaixonou-se pelo inglês, impactado por filmes e música, o que também lhe atraiu para aprender guitarra. Aos 16 mergulhou na literatura alemã, por influência de um amigo do colégio descendente de alemães. Assim, na adolescência, já tinha aprendido, por conta própria, noções básicas de três idiomas. “Aí não parei mais”, conta Júlio, que depois cursou letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Um idioma puxa o outro”, diz. Na faculdade, fez diversos cursos, inclusive um instrumental de hebraico e um intensivo de polonês. Especializou-se em japonês e, aos 21, conquistou uma bolsa disputada e fez a primeira viagem internacional ao Japão. Foi, em suas palavras, “a realização de um sonho”. “Primeiro, estudando inglês, tive acesso a outros idiomas, o mais forte deles é o japonês. E, graças ao estudo de japonês, ganhei uma bolsa e vim para o Japão – o que normalmente seria impossível para uma pessoa da minha classe social. Então, o estudo de idiomas literalmente mudou a minha vida.” Apple, táxi e TV Júlio estudou em Okinawa e Osaka, onde fez mestrado em sociolinguística e língua japonesa. Já trabalhou como tradutor, intérprete e atendente multilíngue da americana Apple no Japão, entre outras ocupações. Casou-se e teve dois filhos no arquipélago asiático, onde se tornou conhecido como “Pere-chan”, um apelido a partir de seu sobrenome, Pereira. Foi assim que ele ganhou destaque na mídia japonesa. Entre 2017 e 2018, trabalhando como taxista em Osaka, “Pere-chan” virou notícia no jornal Mainichi por suas habilidades linguísticas. Depois deu entrevistas para NHK, MBS e TV Yomiuri, entre outros veículos. Além de português, japonês e alemão, Júlio domina inglês e espanhol, consegue se comunicar em mandarim, coreano, francês, holandês e italiano, arranha cantonês, polonês, russo, hebraico e sueco e agora está estudando árabe, grego, irlandês, indonésio e tâmil, uma língua do sul da Índia. Em 2019, participou de uma conferência internacional de poliglotas realizada em Fukuoka. Aikidô e YouTube Em 2020, entretanto, após o início da pandemia de covid-19, enfrentou um período de desemprego apesar de suas qualificações profissionais, o que quase o fez desistir de continuar no Japão. Depois de um tempo, Júlio conseguiu um novo emprego e atualmente trabalha em uma companhia francesa instalada no Japão – no dia a dia do trabalho, precisa conversar em japonês, inglês e francês e, às vezes, realiza reuniões em espanhol. Além da paixão pelo estudo de idiomas, tem como hobbies o aikidô (arte marcial japonesa), a guitarra e o perfil “Gengotaku” no YouTube, com cerca de 65 mil seguidores. Lá, compartilha dicas de estudos, dicionários e livros, lives e aulas de kanji, os caracteres da língua japonesa derivados do chinês. Recentemente, Júlio se filiou à Associação Internacional de Hiperpoliglotas (Hypia) e lançou um curso online de japonês em uma plataforma para criadores de conteúdo. Ele não vê, por enquanto, possibilidade de voltar ao Brasil. Para o futuro, imagina continuar estudando e gostaria de conseguir se comunicar em 20 línguas, em diferentes níveis de fluência, até seu 50o aniversário, em 2024.

    Exposição "Histórias Afro-Atlânticas" retrata olhares cruzados sobre tráfico de escravos

