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Quanto vale aquele “sim” eternizado na memória – e nas redes sociais? Em Paris, os pedidos de casamento excepcionais se consolidaram como um nicho lucrativo do setor de turismo e eventos. Um pedido diante da emblemática Torre Eiffel, com arranjos de rosas e tapete vermelho, sai a partir de € 600, mas as cifras podem rapidamente ultrapassar os seis dígitos. Lúcia Müzell, da RFI em Paris Um dos momentos mais procurados do ano é o Dia dos Namorados. Patrícia Lima organiza eventos na cidade desde 2011 e, depois da famosa série Emily in Paris, viu a demanda por pedidos de casamento subir a cada ano, impulsionada pelo efeito nas redes sociais. Hoje, 30% dos contratos que ela fecha são de casais em busca de um “sim” especial em Paris. “Como tudo é personalizado, o valor tem a ver com os pedidos que o cliente faz. Se quer acrescentar balões em forma de coração, quantidade, tamanho. Se quer acrescentar um champanhe de uma marca especial, afinal tem garrafa que custa € 450”, explica. Patrícia afirma ser a única a oferecer um cenário em português, o que lhe permite atrair a clientela lusófona. O goiano Ronivaldo da Costa Meireles decidiu contratar o serviço depois de perceber os olhos brilhando da namorada na primeira vez que o casal foi a Paris e presenciou pedidos românticos nas margens do rio Sena. “Acho que é o sonho de toda mulher e ela merecia passar por essa experiência”, comentou, instantes depois de se ajoelhar diante de Pâmela Costa dos Santos, 29 anos. “Eu não estava suspeitando de nada. Foi uma surpresa muito emocionante”, disse ela, há oito anos em um relacionamento com o agora noivo. Violinista, carruagem e castelo O momento em si costuma ser curto, de apenas alguns minutos. Mas, nos bastidores, a preparação é complexa: decoração com flores, fotógrafo, violinista, carruagem e até o anel de noivado podem fazer parte do pacote, sem falar das autorizações exigidas pela prefeitura de Paris, conforme o local escolhido, e que encarecem o serviço. No setor do luxo, o céu é o limite, podendo atingir dezenas de milhares de euros se o “quer casar comigo?” for pronunciado em um iate no Sena, em uma suíte 5 estrelas com vista privilegiada da Cidade Luz ou até em um castelo. A agência Kiss Me in Paris se especializou nesse nicho, em pleno crescimento, e já realizou mais de 1,2 mil pedidos de casamento. “Estamos atraindo clientes cada vez mais exigentes do mundo todo, e as pessoas gastam muito mais dinheiro. Eu diria que a média fica entre US$ 5 mil e US$ 15 mil, mas tem gente que gasta bem mais”, revela o CEO Cengiz Ozelsel. Só para privatizar um castelo, o valor já sobe para US$ 4 mil. “Eles podem querer o transporte de helicóptero, para ter uma chegada com toda a pompa. Eles querem artistas, ou um dia inteiro repleto de experiências divertidas, que atinjam o ápice no momento do pedido de casamento”, relata, sem esquecer do “primeiro jantar romântico e a primeira noite em um hotel como recém-noivos”. A maioria dos clientes de Ozelsel vem de países anglo-saxões, e principalmente da costa leste dos Estados Unidos. Na América Latina, os mexicanos são os que mais investem em um pedido de casamento “cinematográfico”, conta o empresário, que também já atendeu influenciadores brasileiros. “Os mexicanos visam grande”, resume. “Um dos maiores eventos que fizemos foi um barco enorme, que ancoramos do outro lado da Torre Eiffel. Toda a família do México veio e se escondeu embaixo do barco, e a noiva não fazia ideia de nada. Nunca vou me esquecer.” Concorrência de amadores O sucesso do setor motiva a concorrência, inclusive de amadores. Pacotes pela metade do preço são oferecidos nas redes sociais, porém o risco é acabar em decepção. “Sempre existiu, mas tem se intensificado: pessoas que não são registradas, não têm empresa, e muitas vezes até sem capacitação para isso”, aponta Patrícia Lima. “Elas não pagam impostos, não pagam contador nem aluguel, então obviamente os custos delas serão totalmente diferentes dos de uma empresa.” A utilização das margens do Sena, por exemplo, é regulamentada pela prefeitura. A gestora do local exige o pagamento de uma taxa e de um seguro para cada participante do evento, inclusive os organizadores. Os infratores podem ser multados e o evento ser desmontado às vésperas do momento tão sonhado pelo casal. Leia também‘Parece a Disney': moradores do bairro Montmartre estão preocupados com excesso de turistas em Paris
O verão ainda nem chegou no hemisfério norte e diversos países europeus acabaram de suportar uma semana de temperaturas escaldantes, algo inédito para o período do ano. Com o aumento da intensidade e da frequência das ondas de calor, potências como França, Reino Unido e Países Baixos, acostumadas a lidar com o frio na maior parte do ano, encaram o desafio de ter de se preparar para conviver com as altas temperaturas. Lúcia Müzell, da RFI em Paris O impacto econômico desses períodos antes raros, mas agora repetidos devido às mudanças climáticas, é brutal. Um levantamento recém-divulgado pela seguradora Allianz Trade estimou que o prejuízo acumulado no PIB de 2026 a 2030 pode chegar a 7% nos países mais expostos, como a França, onde o custo das ondas de calor poderá atingir US$ 240 bilhões no período. O forte calor afeta as condições de uso dos transportes, indústrias, instituições, escolas e empresas, mal preparados para os dias de altas temperaturas. Ao ar livre, a agricultura, a construção civil e a logística estão na linha de frente. O impacto na produtividade é direto e já pode ser mensurado. A partir de 30°C, a produção horária de um trabalhador diminui em média 3% a cada grau adicional, e é ainda maior quando os termômetros ultrapassam 35°C. Em paralelo, aumentam significativamente os gastos de saúde e seguridade social, em especial das pessoas mais vulneráveis, como idosos e pessoas em situação precária, salienta Mireille Chiroleu, professora de Economia do Meio Ambiente na Universidade Panthéon-Sorbonne. “As perdas de produção não são os únicos impactos: os na saúde são muito significativos. Estudos mostram que os custos decorrentes das ondas de calor na França entre 2015 e 2020 variaram entre € 22 bilhões e € 37 bilhões”, afirma ela, que também é diretora de pesquisas da Paris School os Economics. “É um valor altíssimo e muito maior do que o de perdas diretas de produção.” Risco de choque macroeconômico Em 2025, um estudo da universidade alemã de Mannheim em conjunto com o Banco Central Europeu trouxe um alerta grave: as ondas anormais de calor têm o potencial de causar um choque macroeconômico nos países do bloco. Somadas às secas e inundações, os fenômenos climáticos poderão custar € 126 bilhões à economia europeia até 2029. Os países mais expostos são Espanha, Itália e França. Em Paris, uma coletiva de imprensa da ministra da Transição Ecológica, Monique Barbut, sobre o tema na última semana foi sintomática: com os termômetros marcando 36°C à sombra, ela recebeu os jornalistas em uma sala “fervendo”, relatou Le Monde, com ventiladores circulando ar quente para os participantes molhados de suor. O Alto Conselho para o Clima, que orienta o governo francês para as medidas de enfrentamento da crise climática, adverte que o país deve se preparar para um cenário de alta de 4°C na média das temperaturas até o fim deste século. 19% de prédios adaptados na Europa Mudanças estruturais devem ser implementadas, observou a Allianz Trade em seu relatório: com “uma população envelhecida, um parque imobiliário pensado para reter o calor e infraestruturas de resfriamento do ar subdesenvolvidas”, a Europa tem uma média de apenas 19% dos prédios adaptados para enfrentar o calor. “As possibilidades estão em constante evolução e vêm apresentando avanços significativos. Recomenda-se a implementação de soluções para controlar a demanda energética ao mesmo tempo em que se combate as mudanças climáticas”, ressalta Chiroleu. “O ar-condicionado pode criar ilhas de calor na área externa a que é climatizada, e assim agravar as desigualdades, principalmente nos centros urbanos. Ele deve ser apenas um elemento da política de adaptação, afinal existe toda uma hierarquia de intervenções, como isolamento térmico de edifícios, arborização, etc.” Este ano, a Espanha instaurou uma licença climática de até quatro dias por ano em caso de eventos climáticos extremos, como enchentes, que impossibilitem o trabalho presencial. Na vizinha França, os ecologistas defendem a ideia e sugerem incluir as ondas de calor como uma razão de afastamento do trabalho, às custas dos cofres públicos. Faltam recursos para a adaptação até nos países ricos Organizações ambientalistas salientam que, antes disso, os países precisariam cumprir os seus planos de adaptação, ampliando as proteções contra o sol nas empresas e residências. A agência francesa de Meio Ambiente e Energia (Ademe) aponta que a instalação de janelas e venezianas adequadas pode diminuir de 20% a 60% a necessidade de ar-condicionado no interior dos prédios. Na prática, entretanto, a maioria dos países está atrasada na aplicação das medidas, principalmente por não disponibilizarem os recursos necessários. “As restrições orçamentárias particularmente fortes da França significam que os fundos destinados a essa adaptação, o Fundo Verde para o Clima, foram drasticamente reduzidos”, aponta. Em 2024, foram alocados € 2,5 bilhões para o mecanismo, que inclui os gastos para adaptação. No ano seguinte, o valor caiu para € 1,1 bilhão em 2025. “Isso é realmente muito pouco. Acho que outros países europeus estão enfrentando as mesmas deficiências de planejamento”, constata a professora francesa.
A artista luso-guineense Manuela Jardim encontra-se em Paris no âmbito da residência artística “Création & Engagement”, promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Thanks For Nothing. O programa cruza criação artística e intervenção social, envolvendo ateliers com pessoas apoiadas pela associação Aurore e alunos de escolas do 14.º bairro de Paris. A residência culminará numa exposição este mês de Junho, no espaço La Roche, instalado no antigo hospital La Rochefoucauld, no centro da capital francesa. Em entrevista à RFI, Manuela Jardim sublinha o carácter experimental desta residência no seu percurso artístico. “Creio que é sempre um desafio de um trajecto que eu nunca fiz, o das residências”. Manuela Jardim sublinhou que o que mais a atraiu no projecto foi “essa ligação entre a arte e a parte social e sobretudo as pessoas que não estão próximas da arte”. A artista, nascida na Guiné-Bissau em 1949 e radicada em Lisboa, desenvolve uma prática que cruza pintura, instalação, escultura e têxtil. Grande parte do seu trabalho assenta na investigação sobre tecidos tradicionais, memória e plantas tintureiras. “Os panos são memória e a tradição é a memória”, explicou, referindo-se ao uso de materiais reciclados, fibras naturais e pigmentos tradicionais. Na exposição estarão presentes várias fases desse percurso artístico, incluindo trabalhos realizados com papel reciclado, sacas de serapilheira e gaze. A investigação sobre têxteis levou também a artista a explorar ligações culturais entre África, Portugal, Índia e Brasil. “As pessoas falavam, comunicavam com as outras, havia guerras, mas no fundo a comunicação existia”, afirmou, defendendo a importância da arte enquanto espaço de encontro e partilha. Para Manuela Jardim, a arte desempenha igualmente um papel essencial no desenvolvimento humano e na inclusão social. “A arte será o primeiro factor que se deve dar a uma criança, porque através da arte ela pode se exprimir”, disse. Sobre os ateliers realizados durante a residência, acrescenta que a aproximação à arte pode funcionar “como um processo de libertação” para pessoas em situação de vulnerabilidade.
A actualidade africana desta semana fica marcada pelo agravamento do surto de Ébola na República Democrática do Congo, pela mudança política em Cabo Verde após as legislativas, pela contestação ambiental em torno dos investimentos franceses em Moçambique e pela persistente crise energética em São Tomé e Príncipe. Em Angola, o Presidente João Lourenço rejeitou a proposta de pacto para a estabilidade apresentada pela UNITA, considerando não existir uma situação de crise política que o justifique. As mortes suspeitas provocadas pelo Ébola na República Democrática do Congo ascendem já a 177, enquanto os casos identificados chegaram aos 750. O alerta foi lançado esta sexta-feira pelo director-geral da Organização Mundial da Saúde, que receia que a dimensão real da epidemia possa ser “muito maior”. Numa fase inicial, os sintomas febris confundem-se frequentemente com doenças comuns em África, como a malária, o que pode atrasar o diagnóstico e aumentar o risco de morte. Em Angola, depois do alerta sanitário, foram reforçados os procedimentos de vigilância epidemiológica. O chefe do Departamento de Higiene e Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde angolano, Eusébio Manuel, explicou as medidas adoptadas para prevenir a propagação da doença. "Um dos principais sintomas é febre. Muitas das vezes cruzamos nos nossos países, onde a malária é a primeira causa de morte e de doença, suspeitamos sempre como seja malária, mas depois os sintomas secundários vão aparecendo, dias depois. As pessoas apresentam sinais de febre e essa febre pode cruzar-se com astenia, dores musculares, mas são sinais-sintomas que vêm a posteriori. O sinal principal para reconhecimento é a febre. E depois vamos fazendo outros diagnósticos diferenciados. As hemorragias aparecem no quinto, sétimo dia, mas aí é onde ocorre o maior perigo, em que a pessoa esquece-se que está frente a uma doença altamente contagiosa como a doença hemorrágica. Mas nesta fase a pessoa já se envolveu com o doente. Por isso o contágio é muito frequente", referiu. Em Cabo Verde, os resultados provisórios das eleições legislativas apontam para uma vitória do PAICV, liderado por Francisco Carvalho. O partido da oposição conta, até ao momento, com 36 deputados eleitos, enquanto o MpD conquistou 32 assentos parlamentares e a UCID dois deputados. Faltam ainda atribuir dois mandatos, decisivos para determinar se o PAICV alcançará uma maioria relativa ou absoluta. Os resultados definitivos deverão ser conhecidos até 25 de Maio. As eleições ficaram igualmente marcadas por uma taxa de abstenção histórica de 53,3%, revelando que mais de metade dos eleitores não participou no acto eleitoral. A investigadora Roselma Évora considera que este elevado nível de abstenção reflecte o descontentamento da população cabo-verdiana em relação à classe política e às actuais lideranças. " Os cabo-verdianos valorizam profundamente a democracia, mas muitos sentem-se frustrados com a forma como ela funciona na prática. Existe a percepção de que o sistema político está demasiado fechado sobre os partidos e que as oportunidades não chegam de forma igual a todos os cidadãos. Apesar de termos uma Constituição moderna, muitas pessoas acreditam que apenas uma pequena elite ligada aos grandes partidos beneficia verdadeiramente do sistema democrático. Os dados mostram isso claramente: apenas 19% dos cabo-verdianos dizem estar satisfeitos com a democracia. E é legítimo perguntar quem são esses 19%. Na minha opinião, trata-se sobretudo das elites partidárias que têm controlado o poder ao longo dos anos. A elevada abstenção é, portanto, um sintoma antigo de descrença e desconfiança. Muitas pessoas deixaram de se rever nos políticos e nas lideranças actuais. Cabo Verde não está isolado desta tendência mundial de crise de liderança e de afastamento entre cidadãos e representantes políticos", sublinhou. Na sequência da derrota eleitoral, a direcção nacional do MpD reúne-se esta sexta-feira para analisar os resultados e preparar a convenção extraordinária destinada à escolha do sucessor de Ulisses Correia e Silva. O antigo primeiro-ministro apresentou a demissão após dez anos à frente do Governo e do partido. Paulo Veiga e Orlando Dias já manifestaram publicamente a intenção de disputar a liderança do Movimento para a Democracia. Em Angola, o Presidente João Lourenço recebeu no Palácio Presidencial o líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior, para discutir a proposta de pacto para a estabilidade nacional. O documento defendia, entre outros pontos, uma revisão constitucional, reformas políticas e uma amnistia para crimes económicos e financeiros. Depois de analisar a proposta, João Lourenço afirmou não haver fundamento para a sua aprovação, argumentando que pactos desta natureza apenas se justificam em contextos de crise política. Em Paris, na véspera das assembleias-gerais da petrolífera Total e dos bancos Crédit Agricole e Société Générale, a ONG francesa CCFD-Terre Solidaire e a organização moçambicana Justiça Ambiental alertaram para os impactos humanitários e ecológicos dos investimentos franceses em Moçambique. Daniel Ribeiro, da Justiça Ambiental, denunciou os efeitos do projecto liderado pela Total, classificando-o como uma “bomba climática” devido às consequências ambientais associadas à exploração de gás. Já em São Tomé e Príncipe, o agravamento da crise energética levou o chefe do Governo a reunir-se com trabalhadores da Empresa de Água e Electricidade (EMAE) para avaliar soluções urgentes. Apesar da aquisição de novos geradores, os problemas de abastecimento persistem. O sindicato dos trabalhadores da empresa aponta decisões políticas inadequadas como uma das principais causas da actual crise energética no país.
Intensificam-se os alertas das organizações da sociedade civil sobre as consequências dos investimentos das empresas francesas em Moçambique, numa altura em que se aproximam as assembleias gerais da TotalEnergies, marcada para a próxima sexta-feira, 29 de Maio, em Paris, e da Société Générale também em agenda, quarta-feira 27 de Maio. A ong moçambicana Justiça Ambiental, em articulação com a francesa CCFD-Terre Solidaire, contestam a retoma do projecto da Total em Moçambique, que descrevem como um “desastre humano e ecológico”, apontando para os casos de violência armada, deslocações massivas e destruição ambiental associados à exploração de gás no norte de Moçambique. Em Paris, em entrevista à RFI, Daniel Ribeiro, coordenador técnico da ong moçambicana Justiça Ambiental, garantiu que a situação em Cabo Delgado “continua perigosa e a insurgência activa”, sublinhando que a narrativa de estabilidade promovida pelas empresas não corresponde à realidade vivida pelas comunidades locais. Segundo o activista, há relatos de pescadores impedidos de aceder ao mar e de camponeses que enfrentam restrições no uso da terra, num contexto em que a militarização do território se intensificou em torno das infra-estruturas do projecto da Total. A contestação não se limita ao plano humanitário. A Justiça Ambiental alerta que a TotalEnergie está a transformar os locais da Mozambique LNG num enclave industrial altamente securizado, isolado das populações locais e protegido por forças militares. Modelo que contribuí para agravar os riscos, ao concentrar a segurança na protecção das infra-estruturas energéticas e não das comunidades. O Mozambique LNG assenta numa das maiores reservas de gás do mundo, estimadas em cerca de cinco biliões de metros cúbicos de gás, prevê até 55 poços de extracção em águas profundas a mais de dois quilómetros de profundidade e um complexo industrial de cerca de 7.000 hectares na costa de Cabo Delgado. O projecto é apresentado pela empresa como um dos maiores projectos energéticos alguma vez realizados em África. As organizações da sociedade civil, no terreno, contestam e sublinham que não se traduz em desenvolvimento local. Daniel Ribeiro fala numa arquitectura económica desigual: “Só temos a extracção e é onde há menos valor”, referindo-se ao facto de Moçambique não controlar as fases de processamento, transporte ou comercialização do gás. Na sua visão, este modelo perpetua uma lógica de exportação de matérias-primas sem industrialização interna, resultando em fraca retenção de riqueza e elevada vulnerabilidade externa. A ong's contrariam a empresa francesa, asseguram que o projecto não trará benefícios para a população moçambicana, na medida em que os benefícios económicos da Mozambique LNG serão essencialmente captados pela Total e pelos seus accionistas, além de que o gás não será consumido localmente, mas vendido em todo mundo. O coordenador técnico da ong moçambicana Justiça Ambiental lembrou, igualmente, os múltiplos escândalos de violações de direitos humanos e acusações de abusos cometidos no contexto da securização da área de Afungi. A organização refere a existência de investigações em curso em França sobre o ataque de Palma e alegações de tortura associadas ao perímetro do projecto, defendendo que estas devem ser esclarecidas antes de qualquer expansão do investimento: “É muito importante essas investigações serem feitas antes de qualquer avanço”. No plano climático, o Mozambique LNG é descrito como uma “bomba climática”, com emissões de grande escala associadas à liquefacção e exportação de gás natural. Para os activistas, trata-se de um projecto incompatível com os compromissos globais de redução de emissões, num país que, apesar de ter uma contribuição marginal para a crise climática, é altamente vulnerável aos seus efeitos. O gás é essencialmente composto de metano, um gás com efeito de estufa 84 vezes mais potente que o CO2 num período de 20 anos. Ao longo de toda a cadeia de fornecimento do gás, desde a extracção até ao consumo, há sempre fugas de metano. No caso de Moçambique, o gás, uma vez extraído dos poços, deve ser liquefeito a baixas temperaturas, armazenado e transportado por barco para ser novamente regaseificado e integrado na rede convencional. Um processo que multiplica as fugas, em cada uma das etapas, além de ser uma processo que prevê um consumo intensivo de energia. A assembleia geral da TotalEnergies está marcada para a próxima sexta-feira, 29 de Maio, em Paris. Uma primeira desde o anúncio de retoma do projecto, 26 de Janeiro de 2026, estratégico para a empresa francesa. O encontro pode servir para reforçar a aliança entre Total e a Société Générale, uma vez que o director geral deste banco francês, Slawomir Krupa, surge ligada a uma possível integração no conselho de administração da petrolífera, reforçando a proximidade de uma “aliança” que as ong's qualificam de “tóxica” que ignora os custos humanos e ambientais no terreno. De acordo com o World Risk Index de 2025, Moçambique é o país africano mais vulnerável às alterações climáticas e encontra-se em sétima posição do ranking mundial.
Combistíveis predominaram na pauta.Esse conteúdo é uma parceria entre RW Cast e RFI.
