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Convidado
Marta Lança publica memórias entre Lisboa, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo e Rio de Janeiro

Convidado

Play Episode Listen Later Aug 20, 2026 37:05


Neste programa, conversamos com Marta Lança, a autora de “Essas pessoas na sala de jantar”, um livro que conta as histórias de uma vida escrita entre Lisboa, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro e outras geografias, tendo como fio condutor as mudanças de casa e os encontros com novas pessoas que enchem salas de jantar transformadas em lugares de resistência e comunidades de pensamento e de arte. Este é o seu segundo livro, depois de “infinitas-pessoas-mais-uma”, ambos editados na Tigre de Papel. Marta Lança é jornalista, escritora, programadora cultural e também coordena o portal Buala, uma plataforma dedicada à cultura e ao pensamento sobre o Sul Global.  O livro “Essas pessoas na sala de jantar” é como uma casa, ou melhor, uma sala de jantar repleta de amigos e reinventada a cada nova morada entre três continentes. Mas não é “uma sala de jantar auto-satisfeita”, não. É um convite à viagem, à partilha e aos novos sabores, com pratos cheio de histórias e portas abertas, com sorrisos e cumplicidades, algures em prédios onde – podemos ler – “nos desenrascamos uns aos outros, e dispensamos ovos e coentros, em que crescemos juntos”. Foi a partir das sucessivas mudanças de casa para “outro bairro, às vezes outra cidade, ou continente” que a autora quis “encapsular temporadas em certos lugares e circunstâncias”. Através da sua história pessoal, conta o que viu nos países onde viveu, observando com “um olhar para dentro e para fora” capaz de arrombar quartos fechados e mentes quadradas. Esta é uma história de encontros, de “geografias afectivas múltiplas” e é também um diário de bordo de um mundo em risco de extinção e de um outro a cimentar-se, num “tempo saturado de estímulos e de tecnofascismo” e em que os ecrãs substituíram livros e o brincar na rua. Escrito com muito humor, o livro é também uma forma de transmissão da memória, offline, um registo proustiano em busca de um tempo perdido em que tanto se ganhou e tanto se foi perdendo. Às memórias pessoais da protagonista, às suas histórias de amizades, de amores, de viagens e experiências noutros países, misturam-se os grandes acontecimentos que marcaram a História e a política do pós-25 de Abril em Portugal até aos dias de hoje no mundo. Tudo acompanhado pelo ritmo dos filmes, dos livros e da banda sonora que também escreveram esses anos. A partir de Lisboa, Faial, Paris, Mindelo, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro, Baixo Alentejo, as histórias  são acompanhadas por reflexões sobre as injustiças sociais, o racismo, as cidades segregadas, o capitalismo desenfreado, a crise da habitação, a especulação insaciável e as rendas insustentáveis, a ecologia em crise, a pobreza, as sempiternas lutas das mulheres e muitas e variadas e repetidas opressões. São também histórias de lugares de resistência, de salas de jantar transformadas em comunidade de pensamento e de arte. A autora lembra como foi crescer numa Lisboa arrastada pela especulação imobiliária, o que foi a “Geração à Rasca” nos tempos da Troika e lembra que “o fascismo nunca desapareceu no país dos brandos costumes”.  Depois, recorda como “ter vinte e um anos em Paris foi um embate de geopolítica existencial, um momento fundador na mundividência íntima”. Em Cabo Verde, reconheceu “a personalidade telúrica dos habitantes vulcânicos" que tinha conhecido em menina nos Açores, “mas o mais difícil de erradicar permanece: as mentalidades, a anos-luz de descolonizar”. Segue-se Luanda, “mal tinha desembrulhado o grogue, o veludo e a calabaceira de Cabo Verde e partia de novo, desta vez para uma grande metrópole africana da qual afinal não sabia quase nada”. Em Luanda compreendeu que “a mesma cidade onde se luta para conseguir comer ou para facturar milhões, toda a hora é hora de celebrar a vida, porque a toda a hora se pode morrer.” Em Maputo, o que mais conquistou o seu “coração rebelde eram os concertos de hip-hop, agregadores de jovens desejosos de mudar a sociedade restrita e opressora”, como Azagaia que “confrontava o regime e a geração da independência” com, por exemplo, a música “Quem vendeu a minha pátria?”. No Rio de Janeiro, surge a pergunta: “Como se pratica a alegria num lugar atravessado por tanta violência?”, onde “a desigualdade continua a ser a espinha dorsal da vida urbana brasileira.” A resposta começa, talvez, nos baile funk na Zona Norte, “uma das maiores expressões da resistência cultural, social e identidade das periferias brasileiras”. Mais tarde, o refúgio no Baixo Alentejo, em Portugal, onde uma casa no campo é a possibilidade de “pequenos lugares engendrarem utopias”. Porém, mesmo aí, “a terra é colonizada e posta a render” e nos cafés se percebe “como muita gente desistiu e se deixou manipular pelo populismo e abandono”. No final, regressa às raízes para cuidar de quem dela cuidou e de quem dela cuidará, confessa. Consciente de fazer “parte da paisagem da desigualdade montada”, ao longo dessas viagens entre os três continentes, a narradora nunca esquece “o Atlântico que devolve continuamente a memória do terror e da sobrevivência”. Também omnipresente, de viagem em viagem, a comida, das bolinhas da Xandite aos gelados do Pintado, do empadão de esparguete com carne nos avós, ao “panelão de arroz de grelos servido em pratos lascados e vinho de pacote”, passando pelo amarindo, loengo, mamão, goiaba e fruta pinha da zungueira de Luanda, sem esquecer o acarajé no Rio e a Cozinha Ocupação. Afinal, “poucas coisas unem tanto as pessoas como partilhar uma refeição”. A inspirar as suas páginas sente-se a busca e um enorme respeito pela liberdade, partindo de uma personagem-arquétipo a que chamou Júlia e que andava “a desenhar um mapa poético para mudar o sistema sem tomar o poder”. Era uma Júlia que, para além do engajamento em vários combates políticos, concentrava “a liberdade das infinitas mulheres que nunca puderam fazer nada mais senão trabalhar muito e cuidar dos outros". "Essas pessoas na sala de jantar" talvez seja "o mapa poético" de Marta Lança, esboçado a partir da "força de todas as que foram reprimidas". Marta Lança: "Aproveita, vive com consciência toda essa liberdade, o que tantas mulheres antes de ti não puderam fazer" RFI: Do que fala este livro? Marta Lança, Autora de “Essas pessoas na sala de jantar”: “Este livro compila várias crónicas de diversos momentos da minha vida. Quando estava a pensar o que é que ligaria estas histórias, achei que seria o mínimo denominador comum a questão de mudar. Mudar de casa, mudar de cidade, mudar de geografia emocional e de trabalhos, entre eles tem esta questão de cada um que se passa num determinado tempo e espaço. Começa com a casa onde cresci, a casa dos pais, a casa de onde parti para a vida e depois são sucessivas casas como ponto de partida: várias em Lisboa, várias depois com a vida profissional, em que fui viver para os países africanos onde também se fala português, como Cabo Verde, Angola, Moçambique. Depois o Brasil e o regresso a Lisboa, sendo Lisboa também em vários bairros, em vários tempos. Isso é o que coordena. Depois, fala de muitas outras coisas. Cada história tem os seus universos, alguns vão-se repetindo, mas é basicamente um livro que tem a ver com o crescer, com o tornar-se uma mulher, tornar-se adulta, e tem esse lado um pouco confessional, autobiográfico - mesmo assim, tentando não expor muito os outros - mas é o devir adulto. Basicamente, é um livro que tem a ver com o crescimento.” Por que é que decidiu chamar-lhe “Essas pessoas na sala de jantar”? “Porque sempre gostei muito dessa canção de 'Os Mutantes', um grupo brasileiro de movimento Tropicália. A canção chama-se ‘Panis et Circenses', tem a ver com uma crítica à ditadura militar brasileira. É muito irónico porque enquanto se está a distribuir pão e circo, essa classe média que está entretida na sala de jantar, ocupada em manter-se, em nascer e morrer, e que fica numa certa passividade enquanto o mundo explode, enquanto há uma série de injustiças, há uma classe média que está muito contente com a sua vidinha de privilégio. Então, trouxe este título para falar também dessa tensão que eu própria sinto entre o meu meio, esse meio pequeno-burguês de Lisboa que teve acesso à educação, saúde a seguir ao 25 de Abril. Portanto, somos essa primeira geração em liberdade que pôde uma série de coisas e, ao mesmo tempo, o que é que fazemos com isso? Então, também tem essa questão de tentar politizar-me e ter atenção à abertura para outras realidades do mundo e da minha própria cidade e ter uma participação não passiva, sendo que há esse dentro e fora da sala de jantar. Acho que é uma canção que traduz muito essa vontade também de trazer poesia para a vida, um outro olhar, não aquele convencional, e por isso a escolhi como título.” O espaço casa tem um lugar central, mas essas casas vão sendo criadas em diferentes países. Quase parece um paradoxo porque a casa é algo aparentemente estável, seguro, e aqui as suas casas são resultado de viagens e cada cidade é como uma nova casa. Até que ponto é que as casas e as cidades são personagens centrais neste livro? “São porque têm um lado de dentro de casa, mas não muito. Então, dentro de casa porque aconteceu que quase todas estas casas, como os leitores vão ver, foram casas partilhadas, casas colectivas onde viviam outras pessoas. Desde o início com a família, o núcleo duro, etc, e depois os amigos, os namorados e, hoje em dia, as casas com crianças quando estamos a criar filhos. Na partilha de casa, sempre achei muito interessante, como uma espécie de laboratório social, como é que as pessoas habitam uma casa, como é que pessoas, além de mim, tornam a casa um lugar habitável, um lugar acolhedor, mas um lugar onde há conflitos com a divisão de espaço, divisão de tarefas. Foi interessante que a minha vida suscitou ver várias maneiras de habitar a casa porque fui partilhando casa com pessoas diferentes ao longo da vida e sendo que essas outras cidades, outros bairros, também traziam sempre um microcosmos de realidades diferentes. Então, não são cenários, são participantes dessa observação de costumes, de ponto de partida para ver o que está à volta da casa. Aliás, o livro parte desse interior da casa, mas depois vai muito para fora, sai logo. A narradora - que sou eu - acaba por estar mais interessada no que se passa fora. Tenho algumas observações sobre o dentro de casa, mas o mais interessante será mesmo essa etnografia de ambientes à volta dessas casas, do bairro, dos sistemas políticos, dos assuntos que inquietam naquele momento, como se cristalizasse um certo tempo de observação. É por aí que interessa, é como a casa ser um mirante, um ponto de observação do exterior.” Vamos às casas nas diferentes cidades. Por exemplo, Lisboa. Lisboa não é apenas a cidade bonita e multicultural onde cresceu, onde ia ao ballet da Gulbenkian, ao cinema, aos bares do Bairro Alto dançar kizomba e ouvir Os Tubarões. Foi também a cidade onde um rapaz cabo-verdiano, Alcino Monteiro, foi espancado até à morte por um bando de skins no Dia de Portugal, em 1995, um cenário que se repetiria. Olha para este ódio racial que reverbera ainda na própria cidade. Quer-me falar sobre Lisboa? “Sim, é interessante ter ido buscar esse exemplo porque essa linha de cor que atravessa a cidade de Lisboa, essa colonialidade ainda estamos a vivê-la, não é? Crescer nos anos 80, numa cidade que estava a urbanizar-se, é o meu ponto de partida: era ali a zona de Carnide, depois assistir ao fenómeno do Colombo, toda essa Lisboa que se queria tornar uma cidade europeia, com a entrada na União Europeia, o desenvolvimento e, ao mesmo tempo, o realojamento dos bairros mais auto-construídos, etc, mas que obviamente foi criando para as margens, foi marginalizando, tornando periféricas uma série de realidades socioculturais e económicas de tornar muitos bairros empobrecidos e pessoas empobrecidas em que a linha de cor coincide. Ou seja, são as pessoas racializadas que acabam por ter esse estigma que vinha de um país a seguir ao 25 de Abril, ainda com uma grande carga colonial, racista, foi mantendo, se calhar um pouco mais com um certo pudor, sendo que agora, com a ascensão da extrema-direita e todo este populismo e instrumentalização do ressentimento voltou a sair à carga e ainda mais estigmatizou estes territórios, estas pessoas, e no livro vou falando desses momentos. De facto, o ódio racial foi um momento definidor quando aconteceu esse assassinato do Alcino Monteiro num bairro que eu frequentava, o Bairro Alto, que eu frequentava com os meus amigos. Para nós, que éramos novos, sentir esse medo nas ruas, ali no centro da cidade, e perceber: ‘Afinal isto é terrível. Há pessoas que são um alvo muito mais declaradamente de uma purga, dessa motivação do ódio.' E acho que isso nunca deixou de existir em Lisboa, aliás, culminou no ano passado com a morte do Odair Moniz, e vamos vendo como a cidade evolui e não resolve essas suas feridas sociais de ódio. E, portanto, acho que isso atravessa de alguma forma o livro. Eu, no lugar de também de um certo activismo anti-racista, mas como é que uma jovem lisboeta branca vai percebendo essas injustiças. Também entrei por aí de uma forma, não aprofundando muito, mas dando a entender que isso é uma realidade que só não vê quem não quer. Podemos estar num certo meio protegidos, mas somos cúmplices desse estado de coisas se mantivermos essa passividade. Portanto, temos de denunciar.” Vamos agora a Paris. Conta que “ter 21 anos em Paris foi um embate de geopolítica existencial, um momento fundador na mundividência íntima”. Foi para lá estudar, viveu na Cité Universitaire. Fala daquele momento, mas também na continuação das lutas sociais até hoje, com os Coletes Amarelos, as revoltas suburbanas na sequência também do assassínio de jovens de pele negra, a mobilização contra a ascensão da extrema-direita. Que lugar tem para si Paris? “Nessa tal geografia de afectos e de crescimento, Paris foi muito importante porque foi esse tal embate político. A minha relação com Paris no livro é no ano de 1997, 98, eu era uma jovem estudante de Erasmus em Paris. E teve esse papel de perceber como o mundo é enorme, como as lutas sociais são muito mais vastas do que a partir de Lisboa e também de perceber que há uma esquerda muito organizada e disseminada nas universidades, nas manifestações e isso foi muito importante de assistir, de acompanhar, de testemunhar esse fervor. Quanto mais organização, até de contestação, também mais se sentia essa tensão de uma cidade a uma escala muito maior do que Lisboa. Eu conto uma manifestação dos ‘chomeurs' [desempregados] que me impressionou muito, a forma muito combativa e muito radical de confrontar a polícia, etc, e depois