    Play Episode Listen Later Apr 9, 2022 8:34


    Por séculos, artistas têm contado e revelado a complexa história da diáspora africana. Com uma exposição do trabalho de mais de 130 nomes de cerca de 20 países, a National Gallery of Art, em Washington, conta em uma colaboração com o Museu de Arte de São Paulo (Masp) o tráfico transatlântico de escravos e a rica cultura dessa diáspora. As obras são de artistas desde o século 17 até contemporâneos. Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington A exposição “Histórias Afro-Atlânticas” foi primeiro apresentada pelo Masp em 2018 e, agora, pode ser vista de 10 de abril a 17 de julho por turistas do mundo todo que visitam a capital americana. As obras são expostas conforme o tema, permitindo ao público observar os paralelos e as diferenças entre as visões de artistas de várias eras e nacionalidades. Steven Nelson, curador da exposição e reitor do Centro de Estudo Avançado em Artes Visuais da National Gallery, diz que, ao colaborar com o Masp, foi possível que a instituição americana investigasse as semelhanças e as diferenças entre as histórias dos negros em diferentes partes do Brasil, América do Norte, América Latina, Caribe e África. “Ao reunir essas obras, vemos onde há semelhanças, onde há coisas específicas de cada país, nos permitindo entender todas essas histórias. Uma enorme semelhança é a história da escravatura. Todos esses lugares foram tocados pela escravatura, violência e trauma", diz Nelson.  "Muitos artistas contemporâneos examinam essas histórias parecidas e as adaptam às suas próprias circunstâncias. Então, no Brasil isso pode tomar uma forma, em Cuba, outra, enquanto que no sul e no oeste da África, toma ainda outra forma”, afirma.  Há imagens míticas, realistas, fictícias e factuais, todas criando um diálogo transnacional e entre gerações sobre a escravatura. A exposição resiste à ideia de uma história definitiva da diáspora, apresentando testemunhos diversos do passado que desafiam narrativas já estabelecidas e fomentam questionamento e novas conexões, ao mesmo tempo em que mostram como todas essas histórias estão interconectadas. Enquanto algumas obras de artistas europeus e brancos mostram imagens idílicas de harmonia entre os escravos e a natureza –  e até mesmo seus proprietários – , as obras dos artistas negros modernos expõem trauma, violência e resistência. Algumas também apontam para a direta ligação entre desenvolvimento econômico e o trabalho escravo. A exposição é dividida em seis áreas temáticas que contam as diversas histórias da diáspora apresentando pontos de vista que foram marginalizados ou esquecidos: Mapas e Margens, Escravos e Emancipações, Dia a Dia, Ritos e Ritmos, Resistência e Ativismo, além de Retratos. Um dos raros retratos é o de Dom Miguel de Castro, emissário do Congo, de 1643, durante uma viagem ao Brasil. “As galerias tradicionais de retratos exibem imagens de governantes, líderes religiosos e membros da elite, quase sempre pessoas brancas, geralmente homens brancos. Retratos históricos de negros são raros, e os retratos de negros apresentados como indivíduos, em vez de tipos, inversamente tentam estabelecer e reforçar a discriminação de raça, gênero e classe”, salienta o curador.

    “Faço a ponte entre os dois países”: conheça Blacci, brasileira semifinalista do Festival da Canção de Portugal

    Play Episode Listen Later Mar 5, 2022 7:45


    Vinte anos de idade, nove meses de carreira e um convite para participar do Festival da Canção de Portugal. A brasileira Blacci é a nova promessa da música pop em língua portuguesa. Por Caroline Ribeiro, correspondente da RFI em Lisboa Nascida no Brasil, no Rio de Janeiro, a jovem cantora e compositora veio para Portugal com a família ainda criança. A vida entre os dois países e as misturas culturais que fazem parte da família ajudaram a formar o estilo que Blacci agora desenvolve como profissional da música. “As minhas inspirações musicais são muito variadas. Cresci ouvindo Beatles, Eminem, ia ouvindo influências de muitas culturas. Também acho que, pelo fato de ter crescido em Portugal, mas ter nascido no Brasil, da minha família ser brasileira, acho que faço a ponte entre os dois países. A minha sonoridade acaba por representar isso também”, conta Blacci à RFI. A conexão entre Brasil e Portugal tem sido importante para o caminho musical de Blacci. Em Lisboa, a cantora fez a abertura do show de Luisa Sonza no final de 2021. Já este ano, gravou uma parceria com Vitão, ainda inédita. O trabalho intensivo com a música, que só começou depois que Blacci resolveu trancar a faculdade de Ciência Política, foi destacado em um acampamento de dois dias com produtores das estrelas internacionais Beyoncé e Sam Smith. Agora, a artista já acumula mais de 70 composições. "Mar no Fim" É com uma delas, “Mar no Fim”, que Blacci vai participar da semifinal do Festival da Canção. A composição traz o relato pessoal de um momento difícil na vida da jovem. “ A minha inspiração foi a morte da minha melhor amiga, a minha Belinha. Isso me inspirou para escrever sobre essa fase de luto e de perda, e também como o tempo cura e transforma essa dor em amor.” O Festival da Canção é realizado anualmente em Portugal desde 1958. É um concurso de referência, que destacou artistas emblemáticos do país, como Simone de Oliveira, Carlos do Carmo e Salvador Sobral. “Eu acho que o Festival é um momento muito importante para Portugal. Vários artistas podem expor a sua arte e é uma oportunidade para mostrar a música portuguesa para o mundo, onde se escolhe o vencedor que vai representar Portugal no Eurovisão”. Eurovisão O Eurovisão é considerado o maior concurso musical do mundo. É realizado desde 1956 pela União Europeia de Radiodifusão e reúne, atualmente, candidatos de 41 países. Para chegar lá, Blacci precisa vencer os outros 19 competidores no Festival da Canção de Portugal. “Pra mim, foi inesperado e incrível ter recebido o convite pra fazer parte, me sinto lisonjeada por estar rodeada desses artistas incríveis”, diz a brasileira. Blacci se apresenta na semifinal do Festival da Canção de Portugal na próxima segunda-feira, 7 de março. Já o Eurovisão vai ser realizado nos dias 10, 12 e 14 de maio na cidade de Turim, na Itália.