O colectivo Rua das Pretas apresentou o álbum “Povo Brasileiro”, esta terça-feira, no Studio L'Hermitage, em Paris. “Se eu falo português, minha terra é aqui” canta-se na música “Cartão do Cidadão” e ouviu-se em Paris, no concerto de apresentação deste disco-manifesto. O trabalho é um encontro entre sonoridades e músicos de três continentes, uma viagem entre o Brasil, Cabo Verde e Portugal, que nos mergulha na ancestralidade que nos une, que traz à tona a História da escravatura e do colonialismo e que alerta contra a xenofobia nos tempos que correm. A RFI falou com Pierre Aderne, Ana Margarida Prado e Jenifer Soledad nesta escala musical do grupo em Paris. “Povo Brasileiro” foi concebido pelo músico Pierre Aderne a partir do livro “O Povo Brasileiro”, do antropólogo Darcy Ribeiro. O disco junta músicos do colectivo Rua das Pretas que Pierre Aderne criou há mais de dez anos em Lisboa, sendo o 13° disco de Pierre Aderne e o terceiro do colectivo. Aproveitámos o concerto no L'Hermitage para falar com o cantor, compositor e produtor que nasceu em França, é filho de um casal luso-brasileiro, e vive há vários anos em Portugal. A fadista portuguesa Ana Margarida Prado e a cantora cabo-verdiana Jenifer Soledad também participaram na conversa que culminou com os três a cantarem “Se eu falo português, minha terra é aqui”, um verso da música “Cartão de Cidadão” e a linha de força do disco. “Todo o mundo é emigrante”, lembra Pierre Aderne que descreve o álbum como uma “lavagem espiritual de caravelas” que mergulha na “ancestralidade que nos une” e que traz “a História à tona”. Aqui, nas canções “Mãe Preta” e “Benguela”, por exemplo, recorda-se o tráfico de pessoas escravizadas e a resistência do povo quilombola. Este é também um álbum de festa colectiva e de união, simbolizadas pelo tema “Um Menino chamado Brasil”, em que ouvimos “Se sou de Angola eu sou Brasil, sou Cabo Verde eu sou Brasil, sou Moçambique eu sou Brasil, sou Portugal eu sou Brasil, sou da Guiné eu sou Brasil, sou São Tomé eu sou Brasil”. No fundo, o disco é “um encontro entre três continentes”, resume Ana Margarida Prado, a voz que se destaca no fado “Nossa terra é o mar” e em que se ouve “Portugal tu és feito de Brasil... Portugal tu és feito de Abril”. “Se eu falo português, minha terra é aqui” RFI: Como descrevem o disco “Povo Brasileiro”? Pierre Aderne, Músico: “No ‘Povo Brasileiro' a gente tenta contar, de forma litero-musical, a história da nossa criação enquanto povo, da chegada dos portugueses no Brasil, dos africanos cem anos mais tarde, dessa multiculturalidade que nos formou, dessa língua portuguesa que navegou por caravelas e foi-se misturando também com iorubá, com as linguagens bantu, kikongo, kimbundo, tupi-guarani. O álbum conta um pouco disso com essas canções, quer dizer, mostrando um pouco essa narrativa do que Darcy Ribeiro nos ensinou a partir do livro dele ‘O Povo Brasileiro'”. Quem foi Darcy Ribeiro e como é que ele se lê nas entrelinhas ou directamente no disco? “O Darcy Ribeiro foi um dos maiores educadores e antropólogos brasileiros contemporâneos, fundador da Universidade de Brasília, do sistema de ensino público mais estrutural que era um CIEPs [Centros Integrados de Educação Pública]. Darcy Ribeiro escreveu na casa de Maricá, no Rio de Janeiro, onde a gente gravou o álbum o livro ‘O Povo Brasileiro', que é mais ou menos aquilo que eu falei no início e que conta um pouquinho essa história. Eu comecei a compor as músicas há cinco anos, num momento difícil que o mundo vive da intolerância, do discurso de ódio, principalmente em Portugal, um país tão bonito e tão pequenino e que acabou também sendo vítima desse tipo de comportamento por parte dos políticos e depois pela população. Eu comecei a compor algumas canções e a primeira delas foi ‘Cartão de Cidadão', uma canção-manifesto, uma canção de intervenção, minha e do Moacyr Luz. Quando recebemos o convite da Prefeitura de Maricá para gravar o álbum, eu descobri que, na verdade, mesmo sem saber, a gente já estava fazendo uma banda sonora para o livro ‘O Povo Brasileiro' do Darcy. E dessa vez, regressando ao Brasil, nessa caravela com músicos de três continentes, o que seria isso, essa lavagem espiritual das caravelas? Olha como a gente é bonita misturada.” Quem são esses músicos a bordo da caravela? Temos aqui duas... “Bom, temos aqui a fantástica, fundamental, incontornável fadista portuguesa Ana Margarida Prado, uma fadista intelectual. O campo intelectual de Portugal, se tiver que escolher, vai escolher a Aldina Duarte e a Ana Margarida Prado. A gente colabora há muito tempo. Ela participou na génese da ‘Rua das Pretas' há mais de dez anos. Sempre flirtava, chegava no final dos concertos e eu convidei-a para se juntar a esta caravela. Aqui está também a incrível cantora cabo-verdiana Jenifer Soledad, uma das vozes mais bonitas da música de Cabo Verde contemporânea e que eu tinha muita vontade de estar com com a Jenifer e de a trazer para este bando, junto com Nilson Dourado, que está hoje com a gente, Felipe Bastos, Rúben da Luz e Letícia Malvares. A Jenifer Soledad está fazendo hoje o que a Zulu, que é uma outra jovem cantora de Cabo Verde, também muito talentosa, fez no álbum.” Jenifer, o que é que o álbum tem de Cabo Verde? Jenifer Soledad, Cantora: “Quando se fala do povo brasileiro, automaticamente eu me reconheço ali porque os ritmos e a história também é um pouco da nossa história, nós fomos carregados nos navios. Acho que a mistura bonita deste trabalho vem de se reconhecer dentro deste álbum porque eu sinto o chorinho, eu sinto o samba que também em Cabo Verde existe, mas chamado de outra forma, como a coladeira que tem misturas com o samba, e tem alguns solos de instrumentos que me leva a Cabo Verde. E é muita saudade, como sempre, o povo cabo-verdiano é muita saudade. Culturalmente, sinto-me dentro deste álbum, faço - falando pelo meu povo fazemos - parte das mensagens que estão ali dentro.” Ana Margarida, em relação ao fado em que canta “Portugal tu és feito de Brasil ... Portugal, tu és feito de Abril”. Este fado é um cravo na lapela que soa a Brasil... Ana Margarida Prado, Fadista: “A primeira coisa que eu sinto que levo é a língua, a língua portuguesa que nós levámos para o Brasil. Eu como fadista e alem de fadista, sempre gostei muito destes encontros e é uma felicidade poder trazer o fado também para este encontro entre estes três continentes. A mensagem que eu acho importante está num tema que nós cantamos que é uma versão de um tema muito conhecido aqui em França, ‘Barco Negro', mas cantamos a versão original, a ‘Mãe Preta'. Para mim, foi muito importante dar voz a este lamento, a este grito, a esta lavagem das caravelas, como o Pierre fala, falar em temas como a escravatura e é bom ser uma portuguesa a dar voz a estes temas.” Pierre Aderne: “É um fado composto originalmente por dois brasileiros, Caco Velho e Piratini, e ganhou na ditadura [Estado Novo] uma nova letra porque foi censurada. A nova letra é belíssima também, de David Mourão-Ferreira, 'Barco Negro'. Quando alguém canta o 'Barco Negro' numa casa de fado de Alfama, Mouraria, passando pela Madragoa, também tem esse lamento. Quer dizer, como é que eu vou falar de uma coisa tão delicada e horrorosa e dolorida, não é? E ele achou as metáforas dele na letra do Barco Negro, que é extremamente bonita também. A versão original foi primeiro gravada por Maria da Conceição. Depois, Amália tornou esse fado realmente muito conhecido. Poucos brasileiros sabem que esse fado é um fado composto por brasileiros, assim como Amália também gravou ‘Lua Luar', que é um lamento sertanejo, assim como ela voltou do Rio de Janeiro e trouxe “Xu Xu”. Então, aquilo que a gente estava falando e respondendo à tua primeira pergunta, eu acho que esse álbum, de alguma forma, volta a colocar a bandeira atrás da língua. Quando a gente escuta uma música na rádio, a gente escuta primeiro a língua e depois a gente vai atrás da bandeira. Só que na música de língua portuguesa, acho que passamos demasiado tempo colocando a bandeira à frente da língua. Quer dizer, onde é que está esse limite? Onde é que somos limítrofes nessa relação de integração e interação? O que é meu? O que é teu? O que é cabo-verdiano, português e brasileiro? Na verdade, nós temos as patentes de tudo que a gente construiu.” Não há o risco de se despertarem velhos fantasmas do lusotropicalismo? De que forma é que este disco e as canções que vocês escolheram e criaram fazem uma certa reconciliação histórica perante aquilo que o opressor português fez durante séculos? “Eu não sei. Por exemplo, A gente teve a capa do Globo, teve também muitas críticas boas aqui na França em uma semana, com o próprio Le Monde, e curiosamente, em Portugal, em que a gente sempre teve uma visibilidade muito grande pelos programas na RTP, pelos coliseus, a gente teve apenas uma matéria em Portugal, apenas um jornalista resolveu falar desse tema, que foi o Nuno Pacheco, do Público.” O Público escreveu, em 2024, que o Pierre Aderne mudou a cena cultural de Lisboa com o projecto Rua das Pretas... “Agradeço. Mas, enfim, eu acho que realmente em Portugal, talvez este álbum não concilie neste momento, talvez seja uma pedra no sapato de muita gente, não é?” Mas o objectivo é conciliar? “Não. O objectivo é trazer a história à tona. Cada um vai procurar a sua forma de se conciliar com isso. Acho que a primeira forma, se eu fosse parte de algum partido de oposição em Portugal, era criar um museu do colonialismo, da escravatura. Ferreira Gullar dizia que a arte existe porque a vida por si só não basta. Então, todos os assuntos que são polémicos - eu já passei por isso tantas vezes nos últimos cinco anos em Portugal - eles não se resolvem nunca na prosa, mas eles se resolvem na poesia. Eu acho que é uma forma de a gente entregar para as pessoas um conteúdo que pode ser inconveniente para algumas pessoas, mas que certamente com essa multiculturalidade e essas melodias talvez faça com que as pessoas amaciem um pouco. Até porque quem deu escala para a língua portuguesa foi África, foi o Brasil. Eu compus a primeira música que deu nome ao primeiro álbum de António Zambujo lançado no Brasil e eu mostrei para um director de gravadora no Brasil da Sony Music e ele era português e falou para mim: ‘Ah, já sei, aquele fadista que não canta fado, não é?' Porquê? Porque era novo, porque se estava aproximando do Brasil, da sonoridade. E hoje a gente vê como é que esses artistas portugueses ganham escala. A Carminho canta Tom Jobim, o Zambujo canta Chico Buarque. Ou seja, é se apropriar do que é nosso, é a nossa ancestralidade que nos une.” Em “Um menino chamado Brasil” ouvimos: “Se sou de Angola, eu sou Brasil. Sou Cabo Verde, eu sou Brasil. Sou Moçambique, eu sou Brasil. Sou Portugal, eu sou Brasil. Sou da Guiné, eu sou Brasil. Sou São Tomé, eu sou Brasil” - É um manifesto de união, daí a minha pergunta de há pouco sobre se é uma tentativa de reconciliação e até de perdoar tudo aquilo que os portugueses fizeram... “Não. Eu acho que não tem perdão até porque não foi o povo português pobre como a minha família de Ourém que colonizou os seus ancestrais. Quem colonizou foram as oligarquias, as grandes famílias que estão também no Rio de Janeiro, na Bahia e em São Paulo. Quando uma babá preta empurra um carrinho de bebé de um branco, que trabalha sete dias por sete, quer dizer, eu acho que é transversal esse comportamento dessas oligarquias até hoje. Mas vale lembrar também que o grito de independência do Brasil foi dado por um português em 1822, ou seja, foi uma briga de família e Dom Pedro: 'independência ou morte'. Eu acho que não é isso. Você falou desse fado que é um fado na lapela, esse tema meu e do Moacyr Luz, ‘Nossa terra é o mar'. A primeira frase não é minha, é de um compositor do Império Serrano maravilhoso e ele mandou-me uma frase: ‘Em Portugal não fui jamais, embora de lá tenha vindo.' E eu emendei: ‘Graças aos meus ancestrais que mostraram a língua quando eu estava parindo'. É importante para nós, africanos, brasileiros e quem fez o teste de genoma como eu - que sou Magrebe também, 10 por cento africano do Norte - é importante que a gente saiba o que aconteceu. Cabo Verde não era sequer habitado e o crioulo nasceu pela imposição da língua portuguesa. É o seguinte: não busca reconciliar. Não é fácil essa história, mas é interessante a gente assimilar. Como os alemães fizeram com o Holocausto e eles morrem de vergonha do Holocausto. Você vai no Japão - eu tenho nove álbuns lançados no Japão - e eu vou lá e tem o Museu de Hiroshima e Nagasaki. Eles fazem também o mea culpa de algumas coisas. Ou seja, é importante a gente saber quando a gente errou.” Este álbum acaba por ser o “Cartão do Cidadão” dessa multiculturalidade tricontinental, entre aspas? “Vou ser sintético: ‘Vou falar mais uma vez: se eu falo português, minha terra é aqui.” Ana Margarida Prado: “Eu acho que também se celebra o encontro de tudo aquilo que se criou. Vamos passar uma mensagem do bom que nós juntos criámos.” Pierre Aderne: “O Atlântico é o Atlântico. Ele uniu e esmagou, mas é tão interessante sermos atlânticos. A gente vê o que acontece também nos Estados Unidos: os povos originários são realmente os grandes povos. Todo o mundo é emigrante.”
O colectivo Rua das Pretas apresentou o álbum “Povo Brasileiro”, esta terça-feira, no Studio L'Hermitage, em Paris. “Se eu falo português, minha terra é aqui” canta-se na música “Cartão do Cidadão” e ouviu-se em Paris, no concerto de apresentação deste disco-manifesto. O trabalho é um encontro entre sonoridades e músicos de três continentes, uma viagem entre o Brasil, Cabo Verde e Portugal, que nos mergulha na ancestralidade que nos une, que traz à tona a História da escravatura e do colonialismo e que alerta contra a xenofobia nos tempos que correm. A RFI falou com Pierre Aderne, Ana Margarida Prado e Jenifer Soledad nesta escala musical do grupo em Paris. “Povo Brasileiro” foi concebido pelo músico Pierre Aderne a partir do livro “O Povo Brasileiro”, do antropólogo Darcy Ribeiro. O disco junta músicos do colectivo Rua das Pretas que Pierre Aderne criou há mais de dez anos em Lisboa, sendo o 13° disco de Pierre Aderne e o terceiro do colectivo. Aproveitámos o concerto no L'Hermitage para falar com o cantor, compositor e produtor que nasceu em França, é filho de um casal luso-brasileiro, e vive há vários anos em Portugal. A fadista portuguesa Ana Margarida Prado e a cantora cabo-verdiana Jenifer Soledad também participaram na conversa que culminou com os três a cantarem “Se eu falo português, minha terra é aqui”, um verso da música “Cartão de Cidadão” e a linha de força do disco. “Todo o mundo é emigrante”, lembra Pierre Aderne que descreve o álbum como uma “lavagem espiritual de caravelas” que mergulha na “ancestralidade que nos une” e que traz “a História à tona”. Aqui, nas canções “Mãe Preta” e “Benguela”, por exemplo, recorda-se o tráfico de pessoas escravizadas e a resistência do povo quilombola. Este é também um álbum de festa colectiva e de união, simbolizadas pelo tema “Um Menino chamado Brasil”, em que ouvimos “Se sou de Angola eu sou Brasil, sou Cabo Verde eu sou Brasil, sou Moçambique eu sou Brasil, sou Portugal eu sou Brasil, sou da Guiné eu sou Brasil, sou São Tomé eu sou Brasil”. No fundo, o disco é “um encontro entre três continentes”, resume Ana Margarida Prado, a voz que se destaca no fado “Nossa terra é o mar” e em que se ouve “Portugal tu és feito de Brasil... Portugal tu és feito de Abril”. “Se eu falo português, minha terra é aqui” RFI: Como descrevem o disco “Povo Brasileiro”? Pierre Aderne, Músico: “No ‘Povo Brasileiro' a gente tenta contar, de forma litero-musical, a história da nossa criação enquanto povo, da chegada dos portugueses no Brasil, dos africanos cem anos mais tarde, dessa multiculturalidade que nos formou, dessa língua portuguesa que navegou por caravelas e foi-se misturando também com iorubá, com as linguagens bantu, kikongo, kimbundo, tupi-guarani. O álbum conta um pouco disso com essas canções, quer dizer, mostrando um pouco essa narrativa do que Darcy Ribeiro nos ensinou a partir do livro dele ‘O Povo Brasileiro'”. Quem foi Darcy Ribeiro e como é que ele se lê nas entrelinhas ou directamente no disco? “O Darcy Ribeiro foi um dos maiores educadores e antropólogos brasileiros contemporâneos, fundador da Universidade de Brasília, do sistema de ensino público mais estrutural que era um CIEPs [Centros Integrados de Educação Pública]. Darcy Ribeiro escreveu na casa de Maricá, no Rio de Janeiro, onde a gente gravou o álbum o livro ‘O Povo Brasileiro', que é mais ou menos aquilo que eu falei no início e que conta um pouquinho essa história. Eu comecei a compor as músicas há cinco anos, num momento difícil que o mundo vive da intolerância, do discurso de ódio, principalmente em Portugal, um país tão bonito e tão pequenino e que acabou também sendo vítima desse tipo de comportamento por parte dos políticos e depois pela população. Eu comecei a compor algumas canções e a primeira delas foi ‘Cartão de Cidadão', uma canção-manifesto, uma canção de intervenção, minha e do Moacyr Luz. Quando recebemos o convite da Prefeitura de Maricá para gravar o álbum, eu descobri que, na verdade, mesmo sem saber, a gente já estava fazendo uma banda sonora para o livro ‘O Povo Brasileiro' do Darcy. E dessa vez, regressando ao Brasil, nessa caravela com músicos de três continentes, o que seria isso, essa lavagem espiritual das caravelas? Olha como a gente é bonita misturada.” Quem são esses músicos a bordo da caravela? Temos aqui duas... “Bom, temos aqui a fantástica, fundamental, incontornável fadista portuguesa Ana Margarida Prado, uma fadista intelectual. O campo intelectual de Portugal, se tiver que escolher, vai escolher a Aldina Duarte e a Ana Margarida Prado. A gente colabora há muito tempo. Ela participou na génese da ‘Rua das Pretas' há mais de dez anos. Sempre flirtava, chegava no final dos concertos e eu convidei-a para se juntar a esta caravela. Aqui está também a incrível cantora cabo-verdiana Jenifer Soledad, uma das vozes mais bonitas da música de Cabo Verde contemporânea e que eu tinha muita vontade de estar com com a Jenifer e de a trazer para este bando, junto com Nilson Dourado, que está hoje com a gente, Felipe Bastos, Rúben da Luz e Letícia Malvares. A Jenifer Soledad está fazendo hoje o que a Zulu, que é uma outra jovem cantora de Cabo Verde, também muito talentosa, fez no álbum.” Jenifer, o que é que o álbum tem de Cabo Verde? Jenifer Soledad, Cantora: “Quando se fala do povo brasileiro, automaticamente eu me reconheço ali porque os ritmos e a história também é um pouco da nossa história, nós fomos carregados nos navios. Acho que a mistura bonita deste trabalho vem de se reconhecer dentro deste álbum porque eu sinto o chorinho, eu sinto o samba que também em Cabo Verde existe, mas chamado de outra forma, como a coladeira que tem misturas com o samba, e tem alguns solos de instrumentos que me leva a Cabo Verde. E é muita saudade, como sempre, o povo cabo-verdiano é muita saudade. Culturalmente, sinto-me dentro deste álbum, faço - falando pelo meu povo fazemos - parte das mensagens que estão ali dentro.” Ana Margarida, em relação ao fado em que canta “Portugal tu és feito de Brasil ... Portugal, tu és feito de Abril”. Este fado é um cravo na lapela que soa a Brasil... Ana Margarida Prado, Fadista: “A primeira coisa que eu sinto que levo é a língua, a língua portuguesa que nós levámos para o Brasil. Eu como fadista e alem de fadista, sempre gostei muito destes encontros e é uma felicidade poder trazer o fado também para este encontro entre estes três continentes. A mensagem que eu acho importante está num tema que nós cantamos que é uma versão de um tema muito conhecido aqui em França, ‘Barco Negro', mas cantamos a versão original, a ‘Mãe Preta'. Para mim, foi muito importante dar voz a este lamento, a este grito, a esta lavagem das caravelas, como o Pierre fala, falar em temas como a escravatura e é bom ser uma portuguesa a dar voz a estes temas.” Pierre Aderne: “É um fado composto originalmente por dois brasileiros, Caco Velho e Piratini, e ganhou na ditadura [Estado Novo] uma nova letra porque foi censurada. A nova letra é belíssima também, de David Mourão-Ferreira, 'Barco Negro'. Quando alguém canta o 'Barco Negro' numa casa de fado de Alfama, Mouraria, passando pela Madragoa, também tem esse lamento. Quer dizer, como é que eu vou falar de uma coisa tão delicada e horrorosa e dolorida, não é? E ele achou as metáforas dele na letra do Barco Negro, que é extremamente bonita também. A versão original foi primeiro gravada por Maria da Conceição. Depois, Amália tornou esse fado realmente muito conhecido. Poucos brasileiros sabem que esse fado é um fado composto por brasileiros, assim como Amália também gravou ‘Lua Luar', que é um lamento sertanejo, assim como ela voltou do Rio de Janeiro e trouxe “Xu Xu”. Então, aquilo que a gente estava falando e respondendo à tua primeira pergunta, eu acho que esse álbum, de alguma forma, volta a colocar a bandeira atrás da língua. Quando a gente escuta uma música na rádio, a gente escuta primeiro a língua e depois a gente vai atrás da bandeira. Só que na música de língua portuguesa, acho que passamos demasiado tempo colocando a bandeira à frente da língua. Quer dizer, onde é que está esse limite? Onde é que somos limítrofes nessa relação de integração e interação? O que é meu? O que é teu? O que é cabo-verdiano, português e brasileiro? Na verdade, nós temos as patentes de tudo que a gente construiu.” Não há o risco de se despertarem velhos fantasmas do lusotropicalismo? De que forma é que este disco e as canções que vocês escolheram e criaram fazem uma certa reconciliação histórica perante aquilo que o opressor português fez durante séculos? “Eu não sei. Por exemplo, A gente teve a capa do Globo, teve também muitas críticas boas aqui na França em uma semana, com o próprio Le Monde, e curiosamente, em Portugal, em que a gente sempre teve uma visibilidade muito grande pelos programas na RTP, pelos coliseus, a gente teve apenas uma matéria em Portugal, apenas um jornalista resolveu falar desse tema, que foi o Nuno Pacheco, do Público.” O Público escreveu, em 2024, que o Pierre Aderne mudou a cena cultural de Lisboa com o projecto Rua das Pretas... “Agradeço. Mas, enfim, eu acho que realmente em Portugal, talvez este álbum não concilie neste momento, talvez seja uma pedra no sapato de muita gente, não é?” Mas o objectivo é conciliar? “Não. O objectivo é trazer a história à tona. Cada um vai procurar a sua forma de se conciliar com isso. Acho que a primeira forma, se eu fosse parte de algum partido de oposição em Portugal, era criar um museu do colonialismo, da escravatura. Ferreira Gullar dizia que a arte existe porque a vida por si só não basta. Então, todos os assuntos que são polémicos - eu já passei por isso tantas vezes nos últimos cinco anos em Portugal - eles não se resolvem nunca na prosa, mas eles se resolvem na poesia. Eu acho que é uma forma de a gente entregar para as pessoas um conteúdo que pode ser inconveniente para algumas pessoas, mas que certamente com essa multiculturalidade e essas melodias talvez faça com que as pessoas amaciem um pouco. Até porque quem deu escala para a língua portuguesa foi África, foi o Brasil. Eu compus a primeira música que deu nome ao primeiro álbum de António Zambujo lançado no Brasil e eu mostrei para um director de gravadora no Brasil da Sony Music e ele era português e falou para mim: ‘Ah, já sei, aquele fadista que não canta fado, não é?' Porquê? Porque era novo, porque se estava aproximando do Brasil, da sonoridade. E hoje a gente vê como é que esses artistas portugueses ganham escala. A Carminho canta Tom Jobim, o Zambujo canta Chico Buarque. Ou seja, é se apropriar do que é nosso, é a nossa ancestralidade que nos une.” Em “Um menino chamado Brasil” ouvimos: “Se sou de Angola, eu sou Brasil. Sou Cabo Verde, eu sou Brasil. Sou Moçambique, eu sou Brasil. Sou Portugal, eu sou Brasil. Sou da Guiné, eu sou Brasil. Sou São Tomé, eu sou Brasil” - É um manifesto de união, daí a minha pergunta de há pouco sobre se é uma tentativa de reconciliação e até de perdoar tudo aquilo que os portugueses fizeram... “Não. Eu acho que não tem perdão até porque não foi o povo português pobre como a minha família de Ourém que colonizou os seus ancestrais. Quem colonizou foram as oligarquias, as grandes famílias que estão também no Rio de Janeiro, na Bahia e em São Paulo. Quando uma babá preta empurra um carrinho de bebé de um branco, que trabalha sete dias por sete, quer dizer, eu acho que é transversal esse comportamento dessas oligarquias até hoje. Mas vale lembrar também que o grito de independência do Brasil foi dado por um português em 1822, ou seja, foi uma briga de família e Dom Pedro: 'independência ou morte'. Eu acho que não é isso. Você falou desse fado que é um fado na lapela, esse tema meu e do Moacyr Luz, ‘Nossa terra é o mar'. A primeira frase não é minha, é de um compositor do Império Serrano maravilhoso e ele mandou-me uma frase: ‘Em Portugal não fui jamais, embora de lá tenha vindo.' E eu emendei: ‘Graças aos meus ancestrais que mostraram a língua quando eu estava parindo'. É importante para nós, africanos, brasileiros e quem fez o teste de genoma como eu - que sou Magrebe também, 10 por cento africano do Norte - é importante que a gente saiba o que aconteceu. Cabo Verde não era sequer habitado e o crioulo nasceu pela imposição da língua portuguesa. É o seguinte: não busca reconciliar. Não é fácil essa história, mas é interessante a gente assimilar. Como os alemães fizeram com o Holocausto e eles morrem de vergonha do Holocausto. Você vai no Japão - eu tenho nove álbuns lançados no Japão - e eu vou lá e tem o Museu de Hiroshima e Nagasaki. Eles fazem também o mea culpa de algumas coisas. Ou seja, é importante a gente saber quando a gente errou.” Este álbum acaba por ser o “Cartão do Cidadão” dessa multiculturalidade tricontinental, entre aspas? “Vou ser sintético: ‘Vou falar mais uma vez: se eu falo português, minha terra é aqui.” Ana Margarida Prado: “Eu acho que também se celebra o encontro de tudo aquilo que se criou. Vamos passar uma mensagem do bom que nós juntos criámos.” Pierre Aderne: “O Atlântico é o Atlântico. Ele uniu e esmagou, mas é tão interessante sermos atlânticos. A gente vê o que acontece também nos Estados Unidos: os povos originários são realmente os grandes povos. Todo o mundo é emigrante.”
