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Vida em França
"Estamos todos no mesmo Mundo, Terra, Pátria"- Álvaro Vasconcelos

Vida em França

Play Episode Listen Later Jun 10, 2026 40:47


Foi apresentado em finais de Maio em Paris, o terceiro e último volume do livro "Memórias em tempo de amnésia" de Álvaro Vasconcelos, especialista de relações internacionais e voz bem conhecida das nossas antenas. Nesta obra em três partes, o autor relata as épocas que atravessou, o salazarismo, o colonialismo português em África, nomeadamente em Moçambique onde viveu, os anos de militância política na África do Sul, em França e em seguida em Portugal, onde regressou na altura do 25 de Abril. No terceiro volume das suas memórias intitulado "O futuro para além do apocalipse", Álvaro Vasconcelos recorda a conquista da independência das ex-colónias, assim como os primórdios da democratização de Portugal e a sua adesão à União Europeia. O antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia e fundador em Portugal do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais também evoca a viragem autoritária a que se assiste actualmente em várias partes do mundo, a que ele chama de «brutalismo» e que tem a ver com a corrente 'tecno-totalitarista', encabeçada nomeadamente por alguns magnatas da Silicon Valley. Álvaro Vasconcelos fala também da urgência ambiental, da urgência de não nos esquecermos que somos humanos, numa época em que tendemos a colocar tudo nas mãos da Inteligência Artificial. No fundo, ele fala da urgência de pensarmos. Neste livro denso que é uma chamada de atenção, ele começa cada capítulo com uma espécie de guião de filme e fala com um gosto não dissimulado de todas as fitas que o fizeram reflectir de outra forma sobre o mundo, porque este texto, ainda mais do que os anteriores, é uma declaração de amor à sétima arte. E evidentemente não podíamos deixar de falar -antes de mais- da importância que o cinema tem para Álvaro Vasconcelos. "O cinema é algo que me formou porque eu vivia na África colonial, na Beira, em Moçambique. E como era lá no fundo do Império, a ditadura era certamente muito mais suave para os brancos, para os negros era mais brutal do que em Portugal era para os portugueses. E os brancos da cidade da Beira, onde eu vivia, tinham acesso ao Cineclube da Beira, às grandes obras do cinema mundial, por exemplo, nós vimos o ‘Couraçado Potemkin', que em Portugal era absolutamente proibido. (…) E como o cinema, começamos a vê-lo mesmo muito, desde muitos miúdos, não só nos cineclubes, os cinemas eram a maravilha da época, era aquilo que nos educava, nos abria novos horizontes, que nos fazia rir com Charlot, com os irmãos Marx, que nos ensinava os problemas graves do mundo, como ‘Hiroshima mon amour', o neo-realismo italiano, ‘Os ladrões de bicicletas', etc. Evidentemente que o cinema teve para a minha geração e em particular para aquela que viveu no Império, mas não só, também também em Portugal, um impacto enorme, portanto, foi formativo. E ao escrever o último livro da minha trilogia, senti a necessidade de fazer um livro que fosse mais de reflexão que apenas descritivo da minha vida e de reflexão. Não sou filósofo, portanto, não podia ser uma reflexão filosófica. Mas era uma reflexão à volta das ideias que são veiculadas pelo cinema, que foram veiculadas pela grande literatura que eu li desde miúdo, que sempre me apaixonou e continuo a ler e que me ensinou imenso sobre o mundo. Eu descobri muitas coisas no cinema e na literatura que não era capaz de descobrir com o mesmo grau de profundidade dos ensaios", explica o autor. Nas suas memórias, Álvaro Vasconcelos fala da época colonial e também de uma descolonização das mentes que ainda não foi totalmente feita. "Em África, descobri a violência colonial e que a palmatória é um símbolo absoluto dessa violência. Palmatória com que iam castigar os empregados negros por coisas, não importa o quê. Mas mesmo que fossem coisas graves, era a mesma palmatória que era usada contra os escravos, como eu vi no Museu Afro-Brasileiro, em São Paulo. Infelizmente não temos em Portugal, nenhum museu sobre a escravatura. Temos um pequeno museu em Lagos, mas não temos um grande museu, como têm os brasileiros. E essa palmatória era usada também pelo professor primário para nos manter. Identifico a violência brutal de que era vítima pelo professor primário, que tinha um poder absoluto sobre mim, com a violência, de que eram vítimas os negros, que não tinham direitos nenhuns, nem direito à vida. E para que isso pudesse ter acontecido, foi preciso criar uma narrativa de que eles não eram gente civilizada. E essa narrativa perdurou no pós 25 de Abril, porque nunca se fez um trabalho verdadeiro de descolonização das mentalidades. E hoje, quando os imigrantes são tratados como são tratados com desumanidade, é porque não são considerados humanos iguais a nós. E como não são considerados humanos iguais a nós, podem ser vítimas da arbitrariedade. Não têm os direitos iguais. Isso é uma questão fundamental", considera o estudioso. "Quando se deu o 25 de Abril, podia-se ter feito uma coisa extraordinária e teria ficado para a história. Era considerar que toda a gente que reside em Portugal tem os mesmos direitos. Há um país no mundo em que isso, pelo menos já acontece, que é na Nova Zelândia. E, portanto, se os imigrantes tivessem o direito do voto, seriam tratados de forma completamente diferente ", diz ao referir que, em vez disso, "são vítimas da desigualdade mais absurda da escravatura às vezes da violência da morte no Mediterrâneo. Em vez de irem socorrer, acham que é uma forma dissuasiva que eles morram no Mediterrâneo. Isso, evidentemente, é feito posto em prática por políticos democráticos, mas evidentemente que estão a abrir o caminho à extrema-direita que fará disso uma doutrina de poder." No capítulo que reserva a estes aspectos, o autor escreve que “o silêncio sobre a verdadeira natureza do colonialismo é um dos grandes fracassos da democracia portuguesa” e que “a Europa assumir que o colonialismo foi um crime contra a humanidade tornaria o seu discurso sobre a democracia muito mais legítimo.” "O 25 de Abril foi uma revolução extraordinária. Libertou os portugueses da ditadura e criou um sistema de liberdades públicas, de Estado de Direito. Isso deve ser sublinhado e eu sublinho no livro, porque é único no século XX, uma revolução que não foi só uma libertação, mas trouxe a liberdade. Podemos pensar, por exemplo, que a Revolução de Outubro libertou os russos do Czarismo, que era um regime terrível. Mas não construiu um regime de liberdade. Isso aconteceu em Portugal. Simplesmente, Portugal era ao mesmo tempo uma ditadura e um império. E quando se construiu a democracia, fez-se um trabalho mais ou menos profundo sobre o que era a ditadura, o que é que era o fascismo. Existem vários museus, o Museu do Aljube, um museu em Peniche, existe um trabalho de memória. Existem nos livros de História. Conta-se o 25 de Abril, todo esse passado ditatorial. As pessoas sabem que houve a tortura, que havia a PIDE, que as pessoas não tinham direito à palavra. Tudo isso faz parte da memória colectiva dos portugueses", constata Álvaro Vasconcelos. "O que não se fez nenhum trabalho. O que é que era o colonialismo? Não se explicou o que é que era a tortura em África, o que era o trabalho forçado. Qual era a origem que isso tinha na escravatura? Manteve-se um mito do lusotropicalismo, ou seja, que Portugal tinha contribuído para criar um mundo diferente, um mundo não racista, um mundo multiétnico. Até se dizia isso : ‘Deus criou os homens e os portugueses criaram as mulatas' escondendo que as mulatas nasciam muitas vezes de actos de violação absoluta, porque as mulheres negras não tinham direitos e, portanto, o senhor tinha um direito de pernada sobre a mulher negra. Isso acontecia frequentemente. Eu, aliás, entrevistei para um dos meus livros uma senhora africana que conta exactamente a história de uma mulher que, depois do 25 de Abril, andava à procura do homem branco, que tinha sido o pai dos seus filhos e que o homem branco tinha desaparecido. Tinha regressado a Portugal e que nunca mais soube dele. E as crianças queriam conhecer o pai. Mas isto é um caso de uma pessoa que se movimentou. A maior parte das vezes ficaram e são vítimas de toda a discriminação. Isso é o aspecto em que o 25 de Abril não fez esse trabalho", diz o politólogo. "Quando em Portugal surge um movimento de sociedade civil poderoso, hoje formado por intelectuais afro-descendentes que defendem o direito à igualdade, que tem voz no espaço público, quando nos lembramos, por exemplo, da Joacine Katar Moreira que foi deputada na Assembleia da República, a campanha racista contra ela. No Parlamento, a extrema-direita dizia ‘Volta para o teu país'. Estou a falar numa deputada, membro do Parlamento. Mas depois as intelectuais todas que são superactivas na sociedade portuguesa, que é aquilo que há hoje de mais vibrante na sociedade portuguesa, mais criativo. Publicam, fazem filmes como a Pocas Pascoal e outros. Ainda recentemente a Kitty Furtado organizou na Gulbenkian um ciclo sobre o cinema africano produzido em Portugal, com numerosos filmes, numerosos realizadores. Portanto, na Bienal de Veneza, há dois anos, a representação de Portugal foram artistas negros. Portanto, temos um movimento extraordinário. Esse movimento choca com esta mentalidade dominante. E então são acusados de serem ‘wokistas'. ‘Wokistas, quer dizer que são pessoas com consciência", sublinha o universitário. Relativamente às lições que se podem tirar do pós 25 de Abril, Álvaro Vasconcelos faz um balanço agridoce : apesar de considerar que “os seus objectivos essenciais foram atingidos: liberdade, fim do colonialismo e um estado inspirado nos modelos sociais europeus”, ele constara que “o que triunfou não foram os mecanismos que permitiriam compatibilizar a democracia liberal com o desejo de participação dos cidadãos (...) com o tempo, os partidos tornaram-se organizações fechadas (...) foram-se impondo como actores únicos do sistema politico”. "Portugal fez uma revolução que permitiu a existência de partidos políticos que não existiam antes. Mas a revolução, no momento em que ela aconteceu, despertou uma vontade de participação enorme na sociedade portuguesa. Todos os portugueses queriam participar na vida política pública. Eu próprio participei na criação de um jornal que era a voz do trabalhador e aquilo vendia-se como pãezinhos quentes. Quer dizer, toda a gente cria jornais. Toda a gente queria ler. Toda a gente fazia um pequeno comício. Enchiam-se de pessoas. Criaram-se cooperativas, associações de bairro, associações, moradores, associações agrícolas, movimentos cooperativos por todo o lado. Ao mesmo tempo, os partidos políticos foram-se consolidando como forças dominantes da sociedade portuguesa. E esses movimentos participativos foram vistos pelos partidos que acabaram por triunfar como movimentos que eram contrários à consolidação da democracia representativa liberal, como havia no resto da Europa. E foram desaparecendo. E o sistema político português ficou concentrado nos partidos políticos. Esses anos todos passaram e as pessoas hoje, como têm acesso às redes sociais, já têm outra forma de expressão, sem passar pelos partidos políticos. Exprimem-se nas redes sociais. Muitas vezes, o que dizem alguns? Nós não gostamos nada. Mas outras coisas dizem coisas correctas. Estes movimentos que eu referi, ecológicos, anti-racistas, de solidariedade social, também usam as redes sociais. Mas há muita gente que usa as redes sociais e que diz coisas horríveis. Mas não interessa, diz. Acha que tem direito à palavra. E acha que os partidos não dão direito à palavra. Então vão atrás de um demagogo que diz ‘Eu dou vos a palavra. Eles não vos dão a palavra'. Os partidos políticos são organizações fechadas. Em Portugal nunca se fez a regionalização, porque os partidos acharam que aquilo era fugir ao controlo central dos partidos de Lisboa. Era abrir o controlo da sociedade a nível regional. E tudo isso foi enfraquecendo a democracia portuguesa", comenta. “Foi nas redes sociais, espaço sem regras, que descobri que estávamos perante um brutalismo neofascista. O significado das palavras e a verdade deixaram de ser facilmente reconhecíveis. O algoritmo privilegia a violência verbal, exponencia o número de visões e partilhas. Acreditei – e escrevi –, depois das revoluções árabes de 2011, que as redes sociais tinham potencial de empoderamento dos cidadãos e poderiam ser um factor de emancipação democrática, mas hoje sou obrigado a constatar que não tive em conta a capacidade de manipulação, seja pelos algoritmos ou ainda mais pela IA, dos Estados e grupos que controlam as empresas da indústria do mundo virtual", escreve Álvaro Vasconcelos no capítulo que dedica ao regresso do que chama de 'brutalismo'. "A nível europeu, nós não podemos separar de um fenómeno mundial, que é aquilo que atravessa bastante o meu livro, que é a ideia do colapso do pensamento. E esse colapso do pensamento. O que significa que quando os homens deixam de pensar, diz Hannah Arendt, são capazes dos piores crimes. E esses homens são capazes dos piores crimes. E o homem banal, o homem comum que pode seguir um líder que vai destruir as suas liberdades e a liberdade dos outros. E isso pode se chamar ‘tecno-totalitarismo'. Porquê tecno-totalitarismo? Porque grande parte da economia mundial hoje está a ser dominada pelas grandes empresas tecnológicas. Estamos numa nova revolução tecnológica. E as grandes empresas tecnológicas que dominam a inteligência artificial, que dominam as redes sociais, como o Musk, é o exemplo mais claro, defendem aquilo que eu chamei de ‘tecno-totalitarismo'», explica o autor das "Memórias em tempo de amnésia". "Há uma politóloga francesa, Asma Mhalla que diz que ‘este século não vos proíbe de pensar. Ele ocupa-vos até que já não se saiba como fazer. Isto vem, como eu digo aqui no livro, do desenvolvimento da Inteligência artificial. O desenvolvimento da inteligência artificial cria um mundo onde os humanos deixam de pensar. A banalidade do mal passa a ser a norma. Isso acontece em muitos actos quotidianos. Quando recorremos à inteligência artificial para tomarmos decisões. Quando manipulados por algoritmos, ficamos de tal forma hipnotizados que somos levados a acreditar nos líderes populistas como Trump, como Bardella em França como em Portugal, o André Ventura, como Bolsonaro no Brasil", diz Álvaro Vasconcelos. "Há um aspecto deste ‘tecno-totalitarismo' que também nos deve inquietar, que é menos presente em França, mas está presente em muitos países, que é a relação dele com uma determinada corrente religiosa. Ele é religioso na sua essência, porque ao mesmo tempo, fala de Apocalipse, destruição do mundo pelo aquecimento global, pela guerra nuclear e está a propor uma solução tecnológica para estes problemas. Ora, isto é típico da crença religiosa. A ideia do Apocalipse, se pensarmos no apoio dos evangélicos americanos a Trump e em cenas em que Trump se reúne com os evangélicos e os evangélicos rezam na Casa Branca a volta do Trump ou quando o Bolsonaro tomou posse rodeado pelos evangélicos, a primeira coisa que fizeram, foi um ato religioso. (…) Vemos que o ‘tecno-totalitarismo' muitas vezes é também uma ‘tecno-teocracia'. E, portanto, esse problema, que é um problema mundial, que é da criação do mundo em que os homens deixam de pensar, a inteligência artificial substitui o pensamento humano. É um mundo em que o brutalismo, que é o tema do meu livro, se torna possível. É possível que o Trump decida destruir o Irão, que o Netanyahu faça o genocídio de Gaza e agora esteja a fazer no Líbano o que fez em Gaza, no sul do Líbano. É exactamente a mesma coisa. Vai destruir o sul do Líbano completamente", diz o especialista em relações internacionais. No capítulo em que aborda o que chama de dever de hospitalidade, Álvaro Vasconcelos considera que é neste aspecto que a Europa pode fazer a diferença "para superar o brutalismo contemporâneo, porque, por um lado, é uma das regiões do mundo onde as democracias ainda resistem ao assalto da extrema‑direita neofascista, e por outro porque a hospitalidade é a essência da sua sobrevivência". "Estamos a falar da União Europeia, a que se podem juntar alguns Estados, como a Noruega, como hoje o Brasil do Lula. Têm a mesma ambição de escapar ao brutalismo de Putin, Trump, Netanyahu, ao ‘tecno-totalitarismo' que domina a China. Verdadeiramente o único sítio do mundo em que ainda há um grupo de Estados que pode e quer resistir é na União Europeia, mas que tem estes aliados muito importantes que tem que procurar no Canadá, já procura no Brasil. Por isso, o acordo com o Mercosul é tão importante, apesar de a Argentina do Milei estar completamente na mesma linha de brutalismo. Mas o Brasil é um país importantíssimo. Na Ásia, o Japão, a Coreia do Sul. (…) Portanto, a Europa é a nossa esperança. Mas para que essa esperança não passe de uma utopia não realizada, para ser uma utopia realizada, é preciso que a Europa integre toda a sua vitalidade num projecto comum, (…) é preciso uma mudança radical de política. Ou seja, é preciso uma política que seja alternativa à política da extrema-direita. Claramente. E o que é que se deve fazer? Os imigrantes que são grande parte da população europeia ou originários na imigração devem ser cidadãos plenos, activos, integrados nas nossas sociedades, dando-lhes o voto. Aqueles que ainda não têm, damos-lhe a palavra, ouvindo-os e tornando as nossas democracias muito mais participativas", preconiza o autor. No seu livro, Álvaro Vasconcelos estabelece um elo directo entre o ‘tecno-totalitarismo', a negação dos direitos de boa parte da humanidade e a destruição do meio ambiente. "Um dos temas que eu acho que é muito importante é a questão do ambiente. Eu, aliás, começo o meu livro com uma citação do Camus que diz ‘A minha geração quis mudar o mundo. Não o mudou, mas pelo menos lutou para preservar o que de melhor tinha sido conquistado'. (…) O aquecimento global está a ser um problema gravíssimo que pode pôr em causa a vida na terra. E aí é lembrarmo-nos de Edgar Morin, um grande pensador. Eu cito Edgar Morin dez ou 15 vezes no meu livro. Ele diz que nós não estamos só perante um mundo que destrói a vida humana. Estamos num mundo em que a globalização foi extremamente destrutiva do ponto de vista económico e social. Criou também a consciência de um destino comum da humanidade a consciência de que estamos todos no mesmo barco. Ou seja, no barco da vida. Nós sabemos que a vida não é eterna. Mas enquanto estamos no barco da vida, não vamos cair no niilismo. Nem vamos cair na melancolia de esquerda. Isto é uma conclusão que alguém tirou do meu livro que eu sou contra a melancolia de esquerda. A melancolia de esquerda é nós pensarmos em tudo aquilo por que a gente lutou está a desaparecer e já não podemos fazer nada. Vai tudo acabar. Vai acabar a democracia, a liberdade. Vai voltar o racismo como política de Estado. Vai desaparecer a ordem internacional. Vai desaparecer o multilateralismo", diz o universitário. "Estamos perante uma guerra cultural. É um tema central, porque a guerra cultural é algo que acompanha a civilização europeia desde o Iluminismo e desde a Revolução Francesa. Houve sempre uma corrente que se opôs às conquistas de liberdade, igualdade, fraternidade da Revolução Francesa. Considerou sempre que a compaixão pelo outro não fazia nenhum sentido, que o homem era um animal fundamentalmente egoísta e violento E que tinha que ser treinado desde criancinha para a competição. E por isso, a cooperação não é uma questão fundamental da aprendizagem. As pessoas não aprendem a cooperar, aprendem a competir. Já vimos no sistema escolar como é terrível a competição. A infância nas grandes escolas. O que é que é difícil chegar lá acima. Portanto, formam-se elites que foram treinadas para a competição e não foram treinadas para a cooperação. E se nós não cooperarmos neste barco da vida, se não percebermos que o clima não tem fronteiras, que o aquecimento é global, que os calores do Norte de África chegam à Europa, que as transformações da Amazónia transformam as correntes do Atlântico e nos atingem também como europeus. Então não perceberemos que estamos todos no mesmo mundo. Mundo, terra, pátria, como diz o Edgar Morin. E que neste mundo, terra pátria, nós somos todos cidadãos, mesmo quando não somos considerados cidadãos", conclui Álvaro Vasconcelos.