    Brasileiros buscam espaço na política portuguesa para defender imigrantes

    Play Episode Listen Later Feb 27, 2022 3:04


    Em Portugal, cidadãos de nacionalidade brasileira são os únicos estrangeiros que podem se candidatar a uma vaga de deputado na Assembleia da República, desde que sejam residentes, estejam recenseados e possuam o Estatuto de Igualdade de Direitos Políticos. Fábia Belém, correspondente da RFI em Lisboa De 2018 a 2020, um total de 79 brasileiros solicitaram o estatuto ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Para se candidatar nas eleições locais, os brasileiros só precisam provar que residem em Portugal há mais de 4 anos. O mesmo critério também é aplicado aos cidadãos de Cabo Verde. Cyntia de Paula é a presidente da Casa do Brasil de Lisboa, uma associação de imigrantes sem fins lucrativos, que tem um papel ativo na reflexão e reivindicação de políticas igualitárias para as comunidades imigrantes em Portugal. Ela nasceu no Mato Grosso do Sul e há quase 13 anos vive na capital portuguesa. “Eu sou dos movimentos associativos e das lutas de rua, e sinto que esse é o meu lugar”, destaca. No ano passado, Cyntia recebeu o convite do Bloco de Esquerda, e participou da lista de candidatos que o partido levou às eleições autárquicas por Lisboa. Considera que a sua primeira disputa eleitoral “foi muito importante, sobretudo pra levar esse olhar da imigração”. Nas eleições locais, cada legenda apresenta uma lista de candidatos que ocupam suas posições. Dependendo do número de votos que tiver, o partido consegue ou não eleger seus nomes. Representatividade Cyntia não foi eleita, mas destaca que também é muito importante que as ideias do candidato façam parte das estratégias do partido.  “Só ter a nossa cara lá não é representatividade. O que a gente pensa e acredita tem que, de fato, ser incorporado no que se pretende trabalhar nos próximos anos. Considero que as questões que levei e o que contribui, por exemplo, pra construção do programa, foram ouvidas, e acho isso fundamental”, explica. Democracia inclusiva Há 14 anos em Portugal, a mineira Geiziely Fernandes ainda não foi eleita, mas já disputou cinco eleições - duas autárquicas e três legislativas. “Eu acredito numa democracia, que é a democracia do futuro, uma democracia que seja completamente inclusiva e uma democracia multicultural..Acho que é pra lá que nós caminhamos”. Geiziely diz que também decidiu se candidatar para deixar na agenda a “necessidade de inclusão democrática das pessoas migrantes”. Nas eleições legislativas deste ano, ela foi a primeira da lista do seu partido pelo Círculo Fora da Europa, grupo que tem dois assentos no parlamento português e que defende os interesse dos migrantes. Produtora cultural, Geiziely Fernandes é do Livre, um partido de esquerda fundado há oito anos. Ela conta que participou, inclusive, da coleta de assinaturas para a criação da legenda, e que chegou a ser vítima de xenofobia por parte de alguns portugueses. “Perguntei a uma pessoa se ela queria assinar para a construção do partido, e logo que ele viu que eu era brasileira tentou agarrar o meu braço num ato de protesto. Ela também dizia: 'Volta pra sua terra'. Eu pensava: "Poxa, a minha terra também é aqui". O sentimento de pertencer Na opinião de Geiziely Fernandes, a participação política, seja numa candidatura ou no exercício do direito ao voto, gera no imigrante um forte sentimento de pertencer ao país que escolheu para viver. “Quando eu pude votar pela primeira vez, de fato, eu me senti incluída na sociedade, eu senti a igualdade, e eu me senti uma cidadã, uma cidadã podendo votar”. O último relatório Estatístico Anual do Observatório das Migrações destaca, inclusive, que a participação política dos imigrantes contribui para a sua integração nas sociedades de acolhimento, “assumindo-se como uma importante ferramenta para que os imigrantes possam participar na definição das políticas que lhes afetam diretamente nos seus locais de residência”. É nos espaços como a Assembleia da República e as câmaras municipais, aponta Fernandes, onde são tomadas decisões que influenciam a vida das pessoas, inclusive dos migrantes. “Então, é importante que as pessoas migrantes possam, também, ter uma participação nessa tomada de decisão”. A luta por mais participação de imigrantes na política A presidente da Casa do Brasil de Lisboa, Cyntia de Paula, diz que sente, por parte da comunidade brasileira, “um maior interesse em entender o sistema político português, entender de que forma pode participar, buscar essa participação”, mas chama a atenção para a informação sobre a possibilidade de participação. "Ela ainda é muito rasa, é muito pouca. Falta interesse, também, do próprio governo, de divulgação desses direitos. Não há comunicação de massa pra incentivar as pessoas migrantes aos seus direitos.” Políticas afirmativas Na avaliação de Cyntia, é preciso que os partidos políticos e o próprio sistema político tenham mecanismos que potencializem a participação das comunidades de imigrantes. “Que se criem, de fato, mecanismos, cotas ou outras políticas afirmativas que possam existir pra que as pessoas - não só migrantes, mas pertencentes a outros diversos grupos minoritários e não só - participem, sim, desses processos de construção.”