O Dia Mundial da Língua Portuguesa foi celebrado em Paris pela Livraria Portuguesa e Brasileira, dedicada a livros e autores lusófonos. O dia foi assinalado com uma série de eventos desde leituras de poesia até espectáculos de rua, com a livraria a apostar agora em reunir todos os amantes da lusofonia em Paris. O Dia Mundial da Língua Portuguesa foi assinalado em Paris na terça-feira, dia de 5 de Maio, pela Livraria Portuguesa e Brasileira com espéctaculos de rua, conversas e poemas, num esforço para promover a língua e também atrair novos falantes para o Mundo lusófono. A livreira Corinne Saulneron, que dirige esta livraria, explicou à RFI a importância de assinalar este dia. "Porquê estudar português? Eu fi-lo porque namorei com um português. Então eu tive interesse em conhecer a sua cultura e acabei por entrar num outro mundo e acho que é uma riqueza. Quanto mais línguas as pessoas souberem, mais Mundo conhecem. E o português traz isso. Traz histórias histórias, histórias africanas, histórias brasileiras. E é isso que nós temos de fazer. Temos de colocar a língua em cima da mesa. A língua portuguesa tem de atrair as pessoas porque esta livraria tem 40 anos de existência o que quer dizer que as pessoas têm vontade de aprender o português e vontade de aprender sobre a cultura portuguesa. Tem de se voltar às raízes portuguesas. E então temos também nós, actores desta língua, de fazer que esta língua ressoe", explicou Corinne Saulneron. Para trazer a lusofonia até à Praça de l'Estrapade, no coração do quinto bairro da capital francesa, a Livraria Portuguesa e Brasileira contou com a de associações, como o grupo teatral brasileiro Quarto Além, a associação Herança Brasileira que divulga o português junto dos mais jovens, mas também autores, editores e outros actores da língua de Camões e de Machado de Assis em França. Uma das atracções do dia foi Camila Shwafaty, encarnando a palhaça June Piruá Abramovich, que chegou há cerca de dois anos a Paris e que alterna entre o francês e o português nos seus espéctaculos de rua, o que lhe mostra a diversidade e amplitude do domínio de diferentes línguas. "Dá para brincar muito, porque são culturas similares, mas ao mesmo tempo têm grandes diferenças. E também porque quando a gente fala mais de uma língua, o cérebro - quando você tá falando português, francês, aí vem uma pessoa que fala inglês porque Paris é muito turístico, então a coisa fica tipo você tenta falar uma língua e vai outra - dá um nó. Mas isso é óptimo para o jogo de palhaço, então funciona super bem. Tem os desafios, mas também é um desafio que para o palhaço serve muito bem, porque os palhaços trabalham com o erro, com com o perigo de errar, com essas coisas. A minha cultura está no meu corpo, as músicas. Então, assim, por mais que eu faça um espectáculo em francês, uma intervenção em francês, vai ter coisas que vão ser em português", explicou Camila Shwafaty. A Livraria Portuguesa e Brasileira tem apostado nos últimos meses numa maior presença nas redes sociais e também num programa de eventos intenso, continuando a renovar-se. Corinne Saulneron quer agora criar uma rede de falantes de português em França de forma a mapear e divulgar da melhor forma a língua portuguesa. "A nossa chegada ao Instagram foi um pedido dos nossos clientes brasileiros. Os brasileiros estavam sempre a dizer-me, mas não, não está no Instagram, não pode ser. Eu tenho muita ajuda de pessoas brasileiras com as redes sociais. Estão a fazer isso gratuitamente. Estão a fazer isso porque elas também acham que a livraria é um lugar que não só é um lugar de venda, é um lugar onde as pessoas se encontram, podem fazer coisas, juntar-se e o tempo agora é de nos juntarmos. E eu tenho também esta ideia de fazer um salão de livrarias estrangeiras em Paris. Há 38 livrarias estrangeiras com a Rachel, a minha estagiária. Já pedimos a opinião das livrarias estrangeiras, da livraria italiana, polaca e todos estão a dizer: claro que sim. Temos de fazer isso. É uma boa ideia. Então vamos fazer isso também", concluiu Corinne.
Neste programa, fomos até a um atelier em Belleville, em Paris, para conhecermos Rita RA, uma artista multidisciplinar, de 34 anos, que se define como “caçadora recolectora” de materiais e de momentos. Entre instalação, vídeo, arte digital, design, fotografia, pintura, colagem e tanto mais, Rita RA vive a arte como uma forma de aproximar as pessoas e isso reflecte-se nos seus workshops, exposições e projectos associativos. Rita Rebelo de Andrade, nome artístico Rita RA, chegou a Paris em 2023 e vive e trabalha entre a capital francesa e a portuguesa. A aventura Paris-Lisboa começou com um estágio em Paris com a artista portuguesa Carolina E. Santo e com a sua associação, a "Assembler du Dehors", agora instalada num acolhedor atelier no bairro de Belleville. Depois do estágio, a artista continuou a trabalhar com Carolina E. Santo e alguns dos seus trabalhos poderão ser vistos entre 28 e 31 de Maio neste atelier, no âmbito das chamadas “portas abertas dos artistas de Belleville”. Rita RA formou-se em Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, fez Erasmus em Arte Multimédia em Ljubljana, na Eslovénia, e um mestrado em Artes Cénicas na Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou na produção de eventos da Galeria Underdogs (fundada por um dos mais internacionais artistas portugueses contemporâneos, Alexandre Farto, aka Vhils) e na produção artística do Festival Iminente, em Lisboa, que junta música, artes visuais e cultura urbana. Também ajudou a desenvolver o Centro Cultural Brotéria e está a co-criar o projecto associativo Casa Redonda, igualmente em Lisboa (que vai ser oficialmente lançado a 21 de Maio). Para ela, a arte é uma forma de se estar na vida e reflecte-se em projectos criativos colaborativos com outros artistas e com o próprio público. Rita diz que quer "aproximar pessoas, gerar pensamento crítico e desenvolver pontes" e é isso que tem feito e promete continuar a fazer. Uma das peças que ela mais acarinha chama-se “Comunhão” e é uma obra impressa em papel hóstia e destinada a ser comida pelos visitantes. No dia da entrevista à RFI, em cima da mesa de trabalho do atelier de Belleville, estavam livros, postais e uma resma enigmática de papéis de tom pastel que têm muitas histórias para contar. Quisemos conhecer algumas dessas histórias, das criações em curso, dos projectos e ambições e foi por essas andanças que a conversa divagou. Para ouvir neste programa.
Ela foi uma criança cheia de energia. Incentivada pelos pais, passava o tempo nadando, pedalando pelas ruas do bairro ou aproveitando os fins de semana na praia. A natação veio primeiro. Ainda adolescente, treinava com a equipe do Ademir Paulino, convivendo com atletas do triathlon e competindo em provas de águas abertas. Aos 15 anos, recebeu um convite para integrar a equipe do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa. Mudou de escola para conseguir treinar e mergulhou por dois anos em uma rotina intensa na piscina. Evoluiu, mas não se identificou com o ambiente competitivo. Ao terminar o ensino médio, decidiu encerrar esse ciclo e focar nos estudos. Ingressou na engenharia química pela USP de Lorena, onde encontrou um novo cenário para o esporte. Cercada por montanhas e estradas tranquilas, passou a viver uma rotina intensa ao ar livre, pedalando, explorando trilhas e descobrindo o mountain bike. Frequentou as montanhas da Serra da Mantiqueira, subiu o Pico dos Marins, percorreu a Serra Fina e, em 2018, começou a competir nas provas de triathlon e mountain bike do XTerra, além de provas como o Big Biker, o GP Ravelli, entre outras. Em 2019, voltou para São Paulo para estagiar e concluir a faculdade. Foi um período exigente, com o esporte mais irregular. Durante a pandemia, finalizou a graduação e foi efetivada no trabalho. Entre 2020 e 2022, conciliou a carreira com os treinos. Venceu duas etapas do XTerra e disputou o mundial de XTerra, na Itália. A experiência despertou a vontade de novos desafios e, no início de 2023, fez seu primeiro Ironman 70.3. A prova mudou o rumo da sua trajetória. Procurou um treinador, evoluiu rapidamente e ganhou confiança para seguir no esporte com mais foco. Em 2024, veio um convite especial: ser guia da paratriatleta Letícia Freitas na caminhada até os Jogos Paralímpicos de Paris. Mesmo trabalhando em tempo integral, montaram um plano e conquistaram a vaga na última seletiva, em Montreal. Em Paris, viveram uma experiência marcante, dividindo treinos e a responsabilidade de competir juntas. Poucas semanas depois, ela voltou a competir e terminou o Ironman 70.3 São Paulo como segunda colocada geral entre as amadoras. Em 2025, os resultados se consolidaram. Venceu uma etapa do Troféu Brasil e foi, mais uma vez, segunda colocada, desta vez no Ironman 70.3 do Rio de Janeiro. Passou a considerar a transição para o profissional. Ao mesmo tempo, enfrentava a dificuldade de conciliar o alto rendimento com a rotina exigente da engenharia. Com o apoio do marido, decidiu mudar de direção: deixou o trabalho corporativo, passou a atuar com esporte, iniciou a faculdade de educação física e abriu espaço para buscar um novo nível no triathlon. No fim do ano, foi ao Mundial de Ironman 70.3 e terminou como a melhor brasileira. Conosco aqui, a engenheira química, estudante de educação física e triatleta profissional, amante da natureza e dos esportes ao ar livre, a brasileira mais bem colocada no Mundial de Ironman 70.3 do ano passado, terceira colocada no Ironman 70.3 Curitiba, em sua estreia como profissional na temporada 2026, a paulistana Giovanna Alves Opipari. Inspire-se! Race Smart - check your heart Um oferecimento @2peaksbikes A 2 Peaks Bikes é a importadora e distribuidora oficial no Brasil da Factor Bikes, Santa Cruz Bikes e de diversas outras marcas e conta com três lojas: Rio de Janeiro, São Paulo e Los Angeles. Lá, ninguém vende o que não conhece: todo produto é testado por quem realmente pedala. A 2 Peaks Bikes foi pensada e criada para resolver os desafios de quem leva o pedal a sério — seja no asfalto, na terra ou na trilha. Mas também acolhe o ciclista urbano, o iniciante e até a criança que está começando a brincar de pedalar. Para a 2 Peaks, todo ciclista é bem-vindo. Conheça a 2 Peaks Bikes, distribuidora oficial da Factor, da Santa Cruz e da Yeti no Brasil. @2peaksbikesla SIGA e COMPARTILHE o Endörfina no Youtube ou através do seu app preferido de podcasts. Contribua também com este projeto através do Apoia.se.
Em Paris, um casal de artistas transformou o seu apartamento-atelier num espaço alternativo e intimista onde se cruzam diferentes artes uma vez por mês. O projecto chama-se “salon/ensaio”, começou há dois anos e nasceu da vontade de se reinventar os "salons" franceses dos séculos XVIII e XIX. Neste programa fomos até ao 14° “salon/ensaio” de Ângelo Ferreira de Sousa e Olivia Gutherz. Um refinado instrumento de música barroca, a viola da gamba, a acompanhar mornas cabo-verdianas foi uma das mais recentes criações nascidas e apresentadas no “salon/ensaio”. O “salon” é um “ensaio” artístico imaginado por Ângelo Ferreira de Sousa e Olivia Gutherz e que começou há dois anos no apartamento-atelier-estúdio do casal. Inspirados nos “Salons” franceses dos séculos XVIII e XIX, Ângelo e Olivia abriram as portas de casa para deixar entrar a arte sem o peso das convenções. Neste espaço intimista é assim alcançada uma proximidade entre os artistas e o público que esboça algo que Ângelo Ferreira de Sousa descreve como “revolucionário”. “Salon é esta tradição francesa dos séculos XVIII e XIX de reunir artistas, escritores, intelectuais na sala de estar de alguém. É o que nós fazemos aqui visto que isto é o nosso ‘atelier-logement', quer dizer que é um atelier atribuído pela Câmara de Paris a músicos e aproveitámos esta oportunidade que nos deu a Câmara para organizar o salon. O salon é um evento artístico que se organiza uma vez por mês, que reúne, pelo menos, dois artistas: pode ser um músico e um escritor, pode ser um performer vindo das artes visuais e um músico... Já houve um pouco de tudo ao longo destas 14 edições. A ideia é produzir e consumir esses produtos com muita proximidade, sem uma grande moldura pesada que afasta o público e o artista. Achamos que essa proximidade pode fazer toda a diferença e pode ser até revolucionária”, descreve o anfitrião do "salon/ensaio". Cada “salon/ensaio” é um exemplar único e conjuga, por exemplo, música com artes visuais, literatura, performance ou outra proposta. Ângelo é artista plástico, performer e tradutor literário. Olivia é música e vem da tradição de música barroca, mas tem explorado a música improvisada no "salon" com os seus convidados. A melodia da sua viola barroca já faz parte do espírito deste estúdio da Rua Piat. “Tivemos vontade de fazer as nossas performances, experimentar, partilhar com o público e também poder convidar outros artistas para mostrarem o seu trabalho nesta proximidade. Este espaço também nos inspirou porque é uma grande sala quadrada, insonorizada, e estamos obrigados a estar perto uns dos outros, sentados no chão. Além disso, o meu instrumento, a viola da gamba que é um instrumento da época barroca, não é um instrumento potente em termos de som e as melhores condiçoes para ser ouvido é na intimidade, na proximidade. Quanto mais próximos estivermos, mais ouvimos as cores e as nuances diferentes. Foi toda esta mistura de condições que nos deu a vontade de organizar estas reuniões”, conta Olivia Gutherz. A artista sublinha que outra das notas fundamentais do “salon” é o facto de haver sempre pessoas novas, oriundas de vários países e que trazem esse mundo para o atelier. “Vivemos numa grande cidade, com imensas pessoas muito diferentes, mas são bastante raros os momentos em que nos encontramos numa sala, em que não conhecermos as pessoas, mas partilhamos algo”, descreve. No “salon/ensaio” número 14, Olivia Gutherz actuou ao lado do cantor e cravista português Jorge Silva, numa noite em que se celebrou “a festa das independências" dos países africanos de língua oficial portuguesa. Houve filmes apresentados por Raquel Schefer, professora de cinema na Universidade Sorbonne-Nouvelle, e debate em torno do pai das independências da Guiné-Bissau e Cabo Verde, Amílcar Cabral. Também houve mornas imortalizadas por Cesária Évora que foram interpretadas por Jorge Silva, que tem também raízes cabo-verdianas. “Foi muito espontâneo. A Olivia contactou-me, perguntou se eu tinha músicas em crioulo que eu quisesse cantar. Eu perguntei se ela tinha guitarrista porque em Cabo Verde cantam mais com guitarra, ela disse que não, mas que tinha a viola da gamba. Fizemos uma coisa assim muito natural e foi muito bonito. Mostrar músicas cabo-verdianas ou africanas com um instrumento dito barroco como é a viola da gamba acho mesmo excelente mostrar estes dois mundos. É mesmo um salão em que se pode abrir novos horizontes”, conta Jorge Silva. O público são os amigos que trazem um amigo também e que também trazem uns comes e bebes para animar o prólogo da noite. Ana Rita Rodrigues assistiu a todas as edições desde o começo e também cantou em dois “salons”: num deles fez uma homenagem a José Afonso por ocasião do 25 de Abril e num outro propôs uma viagem cantada até ao Brasil. Para ela, o “salon” é, por excelência, o lugar onde o artista está com o público. “Estamos com o público à nossa volta e é como se estivéssemos a cantar em casa com um grupo de amigos. Corresponde perfeitamente ao meu estilo, à minha concepção do que é a música. A música não é só um espectáculo, é também uma partilha. É como estar em casa”, explica a cantora. "É como estar em casa", mas uma casa de portas abertas para o mundo. Raquel Estrócio é outra presença habitual do “salon”. “É sempre uma troca muito rica de imensas formas de colaborações. As trocas depois e antes, durante as 'soirées', são extremamente enriquecedoras. Acho que nos descobrimos a nós ao ouvir as outras pessoas e nestas trocas. As ideias surgem também aí: outras ideias para outros salons”, diz a arquitecta paisagista. Em Maio, já está agendado novo “salon/ensaio”, este espaço alternativo e caseiro onde se tenta fazer e mostrar arte de forma intimista, a uma escala mais humana e sem espartilhos institucionais.
Entre tecidos, bordados e pequenas bonecas de pano, a obra das irmãs Petuba, do agreste de Alagoas, chega a Paris como um convite à travessia estética, cultural e simbólica. Em exposição no centro cultural Halle Saint-Pierre, no bairro de Montmartre, o trabalho das artistas brasileiras confronta categorias europeias como “arte bruta” e propõe um deslocamento de olhar: da racionalidade à imaginação, da padronização à singularidade, da escassez material à abundância criativa. A presença das artistas no circuito europeu nasceu de um encontro inesperado. “Toda essa exposição começa por um curador de arte bruta que visitou a nossa galeria no Rio para conhecer os trabalhos”, conta Isabela Carpena, pesquisadora e diretora da galeria carioca Nau Cultural, especializada em arte popular brasileira. O contato com o curador abriu “uma porta totalmente nova”, diz, ao colocá-los diante de conceitos “completamente diferentes dos nossos”. Foi nesse diálogo que o trabalho das irmãs Petuba chamou atenção imediata. Ainda assim, ela relativiza as classificações: “Na nossa galeria, a gente está num limite entre naïf, folk art e arte bruta, porque há várias nuances entre essas categorias”. Entre categorias europeias e identidade brasileira Se na França o enquadramento tende a passar pela arte naïf ou bruta, no Brasil a leitura é outra. “Lá a gente traz esse conceito de arte popular”, explica Felipe Pithan, que dirige a galeria junto com Carpena. “São pessoas do povo, trabalhadores, muitas vezes de locais afastados, que não passam por formação formal. É uma educação cultural transmitida dentro das comunidades.” Para ele, o trabalho das irmãs Petuba expressa algo mais profundo. “É uma arte que traz o espírito do povo mesmo.” Nos painéis, diz, estão presentes memórias das tradições artesanais do Nordeste: “Os potes de barro feitos à mão, o cordel cantado”. Mais do que representação, trata-se de um gesto de preservação. “Há uma preocupação muito grande em compartilhar e eternizar essa memória.” Essa dimensão ganha ainda mais força no contraste com o presente. “Num mundo em que tudo é acelerado e padronizado, vejo esse trabalho como um convite a valorizar outro tempo, outra forma de viver e produzir”, afirma Pithan. Do sertão à capital francesa: uma travessia estética Levar essa produção a Paris, no entanto, não é um gesto neutro para os organizadores. “Certamente é um desafio”, reconhece Felipe. “Aqui a gente vê uma cidade com cores muito similares. Quando você entra e vê esse multicolor, isso põe em xeque a própria forma como a cidade se constrói.” Ele levanta uma dúvida que atravessa a recepção da exposição: “Será que o parisiense vai entrar aqui e achar que isso é uma arte válida?” Para o pesquisador, o impacto está justamente nesse deslocamento. “A gente propõe isso como uma travessia. A pessoa tem que sair de uma margem e ir para outra.” Essa travessia também passa pela recusa de certos rótulos. “A arte delas não se vê como periferia”, afirma. “É o agreste, o Nordeste, a cultura delas no centro da imagem.” Ao fazer isso, ele acredita que o trabalho desafia “valores mais convencionais” do circuito europeu. Viagem e "apaixonamento" O encontro com as artistas foi resultado de uma longa jornada. Em 2019, pouco antes da pandemia, Isabela e Felipe percorreram mais de 8 mil quilômetros pelo Nordeste em uma Kombi, em busca de núcleos de arte popular. “As irmãs Petuba eram um sonho antigo”, lembra Isabela. “A gente conhecia o trabalho por livros.” Quando finalmente chegaram até elas, o impacto foi imediato. “Ficamos completamente apaixonados”, diz. “É um suporte totalmente singular, um trabalho autêntico, cheio de camadas e significados.” Felipe reforça que o encantamento ultrapassou a obra. “Foi um apaixonamento não só pela arte, mas pela personalidade. As três são figuras únicas. Vai demorar para nascer outras iguais.” Técnica, memória e invenção A singularidade do trabalho começa pelo processo criativo. “Elas são muito intuitivas, não planejam”, explica Isabela Carpena. “Vão construindo a paisagem a partir do encontro com os materiais.” Os tecidos variam – seda, brim, malha – e recebem bordados que “pontilham” as imagens. Um dos elementos mais marcantes são as pequenas bonecas de pano, que criam relevo nas obras, segundo a também pesquisadora de arte popular brasileira. “Elas têm uma conexão direta com a vida das artistas, porque a mãe produzia essas bonecas e elas brincavam com elas”, diz Isabela. “Os quadros têm muitas camadas de memória.” Essa memória aparece tanto no conteúdo quanto na técnica. “A própria forma como elas inventaram essa estética já é uma composição de memórias”, afirma. Arte como resistência e imaginação Do ponto de vista técnico, Felipe Pithan descreve o trabalho como “costuras aplicadas”, feitas a partir de retalhos. Mas insiste que o essencial está em outro lugar. “A imagem é sempre aquilo que elas querem. Elas não se submetem a outros imaginários.” Esse imaginário é profundamente enraizado no território. “É o Nordeste, o agreste, esse emaranhado cultural formado por mouros, ibéricos, ciganos, povos originários e afrodiáspóricos”, explica. “O agreste é uma encruzilhada cultural.” Nesse sentido, a obra das irmãs Petuba também é política, segundo os diretores da Nau Cultural. “É um projeto que combate o apagamento dessas narrativas”, afirma Felipe. “Uma fronte contra um mundo de desencantamento.” Ao revisitar a memória pela arte, ele conclui, o trabalho transforma o documental em algo vivo: “ganha ares de ficção, é renovado pela imaginação”. "Reencantamento" Para a Nau Cultural, levar esse trabalho ao exterior também é um gesto consciente. “A gente tem uma pegada decolonial ao fazer uma exposição assim, de trazer essa arte viva brasileira”, diz Isabela. “É o que move o nosso trabalho.” Ela vê nesse movimento uma resposta histórica. “Todo esse processo colonial apagou, maltratou, tirou o poder de muitos povos. Agora é o momento de trazer esses povos de volta. Esses frutos rebrotaram – parecia que a árvore tinha morrido, mas não morreu.” No caso das irmãs Petuba, esse gesto aparece na própria obra. “O trabalho delas é um manifesto decolonial”, afirma. “A região onde vivem ficou muito mais tempo isolada da globalização. A modernidade chegou tarde, e ainda está chegando lentamente.” Isso permitiu a preservação de múltiplas matrizes culturais. “A gente consegue enxergar ali um Brasil pré-colonial, até medieval”, diz. “É um grande caldeirão cultural que o Nordeste representa, uma realidade singular, de outro tempo.” Felipe Pithan recorre a um poema para sintetizar essa perspectiva. Ele cita Nego Bispo: “Quando nós falamos tagarelando e escrevemos mal ortografado, quando nós cantamos desafinando e dançamos descompassado, quando nós estamos borrando e desenhamos enviesado, não é porque estamos errando, é porque não fomos colonizados.”