Paris sempre continuou a ser uma meca da esquerda europeia com essas outras lutas que se seguiram e mais do que nunca, agora, com a situação política da Europa e de França em particular. Acho que é um bom barómetro da temperatura social, continua a ser.” Viveu também em Cabo Verde, que diz que se tornou em “um país exemplar no contexto africano”, graças ao empenho, ao valor atribuído à educação. Diz ainda que o mais difícil de erradicar permanecem “as mentalidades a anos-luz de descolonizar”. Quer falar-nos um pouco sobre Cabo Verde e a sua experiência? “Cabo Verde foi também uma transição enorme na minha vida. Ir viver para uma ilha pequenina como São Vicente e fazer uma revista com jovens cabo-verdianos e perceber as questões deles, algumas frustrações e muita vontade de participar, de ter opinião. Então, foi uma experiência que eu acarinho muito. De facto, viver nos sítios, trabalhar nos sítios, ajuda-nos muito a compreender essas tais relações, a sair do postal turístico das férias na ilha do Sal ou da Boavista em que a pessoa não percebe muito mais para além de que é um país maravilhoso, cheio de morabeza, etc. Ao trabalhar com jovens e ao ouvir os artistas, ao fazer também jornalismo de muita escuta, fez com que eu entendesse que há uma grande questão identitária. Portanto, isto é Cabo Verde de 2004, é claro que muitas coisas mudaram, mas havia ali muitas conversas sobre a questão da crioulidade, da situação atlântica de Cabo Verde cultural, da mestiçagem, todas essas heranças de ‘somos mais africanos, somos mais europeus', toda essa indefinição, que é uma discussão interessante, mas depois, no dia-a-dia, sentia-se que ainda havia um certo racismo em relação a pessoas do continente africano, muito pejorativamente chamados de mandjacos, como se isso fosse um insulto a uma etnia da costa da África, guineense, etc, e sobretudo a geração mais velha tinha um certo preconceito com a questão das pessoas mais negras. Falo também nessas manifestações, de alguns comentários, de algumas tradições como os Mandingas no Carnaval do Mindelo. E acho que sim, há uma mentalidade ainda muito colonizada que vai-se percebendo também em coisas mais recentes. Por outro lado, há uma juventude que reivindica o lado pan-africanista, a herança de Amílcar Cabral como os grandes valores da independência, tudo isso, mas é, mais uma vez, perceber que o contexto de um país é muito mais complexo do que a gente pensa no início. “Mal tinha desembrulhado o grogue” - estou a citá-la – “o veludo e a calabaceira de Cabo Verde", partiu de novo, desta vez para "uma grande metrópole africana, da qual, afinal, quase nada conhecia”. Luanda é a cidade onde "a toda a hora é hora de celebrar a vida porque a toda a hora se pode morrer”. Quer falar-nos sobre Luanda? “Luanda, essa grande cidade! Foi incrível conhecer Luanda nesse momento que saía há poucos anos de longuíssima guerra civil e ir trabalhar na área da cultura, das artes, em que estava tudo por fazer, havia uma alegria, um entusiasmo, e foi mesmo extraordinário também partilhar casa no bairro da Maianga, uma casa que já é histórica nas lendas urbanas, que é o Sete e Meio. Era um apartamento que dividíamos entre artistas angolanos e eu e uma amiga portuguesa que também trabalhávamos na Trienal de Luanda. Morava lá o Kiluanji Kia Henda, o Orlando Sérgio, o Yonamine, o Ihosvanny, artistas que estavam em grande força na sua carreira como artistas visuais, e o Orlando que é um actor na área do teatro e cinema. Então, era um ponto agregador da cidade, onde fazíamos muitos jantares, muitas conversas na nossa varanda, que também tinha um ponto de observação para as transformações urbanas da própria cidade de Luanda. E sim, é uma cidade de contradições, não é? Nessa altura - já não é a realidade actual - havia muita gente a fazer dinheiro porque o petróleo era, de facto, a economia muito efervescente, o crescimento económico era incrivelmente alto e acelerado, mas sabemos que isso depois não se traduziu em melhorias na qualidade de vida do povo angolano, que hoje em dia está bastante sufocado, numa crise enorme. Eu, como estrangeira, mas tentando viver como angolana no dia-a-dia, andar de candongueiro, depois também fiquei lá a trabalhar como professora, ouvi muitas histórias e o que mais me fascinava eram as biografias das pessoas. As pessoas tinham histórias de vida incríveis e apetecia cartografar tudo e escrever tudo, mas depois a realidade era tão veloz e alucinante que era difícil. Então, esses dois textos no livrinho sobre a Luanda dessa época são muito fragmentados, mas era um espelho da própria cidade, dessas vozes todas, dessas contradições e também um grande carinho nas pessoas e, ao mesmo tempo, uma brutalidade porque é a lei da sobrevivência.” Em Maputo, foi a música e o ímpeto do hip-hop, nomeadamente as letras do Azagaia, que a conquistaram, ele que tantas denúncias fez contra o regime, contra inclusivamente a geração da independência, contra a exploração do povo, contra o neocolonialismo português. Mais uma vez a atenção e a observação acutilantes da Marta… “Gostei muito de ir aos concertos do Azagaia. Foi um privilégio poder ir a vários concertos de hip-hop. Também já tinha frequentado muito o rap angolano, gostava muito também. Na altura, em Angola, ouvia muito o MCK, depois o Luaty Beirão também voltou à cidade e outros. Havia um grande movimento de hip-hop que era um grande escape de denúncia política. Então, era uma forma de entender o que é que os jovens estavam a pensar sobre a sua situação. Maputo é uma cidade extremamente musical, havia muitos concertos, muita música ao vivo nos bares e acho que é um dos pontos mais fortes que eu retenho: essa cidade musical. O Azagaia, além de, na altura, me ter chamado a atenção pelas letras tão interessantes, depois, tudo o que suscitou quando ele morreu, o cortejo fúnebre, a repressão e os tumultos todos que houve em Maputo e Matola e na Beira a seguir à morte dele… Aliás, eu tinha escrito esse texto antes de o Azagaia morrer e depois acrescentei mais isso como um questionamento também sobre a geração que fez a independência e a herança que deixou ao país como está actualmente, que ainda tem tanta juventude urbana descontente porque não tem muitos horizontes de expectativa para poder ficar no país com uma vida digna.” Também viveu no Rio de Janeiro e começa por falar de um baile funk em que questiona "como é que se pratica a alegria num lugar atravessado por tanta violência". O que representou para si o Rio de Janeiro? “Comecei o texto com esse episódio do baile funk porque também tive a sorte de poder frequentar as comunidades faveladas da Zona Norte do Rio de Janeiro. E sim, são zonas da cidade, territórios muito permeáveis à violência, seja do tráfico de droga, seja da própria polícia. Na altura, havia operações de pacificação dos morros e, no entanto, eram sempre bastante ameaçadoras para a população trabalhadora dessas comunidades. E havia uma banalização dessa violência que acho que todos sabemos com os filmes e as notícias que nos chegam. Portanto, é viver numa guerra aberta e isso é muito desgastante para os moradores. Depois conto também como é que algumas figuras, como um estudante de mestrado, se sentia uma excepção no seu contexto de jovem negro, periférico, pobre, mas como as políticas de discriminação positiva, as quotas, são muito importantes no contexto do Brasil para furar essa repetição da pobreza e, portanto, também como é que a partir dali se estava a pensar a questão da cidade, do asfalto e da periferia, todas essas divisões de uma sociedade tão classista, tão racista… Algumas opções vão-se repetindo ao longo dos textos, mas com novos figurantes e novas reflexões, penso eu.” Acaba por haver alguns temas e até injustiças que se repetem ou que dialogam entre as cidades onde viveu? “Exacto e a procura da alegria, que citou, é mesmo uma força de resistência nestes lugares, não é uma alegria alienante, é uma alegria que tem o seu peso, da sua dor, dessas feridas todas da história, da história da escravatura, da história da pobreza, e, ao mesmo tempo, a capacidade de ‘estamos aqui, continuamos, sobrevivemos e transformamos a dor em alegria, uma alegria de não nos vão apagar, aqui continuamos'. Essa lição dessa alegria sobrevivente, para uma europeia, é mesmo importante, porque eu acho que em Portugal, por exemplo, se cultiva muito o lamento, o queixume, mas é um queixume que depois não muda nada, é um queixume quase de apaziguamento. Acho que esses países, como eu digo, abaixo do Equador, nos davam uma lição de vida nesse sentido que é: ‘Vamos para a frente, resistimos' e, cada vez mais, confrontacionais e a desejarem uma outra vida com todo o seu sentido crítico. Portanto, é uma alegria que também traz a crítica ao estado de coisas.” Outro aspecto é a comida, que de viagem em viagem também é omnipresente, seja na sala de jantar, seja na rua, no café, no restaurante. Das bolinhas da Xandite aos gelados do Pintado, do empadão de esparguete com carne da casa dos avós, ao “panelão de arroz de grelos servido em pratos lascados e vinho de pacote”, em Lisboa, ao amarindo, loengo, mamão, goiaba e fruta pinha da zungueira de Luanda, ao acarajé no Rio e à Cozinha Ocupação… Escreve: “Poucas coisas unem tantas pessoas como partilhar uma refeição”. Porquê tanto sabor neste livro? “Muito bem visto! E também o grande ensopado de borrego no Alentejo!” É verdade, não falámos do Alentejo, mas também é bom deixar aos leitores a possibilidade de descobrir outras geografias e sabores… “Exactamente. A refeição partilhada é também ligada à ideia das pessoas na sala de jantar que estão a partilhar o seu momento, a distribuição de comida, a vontade de experimentar coisas novas e como cada lugar também com os seus sabores, porque é uma forma de convívio, não é? E esse é outro grande tema do livro: o convívio entre pessoas diferentes e uma refeição pode pôr na mesma mesa pessoas de realidades muito diferentes e estarem unidas pelo prazer de comer, de descobrir e também como os novos sabores traziam novas realidades. Quando estou a apontar para esses frutos tropicais, estou a aprender novos léxicos e novas realidades e, portanto, quis trazer essas diversas comidas.” Esses sabores não são só gustativos, também há os sabores auditivos, porque a música também está muito presente no livro. É como uma banda sonora em pano de fundo… “É porque a música também é uma forma de conhecermos realidades novas. Acho que todos nós temos sempre as nossas músicas electivas. Por exemplo, ouvir música em Angola ou Moçambique ou Brasil, é a partir das letras e das sonoridades que nos trazem as tais outras realidades. E depois também as músicas que nos formaram, a nossa forma de olhar o mundo e de viver a História é feita das partilhas das universidades, das leituras, dos filmes, mas muito a partir da música. A música tem um pendor educativo, formativo muito forte em todos nós e eu queria prestar essa homenagem a tudo o que a música trouxe à minha vida, só que era difícil estar a escolher entre tantas músicas e tantos autores e então fui referindo de acordo com o que eu ia ouvindo em cada fase de vida.” Num dos capítulos fala do “Lobo da Mata” e conta um episódio terrível. Recorda a francesa Gisèle Pelicot quando disse que “a vergonha tem de mudar de lado” e também escreve, “nos anos 90 a consciência feminista era de nicho e o ‘girl power' era mais slogan do que força colectiva” e que ainda hoje “em vários países, ser mulher continua ser quase um acto ilegal”. Porque decidiu escrever o “Lobo da Mata” e falar sobre a sua própria história? “Porque nós criamos mais empatia, relação com um assunto, quando nos implicamos nele, e todas as mulheres, sem excepção, terão histórias de abusos, desconfortos no mínimo, e situações em que se sentiram com medo ou discriminadas pelo facto de serem mulheres. Acho que temos a sorte de estarmos em países onde há alguma protecção, mas até precisamente pela Gisèle Pelicot em França, sabemos como histórias tão hediondas podem estar aqui ao voltar da esquina. Eu queria trazer algumas reflexões feministas porque, tal como a música, o feminismo também é uma forma de conhecer, de aprender muito para tentar ambicionar um mundo onde haja mais igualdade nas questões de género, mas mais do que a igualdade, acredito num feminismo que não é necessariamente a luta pelo poder, mas é outra forma de convivência entre as pessoas que não passe por esta competição, por estas relações de poder, por este ímpeto bélico e destrutivo que o mundo patriarcal nos tem proporcionado e por ele chegámos aqui, a este estado de coisas tão devastador e sem futuro quase. E, portanto, o feminismo seria uma grande opção entre homens e mulheres de outro tipo de comunhão, de partilha, de uma paz social que poderia vir através do feminismo. Esse ‘Lobo da Mata' é uma história na Caparica, na adolescência. Não é uma história que seja assim o grande trauma porque eu quis também passar esse lado, de como eu encontrei as minhas ferramentas para viver com isso e para transformar essa história numa espécie de alívio e de força pessoal, mas claro que cada mulher lida com isso de maneiras diferentes, com os seus próprios traumas e fantasmas. Mas acho que sim, acho que foi importante escrevê-la, não no sentido terapêutico, mas para partilhar alguns episódios que todas temos e, depois, a partir daí, o que é que suscitou como preparação para a vida porque qualquer mulher terá passado por isso.” Fala numa mulher no livro que é uma personagem-arquétipo daqueles tempos. Chamou-lhe Júlia que andava “a desenhar um mapa poético para mudar o sistema sem tomar o poder”, uma Júlia que, para além do engajamento em vários combates políticos, concentrava “a liberdade das infinitas mulheres que nunca puderam fazer nada mais senão trabalhar muito e cuidar dos outros. A força de todas as que foram reprimidas.” O que é feito dessa Júlia? Este livro é esse “mapa poético”? “Sim, acho que sim. Essa Júlia é um arquétipo, não é uma pessoa real, mas sim um conjunto dessas vontades todas reprimidas e de alguém que pôde experimentar, pôde errar, pôde implicar-se em cada situação e fazer com que as coisas aconteçam, sair da tal sala de jantar auto-consolada para que a vida nos aconteça porque não podemos estar só à espera de uma mudança se não nos implicarmos nela. Essa Júlia ainda está aqui presente, pelo menos tenho-a comigo, como alguém que me faz lembrar: ‘Olha, aproveita, vive com consciência toda essa liberdade, o que tantas mulheres antes de ti não puderam fazer.' E é preciso celebrar essa liberdade de circulação, de podermos ser quem queremos, de podermos até mudar em qualquer fase de vida para procurar essa pessoa que nos vamos tornando em cada momento, mas não ficar a achar que isso é garantido porque as liberdades nunca estão garantidas. É também essa inquietação. A Júlia é essa inquietação que me persegue e que certamente outras pessoas se identificarão com ela.”