    Brasileira traduz em poesia alegrias e amarguras da vida de expatriada

    Play Episode Listen Later Feb 26, 2022 7:36


    Umbigo, primeiro livro da escritora brasileira Lilia Lustosa, publicado pela editora LiteraturaBr, que será lançado em março, na Cidade do México, traduz em poesia as alegrias e as amarguras da vida de expatriada. “Hoje acordei estrangeira, uma estranha passageira de uma viagem que não cabe em mim Mais hoje do que ontem desconheço Temo, anseio, não reconheço, me desconheço Meu Norte é quente, é seco é árido, queimado é guerreiro Neste Norte sou fria sou branca pálida, sou ninguém sou sem norte” O poema Filha de Outro Norte, foi escrito por Lilia Lustosa durante o seu primeiro inverno em Divonne-Les-Bains, na Suíça, para onde ela se mudou com a família, em 2008, pelo trabalho do marido. O texto, vencedor de um Prêmio da Associação Raízes, de Genebra, chega ao público brasileiro no primeiro livro de poesias da escritora, que há 14 anos vive fora do Brasil. Quem passa pela mesma experiência, de sair do Brasil para viver em outro país, possivelmente, vai se identificar com as palavras de Lilia nos seis capítulos que formam Umbigo e que levam o nome das seis cidades em que viveu: Brasília, Divonne-les-Bains, Coppet, La Lucila, Recoleta e Cidade do México, onde está atualmente. “Ele se chama Umbigo porque é uma viagem muito pessoal em que eu caminho por dentro de mim mesma. Mas também é uma viagem por esses países por onde eu andei. Quando eu releio, se torna um espelho pra mim, porque eu vejo as fases que eu fui vivendo: as fases mais difíceis, as mais fáceis, os momentos de alegria, os momentos de angústia. Porque essa vida de expatriado ela é muito boa, muito bonita, a gente aprende muita coisa, mas a gente tem que encarar muita coisa difícil também”, explica a escritora. As palavras sempre estiveram presentes na vida de Lilia, desde os tempos em que era redatora publicitária, em Brasília. Mas, ela só começou a se descobrir escritora durante a preparação para um concurso público, quando conheceu o então professor e poeta Gustavo Castro, que se tornou amigo e mentor. Mesmo assim, elas ficavam guardadas, acessadas por poucos. “Eu nunca parei de escrever porque, para mim, funciona como terapia, sempre foi um pouco meu refúgio. Nesses anos, com o apoio do Gustavo, eu fui desenvolvendo um pouco meu estilo, fui aprimorando, mas nunca surgiu a oportunidade de publicar um livro, porque eu estava muito envolvida com o mestrado e depois com doutorado em cinema pela Universidade de Laussane, na Suíça, além de cuidar dos meus filhos e da casa. Então, lançar esse livro no México é, para mim, a celebração de uma outra fase, uma fase mais livre, os novos e antigos amigos e as novas histórias que vão entrando na nossa vida”,afirma. Lilia dos Ventos, como ela mesmo se intitula no poema que encerra o livro, acredita que os poemas de Umbigo possam ajudar a outras pessoas que passam pela mesma experiência que ela. “Ser estrangeira tem seu lado bom e o seu lado ruim. Então eu espero que as pessoas que moram fora, que são expatriadas ou que se sentem um pouco às vezes fora do lugar, que elas consigam se enxergar um pouco nos meus textos e que entendam que a vida sempre tem essa dualidade”. Umbigo será lançado no dia 15 de março, no Centro Cultural Tetetlán, na Cidade do México, e estará disponível para venda em formato físico e digital.