A cantora cabo-verdiana Elida Almeida regressa esta semana a Paris para apresentar o seu novo trabalho "Spedju". As suas canções mostram uma nova fase da vida da cantora, com uma grande ênfase na maternidade, no amor romântico, mas também a força das mulheres e a resistência do povo cabo-verdiano. Elida Almeida afirmou-se na última década como uma das principais vozes de Cabo Verde na música. Com os ritmos tradicionais do seu país, Elida Almeida nunca esquece nas suas canções, a maior parte da sua autoria, a realidade que a rodeia. O seu novo álbum "Spedju", ou espelho em português, é um reflexo da sua vida. Foi preprarado durante uma gravidez esperada e desejada, sendo um reflexo do amor maternal, do amor romântico, mas também das inquietações que vêm com a maternidade. Em entrevista à RFI, Elida Almeida fala sobre esta nova fase da sua vida e como isso influenciou a concepção deste novo álbum. "Fui muito activa durante a minha gravidez. O meu maior problema era descansar. Não conseguia descansar, não conseguia parar. E o álbum veio dessa fase que eu tinha vontade de fazer muita coisa e não queria ficar parada. Tive um motivo mais do que suficiente para inspirar-me desde o primeiro mês. A minha primeira gravidez foi uma gravidez muito turbulenta. Uma gravidez na adolescência em que não consegui apreciar e viajar nessa jornada que de nove meses, porque era muito nova e estava preocupada com muita coisa. E desta vez tive esta oportunidade de poder saborear melhor esta dádiva. Assim, o álbum foi acompanhando no meio dos momentos bem bonitos e felizes que tinha. Também havia questionamentos e inseguranças e todos os poréns. Podia estar afastada do palco? Será que que quando voltar o meu lugar ainda é ali? Então eu acho que não havia melhor escolha de título do que Spedju, que significa espelho em português", afirmou. Para este trabalho, Elida Almeida chamou diversas figuras da música cabo-verdiana algo inédito face aos seus precedentes álbuns. "Spedju" conta com participações das Freirianas Guerreiras (no tema "Nka Ta Pasa"), de Garry (no tema "Baka Brabu"), Nancy Vieira (no tema "Daddy) e ainda Grace Évora (no tema "Mintira"). Estas foram colaborações evidentes para Elida Almeida que não jesitou em juntar nomes mais recentes e mais clássicos da música cabo-verdiana à sua sonoridade. "Venho de um país extraordinariamente talentoso. Tenho muito orgulho em ser cabo-verdiana. Tenho muito orgulho em fazer parte desta geração. Uma geração que também está a dar muito contributo para música de Cabo Verde. O nosso tapete vermelho já está estendido, foi estendido pelos grandes músicos, muitos deles que já não estão cá. E nós agora estamos a desfilar e estamos a tentar dar continuidade ao que eles fizeram. Eu tenho a sorte de misturar-me com todos e gravar com todos", declarou. Como em todos os seus trabalhos, Elida Almeida não foge às questões actuais e no tema "Funa Ku Nana" fala sobre a música como acto de resistência dos escravos face ao colonialismo português em Cabo Verde. "Claro que é uma coisa que nos inquieta nós todos. É um passado sombrio e sujo e com muito sangue, com muita, com muita tristeza e com muito estupro. Não há como não afectar qualquer pessoa, sendo africana ou não, quando ela se dá conta de realmente o que é que se passava na altura. Qualquer um sente que foi algo desumano. Então isto até hoje traz sequelas e traumas que nós carregamos e que só nós sabemos como é que isto repercute na nossa vida e na vida dos nossos filhos. Cabo Verde sempre usou principalmente a música. Nós nunca tivemos a luta armada nos nossos territórios, então a música foi sempre uma das nossas armas. Nós usamos durante toda a colonização, durante a nossa luta também para a libertação. Os ritmos que nós fizemos questão de manter, que resistimos porque os rebelados, os escravos que fugiram pela montanha, não só fugiram do trabalho físico de tudo que é exploração, mas também era uma resistência a nível musical, porque tentaram a todo custo banir tudo o que era africano, tudo que tinha uma sonoridade africana da nossa música, da mestiçagem que estava a surgir em Cabo Verde. Tanto que baniram todos os instrumentos percussivos e só deixaram a gaita que tinham trazido e a guitarra portuguesa. Mas esses escravos que fugiram pelas montanhas conseguiram levar com eles muitos ritmos africanos em que deram origem à tabanca, ao batuco e ao funaná, ritmos estes que fizeram questão de manter todas as sonoridades de todas as partes percussiva da música africana. Então é sobre isso que eu falo na musica 'Funa Ku Nana'", detalhou Elida Almeida. A cantona cabo-verdiana volta agora a Paris já na sexta-feira, dia 10 de Abril, para um concerto na sala New Morning, na capital francesa, sendo o seu regresso aos palcos gauleses para apresentar o seu novo álbum. Para o Verão e já com o novo espectáculo do "Spedju", Elida Almeida já tem datas agendadas para concertos individuais e festivais em França.
Após ter encerrado a turnê "Tempo Rei" no Brasil, no último fim de semana, Gilberto Gil desembarcou em Paris, onde emplaca o line-up do festival Back2Black nesta sexta-feira (3), com ingressos esgotados há semanas. Ao lado de filhos e netos, ele subirá no palco no célebre Théâtre du Châtelet para apresentar os grandes sucessos de seus mais de 60 anos de carreira. Daniella Franco, da RFI em Paris O festival Back2Black é realizado desde 2009, com 12 edições no Rio e uma em Londres, em 2012. Em Paris, o evento foi inicialmente pensado para ocorrer em 2025, durante a Temporada Cultural França-Brasil. No entanto, a organização se estendeu, levando o festival a coincidir com o encerramento da turnê "Tempo Rei", na qual Gil se despediu dos grandes palcos no Brasil, reunindo mais de um milhão de fãs. A edição parisiense do Back2Black tem o formato de um dia, mas conta com uma rica programação. Entre as atrações, está a exposição do artista plástico Carybé e duas sessões de projeção do documentário "3 Obás de Xangô", de Sérgio Machado, às 16h30 e às 18h. A festa começa com o Baile Bom no Grand Foyer do teatro, seguido de um DJ set da luso-guineense Umafricana, às 19h. Em seguida, a cantora brasileira Agnes Nunes e o artista camaronense Blick Bassy entram em cena às 20h e o espetáculo se encerra com chave de ouro, com o show de Gilberto Gil, às 21h20. "O Back2Black foi criado no sentido de levar para o Brasil uma África contemporânea que era pouco conhecida, principalmente quando eu comecei o festival, em 2009", diz a idealizadora e diretora do Back2Black, Connie Lopes. "Nesta época, havia muito poucos artistas contemporâneos africanos que iam ao Brasil. A África ainda era algo muito folclórico no Brasil e as pessoas conheciam muito pouco sobre essa cultura pulsante que é a cultura africana", reitera. Connie, que conhece Gilberto Gil há mais 40 anos, ressalta a relação do cantor e compositor com o público francês. "Eu viajei muito com Gil no início dos anos 1990, eu vim muitas vezes com ele à França, então sei do carinho que ele recebe em cada país. Na França, ele sempre teve uma acolhida muito, muito grande", lembra. Apesar de não ter detalhes sobre o repertório que será apresentado nesta noite, Connie garante que será um momento especial. "Gil é Gil, um símbolo tão forte! Qualquer show dele, seja acústico, solo com violão, junto a uma banda de quinze pessoas, a gente sempre sai de alma lavada", afirma. Gil: um tesouro nacional Nascido em 26 de junho de 1942 em Salvador, na Bahia, Gilberto Gil é um dos maiores artistas do Brasil, pilar da MPB. Junto de Caetano Veloso, Gal Gosta e Tom Zé, fundou o Tropicalismo, movimento artístico que revolucionou a cultura brasileira na década de 1960. Com mais de 50 álbuns lançados e oito Grammys, é muito mais que um músico, e alcança um status de tesouro nacional. Na política, Gil teve participação ativa na resistência à ditadura militar, chegando a ser preso e tendo de se exilar. Teve também um papel importante na vida pública: foi ministro da Cultura entre 2003 e 2008, onde promoveu políticas voltadas à diversidade cultural. "Ao longo do tempo, ele vai incorporando no imaginário, tanto no Brasil como no exterior, uma ideia de alegria, de resiliência e de uma reflexão ativa", avalia Sheyla Diniz, professora e pesquisadora colaboradora do Departamento de História da USP. "O professor e crítico literário José Miguel Wisnik se refere a Gil num texto como 'o bom pastor'. É como se ele conduzisse e fosse um intelectual orgânico daquilo que ele faz. O Gil está pensando o Brasil o tempo todo", destaca. Segundo Sheyla, essa encarnação da brasilidade também ajudou o artista baiano a se posicionar na cena internacional como um dos músicos mais importantes do país. "O mercado europeu, principalmente a França, se interessam pela música brasileira. A marca Brasil tem uma marca simbólica muito grande neste mercado e o Gil sabe trabalhar muito bem com essa marca. Ele explora símbolos de brasilidade sendo ao mesmo tempo internacional", aponta. Além disso, a professora e pesquisadora destaca o papel que Gil incorpora de mediador cultural do Atlântico Negro, título de uma das obras do sociólogo britânico Paul Gilroy. Sheyla lembra que a partir do momento em que ele é obrigado a se exilar pelo regime militar e chega em Londres, Gil tem contato com artistas e intelectuais da diáspora africana no Reino Unido. Esses encontros desembocarão em uma viagem que o baiano faz para Lagos, na Nigéria, um capítulo de sua vida que resultará no álbum "Refavela", de 1977, uma homenagem aos laços entre o Brasil e a África. "Gil assume um papel muito importante na revitalização das práticas afro-diaspóricas brasileiras, e vai se construindo mesmo como um músico intelectual negro. Estabelece parcerias com Jimmy Cliff, regrava 'No, Woman, No Cry', do Bob Marley", exemplifica. "Ou seja, é impossível não olhar para o Gil e entendê-lo nesse papel. Ele foi conseguindo essa entrada no mundo como intelectual e músico que pensa o lugar do Brasil e dos negros do Brasil no mundo", conclui. Depois de Paris, Gil passa pela Itália, com shows em Roma, em 6 de abril, e Milão, em 8 de abril, e Porto, em Portugal, em 10 de abril. Em julho, Gil volta para a Europa para outras três datas em Londres, dia 7 de julho, Cascais, em Portugal, em 8 de julho, e Perugia, na Itália, em 10 de julho.
Em um dos monumentos mais grandiosos de Paris, o Grand Palais, empresas, startups e institutos de todo o mundo apresentam novas soluções concretas contra a crise climática e a destruição dos ecossistemas. O ChangeNOW se consolida como um dos principais hubs de aceleração de ações para promover a sustentabilidade no planeta. Lúcia Müzell, da RFI em Paris A nona edição do evento se encerrou nesta quarta-feira (1º), com 40 mil participantes e mais de mil iniciativas. Entre elas, várias contemplam o Brasil. A Enverge AI, por exemplo, capta energia renovável desperdiçada nos geradores e a canaliza para o uso na inteligência artificial. Apesar de ser fundamental para o desenvolvimento tecnológico, o setor representa um desafio colossal em termos de consumo energético. A Enverge utiliza microdata centers instalados dentro de geradores de energia renovável. "A demanda de energia já disparou e já está sendo um problema, uma limitação no crescimento em alguns casos, principalmente no lado do desenvolvimento, que é o que está demandando mais energia. E do outro lado a gente também tem um problema, o de curtailement: o excesso de energia que não é vendido, e normalmente é energia verde”, explica o CEO Breno Araújo. “A gente já usa essa energia excedente para gerar energia para os servidores." O Brasil é um dos países com maior ocorrência desses cortes de energia – ao ponto de diversos projetos de desenvolvimento das renováveis terem de ser adiados ou paralisados, na contramão do que acontece nos países desenvolvidos. "O problema é a distribuição. Onde você gera a energia, não é necessariamente onde estão os moradores, as casas. E quanto maior o país, mais difícil fica essa distribuição: você tem perda de energia na transmissão, e a rede elétrica não é unificada 100%”, complementa. ‘Pescar' lixo Um dos objetivos do ChangeNOW é colocar startups como essas em contato com parceiros ou investidores – o evento é ponto de encontro de 10 mil empresas francesas e internacionais. A italiana Ogyre une gestão de lixo nos oceanos à tecnologia, atuando com a colaboração de pescadores locais em países como o Brasil, onde está presente no Rio de Janeiro. Durante as atividades habituais para pescar peixe, eles captam também plásticos que encontram pelo caminho. "É muito importante porque é uma renda adicional para ele. Eles não encontram peixe o tempo todo, mas infelizmente o lixo eles sempre vão encontrar”, afirma Gaia Minopoli, chefe de operações da startup. Em terra firme, os pescadores pesam e fotografam todo o lixo que recolheram. "Uma responsável do projeto coloca as fotos na plataforma digital, uma etapa importante para a gente monitorar todo o processo e para que as empresas que financiam um projeto também possam ver”, ressalta. “Depois a gente tenta reciclar o máximo possível desse lixo, e o que não der, a gente encaminha para a melhor gestão." Alternativa a agrotóxicos Já a francesa Incères tem como alvo a redução dos agrotóxicos pela agricultura. Num contexto em que a exposição das populações e do meio ambiente às contaminações leva a Europa a limitar cada vez mais compostos químicos autorizados, a empresa oferece alternativas naturais, a base de óleos essenciais. A marca propõe dois produtos capazes de substituir agrotóxicos amplamente utilizados contra insetos, com eficácia e preços semelhantes aos produtos sintéticos, garante Inès Taurou, fundadora do projeto. "É possível. Uma grande maioria dos agricultores não acredita nisso e acha que não dá para cultivar sem produtos químicos, mas estamos aqui para mostrar que sim, dá”, diz. "Tenho a esperança de que quando chegarmos em 2050, isso nem vai ser mais um assunto, que os futuros agricultores nem se questionarão mais sobre ter ou não alternativa. Eles já saberão que tem." Após realizar um estudo de mercado, a Incères decidiu se expandir para o Brasil – apesar de a sensibilidade dos consumidores aos riscos dos pesticidas ainda ser menor do que na Europa, complementa Judie Henry, diretora de pesquisa e desenvolvimento. "Em termos de posicionamento técnico, nós chegamos ao Brasil como complementares à química. Hoje, o verdadeiro problema na agricultura brasileira é a emergência de pragas resistentes”, observa. "As mesmas substâncias são usadas em abundância há anos e anos. Além disso, as safras se repetem bem mais do que aqui, o que cria pressões bem mais fortes e o aparecimento de pragas resistentes a esses produtos químicos. Nós queremos surgir como uma combinação para frear o aparecimento dessas resistências”, propõe.
Guimarães chega a Paris com reconhecimento internacional renovado e um estatuto confirmado: é Capital Verde Europeia este ano de 2026. Mais do que distinção simbólica, o município assume o título como responsabilidade política e transformação concreta. O presidente da câmara municipal, Ricardo Araújo, defende que o desafio não é apenas ambiental, mas sobretudo social: fazer da sustentabilidade um motor real de qualidade de vida. Num tempo em que as cidades deixaram de ser cenário para passarem a ser protagonistas da crise climática, Guimarães apresenta-se em Paris com uma dupla legitimidade: a do reconhecimento internacional e a de um caminho ainda em curso. Este ano, a cidade é Capital Verde Europeia mas, para o presidente da Câmara, esse título é menos uma meta do que um compromisso exigente. “Em primeiro lugar, é de facto também um privilégio para Guimarães, resultado de um trabalho que tem vindo a ser feito ao longo das últimas décadas, ser reconhecida pelo terceiro ano consecutivo”, afirma Ricardo Araújo, referindo-se à distinção do Projeto de Divulgação de Carbono (CDP). “Recebemos este reconhecimento juntamente com cerca de 120 cidades, num universo de cerca de 700, e isso é um orgulho neste caminho que Guimarães tem vindo a trilhar.” Mas o tom rapidamente se afasta da celebração. “Capital Verde Europeia e esta distinção não são um ponto de partida. Esse ponto de partida já se iniciou há um tempo atrás, mas também não é de todo um ponto de chegada”, sublinha. E fixa a ideia central: “É um ponto intermédio, porque isto é acima de tudo uma responsabilidade com o presente e com o futuro.” Essa responsabilidade ganha densidade quando colocada no contexto histórico da cidade. “Estamos a falar de um concelho que teve uma fortíssima tradição industrial, com sectores como o têxtil e o calçado, que naturalmente traziam uma pegada ecológica muito relevante.” A transformação das últimas duas décadas, na qualidade dos rios, do ar, do espaço público, é, por isso, apresentada como um processo de reconversão profunda. Ainda assim, o objectivo não se esgota no ambiente. “Tenho dito e repetido que quero que Guimarães seja a capital verde europeia, mas se transforme na capital da qualidade de vida na Europa”, afirma. E reforça: “O ser capital verde europeia tem que estar associado à qualidade de vida das pessoas.” A transparência como prática Uma das dimensões mais valorizadas internacionalmente é a transparência ambiental. Mas, no discurso do autarca, essa transparência só ganha sentido quando se materializa no dia-a-dia. “Nós temos um conjunto de indicadores que estamos a monitorizar permanentemente e que queremos que estejam acessíveis a cada momento para qualquer cidadão poder verificá-lo”, explica. E concretiza: “Isto tanto se aplica na qualidade do ar, como na qualidade da água, como na gestão das nossas bacias de retenção, na gestão do estacionamento, do tráfego urbano.” A cidade, acrescenta, tem de ser pensada como sistema inteligente, apoiado em dados e tecnologia: “Temos que utilizar as ferramentas de inteligência artificial e as ferramentas tecnológicas que temos à disposição para podermos ter uma cidade gerida de forma mais inteligente, através da recolha de dados permanente, do seu tratamento e da sua disponibilização.” Mas a ambição não é técnica é social. “Estes dados têm que servir a decisão política, mas também o próprio cidadão, para que, no seu dia-a-dia, possa fazer melhores opções.” E dá exemplos simples: “Quando as pessoas têm que estacionar um carro, não têm que andar à procura do parque. Quando utilizam o transporte público, este tem que ser cómodo, flexível, simples.” A advertência surge clara: “A capital verde europeia não pode ser uma capital verde das elites políticas e académicas. Eu quero que isto seja apropriado pelos nossos cidadãos.” Entre a pedagogia e a transformação física O ano de 2026 é pensado em duas escalas complementares. A primeira é a da consciência. “Quero que este ano sirva para consciencializar cada vez mais a nossa população para a importância destas políticas”, afirma, sublinhando o papel da educação ambiental e do envolvimento das escolas. “A qualidade de vida do nosso futuro está intrinsecamente ligada à adoção de políticas que defendam o ambiente.” A segunda escala é a do território. “Queremos transformar o território e aproveitar este ano para o fazer”, diz. Entre os projectos: duplicar as ecovias, reabilitar extensas zonas ribeirinhas, criar novos parques urbanos, plantar árvores. “Guimarães é atravessada por três rios: o Selho, o Ave e o Vizela, e queremos acelerar a reabilitação dessas zonas”, explica. O território deixa de ser apenas espaço físico e passa a ser instrumento de política climática e de qualidade de vida. E depois, a mobilidade, talvez o campo mais sensível da transformação urbana. “Nós vamos operar uma revolução na mobilidade em Guimarães”, afirma. Mas impõe uma condição decisiva: “Esta revolução tem que ser não contra as pessoas, mas a favor das pessoas.” Os limites da mudança “Este processo tem que ser partilhado e apropriado pelos cidadãos”, insiste. E admite as tensões: “Quando reduzimos o transporte individual ou a circulação automóvel, não podemos fazer simplesmente por uma vontade do presidente ou por uma decisão académica.” A mudança, diz, exige equilíbrio entre ambiente, economia e vida dia-a-dia. “Temos de perceber a vida normal das pessoas: o comércio, as escolas, os pais, os filhos, isto não pode ser contra uma coisa ou contra outra.” O mesmo raciocínio aplica-se à economia. “Esta transição ecológica não pode significar uma desvantagem competitiva para as empresas”, alerta. E acrescenta: “As empresas que cumprem, que têm responsabilidade ambiental, não podem ser prejudicadas quando competem com outras que não cumprem, nomeadamente fora do espaço europeu.” Cidades no centro do presente Em Paris, a transformação urbana é visível: menos espaço para o automóvel, mais ciclovias, mais espaço público. Para Ricardo Araújo, esse é o sinal do tempo. “Os fenómenos a que temos assistido são uma evidência de que as alterações climáticas já não são futuro, são presente”, afirma. E a resposta, defende, tem de ser urbana. “Temos que repensar as cidades e o espaço público, olhar para a forma como organizamos e projectamos a cidade para usufruto dos cidadãos, dos jovens e das crianças.” Isso implica, inevitavelmente, reduzir emissões e mudar a mobilidade. “Estamos a fazer um fortíssimo investimento: a frota de transporte público de passageiros é hoje 100% elétrica.” Mas, mais uma vez, a chave está no equilíbrio. “Retirar o transporte individual tem que ter alternativa. As pessoas têm que poder fazer a sua vida de forma normal e, de preferência, mais cómoda, mais simples e mais barata.” No final, a ideia regressa ao essencial. “Se nos limitarmos a apregoar conceitos sem que isso se traduza numa melhoria da qualidade de vida das pessoas, não estamos a dar um bom contributo.”