Contra-Corrente
A Gulbenkian faz 70 anos. O que seria de Portugal sem ela

Contra-Corrente

Play Episode Listen Later Jul 17, 2026 9:07


A Fundação Gulbenkian ainda hoje é uma das 40 maiores fundações de todo o mundo, mas que papel ainda desempenha quando já não tem o petróleo e num país muito menos pobre do que o Portugal de 1956?See omnystudio.com/listener for privacy information.

Contra-Corrente
70 anos da Gulbenkian. O que fez ela por Portugal? — Debate

Contra-Corrente

Play Episode Listen Later Jul 17, 2026 96:29


A Fundação Gulbenkian é uma das 40 maiores fundações do mundo, mas que papel é que tem atualmente em Portugal? 70 anos depois, será exagerado dizer que chegou a funcionar como Ministério da Cultura?See omnystudio.com/listener for privacy information.

Renascença - Ensaio Geral
A reabertura do Museu Gulbenkian

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Jul 17, 2026 24:23


O Ensaio Geral vai de férias, mas sem antes deixar sugestões para o verão. Livros, música e exposições fazem o cartaz do programa desta semana, em que começamos por visitar o renovado museu Gulbenkian. Seguimos para uma exposição da fotógrafa Vivian Maier no Centro Português de Fotografia, no Porto; e falamos com Luísa Sobral sobre o livro "Da minha janela". Espaço também para um documentário sobre o Teatro Nacional D. Maria II e os destaques semanais de Guilherme d'Oliveira Martins.

Renascença - Ensaio Geral
A grande reabertura do Museu Gulbenkian

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Jul 17, 2026 24:23


O Ensaio Geral vai de férias, mas sem antes deixar sugestões para o verão. Livros, música e exposições fazem o cartaz do programa desta semana, em que começamos por visitar o renovado museu Gulbenkian. Seguimos para uma exposição da fotógrafa Vivian Maier no Centro Português de Fotografia, no Porto; e falamos com Luísa Sobral sobre o livro "Da minha janela". Espaço também para um documentário sobre o Teatro Nacional D. Maria II e para os destaques semanais de Guilherme dOliveira Martins.

Expresso - Expresso da Manhã
O momento zero de uma fundação cada vez menos Gulbenkian

Expresso - Expresso da Manhã

Play Episode Listen Later Jul 12, 2026 29:19


No dia 18 de Julho de 1956 foram aprovados os estatutos da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) pelo Decreto-Lei nº 40 690. Uma investigação das jornalistas do Expresso Christiana Martins e Luciana Martins, sobre os bastidores da criação desta fundação, revela um braço-de-ferro que acabou por ser vencido pela dupla Salazar/Azeredo Perdigão. Sempre houve duas maneiras de interpretar a vontade deixada em testamento por Gulbenkian e o certo é que, ao comemorar os 70 anos, a administração da FCG não tem ninguém da família do filantropo arménio.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Renascença - Ensaio Geral
Um livro de Aramburu, ópera e música com ritmo africano

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Jun 26, 2026 23:24


O Jardim de Verão da Gulbenkian, em Lisboa, volta a encher-se de música, cinema e conversas. Nesta edição do Ensaio Geral falamos com o curador Dino D'Santiago, que nos revela o cartaz e que terá disco novo em breve. Mais à frente, a peça de teatro "Polo Norte" da companhia Mala Voadora em busca de um paraíso perdido, o espetáculo de ópera que junta duas obras de Puccini no Coliseu do Porto e “Maite”, o novo livro do escritor espanhol Fernando Aramburo. Guilherme d'Oliveira Martins, do Centro Nacional de Cultura (CNC), desvenda os seus destaques semanais.

Renascença - Ensaio Geral
Um livro de Aramburu, ópera e música com ritmo africano

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Jun 26, 2026 23:24


O Jardim de Verão da Gulbenkian, em Lisboa, volta a encher-se de música, cinema e conversas. Nesta edição do Ensaio Geral falamos com o curador Dino D´Santiago, que nos revela o cartaz e que terá disco novo em breve. Mais à frente, a peça de teatro "Polo Norte" da companhia Mala Voadora em busca de um paraíso perdido, o espetáculo de ópera que junta duas obras de Puccini no Coliseu do Porto e “Maite”, o novo livro do escritor espanhol Fernando Aramburo. Guilherme d' Oliveira Martins, do Centro Nacional de Cultura (CNC), desvenda os seus destaques semanais.

Renascença - Ensaio Geral
Um livro de Aramburu, ópera e música com ritmo africano

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Jun 26, 2026 23:24


O Jardim de Verão da Gulbenkian, em Lisboa, volta a encher-se de música, cinema e conversas. Nesta edição do Ensaio Geral falamos com o curador Dino D´Santiago, que nos revela o cartaz e que terá disco novo em breve. Mais à frente, a peça de teatro "Polo Norte" da companhia Mala Voadora em busca de um paraíso perdido, o espetáculo de ópera que junta duas obras de Puccini no Coliseu do Porto e “Maite”, o novo livro do escritor espanhol Fernando Aramburo. Guilherme d' Oliveira Martins, do Centro Nacional de Cultura (CNC), desvenda os seus destaques semanais.

Renascença - Ensaio Geral
Um livro de Aramburu, ópera e música com ritmo africano

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Jun 26, 2026 23:24


O Jardim de Verão da Gulbenkian, em Lisboa, volta a encher-se de música, cinema e conversas. Nesta edição do Ensaio Geral falamos com o curador Dino D´Santiago, que nos revela o cartaz e que terá disco novo em breve. Mais à frente, a peça de teatro "Polo Norte" da companhia Mala Voadora em busca de um paraíso perdido, o espetáculo de ópera que junta duas obras de Puccini no Coliseu do Porto e “Maite”, o novo livro do escritor espanhol Fernando Aramburo. Guilherme d´Oliveira Martins, do Centro Nacional de Cultura (CNC), desvenda os seus destaques semanais.