Appleton Podcast
Episódio 192 – “Fazer pensando e pensar fazendo” – Conversa com João de Sousa Cardoso

Appleton Podcast

Play Episode Listen Later May 11, 2026 71:17


João Sousa Cardoso, também conhecido como João de Sousa Cardoso, é artista, ensaísta, curador e professor universitário. O seu trabalho desenvolve-se na intersecção entre criação artística, pensamento crítico e investigação, articulando teatro, cinema, artes visuais e escrita.Viveu 5 anos em Paris entre 2005 e 2010, onde concluiu o doutoramento em Ciências Sociais pela Universidade Paris Descartes (Sorbonne) enquanto bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, é mestre em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e licenciado em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. É membro associado do Centre de Recherches Interdisciplinaires sur le Monde Lusophone, da Universidade de Paris Nanterre, onde leciona regularmente.Enquanto artista, tem desenvolvido um percurso marcado pela relação com a literatura e pela criação em teatro e filme, que cruzam ensaio, ficção e performance. Encenou Sequências Narrativas Completas, a partir de Álvaro Lapa, no Teatro Nacional D. Maria II (2019), e A Ronda da Noite, a partir de Agustina Bessa-Luís, na Fundação Calouste Gulbenkian (2022). Em 2024, estreou o filme A Santa Joana dos Matadouros, a partir de Bertolt Brecht, na Cinemateca Portuguesa, expandindo a sua prática para o cinema e aprofundando a relação entre imagem, política e representação.Como ensaísta, publicou TEATRO EXPANDIDO! (2016), Sequências Narrativas Completas e A Espanha das Espanhas(2020), mantendo uma escrita próxima das suas práticas artísticas. Colabora regularmente com a revista Contemporânea e com o jornal Público.Na curadoria, tem desenvolvido projetos que cruzam arte, política e história, como o ciclo ABC da Guerra (Teatro Municipal São Luiz, 2025) e a exposição Nampula Macua Socialismo de Manuel Santos Maia (Galeria Quadrum, 2025), além de colaborações com instituições como Serralves, Batalha Centro de Cinema e Centro de Arte Oliva. Desde 2023, integra o Comité de Aquisições do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian.É Professor Associado na Universidade Lusófona, em Lisboa, onde dirige, desde 2010, a Licenciatura em Comunicação Audiovisual e Multimédia. Foi Professor Convidado na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto entre 2011 e 2020 e coordena o programa Great Artists on Campus na Universidade Lusófona em Lisboa desde Fevereiro de 2023 que tem, desde Fevereiro deste ano, uma extensão ao Porto numa parceria entre a Universidade e o Batalha Centro de Cinema.Links: https://cargocollective.com/joaosousacardoso www.teatrosaoluiz.pt/espetaculo/abc-da-guerra/ www.ulusofona.pt/evento/great-artists-on-campus-5 https://www.publico.pt/autor/joao-sousa-cardoso https://contemporanea.pt/edicoes/2025/entrevista-joao-sousa-cardosowww.youtube.com/watch?v=Kjp0-yeLBdA https://ajuntament.barcelona.cat/lavirreina/en/exhibitions/american-history/1005?t=3 Episódio gravado a 06.05.2026 Créditos introdução e final: David Maranha http://www.appleton.pt Mecenas Appleton:HCI / A2P / MyStory Hotels / JD Collection Apoio:Câmara Municipal de Lisboa Financiamento:República Portuguesa – Cultura / DGArtes – Direcção Geral das Artes © Appleton, todos os direitos reservados

Renascença - Ensaio Geral
Alta-costura e arte da Gulbenkian cruzam-se em Lisboa

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Apr 17, 2026 25:00


A alta-costura está em Lisboa numa exposição em que criações de Dior, Yves Saint Laurent ou Givenchy são mostradas com o melhor da coleção Gulbenkian. No Ensaio Geral desta semana, espreitamos a exposição que abre este sábado ao público. Vamos também à Culturgest visitar a retrospetiva de João Penalva, fazemos a antevisão do filme de Ivo Ferreira sobre as FP-25 e abrimos um dos livros mais lidos e premiados em Espanha, do autor David Uclés.

CNC: 75 ANOS NAS ARTES, NAS LETRAS E NAS IDEIAS
Carlos de Pontes Leça - Os festivais Gulbenkian de Música entre 1957 e 1970 (em 1995)

CNC: 75 ANOS NAS ARTES, NAS LETRAS E NAS IDEIAS

Play Episode Listen Later Mar 27, 2026 44:59


Portugal: 1945 - 1995 nas Artes, nas Letras e nas Ideias foi um ciclo de conferências sobre estas cinco décadas na Cultura Portuguesa. Publica-se a segunda sessão proferida no dia 13 de novembro de 1995 por Carlos de Pontes Leça, musicólogo e programador musical, dedicada aos Festivais Gulbenkian de Música entre 1957 e 1970. (no final, Carlos de Pontes Leça anuncia que vai passar uma gravação que, no entanto, não consta da cassete original)

Portugal em Direto
Projeto piloto Centros de Estudo Gulbenkian

Portugal em Direto

Play Episode Listen Later Mar 24, 2026 39:51


Já há resultados positivos do projeto que ajuda alunos de bairros vulneráveis da Grande Lisboa a estudar e a conseguir resultados que lhes abram horizontes académicos e profissionais.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Appleton Podcast
Episódio 187 – “Esse espaço intermédio” – Conversa com Cristina Ataíde

Appleton Podcast

Play Episode Listen Later Mar 19, 2026 54:54


Cristina Ataíde, Viseu, 1951, vive e trabalha em Lisboa. Licenciada em Escultura pela ESBAL, Lisboa, frequentou o Curso de Design de Equipamento da mesma instituição.Foi diretora de produção de Escultura e Design da MadeIn, fabrica de transformação de mármore em Alenquer de 1987 a 1996, onde trabalhou com vários artistas nacionais e estrangeiros e onde criou centenas de objetos de design em pedra e outros materiais. Fundadora (2005) do coletivo artístico Laboratório Terra que fez vários projetos expositivos em Portugal. A sua obra, feita muitas vezes em viagem, é materializada em diversos suportes desde a escultura, o desenho, passando pela fotografia e vídeo. Trabalha com e na natureza com fascínio pela experimentação, deixando que os elementos naturais intervenham como coautores dos seus trabalhos e pesquisas. Preocupa-se com a sua preservação da natureza e sustentabilidade. A estética relacional está cada vez mais presente nas suas intervenções publicas, interagindo com as comunidades por onde expõe e viaja.Foi distinguida com os diversos prémios, nas artes plásticas e no design e foi bolseira da SEC, Fundação C. Gulbenkian, FLAD e Fundação Oriente. O seu trabalho está publicado em vários livros e catálogos e está representada em importantes coleções publicas e privadas como:CAM, Lisboa; CACE, Coleção de Arte Contemporânea do Estado; Culturgest, Lisboa; MNAC, Lisboa; Fundação PLMJ, Lisboa; Fundação Victor e Maria da Graça Carmona e Costa; MAC-CCB, Lisboa; MACE, Coleção António Cachola, Elvas; Coleção MACAM, Lisboa; Coleção Berardo; Unión Fenosa, A Coruña, ES; Centre d'Art Contemporain d'Essaouira, MC; MACS, Sorocaba, Brasil; Museu Afro Brasil, São Paulo; MAMAM, Recife.Expõe regularmente em Portugal e no estrangeiro destacando: MNAC, Lisboa; Museu Coleção Berardo, CCB, Lisboa; CAM, Lisboa; Culturgest, Lisboa; Museu Soares dos Reis, Porto; Museu de Serralves, Porto; MIEC, Sto Tirso; MAMAM, Recife; Museu Afro Brasil, São Paulo; Fiep, Curitiba; Mosteiro de S. Bento, São Paulo; Centro de Arte Caja de Burgos; CentroCentro, Palácio Cibeles, Madrid; Faro de Cabo Mayor, Santander; Alcobendas, Madrid; MEIAC, Badajoz; Sala de las Atarazanas, Valencia; Glyndor Gallery, Wave Hill, New York; CCE, Miami; The Shed Space, Brooklyn, USA; Museu Azabu Kogei Kan, Tóquio; Museum Center, Baku, AZ; Moravian Museum, Brno, CR; Interno 14, Roma; Kunsttempel, Kassel. Links: https://www.cristinataide.com/ https://contemporanea.pt/edicoes/07-08-09-2021/cristina-ataide-dar-corpo-ao-vazio https://www.youtube.com/watch?v=Vh8a8c1ibUQ https://www.youtube.com/watch?v=iRIiv2qLa5U https://expresso.pt/cultura/artes_plasticas/2023-09-16-Exposicoes-Cristina-Ataide-liga-os-mundos-no-Chiado-c2e0477f Episódio gravado a 13.03.2026 Créditos introdução e final: David Maranha http://www.appleton.pt Mecenas Appleton:HCI / A2P / MyStory Hotels / JD Collection Apoio:Câmara Municipal de Lisboa Financiamento:República Portuguesa – Cultura / DGArtes – Direcção Geral das Artes © Appleton, todos os direitos reservados

Renascença - Ensaio Geral
“Uma Pina Colagem” para todos

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Mar 13, 2026 24:24


Na cidade do Porto, há uma nova exposição para ver em Serralves sobre Manoel de Oliveira, outra na Escola das Artes da Católica sobre o Teatro Praga e, no palco do Teatro São João, uma peça para miúdos e graúdos que mergulha no universo de escrita de Manuel António Pina, com música de A Garota Não. Nesta edição do Ensaio Geral destaque ainda para o novo livro de José Gardeazabal, o novo disco de Rita Redshoes e os concertos gratuitos que pode ouvir este fim-de-semana na Gulbenkian. Guilherme d'Oliveira Martins revela as suas sugestões semanais.ria João Costa

E o vencedor é...
Do anti-tacho ao tacho: a normalização do Chega

E o vencedor é...