This Will Not End Well, em cartaz no Grand Palais e na Capela Saint-Louis da Salpêtrière, oferece uma visão inédita em Paris da obra de Nan Goldin, norte-americana que acaba de completar 70 anos como estrela inconteste da fotografia mundial. Goldin descreve seu trabalho no material da mostra e dá o tom da curadoria que recupera cinco décadas de um trabalho intenso, cru e cheio de empatia : “Sempre quis ser cineasta. Meus slideshows são filmes compostos de fotos”. Márcia Bechara, da RFI em Paris A mostra, aberta a partir de quarta-feira (18) para o público na capital francesa, ocupa o Salão de Honra do Grand Palais e a Capela Saint-Louis da Salpêtrière, onde está sendo apresentada a instalação Sisters, Saints and Sibyls, concebida em 2004 para o Festival de Outono de Paris. Apesar de não ter podido estar presente na coletiva de imprensa em 17 de março por problemas de saúde, a presença da artista é sentida em cada detalhe da mostra. A seu pedido, Goldin foi substituída, durante a coletiva em Paris, por uma longa e pungente mensagem gravada por ela e um vídeo de apoio aos palestinos e à Faixa de Gaza, projetado nas paredes do Grand Palais. O curador sueco Fredrik Liew, responsável pela retrospectiva e diretor de exposições e coleções do Moderna Museet, em Estocolmo, acredita se tratar de “um grande erro quando se pensa nessa mensagem política como algo separado do resto da exposição". "Pelo que entendo da prática de Nan, o que me engaja é a dedicação dela às outras pessoas, à empatia e a como vivemos juntos. O que está acontecendo no mundo — populismo, terror, guerra — são consequências da falta de empatia. Nan propõe, com seu trabalho, mostrar o ser humano, estar junto e se esforçar para construir um mundo melhor”, observou à RFI. Gaza, AIDS e a convergência de lutas Ao longo das últimas décadas, a fotógrafa Nan Goldin tem criado imagens marcantes que exploram a poética do pessoal. Mais do que qualquer outro artista de sua estatura, Goldin tem usado seu sucesso para denunciar a ganância dos poderosos, desde a resposta lenta do governo norte-americano à crise da AIDS, que matou tantos de seus amigos na década de 1980, até o lucro da indústria farmacêutica e a epidemia de overdoses que ela desencadeou. Neta de judeus asquenazes da Polônia, ela passou os últimos anos, em suas próprias palavras, "consumida" pela destruição de Gaza e de seu povo. No início de 2026, ela e seu editor, David Sherman, começaram a costurar vídeos da Palestina – cenas de normalidade e de atrocidade, ambas – para produzir Gaza, um mosaico de dor e beleza, com imagens de antes e depois da guerra, vídeo apresentado também durante a coletiva de imprensa de lançamento de sua retrospectiva em Paris: Nan Goldin é reconhecida como uma artista maior que transita entre os séculos 20 e 21 revolucionando a fotografia contemporânea e a cultura visual. Com um título que encampa a ironia e a agudeza de seu olhar sobre o mundo, a retrospectiva This Will Not End Well (Isso Não Vai Acabar Bem, em tradução livre), no Grand Palais, é a primeira exposição na França a oferecer uma visão completa do trabalho da artista como cineasta, por meio de slideshows e vídeos. Viagem sensorial Cada pavilhão da exposição parisiense parece pensado para contar uma história própria, transformando o percurso em um passeio sensorial pela obra de Nan Goldin. Sobre a montagem no Grand Palais, Hala Wardé, arquiteta e cenógrafa que colabora com a artista há anos, observou que “esse grande espaço parisiense acabou de ser reformado e recuperou uma luz que tinha perdido. Era importante voltar a este espaço e brincar com essa luz, mesmo que tenhamos decidido filtrá-la para manter um jogo de sombras e claridade. Aqui, no Salão de Honra — um lugar muito alto e imponente — optamos por torná-la menos densa. São cinco salas, em vez de seis como nos outros museus. A singularidade desta apresentação parisiense está na instalação de Sisters, Saints and Sibyls: ela é diferente, mas fiel à original.” Para Wardé, a luz é mais que um detalhe, “ela é o elemento que mais muda de cidade para cidade". "A luz de Paris não é a mesma de Estocolmo nem a de Milão. Decidimos torná-la menos intensa, ajustando a experiência ao espaço e à narrativa da exposição”, especificou. Sobre a disposição da obra na Capela Saint-Louis da Salpêtrière, a arquiteta detalhou que preferiu "respeitar a instalação exatamente como foi concebida para este lugar". "Inclusive, me inspirei nela para criar uma sala específica, com planta octogonal. Mantivemos toda a estrutura. Há um mezanino suspenso que provoca vertigem. A obra evoca o suicídio de sua irmã Barbara, em relação à história de Santa Bárbara. É muito intensa, e a forma como foi montada está perfeitamente adaptada a esta apresentação.” Uma narrativa viva e política Mais do que uma retrospectiva de fotografias, a mostra propõe redescobrir a obra como experiência audiovisual. O curador sueco Fredrik Liew explica: “Talvez as pessoas esperem fotografias em molduras, mas não há obras impressas. Meu convite à artista foi mostrar toda a sua prática, suas milhares de imagens, no formato de slideshows que ela produziu ao longo da carreira. Selecionamos seis para esta exposição. Essa é a curadoria dela de suas imagens, narrativas da sua obra de vida. Ela organiza todas as imagens que produz em diferentes histórias, contadas por meio desses slides e seus trabalhos em vídeo.” Ele também comentou à RFI a maneira como a artista revisita constantemente suas obras. “Ela nunca parou de trabalhar, sempre refaz. Não existe apenas uma maneira de mostrar suas obras, mas muitas, e isso se desenvolve. The Ballad of Sexual Dependency, por exemplo, quando começou a ser exibida no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, sempre era diferente, e continua diferente a cada apresentação. Ela sempre acrescentava imagens e apresentava tudo de maneira diferente, inspirada pelos contextos dos lugares. Ela sempre vê o trabalho a partir do presente: ‘Este é meu trabalho e é assim que o vejo hoje'. Estamos apresentando Nan como cineasta e contadora de histórias. Não estamos retirando nada de sua fotografia, mas acrescentando essa dimensão”, diz. A particularidade da montagem parisiense está na reinstalação de Sisters, Saints and Sibyls, originalmente criada para a Salpêtrière. Liew observa: “O que é realmente único em Paris é poder revisitar a Salpêtrière para a instalação de Sisters, Saints and Sibyls. A obra foi criada para o Festival de Outono em 2004 e estreou nesse local. Somos muito gratos por poder reinstalá-la agora, 20 anos depois, e mostrar a um público maior, além de apresentar todo o contexto de seu trabalho na forma desta exposição no Grand Palais.” Som, emoção e diaporamas O som é parte central da narrativa de Goldin. Barbara Kroher, curadora associada em Paris, explica que "a construção narrativa de Nan é muito sutil, quase epidérmica, incluindo a trilha sonora, que tem papel central.As escolhas musicais são ecléticas: Chopin, Schubert, Velvet Underground, Maria Callas, Edmundo Rivero. O som não pode ser separado da imagem; ele guia a narrativa. Em The Ballad of Sexual Dependency, há um subtexto sonoro. Em Sisters, Saints and Sibyls, na Capela da Salpêtrière, ouvimos coros medievais e a voz de Nan, ampliando a dor que permeia a obra. Em Memory Lost, há gravações de secretárias eletrônicas dos anos 1980, acrescentando significado às imagens. O diaporama é uma forma híbrida, entre fotografia e cinema.” A exposição inclui trabalhos que exploram traumas familiares, suicídio, dependência química e relações de gênero. Wardé ressalta: “Cada sala, cada luz, cada detalhe foi pensado para que o visitante se sinta atravessando uma experiência íntima e sensorial. A obra fala de dor, mas também de empatia, de estar junto com o outro.” Contexto histórico e social Goldin é conhecida por abordar questões sociais como gênero, saúde mental e crises de dependência. Em Memory Lost, ela explora os aspectos mais sombrios da dependência química. Em 2017, fundou o grupo P.A.I.N. (Prescription Addiction Intervention Now), atuando contra a família Sackler, considerada responsável pela epidemia de overdoses de opioides, pressionando instituições a removerem o nome dos doadores de seus espaços. O trabalho da artista também documenta a vida boêmia e alternativa de Nova York entre os anos 1970 e 1990, retratando amizades, festas e relacionamentos. Em material oficial, a exposição apresenta obras icônicas como The Ballad of Sexual Dependency (1981-2022), The Other Side (1992-2021), Sisters, Saints and Sibyls (2004-2022), Memory Lost (2019-2021), Sirens (2019-2020) e Stendhal Syndrome (2024). Paris como memória e cena artística A capital francesa mantém um vínculo duradouro com a artista. Kroher contextualiza: “Nan viajou pela Europa desde jovem, morou em Paris, fotografou amigos e apresentou trabalhos aqui. Alguns amigos aparecem em suas obras, como Valérie em Standard Syndrome e Kim Harlow, ícone transgênero dos cabarés parisienses nos anos 1980. Ela tem um vínculo duradouro com a cidade e a exposição reflete isso.” A curadora francesa observa ainda o impacto do olhar de Goldin: “São histórias sobre emoções e relações humanas em toda a sua diversidade e complexidade. A empatia é constante em seu trabalho. A exposição nos mostra que a arte pode criar um senso de comunidade.” Um vilarejo de slideshows Os pavilhões formam um conjunto que funciona como um “vilarejo”, em que cada espaço é adaptado à obra que apresenta. “Cada sala, luz e arquitetura dialogam com os slideshows, reforçando a intimidade e a narrativa política da obra, conduzindo o visitante por trajetórias de memória, emoção e cinema”, explica Wardé. This Will Not End Well fica em cartaz até 21 de junho de 2026 no o Salão de Honra do Grand Palais e na Capela Saint-Louis da Salpêtrière, em Paris.
Jo Ractliffe é uma fotógrafa de lugares, muitos deles devastados pela guerra. Começou nos anos 80 a fotografar a sua terra natal, a África do Sul, e no início dos anos 2000 foi até Angola onde vários anos depois do apogeu da guerra civil encontrou os vestígios de um conflito que dividiu e dizimou o país. Jo Ractliffe é sul-africana e começou a fotografar nos anos 80, numa altura em que havia cada vez mais contestação interna e também internacional ao apartheid no seu país. Como artista, Jo Ractliffe começou a questionar os limites da fotografia documental e rapidamente adoptou um estilo que apelida de “política da paisagem”, ou seja, o que uma paisagem nos pode transmitir sobre um país, mas também um tempo, muitas vezes o passado. A fotógrafa continua ainda hoje a questionar a presença do passado no presente e a capacidade de uma fotografia conter o poder da contradição. O Museu Jeu de Paume, em Paris, dedicado à fotografia, decidiu organizar uma retrospectiva de Jo Ractliffe, patente até 24 de Maio, com o nome “En ces lieux”, ou nesses lugares, em português. O percurso começa com algumas das suas primeiras fotografias nos anos 80, muitas realizadas em subúrbios industriais, fábricas abandonadas, campos de realojamento onde a pobreza e as desigualdades sociais eram flagrantes. As imagens na exposição visam esta reflexão da fotógrafa sobre a noção do espaço na História, como explica comissária desta exposição, Pia Viewing. "A exposição inteira foi elaborada e as obras foram selecionadas de modo a reflectir sobre a noção de lugar, de um sítio. Portanto, foi com base nesses diferentes projectos da Jo Ractliffe que selecionámos as imagens da exposição. Isso também significa que essa questão de lugar e espaço é baseada na observação do fotógrafo das propriedades do espaço que foi dividido e separado sob o apartheid e, claro, da segregação racial. Mas não vemos isso directamente nas imagens. Portanto, mais uma vez, estamos diante de um trabalho que sugere, uma obra onde devemos procurar pistas. Somos convidados a observar e a procurar detalhes nas fotografias que nos forneçam informações sobre essa história", disse a comissária da exposição. Em 2007, Jo Ractliffe vai pela primeira vez a Luanda. Angola era então um país recém saído de uma guerra civil que tinha durado quase 30 anos após a colonização de cinco séculos de Portugal. Logo após o fim da guerra colonial e o período da independência em 1975, Angola tornou-se um dos pontos quentes da Guerra-Fria, com a URSS e os Estados Unidos a fornecerem armas e apoio financeiro aos dois lados da guerra civil entre a UNITA e o MPLA. No terreno, outras potencias também se envolveram na guerra civil, como a África do Sul ou Cuba. Com a guerra em Angola a coincidir com os movimentos independentistas da Namíbia face à África do Sul, os sul africanos lutaram ao lado da UNITA nos anos 70 e 80, tendo a batalha de Cuito Cuanavale, a maior batalha da guerra civil angolana, a ter marcado o fim das participações estrangeiras no conflito no país. Mais de 20 anos depois, Jo Ractliffe vai a Angola, primeiro a Luanda e regressa de forma consecutiva nos anos seguintes, fotografando assim as “Terras do fim do Mundo”, nome pelo qual é conhecido o território da província de Cuando Cubango. Algumas das viagens da fotógrafa a Angola foram realizadas com antigos guerrilheiros sul-africanos para documentar os lugares onde a guerra tinha acontecido e o que restava nas paisagens: minas enterradas, casernas e quarteis abandonados ou fossas comuns dissimuladas pela vegetação. "É interessante ver como Jo Ractliffe forma narrativas com estas imagens e como essas narrativas são alimentadas pelos vestígios deixados nos locais onde ocorreram acções do passado. De facto, há uma sala quase completa na exposição dedicada quase inteiramente à guerra em Angola, desde logo à guerra da independência e aos vários conflitos que se seguiram à independência de Angola em 1975. Portanto, Jo Ractliffe foi a Angola em 2007 e voltou a Angola várias vezes em 2009 e 2010. Ela fotografou coisas diferentes de cada vez, mas as últimas viagens foram acompanhadas por veteranos, especialmente veteranos sul-africanos. E são esses ex-soldados que vão ajudá-la a descobrir o território de uma maneira diferente e, em particular, a história da participação da África do Sul nessa guerra obscura, atroz, com milhares e milhares de mortes. Foi uma guerra que durou muito tempo, desde a independência em 75 até ao início dos anos 2000. Portanto, é muito interessante descobrir como esta artista não se concentrou na guerra em si, como faria um fotojornalista, e não mostrou directamente as atrocidades e os horrores da guerra. E acho que é interessante observar o seu trabalho hoje, quando o mundo está totalmente invadido por imagens de todos os tipos de violência e de guerras muito sangrentas. É extremamente interessante ver como uma artista pode ter uma abordagem sensível e poética e também, eu diria, de forma mais distante mas não menos comprometida, ficando assim a ideia de mostrar esses traços da guerra e acompanhar com os textos a descoberta dessa história que é profunda - já que, no caso da África do Sul, o apartheid dura desde o início do século XX", detalhou Pia Viewing. Nas fotografias de Jo Ractliffe, maioritariamente a preto e branco, não há violência, não há feridos, não há mortos, não há combates e não há armas, mas há tudo que fica de um conflito: paisagens nuas - já que sabemos que a vida animal do Sul de Angola foi devastada pelos conflitos -, pobreza, desolação e abandono. E isso faz com que estas fotografias pudessem ser tiradas em qualquer lugar do Mundo que viveu a crueldade de um conflito armado. Ao mesmo tempo, o Museu de Jeu de Paume, mostra numa outra exposição as fotografias de Martin Parr, um fotógrafo britânico que se assumia como documentarista e que através de cores exuberantes e fotografias inusitadas mostrava as contrariedades do Mundo em que vivemos. Duas maneiras de mostrar o Mundo, duas visões que Pia Viewing considera interessante ter lado a lado neste museu parisiense. "Martin Parr estava absolutamente determinado a documentar o mundo. Então, ele pensou: 'Sou um fotógrafo documental', enquanto Jo Ractliffe tem uma atitude um pouco diferente em relação ao documentário. Ela não tenta ser como ele nem como o seu acólito, David Goldblatt, por exemplo, um conhecido fotógrafo sul-africano que documenta o mundo de forma a fornecer informações directas sobre o mundo real. Ela está mais interessada em criar uma relação com a literatura, com a poesia, com essas influências, eu diria que são bastante literárias. Mas claro que as duas exposições estão a acontecer ao mesmo tempo, e acho que a atracção do público por Martin Parr. É interessante para Jo Ractliffe, porque muitas pessoas descobrem o trabalho de Ractliffe por causa do seu interesse por Martin Parr, e elas vêm ver a exposição por causa da exposição de Martin Parr. Mas acho que também é muito interessante para nós, Jeu de Paume, mostrar estas duas atitudes muito diferentes em relação a como documentar o mundo e como a fotografia pode ecoar directamente a atitude do fotógrafo em relação ao mundo ao seu redor", concluiu. A exposição de Jo Ractliffe, “En ces lieux”, pode ser vista até dia 24 de Maio no Museu Jeu de Paume, em Paris.
A autora, diretora e atriz brasileira Viviane Dias vem despertando o interesse dos estudantes da Universidade Paris 8 com um curso acadêmico dedicado ao teatro brasileiro. A partir de figuras do teatro nacional, das ressonâncias modernistas e de referenciais decoloniais, ela apresenta a inventividade da cena paulista a alunos que pouco conhecem da riqueza cultural do país. Em sua segunda edição, a formação voltou a lotar rapidamente as 40 vagas disponíveis e deve permanecer na grade universitária no próximo ano letivo, fortalecendo o intercâmbio artístico entre o Brasil e a Europa. O curso integra o Departamento de Artes, Filosofia e Estética da Universidade Paris 8 e reúne estudantes de teatro, cinema, artes plásticas e filosofia. Para Viviane Dias, a iniciativa surgiu do desejo de apresentar aos jovens franceses outras referências para além do repertório europeu tradicional. “A gente fala das invenções do Teatro de São Paulo, das invenções de linguagem”, explica. “Fazemos um caminho que começa desde o modernismo, nesse primeiro momento em que se buscou uma arte emancipada da Europa. Em que foram formuladas questões mais próprias da cultura brasileira. Seguimos até o momento em que essas ideias acabaram se materializando na cena por meio do José Celso e do Teatro Oficina, que é uma grande referência, e que oferecem uma cena completamente diferente do que eles estão habituados a ver.” Segundo a professora, muitos alunos buscam o curso justamente porque sentem “saturação” de referências tradicionais e precisam de novos estímulos. “Normalmente, eles vêm de formações muito logocêntricas. Tento deslocar um pouquinho essa percepção”, conta. Perspectiva decolonial e o ensino do Sul Global A professora ressalta que compreender melhor a produção do Sul Global é fundamental para jovens que, no futuro, atuarão em novas cenas culturais da Europa. Nesse sentido, autores como o contemporâneo Ailton Krenak, o modernista Oswald de Andrade e artistas como Tarsila do Amaral têm gerado grande interesse entre os estudantes. “Eles têm poucas referências sobre o Brasil, e quando têm, é muito raso, às vezes o clichê do Brasil, do carnaval”, afirma. “É importante falar do Brasil e mostrar que a gente é ótimo para fazer festa, mas a gente também é excelente em fazer teatro, cinema e artes visuais. Além disso, a gente produz pensamento, que é muito interessante e pode nos ajudar a pensar melhor o século 21”, afirma Viviane Dias. Alunos veem o curso como abertura de horizontes Entre os inscritos está Kayij Baku‑Carlos, de 18 anos, estudante de Cinema e francês de origem angolana. Ele considera essencial compreender outras tradições artísticas para construir sua identidade profissional. “Aqui na França, muitas vezes, quando aprendemos História na escola recebemos, inevitavelmente, um ponto de vista mais eurocêntrico e francocêntrico”, diz. “Na universidade, somos expostos a diferentes percursos culturais ligados à arte de vários países. Preciso ampliar meu olhar e entender como esse trabalho é feito em outros lugares. Como sou angolano por parte de pai, pensei que o curso poderia me ajudar a compreender melhor uma parte da minha cultura e da minha herança lusófona, de um país PALOP”, conclui o jovem. Para Ryod Caldas, de 19 anos, estudante de Teatro, o impacto é semelhante: “Quase nunca vemos o que acontece fora do nosso próprio país. Geralmente ouvimos falar de Shakespeare e dramaturgos europeus. Explorar outras referências amplia nossa visão e nossas inspirações”. A única brasileira da turma, Mayara Marçal, de 25 anos, destaca a importância de mostrar à universidade que há interesse por temas ligados ao Brasil e a outros continentes. “Aqui a gente costuma estudar muito autores franceses. Quando vi que tinha um curso na grade curricular ministrado por uma professora brasileira, um curso de descolonização do teatro, eu achei incrível! É uma forma de mostrar para a universidade que a gente se interessa por professores de outros países, por aulas que falem sobre arte de outros continentes, não só da França”. Um curso em Paris e São Paulo ao mesmo tempo O alcance do trabalho fez com que a formação chamasse a atenção da pós-graduação em Artes Cênicas da USP. Com isso, o curso será oferecido simultaneamente na Universidade Paris 8 e na ECA‑USP, em parceria com o professor Ferdinando Martins – algo inédito, segundo Viviane. “É a primeira vez que um curso dedicado às invenções cênicas brasileiras contemporâneas é oferecido ao mesmo tempo em uma universidade parisiense e na USP”, afirma. Para ela, essa articulação reflete um espírito do século 21 de ampliação de caminhos possíveis e inovadores para a educação. “Vivemos entre mundos e espaços, mas ainda somos muito caretas na nossa maneira de pensar processos pedagógicos. Espero que eu possa fazer mais pontes entre as coisas do Brasil e daqui. Eu também faço uma pesquisa de criação. Eu sou uma artista e pesquisadora. As duas coisas são importantes e andam juntas na minha vida”, conclui Viviane Dias.
O Espaço Frans Krajcberg, em Paris, apresenta até 11 de abril a exposição "Encontros e Dissonâncias", que reúne obras do artista brasileiro Ricardo Ribenboim. A mostra destaca a relação construída ao longo de quase três décadas entre ele e Krajcberg — uma convivência marcada pela amizade, parcerias no meio cultural e pelo engajamento ambiental. Daniella Franco, da RFI A exposição integra o terceiro ciclo do projeto “Frans Krajcberg visto por”, que celebra os amigos que caminharam ao lado do artista nascido na Polônia, naturalizado brasileiro e falecido no Rio de Janeiro, em 2017. Entre eles está Ricardo Ribenboim, que conheceu Krajcberg em 1992, durante a Eco-92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Desde então, os dois passaram a entrelaçar suas trajetórias e lutas — mesmo que a afinidade artística entre ambos nem sempre tenha sido linear. Em entrevista à RFI, Ricardo Ribenboim explicou de onde partiu a ideia que guia a exposição. "Encontros porque em muita identidade em todos os momentos onde eu produzo e meus diálogos, conversas e relações próximas que eu tive com Krajcberg ao longo do tempo. Dissonâncias são as diferenças que cada um tem no olhar sobre a questão do meio ambiente", diz. Enquanto Krajcberg tinha uma relação intrínseca com a floresta e priorizava em seu trabalho o uso do material bruto, Ribenboim foca na transformação da matéria para transformá-la em memória. "Para Krajcberg, as árvores eram praticamente a família dele. E, para mim, o uso do que eu chamo de 'rastros dos restos' em grande parte do meu trabalho são essas apropriações de coisas que eu trago da natureza e do espaço urbano. Isso vai se compondo ao longo do tempo", reitera. 19 obras de Ribenboim Ricardo Ribenboim trouxe para Paris um conjunto de 19 obras, mas a abertura da exposição foi impactada por um contratempo: algumas peças ficaram retidas na alfândega em Paris. Liberadas nesta primeira semana da mostra, o público finalmente pode conferir este panorama que evoca diferentes momentos da carreira do artista e seu engajamento ambiental. Algumas telas, feitas com lonas, denunciam as ocupações indevidas, o garimpo ilegal, a poluição dos rios e as queimadas na Amazônia. Uma das obras também homenageia o Museu Nacional do Rio, destruído por um trágico incêndio em 2018. Ricardo Ribenboim estruturou a exposição em três núcleos: o primeiro trata de questões relacionadas à Amazônia, o segundo destaca o resgate de materiais da natureza e do meio urbano e o último é a exibição de um vídeo sobre sua intervenção na Eco 92, "Bólides Marinhos", que utilizou mil infláveis na praia de Ipanema. Outros dois vídeos exibidos no Espaço Krajcberg abordam a instalação "Continente-Conteúdo", exposta primeiramente no Museu de Arte Moderna da Bahia, em 2004, e mais de 20 anos depois no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro. Segundo Ricardo, a escultura feita com cobre e cabalaça exposta na mostra é o trabalho que mais o conecta com Frans Krajcberg. "Ele era muito família para a gente, mas ele não podia ter esse sentimento da família, para ele isso era uma coisa mais complicada. Mas ele sempre foi muito contundente com relação ao ser humano", relembra. Associação dos Amigos Embora mantivesse uma visão profundamente crítica do ser humano — frequentemente percebido por ele como um agente de devastação da natureza — Krajcberg atribuía grande importância às relações que cultivava. Essas conexões, construídas ao longo de décadas de convivência e militância, tornaram‑se decisivas para a preservação de sua memória e para a continuidade de sua obra. Essa, aliás, é a ideia da Associação dos Amigos de Frans Krajcberg, concebida pelo próprio artista e dirigida pela arqueóloga e conservadora-geral do Patrimônio da Cidade de Paris Sylvie Depondt. "Ele gostava muito de seus amigos, por isso reuniu nessa associação as pessoas mais próximas dele: foi uma vontade dele dar voz a seus amigos", diz. A exemplo de Ribenboim, são as conexões que Krajcberg fez durante sua carreira que contribuem para enriquecer os arquivos sobre sua vida e suas obras. O objetivo, segundo Depondt, é "manter sua presença na História da arte do século 21 e transmitir seu engajamento e sua revolta junto às gerações, sejam elas atuais ou futuras".