Vida em França
"Estamos todos no mesmo Mundo, Terra, Pátria"- Álvaro Vasconcelos

Vida em França

Play Episode Listen Later Jun 10, 2026 40:47


Foi apresentado em finais de Maio em Paris, o terceiro e último volume do livro "Memórias em tempo de amnésia" de Álvaro Vasconcelos, especialista de relações internacionais e voz bem conhecida das nossas antenas. Nesta obra em três partes, o autor relata as épocas que atravessou, o salazarismo, o colonialismo português em África, nomeadamente em Moçambique onde viveu, os anos de militância política na África do Sul, em França e em seguida em Portugal, onde regressou na altura do 25 de Abril. No terceiro volume das suas memórias intitulado "O futuro para além do apocalipse", Álvaro Vasconcelos recorda a conquista da independência das ex-colónias, assim como os primórdios da democratização de Portugal e a sua adesão à União Europeia. O antigo director do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia e fundador em Portugal do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais também evoca a viragem autoritária a que se assiste actualmente em várias partes do mundo, a que ele chama de «brutalismo» e que tem a ver com a corrente 'tecno-totalitarista', encabeçada nomeadamente por alguns magnatas da Silicon Valley. Álvaro Vasconcelos fala também da urgência ambiental, da urgência de não nos esquecermos que somos humanos, numa época em que tendemos a colocar tudo nas mãos da Inteligência Artificial. No fundo, ele fala da urgência de pensarmos. Neste livro denso que é uma chamada de atenção, ele começa cada capítulo com uma espécie de guião de filme e fala com um gosto não dissimulado de todas as fitas que o fizeram reflectir de outra forma sobre o mundo, porque este texto, ainda mais do que os anteriores, é uma declaração de amor à sétima arte. E evidentemente não podíamos deixar de falar -antes de mais- da importância que o cinema tem para Álvaro Vasconcelos. "O cinema é algo que me formou porque eu vivia na África colonial, na Beira, em Moçambique. E como era lá no fundo do Império, a ditadura era certamente muito mais suave para os brancos, para os negros era mais brutal do que em Portugal era para os portugueses. E os brancos da cidade da Beira, onde eu vivia, tinham acesso ao Cineclube da Beira, às grandes obras do cinema mundial, por exemplo, nós vimos o ‘Couraçado Potemkin', que em Portugal era absolutamente proibido. (…) E como o cinema, começamos a vê-lo mesmo muito, desde muitos miúdos, não só nos cineclubes, os cinemas eram a maravilha da época, era aquilo que nos educava, nos abria novos horizontes, que nos fazia rir com Charlot, com os irmãos Marx, que nos ensinava os problemas graves do mundo, como ‘Hiroshima mon amour', o neo-realismo italiano, ‘Os ladrões de bicicletas', etc. Evidentemente que o cinema teve para a minha geração e em particular para aquela que viveu no Império, mas não só, também também em Portugal, um impacto enorme, portanto, foi formativo. E ao escrever o último livro da minha trilogia, senti a necessidade de fazer um livro que fosse mais de reflexão que apenas descritivo da minha vida e de reflexão. Não sou filósofo, portanto, não podia ser uma reflexão filosófica. Mas era uma reflexão à volta das ideias que são veiculadas pelo cinema, que foram veiculadas pela grande literatura que eu li desde miúdo, que sempre me apaixonou e continuo a ler e que me ensinou imenso sobre o mundo. Eu descobri muitas coisas no cinema e na literatura que não era capaz de descobrir com o mesmo grau de profundidade dos ensaios", explica o autor. Nas suas memórias, Álvaro Vasconcelos fala da época colonial e também de uma descolonização das mentes que ainda não foi totalmente feita. "Em África, descobri a violência colonial e que a palmatória é um símbolo absoluto dessa violência. Palmatória com que iam castigar os empregados negros por coisas, não importa o quê. Mas mesmo que fossem coisas graves, era a mesma palmatória que era usada contra os escravos, como eu vi no Museu Afro-Brasileiro, em São Paulo. Infelizmente não temos em Portugal, nenhum museu sobre a escravatura. Temos um pequeno museu em Lagos, mas não temos um grande museu, como têm os brasileiros. E essa palmatória era usada também pelo professor primário para nos manter. Identifico a violência brutal de que era vítima pelo professor primário, que tinha um poder absoluto sobre mim, com a violência, de que eram vítimas os negros, que não tinham direitos nenhuns, nem direito à vida. E para que isso pudesse ter acontecido, foi preciso criar uma narrativa de que eles não eram gente civilizada. E essa narrativa perdurou no pós 25 de Abril, porque nunca se fez um trabalho verdadeiro de descolonização das mentalidades. E hoje, quando os imigrantes são tratados como são tratados com desumanidade, é porque não são considerados humanos iguais a nós. E como não são considerados humanos iguais a nós, podem ser vítimas da arbitrariedade. Não têm os direitos iguais. Isso é uma questão fundamental", considera o estudioso. "Quando se deu o 25 de Abril, podia-se ter feito uma coisa extraordinária e teria ficado para a história. Era considerar que toda a gente que reside em Portugal tem os mesmos direitos. Há um país no mundo em que isso, pelo menos já acontece, que é na Nova Zelândia. E, portanto, se os imigrantes tivessem o direito do voto, seriam tratados de forma completamente diferente ", diz ao referir que, em vez disso, "são vítimas da desigualdade mais absurda da escravatura às vezes da violência da morte no Mediterrâneo. Em vez de irem socorrer, acham que é uma forma dissuasiva que eles morram no Mediterrâneo. Isso, evidentemente, é feito posto em prática por políticos democráticos, mas evidentemente que estão a abrir o caminho à extrema-direita que fará disso uma doutrina de poder." No capítulo que reserva a estes aspectos, o autor escreve que “o silêncio sobre a verdadeira natureza do colonialismo é um dos grandes fracassos da democracia portuguesa” e que “a Europa assumir que o colonialismo foi um crime contra a humanidade tornaria o seu discurso sobre a democracia muito mais legítimo.” "O 25 de Abril foi uma revolução extraordinária. Libertou os portugueses da ditadura e criou um sistema de liberdades públicas, de Estado de Direito. Isso deve ser sublinhado e eu sublinho no livro, porque é único no século XX, uma revolução que não foi só uma libertação, mas trouxe a liberdade. Podemos pensar, por exemplo, que a Revolução de Outubro libertou os russos do Czarismo, que era um regime terrível. Mas não construiu um regime de liberdade. Isso aconteceu em Portugal. Simplesmente, Portugal era ao mesmo tempo uma ditadura e um império. E quando se construiu a democracia, fez-se um trabalho mais ou menos profundo sobre o que era a ditadura, o que é que era o fascismo. Existem vários museus, o Museu do Aljube, um museu em Peniche, existe um trabalho de memória. Existem nos livros de História. Conta-se o 25 de Abril, todo esse passado ditatorial. As pessoas sabem que houve a tortura, que havia a PIDE, que as pessoas não tinham direito à palavra. Tudo isso faz parte da memória colectiva dos portugueses", constata Álvaro Vasconcelos. "O que não se fez nenhum trabalho. O que é que era o colonialismo? Não se explicou o que é que era a tortura em África, o que era o trabalho forçado. Qual era a origem que isso tinha na escravatura? Manteve-se um mito do lusotropicalismo, ou seja, que Portugal tinha contribuído para criar um mundo diferente, um mundo não racista, um mundo multiétnico. Até se dizia isso : ‘Deus criou os homens e os portugueses criaram as mulatas' escondendo que as mulatas nasciam muitas vezes de actos de violação absoluta, porque as mulheres negras não tinham direitos e, portanto, o senhor tinha um direito de pernada sobre a mulher negra. Isso acontecia frequentemente. Eu, aliás, entrevistei para um dos meus livros uma senhora africana que conta exactamente a história de uma mulher que, depois do 25 de Abril, andava à procura do homem branco, que tinha sido o pai dos seus filhos e que o homem branco tinha desaparecido. Tinha regressado a Portugal e que nunca mais soube dele. E as crianças queriam conhecer o pai. Mas isto é um caso de uma pessoa que se movimentou. A maior parte das vezes ficaram e são vítimas de toda a discriminação. Isso é o aspecto em que o 25 de Abril não fez esse trabalho", diz o politólogo. "Quando em Portugal surge um movimento de sociedade civil poderoso, hoje formado por intelectuais afro-descendentes que defendem o direito à igualdade, que tem voz no espaço público, quando nos lembramos, por exemplo, da Joacine Katar Moreira que foi deputada na Assembleia da República, a campanha racista contra ela. No Parlamento, a extrema-direita dizia ‘Volta para o teu país'. Estou a falar numa deputada, membro do Parlamento. Mas depois as intelectuais todas que são superactivas na sociedade portuguesa, que é aquilo que há hoje de mais vibrante na sociedade portuguesa, mais criativo. Publicam, fazem filmes como a Pocas Pascoal e outros. Ainda recentemente a Kitty Furtado organizou na Gulbenkian um ciclo sobre o cinema africano produzido em Portugal, com numerosos filmes, numerosos realizadores. Portanto, na Bienal de Veneza, há dois anos, a representação de Portugal foram artistas negros. Portanto, temos um movimento extraordinário. Esse movimento choca com esta mentalidade dominante. E então são acusados de serem ‘wokistas'. ‘Wokistas, quer dizer que são pessoas com consciência", sublinha o universitário. Relativamente às lições que se podem tirar do pós 25 de Abril, Álvaro Vasconcelos faz um balanço agridoce : apesar de considerar que “os seus objectivos essenciais foram atingidos: liberdade, fim do colonialismo e um estado inspirado nos modelos sociais europeus”, ele constara que “o que triunfou não foram os mecanismos que permitiriam compatibilizar a democracia liberal com o desejo de participação dos cidadãos (...) com o tempo, os partidos tornaram-se organizações fechadas (...) foram-se impondo como actores únicos do sistema politico”. "Portugal fez uma revolução que permitiu a existência de partidos políticos que não existiam antes. Mas a revolução, no momento em que ela aconteceu, despertou uma vontade de participação enorme na sociedade portuguesa. Todos os portugueses queriam participar na vida política pública. Eu próprio participei na criação de um jornal que era a voz do trabalhador e aquilo vendia-se como pãezinhos quentes. Quer dizer, toda a gente cria jornais. Toda a gente queria ler. Toda a gente fazia um pequeno comício. Enchiam-se de pessoas. Criaram-se cooperativas, associações de bairro, associações, moradores, associações agrícolas, movimentos cooperativos por todo o lado. Ao mesmo tempo, os partidos políticos foram-se consolidando como forças dominantes da sociedade portuguesa. E esses movimentos participativos foram vistos pelos partidos que acabaram por triunfar como movimentos que eram contrários à consolidação da democracia representativa liberal, como havia no resto da Europa. E foram desaparecendo. E o sistema político português ficou concentrado nos partidos políticos. Esses anos todos passaram e as pessoas hoje, como têm acesso às redes sociais, já têm outra forma de expressão, sem passar pelos partidos políticos. Exprimem-se nas redes sociais. Muitas vezes, o que dizem alguns? Nós não gostamos nada. Mas outras coisas dizem coisas correctas. Estes movimentos que eu referi, ecológicos, anti-racistas, de solidariedade social, também usam as redes sociais. Mas há muita gente que usa as redes sociais e que diz coisas horríveis. Mas não interessa, diz. Acha que tem direito à palavra. E acha que os partidos não dão direito à palavra. Então vão atrás de um demagogo que diz ‘Eu dou vos a palavra. Eles não vos dão a palavra'. Os partidos políticos são organizações fechadas. Em Portugal nunca se fez a regionalização, porque os partidos acharam que aquilo era fugir ao controlo central dos partidos de Lisboa. Era abrir o controlo da sociedade a nível regional. E tudo isso foi enfraquecendo a democracia portuguesa", comenta. “Foi nas redes sociais, espaço sem regras, que descobri que estávamos perante um brutalismo neofascista. O significado das palavras e a verdade deixaram de ser facilmente reconhecíveis. O algoritmo privilegia a violência verbal, exponencia o número de visões e partilhas. Acreditei – e escrevi –, depois das revoluções árabes de 2011, que as redes sociais tinham potencial de empoderamento dos cidadãos e poderiam ser um factor de emancipação democrática, mas hoje sou obrigado a constatar que não tive em conta a capacidade de manipulação, seja pelos algoritmos ou ainda mais pela IA, dos Estados e grupos que controlam as empresas da indústria do mundo virtual", escreve Álvaro Vasconcelos no capítulo que dedica ao regresso do que chama de 'brutalismo'. "A nível europeu, nós não podemos separar de um fenómeno mundial, que é aquilo que atravessa bastante o meu livro, que é a ideia do colapso do pensamento. E esse colapso do pensamento. O que significa que quando os homens deixam de pensar, diz Hannah Arendt, são capazes dos piores crimes. E esses homens são capazes dos piores crimes. E o homem banal, o homem comum que pode seguir um líder que vai destruir as suas liberdades e a liberdade dos outros. E isso pode se chamar ‘tecno-totalitarismo'. Porquê tecno-totalitarismo? Porque grande parte da economia mundial hoje está a ser dominada pelas grandes empresas tecnológicas. Estamos numa nova revolução tecnológica. E as grandes empresas tecnológicas que dominam a inteligência artificial, que dominam as redes sociais, como o Musk, é o exemplo mais claro, defendem aquilo que eu chamei de ‘tecno-totalitarismo'», explica o autor das "Memórias em tempo de amnésia". "Há uma politóloga francesa, Asma Mhalla que diz que ‘este século não vos proíbe de pensar. Ele ocupa-vos até que já não se saiba como fazer. Isto vem, como eu digo aqui no livro, do desenvolvimento da Inteligência artificial. O desenvolvimento da inteligência artificial cria um mundo onde os humanos deixam de pensar. A banalidade do mal passa a ser a norma. Isso acontece em muitos actos quotidianos. Quando recorremos à inteligência artificial para tomarmos decisões. Quando manipulados por algoritmos, ficamos de tal forma hipnotizados que somos levados a acreditar nos líderes populistas como Trump, como Bardella em França como em Portugal, o André Ventura, como Bolsonaro no Brasil", diz Álvaro Vasconcelos. "Há um aspecto deste ‘tecno-totalitarismo' que também nos deve inquietar, que é menos presente em França, mas está presente em muitos países, que é a relação dele com uma determinada corrente religiosa. Ele é religioso na sua essência, porque ao mesmo tempo, fala de Apocalipse, destruição do mundo pelo aquecimento global, pela guerra nuclear e está a propor uma solução tecnológica para estes problemas. Ora, isto é típico da crença religiosa. A ideia do Apocalipse, se pensarmos no apoio dos evangélicos americanos a Trump e em cenas em que Trump se reúne com os evangélicos e os evangélicos rezam na Casa Branca a volta do Trump ou quando o Bolsonaro tomou posse rodeado pelos evangélicos, a primeira coisa que fizeram, foi um ato religioso. (…) Vemos que o ‘tecno-totalitarismo' muitas vezes é também uma ‘tecno-teocracia'. E, portanto, esse problema, que é um problema mundial, que é da criação do mundo em que os homens deixam de pensar, a inteligência artificial substitui o pensamento humano. É um mundo em que o brutalismo, que é o tema do meu livro, se torna possível. É possível que o Trump decida destruir o Irão, que o Netanyahu faça o genocídio de Gaza e agora esteja a fazer no Líbano o que fez em Gaza, no sul do Líbano. É exactamente a mesma coisa. Vai destruir o sul do Líbano completamente", diz o especialista em relações internacionais. No capítulo em que aborda o que chama de dever de hospitalidade, Álvaro Vasconcelos considera que é neste aspecto que a Europa pode fazer a diferença "para superar o brutalismo contemporâneo, porque, por um lado, é uma das regiões do mundo onde as democracias ainda resistem ao assalto da extrema‑direita neofascista, e por outro porque a hospitalidade é a essência da sua sobrevivência". "Estamos a falar da União Europeia, a que se podem juntar alguns Estados, como a Noruega, como hoje o Brasil do Lula. Têm a mesma ambição de escapar ao brutalismo de Putin, Trump, Netanyahu, ao ‘tecno-totalitarismo' que domina a China. Verdadeiramente o único sítio do mundo em que ainda há um grupo de Estados que pode e quer resistir é na União Europeia, mas que tem estes aliados muito importantes que tem que procurar no Canadá, já procura no Brasil. Por isso, o acordo com o Mercosul é tão importante, apesar de a Argentina do Milei estar completamente na mesma linha de brutalismo. Mas o Brasil é um país importantíssimo. Na Ásia, o Japão, a Coreia do Sul. (…) Portanto, a Europa é a nossa esperança. Mas para que essa esperança não passe de uma utopia não realizada, para ser uma utopia realizada, é preciso que a Europa integre toda a sua vitalidade num projecto comum, (…) é preciso uma mudança radical de política. Ou seja, é preciso uma política que seja alternativa à política da extrema-direita. Claramente. E o que é que se deve fazer? Os imigrantes que são grande parte da população europeia ou originários na imigração devem ser cidadãos plenos, activos, integrados nas nossas sociedades, dando-lhes o voto. Aqueles que ainda não têm, damos-lhe a palavra, ouvindo-os e tornando as nossas democracias muito mais participativas", preconiza o autor. No seu livro, Álvaro Vasconcelos estabelece um elo directo entre o ‘tecno-totalitarismo', a negação dos direitos de boa parte da humanidade e a destruição do meio ambiente. "Um dos temas que eu acho que é muito importante é a questão do ambiente. Eu, aliás, começo o meu livro com uma citação do Camus que diz ‘A minha geração quis mudar o mundo. Não o mudou, mas pelo menos lutou para preservar o que de melhor tinha sido conquistado'. (…) O aquecimento global está a ser um problema gravíssimo que pode pôr em causa a vida na terra. E aí é lembrarmo-nos de Edgar Morin, um grande pensador. Eu cito Edgar Morin dez ou 15 vezes no meu livro. Ele diz que nós não estamos só perante um mundo que destrói a vida humana. Estamos num mundo em que a globalização foi extremamente destrutiva do ponto de vista económico e social. Criou também a consciência de um destino comum da humanidade a consciência de que estamos todos no mesmo barco. Ou seja, no barco da vida. Nós sabemos que a vida não é eterna. Mas enquanto estamos no barco da vida, não vamos cair no niilismo. Nem vamos cair na melancolia de esquerda. Isto é uma conclusão que alguém tirou do meu livro que eu sou contra a melancolia de esquerda. A melancolia de esquerda é nós pensarmos em tudo aquilo por que a gente lutou está a desaparecer e já não podemos fazer nada. Vai tudo acabar. Vai acabar a democracia, a liberdade. Vai voltar o racismo como política de Estado. Vai desaparecer a ordem internacional. Vai desaparecer o multilateralismo", diz o universitário. "Estamos perante uma guerra cultural. É um tema central, porque a guerra cultural é algo que acompanha a civilização europeia desde o Iluminismo e desde a Revolução Francesa. Houve sempre uma corrente que se opôs às conquistas de liberdade, igualdade, fraternidade da Revolução Francesa. Considerou sempre que a compaixão pelo outro não fazia nenhum sentido, que o homem era um animal fundamentalmente egoísta e violento E que tinha que ser treinado desde criancinha para a competição. E por isso, a cooperação não é uma questão fundamental da aprendizagem. As pessoas não aprendem a cooperar, aprendem a competir. Já vimos no sistema escolar como é terrível a competição. A infância nas grandes escolas. O que é que é difícil chegar lá acima. Portanto, formam-se elites que foram treinadas para a competição e não foram treinadas para a cooperação. E se nós não cooperarmos neste barco da vida, se não percebermos que o clima não tem fronteiras, que o aquecimento é global, que os calores do Norte de África chegam à Europa, que as transformações da Amazónia transformam as correntes do Atlântico e nos atingem também como europeus. Então não perceberemos que estamos todos no mesmo mundo. Mundo, terra, pátria, como diz o Edgar Morin. E que neste mundo, terra pátria, nós somos todos cidadãos, mesmo quando não somos considerados cidadãos", conclui Álvaro Vasconcelos.