Play Episode Listen Later Feb 24, 2026 19:40


Entre assessores municipais e indignações seletivas, o Chega prova que a igualdade começa em casa. E ainda, negociações duras, lay-off a 100% e uma Gulbenkian a lembrar que nem tudo é folclore.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Portugal em Direto
Projeto  "Gulbenkian aprender"

Portugal em Direto

Play Episode Listen Later Feb 24, 2026 44:13


Um projeto piloto, orçado em 3,4 milhões de euros, para apoiar 150 crianças dos 11 concelhos da CIM do Tâmega e Sousa. Estudantes de uma faixa económica desfavorecida mas com potencial. Edição de Cláudia Costa

Renascença - Ensaio Geral
Danças e um escritor que perspetiva a barbárie

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Feb 13, 2026 22:39


O Ensaio Geral entrevistou um dos mais consagrados escritores espanhóis. Enrique Vila-Matas não está otimista, mas acredita que pode “ser um estímulo para lutar contra o que sempre detestamos”. Destaque ainda para duas estreias no arranque do ano da Companhia Nacional de Bailado. O Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, em Lisboa, vai celebrar o Carnaval à moda do Brasil e a Companhia do Chapitô apresenta um espetáculo para toda a família. O novo disco de Moreno Veloso e as sugestões de Guilherme d'Oliveira Martins são outros destaques do programa desta semana.

Ciência
Estudo averigua se inteligência artificial pode ajudar no diagnóstico de doenças cardíacas em Moçambique

Ciência

Play Episode Listen Later Jan 26, 2026 8:39


Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane podem estar prestes a revolucionar a forma como se diagnotica doenças cardíacas em Moçambique e no Mundo, utilizando a inteligência artificial. A utilização desta tecnologia pode ajudar a baixar os custos do diagnóstico destas doenças. A inteligência artificial vai muito para além de ferramentas de conversação e tem hoje um papel central em sectores essenciais como a saúde, nomeadamente nos campos da imagem médica, em que esta tecnologia tem melhorado a capacidade de detecção e diagnóstico de várias doenças e lesões. Albertino Damasceno, médico cardiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane, quer tentar implementar em Moçambique o uso da ecocardiografia assistida por inteligência artificial em cuidados primários, para o diagnóstico da insuficiência cardíaca, tendo recebido o apoio da Fundação Gulbenkian para levar a cabo um estudo nesse sentido. Em entrevista à RFI, Albertino Damasceno, explicou de que forma a inteligência artificial pode ajudar a detectar as doenças que afectam o coração, mas também economizar nos meios de diagnóstico. "Começa a usar-se a inteligência artificial para diagnóstico de várias patologias cardíacas e não só, portanto, qualquer patologia que possa ser diagnosticada pela imagem. Isto já é feito nalgumas partes do mundo, mas fundamentalmente em termos de investigação, não em termos de aplicação prática. O mais importante é que a insuficiência cardíaca, segundo as normas internacionais, deve ser confirmada por um teste que mostra a presença de peptídeo natriurético a nível do sangue periférico. Este teste custa cerca, aqui em Moçambique, cerca de 20 dólares por teste. Portanto, isto é perfeitamente impossível de suportar, não só em Moçambique como em qualquer outro país africano. Portanto, este gold standard de diagnóstico da doença cardíaca torna-se difícil de aplicar na prática, surgindo neste momento uma série de softwares que podem usar não só a ecocardiografia, mas uma coisa até mais simples, que é electrocardiograma para o diagnóstico da doença cardíaca", explicou o especialista. Este é um projecto levado a cabo em parceria com a Universidade do Porto e a Universidade de Yale e vai reencaminhar pacientes em cuidados primários, dando formação aos técnicos de saúde e comparando os diferentes métodos de diagnóstico durante vários meses, de forma a perceber se a análise de imagem feita pela inteligência artificial pode permitir detectar estas doenças com a mesma precisão que os testes de sangue. "Nós vamos começar por uma fase em que é, digamos, o standard of care, isto é, nós vamos pedir a três centros de saúde primários da cidade da cidade de Maputo que durante cinco meses nos enviem todos os doentes que acham que têm insuficiência cardíaca. E vamos fazer estes doentes. Um teste que é ecocardiografia para confirmar ou não a presença de insuficiência cardíaca. A fase seguinte são dois meses em que, com a colaboração com o Departamento de Fisiologia da Universidade do Porto, vamos treinar estes médicos e técnicos de medicina e enfermeiros das triagens, não só no diagnóstico de incidência cardíaca, mas também no uso de electrocardiograma e da ecocardiografia, e também usando para comparação, o tal peptídeo natriurético. Eles vão testar os três métodos e da mesma forma vão-nos enviar não só os casos positivos como os casos negativos. Nós vamos ter uma ideia de um qual é a sensibilidade e especificidade de cada um desses três métodos para o diagnóstico em ciência cardíaca em Moçambique. Portanto, a ideia é exactamente tentar provar que há alternativas mais baratas para se diagnosticar uma doença que neste momento não é diagnosticada a nível periférico", detalhou. Este estudo torna-se ainda mais relevante já que Moçambique tem visto nos últimos anos um aumento de 17,3% do risco de morte entre adultos entre os 40 e os 69 anos, assim como o aumento de outros factores importantes para o agravamento destas doenças como o aumento da hipertensão, da diabetes e da obesidade na população em geral. "Nós estamos a assistir a uma transição epidemiológica. Até há cerca de 20 anos, 30 anos mais ou menos, as doenças predominantes eram as doenças infecciosas. Depois apareceu o HIV SIDA. E, portanto, neste momento, as grandes prioridades dos ministérios da Saúde, particularmente do moçambicano, são o HIV SIDA, a malária e a tuberculose. E porquê? Porque estes são os programas que recebem financiamento internacional. Portanto, as doenças não transmissíveis neste momento ainda estão muito dependentes de qualquer tipo de orçamento que possa ser fornecido pelo Ministério a nível do orçamento nacional. E por isso também são os parentes pobres da medicina em Moçambique. A nossa ideia é que, com o aumento da prevalência da hipertensão arterial, da diabetes, nós vamos ter uma epidemia de doenças não transmissíveis, particularmente doenças cardiovasculares, a começar pelo infarto agudo do miocárdio e pela essência cardíaca e, fundamentalmente, pelo acidente vascular cerebral", concluiu.

Enterrados no Jardim
As cenas do ódio. Outra conversa com Luís Bernardo

Enterrados no Jardim

Play Episode Listen Later Jan 23, 2026 233:54


Por toda a parte os mesmos sinais, frases, cadências, até as moscas estão a ler o mesmo que nós, esta literatura imunda que tomou conta de cada ruído, mastigamos lendo, como se a nossa falta de carácter ou convicção fosse compensada pela persistência implacável de tudo o que nos cerca, esta doença do que todos sabemos, esta acusação que nos é dirigida, fartos das sórdidas intrigas que parecem repugnar a própria existência. “O apocalipse não nos vem do exterior. Somos nós quem o transporta”, escreveu Eduardo Lourenço. O pior é darmo-nos conta de que toda esta devastação corresponde fielmente à nossa intimidade. De tanto dirigirmos para o mundo um olhar que não quer nada, que é incapaz de obter qualquer tipo de satisfação, de nos aferrarmos ao que não está nem aqui nem em lado nenhum, os nossos desejos vão cada vez mais no sentido de ausências, de abstracções. E isso de comprar barato aqui para ir vender caro ali, essa ganância metida em tudo, que, já em 1758, levou Rousseau a falar de “homens tão odiosos, que se atrevem a ter mais do que é necessário quando outros morrem de fome”, como se explica? E todos esses que se dizem herdeiros dos ideais iluministas e não vivem senão para distorcer a moral e justificar seja o que for... De tal modo o instinto burguês da propriedade se tornou uma força motriz, que não aceita ser questionado. Foi ocupando o lugar de todos os outros instintos e ideais, e quem quer que tenha conseguido agarrar-se a alguma coisa e reclamá-la fá-lo com uma tenacidade desesperada, levando a que a ideia da redistribuição lhe cause um medo de morte. Em todos os lugares constatamos como a vida está identicamente ausente, a humanidade degradou-se por essa submissão a uma ideia de riqueza que se exprime neste mundo como uma coisa grotesca, uma forma carregada de miséria. Esta é uma realidade tão destituída de qualquer razão de ser, de um sentido de equilíbrio, de inteireza, que, por falta justamente dessa interioridade, se viu obrigada a virar-se do avesso. “É uma sociedade que incansavelmente faz a sua própria apologia, ou que se justifica perpetuamente por existir”, diz-nos Baudrillard. “Tudo deve ser tornado público, aquilo que se vale, aquilo que se ganha, a forma como se vive – não há espaço para subtilezas.” As condições existencial e estética confundem-se a um mesmo nível, só podendo ser definidas como autopublicitárias. Tudo só adquire alguma importância a partir do momento em que lhe possa ser atribuído um valor de troca. Assim, a publicidade define inteiramente o teatro das relações sociais. Comprar barato e vender caro, diz-nos Robert Owen, é uma ocupação que deteriora as melhores e mais refinadas capacidades da nossa natureza, acabando por as destruir. O filósofo galês relata como depois de um período de largos anos em que passou por todos os graus de ofícios, das fábricas e do comércio, ficara com a certeza absoluta de que nenhum carácter superior se pode formar neste sistema totalmente egoísta. “Neste sistema não pode haver verdadeira civilização, visto que todos são incentivados pela sociedade ao confronto e muitas vezes também à destruição mútua, através de uma oposição de interesses artificial. É um modo baixo, reles, ignorante e inferior de conduzir os assuntos da sociedade, e nenhuma melhoria permanente, geral e significativa será possível se não surgir uma melhor solução para a formação de carácter e a criação de riqueza.” Como fazem notar os curadores da exposição Complexo Brasil, a palavra portuguesa feitiço foi contrabandeada de uma forma muito curiosa entre tantos idiomas por meio desse subtil desvio do fetiche e do fetichismo, um conceito que, hoje, como sabemos tem apelo e uma força de irradiação e significado tão importante em disciplinas como a economia e a psicanálise. Uma breve nota logo à entrada daquela mostra na Gulbenkian refere como, no século XVI, esta palavra foi usada para “rebaixar as culturas animistas, seus sujeitos periféricos, objectos de escravização”. Tanto tempo depois, o feitiço revela a sua plena maturação, e vemos como carregámos todo este tempo uma maldição, pois éramos nós quem tínhamos chegado ao novo mundo dominados por uma ganância absurda, esse fetiche da mercadoria, que é incapaz de ver seja o que for, de encontrar o mundo na sua riqueza, preferindo extrair algum lucro obsceno e que reduz tudo a uma ausência cuja acção hoje devasta todo o planeta. No fundo, o deserto somos nós. O apocalipse somos nós. Aquilo que fomos perdendo ao atravessar o mundo, tudo aquilo que desprezámos e destruímos enquanto buscávamos alguma fonte de valor para ser levada de volta, tentando aplacar a nossa miséria, isso mesmo significava a nossa indisponibilidade face ao mundo. Os nossos valores nunca foram outro sinal do que esse terror que nos consome, esse vazio. Outra das notas que se podia ler naquela exposição, fala da antropofagia, algo que sempre inquietou as nossas imaginações tão frágeis, sempre representada como um acto de maldade voraz, “um canibalismo glutão”. Mas os curadores esclarecem que a antropofagia, vivida por populações indígenas do século XVI, era um paradoxal rito de reconhecimento da humanidade do inimigo. “Os cativos de guerra, tomados geralmente de povos de mesma língua e costumes, viviam longo tempo em liberdade vigiada na tribo de seus captores, recebiam mulheres como esposas, transformavam-se em parentes afins e eram executados num ato solene de valor iniciatório para o oficiante (que não participava do banquete e entrava em um período de luto no qual se entregava a um processo de identificação com o ‘contrário').” Ainda hoje o canibalismo é usado para instigar em nós esse terror face aos bárbaros, mas já no século XVI Montaigne reconhecia que a antropofagia empalidecia se comparada com a crueldade com que os seus contemporâneos europeus, vendo-se consumidos por guerras religiosas atrozes, “e sem grandeza espiritual para comer do inimigo morto, torturavam e estraçalhavam o inimigo vivo em nome da piedade e da religião”. Aquela estupenda nota termina lembrando o génio do poeta brasileiro Oswald de Andrade, que “tomou a antropofagia como uma arma criativa de combate contra a sujeição cultural do colonizado, e como uma instigação à capacidade de ser outro ao reconhecer o outro em si”. “Tupi or not tupi, that is the question”, escreveu ele. Neste episódio, e com o intuito de levarmos um pouco mais longe as nossas explorações e indagações no confronto com esta terra devastada que parece servir apenas de pasto a fantasmas, contámos novamente com Luís Bernardo, um desses tipos que tem a decência de responder às suas inquietações fazendo um sério trabalho de pesquisa de fontes e análises que escapam inteiramente às intrigas paroquiais em que refocila o nosso enredo mediático.

Isto faz-se por cá
Centros de Estudo Gulbenkian

Isto faz-se por cá

Play Episode Listen Later Dec 26, 2025 14:49


O projeto da Fundação Calouste Gulbenkian, que visa apoiar os estudos de jovens de contextos socioeconómidos mais desfavorecidos, já tem três centro em funcionamento na Grande Lisboa.