Impedida de seguir sua carreira artística no Irã, seu país natal, a cantora Aida Nosrat reinventou-se na França, onde construiu uma obra que cruza tradições persas e influências ciganas. Seu primeiro álbum solo, "Common Routes", lançado em janeiro e tema desta edição do Balada Musical, nasce justamente desse encontro e sua paixão pelas duas culturas. Daniella Franco, da RFI Nascida em Teerã em 1984, Aida Nosrat iniciou-se cedo na música: flauta doce aos seis anos, violino aos dez. O talento precoce a levou, aos 17, à Orquestra Sinfônica da capital iraniana, enquanto aprofundava o estudo do canto tradicional persa. Mas, no Irã, jamais pôde construir uma carreira solo — as leis islâmicas proíbem mulheres de se apresentarem sozinhas em público. Em 2016, decide então partir para a França, onde finalmente mergulha de vez na trajetória de cantora. Em Paris, Aida Nosrat mantém viva a tradição musical persa, mas amplia seus horizontes ao mergulhar em outros estilos, como o flamenco e o gypsy jazz — ou manouche, como o gênero é conhecido na França. Ao lado do violonista iraniano Babak, forma uma dupla com a qual lança, em 2016, o álbum "Manushan". Nesse mesmo período, passa a integrar o coletivo feminino de musicistas iranianas exiladas, o "Atine", com quem grava, em 2020, o disco "Persiennes d'Iran" (Persas do Irã”, em tradução livre). Nos últimos anos, Aida Nosrat voltou-se definitivamente para a carreira solo, lançando dois EPs que pavimentaram esse novo caminho. No fim de janeiro, apresentou seu primeiro álbum completo, "Common Routes", pelo selo francês Accords Croisés. A obra — destaque desta edição do Balada Musical — é uma travessia afetiva entre duas matrizes que moldam sua identidade artística: a cultura persa e o universo cigano. *** O Balada Musical vai ao ar todos os sábados nos programas da RFI Brasil e também pode ser ouvido no Spotify e no Deezer.
"O Mundo é o Meu Jardim" é o oitavo álbum solo do pianista, tecladista, compositor, arranjador e produtor Mu Carvalho. A ideia para esse novo disco, lançado no final de 2025 em todas as plataformas digitais, “nasceu em Paris”, cidade onde o músico carioca, integrante da banda “A Cor do Som”, vive boa parte do ano. Todas as nove músicas são inéditas e interpretadas exclusivamente por mulheres. “O Mundo é o Meu Jardim” traz nove composições, alternando diferentes estilos musicais, como bossa nova, samba, jazz e pop. Mu Carvalho mostra que tem talento musical e também talento para semear parceiros e amigos. Cada música do disco tem letra de parceiros diferentes e é interpretada por cantoras diferentes. “Eu sou essencialmente um melodista. Se eu escrevi três ou quatro letras na minha vida, foi muito. Então, eu tenho um orgulho gigante de ter na minha trajetória parceiros incríveis, como Paulinho Tapajós, Aldir Blanc e Moraes Moreira, que foi meu parceiro de muitas músicas desde a época do comecinho da Cor do Som”, lembra. Há mais de cinco anos, o músico divide sua vida entre o Rio e Paris, onde passa vários meses do ano em um “cantinho bem charmoso entre o Invalides e a Tour Eiffel” para ficar mais perto de parte da família, radicada na França. “O Mundo é o Meu Jardim” reflete essas andanças e a carreira de Mu Carvalho, iniciada nos anos 1970, quando participou ao lado do irmão e baixista Dadi Carvalho da fundação da banda “A Cor do Som”. Músicas em vários idiomas O oitavo álbum solo traz música em vários idiomas: português, inglês, italiano e francês. A primeira faixa, "Je t'aime tout simplement", é uma bossa nova interpretada pela francesa Gabi Hartmann. A nova parceira também assina a letra da música. “Foi uma felicidade imensa fazer essa música com a Gabi. Eu quis colocar essa música começando o disco porque esse disco, essa ideia toda, nasceu aqui nesse cantinho na França, em Paris”, conta. Mu Carvalho não interpreta nenhuma das faixas. “A bandeira importantíssima” de fazer um álbum só de vozes de mulheres veio à tona quando ele pensou em quem poderia interpretar “Aconteceu em Búzios”, música em parceria com Tavinho Paes, escrita nos anos 1980. A faixa mais pop de “O Mundo é Meu Jardim” é interpretada pela cantora e guitarista Ana Zingoni, mulher e parceira de vida de Mu Carvalho. “Eu me reconheci muito nessa poesia, porque é a história que a gente vivia naquela época. A melodia é linda. Eu fiquei muito honrada com o convite. Mais um trabalho junto com meu parceiro de vida e de música”, diz Ana Zingoni. Segundo ela, “foi muito especial (participar do álbum) porque realmente as cantoras que ele selecionou são pessoas que eu admiro muito”. Zizi Possi interpreta samba O samba "Promessas Mis", interpretado no álbum por Zizi Possi, foi uma das últimas parcerias de Mu Carvalho com Moraes Moreira. O músico baiano, com quem o tecladista carioca começou a trabalhar ainda na adolescência, foi uma espécie de mentor da banda A Cor do Som. “Moraes é um parceiro assim da vida. Para você ter uma ideia, a primeira música, a primeira obra litero-musical que eu compus foi com ele”, confirma. “O Mundo é o Meu Jardim” também traz uma linda homenagem a Gal Costa, na música "Domingo Novo", composta em Paris. A letra é de Fausto Nilo, marcando a primeira colaboração entre os dois. Show em Paris? Mu Carvalho, que também é autor de trilhas sonoras de novelas de sucesso, nunca se apresentou em Paris, nem com “A Cor do Som”. Ele espera poder em breve fazer um show na capital francesa. “Eu estou muito empolgado com esse disco. Eu estou produzindo o vinil dele. A gente vai voltar no meio do ano e vamos ver se a gente começa a trabalhar um pouco mais por aqui. Vai ser um prazer”, antecipa. Também está no radar planos para festejar os 50 anos de “A Cor do Som”, em 2027. O último álbum da banda, o “Álbum Rosa”, vencedor do Grammy Latino, foi lançado em 2020. No mundo-jardim de Mu Carvalho há sempre vários canteiros para semear, “que tem que regar todo dia com emoção e alegria, como dizia Moraes Moreira”, conclui o músico. Clique na foto principal para ouvir a entrevista completa.
A actriz portuguesa Beatriz Batarda é madrinha e convidada especial da edição deste ano do festival "Olá Paris!" que mostra na capital francesa uma selecção de cinema português aberta ao público e aos profissionais do cinema francês. O Festival Olá Paris volta à capital francesa com uma segunda edição, destacando o trabalho dos realizadores e actores portugueses, com a estreia de vários filmes e uma nova madrinha. Se na primeira edição, esta distinção coube a Maria de Medeiros, em 2026 a madrinha do Festival Olá Paris, que decorre entre 6 e 8 de Março, é Beatriz Batarda, uma das actrizes mais destacadas da sua geração. Em entrevista à RFI, a actriz explica a sua afinidade com a França e com a língua francesa, assim como os dois filmes que protagoniza e que poderão ser vistos em Paris durante o Festival. “A minha família materna é francesa e emigrou para Portugal no final dos anos 30, se não me engano, e portanto ainda tenho alguma família em França e fiz aqui o Liceu Francês em Lisboa porque os meus avós faziam questão e por isso essa, essa relação com a cultura francesa esteve sempre viva. Como é que eu vou parar a este lugar através do convite? Não sei o que é que lhes passou pela cabeça convidarem-me, mas penso que terá sido também esta sensação de facilidade, não com a língua, porque eu já não falo tanto francês como como falava antes, mas essa compreensão, se calhar desse encontro, desse lugar, desse encontro das duas culturas. Eu sempre tive essa sensação de que eu não não era nem francesa nem portuguesa. Era um lugar próprio”, explicou a actriz. Em Paris, da primeira edição, onde esteve presente também com dois filmes, Beatriz Batarda guarda sobretudo as abordagens dos espectadores franceses, interessados no cinema pelo seu valor intrínseco, independentemente de ser ou não cinema português. Para esta edição, Beatriz Batarda assume ter tido algumas trocas com a organização e assume que as escolhas do cartaz são ousadas. Nesta segunda edição, Beatriz Batarda protagoniza dois dos filmes apresentados: “18 buracos para o Paraíso”, de João Nuno Pinto, e “O Vento Assobiando nas Gruas”, assinado por Jeanne Waltz a partir do romance de Lídia Jorge. Duas películas actuais e que falam de temas prementes tanto em Portugal como em França. “[O Vento Assobiando nas Gruas] Fala da impossibilidade de deixar o colonialismo para trás. É a utilização das mulheres para preservar uma postura machista e colonialista perante os outros. A personagem que eu interpreto é uma mulher que é completamente dominada pelo universo masculino e que para ganhar algum poder ou para se impor em relação ao resto da família, masculiniza-se ela própria e tem um pensamento muito pouco solidário com as mulheres, ou com a fragilidade ou com a diferença. E o filme do João Nuno não é menos pertinente, porque também é uma uma proposta com uma crítica interessante sobre a venda do território português aos grandes grupos que compram assim hectares e hectares e que depois tentam transformarem em resorts e ocupam uma zona do país mais a sul, que é muito bonita de facto e que é muito agradável e o clima é muito agradável, mas que tem poucos recursos de água. Essa água é preciosa para a agricultura e para o gado e para as populações locais. E, portanto, levanta essa questão dessa drenagem sem qualquer limite, sem qualquer regra. Dos poucos recursos da terra”, concluiu.
A participação brasileira na Wine Paris 2026 ganhou destaque entre os expositores internacionais e deixou os produtores brasileiros otimistas. Oito vinícolas de quatro estados – Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco – marcaram presença no salão francês, encerrado na quarta-feira (11), que se consolidou como uma das maiores vitrines globais do setor. Adriana Moysés, da RFI em Paris Com apoio da ApexBrasil, as empresas exibiram a diversidade da viticultura brasileira e comemoraram a boa acolhida de compradores e especialistas europeus. Criada em 2019, a Wine Paris se transformou em um encontro obrigatório do calendário mundial do vinho, que reuniu, no ano passado, mais de 5.400 expositores de 154 países. É essa dimensão, somada ao dinamismo comercial, que tem atraído cada vez mais vinícolas brasileiras. Entre os produtores estreantes, a Salton disse estar impressionada com a magnitude do evento. O gerente de negócios internacionais da vinícola, com sede em Bento Gonçalves (RS), César Baldasso, reconheceu que a Wine Paris superou as expectativas. “A gente está totalmente surpreendido. É uma feira de altíssima qualidade, com um movimento muito grande – e um movimento de qualidade. As reuniões foram excelentes, compradores realmente interessados no Brasil. Saímos daqui certos de que voltaremos no próximo ano”, disse Baldasso. Ele também destacou o papel crescente dos espumantes brasileiros no mercado internacional. “O espumante brasileiro é um grande diferencial, o melhor espumante do hemisfério sul – e, por que não, entre os melhores quando consideramos o Velho Mundo?” Miolo reforça diversidade e aposta no futuro Também gaúcha, a Miolo participou pela segunda vez da Wine Paris. Para Lúcio Motta, líder da área de exportação, o interesse dos compradores segue forte, especialmente pelos espumantes, mas não só. “O espumante é o interesse inicial, mas os tintos e brancos têm procuras similares. Os importadores ficam impressionados com a quantidade de uvas que produzimos e com nossa capacidade de trabalhar em diferentes níveis de preço”, afirmou Motta. Durante a feira, houve um debate sobre as consequências do Acordo Comercial Mercosul–União Europeia, que, ao derrubar as tarifas de importação para zero no caso dos vinhos, pode impactar a competitividade das bebidas nacionais. Atualmente exportando para seis países europeus – França, Itália, Alemanha, República Tcheca, Suécia e Malta –, além de outros mercados pelo mundo, o representante da Miolo encara o futuro com confiança. “A preocupação existe, claro. Mas também vemos uma oportunidade. Quem ainda não exporta precisa começar a pensar nisso, porque o mercado brasileiro ficará mais competitivo. Vamos ter que buscar novos mercados e essa expansão já está no nosso horizonte há 30 anos”, disse Motta. Vinhos de Minas Gerais A Serra da Mantiqueira esteve representada pela Casa Almeida Barreto, que participou pela primeira vez de uma feira internacional. Para Jorge Almeida, a expectativa foi superada. “Muita gente está curiosa para explorar vinhos do Brasil. Trouxemos vinhos jovens, frescos, da safra 2024, sem passagem por barrica, para deixar a fruta falar mais. A altitude de 1.300 metros nos dá acidez alta e complexidade. A resposta tem sido muito positiva”, apontou Almeida. Na mesma região, a vinícola Barbara Heliodora iniciou sua produção há cerca de oito anos e chamou a atenção por ter conseguido desenvolver, em pouco tempo, vinhos complexos e longevos, segundo o sommelier Marcos Medeiros. “A Mantiqueira produz vinhos elegantes e frutados, graças à amplitude térmica. As uvas que melhor se adaptaram foram a sauvignon blanc e a syrah. Desde 2018, fazemos de um rosé delicado a uma Grande Reserva com até 24 meses em carvalho. Os franceses estão adorando – é um vinho diferente, vindo de um país tropical”, comentou o sommelier. Do Vale do São Francisco à capital francesa A pernambucana Verano Brasil mostrou na feira a singularidade da produção no Vale do Rio São Francisco, região do paralelo 8 onde é possível colher uvas o ano inteiro. O diretor comercial Evandro Giacobbo trouxe dois estilos nos rótulos apresentados. "O primeiro, mais despojado, tropical, jovem e refrescante – pensado para encantar um público iniciante. E a linha Garziera, mais tradicional, com varietais de malbec, cabernet sauvignon e chardonnay. É a jovialidade do Vale do São Francisco chegando a Paris”, celebrou. A Wine Paris 2026 ocupou nove pavilhões no Parque de Exposições da Porte de Versailles. Entre seus corredores movimentados, os produtores brasileiros encontraram não apenas compradores interessados, mas uma verdadeira oportunidade de reposicionar a imagem do Brasil no cenário internacional como um país de diversidade vitivinícola.
Empresa portuguesa em França oferece transporte até ao local da votação, para a segunda volta das presidenciais, no próximo domingo. Pode ser fraude eleitoral, denúncia foi feita pela candidatura de António José Seguro.
A exposição “Global Warning”, em exibição no Jeu de Paume, em Paris, até maio de 2026, oferece uma perspectiva analítica e satírica ao mesmo tempo sobre a obra de Martin Parr, que morreu em 5 de dezembro do ano passado, aos 73 anos. O título da mostra faz alusão ao termo aquecimento global (global warming, em inglês), para sinalizar um alerta sobre o estado do mundo contemporâneo. Patrícia Moribe, da RFI em Paris O curador da mostra e diretor da instituição parisiense, Quentin Bajac, explicou à RFI que o foco da mostra recai sobre os "disfuncionamentos de nossas sociedades", que estão na origem de muitos desequilíbrios climáticos. “Propus o tema a Martin Parr há uns dois anos e ele aceitou na hora”, conta Quentin Bajac. “Ele estava bastante empolgado com a ideia de fazer uma exposição talvez um pouco mais séria sobre o trabalho dele do que o habitual. E então, trabalhamos juntos, fizemos a seleção das obras juntos. Depois, ele me deixou cuidar de toda a parte de cenografia da exposição, pesquisa de autores para o catálogo etc. Mas durante um ano e meio, a gente se comunicou regularmente sobre o projeto.” “Martin trabalhou sobre temas sérios e, em particular, sobre os disfuncionamentos, eu diria, de nossas sociedades ocidentais, Europa e Estados Unidos e, em seguida, ocidentalizadas, como China, Oriente Médio etc. São disfuncionamentos que estão na origem de muitos dos desequilíbrios climáticos, como o consumo excessivo, o turismo planetário, nossa relação com os animais, que também é um eixo da exposição, nossa relação com a tecnologia, o smartphone, o carro, telas de todos os tipos, a maneira como modificamos as paisagens”, acrescenta Bajac. Martin Parr em São Paulo Essa visão crítica e irônica sobre a sociedade de consumo também foi o pilar da exposição "Parrtifícial", realizada no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, em 2016 sob a curadoria de Iatã Cannabrava. “Foi uma doideira”, relembra o fotógrafo e curador brasileiro. “Logo na entrada de um salão grande com um pé direito triplo, tinha lá ele, em vídeo, falando assim: 'Venha para este mundo de consumo, lembrando que você também é um produto'”. Para o curador, a genialidade de Parr residia na sua capacidade de inclusão, observa que o fotógrafo e sua esposa chegaram a posar para o livro Bored Couples (Casais Entediados), dizendo que "mais importante do que ser irônico com o mundo é nos incluir nessa ironia também". Além de sua contribuição visual, Parr é celebrado por seu papel na democratização da fotografia e na valorização do fotolivro. Iatã Cannabrava descreve o fotógrafo como o "workaholic mais alucinado" que já conheceu, alguém capaz de manter controle absoluto sobre sua produção, mas que sempre demonstrou enorme generosidade." "Democrata da fotografia" Cannabrava afirma que Parr não apenas revolucionou, mas somou ao conceito de fotografia pública, ajudando a difundir narrativas visuais para todos os públicos e colaborando ativamente na história do fotolivro latino-americano. Por esse esforço em tornar a fotografia acessível e por sua influência global, o curador brasileiro define Martin Parr como o "maior democrata da fotografia mundial". Em 2014, foi inaugurada a Fundação Martin Parr, em Bristol, sudoeste da Inglaterra, para abrigar o acervo do artista, coleção de impressões e dummies (projetos de livros) feito por outros fotógrafos, principalmente britânicos e irlandeses. A trajetória incluiu a superação de resistências internas para ingressar na prestigiosa agência Magnum, em 1994, da parte de uma parte dos integrantes, partidários de uma representação mais humanista. Mas o estilo de Parr o consolidou como um artista de muitas camadas, cujo trabalho lúdico esconde uma leitura mordaz e documental sobre a banalidade da vida cotidiana e seus desdobramentos. “Global Warning” fica em cartaz no Jeu de Paume até 25 de maio de 2026.
O livro “Percursos Clandestinos Antifascistas” conta a história de uma família que lutou contra o fascismo em Portugal, durante a ditadura do Estado Novo. As memórias foram escritas por Gonçalo Ramos Rodrigues, hoje com 93 anos, mas que tinha apenas nove quando entrou na clandestinidade com os pais e os irmãos. “Este livro fala de um período em que eu vivi na clandestinidade”, começa por contar Gonçalo Ramos Rodrigues, na sua casa, na zona de Paris, pouco tempo depois de publicar “Percursos Clandestinos Antifascistas”. A conversa sobre este livro e a sua publicação estavam prometidas há quase dois anos, quando Gonçalo recebeu a RFI para nos contar a sua história, no âmbito dos 50 anos da Revolução dos Cravos. “Percursos Clandestinos Antifascistas” conta a história de uma família que se dedicou totalmente à luta contra o fascismo em Portugal, durante a ditadura do Estado Novo. As memórias foram sendo escritas por Gonçalo, hoje com 93 anos, mas que tinha apenas nove quando entrou na clandestinidade com os pais e os irmãos. A luta começou por ser feita em casas e tipografias clandestinas, pilares da luta do partido comunista, primeiro em família e depois separados e sem notícias uns dos outros para não comprometerem ninguém. O irmão viria a ter a sua própria tipografia clandestina, uma irmã viria a ser a locutora principal da Rádio Portugal Livre, a outra a voz da Radio Moscovo. Os pais acabariam denunciados e passariam anos nas prisões de Caxias e de Peniche, enquanto Gonçalo daria o salto para Paris. “Estes episódios foram escritos para que os meus netos, quando tivessem já idade de reflectir nestas coisas, pudessem saber que o avô também participou na luta pela liberdade em Portugal porque nunca foi minha intenção e não me passou pela cabeça ser publicado”, conta. O livro foi mesmo publicado com o apoio da Câmara Municipal de Loulé, o concelho do Sul de Portugal de onde ele e a sua família são oriundos. O trabalho é também uma homenagem aos pais e à sua abnegação na luta pela liberdade. Gonçalo Ramos Rodrigues começa por contar que foi em 1951 que os pais entraram na clandestinidade com os seus quatro filhos, depois de terem vendido a casa construída com as poupanças feitas em França e de terem oferecido esse dinheiro ao Partido Comunista. Com os pais, passou 12 anos na clandestinidade, a viver em casas e tipografias clandestinas: editaram jornais do partido, como o “Avante”, o “Militante”, “A Terra”, o “Corticeiro”, e outros materiais; abrigaram camaradas e acolheram reuniões do partido proibido pela ditadura. Mais tarde, em 1963, quando já não estava com os pais, estes foram presos pela polícia política. Manuel, o pai, passou sete anos no Forte de Peniche. A mãe, Lucrécia, esteve seis anos e meio em Caxias. Foi só em 1966, já em Paris, que Gonçalo passou a conhecer o paradeiro dos pais, graças a um camarada do partido que conheceu nos bastidores da festa do jornal comunista Humanité. “Olha, os teus pais estão presos desde 1963. O teu pai está em Peniche e a tua mãe está em Caxias”, revelou-lhe o camarada. “Imagine-se o quanto este episódio me entristeceu e, ao mesmo tempo, me encorajou para lutar pelos ideais que os levaram à prisão”, recorda à RFI. O motivo de detenção de Manuel e Lucrécia era serem “membros e funcionários do PCP” e por exercerem as chamadas “actividades delituosas contra a segurança do Estado”. Ou seja, por imprimirem materiais com palavras de ordem para as lutas que os comunistas organizavam contra o regime de Salazar. Ao longo das páginas do seu livro, Gonçalo remonta aos tempos em que lutou com os pais, desde as casas que eram “pontos de apoio” para os camaradas comunistas na clandestinidade, às tipografias clandestinas. Descreve que “mentir era uma arte” num dia-a-dia em que se vivia com falsas identidades e se mudava constantemente de casa, em que de dia se trabalhava na quinta e à noite na tipografia. “Já tinha 14 anos e a minha irmã mais nova tinha nove. Os dois, mesmo crianças, éramos os principais, digamos, compositores. Chamava-se compor os textos com as letras de chumbo que depois eram inseridas no prelo para impressão (…) Era eu quem sabia melhor o português de todos os da casa porque o meu pai quase não sabia ler, a minha mãe só aprendeu a escrever na prisão de Caxias, quando esteve seis anos presa, e a minha irmã ainda menos sabia. Quem corrigia os textos, as gralhas, tudo o que havia, era o Gonçalo”, lembra, ainda, à RFI. A repressão e a detenção de camaradas obrigava a intensos “cuidados conspirativos” e Gonçalo foi depois viver sozinho em diferentes cidades. Aos 24 anos foi “a salto” para França, onde militou na Comissão de Solidariedade aos Presos Políticos e participou nas brigadas de distribuição de propaganda e de recolha de fundos para ajudar os que estavam nas cadeias da ditadura portuguesa. Em Paris, foi várias vezes interrogado por funcionários da então DST, Direcção de Segurança Territorial – equivalente aos serviços de informações – que conheciam o seu percurso de opositor político ao regime português. Por terras de França, a luta fez-se ao lado da esposa, Maria do Céu, com quem deveria ter casado em Maio de 68, mas as greves e manifestações históricas desse mês adiaram a boda que aconteceu em Junho, mas ainda com gases lacrimogéneo a apimentar a história. “Mesmo depois de chegar aqui, em Janeiro de 1966 até ao 25 de Abril de 1974, estivemos sempre na brecha, sempre na luta em tudo o que aqui se fazia contra o regime em Portugal. A minha companheira sempre me acompanhou durante todo este período, trabalhou muito mais do que devia porque eu estava sempre ocupado com reuniões infindáveis e quase diárias. Ela trabalhava também e tínhamos uma filha e ela carregava com o trabalho todo da casa e ainda quando podia, ela assistia a tudo o que era manifestações de rua e debates que se faziam aqui em França até ao 25 de Abril, até ao dia em que a gente acordou ainda sem saber se estávamos livres, mas já com uma grande esperança de estarmos livres.” Cinquenta e dois anos depois do 25 de Abril de 1974 e do fim da ditadura do Estado Novo, o livro “Percursos Clandestinos Antifascistas” recorda os tempos sombrios da perseguição política, da miséria, da prisão e da tortura de quem lutava contra o fascismo e ansiava pela liberdade. O livro é também um alerta perante a subida histórica da extrema-direita meio século depois em Portugal.