Appleton Podcast
Episódio 192 – “Fazer pensando e pensar fazendo” – Conversa com João de Sousa Cardoso

Appleton Podcast

Play Episode Listen Later May 11, 2026 71:17


João Sousa Cardoso, também conhecido como João de Sousa Cardoso, é artista, ensaísta, curador e professor universitário. O seu trabalho desenvolve-se na intersecção entre criação artística, pensamento crítico e investigação, articulando teatro, cinema, artes visuais e escrita.Viveu 5 anos em Paris entre 2005 e 2010, onde concluiu o doutoramento em Ciências Sociais pela Universidade Paris Descartes (Sorbonne) enquanto bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, é mestre em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e licenciado em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. É membro associado do Centre de Recherches Interdisciplinaires sur le Monde Lusophone, da Universidade de Paris Nanterre, onde leciona regularmente.Enquanto artista, tem desenvolvido um percurso marcado pela relação com a literatura e pela criação em teatro e filme, que cruzam ensaio, ficção e performance. Encenou Sequências Narrativas Completas, a partir de Álvaro Lapa, no Teatro Nacional D. Maria II (2019), e A Ronda da Noite, a partir de Agustina Bessa-Luís, na Fundação Calouste Gulbenkian (2022). Em 2024, estreou o filme A Santa Joana dos Matadouros, a partir de Bertolt Brecht, na Cinemateca Portuguesa, expandindo a sua prática para o cinema e aprofundando a relação entre imagem, política e representação.Como ensaísta, publicou TEATRO EXPANDIDO! (2016), Sequências Narrativas Completas e A Espanha das Espanhas(2020), mantendo uma escrita próxima das suas práticas artísticas. Colabora regularmente com a revista Contemporânea e com o jornal Público.Na curadoria, tem desenvolvido projetos que cruzam arte, política e história, como o ciclo ABC da Guerra (Teatro Municipal São Luiz, 2025) e a exposição Nampula Macua Socialismo de Manuel Santos Maia (Galeria Quadrum, 2025), além de colaborações com instituições como Serralves, Batalha Centro de Cinema e Centro de Arte Oliva. Desde 2023, integra o Comité de Aquisições do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian.É Professor Associado na Universidade Lusófona, em Lisboa, onde dirige, desde 2010, a Licenciatura em Comunicação Audiovisual e Multimédia. Foi Professor Convidado na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto entre 2011 e 2020 e coordena o programa Great Artists on Campus na Universidade Lusófona em Lisboa desde Fevereiro de 2023 que tem, desde Fevereiro deste ano, uma extensão ao Porto numa parceria entre a Universidade e o Batalha Centro de Cinema.Links: https://cargocollective.com/joaosousacardoso www.teatrosaoluiz.pt/espetaculo/abc-da-guerra/ www.ulusofona.pt/evento/great-artists-on-campus-5 https://www.publico.pt/autor/joao-sousa-cardoso https://contemporanea.pt/edicoes/2025/entrevista-joao-sousa-cardosowww.youtube.com/watch?v=Kjp0-yeLBdA https://ajuntament.barcelona.cat/lavirreina/en/exhibitions/american-history/1005?t=3 Episódio gravado a 06.05.2026 Créditos introdução e final: David Maranha http://www.appleton.pt Mecenas Appleton:HCI / A2P / MyStory Hotels / JD Collection Apoio:Câmara Municipal de Lisboa Financiamento:República Portuguesa – Cultura / DGArtes – Direcção Geral das Artes © Appleton, todos os direitos reservados

Renascença - Ensaio Geral
Alta-costura e arte da Gulbenkian cruzam-se em Lisboa

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Apr 17, 2026 25:00


A alta-costura está em Lisboa numa exposição em que criações de Dior, Yves Saint Laurent ou Givenchy são mostradas com o melhor da coleção Gulbenkian. No Ensaio Geral desta semana, espreitamos a exposição que abre este sábado ao público. Vamos também à Culturgest visitar a retrospetiva de João Penalva, fazemos a antevisão do filme de Ivo Ferreira sobre as FP-25 e abrimos um dos livros mais lidos e premiados em Espanha, do autor David Uclés.

CNC: 75 ANOS NAS ARTES, NAS LETRAS E NAS IDEIAS
Carlos de Pontes Leça - Os festivais Gulbenkian de Música entre 1957 e 1970 (em 1995)

CNC: 75 ANOS NAS ARTES, NAS LETRAS E NAS IDEIAS

Play Episode Listen Later Mar 27, 2026 44:59


Portugal: 1945 - 1995 nas Artes, nas Letras e nas Ideias foi um ciclo de conferências sobre estas cinco décadas na Cultura Portuguesa. Publica-se a segunda sessão proferida no dia 13 de novembro de 1995 por Carlos de Pontes Leça, musicólogo e programador musical, dedicada aos Festivais Gulbenkian de Música entre 1957 e 1970. (no final, Carlos de Pontes Leça anuncia que vai passar uma gravação que, no entanto, não consta da cassete original)

Portugal em Direto
Projeto piloto Centros de Estudo Gulbenkian

Portugal em Direto

Play Episode Listen Later Mar 24, 2026 39:51


Já há resultados positivos do projeto que ajuda alunos de bairros vulneráveis da Grande Lisboa a estudar e a conseguir resultados que lhes abram horizontes académicos e profissionais.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Appleton Podcast
Episódio 187 – “Esse espaço intermédio” – Conversa com Cristina Ataíde

Appleton Podcast

Play Episode Listen Later Mar 19, 2026 54:54


Cristina Ataíde, Viseu, 1951, vive e trabalha em Lisboa. Licenciada em Escultura pela ESBAL, Lisboa, frequentou o Curso de Design de Equipamento da mesma instituição.Foi diretora de produção de Escultura e Design da MadeIn, fabrica de transformação de mármore em Alenquer de 1987 a 1996, onde trabalhou com vários artistas nacionais e estrangeiros e onde criou centenas de objetos de design em pedra e outros materiais. Fundadora (2005) do coletivo artístico Laboratório Terra que fez vários projetos expositivos em Portugal. A sua obra, feita muitas vezes em viagem, é materializada em diversos suportes desde a escultura, o desenho, passando pela fotografia e vídeo. Trabalha com e na natureza com fascínio pela experimentação, deixando que os elementos naturais intervenham como coautores dos seus trabalhos e pesquisas. Preocupa-se com a sua preservação da natureza e sustentabilidade. A estética relacional está cada vez mais presente nas suas intervenções publicas, interagindo com as comunidades por onde expõe e viaja.Foi distinguida com os diversos prémios, nas artes plásticas e no design e foi bolseira da SEC, Fundação C. Gulbenkian, FLAD e Fundação Oriente. O seu trabalho está publicado em vários livros e catálogos e está representada em importantes coleções publicas e privadas como:CAM, Lisboa; CACE, Coleção de Arte Contemporânea do Estado; Culturgest, Lisboa; MNAC, Lisboa; Fundação PLMJ, Lisboa; Fundação Victor e Maria da Graça Carmona e Costa; MAC-CCB, Lisboa; MACE, Coleção António Cachola, Elvas; Coleção MACAM, Lisboa; Coleção Berardo; Unión Fenosa, A Coruña, ES; Centre d'Art Contemporain d'Essaouira, MC; MACS, Sorocaba, Brasil; Museu Afro Brasil, São Paulo; MAMAM, Recife.Expõe regularmente em Portugal e no estrangeiro destacando: MNAC, Lisboa; Museu Coleção Berardo, CCB, Lisboa; CAM, Lisboa; Culturgest, Lisboa; Museu Soares dos Reis, Porto; Museu de Serralves, Porto; MIEC, Sto Tirso; MAMAM, Recife; Museu Afro Brasil, São Paulo; Fiep, Curitiba; Mosteiro de S. Bento, São Paulo; Centro de Arte Caja de Burgos; CentroCentro, Palácio Cibeles, Madrid; Faro de Cabo Mayor, Santander; Alcobendas, Madrid; MEIAC, Badajoz; Sala de las Atarazanas, Valencia; Glyndor Gallery, Wave Hill, New York; CCE, Miami; The Shed Space, Brooklyn, USA; Museu Azabu Kogei Kan, Tóquio; Museum Center, Baku, AZ; Moravian Museum, Brno, CR; Interno 14, Roma; Kunsttempel, Kassel. Links: https://www.cristinataide.com/ https://contemporanea.pt/edicoes/07-08-09-2021/cristina-ataide-dar-corpo-ao-vazio https://www.youtube.com/watch?v=Vh8a8c1ibUQ https://www.youtube.com/watch?v=iRIiv2qLa5U https://expresso.pt/cultura/artes_plasticas/2023-09-16-Exposicoes-Cristina-Ataide-liga-os-mundos-no-Chiado-c2e0477f Episódio gravado a 13.03.2026 Créditos introdução e final: David Maranha http://www.appleton.pt Mecenas Appleton:HCI / A2P / MyStory Hotels / JD Collection Apoio:Câmara Municipal de Lisboa Financiamento:República Portuguesa – Cultura / DGArtes – Direcção Geral das Artes © Appleton, todos os direitos reservados

Renascença - Ensaio Geral
“Uma Pina Colagem” para todos

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Mar 13, 2026 24:24


Na cidade do Porto, há uma nova exposição para ver em Serralves sobre Manoel de Oliveira, outra na Escola das Artes da Católica sobre o Teatro Praga e, no palco do Teatro São João, uma peça para miúdos e graúdos que mergulha no universo de escrita de Manuel António Pina, com música de A Garota Não. Nesta edição do Ensaio Geral destaque ainda para o novo livro de José Gardeazabal, o novo disco de Rita Redshoes e os concertos gratuitos que pode ouvir este fim-de-semana na Gulbenkian. Guilherme d'Oliveira Martins revela as suas sugestões semanais.ria João Costa

E o vencedor é...
Do anti-tacho ao tacho: a normalização do Chega

E o vencedor é...

Play Episode Listen Later Feb 24, 2026 19:40


Entre assessores municipais e indignações seletivas, o Chega prova que a igualdade começa em casa. E ainda, negociações duras, lay-off a 100% e uma Gulbenkian a lembrar que nem tudo é folclore.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Portugal em Direto
Projeto  "Gulbenkian aprender"

Portugal em Direto

Play Episode Listen Later Feb 24, 2026 44:13


Um projeto piloto, orçado em 3,4 milhões de euros, para apoiar 150 crianças dos 11 concelhos da CIM do Tâmega e Sousa. Estudantes de uma faixa económica desfavorecida mas com potencial. Edição de Cláudia Costa

Renascença - Ensaio Geral
Danças e um escritor que perspetiva a barbárie

Renascença - Ensaio Geral

Play Episode Listen Later Feb 13, 2026 22:39


O Ensaio Geral entrevistou um dos mais consagrados escritores espanhóis. Enrique Vila-Matas não está otimista, mas acredita que pode “ser um estímulo para lutar contra o que sempre detestamos”. Destaque ainda para duas estreias no arranque do ano da Companhia Nacional de Bailado. O Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, em Lisboa, vai celebrar o Carnaval à moda do Brasil e a Companhia do Chapitô apresenta um espetáculo para toda a família. O novo disco de Moreno Veloso e as sugestões de Guilherme d'Oliveira Martins são outros destaques do programa desta semana.

Ciência
Estudo averigua se inteligência artificial pode ajudar no diagnóstico de doenças cardíacas em Moçambique

Ciência

Play Episode Listen Later Jan 26, 2026 8:39


Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane podem estar prestes a revolucionar a forma como se diagnotica doenças cardíacas em Moçambique e no Mundo, utilizando a inteligência artificial. A utilização desta tecnologia pode ajudar a baixar os custos do diagnóstico destas doenças. A inteligência artificial vai muito para além de ferramentas de conversação e tem hoje um papel central em sectores essenciais como a saúde, nomeadamente nos campos da imagem médica, em que esta tecnologia tem melhorado a capacidade de detecção e diagnóstico de várias doenças e lesões. Albertino Damasceno, médico cardiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane, quer tentar implementar em Moçambique o uso da ecocardiografia assistida por inteligência artificial em cuidados primários, para o diagnóstico da insuficiência cardíaca, tendo recebido o apoio da Fundação Gulbenkian para levar a cabo um estudo nesse sentido. Em entrevista à RFI, Albertino Damasceno, explicou de que forma a inteligência artificial pode ajudar a detectar as doenças que afectam o coração, mas também economizar nos meios de diagnóstico. "Começa a usar-se a inteligência artificial para diagnóstico de várias patologias cardíacas e não só, portanto, qualquer patologia que possa ser diagnosticada pela imagem. Isto já é feito nalgumas partes do mundo, mas fundamentalmente em termos de investigação, não em termos de aplicação prática. O mais importante é que a insuficiência cardíaca, segundo as normas internacionais, deve ser confirmada por um teste que mostra a presença de peptídeo natriurético a nível do sangue periférico. Este teste custa cerca, aqui em Moçambique, cerca de 20 dólares por teste. Portanto, isto é perfeitamente impossível de suportar, não só em Moçambique como em qualquer outro país africano. Portanto, este gold standard de diagnóstico da doença cardíaca torna-se difícil de aplicar na prática, surgindo neste momento uma série de softwares que podem usar não só a ecocardiografia, mas uma coisa até mais simples, que é electrocardiograma para o diagnóstico da doença cardíaca", explicou o especialista. Este é um projecto levado a cabo em parceria com a Universidade do Porto e a Universidade de Yale e vai reencaminhar pacientes em cuidados primários, dando formação aos técnicos de saúde e comparando os diferentes métodos de diagnóstico durante vários meses, de forma a perceber se a análise de imagem feita pela inteligência artificial pode permitir detectar estas doenças com a mesma precisão que os testes de sangue. "Nós vamos começar por uma fase em que é, digamos, o standard of care, isto é, nós vamos pedir a três centros de saúde primários da cidade da cidade de Maputo que durante cinco meses nos enviem todos os doentes que acham que têm insuficiência cardíaca. E vamos fazer estes doentes. Um teste que é ecocardiografia para confirmar ou não a presença de insuficiência cardíaca. A fase seguinte são dois meses em que, com a colaboração com o Departamento de Fisiologia da Universidade do Porto, vamos treinar estes médicos e técnicos de medicina e enfermeiros das triagens, não só no diagnóstico de incidência cardíaca, mas também no uso de electrocardiograma e da ecocardiografia, e também usando para comparação, o tal peptídeo natriurético. Eles vão testar os três métodos e da mesma forma vão-nos enviar não só os casos positivos como os casos negativos. Nós vamos ter uma ideia de um qual é a sensibilidade e especificidade de cada um desses três métodos para o diagnóstico em ciência cardíaca em Moçambique. Portanto, a ideia é exactamente tentar provar que há alternativas mais baratas para se diagnosticar uma doença que neste momento não é diagnosticada a nível periférico", detalhou. Este estudo torna-se ainda mais relevante já que Moçambique tem visto nos últimos anos um aumento de 17,3% do risco de morte entre adultos entre os 40 e os 69 anos, assim como o aumento de outros factores importantes para o agravamento destas doenças como o aumento da hipertensão, da diabetes e da obesidade na população em geral. "Nós estamos a assistir a uma transição epidemiológica. Até há cerca de 20 anos, 30 anos mais ou menos, as doenças predominantes eram as doenças infecciosas. Depois apareceu o HIV SIDA. E, portanto, neste momento, as grandes prioridades dos ministérios da Saúde, particularmente do moçambicano, são o HIV SIDA, a malária e a tuberculose. E porquê? Porque estes são os programas que recebem financiamento internacional. Portanto, as doenças não transmissíveis neste momento ainda estão muito dependentes de qualquer tipo de orçamento que possa ser fornecido pelo Ministério a nível do orçamento nacional. E por isso também são os parentes pobres da medicina em Moçambique. A nossa ideia é que, com o aumento da prevalência da hipertensão arterial, da diabetes, nós vamos ter uma epidemia de doenças não transmissíveis, particularmente doenças cardiovasculares, a começar pelo infarto agudo do miocárdio e pela essência cardíaca e, fundamentalmente, pelo acidente vascular cerebral", concluiu.