Reportagem
Mostra 'Complexo Brasil' redescobre história, impasses e cultura do país para além de clichês em Portugal

Reportagem

Play Episode Listen Later Dec 19, 2025 6:32


O mergulho no Brasil em terras portuguesas ganhou nova dimensão com a exposição Complexo Brasil, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, com curadoria de José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik, e projeto cenográfico de Daniela Thomas. A mostra, que reúne obras de arte, filmes, vídeos, documentos e textos, oferece uma oportunidade rara para um “redescobrimento mútuo” dos dois lados do Atlântico, e se distancia de estereótipos, abrindo novas perspectivas de entendimento. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa “O que nos propomos é oferecer e questionar, como um convite e um desafio ao atravessamento, uma experiência de Brasis”, ressaltou à RFI o ensaísta e músico José Miguel Wisnik. É um convite bem sensorial porque se trata de uma exposição muito colorida, muito intensa de expressão da visualidade brasileira pelas artes, por objetos, por imagens, por fotografias e também por vídeos, diz Wisnik. “Foram feitos seis vídeos, especialmente concebidos para a exposição Complexo Brasil, que tratam de temas como as potências e os impasses do Brasil contemporâneo e suas relações com o passado. Há vídeos sobre a escravidão, Brasília, a Amazônia, a música popular brasileira, a relação do samba com o candomblé e a escola de samba”, afirma Wisnik. “Todos esses elementos formam um conjunto que não é linear nem descritivo do ponto de vista cronológico. Trata-se de algo muito mais sensorial e também conceitual”, explica. “Percorremos esses múltiplos estímulos com uma visão histórica e crítica da formação do Brasil, um país ao mesmo tempo muito desigual e violento em vários aspectos, mas também extremamente rico e plural do ponto de vista de suas expressões culturais”, conclui. O projeto começou a ser concebido há três anos, com o objetivo de apresentar o Brasil ao público português. Desde o início, segundo o diretor do Programa Cultura da Fundação Calouste Gulbenkian, Miguel Magalhães, a equipe tinha uma premissa clara. “Sabíamos que não queríamos uma exposição exótica ou tropical, carregada de estereótipos que costumam compor a imagem do Brasil”, afirmou à RFI. De acordo com Magalhães, a mostra propõe múltiplos olhares sobre o país. “É uma exposição feita de muitos Brasis, começando pelo Brasil anterior à chegada dos portugueses. Ela olha para os povos que já estavam ali, aborda o colonialismo e a escravidão, mas reconhece que o Brasil contemporâneo não se explica apenas pela sua relação com Portugal”, diz. “Complexo Brasil se organiza em três eixos — geografia, história e diversidade cultural. É nessa articulação que tentamos dar conta da complexidade do país. Não é uma exposição de artes visuais, mas uma exposição que usa a arte como uma caixa de ferramentas para ajudar a compreender o Brasil de hoje”, enfatiza.   “Um país é uma entidade múltipla” Por que Complexo Brasil? Porque, em muitos sentidos, o Brasil é justamente isso: um conjunto intrincado de biomas, etnias, culturas, línguas, religiões e lógicas sociais, atravessado por desigualdades extremas. Um país marcado também por um permanente vaivém entre sentimentos de inferioridade e superioridade — síndromes que, como lembram os organizadores, brasileiros e portugueses conhecem bem. Esse emaranhado se desdobra em múltiplas camadas nas duas grandes galerias da Fundação Calouste Gulbenkian. Obras de naturezas muito distintas se encontram: peças do século XVII dialogam com produções contemporâneas, em um percurso que reúne artistas brasileiros de várias gerações. Estão representados nomes como Alfredo Volpi, Augusto de Campos, Claudia Andujar, Rosana Paulino, Abdias do Nascimento, Arthur Bispo do Rosário, Hélio Oiticica, Glicélia Tupinambá, Lygia Clark, Lygia Pape, Roberto Burle Marx e Luiz Zerbini, entre outros. Para o músico e curador da mostra, José Miguel Wisnik, Complexo Brasil se inicia com uma antologia de frases sobre o país, recolhidas em diferentes épocas e de autores diversos. “O Brasil é feio, mas gostoso”, a célebre frase atribuída ao escritor modernista Mário de Andrade, reaparece décadas depois nas palavras do compositor e maestro Tom Jobim. "Ele dizia que 'morar nos Estados Unidos é bom, mas é uma merda; morar no Brasil é uma merda, mas é bom' — uma síntese irônica e contraditória que ajuda a traduzir a complexidade do país", lembra. Mantos como fio condutor   Os emblemáticos mantos tupinambá, cujos remanescentes hoje se encontram em museus europeus, são — não por acaso — o ponto de partida da exposição Complexo Brasil. Eles funcionam como fio condutor da mostra. Do manto sagrado do povo Tupinambá, do século XVI, devolvido ao Brasil pela Dinamarca no ano passado e presente na exposição por meio de um vídeo especialmente produzido, aos parangolés de Hélio Oiticica, o percurso atravessa diferentes tempos e sentidos. Esse diálogo inclui ainda o Manto Raio de Sol, criação contemporânea da artista e pesquisadora Glicéria Tupinambá, e o extraordinário Manto da Apresentação, de Arthur Bispo do Rosário — obra criada e bordada ao longo de décadas pelo artista negro que passou grande parte da vida internado em uma colônia psiquiátrica. “A gente combinamos de não morrer”   “Nós partimos da ideia  de um desencobrimento do Brasil, não propriamente de um descobrimento, mas na verdade revisitar o descobrimento desencobrindo todas aquelas dimensões que foram em grande parte apagadas e invisibilizadas neste processo em que europeus tomaram esse imenso território habitado por muitas etnias indígenas e sequestraram e transportaram milhões de escravizados africanos para este território. Tudo isso compõe um conjunto de dimensões complexas, nada é simples no seu processo histórico porque envolve apagamentos e violências, mas envolve ao mesmo tempo, experiências humanas únicas que produziram culturas que estão presentes de maneira muito viva na exposição”, reflete Wisnik. É a partir dos questionamentos das relações entre Brasil e Portugal que a mostra se desdobra, abordando o passado colonial com a apropriação do território indígena, a escravização e tráfico de escravos “postos a funcionar nos "moinhos de gastar gente" que caracterizam, segundo a expressão de Darcy Ribeiro, a máquina de produção colonial no Brasil”. “Em Olhos d'água, Conceição Evaristo escreve a frase que se tornou um símbolo de resistência e luta contra o racismo: 'Eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer'”, ressalta.   Complexo Brasil, que ocupa as duas galerias do Edifício-Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, começou a ser concebida para marcar o bicentenário da Independência do Brasil, em 2022. O projeto, no entanto, precisou de mais tempo para amadurecer. “Percebemos que aquela celebração se apoiava em um desconhecimento mútuo entre os dois países”, afirma o diretor do Programa Cultura da instituição, Miguel Magalhães. Três anos e meio depois, a exposição chega ao público sem evitar temas sensíveis, como o papel de Portugal na colonização e na escravidão no Brasil. A mostra se insere em um momento delicado da relação entre os dois países, marcado pelo aumento de episódios de xenofobia e racismo contra brasileiros em Portugal. De acordo com dados do Itamaraty, cerca de 513 mil brasileiros vivem oficialmente no país, formando a maior comunidade estrangeira em território português. Com o avanço da agenda anti-imigração, o partido de extrema direita Chega chegou a afirmar que a exposição na Gulbenkian “responsabiliza os portugueses pelos males do Brasil em decorrência da colonização”. Além da exposição, a programação inclui debates, conferências, performances, concertos, workshops e oficinas. Complexo Brasil pode ser visitada até 17 de fevereiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Appleton Podcast
Episódio 184 – “Agora é Agora.” – Conversa com Maria Appleton

Appleton Podcast

Play Episode Listen Later Dec 17, 2025 75:43


Maria Appleton (Lisboa, 1997) é uma artista portuguesa que vive e trabalha em Lisboa. A sua prática investiga a relação entre cor e forma, recorrendo a técnicas como tinturaria, tecelagem e impressão.Trabalha com tecidos como algodão, seda e materiais industriais, criando composições em camadas translúcidas que reagem à luz e ao espaço.O seu trabalho explora espaços liminares, emocionais e físicos, num equilíbrio entre presença tangível e ausência simbólica, evocando memórias e sensações, em diálogo com a arquitetura dos domínios público e privado.Appleton apresentou exposições individuais no Espacio Tacuarí, Buenos Aires (2024), Casa da Cerca, Almada (2024), Hatch, Paris (2023), ARCOmadrid e Artissima Turim, e Galeria Foco, Lisboa (2021). Participou em residências na Cité Internationale des Arts, Paris (2022), com apoio do Institut Français e da Fundação Gulbenkian, e na Fondation CAB, Bruxelas (2024). O seu trabalho integra coleções públicas e privadas como a Coleção António Cachola, Fundação CAB e Coleção Vergez Links: https://www.maria-appleton.com/ https://galeriafoco.com/artists/maria-appleton/ https://contemporanea.pt/edicoes/2025/maria-appleton-what-holds-structure https://www.hatchparis.com/collaborativeartists/mariaappleton https://www.timeout.pt/lisboa/pt/noticias/nao-esquecendo-o-legado-bica-do-sapato-reabre-as-portas-para-o-futuro-e-para-o-tejo-090125 https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=FvlqQC7_jeg Episódio gravado a 02.12.2025 Créditos introdução e final: David Maranha http://www.appleton.pt Mecenas Appleton:HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / A2P / MyStory Hotels / JD Collection Apoio:Câmara Municipal de Lisboa Financiamento:República Portuguesa – Cultura / DGArtes – Direcção Geral das Artes © Appleton, todos os direitos reservados

Expresso - Irritações
A moda das fotos a preto e branco que "provocam sustos", tabasco, Gulbenkian, e chamadas de aniversário

Expresso - Irritações

Play Episode Listen Later Dec 12, 2025 54:23


Esta semana, Inês Rogeiro regressa ao programa para 'reclamar' da moda crescente, segundo diz, de fotografias a preto e branco, que provocam "vários sustos": "A Gabriela Barros pôs uma foto a preto e branco com o Rui Veloso e eu apanhei um susto. Nós já temos imagens a cores há algum tempo, que moda é esta?", questiona. Luís Pedro Nunes reclama de quem ainda reclama do consumo de tabasco, e deixa um apelo a essas pessoas: "Pelo menos tirem esse ar de superioridade". Luana do Bem aconselha a que se pare de telefonar a pessoas quando é o dia de aniversário, com José de Pina a deixar uma dica sobre a Gulbenkian e a falar do crescente excesso de simpatia em superfícies comerciais. Com moderação de Pedro Boucherie Mendes, o Irritações foi emitido a 12 de dezembro, na SIC Radical. * A sinopse deste episódio foi criada com o apoio de IASee omnystudio.com/listener for privacy information.

Grandes ciclos
Grandes ciclos - A. Salieri (IV): Para Dios y mi emperador - 24/11/25

Grandes ciclos

Play Episode Listen Later Nov 24, 2025 59:26


SALIERI: Misa de Requiem en Do menor (37.12). A. Zukerman (sop.), S. Ivag (mez.), A. Zdunikowski (ten.), L. Rodrigues (bar.), Coro y Orq. de la Fundación Gulbenkian de Lisboa. Dir.: L. Foster. 4 Scherzi instrumentali in stilo fugato (selec.) (nº 1, 3 y 4) (6.23). P. Thomas (vl.), J. rees (vl.), T. Tichauer (vla.), N. Cooper (vc.).Escuchar audio

Renascença - Ensaio Geral
“Complexo Brasil” e o novo Agualusa

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Nov 15, 2025 22:47


Com a ajuda do ChapGPT e dentro de uma máquina de ressonância magnética, surgiram as primeiras linhas do novo livro de José Eduardo Agualusa. Neste Ensaio Geral, entrevistamos o escritor angolano. Vamos também conhecer a exposição “Complexo Brasil”, na Gulbenkian, e a retrospetiva de Pedro Casqueiro, no MAAT. Damos ainda os parabéns ao Teatro Experimental de Cascais, que completa 60 anos, e ouvimos “Mikado”, o novo disco de Inês Sousa, e as sugestões semanais de Guilherme d'Oliveira Martins, do Centro Nacional de Cultura (CNC).

Convidado
Gulbenkian fecha ciclo de aniversário em Paris com festival dedicado às independências lusófonas em África

Convidado

Play Episode Listen Later Nov 7, 2025 6:55


A delegação da Fundação Gulbenkian em Paris organiza este fim de semana na capital francesa um festival de música e debates à volta dos 50 anos da independência dos diferentes países africanos de língua portuguesa, dando carta branca a Dino D'Santiago para trazer os sons mais actuais do funáná e do batuque.   O Festival Lisboa nu bai Paris vai decorrer Sábado e Domingo no espaço Gaîté Lyrique. Esta foram duas noites imaginadas por Dino D'Santiago para encerrar o ciclo dos 60 anos da Fundação Gulbenkian em Paris, mas também para celebrar os 50 anos da independência de São Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola e Cabo Verde. A directora da delegação da Fundação Gulbenkian em Paris, Teresa Castro, disse em entrevista à RFI que o músico luso-cabo-verdiano teve "carta branca" para organizar as festividades. "Achámos que seria uma forma bonita de, na verdade, assinalar mais uma vez os nossos 60 anos, dando ao Dino D'Santiago uma carta branca para ele organizar esta seleção musical. E temos muita vontade, obviamente, de assinalar também estes 50 anos das independências dos países africanos lusófonos, entre os quais, obviamente, Cabo Verde. Vamos assinalar este evento com um debate entre Dino D'Santiago e Luísa Semedo, que é filósofa, que é também jornalista. Em torno sobretudo da figura do Amílcar Cabral, que foi de facto uma figura e é ainda uma figura importantíssima na história das independências africanas, um teórico importante também da revolução. E temos vontade", detalhou Teresa Castro. Nas duas noites haverá actuações de artistas como Fattu Djakité, Kady, Nidia, EU.CLIDES ou Umafricana. No Sábado, às 17:30, acontecerá um debate entre Dino D'Santiago e Luísa Semedo, filósofa e activista instalada em Paris, sobre Amílcar Cabral. O convite é aberto às comunidades lusófonas em França, mas também aos franceses que apesar de conhecerem bem a morna, podem nestas duas noites conhecer melhor o que de mais actual se passa na música lusófona, nomeadamente entre Lisboa e a Praia. "É um festival que esperamos que atraia as comunidades. Antes de mais, as comunidades cabo-verdiana, portuguesa, mas todas as comunidades dos países africanos lusófonos. Mas, obviamente, é um festival que está mais do que aberto ao público francês que, no que diz respeito. Na verdade, no que diz respeito à música cabo verdiana, os franceses conhecem muito bem a morna, mas talvez conheçam menos bem todo este panorama extremamente dinâmico em torno do batuque e do funaná. Portanto, estão todos obviamente convidados a participar nesta festa", concluiu a directora da delegação da Fundação Gulbenkian em Paris.