A Fundação Cartier para a Arte Contemporânea abriu suas portas em um novo endereço em Paris, dessa vez em frente ao Louvre, com projeto do renomado arquiteto Jean Nouvel. A mostra inaugural, intitulada “Exposição Geral”, reúne cerca de cem artistas e celebra 40 anos de programação, conectando diversidade, história e cidade. O espaço transparente, com plataformas ajustáveis, cria uma experiência inédita, onde arquitetura e arte dialogam com o dinamismo cultural e artístico da capital francesa. A Fundação Cartier para a Arte Contemporânea abriu em outubro de 2025 um novo capítulo de sua história na capital francesa, dessa vez em frente ao Louvre, em um edifício reinventado pelo arquiteto Jean Nouvel. A mostra inaugural percorre quatro décadas de criação contemporânea a partir do acervo da instituição. Concebida como um diálogo entre arquitetura, cidade e memória artística, a mostra revisita o papel da Fundação na trajetória de inúmeros criadores, entre eles o francês Jean-Michel Othoniel, para quem a exposição representa “um pouco da própria juventude” e o início de um vínculo decisivo com o mundo da arte. “Essa exposição é muito emocionante para mim. Ela representa um pouco da minha juventude, da minha formação, é quem eu sou", relatou à RFI. "Tive a sorte de iniciar um diálogo com a fundação em 1988, com Marie-Claude Beaud, que me ofereceu minha primeira residência artística. Depois disso, a instituição continuou me acompanhando, adquiriu obras de diferentes períodos do meu trabalho, inclusive da época em que participei da Documenta. Em 2004, realizamos uma grande exposição, minha primeira individual em Paris, que me tornou conhecido pelo público dos museus parisienses.” O espaço projetado por Jean Nouvel aposta na transparência e na circulação livre. Cinco plataformas ajustáveis permitem acomodar obras monumentais ou intimistas, enquanto volumes tridimensionais e pontos de vista de 360 graus oferecem uma experiência inédita de observação e circulação. “Jean Nouvel desconstruiu a linearidade da história da arte”, explica Béatrice Grenier, diretora de programação da instituição. “Isso nos permite trabalhar com artistas e propor uma nova narrativa da história da arte, conectando o interior da Fundação à cidade e ao patrimônio histórico que nos rodeia.” Entre os artistas presentes estão nomes internacionais como Olga de Amaral (Colômbia), Sally Gabori (Austrália), Chéri Samba (República Democrática do Congo), Damien Hirst (Reino Unido) e Joan Mitchell (Estados Unidos). “O objetivo era traçar um retrato da Fundação Cartier para a Arte Contemporânea em seu novo endereço, nas duas praças do Palais-Royal, em pleno coração de Paris, em frente ao Louvre e também diante de uma das mais antigas praças públicas da cidade, a Praça do Palais-Royal", destaca Garnier, que é co-curadora da exposição inaugural da nova Fundação Cartier. "A questão era justamente esta: como fazer isso? Como apresentar, ao mesmo tempo, as linhas estruturantes de uma coleção construída ao longo da programação da Fundação nos últimos 40 anos e, ao mesmo tempo, sugerir os temas que a Fundação Cartier pretende continuar defendendo no futuro de sua programação?”, sinalizou à RFI. Desconstruir a linearidade da história da arte Grenier detalha a opção estética no design do novo espaço. “O arquiteto Jean Nouvel refletiu profundamente sobre essa questão. Ele é o autor do Instituto do Mundo Árabe, [do antigo prédio] da Fundação Cartier no boulevard Raspail, inaugurado em 1994, e também concebeu o Museu do Quai Branly, além do Louvre de Abu Dhabi. Este último se insere, de certa forma, em um percurso de reflexão sobre a evolução da museografia", afirmou. "O percurso da mostra é fundamental porque Nouvel propôs um plano circular, no qual diferentes objetos, de distintas civilizações, são organizados em uma mesma linha do tempo. O que ele faz com esse edifício é justamente desconstruir a linearidade da história da arte", sublinhou Grenier. "Esse princípio aparece claramente no novo prédio da Fundação Cartier. Em vez de um espaço bidimensional, organizado por uma sucessão linear de paredes expositivas, temos volumes. Isso permite conceber exposições em espaços que oferecem pontos de vista de 360 graus sobre as obras e sobre a própria exposição.” A mudança para um endereço central permite à Fundação Cartier aproveitar o fluxo de visitantes do Louvre e se integrar a um eixo cultural estratégico da cidade, que inclui também a Comédie-Française, o Museu de Artes Decorativas e a Bourse de Commerce, onde fica a coleção privada de François Pinault. A Fundação possui hoje cerca de 4.500 obras, e a exposição rotativa apresenta aproximadamente 600 trabalhos. A "Exposição Geral" fica em cartaz na nova sede da Fundação Cartier até 23 de agosto de 2026.
É como se fossem os Jogos Olímpicos do circo. Durante quatro dias, os melhores artistas de 18 países se apresentam no Festival Mondial du Cirque de Demain, ou Festival Mundial do Circo do Amanhã, em Paris. Diante de um júri especializado, eles disputam medalhas, prêmios e contratos com companhias renomadas. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris Entre os candidatos desta 45ª edição, está o brasileiro Vitor Martinez Silva, de 21 anos. Natural de São José do Rio Preto, ele se mudou para o Canadá aos 13 anos, para estudar na Escola Nacional de Circo de Montreal. Era o começo de um sonho de infância. "Eu me lembro de já estar consumindo espetáculos de circo em DVD ou na minha cidade e uma vez, com 6 anos, eu encontrei um brinquedo no supermercado que parecia um número de um espetáculo de circo que eu assistia. Eu comecei a treinar, a decodificar os truques do diabolo", lembra ele, em entrevista à RFI. "Assisti ao espetáculo em câmera lenta com meu pai e daí surgiram os meus treinos, que me levaram a me mudar para Montreal, na capital do circo, para terminar meus estudos de ensino médio e colegial e começar minha carreira como artista circense", diz. Vitor explica que além do aspecto físico, ele precisa trabalhar as emoções. "A gente quer passar uma mensagem, então tem a parte teatral, que vem da alma. Porém, tem um aspecto físico que tem que respeitar, de mobilidade do corpo, força, flexibilidade, dança. Circo é um conjunto de várias artes." O brasileiro se apresenta no diabolo, modalidade muito comum na Ásia, que ele diz praticar com um tempero brasileiro. O seu ato se chama Bird Dust, criado por Silva há dois anos. "Foi o meu número de formatura da minha escola de circo em Montreal, e tem vários elementos muitos pessoais para mim. Fala sobre falta de liberdade e vários outros temas", afirma. "Eu quero tentar mostrar para o mundo uma maneira diferente de executar esse aparelho", desafia. Catalisador de carreiras O treinador de Vitor deixou o picadeiro para se dedicar à formação de novos artistas. Nicolas Boivin-Gravel contou a RFI os requisitos para se tornar uma estrela e elogiou o brasileiro. "O Vitor tem uma presença de cena muito forte, uma conexão com o público. Ele se movimenta muito bem com o diabolo, faz movimentos acrobáticos únicos", avalia. "É um número muito antigo de circo, há muitos taiwaneses e japoneses que o praticam. E agora as pessoas o adaptam de forma mais esportiva e artística", completa. Atualmente, Nicolas Boivin-Gravel é diretor acrobático do famoso Cirque du Soleil, onde muitos dos concorrentes sonham trabalhar um dia. "Aqui é um lugar excepcional para vermos muitos talentos. Muitos nós já vimos em vídeos, os conhecemos, mas é o momento de verificar se são bons de verdade, se têm uma presença, uma aura no palco. E aí vamos falar com eles. Paris é um dos maiores momentos de encontro para o mundo do circo", observa. Em plena era digital, o circo continua fascinando plateias no mundo inteiro. "Este é um festival que nasceu em 1977, direcionado aos novos talentos. É um dos mais antigos do mundo", explica Pascal Jacob, diretor artístico do festival e do Cirque Phênix, onde acontecem as apresentações. "Nós sempre procuramos dar destaque e valorizar os jovens artistas que vêm de escolas, de famílias ou são autodidatas", salienta, definindo o encontro como "um catalisador de carreiras". Para Jacob, se o circo ainda atrai público é porque se trata de uma atividade verdadeira. "Nós não trapaceamos. O público sabe por que veio, os artistas sabem por que estão lá, e há realmente uma troca", define. "Eu penso que a força do circo, diferentemente da dança e do teatro, é que ele tem algo particular, que é uma relação com o risco e com a vida, e o público vem ver algo que não verá em outro lugar. A força do circo é agora, nesse instante, nesse momento", conclui. Para o brasileiro Vitor, é esse encontro com a plateia que faz todo esforço valer a pena. "Esse contato, essa troca de energia, eu dou ao público e recebo essa troca vital", completa. "É muito bom poder fazer parte de espetáculos em que a gente pode fazer o público esquecer o que acontece no mundo por alguns minutos, algumas horas. Esse é o nosso trabalho: dar uma pausa na realidade e nas coisas ruins que acontecem hoje em dia e viver um mundo alternativo", afirma. "Olimpíadas do Circo" Como os demais participantes, Vitor Martinez Silva sonha sair de Paris empregado – mas já se sente um vencedor de estar entre os selecionados. "Esse festival é muito conhecido por começar carreiras, longas carreiras. Eu tenho vários amigos que tiveram sucesso de dez anos após o festival, com contratos em diversas companhias circenses. Todo mundo acaba ganhando só de estar aqui, porque é um festival muito conhecido, de muito prestígio, como se fosse nível de Olimpíadas no circo", compara. Por causa da carreira, ele conta que vai pouco ao Brasil, mas não reclama da falta de tempo. "A minha relação com o Brasil é distante. Eu não consigo ver minha família, é minha família que tem que seguir as minhas viagens", relata. "Mas tem muito do Brasil dentro de mim. É a forma de ser, de conversar, de falar, de ver o mundo. A gente tem uma alegria. São poucos lugares onde a gente encontra pessoas assim", observa.
A atriz Maria Fernanda Cândido apresenta em Paris Ballade au-dessus de l'abîme (Balada acima do abismo, tradução livre), de 21 de janeiro a 1º de fevereiro de 2026, no Théâtre du Soleil, em Paris. Com direção de Maurice Durozier e o piano sublime de Sônia Rubinsky como personagem e presença, o espetáculo coloca em perspectiva e faz dialogar Brasil e França, literatura e música, revelando a intensidade e as contradições de Clarice Lispector. O Théâtre du Soleil é um dos espaços mais emblemáticos do teatro contemporâneo francês. Fundado por Ariane Mnouchkine em 1964, o local é reconhecido internacionalmente pelo trabalho coletivo, estética rigorosa e forte dimensão política e humanista, sendo referência da cena europeia, embora ainda pouco conhecido do público brasileiro em geral. O espetáculo propõe um diálogo intenso entre literatura e música, atravessando a obra de Clarice Lispector desde a infância até a sua morte, e a espiritualidade da autora. Maria Fernanda observa que, ao invés de pensar num abismo entre palavra e música, "é mais justo imaginar uma ponte, uma ligação, porque, nesse diálogo, as conexões vão se criando de maneira muito orgânica, muito intensa e muito real”. As músicas, escolhidas com precisão, "não são um simples fundo sonoro, mas interlocutor do texto, ajudando o público a compreender o universo afetivo e literário da autora", explica a atriz. Nesse sentido, a presença de compositores como Sergei Rachmaninov (1873-1943), Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e Alberto Nepomuceno (1864-1920) não é "aleatória". Maria Fernanda explica que “não é à toa que escolhemos Rachmaninov, porque existe uma nostalgia eslava muito presente na obra da Clarice, na própria história de vida dela”, enquanto a música brasileira traduz a brasilidade profunda da autora. Clarisse e a paixão pela língua portuguesa Villa-Lobos e Nepomuceno trazem esse universo em contraponto com algo distante geograficamente, como Rachmaninov, criando um diálogo entre o Nordeste – "especialmente Recife, onde Clarice cresceu" – e outras paisagens afetivas. Esse Recife aparece como fonte de memórias e experiências que atravessam os contos abordados no espetáculo, como Águas do Mundo, Restos de Carnaval e A Repartição dos Pães. Ao falar do desafio de condensar a obra de Clarice Lispector em cerca de 70 minutos, Maria Fernanda afirma que foi inevitável incluir a paixão visceral da escritora pela língua portuguesa. “Clarice expressa isso de maneira tão clara e tão exposta que emociona profundamente”, diz a atriz, citando o trecho em que a autora afirma ter feito da língua portuguesa sua vida interior e seu pensamento mais íntimo. Para ela, é comovente imaginar a fricção constante entre a ponta do lápis e a folha em branco: a vocação para a escrita é um dos eixos centrais da peça. “Não tinha como não incluir o momento em que a obra fala do ato de escrever”, diz, sobre um trecho que aprecia particularmente. Leia tambémMaria Fernanda Cândido leva frescor para coleção francesa de audiobooks de Clarice Lispector Questionada sobre o que teria sido impossível levar à cena, a atriz relativiza: "a vastidão da obra naturalmente deixou de fora muitos aspectos, o que despertou o desejo de criar outros espetáculos no futuro". Maria Fernanda revela que já existe a ideia de uma nova criação no mesmo formato, mas dedicada a outros temas. O "arco dramático" de Ballade au-dessus de l'abîme, segundo ela, é bem definido: o espetáculo parte da concepção de Clarice – de como e por que ela nasceu – e segue até sua morte, atravessando infância, vida adulta, uma relação amorosa marcada por erotismo, o ato de escrever, a paixão pela língua portuguesa e o lado espiritual da autora. A peça se encerra justamente nesse momento final. Para Maria Fernanda, o espetáculo funciona como uma "porta de entrada para o universo de Clarice Lispector", capaz de dialogar tanto com leitores já familiarizados com a obra quanto aqueles que nunca tiveram contato com ela, oferecendo uma experiência singular do mundo literário da autora. “O piano como personagem que toca a alma” A pianista Sônia Rubinsky, reconhecida internacionalmente por suas interpretações de Villa-Lobos e de clássicos do cânone russo e mundial, dá ao piano um papel de verdadeiro personagem, criando pontes entre palavra e música. Para Sônia, “ é um diálogo absolutamente, que não dá para separar uma coisa da outra”. O piano "influencia o ritmo emocional da peça, estando sempre presente, intensificando a experiência sensorial e emotiva", afirma. "A música não apenas acompanha, mas elucida e amplia a compreensão do texto de Clarice", sublinha Rubinsky. O repertório, cuidadosamente escolhido, dialoga com a obra, reforçando a intensidade das emoções e permitindo que o público sinta o ritmo, a poesia e a tensão de cada cena. Entre Rachmaninov, Villa-Lobos e Nepomuceno, a música cria conexões entre geografias, afetos e lembranças, tornando-se mediadora da narrativa literária e emocional. “O piano chama a alma à tona, toca a alma do texto e do público. Muitas vezes, eu e Maria Fernanda estamos à beira da emoção máxima – eu, com as palavras, e ela, com a música – e entramos numa sintonia muito rica”, comenta a pianista. O olhar francês sobre Clarice A versão francesa, dirigida por Maurice Durozier, traz um olhar distinto sobre Clarice. O diretor enfatiza que sua função foi a direção cênica, não a tradução literal, transformando a escrita da autora em imagens e emoções para o público francês. “Não tentei fazer o retrato da Clarice Lispector, mas me concentrei nas imagens e nas emoções que provocava o texto. Descobri uma mulher com dor constante e uma vontade de entender o que aconteceu no seu mundo interior”, explica. Durozier destaca a complexidade do texto, permeado de contradições e uma honestidade singular: “Muitas vezes ela começa tentando explicar algo e, no final, percebe que a verdade não existe realmente: há várias possibilidades da realidade”. Para o diretor, trabalhar com Maria Fernanda e Sônia Rubinsky foi uma revelação: “No espetáculo, o texto e a música têm o mesmo valor, se respondem constantemente: o texto inspira a música e a música inspira o texto em uma balada.” Essa interação cria uma camada adicional de percepção, guiando toda a pesquisa durante os ensaios e aproximando o público da intensidade da obra clariceana, segundo Durozier, um habitué da trupe do Soleil de Ariane Mnouchkine, com quem já trabalhou diversas vezes. Maria Fernanda Cândido observa as diferenças entre as concepções brasileira e francesa da peça. "A montagem brasileira é iluminada, etérea e diáfana, com figurinos esvoaçantes, enquanto a leitura francesa é mais austera e áspera, refletindo a cultura local", diz. Para a atriz, poder transitar entre essas duas experiências é um privilégio raro. “Como atriz, posso viver as duas experiências ao mesmo tempo, e isso é muito especial.” Ballade au-dessus de l'abîme fica em cartaz no Théâtre du Soleil até o dia 1° de fevereiro de 2026.
Inácio Pereira analisa a situação do pais que o viu crescer. No Brasil, em Roraima, Paulo Inácio, vê todos os dias venezuelanos atravessarem a fronteira. Democracia é tema de iniciativa da Literanto. Edição Paula Machado
A Triptyque Architecture celebra 25 anos com a exposição Corps mort / Corps vivant, em Paris. Fundado por Olivier Raffaëlli e Guillaume Sibaud, o escritório franco-brasileiro construiu sua longa trajetória entre o rigor modernista europeu e a experimentação tropical. A mostra reúne maquetes que tensionam permanência e transformação, de ocas do Xingu a torres paulistanas, passando por uma Brasília distópica. O diálogo traduz uma arquitetura híbrida, capaz de unir tradição e futuro. Ao celebrar a trajetória, os profissionais revisitam sua história marcada pela ponte entre França e Brasil. Os arquitetos Olivier Raffaëlli e Guillaume Sibaud lembraram que essa ligação não nasceu de um plano prévio, mas de uma paixão inesperada. “Foi um amor à primeira vista no Rio de Janeiro. Sem projeto organizado de permanecer, acabamos ficando. Eu vivi 15 anos de modo permanente, sem voltar à França. Isso mostra o tamanho do vínculo com o país, onde, além de desenvolver a Triptyque, também fundamos nossas famílias, hoje franco-brasileiras”, contou Sibaud. Entre a floresta e o concreto: o Rio como manifesto Ao refletir sobre o olhar brasileiro sobre os espaços, eles destacaram a singularidade do Rio de Janeiro. “É uma cidade manifesta, inacreditável. Ela expressa o encontro entre a força da natureza e a arquitetura. No meio da cidade, há uma floresta quase nativa, confrontada com uma construção moderna e densa. Esse contraste nos inspirou a pensar a arquitetura de forma diferente, criando novos conceitos a partir dessa relação entre cidade e natureza”, ressaltou Raffaëlli. A exposição traz também uma maquete de Brasília, que provoca uma visão utópica (ou distópica) da capital. “Essa invasão da natureza nos seduz porque não foi prevista, mas negada. O modernismo afirmava o controle da natureza, impondo uma ordem cultural sobre a ordem natural. No Brasil, isso funcionou até certo ponto. A Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, por exemplo, foi construída em um morro desmatado e hoje está reabsorvida pela vegetação. Essa tensão entre vigor tropical e arquitetura humana é central. A maquete de Brasília traz ainda uma provocação: pensar a cidade permitindo o retorno da natureza e dos povos originários, revisando afirmações modernistas que foram autoritárias, ainda que belas e refinadas”, explicou Sibaud. Ao descrever a exposição, os arquitetos ressaltaram a dificuldade de traduzir maquetes em palavras, já que a arquitetura é, para eles, uma “extensão do corpo humano”. “De forma simples, a mostra se organiza em dois eixos: construções mais tradicionais e construções mais modernas. No eixo moderno, há torres de concreto e madeira, projetos urbanos. No eixo tradicional, ocas e construções menores, de poucos andares. A ideia é criar uma hibridação entre arquitetura urbana e vernacular, entre ordem artificial e ordem natural. Pensamos a arquitetura não mais como objeto morto, mas como corpo vivo, capaz de várias vidas, reciclável, sensual e menos utilitário”, detalhou Raffaëlli. Corpos mortos e corpos vivos: a arquitetura em reinvenção Guillaume Sibaud acrescentou que essa tensão entre forças define a arquitetura do futuro. “É preciso inscrever o ato de conceber prédios nas preocupações ambientais e nas limitações de recursos. A arquitetura não pode ser apenas demolição e reconstrução. Ela deve sobreviver a si mesma”, disse. “Por isso, criamos figuras conceituais que ajudam a pensar essa sobreposição: o que permanece e o que muda. Chamamos de corpo morto o que é essencial e duradouro, mas que também tem várias vidas. Já o corpo vivo é o uso mutável: hoje hotel, amanhã escritório, depois moradia. Ele precisa ser maleável e reprogramável. Essa reflexão nos leva a olhar para arquiteturas mais primitivas, que oferecem repertórios ricos e livres para os arquitetos contemporâneos”, sublinhou. A diversidade das maquetes reforça esse diálogo. “No Xingu, as ocas são consideradas seres vivos: têm boca, pernas, são descritas como corpos. Já em São Paulo, as torres são vistas como objetos inertes, de consumo. Nosso caminho criativo é reconceitualizar esses corpos mortos das cidades, onde a maioria vive, transformando-os em corpos vivos. O Xingu nos ensina muito e inspira caminhos para recriar uma arquitetura bela, emocionante, que faça sentido ecológico e emocional”, destacou Raffaëlli. Sobre os projetos futuros, os dois revelaram que o escritório vive a felicidade de atuar simultaneamente no Brasil e na França. “No Brasil, estamos desenvolvendo prédios educacionais, uma biblioteca para o Instituto Cervantes em São Paulo e fomos selecionados para projetar um estádio em Minas Gerais. Queremos expandir nossa prática em instituições nos dois países, além de continuar com projetos de habitação, escritórios e hotéis. Essa diversidade nos ajuda a refletir sobre o mundo contemporâneo. O Brasil marcou profundamente nossa trajetória e continuará a marcar. Queremos ser brasileiros na França e franceses no Brasil”, afirmou Sibaud. A exposição Corps mort / Corps vivant fica em cartaz de 18 de dezembro de 2025 a 17 de janeiro de 2026 em Paris.