Enterrados no Jardim
As cenas do ódio. Outra conversa com Luís Bernardo

Enterrados no Jardim

Play Episode Listen Later Jan 23, 2026 233:54


Por toda a parte os mesmos sinais, frases, cadências, até as moscas estão a ler o mesmo que nós, esta literatura imunda que tomou conta de cada ruído, mastigamos lendo, como se a nossa falta de carácter ou convicção fosse compensada pela persistência implacável de tudo o que nos cerca, esta doença do que todos sabemos, esta acusação que nos é dirigida, fartos das sórdidas intrigas que parecem repugnar a própria existência. “O apocalipse não nos vem do exterior. Somos nós quem o transporta”, escreveu Eduardo Lourenço. O pior é darmo-nos conta de que toda esta devastação corresponde fielmente à nossa intimidade. De tanto dirigirmos para o mundo um olhar que não quer nada, que é incapaz de obter qualquer tipo de satisfação, de nos aferrarmos ao que não está nem aqui nem em lado nenhum, os nossos desejos vão cada vez mais no sentido de ausências, de abstracções. E isso de comprar barato aqui para ir vender caro ali, essa ganância metida em tudo, que, já em 1758, levou Rousseau a falar de “homens tão odiosos, que se atrevem a ter mais do que é necessário quando outros morrem de fome”, como se explica? E todos esses que se dizem herdeiros dos ideais iluministas e não vivem senão para distorcer a moral e justificar seja o que for... De tal modo o instinto burguês da propriedade se tornou uma força motriz, que não aceita ser questionado. Foi ocupando o lugar de todos os outros instintos e ideais, e quem quer que tenha conseguido agarrar-se a alguma coisa e reclamá-la fá-lo com uma tenacidade desesperada, levando a que a ideia da redistribuição lhe cause um medo de morte. Em todos os lugares constatamos como a vida está identicamente ausente, a humanidade degradou-se por essa submissão a uma ideia de riqueza que se exprime neste mundo como uma coisa grotesca, uma forma carregada de miséria. Esta é uma realidade tão destituída de qualquer razão de ser, de um sentido de equilíbrio, de inteireza, que, por falta justamente dessa interioridade, se viu obrigada a virar-se do avesso. “É uma sociedade que incansavelmente faz a sua própria apologia, ou que se justifica perpetuamente por existir”, diz-nos Baudrillard. “Tudo deve ser tornado público, aquilo que se vale, aquilo que se ganha, a forma como se vive – não há espaço para subtilezas.” As condições existencial e estética confundem-se a um mesmo nível, só podendo ser definidas como autopublicitárias. Tudo só adquire alguma importância a partir do momento em que lhe possa ser atribuído um valor de troca. Assim, a publicidade define inteiramente o teatro das relações sociais. Comprar barato e vender caro, diz-nos Robert Owen, é uma ocupação que deteriora as melhores e mais refinadas capacidades da nossa natureza, acabando por as destruir. O filósofo galês relata como depois de um período de largos anos em que passou por todos os graus de ofícios, das fábricas e do comércio, ficara com a certeza absoluta de que nenhum carácter superior se pode formar neste sistema totalmente egoísta. “Neste sistema não pode haver verdadeira civilização, visto que todos são incentivados pela sociedade ao confronto e muitas vezes também à destruição mútua, através de uma oposição de interesses artificial. É um modo baixo, reles, ignorante e inferior de conduzir os assuntos da sociedade, e nenhuma melhoria permanente, geral e significativa será possível se não surgir uma melhor solução para a formação de carácter e a criação de riqueza.” Como fazem notar os curadores da exposição Complexo Brasil, a palavra portuguesa feitiço foi contrabandeada de uma forma muito curiosa entre tantos idiomas por meio desse subtil desvio do fetiche e do fetichismo, um conceito que, hoje, como sabemos tem apelo e uma força de irradiação e significado tão importante em disciplinas como a economia e a psicanálise. Uma breve nota logo à entrada daquela mostra na Gulbenkian refere como, no século XVI, esta palavra foi usada para “rebaixar as culturas animistas, seus sujeitos periféricos, objectos de escravização”. Tanto tempo depois, o feitiço revela a sua plena maturação, e vemos como carregámos todo este tempo uma maldição, pois éramos nós quem tínhamos chegado ao novo mundo dominados por uma ganância absurda, esse fetiche da mercadoria, que é incapaz de ver seja o que for, de encontrar o mundo na sua riqueza, preferindo extrair algum lucro obsceno e que reduz tudo a uma ausência cuja acção hoje devasta todo o planeta. No fundo, o deserto somos nós. O apocalipse somos nós. Aquilo que fomos perdendo ao atravessar o mundo, tudo aquilo que desprezámos e destruímos enquanto buscávamos alguma fonte de valor para ser levada de volta, tentando aplacar a nossa miséria, isso mesmo significava a nossa indisponibilidade face ao mundo. Os nossos valores nunca foram outro sinal do que esse terror que nos consome, esse vazio. Outra das notas que se podia ler naquela exposição, fala da antropofagia, algo que sempre inquietou as nossas imaginações tão frágeis, sempre representada como um acto de maldade voraz, “um canibalismo glutão”. Mas os curadores esclarecem que a antropofagia, vivida por populações indígenas do século XVI, era um paradoxal rito de reconhecimento da humanidade do inimigo. “Os cativos de guerra, tomados geralmente de povos de mesma língua e costumes, viviam longo tempo em liberdade vigiada na tribo de seus captores, recebiam mulheres como esposas, transformavam-se em parentes afins e eram executados num ato solene de valor iniciatório para o oficiante (que não participava do banquete e entrava em um período de luto no qual se entregava a um processo de identificação com o ‘contrário').” Ainda hoje o canibalismo é usado para instigar em nós esse terror face aos bárbaros, mas já no século XVI Montaigne reconhecia que a antropofagia empalidecia se comparada com a crueldade com que os seus contemporâneos europeus, vendo-se consumidos por guerras religiosas atrozes, “e sem grandeza espiritual para comer do inimigo morto, torturavam e estraçalhavam o inimigo vivo em nome da piedade e da religião”. Aquela estupenda nota termina lembrando o génio do poeta brasileiro Oswald de Andrade, que “tomou a antropofagia como uma arma criativa de combate contra a sujeição cultural do colonizado, e como uma instigação à capacidade de ser outro ao reconhecer o outro em si”. “Tupi or not tupi, that is the question”, escreveu ele. Neste episódio, e com o intuito de levarmos um pouco mais longe as nossas explorações e indagações no confronto com esta terra devastada que parece servir apenas de pasto a fantasmas, contámos novamente com Luís Bernardo, um desses tipos que tem a decência de responder às suas inquietações fazendo um sério trabalho de pesquisa de fontes e análises que escapam inteiramente às intrigas paroquiais em que refocila o nosso enredo mediático.

Isto faz-se por cá
Centros de Estudo Gulbenkian

Isto faz-se por cá

Play Episode Listen Later Dec 26, 2025 14:49


O projeto da Fundação Calouste Gulbenkian, que visa apoiar os estudos de jovens de contextos socioeconómidos mais desfavorecidos, já tem três centro em funcionamento na Grande Lisboa.

Reportagem
Mostra 'Complexo Brasil' redescobre história, impasses e cultura do país para além de clichês em Portugal

Reportagem

Play Episode Listen Later Dec 19, 2025 6:32


O mergulho no Brasil em terras portuguesas ganhou nova dimensão com a exposição Complexo Brasil, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, com curadoria de José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik, e projeto cenográfico de Daniela Thomas. A mostra, que reúne obras de arte, filmes, vídeos, documentos e textos, oferece uma oportunidade rara para um “redescobrimento mútuo” dos dois lados do Atlântico, e se distancia de estereótipos, abrindo novas perspectivas de entendimento. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa “O que nos propomos é oferecer e questionar, como um convite e um desafio ao atravessamento, uma experiência de Brasis”, ressaltou à RFI o ensaísta e músico José Miguel Wisnik. É um convite bem sensorial porque se trata de uma exposição muito colorida, muito intensa de expressão da visualidade brasileira pelas artes, por objetos, por imagens, por fotografias e também por vídeos, diz Wisnik. “Foram feitos seis vídeos, especialmente concebidos para a exposição Complexo Brasil, que tratam de temas como as potências e os impasses do Brasil contemporâneo e suas relações com o passado. Há vídeos sobre a escravidão, Brasília, a Amazônia, a música popular brasileira, a relação do samba com o candomblé e a escola de samba”, afirma Wisnik. “Todos esses elementos formam um conjunto que não é linear nem descritivo do ponto de vista cronológico. Trata-se de algo muito mais sensorial e também conceitual”, explica. “Percorremos esses múltiplos estímulos com uma visão histórica e crítica da formação do Brasil, um país ao mesmo tempo muito desigual e violento em vários aspectos, mas também extremamente rico e plural do ponto de vista de suas expressões culturais”, conclui. O projeto começou a ser concebido há três anos, com o objetivo de apresentar o Brasil ao público português. Desde o início, segundo o diretor do Programa Cultura da Fundação Calouste Gulbenkian, Miguel Magalhães, a equipe tinha uma premissa clara. “Sabíamos que não queríamos uma exposição exótica ou tropical, carregada de estereótipos que costumam compor a imagem do Brasil”, afirmou à RFI. De acordo com Magalhães, a mostra propõe múltiplos olhares sobre o país. “É uma exposição feita de muitos Brasis, começando pelo Brasil anterior à chegada dos portugueses. Ela olha para os povos que já estavam ali, aborda o colonialismo e a escravidão, mas reconhece que o Brasil contemporâneo não se explica apenas pela sua relação com Portugal”, diz. “Complexo Brasil se organiza em três eixos — geografia, história e diversidade cultural. É nessa articulação que tentamos dar conta da complexidade do país. Não é uma exposição de artes visuais, mas uma exposição que usa a arte como uma caixa de ferramentas para ajudar a compreender o Brasil de hoje”, enfatiza.   “Um país é uma entidade múltipla” Por que Complexo Brasil? Porque, em muitos sentidos, o Brasil é justamente isso: um conjunto intrincado de biomas, etnias, culturas, línguas, religiões e lógicas sociais, atravessado por desigualdades extremas. Um país marcado também por um permanente vaivém entre sentimentos de inferioridade e superioridade — síndromes que, como lembram os organizadores, brasileiros e portugueses conhecem bem. Esse emaranhado se desdobra em múltiplas camadas nas duas grandes galerias da Fundação Calouste Gulbenkian. Obras de naturezas muito distintas se encontram: peças do século XVII dialogam com produções contemporâneas, em um percurso que reúne artistas brasileiros de várias gerações. Estão representados nomes como Alfredo Volpi, Augusto de Campos, Claudia Andujar, Rosana Paulino, Abdias do Nascimento, Arthur Bispo do Rosário, Hélio Oiticica, Glicélia Tupinambá, Lygia Clark, Lygia Pape, Roberto Burle Marx e Luiz Zerbini, entre outros. Para o músico e curador da mostra, José Miguel Wisnik, Complexo Brasil se inicia com uma antologia de frases sobre o país, recolhidas em diferentes épocas e de autores diversos. “O Brasil é feio, mas gostoso”, a célebre frase atribuída ao escritor modernista Mário de Andrade, reaparece décadas depois nas palavras do compositor e maestro Tom Jobim. "Ele dizia que 'morar nos Estados Unidos é bom, mas é uma merda; morar no Brasil é uma merda, mas é bom' — uma síntese irônica e contraditória que ajuda a traduzir a complexidade do país", lembra. Mantos como fio condutor   Os emblemáticos mantos tupinambá, cujos remanescentes hoje se encontram em museus europeus, são — não por acaso — o ponto de partida da exposição Complexo Brasil. Eles funcionam como fio condutor da mostra. Do manto sagrado do povo Tupinambá, do século XVI, devolvido ao Brasil pela Dinamarca no ano passado e presente na exposição por meio de um vídeo especialmente produzido, aos parangolés de Hélio Oiticica, o percurso atravessa diferentes tempos e sentidos. Esse diálogo inclui ainda o Manto Raio de Sol, criação contemporânea da artista e pesquisadora Glicéria Tupinambá, e o extraordinário Manto da Apresentação, de Arthur Bispo do Rosário — obra criada e bordada ao longo de décadas pelo artista negro que passou grande parte da vida internado em uma colônia psiquiátrica. “A gente combinamos de não morrer”   “Nós partimos da ideia  de um desencobrimento do Brasil, não propriamente de um descobrimento, mas na verdade revisitar o descobrimento desencobrindo todas aquelas dimensões que foram em grande parte apagadas e invisibilizadas neste processo em que europeus tomaram esse imenso território habitado por muitas etnias indígenas e sequestraram e transportaram milhões de escravizados africanos para este território. Tudo isso compõe um conjunto de dimensões complexas, nada é simples no seu processo histórico porque envolve apagamentos e violências, mas envolve ao mesmo tempo, experiências humanas únicas que produziram culturas que estão presentes de maneira muito viva na exposição”, reflete Wisnik. É a partir dos questionamentos das relações entre Brasil e Portugal que a mostra se desdobra, abordando o passado colonial com a apropriação do território indígena, a escravização e tráfico de escravos “postos a funcionar nos "moinhos de gastar gente" que caracterizam, segundo a expressão de Darcy Ribeiro, a máquina de produção colonial no Brasil”. “Em Olhos d'água, Conceição Evaristo escreve a frase que se tornou um símbolo de resistência e luta contra o racismo: 'Eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer'”, ressalta.   Complexo Brasil, que ocupa as duas galerias do Edifício-Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, começou a ser concebida para marcar o bicentenário da Independência do Brasil, em 2022. O projeto, no entanto, precisou de mais tempo para amadurecer. “Percebemos que aquela celebração se apoiava em um desconhecimento mútuo entre os dois países”, afirma o diretor do Programa Cultura da instituição, Miguel Magalhães. Três anos e meio depois, a exposição chega ao público sem evitar temas sensíveis, como o papel de Portugal na colonização e na escravidão no Brasil. A mostra se insere em um momento delicado da relação entre os dois países, marcado pelo aumento de episódios de xenofobia e racismo contra brasileiros em Portugal. De acordo com dados do Itamaraty, cerca de 513 mil brasileiros vivem oficialmente no país, formando a maior comunidade estrangeira em território português. Com o avanço da agenda anti-imigração, o partido de extrema direita Chega chegou a afirmar que a exposição na Gulbenkian “responsabiliza os portugueses pelos males do Brasil em decorrência da colonização”. Além da exposição, a programação inclui debates, conferências, performances, concertos, workshops e oficinas. Complexo Brasil pode ser visitada até 17 de fevereiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Appleton Podcast
Episódio 184 – “Agora é Agora.” – Conversa com Maria Appleton