Vida em França
Ao encontro de artistas e galerias que promovem arte africana no salão AKAA

Vida em França

Play Episode Listen Later Oct 29, 2025 17:20


No final da semana passada decorreu em Paris a décima edição do salão de arte africana AKAA, Also Known As Africa, uma mostra reunindo galerias de várias partes com um foco sobre a criação vinda do continente africano e da diáspora. Nesta feira cuja organização coincidiu com a Basel Paris, uma mostra internacional que transforma por alguns dias Paris no maior museu do mundo, estiveram duas galerias baseadas em Portugal que apresentaram grandes nomes ou figuras emergentes das artes plásticas dos países de África Lusófona. A RFI falou com os responsáveis dessas duas galerias, Janire Bilbao e Carlos Cabral Nunes, mas igualmente com dois artistas, Renée Gagnon, artista luso-canadiana conhecida designadamente por uma série de fotografias que fez nos musseques de Luanda no final dos anos 70 e ainda o guineense radicado aqui em Paris, Nú Barreto, que já ouviram nas nossas antenas por ser também um dos organizadores da bienal de Bissau. Foi com ele que decidimos abrir a nossa visita deste salão, de olhos postos sobre uma das obras que apresentou nesta que não foi a sua primeira participação no certame. O artista guineense propôs designadamente um grande painel em forma de bandeira americana feita de retalhos, com as cores do continente africano, amarelo, vermelho, verde e estrelas negras caídas no chão. Os "Estados Desunidos de África". "Acho que o comparativo com a bandeira americana terá um pé bastante curto, porque é uma metáfora. Eu fui recuperar a bandeira americana porque é a América e os Estados Unidos da América. O essencial na União aqui é os 'Estados Desunidos da África'. E então o que me interessava era recuperar esse simbolismo da dimensão, porque achei que também que a África tem uma dimensão superior aos Estados Unidos, estamos a falar em termos de superfícies. Mas se reparar, as cores foram invertidas. Porquê? Eu inverti porque eu estou a falar do continente africano. Daí, fui buscar as cores mais utilizadas nas bandeiras das nações africanas. Verde, amarelo, vermelho e preto. Usamos sempre preto. Eu uso as estrelas de cores pretas nesse trabalho. Daí que para esse comparativo entre os Estados Unidos e esta bandeira é só isto. O resto é uma forma de questionamento que eu, enquanto artista, faço, vou abordando diferentes temáticas e em cada bandeira que eu vou criando", esclarece. O verde, o amarelo, o vermelho são também as cores dominantes colocadas por cima das fotografias a preto e branco que Renée Gagnon tirou há cinquenta anos nos nos bairros da lata da capital angolana, em plena guerra civil. A história por detrás de uma obra de arte pode ser ela também um autêntico romance. "Eu fui acompanhar um amigo meu, um belo português, que ia montar uma agência de publicidade em Luanda e eu também estava interessada no tipo de construção dos musseques que são os 'bidonvilles' de Luanda. O interesse destas casas precárias é que elas são feitas de restos de embalagem de caixas e queria mostrar que, mesmo assim, são bonitas. Há uma vontade das pessoas que constroem, de fazer uma casa bonita. E então comecei a circular nos musseques, a ver como é que era. Com a Guerra da Independência, recebi uma bolsa da Fundação Gulbenkian para ir fotografar os musseques, porque havia incêndios e tinham medo que os musseques acabassem por desaparecer da cidade. E eu, como era uma coisa histórica, queria muito fixar isso do ponto de vista sociológico e do ponto de vista artístico", começa por recordar a artista. "Tinha pedido um Jipe para chegar às portas dos musseques porque havia esse combate dentro dos musseques e um guarda com uma arma no bolso, escondida, vestido à paisana para me mostrar os caminhos que eu podia tomar. Então fui ver e falar com as pessoas e fui muito bem recebida. As pessoas diziam 'vem fotografar a minha casa. A minha casa é bonita'. E então estava muito entusiasmada. Eu trabalhava das oito horas da manhã até ao pôr-do-sol. E agora, 50 anos depois, eu retomei estas fotografias que estavam inéditas, decidindo trabalhar sobre elas. E fiz para este salão e fiz fotografias pintadas porque lá na África não há cor, o sol come tudo e então as cores que eu pus em cima das fotografias a preto e branco são minhas cores", conta ainda a fotógrafa que refere não ter mais regressado a Angola desde essa época. "Estava muito triste com a guerra", explica a artista que todavia revela que em breve, no próximo mês de Fevereiro, volta pela primeira vez a Luanda para apresentar as suas fotografias. Renée Gagnon, fez parte, juntamente com o pintor moçambicano Ernesto Shikhani ou ainda a ceramista, também ela de Moçambique, Reinata Sadimba, dos artistas cujas obras foram colocadas em destaque neste salão pela Perve Galeria, um espaço no coração de Lisboa, que tem trabalhado para dar a conhecer o fervilhar da criação artística dos países de África Lusófona. Entrevistado pela RFI, o director desta estrutura, Carlos Cabral Nunes, uma presença assídua do salão, lamenta que a arte de África Lusófona não seja mais conhecida e que as instituições culturais em Portugal não demonstrem mais interesse. "Há ainda muito a fazer e eu penso que isso é uma responsabilidade também nossa. Quando digo nossa, é em Portugal, porque é o país da União Europeia que de facto tem uma possibilidade de ajudar nesse processo de internacionalização, desde logo dos mestres de língua portuguesa em África e, por essa via, depois também chegar às novas gerações e dar, no fundo, esse apoio para uma certa continuação de um discurso que é um discurso com uma matriz cultural própria", diz o galerista. "Por exemplo, o Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, presumo que não tenha nada relativo a estes grandes mestres de língua portuguesa. A própria colecção do Estado português também tem uma escassez tremenda. O próprio Museu Berardo, a Colecção Berardo, não. E por aí fora. Quer dizer, há excepções, a própria Gulbenkian, também tem muito pouca coisa. E, portanto, há aí uma grande lacuna", observa Carlos Cabral Nunes. "Posso dar um exemplo muito recente, uma das obras mais impactantes que apresentámos na Frieze Masters, em Londres, que foi destacada na feira pelo Observer, pelo Monde, pelo quotidiano de arte, etc. O embaixador de Portugal em Londres perguntou-me 'mas esta obra, porque é que não fica em Portugal?' E eu disse 'Eu por mim até estava disposto a fazer um preço especial'. Mas não posso andar a bater às portas, a pedir para ficarem com a obra. E é óbvio que é uma obra que de repente entra num circuito internacional e tem uma série de museus de várias partes interessadas na sua aquisição. E nós queremos, de facto, que as obras cheguem ao público desde logo. Continuamos muito presos, infelizmente, àquela noção que eu gostava que já tivesse morrido há muitos anos, do 'Orgulhosamente Sós'", conclui. Também presente no salão, a Movart Gallery dá igualmente destaque aos nomes já conhecidos ou ainda por descobrir da África Lusófona, como o mestre angolano António Olé ou o fotógrafo moçambicano Mário Macilau, cuja foto a preto e branco estilizada de uma mulher foi a "capa" do visual da mostra. A responsável desta galeria considera que subsiste muito por fazer na divulgação do trabalho dos artistas de África Lusófona. "Ainda é um bocadinho desconhecida por aí. A nossa missão é importante, de dar a conhecer e contar estas histórias para todo o mundo", considera a galerista para quem se "está no início de um grande caminho que ainda há a percorrer". Janire Bilbao não deixa contudo de apontar que "muitas vezes parece um pouco constrangedor, porque é um nicho muito pequeno e às vezes é preciso mais apoio das instituições". A fechar a nossa visita pelo salão AKAA, voltamos a ouvir Nú Barreto, não só na qualidade de artista mas também de curador de eventos culturais que tal como Janire Bilbao e Carlos Cabral Nunes, julga que ainda há muito caminho a percorrer para valorizar a criação africana, em primeiro lugar no próprio continente. "Os africanos sempre criaram. Essa criação sempre foi acompanhada e desenvolvida. E continua a ser. Agora, o que acontece é uma escassez em termos de promoção, em termos de divulgação dessas sabedorias e a própria forma de tentarem conter essa criação, esse dinamismo todo criativo que existe para que possa ser desenvolvido e o continente possa usufruir desses valores todos. Infelizmente, o desequilíbrio do continente, as formas de fazerem no continente, em certos países ou na maioria dos países, faz com que esses valores tenham tendência a se exportarem e ficarem fora, onde vão brilhar lá fora. No meu caso, o meu país não tem nada estruturado. Não existe uma política cultural no meu país para que as coisas possam funcionar como deveriam ser", aponta Nú Barreto. "Há países que estão a sair aos poucos. Benim, Costa do Marfim, África do Sul. É um caso um pouco particular. Gana, Nigéria. Estão a sair aos poucos. Estão a propor coisas bastante interessantes em termos do desenvolvimento cultural, de promoção da cultura dentro do próprio país. Sentia-me muito feliz que muitos países tentassem encontrar, em conformidade com as suas realidades, a forma de proporcionar mais, de apoiar mais a cultura, porque ninguém vive sem cultura", conclui o artista guineense. Eis mais algumas imagens apanhadas no salão AKAA:

Appleton Podcast
Episódio 177 – “Folklore” – Conversa com Pedro Barateiro

Appleton Podcast

Play Episode Listen Later Oct 3, 2025 77:25


Pedro Barateiro vive e trabalha em Lisboa. Desenha desde muito cedo, e a sua formação em desenho, escultura, vídeo e escrita foi ampliada na Escola António Arroio, na ESAD, nas Caldas da Rainha, no Programa de Estudos Independentes na Maumaus, em Lisboa, e com o mestrado na Academia de Arte de Malmö, na Universidade de Lund, na Suécia, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Fez residências artísticas no Pavillon – Palais de Tokyo, em Paris; na AIR, em Antuérpia; no ISCP em Nova Iorque; na Galeria Zé dos Bois e na Spike Island, em Bristol.As suas primeiras exposições individuais em contexto museológico aconteceram em 2008 no Pavilhão Branco, em Lisboa, com a exposição "Domingo"; seguida de "Teoria da Fala" na Casa de Serralves em 2009. Destacam-se ainda exposições individuais em Portugal na Kunsthalle Lissabon, no Museu Coleção Berardo, Parkour, Lumiar Cité, CIAJG, Fundação Carmona e Costa, Rialto6 e nas Galerias Pedro Cera e Filomena Soares. Das suas exposições individuais fora do país, destaco as apresentadas no Kunsthalle de Basel, em 2010; na REDCAT em Los Angeles, em 2016, e no Kunsthalle de Münster, em 2023.O seu percurso foi-se definindo por muitas participações em exposições colectivas no estrangeiro como a Bienal de Performance de Vilnius em 2023, a 13ª Bienal de Sharjah, 20º Festival SESC–Videobrasil, 29ª Bienal de São Paulo, 16ª Bienal de Sidney e 5ª Bienal de Berlim, e em museus e centros de arte como Palais de Tokyo, ARTER, em Istambul, o Museu de Arte Contemporânea de Antuérpia, o CGAC Santiago de Compostela, a Fundação Gulbenkian, MAAT, Fondazione Giuliani, Le Plateau – Frac Île-de-France, entre muitos outros.As suas performances foram apresentadas em várias instituições como TNDMII, Centre Pompidou, Théâtre de la Ville e Fondation Ricard, 98 Weeks, Centro Cultural São Paulo, Cinema Batalha, Teatro Rivoli, Teatro Praga e Teatro São Luiz, entre outros.Editou vários livros de artista, e também as monografias “Como Fazer uma Máscara", editada pela Kunsthalle Lissabon e Sternberg Press; “É só uma ferida”, pela Documenta/ Mousse Publishing), e publicou parte da sua tese de mestrado "O Artista como Espectador" pela Mousse Publishing. Barateiro organiza eventos e exposições na Spirit Shop, que começou no seu atelier na Rua da Madalena em 2017. E em 2020, juntamente com um grupo de artistas, iniciou a primeira associação de artistas visuais em Portugal, a AAVP. Links: https://pedrobarateiro.tumblr.com/ https://www.gfilomenasoares.com/artists/pedro-barateiro/ https://pedro-barateiro.blogspot.com/ https://contemporanea.pt/edicoes/04-05-06-2020/pedro-barateiro-abismo https://www.moussemagazine.it/magazine/pedro-barateiro-opening-monologue-absent-artist-exhibition-jozef-netwerk-aalst/ https://gulbenkian.pt/cam/agenda/movimento-pedro-barateiro/ https://www.p55.art/blogs/p55-magazine/pedro-barateiro-na-1%C2%AAedicao-da-bienal-de-arte-performatica-de-vilnius?srsltid=AfmBOooFbnLuYz3hGwqyh0Pb8n5cK6rD1nbQiU39JT7DyaFWdnUaPyae https://www.cracalsace.com/en/569_love-song-pedro-barateiro Episódio gravado a 16.09.2025 Créditos introdução e final: David Maranha http://www.appleton.pt Mecenas Appleton:HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / A2P / MyStory Hotels / JD Collection Apoio:Câmara Municipal de Lisboa Financiamento:República Portuguesa – Cultura / DGArtes – Direcção Geral das Artes © Appleton, todos os direitos reservados

Artes
Ídio Chichava leva “o poder da dança” moçambicana à Bienal de Dança de Lyon