O Museu Guimet apresenta em Paris a exposição “Mangá. Uma arte completa!”, uma imersão nas origens e na evolução do mangá. A mostra reúne obras raras, revistas históricas e peças das coleções japonesas para revelar tradições, influências ocidentais e a força criativa de mestres dos séculos 20 e 21 — uma viagem ao universo que transformou o mangá em verdadeiro fenômeno global. Márcia Bechara, da RFI em Paris Em vitrines e painéis, visitantes percorrem séculos de narrativas gráficas japonesas, do teatro nô às primeiras experiências com animação, passando pelo humor satírico da imprensa e pela explosão de gêneros que marcou o século 20. A curadoria é assinada por Estelle Bauer, que sublinha o ineditismo da iniciativa. “Eu acho que é a primeira vez que mangás são expostos em um museu de Belas Artes, numa instituição parisiense. Eles estão muito curiosos no Japão com os resultados dessa exposição”, refletiu. A declaração resume o impacto institucional dessa entrada definitiva do mangá no circuito das artes visuais da capital francesa. Especialista em arte japonesa, Bauer explica como buscou evidenciar a profunda ligação entre os mangás contemporâneos e a iconografia ancestral do Japão. “Eu sou historiadora da arte japonesa, então olho os mangás com essa referência e esse conhecimento da arte antiga do país. Isso era uma evidência, existe uma imensidão de relações entre o Japão antigo e os personagens do mangá que usam, por exemplo, máscaras de teatro antigas", exemplificou. "Há cenas que são tiradas diretamente de lendas japonesas. Foi umpouco isso que tentamos mostrar.” A exposição revela esse diálogo ao aproximar obras do acervo tradicional do museu — esculturas, máscaras, pinturas — das narrativas visuais dos mangakás modernos", destaca. Conexões estruturais dos mangás Para Bauer, essas conexões não são apenas estilísticas, mas estruturais para o trabalho de criação dos autores. “Os mangakás se inspiraram muito de sua tradição, de sua cultura visual, e foi isso que tentamos mostrar na exposição, criando uma espécie de diálogo entre as obras do museu, as obras de coleções patrimoniais e os mangás.” Em um dos núcleos mais comentados da mostra, uma escultura rara exemplifica essa relação direta com o imaginário pop. “Acho que o autor de Dragon Ball se inspirou de aspectos variados da tradição japonesa, mas uma das referências possíveis é o dragão que caça a Pérola da Sabedoria. Apresentamos, durante a exposição, uma escultura que faz referência a isso, e que, na verdade, foi um presente do antepenúltimo Shogun do Japão ao imperador Napoleão 3° em 1864.” Um olhar complementar sobre a mostra é o de Valentin Paquot, especialista em mangás e consultor do catálogo da exposição. Ele chama atenção para a dimensão industrial e econômica desse universo, frequentemente esquecida em debates artísticos. “Houve uma abordagem realmente industrial e não somente artística na criação dos mangás. É claro que se trata de um gênero artístico legítimo, mas, por trás dos mangás, existe também muito dinheiro... Apenas em 2024, esse mercado gerou 704 bilhões de yens somente no Japão, ou seja, um total equivalente a € 4 bilhões, é uma soma colossal. Nós adoraríamos dispor de um orçamento igual para os quadrinhos na França”, compara. Leia tambémDiva do mangá, japonesa é segunda mulher a vencer o Festival Internacional de HQ da França Paquot lembra que o boom editorial japonês, impulsionado pelo pós-guerra e pelo baby boom, foi decisivo para a consolidação de um mercado de larga escala. “É um segmento muito mercantilizado, com um volume enorme de revistas. Essa explosão começou na época do baby boom japonês, com mais de 80 revistas mensais na época. E, além disso, o mangá também foi muito usado como veículo de publicidade.” Paquot também destaca a presença marcante dos yōkai, seres sobrenaturais do folclore japonês que atravessam tanto mangás quanto animes. “Se nos voltarmos ao que chamamos de yokais, ou seja, aos monstros japoneses, que estão muito bem sublinhados nessa exposição, podemos ver o incrível bestiário presente nesse repertório japonês, e, na verdade, trata-se de uma gramática muito conhecida lá. Isso quer dizer que, se usamos um determinado personagem, sabemos com antecedência a mensagem que se quer passar...” Segundo ele, essa gramática visual não impede liberdade criativa — ao contrário. “E se o mangaká tiver vontade de brincar, ele pode criar o que chamamos de ‘gap', uma surpresa, ou seja, ele vai utilizar um monstro do qual é esperado um determinado comportamento, mas que vai fazer exatamente o oposto. Os mangakás adoram nos surpreender desse jeito...” Tradição e cultura pop em diálogo “Manga. Tout un art!” ocupa três andares do Museu Guimet e foi concebida para apresentar o mangá em paralelo às coleções asiáticas da instituição — de máscaras do teatro Nô, vestes de samurais e katanas a desenhos originais de Dragon Ball, One Piece, Naruto e Astro Boy. A curadoria apostou em uma montagem dinâmica que atrai o público jovem sem perder densidade histórica. Um dos pontos altos é a sala dedicada à Grande Onda, um clássico de Katsushika Hokusai (1830/1831), onde se discute como o “traço claro e estruturado” do mestre "antecipa códigos narrativos dos quadrinhos modernos" — e como essa iconografia segue influenciando autores e estilistas. A mostra também destaca o papel de Osamu Tezuka, cujas séries Astro Boy e A Princesa e o Cavaleiro ajudaram a revolucionar linguagem e formatos, abrindo caminho para gêneros como o shōjo (voltado originalmente para meninas) e para movimentos mais adultos como o gekiga. Como gesto de ponte com novas gerações, o cartaz da exposição foi encomendado ao mangaká francês Reno Lemaire (Dreamland), reforçando o diálogo entre tradição japonesa e produção contemporânea. De onde vem o mangá: raízes, encontros e viradas Embora o termo “mangá” tenha sido popularizado por Hokusai no século XIX e hoje seja associado às HQs japonesas, suas raízes remetem aos emaki (rolos narrativos) da era medieval e ao repertório do ukiyo‑e. A exposição em Paris parte exatamente dessa genealogia para ler o mangá como herdeiro de séculos de visualidade. O encontro com o Ocidente, no fim do século XIX, incorporou a tradição de caricatura e sátira dos jornais europeus, catalisando o nascimento do mangá moderno com autores como Kitazawa Rakuten. Já na primeira metade do século 20, o kamishibai — o “teatro de papel” de rua — refinou a narrativa seriada e a relação direta com o público, elementos que migram depois para as revistas e, mais tarde, para o anime televisivo. O kamishibai tem raízes nos emaki e em práticas de narração pictórica (etoki); sua “era de ouro”, nas décadas de 1930–50, antecede a popularização da TV — não à toa apelidada de “kamishibai elétrico”. Muitos artistas transitaram do kamishibai para o mangá e o anime, sedimentando técnicas e modos de contar histórias que hoje são marca do quadrinho japonês. Uma paixão brasileira? O Brasil tem uma relação de longa data com o mangá e o anime. Lobo Solitário chegou ao país em 1988, e a consolidação do formato “de trás para frente” se deu de forma massiva com Dragon Ball, no início dos anos 2000. A partir daí, editoras especializadas e selos de grandes grupos aceleraram a oferta e profissionalizaram a distribuição. O resultado aparece nas vendas: entre julho de 2023 e julho de 2024, 71% dos 100 quadrinhos mais vendidos em livrarias brasileiras foram mangás — com liderança da Panini, seguida pela JBC (adquirida pela Companhia das Letras em 2022), entre outros selos. Em outro recorte, os mangás concentraram 46,7% das vendas do mercado de quadrinhos no país, confirmando o apelo da cultura pop japonesa. Esse interesse transborda para eventos e streaming. A CCXP, maior festival de cultura pop do mundo em público, reuniu 287 mil pessoas em 2023; e a Crunchyroll anunciou, em 2024, que o Brasil já é seu segundo maior mercado de assinantes globais — impulsionando dublagens, estreias em cinema e ativações de grande porte. Mesmo num cenário em que o hábito de leitura geral encolheu — o país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores em quatro anos, segundo a pesquisa Retratos da Leitura 2024, organizada pelo Instituto Pró‑Livro (IPL) — o mangá mantém tração ao se apoiar em uma cadeia multimídia (animes, games, produtos licenciados) e em comunidades de fãs muito engajadas. Números, gêneros e linguagem do mangá Para além do rótulo “quadrinho japonês”, o mangá se organiza por segmentação etária e temática (shōnen, shōjo, seinen, josei etc.) e por gêneros que vão do épico de ação à introspecção psicológica, passando por romance escolar e ficção científica — uma diversidade que facilita identificação e renovação de leitores. A transposição para anime e o modelo em formato de série na publicação ajudam a sustentar fidelização e vendas recorrentes. No Brasil, essa dinâmica se reflete em listas de mais vendidos dominadas por franquias como One Piece, Demon Slayer e Jujutsu Kaisen, ao lado dos clássicos nacionais infantis — um arranjo que mostra coexistência de perfis geracionais e explica o espaço dos mangás nas prateleiras e nos eventos.
O Flamengo enfrenta o PSG nesta quarta-feira (17), em Al Rayyan, no Catar, na disputa pelo título da Copa Intercontinental 2025. Além da imensa torcida de mais de 45 milhões de rubro-negros no Brasil, o clube contará com um grupo de torcedores em Paris, casa da equipe adversária — incluindo um francês apaixonado pelo time carioca. Confiantes na vitória, eles esperam pintar a Torre Eiffel e o mundo de vermelho e preto. Renan Tolentino, da RFI em Paris “A gente vai com tudo, o Flamengo tem tudo para ser campeão. Não será surpresa se levarmos esse título e comemorarmos dentro de Paris. Vai ser a coisa mais linda”, projeta Cidel Cavalcante, um dos criadores da FlaParis. Consulado oficial de torcedores do Flamengo na França, a FlaParis é pé-quente. Foi fundada há seis anos, quando o clube carioca iniciou a atual era de conquistas históricas, que já soma 19 troféus. “Começou em 2019, naquele ano mágico, após o time viver um jejum de títulos expressivos. Nessa época, eu me mudei para Paris e fui buscar outros rubro-negros como eu aqui. Tive a sorte de achar um francês apaixonado pelo Flamengo, não só pelo Flamengo, mas pelo futebol brasileiro também. Daí em diante, a gente reúne os torcedores rubro-negros que estão aqui em Paris para ver os jogos”, conta Cidel. Naquela temporada de 2019, o time carioca venceu a Copa Libertadores da América e o Brasileirão. De lá para cá, acostumou-se a empilhar troféus. Em 2025, repetiu os mesmos feitos de seis anos atrás, conquistando seu nono campeonato nacional e sua quarta Libertadores, tornando-se o clube brasileiro com mais títulos na competição. Agora, o desafio é ser campeão mundial pela segunda vez na história — um feito que esta geração de torcedores sonha ver. Como o carioca Danilo Fernandes, que vive na França desde 2019 e é um dos diretores da FlaParis. “É a realização de um sonho e a gente, como torcedor, está podendo participar disso. Para nós aqui, vai ser uma sensação diferente, por estar morando em Paris e ver o Flamengo enfrentar o time da cidade. Vamos ver o que vai dar... Mas estamos bem esperançosos”, diz Danilo. Caminho para o bi mundial Para conquistar o bicampeonato mundial, o Rubro-Negro precisa superar o poderoso PSG, campeão da Liga dos Campeões neste ano e que conta com o francês Dembélé, vencedor da Bola de Ouro 2025. Para chegar à decisão do Intercontinental, o clube carioca passou por duas etapas: primeiro, superou o Cruz Azul, do México, no Dérbi das Américas; depois, venceu o Pyramids, do Egito, pela Copa Challenger, que no formato atual equivale à semifinal da competição. “Acho que o Flamengo vai para cima. É uma partida difícil, o jogo do ano. Vamos enfrentar um time ótimo, campeão da Champions League, que vem tendo um bom desempenho neste ano. Mas o Flamengo também trabalhou bastante para chegar até aqui. Então, a gente como torcedor acredita que dá para realizar esse sonho”, reflete Danilo. O confronto contra os franceses promete ser duríssimo. Apesar do histórico recente indicar certo desinteresse de clubes europeus pela competição, o jogo será no Catar, país dos proprietários do PSG — que não deve querer fazer feio diante dos donos. Os torcedores rubro-negros em Paris reconhecem o cenário difícil e as qualidades do adversário, mas isso não abala a confiança e o otimismo deles. “O time tem que manter a defesa alta, fazer aquela marcação-pressão e arriscar, entrar com garra, força de vontade e disposição para sair com a vitória”, analisa Danilo. Na final da Libertadores 2025, em 29 de novembro, a FlaParis mobilizou centenas de torcedores em um restaurante no norte da capital francesa. Na ocasião, os rubro-negros celebraram o Tetra do Flamengo na competição, com a vitória por 1 a 0 sobre o Palmeiras. “Foi uma loucura, mais de 600 rubro-negros reunidos para torcer na decisão da Libertadores. Foi uma festa fantástica, que vai se prolongar até a final dessa jornada no Mundial. Tem tudo para ser uma grande festa”, comenta Cidel. "Allez, Flamengô!" Entre esses rubro-negros está o francês Marcelin Chamoin, de 33 anos. Apaixonado pelo Flamengo e pelo futebol brasileiro, ele já transformou esse amor em um livro de crônicas sobre o clube carioca. “Minha primeira lembrança relacionada ao futebol é da Copa do Mundo de 1998, quando a França ganhou do Brasil na final. Mas, apesar de eu ser francês, no Brasil tinha o Ronaldo, então me apaixonei pela seleção brasileira. Depois, comecei a torcer pelo Flamengo, por conta da torcida imensa e do amor único que os flamenguistas têm pelo time. Meu primeiro ídolo nessa época foi o Obina. Depois, foi um sentimento que só cresceu”, recorda. Marcelin admite que tem uma admiração pelo PSG, mas confirma que seu clube de coração é mesmo o Rubro-Negro da Gávea. Ele garante que, na final, não vai ficar dividido. “Na França, eu torço pelo PSG, por morar aqui e também pela ligação que o clube sempre teve com jogadores brasileiros. Vibrei com a conquista da Champions, por exemplo… mas, na final desta quarta-feira, vou ser 100% Flamengo. Para mim, o Flamengo é diferente do PSG e da seleção brasileira. O Flamengo é mais importante”, garante Marcelin. Palpites e candidatos a heróis Com um misto de ansiedade e otimismo, os torcedores confiam na vitória do Flamengo e já projetam o placar e como vai ser a festa em plena Paris. “2 a 0, para o Flamengo, claro. Como o Arrascaeta tem 98 gols pelo Flamengo, seria lindo se ele marcasse dois contra o PSG e chegasse ao centésimo na final do mundial”, palpita o francês Marcelin. Já o brasileiro Danilo aposta em um “2 a 1, com gols de Arrascaeta e Brunho Henrique”. “Eu diria 2 a 1, mas sem sofrimento. Os gols podem ser de Arrascaeta e Brunho Henrique, mas se o Pedro tiver condições de jogo, arrisco um 3 a 1 com ele marcando também”, diz Cidel, otimista. E o candidato a herói é quase unânime: “Arrascaeta sempre”, resumem os rubro-negros. Flamengo e Paris Saint-Germain se enfrentam nesta quarta-feira, às 14h (horário de Brasília) no Estádio Ahmad Bin Ali, em Al Rayyan, no Catar. Se vencer, o PSG conquista o Intercontinental pela primeira vez em sua história. Já se o Rubro-negro for campeão, vai garantir seu segundo mundial e fará mais de 45 milhões de torcedores felizes. Inclusive em Paris.
Itens proibidos foram encontrados no evento Milipol 2025; legislação anti-tortura da UE foi recentemente ampliada; especialista da ONU apela a legislação vinculativa internacional.
A quarta rodada da fase de liga da Champions, disputada nesta terça (4) e quarta (5), foi marcada por confrontos de peso. O Bayern de Munique venceu o Paris Saint-Germain na França, enquanto o Liverpool levou a melhor sobre o Real Madrid em um clássico em Anfield. Já Juventus e Napoli sofrem com resultados ruins que podem complicar a vida dos dois.INSCREVA-SE NA NEWSLETTER! Toda sexta-feira aberta a todos inscritos com nossos textos sobre o que rolou na semana e às terças com conteúdo exclusivo apenas para assinantes: https://newsletter.meiocampo.net/SEJA MEMBRO! Seu apoio é fundamental para que o Meiocampo continue existindo e possa fazer mais. Seja membro aqui pelo Youtube! Se você ouve via podcast, clique no link na descrição para ser membro: https://www.youtube.com/channel/UCSKkF7ziXfmfjMxe9uhVyHw/joinConheça o canal do Bruno Bonsanti sobre Football Manager: https://www.youtube.com/@BonsaFMConheça o canal do Felipe Lobo sobre games: https://www.youtube.com/@Proxima_FaseConheça o canal do Leandro Iamin sobre a Seleção Brasileira: https://www.youtube.com/@SarriaBrasil
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Neste episódio, falamos sobre uma rodada intensa no futebol europeu, golaços, tropeços e crises pelo caminho. O Barcelona foi atropelado pelo ótimo Sevilla de Matías Almeyda, enquanto o Real Madrid venceu em meio a reclamações do Villarreal. O Atlético volta a tropeçar, e o Arsenal assume a liderança da Premier League com show de Estevão no Chelsea e pressão sobre Klopp no Liverpool. Haaland vive uma temporada absurda, Guardiola chega a 250 vitórias, e o clima esquenta no Nottingham Forest. Na Alemanha… bem, ainda não temos campeonato. Na Itália, Napoli, Roma e Inter aproveitam o empate morno entre Juventus e Milan. Em Paris, o PSG tropeça e o Lyon desperdiça a chance. Em Portugal, o clássico entre Porto e Roma marca a volta frustrante de Mourinho ao Dragão. Tem também o caos na Escócia, com Russell Martin fora do Rangers, o Klaksvík coroado primeiro campeão da temporada, o Philadelphia levando o Supporters' Shield na MLS, Cannavaro no Uzbequistão e o vexame do Brasil nas oitavas do Mundial Sub-20. Learn more about your ad choices. Visit podcastchoices.com/adchoices
Edu Oliveira e Thiago Theodoro comentam fofocas da internet, dos famosos e da audiência.No ar, toda segunda, quarta (apoiadores) e sexta.Seja um apoiador do podcast: https://orelo.cc/meconteumafofoca https://apoia.se/meconteumafofocapodcast Em caso de dúvidas, ou se precisar de ajuda do suporte, escreva para alo@orelo.ccConte sua fofoca pra gente: meconteumafofocapodcast@gmail.comEi, fofoqueira, conheça nossa lojinha: https://umapenca.com/meconteumafofoca/
A cearense Marcela começou a se interessar por tecnologia graças ao contato de filmes de ficção científica, promovido pelo pai. Incentivada pelos inventores que viu na telinha, ela acabou por se formar em engenharia mecatrônica, passando antes por um intercâmbio na França.Era o início de um processo de idas e vindas entre o Brasil e a França, em meio a um doutorado e um mestrado, até que ela acabou por se mudar definitivamente pra lá, onde vem trabalhando com robótica e aprendizado de máquina desde então.Neste episódio, ela detalha essas idas e vindas para a França, além da sua curiosa carreira que envolveu até mesmo a indústria bélica no país cuja língua e a cultura provaram-se irresistíveis.Fabrício Carraro, o seu viajante poliglotaMarcela Carvalho, Engenheira de Machine Learning PhD em Paris, FrançaLinks:ONERACaffeLuaPyTorchPhysics Based Camera Privacy: Lens and Network Co-Design to the RescueConheça a Formação Machine Learning na prática: fundamentos e aplicações da Alura, e aprenda os principais modelos, tipos de aprendizado de Machine Learning e as principais técnicas de classificação.TechGuide.sh, um mapeamento das principais tecnologias demandadas pelo mercado para diferentes carreiras, com nossas sugestões e opiniões.#7DaysOfCode: Coloque em prática os seus conhecimentos de programação em desafios diários e gratuitos. Acesse https://7daysofcode.io/Ouvintes do podcast Dev Sem Fronteiras têm 10% de desconto em todos os planos da Alura Língua. Basta ir a https://www.aluralingua.com.br/promocao/devsemfronteiras/e começar a aprender inglês e espanhol hoje mesmo! Produção e conteúdo:Alura Língua Cursos online de Idiomas – https://www.aluralingua.com.br/Alura Cursos online de Tecnologia – https://www.alura.com.br/Edição e sonorização: Rede Gigahertz de Podcasts
Era favorito, dominou e neste domingo venceu. Tadej Pogacar se tornou tetracampeão o Tour de France na edição mais rápida da história. Vamos reviver os melhores momentos e os pontos de destaque desta edição, coroada por uma emocionante etapa #21, com a vitória de ninguém menos do que o belga Wout Van Aert. As abelhas que vieram do Giro entregaram o que Jonas Vingegaard não conseguiu: vitórias!Tem também o início do Tour de France Femmes e todas as notícias da semana, com Leandro Bittar e Ana Lidia Borba.
Giovanna Casimiro é o tipo de profissional que enxerga o futuro antes de todo mundo, e arregaça as mangas pra construí-lo. Desde 2010 ela vem conectando moda, cultura e tecnologia. Foi Produtora Líder de Metaverso na Decentraland Foundation, onde idealizou a Metaverse Fashion Week, colocando marcas e criativos dentro de experiências imersivas que vão muito além da passarela. Hoje, a Gigi é professora no Institut Français de la Mode (IFM), em Paris, onde pesquisa e ensina sobre realidade estendida (XR), luxo e tecnologias imersivas. Doutora pela FAU-USP, ela mergulha em temas como memória digital, open source e o futuro do patrimônio cultural. Ao longo da carreira, liderou projetos para marcas como Adidas, Red Bull, Diesel, DKNY, Coach, JPMorgan e muitas outras, sempre com o olhar voltado para inovação, acessibilidade e impacto. Neste episódio, falamos sobre o papel da moda nos mundos digitais, os desafios de traduzir cultura no metaverso, e o que realmente importa quando pensamos em futuro.convidada: https://www.instagram.com/ggcasimiro/ Masterclass FASHION TECHs - https://www.modanamochila.com/masterclass-fashion-tech newsletter: https://modanamochila.substack.com/about Ig: https://www.instagram.com/modanamochila/
Está planejando uma viagem para Paris? Então este episódio é pra você! Vou te guiar com calma por tudo que você precisa saber na hora de pedir um café na França — da escolha do tipo até a famosa dúvida da gorjeta.Com dicas práticas e explicações culturais, você vai se sentir mais confiante para viver esse momento tão típico da vida francesa. Aperta o play e vem comigo descobrir como aproveitar ao máximo sua pausa no café sem cometer gafes!
Confira na edição do Jornal da Record desta sexta (6): Censo do IBGE revela que número de evangélicos triplica em 30 anos e já passa de 47 milhões de brasileiros. Em Paris, Lula reforça importância do acordo entre o Mercosul e a União Europeia. E ainda encontra disposição para interagir com artistas diante de Macron. Americanos se arriscam para registrar tornados à beira da estrada. Donald Trump diz que não pretende fazer as pazes com Elon Musk. Quase 80% dos brasileiros defendem que as plataformas sejam responsabilizadas pelas postagens. No futebol, confira os clubes da série a que aproveitam a pausa no Brasileirão para contratar reforços.
Narrativas analisa os acontecimentos do Brasil e do mundo sob diferentes perspectivas. Com apresentação de #MadeleineLacsko, o programa desmonta discursos, expõe fake news e discute os impactos das narrativas na sociedade. Abordando temas como geopolítica, comunicação e mídia, traz uma visão aprofundada e esclarecedora sobre o mundo atual. Ao vivo de segunda a sexta-feira às 17h. Apoie o jornalismo Vigilante: 10% de desconto para audiência do Narrativas https://bit.ly/narrativasoa Siga O Antagonista no X: https://x.com/o_antagonista Acompanhe O Antagonista no canal do WhatsApp. Boletins diários, conteúdos exclusivos em vídeo e muito mais. https://whatsapp.com/channel/0029Va2SurQHLHQbI5yJN344 Leia mais em www.oantagonista.com.br | www.crusoe.com.br