Appleton Podcast

Play Episode Listen Later Dec 17, 2025 75:43


Maria Appleton (Lisboa, 1997) é uma artista portuguesa que vive e trabalha em Lisboa. A sua prática investiga a relação entre cor e forma, recorrendo a técnicas como tinturaria, tecelagem e impressão.Trabalha com tecidos como algodão, seda e materiais industriais, criando composições em camadas translúcidas que reagem à luz e ao espaço.O seu trabalho explora espaços liminares, emocionais e físicos, num equilíbrio entre presença tangível e ausência simbólica, evocando memórias e sensações, em diálogo com a arquitetura dos domínios público e privado.Appleton apresentou exposições individuais no Espacio Tacuarí, Buenos Aires (2024), Casa da Cerca, Almada (2024), Hatch, Paris (2023), ARCOmadrid e Artissima Turim, e Galeria Foco, Lisboa (2021). Participou em residências na Cité Internationale des Arts, Paris (2022), com apoio do Institut Français e da Fundação Gulbenkian, e na Fondation CAB, Bruxelas (2024). O seu trabalho integra coleções públicas e privadas como a Coleção António Cachola, Fundação CAB e Coleção Vergez Links: https://www.maria-appleton.com/ https://galeriafoco.com/artists/maria-appleton/ https://contemporanea.pt/edicoes/2025/maria-appleton-what-holds-structure https://www.hatchparis.com/collaborativeartists/mariaappleton https://www.timeout.pt/lisboa/pt/noticias/nao-esquecendo-o-legado-bica-do-sapato-reabre-as-portas-para-o-futuro-e-para-o-tejo-090125 https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=FvlqQC7_jeg Episódio gravado a 02.12.2025 Créditos introdução e final: David Maranha http://www.appleton.pt Mecenas Appleton:HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / A2P / MyStory Hotels / JD Collection Apoio:Câmara Municipal de Lisboa Financiamento:República Portuguesa – Cultura / DGArtes – Direcção Geral das Artes © Appleton, todos os direitos reservados

Expresso - Irritações
A moda das fotos a preto e branco que "provocam sustos", tabasco, Gulbenkian, e chamadas de aniversário

Expresso - Irritações

Play Episode Listen Later Dec 12, 2025 54:23


Esta semana, Inês Rogeiro regressa ao programa para 'reclamar' da moda crescente, segundo diz, de fotografias a preto e branco, que provocam "vários sustos": "A Gabriela Barros pôs uma foto a preto e branco com o Rui Veloso e eu apanhei um susto. Nós já temos imagens a cores há algum tempo, que moda é esta?", questiona. Luís Pedro Nunes reclama de quem ainda reclama do consumo de tabasco, e deixa um apelo a essas pessoas: "Pelo menos tirem esse ar de superioridade". Luana do Bem aconselha a que se pare de telefonar a pessoas quando é o dia de aniversário, com José de Pina a deixar uma dica sobre a Gulbenkian e a falar do crescente excesso de simpatia em superfícies comerciais. Com moderação de Pedro Boucherie Mendes, o Irritações foi emitido a 12 de dezembro, na SIC Radical. * A sinopse deste episódio foi criada com o apoio de IASee omnystudio.com/listener for privacy information.

Grandes ciclos
Grandes ciclos - A. Salieri (IV): Para Dios y mi emperador - 24/11/25

Grandes ciclos

Play Episode Listen Later Nov 24, 2025 59:26


SALIERI: Misa de Requiem en Do menor (37.12). A. Zukerman (sop.), S. Ivag (mez.), A. Zdunikowski (ten.), L. Rodrigues (bar.), Coro y Orq. de la Fundación Gulbenkian de Lisboa. Dir.: L. Foster. 4 Scherzi instrumentali in stilo fugato (selec.) (nº 1, 3 y 4) (6.23). P. Thomas (vl.), J. rees (vl.), T. Tichauer (vla.), N. Cooper (vc.).Escuchar audio

Aguenta
A TORTO E A DIREITO #123

Aguenta

Play Episode Listen Later Sep 8, 2025 64:50


Neste episódio falo sobre dormir torto, brinquedos de desejo, beber café em estações de serviço, tutor de maluco, tarado da Gulbenkian, pedir desculpas no trânsito, elevador da glória, anúncios de acidentes rodoviários e estética corporal dos artistas. 

Expresso - A Beleza das Pequenas Coisas
Zeferino Coelho (parte 1): “Está a preparar-se tudo para uma nova Guerra Mundial. Temos que nos manter lúcidos. Sinto que a estupidez subiu ao poder”

Expresso - A Beleza das Pequenas Coisas

Play Episode Listen Later Aug 8, 2025 94:34


Cresceu numa aldeia do norte, em Paredes, num país conservador, salazarista, com as janelas fechadas para o mundo. Em casa não tinha livros, mas logo aos 13 anos descobre o gosto pela leitura nas carrinhas da biblioteca itinerante da Gulbenkian, que lhe define a vida inteira. Comunista, viveu na clandestinidade na luta antifascista e, no final dos anos 70, integra a fundação da Caminho. É o único editor de uma obra de língua portuguesa distinguida com o Prémio Nobel da Literatura, uma distinção atribuída a José Saramago, em 1998. Na sua família de autores tem ainda 8 Prémios Camões. Nunca mais esquece a alegria do momento que fez o país crescer “três centímetros”. Eterno curioso, aos 80 anos não planeia reformar-se, e afirmar querer publicar e ler livros até ao fim. Ouçam-no nesta primeira parte da conversa com Bernardo Mendonça.See omnystudio.com/listener for privacy information.

Noticiário Nacional
23h Gulbenkian desenvolve iniciativa para jovens desempregados

Noticiário Nacional

Play Episode Listen Later Aug 4, 2025 9:41


KentOnline
Podcast: Private security firm Akon brought in to crack down on anti-social behaviour in Herne Bay

KentOnline

Play Episode Listen Later Jul 29, 2025 21:21


Private security guards have been brought in to help tackle anti-social behaviour in Herne Bay.A company called Akon has been given a six-week contract to support council enforcement teams and police. It's costing £8,500 and comes after concerns about gangs of young people "terrorising" the town.Also in today's podcast, organisers of a free princess-themed event in Maidstone have been forced to cancel it due to council charges.Snow Princess Parties holds an annual parade in Brenchley Gardens - where youngsters can meet their favourite fairytale and Disney characters.Plans to help families with the cost of living are due to be discussed later, as figures show 30% of children in Medway are living in poverty.The number of pupils eligible for free school meals has doubled in the last nine years. Hear from Medway Council leader Vince Maple.We've been hearing how important it is to get children in Kent involved in the creative arts.The Gulbenkian in Canterbury is running a series of events over the next few months to encourage families to get involved in arts and theatre, we've been speaking to Artistic Director David Sefton.One of the stars of TV's Neighbours has been in Kent to mark a very special birthday.Alan Fletcher, who played Dr Karl Kennedy in the Aussie soap, visited Maplewood Court in Maidstone to meet resident Hilda Howes who has turned 100.A victory parade has been taking place in London to celebrate the Lionesses winning the women's Euros.Kent's Alessia Russo scored an equaliser in the final against Spain on Sunday night taking the game to extra time and penalties.Crowds lined the Mall to see the squad before they lifted the trophy on a stage in front of Buckingham Palace.

Visão Global
A defesa da Antártida

Visão Global

Play Episode Listen Later Jul 13, 2025 50:42


Prémio Gulbenkian para a Humanidade. Crise política em Espanha. 50 anos de São Tomé independente. Golpe na Orano no Níger. Edição de Mário Rui Cardoso.

A Mosca
Urgências,

A Mosca

Play Episode Listen Later Jun 6, 2025 0:36


Segundo um estudo da Gulbenkian, os portugueses admitem que há uma urgência climática.

Kung Fu Movie Guide Podcast
Episode 106 - Sébastien Foucan | Live in Canterbury, 'Drunken Master' special

Kung Fu Movie Guide Podcast

Play Episode Listen Later Apr 21, 2025 42:41


Parkour pioneer Sébastien Foucan can be credited for bringing Parkour to the masses. His seminal UK documentary, 'Jump London' (2003) - and its follow up, 'Jump Britain' (2005) - sparked a cultural phenomenon which would see youngsters take to the streets in wild, acrobatic, hair-raising abandon; running, climbing and leaping across their urban environment in scenes we still see on our streets today. For Sébastien, a movie career followed, with stand-out roles in action films including 'Casino Royale' (2006) and 'The Tournament' (2009). Those perceptive enough to see the inspiration behind his incredible physical abilities and derring-do would be quick to reference the work of Jackie Chan, whose stunt-filled films would prove to be one of the early catalysts for Sébastien and his friends to take to the streets of Paris, recreating what they saw in his movies. Today, Sébastien is an inspirational speaker and CEO of the Foucan Academy, teaching kids the art of movement and self-expression. His motto: "we play".On this episode - recorded live at the Gulbenkian Arts Centre in Canterbury as part of the British Film Institute's Art of Action season - Sébastien explores his love of Hong Kong action cinema (especially the films of Jackie Chan and Bruce Lee), his experiences working in Hollywood, current attitudes towards Parkour, and much more. This conversation was recorded after a screening of the 1978 Jackie Chan classic, 'Drunken Master', and is co-hosted by the 'Life of Action' author - and friend of the show - Mike Fury. A huge thank you to the crew at the Gulbenkian and the people of Canterbury who attended the show, and the Independent Cinema Office and Film Hub South East for helping to organise the event.LINKSSébastien Foucan on Instagram: https://www.instagram.com/sebastienfoucan/Sébastien Foucan on Facebook: https://www.facebook.com/people/Seb-Foucan/100010605671158/ Sébastien Foucan on LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/sebastien-foucan/ Sébastien Foucan website: https://www.sebastienfoucan.com/ Foucan Academy: https://foucanacademy.com/ 'Jump Britain' on YouTube: https://youtu.be/2TJurAP9l-Q?si=Abborgj9sRKdOKMN Chase scene from 'Casino Royale': https://youtu.be/iZxNbAwY_rk?si=9RvrgPTeoUWGT0GZ Sébastien Foucan on 'Ninja Warrior UK': https://youtu.be/o7YFOF1oeag?si=hjKZ23vx9DT-6S-k Mike Fury on Instagram: https://www.instagram.com/themikefury/Mike Fury's website: https://www.mikefury.net/'Drunken Master' review on Kung Fu Movie Guide: https://bit.ly/DrunkenMasterKFMG'Drunken Master' trailer: https://youtu.be/WSu-9X8NF9k?si=BNVVYygZ7Ke_VdYpBuy 'Drunken Master' on Blu-ray: https://eurekavideo.co.uk/movie/drunken-master/Visit the Gulbenkian Arts Centre in Canterbury: https://thegulbenkian.co.uk/Learn more about the BFI's Art of Action season: https://www.bfi.org.uk/art-actionA huge thank you to Independent Cinema Office (https://www.independentcinemaoffice.org.uk/) and Film Hub South East (https://www.independentcinemaoffice.org.uk/film-hub-south-east/) Hosted on Acast. See acast.com/privacy for more information.