Artes

Play Episode Listen Later Sep 22, 2025 14:21


O coreógrafo e bailarino moçambicano Ídio Chichava apresenta dois projectos na Bienal de Dança de Lyon, considerada como o principal evento de dança contemporânea do mundo. “Vagabundus” é apresentado em Lyon esta quarta, quinta e sexta-feira, depois de ter estado em vários palcos internacionais, incluindo em Paris. Ídio Chichava também criou uma peça participativa durante a bienal, “M'POLO”, em que transformou os espectadores em intérpretes de rituais e danças moçambicanas. Ídio Chichava acredita profundamente no que chama de “poder da dança”, um lugar onde “o corpo tem capacidade para mudar o mundo”. É na “força do colectivo” que reside essa magia, alimentada por tradições ancestrais, mas também por saberes e vivências impressas nos próprios corpos. Ídio Chichava descreve Vagabundus como “uma experiência humana, uma experiência de vida sobre fronteiras e sobre raízes”. A força da peça reside nesse poder do colectivo, na exigência técnica dos bailarinos e da escrita coreográfica, não havendo decoração ou cenários. Uma simplicidade aparente que diz muito sobre a falta de financiamento para a cultura em Moçambique, mas que, com o tempo, se transformou “numa riqueza”, conta Ídio Chichava. Vagabundus tem corrido mundo e revelado o coreógrafo nos circuitos internacionais da dança contemporânea. Pelo caminho, Chichava venceu o Salavisa European Dance Award da Fundação Calouste Gulbenkian e com o prémio espera abrir uma escola de dança em Maputo. Agora, apresenta, pela primeira vez, Vagabundus na Bienal de Dança de Lyon, o ponto de encontro de programadores, directores de festivais e artistas, que decorre durante o mês de Setembro. O caminho para Lyon foi feito com o convite de Quito Tembe, director artístico da KINANI, Plataforma de Dança Contemporânea, em Maputo, e que é um dos cinco curadores internacionais nesta 21ª edição da bienal francesa. Cada curador podia escolher um artista dos seus países e Quito Tembe foi buscar Ídio Chichava e os seus bailarinos para representarem Moçambique. Além das conferências em que falou sobre a potência e as dificuldades da dança em Moçambique, Ídio Chichava criou, ‘in loco', um “espectáculo participativo”, segundo as palavras da bienal, “um ritual de encontro”, de acordo com o artista. Em três dias, transformou dezenas de espectadores em intérpretes e quis “desconstruir essa compreensão sobre o que é o espectáculo e a dança contemporânea”. O resultado tem como título M'POLO, Rituais do corpo vivo e insuflou uma rajada de liberdade, alegria, cânticos e dança para todos. Nas palavras de Ídio Chichava, o tal “ritual de encontro” pretendeu “reconectar o ser humano com ele próprio” e foi “um lugar onde todos podem estar juntos”.   Ídio Chichava: “Sou alguém que acredita muito no poder da dança” RFI: Como é que descreve “Vagabundus”, essa força da natureza que vos tem levado mundo fora? Ídio Chichava, coreógrafo e bailarino: “Eu descrevo como uma espécie de movimento que pensa muito colectivo e tenta encontrar sempre a força do colectivo a partir do olhar que eu tenho sobre cada indivíduo e a forma como nós vemos a relação inter-humana. ‘Vagabundus' é mais uma experiência humana, mais uma experiência de vida sobre fronteiras e sobre o sobre lugar, sobre raízes mesmo.” “Vagabundus” é profundamente ancorado em Moçambique, na sua ancestralidade. Quer falar-nos sobre isso? “Sim, está muito fixo nisso, muito apegado a isso. Primeiro, há um lugar que nós não podemos fugir. Eu não posso fugir, nem os intérpretes, nem qualquer pessoa que faça parte deste projecto ‘Vagabundus' pode fugir pelo facto de sermos todos formados em danças tradicionais. Somos pessoas que têm uma formação, que têm fundamentos sobre danças tradicionais e desenvolvemos o nosso trabalho sempre com essa consciência de quem somos e que queremos partilhar com os outros. Depois, é pelo facto de Moçambique também ter uma história de migração muito forte, principalmente com a África do Sul. A outra coisa é pelo facto de eu próprio ter escolhido ‘Vagabundus' não só como uma peça, mas também como um projecto que vai, de certa forma, afirmar aquilo que são as nossas vontades, a minha vontade, de criar uma instituição de dança, criar uma estrutura de dança, como eu sempre venho dizendo. ‘Vagabundus' foi a porta para isso. Sinto realmente essa ancoragem com Moçambique, essa base forte.” Como está o projecto dessa instituição? Já está criada? “Quer dizer, primeiro na ideia e no funcionamento já está criada. Quando criei a companhia, ainda não tinha bases, uma administração, então, sim, ela está criada. Existe uma espécie de estrutura e uma espécie de agenda. O que nós estamos a discutir ainda, mesmo com relação ao prémio da Gulbenkian que é um reforço maior para essa agenda, é um lugar. Então, ela existe pelo seu funcionamento, mas não existe ainda o físico. Nós estamos ainda a trabalhar no físico e principalmente agora, com a ajuda da Gulbenkian, que nos faz, pelo menos, ao meio do caminho. Só para contextualizar, recordo que é o prémio Salavisa European Dance Award da Fundação Calouste Gulbenkian. Eu gostava também que falássemos sobre as escolhas do espectáculo. São mesmo escolhas ou é porque tinha mesmo que ser assim? Não tem luzes, não tem cenários, é uma coisa muito natural e muito despojada… “Primeiro de tudo, eu faço confiança ao corpo. Eu penso que o corpo, ele é inteligente, ele próprio. Segundo, são as vivências do próprio corpo, não o corpo como lugar de memória, mas o corpo como um espaço tecnológico.” Como assim? “O corpo tem saberes a partir das experiências que passou, vai acumulando saberes. Então, eu acredito que o corpo, ele próprio, pode comunicar com qualquer outro corpo. Penso sempre o corpo como um lugar tecnológico que tem capacidade de desenvolver e de nos fazer aceder a outros lugares de forma emocional, de forma espiritual e também de uma forma física. Então, acredito o corpo como esse espaço com capacidade para mudar o mundo também.” No momento em que vivemos toda a aceleração tecnológica, em que passamos para a inteligência artificial, em que qualquer espectáculo tem tanta coisa, até ruído visual, vocês vão ao essencial. É político? “É político porque nós viemos de um lugar e temos opinião só por isso, mas sem uma intenção clara de reivindicação. A intenção clara é demonstrar justamente com o que nós fazemos, com o que nós desenvolvemos e do lugar que eu venho e de onde os Vagabundus vêm não há condições de criação técnica. A peça é forte justamente porque essa simplicidade, essa falta, é uma riqueza para nós. Usamos isso como riqueza, de certa forma. Por isso é que os ‘Vagabundus' têm essa exigência tão técnica, sem muita decoração e sem cenários. Essa simplicidade, nós usamos como riqueza porque é o que nós temos.” Mas isso não corre o risco de ser visto como uma ode à precariedade? Vocês não deveriam sempre pedir mais? “Pois, poderíamos sempre pedir mais. Só que aí é que está. Temos vindo a discutir muito sobre a falta, sobre co-produções, sobre quem nos ajuda. É sempre o meu pensamento, principalmente com relação aos nossos produtores e às pessoas que produzem a Vagabundus ,que produzem o nosso trabalho, nós estamos sempre a discutir isso. Apesar de eu estar sempre a precisar de dinheiro - mesmo para esta última peça que eu estou a desenvolver, preciso de dinheiro para desenvolver figurinos e tudo - preciso procurar dinheiro em algum lugar. Mas também me trava um bocadinho e sempre fico a pensar nesse lugar de dependências e interdependências.” Não quer perder a autonomia, a liberdade? “De que forma continuamos a guardar a nossa autonomia, de que forma continuamos a desenvolver, como queremos fazer apesar do dinheiro não ser nosso, mas justamente por esse lugar inter-humano.” É um espectáculo novo? “Sim, eu estou a preparar um espectáculo que eu chamo de ‘Dzudza', uma palavra em changana para dizer vasculhar.  ‘Dzudza-se' muito nos mercados, nas ruas caóticas de Maputo, cada um à procura de uma peça melhor para si, é dizer mais ou menos isso. Eu vejo o ‘Dzudza' como o oposto do ‘Vagabundus'. ‘Vagabundus' é mais energético, mais interno e é completamente alegre. É uma acção de graças. Na verdade, toda a peça é uma acção de graças. Canta-se todo o tempo, a expressão é a mesma, a estética é a mesma, mas com perspectivas totalmente diferentes de levar à sala e ao público. Há momentos mais alegres. Há momentos mais ecléticos da vida.” Numa das conferências no Fórum da Bienal de Dança de Lyon disse que não via o “Vagabundus' como uma peça, como uma obra, mas como “uma lógica moçambicana de fazer as coisas”. O que quer isso dizer? “Quer dizer que a forma como ‘Vagabundus' foi constituído, as coisas acontecem porque o colectivo tem vontade de fazer. E ‘Vagabundus' foi feita por essa força do colectivo e por essa força individual. Cada um sempre contribuía com o seu transporte até ao lugar, justamente porque acreditava nisso. Uma das características de Moçambique é realmente confiar no colectivo. Para te dar um exemplo muito claro, económico, social e político disso, tem um termo e tem uma acção de empréstimos e de crédito que se chama xitique. Isso só existe em Moçambique. Eu vou explicar. É um grupo de pessoas que se juntam, vão guardar dinheiro para ajudar-se uns aos outros. Eles vão dizer que têm um xitique mensal ou semanal e cada um tem que tirar um valor por semana que vai ajudar um do grupo. Existe essa lógica de confiança que tu tiras o teu dinheiro, dás a alguém e ficas à espera da tua vez chegar. E sempre chega. Mas eu não consigo encontrar nenhuma lógica para isso, senão uma lógica moçambicana de confiança mesmo.” Falemos agora do outro projecto, o espectáculo participativo que fez na Bienal de Dança de Lyon. Como foi a criação?   “O ponto de partida é esse mesmo, a palavra espectáculo, performance. Quando o Quito [Tembe, co-curador do Forum] me escolheu, a ideia era desconstruir essa compreensão que temos sobre o espectáculo e sobre a dança contemporânea. Para mim, espectáculo é convidar alguém para assistir. Na minha ideia, nestes ‘Rituais do Corpo Vivo', eu não tenho público, tenho participantes. Pensar o público como participante da acção que partilhamos e que, se ele participa, também chega a ser um membro que tem algo a partilhar e que dessa partilha se cria uma energia. Então ‘M'Polo' é inspirado de um de um termo maconde de rito de iniciação, que é o espaço onde os iniciados se vão concentrar durante essa formação para passarem para a vida adulta. Vão-se iniciar, vão-se conhecer. Então, esse espectáculo é muito ligado a isso e muito ligado a se reconectar o ser humano com ele próprio. É um lugar onde todos possam respirar juntos, um lugar onde todos possam estar juntos. É um lugar aonde cada um é importante. Então, é isso que nós partilhamos aqui, nessa ideia de desconstruir essa ideia de espetáculo.” E é uma festa também. “Tentamos celebrar o momento, tentamos celebrar esse encontro. Na verdade, eu não sei se podemos chamar isso de uma performance, um espectáculo, mas é mais um ritual de encontro mesmo em que o público não sabe o que é que vai ser. O público não sabe que ele também é participante deste espaço.” E o público como aderiu? Pode ser intimidante… “Sim. Pode ser intimidante, mas por causa do preconceito do que é que é um espectáculo, na verdade, porque eles vão para assistir alguma coisa e isso também cria uma resistência interna, uma luta interna. Eu não sei se eles têm consciência até agora, não sei se eles têm a resposta se eles viram um espectáculo ou se eles participaram do espectáculo.” Neste contexto do ritual colectivo, como é que a dança pode fazer corpo colectivo e ser ferramenta de resistência neste mundo cada vez mais polarizado e individualista? “Eu acho que a dança tem que ser isso, tem que ser um espaço ou tem que ser uma expressão ou um motor que convida as pessoas a dançarem. Também tem que ser um espaço onde as pessoas se sintam no lugar de doadores também, doadores da sua presença. Um espaço que qualquer pessoa pode, de certa forma, mudar uma situação. Eu vejo a dança como isso. Para mim, a dança tem que ser esse espaço que acolhe pessoas. Um espaço acolhedor.” Para terminarmos, para quem ainda não o conhece – e depois de ter ouvido aqui na Bienal que o Ídio Chichava é a moda do momento – quer falar-nos um pouco sobre si? “Sou formado em danças tradicionais. Sou alguém que viveu parte da sua formação como artista e bailarino na França, alguém que viajou muito pelo mundo sempre através da dança. E alguém que acredita muito no poder da dança.”    

Em directo da redacção
Ídio Chichava levou “o poder da dança” moçambicana à Bienal de Dança de Lyon

Em directo da redacção

Play Episode Listen Later Sep 22, 2025 14:21


O coreógrafo e bailarino moçambicano Ídio Chichava apresenta dois projectos na Bienal de Dança de Lyon, considerada como o principal evento de dança contemporânea do mundo. “Vagabundus” chega a Lyon a 24, 25 e 26 de Setembro, depois de ter estado em vários palcos internacionais, incluindo em Paris. Ídio Chichava também criou uma peça participativa durante a bienal, “M'POLO”, em que transformou os espectadores em intérpretes de rituais e danças moçambicanas. Ídio Chichava acredita profundamente no que chama de “poder da dança”, um lugar onde “o corpo tem capacidade para mudar o mundo”. É na “força do colectivo” que reside essa magia, alimentada por tradições ancestrais, mas também por saberes e vivências impressas nos próprios corpos. Ídio Chichava descreve Vagabundus como “uma experiência humana, uma experiência de vida sobre fronteiras e sobre raízes”. A força da peça reside nesse poder do colectivo, na exigência técnica dos bailarinos e da escrita coreográfica, não havendo decoração ou cenários. Uma simplicidade aparente que diz muito sobre a falta de financiamento para a cultura em Moçambique, mas que, com o tempo, se transformou “numa riqueza”, conta Ídio Chichava. Vagabundus tem corrido mundo e revelado o coreógrafo nos circuitos internacionais da dança contemporânea. Pelo caminho, Chichava venceu o Salavisa European Dance Award da Fundação Calouste Gulbenkian e com o prémio espera abrir uma escola de dança em Maputo. Agora, apresenta, pela primeira vez, Vagabundus na Bienal de Dança de Lyon, o ponto de encontro de programadores, directores de festivais e artistas, que decorre durante o mês de Setembro. O caminho para Lyon foi feito com o convite de Quito Tembe, director artístico da KINANI, Plataforma de Dança Contemporânea, em Maputo, e que é um dos cinco curadores internacionais nesta 21ª edição da bienal francesa. Cada curador podia escolher um artista dos seus países e Quito Tembe foi buscar Ídio Chichava e os seus bailarinos para representarem Moçambique. Além das conferências em que falou sobre a potência e as dificuldades da dança em Moçambique, Ídio Chichava criou, ‘in loco', um “espectáculo participativo”, segundo as palavras da bienal, “um ritual de encontro”, de acordo com o artista. Em três dias, transformou dezenas de espectadores em intérpretes e quis “desconstruir essa compreensão sobre o que é o espectáculo e a dança contemporânea”. O resultado tem como título M'POLO, Rituais do corpo vivo e insuflou uma rajada de liberdade, alegria, cânticos e dança para todos. Nas palavras de Ídio Chichava, o tal “ritual de encontro” pretendeu “reconectar o ser humano com ele próprio” e foi “um lugar onde todos podem estar juntos”.   Ídio Chichava: “Sou alguém que acredita muito no poder da dança” RFI: Como é que descreve “Vagabundus”, essa força da natureza que vos tem levado mundo fora? Ídio Chichava, coreógrafo e bailarino: “Eu descrevo como uma espécie de movimento que pensa muito colectivo e tenta encontrar sempre a força do colectivo a partir do olhar que eu tenho sobre cada indivíduo e a forma como nós vemos a relação inter-humana. ‘Vagabundus' é mais uma experiência humana, mais uma experiência de vida sobre fronteiras e sobre o sobre lugar, sobre raízes mesmo.” “Vagabundus” é profundamente ancorado em Moçambique, na sua ancestralidade. Quer falar-nos sobre isso? “Sim, está muito fixo nisso, muito apegado a isso. Primeiro, há um lugar que nós não podemos fugir. Eu não posso fugir, nem os intérpretes, nem qualquer pessoa que faça parte deste projecto ‘Vagabundus' pode fugir pelo facto de sermos todos formados em danças tradicionais. Somos pessoas que têm uma formação, que têm fundamentos sobre danças tradicionais e desenvolvemos o nosso trabalho sempre com essa consciência de quem somos e que queremos partilhar com os outros. Depois, é pelo facto de Moçambique também ter uma história de migração muito forte, principalmente com a África do Sul. A outra coisa é pelo facto de eu próprio ter escolhido ‘Vagabundus' não só como uma peça, mas também como um projecto que vai, de certa forma, afirmar aquilo que são as nossas vontades, a minha vontade, de criar uma instituição de dança, criar uma estrutura de dança, como eu sempre venho dizendo. ‘Vagabundus' foi a porta para isso. Sinto realmente essa ancoragem com Moçambique, essa base forte.” Como está o projecto dessa instituição? Já está criada? “Quer dizer, primeiro na ideia e no funcionamento já está criada. Quando criei a companhia, ainda não tinha bases, uma administração, então, sim, ela está criada. Existe uma espécie de estrutura e uma espécie de agenda. O que nós estamos a discutir ainda, mesmo com relação ao prémio da Gulbenkian que é um reforço maior para essa agenda, é um lugar. Então, ela existe pelo seu funcionamento, mas não existe ainda o físico. Nós estamos ainda a trabalhar no físico e principalmente agora, com a ajuda da Gulbenkian, que nos faz, pelo menos, ao meio do caminho. Só para contextualizar, recordo que é o prémio Salavisa European Dance Award da Fundação Calouste Gulbenkian. Eu gostava também que falássemos sobre as escolhas do espectáculo. São mesmo escolhas ou é porque tinha mesmo que ser assim? Não tem luzes, não tem cenários, é uma coisa muito natural e muito despojada… “Primeiro de tudo, eu faço confiança ao corpo. Eu penso que o corpo, ele é inteligente, ele próprio. Segundo, são as vivências do próprio corpo, não o corpo como lugar de memória, mas o corpo como um espaço tecnológico.” Como assim? “O corpo tem saberes a partir das experiências que passou, vai acumulando saberes. Então, eu acredito que o corpo, ele próprio, pode comunicar com qualquer outro corpo. Penso sempre o corpo como um lugar tecnológico que tem capacidade de desenvolver e de nos fazer aceder a outros lugares de forma emocional, de forma espiritual e também de uma forma física. Então, acredito o corpo como esse espaço com capacidade para mudar o mundo também.” No momento em que vivemos toda a aceleração tecnológica, em que passamos para a inteligência artificial, em que qualquer espectáculo tem tanta coisa, até ruído visual, vocês vão ao essencial. É político? “É político porque nós viemos de um lugar e temos opinião só por isso, mas sem uma intenção clara de reivindicação. A intenção clara é demonstrar justamente com o que nós fazemos, com o que nós desenvolvemos e do lugar que eu venho e de onde os Vagabundus vêm não há condições de criação técnica. A peça é forte justamente porque essa simplicidade, essa falta, é uma riqueza para nós. Usamos isso como riqueza, de certa forma. Por isso é que os ‘Vagabundus' têm essa exigência tão técnica, sem muita decoração e sem cenários. Essa simplicidade, nós usamos como riqueza porque é o que nós temos.” Mas isso não corre o risco de ser visto como uma ode à precariedade? Vocês não deveriam sempre pedir mais? “Pois, poderíamos sempre pedir mais. Só que aí é que está. Temos vindo a discutir muito sobre a falta, sobre co-produções, sobre quem nos ajuda. É sempre o meu pensamento, principalmente com relação aos nossos produtores e às pessoas que produzem a Vagabundus ,que produzem o nosso trabalho, nós estamos sempre a discutir isso. Apesar de eu estar sempre a precisar de dinheiro - mesmo para esta última peça que eu estou a desenvolver, preciso de dinheiro para desenvolver figurinos e tudo - preciso procurar dinheiro em algum lugar. Mas também me trava um bocadinho e sempre fico a pensar nesse lugar de dependências e interdependências.” Não quer perder a autonomia, a liberdade? “De que forma continuamos a guardar a nossa autonomia, de que forma continuamos a desenvolver, como queremos fazer apesar do dinheiro não ser nosso, mas justamente por esse lugar inter-humano.” É um espectáculo novo? “Sim, eu estou a preparar um espectáculo que eu chamo de ‘Dzudza', uma palavra em changana para dizer vasculhar.  ‘Dzudza-se' muito nos mercados, nas ruas caóticas de Maputo, cada um à procura de uma peça melhor para si, é dizer mais ou menos isso. Eu vejo o ‘Dzudza' como o oposto do ‘Vagabundus'. ‘Vagabundus' é mais energético, mais interno e é completamente alegre. É uma acção de graças. Na verdade, toda a peça é uma acção de graças. Canta-se todo o tempo, a expressão é a mesma, a estética é a mesma, mas com perspectivas totalmente diferentes de levar à sala e ao público. Há momentos mais alegres. Há momentos mais ecléticos da vida.” Numa das conferências no Fórum da Bienal de Dança de Lyon disse que não via o “Vagabundus' como uma peça, como uma obra, mas como “uma lógica moçambicana de fazer as coisas”. O que quer isso dizer? “Quer dizer que a forma como ‘Vagabundus' foi constituído, as coisas acontecem porque o colectivo tem vontade de fazer. E ‘Vagabundus' foi feita por essa força do colectivo e por essa força individual. Cada um sempre contribuía com o seu transporte até ao lugar, justamente porque acreditava nisso. Uma das características de Moçambique é realmente confiar no colectivo. Para te dar um exemplo muito claro, económico, social e político disso, tem um termo e tem uma acção de empréstimos e de crédito que se chama xitique. Isso só existe em Moçambique. Eu vou explicar. É um grupo de pessoas que se juntam, vão guardar dinheiro para ajudar-se uns aos outros. Eles vão dizer que têm um xitique mensal ou semanal e cada um tem que tirar um valor por semana que vai ajudar um do grupo. Existe essa lógica de confiança que tu tiras o teu dinheiro, dás a alguém e ficas à espera da tua vez chegar. E sempre chega. Mas eu não consigo encontrar nenhuma lógica para isso, senão uma lógica moçambicana de confiança mesmo.” Falemos agora do outro projecto, o espectáculo participativo que fez na Bienal de Dança de Lyon. Como foi a criação?   “O ponto de partida é esse mesmo, a palavra espectáculo, performance. Quando o Quito [Tembe, co-curador do Forum] me escolheu, a ideia era desconstruir essa compreensão que temos sobre o espectáculo e sobre a dança contemporânea. Para mim, espectáculo é convidar alguém para assistir. Na minha ideia, nestes ‘Rituais do Corpo Vivo', eu não tenho público, tenho participantes. Pensar o público como participante da acção que partilhamos e que, se ele participa, também chega a ser um membro que tem algo a partilhar e que dessa partilha se cria uma energia. Então ‘M'Polo' é inspirado de um de um termo maconde de rito de iniciação, que é o espaço onde os iniciados se vão concentrar durante essa formação para passarem para a vida adulta. Vão-se iniciar, vão-se conhecer. Então, esse espectáculo é muito ligado a isso e muito ligado a se reconectar o ser humano com ele próprio. É um lugar onde todos possam respirar juntos, um lugar onde todos possam estar juntos. É um lugar aonde cada um é importante. Então, é isso que nós partilhamos aqui, nessa ideia de desconstruir essa ideia de espetáculo.” E é uma festa também. “Tentamos celebrar o momento, tentamos celebrar esse encontro. Na verdade, eu não sei se podemos chamar isso de uma performance, um espectáculo, mas é mais um ritual de encontro mesmo em que o público não sabe o que é que vai ser. O público não sabe que ele também é participante deste espaço.” E o público como aderiu? Pode ser intimidante… “Sim. Pode ser intimidante, mas por causa do preconceito do que é que é um espectáculo, na verdade, porque eles vão para assistir alguma coisa e isso também cria uma resistência interna, uma luta interna. Eu não sei se eles têm consciência até agora, não sei se eles têm a resposta se eles viram um espectáculo ou se eles participaram do espectáculo.” Neste contexto do ritual colectivo, como é que a dança pode fazer corpo colectivo e ser ferramenta de resistência neste mundo cada vez mais polarizado e individualista? “Eu acho que a dança tem que ser isso, tem que ser um espaço ou tem que ser uma expressão ou um motor que convida as pessoas a dançarem. Também tem que ser um espaço onde as pessoas se sintam no lugar de doadores também, doadores da sua presença. Um espaço que qualquer pessoa pode, de certa forma, mudar uma situação. Eu vejo a dança como isso. Para mim, a dança tem que ser esse espaço que acolhe pessoas. Um espaço acolhedor.” Para terminarmos, para quem ainda não o conhece – e depois de ter ouvido aqui na Bienal que o Ídio Chichava é a moda do momento – quer falar-nos um pouco sobre si? “Sou formado em danças tradicionais. Sou alguém que viveu parte da sua formação como artista e bailarino na França, alguém que viajou muito pelo mundo sempre através da dança. E alguém que acredita muito no poder da dança.”    

Renascença - Ensaio Geral
Há novidades no Centro de Arte Moderna

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Sep 19, 2025 22:36


Três novas exposições no Centro de Arte Moderna (CAM) da Gulbenkian e uma nova escultura de Fernando Fragateiro em Serralves abrem o Ensaio Geral desta semana, em que entrevistamos a escritora americana Claire Messud sobre o livro que escreveu sobre a sua família.

Aguenta
A TORTO E A DIREITO #123

Aguenta

Play Episode Listen Later Sep 8, 2025 64:50


Neste episódio falo sobre dormir torto, brinquedos de desejo, beber café em estações de serviço, tutor de maluco, tarado da Gulbenkian, pedir desculpas no trânsito, elevador da glória, anúncios de acidentes rodoviários e estética corporal dos artistas. 

Expresso - A Beleza das Pequenas Coisas
Zeferino Coelho (parte 1): “Está a preparar-se tudo para uma nova Guerra Mundial. Temos que nos manter lúcidos. Sinto que a estupidez subiu ao poder”

Expresso - A Beleza das Pequenas Coisas

Play Episode Listen Later Aug 8, 2025 94:34


Cresceu numa aldeia do norte, em Paredes, num país conservador, salazarista, com as janelas fechadas para o mundo. Em casa não tinha livros, mas logo aos 13 anos descobre o gosto pela leitura nas carrinhas da biblioteca itinerante da Gulbenkian, que lhe define a vida inteira. Comunista, viveu na clandestinidade na luta antifascista e, no final dos anos 70, integra a fundação da Caminho. É o único editor de uma obra de língua portuguesa distinguida com o Prémio Nobel da Literatura, uma distinção atribuída a José Saramago, em 1998. Na sua família de autores tem ainda 8 Prémios Camões. Nunca mais esquece a alegria do momento que fez o país crescer “três centímetros”. Eterno curioso, aos 80 anos não planeia reformar-se, e afirmar querer publicar e ler livros até ao fim. Ouçam-no nesta primeira parte da conversa com Bernardo Mendonça.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Noticiário Nacional
23h Gulbenkian desenvolve iniciativa para jovens desempregados

Noticiário Nacional

Play Episode Listen Later Aug 4, 2025 9:41


KentOnline
Podcast: Private security firm Akon brought in to crack down on anti-social behaviour in Herne Bay

KentOnline

Play Episode Listen Later Jul 29, 2025 21:21


Private security guards have been brought in to help tackle anti-social behaviour in Herne Bay.A company called Akon has been given a six-week contract to support council enforcement teams and police. It's costing £8,500 and comes after concerns about gangs of young people "terrorising" the town.Also in today's podcast, organisers of a free princess-themed event in Maidstone have been forced to cancel it due to council charges.Snow Princess Parties holds an annual parade in Brenchley Gardens - where youngsters can meet their favourite fairytale and Disney characters.Plans to help families with the cost of living are due to be discussed later, as figures show 30% of children in Medway are living in poverty.The number of pupils eligible for free school meals has doubled in the last nine years. Hear from Medway Council leader Vince Maple.We've been hearing how important it is to get children in Kent involved in the creative arts.The Gulbenkian in Canterbury is running a series of events over the next few months to encourage families to get involved in arts and theatre, we've been speaking to Artistic Director David Sefton.One of the stars of TV's Neighbours has been in Kent to mark a very special birthday.Alan Fletcher, who played Dr Karl Kennedy in the Aussie soap, visited Maplewood Court in Maidstone to meet resident Hilda Howes who has turned 100.A victory parade has been taking place in London to celebrate the Lionesses winning the women's Euros.Kent's Alessia Russo scored an equaliser in the final against Spain on Sunday night taking the game to extra time and penalties.Crowds lined the Mall to see the squad before they lifted the trophy on a stage in front of Buckingham Palace.

Visão Global
A defesa da Antártida

Visão Global

Play Episode Listen Later Jul 13, 2025 50:42


Prémio Gulbenkian para a Humanidade. Crise política em Espanha. 50 anos de São Tomé independente. Golpe na Orano no Níger. Edição de Mário Rui Cardoso.

A Mosca
Urgências,

A Mosca

Play Episode Listen Later Jun 6, 2025 0:36


Segundo um estudo da Gulbenkian, os portugueses admitem que há uma urgência climática.

Kung Fu Movie Guide Podcast
Episode 106 - Sébastien Foucan | Live in Canterbury, 'Drunken Master' special

Kung Fu Movie Guide Podcast

Play Episode Listen Later Apr 21, 2025 42:41


Parkour pioneer Sébastien Foucan can be credited for bringing Parkour to the masses. His seminal UK documentary, 'Jump London' (2003) - and its follow up, 'Jump Britain' (2005) - sparked a cultural phenomenon which would see youngsters take to the streets in wild, acrobatic, hair-raising abandon; running, climbing and leaping across their urban environment in scenes we still see on our streets today. For Sébastien, a movie career followed, with stand-out roles in action films including 'Casino Royale' (2006) and 'The Tournament' (2009). Those perceptive enough to see the inspiration behind his incredible physical abilities and derring-do would be quick to reference the work of Jackie Chan, whose stunt-filled films would prove to be one of the early catalysts for Sébastien and his friends to take to the streets of Paris, recreating what they saw in his movies. Today, Sébastien is an inspirational speaker and CEO of the Foucan Academy, teaching kids the art of movement and self-expression. His motto: "we play".On this episode - recorded live at the Gulbenkian Arts Centre in Canterbury as part of the British Film Institute's Art of Action season - Sébastien explores his love of Hong Kong action cinema (especially the films of Jackie Chan and Bruce Lee), his experiences working in Hollywood, current attitudes towards Parkour, and much more. This conversation was recorded after a screening of the 1978 Jackie Chan classic, 'Drunken Master', and is co-hosted by the 'Life of Action' author - and friend of the show - Mike Fury. A huge thank you to the crew at the Gulbenkian and the people of Canterbury who attended the show, and the Independent Cinema Office and Film Hub South East for helping to organise the event.LINKSSébastien Foucan on Instagram: https://www.instagram.com/sebastienfoucan/Sébastien Foucan on Facebook: https://www.facebook.com/people/Seb-Foucan/100010605671158/ Sébastien Foucan on LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/sebastien-foucan/ Sébastien Foucan website: https://www.sebastienfoucan.com/ Foucan Academy: https://foucanacademy.com/ 'Jump Britain' on YouTube: https://youtu.be/2TJurAP9l-Q?si=Abborgj9sRKdOKMN Chase scene from 'Casino Royale': https://youtu.be/iZxNbAwY_rk?si=9RvrgPTeoUWGT0GZ Sébastien Foucan on 'Ninja Warrior UK': https://youtu.be/o7YFOF1oeag?si=hjKZ23vx9DT-6S-k Mike Fury on Instagram: https://www.instagram.com/themikefury/Mike Fury's website: https://www.mikefury.net/'Drunken Master' review on Kung Fu Movie Guide: https://bit.ly/DrunkenMasterKFMG'Drunken Master' trailer: https://youtu.be/WSu-9X8NF9k?si=BNVVYygZ7Ke_VdYpBuy 'Drunken Master' on Blu-ray: https://eurekavideo.co.uk/movie/drunken-master/Visit the Gulbenkian Arts Centre in Canterbury: https://thegulbenkian.co.uk/Learn more about the BFI's Art of Action season: https://www.bfi.org.uk/art-actionA huge thank you to Independent Cinema Office (https://www.independentcinemaoffice.org.uk/) and Film Hub South East (https://www.independentcinemaoffice.org.uk/film-hub-south-east/) Hosted on Acast. See acast.com/privacy for more information.