El ojo crítico
El ojo crítico - 'Florilegio' de Fetén Fetén, sus últimos discos en un vinilo

El ojo crítico

Play Episode Listen Later Feb 4, 2025 53:37


Nos visita el dúo Fetén Fetén, formado por Diego Galaz y Jorge Arribas, para presentar Florilegio, su nuevo vinilo lleno de esencia y creatividad.Dani Galindo nos acerca a los actores nominados a los Premios Goya con raíces teatrales, mientras que Miguel Ángel nos descubre la sorprendente relación entre música y ciencia a través del libro El cerebro musical de Michel Rochon, publicado por Ático de los Libros. Un tema fascinante que nos lleva a reflexionar sobre cómo las artes y el conocimiento se entrelazan.En el ámbito del arte, Íñigo Picabea nos habla de la llegada a Madrid de 18 óleos y un dibujo de Francesco Guardi, junto con una obra de su hijo Giacomo, procedentes de la prestigiosa Colección Gulbenkian de Lisboa. Una oportunidad única para disfrutar del legado de uno de los artistas más representativos de esta colección.Además, Ana Zurita nos recuerda a Patricia Highsmith en el 30º aniversario de su fallecimiento. La creadora de Tom Ripley revolucionó la novela policíaca con sus thrillers psicológicos, explorando temas como la culpa, la inocencia y los límites entre el bien y el mal.En El Ojo Crítico defendemos las conexiones entre arte y ciencia, rescatamos historias imprescindibles y descubrimos lo mejor de la cultura actual. Escúchanos en Radio Nacional y acompáñanos en este viaje cultural lleno de inspiración y conocimiento.Escuchar audio

TSF - Negócios em Português - Podcast
Fausto Lopo de Carvalho - Diretor de Operções da GIMM - Gulbenkian Institute for Molecular Medicine

TSF - Negócios em Português - Podcast

Play Episode Listen Later Dec 7, 2024


SBS Portuguese - SBS em Português
Mais arte e arquitetura contemporânea no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian em Lisboa

SBS Portuguese - SBS em Português

Play Episode Listen Later Sep 25, 2024 4:29


O magnate armênio Calouste Sarkis Gulbenkian nasceu há século e meio. Ficou conhecido como o senhor 5%. Era dono de 5% do crude mundial. No tempo da II Guerra Mundial, refugiou-se em Portugal, onde foi acarinhado. Homem de negócios, colecionador de arte e filantropo, quando morreu em Lisboa, em 1955, era o homem mais rico do mundo graças ao petróleo.

Visão Global
A cimeira da NATO

Visão Global

Play Episode Listen Later Jul 14, 2024 50:30


A cimeira dos 75 anos da Aliança Atlântica. O novo presidente reformista do Irão. O Prémio Gulbenkian para a Humanidade. Edição de Mário Rui Cardoso.

The Creative Process in 10 minutes or less · Arts, Culture & Society
How has jazz been interpreted around the world? Highlights - BERNARDO MOREIRA

The Creative Process in 10 minutes or less · Arts, Culture & Society

Play Episode Listen Later Dec 21, 2023 10:16


“I play the double bass as a professional musician. I don't consider myself a piano player, but I play a little bit of piano, of course. Every musician should play a little bit of piano to understand harmony. And if you want to compose or to arrange music, you need to know basic piano. So I play a little bit of piano. Actually, I started to play guitar before the double bass, because it was not so easy to get a double bass 40 years ago. My father was a bass player, but he never had a bass at home. So I started to play guitar first, and I was really into Bossa Nova and those chords from João Gilberto, and it was a big influence in my early years. But then I found a double bass when I was sixteen or seventeen– it was a terrible double bass, but it was enough to start with. Today, that sounds kind of late to start learning an instrument, but back then it wasn't so terrible. Now you have small double basses that kids of nine, ten years old can start playing. In the eighties, if you were small, you could not play double bass, basically.”Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

The Creative Process Podcast
BERNARDO MOREIRA - Portuguese Jazz Musician

The Creative Process Podcast

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 36:37


Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.“I play the double bass as a professional musician. I don't consider myself a piano player, but I play a little bit of piano, of course. Every musician should play a little bit of piano to understand harmony. And if you want to compose or to arrange music, you need to know basic piano. So I play a little bit of piano. Actually, I started to play guitar before the double bass, because it was not so easy to get a double bass 40 years ago. My father was a bass player, but he never had a bass at home. So I started to play guitar first, and I was really into Bossa Nova and those chords from João Gilberto, and it was a big influence in my early years. But then I found a double bass when I was sixteen or seventeen– it was a terrible double bass, but it was enough to start with. Today, that sounds kind of late to start learning an instrument, but back then it wasn't so terrible. Now you have small double basses that kids of nine, ten years old can start playing. In the eighties, if you were small, you could not play double bass, basically.”www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

The Creative Process Podcast
How has jazz been interpreted around the world? Highlights - BERNARDO MOREIRA

The Creative Process Podcast

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 10:16


“I play the double bass as a professional musician. I don't consider myself a piano player, but I play a little bit of piano, of course. Every musician should play a little bit of piano to understand harmony. And if you want to compose or to arrange music, you need to know basic piano. So I play a little bit of piano. Actually, I started to play guitar before the double bass, because it was not so easy to get a double bass 40 years ago. My father was a bass player, but he never had a bass at home. So I started to play guitar first, and I was really into Bossa Nova and those chords from João Gilberto, and it was a big influence in my early years. But then I found a double bass when I was sixteen or seventeen– it was a terrible double bass, but it was enough to start with. Today, that sounds kind of late to start learning an instrument, but back then it wasn't so terrible. Now you have small double basses that kids of nine, ten years old can start playing. In the eighties, if you were small, you could not play double bass, basically.”Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Books & Writers · The Creative Process
BERNARDO MOREIRA - Portuguese Jazz Musician

Books & Writers · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 36:37


Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.“I had so many people around me when I was young– famous poets like Ary dos Santos, one of Portugal's greatest poets of the 20th century. Sometimes he would be there talking with my mother, and I had this information that was getting in, but I wasn't aware of it. And then in the early days, when I had just started playing, I was really into modern jazz, which was very instrumental, so I didn't really pay attention to lyrics. It took me a while to get interested in Portuguese music, and in that mixture between jazz, Fado music and Portuguese popular music. For a while I was into the importance of a good poem. Now what moves me most of the time is that mixture of cultures— trying to do something that you cannot find in other countries. If you are into a lot of American jazz, for instance, you can play great music, but you are always playing music that started elsewhere, you know? And for a European like me, it's challenging to try and find what makes you different in such a big market. What sound can you try to create that you wouldn't hear in France or in Japan or in New York? So that's a very difficult challenge, actually, because you try to get really into your heart and your emotion. And I think Portugal has a lot of good emotions in its popular music that you don't find elsewhere. The music I make always has a kind of nostalgic ambience. It's not always sadness. It's a melancholic approach that is very hard to put into words– you just need to feel it.”www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Books & Writers · The Creative Process
How has jazz been interpreted around the world? Highlights - BERNARDO MOREIRA

Books & Writers · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 10:16


“I had so many people around me when I was young– famous poets like Ary dos Santos, one of Portugal's greatest poets of the 20th century. Sometimes he would be there talking with my mother, and I had this information that was getting in, but I wasn't aware of it. And then in the early days, when I had just started playing, I was really into modern jazz, which was very instrumental, so I didn't really pay attention to lyrics. It took me a while to get interested in Portuguese music, and in that mixture between jazz, Fado music and Portuguese popular music. For a while I was into the importance of a good poem. Now what moves me most of the time is that mixture of cultures— trying to do something that you cannot find in other countries. If you are into a lot of American jazz, for instance, you can play great music, but you are always playing music that started elsewhere, you know? And for a European like me, it's challenging to try and find what makes you different in such a big market. What sound can you try to create that you wouldn't hear in France or in Japan or in New York? So that's a very difficult challenge, actually, because you try to get really into your heart and your emotion. And I think Portugal has a lot of good emotions in its popular music that you don't find elsewhere. The music I make always has a kind of nostalgic ambience. It's not always sadness. It's a melancholic approach that is very hard to put into words– you just need to feel it.”Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Poetry · The Creative Process
How has jazz been interpreted around the world? - Highlights - BERNARDO MOREIRA

Poetry · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 10:16


“I had so many people around me when I was young– famous poets like Ary dos Santos, one of Portugal's greatest poets of the 20th century. Sometimes he would be there talking with my mother, and I had this information that was getting in, but I wasn't aware of it. And then in the early days, when I had just started playing, I was really into modern jazz, which was very instrumental, so I didn't really pay attention to lyrics. It took me a while to get interested in Portuguese music, and in that mixture between jazz, Fado music and Portuguese popular music. For a while I was into the importance of a good poem. Now what moves me most of the time is that mixture of cultures— trying to do something that you cannot find in other countries. If you are into a lot of American jazz, for instance, you can play great music, but you are always playing music that started elsewhere, you know? And for a European like me, it's challenging to try and find what makes you different in such a big market. What sound can you try to create that you wouldn't hear in France or in Japan or in New York? So that's a very difficult challenge, actually, because you try to get really into your heart and your emotion. And I think Portugal has a lot of good emotions in its popular music that you don't find elsewhere. The music I make always has a kind of nostalgic ambience. It's not always sadness. It's a melancholic approach that is very hard to put into words– you just need to feel it.”Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Poetry · The Creative Process
BERNARDO MOREIRA - Portuguese Jazz Musician

Poetry · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 36:37


Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.“I had so many people around me when I was young– famous poets like Ary dos Santos, one of Portugal's greatest poets of the 20th century. Sometimes he would be there talking with my mother, and I had this information that was getting in, but I wasn't aware of it. And then in the early days, when I had just started playing, I was really into modern jazz, which was very instrumental, so I didn't really pay attention to lyrics. It took me a while to get interested in Portuguese music, and in that mixture between jazz, Fado music and Portuguese popular music. For a while I was into the importance of a good poem. Now what moves me most of the time is that mixture of cultures— trying to do something that you cannot find in other countries. If you are into a lot of American jazz, for instance, you can play great music, but you are always playing music that started elsewhere, you know? And for a European like me, it's challenging to try and find what makes you different in such a big market. What sound can you try to create that you wouldn't hear in France or in Japan or in New York? So that's a very difficult challenge, actually, because you try to get really into your heart and your emotion. And I think Portugal has a lot of good emotions in its popular music that you don't find elsewhere. The music I make always has a kind of nostalgic ambience. It's not always sadness. It's a melancholic approach that is very hard to put into words– you just need to feel it.”www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Education · The Creative Process
BERNARDO MOREIRA - Portuguese Jazz Musician

Education · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 36:37


Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.“I would love if young people understood that art is one of the things that make you a human and not a robot. That's the difference. And if we could pass on that message, what makes us human beings, it's exactly our ability to feel. We need to do it in the schools and the teacher should be the most important person in the world right now - good teachers who pass that message to young people. They need to focus on the important things to get that capacity to concentrate. If we lose the concentration capacity, then we are becoming robots, and so for me, the challenge is really for the young people and teachers, telling them the importance of paying attention to the important things.”www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Education · The Creative Process
How has jazz been interpreted around the world? Highlights - BERNARDO MOREIRA

Education · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 10:16


“I would love if young people understood that art is one of the things that make you a human and not a robot. That's the difference. And if we could pass on that message, what makes us human beings, it's exactly our ability to feel. We need to do it in the schools and the teacher should be the most important person in the world right now - good teachers who pass that message to young people. They need to focus on the important things to get that capacity to concentrate. If we lose the concentration capacity, then we are becoming robots, and so for me, the challenge is really for the young people and teachers, telling them the importance of paying attention to the important things.”Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Music & Dance · The Creative Process
BERNARDO MOREIRA - Portuguese Jazz Musician

Music & Dance · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 36:37


Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.“It took me some time to understand where I was going to see myself. It's true that, at home, me and my brothers had a beautiful cultural environment because my father was, not a professional musician, but a jazz lover. He was really into jazz music and really passionate about it. But he was never a professional musician. He was an amateur. My mother, also, was a teacher and a writer, so I think we had this environment at home that got us into music. We were always listening either to opera or to jazz. Of course, we had our preferences when we were kids– we loved The Beatles and The Rolling Stones. But we always had this different approach because of our mother and father. Everything that influenced us came through them, even if we didn't know it. When I was fourteen or fifteen I started to feel a need to play an instrument. And one thing that helped a lot was the fact that we were four brothers and we started to play music together. We had this small combo happening at home almost every day, every hour. And it was a quick sensation– immediately I understood that this was what I was going to do for the rest of my life.”www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira

Music & Dance · The Creative Process
How has jazz been interpreted around the world? - Highlights - BERNARDO MOREIRA

Music & Dance · The Creative Process

Play Episode Listen Later Dec 20, 2023 10:16


“It took me some time to understand where I was going to see myself. It's true that, at home, me and my brothers had a beautiful cultural environment because my father was, not a professional musician, but a jazz lover. He was really into jazz music and really passionate about it. But he was never a professional musician. He was an amateur. My mother, also, was a teacher and a writer, so I think we had this environment at home that got us into music. We were always listening either to opera or to jazz. Of course, we had our preferences when we were kids– we loved The Beatles and The Rolling Stones. But we always had this different approach because of our mother and father. Everything that influenced us came through them, even if we didn't know it. When I was fourteen or fifteen I started to feel a need to play an instrument. And one thing that helped a lot was the fact that we were four brothers and we started to play music together. We had this small combo happening at home almost every day, every hour. And it was a quick sensation– immediately I understood that this was what I was going to do for the rest of my life.”Bernardo Moreira is one of the most active Portuguese double bassists. He has performed as a guest soloist with Gulbenkian, Metropolitan de Lisboa, and Nacional do Porto orchestras, and gained prominence for his collaborations with international artists, including the legendary Benny Colson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter, Art Farmer, and Kenny Wheeler. He is a regular collaborator with many jazz musicians in Portugal, participating in formations such as the Maria João/Mário Laginha quartet, the Mário Laginha trio, and singer Cristina Branco. In 2021, he released Enter Paredes, and in 2022, he led Cantina's de Main and SUL.www.clavenamao.orghttps://open.spotify.com/artist/0Yse2njeXg2XDiQmmxhAc5www.creativeprocess.info www.oneplanetpodcast.org IG www.instagram.com/creativeprocesspodcastMusic on this episode:António Marinheiro, Bernardo Moreira Sextet, from the album Entre Paredes PROMESSAS MIX V3 ULT from SULCourtesy of Bernardo Moreira