El ojo crítico
El ojo crítico - 'Florilegio' de Fetén Fetén, sus últimos discos en un vinilo

El ojo crítico

Play Episode Listen Later Feb 4, 2025 53:37


Nos visita el dúo Fetén Fetén, formado por Diego Galaz y Jorge Arribas, para presentar Florilegio, su nuevo vinilo lleno de esencia y creatividad.Dani Galindo nos acerca a los actores nominados a los Premios Goya con raíces teatrales, mientras que Miguel Ángel nos descubre la sorprendente relación entre música y ciencia a través del libro El cerebro musical de Michel Rochon, publicado por Ático de los Libros. Un tema fascinante que nos lleva a reflexionar sobre cómo las artes y el conocimiento se entrelazan.En el ámbito del arte, Íñigo Picabea nos habla de la llegada a Madrid de 18 óleos y un dibujo de Francesco Guardi, junto con una obra de su hijo Giacomo, procedentes de la prestigiosa Colección Gulbenkian de Lisboa. Una oportunidad única para disfrutar del legado de uno de los artistas más representativos de esta colección.Además, Ana Zurita nos recuerda a Patricia Highsmith en el 30º aniversario de su fallecimiento. La creadora de Tom Ripley revolucionó la novela policíaca con sus thrillers psicológicos, explorando temas como la culpa, la inocencia y los límites entre el bien y el mal.En El Ojo Crítico defendemos las conexiones entre arte y ciencia, rescatamos historias imprescindibles y descubrimos lo mejor de la cultura actual. Escúchanos en Radio Nacional y acompáñanos en este viaje cultural lleno de inspiración y conocimiento.Escuchar audio

TSF - Negócios em Português - Podcast
Fausto Lopo de Carvalho - Diretor de Operções da GIMM - Gulbenkian Institute for Molecular Medicine

TSF - Negócios em Português - Podcast

Play Episode Listen Later Dec 7, 2024


SBS Portuguese - SBS em Português
Mais arte e arquitetura contemporânea no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian em Lisboa

SBS Portuguese - SBS em Português

Play Episode Listen Later Sep 25, 2024 4:29


O magnate armênio Calouste Sarkis Gulbenkian nasceu há século e meio. Ficou conhecido como o senhor 5%. Era dono de 5% do crude mundial. No tempo da II Guerra Mundial, refugiou-se em Portugal, onde foi acarinhado. Homem de negócios, colecionador de arte e filantropo, quando morreu em Lisboa, em 1955, era o homem mais rico do mundo graças ao petróleo.

Visão Global
A cimeira da NATO

Visão Global

Play Episode Listen Later Jul 14, 2024 50:30


A cimeira dos 75 anos da Aliança Atlântica. O novo presidente reformista do Irão. O Prémio Gulbenkian para a Humanidade. Edição de Mário Rui Cardoso.

Noticiário Nacional
22h Agricultura sustentável vence Prémio Gulbenkian

Noticiário Nacional

Play Episode Listen Later Jul 11, 2024 10:39


Noticiário Nacional
20h Prémio Gulbenkian distingue agricultura sustentável

Noticiário Nacional

Play Episode Listen Later Jul 11, 2024 12:54


Noticiário Nacional
21h Prémio Gulbenkian para a Humanidade repartido por 3 projetos

Noticiário Nacional

Play Episode Listen Later Jul 11, 2024 10:44


The Creative Process in 10 minutes or less · Arts, Culture & Society
How has jazz been interpreted around the world? Highlights - BERNARDO MOREIRA

The Creative Process in 10 minutes or less · Arts, Culture & Society

Play Episode Listen Later Dec 21, 2023 10:16


“I play the double bass as a professional musician. I don't consider myself a piano player, but I play a little bit of piano, of course. Every musician should play a little bit of piano to understand harmony. And if you want to compose or to arrange music, you need to know basic piano. So I play a little bit of piano. Actually, I started to play guitar before the double bass, because it was not so easy to get a double bass 40 years ago. My father was a bass player, but he never had a bass at home. So I started to play guitar first, and I was really into Bossa Nova and those chords from João Gilberto, and it was a big influence in my early years. But then I found a double bass when I was sixteen or seventeen– it was a terrible double bass, but it was enough to start with. Today, that sounds kind of late to start learning an instrument, but back then it wasn't so terrible. Now you have small double basses that kids of nine, ten years old can start playing. In the eighties, if you were small, you could not play double bass, basically.”Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

The Creative Process Podcast
BERNARDO MOREIRA - Portuguese Jazz Musician

The Creative Process Podcast

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 36:37


Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.“I play the double bass as a professional musician. I don't consider myself a piano player, but I play a little bit of piano, of course. Every musician should play a little bit of piano to understand harmony. And if you want to compose or to arrange music, you need to know basic piano. So I play a little bit of piano. Actually, I started to play guitar before the double bass, because it was not so easy to get a double bass 40 years ago. My father was a bass player, but he never had a bass at home. So I started to play guitar first, and I was really into Bossa Nova and those chords from João Gilberto, and it was a big influence in my early years. But then I found a double bass when I was sixteen or seventeen– it was a terrible double bass, but it was enough to start with. Today, that sounds kind of late to start learning an instrument, but back then it wasn't so terrible. Now you have small double basses that kids of nine, ten years old can start playing. In the eighties, if you were small, you could not play double bass, basically.”www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

The Creative Process Podcast
How has jazz been interpreted around the world? Highlights - BERNARDO MOREIRA

The Creative Process Podcast

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 10:16


“I play the double bass as a professional musician. I don't consider myself a piano player, but I play a little bit of piano, of course. Every musician should play a little bit of piano to understand harmony. And if you want to compose or to arrange music, you need to know basic piano. So I play a little bit of piano. Actually, I started to play guitar before the double bass, because it was not so easy to get a double bass 40 years ago. My father was a bass player, but he never had a bass at home. So I started to play guitar first, and I was really into Bossa Nova and those chords from João Gilberto, and it was a big influence in my early years. But then I found a double bass when I was sixteen or seventeen– it was a terrible double bass, but it was enough to start with. Today, that sounds kind of late to start learning an instrument, but back then it wasn't so terrible. Now you have small double basses that kids of nine, ten years old can start playing. In the eighties, if you were small, you could not play double bass, basically.”Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Books & Writers · The Creative Process
BERNARDO MOREIRA - Portuguese Jazz Musician

Books & Writers · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 36:37


Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.“I had so many people around me when I was young– famous poets like Ary dos Santos, one of Portugal's greatest poets of the 20th century. Sometimes he would be there talking with my mother, and I had this information that was getting in, but I wasn't aware of it. And then in the early days, when I had just started playing, I was really into modern jazz, which was very instrumental, so I didn't really pay attention to lyrics. It took me a while to get interested in Portuguese music, and in that mixture between jazz, Fado music and Portuguese popular music. For a while I was into the importance of a good poem. Now what moves me most of the time is that mixture of cultures— trying to do something that you cannot find in other countries. If you are into a lot of American jazz, for instance, you can play great music, but you are always playing music that started elsewhere, you know? And for a European like me, it's challenging to try and find what makes you different in such a big market. What sound can you try to create that you wouldn't hear in France or in Japan or in New York? So that's a very difficult challenge, actually, because you try to get really into your heart and your emotion. And I think Portugal has a lot of good emotions in its popular music that you don't find elsewhere. The music I make always has a kind of nostalgic ambience. It's not always sadness. It's a melancholic approach that is very hard to put into words– you just need to feel it.”www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Books & Writers · The Creative Process
How has jazz been interpreted around the world? Highlights - BERNARDO MOREIRA

Books & Writers · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 10:16


“I had so many people around me when I was young– famous poets like Ary dos Santos, one of Portugal's greatest poets of the 20th century. Sometimes he would be there talking with my mother, and I had this information that was getting in, but I wasn't aware of it. And then in the early days, when I had just started playing, I was really into modern jazz, which was very instrumental, so I didn't really pay attention to lyrics. It took me a while to get interested in Portuguese music, and in that mixture between jazz, Fado music and Portuguese popular music. For a while I was into the importance of a good poem. Now what moves me most of the time is that mixture of cultures— trying to do something that you cannot find in other countries. If you are into a lot of American jazz, for instance, you can play great music, but you are always playing music that started elsewhere, you know? And for a European like me, it's challenging to try and find what makes you different in such a big market. What sound can you try to create that you wouldn't hear in France or in Japan or in New York? So that's a very difficult challenge, actually, because you try to get really into your heart and your emotion. And I think Portugal has a lot of good emotions in its popular music that you don't find elsewhere. The music I make always has a kind of nostalgic ambience. It's not always sadness. It's a melancholic approach that is very hard to put into words– you just need to feel it.”Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Poetry · The Creative Process
BERNARDO MOREIRA - Portuguese Jazz Musician

Poetry · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 36:37


Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.“I had so many people around me when I was young– famous poets like Ary dos Santos, one of Portugal's greatest poets of the 20th century. Sometimes he would be there talking with my mother, and I had this information that was getting in, but I wasn't aware of it. And then in the early days, when I had just started playing, I was really into modern jazz, which was very instrumental, so I didn't really pay attention to lyrics. It took me a while to get interested in Portuguese music, and in that mixture between jazz, Fado music and Portuguese popular music. For a while I was into the importance of a good poem. Now what moves me most of the time is that mixture of cultures— trying to do something that you cannot find in other countries. If you are into a lot of American jazz, for instance, you can play great music, but you are always playing music that started elsewhere, you know? And for a European like me, it's challenging to try and find what makes you different in such a big market. What sound can you try to create that you wouldn't hear in France or in Japan or in New York? So that's a very difficult challenge, actually, because you try to get really into your heart and your emotion. And I think Portugal has a lot of good emotions in its popular music that you don't find elsewhere. The music I make always has a kind of nostalgic ambience. It's not always sadness. It's a melancholic approach that is very hard to put into words– you just need to feel it.”www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Poetry · The Creative Process
How has jazz been interpreted around the world? - Highlights - BERNARDO MOREIRA

Poetry · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 10:16


“I had so many people around me when I was young– famous poets like Ary dos Santos, one of Portugal's greatest poets of the 20th century. Sometimes he would be there talking with my mother, and I had this information that was getting in, but I wasn't aware of it. And then in the early days, when I had just started playing, I was really into modern jazz, which was very instrumental, so I didn't really pay attention to lyrics. It took me a while to get interested in Portuguese music, and in that mixture between jazz, Fado music and Portuguese popular music. For a while I was into the importance of a good poem. Now what moves me most of the time is that mixture of cultures— trying to do something that you cannot find in other countries. If you are into a lot of American jazz, for instance, you can play great music, but you are always playing music that started elsewhere, you know? And for a European like me, it's challenging to try and find what makes you different in such a big market. What sound can you try to create that you wouldn't hear in France or in Japan or in New York? So that's a very difficult challenge, actually, because you try to get really into your heart and your emotion. And I think Portugal has a lot of good emotions in its popular music that you don't find elsewhere. The music I make always has a kind of nostalgic ambience. It's not always sadness. It's a melancholic approach that is very hard to put into words– you just need to feel it.”Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Education · The Creative Process
BERNARDO MOREIRA - Portuguese Jazz Musician

Education · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 36:37


Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.“I would love if young people understood that art is one of the things that make you a human and not a robot. That's the difference. And if we could pass on that message, what makes us human beings, it's exactly our ability to feel. We need to do it in the schools and the teacher should be the most important person in the world right now - good teachers who pass that message to young people. They need to focus on the important things to get that capacity to concentrate. If we lose the concentration capacity, then we are becoming robots, and so for me, the challenge is really for the young people and teachers, telling them the importance of paying attention to the important things.”www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Education · The Creative Process
How has jazz been interpreted around the world? Highlights - BERNARDO MOREIRA

Education · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 10:16


“I would love if young people understood that art is one of the things that make you a human and not a robot. That's the difference. And if we could pass on that message, what makes us human beings, it's exactly our ability to feel. We need to do it in the schools and the teacher should be the most important person in the world right now - good teachers who pass that message to young people. They need to focus on the important things to get that capacity to concentrate. If we lose the concentration capacity, then we are becoming robots, and so for me, the challenge is really for the young people and teachers, telling them the importance of paying attention to the important things.”Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Music & Dance · The Creative Process
BERNARDO MOREIRA - Portuguese Jazz Musician

Music & Dance · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 36:37


Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.“It took me some time to understand where I was going to see myself. It's true that, at home, me and my brothers had a beautiful cultural environment because my father was, not a professional musician, but a jazz lover. He was really into jazz music and really passionate about it. But he was never a professional musician. He was an amateur. My mother, also, was a teacher and a writer, so I think we had this environment at home that got us into music. We were always listening either to opera or to jazz. Of course, we had our preferences when we were kids– we loved The Beatles and The Rolling Stones. But we always had this different approach because of our mother and father. Everything that influenced us came through them, even if we didn't know it. When I was fourteen or fifteen I started to feel a need to play an instrument. And one thing that helped a lot was the fact that we were four brothers and we started to play music together. We had this small combo happening at home almost every day, every hour. And it was a quick sensation– immediately I understood that this was what I was going to do for the rest of my life.”www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Music & Dance · The Creative Process
How has jazz been interpreted around the world? - Highlights - BERNARDO MOREIRA

Music & Dance · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 10:16


“It took me some time to understand where I was going to see myself. It's true that, at home, me and my brothers had a beautiful cultural environment because my father was, not a professional musician, but a jazz lover. He was really into jazz music and really passionate about it. But he was never a professional musician. He was an amateur. My mother, also, was a teacher and a writer, so I think we had this environment at home that got us into music. We were always listening either to opera or to jazz. Of course, we had our preferences when we were kids– we loved The Beatles and The Rolling Stones. But we always had this different approach because of our mother and father. Everything that influenced us came through them, even if we didn't know it. When I was fourteen or fifteen I started to feel a need to play an instrument. And one thing that helped a lot was the fact that we were four brothers and we started to play music together. We had this small combo happening at home almost every day, every hour. And it was a quick sensation– immediately I understood that this was what I was going to do for the rest of my life.”Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira